Você está na página 1de 18

EMINENTE JUÍZO DA 15ª VARA DO TRABALHO DE GOIÂNIA – GO

UBER DO BRASIL TECNOLOGIA LTDA., pessoa jurídica de


direito privado, inscrita no CNPJ sob nº. 17.895.646/000187, com
sede em Goiânia/GO à Avenida 136, n. 638, Edifício Investt Imóveis –
1º Andar – St. Marista, CEP 74180-040, nos autos da Ação
Reclamatória Trabalhista C/C Indenização Por Danos Morais de nº
0011333-82.2018.5.18.0161, proposta em seu desfavor por
DANDARA CÉLIA CASTRO e ELIANA FERREIRA CASTRO,
comparece à presença deste juízo, por meio do advogado devidamente
constituído (com procuração em anexo), com endereço à Rua 1001,
Qd. 01, Lt. 01, Setor Marista, Goiânia, Goiás, onde receberão as
notificações processuais; a fim de oferecer a DEFESA, com
fundamento no art. 847 da CLT e o faz pelos motivos de fato e de
direito a seguir expostos.

1. DO ÔNUS DA PROVA

No item II da Reclamação, as autoras pugnam pela inversão do ônus da prova, com


fulcro no artigo 818, §1º da CLT, in verbis: “Destarte, a Reclamante, com o intuito de
provar o alegado, desde já requer a inversão do ônus da prova, nivelada nos princípios
da proteção ao trabalhador bem como da aptidão da prova, que significa que o ônus
probandi é de quem tem condições de cumpri-lo, que no caso em comento, é o
Reclamado, através dos meios que se mostrarem necessários.”
Conforme o artigo 818, incisos I e II da CLT, cabe ao autor provar os fatos
constitutivos de seu direito, ao passo que incumbe ao reclamado provar os fatos
impeditivos, modificativos ou extintivos do direito do reclamante, a CLT adota, neste
ponto, a mesma regra básica acerca do ônus da prova consagrada pelo sistema
processual civil comum.
O §1º do artigo 818 da CLT dispõe, in verbis:

§ 1o Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa


relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o
encargo nos termos deste artigo ou à maior facilidade de obtenção da prova
do fato contrário, poderá o juízo atribuir o ônus da prova de modo diverso,
desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a
oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído.

O texto de lei é claro quanto à existência de situações específicas que possibilitam


ao julgador inverter o ônus da prova, quais sejam (i) previsão legal, (ii) peculiaridades
da causa, (iii) excessiva dificuldade de cumprir o encargo ou (iv) maior facilidade de
obtenção da prova do fato contrário.
No caso em tela, a reclamação ajuizada se limitou a fazer um pedido genérico de
inversão do ônus da prova, sem demonstrar, todavia, a existência de qualquer dos
requisitos do §1º do artigo 818 que autorizariam o deferimento da medida, se limitando,
conforme acima transcrito, tão somente a invocar os princípios da proteção do
trabalhador e da aptidão da prova, sem explicitar em qual das hipóteses autorizadoras o
pedido de inversão estaria embasado, nesse sentido, por ter caráter genérico, desprovido
de fundamentação específica e ante a ausência de comprovação de possibilidade ou
necessidade da concessão da inversão, deve ser indeferido o pedido de inversão do ônus
da prova, sendo este distribuído conforme o inciso I do artigo 818 da CLT,
determinando aos reclamantes que tragam aos autos os elementos constitutivos de seu
direito.

2. BREVE RESUMO DOS FATOS

A ação foi proposta por Dandara e Eliana, viúva e filha, respectivamente, do de


cujus Fagner Fernando Ferreira, que trabalhou de motorista no aplicativo da UBER de
10/05/2017 a 08/03/2018, data em que o mesmo faleceu em razão de um assalto no
momento em que buscava clientes do aplicativo.

As reclamantes alegam que o de cujus era principal e único provedor de renda e


sustento da família e, portanto, que são dependestes do mesmo.

Alegando vínculo empregatício existente na relação de Fagner com e empresa


reclamada, pugnam pela comprovação do vínculo, bem como por: pensão vitalícia no
valor da maior remuneração recebida pelo de cujus para a esposa, desde a data do
falecimento de Fagner até a data em que completaria 78 anos de idade e pensão no valor
da maior remuneração mensal para a filha até os 25 anos de idade.
Pugnam ainda por recebimento de pensão até a data em que o falecido
completaria 78 anos de idade, caso o primeiro pedido seja negado, por danos morais e
pelo recebimento de horas extras referente ao trabalhado pelo de cujus.

Tais pedidos não merecem deferimento, como será analisado a seguir.

3. DA CONFIGURAÇÃO DO VÍNCULO EMPREGATÍCIO E DO


CONTRATO DE TRABALHO

Conforme exposto brevemente nos fatos, as reclamantes afirmam que o Sr.


Fagner Fernando Ferreira prestou serviços na função de motorista para a Uber do Brasil,
entre o dia 10 de maio de 2017 e o dia 08 de março de 2018, pugnando pelo
reconhecimento do vínculo empregatício.

Em relação ao vínculo empregatício, é possível inferir dos artigos 2º e 3º


da Consolidação das Leis do Trabalho que os pressupostos para a caracterização da
relação de emprego são: a pessoalidade, a subordinação, a onerosidade e a não
eventualidade na prestação dos serviços. Sendo necessária a cumulação de todos os
requisitos para que fique caracterizada a relação de emprego.

Ocorre que apesar do que é afirmado pela reclamante, os requisitos para a


caracterização da relação de emprego não se configuram, visto que no caso
concreto não há a ocorrência de subordinação, tampouco onerosidade.

Inicialmente, quanto à onerosidade, é preciso ressaltar que a reclamada


apenas cobra uma taxa fixa dos motoristas pela utilização da plataforma. O pagamento
ao motorista é feito pelo usuário consumidor, sendo a empresa apenas intermediadora
do pagamento, repassando ao usuário motorista o valor após o desconto de sua taxa de
utilização. Dessa forma, é o motorista que remunera a Uber do Brasil pela utilização do
aplicativo e não o contrário.

Quanto à subordinação jurídica, essa pode ser definida como "a situação
jurídica derivada do contrato de trabalho, pela qual o empregado compromete-se a
acolher o poder de direção empresarial no modo de realização de sua prestação de
serviços" (DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 14. ed. São
Paulo: LTr, 2015, p. 311). Assim, a subordinação jurídica consiste no dever que o
empregado tem de acatar ordens dadas pelo empregador no que diz respeito a forma
como o serviço deve ser prestado.

Assim, no caso em tela, não é possível identificar a subordinação jurídica


existente entre o de cujus e a reclamada. Isso pois, a subordinação jurídica não pode se
confundir com a mera existência de obrigações contratuais entre as partes, o que ocorre
na totalidade dos tipos contratuais, sendo necessário que o modo da prestação do serviço
deve ser dirigido pela outra parte. Na realidade, a reclamada fixa no contrato firmado
para a utilização da plataforma requisitos mínimos para o motorista, como adequação a
seleção de carros, o cumprimento das exigências legais junto ao Detran e a necessidade
de se manter seguro, assim como, também, se sujeita a obrigações.

Para que exista ingerências significativas no modo da prestação de


serviços, portanto, o empregador deve ordenar ou dirigir determinações na
execução do serviço, o que não ocorreu.

Em primeiro lugar, o que existem são recomendações de conduta, ou seja,


a empresa apresenta sugestões de comportamentos para que o motorista mantenha um
bom relacionamento com o usuário consumidor, de forma a manter uma boa pontuação
e permanecer ativo na plataforma.

Em segundo lugar, os motoristas, assim como o de cujus, possuem ampla


liberdade com relação a horários de utilização do aplicativo. O aplicativo pode ser
utilizado a todo momento, assim como pode ser utilizado uma vez por semana, a critério
do motorista e do horário que desejar realizar. O motorista não precisa, inclusive, avisar
a reclamada o momento que ligará ou desligará o aplicativo. Dessa forma, a
quantidade de trabalho a ser efetuada depende exclusivamente da vontade de
quem contrata os serviços da plataforma, situação em que em nenhuma relação de
emprego é possível de ser verificada. Ademais, o motorista parceiro pode recusar-se
a atender chamadas feitas pelos usuários do aplicativo. Em uma relação de emprego,
em que a subordinação jurídica ocorre, a recusa a realização de um serviço, até mesmo
sem qualquer justificativa, não parece sequer plausível.

Em terceiro lugar, os itinerários das corridas, também, não são


determinados pela reclamada. O itinerário da viagem é solicitado pelo cliente ou os
sugeridos pelo aplicativo Waze ou pelo GPS, caso essa seja a escolha do usuário, tal
itinerário não é controlado pela Uber.
Cumpre ressaltar que para que uma empresa seja considerada
empregador é necessário que ela assuma os riscos da atividade econômica, conforme o
artigo 2º da CLT. Entretanto, ao adentrarmos a realidade social das plataformas, é
perceptível a assunção dos custos e dos riscos pelo próprio autor da atividade que
desenvolve como motorista, porque é o próprio motorista que assume com os riscos
de seu automóvel (condições, seguro, documentos) e, também, compartilha os riscos
da atividade com a empresa, quanto a avaliação dos usuários do sistema, não tendo
a empresa nenhuma ingerência sobre as notas dadas e recebidas.

Quanto à subordinação estrutural, essa pode ser definida como a inserção


do trabalhador na dinâmica de funcionamento do empregador, ou seja, o empregado fica
inserido na atividade principal do empregador. Contudo, o contrato firmado entre a Uber
e os motoristas parceiros não são contratos de prestação de serviços de transportes, mas
sim contratos de prestação de serviços consistente em, por meio de uma plataforma
digital, incrementar a capacidade de eles angariarem passageiros. Assim, a reclamada
não presta serviços de transporte, não funciona como transportadoras, nem opera como
agente para o transporte de passageiros, mas sim, simplesmente, oferta o serviço da
plataforma, que maximiza a capacidade do motorista em encontrar passageiros,
também, usuários da plataforma digital.

Assim, resta demonstrado a inexistência do vínculo empregatício entre o de


cujus e a empresa reclamada, Uber do Brasil.

4. DO ACIDENTE DE TRABALHO

Embora a reclamante trouxesse alegações acerca da responsabilidade decorrente


da prática de atos ilícitos (arts. 186 e 927 do Código civil), temos que a empresa Uber
do Brasil não incorreu na prática de nenhuma conduta que gerasse o acontecimento e/ou
fora omissa quanto aos cuidados a ela inerente.

Tem-se que em uma relação de emprego ao empregador é incumbido zelar pela


segurança de seus empregados, mediante o cumprimento das obrigações previstas nas
normas de segurança e medicina do trabalho, sob pena de arcar com indenização
decorrente de sua omissão. Não menos certo, também, é o fato de que em se tratando do
dever de indenizar, por ato decorrente de responsabilidade subjetiva, é necessário restar
caracterizada a presença dos seguintes elementos, a saber: a culpa lato sensu, o dano e
o nexo de causalidade entre ambos.

Assim, ainda que existisse uma relação de emprego entre a empresa Uber do
Brasil e o de cujus FARGER, situação que restou rechaçada com os argumentos tolhidos
acima, não restou comprovado, in casu, qualquer elemento de prova que impute a
empresa Uber do Brasil culpa pelo evento fatal ocorrido.

Como mencionado outrora, o condutor que utiliza da plataforma para realizar a


atividade de motorista assume os riscos inerentes à atividade. Houve, então, um ajuste
legítimo de vontades, com soma mútua de esforços e distribuição dos lucros
provenientes do negócio, não sendo possível reconhecer a relação de emprego. Cumpre
ressaltar, ainda, que o fato de não existir uma relação de emprego entre a empresa Uber
do Brasil e o de cujus FARGER, exime a empresa de qualquer ônus decorrente da
atividade desenvolvida por FARGER.

Por fim, conforme transcrito na exordial, “após o acidente de trabalho, as


Requerentes se viram, repentinamente, à situação pesarosa, sem possuir mais nenhuma
fonte de sustento. Todavia, a par de todo este sofrimento suportado pelas Requerentes,
a Reclamada, possuidora de facilidades financeiras captadas pelo resultado do
trabalho realizado por seus contratados, nada fez para minimizar a situação de penúria
que enfrentam as Requerentes. Sendo que, a moral e o direito determinam que deveria
ter sido outro o comportamento da empresa frente ao acidente suportado por seu
contratado e as dependentes dele". Embora tenha ocorrido a fatalidade com o Sr.
FARGER, a reclamada não possuía nenhuma vinculação contratual trabalhista com o
mesmo e, consequentemente, nenhuma obrigação ou encargo legal para com o Sr.
FARGER ou sua família.

Diante dos fatos, resta claro que a empresa Uber do Brasil não possuía e não
possui vinculação com o Sr. FARGER ou com qualquer outro potencial cidadão que
utiliza ou venha utilizar de sua plataforma digital.

5. DA VULNERABILIDADE
A argumentação da parte autora se estrutura da seguinte forma: 1. O de cujus se
encontrava em dificuldade financeira; 2. O de cujus ingressou na Uber para sair desta
situação dificultosa; 3. O de cujus se submeteu à situação de perigo durante o exercício
de suas atividades laborais; 4. Tal situação de perigo culminou em sua morte por
latrocínio; 5. A Uber utiliza-se de sanções para garantir o cumprimento de suas normas;
6. Os motoristas não podem recusar certo número de corridas, sob pena de serem
punidos com suspensão temporária ou desligamento permanente da Uber; 7. Mesmo
quando o motorista informa que cancelou a viagem pelo passageiro se encontrar em
“área de risco”, a penalidade é aplicada. Conclusão 1: O de cujus não pôde recusar a
chamada; Conclusão 2: O de cujus não recusou a corrida por temer a sanção aplicada na
hipótese da recusa; Conclusão 3: Existe vulnerabilidade dos motoristas perante a Uber.
Conclusão 4: Há responsabilidade objetiva civil da Uber.

Como este juízo pode observar pela estruturação da argumentação deste capítulo
da Petição Inicial, não há conexão lógica entre os elementos, caracterizando inépcia
deste tópico. Desta forma, este capítulo, caso entre juízo concorde com a
pormenorização feita abaixo, deverá ser totalmente desconsiderado.

Primeiramente, as premissas 1 e 2 não podem ser comprovadas por nenhum


meio disponível à Reclamada, haja vista que é impossível que esta acesse os desejos e
razões do de cujus, por tê-los levado ao túmulo, ou depender de documentos pessoais do
mesmo ou de sua família, cujo acesso pela Reclamada sem autorização caracterizaria
crime e ilícito civil. A premissa 3 estabelece que o de cujus “se submeteu” e não “foi
submetido pela empresa” à situação de risco. Neste caso, o próprio Reclamante
reconhece que a Uber não coagiu o de cujus a expor-se ao que ele se expôs.

Continuando, a Conclusão 1 não decorre logicamente das premissas 3, 4, 5 e 6


pois a impossibilidade de recusa depende de uma grande variedade de fatores. As
premissas citadas não apresentam nenhum elemento de coação, moral ou física, não
indicam fechamento das possibilidades de escolha e nem algo semelhante. O que
poderia ser afirmado, na mais gravosa das hipóteses, seria que o de cujus possuía uma
inclinação derivada das razões práticas fornecidas pela Uber para que aceitasse a
corrida, nada mais. A conclusão 2 também não deriva das premissas pois é impossível
acessar os desejos e razões do de cujus, este os levou para o túmulo e à nós serão
eternamente inacessíveis. O máximo que pode ser aceito é que as sanções da Uber
figuraram como uma das diversas razões práticas que o de cujus considerou para agir. A
Conclusão 3 não possui nenhuma conexão com nenhuma das demais premissas, a
Requerente simplesmente afirmou haver vulnerabilidade, sem apresentar lastro
argumentativo para sua pretensão. Como a Conclusão 4 depende da aceitação da
Conclusão 3, também deve ser desconsiderada.

Ocorre que a simples menção de institutos jurídicos sem apresentar sustentáculo


argumentativo que indique as razões de, no caso concreto, haver incidência do referido
instituto, não pode ser acolhido. Portanto, a argumentação da Requerente se mostrou
totalmente tautológica e incoerente, não podendo ser acolhida por este juízo por inépcia.

6. DA RESPONSABILIDADE OBJETIVA

Diante a inconsistente sustentação da reclamante, verifica-se que a ora


reclamada, não incorreu nos citados elementos necessários para caracterização de
responsabilidade objetiva.
Nitidamente verifica-se, que a reclamada não possui nexo causal com a
fatalidade que ocorreu com o motorista, vez que o empregado não possuía vínculo
contratual com a reclamada, vez que um contrato laboral para se caracterizar
necessariamente tem que preencher requisitos mínimos e, dentre eles, possui a
habitualidade e subordinação, os quais não foram suportados pelo reclamante.
Vez que o requisito de habitualidade é superado e comprovado a partir do
relatório de viagem juntado com a defesa, com prestação de serviços aleatórias, ainda, o
requisito de subordinação, é frustrado com a inexistência de superior hierárquico direto,
ou seja, o motorista não tinha a quem obedecer, visto que o único contato que tinha com
a reclamada fora mantido por meio de plataforma digital, a qual não é suficiente para
consolidar a subordinação.
Assim, considerado a inexistência de vínculo empregatício, temos que entender
pela ausência de responsabilidade objetiva.
Ainda temos a tentativa infundada da aplicação da teoria do risco criado ao caso,
que é a responsabilização caracterizada em indenização por danos morais independente
de culpa, considerando apenas atividade de risco prestada.
Contudo, vale esclarecer, que em todas profissões existe risco inerente, assim, o
empregado deve prezar por estratégias que o proteja, autoproteção é instinto humano,
portanto, andar com alta quantia em espécie é opção do motorista, visto que é possível
no intervalo das viagens e conforme acumule alta quantia realizasse depósito de parte
do dinheiro.
Ainda, na tentativa incoerente da sustentação da teoria do risco criado, a
argumentação baseada na obrigação de ter que levar clientes em áreas de alto risco, não
merece ser utilizada como argumento para sustentar a situação de risco que o
reclamante foi exposto, pois, a fatalidade que ocorreu com o reclamante ocorreu em
região considerada nobre, área central, portanto, não prospera a linha de raciocínio.
Assim, considerando a inexistência de vínculo empregatício do reclamante e
considerando os argumentos incoerentes quanto ao uso da teoria do risco criado, resta
demonstrado que a fatalidade ocorrida com o reclamante não possui embasamento
factual e legal capaz de sustentar a responsabilização objetiva.

7. DA RESPONSABILIDADE SUBJETIVA

Quanto à responsabilidade subjetiva, extrai-se da exordial que a argumentação


promovida pela reclamante sustenta-se em dois pontos, independentes entre si: da
ausência de recolhimento de seguro contra acidentes de trabalho e da não adoção de
medidas aptas a garantir um ambiente de trabalho seguro.
No tangente a ambos os pontos, importa apontar que, consoante o exposto no tópico
III, inexiste vínculo empregatício entre o de cujus e a reclamada, razão pela qual não
havia motivo para o recolhimento pela reclamada de seguro contra acidentes de
trabalho, exigido pelo art. 7º, XVIII, CF, ou razão para a exigência de adoção de
medidas aptas a garantir um ambiente de trabalho seguro (art. 157, I, II, CLT), fatos que,
por si, fazem cair por terra o pedido formulado na inicial.
Contudo, à guisa de argumentação, ainda que acolhido o infundado pedido de
reconhecimento de vínculo empregatício entre o de cujus e a reclamada, permanece sem
lastro o pleito de responsabilização da reclamada pelo evento danoso.
É cediço na jurisprudência do TST (postura exemplificada no E-RR – 46600-
35.2007.5.01.0017, Rel. Ministro Alexandre de Souza Agra Belmonte, 3ª Turma, DEJT
28/10/2016) que o artigo 7º, XVIII, CF, leva à conclusão de que a modalidade da
responsabilização do empregador por acidentes de trabalho é a subjetiva (salvo quando
a atividade possui risco inerente a si, hipótese já afastada no tópico anterior),
dependente da comprovação de culpa, conforme dispõe o Código Civil.
No caso concreto, alega-se ter a reclamada faltado com seu dever de adotar medidas
aptas a garantir um local de trabalho seguro, assumindo para si o risco das ocorrências
de sua negligência ou omissão.
Contudo, no momento do evento danoso o motorista possuía, à sua disposição, uma
série de medidas de segurança formuladas pela reclamada. A plataforma do aplicativo,
responsável por conectar motoristas e passageiros, monitora constantemente a
localização do motorista e do passageiro, exigindo cadastro prévio para seu uso, realiza
checagem de identidade de passageiros, se vale de sistema de avaliações dos usuários,
oportunizando a exclusão dos que fazem mal uso do serviço, possui ferramentas de
integração de dados com as autoridades policiais, por meio do botão “Ligar para a
polícia”, possui tecnologia de prevenção de riscos, que analisa, em tempo real, dados da
corrida a ser realizada, chegando ao extremo de, se detectada falta de segurança,
bloquear a viagem, protegendo os motoristas que se valem do serviço e, ainda, fornece
constantemente suporte de emergência, que conta com uma equipe especializada
disponível 24 horas por dia (maiores informações no site https://www.uber.com/info
/seguranca5estrelas/).
Ou seja, é claro que a reclamada adotou todas as providências possíveis para
preservar a segurança do de cujus, levando em consideração a natureza do trabalho de
transporte individual de pessoas por ele realizado, não havendo em que se falar em
negligência ou imprudência por parte da reclamada.
Tal motivo, por si, basta para a descaracterização da responsabilidade. Contudo,
mais um elemento merece consideração. O evento danoso adveio exclusivamente de
fato de terceiro. O agente, executor do latrocínio, agiu em desígnio próprio, a despeito
de todas as precauções tomadas no sentido de evitar a ocorrência de eventos afins, já
listadas acima. Desta maneira, falta nexo de causalidade entre o dano causado e a
conduta da reclamada, requisito essencial para a existência de responsabilidade (aqui,
toma-se por base o julgado do Tribunal Superior do Trabalho RR 184200-
36.2007.5.08.0201, Rel. Juiz Conv. Douglas Alencar Rodrigues – 3ªTurma, DEJT
14.08.2009).
Destarte, considerando o acima exposto, também não merece prosperar o pedido de
condenação da reclamada ao pagamento de indenização pelos danos sofridos fundado
na responsabilidade subjetiva, pois ausente suporte fático-jurídico para tanto.

8. DO DEVER DE REPARAR OS DANOS


A reclamante concluiu ser dever da reclamada reparar os danos sofridos, uma vez
que teria cometido ato ilícito ao não cumprir com sua “responsabilidade de manter a
integridade física de seus empregados e o dever de agir na prevenção de acidentes".
Todavia, como antes exposto, tal responsabilidade inexiste em sua relação com a
reclamante, seja objetiva ou subjetiva, de forma que não resta fundamentos para que os
danos decorridos do acidente sejam por ela suportados.

9. DA PENSÃO VITALÍCIA

É o pagamento de pensão vitalícia, pela Reclamada, a primeira e segunda


Reclamantes de tal forma que cada uma receberia o valor mensal equivalente à maior
remuneração percebida pelo empregado.
Primeiramente, reiteram-se os argumentos já expostos nesta Contestação no sentido
de que não há que se falar em reconhecimento do vínculo empregatício, de tal forma
que é impossível qualquer condenação da Reclamada ao pagamento de pensão vitalícia
mensal.
Essencial observar ainda que se tratou de ato violento praticado por terceiros, pelo
qual a empresa não teve qualquer controle ou atuou de modo negligente de forma a
atrair para si a responsabilidade pela morte do obreiro. Verifica-se que o motorista
possuía total controle sobre as corridas que efetuava e ele mesmo escolhia quais os
clientes buscar, de tal forma que não houve qualquer diretriz direta da Reclamada para
que efetuasse aquela corrida específica.
Assim, inexistindo ordem da Reclamada para que o de cujus realizasse aquela
atividade específica, não há que se falar em imprudência, negligência ou imperícia que
culminasse em dano, no caso o falecimento, de tal forma que não constatou-se o nexo
de causalidade necessário à configuração da responsabilidade civil nos termos dos
artigos 186, 187 e 927 do Código Civil.
Ademais, mesmo que haja o referido reconhecimento do vínculo, o que se admite
apenas em observância ao Princípio da Eventualidade, essencial observar que as
reclamantes não se desincumbiram de seu ônus probatório no que tange à comprovação
da dependência financeira das autoras ao de cujus, são feitas meras ilações de que o
Reclamante era o responsável pela manutenção da renda familiar, sem qualquer
observância ao disposto nos artigos 818, I, da CLT e 373, I, do CPC.
Além disso, cumpre esclarecer que a primeira reclamante possui aptidão para
trabalhar, não fazendo jus a qualquer pagamento de pensão.
Requer, portanto, seja julgado totalmente improcedente o pleito autoral.
Outrossim, requerem as autoras a condenação ao pagamento de valor mensal à
primeira reclamante e outro valor à segunda, o que, de forma alguma, prospera, afinal a
remuneração do falecido obviamente não era toda direcionada à mulher e filha, também
era gasta para a manutenção da própria qualidade de vida do próprio pai/cônjuge, bem
como seus proventos mensais eram dispersos entre todo o núcleo familiar, não havendo
que se falar em uma remuneração para a mãe e outra para a filha, mas sim, caso haja a
condenação, apenas que se considerar um valor proporcional, logicamente de dois
terços da remuneração a mãe e à filha.
Importante também observar que deve a condenação levar em conta que a
remuneração do de cujus variava de acordo com a quantidade de labor, tarifa dinâmica,
distância percorrida e outras diversas variáveis, de tal forma que não se pode falar em
simples pagamento do valor da maior remuneração, mas sim aferição de média
remuneratória com base nos últimos 12 meses de labor, valor esse que deverá ser
multiplicado por 2/3, em caso de condenação, para que se chegue ao valor realmente
devido.
Ainda, observa-se que a cota-parte da pensão vitalícia da filha deverá se restringir
até que ela complete a maioridade civil, idade em que cessa à obrigação do ascendente
de prover alimentos.
Quanto à mãe, caso o magistrado entenda como devida a pensão, esta deve ser
devida apenas por alguns anos, a ser determinado por esse juízo, até a reinserção da
reclamante ao mercado de trabalho, ou deve a obrigação cessar aos 75 anos, que
representa a média de vida de uma mulher no Brasil atualmente.

10. DAS HORAS EXTRAS

Maurício Godinho Delgado (2017, p. 1.041) conceitua jornada extraordinária como:

o lapso temporal de trabalho ou disponibilidade do empregado perante o


empregador que ultrapasse a jornada padrão, fixada em regra jurídica ou
por cláusula contratual. É a jornada cumprida em extrapolação à jornada
padrão aplicável à relação empregatícia concreta.
A noção de jornada extraordinária não se estabelece em função da
remuneração suplementar à do trabalho normal (isto é, pelo pagamento do
adicional de horas extras). Estabelece-se em face da ultrapassagem da
fronteira normal da jornada.

Da conceituação supra, infere-se ser necessário haver uma jornada de trabalho


padrão capaz de servir de parâmetro à uma possível configuração de hora extra, isto é,
caracteriza-se hora extra de trabalho a hora trabalhada a mais pelo empregado em
relação à jornada que lhe é comum, cotidiana. O conceito ainda determina que referida
jornada padrão encontra-se estabelecida em cláusula contratual ou por regra jurídica.

Inicialmente, insta salientar, conforme descrito no primeiro parágrafo, bem


como no item 3 do Adendo anexado à petição inicial desta ação, que os únicos
requisitos estabelecidos pela empresa UBER para que uma pessoa física OU
JURÍDICA, possam exercer serviços de motorista utilizando da plataforma digital, são:

possuir e manter (i) uma carteira de motorista válida com o nível


adequado de certificação para operar o Veículo designado para tal
Motorista, e (ii) todas as licenças, permissões, aprovações e
autorizações aplicáveis ao(à) Cliente e/ou Motorista requeridas para
a prestação dos Serviços de Transporte de passageiros a terceiros(as)
no Território; (b) possuir um nível de formação, treinamento e
conhecimento apropriado e atualizado para prestar Serviços de
Transporte de forma profissional com a devida competência, zelo e
diligência; e (c) manter padrões elevados de profissionalismo, serviço
e cortesia.

Desde já verifica-se que a relação em comento não se trata de relação de


emprego excluindo-se o seu primeiro elemento determinado pelo art. 3° da CLT, qual
seja, a condição de que o serviço seja prestado por pessoa física, uma vez que pode ser
prestada por pessoa jurídica, excluindo-se por conseguinte o elemento da pessoalidade
também.
Ademais, os requisitos expostos acima, bem como as demais cláusulas dos
contratos anexados não condicionam ou exigem do motorista signatário, o cumprimento
de nenhuma carga horária, mesmo que mínima, de modo que impossível se torna a
configuração de eventuais horas extras, ressaltando que em momento algum os
documentos jungidos a título de contrato, fazem disposições referentes à jornadas
extraordinárias, muito pelo contrário, estabelece o Adendo, em seu item 2.3, bem como
o documento de Termos e Condições Gerais dos Serviços de Intermediação Digital em
seu item 4, que a reclamada não administra nem controla o motorista signatário de
qualquer modo, cabendo à ele, portanto, estabelecer quando, onde e por quantas horas
utilizar da plataforma digital do UBER, inclusive, podendo prestar serviços a terceiros,
de motorista ou não.
Justamente por tais características do serviço prestado pela UBER em parceria
com os motoristas ( ambos desenvolvendo atividade empreendedora, segundo o item
13.1 do segundo documento de Termos e Condições Gerais dos Serviços de
Intermediação Digital), que tornou-se promissor, principalmente nos dias atuais de crise
política e econômica nacional, cadastrar-se como motorista na plataforma digital da
reclamada, podendo o motorista perceber dinheiro para complementar sua renda,
atuando em horários que lhe forem convenientes.
No entanto, o aplicativo também não impede que o motorista cadastrado use da
plataforma cotidianamente, 44 horas semanais ou 8 horas diárias ou mais, em
consonância ou não ao art. 58, caput da CLT, cabendo exclusivamente ao motorista esta
opção, como alegam as reclamantes ter assim optado o de cujus, o que também não
significa, pela possível não eventualidade e carga horária cumprida, que existia entre o
último e a reclamada uma relação de emprego, uma vez que esta resta descaracterizada,
conforme os motivos expostos nos itens anteriores.
Ressalte-se novamente que o argumento de que o de cujus utilizava da
plataforma UBER por mais de oito horas diárias como jornada diária de trabalho não
caracteriza nem mesmo o elemento da subordinação necessário à relação de emprego,
pois assim o fazia por opção própria, desincumbido de qualquer obrigação de carga
horário para com a reclamada, já que esta não exigia qualquer carga horária mínima ou
fazia qualquer controle de horas de utilização do aplicativo.
Portanto, a carga horária pela qual utilizou-se do aplicativo da reclamada, esteja
ela dentro do que estabelece o art.58 da CLT ou não, não interessa, já que inexistente
relação de emprego, tanto é que a própria Lei do Uber (Lei 13.640/18), como bem
alegam as reclamantes, não dispõe sobre o regime trabalhista desse serviço, exatamente
porque não existe.
Alegam ainda as reclamantes, não ser válido o argumento de que o motorista
escolhia o quanto queria trabalhar, sendo de sua incumbência as horas a mais, atacando
que a reclamada é que lucrava com as horas a mais trabalhadas pelo motorista. Essa tese
defendida pelas reclamantes é descabida, pois, como pode-se observar do item 4 do
Segundo Adendo anexado, a reclamada estabelece apenas uma forma de arrecadação,
cujas variáveis do valor nada têm a ver com a quantidade de horas de uso do aplicativo
pelo motorista, a ser aplicada em qualquer situação. Não podem, assim, as reclamantes
pleitearem receber remuneração de horas extras apontadas em anexo, pois estas não
restam configuradas, sendo inexistentes e, assim, indevidas.

11. DO NÃO CABIMENTO DE DANOS MORAIS

As reclamantes requerem que lhes sejam pagas o montante de R$ 400.000,00


(quatrocentos mil reais) como indenização. Entretanto, de acordo com a jurisprudência
majoritária resta comprovado que, para ensejar dano moral, é imprescindível a
comprovação do nexo causal entre o ato ilícito do Reclamado em desfavor do
Reclamante, nesse sentido temos:

DANO MORAL. Para averiguação do dano moral, é preciso


observar que deve estar fundamentado na firme comprovação de danos aos
direitos relacionados à intimidade, à vida privada, a honra e a imagem da
obreira, ser irrefutável a relação de causalidade entre o eventus damni e
a conduta do empregador, que agiu de maneira intencional, ou que,
agindo com negligência ou imprudência, deu causa ao dano suportado
pelo empregado. Assim, descabido o dano moral ante a insuficiência de
comprovação de sua ocorrência, qual seja demonstrar devidamente o nexo
causal e o dano efetivamente sofrido. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.
Não satisfeitos os requisitos das Súmulas 219 e 329 do TST, é incabível a
condenação em honorários advocatícios. Recurso conhecido e parcialmente
provido. (TRT-16 714200900716001 MA 00714-2009-007-16-00-1,
Relator: JAMES MAGNO ARAÚJO FARIAS, Data de Julgamento:
18/05/2010, Data de Publicação: 31/05/2010)

Para que haja o dever de reparar danos morais deve estar presente a conduta
culposa do agente pela prática do ato ilícito. Isto posto, nos itens 6 e 7 desta contestação
temos a descaracterização das Responsabilidades Objetivas e Subjetivas da Reclamada.

Dessa maneira, ressalto que, no caso concreto, inexiste qualquer ato culposo da
Reclamada tendo em conta que, esta não possui nenhum controle acerca da ação de
terceiros, assim como não agiu em nenhum momento de forma negligente para que, de
alguma forma, atraísse para si a responsabilidade sobre o latrocínio.
Assim resta que a indenização pretendida não é devida.

12. DOS HONORÁRIOS

O art. 85 do Código de Processo Civil vigente disserta sobre a condenação da parte


vencida nos honorários advocatícios à parte vencedora, considerando que a Lei 13.467
de 13 de julho de 2017, a qual trouxe alterações à Consolidação das Leis Trabalhistas,
trouxe, também, expressamente que são devidos os honorários advocatícios ao
advogado do vencedor, encerrando qualquer possível dúvida em relação ao assunto.

Uma vez sucumbente a reclamante (ainda que parcialmente), merecem ser


arbitrados honorários de sucumbência em favor da reclamada, com fulcro nas
disposições do art. 791-A da CLT.

Impugna-se, por cautela, qualquer alegação contrária.

Na remota hipótese de procedência da ação – o que se diz em respeito ao Princípio


da Eventualidade – a reclamada requer a aplicação das Súmulas 219 e 329, do TST e do
disposto na Orientação Jurisprudencial 348, da SBDI-1, do TST, devendo a condenação
ser arbitrada no mínimo estabelecido de 5% (cinco por cento) conforme regra
processual celetista vigente.

13. DO PEDIDO

Ante o exposto, com base nas ponderações reportadas a este juízo, requer que no
mérito, os pedidos da Exordial sejam julgados inteiramente IMPROCEDENTES,
condenando o reclamante aos ônus processuais e demais cominações legais daí
decorrentes.
Destaca-se que não há que se cogitar em inversão do ônus da prova, restando
impugnado pedido neste sentido.

Requer, desde já, a produção de todo gênero de provas em direito admitidas.

Nestes termos, pede e espera deferimento.

Goiânia, 24 de setembro de 2017.

__________________________
AMANDA CAROLINE GUIDO DA __________________________
SILVA ANDRESSA LAMOUNIER
OAB/GO nº XXXXXX PARREIRA
OAB/GO nº XXXXXX __________________________
LETICIA GOMES DE ANDRADE
__________________________ OAB/GO nº XXXXXX
CARLA FERNANDA RODRIGUES
DIAS __________________________
OAB/GO nº XXXXXX LUIS GUILHERME AIRES ROCHA
FILGUEIRA
OAB/GO nº XXXXXX

__________________________ __________________________
GUSTAVO BARBOSA LUIZ EDUARDO DA SILVA
VASCONCELOS OLIVEIRA FERRO
OAB/GO nº XXXXXX OAB/GO nº XXXXXX

__________________________ __________________________
HENRIQUE PORTO DE CASTRO RODRIGO OLIMPIO BOTELHO
OAB/GO nº XXXXXX ROCHA
OAB/GO nº XXXXXX
__________________________
ISADORA RODRIGUES MENDES __________________________
ROCHA SARAH ANTUNES DORCINO
OAB/GO nº XXXXXX OAB/GO nº XXXXXX

__________________________ __________________________
JORDANA DE CALAÇA LIMA THAIS FERREIRA IVO DIAS
OAB/GO nº XXXXXX OAB/GO nº XXXXXX