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verve

verve
Revista Semestral do Nu-Sol — Núcleo de Sociabilidade Libertária
Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP

12
2007
VERVE: Revista Semestral do NU-SOL - Núcleo de Sociabilidade Libertária/
Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP.
Nº12 ( outubro 2007 - ). - São Paulo: o Programa, 2007 -
Semestral
1. Ciências Humanas - Periódicos. 2. Anarquismo. 3. Abolicionismo Penal.
I. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Programa de Estudos
Pós-Graduados em Ciências Sociais.

ISSN 1676-9090

VERVE é uma publicação do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária


do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP.
Coordenadores: Vera L. Michalany Chaia e Lúcia Maria Machado Bógus.

Editoria
Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária.

Nu-Sol
Acácio Augusto S. Jr., Anamaria Salles, Andre Degenszajn, Beatriz Scigliano
Carneiro, Bruno Andreotti, Edson Lopes Jr., Edson Passetti (coordenador),
Eliane Knorr de Carvalho, Flávio Fraschetti, Guilherme C. Corrêa, Gustavo
Ferreira Simões, Gustavo Ramus, Lúcia Soares da Silva, Marcelo Peccioli,
Márcio Ferreira Araújo Jr., Natalia M. Montebello, Nildo Avelino, Rogério H.
Z. Nascimento, Salete Oliveira, Thiago M. S. Rodrigues, Thiago Souza Santos.

Conselho Editorial
Adelaide Gonçalves (UFC), Christina Lopreato (UFU), Clovis N. Kassick
(UFSC), Guilherme C. Corrêa (UFSM), Guilherme Castelo Branco (UFRJ),
Margareth Rago (Unicamp), Roberto Freire (Soma), Rogério H. Z. Nascimento
(UFPB), Silvana Tótora (PUC-SP).

Conselho Consultivo
Alexandre Samis (Centro de Estudos Libertários Ideal Peres – CELIP/RJ),
Christian Ferrer (Universidade de Buenos Aires), Dorothea V. Passetti
(PUC-SP), Francisco Estigarribia de Freitas (UFSM), Heleusa F. Câmara
(UESB), José Carlos Morel (Centro de Cultura Social – CSS/SP), José Eduardo
Azevedo (Unip), José Maria Carvalho Ferreira (Universidade Técnica de
Lisboa), Maria Lúcia Karam, Paulo-Edgar Almeida Resende (PUC-SP), Robson
Achiamé (Editor), Silvio Gallo (Unicamp, Unimep), Vera Malaguti Batista
(Instituto Carioca de Criminologia).

ISSN 1676-9090
verve
revista de atitudes. transita por limiares e ins-
tantes arruinadores de hierarquias. nela, não
há dono, chefe, senhor, contador ou progra-
mador. verve é parte de uma associação livre
formada por pessoas diferentes na igualdade.
amigos. vive por si, para uns. instala-se numa
universidade que alimenta o fogo da liberda-
de. verve é uma labareda que lambe corpos,
gestos, movimentos e fluxos, como ardentia.
ela agita liberações. atiça-me!

verve é uma revista semestral do nu-sol que


estuda, pesquisa, publica, edita, grava e faz
anarquias e abolicionismo penal.
Errata:
Em verve 11, p. 29, o título correto da peça de Pietro
Gori é “I senza patria”.
SU M Á R I O

Poder e anarquia.
Apontamentos libertários sobre
o atual conservadorismo moderado
Edson Passetti 11

Dar forma a nós mesmos:


Sobre a filosofia da arte de viver em Nietzsche
Wilhelm Schmid 44

Emma Goldman na Revolução Russa


Cibele Troyano e Nu-Sol 66

A tragédia Russa
(Uma revisão e uma perspectiva — ou panorama)
Alexander Berkman 81

A mulher mais perigosa da América...


Natalia Montebello 116

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa:


reflexões críticas de um anarquista nos idos de 1920
Rogério Nascimento 129

Os motivos que originaram a história da F.A.I.


Edgar Rodrigues 157

Uma semana de janeiro de 1919


Christian Ferrer 169

Legislações proibicionistas em matéria de drogas


e danos aos direitos fundamentais: 1ª parte
Maria Lúcia Karam 181

A arte de gostar do mesmo sexo


Luiz Pereira Junior 214
A nau sem porto: Juarroz, Llansol e Jabés
Nilson Oliveira 232

A revolução do presente
Tânia Fonseca, Selda Engelman, Patrícia Kirst 238

Mídia, singularidade e juventude


Tony Hara 254

Uma libertária: nota sobre uma aula do curso


“do governo dos vivos” de Michel Foucault
Edson Passetti 268

Do governo dos vivos


Michel Foucault 270

RESENHAS

Lucheni, um terrorista anarquista


Edson Lopes 300

Para agitar o que está imóvel


Gustavo Simões 307

Desejo de segurança e terrorismo de Estado


Acácio Augusto 310

Mais do mesmo
Gabriel Espiga 315
michel foucault, no curso o governo dos vivos, falando
abertamente sobre anarqueologia.

90 anos depois da revolução russa. a vida breve de


emma goldman, a mulher mais perigosa da américa, é
mostrada na peça para a aula-teatro-vídeo do nu-sol com
a atriz cibele troyano, emma goldman na revolução russa,
aqui disponível para encenações de anarquistas. a crítica
de seu companheiro alexander berkman, indicando a
iminência da ditadura e o fracasso do socialismo autoritá-
rio acompanha as repercussões libertárias da revolução
no Brasil, e seus desdobramentos ibéricos e argentinos.

problemas anarquistas na sociedade de controle, sob


o atual conservadorismo moderado, são articulados às
procedências da estética de si. a abordagem abolicionista
chega para arruinar as proibições. a arte de gostar do
mesmo sexo, uma nau sem porto, os jovens, as revoltas,
compõem mais heterotopias oponentes de uniformida-
des, hegemonias, e do discurso verdadeiro que também
habita o anarquismo. resenhas sobre terrorismos e a
incontível punição prisional, fecham este número acom-
panhado de malevich.

90 anos depois da revolução russa, o socialismo de


estado ou ditadura do proletariado cedeu à democracia
que desmontou a urss, ou se ajeitou, temporariamente,
no mercado capitalista globalizado, como na china. ambos
os casos mostram que o capitalismo progride indepen-
dentemente de regime político; sua preferência pela
democracia é circunstancial. o restante do socialismo
estatal ou autoritário permanece sendo a medonha ti-
rania.
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Poder e anarquia

poder e anarquia.
apontamentos libertários sobre o atual
conservadorismo moderado.

edson passetti*

Às vezes somos impelidos a retomar escritos,


análises, relatórios de breves pesquisas, mediante
derivas inevitáveis que redimensionam os efeitos mais
duradouros ou temporários dos fluxos de resistências
na sociedade de controle. Esta sociedade anunciada
por Foucault e analisada de maneira breve e
instigante por Deleuze no final do século passado, tem
por característica marcante a de se redimensionar
pelo inacabado. Nela tendem a não subsistirem os
espaços disciplinares de fronteiras demarcadas; ao
contrário, estes passam a ser reformados e transpostos
em decorrência não só do predomínio da produção
imaterial e intelectual, mas porque a regularidade
normativa da fábrica e das instituições disciplinares é
ultrapassada pela velocidade das empresas e
instituições onde o objeto está modulado pelo fazer e
refazer dos programas executados, criados, reavaliados

*Edson Passetti é Professor no Depto. de Política e no Programa de Estudos


Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Coordena o Nu-Sol.
verve, 12: 11-43, 2007

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pelo conjunto dos envolvidos. As resistências, numa


sociedade como esta, não estão mais associadas a
relações de poder em rede como na sociedade disciplinar,
em que o embate de forças produzia diversas resistências
ativas e reativas, gerando tanto eventuais quanto
radicais linhas de fuga. Sabemos pouco, ainda, como
definir as inacabadas relações de poder produzidas em
fluxos. Sabemos, por enquanto, que os seus efeitos
dirigem-se não mais para o combate ou extermínio de
resistências, mas às capturas que levam à inclusão.
Na sociedade de controle ou de governo nada pode
escapar. Não se está mais no âmbito da inclusão-
exclusão, como na sociedade disciplinar, na qual as
fronteiras estão claramente delimitadas e as
marginalidades, infrações e penas definidas com
precisão. Agora, qualquer um e qualquer coisa pode estar
incluído em função da ampliação e fortalecimento da
segurança dos cidadãos, dos trabalhadores, dos
empresários e dos programas. A segurança não depende
mais somente de forças físicas e leis. Ela necessita obter
confiança de usuários e cidadãos nos programas, e esta
ultrapassa o campo da segurança para se tornar maneira
consensual de viver e produzir. Assim é que pela
participação de cada um se pode usá-los, reformá-los,
desdobrá-los ou ultrapassá-los segundo interfaces
vantajosas para todos. A confiança traz a democracia do
âmbito político para o sócio-econômico e se consolida por
meio de uma pletora de direitos que conforma a conduta
regrada pela utopia da prática plena da tolerância. A
sociedade de controle, com base em relações de
segurança, confiança e tolerância, está interessada na
proteção ao corpo são, para o qual estão destinados os
usos dos sistemas de vigilância e aplicação ampliada de
penalidades, articulando a indústria eletrônica, a polícia,
as forças armadas, o seguro saúde e de bens móveis e
imóveis. A sociedade de controle requer e convoca à

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Poder e anarquia

participação de cada um nos múltiplos fluxos: objetiva


não deixar sequer um micro-espaço vago para ser
preenchido por resistências de insurgentes. Por meio
de reformas constantes, restringindo cada vez mais as
instituições da sociedade disciplinar para as novas se
consolidarem, ela visa capturar resistências, ampliando
programas de inclusão.
Eis um grande problema, ou um problema a mais para
os anarquistas! Esta histórica força de resistência, mas
também de invenção, esta incessante máquina de
guerra está cada vez mais imobilizada e por paradoxal
que isto possa parecer, sua absorção em fluxos de
inclusão se dá por sua própria atuação. Neste fluxo
analítico busca-se abordar mais um problema anarquista
em função da situação da prisão e da utopia da cura
para a doença social do capitalismo, analisada
inicialmente por Piotr Kropotkin, quando não se
distinguia, pelo menos entre anarquistas, preso comum
de preso político; quando se sabia com clareza o
mecanismo de seletividade do sistema penal; quando
se formalizavam os direitos e as penas para quem
ameaçasse a ordem da sociedade. O anarquista,
considerado criminoso, delinqüente, anormal, terrorista,
agitador e perigoso à ordem, está diante da sociedade de
controle, de capturas e inclusões inacabadas, que mexe
com suas práticas e com suas aspirações.

A solução anarquista numa sociedade disciplinar

Piotr Kropotkin — que havia passado, como tantos


anarquistas renomados ou anônimos, por experiências
tenebrosas nas prisões —, tratou o crime como uma
doença social, cuja cura adviria de uma situação de
ajuda mútua acompanhada da concreta aplicação dos
saberes científicos na sociedade anarquista. 1 O

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humanista anarquista russo propunha uma reviravolta


moral sobre a propriedade do conhecimento e suas
correlativas instituições punitivas, limpando-as das
seletividades e tiranias, em função do uso social
adequado das ciências, e até tornar, em pouco tempo,
estas instituições desnecessárias.
A vontade de cura da doença social também esteve
presente nos desdobramentos da Revolução Russa, sob
o comando bolchevista, conformando o socialismo
soviético e levando-o à disseminação do uso do campo
de concentração com base nos trabalhos forçados como
partes imprescindíveis da cura individual do desvio de
consciência revolucionária e da produção de riqueza no
modo de produção socialista. A reversão moral proposta
por Kropotkin, condenando o capitalismo e suas
instituições repressivas, não obteve espaço político para
o fim das cruéis instituições prisionais e psiquiátricas.
A cura da doença social não foi rejeitada, mas
redimensionada. Os revolucionários bolchevistas
governaram com um complexo surpreendente de
instituições repressivas, e ao mesmo tempo com a
função de inclusão na produção da riqueza, quando
aprisionar não estava mais circunscrito à prática do
isolamento ou reintegração, mas desdobrava-se ao fazer
do prisioneiro um escravo da riqueza social produzida.
Em nome da revolução, da igualdade e da liberdade
projetadas para o futuro da sociedade dirigida por uma
vanguarda estabelecida no Estado e capaz de dar fim aos
seus adversários, os anarquistas passaram, em poucos
anos, da condição de aliados circunstanciais à de
inimigos dessa nova sociedade, e, portanto, passíveis de
aprisionamentos e mortes. Assim eles foram tratados2
pelo socialismo na vã esperança da cura e de controle
das potências de liberdade. As críticas de Kropotkin,
todavia, permanecem atuais em relação aos aspectos
repressivos das instituições austeras. Mas algo mudara

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Poder e anarquia

e pelo menos umas perguntas permaneciam sem


respostas: como dar fim à doença social sem reconhecer
uma certa necessidade de asilamento, defendida por
Kropotkin? Mas depois da experiência soviética, como
responder aos demais efeitos da continuidade, ainda que
temporária dos asilamentos? Os anarquistas foram
apanhados pelo socialismo autoritário derivado da
Revolução Russa, nos anos 1920, e nas décadas
seguintes se tornaram os alvos de nazistas e fascistas,
que repetiram, ampliaram e efetivaram o repertório
soviético do racismo de Estado. Aprisionados sob os mais
diversos regimes políticos, no capitalismo e no
socialismo, os anarquistas aprenderam na pele a não
referendar ou contemporizar com qualquer continuidade
de prisões e manicômios. Dessa perspectiva, a idealista
proposta de Kropotkin foi ultrapassada pela cruel história
da tentativa de aniquilamento dos anarquistas.
Entre o final da 2ª Guerra Mundial e a derrocada do
socialismo soviético na década de 1980, no vaivém dos
intrigantes movimentos de contestação, defesa de direitos
e reformas das instituições austeras, a punição aos
chamados comportamentos criminosos foi ampliada por
meio da combinação de sentenças de encarceramentos
em prisões — com planejada segurança eletrônica — e
medidas alternativas de punição e vigilância aplicadas a
céu aberto. Foi assim no âmbito do controle da loucura
como doença mental: abandonou-se, gradativamente, o
manicômio em função da medicação em unidades de
atendimento ambulatorial descentralizadas. Inaugurou-
se, para o crime e para loucura, a era das soluções
alternativas, redesenhando e normalizando as contestações
radicais advindas dos movimentos libertários anti-
psiquiátricos e pelo fim das prisões, dos quais, inclusive,
emergiu o abolicionismo penal. O refluxo conservador dos
anos 1980 em diante levou não só a uma desconstrução
desses movimentos contestadores como também à

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captura de grande parte das suas lideranças, renomeando-


os como luta anti-manicomial e por uma justiça penal
alternativa, incluindo a todos na utopia do fim das
impunidades. A normalização moderadora mostrou sua
força, readequando os contestadores, capturando suas
energias políticas e reiterando que a relação doença
social-cura (da pessoa, dos grupos e da sociedade) depende
das ciências médicas, das ciências humanas com seus
diagnósticos, relatórios e prognósticos, da reforma moral
pelo trabalho e religião, e também de dispositivos
eletrônicos de controle, que Kropotkin sequer imaginou.
Emergiu uma nova dimensão às chamadas políticas
públicas, deslocada da obrigatória ação do Estado. Com a
desativação do welfare-state, em função da atuação
governamental se concentrar em programas de aplicação
penalizadoras, alguns estudiosos passaram a caracterizá-
lo como Estado penal3 e com isso, as políticas públicas
não só vazaram para organizações da sociedade civil,
como se firmaram a partir de uma dupla articulação por
meio de Organizações Não-Governamentais (ONGs),
Parcerias Privado-Públicas (PPPs) e Organizações da
Sociedade Civil com Interesse Público (OSCIPs) e mesmo
ações de fiscalizações de apenados sob regimes de
liberdade assistida e semi-liberdade. A disciplinar noção
de público relacionada ao Estado e relativa ao controle
dos equipamentos sociais entra em crise por meio do
rompimento neoliberal com o governo intervencionista.
Expande-se o fluxo de dessacralização do público e do
privado e de governamentalização da vida,4 realizando,
historicamente, a disjunção que nunca houve, como
haviam sinalizado Proudhon5 e os anarquistas. Em
sentido estrito, as políticas públicas deixaram de ser
obrigação de Estado e passaram a ser compartilhadas com
a sociedade civil organizada, engendrando novas relações
internacionalistas entre empresas e instituições de
assistência, com base nas isenções fiscais, uma nova

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Poder e anarquia

filantropia. As ONGs, as PPPs e as OSCIPs, passaram a


concentrar empregos até então disponíveis no aparelho
de Estado, absorvendo não só técnicos em humanidades
e especialistas, mas também lideranças locais,
traduzindo suas atuações conjuntas sob a rubrica de
responsabilidade social. No fluxo ininterrupto de políticas
públicas entre Estado e sociedade civil emergiu a ética
da responsabilidade social atraindo a população para
programas de atendimento e participação, capturando
resistências e rebeldias para consolidar o que chamo
aqui de conservadorismo moderado.
Entramos numa era da fiscalização moral exercida
por diversas polícias e vigilantes cidadãos convocados à
delação em nome da contenção da impunidade e da
redução de comportamentos criminosos. Espera-se,
então, de cada um e de cada cidadão a introjeção do
controle de si pela ameaça do aumento de penalidades
de encarceramento, incluídas aquelas a serem
cumpridas a céu aberto, na comunidade. Para tanto, cada
qual e seus filhos passaram a ser assistidos por vários
dispositivos que combinam a ameaça do uso de um
arsenal de penalidades leves e moderadas ao complexo
prisional irreversível, mas também a prática da
medicação acentuada dos desvios em direção à
normalização do normal de crianças e adultos, incluindo
a contribuição decisiva da psicopedagogia de sustentação
chamada auto-ajuda, até criar o normalizado, crente,
responsável e pleno de si, o conservador moderado.
Permeado pelos efeitos do positivismo, o anarquista
Kropotkin buscou como um crente uma resposta
científica para os crimes e para os horrores das prisões,
filiando-se à tese de que numa sociedade capitalista
desigual e tirânica as prisões estão destinadas aos
pobres, aos diferentes e aos subversivos. Sob a crença
iluminista, imaginou a transformação das instituições

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austeras em unidades de cura libertadoras por meio de


uma mudança moral do uso científico capaz de levar a
uma reviravolta definitiva e esmagadora sobre as
instituições austeras. Precisa em diversos aspectos, sua
análise não foi o bastante para notar que essas
instituições de reclusão e detenção se desdobram sobre
quaisquer governos de Estado em encarceramentos mais
ou menos rígidos. No interior de uma instituição
austera, cada integrante, em cada degrau da hierarquia
e no seu chão, é impulsionado a fortificar o exercício da
autoridade vertical, imediatamente superior. Nela, o
poder não se encontra sob o governo de um grupo
dirigente, mas é a instituição como um todo que o produz,
como mostrou décadas depois Michel Foucault, em Vigiar
e Punir. Não se trata, portanto, de substituir ou abolir o
grupo dirigente ou proprietário. O domínio da propriedade
é mais amplo do que suas instituições e ultrapassa o
âmbito da mera luta de classes. Não se supera o saber
sobre a doença e a cura, e tampouco uma doença social,
apenas com ciência e moral anarquistas no interior da
futura sociedade igualitária.
Hoje em dia, a punição se multiplica em penalidades
a céu aberto e tem por alvo não somente os perigosos,
anormais, subversivos e diferentes da sociedade
disciplinar, a serem julgados e encarcerados, mas
também as pessoas em situação de risco social ou
vulneráveis ao crime. Enfim, os pobres e miseráveis de
sempre, para quem se destinam as novas modalidades
de penas alternativas. Com elas deixa de haver a
penalização, como no passado, a partir da população
suspeita e segundo as circunstâncias históricas; neste
instante, ela se encontra ampliada e potencialmente
disponível à assistência penal preventiva, para a qual o
controle não se exerce somente pelo procedimento
burocrático das autoridades administrativo-prisionais e
pelos especialistas em delinqüência e loucura. Sob o

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Poder e anarquia

regime das penas alternativas, a população é convocada


a participar do próprio controle e é organizada desde
agências não-governamentais até o exercício estimulado
da delação premiada. Sob o controle a céu aberto, a
população suspeita da sociedade disciplinar aparece
incluída no fluxo da população vulnerável da sociedade de
controle, ampliando dispositivos de segurança
acompanhados de detalhadas localizações e mapeamentos
de zonas de possíveis e imediatos confrontos, delimitando
as periferias e favelas (muitas vezes corretamente
renomeadas como comunidades), não mais como áreas
à margem do centro, mas como uma nova versão do
campo de concentração; e este não mais restrito à função
de separar, prender ou exterminar, mas de administrar,
conter e convocar à participação, segundo práticas
específicas, como veremos adiante.
Ao anarquista bastaria permanecer crente na
revolução socialista libertária? Revolução não é isso ou
aquilo. Uma revolução concretiza, historicamente, um
enorme conjunto de singularidades, exige e propicia a
emergência de uma maioria que nem sempre é
numérica e se vê disposta a agir com terror e medo,
duas formas de poder repudiadas pelos próprios
anarquistas. Dessa perspectiva, e sob os efeitos da
história, a proposta de cura da doença social por Kropotkin
está ultrapassada e arruinada. Contudo, a revolução
permanente para um anarquista, intrínseca à vida das
associações libertárias analisadas por Proudhon, e
avessas ao fato revolucionário em si, permanece uma
referência a ser lembrada nos dias de hoje, quando se
pretende opor anarquismo social a anarquismo como
estilo de vida, abjurando as práticas libertárias
expandidas desde o acontecimento 1968. Além de
considerar tal distinção como meramente acadêmica,
Proudhon relembraria que a anarquia não se resume à
retórica, no ascetismo, nem a práticas futuras alheias

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às invenções libertárias, mas se expande no dia-a-dia


das associações. Acabar com prisões e castigos são
práticas de revolução permanente que compõem um
estilo de vida anarco-abolicionista. Noutras palavras,
não é preciso tirar o mofo do anarquismo que ainda se
recusa a sair do século 19, porque isto faz parte do embate
entre discursos de verdades, mas combater uma
eventual conduta pretensamente hegemônica na
atualidade.

Reviravoltas anarquistas

Proudhon em O que é a propriedade? alertou que o


crime da propriedade (do proprietário) era o roubo das
forças coletivas, e com isso demoliu a argumentação
jurídica universalista e burguesa sedimentada no direito
e no direito penal, em especial, que seleciona os pobres
como os suspeitos e principais criminosos, em função
da defesa e da ordem da sociedade fundada na
propriedade. Localizou os ilegalismos burgueses no
século 19 e os relacionou à justiça na propriedade como
a continuidade dos proprietários e como crime de lesa
sociedade. De maneira contundente e certeira situou o
crime vinculado ao regime de propriedade na história
como um multiplicador incessante de penas aos que
ameaçam o poder de direito universal e de governo.
Adiantou-se à sua época, anunciando a continuidade
da propriedade no comunismo, sob o regime estatal, com
o agravante de se pautar também no governo de uma
minoria, em nome de uma maioria, como a democracia
burguesa, porém tendendo à tirania (como no fascismo,
mas sem sua brevidade circunstancial), e dispondo da
aplicação particular dos direitos universais como
justificativa para o Estado de exceção e o terrorismo de
Estado como regra inatacável, cujo uso destina-se à
construção da verdadeira sociedade igualitária.

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verve

Poder e anarquia

Proudhon pensou outra saída para a condição de


miséria derivada da propriedade: desvencilhar-se dela
pela posse, e do direito penal e dos direitos universais
pela vida em associações livres, por meio de direitos
bilaterais singulares, móveis e transitórios estabelecidos
entre os envolvidos, com ênfase na educação para a
liberdade. Voltou-se para maneiras associativo-
libertárias de experimentações de relações mutualistas
e federativas, obstruidoras também da sociedade de
privilégios, do Estado e dos diversos regimes dos direitos
universais. Ao redimensionar a associação,6 propiciou
aos anarquistas a invenção de maneiras imediatas de
cuidar de crianças e jovens, de seus bens e trocas, de
suas existências e utopias para uma nova sociedade,
deixando de crer em um fato revolucionário decisivo e
fundador da nova sociedade — segundo ele mesmo um
acontecimento meramente restaurador da conservação
do poder do Estado moderno, em que a dádiva de Deus
foi substituída, temporariamente, pela dos
revolucionários. Proudhon, ao contrário, compreende
a história libertária como uma revolução permanente,
contra o fato revolucionário em si, como potência das
associações livres mutualistas e federativas.
Contudo, depois dos acontecimentos em torno da
Associação Internacional dos Trabalhadores, envolvendo
o embate Bakunin-Marx, os anarquistas se concentraram
cada vez mais em crer no fato revolucionário. Foi dessa
maneira que a resultante de uma luta histórica entre
duas forças socialistas antagônicas transformou-se em
batalhas teórico-práticas intermináveis, em disputa pelo
verdadeiro sujeito da revolução. Mesmo depois das
experimentações ocorridas na Guerra Civil Espanhola, a
luta pela revolução e a sua superação continuaram
preponderantes, assim como o confronto com o marxismo.
Contudo, se o acontecimento 1968 reafirmou os equívocos
do socialismo autoritário, que entraria em dissolução

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definitiva vinte anos depois, também sacudiu a retórica


anarquista revolucionária de sindicalistas e
comunistas e os remeteu a retomarem outras
experimentações, mais próximas da prática de guerra
permanente de Proudhon.
Atravessando os anarquistas proudhonianos e
bakuninistas, Max Stirner havia indicado, ainda na
década de 1840, que a revolução violenta levava à
restauração do poder de Estado; que o direito universal
é a forma de obtenção de sujeições reversíveis em
novos constrangimentos; que o direito penal se
sustenta no julgamento a priori de cada oponente,
considerado inimigo e criminoso iminente. 7 A
presença incisiva de Stirner foi minimizada ou
negligenciada pelos anarquistas, mesmo depois da
emergência do anarco-individualismo com Émile
Armand no início do século 20, da mesma maneira
que Proudhon foi associado à vertente individualista,
que teria sido suplantada, historicamente, pelos
coletivistas. Assim acabaram prevalecendo as
propostas e influências derivadas da ação coletivista
desde Bakunin, e daí decorreu a continuidade de efeitos
dos eternos confrontos com Marx e seus discípulos,
desde o século 19, que confinaram a luta pelo socialismo
às pelejas entre libertários e autoritários, entre
organização descentralizadora e organização centralizada
do movimento operário. Vez por outra, diante do horror
da miséria e da perseguição, aparecia um terrorista
libertário, fato de difícil assimilação pelos próprios
anarquistas engajados na revolução, anunciando o
avesso dos limites da justiça universal, que viria a se
concretizar mais tarde na Revolução Russa dos
bolchevistas.8
De Proudhon a Stirner, ou vice-versa, traçam-se
outros percursos que abolem tribunais, direito penal,
prisões e asilamentos que se desviam da obra de

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verve

Poder e anarquia

Kropo tkin, da oposição entre individualistas e


coletivistas. Pergunta-se: é possível uma nova reviravolta
das práticas de liberdade contra prisões e instituições
austeras, para potencializar a vida sem castigos, capaz
de questionar as renovadas normalizações na sociedade
de controle? É a revolução permanente uma resistência
em fluxo na sociedade de controle?

Sociedade de controle

Se a vida libertária depender de uma organização


geral, de uma revolução e de intelectuais iluminadores
dos verdadeiros caminhos, ela se tornará uma tediosa
espera embalada por uma utopia em grande parte
devorada pelo socialismo autoritário do século 20, e até
por certos liberais estadunidenses amantes do que
chamaram, no pós 2ª Guerra Mundial, de anarco-
capitalismo.9
Os anarquistas que ainda pretendem a revolução
universal precisam explicitar o que pensam sobre ela
nos dias de hoje, quando a produção de ponta é eletrônica,
informatizada, programada, acionada em fluxos,
suprimindo, rapidamente, o trabalho manual pelo
intelectual, e visando não mais combater resistências,
mas integrá-las. Sob esta dinâmica histórica, os
anarquistas estarão obrigados a equacionar a sua
rápida atualização, pois uma parte do marxismo
reciclou o universalismo revolucionário iluminista,
na passagem do século 20 para o 21, com as proposições
de Antonio Negri e Michael Hardt, em Império e Multidão,
situando a biopolítica da multidão organizada como
maneira de constituir uma outra globalização, um outro
comum, e com isso responder à propriedade e ao Estado
burgueses, com uma nova revolução molar, agora
pacífica e democrática. O que têm a dizer os anarquistas

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universalistas sobre isso e para além do determinismo


anarco-científico kropotkiniano, repaginado no final do
século 20 pelo hibridismo político de Noam Chomsky ou
pelo requentado ecologismo social de Murray Bookchin?
Michel Foucault, escrevendo atento a uma sociedade
disciplinar em fase de ultrapassagem, e Gilles Deleuze,
ao indicar a sociedade de controle — que ele preferiu
chamar de sociedade de controles — que aí se
configurava, mostraram que o revolucionarismo próprio
do século 19 revestiu o terror de Estado das revoluções
burguesas e proletárias, para entrar em processo de
retração e minimização depois do acontecimento 1968.
Mas a coisa não parou aí. Presenciamos, nas duas décadas
seguintes, o revolucionarismo institucionalizado no
Estado tragado ou acomodado à economia de mercado
globalizada: na União Soviética com a introdução da
democracia, e na China e Coréia do Norte com as
adaptações da ditadura do proletariado ao mercado
capitalista. Enquanto isso, no Ocidente, os antigos ou
velhos socialistas revolucionários de todas as idades se
aninhavam na política democrático-burguesa de maneira
mais ou menos ordeira e institucional, condenando o
terrorismo como prática de libertação. Para além das
táticas de acomodações burocráticas, os marxistas
remexidos a partir da inevitável aproximação com
filósofos como Michel Foucault e Gilles Deleuze,
propiciada pelos espertos Negri & Hardt, passaram a
vislumbrar a iminência de retomar resistências
universalistas, compostas de plurais diversidades
singulares na busca por uma outra globalização, tanto
atravessando as manifestações contra as reuniões da
Organização Mundial do Comércio e suas várias
composições, quanto fortalecendo o Fórum Social
Mundial e o Europeu. No interior desses acontecimentos
eles cruzam com anarquistas (que muitas vezes se
pareceram com os demais socialistas, confundidos no

24
verve

Poder e anarquia

meio do movimento ou distinguidos dele quando de


confrontos irremediáveis com a polícia, como nas
marcantes intervenções do black block) e demais forças
de contestação, orquestrando fluxos que oscilam entre
a caudalosa legitimidade à ordem e uma míngua de
singularidades resistentes e libertárias. Em comum
ainda, marxistas e anarquistas parecem ter abandonado
práticas terroristas que ficaram restritas a movimentos
religiosos que combinam aspiração por um novo e
paradoxal Estado racional-teológico.
O Estado na sociedade de controle organiza sua
segurança em polícias, forças armadas de superfície,
herdadas da sociedade disciplinar, e sistemas de
vigilância por satélites, sem desprezar serviços de
informações e delações oficiais financiadas e
voluntárias. Ele passou a contar com a sociedade civil
organizada, exercendo também múltiplos controles. Com
isso, acautelou-se contra a multidão e a sitiou.
Transformou a empolgante organização contra a
globalização durante alguns anos (1999-2004) em um
espetáculo de mídia, quando a representação do encontro
entre potências ricas e suas seletivas parcerias da vez
assumem o primeiro plano. Enquanto isso, os diversos
agrupamentos anti e pró outra globalização entrelaçam-se
em lutas por hegemonia, empurrando a organização da
multidão, mais uma vez, ao modelo da sociedade secreta,
da estrutura vertical, do domínio e segredo burocrático, da
imobilização e sob vigilância. Foi assim que muitas
associações no interior do movimento acabaram
capturadas pelo fluxo articulador de ONGs, PPPs e OSCIPs,
transfigurador de contestações em reivindicações
sustentáveis e empregos, transformando a luta anti-
globalização em complemento ao espetáculo imponente
produzido pelas potências do Império na mídia democrática.
Em seus poucos anos, estes movimentos evidenciaram,
novamente, que a organização molar da resistência

25
12
2007

esbarra em práticas seculares de domínio hierárquico,


calcado na velha figura central do soberano e nos
dispositivos disciplinares. Por sua vez, as resistências
horizontalizadas também acabam, rapidamente,
incluídas na sociedade de controle por meio dos fluxos
de captura orquestrando empregos-empresas-ONGs, PPS
e OSCIPs-governos. Em velocidade estonteante, os
revolucionários da ocasião, que já conheciam certos
caminhos traçados pelos desbravadores de 1968,
acomodaram-se, com mais ou menos veemência,
combinando retóricos protestos à ordem, com ocupação
da nova área de empregos alternativos.
Os empregos na sociedade de controle deixam de
estar relacionados à produção na fábrica ou escritório,
à jornada de trabalho com horas e direitos mínimos
trabalhistas e sociais regulamentados, conflitos de
interesses segundo a propriedade dos meios de produção.
Não se está mais no campo da relação trabalho-
mercadoria, mas no fluxo emprego-produtos. Exige-se de
cada empregado mais de um emprego. É isto que o torna
vivo numa economia instantânea que absorve e repele
com rapidez especialistas, e exige jovialidade física e
mental. Desta maneira, os direitos sociais conquistados
e os sindicatos contestadores se tornam obsoletos para
esta economia computo-informacional. O sindicato
acabou por se transformar também em empresa que
recruta empregados e onde os direitos sociais também
são abolidos, caracterizando-se como parte do sistema
de colocações e inclusões em que os empregados são
absorvidos, incluídos e convidados a participar na criação
de produtos.10 O emprego também transforma-se num
programa de cada trabalhador. É importante ter sempre
mais de um para não se sentir desempregado. E sob a
programação de cada um se forma uma nova subjetividade
conformada à inclusão nos empregos e na crença na
participação ampliada na democracia, dissolvendo a

26
verve

Poder e anarquia

anterior predominância da luta de classes. Uma avalanche


de trabalhadores intelectuais passa a transitar com
mais liberdade territorial (estatal) acompanhada de
lideranças de movimentos sociais de periferias,
pacificando contradições em nome da correção de rotas
nas injustiças históricas de onde emanaram as políticas
afirmativas, garantindo acesso a empregos, segundo a
estratificação por direitos de minorias. Antes de tudo,
os direitos de minorias substituem os antigos direitos
sociais e funcionam como amortecedores de conflitos.
Por isso mesmo também são inexeqüíveis.
A sociedade de controle, segundo prioridades e
programas, também é capaz de absorver rapidamente
um infrator como controlador, um inventivo jovem em
programador institucional, uma rebeldia em moda, um
contestador em político profissional; é a sociedade do
consenso e das incansáveis capturas, sob a forma de
dispositivos de inclusão. Nela se pretende convencer a
todos, e de várias maneiras, a respeito da importância
da participação democrática em quaisquer manifestações
da vida, não só nas ruas, avenidas e praças como também
nas mídias e Internet: é preciso conservar-se em evidência
e com responsabilidade (ética que habita fluxos de forças
sócio-políticas de direita a esquerda, de conservadores
a anarquistas, dissolvendo identidades uniformes em
identidades multiculturais). Na sociedade de controle ou
sociedade de governo, de vida governamentalizada, como
sublinhou Michel Foucault, as conhecidas formas de
obtenção de consenso político por medo, omissão, adesão
e concordância, espargem-se atingindo pela economia, a
cultura, e por um novo saber articulador: a ecologia. Mais
uma vez, as minorias se sentem contempladas por meio
da pletora de direitos inexeqüíveis e pela convocação
geral à participação, que emana de seus relacionamentos
com grupos organizados em função de seletivas
manifestações latentes, capturáveis pelo Estado e pela
sociedade civil organizada.

27
12
2007

Na sociedade de controle, os fluxos dissolvem a


separação entre o privado e o público por desdobramentos
e por interrupções, para com isso alcançar a organização
pacífica para a democracia, a inclusão, a vigilância, o
clamor por segurança, confiança nos programas, enfim,
atingir a tolerância zero — a utopia do fim das impunidades.
A sociedade de controle não suporta resistências contínuas
e pretende dissolvê-las pelas práticas da inclusão e por
ampliação de penalidades, próprias dos controles jurídicos,
policiais e normalizadores. Se na sociedade disciplinar
havia o sistema de recompensas reforçando o consenso
sobre a aplicação de punições, na sociedade de controle os
fluxos de penalidades se expandem para normalizar os
normais, provocando o apreço pelos controles e abjuração
a qualquer desvio.

Penalidades

A sociedade de controle dissemina fluxos vigilantes de


segurança que vão desde o domínio das forças que
combatem os suplícios privados nas famílias até os que
defendem abertamente a pena de morte. Nela se
justificam os direitos de causar a morte e de causar a
vida, procedentes da sociedade de soberania e da sociedade
disciplinar, por meio da convocação à participação. E
assim cada um é convocado a participar da penalização
alternativa, da justiça restaurativa e das várias
combinações ainda a serem criadas, sem que o sistema
penal abdique dos aprisionamentos. A sociedade de
controle expõe ao olhar de todos e à vigilância
interminável, não só os infratores e delinqüentes, dentro
e fora da prisão, mas cidadãos nas ruas, em ambientes
de trabalho, no lazer e no comércio, as populações das
periferias (favelas ou comunidades) e, neste caso,
identificados como setores vulneráveis,11 para garantir a
defesa de setores abastados que também se encontram

28
verve

Poder e anarquia

estreitamente vigiados. É a sociedade do controle (dos


governos) a céu aberto, que atua, estratificadamente,
sobre os diferentes, anormais, subversivos, delinqüentes
e perigosos da sociedade disciplinar, para os quais, no
passado, se recomendavam e exigiam prisões com celas
individuais, religião e trabalho. Hoje, sob a condição de
vulnerabilidades, qualquer pobre, como uma futura
ameaça à ordem, necessita de investigação sobre sua
formação para que não venha a se tornar o inevitável
criminoso ou a potencial vítima propícia, o vagabundo, o
arruaceiro, o traficante, o amedrontador do bom cidadão.
Ele passa a ser alvo do investimento em inclusão por
meio da instalação de equipamentos sociais, educação
eletrônica e estímulo à participação, na melhoria de
condições de existências na própria comunidade. A
comunidade, ou periferia, passa a ser o programa a ser
aplicado com sucesso, como o reparador das condições
de misérias históricas.
Nesta sociedade não se pretende apenas a
transparência panóptica da disciplina para localizar os
corpos que desacatam e deles se precaver. A
invisibilidade do panoptismo vincula-se à transparência
de governo político sobre o invisível, nos moldes de
Rousseau, de sociedade visível e legível a cada uma de
suas partes em que o vigia é um companheiro.12 É desta
ampla proteção que a sociedade de controle necessita
para se sentir segura, confiante e tolerante para
reformar as instituições da sociedade disciplinar e
preparar a emergência de suas próprias instituições.
Ela anula, quando não absorve, tanto as possíveis
revoluções molares quanto as moleculares; incentiva
e convoca à participação democrática para imobilizar
resistências libertadoras e liberadoras; oferece
integrações, benefícios, atrativos de segurança, opõe e
transforma inimigos em adversários e vice-versa,
segundo as pragmáticas conveniências. Atua por meios

29
12
2007

eletrônicos, programáticos e midiáticos, exercitando o


controle contínuo e a comunicação instantânea, fortalecendo
a crença na punição e no combate à impunidade; difunde
a crença na justiça universal contra ricos e pobres,
colarinhos brancos, narcotraficantes, menores e jovens
delinqüentes, como se isso fosse possível e passível de
superação definitiva. A seletividade do sistema penal
se vê reformada por meio da combinação da instauração
de tribunais locais, nacionais e internacionais, com
atuação dos representantes das populações. Tudo entra
num processo de reformas inconclusas, em
aperfeiçoamento: a justiça, a administração, o governo
central, a família, a religião, o cotidiano. A utopia da
sociedade é a da vida pacificada nos tribunais pela
propagação de controles de condutas penais, levando à
crença que qualquer um pode ser suspeito e qualquer
linha de fuga tem por destino outro tribunal.
A sociedade de controle pretende ir mais longe e
acabar com a revolução como acontecimento e fato. Isso
forçou, como vimos, a uma nova compreensão
democrática dos marxistas, ao usarem de maneira
redimensionada e asséptica as análises de Foucault e
Deleuze (quem sempre se declarou marxista) como
explicitaram Hardt & Negri. Mas não só. Apareceram as
propostas de redimensionamentos entre os liberais
partidários da junção Foucault-Hannah Arendt, ou da
dobradinha de fundo jurídico-político entre Deleuze e
Giorgio Agamben. Nesse fluxo, ora resistente, ora
moderado, capturam-se pensamentos insurgentes por
meio de moderações assimiláveis à época conformista,
legitimando fluxos moderados que vão dos conservadores
aos socialistas, passando pelos liberais sociais. A
sociedade de controle não suporta a revolução como fato,
a revolução permanente proudhoniana e tampouco a
stirneriana associação de únicos, atualizada por Hakim
Bey como TAZ (zona autônoma temportária), ou até

30
verve

Poder e anarquia

mesmo a parceria nociva de anarquistas com Foucault,


Deleuze e o abolicionismo penal anarquista. 13 A
sociedade de controle se interessa por outro fluxo
verdadeiro, seu simulacro, composto pelos encenadores
revolucionários e inofensivos retóricos que colaboram
a seu modo para o fluxo de contenção que os docilizam e
apaziguam. Firme neste propósito, ela administra os
revolucionários reciclados, fortalecidos em seu interior
pelo discurso democrático, e se abre para o embate
definitivo entre democracia e ditadura, no qual, até
agora, cabe aos democratas neoliberais a condução do
timão civilizatório em direção ao porto seguro. Esta é a
sociedade dos conservadores moderados, articulados em
fluxos que atraem empresas e seus empregados, ONGs,
PPPs e OSCIPs e governos trans-territorializados. Nela,
em pouco tempo, as afinidades anarquistas tendem a
se transformar em pluralismos, e as aproximações
táticas com marxistas e liberais sociais tornam-se mais
relevantes do que a franqueza amistosa na diversidade
libertária. Acabam incorporados e incluídos aos
marxistas; estes, por sua vez, colaboram na captura dos
anarquistas, para lhes destinar uma posição subalterna,
como no passado fizeram os bolchevistas com Nestor
Mahkno e o exército ucraniano na Revolução Russa, até
imobilizá-los democraticamente.
Na sociedade de controle abundam direitos de mino-
rias e as múltiplas composições em maioria, Estados,
união de Estados e tribunais, em função dos deveres,
do julgamento e da saúde do planeta. Prescinde-se de
partidos e sindicatos em benefício das minorias
empregadas em ONGs e similares próximas ao Estado.
As biopolíticas de Estado, como sublinhava Foucault,
próprias da sociedade disciplinar interessada em
produzir o corpo saudável e obediente para o trabalho,
deixam de preponderar. A sociedade se interessa pela
vida do planeta, a saúde ambiental e da pessoa saudável e

31
12
2007

produtiva em seu interior, nos agrupamentos e nos povos


arquivados em mapotecas eletrônicas precavidas dos
cartógrafos e de suas liberdades para lidar com mapas,
articulando perigosas linhas de fuga. A sociedade de
controle é a sociedade dos empregos. Ela não suporta
derivas, e procura preservar seus catálogos e bancos de
dados, que combinam infinitesimais procedências sócio-
econômicas, nanotecnológicas, bio-químicas, físicas,
econômicas, pensamentos, memórias, imagens,
instantâneas imagens, sondagens, compondo uma
diversidade de armazenamentos de informações sobre
máquinas de guerra e suas capturas, linhas de fuga,
resistências.
Está em questão preservar o planeta e seus trajetos
pelo universo. Era da ecopolítica — do controle do corpo-
planeta —, de resguardar os santuários ambientais e
restaurar a natureza com suas pessoas e qualidade de vida.
Para tal, é preciso vigiar com segurança, usando
dispositivos eletrônicos estatais e particulares, e recuperar
uma educação religiosa que nos livre das desgraças
cometidas ao planeta, no passado, e nos conforte no
renascimento. É preciso esquecer quem o dilapidou e fazer
com que cada cidadão cumpra sua parte na conservação,
restauração e preservação de santuários ecológicos. Requer
a ampliação de punições e a tolerância aos protocolos
estatais-empresariais de renovação do planeta com adesão
à utopia do fim das impunidades e na participação na
democracia universal. É preciso uma sociedade com moral.
Exigem-se condutas irrepreensíveis: é preciso dar fim ao
que possa trazer desassossego; pacificar minorias radicais
com direitos, integrações e políticas afirmativas; levar cada
um a aprender a cultivar o controle de si (governo do
comedimento) e cuidar dos outros (combate aos
desgovernos), para melhor viver na sociedade e dedicar a
alma e consciência ao bom pastor; reconhecer e necessitar
de religião e auto-ajuda para a saúde e produtividade,

32
verve

Poder e anarquia

colaborando para renovar democraticamente as


instituições, inclusive as instituições austeras. Nesta
sociedade não bastam mais cuidados com o corpo da
população dócil, como na sociedade disciplinar; agora, é
preciso zelar pelas almas dos corpos saudáveis, governar o
invisível e ao mesmo tempo guerrear bactérias ou guerrear
com bactérias, admirar a devoção religiosa e a dádiva de
Deus, Jesus, Jeová, Alá, amparando os sistemas
eletrônicos. É punindo mais e regularmente cada pequena
infração, e cada comportamento suspeito, que se chegará
à perfeição e se refará o planeta perdido. Trata-se da
repaginação do paraíso, desta vez com capitalismo,
democracia, religiões e múltiplas penalidades, que vão da
justiça jurídica sustentada no juiz, promotor e advogado,
com a colaboração das ciências humanas, à democratizada
justiça restaurativa levada até sua morada. Nela, as
pessoas comuns (os cidadãos) são convocadas a julgar, mas
também estimuladas a denunciar e a delatar os suspeitos.
Por isso mesmo não se está mais no limite da existência
do campo de concentração jurídico-político, como
sublinhavam Hannah Arendt e Giorgio Agamben, no estado
de exceção delimitado por Carl Schmitt, ou até nas
conhecidas formas de exploração escravocrata do campo
de concentração do socialismo soviético.14 Agora todos (os
pobres habitantes das periferias ou favelas-comunidades)
são chamados a participar de julgamentos em parceria
(pela ampliação do raio de ação não só da justiça
restaurativa), colaborando com sua responsabilidade de
cidadão, defendendo sentenciamentos mínimos, máximos,
perpétuos e até penas de morte, atuando para colaborar
com a ordem das penalidades a céu aberto (como liberdade
assistida, regulação eletrônica, sistemas de semi-
encarceramentos, etc). Mais uma vez, religião e punição
laica, pela invisibilidade imediata dos espíritos formam o
duplo capaz de articular a normalização do normal com as
ciências, tecendo as regras e as respectivas habilitações

33
12
2007

para se destacarem na vida da sociedade de controle.


Pretende-se consolidar qualidade de vida com devoção,
obediência e participação pela captura. Seu reverso
chama-se terrorismo trans-territorial, inaugurado
midiaticamente com a ação da al-Qaeda, em 11 de
setembro de 2001. Sociedade de controle: era da
moderação e dos moderados! Até os terroristas não
querem mais do que Estado com religião!
A sociedade de controle está até agora composta por
sociabilidades em fluxos que funcionam pela captura
dos saudáveis, extermínio dos epidêmicos e isolamen-
to das resistências ativas. Ela é capaz de fazer da má-
quina de guerra um constante exército da ordem que
vai dos soldados aos mercenários e aos sicários.

O problema a mais do anarquista

A sociedade de controle de fluxos eletrônicos e efeti-


vamente transparentes facilita a expansão da cruzada
religiosa que captura populações: de um lado, estão os
ocidentais voltados para o ecumenismo, de outro lado,
os orientais fundamentalistas e, de ambos os lados, en-
contram-se os defensores do anti-fundamentalismo, em
nome da convivência democrática entre religiões e do
consenso sobre o fim das impunidades. No meio disso
tudo, um novo terrorismo programático e moderado.
Se na sociedade de soberania se exercia o direito do
soberano de matar ou deixar viver, na sociedade disci-
plinar emergiu a era do direito de causar a vida ou dei-
xar morrer, conjugando relações hierarquizadas de po-
der de soberania pessoal e intransferível, e de poder
impessoal e móvel. Na sociedade atual também não se
suprimiram os controles anteriores, mas ampliaram-
se em função da segurança. Introduziu-se uma dimen-
são até então inimaginável ao cidadão, a da participa-

34
verve

Poder e anarquia

ção nas decisões sobre a vida do planeta e em sua res-


tauração, traduzidas em apoio às novas representações
sobre os julgamentos e sentenças negociadas em tribu-
nais. A cada um, desde a criança até o cidadão, cabe
cumprir sua parte nos cuidados, zelos e tolerâncias com
mínimas condutas e protocolos internacionais, em fun-
ção da defesa da continuidade da vida na Terra e de sua
projeção no universo, não mais compreendido enquan-
to infinitude, mas em expansão. É assim que cada um
participa da ecopolítica, voltado para a Terra, o sistema
solar, a galáxia e definitivamente o universo em expan-
são.15 Vida dos direitos em expansão, modificáveis, des-
dobráveis, infinitesimais e infinitos, mas também ine-
xeqüíveis. Vida sob os cuidados da ecopolítica transna-
cional, que suplanta a anterior fase da biopolítica
nacional.
O direito à sociedade igualitária, justa e livre, por
meio da revolução defendida por anarquistas e comu-
nistas, agora se transforma em meta contornada pela
moderação democrática exercida pelos programas ele-
trônicos — dos econômicos aos assistenciais —, parla-
mentos nacionais e internacionais, mídias e ecologia,
fiscalizados e fiscalizando indivíduos, empresas e Esta-
dos em trânsito, e sendo vigiados por indivíduos, empre-
sas e Estados transnacionais globalizados. Deseja-se na
sociedade de controle a certeza de contribuir com mo-
deração para o inacabado e crer que isso depende de
mim até o desdobramento infinito. Sob uma expectativa
de colaboração tamanha, não cabem tolerâncias com quais-
quer infrações; elas dizem respeito apenas a comporta-
mentos regráveis e organizados em uniformidades, como
confirmação do direito de domínio do superior que seleci-
ona o outro tolerável. Somente cabem tolerâncias, segundo
práticas de adesão.16 Este, mais uma vez, é o centro da
moderação, recomendada desde Aléxis de Tocqueville. E
por mais incrível que possa parecer — nesta época dos

35
12
2007

terrorismos contra-Estados, em nome de deuses, seus


novos Estados, ameaças constantes à governamentaliza-
ção geral e à universalização da democracia — até o ter-
rorismo inclui!
No passado das sociedades de soberania e de discipli-
na, as pessoas estavam expostas como súditos para a
vida e a morte; na sociedade de controle só interessa a
vida com longevidade, para o planeta e as pessoas sau-
dáveis que colaboram para a segurança da ordem pla-
netária. Não se causa a morte ou se deixa morrer, mas
se explicita a administração da mortificação, com in-
clusão. De que maneira? Os direitos chegam às mino-
rias e atingem o interior dos interceptados e dos aprisi-
onados: os loucos passam a ter direito a serem loucos; a
loucura deixa o asilo e se multiplica em postos de aten-
dimento, ainda que permaneça sendo uma doença a ser
medicada; os prisioneiros vivem semi-internações, li-
berdades vigiadas, e no interior das cadeias passam a
ter direito a amar, a ter família, sexo, direitos huma-
nos, religião, até a prisão, paradoxalmente, transformar-
se em lugar de sociabilidade de sem-tetos que vivem li-
vres. A prisão também inclui, quando não mata, silencia
definitivamente ou se transforma em empresa.17
Mundo dos direitos: a ser negro, índio, mulher, menor,
homossexual, deficiente, louco, preso, com muitos outros
direitos a participar obrigatoriamente desta sociedade
composta de indivíduos desdobrados, divíduos. A sociedade
de controle não só inclui, como rearticula o discurso da
exclusão — tão pertinente à sociedade disciplinar, e que
girou em função da obtenção de direitos ao trabalho, ao
sexo, à educação etc. — aos diversos fluxos que
deságuam em políticas afirmativas, declarações sobre
tolerâncias e disseminação da noção de coexistência,
gerando fusões uniformizadoras, que contornam as

36
verve

Poder e anarquia

diferenças estratificadas para uniformizá-las,


conservadoramente, pelo viés liberal ou socialista.
A política da democracia da diferença não está
interessada em singularidades. É a maneira de regrar
direitos constituindo zonas de tolerâncias atravessadas
por fluxos de coexistências e indulgências,
perpetuadores de desigualdades não resolvidas no
âmbito jurídico-político, e multiplicadoras de misérias
sócio-econômicas. Políticas de tolerância sustentam-
se na crença na democracia e no tribunal como lugar
definitivo do amor à obediência. Recriam a piedade pela
multiplicidade de acessos em fluxos de obtenção de
direitos e se propõem a estancar os movimentos ou
atraí-los em fluxos institucionais. Os chamados
movimentos sociais, por sua vez, sabem que não
sobrevivem sem uma relação institucional e por isso,
atuam com pouco discernimento a respeito de sua
capacidade de gerar descontinuidades e potencializar
singularidades. Acabam capturados em breve tempo.
Mesmo quando se pretendiam inventivos e propensos
a políticas menores, 18 terminam como agentes
democráticos da ordem e das penas. Este é um instante
de tomada de decisão para os anarquistas.
Diante da continuidade de prisões, crenças no fim
das impunidades, desdobramentos religiosos
simultâneos em ecumenismos e fundamentalismos,
capturas de resistências pela participação democrática
na vida eletrônica de comunicação instantânea,
moderada, inacabada e de controle contínuo, cujo alvo
é o corpo-planeta — a ecopolítica —, como responder a
uma cara questão anarquista: e a educação para a vida
livre?
Para o anarquista, é irreversível desvencilhar-se das
interpretações acabadas. Cabe-lhe voltar onde não era
possível a resposta definitiva para a revolução. E, dali,

37
12
2007

lidar com acuidade, apoiado nas análises libertárias, sem


perder a intempestividade; livrar-se da transcendência
para aprender a conviver com pensadores nocivos à ordem
e aos que abalam doutrinas.
O abolicionismo penal, na pegada anarquista, afasta-
se dos efeitos positivistas em Kropotkin, revigorando o
querer liberdade. Sabe que é impossível desejar o fim das
infrações dentro de qualquer prazo ou sociedade. Para um
libertário elas não deixarão de habitar insurgências, pois
é aí que a vida recomeça e é inventada. Todavia, lidar
libertariamente com estas insurreições é o que se espera
de anarquistas que não distinguem preso comum de preso
político e que convivem com a criança como potência de
liberdade — jamais propriedades dos próprios pais ou do
Estado. Alguns sonham com a revolução que tirará,
também, os anarquistas da prisão, e enquanto isso
escrevem-lhes cartas e prestam solidariedades familiares.
Essas coisas são pequenas, porém inevitáveis e
urgentes. Contudo, são insuficientes. Estão propensas
à grandiosidade das boas consciências à transcendência
humanista, mas, involuntariamente, embalam-se no
hinário conformista.
Vivemos um tempo em que prepondera o inacabado;
em que os prisioneiros organizados preferem transformar
a prisão em Estado e empresa (Comando Vermelho,
Partido do Primeiro Comando da Capital), em vez de
provocar sua demolição. Era dos negócios, diplomacias
e da prisão como lugar de sociabilidades, de integração
de cidadãos miseráveis livres por meio de visitas, sexo,
casamentos, e empreendimentos. Diante de tantos
negócios, de perdedores radicais,19 normais normalizados,
moderados e de espetáculos de liberdade, abolir a prisão,
antes de qualquer coisa, é uma ação que começa com
a abolição do castigo em si mesmo e impedimento de
encarceramentos — já!

38
verve

Poder e anarquia

Não há anarquia social que não comece com a pessoa.


Ela não se inicia com o acesso à doutrina, com o
intercessor de consciências, com o olhar para o horizonte.
(Lá na imensidão o que se imagina ver pode ser apenas
um simulacro de horizonte.) Castigo, prisão e pena não
são coisas que mudam com a retórica, sustentando uma
mudança moral. Escoram-se, modernamente, em
direitos universais, prevenção geral, defesa da sociedade
e, sob o capitalismo ou socialismo, ditadura ou
democracia, reproduzem uma justiça de minoria elevada
à condição de maioria jurídico-política ou político-social.
Diante deste fluxo eletrônico que configura e re-
configura a sociedade de controle, a todo momento, o
que mais surpreende é o efeito da pletora de direitos
que funcionam para incluir minorias contestadoras em
uma institucionalidade conservadora moderada. Nas
periferias ou comunidades, assumem, aos poucos, o
primeiro plano do controle não repressivo as lideranças
minoritárias organizadas em elites, segundo a
institucionalidade da sociedade de controle. Enfim,
democratizou-se a elite também, em favor de uma
institucionalização elitista do conflito democrático.
Regradas por políticas afirmativas, e dispositivos de
captura, as periferias passam a funcionar como campos
de concentração com controle próprio. Se a sociedade
disciplinar recrutava policiais entre a população suspeita
para reprimir a sua parte ruim, e no limite a confinava
temporariamente em campos de concentração, a sociedade
de controle promoveu nova normalização criando
condições para o auto-governo dos assujeitados. O mundo
mudou, as periferias também. Mas sem dúvida alguma
não são apenas elas que se governam pela matriz do
campo de concentração. As periferias são o lado sombrio
dos condomínios, dos empreendimentos fechados, dos
suntuosos balneários. O campo de concentração deixou
de ser um lugar de prender os diferentes insuportáveis,

39
12
2007

criminosos e os subversivos. Deixou de ser um espaço


circunstancial para poupar populações estrangeiras em
situação de guerra. Não é mais lugar de exploração pelo
trabalho obrigatório e escravo, como no socialismo
autoritário. É também espaço para um estilo de vida
moderado e conservador que abarca a periferia e seu
entorno socialmente heterogêneo. Mas, como todo campo
de concentração, a qualquer momento pode passar a ser
campo de extermínio.
A ordem ainda sabe que sua perpetuação precisa da
reforma constante dos costumes. Seus políticos,
empresários, intelectuais e agentes de governo lêem
Maquiavel. Os anarquistas também sabem que
inventando costumes libertários se educam crianças e
jovens livres. Eles lêem Etienne de La Boétie, jovem
libertário autor do mesmo século XVI em que viveu o
italiano gramático do poder. Há um confronto inevitável
entre estilos de vida do qual nenhum embate
revolucionário social consegue dar conta.
Permanece o inacabado, como a anarquia e os
anarquismos. Eles são fluxos de resistências na sociedade
de controle. Mais do que isso, são linhas de fuga, máquinas
de guerra que não podem temer que é preciso deixar esta
sociedade morrer. Desde a modernidade, a sociedade (de
soberania, disciplinar e agora de controle) não deixa de
produzir acoplamentos e incluir (a comunidade, os povos
ameríndios e etnias descobertas), em nome de sua
continuidade e da humanidade. Porém, a sociedade e a
humanidade, a cada tentativa de equacionamento e
superação (feudalismo por capitalismo e este por
socialismo), combinam e repõem governos do Estado para
a sociedade, e desta para o Estado. Não basta somente
querer a morte do Estado, sua abolição etc, e tal; é preciso
deixar a sociedade morrer. Para isso é preciso também deixar
de ser humanista e não colocar nada em seu lugar. Se o
anarquista sempre soube, desde Proudhon, que nada é

40
verve

Poder e anarquia

eterno e muito menos contínuo, não há porque esperar


por uma sociedade igualitária no futuro. É preciso acabar
com ela já! Esta é uma obra de destruição!

O que esperamos na ágora reunidos?


É que os bárbaros chegam hoje
...
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros, o que será de nós?
Ah! Eles eram uma solução.

Konstantinos Kaváfis

Notas
1
Cf. Piotr Alexeyevich Kropotkin. Russian and french prisons. Londres, Ward an
Downey, 1887. Kropotkin, de maneira positivista chega a elogiar Pinel como o
libertador dos loucos.
2
Nesta época os anarquistas criaram a associação Cruz Negra Anarquista, para
tornar públicas as práticas de repressão e aniquilamento dos bolchevistas contra
eles. Cf. Acácio Augusto. “Os anarquistas e as prisões: notícias de um embate
histórico”, in Verve. São Paulo, Nu-Sol, 2006, v. 9, pp. 129-141.
3
Cf. Loïc Wacquant. As prisões da miséria. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro,
Jorge Zahar Editor, 2003.
4
Cf. Michel Foucault. Securité, population, territoire. Paris, Gallimard/Seuil, 2004; e
Naissance de la biopolitique. Paris, Gallimard/Seuil, 2004.
5
Cf. Pierre-Joseph Proudhon. De la capacité politique des classes ouvrières. Paris,
Marcel Rivière, 1924.
6
Cf. Pierre-Joseph Proudhon. “Sobre o princípio da associação”, in Verve. São
Paulo, Nu-Sol, 2007, v. 11, pp. 44-74.

41
12
2007

7
Cf. Max Stirner. O único e a sua propriedade. Tradução de João Barrento, Lisboa,
Antígona, 2004.
8
Cf. Jean Maitron. “Émile Henry, o Benjamin da anarquia”, in Verve. São Paulo:Nu-
Sol, v. 7, 2005, pp. 11-41.
9
Cf. Edson Passetti. “Pensamento libertário, terrorismos e tolerância”. Lisboa,
Coleção Papers, 2007, 25 fls. http://pascal.iseg.utl.pt/~socius/publicacoes/wp/
wp200702.pdf. Edson Passetti e Salete Oliveira (orgs.). Terrorismos. São Paulo,
Educ, 2006.
Ver em especial, Richard Sennett. A cultura do novo capitalismo. Tradução de Clóvis
10

Marques. Rio de Janeiro, Record, 2006.


11
Cf. Edson Lopes da Silva Junior. Política e segurança pública, uma vontade de sujeição.
São Paulo, PUC-SP, dissertação de mestrado, 2007.
12
Cf. Michel Foucault. “O olho do poder”. In Microfísica do poder. Organização e
tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro, Graal, 1979, pp. 209-227.
13
Cf. Edson Passetti e Salete Oliveira “Foucault e o libertarismo”, Campinas,
Unicamp, v.3 (dezembro/2006- março/2007), 14 fls. http://www.unicamp.br/
~aulas/pdf3/32.pdf . Cf. Daniel Colson. Petit léxique philosophique de l’anarchisme.
De Proudhon à Deleuze. Paris, Le Livre de Poche, 2001; Salvo Vaccaro. “Foucault e
o anarquismo”, São Paulo, EDUC, in Revista Margem, v. 5, pp. 157-170 e Todd
May. “Pós-estruturalismo e anarquismo”, Idem, idem, pp. 171-186.
14
Cf. Giorgio Agamben. Hommo Saccer. O poder soberano e a vida nua. Tradução de
Henrique Burigo. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2004; Carl Schmitt. Teologia
política. Tradução de Elisete Antoniuk. Belo Horizonte, Del Rey, 2006.
15
Cf. Ana Lucia Godoy Pinheiro. A menor das ecologias.... São Paulo, PUC-SP,
doutorado em Ciências Sociais, 2004; EDUSP (no prelo).
16
Cf. Salete Oliveira. “A grandiloqüência da tolerância, direitos e alguns exercícios
ordinários”, in Verve. São Paulo, Nu-Sol, 2005, v. 8, pp. 276-289; e “Tolerância e
conquista, alguns itinerários na Declaração Universal dos Direitos Humanos”, in
Verve. São Paulo, Nu-Sol, 2006, v. 9, pp 150-167.
Cf. Edson Passetti. “Ensaio sobre um abolicionismo penal”, in Verve. São Paulo,
17

Nu-Sol, 2006, v. 9, pp. 83-114.


18
Cf. Edson Passetti. Éticas dos amigos, invenções libertárias da vida. São Paulo, Imagi-
nário, 2003. Mauricio Lazzaratto. Por una política menor. Madrid, Traficantes de
Sueños, 2006. Michel Onfray. A política do rebelde. Tradução de Mauro Pinheiro. Rio
de Janeiro, Rocco, 2001.
19
Sobre perdedores radicais agrupados como os terroristas recentes ou individua-
lizados como serial killers e outros, conferir Hans Magnus Enzensberger. El perdedor
radical. Barcelona, Anagrama, 2007.

42
verve

Poder e anarquia

RESUMO

Análise de efeitos, histórico-políticos, do conservadorismo


moderado, subjacente à proliferação de direitos inexeqüíveis; ao
deslocamento do gerenciamento das “políticas públicas” do Estado
para as ong’s; à captura de resistências pela participação
democrática em fluxos de controle e ao redimensionamento do campo
de concentração. Diante da exposição dos desdobramentos de
programas de segurança coloca, simultaneamente, um problema
para a atualidade anarquista ao afirmar a urgência da abolição do
castigo e da moral que sustentam o equilíbrio dos medos e das
sujeições.

Palavras-chave: Sociedade de controle, prisão, anarquia

ABSTRACT

Analysis of the historical-political effects of the moderated


conservatism under the proliferation of non-enforceable rights, the
shift from public policies’ management from the state to NGOs, the
seizure of resistances through democratic participation in fluxes
of control, and the new dimensions of the concentration camp. In
the presence of the developments of security programs, a problem
for the actuality of anarchism is presented, when it affirms the
urgency in the abolition of punishment and moral, which sustain
the balance of fears and subjections.

Keywords: sociery of control, prison, anarchy.

Recebido para publicação em 5 de março de 2007. Confirmado em


4 de junho de 2007.

43
12
2007

dar forma a nós mesmos:


sobre a filosofia da arte de viver em
nietzsche1

wilhelm schmid*

Nota introdutória, por Alexandre Alves2

Este texto do Prof. Wilhelm Schmid, inédito em


português, propõe uma nova leitura do pensamento de
Nietzsche, sob o prisma da estética da existência. Apesar
de ter sido publicado há quinze anos, ele preserva toda a
sua atualidade, apresentando Nietzsche não somente
como crítico dos valores e destruidor de ídolos, mas como
um pensador que propõe uma nova ética, uma ética da
imanência que se manifesta na forma de uma nova arte
de viver. Numa época como a nossa, marcada pela
devastação ambiental, pelo recrudescimento das guerras
e pelo extemporâneo “retorno da religião”, Schmid utiliza
a fórmula do eterno retorno de Nietzsche para

* Ensaísta alemão, professor na Universidade de Erfurt e autor do livro Die


Geburt der Philosophie im Garten der Lüste. Michel Foucault. Archäologie des
platonischen Eros [O nascimento da filosofia no jardim do prazer. A arqueologia do Eros
platônico de Michel Foucault], Berlin, Surhkamp, 2000.
verve, 12: 44-64, 2007

44
verve

Dar forma a nós mesmos

questionar: que tipo de vida nós devemos levar para


desejar que ela se repita eternamente? E isso nos conduz
a um novo imperativo ético-existencial, que põe nosso
futuro em questão: devemos viver de tal forma que
queiramos viver do mesmo modo novamente.
Nas notas de rodapé, optamos por utilizar as siglas em
português dos títulos das obras de Nietzsche citadas no
texto: HH — Humano, demasiado Humano; A — Aurora; Co.
Ext. — Considerações Extemporâneas; GC — A Gaia Ciên-
cia; BM — Para além de bem e mal; GM — Genealogia da
Moral. A única exceção é KSA — Kritische Studienausga-
be, edição crítica das obras de Nietzsche, em 15 volu-
mes, organizada por Colli e Montinari.
Agradecimentos especiais ao Prof. Wolfgang Aurba-
ch, com quem trabalhei e discuti este texto, pelos preci-
osos esclarecimentos, sugestões e correções nesta tra-
dução. Agradeço também à Profª Margareth Rago pelas
correções na primeira versão da tradução.

***

Seja qual for o lugar a que cheguemos — Nietzsche


ri. Ele já estava lá. Evidentemente essa também é a
experiência que fazemos quando nos voltamos para a
temática da arte de viver, que hoje entra no nosso cam-
po de visão, uma vez que as éticas e as doutrinas mo-
rais convencionais perderam sua obrigatoriedade, en-
quanto os desafios tecnológicos e ecológicos de nossa
época exigem novas técnicas de existência. Estamos
diante do problema de ter que encontrar uma atitude e
um comportamento diante de um sem-número de situ-
ações novas e estranhas, para as quais a nossa cultura
ainda não disponibilizou modelos.

45
12
2007

Nietzsche visualizou claramente o problema; ele sa-


bia que esta questão se colocaria, pois: “Para quem, de
um modo geral, existe ainda algo rigorosamente obriga-
tório?”3 A resposta, nesta época de descomprometimento
[Unverbundenheit], de informalidade, ele a encontra no
trabalho sobre uma nova arte de viver. Mas, arte de viver
não significa aqui o que se entende correntemente por
esta expressão: não se trata de uma vida de prazer per-
manente, da sensação de felicidade entediada, da vida
elegante na sociedade. Arte de viver significa apenas fa-
zer de sua própria vida objeto de uma espécie de saber e
de arte. Nietzsche conhece os dois elementos dos quais,
segundo essa definição, se constitui em princípio uma
filosofia da arte de viver: filosofia enquanto forma de vida
e arte de viver praticada; filosofia enquanto reflexão so-
bre esta práxis — filosofia, enfim, no ponto de intersec-
ção entre pensamento e existência. Devemos enten-
der, de um modo geral, por arte de viver a capacidade de
conduzir a própria vida; ela abrange um elenco de práti-
cas, técnicas e tecnologias, uma ascética e uma esti-
lística. E está ligada ao trabalho: “Temos que trabalhar,
se não por gosto, então ao menos por desespero, pois
tudo bem pesado, trabalhar é menos tedioso do que se
distrair.”4

A Genealogia da Moral e o trabalho sobre si

A filosofia da arte de viver assume em Nietzsche a


tarefa da moldagem do sujeito que se liberta da moral.
Moral, em termos gerais, é o juízo de valor produzido
com base em esquemas fixos de avaliação (por exemplo,
“bem e mal”) e do qual são derivadas normas obrigatóri-
as. Nietzsche revela as relações de poder que se ocul-
tam por trás da moral e que nela se acham inscritas.
Ele também se interessa pela investigação das condi-
ções sob as quais surgem a moral e os valores, para com

46
verve

Dar forma a nós mesmos

isso trabalhar de outra maneira e alcançar uma inver-


são das relações de poder, como se manifestam na auto-
constituição do indivíduo livre. Pois a moral deve ser dis-
tinguida da ética que, conforme o conceito aristotélico
de ethos, aplica-se ao indivíduo. Uma ética no sentido
da arte de viver e de uma práxis da liberdade coloca-se
no lugar da moral que se tornou obsoleta. Nietzsche, que
costuma ser percebido como destruidor da moral e dos
valores, é essencialmente um pensador ético.
A genealogia da moral tem o objetivo de preparar o
advento do indivíduo livre, que é capaz de desligar-se da
moral. Trata-se, neste caso, de uma discussão, que é
difícil admitir que um dia possa ser encerrada: o siste-
ma dos condicionamentos e normatizações, aos quais o
sujeito está subordinado, não é fácil de ser desativado.
Mesmo assim, Nietzsche empreende a genealogia da
moral, esse trabalho de esclarecimento [Aufklärung], não
sem ter um esboço daquele indivíduo livre, que através
do trabalho da genealogia se torna livre para dar forma
a si próprio e que, com isso, também corresponde àque-
la outra reivindicação do esclarecimento [Aufklärung]:
aprender a governar a si mesmo e não ceder a outros o
cuidado consigo. Para Nietzsche, trata-se do “homem da
vontade própria independente e duradoura”. Esse é o
homem que pode “dar garantias” de si mesmo, ou seja,
que estabelece seus próprios valores e tem condições
para tal. Esse indivíduo soberano é caracterizado pelo
“poder sobre si mesmo”; a medida de seu autodomínio
está na proporção exata de sua aptidão para a responsa-
bilidade.
A configuração estética de si próprio é o projeto opos-
to à existência moral, normalizada, e marca também
um novo conceito de arte, que consiste em dar uma for-
ma a si mesmo. Nietzsche fala com freqüência da “for-
ma de existência” [Daseinsform] — forma que os indiví-

47
12
2007

duos cunham e que habitualmente tem a forma de uma


convenção, ou é uma instituição formal ou informal. A
criação da forma individual de existência deve ser dis-
tinguida disso, pois é a tarefa de uma filosofia da arte de
viver. A ética da condução da vida e da práxis da liberda-
de substitui a moral, que foi imposta ao indivíduo a par-
tir de uma instância codificadora, seja ela Igreja ou Es-
tado. Na concepção desta ética, fala-se bastante em res-
ponsabilidade e em experimentação [Versuch], mas não
em culpa, que é o conceito central da moral cristã. Po-
demos acrescentar outros conceitos: veracidade, hones-
tidade intelectual, autoconhecimento (no sentido dos
antigos), autocrítica, auto-superação: o eu [Das Selbst]
está no centro desta ética, assim como a aptidão para a
transformação de si próprio.
Assim, Nietzsche descobre o tema das práticas de si,
da auto-moldagem do indivíduo. A relação com os outros
é incluída no pensamento desde o princípio e é consti-
tutiva dessa relação consigo mesmo, por isso seria ab-
surdo falar de um individualismo ou até de um egoísmo.
É muito mais importante que o sujeito “modele, a partir
de si mesmo, alguma coisa que será vista com prazer
pelo outro.”5 O indivíduo se esforça para “dar uma dire-
ção a si mesmo.”6 No lugar do “eu autêntico” coloca-se
agora o trabalho sobre si, que não está dado a priori. A
reflexão em torno de Aurora com certeza tem isso em
mira: “É mitologia acreditar que encontraremos nosso
eu autêntico, após termos deixado ou esquecido isto ou
aquilo. Assim nos desenrolamos para trás até o infinito:
mas, fazer-nos a nós mesmos, moldar uma forma a par-
tir de todos os elementos — essa é a tarefa! Uma tarefa
de escultor! De um homem produtivo! Não é através do
conhecimento que nos tornamos nós próprios, mas atra-
vés de exercício e de um modelo! O conhecimento, no
melhor dos casos, tem o valor de um meio.”7

48
verve

Dar forma a nós mesmos

Quando a configuração [Gestaltung] de si é tematizada


em Nietzsche, será que faz sentido jogar um contra o
outro: o Nietzsche “apolíneo” contra o Nietzsche “dionisí-
aco”? Ao considerar que aqui não se trata de opostos em
sentido estrito, mas de perspectivas distintas que se so-
brepõem, é verdade, portanto, que lidamos com um des-
locamento de perspectivas. No primeiro livro de Aurora, o
próprio Nietzsche não combate aqueles para os quais o
estado de embriaguez aparece como a “verdadeira vida”
e como o “eu autêntico”? Nesta perspectiva, o fundamen-
to dionisíaco da existência (tal como pode ser vivenciado
no prazer sexual, por exemplo) converte-se em meio de
estimativa e instrumento da arte apolínea de viver. Com
a medida apolínea, que sempre volta a se estilhaçar con-
tra a desmedida dionisíaca; com a atitude, que se forma,
de poder, também perder-se novamente; com a consti-
tuição de si, que sempre é posta novamente em questão
na experiência da alteridade, trata-se, por fim, de for-
mar-se e transformar-se. O conceito do si não é de identi-
dade, mas de transformação: a forma enrijecida deve ser
rompida através de uma transformação; a configuração
final do sujeito deve ser estilhaçada através da experi-
ência sem fim, que é sempre a experiência do outro em
qualquer sentido que se tome a palavra. Desta forma,
constitui-se um sujeito que se distingue pela mutabili-
dade e pela multiformidade; um eu plural e não, por con-
seguinte, um sujeito da identidade: ser sempre idêntico a
si próprio e sempre o mesmo impede a intromissão do
outro e impossibilita qualquer mutação. O sujeito da iden-
tidade não pode mais ser mantido hoje: ele se rompe,
pressionado, por um lado, pela enxurrada de signos e in-
formações, que nos avassala diariamente e nos põe em
questão e, por outro lado, pela necessidade premente de
viver e de comportar-se de outra maneira, a fim de tor-
nar possível uma cultura ecológica. Nós vivemos a mor-
te do sujeito neste sentido preciso.

49
12
2007

Mas isso não significa o fim do sujeito. Se o sujeito da


identidade chega ao fim, se não há mais sujeito subs-
tancial, sujeito como fundamento imutável de nossa
relação com nós mesmos e com o mundo, então está
aberto o espaço para aquele sujeito, que deve configu-
rar-se artisticamente a partir do zero; um sujeito da
experiência e da experimentação. Este eu não é “au-
têntico”. Esta auto-constituição não é uma “auto-reali-
zação” — ela não tem nenhuma relação com um si, que
teria que ser primeiro rastreado em alguma profundi-
dade onde ele residiria, desconhecido de si mesmo. Em
vez de procurar a si próprio ou de render-se às práticas
de normalização, trata-se de primeiro fabricar a si mes-
mo. Isso envolve a elaboração do eu como uma obra de
arte. O sujeito que se compreende como uma obra de
arte, não quer mais descobrir-se a “si mesmo” em toda
a verdade e pureza, não quer liberar o homem em seu
“ser autêntico”, mas inventar e elaborar a si mesmo. A
conhecida sentença de Nietzsche, segundo a qual a for-
ma se coloca no lugar do conteúdo, será aplicada à exis-
tência também por ele mesmo, “pois doravante o con-
teúdo torna-se algo puramente formal — incluindo nos-
sa vida.”8

O livro nietzschiano da arte de viver

Mas a concepção de um trabalho sobre si, que per-


tence à filosofia da arte de viver em Nietzsche, não se
encontra pela primeira vez em Aurora. Um aspecto da
segunda das Considerações Extemporâneas (“Sobre a uti-
lidade e a desvantagem da História para a vida”) já deve
ter sido decisivo para o desdobramento da temática.
Neste escrito, Nietzsche faz a crítica de um saber que
só existe em função de si próprio e não visa à formação
e à moldagem do homem. O saber, diz Nietzsche, deve-
ria converter-se em formas e não permanecer somente

50
verve

Dar forma a nós mesmos

como conteúdo enciclopédico. O saber torna-se vida efeti-


va, não em alguma “interioridade”, mas na exterioridade
da forma, e é tarefa da filosofia fazer essa mediação, se ela
não quiser continuar sendo o “monólogo erudito do cami-
nhante solitário”.9 Disso resulta que o sujeito epistêmico e
substancial da história da filosofia tem que ser comple-
mentado pelo sujeito ético e ascético das práticas de si. Ni-
etzsche exige que o homem “acima de tudo aprenda a vi-
ver”, e para ele, trata-se de conceber a condução da vida
como um ofício, e acentuar a necessidade de exercício
incessante: “Sim, como se a própria vida não fosse um
ofício, que deva ser exercitado desde o princípio e aprendi-
do constantemente sem se poupar.”10
Nas terceira das Considerações Extemporâneas (“Scho-
penhauer como educador”) continua a ser desenvolvido o
pensamento de uma filosofia da arte de viver: que a filoso-
fia tenha que desaprender a ser “ciência pura”, e o próprio
filósofo tenha que dar um exemplo de condução da vida:
“Mas o exemplo deve ser dado pela vida visível e não sim-
plesmente através de livros, ou seja, da forma como ensi-
navam os filósofos da Grécia, através de fisionomia, pos-
tura, vestimenta, alimentação, costumes mais do que
através de discursos ou até mesmo escritos.”11 Aprender
algo não consiste na acumulação de informações, mas na
seleção daquilo que é importante para a própria vida, e na
incorporação desse saber. Enquanto toda educação moder-
na não tem em vista nada além do ideal do homem teóri-
co, assim escreve Nietzsche, após 1886, no novo prefácio
ao Nascimento da Tragédia, numa cultura futura deveria
acontecer uma fusão entre sujeito teórico e sujeito esté-
tico. Sua fórmula para isto é “ver a ciência sob a ótica do
artista, mas a arte sob a ótica da vida...”
O trabalho sobre si ocorre com o auxílio de exercícios,
e o ofício de viver é uma questão de exercício. Mas o con-
ceito do exercício e da atividade de auto-modelagem sem-

51
12
2007

pre foi idêntico ao conceito de ascese. A ascese é o tra-


balho que se efetua sobre si mesmo. Askesis é a palavra
grega que designa a prática e o exercício repetido, o cui-
dado e o esmero com os quais se executa alguma coisa.
Pode se referir ao exercício físico ou designar o modo de
vida dos atletas. Quem pratica a askesis, exercita-se e
se instrui, empenha-se por alguma coisa e se educa. O
conceito de ascese — que ele tantas vezes apresentou
pejorativamente, para polemizar contra a apropriação
cristã e o desvirtuamento do conceito, à qual ainda hoje
estamos acostumados — é retomado por Nietzsche. De-
veria ser tarefa de toda formação e educação ensinar algo
da “ascética prática”, que era própria de todos os filósofos
gregos, para finalmente alcançar “um savoir-faire efeti-
vo [ein wirkliches Können],12 uma faculdade nova”.13 Nem
o melhor saber poderia substituir o exercício, “que deve
ter a precedência, para que algo de uma representação
possa ser transformado em ação. Acima e antes de tudo
as obras! Isso significa: exercício, exercício e mais exer-
cício!”14 A afirmação da ascese por Nietzsche é contra-
posta à ascese moralmente motivada, que ele analisa
na terceira dissertação da Genealogia da Moral. Ele gos-
taria de “naturalizar novamente a ascética.”15 A ascese
é a práxis da liberdade; liberdade entendida não apenas
como um direito, mas, o que talvez seja mais importan-
te, como um savoir-faire.
Sob o aspecto do trabalho sobre si e da ética como arte
de viver, entra a seguir no nosso campo de visão a Gaia
Ciência. Ela se mantém completamente sob a perspectiva
de uma nova arte de viver; é o livro nietzscheano da
arte de viver. Também os fragmentos póstumos mostram
nitidamente, pela periferia, como Nietzsche nesta época
se questiona en détail sobre as formas e artes da vida,
rejeita com desprezo toda forma impessoal da vida, faz
reflexões sobre dietética, chama a atenção para a
divisão do dia assim como da vida como um todo e para a

52
verve

Dar forma a nós mesmos

finalidade da vida, a fim de dar uma forma para sua própria


vida. Ele recorda-se das escolas filosóficas antigas, “nas
quais uma quantidade de técnicas da sabedoria da vida
era exercitada a fundo e pensada até o fim” e cujos
resultados e experiências precisam ser retomados.16 A arte
de viver antiga servia para bem conduzir sua vida; facilitar
a aquisição desse savoir-faire era e tarefa mais premente
da filosofia.
A ocupação com a antigüidade leva Nietzsche a
reapropriar-se dos topoi da arte de viver. No prefácio à
segundo edição da Gaia Ciência de 1887, que também é
retomado no epílogo de Nietzsche contra Wagner de 1888,
ele reforça mais este aspecto e recorda sobre os gregos:
“Eles entendiam disso, de viver”. Por essa frase deve
entender-se, como se evidencia uma resposta específica
à pergunta pelo fundamento, pois consentir à vida significa
“manter-se corajosamente na superfície, na dobra, na
epiderme.” Que a atividade de ir ao fundo das coisas não
chegue ao objetivo, que ela não seja empreendida (os gregos
eram superficiais por profundidade), indica tanto mais
decisivamente para a necessidade de configurar a
existência, de conferir-lhe formas [Formen], visto que sua
configuração [Gestalt] não é dedutível de fundamentos
últimos e também não está sujeita a uma determinação
definitiva. A pergunta pelo fundamento, que para o sujeito
filosófico tradicional tinha significado basilar, deve
subordinar-se à pedra de toque da arte de viver: “Perecemos
sempre que vamos aos fundamentos das coisas.”17
Nietzsche coloca, sob esse aspecto, Aristóteles em
comparação com os epicuristas: a filosofia aristotélica
como “a arte de descobrir a verdade”, de um lado, contra a
filosofia epicurista como “‘uma arte da vida’”, de outro
lado.18 Para aqueles que não crêem mais na verdade,
coloca-se a tarefa de serem artistas, “adoradores de formas”.
A Gaia Ciência, é importante ressaltar, é tanto o livro
de uma inflexível vontade de saber, quanto o livro de

53
12
2007

uma nova arte de viver. A vontade de saber deve ser


complementada por uma arte de viver; é preciso que
“ao pensamento científico se juntem também as facul-
dades artísticas e a sabedoria prática da vida.”19 Isso é
relevante, pois os dois aspectos, a inflexível vontade de
saber e a questão prática da arte de viver devem coinci-
dir numa filosofia da arte de viver. Senão, corremos o
risco de permanecer no plano dos atletas — para recor-
dar esta reflexão de Nietzsche —, que trazem demais
para o primeiro plano os aspectos corporais, num senti-
do estrito, de uma arte da vida: “Levar a sério as peque-
nas coisas que nos rodeiam e promover o homem no
aspecto corpóreo — ver como nele então cresce uma
ética — aguardar! As necessidades éticas devem ser na
medida do nosso corpo! — Mas os atletas!”20

A fórmula “uma só coisa é necessária”

Nietzsche concebe a vida do homem, o homem


mesmo, como uma obra de arte, na qual reflexão e práxis,
ascética e estilística desempenham um papel
igualmente essencial. O aforismo 290 da Gaia Ciência
formula explicitamente o lema para isso: “Uma só coisa
é necessária. — ‘Dar estilo’ a seu caráter — uma arte
grande e rara!” Nesse aforismo fala-se do plano artístico
e da obra, de “exercício demorado e trabalho diário”. O
ideal de Nietzsche é o da individualidade estilizada. A
arte de dar estilo a seu caráter, pratica-a aquele que
“abrange com a vista tudo o que sua natureza oferece
em termos de forças e fraquezas, e então as adapta a
um plano artístico, até que o todo apareça como arte e
razão”. A metáfora para essa moldagem de si mesmo
costuma ser o jardim, que recebe sua beleza da tensão
entre natureza inculta e estilização consciente pelo
homem (naturalmente conhecemos a eterna polêmica
em torno da proporção certa de mistura). Sempre

54
verve

Dar forma a nós mesmos

aparece novamente essa comparação: cultivar-se a si


mesmo como um jardim. “Naturezas fortes buscam
estilizar a si próprias e se alegram com analogias (nas
artes, nos seus jardins)”, diz-se num esboço do aforismo
290; mas a “incapacidade para se dominar gostaria de
se disfarçar de natureza livre.”21
A necessidade da configuração de si mesmo tem sua
razão de ser, finalmente, em escapar do ressentimento
— em todo caso, a fórmula “Uma só coisa é necessária”
ressurge neste sentido inesperado na Genealogia da
Moral (III, 16): enquanto conceito oposto ao ressentimento.
Esta mesma fórmula também pode ser encontrada
outras vezes nas cartas de Nietzsche, por exemplo, na
carta escrita à irmã de Sils-Maria, em 18 de agosto de
1881. A fórmula “Uma só coisa é necessária” visa
estabelecer a necessidade da configuração de si mesmo,
em vez de acreditar no si como num fato consumado.22
Ela aponta para a estética da existência — estética não
no sentido de uma beleza clássica ou de uma teoria do
belo, e sim no sentido de “configuração” [Gestaltung].
Esta configuração não significa já per se o seu êxito,
mas pode incluir também o seu malogro: a arte das
vanguardas do século XX desenvolveu amplamente o
conceito de estética nesta direção. Na Gaia Ciência,
Nietzsche fala da configuração de si mesmo como um
fenômeno estético e também do emprego da arte para a
elaboração de uma arte de viver: “Enquanto fenômeno
estético, a existência nos é ainda e sempre suportável,
e para isso, nos são dados através da arte olhos e mãos
e, sobretudo, a boa consciência, para que possamos fazer
de nós próprios um tal fenômeno.”23 Aprender com os
artistas algo sobre procedimentos e perspectivas
originais, a fim de transportá-los à vida, Nietzsche
entende como contra-projeto à existência determinada
pela norma a moral e o dever — “Mas nós queremos ser
os poetas de nossas vidas, e em primeiro lugar nas coisas

55
12
2007

menores e mais corriqueiras.”24 A ótica do artista traz


consigo a obrigação de não manejar esta atividade com
negligência, mas ambicionar tornar-se um mestre em
seu ofício, “num respeito profundo diante de toda espécie
de mestria e competência.”25
A existência não pertence às categorias da moral,
mas é algo do gênero de uma obra de arte. Os maiores
esforços devem ser empregados “em si mesmo enquan-
to obra.”26 Também para isso serve a estética do cria-
dor: para a configuração da própria vida como obra de
arte. Nietzsche testa incessantemente sobre si mesmo
e aplica a sua própria vida a máxima da existência como
obra de arte. A fórmula “Uma só coisa é necessária” é a
sentença condutora27 de seu próprio estilo de existên-
cia. A arte de viver é, para ele, o modo no qual pode se
realizar a gratidão pela vida. Uma gratidão que não per-
manece uma simples profissão de fé, mas que se efeti-
va na própria existência: isto significa pôr à disposição
da vida formas nas quais ela possa encontrar expressão
e plenitude.
Sobre sua própria arte de viver, Nietzsche manifesta-
se pormenorizadamente nas cartas,28 e naturalmente no
Ecce Homo. Quão sistematicamente ele projeta a estética
de sua existência, mostra-se em sua exposição do “Pro-
grama de minha vida.”29 A inventiva concepção de sua
própria arte de viver, na qual ele labora incessantemente
e com a qual ele experimenta, abrange toda uma dietéti-
ca, “arranjada conforme as necessidades mais particula-
res” e organizada visando um “ótimo de existência.”30 Ele
entende sua arte de viver igualmente no sentido da anti-
güidade como arte de curar [Heilkunst]: ele quer ser seu
próprio médico, “e os homens ainda irão dizer que fui um
bom médico — e não somente para mim mesmo.”31 “Toda
arte, toda filosofia deve ser encarada como meio de cura
e de auxílio a serviço da vida que cresce e que luta”, diz-

56
verve

Dar forma a nós mesmos

se a esse respeito na Gaia Ciência (370). Os elementos


desta arte de viver lembram com freqüência o cinismo
antigo (a postura crítica em relação à cultura, a palavra
franca) ou o estoicismo: a maneira de viver como “vir obs-
curissimus”,32 como Nietzsche se intitula na carta de Sils-
Maria a Ferdinand Avenarius, de 10 de setembro de
1887, correspondente ao estóico lathe biosas.33
Nietzsche é o filósofo da arte de viver; ele a reflete e
pratica. A tematização geral da filosofia como arte de vi-
ver é complementada pela questão mais precisa do como.
Ele trata do modo de constituição do sujeito, da relação
consigo mesmo e com os outros, da necessidade da es-
colha pessoal, da função da relação com a verdade, da
tarefa do exercício permanente, da possibilidade da con-
figuração da vida individual e do cultivo da morte, sem o
que a existência não tem nenhum valor. Ele realiza o
trabalho da escrita filosófica, que é o medium do traba-
lho de si sobre si, da auto-estilização; seus escritos sem-
pre são simultaneamente fragmentos de uma autobio-
grafia. Dois procedimentos marcantes da arte de viver,
que ele pratica e reflete, são o rir (embora ele quase
nunca tenha sido visto rindo) e o calar-se.
E finalmente, esta filosofia da arte de viver conden-
sa-se em máximas e sentenças, como é usual desde os
antigos: para examinar se podemos viver com a verdade
de um pensamento; para carregar uma proposição pe-
las ruas e pela vida e ver o que acontece com ela. Trata-
se da condensação de uma experiência, de uma intuição
[Einsicht], de uma tese numa sentença, que nós mesmos
formulamos ou que descobrimos e utilizamos. De signifi-
cado especial para Nietzsche é, por exemplo, a frase que
ele deve a Lou Von Salomé, tirada do “Hino à vida”, e
que ele até musicou;34 um apelo, um grito dirigido à vida:
“Não tens mais nenhuma felicidade para me dar, pois
bem! Ainda tens teu sofrimento...”35 Uma sentença como

57
12
2007

essa pode converter-se em ponto de cristalização e ca-


talisador de toda uma arte de viver. A experiência que
se faz com ela constitui sua “verdade” e se relaciona
fortemente com o corpo: podemos tanto ficar doentes
com um pensamento como esse, quanto nos curarmos
com um outro. Daí o significado da fórmula que nos
acompanha pela vida: podemos tanto nos perder com
uma proposição, quanto nos encontrarmos com uma
outra.
Nietzsche introduz o tipo do filósofo artista, vincula-
do a um novo conceito de arte: o filósofo-artista é aque-
le que “se configura a si mesmo.”36 Em Aurora, fala-se
do artista no qual o pensador se converteu, mas Niet-
zsche também vê motivo para distanciar o conceito do
mal-entendido do “sibaritismo” [Genüsslichkeit] e da “ir-
responsabilidade” [Gewissenlosigkeit] dos artistas. O
artista é aquele que entende da “destreza da sabedoria
da vida”. Nisso reside, por fim, a resposta à questão: o
que significa viver filosoficamente hoje? Significa le-
var uma existência experimental. O filósofo é aquele
que sente a “carga e o dever de cem tentativas e tenta-
ções da vida” — ele investe toda a sua existência na
experimentação, “ele se arrisca constantemente;”37 ele
é o inventor de possibilidades de vida. O ensaio, a ex-
perimentação é, sem dúvida, o traço fundamental de
uma ética que reside decididamente para além de bem
e mal. Os filósofos do futuro, acreditava Nietzsche, se-
riam talvez tentadores [Versucher]. O que lhe importa,
porém, não é apenas a existência dos filósofos, mas de
um modo geral, a constituição do indivíduo livre, a auto-
moldagem do sujeito que se liberta da moral, para le-
var uma existência como a dos cínicos antigos, carac-
terizada pelo domínio de si, que pode ser direcionado
contra convenções, instituições e também contra pai-
xões pessoais.

58
verve

Dar forma a nós mesmos

Mudança de perspectivas

Sob o ponto de vista de uma ética que se coloca mani-


festamente como arte de viver, pode-se repensar também
a verdade perspectiva, o que é delineado por Nietzsche. Se
o perspectivo é a condição fundamental da vida, não é mais
possível se satisfazer com o ponto de vista limitado de uma
perspectiva determinada, fortuita. Coloca-se a tarefa de
mudar incessantemente de perspectiva, e essa não é
somente uma questão de estética, mas igualmente de
ética e de moral: Nietzsche pensa até a constituição da
justiça para além de bem e mal a partir da possibilidade
de uma pluralidade de perspectivas.38 O deslocamento
possível de perspectiva encontra seu significado na pos-
sibilidade de romper a fixação num ponto de vista deter-
minado e de abrir por trás do pensado o espaço do pensá-
vel. Nisso o filósofo encontra sua tarefa — em “dar im-
pulso a avaliações contrapostas e transvalorar ‘valores
eternos’.”39
Evidentemente, isto tem conseqüências para o modo
de constituição de si do sujeito. Trata-se aqui, como já
foi escrito, da questão da transformação possível, que
pode substituir a uniformidade do sujeito convencional;
trata-se da “incessante transmutação”, como se diz num
fragmento de Nietzsche escrito entre a primavera e o
verão de 1881.40 Este fragmento é de grande interesse,
pois ele tematiza expressamente o “projeto de uma nova
maneira de viver”, e segue-se a ele o plano para os qua-
tro livros do Zaratustra. Na configuração do Zaratustra
cristaliza-se este projeto de uma nova maneira de viver.
O essencial do seu ensinamento é o pensamento do eter-
no retorno, que favorece a transformação incessante.
Zaratustra é a primeira persona artística de uma nova
arte de viver, o mais alto estado de afirmação da exis-
tência, cujo critério é o “desejo de vivenciar tudo mais
uma vez e incontáveis vezes”. O retorno é o pensamen-

59
12
2007

to fundamental que orienta esta nova maneira de vi-


ver, comparável a uma obra de arte: “Queremos sempre
vivenciar de novo uma obra de arte! Assim devemos con-
figurar nossa vida de tal forma que tenhamos o desejo
de cada uma de suas partes individuais! Este é o pensa-
mento capital!”41
Pode-se fazer a tentativa de entender a doutrina do eter-
no retorno face ao horizonte de uma nova arte de viver.
Então, ela não parecerá tanto como uma verdadeira tese
sobre o ser, mas como uma experimentação da existência
— “viver de tal forma que se deseje viver novamente.”42
Um artifício da sabedoria da vida: viver sua vida de forma
que se possa desejar que ela se repita assim eternamente.
Este mesmo pensamento deve ser considerado um com-
ponente das artes da existência; é um ensaio, um ato do
pensamento e da existência. Este pensamento está em
condições de modificar o modo de ser do homem, e prova-
velmente é o motivo pelo qual a doutrina do eterno retor-
no deve ser pensada junto com a doutrina do super-ho-
mem. O ensinamento de Zaratustra, o pensamento do
eterno retorno, estabelece uma outra forma do homem
no modo da possibilidade, em referência a uma forma
de infinidade, que não é mais um além. A referência a
esta dimensão da infinidade transforma a forma final
do homem, pois se trata de romper a finitude do ho-
mem. O super-homem é a fórmula para a auto-supera-
ção do homem. Não mais um sujeito no sentido subs-
tancial, mas um trabalho sobre si mesmo, um novo
começo, um ser e pensar diferentemente, pois, como
diz Nietzsche, o homem está “ainda inesgotado para as
maiores possibilidades.”43
O retorno é o pensamento com o “mais pesado dos
pesos”, que pode recair sobre a ação e o ser do homem;
uma pedra de toque, um princípio crítico, que pode as-
sumir a função orientadora para a estética da existên-

60
verve

Dar forma a nós mesmos

cia e, portanto, só pode surgir a partir de uma escolha


que o próprio indivíduo se coloca; um apelo incansável e
permanente a mudar a vida. Para Nietzsche esse era o
“mais poderoso dos pensamentos” — o pensamento que
permite o máximo, e para o qual não é essencial o fato
de manifestar ou não uma realidade efetiva, pois “tam-
bém o pensamento de uma possibilidade pode nos aba-
lar e nos transfigurar.”44 Quando hoje se fala das possi-
bilidades de fundamentação de uma ética (e isso signi-
fica hoje: pensar numa ética ecológica, numa arte de
viver numa cultura ecológica), esse é um projeto de in-
teresse. Como devemos viver para poder desejar tam-
bém viver em épocas futuras? Essa é a questão.

Tradução do alemão por Alexandre Alves.

Notas
1
Publicado em Nietzsche Studien, 21 (1992), pp. 50-62.
Doutor em História pela USP, pesquisador colaborador no Departamento de
2

História do IFCH/UNICAMP. E-mail: alexalves74@yahoo.com.br.


3
HH I 23.
4
KSA 13, 11[194].
5
A 174.
6
A, 178.
7
KSA 9, 7[213]. Para esta temática cf. também Rudolf Reuber. Ästhetische Lebens-
formen bei Nietzsche, München, 1989.
8
KSA 13, 11[3].
9
Co. Ext. II, 5; KSA 1, p. 282. Trata-se de uma referência ao livro de Rousseau, Les
rêveries du promeneur solitaire. (NT)
10
Co. Ext. II, 10; KSA 1, p. 327.
11
Co. Ext. III, 3; KSA 1, p. 350.
Können é a substantivação do verbo können (poder, saber) e designa a capacidade
12

ou a habilidade para realizar uma determinada atividade. Por falta de um equiva-

61
12
2007

lente melhor, utilizamos a expressão francesa savoir-faire, que se encontra dicionari-


zada (cf. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa) e é de uso corrente (NT).
13
A 185.
14
A 22.
KSA 12, 9[93]. Cf. também Aldo Venturelli: “Asketismus und Wille zur Macht,
15

Nietzsches Auseinadersetzung mit Eugen Dühring“, in Nietzsche-Studien, 15, 1986,


pp. 118-131.
16
KSA 9, 15[59].
17
KSA 13, 11[6].
18
KSA 12, 9[57].
19
GC 113.
20
KSA 9, 7[155].
21
KSA 14, p. 265.
22
Cf. A 560. A fórmula “Uma só coisa é necessária” já se encontra num fragmento
do verão de 1875 (KSA 8, 6[4]). Ela está numa relação na qual Nietzsche procura
diferenciar a “sabedoria” do impulso para a ciência: a sabedoria se mostra “na
importância incondicional que se atribui à própria alma. Uma só coisa é necessária.”
A reflexão parte do estudo dos filósofos antigos. De fato, nas escolas socráticas
(cirenaicos e cínicos) assim como nos estóicos, a ética do “uma só coisa é necessá-
ria”, do Unum necessarium (Henos de esti chreia) era diferenciada do eruditismo inútil.
Encontra-se novamente a fórmula no evangelho de Lucas (10, 42), na tradução de
Lutero: “Contudo uma só coisa é necessária” [“Eines aber ist noth”]. (NT)
23
GC 107.
24
GC 299.
25
GC 366.
26
A 548.
27
A palavra utilizada é Leitsatz, que lembra o Letimotiv dos dramas musicais de
Wagner. O Leitmotiv (“motivo condutor”) é um tema musical associado a um
personagem, situação ou idéia específica, que se repete ao longo da obra, dando-lhe
organicidade (NT).
28
Apenas um exemplo entre outros: a carta de Sils-Maria a Overbeck de 11 de julho
de 1879.
29
De Sils-Maria a Overbeck a 17 de setembro de 1887.
30
De Sils-Maria à irmã em 14 de setembro de 1888. No original “ein Optimum von
Existenz”. Mantivemos a tradução literal para manter o sentido. Ótimo — do
latim Optimum — é o superlativo sintético de bom, significando o melhor possível,

62
verve

Dar forma a nós mesmos

o grau mais favorável a que se pode chegar numa determinada coisa ou atividade,
no caso, a própria existência (NT).
31
De Sils-Maria à mãe e à irmã, em 9 de julho de 1881.
32
Vir obscurissimus significa “o mais obscuro dos homens”. Com esta expressão,
Nietzsche se refere ao anonimato em que viveu e escreveu sua obra. Nietzsche foi
pouco lido em vida e até sua morte permaneceu desconhecido do grande público
(NT).
33
Lathe biosas significa “esconde tua vida”, ou seja, vive no anonimato, sem atrair a
atenção sobre si mesmo e, portanto, sem perseguir a glória, o poder ou a riqueza.
Esta máxima ética reflete a postura epicurista de não participar da vida pública.
Apesar de sua associação ao epicurismo, no período do império, o Lathe biosas podia
ser aplicado a todos que pensavam ser mais sábio afastar-se da vida política e das
glórias, daí a associação que Schmid faz com o estoicismo. Ovídio a traduzirá pela
fórmula latina bene vixit, qui bene latuit (“vive bem aquele que sabe se ocultar”): a arte
de viver torna-se uma arte da esquiva (NT). Agradeço ao Prof. Pedro Paulo Funari
pelos úteis esclarecimentos para esta nota.
34
Nietzsche se refere a isso em EH, Za, 1.
“Hast Du kein Glück mehr übrig mir zu geben, wohlan! noch hast du deine
35

Pein...” (NT).
36
KSA 12, 2[66].
37
BM 205.
38
KSA 11, 26[119]; GM III 12.
39
BM 203.
40
KSA 9, 11[197].
41
KSA 9, 11[165].
42
KSA 9, 11[163].
43
BM 203.
44
KSA 9, 11[48], 11[203].

63
12
2007

RESUMO

O artigo é uma leitura de Nietzsche desde o ponto de vista da arte


de viver, como ética que interrompe a moral, dirigindo-se à própria
existência, objeto de um saber e de uma arte. Trata-se, assim, de
uma filosofia como forma de vida e de uma arte de viver praticada,
uma filosofia da experiência e da experimentação.

Palavras-chave: Nietzsche, ética, moral.

ABSTRACT

The article presents a perspective on Nietzsche from the viewpoint


of the art of living, as ethics that blocks the moral, directed to
one’s own existence, object of a knowledge and of an art. It deals
with philosophy as a way of life and with an art of living in practice,
a philosophy of experience and experimentation.

Keywords: Nietzsche, ethics, moral.

Recebido para publicação em 4 de junho de 2007. Confirmado em


6 de agosto de 2007.

64
verve

65
12
2007

emma goldman na revolução russa

cibele troyano e nu-sol*

Monólogo para uma atriz de preto, xales, chapéus,


óculos, mala e um guarda-chuva vermelho.

Cena 1

A atriz de costas para o público, no centro do palco.


Volta-se.

Deportada! De-por-ta-da!!! De-por-ta-da!

*
Pesquisa coordenada por Beatriz Carneiro, com a colaboração de Acácio
Augusto, Anamaria Salles, Cibele Troyano e Eliane Knorr. Tradução de
Anamaria Salles, Eliane Knorr, Natalia Montebello. Roteiro e encenação:
Anamaria Salles, Beatriz Carneiro, Edson Passetti, Eliane Knorr, Gabriel Espiga,
Natalia Montebello e Cibele Troyano. Coordenação de Edson Passetti.
Realização: Nu-Sol. Apresentada em 28 de maio e 6 de junho de 2007, no
Teatro Tucarena, São Paulo/Brasil, com Cibele Troyano como Emma Goldman.
verve, 12: 66-79, 2007

66
verve

Emma Goldman na revolução Russa

Solta a mala no chão.

De onde? De Nova Iorque, a terra da liberdade! (levan-


ta o guarda-chuva parodiando a estátua da liberdade)

Minha querida cidade, metrópole do Novo Mundo. Da


América...

(fecha o guarda-chuva e o coloca no chão tal qual uma


bengala, com leve alusão coreográfica a qualquer musical
da Broadway)

América, repetindo as cenas terríveis (segura o guar-


da-chuva fechado com firmeza trazendo-o para a altura do
peito tal qual fosse um fuzil) da Rússia czarista! (coloca o
guarda-chuva ao lado da mala, tira o chapéu e se dirige à
platéia)

Mas hoje, 21 de dezembro de 1919! Eu vou para a


Rússia livre! Os odiados Romanof foram finalmente ar-
remessados de seu trono, o czar e sua tropa retirados do
poder. Isso não foi o produto de um golpe de Estado; a
grande conquista foi alcançada pela rebelião de todo o
povo. A revolução de outubro! Dez dias gloriosos. Um ter-
remoto social cujos tremores balançaram o mundo in-
teiro. (gesto de punho fechado firme para o alto)

Sai para a direita, vira-se de costas, e volta-se com um


olhar perspicaz, anda para fora do palco e avança para a
platéia.

67
12
2007

Você acredita que quem assinou a ordem para minha


deportação foi nada mais nada menos do que Louis Post?
Ele mesmo, meu velho amigo Post! Eu lhe perguntei:
“Post, como é possível que você, um liberal assumido,
possa ter feito isso?” Sabe o que ele me respondeu? Que
não é ele quem cria as leis, simplesmente as cumpre.

Retorna ao palco.

Ah! Eu jamais o perdoarei. E tenho certeza que ele


jamais se perdoará. Eu poderia surpreendê-lo com uma
apelação. (O tom a seguir se torna mais afirmativo e amo-
roso) Mas prefiro ser deportada com Alexander Berkman,
o meu Sacha. Ele não tem nenhuma chance de ficar. E
depois de todos aqueles anos na prisão eu não o deixa-
ria partir sozinho.

Cena 2

No navio. Sentada sobre a mala, Emma escreve uma


carta.

Minha querida sobrinha... Stella. Hoje, 1º. de ja-


neiro, completamos 10 dias de viagem. O ano de 1920
se inicia, para mim, com esperanças e inquietações.
Passo como num transe estes dias, reclusa nesta pri-
são flutuante, sem saber ao certo o que acontece ao
meu redor. Os carrascos do “paraíso yanque”, desobe-
deceram as ordens do governo e nos colocaram a bor-
do deste velho e fétido barco de transporte militar.
Somos 249 passageiros, dos quais 51, (encara a pla-
téia) 51 anarquistas. A algumas pessoas, nem ao me-
nos foi permitido recolher seus agasalhos para enfren-

68
verve

Emma Goldman na revolução Russa

tar o inverno russo. Em meio a caixas de laranjas,


lágrimas e saudades, passamos o Natal. Faltam ainda
mais de 15 dias para chegarmos. Estou ansiosa e in-
quieta.

Em pé, segurando a carta e a caneta:

Um dia antes de partirmos, a “Rússia Soviética”


publicou uma carta aberta do governo russo me dando
boas vindas. Nela se lê: “A Rússia Soviética não per-
segue ninguém por suas idéias políticas, desde que
elas não colaborem de forma ativa com os inimigos
dos trabalhadores russos neste momento crítico... des-
de que elas não colaborem de forma ativa com os ini-
migos dos trabalhadores russos neste momento críti-
co”.

Caminha até a boca de cena.

Defendo e sempre defenderei a idéia de que todo


ser humano tem o direito de adotar idéias políticas e
econômicas que lhe pareçam as mais justas, sem so-
frer qualquer tipo de perseguição de quem não pensa
como ele.

Retorna. Senta-se sobre a mala para retomar a escri-


ta. Olha firme para a platéia:

Ponto.

69
12
2007

Cena 3

A atriz está recebendo um xale russo e com gestos largos,


expressão de alegria. Sai do palco em linha reta em direção à
platéia.

Nós que fomos levados para fora da América como ban-


didos fomos recebidos no solo soviético (pisa fora do palco)
como irmãos daqueles que conquistaram a liberdade. Os
operários, os soldados, os camponeses nos cercaram, nos
levaram pelas mãos, e nos fizeram sentir como eles.

Volta para o palco. Senta-se. Agora costura o xale russo


ganho de presente e fala em tom confidencial.

Estranha sensação. Nestes 4 meses de Rússia sinto-


me como uma sonâmbula andando no escuro. Às vezes
pareço tropeçar... Não tenho tempo para nada, passo o dia
inteiro remendando, cozinhando, tentando solucionar pro-
blemas que não acabam, não tenho tempo nem para amar.
O meu coração está tão pequenininho que às vezes acho
que ele vai parar de bater. Os soldados armados até os
dentes dentro das fábricas vigiam os trabalhadores, que
cabisbaixos, não ousam falar...

Black-out.

Cena 4

Com licença... (abre o guarda-chuva como se acolhesse


uma outra pessoa com quem inicia conversa)

70
verve

Emma Goldman na revolução Russa

Um jovem operário, bem jovenzinho, me contou que


se sentia um verdadeiro prisioneiro... que não podia nem
ao menos dar um passeio sem autorização superior. Eu
lhe disse: “Proteste! Exija seus direitos!” Ele me
sussurrou: “Protestar? Protestar para quem? Diriam que
sou um contra-revolucionário e me meteriam na prisão!”
E eu perguntei: “E a revolução? Não lhes deu nada?”

(Volta para o centro do palco, fecha o guarda-chuva,


encara firme a platéia)

E o jovem me olhou como se eu fosse uma completa


idiota e me disse: “Ah! A revolução... (levanta o braço com
o guarda-chuva fechado) mas isso, já se acabou”. (solta o
braço levando o guarda chuva ao chão)

Black-out.

Cena 5

Abre o guarda-chuva.

Fica imóvel, encarando a platéia, com o guarda-chuva


aberto tal qual fosse um escudo, uma pose de guerreiro em
alerta: os pés afastados, o esquerdo na frente do outro. O
rosto acima do guarda-chuva.

As feridas ocultas da Rússia revolucionária não podem


mais ser ignoradas.

A atriz solta o guarda-chuva aberto de ponta cabeça.

71
12
2007

Os fatos apresentados na assembléia dos anarquis-


tas de Moscou, a análise da situação pela Esquerda So-
cialista Revolucionária e minhas conversas com pes-
soas simples sem qualquer filiação política, permiti-
ram-me olhar atrás dos bastidores deste teatro
revolucionário e enxergar a ditadura sem sua maqui-
agem. Este espetáculo é algo diferente da apresenta-
ção pública. É feito da cobrança de impostos sob a mira
de armas, da devastação de cidades e vilas. Do afasta-
mento de qualquer um que ouse pensar em voz alta.
As infrações mínimas são punidas com prisão, exílio
para áreas desertas do país, execuções! É a morte de
todos aqueles que com sua inteligência, fé e coragem
ajudaram aos bolchevistas alcançar o poder.

Black-out.

(atriz sentada na cadeira) Estudantes da universi-


dade de Moscou foram expulsos e exilados por protes-
tarem contra a violência da Tcheka. Mas não são pe-
nalizadas somente as afrontas “políticas”. Embates
meramente acadêmicos são tratados da mesma for-
ma. Assim, a objeção de alguns professores quanto à
interferência do Estado nos métodos de instrução foi
duramente reprimida.

E tem mais. A idéia fixa de que nada deve se


expressar fora das vias do Estado anulou
completamente a vida cultural e artística do povo
russo. Na poesia e na literatura, nas artes dramáticas,
na música e na pintura, nem uma única ode à
revolução foi produzida durante estes anos. Em relação
às artes, a Rússia nunca foi tão pobre e desolada. A
ditadura política dos bolchevistas acabou até com as

72
verve

Emma Goldman na revolução Russa

relações sociais mais inofensivas. Não há clubes, não


há lugares de encontro, nem mesmo um salão de
dança. Eu me lembro do choque na expressão de uma
secretária do partido quando perguntei: “Os jovens não
poderiam se encontrar ocasionalmente para uma
dança? livres da supervisão comunista?”(caricatura da
secretária do partido) “Salões de dança são lugares para
concentração de contra-revolucionários, fechamos
todos!”

Pausa. Senta-se.

Toda Rússia, até a mais remota aldeia, está coberta


de uma rede de polícia, a Tcheka. A obra desta Revolução,
que não tem nada de arte, é obrigar os operários ao
trabalho exaustivo, passar por cima deles no seu dia-a-
dia, prendê-los e fuzilá-los como desertores.

(levanta-se e encara a platéia) In-su-por-tá-vel!!!!


Black-out.

Cena 6

Conversando com um imaginário grupo de amigas

Na América, eu desprezaria o bem-estar no ambiente


de trabalho, eu o consideraria um paliativo barato. Mas
na Rússia socialista, a visão de mulheres grávidas
trabalhando sob um ar sufocante de tabaco, saturando
de veneno os que ainda nem nasceram e a si mesmas,
parece-me um grande mal. Em várias fábricas que
visitei na companhia da Lisa Zorin, secretária do

73
12
2007

partido comunista de Petrogrado, constatei não haver


banheiros. “Lisa, e os banheiros?” “Banheiros? não há
espaço disponível nas fábricas.” “Mas, se a revolução
não pode cuidar nem destas pequenas melhorias, para
que ela serviu então?” “Os trabalhadores alcançaram o
poder. Agora eles estão no poder, e têm coisas mais
importantes para se preocupar do que...banheiros!
Camarada Emma Goldman, não me importune com
estas questões fúteis!”

Black-out.

Cena 7

A atriz no escuro:

O aniquilamento paulatino das crianças pela fome,


do qual fui tomando conhecimento aos poucos, é o mé-
todo geral usado nos chamados reformatórios infantis.
As escolas e colônias para as crianças “problemáticas”
são verdadeiras prisões.

Cena 8

A atriz sai em disparada para a platéia onde encontra...

Angélica, Angélica! minha querida Angélica Balaba-


noff, foi para isso que se fez a revolução? Responda. Foi
pra isso? Por favor, Angélica, me dê uma explicação plau-
sível! Não, Angélica, não me diga que é a vida a culpada
de tanta injustiça. Não posso silenciar, Angélica. Não
quero perder meu chão. Não devo ficar omissa vendo

74
verve

Emma Goldman na revolução Russa

isso tudo acontecer. Você, secretária da internacional,


que está tão próxima de Lênin, consiga um encontro!
Afinal não é ele que tudo sabe sobre o destino? Preciso
ir falar com ele. E Sacha irá comigo.

Cena 9

De volta ao palco.

Sacha, ele não me convenceu. Foi petulante! Você


viu quando ele me interrompeu e falou que minha
revolta contra as prisões não passava de
sentimentalismo? Esse Lênin. Sacha, simplesmente
tentou me calar quando tachou de “idéias burguesas”
meus argumentos em favor da liberdade de expressão.
O pior foi quando tentou nos seduzir, dizendo que os
anarquistas de idéias, de idéias!, teriam um futuro
brilhante na Rússia!!! Ainda por cima, teve a coragem
de nos propor que fizéssemos algo de útil para
recuperar nosso equilíbrio revolucionário! Fazer o quê
de útil, se nossas propostas só são aceitas se estiverem
submetidas à terceira internacional? Lembra quando
o ilustre comissário da educação Lunacharsky me
convidou a colaborar com ele? Disse que me aceitaria
desde que eu estivesse disposta a deixar de ser um
pássaro livre! Não, Sacha, eu não acredito que você
ainda insista em colaborar com eles! Como eles podem
te convencer que isso tudo é passageiro? Não, Sacha,
eu não acredito no que estou ouvindo. Meus ouvidos
não querem acreditar que é você que está me dizendo
que minhas críticas são sentimentais. Não, senhor
Berckman, não são. E muito menos são coisas de
mulher. Sacha, saiba que nunca, nem você, nem
ninguém vai conseguir me provar que os fins
justificam os meios!!! Que o indivíduo não conta! Ah,

75
12
2007

Sacha, você sabe muito bem que Kropotkin já havia


antecipado tudo isso. Parece que esqueceu as
dificuldades que tivemos para organizar o enterro dele.
Você está cego! E ainda por cima estúpido! Por favor,
volte à sua razão!

Black-out.

Cena 10

Sacha, vou reler a nossa carta antes de enviá-la.

Petrogrado, 05 de março de 1921.


Silenciar neste momento, é impossível e até
criminoso. Os acontecimentos recentes forçam-nos,
anarquistas, a falar e explicitar nossa atitude diante
da situação em que vivemos. O espírito da agitação e
descontentamento que se manifesta entre os
trabalhadores e os marinheiros é o resultado de
causas que merecem muita atenção. O frio e a fome
provocaram a insatisfação. E a ausência de qualquer
oportunidade de discussão e crítica está forçando os
trabalhadores a trazerem suas reivindicações a
público. No que diz respeito ao conflito com o governo
soviético, nós, os trabalhadores e marinheiros,
insistimos que este deve ser resolvido não pela força
das armas, mas através de um acordo fraternal e
revolucionário. Se o governo soviético recorrer ao
derramamento de sangue nesse momento, não
intimidará nem silenciará os trabalhadores. Ao
contrário, servirá apenas para agravar os problemas
e fortalecer a contra-revolução interna.

76
verve

Emma Goldman na revolução Russa

Ainda mais, o uso da força pelo governo dos operários


e camponeses contra os trabalhadores e marinheiros
terá um efeito negativo no movimento revolucionário
internacional e resultará num prejuízo incalculável para
a revolução social. Camaradas bolchevistas, reflitam
antes que seja demasiado tarde. Não brinquem com fogo,
diante de uma decisão tão séria e definitiva.
Submetemos-lhes a seguinte proposta: que seja
escolhida uma comissão de 5 pessoas, incluindo 2
anarquistas. Esta comissão deve ir ao Kronstadt para
resolver o conflito por meios pacíficos. Na situação
presente, esse é o método mais radical e terá uma
significação revolucionária internacional. Assinado:
Alexander Berkman e Emma Goldman.

Cena 11

A atriz entra, transtornada, cabelos soltos, e vai até o


centro do palco.

Nosso apelo não foi levado em consideração. Dois dias


depois de nossa carta a Zinoviev, Trosky, o mesmo
Trostky que anos atrás dizia que o Kronstadt era o
orgulho e glória da revolução, ordenou por dez dias e
dez noites o seu bombardeio. Hoje Kronstadt se rendeu.
Com um saldo de 18 mil amigos da revolução russa,
mortos como patos. Este silêncio que cai sobre
Petrogrado, é mais assustador do que o bombardeio
incessante das noites anteriores. Ninguém se atreve
a falar. Nas ruas as pessoas estão perplexas. Com os
corações destroçados. Seus rostos espelham dor e
angústia pelo que virá. Há algo morto dentro de mim.
Kronstadt fez romper o último fio que me ligava aos
bolchevistas.

77
12
2007

Luz em resistência. Black-out.

Cena 12

A atriz no centro do palco.

No Décimo Congresso do Partido Comunista Rus-


so, Lênin anunciou que a mais impiedosa guerra de-
veria ser declarada contra o que denominou “elemen-
tos anarquistas pequeno-burgueses”. Muitos dos nos-
sos foram presos, executados sem o menor motivo ou
explicação. (veste o chapéu, coloca um xale preto nas
costas, os óculos, pega o guarda-chuva e mala, encara a
platéia). Decidi deixar o país.

(Vira-se de costas).

1º. de dezembro de 1921! Meus sonhos destruídos,


meu coração uma pedra.

Cena 13

A atriz sentada no trem.

Vou escrever um livro. A execução de tantos e queri-


dos companheiros não pode ser esquecida. A dura expe-
riência destes dois anos não abalou minha fé na revo-
lução. Mas me fez ver de perto que o Estado, conserva-
dor e estático é sempre capaz de destruí-la. Eu estou
pesada com a tragédia da Rússia. Mas tenho de erguer
minha voz contra os crimes cometidos em nome

78
verve

Emma Goldman na revolução Russa

da Revolução. Eu serei ouvida, não importa se como


amiga ou inimiga. (Levanta-se, sem óculos, sem chapéu)
Se eu tivesse de resumir meus argumentos em uma
expressão, diria: a tendência, inerente ao Estado, é de
concentrar, monopolizar todas as atividades sociais; a
natureza da revolução, ao contrário, é expandir-se, am-
pliar-se. A revolução é um processo violento. Mas, se
tem como único resultado uma mudança de ditadura,
ela não tem nenhum valor. A revolução é o início de
tudo. Pára: Eu serei ouvida, não importa se como amiga
ou inimiga. Eu serei ouvida, não importa se como ami-
ga ou inimiga. Eu serei ouvida, não importa se como
amiga ou inimiga. Eu serei ouvida, não importa se como
amiga ou inimiga... Eu serei ouvida, não importa se como
amiga ou inimiga...
Eu serei ouvida, não importa se como amiga ou ini-
miga... Eu serei ouvida, não importa se como amiga ou
inimiga...

Fim

Indicado para publicação em 7 de maio de 2007.

79
12
2007

80
verve

A tragédia russa

a tragédia russa (uma revisão e uma


perspectiva – ou panorama)

alexander berkman*

Prefácio

Nós vivemos em uma época na qual duas civilizações


estão lutando pela existência. A sociedade de hoje atraca-
se mortalmente com o Novo Ideal. A Revolução Russa
foi apenas o primeiro combate sério das duas forças, cuja
luta deve continuar até o triunfo final de um ou de outro.
A Revolução Russa falhou — falhou em seu propósito
último. Mas esta falha é temporária. No que se refere a

*Imigrante russo que se tornou proeminente anarquista nos EUA. Cometeu um


atentado contra um industrial durante uma greve operária e passou 14 anos na
prisão. Em 1919, devido a contundentes manifestações contra a guerra, foi
deportado para a Rússia junto com vários anarquistas, inclusive Emma
Goldman, sua companheira na vida amorosa e política. Depois de dois anos,
deixaram o país e lideraram a crítica libertária aos rumos autoritários da revolução
russa e das ações do Partido Comunista. Gravemente doente, Berkman morreu
aos 66 anos, na França, em 1936.
verve, 12: 81-115, 2007

81
12
2007

revolucionar o pensamento e sentimento das massas


da Rússia e do mundo, a minar os conceitos fundamentais
da sociedade existente e a acender a tocha da fé e da
esperança pelos Dias Melhores, a Revolução Russa tem
sido de incalculável valor educativo e inspirador para a
humanidade.
Embora a Revolução Russa tenha falhado em atingir
sua verdadeira meta, permanecerá para sempre um
magnífico evento histórico. E, mesmo assim — tremenda
como é — não passa de um incidente na gigantesca guerra
entre dois mundos.
A guerra continua e continuará. Nesta guerra o
capitalismo já está enfrentando seu declínio. Ainda mais
com o capitalismo, o governo político centralizado, o
Estado, está também em declínio — e esta é a lição mais
significativa da Revolução Russa como eu a considero.
Este panfleto foi recentemente publicado em holandês.
Daí, um crítico da Holanda me escreveu: “Você falhou em
mostrar a lição plena da Revolução Russa.”
Eu concordo com ele. Serão necessários diversos
volumes para fornecer a “lição plena” de um evento tão
tremendo como a Revolução Russa. Meu propósito é mais
modesto. Será necessário o esforço de muitas mentes
para esclarecer ao mundo o significado da Revolução
Russa, a potencialidade dos enlaces de ideais e idéias
envolvidas nisso. Eu apenas quero contribuir com minha
pequena parte.
Eu decidira incorporar o resultado de meus dois anos
de estudo e observação na Rússia em uma série de
panfletos sob o título geral de Série da Revolução Russa.1
A Série englobará uma revisão crítica das fases mais
importantes da revolução conjuntamente com uma
análise construtiva de algumas das lições vitais que dela
foram extraídas.

82
verve

A tragédia russa

Se a Série aqui presente for capaz de tornar as coisas


mais claras em relação à Rússia, se ajudar os
trabalhadores a enxergar a trilha da liberação um pouco
mais reta, então considerarei meu esforço inteiramente
recompensado.
Maio de 1922.

É extremamente surpreendente como, fora da


Rússia, pouco é conhecido acerca da situação e das
condições atuais preponderantes no país. Mesmo
pessoas inteligentes, especialmente entre os
trabalhadores, têm as mais confusas idéias sobre o
caráter da Revolução Russa, seu desenvolvimento e
seu status político e socioeconômico atual. Compreender
a Rússia e o que tem acontecido lá desde 1917 tem
sido por demais inadequado, para dizer o mínimo.
Embora a grande maioria das pessoas que se coloca
contra ou a favor da revolução, fala ainda contra ou a
favor dos bolchevistas, em quase lugar algum, porém,
há clareza e conhecimento concreto em relação aos
assuntos vitais envolvidos. Genericamente falando, os
pontos de vista expressados — amigáveis ou não — estão
baseados em informação incompleta e não confiável,
freqüente-mente falsa, sobre a Revolução Russa, sua
história e a fase atual do regime bolchevista. Mas, em
geral, não apenas as opiniões contempladas
fundamentaram-se em dados errados ou insuficientes;
com freqüência são profundamente avivadas — ou
melhor, distorcidas —, por sentimentos partidários,
preconceitos pessoais e interesses de classe. No
conjunto, é a completa ignorância que caracteriza de
uma forma ou de outra, a atitude da grande maioria do
povo em relação à Rússia e seus eventos.

83
12
2007

E, apesar disso, entender a situação russa é um


conhecimento dos mais vitais ao progresso e ao bem-estar
futuro do mundo. De uma correta avaliação da Revolução
Russa, do papel dos bolchevistas e dos outros partidos e
movimentos políticos nela, e das causas que acarretaram
a situação atual — em suma, de uma concepção acabada
de todo problema — dependem quais lições podemos tirar
dos grandes eventos históricos de 1917. Essas lições irão,
para o bem ou para o mal, afetar as opiniões e as atividades
de grandes massas da humanidade. Em outras palavras, o
advento de mudanças sociais — e o trabalho e esforço
revolucionários que as precedem e as acompanham —
serão profunda e essencialmente influenciadas pela
compreensão popular do que realmente aconteceu na
Rússia.
É geralmente admitido que a Revolução Russa é o mais
importante evento histórico desde a Grande Revolução
Francesa. Eu até estou inclinado a pensar que, da
perspectiva de suas conseqüências potenciais, a revolução
de 1917 é o mais significativo fato em toda história
conhecida da humanidade. É a única revolução que
almejou de fato uma revolução social mundial, é a única
que realmente aboliu o sistema capitalista na escala ampla
de um país e fundamentalmente alterou todas relações
sociais existentes dentro dele. Um evento de tal magnitude
histórica e humana não pode ser julgado sob um estreito
ponto de vista partidário. Nenhum sentimento subjetivo
nem preconceito devem ser conscientemente permitidos
para enfeitar as atitudes de alguém. Acima de tudo, cada
fase da revolução deve ser cuidadosamente estudada, sem
viés ou idéia pré-concebida, e todos os fatos considerados
desapaixonadamente, para nos permitir formar uma
opinião justa e adequada. Eu creio — estou firmemente
convicto — que, deixando de lado qualquer outra
consideração, apenas a verdade total sobre a Rússia pode
ser de extremo auxílio.

84
verve

A tragédia russa

Infelizmente, como regra geral, tal não tem sido o


caso até agora. É natural que a Revolução Russa desperte,
de um lado, os mais amargos antagonismos, e de outro,
a mais apaixonada defesa. Mas o partidarismo, em
qualquer campo, não é um juiz objetivo. Falando
francamente, as mentiras mais atrozes tanto quanto
ridículos contos de fadas têm sido espalhados sobre a
Rússia e continuam a ser espalhados até hoje.
Naturalmente não deve surpreender que os inimigos
da Revolução Russa, os inimigos da revolução enquanto
tal, os reacionários e seus instrumentos, tenham
inundado o mundo com as mais malévolas falsificações
dos eventos ocorridos na Rússia. Sobre eles e sua
“informação” não preciso gastar nenhuma palavra a
mais: aos olhos das pessoas inteligentes e honestas,
eles já foram desacreditados há muito tempo.
Mas, triste dizer, que são os pretensos amigos da
Rússia e da Revolução Russa que têm feito o maior
estrago à revolução, ao povo russo e aos melhores
interesses das massas trabalhadoras do mundo em
virtude do seu exercício de um zelo sem o feitio da
verdade. Alguns inconscientemente, devido à ignorância,
mas a maioria deles consciente e intencionalmente tem
mentido de modo persistente e vivo, desafiando todos os
fatos, com a noção errada de que estão “ajudando a
Revolução”. Razões referentes à “conveniência política”,
à “diplomacia bolchevista”, à alegada “necessidade do
momento” e, freqüentemente, motivos de considerações
menos altruístas os têm movido. A única consideração
legítima de homens decentes, de amigos reais da
Revolução Russa e da emancipação humana, — assim
como a de uma história confiável — a consideração pela
verdade, eles têm ignorado completamente.
Há honrosas exceções, infelizmente muito poucas:
suas vozes têm sempre se perdido na selvageria do

85
12
2007

equívoco, da falsidade e do exagero. Mas a maioria


daqueles que visitaram a Rússia simplesmente
mentiram sobre as condições naquele país, — repito isso
deliberadamente. Alguns mentiram pois não tiveram
conhecimento de nada melhor, não tiveram o tempo
nem a oportunidade de estudar a situação, de aprender
os fatos. Fizeram excursões ligeiras, passando dez dias
ou poucas semanas em Petrogrado ou Moscou, sem
familiaridade com a língua, nem por um momento
entrando em contato com a vida real das pessoas, ouvindo
e vendo apenas o que lhes era dito ou mostrado pelos
prestativos oficiais que os acompanhavam em cada
passo. Em muitos casos estes “estudantes” da Revolução
eram verdadeiros inocentes no exterior, ingênuos a
ponto do ridículo. Estavam tão sem familiaridade com o
ambiente, que na maioria dos casos, não tinham nem
mesmo a mais débil suspeita que seu afável
“intérprete”, tão dedicado em “mostrar e explicar tudo”,
era na realidade um membro dos “homens de confiança”
especialmente designado para “guiar” visitantes de
destaque. Muitos desses visitantes escreveram e
falaram copiosamente sobre a Revolução Russa, com
pouco conhecimento e muito menos compreensão.
Houve outros que tiveram tempo e oportunidade, e
alguns deles realmente tentaram estudar a situação
seriamente, e não com a mera intenção de obter
adequada “fonte” jornalística. Durante os dois anos de
minha estadia na Rússia, eu tive oportunidade de entrar
em contato pessoal com quase todos visitantes
estrangeiros, com as missões sindicais, e com
praticamente cada delegado da Europa, Ásia, América e
Austrália que se reuniu em Moscou para comparecer
ao Congresso da Internacional Comunista e ao
Congresso Sindical Revolucionário ocorrido lá ano
passado, 1921. A maioria deles pôde ver e entender o
que estava acontecendo no país. Mas, de fato, foi uma

86
verve

A tragédia russa

rara exceção alguém que tivesse visão e coragem


suficientes para se dar conta que apenas a verdade
integral poderia servir aos melhores interesses da
situação.
Como regra geral, entretanto, os diversos visitantes
da Rússia foram de modo sistemático extremamente
descuidados com a verdade no momento em que
começaram a “iluminar” o mundo. Suas afirmações
resvalaram, freqüentemente, a uma idiotice criminosa.
Pense em George Lansbury (editor do “Daily Herald” de
Londres), por exemplo, afirmando que os ideais de
fraternidade, igualdade e amor pregados por Jesus
Nazareno estavam sendo realizados na Rússia e isso ao
mesmo tempo em que Lênin estava lamentando a
“necessidade do comunismo militar imposto a nós pela
intervenção e bloqueio dos Aliados”. Considere-se a
“igualdade” que dividiu a população da Rússia em 36
categorias, de acordo com a ração e salários recebidos.
Outro inglês, um conhecido escritor, enfaticamente
declarou que tudo estaria bem na Rússia, não fosse pela
interferência externa, enquanto que distritos inteiros
do Leste, Sul e na Sibéria, alguns mais extensos que a
França, estavam em rebelião armada contra os
Bolchevistas e sua política agrária. Outros literatos
estavam glorificando o “sistema soviético livre” da
Rússia, enquanto 18 mil de seus filhos tombavam
mortos em Kronstadt na luta para alcançar sovietes
livres.
Mas para que ampliar esta prostituição literária? O
leitor facilmente se recorda da legião de Ananias2 que
tem arduamente negado a existência das coisas que
Lênin tentou explicar como inevitáveis. Eu sei que
muitos delegados e outros acreditaram que a situação
real russa, se conhecida no exterior, poderia fortalecer
a mão dos reacionários e intervencionistas. Forjar uma

87
12
2007

crença, entretanto, não exigiu pintar a Rússia como um


verdadeiro Eldorado proletário. Mas a época em que
poderia ter sido considerado desaconselhável falar
plenamente da situação russa, passou há tempos. Este
período terminou, foi relegado aos arquivos da história
pela introdução da “nova política econômica”. Agora
chegou a época de aprender a lição plena da revolução e
as causas do seu desastre. Para que possamos evitar os
erros cometidos (Lênin disse francamente que são
muitos), para que sejamos capazes de adotar seus
melhores traços, devemos conhecer toda verdade sobre
a Rússia.
É por isso que considero as atividades de certos
proletários como categoricamente criminosas e
traidoras dos verdadeiros interesses dos trabalhadores
do mundo. Eu me refiro aos homens e mulheres, alguns
deles delegados do Congresso organizado em Moscou em
1921, que ainda continuam a propagar as “amigáveis”
mentiras sobre a Rússia, iludem com quadros róseos
acerca das condições de trabalho naquele país e buscam
induzir, mesmo, os trabalhadores de outras terras a
migrarem para a Rússia. Eles estão fortalecendo a
espantosa confusão já existente na mente popular,
enganando o proletariado com falsos relatos sobre o
presente e promessas vãs para o futuro próximo. Estão
perpetuando a perigosa ilusão de que a revolução está
viva e continuamente ativa na Rússia. É uma tática por
demais desprezível. Claro que é fácil para um líder
trabalhador norte-americano, atuando para elementos
radicais, escrever ardorosos relatos sobre a condição dos
trabalhadores russos, enquanto está sendo entretido no
Luxe, o mais lucrativo hotel de Moscou, às expensas do
Estado. Certamente ele pode insistir que “dinheiro não
é necessário”. Afinal ele não recebe livre de encargos
tudo que seu coração deseja? Ou por que não deveria o
presidente dos sindicatos dos agulheteiros não afirmar

88
verve

A tragédia russa

que os trabalhadores russos desfrutam de plena


liberdade da palavra? Ele é cauteloso em não mencionar
que apenas os comunistas e os elementos de confiança
foram permitidos dentro do âmbito de conversa enquanto
que o distinto visitante estava “investigando” as
condições das fábricas.
Que a história seja misericordiosa com eles.

II

Para que o leitor possa formar uma justa estimativa


acerca do que direi a seguir, penso ser necessário esboçar,
resumidamente, minha atitude mental no momento de
minha chegada na Rússia.
Foi há dois anos atrás. Um governo democrático, “o mais
livre na terra”, deportou-me junto com outros 248 políticos,
do país onde vivi por mais de trinta anos. Eu havia
protestado enfaticamente contra o erro moral perpetrado
por uma alegada democracia em utilizar métodos que
condenou veementemente no caso da autocracia czarista.
Eu condenei a deportação de políticos como um ultraje aos
mais fundamentais direitos do homem, e eu lutei contra
isso como uma questão de princípio.
Mas meu coração estava radiante. Já na explosão da
revolução de fevereiro eu almejara ir à Rússia. Mas o caso
Mooney3 me deteve: eu não estava inclinado a abandonar
a luta. Então, eu mesmo fui feito prisioneiro pelos Estados
Unidos e penalizado por minha oposição à carnificina
mundial. Durante dois anos, a hospitalidade forçada da
penitenciária federal de Atlanta, Georgia, impediu minha
partida. Seguiu-se a deportação.
Meu coração estava radiante, eu disse isso? Fracas
palavras para expressar a alegria apaixonada que me

89
12
2007

inundou quando da certeza da visita à Rússia! Eu iria


para o país que varreu o czarismo para fora do mapa, eu
estava preste a contemplar a terra da revolução social!
Poderia haver maior alegria a alguém que, desde a tenra
infância, fôra um rebelde contra a tirania, cujos sonhos
incertos da juventude haviam previsto fraternidade e
felicidade humanas, cuja vida inteira estava devotada
à revolução social?
A viagem foi um alento. Embora nós fossemos
prisioneiros, tratados com severidade militar e o “Buford”
uma velha banheira furada ameaçando repetidamente
nossas vidas durante o mês da Odisséia, entretanto, o
pensamento de que estávamos a caminho da terra da
promissão revolucionária mantinha todo grupo dos
deportados com bom humor e uma agitação em virtude
da expectativa do grande dia que estava para chegar em
breve. Longa, longa foi a viagem, vergonhosas as
condições às quais fomos forçados a enfrentar:
amontoados abaixo do convés, vivendo em constante
umidade e ar viciado, alimentados pelas mais fracas
rações. Nossa paciência estava quase exaurida, não
obstante nossa coragem persistente e, por fim,
alcançamos nosso destino.
Era 19 de Janeiro de 1920, quando tocamos o solo da
Rússia Soviética. Um sentimento de solenidade, de
veneração, quase me aniquilou. Assim devem ter
sentido meus piedosos antepassados entrando pela
primeira vez no Santo dos Santos do Templo de
Jerusalém.4 Um forte impulso me fez ajoelhar e beijar o
chão — o chão consagrado pelo sangue vivo de gerações
de sofredores e mártires, consagrado outra vez pelos
revolucionários triunfantes do meu tempo. Nunca antes,
nem mesmo quando fui solto do horrível pesadelo de 14
anos de prisão, estive eu tão profundamente
emocionado, ansiando por abraçar a humanidade, por

90
verve

A tragédia russa

depositar meu coração a seus pés, por dar minha vida


mil vezes, se fosse possível, a serviço da Revolução
Social. Foi o dia mais sublime da minha vida.
Fomos recebidos de braços abertos. O hino
revolucionário tocado pela Banda Militar vermelha nos
recepcionou entusiasticamente enquanto cruzávamos
a fronteira russa. Os “vivas” dos defensores da Revolução
com seus gorros vermelhos ecoaram através das
florestas, atravessando as distâncias como ameaças
trovejantes. Com a cabeça inclinada em reverência eu
permaneci na presença dos símbolos visíveis da
Revolução Triunfante. Com cabeça e coração
reverentes. Meu espírito estava orgulhoso, sossegado,
porém, com a consciência da genuína Revolução Social.
Quanta profundidade, quanta grandeza residiam nisto,
que possibilidades incalculáveis estendiam-se em seu
panorama!
Eu ouvi a tranqüila voz de minha alma: “Que tua
vida pregressa possa ter contribuído, ainda que pouco,
para a realização do grande ideal humano, para isso,
para seu bem sucedido começo.” Conscientizei-me da
grande felicidade oferecida a mim: fazer, trabalhar,
ajudar com cada fibra do meu ser a completa expressão
revolucionária deste povo maravilhoso. Eles lutaram
e ganharam. Eles proclamaram a Revolução Social. Isso
significou que a opressão foi encerrada, que a submissão
e escravidão, as maldições gêmeas dos homens, foram
abolidas. A esperança de gerações, de épocas, finalmente
foi realizada, a justiça foi estabelecida sobre a terra, ao
menos sobre a parte em que está a Rússia.
Mas os anos de Guerra e revolução exauriram o país.
Há sofrimentos e fome, e muita necessidade de corações
firmes e mãos ansiosas por fazer e ajudar. Meu coração
canta por alegria. Ah! Eu me doarei inteiro, completamente,
ao serviço do povo; eu me rejuvenescerei e voltarei a ser

91
12
2007

jovem novamente a cada esforço maior, na mais dura


tarefa, para o auxílio da prosperidade comum. Minha
própria vida eu consagrarei à realização da maior
esperança do mundo, a Revolução Social.
Logo no primeiro posto do Exército russo, uma
assembléia foi preparada para nos recepcionar. O amplo
salão, lotado de soldados e marinheiros, as mulheres
uniformizadas no palanque dos oradores, os discursos,
toda atmosfera palpitando com a Revolução em ação —
isso tudo deixou uma profunda impressão em mim.
Estimulado a dizer algo, eu agradeci aos camaradas
russos pela calorosa recepção de boas vindas aos
deportados americanos, congratulei-os por sua luta
heróica e expressei a minha grande alegria em estar
junto a eles. E então todo meu pensamento e
sentimentos fundiram-se em uma só sentença:
“Queridos camaradas,” — eu disse — “viemos aqui não
para ensinar, mas para aprender, aprender e ajudar.”
Desse modo eu entrei na Rússia. Desse modo
sentiam meus colegas deportados.
Eu permaneci dois anos. O que aprendi, aprendi
gradualmente, a cada dia, em várias partes do país. Eu
tive oportunidades excepcionais de observação e estudo.
Eu fiquei perto dos líderes do Partido Comunista,
associei-me com os mais ativos homens e mulheres,
participei de seus trabalhos, e viajei amplamente através
do país nas mais favoráveis condições para contato
pessoal com a vida dos trabalhadores e camponeses. A
princípio não pude acreditar que o que eu via era real.
Não podia acreditar nos meus olhos, nos meus ouvidos,
no meu julgamento. Tal qual aqueles espelhos
deformantes que fazem você parecer horrivelmente
monstruoso, assim a Rússia parecia refletir a Revolução
com uma assustadora perversão. Era uma caricatura
pavorosa da vida nova, da esperança do mundo. Eu não

92
verve

A tragédia russa

entrarei agora em descrições detalhadas das minhas


primeiras impressões, das minhas investigações e do
longo processo que desembocou na minha convicção
final. Eu lutei sem descanso, amargamente, contra mim
mesmo. Durante dois anos eu lutei. O mais difícil é
convencer alguém de algo que ele não quer ser
convencido. E eu admito, eu não quis ser convencido
que a revolução na Rússia se tornara uma miragem,
uma perigosa decepção. Por muito tempo eu lutei
duramente contra esta convicção. No entanto as provas
estavam se acumulando e cada dia trazia mais
destrutivos testemunhos. Contra minha vontade, contra
minhas esperanças, contra o fogo sagrado da admiração
e entusiasmo pela Rússia que queimava dentro de mim,
eu fui convencido que a Revolução Russa fora levada à
morte.
De que modo e por quem?

III

Tem sido dito por alguns escritores que a ascensão


bolchevista ao poder decorreu de um coup de main5, e a
desconfiança fora expressa referindo-se à natureza
social da transformação de Outubro.
Nada poderia estar mais longe da verdade. Enquanto
realidade histórica, o grande evento conhecido como
Revolução de Outubro foi no sentido mais profundo, uma
revolução social. Caracterizou-se por todos princípios de
uma tal fundamental mudança. Foi efetuada, não por
algum partido político, mas pelo próprio povo, de um modo
que transformou radicalmente todas relações
socioeconômicas e políticas existentes até então. Mas
ela não aconteceu em outubro. Esse mês testemunhou
apenas a “sanção legal” formal dos eventos revolucionários
que a precederam. Por semanas e meses antes disso, a

93
12
2007

real Revolução estava marchando por toda Rússia: o


proletariado urbano estava tomando posse das lojas e
fábricas, enquanto os camponeses expropriavam as
grandes propriedades e faziam a terra voltar para seu uso
próprio. Ao mesmo tempo, delegações de trabalhadores,
comissões de camponeses e sovietes brotavam por todo
país e aí começou a transferência de poder do governo
provisório aos sovietes. Isto teve lugar, primeiro em
Petrogrado, a seguir em Moscou e rapidamente se espalhou
pela região do Volga, do distrito de Ural e para a Sibéria. A
vontade popular encontrou expressão no slogan Todo poder
aos Sovietes, e continuou varrendo pela largura e extensão
do país. O povo levantou-se, a Revolução estava
acontecendo. O princípio central da situação foi captado
pela proclamação do Congresso dos Sovietes do Norte: “O
governo provisório de Kerensky deve ir; os Sovietes são o
único poder!”
Era 10 de Outubro. Praticamente todo poder efetivo já
estava com os Sovietes. Em Julho a revolta de Petrogrado
contra Kerensky fora esmagada, mas em agosto a
influência dos trabalhadores revolucionários e da
guarnição era suficientemente forte para permitir que eles
obstruíssem o ataque planejado por Korniloff. O Soviete de
Petrogrado ganhava força dia após dia. Em 16 de outubro,
organizou seu próprio Comitê Revolucionário Militar, um
ato de desafio e de aberta provocação ao governo. O Soviete,
por intermédio do seu Comitê Revolucionário Militar,
preparou-se para defender Petrogrado contra o governo de
coalizão de Kerensky e o possível ataque do General Kaledin
e seus cossacos contra-revolucionários. Em 22 de outubro,
toda população proletária de Petrogrado, com o apoio
solidário das tropas, manifestou-se por toda cidade contra
o governo e a favor de Todo poder aos Sovietes.
O Congresso dos Sovietes de todas as Rússias estava
para abrir em 25 de outubro. O governo provisório,

94
verve

A tragédia russa

sabendo do iminente perigo à própria existência, apelou


para uma ação drástica. Em 23 de outubro, o soviete de
Petrogrado ordenou ao Gabinete de Kerensky a renunciar
dentro de 48 horas. Levado ao desespero, Kerensky
encarregou-se de suprimir a imprensa da revolução,
prender os mais proeminentes revolucionários de
Petrogrado, e remover os ativos Comissariados do
Soviete. O governo contava com as “fiéis” tropas e a jovem
nata dos estudantes das escolas militares. Mas era tarde
demais: a tentativa de segurar o governo falhou. Durante
a noite de 24 e 25 de outubro (6 e 7 de novembro) o
governo de Kerensky foi dissolvido — pacificamente, sem
derramamento de sangue — e a supremacia exclusiva
dos sovietes foi estabelecida. O Partido Comunista
ocupou o poder. Foi o auge político da Revolução Russa.

IV

Vários fatores contribuíram para o sucesso da


revolução. Para começar, ela não encontrou nenhuma
oposição ativa: a burguesia russa era desorganizada e
fraca e sem disposição militante. Mas as principais
razões consistem no envolvente entusiasmo com o qual
os slogans revolucionários atiçaram todo povo. “Fora com
a guerra!”, “Paz Já!”, “A terra para o camponês, a fábrica
para o operário!”, “Todo poder aos Sovietes!” — esses eram
expressão do grito da alma apaixonada e das necessidades
mais profundas das grandes massas. Nenhum poder
poderia conter seu maravilhoso efeito.
Outro fator muito potente foi a união de vários
elementos revolucionários em oposição ao governo de
Kerensky. Bolchevistas, anarquistas, o Partido Socialista
Revolucionário de esquerda, os numerosos políticos livres
da prisão e do exílio siberiano e milhares de emigrantes
revolucionários retornando, todos trabalharam durante

95
12
2007

os meses de fevereiro a outubro em direção a uma meta


comum.
Mas se “foi fácil começar” a revolução, como Lênin
havia dito em um dos seus discursos, fomentá-la, levá-
la ao termo de sua lógica conclusão foi outro e mais di-
fícil assunto. Duas condições eram essenciais para tal
consumação: união contínua de todas as forças revolu-
cionárias e a aplicação da iniciativa voluntária do país
e das melhores energias para o importante trabalho da
nova construção social. Sempre deve ser lembrado, e
bem lembrado, que a revolução não implica apenas des-
truição. Implica destruição mais construção, com gran-
de ênfase no mais. Infelizmente, os métodos e princípi-
os bolchevistas logo foram levados a se mostrarem um
obstáculo, um atraso em relação às atividades criativas
das massas.
Os bolchevistas são marxistas. Embora nos dias de
outubro eles tivessem aceitado e proclamado lemas
anarquistas (ação direta pelo povo, expropriação, sovietes
livres e assim por diante), não fora sua filosofia social que
ditou esta atitude. Eles sentiram que a pulsação popular
— as ondas elevadas da Revolução os levaram muito além
de suas teorias. Mas eles permaneceram marxistas. De
coração eles não tinham nenhuma fé no povo e em suas
iniciativas criadoras. Como os social-democratas eles
desconfiavam do campesinato, contando um pouco mais
com o apoio da pequena minoria revolucionária entre os
elementos da indústria. Eles defenderam a Assembléia
Constituinte, e apenas quando se convenceram que não
teriam maioria lá e, portanto, não seriam capazes de ter o
poder de Estado em suas mãos, subitamente decidiram
pela dissolução da Assembléia, embora este passo fosse
uma refutação e negação de princípios marxistas
fundamentais. (Incidentalmente, foi um anarquista,
Anatoly Zheleznyakov, no comando da guarda do palácio,

96
verve

A tragédia russa

que se encarregou da iniciativa no assunto). Enquanto


marxistas, os bolchevistas insistiram na nacionalização
do país: propriedade, distribuição e controle passariam
pelas mãos do Estado. Eram em princípio opostos à
socialização, e apenas a pressão dos socialistas
revolucionários de esquerda (a facção Spiridonova-
Kamkov), cuja influência entre os camponeses era
tradicional, forçaram os Bolchevistas a “engolir o
programa agrário do conjunto dos socialistas
revolucionários”, como Lênin posteriormente colocou.
Desde os primeiros dias de seu acesso ao poder
político, as tendências marxistas começaram a se
manifestar, em detrimento da Revolução. A desconfiança
social-democrata em relação aos camponeses
influenciou seus métodos e medidas. Nas Conferências
de todas as Rússias os camponeses não receberam
representação igual aos dos trabalhadores industriais.
Não apenas os especuladores e exploradores das cidades,
mas também toda população agrária foi estigmatizada
pelos bolchevistas como “pequenos patrões” e
“burgueses”, “incapazes de manter o passo com o
proletariado no caminho para o socialismo”. O governo
bolchevista colocou de lado os representantes
camponeses nos Sovietes e na Conferência Nacional,
buscaram obstruir seus esforços independentes e
sistematicamente estreitaram o escopo e as atividades
do Comissariado da Terra, até então de longe, o fator
mais vital na reconstrução da Rússia. (O Comissariado
era então presidido por um socialista revolucionário de
esquerda). Inevitavelmente esta atitude levou a muita
insatisfação por parte das grandes massas camponesas.
O mujique russo é simples e ingênuo, mas com o
instinto do homem primitivo, ele rapidamente percebe
um erro e nenhuma requintada dialética pode movê-lo
de sua convicção uma vez esta estabelecida. A pedra
inaugural do credo marxista, a ditadura do proletariado,

97
12
2007

serviu como uma afronta e injúria ao campesinato. Eles


demandaram uma partilha igual na organização e
administração dos assuntos do país. Não tinham sido
eles já suficientemente escravizados, oprimidos e
ignorados? O camponês ressentia-se da ditadura do
proletariado como discriminação contra ele. “Se a
ditadura deve existir”, argumentava, “por que não a de
todos que trabalham, do trabalhador urbano e do
camponês, juntos?”
Então veio a paz de Brest-Litovsk. Devido ao longo
alcance de seus resultados, esta se mostrou ser o golpe
mortal na Revolução. Dois meses antes, em dezembro
de 1917, Trotsky recusara, com o gesto elegante de nobre
indignação, a paz oferecida pela Alemanha em condições
muito mais favoráveis à Rússia. “Nós não levamos
adiante nenhuma guerra, nós não assinamos a paz” —
tinha ele dito, e a Rússia revolucionária o aplaudiu.
“Nenhum compromisso com o imperialismo alemão,
nenhuma concessão”, ecoava por toda extensão do país,
e o povo permaneceu pronto para defender a revolução
até a morte. Mas agora, Lênin exigiu a ratificação de
uma paz que significou a traição mais mesquinha em
relação à maior parte da Rússia, da Finlândia, Letônia,
Lituânia, Ucrânia, Rússia Branca, Bessarábia — todas
elas ficaram para ser entregues à opressão e exploração
do invasor alemão e de sua própria burguesia. Foi algo
monstruoso — o sacrifício imediato dos princípios da
revolução e também de seus interesses.
Lênin insistiu na ratificação, alegando que a Rússia
precisava de uma “pausa para respirar” que a Rússia
estava exausta e que a paz poderia trazer o “oásis
revolucionário” para reunir forças para novos esforços.
Radek denunciou a aceitação das condições de Brest-
Litovsk como traição da Revolução de Outubro. Trotsky
discordou de Lênin. As forças revolucionárias racharam.

98
verve

A tragédia russa

Os socialistas revolucionários de esquerda, a maioria


dos anarquistas, e muitos dos elementos revolucionários
não partidários estavam amargamente contrários a fazer
a paz com o imperialismo, especialmente nos termos
ditados pela Alemanha. Declararam que tal paz seria
fatal para a Revolução; que o princípio “paz sem
anexações” não deveria ser sacrificado; que as condições
alemãs envolviam a mais baixa traição aos operários e
camponeses das províncias demandadas pelos
prussianos; que a paz sujeitaria o conjunto da Rússia
ao imperialismo alemão, que os invasores tomariam
posse do pão ucraniano e do carvão de Don e levariam a
Rússia à ruína econômica.
Mas a influência de Lênin era potente. Ela prevaleceu.
O tratado de Brest-Litovsk foi ratificado pelo 4º Congresso
Soviético.
Foi Trotsky o primeiro que afirmou, ao recusar os
termos da paz alemã oferecidos em dezembro de 1917,
que os operários e camponeses, inspirados e armados
pela revolução, pela luta de guerrilhas, poderiam derrotar
qualquer exército invasor. Os socialistas revolucionários
de esquerda, agora chamados por levantes camponeses
para se opor aos alemães, confiantes de que nenhum
exército poderia conquistar o ardor revolucionário de um
povo lutando pelos frutos de sua grandiosa revolução.
Operários e camponeses reagiram ligeiro para ajudar
Ucrânia e Rússia Branca, então valentemente, lutando
contra o invasor alemão. Trotsky ordenou o Exército
Russo a perseguir e eliminar estas unidades
Seguiu-se o assassinato de Mirbach.6 Foi o protesto
e o enfrentamento do Partido Socialista Revolucionário
de Esquerda contra o imperialismo prussiano dentro da
Rússia. O governo bolchevista iniciou medidas
repressivas e agora se sentia, e de fato estava devendo
obrigações à Alemanha. Dzerzhinsky, chefe da Comissão

99
12
2007

Extraordinária de todas as Rússias, 7 solicitou a entrega


do terrorista. Foi uma situação única nos anais
revolucionários: um partido revolucionário no poder
exigindo de outro partido revolucionário, com o qual até
então estiveram cooperando, a prisão e a punição de
um revolucionário por executar o representante de um
governo imperialista! A paz de Brest-Litovsk colocou os
bolchevistas na posição anômala de gendarme do Kaiser.
O Partido Socialista Revolucionário respondeu à demanda
de Dzerzhinsky prendendo-o. Este ato e os conflitos
armados que se seguiram (embora insignificantes em si)
foram politicamente explorados a fundo pelos bolchevistas.
Eles declararam que isso fora uma tentativa do Partido
Socialista Revolucionário de tomar as rédeas do governo.
Declararam aquele partido como fora da lei e o
extermínio começou.
Estes métodos e táticas bolchevistas não foram
acidentais. Logo se tornou evidente que esmagar
qualquer forma de expressão em desacordo com o
governo é a política estabelecida pelo Estado Comunista.
Depois da ratificação da paz de Brest-Litovsk, o Partido
Socialista Revolucionário de Esquerda retirou seus
representantes do Soviete dos Comissários do Povo.
Assim, os bolchevistas permaneceram no controle
exclusivo do governo. Sob um pretexto ou outro, se
seguiu a mais arbitrária e cruel supressão de todos
outros partidos e movimentos políticos. Os menchevistas
e os socialistas revolucionários de direita já tinham sido
liquidados há um tempo atrás, junto com a burguesia
russa. Agora era a vez dos elementos revolucionários —
o Partido Socialista Revolucionário de Esquerda, os
anarquistas, os revolucionários não-partidários.
Mas a “liquidação” destes envolveu muito mais do
que a supressão de pequenos grupos políticos. Esses
elementos revolucionários têm fortes seguidores, os

100
verve

A tragédia russa

socialistas revolucionários de esquerda entre os


camponeses, os anarquistas, principalmente, entre o
proletariado urbano. As novas táticas bolchevistas
incluem sistemática erradicação de cada sinal de
insatisfação, sufocando toda crítica e esmagando esforço
ou opinião independente. Com esta fase, os bolchevistas
começam a ditadura do proletariado, como isso é
popularmente caracterizado na Rússia. A atitude do
governo em relação ao campesinato é agora de
hostilidade aberta. Mais crescente ainda é o uso da
violência. Sindicatos são dissolvidos, freqüentemente
pela força, quando a lealdade ao Partido Comunista é
colocada sob suspeita. As cooperativas são atacadas. Esta
organização especial, o vínculo fraterno entre cidade e
campo, cujas funções econômicas são tão vitais para os
interesses da Rússia e da Revolução, é obstruída em
seu trabalho importante de produção, troca e distribuição
dos bens essenciais da vida, é desorganizada, e por fim,
completamente abolida.
Prisões, buscas noturnas, zassada (bloqueio de casa),
execuções, estavam na ordem do dia. A Comissão
Extraordinária (Tcheka), originalmente organizada para
combater contra-revolucionários e a especulação, tem
se tornado o terror de cada operário e camponês. Seus
agentes secretos estão em toda parte, sempre
desenterrando “tramas”, o que significa razstrel (disparos)
contra milhares sem audiência, julgamento ou apelação.
Da pretensa defesa da Revolução, a Tcheka se tornou a
organização mais odiada, cuja injustiça e crueldade
espalham terror sobre todo país. Toda poderosa, sem que
ninguém se responsabilizasse por ela, a Tcheka é uma
lei em si mesma, possui seu próprio exército, assume
poderes de polícia, administrativos, judiciais e
executivos e pratica suas próprias leis, as quais superam
a do Estado oficial. As prisões e campos de concentração
estão lotados com supostos contra-revolucionários e

101
12
2007

especuladores, 95 por cento deles são operários


famintos, rudes camponeses e mesmo crianças de 10 a
14 anos (Veja “Relatórios das investigações sobre
prisões”), Petrogrado: “Krasnaya Gazetta” e “Pravda”;
Moscou: “Pravda”, maio, junho, julho, 1920). Na mente
popular comunismo tornou-se “tchekismo”, este último
o epítome de tudo que é vil e brutal. A semente do
sentimento contra-revolucionário semeou-se por toda
parte.
As outras políticas do “governo revolucionário”
mantêm o passo junto com estes desdobramentos. A
centralização mecânica, correndo sem limites, está
paralisando as atividades industriais e econômicas do
país. Franze-se a testa em relação às iniciativas, os
esforços livres são sistematicamente desencorajados.
As grandes massas estão privadas da oportunidade de
forjar as políticas da revolução, ou tomar parte da
administração dos assuntos do país. O governo está
monopolizando cada caminho da vida: a revolução se
encontra divorciada do povo. A máquina burocrática é
criada de modo pavoroso em seu parasitismo,
ineficiência e corrupção. Apenas em Moscou esta nova
classe de sovburs (burocratas soviéticos) excede, em
1920, o total dos funcionários por toda Rússia no tempo
do Czar, em 1914 (Ver “Relatório Oficial de Investigação”,
pelo Comitê do Soviete de Moscou, 1921). As políticas
econômicas bolchevistas, efetivamente auxiliadas por
esta burocracia, desorganizaram completamente a já
capenga vida industrial do país. Lênin, Zinoviev e outros
líderes comunistas vociferam diatribes contra a nova
burguesia soviética, e distribuem sempre novos decretos
que fortalecem e aumentam seus números e influência.
O sistema de yedinolitchiye — a administração por
uma pessoa — é introduzido. O próprio Lênin é o seu
criador e o principal defensor. De agora em diante, os

102
verve

A tragédia russa

comitês das lojas e das fábricas estão para ser abolidos,


alijados de todo poder. Cada moinho, mina e fábrica, as
ferrovias e todas outras indústrias estão para ser
gerenciadas por uma única cabeça, por um
“especialista”, e a velha burguesia czarista está
convidada a entrar. Os antigos banqueiros, os operadores
da bolsa, os proprietários de moinhos e os patrões das
fábricas tornam-se os administradores, com pleno
controle das indústrias, com poder absoluto sobre os
trabalhadores. Eles são revestidos com autoridade a
contratar, empregar e demitir as “mãos”, a dar ou privá-
las do payok (ração de alimento), e mesmo a puni-las e
encaminhá-las à Tcheka. Os trabalhadores, que lutaram
e sangraram pela revolução e estiveram dispostos a
sofrer, congelar e passar fome em sua defesa, se
ressentem dessa obscura imposição. Consideram isso
como a pior traição. Recusam a ser dominados pelos
mesmos proprietários e capatazes que eles expulsaram,
nos dias da revolução, para fora das fábricas e que
tinham sido tão autoritários e brutais para com eles.
Não têm nenhum interesse em tal reconstrução. O “novo
sistema”, proclamado por Lênin como a salvação das
indústrias, resulta na completa paralisia da vida
econômica da Rússia, empurra em massa os operários
para fora das fábricas, e os enche de amargura e ódio a
tudo “socialístico”. Os princípios e táticas da mecanização
marxista da Revolução estão assinando sua ruína.
O fanático delírio de que um pequeno grupo
conspirativo, como este o foi, poderia empreender uma
transformação social fundamental resultou no
Frankenstein dos bolchevistas. Levou-os às incríveis
profundezas da infâmia e barbarismo. Os métodos de tal
teoria, seus meios inevitáveis, são duplos: decretos e
terror. Nenhum desses meios os bolchevistas regatearam.
Como Bukharin, o principal ideólogo comunista militante,
ensinou, o terrorismo é o método pelo qual a natureza

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12
2007

humana capitalista será transformada em adequada


cidadania bolchevista. Liberdade é um “preconceito
burguês” (na expressão favorita de Lênin), liberdade de fala
e de imprensa é desnecessária, perigosa. O governo central
é o depositário de todo conhecimento e sabedoria. Fará
tudo. O único dever do cidadão é a obediência. A vontade
do Estado é suprema.
Despojada de frases refinadas, destinadas ao
consumo ocidental, esta foi, e ainda é, a atitude prática
do governo bolchevista. Este governo, o real e único
governo da Rússia, consiste em cinco pessoas, membros
do círculo interno do Comitê Central do Partido
Comunista da Rússia. Esses “cinco grandes” são
onipotentes. Este grupo, conspiratório em sua verdadeira
essência, tem controlado os destinos da Rússia e da
Revolução desde a paz de Brest-Litovsk. O que aconteceu
na Rússia, desde então, tem sido em estrito acordo com
a interpretação bolchevista do marxismo. Aquele
marxismo, refletido através da megalomania de
onisciência e onipotência do círculo interno comunista,
ocasionou a presente ruína da Rússia.
Em consonância com essa teoria, os fundamentos da
Revolução de Outubro têm sido deliberadamente
destruídos. O objetivo final sendo um poderoso Estado
centralizado com o Partido Comunista no controle
absoluto fez com que a iniciativa popular e as forças
criativas revolucionárias das massas precisassem ser
eliminadas. O sistema eleitoral foi abolido, primeiro no
exército e na marinha, depois nas indústrias. Os sovietes
dos camponeses e operários foram castrados e
transformados em obedientes comitês comunistas, com
a temível espada da Tcheka sempre pendurada sobre
eles. A direção dos sindicatos achacada, suas atividades
específicas suprimidas, assim estes se tornaram meros
transmissores das ordens do Estado. Serviço militar

104
verve

A tragédia russa

obrigatório, acoplado com pena de morte para os objetores


de consciência; trabalho forçado, com um vasto corpo de
funcionários para a apreensão e punição de “desertores”;
conscrição agrária e industrial do campesinato;
comunismo militar nas cidades e o sistema de
requisição no campo, caracterizado por Radek como
simplesmente pilhagem de grãos (Correspondência da
Imprensa Internacional, edição inglesa, vol. 1, nº 17); a
supressão dos protestos dos trabalhadores pelos
militares, o esmagamento com mão de ferro da
insatisfação dos camponeses, chegando até ao
açoitamento destes e ao arrasamento de suas aldeias
com artilharia (nos distritos de Ural, Volga e Kuban, na
Sibéria e na Ucrânia) — isso caracteriza a atitude do
Estado comunista em relação ao povo, isso engloba “as
políticas construtivas sócio-econômicas” dos
bolchevistas.
Apesar de tudo, os operários e camponeses russos,
prezando a Revolução pela qual sofreram tanto,
mantiveram-se lutando bravamente em numerosas
frentes militares. Estavam defendendo a revolução,
assim pensavam. Passaram fome e frio e morreram aos
milhares, na profunda esperança de que as coisas
terríveis que os comunistas faziam cessariam em breve.
Os horrores bolchevistas foram, de algum modo — o
russo simples pensava — o resultado inevitável de
poderosos inimigos “do estrangeiro” atacando seu amado
país. Mas quando as guerras por fim acabassem — o povo
ingenuamente assim reproduziu a imprensa oficial —
os bolchevistas seguramente voltariam à trilha
revolucionária na qual entraram em outubro de 1917, a
trilha que as guerras os forçaram a abandonar
temporariamente.
As massas assim esperavam e agüentaram. E então,
enfim, as guerras terminaram. A Rússia esboçou um
quase audível suspiro de alívio, alívio vibrando com

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2007

profunda esperança. Foi o momento crucial: o grande


teste começara. A alma de uma nação estava em
agitação. Ser ou não ser? E então, a plena realização
chegou. O povo permaneceu horrorizado. As repressões
continuaram, crescendo de modo ainda pior. As
usurpadoras razvyorstka,8 expedições punitivas contra
os camponeses, não cessaram sua atividade assassina.
A Tcheka estava desencavando mais “conspirações”,
execuções estavam ocorrendo como antes. O terrorismo
estava desenfreado. A nova burguesia bolchevista agia
com arrogância em relação aos operários e camponeses,
a corrupção oficial grassava solta, imensos estoques de
alimentos apodreciam em virtude da ineficiência
bolchevista e do monopólio centralizado do Estado — o
povo estava faminto.
Os operários de Petrogrado, sempre proeminentes no
esforço revolucionário, foram os primeiros a dar voz a
seu descontentamento e protesto. Os marinheiros de
Kronstadt, com base na investigação das demandas do
proletariado de Petrogrado, declararam-se solidários aos
trabalhadores. Por sua vez, anunciaram seu apoio a
sovietes livres, sovietes livres da coerção comunista,
sovietes que realmente representassem as massas
revolucionárias e dessem voz a suas necessidades. Nas
províncias centrais da Rússia, na Ucrânia, no Cáucaso,
na Sibéria, em toda parte o povo fez conhecer sua
vontade, expressou suas reclamações, informou os
governos acerca de suas reivindicações. O Estado
bolchevista respondeu com seu argumento usual: os
marinheiros de Kronstadt foram dizimados, os “bandidos”
da Ucrânia massacrados, os “rebeldes” do Leste abatidos
com metralhadoras.
Isso feito, Lênin anunciou no X Congresso do Partido
Comunista da Rússia (março 1921) que suas políticas
anteriores estavam todas erradas. A requisição de

106
verve

A tragédia russa

alimento, razvyorstka, foi pura roubalheira. A violência


militar contra o camponês um “sério equívoco”. Os
trabalhadores precisam receber alguma consideração.
A burocracia soviética é corrupta e criminosa, um
enorme parasita. “Os métodos que vínhamos usando
falharam. O povo, especialmente a população rural, não
está ainda à altura dos princípios comunistas. A
propriedade privada deve ser reintroduzida, o livre
comércio estabelecido. Daí, o melhor comunista ser
aquele que pode impulsionar a melhor barganha”.99
Expressão de Lênin.

De volta ao capitalismo!
A situação atual da Rússia é por demais anômala.
Economicamente é uma combinação de Estado e
capitalismo privado. Politicamente permanece a
“ditadura do proletariado” ou, mais corretamente, a
ditadura do círculo interno do Partido Comunista.
O campesinato forçou os bolchevistas a fazerem
concessões. Requisições forçadas foram abolidas. Em seu
lugar foi colocada a taxa em espécie, uma certa
percentagem do produto agrícola indo para o governo. A
livre troca foi legalizada e o agricultor passou a trocar
ou vender seu excedente para o governo, para as
cooperativas restabelecidas ou no mercado aberto. A
nova política econômica escancarou as portas da
exploração. Sancionou o direito de enriquecimento e de
acumulação de riquezas. O lavrador passou a lucrar com
suas bem sucedidas colheitas, arrendar mais terra e
explorar o trabalho daqueles camponeses que têm pouca
terra e nenhum cavalo para o trabalho. A escassez de
gado e ceifas ruins em algumas partes do país criaram
uma nova classe de “mão de obra agrícola” que se oferece

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12
2007

ao camponês próspero. As pessoas pobres migram das


regiões em que estão sofrendo de fome e engrossam as
fileiras dos miseráveis. A aldeia capitalista está se
fazendo.
O trabalhador urbano na Rússia hoje, sob a nova
política econômica, está exatamente na mesma posição
como em qualquer outro país capitalista. A distribuição
gratuita de comida está abolida, exceto em algumas
indústrias operadas pelo governo. Ao trabalhador são
pagos salários, e estes devem cobrir suas necessidades,
como em qualquer outro país. A maioria das indústrias,
onde estejam ativas, tem sido deixada ou arrendada para
particulares. O pequeno capitalista agora tem a mão
livre. Ele tem um largo campo para suas atividades. O
excedente do lavrador, o produto das indústrias, do
comércio camponês e todos os empreendimentos da
propriedade privada estão sujeitos aos processos
ordinários de negócios, podem ser comprados e vendidos.
A competição dentro do comércio varejista leva à
incorporação e à acumulação de fortunas nas mãos de
indivíduos.
O desenvolvimento do capitalismo urbano não pode
coexistir por muito tempo com a ditadura do proletariado.
A aliança artificial entre este e o capitalismo estrangeiro
provará em futuro próximo outro fator vital no destino
da Rússia.
O governo bolchevista ainda se esforça em sustentar
a perigosa ilusão de que a “revolução está progredindo”,
que a Rússia é “governada pelos sovietes proletários”,
que o Partido Comunista e seu Estado são idênticos ao
povo. Ainda estão falando em nome do “proletariado”.
Estão buscando dopar o povo com uma nova quimera.
Depois de algum tempo — os bolchevistas agora simulam
— quando a Rússia tiver se tornado industrialmente
ressuscitada, através das realizações de nosso veloz

108
verve

A tragédia russa

capitalismo crescente, a “ditadura do proletariado” terá


também se fortalecido, e retornaremos à nacionalização.
Então, o Estado abreviará e suplantará sistematicamente
as indústrias privadas e assim quebrará o poder da
burguesia desenvolvida neste ínterim.
“Depois de um período de desnacionalização parcial,
uma nacionalização mais forte começa”, diz
Preobrazhensky, Comissário das Finanças, em seu
recente artigo “As perspectivas da Nova Política
Econômica”. Então, “o socialismo será vitorioso na linha
de frente inteira”. Radek é menos diplomático.
“Certamente nós não pretendemos” — ele nos assegura
na sua análise política da situação russa, intitulada “É
a Revolução Russa uma Revolução Burguesa?”
(Correspondência da Imprensa Internacional, 16
dez.1921) — “que ao final de um ano nós tenhamos
confiscado os bens novamente acumulados. Nossa
política econômica é baseada em um período mais longo
de tempo... Estamos conscientemente nos preparando
para cooperar com a burguesia; isso é sem dúvida
perigoso para a existência do governo soviético, porque
este último perde o monopólio da produção industrial
em contraste com o campesinato. Isso não significa a
vitória decisiva do capitalismo? Não devíamos então falar
de nossa revolução como tendo perdido seu caráter
revolucionário?”
A estas questões tão oportunas e significativas, Radek
responde animadamente com um categórico Não! É
verdade, obviamente, como Marx ensinou, que as
relações econômicas determinam as políticas, e que as
concessões econômicas à burguesia devem acarretar
também concessões políticas. Ele lembra que quando a
poderosa classe latifundiária da Rússia começou a fazer
concessões econômicas à burguesia, tais concessões
foram logo seguidas pelas políticas e finalmente pela

109
12
2007

capitulação dos latifundiários. Mas ele insiste que os


bolchevistas manterão seu poder mesmo sob as
condições da restauração do capitalismo. “A burguesia
é uma classe moribunda, historicamente deteriorada...
Por este motivo a classe trabalhadora da Rússia pode se
recusar a fazer concessões políticas à burguesia; desde
que isso se justifique na expectativa de que seu poder
crescerá em uma escala nacional e internacional mais
do que o poder da burguesia russa.”
Nesse meio tempo, embora fôra autoritariamente
admitido que seu “poder deverá crescer em escala naci-
onal e internacional”, o trabalhador russo está em apu-
ros. A nova política econômica transformou o proletário
“ditador” em um escravo assalariado comum, como seus
irmãos em países não abençoados pela ditadura socia-
lista. A redução do monopólio nacional do governo resul-
tou no lançamento de centenas de milhares de homens
e mulheres para fora do trabalho. Muitas instituições
soviéticas foram fechadas, as restantes dispensaram 50
a 70 por cento de seus empregados. O enorme afluxo
para as cidades de camponeses e aldeões arruinados
pela razvyorstka, e daqueles foragidos de distritos de fome,
produziram um problema de desemprego de alcance
ameaçador. O reavivamento da vida industrial pelo ca-
pital privado é um processo muito lento, devido à au-
sência geral de confiança no Estado bolchevista e em
suas promessas.
No entanto, quando as indústrias voltarem a
funcionar, mais ou menos sistematicamente, a Rússia
enfrentará uma situação trabalhista muito difícil e
complexa. Os sindicatos e grêmios de trabalhadores não
existem na Rússia, assim como as atividades legítimas
relativas a tais organizações. Os bolchevistas os aboliram
tempos atrás. Com o desenvolvimento da produção e do
capitalismo, governamental tanto quanto privado, a

110
verve

A tragédia russa

Rússia verá o surgimento de um novo proletariado cujos


interesses naturalmente deverão entrar em conflito com
aqueles da classe empregadora. Uma luta amarga é
iminente. Uma luta de dupla natureza: contra o capitalista
privado e contra o Estado enquanto empregador de
trabalho. É mesmo provável que a situação deva ainda
desenvolver outra fase: o antagonismo dos trabalhadores
empregados nas indústrias pertencentes ao Estado em
relação aos trabalhadores melhor pagos pelas empresas
privadas. Qual será a atitude do governo bolchevista? O
assunto da nova política econômica é encorajar, em cada
via possível, o desenvolvimento do empreendimento
privado e acelerar o crescimento do industrialismo.
Lojas, minas, fábricas e moinhos têm sido já arrendados
aos capitalistas. As demandas trabalhistas têm a
tendência de cortar lucros, interferem como os
“obedientes processos” do negócio. E quanto às greves,
elas limitam a produção, paralisam a indústria. Não
deveriam os interesses do Capital e do Trabalho ser
declarados solidários na Rússia bolchevista?
A exploração econômica e agrária da Rússia, sob a
nova política econômica, deve inevitavelmente levar ao
crescimento de um poderoso movimento trabalhista. As
organizações dos operários unificarão e solidificarão o
proletariado urbano com o agricultor pobre, na demanda
comum por melhores condições de vida. A partir do
temperamento atual do trabalhador russo, agora
enriquecido por quatro anos de experiência do regime
bolchevista, pode-se afirmar com alto grau de
probabilidade que o futuro movimento trabalhista da
Rússia se desenvolverá por linhas sindicalistas. O
sentimento é forte entre os trabalhadores russos. Os
princípios e métodos do sindicalismo revolucionário não
lhes são estranhos. O trabalho efetivo dos comitês de
fábrica e lojas, os primeiros que iniciaram a expropriação
industrial da burguesia em 1917, é uma lembrança

111
12
2007

inspiradora ainda fresca nas mentes do proletariado.


Mesmo no próprio Partido Comunista, entre seus
elementos operários, a idéia sindicalista é popular. A
famosa Oposição Trabalhista, liderada por Shliapnikov
e Sra. Kollontay dentro do Partido, é essencialmente
sindicalista.
Qual atitude o governo bolchevista tomará em relação
ao movimento trabalhista em vias de aparecer na
Rússia, seja este total ou apenas parcialmente
sindicalista? Até agora o Estado tem sido inimigo mortal
do sindicalismo trabalhista dentro da Rússia, embora
encorajem-no em outros países. No X Congresso do
Partido Comunista Russo, em março de 1921, Lênin
declarou guerra sem trégua contra o mais tênue sintoma
de tendências sindicalistas, e mesmo discussões de
teorias sindicalistas foram proibidas aos Comunistas,
sob pena de exclusão do Partido (Ver Relatório Oficial, X
Congresso). Alguns da Oposição Trabalhista foram
presos. Não se pode afirmar superficialmente que a
ditadura comunista possa resolver satisfatoriamente os
problemas difíceis a surgirem de um efetivo movimento
trabalhista baixo à autocracia bolchevista. Daí, os
trabalhadores da Rússia deverão lutar não apenas contra
os grandes e pequenos capitalistas. Eles irão de fato se
enfrentar com o próprio Estado capitalista.
Para se entender corretamente o espírito e o caráter
desta presente fase bolchevista, é necessário se dar
conta de que a assim chamada “nova política econômica”
não é nem nova nem econômica, se consideradas
literalmente. É o velho marxismo político, a única fonte
originária da sabedoria bolchevista. Enquanto sociais
democratas, os bolchevistas permaneceram fiéis à sua
bíblia. Apenas em um país onde o capitalismo é mais
altamente desenvolvido pode contar com uma revolução
social, que é o ápice da fé marxista. Os bolchevistas estão

112
verve

A tragédia russa

a ponto de aplicar isso na Rússia. Verdade foi que nos


dias da revolução de outubro eles repetidamente
desviaram do caminho reto e estreito de Marx. Não
porque duvidaram do profeta. De jeito nenhum. Até certo
ponto Lênin e seu grupo, políticos oportunistas, foram
forçados pela irresistível aspiração popular a conduzir
um verdadeiro percurso revolucionário. Mas todo o tempo
eles se penduravam nas saias de Marx e buscavam a
cada oportunidade direcionar a revolução para canais
marxistas. Como Radek ingenuamente nos lembra: “já
em abril de 1918, em um discurso do camarada Lênin, o
governo soviético intentou definir novas tarefas e
apontar o caminho o qual hoje designamos como a nova
política econômica”. (Correspondência da Imprensa
Internacional, vol 1, nº 17).
Significativa confissão! Na verdade, as atuais políticas
bolchevistas são a continuação do bom marxismo
ortodoxo de 1918. Líderes bolchevistas agora admitem
que a revolução, nos desenvolvimentos pós-outubro, foi
apenas política e não social. A centralização mecânica
do Estado comunista — isso deve ser enfatizado —
provou-se fatal à vida econômica e social do país. A
violenta ditadura partidária destruiu a unidade dos
trabalhadores e dos camponeses, e criou uma pervertida
atitude burocrática em relação à reconstrução
revolucionária. A completa negação da livre expressão
e crítica, não apenas às massas, mas mesmo para o
nível e escala do próprio Partido Comunista, resultou
em sua ruína através de seus próprios erros.
E agora? O marxismo bolchevista, em sua
monstruosidade criminosa, continua na pobre Rússia a
prolongar sua sangrenta Comédia de Erros. A construção
do comunismo não é possível conjugado a um
capitalismo doentio, desenvolvido artificialmente. O
capitalismo não pode nunca ser destruído — como Lênin

113
12
2007

& Cia presumem acreditar — pelos processos regulares


do Estado bolchevista crescido economicamente forte.
As “novas” políticas são portanto uma ilusão e uma
cilada. Estas acabaram criando a necessidade de outra
revolução.
É imprescindível que a torturada humanidade trilhe
sempre o mesmo círculo vicioso?
Ou, finalmente, os trabalhadores aprenderão a grande
lição da Revolução Russa? A de que qualquer governo,
qualquer que seja o nome e as doces promessas, em
virtude de sua natureza intrínseca, é destrutivo dos
genuínos propósitos da revolução social. É missão do
governo governar, sujeitar, fortalecer-se e se perpetuar.
É urgente que os trabalhadores aprendam que apenas
os seus próprios esforços criativos, livres da
interferência da Política e do Estado, podem fazer de sua
constante luta pela emancipação um sucesso duradouro.

Tradução do Inglês por Beatriz Carneiro.

Notas
1
O presente artigo compõe a Série Revolução Russa, n°1 (NE).
2
Ananias, personagem bíblico, aqui com o sentido de um mentiroso habitual.
3
Thomas Mooney (1888-1942) foi líder operário norte-americano, acusado
injustamente de colocar bombas em uma parada de preparação para entrada dos
EUA na I Guerra, em 1916. Alexander Berkman empenhou-se em campanhas para
sua libertação, e conseguiu ao menos que a pena de morte fosse suspensa.
Posteriormente, devido à sua atuação em movimentos contra a guerra, Berkman
foi preso, passou dois anos em um presídio em Atlanta e foi deportado para a
Rússia, em 1919.
4
“Santo dos santos” é o nome do local mais sagrado dentro do antigo templo de
Jerusalém.
5
Coup de main, ataque militar realizado por um único golpe com base em
surpresa e velocidade.

114
verve

A tragédia russa
6
Conde Mirbach. Embaixador alemão em Moscou; participou das negociações
de paz em Brest-Litovsk. Foi assassinado, em julho de 1918, por um membro
do Partido Socialista Revolucionário que discordava dos termos deste tratado
de paz com a Alemanha.
7
Tcheka. Nome abreviado da Comisão extraorinária panrussa para a repressão
da contra-revolução e da sabotagem, polícia secreta criada em 1917 para
combater os inimigos do governo revolucionário.
8
Razvyorstka, programa do governo que obrigava o agricultor a entregar o
excedente de sua produção a um preço fixo.

RESUMO

Neste artigo Berkman apontou a situação e as condições


prevalecentes na Rússia como sendo muito diversas do que se
divulgava pelo mundo entre os simpatizantes da revolução.
Focalizou os efeitos sociais da nova política econômica associada
à repressão política, enquanto desenvolvimento do empreendimento
privado e mesmo enquanto crescimento de uma nova classe
industrial.

Palavras-chave: Revolução Russa, anarquismo, repressão


bolchevista

ABSTRACT

In this article Berkman pointed out the situation and the conditions
prevailing in Russia as being completely different from what had
been publicized among the sympathizers of the revolution. He
focused the social effects of the new economic-policy associated
with political repression, as the development of private enterprise
and even as the growth of a new industrialist class.
Keywords: Russian Revolution, anarchism, bolchevist repression

Recebido para publicação em 5 de março de 2007. Confirmado em


4 de junho de 2007.

115
12
2007

a mulher mais perigosa da américa...1

natalia montebello*

1.

A objeção, a travessura, a desconfiança jovial, o gosto


pela burla são indícios de saúde: todo o incondicional
pertence à patologia.
Friedrich Nietzsche2

Existências e idéias a atravessam com a mesma


intensidade com que ela vive. Sua vida não conhece o
meio termo, o morno meio médio onde tudo se acomoda
entre a preguiça, a conivência e o medo. Fala, e fala
muito, e fala porque dizer é sua revolta, seu gesto de
interrupção diante do que é porque é. Revolta de
costumes, de dias-a-dias por sua vez e por ela atravessados

*
Pesquisadora no Nu-Sol. Doutoranda na PUC/SP, com pesquisa sobre eco-
nomia e anarquismo. Secretária do Centro de Cultura Social de São Paulo.

verve, 12: 116-128, 2007

116
verve

A mulher mais perigosa da América...

de práticas corajosas, de liberdade. E transborda, porque


não cabe na política, nem mesmo na revolução. Não cabe
na mulher emancipada do capitalismo e da vontade geral.
Parafraseando o anarquista alemão Gustav Landauer,
morto, literalmente, pelas botas da polícia alemã, mais do
que querer a revolução, ela é revolução. Uma revoltada,
uma insubmissa, que pratica a liberdade sobre ela mesma.
Sobre seu corpo, seus encontros, seus amores e tremores.
O tapa na cara que sua mãe lhe deu, depois de saber de
sua primeira menstruação, “porque assim é mais fácil se
acostumar a ser mulher”, e o arranjo, a muito bom preço,
de casamento providenciado por seu pai, interromperam
a esperada passagem, até hoje tantas vezes repetida, da
menina para a mulher. A menina, uma criança não
comportada, sobe à ponte e, diante do Volga, explode com a
vida que se chama de vida, moldada com decência e
conveniência: a vida da mulher que, a despeito das
ingênuas diferenciações de classe, reitera as verdades de
sua época. E as verdades de sua época lhe eram
insuportáveis. E o rio que o diga. O não ao pai, à família e
às tradições faz do rio o oceano sobre o qual desliza a criança
que inventa. O gueto judeu, São Petersburgo, e o século
XIX não a comportam. A escola, que lhe nega o direito de
permanecer, ao antepor sua indisciplina à sua vontade, e
a família, que espera dela a mulher que lava, cozinha e
cuida das crianças, não a comportam. A menina não
comportada faz da vida uma invenção quando, por direito,
devia ser sepultada nela.

2.

Penso que, tendo sido alfabetizados, deveríamos ler o


melhor da literatura e não ficar repetindo para sempre
nosso bê-a-bá e nossos monossílabos, sentados a vida
inteira na sala de aula. A maioria dos homens fica
satisfeita se consegue ler ou ouvir outros lerem um único

117
12
2007

livro, a Bíblia, persuadidos talvez por sua sabedoria, e


pelo resto de suas vidas põem-se a vegetar e a dissipar
suas faculdades com aquilo que se chama de leitura
fácil.
Henry David Thoreau3

Menina operária chega aos Estados Unidos. A escola


que lhe foi negada torna-se, mais uma vez, ridícula
diante da vontade e da curiosidade da criança que
busca idéias interessantes. Idéias vivas, idéias força,
idéias que estremecem e se desdobram com vidas
devoradas em nome de outras idéias, aquelas grandes
e universais de paz e de ordem. Os mártires de Chicago
condenados à morte exemplar que a justiça do Estado
exerce solenemente como pedagogia de cívica
advertência provoca convulsões na garganta e nas
idéias da jovem que, aos dezessete anos, fala, sem
pedir licença, de sua anarquia diante do mundo e seus
ditames. Sua revolta será entre palavras: a vida e as
idéias, ao uníssono, inventando anarquia. Palavras
que lê interessada, palavras que fala, intensamente.
Sua leitura indisciplinada se detém com atenção em
Nietzsche e em Bakunin. Atenta, entre o anarquismo
que quer a liberdade para cada um e a anarquia que
pratica sobre si mesma, tem a coragem de pensar
contra seu tempo e contra o devido “eu” de seu tempo:
contra a guerra, contra a justiça burguesa, contra a
exploração, contra o Estado, mas também contra a
mulher, sua emancipação, seu voto, sua produtividade.
Nietzsche e Bakunin entretecem palavras que
atentam, tanto contra a grande política como contra o
que ela, com La Boétie, outro jovem de dezessete anos,
entendeu como os piores tiranos: os tiranos internos.
Por mais de trinta anos, na América, terra da
liberdade, Emma Goldman fará das palavras sua força,

118
verve

A mulher mais perigosa da América...

sua revolta, seu sim, contundente e alegre. Um perigo,


na terra que, em nome de sua heróica herança
democrática, não suporta idéias que nada saibam de
bom comportamento. Emma, com Bakunin e com
Nietzsche, passará do incômodo democraticamente
conveniente ao insuportável. Depois de 34 anos, a
menina que deslizou, falante, para o outro lado do
mundo, é deportada. Silenciada, para o bem geral da
nação. O que disse que não devia dizer?
Para ela, “(...) o anarquismo não era uma mera
teoria para um futuro distante; era uma influência
viva para que nos livrássemos das inibições, tanto
internas como externas, e das barreiras destrutivas
que separam os homens entre si.”4 A influência viva
diante da teoria dimensiona um anarquismo que
investe em palavras como ação política, mas que não
se cala diante da pólvora contra a violência
organizada. Calar, diz Emma, é consentir com a
violência do Estado. Esteve ao lado de Alexander
Berkman, seu amor, no atentado contra o magnata do
aço que assassinou dez operários em greve, o que
valeu, ao jovem de 22 anos, outros tantos de prisão. E
não se calou quando Leon Czolgosz, com quem mal
tinha conversado em certa ocasião, atentou, desta vez
certeiramente, contra o presidente da terra da
liberdade. E aos 28 anos foi eletrocutado, menos de
dois meses depois. A justiça sabe ser rápida. Mas as
palavras de Emma, que percorreram tribunais,
prisões, jornais, panfletos e conferências, não se
calando para defender gestos, violentos ou não, contra
o Estado e suas violências, afirmaram também
práticas de liberdade, nos mesmos percursos, como
seu gesto diante do Estado e suas violências.

119
12
2007

3.

Virtude e conformismo para os que gostam,


tranqüilidade e obesidade e submissão
para os que gostam:
eu sou aquele que com espírito crítico
incita homens e mulheres e nações
gritando: — Pulem fora dos assentos
e lutem por si mesmos!
Walt Whitman5

Durante os 34 anos em que viveu nos Estados Unidos,


Emma Goldman não deixou de falar, de escrever e de
publicar interrupções ao hábito de obedecer. E não deixou
de experimentar, sobre si mesma, as liberdades que
suas palavras desenhavam. O ativismo político, como
luta por uma humanidade livre de suas próprias
convenções autoritárias, potencializa-se como vida livre
de costumes autoritários. A política transborda a esfera
política, desprezando territórios de contestação para
inventar linhas de fuga de liberações. E a invenção de
sua vida e de suas relações torna-se a potência de ações
políticas urgentes, pela paixão de ser livre, mais do que
importantes, pelo desejo de que um dia se seja livre. Não
há, então, uma revolucionária em paralelo a uma
revoltada. Talvez dois eixos que se entrecortam: o
governo e o corpo. Mas que também se sobrepõem, em
retornos deslocados que subvertem começos e finais.
Sobre seu corpo, desde aquele tapa na cara, é onde
inscreve sua recusa a ser a mulher do século XIX,
emancipada pelas conquistas feministas do começo do
XX. Se Nietzsche lhe dá a dimensão da mulher

120
verve

A mulher mais perigosa da América...

ressentida que se esforça por abraçar a moral do escravo,


Bakunin faz o mesmo com a mulher política que se
abriga em direitos que lhe dão o direito de obedecer.
Assim como advertia Bakunin aos sindicalistas que a
conquista de direitos laborais, louvável desde um certo
ponto de vista, poderia ser também um acordo
conveniente de melhoria de condições com preservação
de sujeições, também adverte Emma às feministas que
a emancipação da mulher poderia ser uma nova sujeição,
um ajustamento em uma sociedade que pode muito bem
suportar a mulher que trabalhe, que estude e que vote,
sempre que com isso ela permaneça produtiva. A grande
política não deixará de ser estúpida e podre porque a
mulher participa dela. A política, diz Emma, é o reflexo
do mundo industrial, e não cessará de sê-lo, na medida
em que a participação da mulher em nada afeta o
princípio de autoridade que sustenta o governo sobre
todos: poder votar é poder participar da política burguesa.
Mas, para além da humanidade e da política, a tragédia
da emancipação da mulher, título de seu texto corajoso,
é um problema vital, na vida de cada uma, mulher
sujeitada, antes de mais nada entre seus próprios
pequenos, cotidianos e terríveis costumes.
A emancipação é a nova máscara: “(...) a tendência
emancipacionista, afetando [a mulher] somente em sua
parte externa, fez dela uma criatura artificial, muito
parecida aos produtos da jardinagem francesa, com seus
hieróglifos e geometrias em forma de pirâmide, de cones,
de esferas, de cubos, etc.; qualquer coisa, menos essas
formas submergidas por qualidades interiores. Na
chamada vida intelectual, são numerosas essas plantas
artificiais no sexo feminino.”6 A máscara da mulher
emancipada ocupa o lugar da máscara da mulher
devotada, da sacrificada no altar dos bons costumes. Em
nome desses costumes, quanto mais a mulher se
distancia do marido, dos filhos e da religião tanto mais

121
12
2007

tornava evidente seus baixos instintos, sua sujeira. Por


pura falta de humor, de ironia e de sagacidade, diz Emma,
em vez de jogar fora a máscara da devota, cívica e religiosa,
e afirmar sua vida prescindindo de moralismos, do
julgamento sobre si mesma, a mulher escolheu provar ao
mundo sua inocência. Em vez de ser outra coisa, alguma
coisa, qualquer coisa, a mulher emancipada tem que ser
pura. Tem que mostrar ao mundo que a sentencia que ao
ser emancipada é também boa. Uma nova devota, beata
moral, tem que evidenciar sua pureza. Nova máscara:
mulher emancipada, virtuosa, pura, santa, aqui na terra,
na fábrica, na escola, no lar e na rua. A tragédia: agora, a
mulher há de se emancipar da emancipação da mulher.
Um agora de cem anos que permanece agora. Enfim, se
contra os velhos preconceitos a mulher foi contundente,
contra os novos nada fez. Chancela a moral com que ela
mesma se julga.
E mais ainda: a nova máscara esconde uma tenebrosa
cumplicidade que permanece. A guerra, grande negócio
de morte, sustentado por interesses financeiros e
fortalecido pela cegueira patriótica, perdura com a
cumplicidade da mulher virtuosa, que cria seus filhos
para serem cidadãos de bem, amantes da pátria,
temerosos de Deus, chefes das famílias-célula da
sociedade civilizada. A mesma pureza que imprime sobre
si imprime sobre a pátria; o sacrifício de seu corpo e
seus desejos, o seu amor de entrega e de negação de si,
é o mesmo sacrifício que ensina a seu filho, e que espera
dele, como ato de honra. Ainda que se trate de carnificina
organizada, a mulher cidadã provê o Estado de seus
soldados. O gesto de liberdade sobre a mulher, sobre ela
mesma, e o gesto de interrupção da fé na obediência, do
corpo ao governo, é o mesmo: “O desenvolvimento da
mulher, sua liberdade, sua independência, devem surgir
dela mesma, e é ela quem deverá realizá-los. Primeiro,
afirmando-se como personalidade e não como

122
verve

A mulher mais perigosa da América...

mercadoria sexual. Segundo, rejeitando o direito de


qualquer um que pretenda exercer sobre seu corpo;
negando-se a engendrar filhos, a menos que seja ela
quem os deseje; negando-se a ser a serva de Deus, do
Estado, da sociedade, da família, etc.; fazendo que sua
vida seja mais simples, mas também mais profunda e
mais rica. Isto é, tratando de aprender o sentido e a
substância da vida em todos seus complexos aspectos,
liberando-se do temor à opinião e à condenação pública.
Só isso, e não o voto, tornará a mulher livre.”7

4.

Senso comum, ternura comum e tranqüilidade comum


Os meios de que dispomos na América para controlar a
máquina da guerra devoradora de dinheiro, indústria
cheia de luzes por toda parte a digerir florestas e
excretar pirâmides macias de papel-jornal, patriarcais
Sequóias e Pinheiros em silenciosa Meditação
assassinados e regurgitados em forma de fumaça
serragem, tetos histéricos de Novelas de TV, Vidas
grossas mortas, Anúncios sofisticados pra Governadores
mandachuvas arrotando Napalm em palmeira arroz
floresta tropical.
Allen Ginsberg8

Organizar e apoiar greves, e desdobramentos, como


a peça encenada nas ruas do Greenwich Village de Nova
Iorque, sobre a greve têxtil de 1913 em Patterson,
escrever e editar, desde sua Mother Earth, conferências
por todo o país, jornadas de conferências por meses e
quilômetros árduos e longos, campanhas por seus
amantes libertários presos, seus amigos libertários
presos e libertários presos, discursos de defesa diante

123
12
2007

de tribunais que, como prática anarquista da época,


tornavam-se discursos libertários. O discurso direto
como ação direta, de frente e na cara, sobre liberdades,
interrogando trabalho, mulheres, casamento, escola,
família, religião, guerra, governo, justiça, política,
polícia, tradição; propiciando relações livres, amores
livres, homossexuais também, maternidades livres,
associações livres, bons encontros, livres... Suas
palavras lhe valeram prisões, que por sua vez lhe
valeram boas leituras e outros bons encontros, e lhe
valeram campanhas das instituições do direito da
liberdade de expressão (como se falar devesse ser
alguma coisa que se faz porque um direito assim o
permite, independentemente de se ter ou não alguma
coisa a dizer, lembrando William Godwin, desde o século
XVIII). Suas palavras lhe valeram as palavras: a mulher
mais perigosa da América. Quando? A partir de 1915,
um deslocamento potencializa o inconveniente em
insuportável: do corpo/Estado para o sexo/governo. A
preocupação torna-se perigo iminente: Emma começa
a falar sobre métodos anticoncepcionais, e também
funda, organiza e promove a Liga Anti-alistamento.
Interrompe a linha de continuidade entre o corpo e
o Estado: o corpo produtivo que reproduz a população
libera-se do Estado no sexo que produz prazer livre de
qualquer compromisso com o destino, a família, a pátria
ou a espécie. Potência de liberdade, o sexo livre do
Estado interrompe a eterna dívida com a espécie, dívida
que castra e sublima, e que provê legiões de
trabalhadores e soldados convictos. E ela diz que o sexo
é tão importante quanto a comida ou o ar. Cai a
máscara. O amor livre, no começo do século XX, no país
da democracia puritana.
E o que seria dos exércitos modernos se todos
soubessem que não têm obrigação de morrer pela pátria?

124
verve

A mulher mais perigosa da América...

Mera coincidência: ao entrar na Primeira Guerra Mundial


e decretar o alistamento obrigatório, o presidente
Woodrow Wilson argumenta: é necessário democratizar
a Alemanha. Emma Goldman afirma: e para isso há de
se prussianizar os Estados Unidos.
A capa de junho de 1917 de Mother Earth gritava: “In
Memoriam – Democracia Americana”. Ao escândalo
provocado na imprensa, Emma responde com seu
habitual bom humor: fizeram uma ótima campanha
publicitária. No dia 14 do mesmo mês se realizaria um
grande ato público da campanha contra o alistamento
militar. Um dia antes, Emma recebe o anônimo aviso de
que tentariam assassiná-la. Faz um rápido testamento,
com Sasha e Fitzi, seus amigos, como testemunhas. Que
o Estado ou a Igreja em nada se favoreçam com sua morte.
Mas a morte que lhe estava reservada era cívica, moral
e cívica. Dessa morte ela nunca viveria. Um dia depois
da manifestação pública, a polícia bateria à sua porta.
Emma e Sasha seriam detidos. No carro, caminho à
delegacia, novamente seu bom humor e sua ironia nos
contam um episódio: o excesso de velocidade lhe faz
observar ao policial que estava infringindo a lei, pondo
em perigo sua vida e a dos transeuntes; e ele responde,
em alto e bom tom: “Sou o representante do governo dos
Estados Unidos.”9 A fiança é fixada em 25 mil dólares para
cada um. A prisão é uma violência obscena, uma grande
covardia amparada pela covardia, a complacência e a
conveniência dos temerosos cidadãos de bem, mas não é
uma interrupção para aqueles que existem sem a licença
do Estado. Enquanto amigos juntavam o dinheiro, Emma
descobre James Joyce. Uma amiga lhe emprestara, para
ler na prisão, O retrato do artista quando jovem. Bons
encontros acontecem até nas mais sórdidas paisagens
da ordem geral.
Algo caminhava por sua nuca. Enfiou destramente
o indicador e o polegar por baixo do amplo colarinho

125
12
2007

e o agarrou: um piolho. Esfregou entre seus dedos


por um instante aquele corpinho tenro, mas
quebradiço como um grão de arroz, e o deixou
finalmente cair enquanto se perguntava se
continuaria vivendo ou morreria. E lembrou de uma
frase curiosa de Cornélio a Lapide, segundo a qual,
os piolhos procediam do suor do homem e não
haviam sido criados por Deus no sexto dia, junto
com os outros animais. A pele da nuca coçava e a
alma com ela. A vida de seu corpo, mal vestido, mal
alimentado, comido de piolhos, lhe fez fechar as
pálpebras em um súbito espasmo de desesperação,
e viu então, na obscuridade, multidão de corpos de
piolhos quebradiços e brilhantes que caíam do céu,
girando e girando ao cair. Sim: não era obscuridade
o que caía dos ares. Era claridade. A claridade
descende dos ares.
James Joyce10

Notas
1
Texto apresentado no evento “Emma Goldman na Revolução Russa, aula-
teatro-vídeo”, no dia 28 de maio de 2007, no Tucarena. O evento foi organizado
pelo Nu-Sol.
2
Friedrich Nietzsche. Más allá del bien y del mal. Madrid, Alianza Editorial,
1983, p. 107.
3
Henry David Thoreau. “Walden” (fragmentos), in A desobediência Civil. Porto
Alegre, L&PM, 1999, p. 67.
4
Emma Goldman. Viviendo mi vida. Tomo II. Madrid, Fundación de Estudios
Libertarios Anselmo Lorenzo, 1996, p. 60.
5
Walt Withman. Folhas das Folhas de Relva. São Paulo, Brasiliense, 1983, pp.
110-111.
6
Emma Goldman. “La tragedia de la emancipación de la mujer”. In: La hipocre-
sía del puritanismo y otros ensayos, versión digital. http://www.antorcha.net/
biblioteca_virtual/politica/hipocresia/5.html (Consultado em: 26/05/2007)
7
Emma Goldman. Tráfico de mujeres y otros ensayos sobre el feminismo. Barcelona,
Anagrama, 1977, p. 18.

126
verve

A mulher mais perigosa da América...


8
Allen Ginsberg. A queda da América. Porto Alegre, L&PM, 1987, p. 51.
9
Emma Goldman, op. cit., 1996, p. 119.
10
James Joyce. Retrato del artista adolescente. http://www.apocatastasis.com/
retrato-del-artista-adolescente-james-joyce.php (Consultado em: 27/05/2007).

127
12
2007

RESUMO

O artigo desenha percursos da anarquista russa Emma Goldman


através das palavras: suas leituras, seus escritos, suas confe-
rências. Palavras como força revolucionária, que não se calam desde
sua saída da Rússia (onde enfrentaram o autoritarismo familiar)
até sua deportação dos Estados Unidos, onde suas palavras ata-
caram o alistamento militar e a submissão sexual da mulher.

Palavras-chave: anarquismo, Emma Goldman, feminismo.

ABSTRACT

This article indicates the ways of the Russian anarchist Emma


Goldman through her words: her readings, her writtings, her
lectures. Words as a revolutionary strengh that could not be
silenced since her exile from Russia (where they faced her family's
authoritarianism) to her deportation from the United States, where
they fought the conscription and the women's sexual submission.

Keywords: anarchism, Emma Goldman, feminism.

Recebido para publicação em 7 de maio de 2007. Confirmado em 6


de agosto de 2007.

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verve

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa

a propósito dos 90 anos da revolução


russa: reflexões críticas de um anarquista
nos idos de 1920

rogério nascimento*

Este ano festeja-se o 90º aniversário da Revolução


Russa. Uns, sentindo um certo constrangimento pelo que
a história fez emergir deste evento, outros, com
indisfarçável nostalgia e contrição, comemoram esta data
marcante do século XX. Uns e outros ainda custam
acreditar no desfecho registrado no mesmo século em que
a Revolução Russa fora engendrada. O fim da U.R.S.S. junto
da queda do muro de Berlim retirou o chão e o oriente de
pessoas e instituições. Convenhamos, a U.R.S.S.
simbolizava, para muitos, um futuro inevitável, fatal,
culminante, vaticinado na ‘ideologia’ escatológica de Karl
Marx! Para se ter uma idéia da dimensão dos sentimentos

*
Rogério Nascimento é doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e professor de
Antropologia na Universidade Federal de Campina Grande. Publicou Florentino
de Carvalho, pensamento social de um anarquista, Rio de Janeiro, Achimaé, 2000.
Participou do coletivo editorial do jornal Atentado com estudantes do curso de
Ciências Sociais da UFCG entre 2000 e 2001. É integrante do Nu-Sol.
verve, 12: 129-156, 2007

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2007

evocados por esta ocorrência, caso alguém levantasse a


hipótese deste acontecimento um ano antes, seria alvo
de zombarias por parte até do mais desleixado em assuntos
políticos, que dirá dos partidários mais exaltados.
No Brasil daquele momento histórico as notícias sobre
a Revolução Russa causaram, inicialmente, reações
eufóricas no movimento operário. Os segmentos
sintonizados com alguma corrente socialista acolheram
com entusiasmo os acontecimentos revolucionários. Entre
os anarquistas o efeito foi bastante significativo. Tanto
assim que os principais articuladores do Partido Comunista
Brasileiro (PCB) em 19221 eram egressos do anarquismo.
A criação deste partido se deu depois de um breve ensaio
em 1919.2 Nesta ocasião, alguns anarquistas no Rio de
Janeiro fundaram o Partido Comunista Brasileiro (PCBr)
procurando fundir uma concepção malatestiana de partido
com a proposta maximista, maximalista ou bolchevista,
como ficou mais conhecida. Este partido, de vida efêmera,
defendia as bandeiras do antiparlamentarismo, do anti-
estatismo, do anticapitalismo. Feneceu por conta dos
embaraços e ambigüidades que suscitava, retratando o
estado de espírito confuso existente entre os trabalhadores
à época.
Os anarquistas foram os primeiros a anunciarem
críticas contundentes ao processo de bolchevização da
Revolução Russa.3 As recusas aos procedimentos
bolcheviquisantes instaurados na Rússia, sugeridas de
serem transplantadas in totum para o Brasil, foram
anunciadas de maneira contundente, ainda no ano de
1920, por Florentino de Carvalho.4 Crítico mordaz das idéias
político-sociais de Marx, este anarquista foi no Brasil um
dos primeiros a manifestar opinião contrária à U.R.S.S.
Na imprensa operária, em livros e conferências, proferidas
principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, envidou
esforços em expor sua visceral recusa ao marxismo e,

130
verve

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa

por extensão, ao bolchevismo. Seus artigos e livros, escritos


e publicados nas décadas de 1910, 1920 e 1930, incidiram
ácida e intensamente sobre as idéias sócio-políticas de
Marx e de seus mais representativos expoentes.
Sem dispensar o próprio Marx em sua escrita cáustica,
Florentino de Carvalho elaborou críticas virulentas tanto
à vertente social-democrata como a bolchevique do
marxismo.5 Em sua crítica incisiva do bolchevismo e por
sua recusa irredutível de instauração no Brasil de
processos de bolcheviquisação da sociedade, por vezes era
incompreendido pelos próprios trabalhadores e por muitos
anarquistas. Ainda assim manifestou recusa
intransigente aos processos ditatoriais colocados em efeito
pelos bolcheviques na Revolução Russa.
Para muitos, tudo o que aconteceu na Revolução Russa
era inevitável e inimaginável acontecer de maneira
diferente. Marxistas laboram em extravagantes
contorcionismos verborrágicos e “explicam” o desfecho da
U.R.S.S. lançando mão da idéia de “erros”, “desvios
doutrinários” ou “equívocos” 6 de interpretação do
pensamento de Marx. Este procedimento visa manter
incólume o referencial central: Karl Marx. A naturalização
de processos sociais é inerente a dinamismos de
mitificação na sociabilidade humana. A história da
U.R.S.S. e do marxismo era passada para as gerações do
pós-guerra de maneira mistificada e mitificadora, tendo
mais afinidade com uma história natural do que com
fenômenos sociais.
Os cinco artigos selecionados da imprensa anarquista
e reunidos aqui em ordem cronológica apresentam alguns
aspectos do pensamento crítico de Florentino de Carvalho
sobre o marxismo.7 A Plebe e A Obra, periódicos de onde
foram retirados estes artigos, tinham significativa
penetração no movimento anarquista no Brasil.8 Por sua
vez, estes artigos, para além do fato de integrarem a

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imprensa anarquista e enquanto documentos históricos


inestimáveis, são importantes ainda em nossos dias
principalmente por desmistificarem a U.R.S.S. e o
marxismo. Ao leitor cabe retirar destes escritos as lições
deixadas na história.
Importante também por tensionarem a consagrada
divisão no campo do pensamento e das práticas políticas
entre ‘esquerda’ e ‘direita’ percebidos enquanto pólos
antagônicos. Nesta perspectiva anarquismo e marxismo
seriam alocados no pólo ‘esquerda’, alimentando em alguns
uma esperança de união entre ambos. Deste modo, para
quem ainda hoje considera a possibilidade de convergência
entre anarquismo e marxismo, estes artigos favorecem,
pelo menos, uma reflexão sobre como na história esta
união sempre aconteceu em prejuízo dos anarquistas. Por
transigirem com ditadores, possuídos pela verdade da razão
científica, muitos anarquistas foram sistematicamente
delatados, perseguidos, emboscados, aprisionados,
torturados, assassinados...
O estabelecimento da ditadura de um déspota na
Revolução Russa fôra o corolário de um processo social
absolutista instaurado pelo marxismo — em sua
modalidade bolchevique. Não faltou, porém, quem, como
Florentino de Carvalho entre os anarquistas no Brasil,
adotasse posição intransigente contra a união com o
marxismo. Anteviu nesta colaboração sinistros ardís e
coloridas ciladas. A história lhe deu razão de sobra!

Pelo comunismo anárquico

Florentino de Carvalho
A Plebe
Ano 04 – Nº 71

132
verve

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa

São Paulo – SP
Página 01
03.07.1920
O esfacelo dos impérios, das monarquias, das repúblicas,
a desordem dos fatores econômicos, a débâcle religiosa e
moral que invade as altas camadas sociais, a perturbação
geral que parece ter posto o nosso astro fora do seu eixo,
trouxeram também ao pensamento das massas a confusão,
o desequilíbrio, perturbando a diretriz dos homens e dos
partidos.
Ante a derrocada geral, grande parte das hostes
militantes nas lutas políticas e sociais foi empolgada pela
rajada, e descambaram fora da sua órbita ideológica.
Foi tal o estrago, o desmantelo verificado na máquina
social, que não sabem qual partido seguir.
Diante da urgência do momento não atinam a tomar
uma resolução definitiva.
A aluvião cegou-os. No campo econômico não sabem se
devem pender para a reforma, para a nacionalização ou
para a transformação radical da propriedade. No terreno
político não têm uma idéia clara sobre a nova forma de
organização.
Uns enfileiraram-se nos partidos republicanos, outros
na democracia socialista, outros nos centros católicos, nos
sindicatos amarelos; outros, ainda, são pelo minimalismo,
pelo maximalismo, pela ditadura proletária.
Esta miscelânea de agrupamentos, de partidos, de
tendências, firmadas sob uma superficial observação dos
fenômenos sociais, em vez de apressar a marcha do
progresso social, serve-lhe de muralha difícil de transpor.
Nesta babel moderna nós não perdemos, felizmente,
o nosso tino, a nossa diretriz.

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12
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Afeitos estamos à analise serena do desenrolar das


borrascas, procurando sempre lhes auscultar o movimento,
descobrir a sua origem, os seus valores, os seus efeitos.
Este nosso método de ação permitiu-nos manter a calma
e encarar com toda a clareza a situação transcendental,
que empolga todos os povos.
Estudando, pois, as possibilidades, as soluções, as con-
veniências, chegamos à conclusão seguinte:
A reforma e a nacionalização têm como efeito imediato
a formação de uma nova burocracia econômica, talvez
mais daninha do que o patronato. A república ou a
democracia socialista já nos arreganhou com a sua ação
sinistra, na França de Clemenceau, na Rússia de
Kerenski e na Alemanha de Hebert. Esses regimes e
homens, de triste história, já demonstraram ser, para o
povo, mais iníquos e sanguinários do que os seus
antecessores.
Dos centros católicos, e dos sindicatos amarelos temos
apenas a manifestar, por eles, a nossa repulsa indiscutível.
As demais facções ou tendências sociais, como o
minimalismo, o maximalismo, ou a ditadura proletária,
também não nos satisfazem, porque não resolvem o
problema social, que implica a socialização dos elementos
econômicos e a supressão do despotismo, encarnado nos
poderes políticos de um parlamento ou de um ministério.
Os nossos princípios, os nossos meios, os nossos fins
dão à questão uma solução mais radical, mais prática.
Como ponto de partida somos pela expropriação geral e,
ao mesmo tempo, pela posse coletiva, onde ninguém fique
privado de tudo quanto necessita para trabalhar e viver;
somos pela supressão dos poderes políticos, a fim de que
não sirvam de obstáculo à organização de uma sociedade
de homens livres.

134
verve

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa

Desejamos que não seja preciso o emprego da força para


colimar o nosso fim, mas, se preciso for, os grupos que
tiverem feito a revolução permanecerão em armas e em
constante atividade, até destruírem o último perigo que
se anteponha ao novo regime triunfante.
Podem os indecisos, os que não têm convicções,
contemporizar com esta ou aquela panacéia de momento,
de transição, podem manifestar-se pela república, pela
democracia socialista, pela ditadura.
Nós, seguindo o processo das matemáticas, e sabendo
que a linha reta é o caminho mais curto, somos e seremos,
sempre, pelo Comunismo Anárquico.

Noções de coisas – o anarquismo ante o momento atual

Ao deputado M. de Lacerda
Florentino de Carvalho
A Plebe
Ano 04 – Nº 72
São Paulo – SP
Página 02
10.07.1920
A tese mais importante abordada pelo ilustre deputado
Maurício de Lacerda nas suas conferências aqui realizadas
foi a da inanidade do comunismo anárquico. Disse que esse
ideal é o mais belo, o mais sublime que a humanidade
tinha podido conceber; as massas, porém, não estavam
preparadas para tão elevada realização. Era preciso
estabelecer um regime, de transição, o maximalismo, por
exemplo, tal como se havia verificado na Rússia.

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12
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Ora, para o Dr. M. de Lacerda, que não é idealista, apenas


um político, há de ser mais admissível um regime de
transição, uma sociedade onde exista um comunismo...
relativo, e onde impere o Estado, com o seu cortejo de
instituições: o exército, a moeda... etc.
É esta uma bela maneira de afastar o perigo comunista,
e enveredar pela senda do maximalismo, que muito bem
pode ser realizado por vias legais, por uma série de
reformas, pelo processo eleitoral, que, de fato, será muito
cômodo, muito agradável para os políticos...
Mas, cumpre-nos fazer notar que as afirmações do Dr.
Maurício são capciosas e gratuítas, porque não vêm
seguidas dos recursos da argumentação precisa, lógica,
documentada. Para que essas afirmações tivessem
consistência seria preciso que o conferencista ilustrasse
os seus ouvintes, nos princípios, nos fins e meios do
comunismo anarquista, e, a seguir, sustentasse a sua
impraticabilidade. O grande sociólogo, porém, contentou-
se com apresentar razões empíricas constatando o
impreparo associativo e cultural do operariado brasileiro,
para tão grande empresa.
Mas, com a devida vênia, tomamos a liberdade de
chamar a atenção do ilustre deputado para as seguintes
razões elucidativas:
O território russo acha-se no pólo Norte e o nosso no
pólo Sul. As condições do seu solo não são iguais às do
nosso. A Rússia possui os climas polares, nós os tropicais.
A sua flora e a sua fauna pouco se assemelham às que
florescem na terra de Santa Cruz. A sua população,
composta de várias raças orientais, pouco têm de comum
com a nossa, constituídas por africanos de origem,
europeus ocidentais e americanos. As crenças políticas
ou religiosas, os idiomas, os costumes, a história do povo
russo distam muito das que formam a psicologia étnica do
povo brasileiro.

136
verve

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa

Verificadas essas diferenças estudemos os aconte-


cimentos. Os tempos mudam... e nós não estamos,
mais, em 1917.
Quando, na Rússia, se proclamou a república dos
Sovietes, as nações européias achavam-se em armas e
os povos aliados vibravam ainda sob o entusiasmo da
vitória. Era grande a provisão de víveres e material de
guerra. As populações recebiam notícias da Rússia através
do filtro dos governos interessados em fazer acreditar ao
mundo que reinava, ali, o terrorismo e a pilhagem.
Estes recursos facilitaram aos governos o envio de
numerosos contingentes de forças à Rússia, para esmagar
a revolução, bem como auxiliar com dinheiro e material
bélico a reação capitalista.
Nessa época ainda não havia o colosso russo acabado
de sair de uma guerra tremenda, na qual as suas forças
vitais ficaram esgotadas.
Ainda assim, passou, de uma sentada, do império
absoluto para uma república aproximadamente comunista.
Em louvor à verdade cumpre-nos constatar que a
liberdade e a igualdade estabelecidas na Rússia devem-
se principalmente ao arrojo dos anarquistas, os quais
lutaram até contra os maximalistas para que os direitos
conquistados pela revolução não fossem burlados pelos
políticos vermelhos.
Hoje estamos em circunstâncias diversas das que o
povo russo esteve a enfrentar três anos. O estado de espírito
das populações não está mais empolgado pelo entusiasmo
da vitória; hoje os povos reconhecem que foram vitimas
da armadilha em que os respectivos governos os fizeram
cair como inocentes cordeirinhos. Os grandes e os
pequenos Estados acham-se com os seus exércitos, em
grande parte, desmobilizados; encontram-se privados de
mantimentos, vendo-se obrigados a entabular

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12
2007

negociações com os sovietes da Rússia para adquirir os


seus cereais e acalmar assim a revolta das populações
esfaimadas. Os governos têm os seus tesouros vazios e
estão endividados até os cabelos.
Acrescentemos a isto o fato de acharem-se as classes
operárias, os partidos avançados, em constantes agitações
e movimentos revolucionários, ameaçando a queda dos
Estados, das instituições do capitalismo, e concluiremos
que o perigo de uma pressão externa, sobre o Brasil, no
caso de um movimento de revolução social, aqui, não
existe.
Não participamos do parecer segundo o qual devemos
esperar que a revolução triunfe na Europa ou na América
do Norte para depois proclamá-la no Brasil, mas observamos
que há mais probabilidade de que ela faça a sua explosão
no velho continente, e que, em breve, as esquadras dos
grandes povos libertos aportem às nossas cidades
marítimas arvorando a bandeira vermelha, para nos
auxiliarem no nosso ímpeto emancipador.
Por último, se falta a organização do proletariado do
Brasil, para realizar uma revolução de caráter comunista
libertário, também falta para um movimento maximalista.
E com relação a sua falta de cultura, basta-nos observar
que na ação a desenvolver influi mais a educação do que a
ilustração.
No Brasil, por exemplo, são as classes ilustradas as
menos aptas para viverem no regime comunista. O próprio
Sr. Maurício é o primeiro em reconhecer que o nosso
caboclo está sendo facilmente empolgado pelas idéias
comunistas. Isto porque o povo brasileiro ainda não foi
corrompido totalmente pelo regime do industrialismo
burguês. Os filhos do Brasil estão identificados com as
idéias comunistas e anarquistas por terem vivido nos
campos, nos sertões, uma vida mais ou menos livre, longe

138
verve

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa

dos grandes centros populosos, onde a exploração prolifera,


degenerando o ambiente social e moral.
O maximalismo, como muito acertadamente disse o
Dr. José Ingenieros, não é uma doutrina, não tem princípios
nem métodos de luta definidos; é um movimento dos
elementos em marcha para o progresso social e as suas
manifestações tendem a variar segundo o momento e o
lugar em que as massas se agitem pelas suas
reivindicações. E assim como a burguesia teve empenho
em desvirtuar todas as religiões, todas as doutrinas
políticas ou filosóficas, assim também ela trata de criar
um maximalismo... seu, ou como o que está sendo
elaborado na Itália, onde os deputados socialistas-
maximalistas são, hoje, um dos melhores “pára-choques”
da revolução social iniciada pelos libertários.
Nós batalhamos sempre em favor de qualquer tentativa
de caráter liberal contra os regimes reacionários.
Por isso não vacilamos em defender a Revolução
Russa contra a reação burguesa mundial; porém,
concomitantemente atacamos o regime dos sovietes no
que ele tem de autoritário, hierárquico, coercitivo.
Neste vendaval de agitações revolucionárias, de novos
surtos de doutrinas, de idéias, de métodos de luta, de
oportunismos... nós certificamos mais uma vez a
superioridade dos nossos inconfundíveis princípios, dos
nossos meios de ação e firmamos com mais precisão as
nossas convicções comunistas e anarquistas.

Que se rompa y no se doble.

Florentino de Carvalho
A Obra
Ano 0I – Nº 12

139
12
2007

São Paulo – SP
Página 07
01.09.1920
Trabalhadores!
Libertários!
A hora presente, hora de transcendental importância
nos destinos humanos, instante no qual o caos econômico
e político universal, transtornou o cérebro do homem, que
naufraga num “mare magnum” de idéias, de doutrinas,
de fatos estonteantes: que resvala pelo declive das
contemporizações, das concessões, dos arranjos, das
colaborações, exige elevação de vistas, pensamentos
profundos, vontades férreas, inquebrantáveis. Quem não
se investir dessa armadura invulnerável, não poderá
resistir à onda avassaladora que ameaça a derrocada
ideológica dos apóstolos da liberdade.
Por sobre os destroços, as confusões da sociedade
burguesa, acima das fascinantes realidades, deve pairar
incólume as rutilantes idéias libertárias, a mais preclara
doutrina inspirada na filosofia do anarquismo.
De que servem as enganosas perspectivas dos
movimentos socialistas autoritários se eles hão de ser
realizados a custo de incoerências, de quebra de princípios
por parte dos que professam ideais mais perfeitos e mais
dignificantes?
Nós podemos deixar de apoiar qualquer revolta que tenda
ao esfacelo da sociedade burguesa, mas não podemos
formar grupos, associações ou partidos que não sejam
edificados sobre o pedestal dos nossos princípios.
Nas nossas doutrinas encontramos processos para todas
as realizações, isto é, para provocar a transformação social,
para agir antes da revolução, na revolução e depois da

140
verve

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa

revolução. Não precisamos emprestar de ninguém


processos que, em última análise, são inferiores aos
nossos, e de efeitos antagônicos às nossas aspirações
libertárias.
Reflitam bem os camaradas que estão empolgados pelos
sucessos dos discípulos de Marx, que vêm estabelecendo
novas repúblicas, novas burocracias que são a antítese da
liberdade.
A nossa obra é mais pura, mais justa, mais sublime.
Principalmente os companheiros que mais se têm
evidenciado na propaganda, os que mais responsabilidade
têm no movimento libertário devem ter uma noção clara
dessa mesma responsabilidade para não se deixarem
arrastar pelo caminho das concessões, das incoerências,
porque isso implicaria a própria desmoralização e o
descalabro no elemento militante.
Os Ferri, os Turrati, os Labriola, os Griand prejudicam
muito mais a causa do que aqueles que passam
diretamente a fazer parte das instituições policiais.
Aqueles estabelecem confusões; arrastam consigo
numerosos simpatizantes, provocam o desânimo nas
massas; estes vão sós e levam atrás de si o desprezo
unânime.
A preço algum se deve, pois, contemporizar ou transigir
nos nossos princípios. Devemos fazer-nos respeitar pela
intangibilidade das nossas convicções, inspirar confiança
pela irredutibilidade, constância e decisão nas idéias e
nas lutas.
Antes e acima de tudo tenhamos o brio necessário para
sustentarmos a superioridade do Ideal Anarquista.
Que se rompa y no se doble.

141
12
2007

O bolchevismo. Sua repercussão no Brasil

Florentino de Carvalho
A Obra
Ano 0I – Nº 13
São Paulo – SP
Página 04
15.09.1920
Somos admiradores da grande obra das revoluções
libertadoras que tiveram lugar na Inglaterra, na França,
na América do Norte, na Espanha, na Hungria... em todo o
mundo. Julgamos dignos de glória os movimentos
subversivos contra as instituições reacionárias e, por isso,
louvamos a grande obra de demolição das arcaicas e
despóticas instituições do ex-império moscovita, realizada
com esforços e sacrifícios ingentes, pelos revolucionários
russos. Nós persistimos em cobrir de louros essa revolução
que mudou a face da História e abalou os alicerces da
sociedade burguesa.
As revoluções sociais, e principalmente a revolução
russa, despertam as massas e adestram os combatentes
por novas e mais justas formas de convivência social, nas
lides insurrecionais e ideológicas, transformadoras da
economia social e do direito, e são, portanto, dignas da
solidariedade de todos os que aspiram a novos e superiores
estágios de civilização.
Por isso a nossa atitude é de franco apoio à causa dos
revolucionários russos contra a burguesia universal, que
realiza a suprema tentativa para esmagá-los.
A Revolução Russa, bem como alguns de seus
princípios e realizações, despertaram em nós incontidos
entusiasmos.

142
verve

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa

O artigo 18 da constituição russa, que suprime o


parasitismo burguês, declarando: “quem não trabalha não
come”, se não exprime completamente o nosso ideal
econômico, dá, no entanto, uma idéia geral acerca da
igualdade econômica.
O artigo 9, cap. V da mesma constituição diz: “O princípio
essencial da República S. F. dos Sovietes, constituição
elaborada para o período de transição atual, reside no
estabelecimento de uma poderosa força sovietista, da
ditadura do proletariado urbano e rural e dos camponeses
mais pobres, procurando esmagar por completo a
burguesia, suprimir a exploração do homem pelo homem
e fazer triunfar o socialismo. Não haverá divisões em
classes nem poder de Estado”.
Estes e outros princípios de tendência libertária
levaram-nos à convicção de que no movimento
revolucionário russo os anarquistas tinham (como de fato
tiveram) uma influência sensível e que, uma vez
inutilizada a pressão dos Estados burgueses, a organização
econômica e social da Rússia tomaria uma feição cada
vez mais libertária.9
Contudo, se, em oposição às calúnias dos burgueses,
divulgamos a obra benéfica da república russa, nunca
fizemos a apologia desse regime, porque demasiado
sabíamos que o Estado, qualquer que seja a sua estrutura
autoritária ou governamental, é essencialmente contrário
aos nossos princípios. Sempre mantivemos sobre este
assunto as devidas reservas, esperando sermos ilustrados
por documentos nos quais pudéssemos confiar.
Agora, porém, de posse desses documentos, cumpre-
nos esclarecer a situação, principalmente e porque,
havendo no Rio alguns libertários militantes que tomam
a nuvem por Juno, isto é, confundem a Revolução Russa
com o Estado burocrático e militarista ali estabelecido,

143
12
2007

chegando a propagar a organização de um partido socialista-


maximalista, o qual teria por fim, entre outras coisas, a
conquista do Estado burguês, empregando o processo
eleitoral, transformando-o em Estado... maximalista, afim
de que este pusesse a máquina nos eixos, durante o período
de transição, este fato pode causar sérios embaraços à
ação francamente libertária dos trabalhadores e dos
revolucionários.
As tendências doutrinárias dos maximalistas, bem como
o atual estado de coisas na Rússia, das quais a seguir
damos notícia, exprimem claramente o que seria esse
Estado Bolchevista no Brasil: um disparate.
Os bolcheviques russos são discípulos de Marx: sociais
-democratas.
O próprio Leon Trotsky no seu livro “O Bolchevismo”,
pág. 95, diz:
“Nós estamos unidos por muitos laços à social
democracia alemã. Todos nós passamos pela escola
socialista alemã e aprendemos lições tanto de seus textos
como de seus erros. A democracia social alemã foi para
nós não somente um partido da Internacional, foi o partido
único.
Nós sempre fortalecemos o laço fraternal que nos une
à democracia social austro-húngara”.
O autor do prólogo desta obra, Dr. Vincente Gay, afirma
que os bolcheviques tendem a eliminar a fase capitalista
da propriedade, mas castigam severamente o roubo, e o
direito de expropriação só é exercitado pelas autoridades
da República:
que a propriedade individual de móveis, valores e
dinheiro não foi suprimida;
que, em princípio, no regime em questão não se suprime
a propriedade privada da terra: tende-se apenas a uma
nova distribuição da propriedade rústica;

144
verve

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa

que as terras confiscadas passam a ser propriedade


nacional e administradas pelo Estado;
que em cada empresa há um administrador responsável
que dá ordens sob sua responsabilidade e só há recurso de
queixa contra as comissões fiscais;
que isto significa apenas uma ampliação no sistema
de intervenção do operário, da organização do trabalho e a
sua participação nos benefícios das empresas.
Com relação à situação política sabe-se que as
liberdades públicas estão cerceadas completamente, que
nem sequer a autonomia dos municípios existe e que a
fiscalização sobre a vida pública e particular dos indivíduos
é exercida com uma meticulosidade e severidade nunca
vistas.
Para dar uma idéia sobre a pseudoditadura proletária
basta saber que os socialistas revolucionários, os
reformistas e todos os que não pertenciam à família
bolchevique foram escorraçados dos comitês e de todas as
repartições públicas. Os anarquistas, como mais perigosos
inimigos do Estado, foram escorraçados sob o fogo das
metralhadoras.
Aspiram os camaradas a implantar aqui um Estado
semelhante?
Nós queremos, como os bolcheviques, esmagar o Estado
burguês, mas queremos esmagar também o Estado
bolchevique, queremos esmagar todos os Estados, porque
enquanto existir o Estado não será possível a emancipação
econômica e política dos oprimidos e explorados.
Vejam, pois, o que fazem os nossos amigos ou
militantes que no Rio cogitam da constituição de um
partido socialista ou maximalista.
Esta atitude, além de produzir uma cisão nos
elementos avançados, significa uma refratação dos

145
12
2007

princípios que disseram sustentar e uma traição à causa


da emancipação humana.

Vivamos às claras – Basta de confusionismo

Pelo despotismo autoritário ou pelo anarquismo


Content.10
A Obra
Ano 01 – Nº 14
São Paulo – SP
Páginas 10 e 11
01.10.1920
Sejamos conseqüentes.
A cada passo se encontram pessoas que, seja por
ignorância ou por ambição, nunca se acham satisfeitas,
mudando de idéias ou de partidos como quem muda de
camisa. Que esta mudança sobrevenha depois de aturadas
e profundas meditações, tendo-se reconhecido a falsidade
dessas idéias preconcebidas, bem está; mas que, pelo sim
ou pelo não, se abandonem os camaradas de lutas e a
propagação dum ideal para aderir a um novo partido e
entregar-se a novas propagandas – é fazer obra de divisão,
contribuir para enublar os espíritos e dar,
conseqüentemente, uma singular idéia da própria
mentalidade.
Mas o que não se compreende é que alguns anarquistas,
ou pelo menos pretensos anarquistas, abandonem a
propaganda dum ideal que ainda ontem faziam seu, e isto
porque em vão procuraríamos os motivos sérios da sua
nova atitude. Estes, consciente ou inconscientemente,
entregam-se a um péssimo labor e é contra o seu

146
verve

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa

confusionismo, contra a perturbação que eles contribuem


a perpetuar, que nos queremos rebelar denunciando-os.
Em guarda!
Vai o vento de feição para o comunismo, posto em foco
pela Revolução Russa. Comunismo que cada um interpreta
a seu modo, consoante as necessidade da causa. Ao passo
que antes da guerra só os anarquistas se chamaram
simultaneamente “comunistas”, agora, e um pouco por
toda a parte, existem grupos de tendência mais ou menos
comunistas, sovietista, na III Internacional: dissidentes
do Partido Socialista, sindicalistas descontentes e
anarquistas (?) em cisão com a anarquia. Publicam-se
diferentes jornais e revistas, todas se apresentado como
órgãos da III Internacional. Grupos e jornais reclamam-se
de Moscou, de Lênin, de Trotsky, etc. e especulam, é
preciso dizê-lo, com o prestígio da Revolução Russa, do
sovietismo, do comunismo, da ditadura do proletariado.
Tudo isto causa nas idéias e nos espíritos uma
deplorável confusão. Cada um procura interpretar o
marxismo, o comunismo e mesmo o anarquismo de
diferentes modos, experimentando mesmo conciliar os
inconciliáveis. Difícil tarefa...
Esta confusão, que se manifesta quase sempre por uma
ação incoerente, não parece, pelo menos neste momento,
opor-se ao fim almejado — à revolução. Parece mesmo
decuplicar os esforços de uns e de outros. Mas que amanhã
surjam os acontecimentos que todos nós esperamos, e ver-
se-á então à luz radiosa do sol, mas demasiadamente tarde,
os erros, as faltas e as puerilidades de uns e de outros. Daí
um grave perigo, na hora mesma em que uma linha de
conduta bem clara perfeitamente determinada deveria ser
a regra de cada um.
É tempo, pois, mais do que tempo, de nos erguermos
contra a confusão das idéias e dos espíritos. Confusão

147
12
2007

que será amanhã, caso não ponhamos em guarda o quebra-


costas onde se pulverizarão todos os nossos esforços.
Entendamos-nos.
Que queremos nós?
Dois grandes princípios se têm achado sempre em lutas
no decorrer da história. Dois grandes princípios trouxeram
sempre às mãos as minorias e as maiorias, os povos e os
governantes. A estes dois princípios não escapam os
próprios elementos revolucionários, que lhes sofrem as
garras. Eles dividiram sempre os homens e hoje se sabe
que a harmonia só será possível quando nós tivermos
decidido por um, eliminando o outro. Estes dois princípios,
o princípio de autoridade e o princípio de liberdade, não
podem, pois, conciliar-se, e os anarquistas, precisamente
porque são anarquistas, fizeram há muito a sua escolha,
erguendo-se sempre, e violentamente o fizeram, contra
os métodos e práticas autoritárias. Práticas que, qualquer
que seja o fim perseguido, tiveram sempre por resultado
meter a bulha, dividindo-os por conseqüência, em um
partido, um grupo ou uma casta, contra outros partidos e
outros grupos, quando não contra o conjunto de toda uma
população.
Foram estas práticas que, a quando da nossa Grande
Revolução, arremeteram os jacobinos contra o povo,
permitiram a volta da reação no Termidor (Julho, 1794) e
prepararam o regresso e depois o reinado de Napoleão. Está
ali todo um capítulo da história que é preciso relembrar e
que deve servir-nos de lição.
Estes dois princípios acharam-se em antagonismo
desde os inícios da Internacional Operária, cimentaram
funda dissidência entre Marx e Bakunin, e nós sabemos
por quais meios pouco honestos o primeiro eliminou o
segundo. É preciso decididamente fazer uma escolha, e
com todo o conhecimento da causa optar pelo socialismo

148
verve

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa

autoritário, o marxismo, que nos conduzirá fatalmente à


ditadura, a constituição dum novo Estado, e, quer o queiram
quer não, à reação — que a essência do Estado é conservar
e quebrar as iniciativas e as energias — ou então, optar
pelo socialismo antiautoritário, libertário, pela anarquia,
que se oporá a toda a ditadura, a toda a organização
centralizada, burocratizada, e nos conduzirá ao federalismo,
à organização comunalista.

A força da anarquia

Para demonstrar a potência do nosso ideal não


remontaremos a Sócrates, nem mesmo a Rabelais, por
bem inspirados que tivessem sido. Limitar-nos-emos,
modestamente, a constatar a sua influência nos
acontecimentos atuais.
Não se pode negar, com efeito, que na Rússia, no próprio
seio da III Internacional, entre os bolchevistas — estes
marxistas! — as idéias anarquistas tenham de algum
modo pesado sobre as diretrizes, orientando as decisões.
As moções contra a defesa nacional, contra o
parlamentarismo, e outros mais, ainda que não sendo de
natureza essencialmente libertária, estão, não obstante,
fortemente impregnadas da idéia. As inovações — os
comitês de operários, o sistema sovietista, que alguns
(certamente nascidos ontem para as questões sociais...)
acham tão engenhosos, que são, em suma, a organização
de baixo para cima, a descentralização preconizada sempre
pelos federalistas, pelos anarquistas?
Mas ali ainda os princípios se encontram viciados,
falseados nas suas bases, se dermos crédito a Kropotkin,
pois que só os bolchevistas têm voz no capítulo.
Estes fatos revelam-nos, apesar de tudo, que para
fazer a revolução os bolchevistas tiveram de calar o
marxismo, e, à medida que se consolidam e se tornam

149
12
2007

um governo forte, apressam-se a demolir o que tinham


construído e o que poderia incomodar a sua política.
As resoluções do último Congresso de Moscou, dão-nos
disso uma excelente prova: fez-se antiparlamentarismo
até ao dia em que houve a certeza de boas eleições, etc.
etc. ... E, como todo o governo que se respeita, o bolchevismo
pratica o oportunismo.
Não é propícia a hora para o abandono dos nossos ideais,
sobretudo neste momento em que eles afirmam a
superioridade da sua lógica e a eficácia da sua ação; quando
tal político, que ontem ainda solicitava os sufrágios da
multidão, nos demonstra hoje as nocividades do parlamento;
quando fulano de tal, que colaborou durante cinco anos na
defesa da pátria, vem enxovalhar no último instante;
quando um dado jornal, que se encarniçava na apologia de
certos renegados, os passa a atacar inopinadamente —
assiste-nos o direito de encolher os ombros e de dizer que
há muito que os anarquistas tomaram posições, não
esperando pelas ordens de Lênin para agir neste ou
naquele sentido.

O perigo... O remédio

Se, numa revolução, as idéias, as iniciativas de cada


um se discutem, se confrontam, nós podemos estar seguros
do sucesso. Mas se essas idéias se opõem violentamente
pelo fato de que um partido, tendo conquistado o poder,
tenta esmagar tudo o que não seja dimanado de si próprio,
então haverá tudo a temer do novo governo e o êxito da
Revolução restará problemático.
O grande perigo que poderia aniquilar todos os
benefícios da Revolução a fazer recuar a humanidade,
reside no fato dos violentos conseguirem utilizar a força
do maior número, a força social, para sua única
vantagem, como instrumento da sua própria vontade —

150
verve

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa

isto é, que conseguissem constituir um governo,


organizar o Estado.
Os anarquistas, que lutam hoje para destruir todos os
órgãos da violência, terão por missão, amanhã impedir que
renasçam esses órgãos por obra ou por conta dos antigos
ou dos novos dominadores.
Errico Malatesta
Eis aí a série de raciocínios que oferecemos às
meditações dos nossos camaradas dos diferentes
agrupamentos revolucionários, sovietistas, comunistas ou
outros. Eles crêem ter achado o seu caminho e enganam-
se redondamente! Estão em plena Torre de Babel...
Nós pedimos-lhe desde já um pouco de lógica e de
coerência. Não abusem da palavra comunismo, antes de
saber e fazer saber o que entendem ao certo por este termo.
É preciso escolher entre o comunismo de Estado e o
comunismo-anarquista. A não ser que se pretenda ficar
no equívoco, em que tanto se comprazem certos
“camaradas”, é mister decidirem-se pela ditadura ou pela
anarquia. Porque pode bem suceder que amanhã seja
muito tarde, e que bom número dos que julgaram andar
bem enfraquecendo o anarquismo, ou não ousando ou não
pensando dever ir até ele, tenham de roer as unhas, único
desforro dos parvos, apercebendo-se que contribuíram pela
sua atitude equívoca de hoje a entronizar uma nova
categoria de governantes e de políticos.
A vós, camaradas socialistas, sindicalistas, sovietistas,
comunistas, todos os que quereis sinceramente trabalhar
por uma revolução profunda, a vós cabe decidir da vossa
orientação e da vossa ação, cabendo-vos também meditar
sobre esta eloqüente frase de Kropotkin:
Dois partidos somente estão em face um do outro, o
partido da coação e partido da liberdade, os anarquistas,
e, contra eles, todos os outros partidos, qualquer que seja o
rótulo.

151
12
2007

É concludente: ou com os autoritários ou com os


libertários. Conosco ou contra nós. Mas, por piedade: dai-
nos a conhecer o vosso pensamento para que se saiba com
quem estais!...
Evitemos a confusão que já se prolonga demasiadamente.
E nós convidamos os grupos e os indivíduos que estão
conosco a aderir sem demora à Federação Anarquista, a
única organização capaz de realizar a tarefa e a propaganda
acima indicadas.

Notas
1
O anarquismo constitui campo bastante largo para experimentos e vivências em
diferentes modalidades de sociabilidades. Por esta razão suas diversas expressões
se reconhecem entre si, apesar de constituírem perspectivas próximas ou mesmo
consideravelmente distantes. Esta particularidade talvez explique a migração de
anarquistas para outros campos do pensamento social. Neste sentido basta
relembrar que anarquistas de projeção no movimento migraram para o marxismo
e fundaram o PCB em 1922. José Oiticica (1882-1957) e Edgar Leuenroth
(1881-1968), por exemplo, foram abalados pelo bolchevismo, mesmo sem
adotarem o marxismo. Leuenroth chegou a escrever em 1919 um opúsculo junto
com Hélio Negro, pseudônimo de Antonio Candeias Duarte, muito simpático ao
bolchevismo. Oiticica colaborou com muita proximidade com os maximalistas
por um certo tempo antes da criação do PCB. O jornal carioca Spártacus (1919)
registra a aproximação de Oiticica com o marxismo. Outros anarquistas desistiram
das idéias libertárias ou se voltaram para outras sociabilidades. Elysio de Carvalho
(1880-1925), anarquista individualista de atuação importante no início do século
XX, tornou-se uma figura importante no estabelecimento da polícia científica,
momento em que se afastara do anarquismo, tornando-se um nacionalista próximo
do integralismo. Entretanto, anarquistas como, por exemplo, Gigi Damiani (1876-
1953), Lima Barreto (1881-1922), Maria Lacerda de Moura (1887-1945),
Friedrich Kniestedt (1873-1947) e Florentino de Carvalho (1883-1947) foram
irredutíveis, não contemporizando com nenhuma forma de absolutismo. Ver
Edgar Leuenroth; Hélio Negro. O Que é Maximismo ou Bolchevismo. São Paulo,
[s.n], 1919; Friedrich Kniestedt. Memórias de um imigrante anarquista. Porto Alegre,
Escola Superior de Teologia, 1989. (Coleção Imigração Alemã) Tradução René
E. Gertz; Moacir Medeiros de Sant´ana. Elysio de Carvalho, um militante do
anarquismo. Maceió, Arquivo de Alagoas, 1982; Elysio de Carvalho. Ensaios. Brasília,
Universa – UCB, 1997. Na vasta obra de Edgar Rodrigues há informações sobre
diversos anarquistas no Brasil. Ver em particular Edgar Rodrigues. Os Companheiros.
Rio de Janeiro, VJR Editores Associados, 1994-1997 em 5 volumes. Sobre
anarquismos, no plural, ver Edson Passetti. Anarquismos e Sociedade de Controle. São
Paulo, Cortez, 2003; Edson Passetti. Anarquismos. Disponível em <www.nu-
sol.org>

152
verve

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa


2
Os jornais A Plebe e Spartacus, respectivamente de São Paulo e do Rio de
Janeiro, registram em suas colunas os impasses e dilemas atingindo a muitos
trabalhadores no período imediatamente posterior a 1917, sobretudo entre
1919 e 1920. O dinamismo do movimento anarquista foi profundamente
afetado pelos acontecimentos da Revolução Russa e por sua crescente
bolchevização, como é possível de se avaliar nos artigos de Florentino de
Carvalho ora publicados.
3
Verve publicou no número anterior um artigo de anarquistas russos e outro de
Emma Goldman sobre as suas vivências do processo de bolchevização da
Revolução Russa. Ver Grupo de anarquistas russos exilados na Alemanha. “A
repressão ao anarquismo na Rússia Soviética” in Verve Vol. 11. São Paulo, Nu-
Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária, 2007, pp. 95-108; Emma Goldman.
“Minha outra desilusão na Rússia” in Verve Vol. 11. São Paulo, Nu-Sol –
Núcleo de Sociabilidade Libertária, 2007, pp. 109-122. O volume vinte da
Coleção Escritos Anarquistas reúne textos de anarquistas que vivenciaram e
refletiram sobre a Revolução Russa. Alexandre Skirda (et alii). Nestor Makhno
e a revolução social na Ucrânia. São Paulo: Imaginário; Nu-Sol; SOMA, 2001.
Friedrich Kniestedt registrou em suas memórias ter polemizado com
representantes de projeção na social democracia alemã. Travou polêmicas em
reuniões com Bernstein, Rosa Luxemburgo entre outros grandes personagens
do partido. Destacou, dentre estes, um debate, em torno da grande guerra que
se anunciava, ocorrido com o escritor russo Braunstein em fins de 1913.
Braunstein posteriormente ficou conhecido como Trotsky. Ver Kniestedt, op.
cit. pp. 61-62; 107-108.
4
Os artigos aqui apresentados são assinados por Florentino de Carvalho e por
Content. Estes são dois dentre os muitos outros pseudônimos de Primitivo
Raymundo Soares (1883-1947). Entretanto, ficou mais conhecido, no
movimento operário no Brasil e noutros países como Uruguai e Argentina,
como Florentino de Carvalho. Rogério Nascimento realizou pesquisa de
mestrado sobre a vida e pensamento social de Florentino de Carvalho. Ver
Rogério Nascimento. Florentino de Carvalho, pensamento social de um anarquista. 1ª
ed. Rio de Janeiro, Achiamé, 2000.
5
Florentino de Carvalho colaborou com a imprensa anarquista pelo menos
desde 1912. Deste ano em diante, integrou coletivos editoriais de maneira
ininterrupta até meados da década de 1920. Em 1926, os órgãos de repressão
elaboraram em São Paulo uma Lista de anarquistas perigosos. Nesta ocasião,
Florentino de Carvalho evade-se para o Rio Grande do Sul onde publica, em
1927, seu primeiro livro. Ver Florentino de Carvalho. Da Escravidão à Liberdade:
a derrocada burguesa e o advento da igualdade social. Porto Alegre, Renascença,
1927. Após as comoções de 1932 em São Paulo publicou, neste mesmo ano,
seu segundo livro, exemplar único porque escrito por um trabalhador refletindo
sobre a guerra de São Paulo contra o governo central. Ver Florentino de
Carvalho. A Guerra Civil de 1932 em São Paulo: solução imediata dos grandes problemas
sociais. São Paulo, Ariel, 1932. Escreveu ao todo cerca de oito livros, dos quais
apenas os dois primeiros foram publicados. Os originais dos demais
desapareceram ou foram subtraídos pela polícia.

153
12
2007

6
Para André Glucksmann, os hospitais psiquiátricos para dissidentes políticos
e, sobretudo, os gulags, os campos de concentração russos, não foram “erros”,
“desvios” nem “equívocos” acidentais, mas antes aspectos constituintes do
marxismo. A história não o desmente. Estado marxista e instituições
concentracionárias estão juntas onde quer que tenha sido instaurado e
independente da vertente adotada. André Glucksmann. A cozinheira e o
canibal: ensaio sobre as relações entre o Estado, o marxismo e os campos de
concentração. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978, Tradução de Angelina Peralva.
Roberto das Neves relacionou marxismo com estabelecimento de ditaduras.
Ver Roberto das Neves. Marxismo: escola de ditadores. Rio de Janeiro, Mundo
Livre, s/d. Os embates ocorridos entre Marx e Bakunin tiveram como um
de seus desdobramentos a publicação de análises elaboradas pelo segundo
em torno do pensamento social e político do primeiro, de onde é possível
destacar o caráter despótico do pensamento social de Marx evidenciado na
analítica bakuniniana. Ver Mikhail Bakunin. Escritos Contra Marx. Tradução
de Plínio Augusto Coelho. São Paulo, Imaginário, Nu-Sol, SOMA, 2001.;
Mikhail Bakunin. Estatismo e anarquia. São Paulo, Imaginário, Nu-Sol,
SOMA, 2003. Tradução de Plínio Augusto Coelho.
7
Os artigos foram atualizados e corrigidos. Procuramos intervir o mínimo
nos textos. Por isto mantivemos algumas expressões em desuso. Verve
publicou dois artigos de Florentino de Carvalho. Ver Rogério Nascimento.
“Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos.” in Verve
Vol. 3. São Paulo, Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária, 2003, pp.
92-136; Florentino de Carvalho. “Carta aberta aos trabalhadores.” in Verve
Vol. 10 . São Paulo, Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária, 2006, pp.
220-223.
8
O jornal anarquista A Plebe foi criado em 1917 por conta das agitações
proletárias ocorridas naquele ano em São Paulo, tendo atravessado três
fases até meados da década de 1940. Entretanto, a considerar o editorial do
primeiro número, este jornal era a continuação de A Lanterna, jornal
anticlerical fundado em 1901. A decisão de publicar o jornal com novo
nome deu-se, ainda segundo o editorial, por conta da necessidade, colocada
pelo coletivo editorial, de ampliar o foco de abordagem da questão social.
Um jornal monotemático limitava as possibilidades. A Plebe passou a tratar
de outros temas sem deixar de publicar em suas colunas artigos críticos do
clero, da igreja e da religião. Por sua vez A Obra, apesar de ter sido publicado
apenas no ano de 1920, agregava anarquistas atuantes em outros jornais e
revistas, inclusive n’A Plebe, e também em outras atividades, como escolas
e sindicatos. Rogério Nascimento realizou tese de doutoramento sobre
jornais e revistas anarquistas. Ver Rogério Nascimento. Indisciplina:
experimentos libertários e emergência de saberes anarquistas no Brasil. 388 f. Tese
(Doutorado em Ciências Sociais – Política) – PUC-SP. São Paulo, 2006.
Disponível em <www.sapientia.pucsp.br>.

154
verve

A propósito dos 90 anos da Revolução Russa


9
Nota do Nu-Sol: Volin (1882-1945), pseudônimo do anarquista Vsevolod
Mikailovitch Eichenbaum, integrou o primeiro soviet criado no ano de 1905
em Petersbugo na Rússia. Registrou suas impressões deste evento num livro
publicado em três volumes dos quais apenas o primeiro nos beneficiamos de
tradução no Brasil. Ver Volin. A revolução desconhecida: nascimento, crescimento e
triunfo da Revolução Russa (1825-1917). V. 1. Tradução de Jaime Almeida. São
Paulo, Global, 1980. O segundo e terceiro volumes são intitulados,
respectivamente, “Bolchevismo e Anarquia” e “As Lutas Pela Verdadeira
Revolução Social: Cronstadt e Ucrânia”. Nestor Makhno (1889-1934),
guerrilheiro anarquista ucraniano, publicou as experiências anarquistas na
Ucrânia e o desempenho da makhnovistchina, o exército guerrilheiro
insurrecional de camponeses. Ver Nestor Makhno. A “Revolução” contra a revolução:
a Revolução Russa na Ucrânia, março 1917-abril 1918. Tradução de Milton José de
Almeida. São Paulo, Cortez, 1988. Piotr Archivov, operário anarquista,
integrante da makhnovistchina, publicou livro registrando eventos da revolução
social na Ucrânia. Ver Piotr Archinov. História do movimento Macknovista (a
insurreição dos camponeses da Ucrânia). Aguada de Baixo – Águeda. Portugal,
Assírio & Alvim, 1976.
10
Nota do Nu-Sol: Ver nota 4.

155
12
2007

RESUMO

Conjunto de cinco artigos de Florentino de Carvalho (1883 – 1947)


escritos na imprensa anarquista em São Paulo no ano de 1920 em
que a Revolução Russa é analisada. O autor destaca a participa-
ção intensa dos anarquistas neste evento ao mesmo tempo em que
percebe no processo de bolcheviquisação na Rússia a instauração
de novas tiranias. Antes da ascensão de Stalin, Florentino de
Carvalho evidenciou a existência de uma identidade do bolchevis-
mo com os jacobinos na Revolução Francesa.

Palavras-chave: Revolução Russa, bolchevismo, anarquismo.

ABSTRACT

Reunion of five articles by Florentino de Carvalho (1883-1947)


published in the anarchist press in São Paulo, during the 1920’s,
in which the Russian Revolution is analyzed. The author relights
the impressive anarchist participation in this event, at the same
time he notes the process of ‘bolcheviquisation’ in Russia, with
the instauration of new tyrannies. Before Stalin’s rise, Florentino
de Carvalho had shown the existence of an identity between the
Bolchevism and Jacobinism in the French Revolution.

Keywords: Russian Revolution, bolchevism, anarchism.

Recebido para publicação em 23 de abril de 2007. Confirmado em


6 de agosto de 2007.

156
verve

Os motivos que originaram a história da F.A.I.

os motivos que originaram


a história da f.a.i.

edgar rodrigues*

Introdução

Os acordos e colaborações dos anarquistas e


sindicalistas ibéricos são um pouco mais antigos do que
o ano de 1923, quando se realizou em Évora, Portugal, a
Conferência das Organizações Operárias de Portugal e
Espanha, e se discutiu e aprovou a criação de um
organismo de resistência e enfrentamento libertário aos
políticos e governantes da Península Ibérica. No
Congresso Internacional contra a Guerra,1 realizado em
Abril – Maio de 1915, por iniciativa do Ateneu Sindicalista
do Ferrol, Espanha, foi aprovado (sobre a guerra, o
capitalismo e os políticos):
“1 o Que se nomeie um Comitê Permanente do
Congresso Internacional da Paz;

*Edgar Rodrigues é um dos mais importantes arquivistas do movimento


anarquista no Brasil e em Portugal. Suas análises, entrevistas e compilações de
documentos distribuem-se em mais de quarenta livros e cerca de mil artigos.
verve, 12: 157-168, 2007

157
12
2007

2o Que este Comitê, composto de cinco membros,


tome à sua guarda os documentos do Congresso
arquivando-os, como subsídio para a história proletária;
3o Que este Comitê elabore todas as quinzenas uma
alocução revolucionária escrita nos idiomas falados nas
nações beligerantes e as faça chegar por todos os meios
às trincheiras e aos campos de batalha;
Este Comitê terá sua existência em Lisboa,
Portugal.”2
Sobre o proletariado libertário português e espanhol
foi apresentado e aprovado também no Congresso do
Ferrol:
“1o Que este Congresso nomeie um Comitê, composto
por delegados de Espanha e Portugal;
2o Que se trate de estreitar os laços de Solidariedade
entre o proletariado de ambos os países, dando-se assim
a princípio à Organização da Federação Ibérica, célula
inicial da Federação Internacional, contra a guerra,
contra todas as guerras, contra a exploração capitalista
e contra a tirania do Estado;
3o Que se combata por todos os meios, em especial
por meio da imprensa e da tribuna, a opinião burguesa
e política na sua febre pelo aumento de armamentos e
pelo afã de conquistar territórios.”3

Gente que conheci e ajudou a formar a Federação


Anarquista Ibérica

No Rio de Janeiro, década de cinqüenta, conheci


Manuel Peres, José Romero e Raul Pereira dos Santos,
na Rua dos Inválidos, moradia de Peres, durante a
feitura de pacotes do jornal Ação Direta, para enviar pelos
correios aos assinantes.

158
verve

Os motivos que originaram a história da F.A.I.

Os dois primeiros tinham nascido na Espanha, imi-


grantes no Brasil, desde o final do século XIX. O último
nascera em Lisboa e chegou nos anos de 1951-2.
Peres e Romero chegaram ao Brasil crianças, com seus
pais. Estudaram no Rio de Janeiro, aprenderam suas pro-
fissões braçais e o anarquismo. Fizeram propaganda li-
bertária, ajudaram a publicar jornais de suas classes pro-
fissionais e anarquismo e, no ano de 1919, foram pre-
sos por suas idéias e expulsos, por ordem do presidente
Epitácio Pessoa, para Espanha.4
Raul havia sido preso em Lisboa, nos anos vinte, de-
portado pelo governo republicano português para a Colô-
nia de Timor, na época sob o domínio de Lisboa. Sem
processo formado, sem julgamento, como Peres e Ro-
mero, já vivia havia tempos neste território quando foi
embarcado num vapor cargueiro para ser julgado em
tribunal da capital portuguesa, e certamente condena-
do.
Durante parada em porto espanhol para abastecimen-
to, Raul fugiu, passando a viver clandestinamente na Es-
panha. Filiou-se à C.N.T. (Confederação Nacional do Tra-
balho) e pouco depois foi envolvido na Revolução Espa-
nhola de 1936-1939. Tomou parte na revolução ao lado
dos anarquistas, juntamente com os militantes portu-
gueses José Rodrigues Reboredo, Vivaldo Fagundes, o
médico Inocêncio Câmara Pires, Germinal de Sousa e
dezenas de exilados portugueses, à época, na Espanha.
Com a vitória dos militares espanhóis, Raul, e meio
milhão de pessoas, com e sem idéias, bateram na fron-
teira da França pedindo asilo político.
Durante nosso encontro tive oportunidade de saber
que Manuel Peres, José Romero e Raul participaram
dos movimentos anarquistas de Espanha e de Portugal.
Os três conheceram a ditadura do general espanhol

159
12
2007

Primo de Rivera, a ferocidade de sua polícia e a do


governante republicano português por força de um
pacto entre os dois malfeitores.5
Antes desse pacto, os anarquistas de Portugal, quando
perseguidos pelas autoridades lusitanas, atravessaram
a fronteira para o lado espanhol e passaram à clandesti-
nidade. Os espanhóis faziam o mesmo durante as perse-
guições policiais, atravessando a fronteira de Portugal a
pé e ficando a salvo, ajudados pela solidariedade dos anar-
quistas dos dois países.6
Em Lisboa, entre outros lugares que os fugitivos
procuravam, tornou-se famoso o quiosque A Bóia, cuja
senha era dar voltas ao local até ser interceptados por
quem ali estava encarregado de prestar solidarieda-
de. Apresentados, conferidas as “credenciais”, os fu-
gitivos eram levados para locais seguros por compa-
nheiros portugueses.
Por este “quiosque” passou José Romero em 1920 e
foi encaminhado à Calçada do Combro, 38 — redação
do diário dos trabalhadores portugueses A Batalha
(1919-1927), onde obteve trabalho e moradia.
José Romero de espanhol só tinha o local de nasci-
mento. Por isso pouco se demorou, mas Peres chegou
a trabalhar de marceneiro, participou da redação do
jornal Solidaridad Obrera, constituiu nova família: já
tinha uma filha a quem dera o nome de Aurora, quan-
do precisou fugir da feroz perseguição da polícia de
Primo de Rivera, atravessando a fronteira para o lado
português. Chegando a Lisboa com a família procurou
ajuda, e foi residir no Sindicato dos Marceneiros, à
Travessa Água de Flor, nº16, Lisboa.
Também conseguiu trabalho de marceneiro e filiou-
se ao sindicato de sua classe profissional e na UAP
(União Anarquista Portuguesa).

160
verve

Os motivos que originaram a história da F.A.I.

Não demorou muito e os anarquistas residentes em


território português descobriram que o ditador Primo de
Rivera havia feito um pacto secreto com o governo
republicano português, espécie de polícia política
instalada nos dois países: sindicalistas e anarquistas
que atravessavam a fronteira de Portugal ou da Espanha
eram caçados e levados para seus países de nascimento
pelas polícias portuguesa e espanhola, que tinham
ordens para atuar em conjunto. Um tipo de terrorismo
que em 1925 ainda fazia vítimas e inquietava os
anarquistas na Península Ibérica.
E foi este acordo de cooperação policial que permitiu
à polícia espanhola e portuguesa invadir a sede do
Sindicato dos Marceneiros na Travessa de Água da Flor
para prender Manuel Peres, a família e o Dr. Pedro
Vallina, no instante em que este médico anarquista
procedia ao parto da companheira de Peres. De armas
em punho, encontraram o médico anarquista com as
mãos ensangüentadas ajudando no nascimento da
menina que veio a chamar-se Carmem. E foi o sangue
do parto de uma anarquista que fez os policiais recuarem
e abandonarem o local sem os deter.7
O médico Pedro Valina e sua companheira, refugiados
em Lisboa, logo que tiveram a certeza que mãe e filhas
estavam bem, fugiram para França. Peres, sua
companheira Mercedes e as duas filhas foram passadas
clandestinamente por companheiros também para
França, dias mais tarde.

A Conferência das Organizações Operárias de Portugal


e Espanha, em Évora 1923, Portugal, e o Congresso
de Marselha, França, maio de 1926.

A ferocidade da polícia sanguinária de Rivera e o pacto


com o governo português de ajuda policial produziam a

161
12
2007

convicção nos anarquistas e sindicalistas ibéricos de que


só a formação de um organismo constituído por anarquistas
portugueses e espanhóis dispostos a lutar de igual para
igual, naquilo que fosse possível, tornaria menos cruel
o pacto dos governantes espanhol e português.
A polícia ibérica aliava-se para perseguir, prender,
espancar e deportar anarquistas e sindicalistas: os
anarquistas e sindicalistas portugueses e espanhóis
pensaram fazer o mesmo! Criariam uma “força”
libertária, ibérica, para defender e resguardar os
idealistas que estivessem sendo caçados: era a lei do
dente por dente, olho por olho.
Foi esta a razão maior, o motivo premente, que
convenceu o militante anarquista português Manuel
Joaquim de Sousa8 a apresentar esboço de um projeto
na Conferência das Organizações Operárias e
Espanholas de Évora em 1923, para apreciação, debate
e alterações, se fosse preciso, criando-se a Federação
Anarquista Ibérica e a Confederacion Iberica Del
Trabajo.
O propósito inicial, repito, era constituir agrupações
dispostas a resistir e enfrentar o acordo policial dos
governantes português e espanhol que vinham
impedindo a marcha dos libertários ibéricos!
A proposta apresentada recebeu a pronta
concordância e apoio do militante português José Santos
Arranha e dos espanhóis, Manuel Peres, J. Ferrer
Alvarada, Sebastián Clara e outros nomes que não
foram anotados na época por questões de segurança.
Entre a Conferência de Évora e o Congresso de
Marselha, decorreram menos de três anos. Neste
período, o ditador Primo de Rivera fortaleceu sua caça
aos libertários, e as cisões sucediam-se na França
entre exilados espanhóis, provocando debates

162
verve

Os motivos que originaram a história da F.A.I.

acalorados, acusações mútuas, alianças com políticos


também exilados. Enquanto o ditador e o governo
português fortaleciam sua aliança, o movimento
anarquista enfraquecia.
Na tentativa de refazer o caminho da concórdia,
trinta companheiros marcam um encontro em
Marselha, visando formar um comitê de resistência
de Regionais de Grupos de espanhóis exilados em
França.
Reunidos no mês de maio de 1926, em Marselha,
tiveram a pronta participação e colaboração de:
Armando Borgui, então secretário da AIT (Associação
Internacional dos Trabalhadores), acumulando o cargo
de delegado da U.S. (União Sindicalista Italiana); de
Manuel Joaquim de Sousa, representando a C.G.T.
(Confederação Geral do Trabalho Portuguesa),
encarregado de defender a sua proposta apresentada
na Conferência de Évora, dando vida ao Grupo de
Resistência Anarquista Ibérico, e Manuel Peres, ali
representando a UAP, apoiando desde o início a
formação da FAI (Federação Anarquista Ibérica).
Das polêmicas e mal entendidos iniciais “nasceu”
um acordo de paz entre todos os desavindos espanhóis,
tendo como base principal a atuação revolucionária,
livre de vergonhosos conluios com políticos. E por
unanimidade o Congresso resolveu não reconhecer
um organismo chamado Aliança Revolucionária,
formada por “anarquistas e políticos espanhóis”.
Reformulou-se então o Comitê Pró-Presos políticos e
a decisão de pedir ajuda a diversas organizações9 e
escolheu-se e aprovou-se, como porta-voz dos exilados,
o jornal Tiempos Nuevos. Por fim o Congresso confirmou
a formação da FAI debatida em 1923, na Conferência
das Organizações Operárias de Portugal e Espanha,
por iniciativa de Manuel Joaquim de Sousa, apoiado

163
12
2007

por José Santos Arranha (os dois) de Portugal; Manuel Peres,


J. Ferrer Alvarada, Sebastián Clara e outros não anotados
por sua condição de foragidos.
Em Marselha foi aprovado:
“1o O Congresso constitui a Federação Anarquista
Ibérica comunicando esta revolução à UAP de Portugal;
2o Que dada a situação política anormal de Espanha, o
Comitê relacionado resida em Lisboa;10
3o Que fique a sua comunicação a cargo da UAP, podendo
esta solicitar apoio e colaboração dos anarquistas
espanhóis residentes naquela localidade;
4o Que o dito Comitê convoque, quando ache oportuno,
um Congresso Ibérico que dê caráter definitivo a dita
Federação;
5o Que tenha caráter provisório o dito Comitê enquanto
não se realize o Congresso;
6o Que se consultem os anarquistas espanhóis para
dar efetividades a estas revoluções. Ao Congresso da UAP
irá um delegado representando o movimento de
anarquistas espanhóis.”
Nesse Congresso foi também aprovado “Um delegado
ao Comitê de Relações Internacionais; buscar auxílio da
CNT, de Espanha; formar a Federação de Grupos
Anarquistas de língua espanhola em França e reforçar o
Comitê Pró-Presos Políticos Sociais.”

Espanha e Portugal em ditadura

Espanha vivia subjugada pela ditadura do general Primo


de Rivera, fazia tempo... A esperança dos anarquistas
espanhóis era de poder refugiar-se na França e em
Portugal.

164
verve

Os motivos que originaram a história da F.A.I.

No Congresso de Marselha, os libertários espanhóis e


portugueses deixaram alguns pontos para ser confirma-
dos, entre eles escolher e aprovar o Secretário Geral da
FAI para substituir o Comitê da FAI, que devia ser aprova-
do em Lisboa, no Congresso da União Anarquista Portu-
guesa, no 1o de julho de 1926 — data escolhida em home-
nagem ao aniversário de Bakunin. Todavia, no dia 28 de
maio de 1926, ou seja, 33 dias antes da realização do Con-
gresso da UAP, dois militares lusitanos deram um golpe
de Estado e implantaram a ditadura em Portugal, que du-
raria 48 anos (1926-1974).
Agora Portugal e Espanha viviam duas ditaduras e o
imprevisto obrigava a UAP e os espanhóis refugiados a
buscar um local “seguro” para o encontro.
Foi escolhida Valença/Valencia, cidade-fronteira dos
dois países, a fim de facilitar as fugas dos participantes: se
viesse a polícia espanhola, os anarquistas fugiriam para
Portugal (Valença) e se fosse a polícia portuguesa os anar-
quistas passavam para Valencia espanhola. Este foi na
época o propósito da escolha do local. O encontro deu-se
em fevereiro de 1927. Pelo lado português compareceu
Francisco Quintal, secretário da União Anarquista Portu-
guesa e Germinal de Sousa, pela CGT. Pela Espanha, um
pequeno grupo de companheiros que viviam clandestina-
mente na França e Portugal.
Diante da impossibilidade de maiores exposições, foi
aprovada a substituição do Comitê da FAI, aprovado em
Marselha, pelo secretário da FAI aprovado em Valença e
coube a escolha do português Germinal de Sousa, filho do
autor da proposta (1923-1926), Manuel Joaquim de Sousa.
Nos anos quarenta, Benjamin Cano Ruiz, num texto pu-
blicado em Tierra y Libertad do México, intitulado “PORTU-
GAL, Portugal, Portugal”, lembra que Germinal de Sousa
foi secretário da FAI durante a Revolução Espanhola, e
também foi diretor de Solidaridad Obrera, publicado em
Argel, após o fim da guerra (1945).

165
12
2007

Conclusão

Participaram da FAI e na Revolução Espanhola Ger-


minal de Sousa, Marques da Costa, Vivaldo Fagundes,
Raul Pereira dos Santos, José Rodrigues Reboredo, o
médico Inocêncio Câmara Pires e umas dezenas de
anarquistas nascidos em Portugal. Publicaram, entre
outros, o jornal Rebelião, e fundaram uma modesta emis-
sora de rádio no túmulo de um cemitério na fronteira,
transmitindo notícias livres para Portugal, a altas ho-
ras da noite, ganhando por isso o nome de Rádio Fantas-
ma “comandada” pela F.A.R.P. (Federação Anarquista da
Região Portuguesa).
Apagar a origem e alguns nomes pioneiros da forma-
ção da FAI, esquecer que Ibéria engloba Portugal e Espa-
nha e/ou motivos que esforçados anarquistas dos dois
países se juntaram para formar um organismo capaz de
responder ao pacto policial de Primo de Rivera com o
governo Português é no mínimo tentar mudar a verda-
deira história da FAI.
A projeção que a FAI veio a ganhar posteriormente
nunca esteve na mente dos seus organizadores dos anos
1923-1926, e, é preciso dizer, os militantes portugue-
ses sempre estiveram em menor número desde o iní-
cio, mas tentar dizer que a FAI foi/ é uma organização
espanhola e/ou que “nasceu” em Valença em fevereiro
de 1927, e ignorar o seu primeiro secretário é no míni-
mo uma atitude inconcebível, nativista!!!

Notas
1
Ao Congresso do Ferrol, contra a guerra o movimento anarquista de Portugal
enviou como delegados: Mário Nogueira, Manuel Joaquim de Sousa, Serafim
Cardoso Lucena, António Alves Pereirea, Ernesto Costa Cardoso e Aurélio

166
verve

Os motivos que originaram a história da F.A.I.

Quintanilha, este último representando as Federações Sindicalistas de França e


Portugal. O Movimento Libertário do Brasil enviou três delegados: Theófilo
Ferreira (pseudônimo, Deoclécio Fagundes), Astrojildo Pereira e João
Castanheira, este morto na Espanha. Como todos falavam português, a polícia
de Afonso XIII (Espanha) expulsou-os pela fronteira para Portugal. Astrojildo
deu entrevistas a jornais portugueses em Lisboa.
2
Proposta de Constâncio Romeu, da Coruña, Espanha.
3
Moção apresentada ao Congresso por António Alves Pereira, diretor do
semanário anarquista Aurora, Porto, Portugal – 30 de abril de 1915. As duas
propostas foram divulgadas no livro O Sindicalismo em Portugal, de Manuel
Joaquim de Sousa, capítulo 7, páginas 107-8, 2a edição da Comissão Escolar e
propaganda do Sindicato de Pessoal de Câmaras da Marinha Mercante
Portuguesa, Lisboa, 1931.
4
Tanto Manuel Peres quanto José Romero eram casados e tinham filhos
brasileiros, por isso, segundo as leis do Brasil, não podiam ser expulsos, mas
foram. A lei não valia para operários anarquistas.
5
Em Portugal o governo era ministerialista. O Presidente da República era
uma figura decorativa. O poder estava com os Primeiros Ministros: foram eles
que fizeram acordos policiais com o ditador espanhol Primo de Rivera.
Destacaram-se Antonio Maria Cardoso e Victorino Guimarães, entre outros.
6
Dentro deste intercâmbio ideológico e ajuda mútua já se encontravam em
Lisboa o médico e anarquista nascido na Espanha, Pedro Vallina, sua
companheira e dezenas de militantes ácratas espanhóis e outros... Vivendo com
alguma tranqüilidade nos primeiros anos da década de vinte.
7
Das memórias de Manuel Peres. Antes de falecer este companheiro mandou
seu genro, Joseph Tiboque, entregar em minha casa uma cópia, com mais de
200 cópias datilografadas. Durante a revolução Espanhola (1936-1939) Manuel
Peres foi preso e condenado à morte. Salvou-o Adido Comercial brasileiro na
Espanha, que conhecera Peres no Rio de Janeiro, e provou que este havia
vivido no Brasil desde menino. “Sua expulsão do Brasil havia sido um engano”.
Peres retornou ao Rio de Janeiro, e com o fim da ditadura Vargas ajudou a
fundar o jornal Ação Direta.
8
Manuel Joaquim de Sousa era, na época, um dos mais produtivos e eficientes
militantes do movimento libertário português, conhecido e respeitado
internacionalmente por sua atividade e colaboração prestada ao anarquismo e
sindicalismo revolucionário.
9
O Congresso acordou pedir auxílio de 5000 pesetas, para custear os processos
contra anarquistas, à Cultura Obrera, New York, La Protesta (Argentina); União
Sindical Italiana; AIT – CNT (Espanha); União Anarquista Portuguesa; CGT
Portuguesa; Federação da GA de Espanha e UA Francesa.

167
12
2007

Esta resolução apoiou-se em que Portugal ainda vivia um restinho de liberda-


10

de da 1a República, logo derrubada por um golpe militar, em 28 de maio de


1926.

RESUMO

O artigo busca relatar um pouco da histórica relação entre anar-


quistas portugueses e espanhóis anteriormente e, sobretudo, du-
rante a formação da FAI (Federação Anarquista Ibérica), por vezes
esquecida.

Palavras-chave: anarquistas portugueses, anarquistas espanhóis,


F.A.I.

ABSTRACT

This article intends to relate some of the historical relation betwe-


en portuguese anarchists and spanish anarchists formerly and,
foremore, during the reation of FAI, forgotten sometimes.

Keywords: portuguese anarchists, spanish anarchists, F.A.I.

Recebido para publicação em 4 de junho de 2007. Confirmado em


6 de agosto de 2007.

168
verve

Uma semana de janeiro de 1919

uma semana de janeiro de 1919

christian ferrer*

Quantos foram os mortos? Seiscentos, como mínimo,


como foi dito muitas vezes? Um morto já é demais. Ou
foram novecentos, como denunciaram de imediato os
anarquistas? As cifras não têm comparação na história
argentina no que se refere a conflitos políticos ou sociais
localizados. Ou mil trezentos e cinqüenta e seis mortos,
segundo informou ao seu governo o embaixador dos
Estados Unidos? Em Buenos Aires, assassinou-se à
vontade. O bombardeio da Plaza de Mayo, em 1955, ou o
massacre de Ezeiza, em 1973, numerosos em vítimas,
não chegam aos pés da selvageria policial, militar e
classista que se desatou sobre a cidade durante os
acontecimentos que foram contidos sob o nome de
Semana Trágica. Ao contrário, há notícia da quantidade
de baixas policiais: três mortos, setenta e oito feridos. A
desproporção é clara: foi batida, caçada e tiro de
misericórdia. Na cena de sangue sobressai, além do
mais, um safári de meninos ricos, que também

* Sociólogo, professor da Universidade de Buenos Aires.

verve, 12: 169-179, 2007

169
12
2007

contribuíram ao holocausto urbano. Assombra que


uma matança de tal magnitude tenha podido ser
tranquilamente assimilada pelo sistema político e
dissolvida, misteriosamente, na memória dos
portenhos, como se tivesse sido, apenas, um mal
sonho.
Aconteceu na segunda semana de janeiro de 1919,
e nada pressagiava uma noite de São Bartolomeu.1
Hipólito Yrigoyen, líder popular, era o presidente; a
maquete de um futuro venturoso, sustentado pela
feracidade inevitável do solo, era já um item das
crenças argentinas; quatro anos de loucura bélica na
Europa não tinham borrifado sangue no país. Mas a
cena pastoral da planície dos pampas e o vigor
centenário da cidade liberal mal ocultavam o
amassado do cartão postal: os conflitos sindicais se
propagavam; existiam duas organizações operárias
com milhares de afiliados, ambas chamadas
Federación Obrera Regional Argentina (FORA); as idéias
anarquistas não eram desconhecidas na cidade; e
grande parte da população vivia ainda como na época
da colônia ou era explorada nos bairros fabris.
Os primeiros dez dias que comoveram o mundo no
ano de 1917 já tinham se transformado em dois anos
de governo comunista na Rússia, e não foram poucos
os países que se puseram em guarda contra quem
promovesse idéias “maximalistas”. Ainda mais se o
porta-voz dessas idéias fosse estrangeiro, por exemplo
“russo”. Um ano depois da mudança de regime em
Moscou, em 1918, o governo norte-americano expulsou
uma boa quantidade de sindicalistas de origem russa,
que também eram judeus, durante uma onda de
paranóia cívica conhecida como “Terror Vermelho”.
Entre as deportadas destacavam-se Emma Goldman e
Molly Steiner, duas ativas anarquistas.

170
verve

Uma semana de janeiro de 1919

Uma década antes, no dia 1º de maio de 1909, houve


muitos caídos na manifestação reunida para comemo-
rar o Dia dos Trabalhadores na Plaza Lorea, dispersada
a tiros pela força policial a mando do Coronel Ramón S.
Falcón, que seria morto meses mais tarde, por vingan-
ça, pelo anarquista Simón Radowitzky. Luis Dellepiane
substituiu Falcón no comando da polícia, e será o ho-
mem a cargo da repressão durante essa semana de ja-
neiro de 1919. Nesse mesmo ano de 1909, mas em Bar-
celona, outra insurreição popular tinha sido reprimida
por meio de canhões e fuzilamentos. Foi ali onde foi
cunhada a fatídica conjunção de tempo e espaço: “a se-
mana trágica”, saldada, daquela vez, com cem mortos,
cinco condenados a morte, sessenta a prisão perpétua e
duzentos desterrados. Não surpreende que durante os
acontecimentos portenhos a palavra “catalão” se trans-
formara em sinônimo de anarquista.
Já estavam condenados os anarquistas. Tanto pela
classe alta, embebida de medo, quanto pela polícia, pelo
acontecido a Falcón. Para ambos o anarquismo era pouco
menos que um eufemismo de “bomba”. A princípios do
século XX, a figura social do anarquista continha
atributos obscuros: eram niilistas, intempestivos,
estranhos. Mártires perigosos, no máximo. É curioso que
a maior parte dos anarquistas fosse, na verdade,
inventora e construtora de instituições, idéias e
costumes que em décadas posteriores seriam adotadas
ou absorvidas de uma ou outra forma pela vida social.
Obviamente, tinham ocorrido atentados isolados que
excitaram o pânico dos ricos: contra o presidente Manuel
Quintana e depois contra o vice-presidente em exercício,
Victorino de la Plaza, além de uma bomba lançada no
Teatro Colón. Para a imprensa nacional não foi difícil
condensar a rica e construtiva história dos libertários
na figura “negra” da ave das tormentas: intransigente,
irredutível e distante. Enfim, eram o inimigo público.

171
12
2007

Isso tinham em mente os conservadores no momento


de se iniciar o conflito sindical e urbano de janeiro. Mais
ainda, num ato anarquista, no final de novembro de
1918, tinha sido ferido o Chefe da Polícia de Buenos
Aires, depois de um enfrentamento.
Não tremeu a mão do governo, dos legisladores e dos
juízes do começo do século XX, na hora de assinar ordens
de captura ou de expropriação. Em 1902, o Congresso
Nacional aprovou a assim chamada “Lei de Residência”,
destinada a se converter em jurisdição infame. Miguel
Cané, seu autor, considerava o anarquismo uma
patologia, e com sua proposta pretendia conseguir a
expulsão de todo estrangeiro que levantasse a voz ou
peticionasse com firmeza. Essa lei foi coroada, em 1910,
por uma espécie de anexo, a “Lei de Defesa Social”, que
limpou o país de agitadores ácratas durante as
celebrações do Centenário. Também em 1902, tinha sido
criada a “Seção Especial” da polícia, que se ocupava de
bisbilhotar as atividades grevistas e anarquistas. Ou
seja, quem não terminou expulso foi atirado na ilha da
Terra do Fogo, cuja instituição mais importante era a
prisão, também construída nesse funesto ano de 1902
pelos próprios condenados.
Os acontecimentos iniciaram-se na entrada da
Sociedad Hierros y Aceros Limitada de Vasena e Hijos, no
bairro Sur. No dia 7 de janeiro, o enfrentamento deixou
quatro mortos e trinta feridos. Dois dias depois houve
greve geral em toda a cidade. O cortejo fúnebre dos
primeiros caídos, que se dirigia ao cemitério da
Chacarita, foi atacado duas vezes, a última no próprio
cemitério, e houve vários outros mortos. A partir desse
momento tudo resultaria em caos, aturdimento e
tiroteio, e durante vários dias a vida ficou muito precária.
A redação do jornal anarquista La Protesta foi arrasada
enquanto as manifestações e as barricadas se

172
verve

Uma semana de janeiro de 1919

estendiam por quase todos os bairros operários. A polícia


foi insuficiente, e então o exército encarregou-se da
repressão, ajudado por brigadas homicidas, conformadas
por jovens da classe alta. Estes últimos dedicaram-se
ao saqueio e ao assassinato no bairro Once. Nesse
mesmo momento, mas longe, na Alemanha, era
esmagada a rebelião da esquerda espartaquista. Aqui
também, os ecos próximos da Revolução Russa, da
Reforma Universitária e das longas greves gerais
enroscaram-se num momento que em parte foi reativo
e em parte messiânico. Quer dizer que a insurreição
popular não foi a conseqüência de uma greve desatinada,
mas a libertação violenta de forças sociais que já não
podiam ser contidas. Tinham sido reclamadas, a Pedro
Vasena, a redução da jornada de trabalho de 11 para 8
horas e a implementação do descanso dominical. Era
pouco, mas ele o considerou excessivo.
Quando finalmente pôde ser recolhida a amarga
colheita no campo de batalha, as baixas eram
incontáveis: entre setecentos e mil trezentos mortos,
dois mil ou talvez três mil feridos, e trinta mil detidos,
numa cidade ocupada pelo exército. Do censo semanal
de um país que apreciava apresentar-se em sociedade
como “celeiro do mundo”, só se espremeu sangue. Por
sua vez, os protagonistas políticos apenas puderam
responder à sua natureza: audácia e coragem
desesperada por parte dos anarquistas; dúvidas no
Partido Socialista; recurso constitucional ao estado de
sítio; miopia e mesquindade de classe no caso dos donos
de indústrias; deslizamento da condição popular do
governo radical em direção à razão de Estado. Além disso,
os jornais dedicaram-se a exaltar xenofobia e comoção:
seus temas são a ordem acima de tudo e o nojo ao “mal
imigrante”. Nos últimos dias daquela semana os
“senhoritos” se dedicarão à caça do judeu no Once.

173
12
2007

Poucos meses depois da matança, Arturo Cancela


escreveu um conto, Una semana de holgorio,2 o primeiro
a tratar do episódio sangrento, e em 1966 David Viñas
publicou En la semana trágica, um relato dos aconteci-
mentos desde a perspectiva de dois meninos ricos que
saem para defender a honra de sua classe e para matar
insurgentes. O ponto de congregação é o Círculo Naval,
tal como verdadeiramente aconteceu. Quando ingres-
sa, um dos personagens enquadra os presentes: “pare-
ce a Bolsa”. Um conventículo de esnobes e de sobreno-
mes duplos dispostos a conformar patrulhas de limpeza.
É uma das primeiras obras literárias em que se trata o
ataque ao bairro judeu, pois Cancela não menciona as
sevícias e mortes acontecidas no bairro Once, enquanto
que David Viñas relata o assassinato de um alfaiate ju-
deu. Juan Carulla, um homem de direita que tinha sido
anarquista na sua juventude, relatou em sua autobio-
grafia, chamada Al filo del medio siglo, aquilo que obser-
vou no bairro do Once: vexações, violações, gente arras-
tada pelas ruas, casas saqueadas, gritos de medo, fo-
gueiras alimentadas com livros, assassinatos. E
registrou o grito de guerra dos atacantes: “Morram os
judeus! Morram os maximalistas!”.
Na verdade, já existia uma crônica, a mais significa-
tiva de todas. Se fosse para ser incluída em algum gê-
nero literário, esse gênero seria o da vigília insone.
Koshmar, quer dizer, “pesadelo”: é esse o título daquele
testemunho publicado em 1929 em língua iídiche. Trans-
correria meio século até que se vertesse em papel uma
versão em castelhano. De tal maneira que naquele tem-
po poucos tomaram conhecimento do livro de Pinnie
Wald, carpinteiro, jornalista de uma publicação porte-
nha em iídiche e membro do Bund, agrupação de judeus
socialistas ligados por sua vez ao Partido Socialista de
Juan B. Justo e Alfredo Palacios. Wald foi acusado de
ser o “Presidente do Soviet de Buenos Aires”, o que não

174
verve

Uma semana de janeiro de 1919

foi mais do que uma “armadilha policial”, e a coroa de


espinhos da sua via-crúcis. Crônica da caçada huma-
na, testemunha do assalto às casas e lojas dos judeus, e
martirológio. Quem ler este livro somente desejará po-
der fechar os olhos.
Pinnie Wald trata das emoções próprias do momento:
desconcerto, pânico, vontade de vingança e espírito de
luta numa cidade silenciosa e no escuro, sem ordem de
tráfego e com veículos em chamas, tiroteios dispersos
por todos lados e sem jornais por dois dias. Há sangue
nas ruas e há sangue nas prisões. E há licença para
torturar, para humilhar e para matar. São os prazeres
do vitorioso. Foi o que Pinnie Wald pôde ver antes de ser
arrastado até a delegacia localizada na rua Lavalle, en-
tre Paso e Pueyrredón, onde ainda se encontra. Foi nes-
se lugar onde ele mesmo e muitos outros foram suplici-
ados: amedrontamento, ofensa, humilhação, despojo,
crueldade, vingança de classe, exposição dos corpos sob
tortura ao olhar de curioso e de “personagens importan-
tes”. Tudo isto voltaria a se repetir em décadas posteri-
ores.
Sobrepõe-se ao testemunho político de Pinnie Wald
uma auto-análise sob risco de morte. Quando se está
submetido à arbitrariedade do poderoso, quando se está
encapsulado em delegacias transformadas em masmor-
ras e matadouros, poderia se dizer em campos de con-
centração improvisados, a mente não é mais do que um
pássaro enlouquecido e talvez seja esse o motivo da for-
ma escolhida para contar um episódio de caráter bíbli-
co: o delírio, que é a forma adequada a uma alma que
está sendo atormentada. Escreve Wald: “pensei que a
realidade era incrível”. A esperança restabelece-se com
a aparição na delegacia do deputado Alfredo Palacios, de
advogados socialistas e de um delegado da FORA. É um
momento de epifania que permite ao narrador contra-

175
12
2007

por os “olhares fraternos dos companheiros” aos olhares


duros, festivos ou cruéis dos seus martirizadores. Ao ser
libertado junto com vários outros, Pinnie Wald observa
seus companheiros de infortúnio: deformes, ensangüen-
tados, sujos e aterrorizados. “Pareciam máscaras”. Ti-
nham-lhes arrancado o rosto.
Uma vez acalmada a violência e recolhidos os cadá-
veres, a bancada de legisladores radicais deixou de lado
os pedidos de relatórios sobre o pogrom. Havia lixo para
ocultar sob o tapete, pois muitos relatórios da época res-
ponsabilizaram o Comitê Capital da União Cívica Radi-
cal, cujo presidente era Pío Zaldúa, de ter jogado nas
ruas pistoleiros com bandeira argentina. Teriam sido
partícipes do pogrom. Francisco Beiró, um dirigente ra-
dical que seria Ministro do Interior em 1922, enfren-
tou-os e se ocupou de levar dirigentes da comunidade
judia diante da presença de Hipólito Yrigoyen. Mas, anos
depois, o General Dellepiane também seria recompen-
sado com o cargo de ministro de Guerra do governo radi-
cal. E, dez anos depois dos acontecimentos, em 1929, o
anarquista Gualterio Marinelli atirou seis vezes contra
o automóvel presidencial que levava Yrigoyen pelo bair-
ro de Constitución, errando o alvo e sendo assassinado
pela segurança do presidente.
Nunca faltaram judeus entre os anarquistas, tanto
intelectuais como trabalhadores, particularmente no
interior da indústria têxtil. A lista é longa: Gustav Lan-
dauer, o amigo de Martin Buber; Bernard Lazare; Erich
Muhsam; e até Franz Kafka quando jovem foi simpati-
zante. O jornal La Protesta incluiu por algum tempo uma
página em iídiche e Simón Radowitzky, que definhava
na prisão de Ushuaia, era o máximo mártir dos libertá-
rios. Depois seria organizada a Liga Racionalista Israe-
lita-Argentina, de tendência anarquista, e depois de
1948 o ideal cooperativista e autogestionário dos kib-

176
verve

Uma semana de janeiro de 1919

butz israelitas entusiasmou por um tempo aos anarquis-


tas de todo o mundo. Duas anedotas de calibre muito
diferente: durante a Segunda Guerra Mundial, um tal
Steimberg visitou Argentina, um menchevista que ti-
nha sido ministro durante o governo de Kerensky, na
Rússia. Pois bem, junto aos anarquistas locais arquite-
tou a idéia de pedir a Juliana, Rainha da Holanda, en-
tão no exílio londrino, uma ilha de sua propriedade, no
Caribe, a título de “lar judeu” para os refugiados euro-
peus. Uns poucos anos antes, em 1939, um carpinteiro
chamado Georg Elser, que tinha sido simpatizante das
idéias anarquistas, colocou uma bomba numa cerveja-
ria de Munique onde devia falar Adolf Hitler. Falhou por
dez minutos. Seria assassinado em 1945 por ordem di-
reta de Hitler, poucos dias antes da liberação do campo
de concentração onde era prisioneiro.
Não há um saber acabado sobre os acontecimentos
terríveis ocorridos em janeiro de 1919 em Buenos Ai-
res. Poucos livros, poucos testemunhos, insuficiente
acoplamento dos dados conhecidos. Ainda não é conhe-
cido o número exato de mortos, feridos e detidos. Tam-
bém não se sabe quantas dessas vítimas sucumbiram
na sala de tortura, nem se fixou na memória histórica
da cidade o pogrom alentado por instituições da elite
econômica. Tudo é esquecimento e nota de rodapé, se-
gredo e subsolo, sangue oxidado nos tijolos de bairros
antigos, inadvertido silêncio. Nem veneração nem afi-
nação do sentido histórico do ouvido.
Alguma vez o castelhano e o iídiche se encontraram
inesperadamente, junto a outras línguas européias, na
criação, um pouco artificiosa, de uma linguagem que
prometeu unir os povos, o esperanto, e que os anarquis-
tas difundiram desde finais do século XIX. Mas naque-
les dias do verão de 1919, quando centenas e centenas
foram assassinados nas ruas, muitos morreram reclaman-

177
12
2007

do sua inocência, outros gritando “viva a anarquia”, e ain-


da outros agonizaram no bairro do Once murmurando pa-
lavras em idioma iídiche.

Nota final

O livro Koshmar, de Pinnie Wald, apareceu em iídiche


no ano de 1929, e foi editado em castelhano em Crónicas
judeoargentinas, 1890-1944, com tradução de Simja Sneh.
Em 1998, foi reeditado por Ameghino Editora sob o título de
Pesadilla. Una novela de la Semana Trágica. Os dois livros
de referência sobre os acontecimentos de janeiro de 1919
são La semana trágica de enero de 1919, de Julio Godio,
publicado por Editorial Galerna, em 1972, e reeditado por
Hyspamerica, em 1985, e La semana trágica, de Edgardo
Bilsky, publicado pelo Centro Editor de América Latina,
em 1984. David Viñas publicou uma novela sobre o tema,
En la semana trágica, em 1966, pela Editorial Jorge Álva-
rez, e existe um conto da época, de novembro de 1919,
escrito por Arturo Cancela, “Una semana de holgorio”, in-
cluído em Tres relatos porteños, editado na España, em 1923.
Dois capítulos do livro de Katherine Dreier, Five Months in
Argentine from a Woman’s Point of View, 1918-1919, publi-
cado em 1920 em Nova Iorque, estão dedicados a teste-
munhar os acontecimentos de janeiro de 1919. Sobre o
anti-semitismo na Argentina, em geral, e sobre a perse-
guição de judeus durante a Semana Trágica, pode ser con-
sultado Daniel Lvovich, Nacionalismo y antisemitismo en la
Argentina, publicado em 2003 por Javier Vergara Editor, e
também o artigo “Pogrom en Buenos Aires”, de Damian
Coltzau. Sobre judaísmo e anarquismo na Argentina, pode
ser consultado o artigo de Gregorio Rawin e Antonio López,
“La Asociación Racionalista Judía: anarchismo ed ebrais-
mo in Argentina”, ensaio publicado em L’anarchico e
l’ebreo. Storia de un incontro, editado em Milão por Elèu-
thera, em 2001. Veja-se também o relato de um partici-

178
verve

pante policial, La Semana Trágica. Relato de los hechos


sangrientos de 1919, publicado em 1952 pela Editorial
Hemisferio. É muito valioso, também, o livro preparado
por Beatriz Seibel, Crónicas de la Semana Trágica, edita-
do por Corregidor em 1999. As memórias de Juan Ca-
rulla, Al filo del medio siglo, foram publicadas em 1951
pela Editorial Llanura.
Tradução do espanhol por Natalia Montebello

Notas
1
A noite de São Bartolomeu refere-se ao massacre, comandado pelos reis
católicos da França, em agosto de 1572, que durou vários meses e vitimou
entre 70.000 e 100.000 protestantes franceses, chamados huguenotes. (NT)
2
Uma semana de regozijo. (NT)

RESUMO

O artigo problematiza o massacre de janeiro de 1919, na cidade


de Buenos Aires, conhecido como Semana Trágica, dimensionan-
do o confronto através de uma analítica das forças em jogo.

Palavras-chave: Semana Trágica, anarquismo, anti-semitismo.

ABSTRACT

The article problematizes the slaughter of January 1919, in the


city of Buenos Aires,which is known as the Tragic week, putting
the struggle through an analitics of the forces at stake.
Keywords: Tragic week, anarchism, anti-semitism.

Recebido para publicação em 5 de março de 2007. Confirmado em


4 de junho de 2007.

179
12
2007

180
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...

legislações proibicionistas em matéria


de drogas e danos aos direitos
fundamentais

maria lúcia karam*

I. Proibicionismo, criminalização e expansão do poder


de punir

A política criminalizadora de condutas relacionadas


à produção, à distribuição e ao consumo de selecionadas
substâncias psicoativas e matérias-primas para sua
produção é, hoje, a mais organizada, mais sistemática,
mais estruturada e mais danosa forma de manifestação
do proibicionismo a nível mundial.
O proibicionismo, em uma primeira aproximação,
pode ser entendido, como um posicionamento ideológico
de fundo moral, que se traduz em ações políticas voltadas
para a regulação de fenômenos, comportamentos ou
produtos vistos como negativos, através de proibições

* Juíza de Direito aposentada, membro do Instituto Brasileiro de Ciências


Criminais e do Instituto Carioca de Criminologia.

verve, 12: 181-212, 2007

181
12
2007

estabelecidas notadamente com a intervenção do sistema


penal — e, assim, com a criminalização de condutas
através da edição de leis penais —, sem deixar espaço
para as escolhas individuais, para o âmbito de liberdade
de cada um, ainda quando os comportamentos regulados
não impliquem em um dano ou em um perigo concreto de
dano para terceiros.1
Não obstante a superação de alguns preconceitos
morais e a evolução comportamental, registrada,
notadamente no ocidente, a partir dos anos 60 do século
XX, ainda hoje são muitas as manifestações do
proibicionismo por todo o mundo, inclusive nos próprios
países em que registrada aquela evolução. Pense-se, por
exemplo, no aborto, que permanece proibido em quase todos
os países da América Latina e da África; na pornografia;
em pesquisas científicas, como as relacionadas às células-
tronco; no jogo; na eutanásia; na prostituição e em outros
comportamentos ou preferências sexuais.
E pense-se, mais especialmente, nas selecionadas
substâncias psicoativas e matérias-primas para sua
produção, que, em razão da proibição, são genericamente
qualificadas de drogas ilícitas.
O proibicionismo, dirigido contra as drogas qualificadas
de ilícitas, se expressa internacionalmente nas três
convenções da Organização das Nações Unidas sobre a
matéria, vigentes e complementares: a Convenção Única
sobre Entorpecentes, de 1961, que revogou as convenções
anteriores e foi revista através de um protocolo de 1972; o
Convênio sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971; e a
Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de
Entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas de 1988
(Convenção de Viena).
Com tais diplomas internacionais, pretende-se
restringir a fins exclusivamente médicos e científicos a

182
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...

produção, a distribuição (aí incluído não só o comércio,


mas qualquer forma de fornecimento ou entrega a
terceiros) e o consumo das substâncias e matérias-
primas tornadas ilícitas, mediante a criminalização de
condutas relacionadas àquelas atividades que se
realizem com quaisquer outros fins.
A primeira ação internacional, destinada a promover
uma proibição coordenada à produção, à distribuição e
ao consumo de selecionadas substâncias psicoativas e
suas matérias-primas, foi sistematizada na Convenção
Internacional sobre o Ópio, adotada posteriormente pela
Liga das Nações, em Haia, em 23 de janeiro de 1912. No
artigo 20 daquele diploma,2 recomendava-se aos Estados
signatários que examinassem a possibilidade de
criminalização da posse de ópio, morfina, cocaína e seus
derivados.
A restrição da produção, da distribuição e do consumo
das substâncias e matérias-primas tornadas ilícitas a
fins exclusivamente médicos e científicos foi explicitada
com a Convenção para limitação da fabricação e
regulação da distribuição de drogas narcóticas de 1931
(Convenção de Genebra), que veio complementar as
anteriores Convenções Internacionais sobre o Ópio (a
já referida de 1912 e a de 1925). Avançando na ideologia
proibicionista, o novo diploma editado no âmbito da Liga
das Nações ainda não chegava, no entanto, a impor a
criminalização, como iriam fazê-lo as vigentes
convenções, editadas sob a égide da Organização das
Nações Unidas.
A Convenção Única de 1961, com suas quatro listas
anexas em que elencadas as substâncias e matérias-
primas proibidas, embora ressalvando expressamente
a reserva do que disposto na Constituição de cada uma
das Partes, impôs a criminalização, inclusive de atos
preparatórios, nas regras de seu artigo 36.3 Estabelecendo

183
12
2007

a obrigação criminalizadora, com a enumeração de dezoito


condutas, antecipa, com esse número talvez mágico, o
voraz e exibicionista estilo tipificador, que irá marcar,
nos mais diversos Estados nacionais, as legislações de
exceção ou de emergência nesta e em outras matérias.
O Convênio de 1971, que trata especificamente da
criminalização nas regras de seu artigo 22, repete, em
linhas gerais, o conteúdo da Convenção Única de 1961.
O aprofundamento das tendências repressivas chega
a seu auge com a Convenção de Viena de 1988. A ênfase
na repressão já se faz sentir em seu título — não mais,
como os diplomas precedentes, “sobre entorpecentes” ou
“sobre substâncias psicotrópicas”, mas, agora, “contra o
tráfico ilícito de entorpecentes e substâncias
psicotrópicas” —, bem como na própria colocação dos
dispositivos criminalizadores, que surgem logo de início,
em seu artigo 3º.
A Convenção de Viena de 1988 nitidamente se inspira
na política de “guerra às drogas”, iniciada naquela década,
guerra que, aliás, não é apenas contra as drogas, dirigindo-
se sim, como quaisquer guerras, contra pessoas, aqui
contra as pessoas dos produtores, distribuidores e
consumidores das substâncias e matérias-primas
proibidas. Essa política de “guerra às drogas” explicita,
em sua própria denominação, a tendência expansionista
do poder punitivo que se consolida paralelamente às
notáveis mudanças registradas no mundo a partir das
últimas décadas do século XX.
Diante dos desequilíbrios provocados pela reformulada
estrutura produtiva do capitalismo, em sua etapa pós-
industrial e globalizada, das necessidades de controle do
crescente número de marginalizados, excluídos das
próprias atividades produtivas, dos anseios por segurança
reforçados pelas novas possibilidades técnicas da
comunicação, que, rompendo com as delimitações

184
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...

espaciais e temporais, favorecem uma percepção


globalizada e assustadora dos riscos, a maior intervenção
do sistema penal surge como a uniforme e funcional
resposta, manejada por quase todos os políticos dos mais
variados matizes.
Essa uniforme e funcional resposta é facilitada pelas
falsas crenças e muitos enganos que sustentam
proibições e criminalizações.
Uma enganosa publicidade apresenta o sistema penal
como um instrumento voltado para a proteção dos
indivíduos, para a evitação de condutas negativas e
ameaçadoras, para o fornecimento de segurança. Esse
discurso encobre a realidade de que a intervenção do
sistema penal é mera manifestação de poder, servindo
tão somente como instrumento de que se valem os mais
diversos tipos de Estado para obter uma disciplina ou
um controle sociais que resultem funcionais para a
manutenção e reprodução da organização e do equilíbrio
global das formações sociais historicamente
determinadas nas quais surgem.4
A amplitude da adesão aos vigentes diplomas
internacionais que contêm as imposições
criminalizadoras em matéria de drogas é ilustrativa
dessa função real do sistema penal. A diversidade de
conjunturas, a diversidade de governos, os confrontos
político-ideológicos não impediram que os mais
diferentes países — a imensa maioria dos Estados
membros da Organização das Nações Unidas — se
unissem para elaborar e ratificar aqueles diplomas.5
Na mesma enganosa linha, o proibicionismo é
veiculado por um discurso que, apresentando-o como um
“esforço humanitário”, destinado a solucionar os mais
diversos problemas, oculta preconceitos, oculta sua
instrumentalidade no exercício de poderes estatais ou
não.

185
12
2007

O primeiro engano, do qual se alimenta o sistema


penal, parte das próprias crenças nas idéias de crimes
e de penas.
Somos levados a falar em crime como se esta
expressão traduzisse um conceito natural que partisse
de um denominador comum e estivesse presente em
todos os tempos ou em todos os lugares.
Mas, na realidade, crimes não passam de meras
criações da lei penal, não existindo um conceito natural
que os possa genericamente definir. As condutas
criminalizadas não são naturalmente diferentes de
outros fatos socialmente negativos ou de situações
conflituosas ou desagradáveis não alcançadas pelas leis
penais. A enganosa publicidade do sistema penal oculta
a realidade do caráter puramente político e
historicamente eventual da seleção de condutas
chamadas de crimes. O que é crime em um
determinado lugar pode não ser em outro; o que ontem
foi crime, hoje pode não ser; e o que hoje é crime,
amanhã poderá deixar de ser.
Pense-se, por exemplo, no aborto. Hoje, no mundo,
mais de duas em cada quatro mulheres vivem em
países livres da proibição. Assim, enquanto a maioria
das habitantes do planeta pode realizar abortos
legalmente, idêntica conduta de mulheres que vivem
sob legislações proibicionistas é qualificada como
criminosa.6
Mas, pense-se, especialmente, naquela mais
sistemática, organizada e danosa manifestação do
proibicionismo criminalizador hoje subsistente em todo
o mundo: pense-se no que chamamos de drogas.
O proibicionismo criminalizador leva à criação de leis
penais que definem como crimes condutas relacionadas
à produção, à distribuição e ao consumo de algumas

186
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...

dentre as inúmeras substâncias psicoativas e matérias-


primas para sua produção. As substâncias psicoativas e
matérias primas, que, assim selecionadas, recebem a
qualificação de drogas ilícitas (como a maconha, a
cocaína, a heroína, a folha de coca, etc.), não têm
natureza essencialmente diferente de outras
substâncias igualmente psicoativas (como a cafeína, o
álcool, o tabaco, etc.), destas só se diferenciando em
virtude da artificial definição como criminosas de
condutas realizadas por seus produtores, distribuidores
e consumidores.
Todas as substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas,
provocam alterações no organismo e dependendo da
forma como forem usadas podem eventualmente conter
riscos e causar danos, não estando aí, portanto, o motivo
da diferenciação entre umas e outras. Tampouco as
substâncias, hoje qualificadas de drogas ilícitas, foram
sempre tratadas desta forma. Vale lembrar, por exemplo,
que até os anos 50 do século XX a França e a Inglaterra,
valendo-se de permissão prevista na Convenção de
Genebra de 1925, produziam e comercializavam ópio,
sob regime de monopólio estatal, em suas colônias
indianas e indochinesas. Por outro lado, substâncias,
hoje lícitas, já foram ilícitas, bastando lembrar da
proibição do álcool, nos EUA, no período de 1920 a 1932,
quando em vigor, naquele país, a chamada “Lei Seca”.
O exercício de poder, consubstanciado na proibição
criminalizadora de condutas relacionadas à produção, à
distribuição e ao consumo das drogas qualificadas de
ilícitas, viabiliza-se através dessa artificial distinção
efetuada pela intervenção do sistema penal, que permite
apresentá-las como se fossem diferentes das demais
substâncias psicoativas, permitindo, assim, que as
substâncias e matérias-primas proibidas e condutas a
elas relacionadas sejam identificadas como um “perigo

187
12
2007

econômico e social para a humanidade”, como no


preâmbulo da Convenção Única de 1961, ou como algo
que estaria afetando negativamente as bases
econômicas, culturais e políticas da sociedade, como um
“perigo de incalculável gravidade”, como uma ameaça à
estabilidade, à segurança e à soberania dos Estados,
como no preâmbulo da Convenção de Viena de 1988.
Essa linguagem emocional, assustadora e
demonizadora é uma característica do sistema penal,7
funcionando como um instrumento particularmente
importante para o exercício do poder punitivo.
Pense-se, por exemplo, na expressão “criminalidade
organizada”. Jamais se conseguiu estabelecer — até
porque não há como fazê-lo — qualquer definição, com
um mínimo de cientificidade, que traduza o conteúdo
desta expressão. Na realidade, toda conduta,
criminalizada ou não, que não se limite a ser uma
reação instantânea ou instintiva a determinada
situação, tem um componente de organização, que se
manifesta, ainda mais especialmente, quando se têm
condutas que reúnem mais de uma pessoa, com uma
finalidade comum, o que ordinariamente acontece, seja
no campo das condutas lícitas, como no das ilícitas. A
expressão “criminalidade organizada” não tem nenhum
significado particular, apenas servindo para assustar e
permitir a criação de leis de exceção ou de emergência
aplicáveis ao que quer que se queira convencionar como
sendo uma suposta manifestação de um tal imaginário
fenômeno.
Pense-se ainda na expressão “narcotráfico”. A
expressão “tráfico” já contém a forte carga emocional
que costuma ser transmitida pela linguagem
característica do sistema penal. “Tráfico” significa
negócio, ou mais propriamente comércio ilegal. Falar

188
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...

em negócio ou em comércio ilegal não tem a mesma


força que falar em “tráfico”. Mas nem isso bastou. As
atividades relacionadas à produção e à distribuição das
drogas qualificadas de ilícitas passaram a ser referidas
como “narcotráfico”. A carga emocional é ainda maior,
dando a idéia de algo mais poderoso. E esta expressão é
repetida sem que se perceba — ou se queira perceber
— seu claro descompromisso com a realidade e com a
ciência. Para criar o útil e exacerbado clima emocional,
passa-se, tranqüilamente, por cima do fato de que um
dos alvos principais do proibicionismo é a cocaína, que,
como não se pode ignorar, não é um narcótico, mas, ao
contrário, um estimulante.
Mas, os “usuários” desta distorcida linguagem com
isto não se preocupam. Vão repetindo-a e assim
contribuindo para a alimentação das manipuladas
fantasias com que se cultivam as idéias do “flagelo”, do
“perigo de incalculável gravidade”, do “mal universal”,
que permitem a expansão do poder punitivo e, assim, a
intensificação da vigilância e do controle sobre todos os
indivíduos.
O discurso emocional que oculta a funcionalidade
política e a finalidade real do sistema penal também
oculta o perene fracasso de seus objetivos explícitos. Não
há como deixar de classificar como fracassado um
sistema que promete a proteção dos indivíduos, a
evitação de condutas negativas e ameaçadoras, o
fornecimento de segurança e que, hoje, depois de séculos
de funcionamento, busca a legitimação de um maior
rigor e um maior alcance em sua aplicação exatamente
no anúncio de um aumento incontrolado do número de
crimes, de uma diversificação e de maiores perigos
advindos desta criminalidade apresentada como
crescentemente poderosa.

189
12
2007

O fracasso do proibicionismo, não só no campo das


drogas qualificadas de ilícitas, mas em suas diversas
manifestações, também poderia ser facilmente
percebido, não fora a enganosa publicidade que
igualmente o sustenta. Pense-se, por exemplo, nas
estatísticas em torno do aborto, a demonstrar que sua
prática não é nem nunca foi impedida por legislações
proibicionistas; as variações de sua intensidade pelo
mundo nada têm a ver com a situação de legalidade ou
ilegalidade.8
No campo das drogas qualificadas de ilícitas, é a
própria ONU que aponta para o inegável fracasso na
obtenção do inviável — e, na realidade, indesejável —
objetivo explícito de construir “um mundo sem drogas”.
Em seu relatório de 2005, divulgado em Viena em 29 de
junho daquele ano, o Escritório das Nações Unidas para
as Drogas e Crimes (UNODC) afirmava que o uso de
drogas em todo o mundo crescera cerca de 8% em relação
ao ano anterior, crescimento este liderado pela
cannabis. Segundo o relatório, cerca de 200 milhões de
pessoas entre 15 e 64 anos — 5% da população mundial
nessa faixa etária — teriam usado drogas ilícitas nos
últimos doze meses e seu mercado, movimentando em
torno de 320 bilhões de dólares, superaria os produtos
internos brutos de 90% dos países.9 Atestava, assim, a
ONU que, depois de quase meio século de aplicação de
suas convenções, a circulação mundial das proibidas
substâncias psicoativas e matérias-primas para sua
produção, não só não teria se reduzido, como, ao
contrário, teria aumentado.
Ocultando o fracasso dos anunciados objetivos
explícitos, a enganosa publicidade oculta ainda os
paradoxos, como o fato da proteção da saúde pública, que
estaria a formalmente fundamentar a proibição
criminalizadora das condutas relacionadas às drogas

190
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...

qualificadas de ilícitas, ser afetada por esta mesma


criminalização.
Impondo a clandestinidade à produção, à distribuição
e ao consumo, o proibicionismo criminalizador impede
o controle de qualidade das substâncias comercializadas,
aumentando as possibilidades de adulteração, de
impureza e de desconhecimento de sua potência, com
os riscos maiores daí decorrentes. A intervenção do
sistema penal, estendendo-se ao momento do consumo
das drogas tornadas ilícitas, igualmente repercute sobre
as condições em que tal consumo se realiza. Além de
dificultar a informação e a assistência, a
clandestinidade conseqüente à intervenção do sistema
penal cria a necessidade de aproveitamento imediato
de circunstâncias que permitam um consumo que não
seja descoberto, o que acaba por se tornar um caldo de
cultura para o consumo descuidado e não higiênico,
cujas conseqüências aparecem de forma mais
dramática na difusão de doenças transmissíveis como
a Aids e a hepatite.
Desvinculando-se de reais preocupações com a saúde
pública, que enganosamente anuncia pretender
proteger, o proibicionismo criminalizador, demonizando
as substâncias proibidas, ainda impõe obstáculos até
mesmo a seu livre emprego com fins terapêuticos, como
no uso da maconha para aliviar dores, náuseas e perda
de apetite em pacientes com Aids ou sob tratamento
quimioterápico. Na mesma linha proibicionista que, sob
o pretexto de proteção à vida embrionária, insiste em
restringir pesquisas científicas, como as relacionadas
às células-tronco, assim impedindo avanços médicos que
podem salvar vidas plenamente desenvolvidas, o falso
pretexto de proteção à saúde pública, no qual o discurso
proibicionista em relação às drogas qualificadas de
ilícitas busca sua legitimação, é acenado para,

191
12
2007

contraditoriamente, impedir uma vida mais saudável a


portadores de sofrimentos físicos.
E isso acontece não obstante a produção, a distribuição
e o consumo com este fim terapêutico estarem, da mesma
forma que as ações de redução de danos, fora do campo de
incidência de qualquer norma criminalizadora, na medida
em que não afetam a saúde pública, mas, ao contrário,
reduzem os riscos àquele bem jurídico. O paradoxo é tal
que isto acontece não obstante tais ações estarem, ainda,
explicitamente situadas fora do campo de incidência da
proibição traduzida nas convenções da ONU, na medida
em que se realizam exatamente com o fim médico a que
aqueles diplomas internacionais pretendem condicionar
a legalidade da produção, da distribuição e do consumo das
substâncias e matérias-primas proibidas.
Ocultando a funcionalidade política e a real finalidade
de proibições e criminalizações, ocultando o fracasso de
seus anunciados objetivos explícitos, ocultando paradoxos,
o proibicionismo criminalizador oculta não só os riscos e
os danos à saúde pública, mas também o fato de que a
intervenção do sistema penal no mercado produtor e
distribuidor das substâncias e matérias-primas proibidas
traz a violência como seu corolário.
Ao contrário do que propagam os discursos proibicionista
e criminalizador, não são as drogas que geram violência.
É sim o próprio fato da ilegalidade que produz e insere no
mercado empresas criminalizadas — mais ou menos
organizadas —, simultaneamente trazendo a violência
como um subproduto de que aquelas empresas devem se
valer não apenas para o enfrentamento da repressão, mas
também como forma necessária de resolução dos naturais
conflitos surgidos no decorrer de suas atividades
econômicas, dada a ausência de regulamentação e a
conseqüente impossibilidade de acesso aos meios legais.

192
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...

Ocultando a funcionalidade política e a real finalidade


de proibições e criminalizações, ocultando o fracasso dos
anunciados objetivos explícitos, ocultando paradoxos,
alimentando falsas crenças e muitos enganos, os
discursos proibicionista e criminalizador, globalmente
se encontrando na política de “guerra às drogas”,
expressada na Convenção de Viena de 1988, forneceram
o primeiro fundamento legitimador da atual tendência
expansionista do poder punitivo. Embora, após os
atentados de 11 de setembro de 2001, essa tendência
expansionista tenha encontrado no terrorismo uma nova
e mais fácil fonte de legitimação, aquele seu primeiro
fundamento não foi abandonado. Ao contrário, os arautos
da repressão freqüentemente procuram associar os dois
fenômenos.
Como explicita a própria expressão “guerra às drogas”,
a atual tendência expansionista do poder punitivo, mais
e mais, incorpora ao controle social exercido através do
sistema penal estratégias e práticas que identificam o
anunciado enfrentamento de condutas criminalizadas
à guerra ou ao combate a dissidentes políticos.
A ideologia do sistema penal e o discurso que o
legitima, mais e mais, identificam-se à ideologia e ao
discurso legitimador da guerra tornada preventiva ou
do combate aos dissidentes nos remanescentes Estados
totalitários. A figura do “inimigo”, ou de quem tenha
comportamentos vistos como diferentes, “anormais” ou
estranhos à moral dominante, confunde-se nos perfis
do “criminoso”, do “terrorista” ou do “dissidente”.
Uma propagandeada situação de emergência,
representada no que se refere ao sistema penal
propriamente dito por um propagandeado aumento
incontrolável da chamada “criminalidade de massa”, ou
por uma suposta transnacionalidade criminosa, ou por
uma indefinida e indefinível “criminalidade organizada”,

193
12
2007

vai dando lugar a uma sistemática produção de autoritárias


legislações de exceção que, abandonando princípios
garantidores, criam vácuos, que progressivamente se
ampliam, e nos quais é indevidamente desprezado o
imperativo primado das declarações universais de direitos
e dos princípios e normas constitucionais dos Estados
democráticos.
Embora mantidas as estruturas formais do Estado de
direito, vai se reforçando o Estado policial sobrevivente
em seu interior,10 vão sendo instituídos espaços de
suspensão de direitos fundamentais e de suas garantias,
vai sendo afastada sua universalidade, acabando por
fazer com que, no campo do controle social exercido
através do sistema penal, a diferença entre democracias
e Estados totalitários vá se tornando sempre mais tênue.

II. As imposições criminalizadoras das Convenções da


ONU em matéria de drogas e a violação às declarações
universais de direitos e às constituições democráticas

II.1. Criminalização antecipada: violação ao princípio


da lesividade
Nos diplomas da Organização das Nações Unidas em
matéria de drogas, a violação a princípios e normas
consagrados nas declarações universais de direitos e
nas Constituições democráticas, aparece, desde logo, na
Convenção Única de 1961, com a antecipação do
momento criminalizador da produção e da distribuição
das substâncias e matérias-primas proibidas.
A criminalização antecipada, encontrada, como antes
assinalado, em regras constantes de seu artigo 36,11
revela-se quer na expressa referência feita à tipificação
de meros atos preparatórios [item “ii” da alínea “a” do
parágrafo 2] ou em referência no mesmo dispositivo à

194
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...

“confabulação para cometer” qualquer das condutas antes


tipificadas (as condutas identificadas ao “tráfico”), quer no
afastamento das fronteiras entre consumação e tentativa,
com a previsão autônoma, naquela tipificação anterior,
de condutas como a posse, o transporte ou a expedição das
substâncias e matérias-primas proibidas [alínea “a” do
parágrafo 1], que sinalizariam mero início de execução
dos tipos configuradores da produção e da distribuição.
A Convenção de Viena de 1988 adiciona tipificações
nos dispositivos do parágrafo 1 de seu artigo 3.12 Nessas
tipificações adicionadas, estende a indevida antecipação
do momento criminalizador à fabricação, ao transporte
e à distribuição [item “iv” da alínea “a”], bem como à
simples posse de equipamentos, materiais ou
substâncias conhecidas como precursores a serem
utilizados na produção das drogas qualificadas de ilícitas
[item “ii” da alínea “c”].
A criminalização antecipada, que, a partir das
diretrizes ditadas nas convenções da Organização das
Nações Unidas, se reproduz em legislações dos mais
diversos países, viola o princípio da lesividade (ou
ofensividade) da conduta proibida, segundo o qual uma
conduta só pode ser objeto de criminalização, quando
concreta e significativamente afete um bem jurídico
relacionado ou relacionável a direitos individuais
concretos. Em matéria de drogas, onde a criminalização
pretende tutelar o bem jurídico consistente na saúde
pública, tal afetação só seria identificável — e, assim
mesmo, apenas enquanto perigo de lesão — em
atividades diretas de produção e distribuição.
Dispositivos criminalizadores que violam o princípio
da lesividade conflitam com a norma do artigo 9 do Pacto
Internacional dos Direitos Civis e Políticos, que consagra
a cláusula do devido processo legal.13 O princípio da
lesividade, além de se vincular ao reconhecimento da

195
12
2007

dignidade da pessoa, é expressão do princípio da


proporcionalidade (ou razoabilidade) extraído do aspecto
de garantia material inerente àquela cláusula
fundamental.
II.2. Criminalização ampliada: violação ao princípio da
proporcionalidade
Ao reafirmar a tipificação da “confabulação para
cometer”, a Convenção de Viena introduz a figura da
associação [item “iv” da alínea “c” do parágrafo 1 do artigo
3], prevendo ainda, como figuras autônomas [item “v” da
alínea “a” do parágrafo 1 do artigo 3], a organização, a
gestão ou o financiamento de qualquer dos crimes
definidos nos itens anteriores (os crimes que, na
enumeração ampliada, identificam-se ou relacionam-se
ao dito “tráfico”).
A violação ao princípio da proporcionalidade aqui se
repete não apenas com a figura da associação, que como
a “confabulação” e como todos os tradicionais tipos de
crimes de conspiração, quadrilha e outros assemelhados,
criminalizam meros atos preparatórios (a mera reunião
de pessoas para o planejamento, organização ou
preparação de crimes futuros), mas também, sob outro
aspecto, na previsão como tipos autônomos de condutas
inseridas no âmbito de um tipo de crime já definido.
O agente que organiza, gere ou financia a realização
do “tráfico” ou de qualquer outro crime, tendo o domínio
do fato, ocupa a posição de autor, devendo, pois, ser por
este — e somente por este — apenado. As circunstâncias
da organização, gestão ou financiamento estariam a
revelar, no máximo, um alargamento do conteúdo de
injusto daquele crime, diante do papel mais importante
desempenhado pelo agente, assim podendo, de acordo com
o princípio da proporcionalidade, dar lugar, no máximo, a
um reconhecimento de qualificação ou agravação da pena
prevista para seu tipo básico.

196
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...

Da mesma forma, a reunião de um número maior de


pessoas na realização de um crime qualquer poderia,
também de acordo com o princípio da proporcionalidade,
no máximo, dar lugar ao reconhecimento de uma
qualificação ou de uma agravação da pena do tipo básico
do crime realizado, diante do maior conteúdo de injusto
configurado na facilitação da ação pela contribuição
somada de mais de um agente.
Mas a violação ao princípio da proporcionalidade não
se esgota aí, repetindo-se nas penas delirantemente
altas, igualadas ou mesmo superiores às previstas para
um homicídio, encontradas em diversas legislações, em
que a indevida consideração da associação, da
organização, da gestão ou do financiamento voltados para
o dito “tráfico” como tipos autônomos de crimes serve
como suposta manifestação da sempre propagandeada,
mas indefinida e indefinível, “criminalidade organizada”.
Vejam-se alguns exemplos em que o rigor penal se
revela na plenitude de sua desproporcionalidade: na
Itália, a já elevadíssima pena máxima de reclusão de
20 anos prevista para o tipo básico do “tráfico” [artigo 73,
1 do Decreto de 9 de outubro de 1990, n. 309, com nova
redação dada pela Lei de 21 de fevereiro de 2006, n. 49],
torna-se a pena mínima cominada para a promoção,
constituição, direção, organização ou financiamento de
associação voltada para o “tráfico” [artigo 74, 1 do Decreto
n. 309];14 em Portugal, a pena máxima prevista para tais
condutas é de reclusão de 25 anos [artigo 28 do Decreto-
lei 15/93, modificado pela Lei 45/96],15 que, conforme
estabelece a regra do artigo 41, 2 do Código Penal
português, é o limite máximo da pena privativa de
liberdade naquele país. No Brasil, a nova lei específica
sobre drogas — Lei 11.343/06 — introduziu essa
indevida figura autônoma do financiamento ou custeio
do “tráfico”, cominando-lhe penas de reclusão de 8 a 20

197
12
2007

anos [artigo 36], a pena mínima sendo assim superior à


prevista para o homicídio.16
II.3. Criminalização ampliada: violação aos princípios
da proporcionalidade e da legalidade
Adicionando tipificações, a Convenção de Viena de
1988 introduz ainda a figura de uma receptação específica
ou “reciclagem” [itens “i” e “ii” da alínea “b” do parágrafo
1 do artigo 3], origem das tipificações em legislações de
diversos países do chamado “branqueamento” ou
“lavagem” de capitais, que se tornaram campo fértil para
o excesso punitivo, inclusive na criminalização de pós-
fatos absorvíveis pelo crime antecedente.
Na Noruega, por exemplo, a pena máxima de 3 anos
de prisão, cominada para o tipo básico da receptação ou
“reciclagem”, no caso de bens provenientes de crimes
relacionados a drogas, pode se elevar até 21 anos [artigo
317 do Código Penal],17 que, conforme estabelece a regra
do artigo 17 do Código Penal norueguês, é o limite máximo
da pena privativa de liberdade naquele país.
A Convenção de Viena introduz, também como figuras
autônomas, a instigação ou a indução em público, por
qualquer meio, ao cometimento das condutas
relacionadas ao “tráfico” ou à utilização das drogas
qualificadas de ilícitas [item “iii” da alínea “c” do parágrafo
1 do artigo 3]. Tipificações vagas como essas equivalem
à indefinição da conduta típica, o que conflita com o
princípio da legalidade, especificado, no campo penal, na
clássica fórmula nullum crimen nulla poena sine lege e
expresso nas normas do parágrafo 2 do artigo 11 da
Declaração Universal dos Direitos Humanos18, e do
parágrafo 1 do artigo 15 do Pacto Internacional dos Direitos
Civis e Políticos.19
O princípio da legalidade, no campo penal, tem como
um de seus principais corolários a exigência de que a

198
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...

lei disponha seus enunciados com clareza e precisão


(princípio da determinação ou taxatividade da lei).
Implicando no conhecimento prévio da proibição, para
que possa ser exigida a abstenção da conduta proibida, o
princípio da legalidade veda a formulação de dispositivos
criminalizadores vagos e indeterminados. Cláusulas
genéricas, conceitos indeterminados ou ambíguos
equivalem a uma ausência de formulação legal.
Em legislações internas de diversos países, essa
vedada indeterminação não aparece apenas na
reprodução da previsão típica como figuras autônomas
das indefinidas formas de instigação ou indução ao
“tráfico” ou ao uso das drogas qualificadas de ilícitas. Na
Espanha, por exemplo, a “tendência a uma intervenção
onicompreensiva”20 conduz a violação ao princípio da
legalidade à própria elaboração dos tipos básicos do
“tráfico”, previstos na regra do artigo 368 do Código Penal
espanhol.21 Após se referir ao cultivo, à elaboração ou
ao tráfico, a referida regra fala de atos que “de outro
modo” promovam, favoreçam ou facilitem o consumo
ilegal das drogas qualificadas de ilícitas, sem que se
saiba quais seriam esses atos ou os outros modos pelos
quais eles se realizariam.
II.4. Agravação de penas: violação aos princípios da
proporcionalidade e da vedação de dupla punição
O rigor penal se expressa desde a recomendação de
aplicação preferencial de pena privativa de liberdade,
vinda na regra da alínea “a” do parágrafo 1 do artigo 36
da Convenção de 1961. No aprofundamento da repressão,
a Convenção de Viena de 1988 introduz um extenso rol
de circunstâncias qualificadoras ou causas de aumento
de pena [parágrafo 5 do artigo 3],22 que, adotadas nas
legislações internas dos mais diversos Estados
nacionais, elevam as penas previstas para os tipos
básicos de crimes de “tráfico”, freqüentemente já fixadas
em quantidade excessivamente alta.

199
12
2007

Na Noruega, por exemplo, sem que estejam precisa-


mente definidas as circunstâncias reveladoras da agra-
vação, a pena máxima prevista para os crimes de “tráfi-
co”, tipificados no artigo 162 do Código Penal,23 pode se
elevar até os 21 anos, mais uma vez atingindo o limite
máximo da pena privativa de liberdade naquele país.
Na previsão de circunstâncias qualificadoras ou cau-
sas de aumento de pena, a Convenção de Viena inclui a
reincidência, em particular a “específica” [alínea “h” do
referido parágrafo 5 do artigo 3]. Tal dispositivo, além de
não se compatibilizar com o princípio da culpabilidade pelo
ato realizado, que se vincula à afirmação da dignidade da
pessoa, conflita com a norma do parágrafo 7 do artigo 14 do
Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, que ex-
pressa a garantia da vedação de dupla punição pelo mes-
mo fato (idem).24
A consideração de uma condenação prévia, para daí
extrair efeitos gravosos, constitui adesão à vedada culpa-
bilidade de autor, pois a reprovação, externada na pena,
passa a se fundamentar não sobre a negatividade da con-
duta realizada, mas sobre uma suposta negatividade da
pessoa que a realizou, punindo-se mais gravemente esta
pessoa não pelo que fez, mas pelo que é. Além disso, quan-
do se atribui à reincidência um efeito gravoso está se con-
substanciando um “plus punitivo”, que, sem qualquer vin-
culação com a conduta configuradora da infração penal
atual, constitui uma nova apenação de uma outra condu-
ta passada, por cuja prática o indivíduo já fora, anterior-
mente, julgado e condenado.25
Essa violação à norma do parágrafo 7 do artigo 14 do
Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos se repro-
duz em legislações internas. Na legislação federal norte-
americana, por exemplo, dentre diversos dispositivos que
conferem efeitos gravosos à reincidência, basta desta-

200
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...

car que tal circunstância dobra a pena mínima prevista


para o tipo básico do crime de “tráfico” [US Code § 841].26
II.5. Rigor penal: violação ao princípio da isonomia
Na Convenção de Viena de 1988, o rigor penal se ex-
pressa ainda nas recomendações de restrições ao livra-
mento condicional e adoção de prazos diferenciados para
uma prescrição que se quer prolongada [parágrafos 7 e 8
do artigo 3].27 Assim estabelecendo um tratamento dife-
renciado, a partir de uma espécie abstrata de crime, sem
qualquer relação com a finalidade e os fundamentos dos
institutos considerados, a Convenção de Viena conflita com
as normas contidas na primeira parte do artigo 7 da De-
claração Universal de Direitos Humanos28 e do parágrafo
1 do artigo 14 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e
Políticos,29 que expressam o princípio da isonomia.
Diferenciações na concessão de livramento condicio-
nal, como em outras formas de progressão na execução da
pena privativa de liberdade, só podem ser estabelecidas
em razão de fatores concretos relacionados à aptidão do
condenado em retornar ao convívio social, o que implica
que qualquer consideração quanto à gravidade do crime
só possa se fazer com base em parâmetros fixados a partir
da pena efetivamente aplicada, cuja medida dá a dimen-
são da maior ou menor gravidade da conduta efetivamen-
te realizada. Alguém condenado, por exemplo, a 6 anos de
reclusão por “tráfico”, sob este aspecto da gravidade do cri-
me, está colocado em situação de absoluta igualdade à de
quem foi condenado a pena de igual dimensão pela prática
de um outro crime qualquer, não podendo, assim, de acor-
do com o princípio da isonomia, pela mera razão de ter
praticado um crime de “tráfico”, receber tratamento dife-
rente.
O instituto da prescrição, que se relaciona à segurança
jurídica e à convalescença da lesão ao direito pelo decurso
do tempo, impõe que o titular do direito alegado formule

201
12
2007

sua pretensão dentro de um determinado prazo. Na fixação


de diferentes prazos de prescrição da pretensão do Estado
fazer valer o poder de punir, a consideração da maior ou
menor gravidade das infrações penais não pode ser
aleatória, devendo estar retratada pela medida das penas
abstratamente previstas, no caso de pretensão punitiva,
ou das efetivamente aplicadas, no caso de pretensão
executória da pena já imposta. Penas máximas de, por
exemplo, 10 anos, previstas ou aplicadas para este ou
aquele crime necessariamente hão de determinar um
mesmo prazo de prescrição, não importando qual tenha
sido a acusação ou a condenação. De acordo com o princípio
da isonomia, alguém acusado ou condenado por crime de
“tráfico”, punível com aquela pena de 10 anos, não pode
estar sujeito a ser processado ou a ter a pena executada
em tempo diferente do previsto para o processo ou para a
execução da pena imposta à pessoa acusada ou condenada
por outro crime qualquer punível com a mesma pena de
10 anos.
II.6. Linhas gerais do processo: violação ao princípio da
prevalência da tutela da liberdade
Em matéria processual, a Convenção de Viena
recomenda expressamente que as Partes se esforcem para
que faculdades legais de seus ordenamentos jurídicos se
voltem para a investigação e a repressão [parágrafo 6 do
artigo 3],30 assim se desviando da essência dos princípios
expressos nas declarações universais de direitos, que dão
a orientação garantista do processo penal do Estado de
direito democrático.
Função maior do ordenamento jurídico no Estado de
direito democrático é limitar o exercício do poder estatal,
submetendo à lei aqueles que o exercem, com vista a
garantir a dignidade e, assim, a liberdade e o bem-estar
de cada indivíduo. O ordenamento jurídico do Estado de
direito democrático, em matéria penal e processual penal,

202
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...

não se volta para a investigação e a repressão exercidas


para fazer valer o poder punitivo, voltando-se, ao contrário,
para a tutela da liberdade como forma de limitação a este
poder estatal.
A prevalência da tutela da liberdade sobre o poder de
punir é a pedra de toque do ordenamento processual penal
do Estado de direito democrático, estando na origem de
todos os princípios garantidores enumerados nas
declarações universais de direitos e nas Constituições
democráticas. Pretender voltar “faculdades legais de
ordenamentos jurídicos para a investigação e a repressão”
significa pura e simplesmente inverter as bases do
ordenamento processual penal do Estado de direito
democrático.
II.7. Prisões processuais: violação às garantias do estado
de inocência e do duplo grau de jurisdição
A inversão das bases do ordenamento processual penal
do Estado de direito democrático, proposta na Convenção
de Viena, espraiou-se e vem se espraiando sempre mais
nas legislações dos diversos Estados nacionais.
Desprezando a garantia do estado de inocência,
expressa nas normas do parágrafo 1 do artigo 11 da
Declaração Universal dos Direitos Humanos31 e do
parágrafo 2 do artigo 14 do Pacto Internacional dos Direitos
Civis e Políticos,32 diversas legislações invertem o princípio
da excepcionalidade da prisão imposta no curso do processo
(prisão que não decorrendo de condenação definitiva não
tem a natureza de pena), para tornar a prisão preventiva
ou outras formas de prisão processual a regra ou uma
imposição.
Tome-se o exemplo do Brasil. A regra do artigo 44 da
nova Lei 11.343/0633 insistiu na vedação à liberdade
provisória, repetindo dispositivo introduzido no
ordenamento jurídico brasileiro pela Lei 8.072/90, que
marca o início da produção de leis de emergência ou de

203
12
2007

exceção após a redemocratização do Brasil.34 A clara


violação à garantia do estado de inocência, configurada
nessa criada modalidade de prisão processual
obrigatória, presente ainda em outros dispositivos da
legislação brasileira, já vinha sendo incidentalmente
declarada em diversos pronunciamentos da maioria dos
integrantes do Supremo Tribunal Federal, até que a Lei
11.464, de 28 de março de 2007, modificou o inciso II do
artigo 2º da Lei 8.072/90, dali excluindo a vedação à
liberdade provisória e assim revogando implicitamente
a regra do artigo 44 da Lei 11.343/06 neste ponto.
Subsiste, porém, na Lei 11.343/06, outra inversão
do princípio da excepcionalidade da prisão imposta no
curso do processo. Em seu artigo 59, a específica lei
brasileira em matéria de drogas reproduz dispositivo do
Código de Processo Penal brasileiro, que
desautorizadamente condiciona a admissibilidade de
recurso interposto contra a sentença condenatória ao
recolhimento à prisão se não forem reconhecidos
primariedade e bons antecedentes do réu.35 Tal restrição
ao direito de recorrer, não só desautorizadamente extrai
efeitos gravosos da reincidência, não só repete a violação
à garantia do estado de inocência, como também viola a
garantia do acesso ao duplo grau de jurisdição,
assegurada na norma do parágrafo 5 do artigo 14 do Pacto
Internacional dos Direitos Civis e Políticos.36

Notas
1
Sobre proibicionismo e também sobre antiproibicionismo, veja-se texto de Marco
Perduca, “Vamos Criminalizar a Proibição!”, traduzido para o português com o
título, às páginas 51 a 63, de “Avessos do Prazer – drogas, aids e direitos humanos”.
2
Convenção Internacional sobre o Ópio – “Artigo 20. Os Poderes contratantes
devem examinar a possibilidade de editar leis ou regulamentos tornando um ilícito
penal a posse ilegal de ópio natural, ópio refinado, morfina, cocaína e seus
respectivos sais, a não ser que já existentes leis ou regulamentos na matéria”.

204
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...


3
Devem ser especialmente destacados os dispositivos constantes das regras do
artigo 36, parágrafo 1, alínea “a” e parágrafo 2, alínea “a”, item “ii” da Convenção
Única de 1961: “Artigo 36. Dispositivos Penais 1. a) Com reserva do que disposto
em sua Constituição, cada uma das Partes se obriga a adotar as medidas necessárias
para que o cultivo e a produção, fabricação, extração, preparo, posse, ofertas em
geral, ofertas de venda, distribuição, compra, venda, entrega de qualquer espécie,
corretagem, expedição, expedição em trânsito, transporte, importação e exportação
de entorpecentes, em desconformidade com as disposições desta Convenção, ou
quaisquer outros atos que, na opinião da Parte, possam se realizar com infração ao
disposto na presente Convenção, se considerem como delitos se cometidos
intencionalmente e que os delitos graves sejam punidos de forma adequada,
especialmente com penas de prisão ou outras penas privativas de liberdade (...) 2.
Com reserva do que disposto em sua Constituição, do regime jurídico e da legislação
nacional de cada Parte: a) (...) ii. A participação deliberada ou a confabulação para
cometer qualquer desses delitos, assim como a tentativa de cometê-los, os atos
preparatórios e operações financeiras, relativos aos delitos de que trata este artigo,
se considerarão como delitos, tal como disposto no inciso 1; (...)”.
4
Sobre a enganosa publicidade do sistema penal, reporto-me ao que escrevi em meu
“De Crimes, Penas e Fantasias” e, mais recentemente, em artigo específico sobre o
tema intitulado “Sistema Penal e Publicidade Enganosa”.
5
A Convenção Única de 1961 foi ratificada por 180 países, ou seja, por quase todos
os Estados membros da ONU, que são 191.
6
Estes e inúmeros outros dados sobre aborto no mundo podem ser encontrados no
trabalho “Sharing Responsibility: Women, Society and Abortion Worldwide”,
produzido por The Alan Guttmacher Institute, em junho de 1999. Disponível em
< http://www.agi-usa.org/pubs/sharing.pdf>
7
Sobre a linguagem característica do sistema penal – o “dialeto penal” de que fala
Louk Hulsman –, consulte-se sua obra “Penas Perdidas - o sistema penal em
questão”. Ver Louk Hulsman. Penas Perdidas - o sistema penal em questão. 2ª edição,
1999.
8
Sobre o aborto, reporto-me ao que escrevi no trabalho “Proibições, Crenças e
Liberdade – o debate sobre o aborto”. Disponível em <http://
www.advocaci.org.br/artig_10.htm>
9
O relatório de 2005 do UNODC. Disponível em <http://www.unodc.org/
unodc/world_drug_report.html>
10
O tema relacionado à tensão estabelecida entre os princípios do Estado de direito
e as manifestações do Estado policial sobreviventes dentro dele é amplamente
desenvolvido por Eugenio Raúl Zaffaroni, Alejandro Alagia e Alejandro Slokar em
seu Derecho Penal – Parte General. Assinalam os autores que, como demonstra a
história, não existem Estados de direito reais (historicamente determinados) que
sejam puros ou perfeitos, mas apenas Estados de direito historicamente
determinados que controlam e contêm, melhor ou pior, aquelas manifestações

205
12
2007

do Estado policial sobreviventes em seu interior. Ver Eugenio Raúl Zaffaroni;


Alejandro Alagia; Alejandro Slokar. Derecho Penal – Parte General. Buenos Aires, 2ª
edição, Ediar, 2002.
11
Veja-se a transcrição dos dispositivos focalizados na nota 3.
12
Convenção de Viena – “Artigo 3. Delitos e Sanções 1. Cada uma das Partes
adotará as medidas que se façam necessárias para tipificar como delitos penais em
seu direito interno, quando cometidos intencionalmente: a) i) A produção, a
fabricação, a extração, a preparação, a oferta, a oferta para venda, a distribuição, a
venda, a entrega em quaisquer condições, a corretagem, o envio, o envio em
trânsito, o transporte, a importação ou a exportação de qualquer entorpecente ou
substância psicotrópica em contrariedade ao disposto na Convenção de 1961, na
Convenção de 1961 em sua versão emendada ou no Convênio de 1971; ii) O
cultivo da dormideira, do arbusto de coca ou da planta de cannabis com o objetivo
de produzir entorpecentes em contrariedade ao disposto na Convenção de 1961 e
na Convenção de 1961 em sua versão emendada; iii) A posse ou a aquisição de
qualquer entorpecente ou substância psicotrópica com o objetivo de realizar qualquer
das atividades enumeradas no anterior item i); iv) A fabricação, o transporte ou a
distribuição de equipamentos, materiais ou das substâncias enumeradas no Quadro
I e no Quadro II, sabendo que vão ser utilizados no cultivo, na produção ou na
fabricação ilícitos de entorpecentes ou substâncias psicotrópicas ou para estes fins;
v) A organização, a gestão ou o financiamento de algum dos delitos enumerados nos
anteriores itens i), ii), iii) ou iv); b) i) A conversão ou a transferência de bens,
sabendo que tais bens procedem de algum ou alguns dos delitos tipificados em
conformidade com o inciso a) do presente parágrafo, ou de um ato de participação
em tal delito ou delitos, com o objetivo de ocultar ou encobrir a origem ilícita dos
bens ou de ajudar qualquer pessoa que participe do cometimento de tal delito ou
delitos a elidir as conseqüências jurídicas de suas ações; ii) A ocultação ou o
encobrimento da natureza, origem, localização, destino, movimento ou propriedade
reais de bens ou de direitos relativos a tais bens, sabendo que procedem de algum ou
alguns dos delitos tipificados em conformidade com o inciso a) do presente parágrafo
ou de um ato de participação em tal delito ou delitos; c) Com reserva de seus
princípios constitucionais e dos conceitos fundamentais de seu ordenamento jurídico:
i) A aquisição, a posse ou a utilização de bens, sabendo, no momento de recebê-los,
que tais bens procedem de algum ou alguns dos delitos tipificados em conformidade
com o inciso a) do presente parágrafo ou de um ato de participação em tal delito ou
delitos; ii) A posse de equipamentos, materiais ou substâncias enumeradas no
Quadro I e no Quadro II, sabendo que são utilizadas ou que serão utilizadas no
cultivo, na produção ou na fabricação ilícitos de entorpecentes ou substâncias
psicotrópicas ou para tais fins; iii) Instigar ou induzir publicamente terceiros, por
qualquer meio, a cometer algum dos delitos tipificados em conformidade com o
presente artigo ou a utilizar ilicitamente entorpecentes ou substâncias psicotrópicas;
iv) A participação no cometimento de algum dos delitos tipificados em
conformidade com o disposto no presente artigo, a associação e a confabulação
para cometê-los, a tentativa de cometê-los, e a assistência, a incitação, a
facilitação ou o assessoramento relacionados a seu cometimento”.

206
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...


13
Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos – “Artigo 9. 1. Toda pessoa tem
direito à liberdade e à segurança pessoais. Ninguém poderá ser preso ou encarcerado
arbitrariamente. Ninguém poderá ser privado da sua liberdade, a não ser pelos
motivos e na conformidade dos procedimentos estabelecidos em lei”.
14
Decreto del Presidente della Repubblica 9 ottobre 1990, n. 309 – “Art. 73,
1. Chiunque senza l’autorizzazione di cui all’articolo 17, coltiva, produce, fabbrica,
estrae, raffina, vende, offre o mette in vendita, cede, distribuisce, commercia,
trasporta, procura ad altri, invia, passa o spedisce in transito, consegna per qualunque
scopo sostanze stupefacenti o psicotrope di cui alla tabella I prevista dall’articolo
14, è punito con la reclusione da sei a venti anni e con la multa da euro 26.000 a
euro 260.000 (...)”. “Art. 74, 1. Quando tre o più persone si associano allo scopo di
commettere più delitti tra quelli previsti dall’articolo 73, chi promuove, costituisce,
dirige, organizza o finanzia la associazione è punito per ciò solo con la reclusione
non inferiore a venti anni (...)”. Registre-se que o Decreto do Presidente da República
de 9 de outubro de 1990, n.309 é o texto único que consolida as leis italianas em
matéria de drogas, tendo sofrido diversas modificações introduzidas pela Lei de 21
de fevereiro de 2006, n.49.
15
Decreto-lei nº 15/93, de 22 de janeiro – “Artigo 28º. Associações criminosas 1.
Quem promover, fundar ou financiar grupo, organização ou associação de duas ou
mais pessoas que, actuando concertadamente, vise praticar algum dos crimes previstos
nos artigos 21º e 22º é punido com pena de prisão de 10 a 25 anos. (...)”. Registre-
se que as referidas regras dos artigos 21º e 22º dizem respeito ao “tráfico e outras
actividades ilícitas” e a “precursores”.
16
Lei 11.343/06 – “Artigo 36. Financiar ou custear a prática de qualquer dos
crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1o, e 34 desta Lei: Pena - reclusão, de 8 (oito)
a 20 (vinte) anos, e pagamento de 1.500 (mil e quinhentos) a 4.000 (quatro mil)
dias-multa”. Os artigos 33 e § 1º e 34 referidos no dispositivo transcrito definem as
condutas identificadas ao “tráfico”, incluindo a desautorizada criminalização
antecipada da posse, transporte ou expedição das substâncias e matérias-primas
proibidas, bem como a fabricação, transporte, distribuição e simples posse de
equipamentos, materiais ou substâncias conhecidas como precursores, nos moldes
dos dispositivos criminalizadores das Convenções da ONU. Ao homicídio simples
definido no artigo 121 do Código Penal brasileiro são cominadas penas de reclusão
de 6 a 20 anos.
17
General Civil Penal Code – “Chapter 31. Receiving the proceeds of a criminal act
Section 317. Any person who receives or obtains for himself or another person any
part of the proceeds of a criminal act, or who aids and abets the securing of such
proceeds for another person shall be guilty of an offence and shall be liable to fines
or imprisonment for a term not exceeding three years. Aiding and abetting shall be
deemed to include collecting, storing, concealing, transporting, sending, transferring,
converting, disposing of, pledging or mortgaging, or investing the proceeds (…) If
the offence is concerned with the proceeds of a drug offence, imprisonment for
a term not exceeding 21 years may be imposed under especially aggravating
circumstances (…)”.

207
12
2007

18
Declaração Universal dos Direitos Humanos – “Artigo XI. (...) 2. Ninguém
poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituam
crime perante o direito nacional ou internacional (...)”.
19
Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos – “Artigo 15. 1. Ninguém
poderá ser condenado por atos ou omissões que não constituam crime de acordo
com o direito nacional ou internacional, no momento em que foram cometidos
(...)”.
20
Esta expressão é utilizada por Francisco Muñoz Conde em seu Derecho Penal –
Parte Especial, quando comenta os dispositivos do Código Penal espanhol em matéria
de drogas. Ver Francisco Muñoz Conde. Derecho Penal – Parte Especial. Valencia, 14ª
edição, Tirant lo Blanch, 2002, pp.629-653.
21
Código Penal – “Art. 368. Los que ejecuten actos de cultivo, elaboración o tráfico,
o de otro modo promuevan, favorezcan o faciliten el consumo ilegal de drogas
tóxicas, estupefacientes o sustancias psicotrópicas, o las posean con aquellos fines,
serán castigados con las penas de prisión de tres a nueve años y multa del tanto al
triplo del valor de la droga objeto del delito si se tratare de sustancias o productos
que causen grave daño a la salud, y de prisión de uno a tres años y multa del tanto
al duplo en los demás casos”.
22
Convenção de Viena – “Artigo 3 (...) 5. As Partes disporão o necessário para que
seus tribunais e demais autoridades jurisdicionais competentes possam levar em
conta circunstâncias de fato que dão particular gravidade ao cometimento dos
delitos tipificados em conformidade com o parágrafo 1 do presente artigo, tais
como: a) A participação no delito de um grupo delitivo organizado do qual o
delinqüente faça parte; b) A participação do delinqüente em outras atividades
delitivas internacionais organizadas; c) A participação do delinqüente em outras
atividades ilícitas cuja execução se veja facilitada pelo cometimento do delito; d) O
recurso à violência ou o emprego de armas por parte do delinqüente; e) O fato do
delinqüente ocupar um cargo público e do delito guardar relação com esse cargo; f)
A vitimização ou utilização de menores de idade; g) O fato do delito ter sido
cometido em estabelecimentos penitenciários, em uma instituição educacional ou
em um centro assistencial, ou em suas imediações, ou em outros lugares freqüentados
por colegiais e estudantes para realizar atividades educativas, esportivas e sociais; h)
Uma declaração de culpabilidade anterior, em particular por delitos análogos,
prolatada por tribunais estrangeiros ou do próprio país, na medida em que o direito
interno de cada uma das Partes o permita”.
General Civil Penal Code – “Section 162. Any person who unlawfully manufactures,
23

imports, exports, acquires, stores, sends or conveys any substance that by statutory
provision is deemed to be a drug shall be guilty of a drug felony and liable to fines
or imprisonment for a term not exceeding two years. An aggravated drug felony
shall be punishable by imprisonment for a term not exceeding 10 years. In deciding
whether the offence is aggravated special importance shall be attached to what
sort of substance is involved, its quantity, and the nature of the offence. If a

208
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...

very considerable quantity is involved in the offence, the penalty shall be


imprisonment for a term of not less than three and not more than 15 years. Under
especially aggravating circumstances imprisonment for a term not exceeding 21
years may be imposed. A drug felony committed negligently shall be punishable by
fines or imprisonment for a term not exceeding two years. Complicity in a drug
felony shall be punishable as otherwise provided in this section.Fines may be
imposed in addition to imprisonment”.
24
Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos – “Artigo 14 (...) 7. Ninguém
poderá ser novamente processado ou punido por um delito pelo qual já foi
definitivamente condenado ou absolvido, em conformidade com a lei e com os
procedimentos penais de cada país”.
25
Sobre a reincidência, reporto-me ao que escrevi às páginas 278 a 281 de “Juizados
especiais criminais – a concretização antecipada do poder de punir”. Vejam-se ainda
as observações de Eugenio Raúl Zaffaroni, Alejandro Alagia e Alejandro Slokar às
páginas 1008 a 1015 de seu já citado Derecho Penal – Parte General. op. cit.
26
U.S. Code РҤ 841. Prohibited acts A (a) Unlawful acts Except as authorized by
this subchapter, it shall be unlawful for any person knowingly or intentionally—
(1) to manufacture, distribute, or dispense, or possess with intent to manufacture,
distribute, or dispense, a controlled substance; or (2) to create, distribute, or
dispense, or possess with intent to distribute or dispense, a counterfeit substance.
(b) Penalties Except as otherwise provided in section 849, 859, 860, or 861 of this
title, any person who violates subsection (a) of this section shall be sentenced as
follows: (1) (A) In the case of a violation of subsection (a) of this section involving
— (i) 1 kilogram or more of a mixture or substance containing a detectable
amount of heroin; (ii) 5 kilograms or more of a mixture or substance containing a
detectable amount of— (I) coca leaves, except coca leaves and extracts of coca
leaves from which cocaine, ecgonine, and derivatives of ecgonine or their salts
have been removed; (II) cocaine, its salts, optical and geometric isomers, and salts
of isomers; (III) ecgonine, its derivatives, their salts, isomers, and salts of isomers;
or (IV) any compound, mixture, or preparation which contains any quantity of any
of the substances referred to in subclauses (I) through (III); (iii) 50 grams or more
of a mixture or substance described in clause (ii) which contains cocaine base; (iv)
100 grams or more of phencyclidine (PCP) or 1 kilogram or more of a mixture or
substance containing a detectable amount of phencyclidine (PCP); (v) 10 grams or
more of a mixture or substance containing a detectable amount of lysergic acid
diethylamide (LSD); (vi) 400 grams or more of a mixture or substance containing
a detectable amount of N-phenyl-N- [ 1- ( 2-phenylethyl ) -4-piperidinyl ]
propanamide or 100 grams or more of a mixture or substance containing a detectable
amount of any analogue of N-phenyl-N-[1-(2-phenylethyl)-4-piperidinyl]
propanamide; (vii) 1000 kilograms or more of a mixture or substance containing
a detectable amount of marihuana, or 1,000 or more marihuana plants regardless
of weight; or (viii) 50 grams or more of methamphetamine, its salts, isomers, and
salts of its isomers or 500 grams or more of a mixture or substance containing a
detectable amount of methamphetamine, its salts, isomers, or salts of its isomers;

209
12
2007

such person shall be sentenced to a term of imprisonment which may not be less
than 10 years or more than life (…). If any person commits such a violation after
a prior conviction for a felony drug offense has become final, such person shall be
sentenced to a term of imprisonment which may not be less than 20 years and not
more than life imprisonment. (…)”.
27
Convenção de Viena – “Artigo 3 (...) 7. As Partes velarão para que seus tribunais
ou demais autoridades competentes tenham em conta a gravidade dos delitos
enumerados no parágrafo 1 do presente artigo e as circunstâncias enumeradas no
parágrafo 5 do presente artigo, ao considerar a possibilidade de conceder a liberdade
antecipada ou o livramento condicional a pessoas que tenham sido declaradas
culpadas de algum desses delitos”. “8. Cada uma das Partes estabelecerá, quando
proceda, em seu direito interno, um prazo de prescrição prolongado dentro do qual
se possa iniciar o processo por qualquer dos delitos tipificados na conformidade do
parágrafo 1 do presente artigo. Tal prazo será maior quando o suposto delinqüente
tenha eludido a administração da justiça”.
Declaração Universal dos Direitos Humanos – “Artigo VII. Todos são iguais
28

perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. (...)”.
29
Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos – “Artigo 14. 1. Todas as
pessoas são iguais perante as cortes e tribunais. (...)”.
30
Convenção de Viena – “Artigo 3 (...) 6. As Partes se esforçarão para assegurar
que quaisquer faculdades legais discricionárias, segundo seu direito interno,
relativas a processos pelos delitos tipificados em conformidade com o disposto
no presente artigo, se exerçam para dar a máxima eficácia às medidas de inves-
tigação e repressão desses delitos, levando devidamente em conta a necessidade
de exercer um efeito dissuasivo com referência ao cometimento desses deli-
tos”.
31
Declaração Universal dos Direitos Humanos – “Artigo XI. 1. Toda pessoa
acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente, até que
a sua culpa tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no
qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa”.
32
Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos – “Artigo 14. 2. Toda
pessoa acusada de um crime terá direito a que se presuma sua inocência até que
se prove sua culpa de acordo com a lei”.
33
Lei 11.343/06 – “Artigo 44. Os crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1o,
e 34 a 37 desta Lei são inafiançáveis e insuscetíveis de sursis, graça, indulto,
anistia e liberdade provisória, vedada a conversão de suas penas em restritivas
de direitos.”
34
Essa série de leis brasileiras de emergência ou de exceção, iniciada com a Lei
8.072/90, a chamada lei dos “crimes hediondos”, prosseguiu especialmente
com a Lei 9.034/95, que, inspirada pelo pretexto de repressão à “criminalidade

210
verve

Legislações proibicionistas em matéria de drogas...

organizada”, naturalmente, nem em sua versão original, nem com as modifica-


ções introduzidas pela Lei 10.217/01, conseguiu explicitar o que seja tal inde-
finível fenômeno; a Lei 9.296/96, que regulamenta a interceptação de comu-
nicações telefônicas e em sistemas de informática e telemática; a Lei 9.613/98,
que criminaliza a chamada lavagem (ou branqueamento) de capitais; a Lei
9.807/99, que cria o programa de proteção a testemunhas e trata também de
réus “colaboradores”, reforçando a figura da delação premiada; a Lei 10.792/
03, que, introduzindo modificações na Lei de Execução Penal (Lei 7.210/84),
institucionaliza o regime disciplinar diferenciado para o cumprimento da pena
privativa de liberdade. Além da específica Lei 11.343/06, dispositivos de
todas essas leis permanecem aplicáveis a hipóteses de acusação por alegada
prática de “tráfico” de drogas qualificadas de ilícitas.
35
Lei 11.343/06 – “Artigo 59. Nos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1o,
e 34 a 37 desta Lei, o réu não poderá apelar sem recolher-se à prisão, salvo se for
primário e de bons antecedentes, assim reconhecido na sentença condenató-
ria”. No Código de Processo Penal brasileiro, essa indevida restrição à interpo-
sição de recurso contra a sentença condenatória aparece na regra de seu artigo
594. Há boas expectativas de que, com a nova composição do Supremo Tribu-
nal Federal e diante de posicionamentos já externados por alguns de seus
integrantes, seja definitivamente declarada a manifesta inconstitucionalidade
desses e de todos os demais dispositivos da legislação brasileira que, vedando a
liberdade provisória em processos em que ao réu é imputada a prática de
determinados crimes ou condicionando a admissibilidade de recurso contra a
sentença condenatória ao recolhimento à prisão, transformam prisões de natu-
reza processual em uma desautorizada pena imposta e executada antecipada-
mente.
36
Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos – “Artigo 14. 5. Toda
pessoa declarada culpada de um crime terá o direito de ter a condenação e a
sentença revistas por um tribunal superior de acordo com a lei”.

211
12
2007

RESUMO

Ocultando o fracasso de seus objetivos explícitos, ocultando pa-


radoxos e promovendo a violência, o proibicionismo voltado contra
as drogas alimenta a expansão do poder punitivo. As convenções
da ONU nessa matéria e as legislações internas dos mais diver-
sos Estados nacionais sistematicamente violam princípios e nor-
mas das declarações universais de direitos e das Constituições
democráticas. Os danos relacionados às drogas ilícitas não pro-
vêm delas mesmas, mas sim do proibicionismo. São danos a direi-
tos fundamentais, que ameaçam a preservação da democracia. É
tempo de efetivar uma ampla reforma das convenções internacio-
nais e das legislações internas, para legalizar a produção, a dis-
tribuição e o consumo de todas as substâncias psicoativas. 1º
parte.

Palavras-chave: proibicionismo, poder punitivo, drogas.

ABSTRACT

Hiding the failure of its explicit goals, hiding paradoxes and pro-
moting violence, prohibition on drugs nourishes the expansion of
the punishing power. The UN conventions on this issue and the
internal laws of the most different national States systematically
violate principles and rules of universal declarations of rights
and democratic Constitutions. Harms related to illicit drugs do
not come from themselves, but from prohibition. They are harms to
fundamental rights and they threaten the preservation of demo-
cracy. It’s time to put in effect an ample reform of the international
conventions and the national laws on drugs, in order to legalize
the production, distribution and consumption of all psychoactive
substances. 1st parte.
Keywords: prohibition, punishing power, drugs.

Recebido para publicação em 13 de fevereiro de 2006. Confirmado


em 4 de abril de 2006.
212
verve

213
12
2007

a arte de gostar do mesmo sexo

luiz pereira de lima júnior*

A sociedade ocidental e os diferentes visores1 que a


constituem estão impregnados de princípios universais,
judaico-cristãos e moralistas. Concebem o exercício li-
vre do sexo como algo condenável que reflete a procria-
ção, presa ao casamento, pelo menos, formalmente,
monogâmico. Tudo isso vincula-se a essa noção de ma-
trimônio, que é universal. O matrimônio é tido como a
grande plataforma da sexualidade2 e o caminho mais
adequado para a prática sexual. Logo, tornou-se condi-
ção universal e habitual a instituição matrimonial.

Ajustando comportamentos

As relações entre pessoas do mesmo sexo3 opõem-se


às formas tradicionais das práticas sexuais.4 São práti-
cas diferentes que instauram resistências, abalando o
arsenal dos comportamentos tidos normais, referentes

*
Professor do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação da Uni-
versidade Federal da Paraíba.

verve, 12: 214-231, 2007

214
verve

A arte de gostar do mesmo sexo

à vivência do sexo. Essas pessoas são os anormais, pois


desconhecem os limites impostos pela sociedade. É o
monstro sexual, pois, segundo Foucault,5 não se trata de
contranatureza, mas do monstro, ou seja, “...não uma no-
ção médica, mas uma noção jurídica.”6
As ações para tentar conter as práticas anormais refe-
rendam a instituição matrimonial e a temática da pre-
venção geral; acontecimentos marcantes no cotidiano.
Considerando-se sua aliança com a família, e com os va-
lores morais e cristãos.
Essa postura retrata o pensamento platônico, conside-
rando-se que as pessoas devem transitar, gradativamen-
te, das percepções ilusórias para a contemplação da reali-
dade pura e sem falsidade. Neste contexto, não há espaços
para pensar a arte como transgressão.
Sob uma perspectiva diferente, a arte, para Deleu-
ze,7 representa tudo aquilo que resiste. Resiste à mor-
te, à servidão, à infância, à vergonha. O povo não se
ocupa da arte, pois é difícil criar para si e criar a si pró-
prio quando estão circundados por inumeráveis sofri-
mentos. Quando as pessoas se criam ou criam algo em
torno de suas vidas, através de seus próprios meios, (re)
encontram alguma coisa na arte, ou a arte reencontra
alguma coisa que necessitavam. O artista, segundo De-
leuze e Guattari,8 domina objetos, integrando com sua arte
objetos partidos, danificados, estragados pelo tempo. Ele
propicia máquinas paranóicas e técnicas. Permite tam-
bém que essas máquinas técnicas sejam minadas pelas
máquinas desejantes. Para eles, uma obra-de-arte é em
si mesma uma máquina desejante, ou seja, impacientes
como são, os artistas não esperam a hora para que as des-
truições ocorram. Ainda, para Deleuze e Guattari,9 a arte
não espera o homem, e pode até mesmo aparecer-lhe
em circunstâncias remotas.

215
12
2007

Há um acontecimento que medrou no fim do século


XX e alastrou-se no XXI, e que merece destaque. Ele
denota essa forma de disciplina,10 de controle,11 e de
ajuste dos comportamentos, sobretudo, os das pessoas
que se relacionam com pessoas do mesmo sexo. Refiro-
me ao Projeto de Lei de Parceria Civil Registrada (PCR),
que reitera a sexualidade; embora não consiga conter
as resistências que ressurgem do suposto anonimato.
Ao arrolar uma análise sobre o tema do PCR, Sar-
matz12 diz que o Projeto de Lei 1.191/95, intitulado pe-
los críticos do Congresso, de casamento gay, deparou com
muitas insinuações por parte dos que se apresentavam
favoráveis à aprovação da referida Lei. A Câmara dos
Deputados, em 4 de dezembro de 1997, colocou em pau-
ta o Projeto de Lei de Parceria Civil Registrada, cuja
autora foi a deputada federal Marta Suplicy. As pessoas
vêem-no como uma possibilidade de se avançar social-
mente, considerando que a união entre pessoas do mes-
mo sexo é um acontecimento que assola o país. Embora
saibam que o Projeto demora a ser aprovado, percebem
que o tema está sendo discutido pela sociedade. Desta
forma, “Em vez de apresentar o projeto a um deputado, é
hora de todas as associações que lutam pelos direitos
gays recolherem assinaturas e apresentarem o Projeto
de Lei como uma ação popular. O projeto precisa ser mais
ousado.”13
O PCR, em seu texto, “...não prevê a adoção de filhos.”
No entanto, abre possibilidades para uniões estáveis
entre as pessoas do mesmo sexo, seguidas de uma gama
de direitos e deveres, unicamente permitidos aos hete-
rossexuais, tais como direito à herança, seguro-saúde
extensivo ao casal e declaração conjunta de imposto de
renda. Estes são compreendidos como avanços impor-
tantes, pois fazem parte da maioria das reivindicações
do Movimento Gay nas duas últimas décadas.

216
verve

A arte de gostar do mesmo sexo

Essa postura é respaldada pelo que vem sendo feito


em diferentes países, como a Alemanha, a Holanda e a
Suécia, que iniciaram a criação de um aparato jurídico
para a união de pessoas do mesmo sexo. Na Holanda,
essas pessoas já se casam com o crivo da lei, desde abril
de 2002; na Alemanha, o registro de casais já é feito
desde agosto do mesmo ano; na França e nos Estados
Unidos, existem cidades e Estados em que a parceria
civil já é um fato apoiado pela Justiça. No Brasil, o referido
projeto vem sendo reiterado por diferentes profissionais.
Existem pessoas acreditando nessas opiniões: “O
judiciário brasileiro deve acompanhar a evolução da
sociedade”14 e, desta forma, o projeto é concebido como
a “‘Lei Áurea’ dos homossexuais.”15
A Parada do Orgulho Gay16 denotou o entusiasmo dos
gays, sobretudo porque contavam com a sua fada
madrinha, Marta Suplicy. Naquela ocasião, as pessoas
não estavam pautadas numa postura imoral, com base
na prática de Wilde;17 mas reiteravam a sexualidade.
Mesmo que esta postura se vincule a uma série de
questões especialmente afetivas, como a necessidade
que as pessoas têm de ser respeitadas, elas navegam
entre a minoria e a maioria e, assim, reafirmam o
preconceito, a discriminação e a sexualidade. Uma
prática que é fundamentalmente artística passa a se
circunscrever no cenário de todas as práticas sexuais:
a heterossexualidade, veiculada de preferência pela
posição missionária. A pretensão de liberação do
Movimento Gay acaba sendo de libertação. A categoria
homossexual pode vir a se constituir numa categoria
hegemônica, como o feminismo e o gênero.
Ao falar dos movimentos designados de liberação
sexual, Foucault diz que eles “...devem ser
compreendidos como movimentos de afirmação ‘a partir’
da sexualidade. Isto quer dizer duas coisas: são

217
12
2007

movimentos que partem da sexualidade, do dispositivo de


sexualidade no interior do qual nós estamos presos, que
fazem com que ele funcione até seu limite; mas, ao mesmo
tempo, eles se deslocam em relação a ele, se livram dele e
o ultrapassam.”18
Sem se perder de vista a originalidade do aludido
movimento, é mister falar do uso dos prazeres, colocados
por Foucault, especialmente, no que diz respeito aos
rapazes. Isso representou, no cenário do pensamento grego,
algo que gerou inquietação. Essa postura, para ele, era
paradoxal, tendo em vista o lastro social em que se situou,
onde a designada homossexualidade era, parcialmente,
admitida. No entanto, “...talvez não seja muito prudente
utilizar aqui esses dois termos. De fato, a noção de
homossexualidade é bem pouco adequada para recobrir
uma experiência, formas de valorização e um sistema de
recortes tão diferentes do nosso.”19
A homossexualidade entre os gregos, de acordo com
Alexandrian, não é bem contada entre os historiadores, os
quais se equivocam ao dizer que ela era bem vista, pois as
relações entre as pessoas seguiam um código de honra
muito rígido. Ou seja, “Se os homossexuais o transgrediam,
eram tratados com desprezo pelos termos injuriosos e
obscenos de cinedes, de katapygones (correspondendo a
bichonas, veados). A homofilia, relação homossexual entre
dois adultos, era considerada repugnante. Só era possível
haver relação amorosa entre um homem adulto e um
adolescente de doze a dezoito anos. Se o eraste procurava
um eromene de menos de doze anos cometia um estupro e
devia ser castigado; se perseguia um de vinte anos ou mais,
perdia sua dignidade viril. Assim que a barba nascia no
rapaz, que a pilosidade recobria seu corpo, não devia mais
ser tocado.”20
Salienta King21 o fato de que na Época Clássica, em
Atenas, as relações entre homossexuais eram vistas

218
verve

A arte de gostar do mesmo sexo

como um rito de iniciação, que acontecia entre um rapaz


imberbe e um menor mais velho. Ele ressalta que,
mesmo diante dessas circunstâncias, as relações eram
passíveis de limitações, em função de noções de
etiqueta, relativas a todo o processo de cotejamento.
São novas formas de existência que surgem com as
pessoas que gostam de outras do mesmo sexo. Esta
postura não implica ser homo, mas entrar num processo
artístico. Ao abordar o pensamento de Nietzsche,
especialmente, no que diz respeito à relação entre arte
e vida, Dias22 mostra que, em o Nascimento da Tragédia
e em A Gaia Ciência, o autor já denotava que apenas o
fenômeno estético faria com que a existência fosse
suportável. Em ambas, estavam estabelecidas as
relações entre arte e vida, embora existissem
especificidades em cada obra, de acordo com contextos
filosóficos.
Enfoca, ainda, que em Humano Demasiado Humano,
Nietzsche deixa para trás as posturas metafísico-
estéticas que, mesmo sendo instigantes, não teriam
sustentação. É a arte que move a vida. Esta arte não é
aquela laçada pela metafísica, que levava os homens ao
além-mundo, a evadir-se de si próprio. Trata-se de uma
arte “...de criar a si mesmo como obra de arte.” A arte
serviria para embelezar a vida. Desta forma, “Embelezar
a vida é sair da posição de criatura contemplativa e
adquirir os hábitos e os atributos de criador, ser artista
de sua própria existência.” Ele trata da vida como arte.
Os homens, quando amam, desenvolvem a sua
capacidade criadora.
Referindo-se ao artista criador de outra memória,
Lins23 diz que ele, por um lado, é injusto, pois sempre se
volta contra tudo quanto lhe é instituído. Por outro lado,
ele é o único que tem a capacidade de dar um sentido
diferente e inusitado ao que lhe é dito. Sendo a criação

219
12
2007

injusta, criar significa transgredir, estuprar. O ato da


criação “...supõe um desvirginamento. Não existe
criação sem dor, sem cortes(...). Toda criação começa
por violar o nada... Criar uma memória-outra é da ordem,
pois, da criação e não do perdão.” Desta forma, “Recordar
o futuro é o projeto da memória!”

Espaços da amizade

Inspirado, ainda, em Lins,24 observa-se que a prática


das pessoas que gostam de outras do mesmo sexo, os
artistas que fogem, escapam ao instituído, navegam no
espaço da amizade. Trata-se de uma ascese, pois as
pessoas autoelaboram os próprios desejos e os investem
em diferentes pessoas e situações que lhes configurem
prazer. São práticas de si mesmo. Estas pessoas
subvertem as identidades sexuais, duráveis, uma vez
que elas são corpo sem órgãos, transitando num
universo/vácuo. É uma ética da experimentação, onde
as pessoas enfatizam o prazer. Trata-se de uma ética
da amizade, oposta aos modelos convencionais, pois se
subverte a ordem, e criam-se formas de vida alternativas,
sem ninguém se preocupar com a libertação.
Os espaços da amizade são abertos, plásticos e
móveis, pois são múltiplas as possibilidades de vivências
e práticas. No cenário destas, percebem-se diferentes
formas de existência, de devires — estilística da
existência — que movem o desejo.
A arte da amizade, trabalhada por Passetti,25 mostra
como o cristianismo e o Estado moderno a colocaram no
âmbito da vida privada. Ele situa sua dimensão e
importância pública, opondo-se “... à formalidade
estatizante sob o nome de amizade entre os povos...”
Para tanto, “... requer buscar uma ética existencial

220
verve

A arte de gostar do mesmo sexo

atenta à política para vê-la não sucumbir.” Contrapõe o


pensamento de Maquiavel — teoria do poder soberano
— “aos libertarismos ético e estético de La Boétie e aos
escritos de Max Stirner anteriores a O único e a sua
propriedade”.
Partindo do pressuposto de que um território deve ser
governado por um soberano, a quem o povo deve
obediência, para garantir a sua segurança e a dos demais,
“... o soberano precisa ser amado e temido pelo povo.”
No século XVI, em que vivera Maquiavel, o jovem
Etienne de La Boétie trabalha de forma oposta à “... figura
do soberano centralizado, o UM.” Ele se referia ao território
francês; por isso tomou como um pressuposto a questão:
“por que escolhemos servir voluntariamente a um
soberano?” O humanismo renascentista não seria
tomado para dar respostas a esta questão. Não se
preocupou, também, com formas da antigüidade e com a
origem da servidão voluntária. “Sua preocupação é
imediata e trans-histórica. É preciso mudar.”
No domínio do território, o poder soberano ocorre de
forma verticalizada, contínua, sem cortes nem rupturas.
La Boéttie propõe uma mudança radical de valores, uma
vez que a servidão voluntária instaurava a
descontinuidade, quebrando valores humanistas, cristãos
e estatais. Neste território, a amizade ocorre entre os
povos — domínio privado. Com a servidão, a amizade seria
vista como proposta de uma “... associação por baixo, por
meio da associação de amigos, dissolvendo a hierarquia.”
Com La Boétie, emerge uma radicalidade capaz de romper
valores, estados de assujeitamento, pois opera com “...
novos costumes vivenciados como criança a partir do
momento em que cada um disser não ao soberano.”
Apesar de Passetti primar pela abordagem a partir de
Maquiavel, La Boétie e Stirner dialoga com Montaigne,

221
12
2007

apropriando-se de alguns fragmentos, como, por exemplo,


“educar as crianças para a liberdade.”
Poder-se-ia pensar que Passetti26 conduziria sua
reflexão para a singela separação entre soberania e
autonomia individual. Isso seria um equívoco, pois o seu
rio não desembocará nesta separação. Ele navegou por
alguns rios, “... como um afluente que se ramifica
segundo a época das chuvas.”
A amizade não é vista apenas como a amizade entre
os povos, aliada aos acordos de paz temporária. Salienta:
“... a filosofia criança de Nietzsche: guerreira sem ser
destruidora fazendo aparecer o amigo como o melhor
inimigo.” Desta forma, o amigo não se refere ao privado
— povos — mas ele se publiciza, ele é feito nas
circunstâncias. Sob esta perspectiva também não há
lugar para o amor: “Amar supõe fidelidade, trapaças e
traições, ódio, um valor que se apresenta altruísta para
realizar seus interesses mesquinhos e misteriosos. O
amor nas religiões é o espelho do amor ao Estado. O amor
pelo pastor é o mesmo que o amor pelo pai ou governante.
Quem sabe o que é o amor é o soberano, esteja ele no
governo, em casa, na escola, nas fábricas, nas empresas.
O amor é um valor que vem de fora para sufocar as
paixões, domesticar os impulsos, dar sentido à liberdade.
Maquiavel sabe de tudo isso.”
A amizade não assume a perspectiva de conceito,
prática, ou possível rotina, mas de “... experiência pública
entre amigos.” Ela ocorre através de associações de
amigos, criadores de suas próprias vidas. Ela é obra-de-
arte. Esta forma de amizade extrapola as convenções,
os padrões normalizadores, os interditos. Ela é livre de
transcendentalidades. As pessoas que gostam de gente
do mesmo sexo são criadoras de arte. Elas inventam a
vida de acordo com as circunstâncias. Navegam por rios
que não deságuam na submissão aos padrões instituídos.

222
verve

A arte de gostar do mesmo sexo

Elas escapam das artimanhas da piedade e da moralidade,


transformando-se em borboletas, de preferência lilás.
Desta forma, “Esta arte de viver e criar objetos procura
responder ao presente, ao fortalecimento dos laços entre
os homens, mulheres e crianças que o constituem. Não
trazem piedade ou moralidade, não criam o Estado e as
figuras soberanas.” Os designados homossexuais são
mutáveis, Uns, prazeres momentâneos, locais, não
universais. Desta forma, salienta Passetti:27 “... ser gay
como estilo de vida ...”, apenas interessa à igualdade. Entre
os gays, existe diferença na igualdade, que é oposto à
universalidade, e à domesticação por direitos.
Ao desembocar em muitos rios e águas, a amizade é
vista não mais como objeto exclusivo dos filósofos. E “...
nem a eles cabe localizar as práticas de amizade. A arte
da amizade está em fazer publicamente miríades de
associações formadas por pessoas condutoras de desejos,
uns. Os anarquistas são uns.”
Atualmente, com o PCR, a sociedade tenta canalizar as
formas de amizade para formas reconhecidas socialmente.
Cria uma gama de processos, inclusive legais, para
normalizar o comportamento das pessoas. Elas se
assujeitam a tais processos, a partir de uma variedade de
demandas, singularmente, aquelas referentes aos afetos.
Muitas caem nas malhas do discurso da sexualidade,
atrelado à lei. Normalizam-se os comportamentos para elas
não se rebelarem contra o instituído. Embora seu poder de
criatividade esteja abalado, elas sempre ressurgem de
meros assujeitados e recapturam a transgressão. A sua
criatividade pode até ser abalada, sem, contudo, ser
destituída. É a vida que dos confins renasce; inclusive
em tempos de maiores preocupações com as Doenças
Sexualmente Transmissíveis (DSTs), especialmente a
Síndrome da Imunodeficiência Adquirida — AIDS ou
SIDA.28

223
12
2007

Quanto ao PCR, salientando-se a questão das


reivindicações de direito e de igualdade, ressaltam-se,
em detrimento desta postura, as formas de fuga de uma
existência institucionalizada. Criar novas formas a
partir dos instintos é instigante. Não existem direitos
individuais. Existem multiplicidades de relações, que
se inscrevem na tessitura das práticas surpreendentes.
Os movimentos homossexuais e feministas
reacendem as chamas dos padrões instituídos — aspecto
da libertação — , em detrimento das chamas dos
instintos. Desmontar-se-iam as identidades duráveis,
as formas tradicionais de relacionamento e de
comportamento. A sexualidade se desativaria, pois,
segundo Lima Júnior, 29 o sexo aconteceria
aleatoriamente. Ortega afirma: “O projeto foucaultiano
de uma ética da amizade no contexto de uma possível
atualização da estética da existência, permite
transcender o quadro da auto-elaboração individual para
se colocar numa dimensão coletiva.”30
Essa percepção assinala que não haverá espaços para
a oposição sujeito/sociedade, mas para processos de
subjetivação coletiva: processos relacionais. São novas
subjetividades que se produzem, em oposição às
subjetividades maquínicas. As formas de amizade não
se reduzem à família nem ao matrimônio, mas,
sobretudo, ao devir que as marca. Elas são fluxos e
refluxos, calcadas nos impulsos de uma agressividade
carregada de positividade: amigos/inimigos.
O fato de Foucault ter construído a questão da amizade
entre os homossexuais não significa que ele não tenha
visto o crivo da sexualidade entre essas pessoas. Ele não
negou as singularidades do movimento homossexual,
como resistências ao instituído. Talvez, ele tenha visto
relações abundantes, que fazem da vida obra-de-arte.
As pessoas que gostam de outras do mesmo sexo são

224
verve

A arte de gostar do mesmo sexo

artistas, embora o próprio artista, muitas vezes, caia


nas malhas do instituído. Elas fogem, criam espaços
coloridos. Elas se assujeitam! Querem casar! Colocar
ferraduras — alianças — em seus dedos! Mas elas não
fazem o que Nietzsche diz: “Desde que há homens, o
homem tem-se divertido muito pouco: é esse, meus
irmãos, o único pecado original.” Elas se divertem tanto
que viram arco-íris.31
A meta mais almejada pelas pessoas que se
relacionam com gente do mesmo sexo, nestes últimos
tempos, é o casamento monogâmico. Entra em cena a
necessidade de reintegrar as pessoas à ordem
estabelecida. De libertinos e possíveis artistas transitam
na esfera comum, fazendo parte de uma maioria. São
superficiais porque querem casar e talvez amar uma só
vez, como comenta Wilde,32 e não aguçam a imaginação,
sendo leais e fiéis.
As minorias e as maiorias, segundo Deleuze,33 não
se distinguem pela dimensão numérica. Uma minoria
pode ter mais expressividade ou ser mais numerosa do
que uma maioria, pois geralmente a maioria enquadra-
se num modelo esperado. As minorias não estão
necessariamente presas a um modelo; elas se
constituem em um processo ou um devir. A maioria não
representa ninguém; ela não é ninguém. As pessoas,
apesar de sempre representarem uma maioria, têm
dentro de si uma minoria, ou seja, elas possuem um
devir minoritário que as conduz a caminhos
desconhecidos. À medida que as minorias criam para si
um modelo que elas devem seguir, estão objetivando
tornar-se uma maioria, tornando-se majoritária, o que
pode estar consoante aos seus desejos, à afetividade.
No caso das referidas pessoas, observa-se que elas
não são as únicas que criam, mas as pessoas em geral,
quando se voltam contra os padrões instituídos. Elas

225
12
2007

instauram o imoralismo. O imoralismo, segundo Giacóia


Júnior,34 assume papel de destaque no cerne das idéias
de Sade. Estas considerações propiciarão a supremacia
dos instintos, aspecto inerente às práticas sociais/
sexuais e jamais distantes delas.
Observa-se, ainda, parafraseando Bataille,35 que as
referidas práticas introduzem fascínio e sedução ante o
instituído: erotismo. Trata-se de práticas eróticas. Um
erotismo, segundo Louÿs,36 cuja característica peculiar
é a do humor e do burlesco.
Ao falar que nenhuma “frente homossexual” é
possível, Deleuze e Guattari dizem que isso ocorrerá
enquanto a homossexualidade estiver sendo concebida
“... numa relação de disjunção exclusiva com a
heterossexualidade, que as refere a ambas a um tronco
edipiano e castrador comum (...) em vez de mostrar a
sua inclusão recíproca e a sua comunicação transversal
por fluxos descodificados do desejo.”37
O matrimônio exerce papel fundamental, no que diz
respeito à vivência do sexo, até mesmo entre as pessoas
que gostam de outras do mesmo sexo. Nas últimas
décadas do século XX, nos países europeus, nos Estados
Unidos e na América Latina, segundo Werebe,38 as
relações sexuais, no âmbito da população jovem, vêm
aumentando. Isto desencadeia a questão da
permissividade sexual, discutida atualmente, sobretudo
com a proliferação das DSTs. Mesmo considerando a
gama de interditos que se fazem presentes,
especialmente por causa das referidas doenças, essas
relações estão sendo parcialmente consideradas, à
medida que o sexo jorra entre os jovens. O aludido
acontecimento é notório, até porque o poder da Igreja e
o da família sobre os comportamentos e, em particular,
sobre aqueles referentes à vida sexual dos jovens,
alterou-se, sobretudo a partir da década de 1970, fazendo

226
verve

A arte de gostar do mesmo sexo

com que estas instituições revissem suas táticas. O sexo


vem sendo disciplinado, controlado pela educação e pela
escola, cujas informações são oriundas do modelo de
sexualidade levado a cabo pela prática de educação
sexual.
A possibilidade de reivindicações de bens e união
estável — talvez de casamento —,39 entre as pessoas
do mesmo sexo denota o agigantamento do
conservadorismo. Esta postura relaciona-se, entre
outras, a interesses familiares na preservação de bens,
a objetivos do Estado no corte de gastos com os
empestados e a metas da sociedade em cooptar práticas
que não se mirem na piedade. Considerando que estas
pessoas, inicialmente, foram expressões da peste e, até
hoje sofrem por causa desse equívoco, estão na mira
das posturas mencionadas. Não cabe mais expulsá-las
do convívio. O intuito é limpá-las, recuperá-las,
domesticá-las, e enquadrá-las nos padrões instituídos.
Todos os olhos se voltam para elas. É preciso vigiá-las.
Elas serão aceitas pela sociedade, parcialmente, caso
estejam cumprindo as normas instituídas. Diante disso,
as pessoas que gostam de gente do mesmo sexo
assumem condição de servos nesse cenário, esquecendo
sua prática de artistas, que as leva à criação da vida, do
sexo e de práticas inusitadas. Nessa dimensão inusitada,
elas extrapolarão até mesmo a relação com o mesmo
sexo, passando a navegar no oceano de práticas
flutuantes, onde acenam os instintos.
Os referidos acontecimentos que perpassam as
práticas sociais e sexuais, calcados na disciplina e no
controle dos comportamentos, são abalados pelas pessoas
que gostam de gente do mesmo sexo: os artistas que
fazem de suas vidas obras-de-arte.

227
12
2007

Notas
1
Especialmente o Estado, a Igreja, a família e a escola.
2
Refere-se a um dispositivo de poder. A sexualidade se estruturou de tal maneira,
organizando um arsenal de discursos que objetiva, primordialmente, a moralidade.
Cf. Michel Foucault. Microfísica do poder. Tradução e organização de Roberto Machado.
Rio de Janeiro, Graal, 1979.; e História da sexualidade: a vontade de saber.Tradução de
Maria T. da C. Albuquerque e J. A. Guilhon de Albuquerque. Rio de Janeiro, Graal,
1988. v. 1.
3
Prefiro esta expressão à categoria homossexual. As pessoas transitam no oceano
das relações, sem se acostarem a uma ou a outra, mas a uma diversidade de relações
que emergem, de acordo com suas necessidades afetivas, em circunstâncias especiais.
Mesmo que as pessoas em determinados momentos tenham sido enquadradas na
categoria homo, colocando-as numa posição de inferioridade perante as demais,
não significa que tenham perdido sua porção erótica. Criar uma outra categoria,
mesmo com propósitos diferentes, para suavizar os estereótipos e as discriminações,
sobretudo verbais, é complexo. O homoerotismo, em oposição ao homossexualismo,
resvala nessa complexidade. Apenas é introduzido o vocábulo erótico a um outro
vocábulo homo. Soma, não surpreende. A categoria ou prefixo homo permanece
intacto, mesmo que não cumpra a mesma função, quando é associado a erótico, pois
não visa uma discriminação explícita. Cf. Jurandir Freire Costa. A inocência e o vício:
estudos sobre o homoerotismo. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1991.
4
Os ocidentais traduzem o sexo em discurso. Percebe-se que os orientais primam
pela vivência e auto-educação. Cf. Mallanaga Vatsyayana. Kama sutra. Tradução de
Waltensir Dutra. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2002.
5
Michel Foucault. Os anormais: curso no Collège de France (1974-1975). Tradução de
Eduardo Brandão. São Paulo, Martins Fontes, 2001, p. 70, p. 76, pp. 78-80.
6
Idem, p. 78.
7
Gilles Deleuze. “Política. Controle e devir. Post-scriptum sobre as sociedades de
controle” in Conversações, 1972-1990. Tradução de Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro,
34 Letras, 1992, pp. 207-226.
8
Gilles Deleuze e Félix Guattari. O anti-édipo: capitalismo e esquizofrenia. Tradução de
Joana M. Varela e Manuel Carrilho. Lisboa, Assírio e Alvim, 2000, p. 35.
9
Gilles Deleuze e Félix Guattari. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Tradução de
Suely Rolnik. São Paulo, 34 Letras, 1997. V. 4. p.129.
10
Michel Foucault, 1979, op. cit.
11
Gilles Deleuze, 1992, op. cit.

228
verve

A arte de gostar do mesmo sexo


12
Leandro Sarmatz. “Poder gay” in Superinteressante. São Paulo, n. 168, pp. 88-93,
set. 2001. pp. 89-93.
13
Elias Ribeiro de Castro, diretor do Centro Acadêmico de Estudos Homoeróticos
da Universidade de São Paulo CAEHUSP, e presidente da Associação Diversidade,
grupo que congrega uma gama de Organizações Não-Governamentais e centros de
apoio a homossexuais. Idem, p. 89.
14
Maria Berenice Dias, desembargadora Gaúcha, vem assumindo a postura da
princesa Isabel da comunidade gay do Brasil. Ibidem, p. 90.
15
Luiz Mott, antropólogo, fundador do Grupo Gay da Bahia. Ibidem, p. 90.
16
Em sua análise, Sarmatz aponta aquela que ocorreu em São Paulo, no dia 17 de
junho de 2002, contando com cerca de duzentas mil pessoas. Ibidem.
Oscar Wilde. O retrato de Dorian Gray. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo,
17

Martin Claret, 2001.


18
Michel Foucault, 1979, op. cit., p. 233.
Michel Foucault. História da sexualidade: o uso dos prazeres. Tradução de Maria
19

Thereza da Costa Albuquerque. Rio de Janeiro, Graal, 1984. V. 2. p. 167.


20
Alexandrian. História da literatura erótica. Tradução de Ana Maria Scherer e José
Laurênio de Mello. Rio de Janeiro, Rocco, 1993. p. 19.
21
Helen King. “Preparando o terreno: sexologia grega e romana” in Roy Porter e
Mikulás Teich. (Org.). Conhecimento sexual, ciência sexual: a história das atitudes em
relação à sexualidade. Tradução de Luiz P. Rouanet. São Paulo, UNESP, 1998. Parte
1, Cap. 1, pp. 45-63 e pp. 45-47.
22
Rosa Maria Dias. “Arte e vida no pensamento de Nietzsche” in Daniel Lins,
Daniel de S. Gadelha Costa e Alexandre Veras. (Org.). Nietzsche e Deleuze: intensidade
e paixão. Rio de Janeiro, Releme Dumará; Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto
do Estado, 2000, pp. 9-21 e pp. 9-16.
23
Daniel Lins. “Esquecer não é crime” in Daniel Lins, Sylvio de S. Gadelha Costa
e Alexandre Veras. (Org.). Nietzsche e Deleuze: intensidade e paixão. Rio de Janeiro,
Relume Dumará; Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto do Estado, 2000, pp.
45-61 e pp. 51-59.
24
Idem, p. 51 e p. 59.
25
Edson Passetti. “A arte da amizade” in Verve V. 1. São Paulo, Nu-Sol, 2002, p. 60.
26
Edson Passetti, 2002, op. cit., p. 25, p. 30, p. 43, p. 49, pp. 56-57.
27
Edson Passetti. Amizade: (ensaio: Foucault, Nietzsche, Stirner). São Paulo, 2000.
(Livre Docência) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, p. 148.

229
12
2007

28
A AIDS, de acordo com Lima Júnior, é compreendida como peste. Além de
referir-se ao território, ela assume uma conotação moral. A peste é discutida, ainda,
por Camus e Oliveira. Cf. Luiz Pereira de Lima Júnior. O acontecimento aleatório do
sexo: cartografando a sexualidade na prática da educação sexual e no espaço dos parâmetros
curriculares nacionais. (Doutorado em Ciências Sociais) – Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo; Albert Camus. A peste. Tradução de Valerie Rumjanek.Rio
de Janeiro, São Paulo, Record, 2002.; Salete Magda de Oliveira. Política e peste:
crueldade, plano Beveridge e abolicionismo penal. Doutorado em Ciências Sociais, São
Paulo, PUC-SP, 2003.
29
Luiz Pereira de Lima Júnior, op. cit, 2003.
30
Francisco Ortega. “Estilística da amizade.” In Vera Portocarrero e Guilherme
Castelo Branco. (Org.). Retratos de Foucault. Rio de Janeiro, Nau, 2000. Parte 3. pp.
245-263 e p. 250.
31
Friedrich Wilhelm Nietzsche. Assim falou Zaratustra. São Paulo, Martin Claret,
2000. p. 77.
32
Oscar Wilde, 2001, op. cit., p. 51.
33
Gilles Deleuze, 1992, op. cit, p. 214.
Oswaldo Giacóia Júnior. Labirintos da alma: Nietzsche e a autosupressão da moral.
34

Campinas, UNICAMP, 1997, p. 158.


Georges Bataille. O erotismo. Tradução de Antonio Carlos Viana. Porto Alegre,
35

L&PM, 1987.
36
Pierre Louÿs. Manual de civilidade para meninas. Tradução de Júlio Henriques.
Lisboa, Fenda, 1995.
37
Gilles Deleuze e Félix Guattari, 2000, op. cit, pp. 367-368.
Maria José Werebe. Sexualidade, política e educação. Campinas, Autores Associados,
38

1998.
Vale ressaltar: “‘Plano de Direitos Humanos de FHC apóia união gay’(...) Fernando
39

Henrique disse apoiar o projeto de lei que tramita no Congresso Nacional, que
permite a união civil entre pessoas do mesmo sexo. O presidente chegou a posar
para fotos segurando uma bandeira com o símbolo do movimento em defesa dos
homossexuais, um arco-íris.” Cf. Ricardo Mignone. “Plano de Direitos Humanos
de FHC apóia união gay e cota para negro” in Folha on line, São Paulo, 14 de maio.
2002. Disponível em: http://www.uol.com.br/folha/Brasil/ult96u32443.shl.
Acesso em: 14 de maio. 2002. Além deste acontecimento, cabe mencionar, ainda,
que “‘Casais gays conquistam vitória no Parlamento britânico’. Casais
homossexuais estão mais perto de conseguir o direito de adotar crianças na
Grã-Bretanha.” Cf. Marina Brito. “Casais gays conquistam vitória no parlamento
britânico” in Folha on line, São Paulo, 21 maio. 2002. Disponível em: <http://
www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/020521_gaycasalmb.shtml>. Acesso em:
21 de maio. 2002, p.1.

230
verve

A arte de gostar do mesmo sexo

RESUMO

As práticas sociais e sexuais, particularmente as ocidentais, são


calcadas em princípios universais, judaico-cristãos e moralistas.
Elas referendam as relações sexuais entre pessoas do sexo oposto
em detrimento das relações entre pessoas do mesmo sexo. Estas
últimas se voltam contra o instituído, instaurando o imoralismo: a
arte como transgressão. Refletir-se-á sobre este potencial
transgressor, singularmente no Brasil atual, pontuando
acontecimentos que perpassam as práticas das pessoas que gostam
de gente do mesmo sexo. Se, por um lado, as práticas materializam
a sexualidade, por outro lado, elas acenam para o prazer: a
supremacia dos instintos.

Palavras-chave: sexo, relações entre pessoas do mesmo sexo,


imoralismo.

ABSTRACT

The social and sexual practices, particularly the Western ones,


are based on universal Jewish-Christian and moralist principles.
They justify the sexual relations among people from the opposite
sex in preference to relations among people from the same sex.
The last ones are against the institutionalization, bringing up
immorality as a consequence: the art of transgression. One will
reflect about this transgressing potential, singularly in the present
Brazil, highlighting happenings that deal with the practices of
people who like others from the same sex. If on one hand, the
practices materialize sexuality, on the other hand, they signal the
presence of pleasure: the supremacy of instincts.

Keywords: sex, sexual relations among people from the same sex,
immorality.

Recebido para publicação em 5 de fevereiro de 2007. Confirmado


em 7 de maio de 2007.

231
12
2007

a nau sem porto: juarroz, llansol e jabés

nilson oliveira*

Como conceber um pensamento que não seja outro?


Jacques Hanssoun

O pensamento-outro é um pensamento em línguas,


uma mundialização tradutora de códigos, de sistemas e
de constelações de signos que circulam no mundo. Abde-
lkebi Khatibi

É estranho como alguns autores permanecem


apartados da cena editorial brasileira, refugiados no
limite da fronteira pela completa ausência de tradução
ou, quando compartilham do idioma, ignorados por razões
que escapam ao entendimento dos leitores,
comentadores ou apreciadores da escrita literária. A
literatura está em continuo movimento, é inteiramente
m-o-b-i-l-i, ela sempre move os seus laços, dentro ou

*Nilson Oliveira é editor da revista Polichinelo, autor de A outra morte de Haroldo


Maranhão, edições IAP, 2006.
verve, 12: 232-237, 2007

232
verve

A nau sem porto...

fora do foco, dentro ou fora da fronteira. Os leitores, em


geral, estão sempre diante de inquietações e
provocações geradas pela escrita, pelo estilo, pelas
renovações que o espaço literário não pára de gerar. Uma
questão se abre. Mas toda questão verdadeira está aberta
a um conjunto de questões (o conjunto é a realização
dessa abertura que é o sentido da questão). Daí sua força
movediça, sua intensidade, seu valor.
Mas agora, vemos que existe nela, mais profundidade,
um desvio que desvia o questionamento de poder ser
questão e de obter resposta. Esse desvio é o centro da
questão profunda, uma quebra que move para muito
longe, essa é a força da escrita literária. Essas escritas
transitam sempre no limite, como a viagem de Ahab,1
está sempre por perfurar o limite das coisas, de um mar
a outro, navegam o tempo todo, atravessam o labirinto
da escrita, alcançando sua outra margem. Nela, as
escritas atravessam-se, num jogo incessante de
possibilidades e pensamentos. Estão curvadas ao aberto
do inominável, em uma jornada que não reconhece o
caminho de volta.

A paixão obscura

Borges e Cioran tinham em comum a paixão por


autores obscuros; estendiam seus radares para muito
longe — além da fronteira, do cânone, do limite do acervo
ocidental — para alcançar o inusitado de obras que, pela
força, deslocavam-se como árvores sem raiz, no coração
do desconhecido, por fora do lugar, do idioma, em cruzadas
pela superfície do espaço literário. Cioran, debruçado em
figuras que vão dos místicos (de toda ordem), passando
por filósofos, escritores. Desenraizando uma genealogia
do desconhecido. E Borges, atravessado no conhecimento
alhures: árabe, nômade, imemorial. São dessas fontes

233
12
2007

que eles extraíram sua força, sua capacidade de


trânsito, seja pelo limiar da filosofia, da literatura ou
do que for. Saberes que, como num eterno retorno,
fortaleceram o pensamento, a escritura, fazendo deles
o que foram e são, pela potência de suas obras. Borges
e Cioran: referências que tangenciaram saberes além
da fronteira, evidências que nos empurram aos
abismos da outra margem; margem cujos nomes se
multiplicam em um sem–número, em escritas que
provocam a sede de cada leitor. Nessa esfera, Edmond
Jabés, Maria Gabriela Llansol e Roberto Juarroz
surgem como figuras que de um certo modo já lemos
ou ouvimos falar, mas que da totalidade da suas obras
estamos, no espaço editorial brasileiro, apartados,
envoltos por uma lacuna, na qual seus nomes, tal como
outros, têm pouca penetração. Mas ainda assim,
graças à ousadia de alguns, por vezes despontam no
horizonte vestígios significativos, traduções ou
ensaios, cercando as obras desses autores,
evidenciando cada vez mais a força dessas Naus no
espaço literário. O ensaio e a tradução de alguns
poemas de Juarroz por Nonato Cardoso,2 as traduções
de Jabés feitas por Caio Meira;3 e o Livro de ensaios
sobre Llansol, organizado por Lúcia Castello Branco,4
denotam perfeitamente isso, são como linhas
invisíveis que, pelo seu vigor, atravessaram momentos
essenciais dessas escritas, deixando ao leitor atento
pistas para, nas trilhas desse arquipélago, uma
jornada mais distante.

O bilingüismo ativo

A literatura é uma região sem muro, um não-lugar,


um fluxo de trânsito enlouquecido, onde as escritas
se atravessam em línguas estranhas, o bilingüismo
ativo. Comunicam-se pelo intenso de suas obras. O

234
verve

A nau sem porto...

livro que hoje desponta do desconhecido vai cada vez


mais, pela força da sua opacidade, sobrepujando a Babel,
enredando-se para o aberto de Alexandria ou para as
estantes do desconhecido, em qualquer ponto remoto.
Tangenciam por qualquer lugar, não descansam nunca.
Atravessam o infinito das fileiras, ao lado de Poe,
Lautréamont, Musil, Celine, Kafka, Bataille, Thomas
Bernhard, Blanchot e outros e mais outros. São os
sonâmbulos da escritura, aqueles que rondaram a noite
sem descanso, que ergueram suas obras com a
substância do eterno, com o líquido que vaza das
artérias. Esses livros não têm destino, pertencem a
ninguém, não reconhecem pátria nem fronteira,
circulam o mundo e assombram os leitores, convocam-
nos cada vez mais à travessia do inevitável, suas
páginas estão sempre abertas.

As vertigens do arquipélago

I.
Roberto Juarroz é um caso de convívio intenso com
a escrita literária. Viajou, pesquisou, escreveu,
traduziu, mergulhou ao centro das escrituras perfiladas
por fora da raiz como em Heráclito, Mallarmé, René
Char. Injetou na literatura ares de renovação, de força,
de inusitado, em voltas com o pensamento, com o exílio,
enredando-se para mais distante. Juarroz foi poeta de
uma escrita peculiar, de um estilo que atravessou os
alicerces do inominável e do possível, presente em todas
as coisas e fora delas. Toda a sua obra consiste em um
único tema: Poesia vertical,5 que se engendra em uma
infinidade de números, como se através desse ciclo
incessante perfilasse as bandas do infinito.

235
12
2007

II.
Maria Gabriela Llansol é dessas escritoras que
agem silenciosas; sua movimentação é quase
invisível, dela só vemos as irrupções, suas cintilações
que jorram num lastro cada vez mais sólido, líquido,
surpreendente; sua escrita se espraia em uma obra
extensa e diversa que navega numa constante
superação de si. O que começa em um livro apaga em
outro ou atravessa seu limite edificando um plano; a
obra vista em perspectiva que se estende além do
limite da vista, em um mar de areia líquida que engole
todo aquele que nela se lança, que seduz o leitor como
um canto de sereia, atrai para o centro da sua
atmosfera. Seu movimento líquido revolve a não mais
poder, escorre em uma jornada cujo curso ou destino
é desconhecido.
III.
Edmond Jabés é o poeta da travessia, do
pensamento nômade, um pensamento encontrado nas
margens, nas distâncias e nas questões silenciosas,
um pensamento abolido das reminiscências,
desenraizado do peso da identidade. Da escrita de
Jabés cintilam os ventos de um pensamento-outro,
pensamento que vaga pelo deserto da página branca,
em um ciclo sagrado em torno do inexistente. Corre
por suas veias a escritura, o exílio, o acontecimento.
Esse é o investimento de Jabés, o combate pelas
entranhas de um pensamento que se desloca, estando
sempre aberto, sendo sempre outro. A escrita de Jabés
age silenciosa e encontra no sujeito a decisão de não-
ser; que consiste no desejo nômade de convocar o
ausente, para tornar real sua presença, fora dela e do
mundo; para presentificá-la em sua realidade de
escritura. Seu lugar é o não-lugar. Esse é seu
combate, sua matéria de fim e de começo, ofício de
interminável busca.

236
verve

A nau sem porto...

Notas
1
Herman Melville. Moby Dick. Francisco Alves, 1982.
2
Roberto Juarroz, Nonato Cardoso: Revista Polichinello, nº 1, 2004 e nº 4,
2005.
3
Disponível em: <http://www.caiomeira.kit.net/escritos.htm>.
4
Lucia Castello Branco (org.). Os absolutamente sós: Llansol – Lacan. Belo
Horizonte, Letra: Autêntica, 2000.
5
Roberto Juarroz. Poesía Vertical I y II. Buenos Aires, Emecé, 2005.

RESUMO

O texto aborda alguns autores cujos escritos transitam no limite,


num jogo incessante de possibilidades e pensamentos.

Palavras-chave: escrita, viagem, nômade.

ABSTRACT

The text opproaches some writers whose writings walk in the


edge, in a unstoppable gone of possibilities and thoughts.

Keywords: writing, travel, nomads.

Recebido para publicação em 5 de fevereiro de 2007. Confirmado


em 7 de maio de 2007.

237
12
2007

a revolução do presente

tania fonseca, selda engelman, patrícia kirst*

Aufklärung e Revolução

Vamos abrir com o que está transbordando...


Experimentamos um “excesso de contemporâneo”,
como nos aponta David Le Breton.1 Por um lado, a
modernidade líquida de Baumann,2 na qual os sólidos
se liquefazem, as instituições se desmaterializam,
derrubam-se os muros, as crenças e as tradições. A nova
ordem é de mutação e mobilidade, flexibilidade e
velocidade. O novo tempo é o do efêmero e da proliferação
das minorias que podem, como no 11 de setembro,
implodir enormes materialidades carregadas de certezas
e símbolos de macropoderes. Os pequenos vêm à tona,
semeando a incerteza e ressentindo antigas dores. Dão

* Tania Mara Galli Fonseca é Psicóloga, Professora Titular em Psicologia Social


do Instituto de Psicologia da UFRGS, docente-pesquisadora dos Programas
Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional e Informática Educativa/
UFRGS. Selda Engelman é Administradora, Mestre em Psicologia Social e
Institucional e Doutoranda em Educação/ UFRGS. Patrícia Gomes Kirst é
Psicóloga, Mestre em Psicologia Social e Institucional e Doutoranda em
Informática Educativa/ UFRGS.
verve, 12: 238-253, 2007

238
verve

A revolução do presente

a ver, em rede mundial, quase beirando a ficção, o caráter


liquefeito do Império. Por outro lado, observamos, hoje,
empreendimentos tecnocientíficos dos mais inéditos
que têm um interesse no futuro e naquilo que se refere
ao cotidiano, principalmente quando o projeto é eliminar
ou corrigir o corpo humano. Este se torna território de
experimentação da alteração do si, passa a ser concebido
como rascunho, opondo-se ao próprio sujeito. Suas
fronteiras — que constituem os limites do si —,
despedaçam-se e semeiam a confusão. Nas instituições,
são as próprias edificações, enquanto modo de
espacializar o tempo, que se obsoletizam, deitando por
terra o conjunto de concepções e ideais em nome dos
quais foram erigidas.
Tais novas configurações e mutações podem vir a ser
confundidas com reviravoltas e rupturas, mas, aqui,
estamos frente a um enigma. Um corpo que malha, um
corpo que cumpre com a sua dieta, um corpo firme de
silicone e paralisado pelo botóx, que sente a picada do
body piercing e que cumpre com as obrigações do
orgasmo-viagra, e com a alegria - prozac não parece cheio
de força e vigor para o “perfeito”? Uma instituição que
se desmaterializa, deixando ver o fracasso da razão que
a concebeu, não parece fato alvissareiro para a liberação
de potências e invenção de novos mundos? Talvez, quem
sabe, mesmo de um outro humano?
Quando estamos falando da construção do presente,
quando nos pomos a pensar em estratégias de resistência
e criação que venham auxiliar na invenção de novos
mundos para existir e novas formas de vida para viver,
não podemos deixar de olhar ao nosso redor para observar
e registrar algo daquilo que nos é contemporâneo e que,
paradoxalmente, se coloca como limite e como
possibilidade de superação e ultrapassagem. Sim, nosso
ponto de partida é o aqui-agora (espaço-tempo) em que

239
12
2007

estamos mergulhados, e o nosso olhar não recai sobre


as pontas do tempo — lá e então — fazendo-nos recuar
em busca de origens passadas ou de futuros imaginários.
Não nos move o ímpeto de classificar os fatos da história
segundo o eixo de dois pólos: o da antigüidade e o da
modernidade, o que torna descabidas as questões que
procuram saber se vivemos em um período de decadência
ou de progresso em relação aos nossos antepassados.
Atolados no tempo, habitamos o ponto que se pode chamar
meio, intermezzo, lugar de onde partem nossas operações
de combate e manobras de exploração. Nossos modos e
nossa substância existem como efeitos finitos da
ilimitada potencialidade da pulsão vital. Com Michel
Foucault3 em “O que é o Iluminismo?” indagamos, então:
“Qual é a minha atualidade? Qual é o sentido desta
atualidade? E que é que eu faço quando falo desta
atualidade?”
Nosso aqui-agora se coloca como expressão do
acontecimento que nos envolve e nossa atualidade pode
vir a ser definida por nossa condição de problematizar a
Aufklärung4 de nosso tempo, aqui tomada como um
período que formula sua própria divisa, seu próprio
preceito e que diz o que ele tem a fazer, tanto em relação
à história do pensamento, como em relação ao seu
presente e às formas de conhecimento, de saber, de
ignorância, de ilusão nas quais ele sabe reconhecer sua
situação histórica.
Segundo esta perspectiva, buscar saber se há um
progresso constante para o gênero humano corresponde
a determinar se existe uma causa possível deste
progresso, liberar um certo acontecimento que mostra
que a causa age em realidade. É preciso, pois, isolar na
trama da história um acontecimento que terá valor de
signo da existência de uma causa permanente que, por
toda a história, guiou os homens no caminho do

240
verve

A revolução do presente

progresso. Vejamos, ainda no texto acima referido, nas


palavras de Foucault a resposta de Kant ao
questionamento: “Há em torno de nós um acontecimento
que seria rememorativo, demonstrativo e prognóstico
de um progresso permanente que arrasta o gênero
humano em sua totalidade?”.5 Nas palavras de Foucault,
prosseguimos:
“‘Não esperem’, diz Kant, ‘que este acontecimento
consista em grandes gestos ou crimes importantes
cometidos pelos homens, após o que, o que era grande
entre os homens se tornou pequeno, ou o que era
pequeno se tornou grande, nem em edifícios antigos e
brilhantes que desapareceriam como que por mágica
enquanto que em seus lugares surgiriam outros vindos
das profundidades da terra. Não, nada disso. (...) Prestem
atenção, não é nos grandes acontecimentos que devemos
procurar o signo rememorativo, demonstrativo e
prognóstico do progresso; é em acontecimentos muito
menos grandiosos muito menos perceptíveis.’”6
Vimos, assim, desde a ótica destes filósofos, que o
que é significativo e pode operar como signo do progresso,
não são os feitos e dramas revolucionários. O que é
significativo é a maneira pela qual a Revolução é
acolhida pelos que não participam dela ativamente, mas
que a consideram, que a assistem e que, para melhor
ou para pior, se deixam arrastar por ela: o que é
significativo, é o que se passa na cabeça dos que não a
fazem ou, em todo caso, que não são seus atores
principais. O entusiasmo pela Revolução é signo,
segundo Kant, de uma “disposição moral da
humanidade”7 e a Revolução, como lugar de entusiasmo
e de revelação de uma disposição humana para
progredir, é um acontecimento cuja existência atesta
uma virtualidade permanente e que não pode ser
esquecida, uma vez que mais do que preservar seus

241
12
2007

feitos e deles fazer modelos, o que nos interessa é saber


o que é preciso fazer desta vontade de revolução que é
outra coisa que o empreendimento revolucionário.
Podemos, daqui, já vislumbrar que a problemática do
presente não concerne exclusivamente ao domínio
racional da Aufklärung e ao estado de coisas e
enunciados dela decorrentes. Há uma outra face, a da
Revolução que também lhe concerne e que se expressa
como um combate contra o presente em favor de um
futuro que virá. Uma espécie de fracasso instaurado no
seio da racionalidade vigente, algo da ordem do
extemporâneo que se coloca na própria atualidade do
mundo e dos sujeitos, assinalando-se como um
eternamente futuro cravado na carne do presente,
conferindo-lhe movimentos vertiginosos, colocando-nos
como artesãos de uma interminável escrita que, ao
mesmo tempo, fala de nós e de nosso mundo.
Se as forças que nos rodeiam e nos impelem a
velocidades incríveis ainda não estão claras, se o
presente é perturbador e exige uma atenção redobrada,
temos razões para alçar-nos com mais garra à altura
desse desafio. Como nos diz Deleuze,8 estar à altura do
que nos acontece — eis a ética essencial.
É desta forma que problematizar a questão do presente
nos remete a colocá-lo sob o prisma da crítica e da crise
não com vistas a destruí-lo, mas a explorar-lhe as
virtualidades imanentes, liberar-lhe o tempo como
potência de duração e diferenciação. Introduzir no
balanço do vai-e-vem de Cronos, algo que também não
passa, que se faz daquilo que é desfeito e que faz
proliferar a vida ali mesmo onde a morte é mais violenta
e profunda, pode apontar para a figuração do mundo e
dos sujeitos não mais a partir de fôrmas-modelo pré-
existentes e universais. Rostificar/formalizar do mesmo
modo como se esculpem formas na areia, cujos contornos

242
verve

A revolução do presente

se evadem e movem a cada vibração molecular de grãos


imperceptíveis; utilizar e buscar as linhas liberadas de
formas já significadas, rupturas a-significantes, a-
subjetivas, impessoais, dispostas a todas as núpcias e
conjugações em prol da produção autopoiética dos corpos.
Problematizar a questão do presente invoca, pois, poder
focá-lo na perspectiva de sua própria invenção, uma vez
que não se trata de conferir-lhe inspiração e entusiasmo
a partir de dados pré-existentes, e sim de imprimir-lhe
uma disposição para o progresso a partir daquilo que está
por vir e cuja existência se entrelaça a um agenciamento
coletivo ao qual podemos querer pertencer.
Estar à altura do que nos acontece, como acima
referido, coloca-se vinculado à competência ética que
implica no progressivo conhecimento da virtualidade do
si-mesmo, como nos explica Francisco Varela 9
envolvendo uma espécie de aprendizagem que se nutre
da própria capacidade de desaprender e do amor ao futuro
por vir. Aprender inventivamente não se refere apenas
a querer outra coisa, a ter vontade de revolução; significa
a produção de estratégias concretas de resistência e
bifurcação em relação às formas atualizadas, o que se
revela através de ações corporificadas e imediatas,
cognição encarnada que não decorre de regras abstratas,
uma vez que a ação ética emerge não como
representação de um código de regras morais, mas como
problema que implica em uma disposição para agir de
modo imediato, pertencendo, portanto, ao domínio do
corpo e dos afectos. Da mesma forma, aprender
inventivamente não pressupõe o direcionamento da ação
para a resolução de problemas. Relaciona-se ao índice
de transversalização que o corpo suporta e diz respeito
às relações de um dentro com o Fora, à abertura do corpo
para a diferença, para a perturbação de seu estado
estável em direção ao diferir de si mesmo, desdobrando
suas potências autopoiéticas. Podemos perceber, neste

243
12
2007

ponto, que o que passa a ser significativo na história do


presente não são propriamente os feitos de um passado
remoto ou recente, e sim o seu poder de permanecer
afetando aqueles que assistem e acompanham as
reviravoltas no até então estabelecido poder de fazer,
duração própria dos acontecimentos intempestivos e
inventivos. O que é significativo para o nosso interesse
são as múltiplas formas através das quais o
acontecimento revela sua potência de fabricação de
mundos e homens através da dupla dinâmica, repetição-
diferença, na qual o que retorna é sempre o outro. Assim,
as derivas e ressonâncias produzidas no encontro com
os corpos podem nos indicar cada sujeito, como um
terminal da imensa rede de afecções e contágio na qual
inscreve sua existência. Falamos, aqui, de uma
Revolução Molecular, cuja expressão em geral pode ser
dada através de feições ainda informes, não instituídas
e significadas, ainda inauditas e imperceptíveis.
Falamos de um processo de molecularização, de
despersonalização, de antagonismo à soberania do eu e
de suas referências identitárias, potências do extra-ser
que se encontram cravadas na carne do ser, de cuja
existência apenas podemos acessar sua manifestação
em formas, sendo elas próprias fugidias, aceleradas,
nômades, não se deixando nunca resolver, decifrar ou
expurgar. Forças nômades que compõem máquinas de
guerra, forças de traição e de fazer fracassar aquilo que
o clarão da razão de cada época nos apontou como
verdadeiro, bom, justo e belo.
Em David Lapoujade, temos a oportunidade de
continuar nosso raciocínio quando lemos: “Tudo se passa
como se ele (o corpo) não pudesse mais agir, não pudesse
mais responder ao ato da forma, como se o agente não
tivesse mais controle sobre ele. Os corpos não se
formam mais, mas cedem progressivamente a toda
sorte de deformações.” 10 Também reafirmando a

244
verve

A revolução do presente

dominação contemporânea dos corpos e suas múltiplas


ilusões, Deleuze11 nos propõe a noção de “gorda saúde
dominante” que, ao devorar, expele tudo, e que revigora
a própria forma com um estado de não resistência,
assumindo um quase nada, ou seja, agregando a forma
homogênea e macro em sua existência. O que aqui
se encontra colocado é a posição de crítica à
perspectiva de saúde mental que busca explicar a
subjetivação como efeito da ação de adaptação do corpo
a um mundo dado e pré-existente, do qual o sujeito
deve ser reflexo. Identificações com valores e figuras
pré-moldados, formatados e homogeneizados por
interesses globalizantes e universalizantes, que
engolfam e prendem na massa indiferenciada as
potências da diferença e dos desvios. Gorda saúde
dominante que, em nome da filiação e inclusão social,
busca absorver e neutralizar as potencialidades
autopoiéticas dos corpos, colocando-as no caldeirão de
um presente sem passado, onde pretende forjar
misturas sem memória, sem tempo, sem duração,
instantâneas e imediatamente prontas para o
consumo e para a obsolescência. A velocidade aqui se
reflete na própria desrealização do feito, em sua
consumação e devoramento.
Para os autores acima citados, a problemática da
resistência situar-se-ia exatamente no ponto em que
o corpo, disposto a abrir-se para sair de si, deixa-se
perturbar para produzir-se como multiplicidade, para
habitar fronteiras para além do humano, torna-se
fragilizado pelos sucessivos desfazimentos, desapegado
de certezas e crenças, moribundo e embrionário, o que
pode vir a nos confrontar a uma “surdez que é uma
audição, uma cegueira que é uma vidência, um torpor
que é uma sensibilidade exacerbada, uma apatia que
é puro pathos, uma fragilidade que é indício de uma
vitalidade superior.”12 O que é que o corpo não agüenta

245
12
2007

mais? Ele não agüenta mais tudo o que o coage por fora e
por dentro, não agüenta o adestramento a que está
submetido historicamente e também a culpabilização, a
patologização do sofrimento, a insensibilização e sua própria
negação. Um corpo não cessa de ser submetido aos
encontros; ele diz respeito às afecções com a alteridade
que o atinge, da multidão de estímulos e excitações que
cabe a ele selecionar, evitar, escolher, acolher.
Para mais e melhor, torna-se necessária a atenção às
excitações que o circundam, sendo de sua competência a
capacidade em evitar a violência que o destruiria de vez.
Se consideramos que o corpo não é definível como unidade
psico-física, sendo um ser de consciência e de
inconsciência, conforme palavras de José Gil,13 podemos
pensá-lo como em estado de permanente produção, que é,
por sua vez promovida primeiramente pelo encontro com
outros corpos. Assim, o corpo não nos é dado. Devemos
torná-lo nosso, instituí-lo em nossos códigos de significação
e valores. Neste sentido, um corpo não é nada, é portador
de uma certa impotência da qual, contudo, pode extrair a
potência superior de inventar-se.
Não seria este o sentido que poderíamos dar ao desejo?
Transbordamento, excesso, poderosa vitalidade não
orgânica, que completa a força com a força e enriquece
aquilo de que se apossa. Vida, puro acontecimento,
impessoal, singular, neutro, para além do bem e do mal,
uma espécie de “beatitude”, diz Deleuze. Corpos que falam
de uma forma de vida que é sem forma, sem sede de forma,
sem sede de verdade, sem sede de julgar e ser julgado.

A Multidão e o Devir Zapata

Michel Foucault mencionou, pela primeira vez, o


termo biopolítico, em uma conferência intitulada: “O
Nascimento da Medicina Social”, com as seguintes

246
verve

A revolução do presente

palavras: “O corpo é uma realidade bio-política.”14 Trata-


se de uma menção à medicalização do corpo no
contemporâneo, entendido como objeto do poder, e aliado
com uma estratégia da Medicina, que passa a controlá-
lo e geri-lo. Na verdade, está a pensar o controle sobre a
vida.
A vida, principalmente desde a Revolução Industrial,
passou a ser o lugar comum. Todos se sentem à vontade
para falar em nome da vida, todos a defendem: desde os
discursos médicos, psiquiátricos, políticos e filosóficos
até as práticas dos especialistas que se ocupam da
manipulação genética e dos políticos que empreendem
guerras planetárias. Quando todos invocam a mesma
questão, em direções e domínios diferentes, isso deveria
ser um sinal de alerta de que a vida tornou-se um campo
de batalha, pois, ao mesmo tempo em que uns invocam
a defesa da vida e deploram que a mesma seja
manipulada, outros, com insistência, justificam, em seu
nome, a manipulação cada vez mais invasiva dos corpos.
Delineando-se o campo de batalha no qual a vida é
disputada pelo poder, ela passa a dispor o próprio corpo
como capital vital, uma certa força de valoração que
oportunamente se associa a outras forças, cooperando
e se expandindo. Com isto, urge a necessidade da criação
de dispositivos que potencializem a emergência de
coletivos sociais, da construção de territórios de
propagação da vida, e que esta possa desdobrar-se
ilimitadamente.
A questão do coletivo remete-nos ao conceito de
multidão de Paulo Virno,15 que o propõe em dois sentidos:
o sujeito como multidão e os agenciamentos desses
sujeitos como multitude. Procuraremos, pois, situar,
neste momento, a problematização do conceito de
multidão tomado desde uma dupla perspectiva, a
negativa e a afirmativa.

247
12
2007

Espinosa16 atribui à multidão uma pluralidade que


persiste como tal no espaço público, na ação coletiva,
sem convergir em “um”, sem evaporar-se em um
movimento centrípeto. Como também nos aponta
Virno,17 em relação ao sentido hobbesiano de multidão,
esta seria o contrário de povo, pois este desloca-se do
estado natural que precede a instituição do corpo político
e busca a convergência no “um”, no Estado, na soberania
representativa. Em tal perspectiva, a multidão teria um
sentido negativo, de oposição e polaridade, sendo
contraposta ao povo, à unidade política do Estado. Trata-
se, aqui, de considerar um tempo social em que as
esferas pública e privada se encontravam separadas e
delimitadas, assim como vigia a separação da vida
política e da vida privada. Lugares específicos, por sua
vez, também diferenciavam modos de viver, e os
dispositivos institucionais, desde a Revolução Industrial,
reproduziam um sistema de divisão da experimentação
do tempo e do espaço, tais como a Família, a Escola, a
Fábrica, o Manicômio, a Prisão, o Exército e o Convento.
As distinções entre os modos de ser se faziam conforme
as especificidades dessas organizações.
Já na modernidade líquida do contemporâneo, tempos
de nossa atualidade, observamos a crise dos dispositivos
institucionais específicos, o embricamento das esferas
pública e privada, registrando-se, ainda que o próprio
sentido de comunidade se mostra diluído, assim como
esvaziadas as tradições e certezas que acompanharam
o trajeto de tantas gerações. A produção social, isto é, o
conjunto vigente de formas de vida, a atual constelação
social, antropológica e ética, toma o lugar do que é
chamado comum. A inteligência coletiva abre espaço
para esferas públicas não estatais, tal como a web, por
exemplo. Assim é que, na atualidade, o conceito de
multidão passa por esse coletivo, reapropriando-se de
um regime-saber antes congelado no aparato do Estado

248
verve

A revolução do presente

e das instituições, transformando-o e colocando-o em


permanente movimento.
Em Virno, 18 encontramos, ainda, o conceito de
multidão como subjetividade. Para o autor, a pluralidade,
os muitos, a multidão consiste em uma rede de
indivíduos, sendo que o ponto decisivo é considerar a
singularidade como um ponto de chegada e não um ponto
de partida. Os muitos seriam o resultado complexo de
uma diferenciação progressiva, o resultado de um
processo de individuação. O que precede a individuação
é uma realidade pré-individual, algo comum, universal,
indiferenciado. Este comum, esta realidade, poderia ser
o fundo biológico da espécie, tais como os órgãos
sensoriais, aparatos motor e perceptivo. Este universal,
percepção/sensação, não é descrito mediante a primeira
pessoa do singular, pois não é nunca um “eu” individual
que sente, vê, toca, mas a espécie como tal. Falamos se
vê, se toca, se sente. Outra realidade universal é a
língua, que é de todos e não é de ninguém. No interior
da fala, enraíza-se o processo de individuação, no qual o
sujeito passa da linguagem como experiência pública à
linguagem como singularizante. Por último, teríamos
como pré-individual a relação de produção dominante, o
conjunto das forças produtivas, conforme já observado
que seriam o intelecto geral e os aspectos lingüísticos.
A multidão leva em suas costas toda esta realidade pré-
individual.
Em Virno, encontramos, pois, o próprio Gilbert
Simondon,19 para quem a individuação não é completa
e o pré-individual não se traduz todo em singularidade,
sendo que o sujeito consiste na trama de elementos pré-
individuais e aspectos individuados. Uma teia na qual o
sujeito pode ser um composto “eu”, mas também um
composto “se”.

249
12
2007

Observa-se neste momento de nossa argumentação que


o campo de batalha se torna outro. Não mais a vida como
campo de batalha do poder, como na biopolítica de Foucault.
O próprio sujeito constitui-se como campo de batalha, pois
o “eu”, uma vez individuado, convive com o “se”. Os aspectos
pré-individuais provocam, questionam a individuação
fazendo com que esta se mostre como um resultado
precário, sempre reversível. Por outro lado, é o “eu” que
parece reduzir a si todos os aspectos pré-individuais de
nossa experiência. Delineiam-se, aqui, as noções de corpo
paradoxal,20 organismo e CsO (Corpo Sem Órgãos)21
simultaneamente. E essa relação entre pré-individual e
individuação é mediada pelos afectos. A produção de afectos
intensifica essa relação, a potencializa.
Para Simondon, o coletivo, a experiência coletiva, a vida
do grupo pode constituir-se território de uma nova
individuação, pois é nesta participação coletiva que o
sujeito tem ocasião de individuar e atualizar a quota de
realidade pré-individual que leva sempre em si. O coletivo
acentua e persegue o processo de individuação, sendo o
indivíduo o resultado final do processo.
Para finalizar, partimos de considerações de Cecília
Coimbra sobre modos de resistir e inventar o presente,
contidas no texto Estratégias de Resistência e Criação: Ontem,
Hoje,22 propondo uma breve menção à cena que gostaríamos
de chamar de Devir Zapata.
Quando o comandante Marcos sobe a montanha da
selva, atualizando a utopia zapatista, ele cobre seu rosto.
Carrega, entretanto, sobre seu cavalo e em suas costas, a
potência da multidão. Multidão dos sem-terra, dos sem-
educação, sem-saúde e repletos de gana de ação e vontade
de poder. Ao cobrir seu rosto não somente carrega seu corpo
e faz desaparecer sua face. Permite, ao contrário,
visibilizar um sonho instituinte, movimentado pelo desejo
de cada um ser aquele cavalheiro nômade que, na
exaustão de suas trilhas, faz consistir devires minoritários.

250
verve

A revolução do presente

Esta aura misteriosa de dar passagem ao outro, este


fervor zapatista é um duplo na existência, aquela
singularidade corajosa que insiste na criação de uma ética
nascente, não negando as armas para um dia, quem sabe,
deslizar no rizoma e não finalizar a metamorfose. O
comandante Marcos, e todos os demais, João, Pedro e
Antônio não alimentam o final feliz ou o dia emblemático
do descanso. São corpos que não agüentam mais.
Sua trilha é uma fotografia do tempo de uma cicatriz,
sua materialidade é um rastro de potência que faz com
que olhemos para o mundo e possamos nos surpreender
com a flexibilidade dos limites do não-lugar.

Notas
1
David Le Breton. Adeus ao corpo: antrologia e sociedade. São Paulo, Papirus,
2003.
2
Zygmunt Baumann. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro, Zahar, 2001.
3
Michel Foucault. “O que é o Iluminismo.” in: ESCOBAR, C. H. Michel
Foucault. Dossier Últimas entrevistas. Rio de Janeiro, Taurus Editora, 1984, pp.
103-112.
4
Was ist Aufkärung (O que é o Iluminismo?), de Immanuel Kant, colocado em
análise por Michel Foucault em um contexto de estudo sobre a história da
filosofia. Para Foucault, o texto de Kant não coloca diretamente as questões
da origem e do fim, mas posiciona-se de modo discreto, quase lateral, em
relação á teleologia imanente ao processo histórico.
5
Idem, p. 107.
6
Ibidem, pp. 107-108.
7
Ibidem, p. 109.
8
Peter Pál Pelbart. Vida Capital. Ensaios de biopolítica. São Paulo, Iluminuras, 2003.
9
Francisco Varela. Sobre a competência ética. Lisboa, Edições 70, s/d.
10
D. Lapoujade “O corpo que não agüenta mais.” In: Daniel Lins e S. Gadelha
(Orgs.) Nietzsche e Deleuze: Que pode o corpo. Rio de Janeiro, Relume-Dumará., 2002,
p.82.

251
12
2007

11
Gilles Deleuze. Crítica e Clínica. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo, Ed.
34, 1997.
12
Peter Pál Pelbart. A vertigem por um fio. Políticas da Subjetividade Contemporânea. São
Paulo, Iluminuras, 2000.
13
José Gil. “Abrir o corpo.” in: Tânia Fonseca e Selda Engelman (orgs.) Corpo, Arte
e Clínica. Porto Alegre, Ed. EFRGS, 2004, pp. 13-28.
14
Michel Foucault. Microfísica do Poder. Tradução de Roberto Machado. Rio de
Janeiro, Graal, 1979, p. 82.
Paolo Virno. Virtuosismo y revolución. La accion política en la era del desencanto.
15

Madrid, Ed. Mapas, 2003.


16
Baruch Espinosa. Pensamentos metafísicos, Tratado da Correção do Intelecto, Tratado
Político, Correspondência. Coleção os Pensadores, São Paulo, Abril Cultural, 1983.
17
Paolo Virno, 2003, op. cit.
18
Idem.
19
Gilbert Simondon. L’individu et sa genèse physico-biologique. Paris, PUF, 1964.
20
José Gil. (2002). “O corpo paradoxal.” In: Daniel Lins. e GADELHA. S. Rio de
Janeiro, Relume-Dumará, Fortaleza, Secretaria da Cultura e Desporto, pp. 131-
148.
21
Daniel Lins. Antonin Artaud. O artesão do Corpo sem Órgãos. Rio de Janeiro, Relume-
Dumará, 2000. François Zourabichivili. O Vocabulário de Deleuze. Rio de Janeiro,
Relume-Dumará, 2004. Tradução André Telles. Gilles Deleuze. Francis Bacon. Logique
de la sensation. Paris, Seui, 2002, p. 33. Para Deleuze, o corpo-sem-órgãos (CsO)
corresponde a: “ Para além do organismo, mas também como limite do corpo
vivido, há o que Artaud descobriu e nomeou: corpo-sem-órgãos. ‘O corpo é o
corpo Ele é único. E não precisa de órgãos. O corpo nunca é um organismo’. Os
organismos são os inimigos do corpo. O corpo-sem-órgãos opõe-se menos aos
órgãos do que a essa organização de órgãos chamada organismo. É um corpo
intenso, intensivo. É percorrido por uma onda que traça no corpo níveis ou
limiares segundo as variações de sua amplitude. O corpo não tem portanto órgãos,
mas limiares e níveis”
Cecilia Coimbra. Estratégias de resistência e Criação: Ontem e Hoje. Trabalho apresentado
22

no XII Encontro Nacional da Abrapso/Porto Alegre em outubro de 2003.

252
verve

A revolução do presente

RESUMO

Em nosso texto, dirigimo-nos àqueles que seguem seu combate


não mais na direção dos empreendimentos revolucionários em si
ou a história já feita e vivida, mas para uma cartografia dos traços
de entusiasmo pelo porvir que sustenta a construção de devires
desenhados nas práticas cotidianas e infames dos sujeitos. Trata-
se de orientar o olhar para o plano da vontade de revolução contra
o que nos torna fracos.

Palavras-chave: atualidade, história, revolução.

ABSTRACT

It attracts our attention not to the revolutionary works or the ex-


perienced history, but to a cartography of signs of enthusiasm for
the virtulality that supports the construction of possibilities dra-
wn into the daily and infamous praxis of the subjects. It is about
directing the view to the desire for revolution against what we-
akens us.
Keywords: actuality, history, revolution.

Recebido para publicação em 17 de outubro de 2007. Confirmado


em 12 de fevereiro de 2007.

253
12
2007

mídia, singularidade e juventude

tony hara*

O que eu gostaria de colocar em cena aqui1 é a


questão da formação, do processo de singularização de
jovens e de crianças. É bastante impreciso e vago falar
em formação, mas entenda-se, nesse primeiro
momento, como o avesso da educação voltada para a
transformação do homem no “melhor animal doméstico
do homem”, para usar aqui uma imagem lapidada por
Nietzsche. O avesso dessa transformação de crianças e
de jovens em animais úteis e dóceis, produtivos e
obedientes, mas suficientemente invejosos para que
possam competir pelo poder. Numa outra imagem
elaborada por Nietzsche ele diz que cegam-se os pássaros
para que eles cantem melhor. E, de certa maneira, hoje,
cegamos os nossos pássaros no ninho para que a vida
em cativeiro não se torne, algum dia, um problema.
Em outros termos, o que eu gostaria de entender um
pouco melhor é aquilo que o filósofo Gilles Deleuze
chama de “devir revolucionário das pessoas.” Como isso

*É jornalista e Doutor em História da Cultura pela Unicamp.

verve, 12: 254-267, 2007

254
verve

Mídia, singularidade e juventude

funciona? Esse tornar-se singular pode ser estimulado?


Ou, para ser mais exato, o rádio, um veículo de
comunicação de massa pode ser usado para gerar esse
pequeno acontecimento? Como uma voz estranha,
assim como o cinema é uma imagem estranha, pode
interferir nesse processo que Nietzsche chamaria de
“tornar-se o que se é”?
De início eu explico o porquê desses problemas ou
dessas colocações. A razão é simples: assumi a
responsabilidade de pensar e praticar uma Rádio
Educativa. E o objetivo desse experimento é afetar,
através das ondas do rádio, os jovens e as crianças que
estão indóceis no cativeiro. Sem cair, evidentemente,
naquelas seduções baratas, naquelas fórmulas já
conhecidas e consagradas de programas didáticos e
pedagógicos, politicamente corretos para crianças e
jovens. Podemos estar cegos diante da saturação de
imagens, mas espero que nossos ouvidos estejam
atentos.
Na Rádio Universidade Fm, emissora educativa ligada
à Universidade Estadual de Londrina, um grupo de
pessoas se reuniu a fim de criar meios e instrumentos
para problematizar a infância e a juventude. Ou melhor,
criar meios e instrumentos para que as crianças e os
jovens problematizem os direitos, as teorias e as
experiências da infância e da juventude. Daí a razão de
minhas perguntas iniciais. Gostaríamos, em resumo,
de jogar no ar, de fazer ecoar a voz dos jovens e das
crianças que problematizam lúdica, poética ou
aguerridamente o processo de domesticação ao qual
estão submetidos, seja na escola, nos educandários, nas
clínicas psiquiátricas, nas ruas ou no interior da família.
E para caminhar nessa direção imediatamente um
obstáculo se impõe. O terreno em que estamos é o da
comunicação. E são bastante conhecidas as críticas aos

255
12
2007

meios de comunicação de massa. Dessas reflexões eu


gostaria de destacar as considerações que dizem respeito
ao processo de constituição da subjetividade. Pois o devir
revolucionário das pessoas passa, creio, por esse campo
que é justamente o órgão de ataque da mídia. É certo
que as máquinas tecnológicas de informação e
comunicação agem na formação da subjetividade
humana. Como dizia Félix Guattari, a mídia opera não
só na memória, na inteligência do homem, mas também
“na sua sensibilidade, nos seus afetos, nos seus
fantasmas inconscientes.”2
Os meios de comunicação fazem parte, portanto, das
estratégias, das formas de assujeitamento, de
submissão da subjetividade. Michel Foucault, como se
sabe, destaca em sua análise das relações de poder, três
tipos de luta: contra as formas de dominação, seja étnica,
social ou religiosa; as lutas contra as formas de
exploração que separam os indivíduos daquilo que eles
produzem; e as lutas contra a sujeição, contra as formas
de subjetivação e submissão. E, para Foucault, essas
lutas contra as formas de assujeitamento assumem o
primeiro plano nos combates culturais contemporâneos,
apesar da continuidade, da permanência das lutas contra
as formas de dominação e da exploração.
Não conheço ainda profundamente, mas certamente
existem pesquisas no Brasil que problematizam a
relação entre mídia e controle da subjetividade. Nessa
investigação a linha aberta por Gilles Deleuze é
inquietante, provocativa e chega a desconcertar pela
precisão da sacada. Em uma palestra para estudantes
de cinema ministrada no ano de 1987, Deleuze afirma:
“Num primeiro sentido, a comunicação é a transmissão
e a propagação de uma informação. Ora, o que é uma
informação? Não é nada complicado: uma informação é
um conjunto de palavras de ordem. (...) Informar é fazer

256
verve

Mídia, singularidade e juventude

circular uma palavra de ordem. As declarações da polícia


são chamadas, a justo título de, comunicados. Elas nos
comunicam informações, nos dizem aquilo que julgam
que somos capazes ou devemos ou temos a obrigação de
crer. Ou nem mesmo crer, mas fazer como se
acreditássemos. Não nos pedem para crer, mas para nos
comportar como se crêssemos. Isso é informação, isso é
comunicação; à parte essas palavras de ordem e sua
transmissão, não existe comunicação. O que equivale
a dizer que a informação é exatamente o sistema do
controle.”3
Os meios de comunicação de massa, principalmente
as redes de televisão, são máquinas de produção e de
circulação de palavras de ordem. E diante da tela
devemos fingir que acreditamos que as eleições são uma
festa democrática; que o mundo é de quem faz mais
rápido; que o sorriso de uma criança não tem preço... E,
por aí vai. Mas, nem tudo nessa rede são alegrias
manipuladas nos laboratórios de criação à serviço do
marketing universal, que, segundo as palavras de
Deleuze, “forma a raça impudente de nossos senhores.”4
Nessa rede de controle social a contra-informação
desempenha também um papel fundamental.
No casting desse grande espetáculo para as massas
são imprescindíveis tanto a voz estridente e indignada
de um representante dos excluídos, quanto a voz serena
e professoral de um espírito sóbrio e desgostoso com os
descaminhos da razão. Uma voz desarvorada diante da
ruína dos valores e dos nobres ideais humanistas. De
uma certa maneira, a má consciência segura a
audiência e dá pontos no Ibope. E isso é muito
interessante: a rede de controle social cria um território
no qual os diversos movimentos minoritários podem
encenar seus dramas e reivindicar os seus direitos. E
este território monitorado é visitado pelos intelectuais,

257
12
2007

pelos especialistas que evocam os reluzentes valores e


ideais humanistas que, apesar de serem impotentes e
meramente retóricos, justificam a pregação pelas
reformas. E há esperança de reformas para todos os tipos
e gostos. Reforma da alma como pregam os pastores
eletrônicos, reforma universitária, do núcleo familiar,
do poder judiciário, do sistema de representação política,
das polícias, do sistema de saúde...
De uma forma bastante esquemática, talvez seja
possível apresentar a configuração da máquina de
controle ou de comunicação social a partir dessas duas
linhas que se tocam e se afetam permanentemente.
De um lado a seleção e a transmissão de palavras de
ordem devidamente embaladas pelas alegrias do
marketing. E de outro a abertura de pequenas janelas,
devidamente emolduradas, para a representação do
teatro das denúncias, para a expressão do ponto de vista
da vítima, do excluído ou do explorado. Esta encenação
passa pelo filtro, pelas lentes dos especialistas, pelos
agentes da ordem qualificados que exigirão reformas nos
diversos sistemas, a fim de incluir, fazer justiça ou
reparar os males. Não raras vezes esses discursos são
editados, manipulados nos “estúdios realidade”, como
diria Willian Burroughs, e jogados de volta ao sistema
de comunicação, seja como informação, palavra de
ordem ou como espetáculo mesmo.
Não sei se é possível sair desse circuito. Mas é certo
que qualquer tentativa de não operar nessa lógica passa
por um esforço danado de recusa e de esquecimento. Há
que se recusar essas alegrias do marketing. Os grandes
ou pequenos espetáculos em que as crianças, por
exemplo, são obrigadas a representar o papel de
figurantes indigentes e ignorantes. Do Criança Esperança
aos Amigos da Escola, passando pelos showzinhos,
jantares promovidos por ongs, entidades filantrópicas;

258
verve

Mídia, singularidade e juventude

campanhas do agasalho, contra a fome, de educação no


trânsito, de prevenção contra cárie, drogas, obesidade e
tantas outras ameaças. Por maiores que sejam as
necessidades, as carências, as contorções espetaculares
da miséria, há que se desviar o olhar. Há, como diz
Nietzsche, a necessidade de um mínimo de pudor.
Quando as estratégias de marketing exploram as diversas
misérias da infância e da juventude, devidamente
amparados pelo discurso e dados estatísticos dos
especialistas, elas ativam um instinto delicado e perigoso:
a piedade.
A piedade é uma peça fundamental para a
transformação do homem no melhor animal doméstico
do homem. A piedade ou a compaixão, dizendo de um modo
bastante rude, glorifica os miseráveis de espírito, aqueles
que se acomodaram no papel de impotentes e que se
vingam pela palavra: “você é culpado por minha miséria”.
Nos termos provocativos de Nietzsche, a piedade é a
virtude, por excelência, da moral escrava. As alegrias do
marketing adoram os espíritos mendicantes e pequenos
que encarnam com maestria o papel de vítima. O
espetáculo comovente oferecido por esses espíritos
mansos é sempre recompensado com alguns trocados
doados por almas pias ou por empresas socialmente
responsáveis que aproveitam a cena para trabalhar a sua
imagem. Em resumo, há que se recusar esse jogo que
incentiva aquele que sofre a desempenhar o papel de
mendigo, de impotente. Há algo de indecoroso no gesto
piedoso que recompensa justamente o mais inválido dos
inválidos. Ou seja, aquele que não representa perigo
algum de mudança ou de desestabilização da ordem, que
deseja apenas uma vida inválida, uma existência
miserável mais confortável e cômoda.
Por outro lado, há que se esquecer os papéis, as
marcações cênicas delimitadas pela máquina de

259
12
2007

controle social. É preciso esquivar-se do raio de ação do


porta-voz indignado que denuncia as injustiças que
varrem a face da terra. Deixar de lado os indivíduos que
falam em nome de outros, supostamente mais fracos e
incapazes. O texto do sujeito indignado pode suscitar
pequenas catarses, instantâneos de bem-estar que
ocorrem quando alguém diz aquilo que queremos ouvir.
Mas, na realidade, este texto acaba por reforçar o clamor
e o coro dos piedosos. E como alerta a sensibilidade aguda
de Nietzsche: “O homem indignado, ou quem está
sempre dilacerando e rasgando a si mesmo (ou, em seu
lugar, o mundo, Deus, a sociedade) com os próprios
dentes, pode ser moralmente superior ao sátiro
sorridente e satisfeito, mas em qualquer outro sentido
ele é o caso mais comum, mais irrelevante, menos
instrutivo. E ninguém mente tanto como o indignado.”5
E o mesmo pode ser dito em relação ao personagem
que representa o papel do sóbrio reformista. A mentira
desinteressada ou a ilusão nascida de nobres
sentimentos humanistas também têm espaço
assegurado na rede de entretenimento. No que se refere
às crianças e aos jovens, esse papel é geralmente
representado por intelectuais especializados na área da
educação. Eles ocupam o espaço midiático concedido a
fim de renovar a crença na redenção do homem através
da educação. Mas vale lembrar daquela passagem
inesquecível do Raízes do Brasil, que faço questão de
citar: “Não têm em conta entre nós os pedagogos da
prosperidade que, apegando-se a certas soluções onde,
na melhor hipótese, se abrigam verdades parciais,
transformam-nas em requisito obrigatório e único de
todo progresso. É bem característico, para citar um
exemplo, o que ocorre com a miragem da alfabetização
do povo. Quanta inútil retórica se tem desperdiçado para
provar que todos os males ficariam resolvidos de um
momento para outro se estivessem amplamente

260
verve

Mídia, singularidade e juventude

difundidas as escolas primárias e o conhecimento do


ABC.” E logo em seguida Sérgio Buarque de Holanda
complementa: “a simples alfabetização em massa não
constitui talvez um benefício sem-par. Desacompanhada
de outros elementos fundamentais da educação, que a
completem, é comparável, em certos casos, a uma arma
de fogo posta nas mãos de um cego.”6
É possível substituir, sem dano, a idéia de Sérgio
Buarque, a miragem da alfabetização do povo, pela
miragem da inclusão digital, miragem da universalização
do ensino superior, miragem do sistema de cotas,
miragem das novas disciplinas obrigatórias na grade
curricular, e por aí afora. Essas miragens se multiplicam
no mesmo ritmo em que proliferam as instituições que
falam em nome das crianças e dos jovens. Há uma
inflação de ongs, oscips, associações filantrópicas,
comunitárias, igrejas, programas estatais, conselhos
municipais, estaduais, projetos de extensão
universitária... O que há de comum entre essas diversas
instituições é a defesa dos direitos das crianças e
adolescentes, garantido no Estatuto, e a crença na
Educação como redenção não só das crianças, como
também do próprio viver em sociedade.
Parece existir nos tempos de hoje uma aliança entre
aquela pedagogia da prosperidade descrita por Sérgio
Buarque e um ideal de segurança e controle
característico de nossa época. O surrado slogan “mais
escolas e menos prisões” é um emblema desse
movimento que só reafirma o lugar social da escola como
espaço de seqüestro e imobilização de crianças e jovens.
A escola é o território no qual deve ser extirpado do corpo
da criança todo o comportamento ou pensamento que
ameace e problematize a vida em sociedade. E essa
operação é feita, sobretudo, através da recompensa e do
reconhecimento dos corpos adestrados para a produção

261
12
2007

e o consumo das mercadorias simbólicas ou não, em


circulação na sociedade.
Vou resumir o que foi dito e voltar à questão colocada
no início do texto e que me inquieta nesse momento:
como o rádio pode atuar no processo de formação de
indivíduos singulares? O que foi dito até agora é muito
perceptível em nosso cotidiano. Os meios de
comunicação de massa assumiram, a partir da segunda
metade do século passado, um lugar estratégico na
construção da subjetividade humana. O poder de ação
sobre cada indivíduo em particular e sobre toda uma
população reorganiza as estratégias de controle social.
Daí a intuição de Deleuze: o sistema de comunicação e
o sistema de controle se equivalem. Os milhares de
gerentes que operam esses sistemas formam a nova
raça de nossos senhores.
Em geral essa nova raça de senhores é democrata. Por
isso defendem, no plano da cultura, o multiculturalismo.
Querem que todos, absolutamente todos, tenham o seu
espaço, que todos sejam incluídos no sistema, porém cada
qual com o seu tipo de acesso. Dessa maneira se organiza
o carnaval, a grande mascarada contemporânea. As alas
passam sucessivamente. Miseráveis de espírito de
diferentes cores, ocupações, crenças, status social ou
econômico, formações e origens lutam pelos 15 minutos
de fama. E, quando são porta-vozes de algum movimento
coletivo, reivindicam um melhor posicionamento no
ranking que determina a distribuição de privilégios.
Como afirma o filósofo Peter Sloterdijk, um dos
paradoxos de nossa época é o chamado “privilégio para
todos”. E como não se renuncia a esse princípio
paradoxal, os nossos senhores chamam pelos
intelectuais reformistas que, ao menos de forma
retórica, desarmam o paradoxo e garantem, no papel ou
da boca pra fora, o sonhado privilégio para todos. E uma

262
verve

Mídia, singularidade e juventude

das reformas mais exploradas é a reforma do sistema


de Educação, pois a miragem que está na moda é a da
universalização do ensino superior que garantiria, por
si só, o acesso igualitário aos privilégios.
E o que “aqueles que velam por nosso bem”, como diz
Deleuze, ganham com isso? Primeiro, todas as máscaras
e estilos de vida que participam do grande carnaval estão
à venda. Segundo, é a mídia quem subjetiva a massa.
Ela conquistou o interessante papel de falar por nós,
pensar por nós, interpretar o mundo por nós. Terceiro,
dissemina a piedade, ou seja, glorifica aqueles que agem
de acordo com a vontade de nada, aqueles que se sentem
satisfeitos com o deixar-se ir com a maioria.
Após esse resumo do percurso feito até agora gostaria
de retomar a caminhada na companhia de Diógenes, o
filósofo cínico do século 4 antes de nossa era. Lembro
aqui daquela famosa história na qual ele, em plena luz
do dia, chega na praça da cidade com uma lanterna
acesa na mão. Diógenes teria gritado: “ — Procuro um
homem! Procuro um homem!” Vários sujeitos se
aproximaram e foram prontamente afastados pelo cajado
nervoso do filósofo. “— Eu disse homens, não vermes!”.
Ao longo da história outros homens repetiram o gesto do
filósofo cínico. O poeta Charles Baudelaire, por exemplo,
chegou a escrever no século 19: “A todo homem que
pensa e sente eu peço para me mostrar o que subsiste
da Vida!”7
O que subsiste da Vida nessa era do controle e da
domesticação tão precoce e eficiente? As possíveis
respostas a essa pergunta tão difícil é o que eu gostaria
de ouvir numa Rádio que se auto-denomina Educativa.
Daí a necessidade de criar meios e instrumentos para
atuar com os indivíduos que vivem esse problema e se
perguntam, dia após dia, o que subsiste da Vida. Em
outras palavras, o que se deseja é o exercício de uma prática

263
12
2007

radiofônica que invente narrativas outras, que coloquem


em xeque as nossas práticas de controle mais rotineiras.
É tentar narrar, descrever a sociedade em que vivemos do
ponto de vista de quem procura se desembaraçar dela.
Sei que não é correto fazer uma aproximação abrupta,
sem maiores mediações; mas penso, ou melhor, imagino,
o rádio como uma heterotopia. Não que o seja de fato, o
rádio tal como ouvimos hoje é também mais uma voz do
controle. Mas assim como o teatro e o cinema, o rádio
também tem o poder de “justapor — como diz Foucault —
em um só lugar real vários espaços, vários
posicionamentos que são em si próprios incompatíveis.”8
E também pode desempenhar um papel de “criar um espaço
de ilusão que denuncia como mais ilusório ainda qualquer
espaço real e todos os posicionamentos no interior dos quais
a vida humana é compartimentalizada”9 — como descreve
Michel Foucault.
É assim que eu imagino o rádio. Justapondo no mesmo
espaço sonoro o playground do condomínio fechado, o
solarium do educandário e a sala de aula. E atravessar
os muros em busca de jovens e crianças que criam nesses
restritos compartimentos um mundo para si mesmos.
Tudo isso é muito difícil, já que o processo de destruição
da experiência e da singularidade se capilarizou de uma
tal forma que realmente fica a dúvida se algo ainda
subsiste da Vida. Como rememora Kafka em um Esboço
autobiográfico: “Todo homem é singular e, em virtude
mesmo dessa singularidade, chamado a agir — desde que
tome gosto pela sua maneira de ser. Na escola, como em
casa, ao que me foi dado experimentar, só se laborava no
sentido de anular essa singularidade: era tornar a
educação mais fácil e também mais fácil a vida da
criança.”10
A fim de facilitar o processo de domesticação do homem,
anulamos exatamente aquilo que é singular em cada um
de nós. Ao invés de estimular permanentemente, criar

264
verve

Mídia, singularidade e juventude

as condições favoráveis para partejar o que há de singular


em cada um de nós, optamos pela uniformidade, pela
indiferenciação, pelo conforto de ser igual, o que torna
tudo mais fácil para o processo de educação dos sentidos,
e talvez torne, de fato, a própria existência do homem
menos dolorosa. Só que isso tem um preço que todos
conhecemos: a esterilização do futuro, a desertificação
do futuro.
Como dizia Nietzsche em Além do Bem e do Mal: “A
loucura é algo raro em indivíduos, mas em grupos,
partidos, povos é a norma.”11 E eu sinceramente gostaria
de ouvir mais esses raros indivíduos, suficientemente
lúcidos para reconhecer a loucura da massa, a sua
vontade de nada, o seu niilismo radical e vingativo. Abrir
uma brecha por onde passem fluxos insinuantes capazes
de gerar ínfimos acontecimentos. Contestações
inesperadas, não programadas pelo poder.
E, para finalizar, volto a uma questão formulada por
Deleuze. Ele pergunta: “Como chegar a falar sem dar
ordens, sem pretender representar algo ou alguém, como
conseguir fazer falar aqueles que não têm esse direito, e
devolver aos sons seu valor de luta contra o poder?”12 Este
desafio ético provoca um incômodo tremendo, pois solicita
a vertiginosa abertura para o outro. Mais do que a
articulação da palavra redentora, essa postura exige um
ouvido delicado, sensível para flagrar — em meio aos
pregões e ao tumulto do mercado —, o grito do recém-
nascido. O som bárbaro que não anuncia um amanhã
glorioso para toda a humanidade, mas expressa uma
vontade de superação, um desejo de lutar contra o
processo de uniformização que anula o que há de singular
em cada um de nós, a fim de tornar a nossa vida em
cativeiro mais fácil, amena, mais próxima daquela
existência que repousa nas câmaras mortuárias.

265
12
2007

Notas
1
Estas reflexões e princípios de ação foram esboçados em outubro de 2006,
quando foi realizado o encontro Cinema, Jovens e Transgressão organizado pelo
Nu-Sol.
2
Félix Guattari. apud. Peter Pál Pelbart. A vertigem por um fio: políticas da
subjetividade contemporânea. São Paulo, Iluminuras, 2000, p.12.
3
Gilles Deleuze. O Ato de Criação. Tradução de José Marcos Macedo. Caderno
Mais!, Folha de S. Paulo, 27 de junho de 1999, p. 5.
4
Gilles Deleuze. Conversações. Tradução de José Marcos Macedo. Rio de Janeiro,
Ed. 34, 1992, p. 224.
5
Friedrich Nietzsche. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São
Paulo, Companhia das Letras, 1992, p.34. Tradução de Paulo César de Souza.
6
Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. São Paulo, Companhia das
Letras, p.165.
7
Charles Baudelaire. Meu coração desnudado. Tradução de Aurélio Buarque de
Holanda. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981, p.45.
8
Michel Foucault. “Outros Espaços” in Estética: Literatura e Pintura, Música e
Cinema (Ditos & Escritos v.III). Manuel Barros da Motta (org.). Tradução de
Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2001, p.411.
9
Idem. p. 412.
Franz Kafka. Parábolas e fragmentos. Tradução de Geir Campos. Rio de Janeiro,
10

Ediouro, 1987, p. 52.


11
Friedrich Nietzsche. 1992, op. cit., p. 8.
12
Gilles Deleuze. 1992, op. cit., p. 53.

266
verve

Mídia, singularidade e juventude

RESUMO

Este texto é uma tentativa de imaginar outras possibilidades de


fazer rádio. Uma escuta cuidadosa para o que se apresenta como
singular e indócil.

Palavras-chave: juventude, subjetividade, cultura de massa.

ABSTRACT

This text is an attempt to imagine others possibilities to make radio.


A hear with intention for what presents itself as singular and
unmanageable.

Keywords: youth, subjectivity, mass culture.

Recebido para publicação em 5 de março de 2007. Confirmado em


4 de junho de 2007.

267
12
2007

uma libertária: nota sobre uma aula do


curso “do governo dos vivos” de michel
foucault

edson passetti

Em Nascimento da biopolítica, de 1978-1979, curso


anterior a Do governo dos vivos, Michel Foucault
surpreendia ao mostrar a genealogia do neoliberalismo
europeu e estadunidense pelas escolas de Frieburg e
Chicago. Situava como o Estado de direito e as punições
habitam a construção do trabalhador como capital humano;
problematizava o retorno liberal para conter o Estado, o
nazismo e o comunismo, reiterando sua pretensão de
governar a vida.
Na pesquisa de Foucault, a noção de governo dos vivos,
chega para ultrapassar a relação saber-poder, para romper
a relação com o fora e reconhecer a força do governo em
cada um, em alguns, muitos e quase todos. Não se trata
apenas de soberania, disciplina e biopolítica mas, também,
de controles que atravessam subjetividades e
redirecionam as resistências não mais para o confronto,
mas para a inclusão.
Foucault sabia do poder de governo dos que não o
suportavam e que, por não poder matá-lo, pretendiam isolá-
lo. Esta conduta permanece sem retoques na amedrontada
academia e entre resistentes embolorados que o vêem
verve, 12: 268-298, 2007

268
verve

Do governo dos vivos

como nocivo às utopias igualitárias. Foucault era um


audaz guerreiro contra o transcendente, onde este se
instalasse. Por ser insuportável, tentaram pacificá-lo na
sociologia da anomia ou torná-lo palatável no gueto gay.
Arruinando conservadores embandeirados, arriscou e
mergulhou no cuidado de si pela história do presente, e
na atualidade, expandiu a relação aristocrática: uma
arte dionisíaca ultrapassou o objeto para fazer-se em
gente como estética da existência.
Foucault não se acanhou em romper consigo e com
as implicações do saber-poder em favor da relação
governo-verdade.1 Preparou nova reviravolta para a ética
e aproximou-se da anarqueologia. O anarquismo, que
muitas vezes divagara e escapara com as palavras-
lâmina, picando o estado civil, e ao mesmo tempo
mostrando o fim da relação público-privado, aparece agora
como referência. Como falar do governo dos vivos, de
neoliberalismo, de ética sem passar pelos anarquistas?
Os liberais se calaram como monjas, os marxistas como
Antonio Negri não abrem mão de suas oxigenadoras
reflexões e no libertarismo o Nu-Sol é insistente. Nildo
Avelino ouviu o curso no Collège de France; transcreveu
a aula inaugural e um brevíssimo trecho da seguinte.
Neste curso aparece o adjetivo alêthourgês, agir
francamente, que no derradeiro seminário em Berkley
vira o substantivo parrhèsiastes, aquele que não teme
pronunciar a verdade diante de um declarado superior.
Não dá pra isolar Foucault, nem os anarquistas.

269
12
2007

do governo dos vivos2

michel foucault

1ª Aula, 9 de janeiro de 1980.

A propósito do Imperador Romano Sétimo Severo, que


reinou provavelmente entre 193 e 211, o historiador
Dion Cassius3 conta a seguinte história: Sétimo Seve-
ro construiu um palácio com uma grande sala, na qual
ocorriam as audiências, as sentenças, e se distribuía a
justiça. Na cúpula dessa sala do palácio, Sétimo Severo
mandou pintar uma representação do céu estrelado. Não
importa qual céu, não importa qual estrela, não importa
qual a posição dos astros que ele mandou representar.
Ele mandou representar, exatamente, seu céu de nas-
cimento, a conjunção das estrelas que tinha presidido
esse nascimento e, também, o seu destino. Com isso,
Sétimo Severo tinha um certo número de intenções
muito claras e explícitas, e que são fáceis de reconsti-
tuir. Tratava-se, para ele, inscrever as sentenças par-
ticulares e conjunturais que proferia no interior do sis-
tema do mundo e de mostrar como o logos que presidia
essa ordem e que tinha presidido o seu nascimento
esse mesmo logos era ele quem organizava, fundava e
justificava as sentenças que proferia. O que ele dizia

270
verve

Do governo dos vivos

numa circunstância particular do mundo, em um qua-


dro particular, como diriam os historiadores, era preci-
samente a ordem mesma das coisas tal como tinham
sido fixadas lá de cima, definitivamente. Tratava-se de
mostrar como seu reino tinha sido fundado sob os as-
tros e que ele, o soldado de Leptis Magna, que havia se
apossado do poder pela força e violência, não o fizera por
erro, por acaso, ou por um complô qualquer dos homens
que se apossou do poder, mas que foi a necessidade do
mundo que o chamou para o lugar que ocupava. E o que
o direito não pôde fundar — seu reino, seu ato de toma-
da do poder — os astros lhe tinham, de uma vez por to-
das, justificado. Terceira coisa: tratava-se de mostrar,
com antecedência, qual tinha sido a fortuna do impera-
dor e o quanto ela era inevitável, inacessível; mostrar
até que ponto era impossível a qualquer conspirador, rival
ou inimigo, se apossar de seu trono, uma vez que os
astros mostravam que este estava destinado a ele e que
nada podiam. Sua fortuna foi boa e segura, o passado a
confirmou, e as coisas foram definitivamente seladas.
Portanto, atos incertos e particulares, um passado feito
de acaso e de sorte, um futuro que ninguém, segura-
mente, podia conhecer, mas do qual alguém poderia
servir-se para ameaçar o imperador, tudo foi convertido
em necessidade que deveria ser lida como uma verdade
na cúpula da sala onde ele proferia suas sentenças. Isso
que se manifestou aqui, na Terra, como poder, poderia
e deveria ser decifrado como verdade na noite dos sécu-
los.4
Severo era um homem prudente; representou seu
céu astral na cúpula dessa sala onde proferia as
sentenças, mas deixou um pequeno pedaço de céu,
cuidadosamente oculto e representado num outro
cômodo, o seu próprio quarto, ao qual ele e apenas alguns
de seus familiares, tinham acesso. E esse pequeno
pedaço de céu astral, que ninguém tinha o direito de

271
12
2007

ver e que só ele conhecia, era o que se chama em sentido


estrito o horóscopo que permite ver as horas e que é o
céu da morte: o que fixava o fim do destino do imperador
e o fim da sua fortuna.
O céu estrelado de Sétimo Severo é, evidentemente,
a inversão da história de Édipo porque, Édipo é quem
tinha seu destino representado não no céu estrelado,
numa cúpula sobre sua cabeça, mas ele o tinha fixado
aos seus pés, preso a seus passos, preso a esse solo e a
esse caminho que ia de Tebas a Corinto e de Corinto a
Tebas. Era nos seus pés, sob os seus pés que ele tinha
seu destino, um destino que ninguém conhecia, nem
ele, nem nenhum de seus súditos; um destino que o
conduziu, seguramente, ao seu declínio. Não
esqueçamos que no início da peça de Sófocles, vê-se
Édipo, chamado pela população sob a qual recaía a peste,
proferir uma sentença, em que ele, também, diz o que é
preciso fazer: o responsável pela peste em Tebas deve
ser caçado. Ele também, proferiu uma sentença que se
inscreveu na fatalidade de um destino que será
retomado e dará sentido à sentença de Édipo, e que será
a armadilha na qual ele cairá. Sétimo Severo, proferia
sua justiça e suas sentenças de maneira a inscrevê-
las em uma ordem do mundo absolutamente visível,
fundada em direito, em necessidade, em verdade; o
infeliz Édipo, proferiu uma sentença fatal que se
inscreveu em um destino envolvido em ignorância e se
constituiu em sua própria armadilha. Pode-se encontrar
uma outra sofisticada analogia entre a falta de um
fragmento do céu na cúpula da sala de audiência de
Sétimo Severo e o fragmento do mistério de Édipo e de
seu destino que, entretanto, não era desconhecido: havia
um pastor que tinha visto o que se passou no momento
do nascimento de Édipo e que viu como Laio foi morto. É
esse pastor de campos longínquos que será procurado,
dará seu testemunho e dirá: Édipo é o culpado. Nos

272
verve

Do governo dos vivos

distantes campos de Tebas existia pelo menos uma


pessoa que sabia de um pequeno pedaço conhecido e
visível do destino de Édipo; havia o equivalente do quarto
do imperador: a cabana do pastor. Nesta o destino de
Édipo se cumpriu ou, em todo caso, se manifestou. O
imperador ocultava o céu de sua morte, o pastor conhecia
o segredo do nascimento de Édipo. Vocês vêem que, o
anti-Édipo seguramente existe, Dion Cassius já o tinha
encontrado.
Vocês dirão que tudo isso é um jogo um pouco cultural
e sofisticado e que se Sétimo Severo mandou representar
acima de sua cabeça o céu estrelado que presidia sua
justiça, seu destino, sua fortuna; se ele queria que os
homens lessem como verdade o que fazia como política,
o que ele fazia em termos de poder, isso não passava do
jogo de um imperador tomado pela vertigem de sua
própria fortuna; era esperado que esse soldado africano
que ascendeu ao império, procurasse fundar em um céu
de necessidades mágico-religiosas, uma soberania que
o direito, este também mágico e religioso de outra
maneira, não pudesse reconhecer. E desse homem
fascinado pelos cultos orientais era esperado que ele
substituísse pela ordem mágica dos astros, a ordem
racional do mundo essa ordem racional do mundo que
seu penúltimo predecessor, Marco Aurélio, pretendeu
colocar em funcionamento em um governo estóico do
Império. Assim como nas cortes mágicas, orientais e
religiosas, o que os grandes imperadores estóicos do
segundo século quiseram fazer foi não governar o império
a não ser no interior de uma ordem manifesta do mundo
e fazê-lo de modo que o governo do império fosse a
manifestação de verdade da ordem do mundo.
Se é verídico que a conjuntura, por sua vez política e
individual, de Sétimo Severo, como também a atmosfera
na qual estava refletida a noção de governo imperial no

273
12
2007

curso do século II, enfim, se tudo isso justificou o cuidado


com que Sétimo Severo inscreveu o exercício do seu
poder nessa manifestação de verdade e justificou,
também, essa ordem do poder como ordem do mundo;
se, portanto, toda essa atmosfera, esse contexto, essa
conjuntura particular se justificou, não obstante, seria
muito difícil encontrar um exemplo de poder que não se
exercesse sem estar acompanhado, de um modo ou de
outro, de uma manifestação de verdade. Então, vocês
me dirão que, de um lado, isso é bem sabido e que não
seria preciso dizer, retomar, repetir e que começa a ser
um pouco monótono. Como governar os homens sem
saber, sem conhecer, sem se informar, sem ter um
conhecimento da ordem das coisas e da conduta dos
indivíduos? Numa palavra, como governar sem conhecer
o que se governa, sem conhecer os que se governa e
sem conhecer o meio de governar esses homens e essas
coisas? Porém, e é por isso que eu me detive um pouco
nesse exemplo de Sétimo Severo, penso que não é
simplesmente a necessidade, quase eu diria econômica,
de conhecer os que se governa e como governar, não é
apenas essa necessidade utilitária que permite tomar
a medida desse fenômeno que tentei indicar, a saber, a
relação entre o exercício do poder e a manifestação da
verdade. Parece-me que esse verdadeiro, cuja
manifestação acompanha o exercício do poder,
ultrapassa amplamente os conhecimentos que são úteis
para o governo; afinal, todas essas estrelas que Sétimo
Severo mandou representar acima da sua cabeça e da
cabeça daqueles a quem proferia a justiça, qual era a
necessidade imediata, racional, o que poderiam ter? Não
esqueçamos que o reino de Sétimo Severo foi também o
reino e a época de um certo número de grandes e
valorosos juristas, como Ulpiano,5 e que o conhecimento
e a reflexão jurídicos estavam presentes na política de
Sétimo Severo. Mas, para além do conhecimento e do

274
verve

Do governo dos vivos

saber de juristas como Ulpiano, ele tinha necessidade


da manifestação suplementar, excessiva, eu iria dizer,
não econômica, de verdade. Depois, segundo ponto, o que
me parece necessário sublinhar é como esse
verdadeiro, esse verdadeiro extravagante, um pouco
suplementar, excessivo, a maneira pela qual esse
verdadeiro se manifesta não é totalmente da ordem do
conhecimento, de um conhecimento formado,
acumulado, centralizado, utilizado. Nesse exemplo do
céu estrelado vê-se uma espécie de manifestação pura
do verdadeiro, manifestação pura da ordem do mundo
em sua verdade, do destino do imperador e da
necessidade que lhe preside, da verdade sobre a qual,
em última instância, fundam-se as sentenças do
Príncipe. Manifestação pura, manifestação fascinante
que estava destinada, não a demonstrar, nem provar
qualquer coisa ou refutar o falso, mas mostrar
simplesmente a verdade. Em outras palavras, não se
tratava para ele de estabelecer por um certo número de
procedimentos a verdade de tal ou qual texto, digamos,
a legitimidade de seu poder, ou a justiça desta ou daquela
sentença; não se tratava de estabelecer as atitudes do
verdadeiro por oposição a um falso que seria refutado;
tratava-se de fazer emergir o verdadeiro, o verdadeiro
sobre o fundo do desconhecido, do oculto, do invisível,
sobre o fundo do imprevisível. Não se tratava,
igualmente, de organizar um conhecimento, da
organização de um sistema utilitário de conhecimento
necessário ou suficiente para exercer o governo, mas
de um ritual de manifestação da verdade sustentado por
um exercício de poder, um certo número de relações
que não podem ser, reduzidas ao nível da utilidade pura
e simples.
Eu gostaria de retomar um pouco a relação entre o
ritual da manifestação da verdade e o exercício do po-
der. Eu disse ritual de manifestação da verdade, porém

275
12
2007

não se trata, pura e simplesmente, disso que se poderia


chamar uma atividade mais ou menos racional de co-
nhecimento. Parece-me que o exercício do poder, tal
como se pode encontrar na história de Sétimo Severo,
acompanha-se de um conjunto de procedimentos ver-
bais ou não verbais que podem ser, da ordem da infor-
mação recolhida, da ordem do conhecimento, de tabe-
las, fichas, notas etc., que podem ser um certo número
de conselhos, mas que podem ser igualmente rituais,
cerimônias, operações diversas como magias, consulta
aos oráculos, aos deuses, etc. Trata-se, portanto, de um
conjunto de procedimentos verbais ou não, pelos quais
se atualiza a consciência individual do soberano e o
saber de seus conselheiros; um conjunto de procedimen-
tos verbais ou não pelo qual se atualiza qualquer coisa
afirmada, ou melhor, colocada como verdadeiro, seja por
oposição a um falso que foi eliminado, discutido, refuta-
do etc., seja pelo verdadeiro por revelação ou ocultação,
por dissipação do que é esquecido, por conjuração do
imprevisível. Eu não diria que o exercício do poder su-
põe naquele que o exerce qualquer coisa como um co-
nhecimento, um conhecimento útil e utilizável para
exercer o poder; eu diria, sobretudo, que o exercício do
poder se acompanha constantemente de uma manifes-
tação de verdade entendida no sentido amplo, e tentan-
do encontrar uma palavra que corresponda não ao co-
nhecimento útil para esse que governa, mas para essa
manifestação da verdade correlativa ao exercício do po-
der; então, procurando a palavra eu encontrei uma que
é bem velha porque é grega e que não é tão honrada
porque na guerra foi empregada de um modo e depois
retomada de uma outra maneira por um gramático gre-
go do século III ou IV, alguém que se chamava Heracli-
des6 e que empregou a expressão, o adjetivo alêthourgu-
ês para dizer que alguém disse a verdade: alêthourguês
é o verídico. Forjando a partir de alêthourguês uma pala-

276
verve

Do governo dos vivos

vra fictícia, alêthourgia7, [adj alitúrgico em português] po-


der-se-ia chamar a manifestação da verdade como um
conjunto de procedimentos possíveis, verbais ou não, pe-
los quais se atualiza o que é colocado como verdadeiro em
oposição ao falso, ao oculto, ao invisível, ao imprevisível,
ao esquecido, etc.; poder-se-ia chamar alêthourgia esse
conjunto de procedimentos e dizer que não há exercício de
poder sem alêthourgia, ou ainda, vocês sabem que eu ado-
ro as palavras gregas, porque o exercício do poder chama-
se em grego hegemonia, não no sentido que nós damos
hoje a essa palavra, mas hegemonia é simplesmente o
fato de se encontrar, face aos outros, na possibilidade de
os conduzir e de conduzir, de qualquer modo, suas condu-
tas; então, eu diria que é bem provável que não exista
nenhuma hegemonia que possa se exercer sem qualquer
coisa como alêthourgia. E tudo isso para dizer simplesmen-
te, de uma maneira bárbara e herética, que isso que se
chama conhecimento, quer dizer, a produção da verdade
na consciência dos indivíduos pelos procedimentos lógi-
cos e experimentais, não é, senão, uma das formas possí-
veis de alêthourgia. A ciência, o conhecimento objetivo,
não é mais que um momento possível de todas essas for-
mas pelas quais se pode manifestar o verdadeiro.
Vocês dirão que tudo isso é uma discussão intelectu-
al apaixonante, mas um pouco lateral, e que se é verda-
de que em termos gerais se pode dizer que não há exer-
cício de poder, que não há hegemonia sem rituais ou
formas de manifestação da verdade, hegemonia sem
alêthourgia, desde séculos atrás, tudo isso foi substituí-
do por problemas, técnicas e procedimentos mais efica-
zes e mais racionais como, por exemplo, a representa-
ção do céu estrelado acima da cabeça do imperador. Di-
rão que hoje há um exercício de poder racionalizado como
arte de governar e que essa arte de governar deu lugar
a um certo número de conhecimentos objetivos como
os conhecimentos da economia-política, da sociedade, da

277
12
2007

demografia, etc. E, certamente, estarei de acordo; de fato


estou parcialmente de acordo. Admito que essa série de
fenômenos aos quais aludi pela história de Sétimo Seve-
ro, é um pouco residual, testemunho de um certo arcaís-
mo do exercício do poder que quase desapareceu em nos-
sos dias. E que hoje se chegou a uma arte racional de
governar da qual lhes falei no curso anterior. Porém, eu
gostaria de ressaltar duas coisas: inicialmente, nesse do-
mínio, como em todos os outros, o que é marginal e o que
é residual, quando se examina de perto, tem sempre seu
valor heurístico, e o pérfido, ou algo semelhante, tem fre-
qüentemente um princípio de inteligibilidade; segundo:
as coisas duraram muito mais tempo do que se acredita.
E se Sétimo Severo é muito representativo de um tempo,
repito, bem situado em torno dos séculos II e III, essa his-
tória da manifestação da verdade entendida no sentido
amplo de uma alêthourgia em torno do exercício do poder,
não se dissipou como que por encanto, seja pelo efeito da
desconfiança com que o cristianismo combateu as práti-
cas mágicas, seja pelos efeitos do progresso da racionali-
dade ocidental, a partir dos séculos XV e XVI. Eu poderia
citar, um artigo muito interessante de Denise Grodzynski,
publicado em Divination et rationalité, sob a direção de Jean-
Pierre Vernant,8 sobre a luta que os imperadores romanos
do século III e IV conduziram contra essa prática mágica e
a maneira como se tentou depurar o exercício do poder
desse círculo. Ela nos mostra as dificuldades e os riscos
políticos que existiram por detrás disso. Pode-se dizer, igual-
mente, que, mais tarde, por exemplo, no século XV e iní-
cio do XVI, esse fenômeno cultural e politicamente impor-
tante chamado a corte, as cortes, as cortes principescas,
as cortes reais do final da Idade Média, do Renascimento e
ainda no século XVII, elas formaram uma série de instru-
mentos políticos importantes; mas é preciso notar, tam-
bém, o ambiente cultural no qual elas aconteceram.9 Mas
o que significa dizer ambiente cultural? Talvez, fosse me-

278
verve

Do governo dos vivos

lhor dizer lugar de manifestação de verdade em vez de sim-


plesmente ambiente cultural. O cuidado que o Príncipe da
época da Renascimento teve para reagrupar em torno dele
um certo número de atividades, de saberes, de conheci-
mentos, de práticas, um certo número de indivíduos que
eram veículos culturais, foi porque, certamente, ele teve,
digamos, enorme razão utilitária; que se tratava de criar
em torno do Príncipe um núcleo de competências permi-
tindo-lhe afirmar seu poder político sobre as antigas es-
truturas feudais ou, em todo caso, sobre as estruturas
anteriores. Tratava-se, também, de assegurar uma cen-
tralização de conhecimentos numa época em que alguns
agrupamentos religiosos e ideológicos arriscavam consti-
tuir, face ao Príncipe, um contra-poder considerável. Tra-
tava-se, na época da Reforma e da Contra-reforma, de po-
der controlar até certo ponto a violência e a intensidade
desse movimento ideológico e religioso que se impôs ao
Príncipe, com mais ou menos força. Além disso, penso que
o fenômeno das cortes representa também outra coisa, e
que nelas havia uma extraordinária concentração de ati-
vidades culturais, uma forma de concessão pura da verda-
de, de manifestação pura da verdade: lá onde existe poder,
onde é preciso que exista poder, onde se quer mostrar efe-
tivamente que é ali que reside o poder, então, é preciso
que exista o verdadeiro; e lá onde não existe o verdadeiro,
onde não existe manifestação do verdadeiro, é porque o
poder ali não se encontra, é muito fraco ou é incapaz de
ser poder. A força do poder não é independente da mani-
festação do verdadeiro, entendida para além do que é sim-
plesmente útil e necessário para bem governar. O fortale-
cimento do poder principesco que se constata no curso dos
séculos XV, XVI e XVII reclamou a constituição de uma
série de conhecimentos úteis à arte de governar, mas
estabeleceu uma série de rituais de manifestação do sa-
ber que foi desde o desenvolvimento de um certo huma-
nismo, até a curiosa e constante presença de bruxas, as-

279
12
2007

trólogos, adivinhos etc., em torno do Príncipe, no início do


século XVII. O exercício do poder principesco neste século,
como o de Sétimo Severo, não podia passar sem um certo
número desses rituais; e é muito interessante estudar a
personagem do adivinho, da bruxa, do astrólogo etc., nas
cortes dos séculos XVI e XVII. A razão de Estado, da qual
tentamos reconstituir alguns momentos, é um remane-
jamento, digamos utilitário e calculista, de alêthourgia pró-
pria ao exercício do poder; tratou-se, certamente e com
efeito, de constituir um tipo de saber que será de qualquer
modo interno ao exercício do poder e útil para ele. Mas a
constituição da razão de Estado foi acompanhada de um
movimento, que foi evidentemente a sua contra-partida
negativa: é preciso caçar o adivinho da corte do rei, subs-
tituir o astrólogo por essa espécie de conselheiro que foi
ao mesmo tempo o detentor e o invocador da verdade e
substituí-lo por um verdadeiro ministro que fosse capaz de
fornecer ao Príncipe um conhecimento útil. A constitui-
ção da razão de Estado é o remanejamento de todas essas
manifestações de verdade ligadas ao exercício do poder e a
organização da corte. Por conseqüência, poder-se-ia con-
siderar também que o fenômeno da caça às bruxas, no fim
do século XVI, não foi apenas um fenômeno de reconquis-
ta pela Igreja, e até um certo ponto para o Estado, de uma
camada da população cristianizada superficialmente no
curso da Idade Média. A caça às bruxas foi o resultado da
Reforma e da Contra-reforma, de uma vitalidade superior
pela qual passou a cristianização que tinha sido superfici-
al durante o século precedente.10 Mas houve também uma
caça ao adivinho, à bruxa e ao astrólogo nos estratos supe-
riores, e, também, no círculo real. A exclusão do adivinho
e o remanejamento da corte, são contemporâneos à últi-
ma e à mais intensa das ondas de caça às bruxas nas
camadas populares. Trata-se de um fenômeno bifurcado
que deve ser olhado em duas direções: uma em torno do
Príncipe, outra na direção popular. Era preciso eliminar

280
verve

Do governo dos vivos

aquele tipo de saber, de manifestação do verdadeiro, de


produção da verdade, de aliturgia, tanto das camadas popu-
lares quanto, e com mais razão, do entorno do Príncipe e
da corte. E se pode encontrar um personagem importante:
Bodin,11 que no fim do século XVI é com seu livro sobre a
República um dos teóricos da nova racionalidade que de-
veria presidir a arte de governar e que escreveu também
um livro sobre bruxaria. Sei que existem pessoas, pouco
importa seus nomes e suas nacionalidades, que dizem
que se Bodin fez essas duas coisas, se ele foi ao mesmo
tempo teórico da razão de Estado e o grande opositor da
demonomania, se ele é demonólogo e teórico do Estado, é
simplesmente porque o capitalismo nascente tinha ne-
cessidade de força de trabalho, e assim como as bruxas
eram ao mesmo tempo praticantes do aborto, se tratava
de dar um fim a esse impedimento da demografia para
poder fornecer ao capital a mão-de-obra da qual tinha ne-
cessidade para as fábricas. O raciocínio, não é absoluta-
mente convincente, e eu diria que é até caricatural. Pa-
rece-me mais interessante procurar os dois registros do
pensamento de Bodin na relação que deve existir entre a
constituição de uma racionalidade própria à arte de go-
vernar, sob a forma de uma razão de Estado em geral, e, de
outra parte, à conjuração da alêthourgia sob a forma da
demonomania, adivinhação etc., que ocupava um lugar
no saber do Príncipe, um lugar que a razão de Estado deve-
ria ocupar.
O curso deste ano se ocupará da elaboração da noção
de governo dos homens pela verdade, noção sobre a qual já
falei um pouco nos anos precedentes. O que significa
elaborar essa noção? Trata-se de deslocar um pouco as
coisas em relação ao tema atualmente utilizado e repetido
do saber-poder, tema que deslocou as coisas em relação a
um tipo de análise no domínio da história do pensamento,
um domínio de análise que foi mais ou menos organizado,
ou que girou, em torno da noção de ideologia dominante.

281
12
2007

Grosso modo, dois deslocamentos sucessivos: um da noção


de ideologia dominante para essa noção de saber-poder, e
agora, um segundo deslocamento da noção saber-poder
para a noção do governo pela verdade. Seguramente, entre
esses dois deslocamentos há uma diferença. Se à noção
de ideologia dominante eu tentei opor a noção de saber-
poder foi porque a essa noção de ideologia dominante eu
creio que é possível fazer três objeções. Primeiro, ela
postula uma teoria incompleta ou uma teoria imperfeita
da representação. Segundo, essa noção de ideologia
dominante está atrelada, pelo menos implicitamente, e
sem conseguir se desembaraçar de modo claro, à oposição
entre o verdadeiro e o falso, a realidade e a ilusão, o
científico e o não científico, o racional e o irracional.
Terceiro, enfim, sob a palavra dominante, a noção de
ideologia fica num impasse em relação a todos os
mecanismos reais de assujeitamento, e ela se distancia
do empreendimento, repassando-o a um terceiro,
solicitando aos historiadores do saber como e porque em
uma certa sociedade alguns dominam os outros. Por
oposição a isso, tentei colocar em funcionamento a noção
de saber-poder. A noção de saber tinha a função de pôr fim
à oposição do cientifico ao não científico, à questão da ilusão
e da realidade, do verdadeiro e do falso, não para dizer que
essas oposições não tinham causa, sentido, valor; o que
eu quis dizer, simplesmente, sobre a noção de saber era
que se tratava de colocar o problema em termos de práticas
constitutivas de domínios de objetos e de conceitos no
interior das quais as oposições do científico e do não
científico, da ilusão e da realidade, do verdadeiro e do falso,
poderiam assumir seus efeitos. Já a noção de poder tinha,
por função substituir a de sistemas de representação; a
questão, o campo de análise, é o dos procedimentos, dos
instrumentos e das técnicas pelas quais se realizam,
efetivamente, as relações de poder. Já o segundo
deslocamento em relação a essa noção de saber-poder

282
verve

Do governo dos vivos

procura se desembaraçar dela para tentar elaborar a


noção de governo pela verdade; desembaraçar-se da
noção saber-poder como se desembaraçar da noção de
ideologia dominante. Dir-se-ia que sou perfeitamente
hipócrita porque é evidente que não se desembaraça de
seu próprio pensamento como se desembaraça do
pensamento dos outros. Eu serei, certamente, mais
indulgente com a noção saber-poder do que com a noção
de ideologia dominante, mas cabe a vocês me
reprovarem. Na incapacidade, portanto, de tratar a mim
mesmo como trataria os outros, eu diria que se trata ao
passar da noção de saber-poder para a noção do governo
pela verdade, de dar um conteúdo positivo e diferenciado
a esses dois termos de saber e poder.
Nos cursos dos últimos anos tentei esboçar um pouco
essa noção de governo que me pareceu muito mais
operatória que a noção de poder, de governo entendido
não no sentido estreito e atual de instância suprema de
decisões executivas e administrativas em um sistema
estatal, mas em sentido amplo e antigo de mecanismos
e procedimentos destinados a conduzir os homens, a
dirigir a conduta dos homens, a conduzir a conduta dos
homens. E foi no quadro geral dessa noção de governo
que tentei estudar duas coisas a título de exemplo: de
um lado, o nascimento da razão de Estado no século XVII,
entendida não como teoria ou representação do Estado,
mas como arte de governar, como racionalidade
elaborando a prática mesma do governo,12 e de outro lado,
no último ano, o liberalismo contemporâneo americano
e alemão entendido não como teoria econômica e como
doutrina política, mas como uma certa maneira de
governar, como uma certa arte racional de governar.13
A partir desse ano eu gostaria de elaborar agora a noção
do saber na direção do problema da verdade. [...]

283
12
2007

É um lugar comum dizer que as artes de governar e os


jogos de verdade não são independentes um do outro, e
que não se pode governar sem entrar, de uma maneira ou
de outra, nos jogos de verdade. Tudo isso são lugares
comuns e creio que em relação a isso pode-se encontrar
quatro ou cinco formas principais, no pensamento político
moderno, a partir do século XVII. Essas quatro ou cinco
formas de ligar, de conservar e de manter a relação entre
o exercício do poder e a manifestação da verdade [são as
seguintes]: a primeira, a mais antiga, muito geral e banal,
mas que há três séculos teve sua força de inovação e seus
efeitos de ruptura, é a idéia de que não pode existir governo
possível se quem governa não atrelar sua ação, escolha,
decisão, a um conjunto de conhecimentos verdadeiros, de
princípios racionalmente fundados ou de conhecimentos
exatos, os quais não são atribuídos simplesmente à
sabedoria em geral do Príncipe, nem à razão tout court, mas
a uma estrutura racional que é própria a um domínio de
objetos possíveis, o Estado. Dito de outro modo, a idéia de
uma razão de Estado parece ter sido, na Europa moderna,
a primeira maneira de refletir e de tentar dar um estatuto
preciso e utilizável às relações entre o exercício do poder e
a manifestação da verdade. Em suma, foi a idéia segundo
a qual a racionalidade da ação governamental é a razão de
Estado e que a verdade que manifesta é a verdade do Estado
como objeto de ação governamental. Esse era o princípio
de Bodin que foi um dos primeiros a formular de modo
mais sistemático o princípio da razão de Estado. Em seguida,
um pouco mais tarde, encontra-se uma segunda maneira13
de ligar a arte de governar e os jogos de verdade. É um
modo de junção que a primeira vista é paradoxal, utópico e
que, portanto, foi historicamente muito importante. É a
idéia de que se o governo governa não pela sabedoria em
geral mas pela verdade, pelo conhecimento exato dos
processos que caracterizam essa realidade que é o Estado,
realidade que é por sua vez também constituída por uma

284
verve

Do governo dos vivos

população, uma produção de riquezas, trabalho, comércio


etc. , quanto mais o governo governar pela verdade menos
governará. Quanto mais atrelar sua ação à verdade, menos
governará porque tomará menos decisões de cima para
baixo em função de cálculos mais ou menos incertos às
pessoas que os aceitarão mais ou menos bem. Se a verdade
pode chegar a constituir a atmosfera e a luz comum do
governo e do governado, virá um momento, uma espécie
de ponto utópico na história, em que o império da verdade
poderá fazer reinar sua ordem sem que as decisões de
uma autoridade, sem que as escolhas de uma
administração, intervenham a não ser como formulações
evidentes aos olhos de todos daquilo que deve ser feito. O
exercício do poder não será, portanto, mais que um
indicador da verdade e se essa indicação da verdade for
realizada de uma maneira suficientemente
demonstrativa, todos estarão de acordo e haverá um limite
em que será desnecessário um governo, pois o governo
não será mais que a superfície da reflexão da verdade, da
sociedade e da economia em um certo número de
expressões que não farão mais que repercutir essas
verdades entre os governados. Governante e governado
serão, de qualquer modo, atores e co-atores, atores
simultâneos de uma peça que representam e que é aquela
da natureza na sua verdade. Essa idéia é de Quesnay,
dos fisiocratas, que se os homens governarem sob as
regras da evidência, não serão mais os homens que
governarão, serão as coisas por elas mesmas. Esse era
o princípio de Quesnay e que, malgrado, uma vez mais,
seu caráter abstrato e quase utópico, teve uma evolução
e uma importância considerável na história do
pensamento político da Europa. Pode-se dizer que o que
se passa em seguida, ao longo do século XIX, no interior
dessa reflexão sobre a maneira de ligar verdade e
governo, não foi mais que o desenvolvimento ou a
dissociação dessa idéia fisiocrata. Terceira: com efeito,

285
12
2007

no século XIX, também muito banal, mas de grande


importância, foi a idéia de uma arte de governar ligada à
descoberta de uma verdade e ao seu conhecimento
objetivo. Isso implicou a constituição de um saber
especializado, a formação de uma categoria de indivíduos
especializados no conhecimento dessa verdade, e essa
especialização constituiu um domínio que não foi
exatamente próprio da política, e que definiu muito mais
um conjunto de coisas e de relações que deveriam se impor
à política. Grosso modo, esse é o princípio de Saint-Simon.
Quarta: em face disso, e um pouco mais tardiamente,
encontra-se o inverso: o fato de um certo número de
indivíduos se apresentarem como especialistas da verdade
que se imporão à política é porque eles encobriram alguma
coisa; como se fosse possível encontrar o meio pelo qual
cada um na sociedade, todos os indivíduos que nela vivem,
pudessem conhecer a verdade e soubessem, efetivamente,
o que se passa na realidade, e que a aparente competência
dos outros não serve senão para ocultar; se todo mundo
soubesse tudo na sociedade na qual vive, simplesmente o
governo não poderia mais governar. Seria a revolução:
façamos cair a máscara, descubramos as coisas tal como
elas se passam, tomemos cada um de nós consciência
disso que é realmente a sociedade na qual vivemos e do
processo econômico no qual nós somos inconscientemente
os agentes e as vitimas; tomemos consciência dos
mecanismos de exploração e de dominação etc., e de um
golpe, o governo cai! Incompatibilidade entre a evidência,
finalmente adquirida por todos, daquilo que se passa
realmente e o exercício do governo por alguns. Princípio,
portanto, da tomada de consciência universal como
princípio de derrubada de governos, dos regimes e dos
sistemas. É isso que Rosa de Luxemburgo, formulou em
uma frase célebre: “se todo mundo soubesse, o regime
capitalista não sairia vitorioso”. Poder-se-ia dizer que
mais recentemente se acrescentou uma quinta maneira

286
verve

Do governo dos vivos

de conceber, de definir as relações entre a manifestação


de verdade e o exercício do poder. Maneira inversa de
Rosa de Luxemburgo se todos soubessem, talvez o regime
capitalista não tivesse vencido, mas, como disse
Soljenitsin, se os regimes socialistas triunfaram foi
precisamente porque todo mundo sabia. Não é porque
os governados ignoravam o que se passava, ou porque
alguns entre eles sabiam enquanto os outros não
sabiam. Ao contrário, foi porque eles sabiam e na medida
que eles sabiam, em que a evidência disso que se passava
era efetivamente consciente a todo mundo, que as coisas
não se alteravam. É precisamente esse o princípio do
terror: o terror não é uma arte de governar que oculta
seus fins, seus motivos e mecanismos; o terror é
precisamente a governamentalidade no seu estado nu,
em estado cínico, em estado obsceno; no terror é a
verdade e não a mentira que imobiliza: é a verdade que
ele deixa, é a verdade que se torna, pela sua evidência
manifesta por toda parte, intangível e inevitável.15
Então, digamos: razão de Estado ou princípio de raci-
onalidade é Bodin; racionalidade econômica e princípio
de evidência é Quesnay; especificação cientifica da evi-
dência e princípio da competência é Saint-Simon; in-
versão da competência particular em evento universal
ou o princípio da consciência geral é Rosa de Luxem-
burgo; e, enfim, consciência comum, fascinada e inevi-
tável própria ao terror, é o princípio de Soljenitsin. Eis
cinco maneiras de refletir, de analisar, ou em todo caso,
de localizar as relações entre o exercício de poder e a
manifestação da verdade.
Se apresentei esses métodos não foi evidentemente
com a intenção de esgotar e nem estabelecer um fio
condutor que permitiria tomar o essencial e a coerên-
cia do conjunto. Não fiz mais que indicar alguns movi-
mentos, ou melhor de trazer de modo mais ou menos

287
12
2007

indicativo algumas maneiras segundo as quais na épo-


ca moderna se tentou pensar a relação entre arte de
governar e saber da verdade, ou ainda, entre exercício
do poder e manifestação da verdade. Se os enumerei
assim de maneira esquemática, um seguido dos outros,
não foi para dizer que cada um deles caracteriza de
maneira particular um momento dado indicando, uma
idade da racionalidade, uma idade da evidência, uma
idade da competência etc.; também não quis mostrar
que da passagem de um ao outro existe um encadea-
mento inevitável; e, sobretudo, não quis afirmar que o
princípio do terror, por exemplo, já estava contido, ine-
vitavelmente, em estado embrionário, na idéia de uma
racionalidade governamental tal como se encontra no
século XVII com a razão de Estado; não foi isso que eu
quis dizer. Pelo contrário, indiquei alguns modos de pen-
sar essas relações entre manifestação de verdade e exer-
cício de poder para tentar mostrar as três teses [Estado,
sociedade, conhecimento objetivo] de cada um e que
podem ser expressas assim. Essas maneiras modernas
de refletir as relações governo-verdade todas definem
relações em função de um certo real que seria o Estado
ou a sociedade: é a sociedade que seria o objeto de sa-
ber, é a sociedade que seria o lugar de processos espon-
tâneos, sujeito de revolta, objeto e sujeito de fascinação
pelo terror; de outra parte, outra limitação dessas aná-
lises é que elas se fundam em função de um saber que
seria sempre da forma do conhecimento mais ou me-
nos objetivo dos fenômenos.
Agora, gostaria de me situar além desses esquemas
e mostrar como não foi no dia em que a sociedade ou o
Estado apareceram como objetos possíveis e necessári-
os para uma governamentalidade racional que nasce-
ram, enfim, relações entre governo e verdade. Não foi
preciso esperar a constituição dessas relações novas,
modernas, entre arte de governar e racionalidade, diga-

288
verve

Do governo dos vivos

mos, política, econômica e social, para que a ligação en-


tre manifestação de verdade e exercício do poder se fizes-
se. A ligação entre exercício de poder e manifestação de
verdade é muito mais antiga e se encontra num nível
muito mais profundo; e aquilo que eu gostaria de tentar
observar, tomando o exemplo [de Sétimo Severo] bem
particular, bem preciso e que não diz nem mesmo res-
peito à política, gostaria de tentar mostrar como não é
possível dirigir os homens sem fazer operações da ordem
da verdade, tendo o cuidado para que essas operações
sejam sempre excedentes em relação ao que é útil e
necessário para governar de uma maneira eficaz; é para
além da finalidade eficaz, da finalidade de governar de
modo eficaz, é sempre para além disso que a manifesta-
ção da verdade é requerida, implicada ou ligada a uma
atividade de governar e de exercer o poder.
Diz-se frequentemente que detrás de todas as rela-
ções de poder existe, em última instância, qualquer coi-
sa como um núcleo de violência e que, ao se despir o
poder de seus adornos, é o jogo nu da vida e da morte
que se encontrará. Pode ser. Mas, pode haver poder sem
adorno? Dito de outro modo: pode haver efetivamente
um poder sem jogos de sombras e de luzes, de verdade e
de erro, do verdadeiro e do falso, do oculto e do manifes-
to, do visível e do invisível? Ou ainda, pode haver exercí-
cio de poder sem um [clarão] de verdade, sem um círcu-
lo alêthourgia que gira em torno dele e que o acompa-
nha? O céu estrelado acima da cabeça de Sétimo Severo,
acima das cabeças daqueles que ele julgava, o céu es-
trelado como verdade que se estendia implacavelmente
sobre aquele que governa e sobre os governados, esse
céu estrelado como manifestação de verdade está aci-
ma das cabeças de todos, mas a lei política está apenas
nas mãos do imperador.16
Fim da primeira aula.

289
12
2007

Excerto da aula de 30 de janeiro de 1980

Os três temas que gostaria de sublinhar são: primeiro,


a relação entre manifestação da verdade e exercício do
poder; segundo, a importância e a necessidade para o
exercício do poder de uma manifestação da verdade pelo
menos em alguns de seus pontos, de uma maneira
absolutamente indispensável, que toma forma de
subjetividade; e enfim, essa manifestação de verdade na
forma de subjetividade, tem efeitos que vão além das
relações imediatamente utilitárias do conhecimento, a
alêthourgia a manifestação da verdade que faz muito mais
que permitir conhecer. São os três temas que nesse curso
gostaria de retomar nas próximas aulas.
A questão que gostaria de colocar, mais uma vez, é a
seguinte: como foi possível que numa sociedade como a
nossa, o poder não se exerça sem que a verdade se
manifeste na forma de subjetividade? E, de outra parte,
espera-se nessa manifestação da verdade, sob a forma de
subjetividade, efeitos que estão para além da ordem do
conhecimento, que são da ordem da salvação e da
libertação para cada um e para todos. De maneira geral, o
tema que eu gostaria de abordar esse ano é: como em
nossa civilização foram colocadas em funcionamento as
relações entre o governo dos homens, a manifestação da
verdade sob a forma de subjetividade e a salvação para
todos e para cada um?
Eu sei bem que esses problemas ou esses temas são
conhecidos e repetidos e que existem análises honoráveis
em termos de ideologia que obtêm sobre esses problemas
uma resposta já pronta e que nos explicam, com efeito,
que no exercício do poder a manifestação da verdade sob a
forma de subjetividade e a salvação de todos e cada um
estão ligados simplesmente pelos efeitos próprios disso que
se chama uma ideologia, que grosso modo, consiste em

290
verve

Do governo dos vivos

dizer: os homens estão mais preocupados pela sua salvação


no outro mundo do que por isso que se passa aqui embaixo;
é na medida que querem, verdadeiramente, ser salvos,
que permanecem tranqüilos, sendo mais fácil governá-los.
O governo dos homens por essa verdade que efetuam sobre
si mesmos e que lhes é salutar no sentido marcante do
termo, são precisamente os efeitos próprios disso que se
chama ideologia: quanto mais os homens estão
preocupados com a sua salvação no além, mais fácil é
governá-los aqui embaixo. Isso não me parece consoante
com um certo número de pequenas coisas que nós
sabemos, na história antiga ou recente, sobre as relações
entre revolução e religião. O problema não pode ser tão
simples, não é do lado dessas análises em termos de
ideologia que seria preciso conduzir a investigação.
Mais uma vez retomo o que não cessei de repetir e
praticar: a recusa da análise em termos de ideologia, a
recusa de analisar nesses termos o pensamento, o
comportamento e o saber dos homens. Essa recusa da
análise ideológica que eu insisti por diversas vezes e
que retomei praticamente em cada um dos cursos e a
cada ano, e que gostaria mesmo retomar ainda uma vez
mais, e por uma razão bem simples, é porque ao retomá-
la realizo, em cada vez, um leve e pequeno
deslocamento. E isso me conduz a uma confidência: o
trabalho teórico não consiste para mim e não o digo por
orgulho ou vaidade, mas por sentimento profundo de
incapacidade, em estabelecer e fixar um conjunto de
posições sobre as quais eu me manteria e de cuja ligação
entre essas diferentes posições, na sua suposta ligação
coerente, se formaria um sistema. Meu problema, ou a
única possibilidade de trabalho teórico para mim, seria
somente a de deixar o desenho mais inteligível possível,
o traço do movimento pelo qual eu não estou mais no
lugar onde estava agora há pouco. Daí, a perpétua
necessidade de realçar, o ponto de passagem que a cada

291
12
2007

deslocamento arrisco modificar, senão o conjunto, pelo


menos a maneira pela qual se lê ou pela qual se
apreende o que pode haver de inteligível. Essa
necessidade, portanto, não aparece jamais como plano
de um edifício permanente; não é preciso reclamar e
impor as mesmas exigências como se tratasse de um
plano; trata-se, mais uma vez, de traçar um
deslocamento, traçar não edifícios teóricos, mas
deslocamentos pelos quais as posições teóricas não
cessam de se transformar. Há teologias negativas;17
digamos que sou um “teórico negativo”. Então, um novo
percurso, um novo traço e, uma vez mais, um retorno
sobre ele mesmo, sobre o mesmo tema.
Esperando um outro deslocamento e uma nova for-
ma de inteligibilidade, o que significa a recusa de uma
análise em termos de ideologia? Eu poderia dizer o se-
guinte: há uma maneira tradicional, antiga, perfeita-
mente nobre, de colocar a questão filosófica ou política
dizendo que no momento em que o sujeito se submete
voluntariamente a uma ligação de verdade numa rela-
ção de conhecimento, isto é, no momento em que ele
pretende, após lhe serem dados os fundamentos, os ins-
trumentos, as justificações com as quais ele almeja
sustentar um discurso de verdade, a partir daí, o que
ele pode dizer sobre, ou para, ou contra o poder que o
assujeita? Dito de outro modo, a ligação voluntária com
a verdade, ou o que ela pode dizer sobre a ligação invo-
luntária que nos prende e nos dobra ao poder? Essa, penso
eu, é a maneira tradicional, maior, de colocar a questão
filosófico-política. Penso que se pode retomar esse mes-
mo problema inversamente: não mais supondo inicial-
mente o direito ao acesso à verdade, não mais estabele-
cendo de início essa ligação voluntária e, de qualquer
modo, contratual com a verdade, mas colocando, inici-
almente, a questão do poder da seguinte maneira: o que
o questionamento sistemático, voluntário, teórico e prá-

292
verve

Do governo dos vivos

tico do poder tem a dizer sobre o sujeito de conhecimento


e sobre a ligação com a verdade pela qual, involuntaria-
mente, ele se encontra preso? Não se trata mais de dizer:
considerando os vínculos que me ligam, voluntariamen-
te, à verdade, o que eu posso dizer do poder? Mas, conside-
rando minha vontade, decisão e esforço de desfazer o vín-
culo que me liga ao poder, o que é feito do sujeito de co-
nhecimento e da verdade? De outro modo, não é mais a
crítica da representação em termos de verdade e de erro,
em termos de verdadeiro e de falso, em termos de ideolo-
gia e de ciência, de racionalidade ou de irracionalidade,
não é mais a crítica da representação nesses termos que
deverá servir de indicador para definir a legitimidade do
poder ou para denunciar sua ilegitimidade: é o movimen-
to para separar-se do poder que deve servir de revelador da
transformação do sujeito e as relações que ele mantém
com a verdade. Tal análise repousa, como de outro modo
todas as outras análises inversas, muito mais sobre uma
atitude que sobre uma tese. Mas essa atitude não é exa-
tamente, a atitude em voga do ceticismo, de colocar em
suspensão todas as certezas, das posições téticas da ver-
dade. É uma atitude que consiste, primeiramente, em afir-
mar: nenhum poder é incontestável. Nenhum poder é evi-
dente ou inevitável; nenhum poder, merece ser aceito no
jogo por si só. Não há legitimidade intrínseca do poder. E a
partir dessa posição, a atitude consiste em se perguntar:
o que é feito do sujeito e das relações de conhecimento no
momento em que qualquer poder não está fundado nem
no direito e nem na necessidade? Todo poder não repousa
senão na contingência e na fragilidade de uma história, a
partir do momento em que o contrato social é um blefe e a
sociedade civil um conto para crianças; a partir do mo-
mento em que não existe nenhum direito universal, ime-
diato e evidente que possa, em todo lugar e sempre, sus-
tentar uma relação de poder qualquer que seja ela.

293
12
2007

A grande postura filosófica consiste em colocar em


funcionamento uma dúvida metódica que suspende
todas as certezas, então a pequena postura lateral e o
contra-posicionamento que eu proponho consiste em
jogar sistematicamente não mais com a suspensão de
todas essas certezas, mas com a não necessidade de
poder, qualquer que seja. Então, ensaiar se a anarquia,
se o anarquismo..., eu não vejo, de um lado, porque as
palavras anarquia ou anarquismo seriam de tal modo
pejorativas que impediriam seu emprego para fazer
funcionar e triunfar um discurso crítico; mas, de minha
parte, isso implica algumas diferenças: ao definir a
anarquia de um modo bem grosseiro, definição bastante
aproximativa, que eu estaria pronto a rediscutir ou a
ela retornar; mas quando se define a anarquia por duas
coisas a tese de que o poder, na sua essência, é ruim de
qualquer modo; e ao defini-la por um projeto de sociedade
no qual seriam abolidas, anuladas, todas as relações de
poder, o que proponho e o que falo é claramente diferente.
Não se trata de ter um alvo nos termos do projeto de
uma sociedade sem relações de poder, mas, ao contrário,
trata-se de colocar o não poder ou a não aceitabilidade
do poder, não em termos de empreendimento, mas ao
contrário, no início do trabalho, relacionado às formas
de problematizar os modos pelos quais efetivamente se
aceita o poder. Segundo, não se trata de dizer que todo
poder é ruim, mas de dizer, ou de partir do ponto segundo
o qual qualquer poder, qualquer que seja ele, não é de
pleno direito aceitável, ou não é absoluta e
definitivamente inevitável. Entre o que se chama,
grosseiramente, a anarquia, o anarquismo e o método
que eu emprego, existe certamente qualquer coisa como
uma relação, mas as diferenças são igualmente claras.
Em outras palavras, a posição que eu assumo não exclui
a anarquia. E por que ela seria tão condenável? Ela o é
apenas por essa noção que supõe existir sempre,

294
verve

Do governo dos vivos

forçosamente, essencialmente, como um poder


inaceitável. A posição que proponho não exclui a
anarquia, mas ela não a implica, não a recobre e não se
identifica com ela. Trata-se de uma atitude teórica-
prática concernente à não necessidade do poder, e para
distinguir essa posição teórica-prática acerca da não
necessidade do poder como princípio de inteligibilidade
de um saber, melhor que empregar a palavra anarquia,
anarquismo que não conviria, gostaria de jogar com as
palavras porque jogar com as palavras não está muito
em voga, atualmente, porque provoca problemas;
portanto, estejamos ainda um pouco na contracorrente
e façamos um jogo de palavras; então, eu diria que isso
que proponho é um tipo de anarqueologia. Dito isso,
fazendo um parênteses, se vocês quiserem ler um livro
interessante de filosofia que acabou de aparecer,
recomendo, mais que qualquer outro o de Fayrabend
sobre, ninguém o diz!, o problema anarquismo e saber;
há nele qualquer coisa de interessante.
Transcrição e tradução do francês por Nildo Avelino.

Notas do tradutor
1
Para uma aproximação inicial às palavras do curso: Jean-Michel-Landry.
“Genealogie politique de la psychologie. Une lecture du cour de Michel
Foucault.” (Collège de France, 1980). Revue Reaisons politiques, n. 25, fev 2007,
pp31-45.
2
Du Gouvernement des vivants. Cours au Collège de France, (1979-1980). Transcrição
realizada a partir dos arquivos sonoros depositados na Bibliothèque générale
du Collège de France (52, rue du Cardinal-Lemoine, 75005 Paris, França).
Agradeço a Sra. Marie-Renée Cazabon e sua equipe pelo acesso aos arquivos. O
presente trabalho de transcrição e tradução, realizado sem recurso ao manuscrito,
sujeita-se a um maior número de incorreções interpretativas. Falta-lhe, talvez,
uma certa medida de rigor e exatidão, já que estão ausentes os procedimentos
de “autentificação” próprios das publicações realizadas dos cursos de Michel
Foucault. Porém, aquilo que se busca é um efeito e uma utilização particulares

295
12
2007

cuja procedência, no Brasil, pode ser encontrada na organização por Edson


Passetti do dossiê “Foucault” publicado na revista Margem n. 5, 1996. [N.T.]
3
Dion Cassius de Nicée (155-235 d.C.) homem político e historiador, nomeado
duas vezes cônsul, escreveu em 80 livros uma História Romana.
4
Cf. Denise Grodzynski. “Par la bouche de l’empereur. Rome IVe siècle” in Jean-
Pierre Vernant (org.). Divination et Rationalité. Paris, Seuil, 1974, pp. 267-294: “Sétimo
Severo, nos ensina Dion Cassius, conhecia o destino que o esperava graças às
‘estrelas sob as quais ele tinha nascido; ele as fez pintar sobre as cúpulas dos
cômodos do palácio onde ele rendia a justiça, de maneira que fossem visíveis a
todos, exceto uma parte do céu que — como se diz — observa a hora [quer dizer,
o horóscopo]; porque essa parte ele não a fez pintar do mesmo modo nos dois
cômodos.’ Inscrever-se sob o curso dos astros é uma solução que comporta vantagens
e riscos. Com isso, o imperador ganha a caução dos deuses e uma garantia contra a
usurpação, porque torna-se difícil destronar aquele cujo destino corre paralelamente
com a ordem do mundo; mas, porque o determinismo astral não é um monopólio
imperial, cada um pode se crer destinado ao império caso a predicação de um
adivinho o anunciasse. (...) para remediar esse perigo de usurpação, a pena de morte
foi estimulada contra os astrólogos.”, pp. 283-284.
5
Domitius Ulpianus (142-212), homem político e jurista romano do início do
século III, foi assessor de Papinianus sob o império de Sétimo Severo e Caracalla.
Considerado o maior jurisconsulto da cultura romana, escreveu entre outros
Quaestionum libri XXXVII e Responsorum libri XIX.
6
Ponticus Heraclides (388–322 a.C.) filósofo grego discípulo de Platão.
7
Foucault gostava de forjar neologismos. O mais conhecido foi certamente o termo
“governamentalidade” forjado para analisar as tecnologias de poder e que teve
grande efeito na reflexão política atual. Além de “alêthourgia”, no presente texto
ele também forjou o neologismo “anarqueologia” que marca uma atitude analítica
frente ao poder.
8
Denise Grodzynski, op. cit., 1974, p. 287: “Os imperadores do fim do século IV
reduziram toda consulta à busca odiosa da data da morte alheia. Para eles não
existia consulta que pudesse concernir a assuntos inofensivos da vida cotidiana ou
aportar ajuda aos homens em dificuldade.”
9
Cf. Michel Foucault. Em defesa da sociedade. Curso no Collège de France (1975-1976).
Tradução de Maria E. Galvão. São Paulo, Martins Fontes, 1999, pp. 209-210: “Mas
que é a corte, senão precisamente — e isto de uma forma incontestável em Luís
XIV —, também aí, uma espécie de aula de direito público? A corte tem
essencialmente como função constituir, organizar um lugar de manifestação cotidiana
e permanente do poder monárquico em seu esplendor. No fundo, a corte é essa
espécie de operação ritual permanente, recomeçada dia após dia, que requalifica
um indivíduo, um homem particular, como sendo rei, como sendo o monarca,
como sendo o soberano. A corte, em seu ritual monótono, é a operação
incessantemente renovada pela qual um homem que se levanta, que passeia, que
come, que tem seus amores e suas paixões, é ao mesmo tempo, através disso, e sem

296
verve

Do governo dos vivos

que nada disso seja de algum modo eliminado, um soberano. Tornar seu amor
soberano, tornar sua alimentação soberana, tornar soberanos seu despertar e seu
deitar: é nisso que consiste a operação específica do ritual e do cerimonial da
corte”.
10
Cf. Michel Foucault. “Sorcellerie et folie” in Dits et écrits II, 1976-1988. Paris,
Gallimard, 2001, pp. 89-92: “Não foi somente a bruxa com suas pobres quimeras
e suas potências de sombra que foi enfim, por uma ciência tardia mas salutar,
reconhecida como alienada. (...) um certo tipo de poder se exercia através das
vigilâncias, dos interrogatórios, dos decretos da Inquisição; e é ele ainda, por
transformações sucessivas, que nos interroga hoje, questiona nossos desejos e sonhos,
inquieta-se com nossas noites, persegue os segredos e traça fronteiras, designa os
anormais, promove purificações e assegura as funções da ordem.”, p. 90.
11
Jean Bodin (1530-1596) jurista considerado precursor do Mercantilismo,
entre suas obras constam Les six livres de la République (1577) e De la démonomanie
des sorciers (1580).
12
Michel Foucault. Sécurité, territoire, population. Cours au Collège de France (1977-
1978). Paris, Gallimard/Seuil, 2004.
13
Michel Foucault. Naissance de la biopolitique. Cours au Collège de France (1978-
1979). Paris, Gallimard/Seuil, 2004.
14
Fim da gravação da fita cassete I, dia 09/01/1980, lado A, e início do lado B.
15
Cf. Michel Foucault. “Michel Foucault: crimes et châtiments en U.R.S.S. et
ailleurs...” in Dits et écrits II, 1976-1988. Paris, Gallimard, 2001, pp. 63-74. A
propósito das imagens veiculadas na França de um campo de concentração
soviético, Foucault declarou: “Os Soviéticos inicialmente disseram algo que
muito me impressionou: ‘Nada de escandaloso nesse campo: a prova é que ele
se encontra no meio da cidade; todos podem vê-lo’. Como se o fato de que um
campo de concentração esteja instalado numa grande cidade – no caso Riga –,
sem que seja necessário dissimulá-lo, como o fizeram os alemães, fosse uma
desculpa! Como se esse despudor em não ocultar aquilo que se faz ali onde é
feito autorizasse reclamar o silêncio em toda parte, e de impô-lo aos outros: o
cinismo funcionando como censura; é o raciocínio de Cyrano: porque meu
nariz é enorme no meio da minha cara, vocês não tem o direito de falar dele.
Como se não fosse preciso, nessa presença de um campo na cidade, reconhecer
o brasão de um poder que se exerce sem vergonha como entre nós em nossas
delegacias, em nossos palácios de justiça ou em nossas prisões. Antes de saber se
os prisioneiros são ‘políticos’, a instalação do campo, tão visível e o terror que
ele exala, são por si mesmos políticos. Os arames farpados que se prolongam
pelos muros das casas, os feixes de luz que se entrecruzam e o passo das
sentinelas na noite, isso é político. E é uma política.”, p. 63.
16
Fim da gravação da fita cassete I, dia 09/01/1980, lado B. A transcrição que
segue foi extraída da gravação da fita cassete IV, dia 30/01/1980, lado A.
17
Cf. Pierre Hadot. Exercices spirituels et philosophie antique. Paris, Albin Michel,
2002, p. 239: “chama-se tradicionalmente ‘teologia negativa’ um método de
pensamento que se propõe conceber Deus aplicando-lhe proposições que negam
todo predicado concebível”.

297
12
2007

RESUMO

Exposição do governo dos homens por meio da verdade e seus


efeitos de subjetivação apresentando um deslocamento
metodológico na reflexão de Michel Foucault da noção de poder-
saber para uma analítica do governo fora das relações de dominação,
e que tem por efeito a reafirmação de uma análise em termos de
ideologia e a elaboração de uma atitude anarqueológica do poder.

Palavras chave: governo, verdade, subjetividade.

ABSTRACT

Thoughts on the governance of men through truth and its effects


of subjectivation. It presents a methodological shift in the thought
of Michel Foucault which moves from the axis of power-knowledge
to an analytics of government apart from the relations of domination.
It has as effect the denial of an ideological analysis and the
development of an anarcheological attitude of power.

Keywords: Government, truth, subjectivity.

Indicado para publicação em 6 de agosto de 2007

298
verve

299
12
2007

Resenhas

lucheni um terrorista anarquista edson lopes*

Luigi Lucheni e Santo Cappon. Memórias do Assassino de


Sissi: história de um menino abandonado no fim do século XIX
contada por ele mesmo. São Paulo, Novo Conceito Editora, 2007,
183 pp. Tradução de Ana Luíza Ramazzina.

Entre selos, antigos volumes, documentos e


papelarias genebrinos, a História de um Menino
Abandonado no Fim do Século XIX Contada por Ele Mesmo
de Luigi Lucheni — nascido em Paris, em outubro de
1873 e registrado no mesmo ano, ao primeiro de Maio
sob o Registro da Matrícula das Crianças Assistidas,
como Criança Abandonada — é colocada à venda pela
filha do antigo carcereiro-chefe da prisão da diocese de
Genebra, na forma de cinco velhos cadernos azuis,
anteriormente expropriados de Lucheni ainda em sua

*
Edson Lopes é mestre pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências
Sociais da PUC-SP e pesquisador no Nu-Sol.
verve, 12: 300-306, 2007

300
verve

Lucheni, um terrorista anarquista

cela e lançados fora dos arquivos da prisão. Santo Cappon


herda e tem às mãos o material comprado por seu pai.
Ali a vida de um assassino notável que a título de exemplo
da teoria sobre os traços de degenerescência dos
anarquistas terroristas, Lombroso se lançou para criação
do relatório de acusação. Morto, na prisão, Lucheni tem
a cabeça cortada, o cérebro extraído, para que talvez
revelasse a anomalia na medida da anomalia do seu
ato, o regicídio. Viram, ambos, peças de exposição no
Instituto de Medicina Legal em 1920, depois doados a
outras instituições. Eram as garantias de que Genebra
se livrava dos vestígios daquele ato e se comprometia
em torná-lo esquecido.
Os tribunais fizeram dos anarquistas, também,
homens infames cujo enfrentamento pretendia diluí-
los nas profusas circunstâncias, objetos e gestos que
configuravam um terrorista, um louco, um monstro. Mas
a repetição insistente e inflamada do “viva a anarquia!”
e os gestos insubmissos destes anarquistas, que provém
de diversos lugares, são uma luta de corpo, uma
desmesura, contra a escassez de liberdade. A publicação
das Memórias do Assassino de Sissi: história de um menino
abandonado no fim do século XIX contada por ele mesmo,
alerta sobre a perpetuação da exploração, inverte a
identificação dos ilegalismos, associando-os aos
burgueses, religiosos e bem intencionados, traz à tona
um embate individualista. Estilo contra o qual pesa toda
sorte de repressão e carceragem.
Lucheni era um peregrino de cidade em cidade, de
prisões em prisões, homem de pequenos trabalhos aqui
e ali, um vagabundo nas cidades. Desejoso de vestir os
uniformes do regimento, de fazer o serviço militar e
tornar-se homem. Em Nápoles, em 1894, passou a fazer
parte do 13º Regimento de Cavalaria de Montferrato e
de lá migrou para a Eritréia ocupada pela Itália, desde

301
12
2007

1895. Lucheni jamais se separou dos documentos que


provavam a condecoração que lhe foi atribuída a título
das campanhas da África (1895 a 1896) e do diploma
assinado pelo Ministro da Guerra que atestava suas
condições por receber tal distinção. Em Nápoles, ao se
desligar do Exército, esperava um emprego no governo,
garantias sociais, recompensas após ter servido
voluntariamente ao Estado; esperava tornar-se guarda
de prisão. Sem a vaga, deu baixa e voltou à peregrinação.
Segundo Cappon, desde então, Lucheni carregaria um
certo ar de vingança ao governo.
Sempre à pé, Lucheni, em peregrinações, era
informado através dos jornais da efervescência do mundo
operário. Freqüentava assiduamente as reuniões do
Exército da Salvação, as sessões religiosas da sala
Valentin e as reuniões operárias. Estabeleceu contato
com os jornais Il Socialista, L´Avanti e Le Père Peinard.
Freqüentou uma reunião de anarquistas italianos em
Neuchâtel. Cappon além da História de um menino
abandonado no fim do século XIX contada por ele mesmo,
refere-se a um caderno de notas de Lucheni, aos rabiscos
em lápis que diziam: “Pátria ingrata Pátria, nunca terás
meus ossos”(p.18), ou “eis a recompensa por ter querido
fazer, voluntariamente, meu serviço militar! Vingar-me
do governo, mas como?” (p.18) , e ainda, “Viva a anarquia!”
(p.18). Cappon não revela possuir, também, este caderno,
não dá referências sobre seu paradeiro, mescla em seus
textos (pp.15-19), à descrição de Lucheni — olhos cinza-
esverdeados, robusto, atarracado, pescoço largo — uma
narrativa que beira a ficção, tentando adivinhar os
pensamentos de sua personagem emprestando-lhe traços
que tentam dar conta da explicação de como Lucheni
passou a se rebelar contra os governantes, contra os
administradores. As memórias de Lucheni mostram um
lado sombrio: como a educação formal fortalece a
obediência e domestica a intempestividade.

302
verve

Lucheni, um terrorista anarquista

Segundo Cappon, Lucheni parecia subitamente


transformado ao dar as costas à Italía, foi preso certa
vez carregando impressos particularmente violentos,
freqüentava associações operárias e reuniões de
anarquistas italianos, escrevia a amigos em Nápoles:
“O ideal anarquista faz aqui [em Lugano] progressos
surpreendentes. Eu lhe peço, faça também seu dever
com os camaradas que ainda não estão a par”(p. 22). A
Sartori, companheiro de quarto, declarou que pretendia
matar alguém muito conhecido, uma cabeça coroada,
“para que se fale disso nos jornais” (p. 22).
Lucheni conhecia Genebra, já havia trabalhado na
cidade apreciada pela nobreza e boa para se encontrar
reis e autoridades graúdas. Pretendia assassinar lá o
príncipe Henri de Orleáns em visita à casa do duque de
Chartres. Mas era notoriamente conhecido que o
príncipe havia deixado a cidade. Ele circulou ali, no
entanto, e esperou.
O convite da baronesa Julie de Rothschild, levou
Elizabeth a Genebra, incógnita a passear pelas ruas
próximas ao hotel Beau-Rivage. Numa manhã as duas
personagens se cruzam, Lucheni e Elizabeth, num
choque violento que assumiria um destino trágico na
imprensa, desencadeador de manifestos de indignação,
de manifestação popular e de compadecimentos pela
Imperatriz Sissi e ainda a repressões policiais e em
novembro de 1896, à Conferência Internacional de Roma
pela Defesa Social Contra os Anarquistas pela qual o
anarquismo passou a ser definido como violência à
organização social e imediatamente associado ao
terrorismo. Preso, na sala tediosa do tribunal que traz à
luz o homem infame, Lucheni referiu-se à propaganda
pela ação, esperando que outros fizessem como ele,
havendo muitos anarquistas em Lausanne e em
Genebra.

303
12
2007

Toda Europa voltou os olhos ao julgamento de Luigi


Lucheni, para quem brada sempre a acusação — “façam-
no, para mim tanto faz!”, — àquele que com seu crime
pretendia vingar sua vida. Nesse espetáculo figura o
relatório de Cesare Lombroso que inspira o libelo de
acusação, os depoimentos do psiquiatra Auguste Forel e
do criminalista Alfred Gautier e os relatórios dos
doutores P. Ldame e E. Régis que, posteriormente, o
visitariam na prisão. Em todos os discursos estava em
jogo porquê as teorias libertárias levadas ao extremo,
utópicas e confusas, teriam seduzido Lucheni ao
assassinato inacreditável. Por loucura, rancor, vaidade,
inteligência frágil, exasperação violenta, louca e
impulsiva? O relatório de Lombroso não satisfazia a
Forel, os preconceitos lhe eram insuportáveis; para ele,
Lucheni não teria de fato, passado miséria ou sofrido de
falta de afeição e o impulso e o caráter influenciável
poderiam explicar o ato regicida. Gautier também recebe
o relatório de Lombroso com desconfiança, como
conclusão prematura, e aludia a uma certa profissão de
fé enunciada por Lucheni que lhe parecia segura de
início e enfraquecida e falsa ao final do processo. Lucheni
foi condenado à prisão perpétua, declarou não se
arrepender de ter matado Sissi e afirmou que o faria
outra vez e que queria, acima de tudo, que não o
dissessem louco.
Na prisão, os livros tornaram-se a paixão de Lucheni,
entre eles Voltaire, Montesquieu e os romanos. Ora a
imprensa denunciava os modos de um bom tratamento
para o regicida, ora a violência de Lucheni na prisão,
desdobrando o lado selvagem incontrolável do assassino.
Afinal, só um monstro poderia ferir uma figura tão doce
e melancólica como Sissi. Os Annales Politiques et
Littéraires diziam Lucheni se tratar de uma hiena que
batia a testa na parede embrutecendo-se mais e mais.

304
verve

Lucheni, um terrorista anarquista

Até Cappon se compadece de Sissi e a cita como


verdadeira libertária. Na obra a alegada instabilidade
de Lucheni é perpassada pelo mesmo tom do discurso
dos criminologistas que em nome de uma normalidade
buscavam a natureza do verdadeiro anarquista. Para o
autor foi estudando que Lucheni passou a se conduzir
bem na prisão, julgando possuir a virtude de conhecer a
si mesmo.
A infância de Lucheni foi posta como álibi de seu ato
criminoso. A História de um menino abandonado no fim
do século XIX contada por ele mesmo é o oferecimento do
próprio Lucheni da história de sua vida, por objetivos
numerosos, mas entre eles, destacaria não se tratar de
buscar a clemência do leitor. Escreve para os
criminalistas, para que na sua biografia vislumbrem a
biografia de um criminoso artificial. Para que vejam que
na infância abandonada, aqueles que são deixados viver,
mais tarde serão usados como exemplos do rigor da lei.
E escreve para que os leitores percebam que não foi um
idiota que matou a imperatriz em nome de uma glória
falsa, “mostrará bem se é com o espírito de queimar
templos, ou se é com aquele que movia Spartacus, que
seu ator fez funcionar a máquina” (p. 76). Em História de
um menino abandonado no fim do século XIX contada por
ele mesmo, Lucheni evidencia seu embate com a prisão
e com a criminologia de sua época, de certa forma, com
a construção do indivíduo perigoso e da infância a se
colonizar internamente. Ele estava na prisão e media
sua força com os gigantes de sua época em torno da
penalidade moderna. Confessa que aos gigantes gostaria
de dedicar sua obra. Ainda assim, a propaganda pela ação
de Lucheni vai além do ato do esfaqueamento de Sissi,
prolonga-se no humor com que enfrenta o tribunal, nos
anos de erudição na prisão, na composição de sua
biografia, no atentado ao novo diretor que lhe extraía a
memória, os cadernos, a escrita, na violência que

305
12
2007

resistia ao que feria sua paixão, o suicídio,


prolongamento da luta, reveses.
Para Lucheni a realidade tem o cuidado de levar os
bastardos aos cadafalsos, à prisão de forçados, às
internações, às qualificações como abandonados e
delinqüentes; às extrações de órgãos para servir ao
tráfico, à fuga de pais violentos, aos seqüestros que
levarão à adoção em outros cantões, em outras famílias,
à prostituição, à escravidão, à adoção que fará de famílias
pobres aptas a receber novas ajudas sociais, à guerra.
As crianças crescem, diria Lucheni, e seus rostos já
não são reconhecidos entre as multidões encarceradas.
Rostos e corpos de crianças desaparecem, dissolvem-se
entre os componentes da história das caridades e das
crueldades que operam a integração da vida dos pobres,
a ajuda social, as legalidades e ilegalidades que
perpetuam os tráficos e a graduação no crime das casas
para menores às prisões. As memórias de Lucheni
denunciam esse funcionamento geral da justiça penal
e a dimensão política do crime desde a propaganda pela
ação ao gesto da escrita e da violência que tenta
preservá-la do roubo, do desaparecimento, do
esquecimento, como um corpo a corpo do indivíduo que
arrisca a própria vida contra o Estado.

306
verve

Para agitar o que está imóvel

para agitar o que está imóvel gustavo simões*

Priscila Piazentini Vieira. Michel Foucault e a História


Genealógica em Vigiar e Punir. São Paulo, Instituto de Filosofia
e Ciências Humanas da Universidade de Campinas, 2005,
160 pp.

Hoje, um enorme contingente de alunos passa pela


universidade anestesiado por discursos e modelos
imobilizadores, buscando fórmulas, fôrmas e receitas,
aderindo à rotina daqueles que fazem da universidade um
lugar conservador, reservando às contestações um passado
cômodo e pacificando a política em departamentos,
programas e salas de aula.
O procedimento genealógico desnaturaliza aquilo que
foi tomado como necessidade pela História, investindo nos
movimentos descontínuos das lutas, batalhas e guerras,
buscando não o glorioso começo das coisas, mas o seu
disparate. Priscila Vieira utiliza a perspectiva explicitada
pelo texto de Michel Foucault, “Nietzsche, a Genealogia e
a História”, para analisar a emergência da prisão como
um problema, rompendo desta maneira, o gesso da história
interessada em explicar seu aparecimento como
“inevitabilidade do progresso imposto aos processos
históricos” (p.20).
Seu texto não sossega o leitor, assim como não recorre
ao refúgio das constantes certezas, propriedades da
“história dos historiadores”, pois percebe o movimento
incessante da relação entre as forças, das batalhas

* Estudante de Ciências Sociais na PUC-SP e integrante do Nu-Sol.


verve, 12: 307-309, 2007

307
12
2007

propiciadas pelo discurso histórico-político que em


contraste com o “estado de paz”, filosófico-jurídico, afirma
que “o sujeito que fala não procura ocupar o espaço do
jurista ou do filósofo (...) Aquele que fala está inserido na
batalha” (p.147).
Atenta à batalha de Vigiar e Punir, Priscila Vieira
questiona autores que interpretam a obra de Michel
Foucault de maneira estática. Sensível no modo de lidar
com a pesquisa conclui que algumas análises, ao
enfatizarem apenas a parte “Disciplina” como a
caracterização da modernidade feita por Foucault, perdem
o próprio movimento do livro, pois segundo ela, “a parte
que finaliza o livro, ‘Prisão’, é fundamental para a percepção
de outras forças participantes nessas relações guerreiras”
(p.157).
O destaque atribuído por Foucault à análise específica
feita pelo jornal socialista La Phalange, em 1840, do
julgamento de uma criança de treze anos acusada de
vadiagem e condenada a dois de correção auxilia, segundo
a pesquisadora, a perceber não somente a noção de lutas
políticas do filósofo francês como também sua política de
revolta. Sobre o embate travado pela criança contra o juiz
no tribunal, Priscila Vieira observa ainda que “ele não faz
um discurso exterior, mas é um sujeito que produz um
discurso perspectivo e, sendo assim, não luta por todos ou
para todos, mas luta pela sua posição dentro de uma
batalha. Pode se falar que essa criança é um sujeito
guerreador” (p.148).
Utilizando a pesquisa histórica sob uma perspectiva
liberadora, Vieira mostra como o recuo histórico ao século
XIX — para analisar as disputas que culminaram na
colonização da instituição penal pelos mecanismos
disciplinares que introduziram no seu interior uma
mecânica de poder específica baseada no controle sobre
os corpos —, é imprescindível para colocar o problema da

308
verve

Para agitar o que está imóvel

pesquisa genealógica, o presente. A pesquisadora mostra


em seu trabalho como o incômodo de Foucault, efeito da
sua atuação no GIP (Grupo de Informação sobre as Prisões),
da eclosão de rebeliões e revoltas em penitenciárias na
década de 1970, fez da urgência o combustível para a
produção de Vigiar e Punir, apontando para a vitalidade desta
obra que percebe na história algo que escapa a muitos
pesquisadores, “o ronco surdo das batalhas”.
Premiada no XIII Concurso de Monografias em 2005,
realizado pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
(IFCH) da Universidade de Campinas (Unicamp), a
publicação desta Monografia orientada por Margareth Rago,
valoriza uma pesquisa interessada e minuciosa sobre o
percurso genealógico realizado por Michel Foucault em
Vigiar e Punir. Estímulos raros como este realizado pelo
IFCH da Unicamp à produção de livros de jovens
pesquisadores é vital, não somente por sacudir a poeira
da universidade, mas também para possibilitar a
emergência de trabalhos contundentes, que se
diferenciam da preponderante mesmice produzida pela
elite intelectual que controla o mercado editorial.
Se hoje, boa parte dos estudantes que habitam a
universidade reage às experimentações corajosas de
liberdade, ainda pipocam surpresas que trazem à tona
potências jovens, mais pelo seu destemor, do que por sua
faixa etária. Trabalhos ousados, como o de Priscila Vieira,
fermentam o morno ambiente universitário encarando-o
como um lugar aberto à irrupção de singularidades.
Problematizar o que acontece hoje, dentro e fora da
universidade é importante para agitar o que está imóvel.
Certos jovens e pesquisadores que imprimem este tom
incomodam quem percorre o itinerário dos seus
corredores carregando a grave pompa acadêmica, pois
passam por eles com insuportável leveza, afirmando e
experimentando a vida arisca à domesticações e às
certezas das cantilenas.

309
12
2007

desejo de segurança
e terrorismo de estado acácio augusto*

Ação Literária pela Autodeterminação dos Povos. Terrorismo


de Estado na Rússia: a guerra na Tchetchênia nos descaminhos
da indústria da violência. Rio de Janeiro, Ed. Achiamé, 2006,
116 pp.

Em 1994 ocorre a primeira ação militar do governo


russo pós-URSS contra os povos que habitam a região
da Techetchênia e do Cáucaso Setentrional. Uma região
de maioria muçulmana que se torna, desde então, alvo
do governo de Moscou sob a acusação de abrigarem
terroristas. Esse é o ponto de partida do livro preparado
por Fernando Bonfim e Cristina Dunaeva, assinado como
Ação Literária pela Autodeterminação dos Povos, um grupo
que trabalha na divulgação de informações acerca do
conflito tchetcheno, por meio de publicações, palestras
e textos impressos ou disponibilizados na Internet. Este
livro é uma das ações do grupo.
Com o objetivo de “desfazer o silêncio de uma guerra
que já vitimou centenas de milhares de pessoas,
provocou uma das maiores ondas contemporâneas de

* Bacharel em Ciências Sociais pela PUC-SP, mestrando no Programa de Estu-


dos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP, bolsista CNPq, pesquisa-
dor no Nu-Sol e integrante do Centro de Cultura Social de São Paulo (CCS-
SP).
verve, 12: 310-315, 2007

310
verve

Desejo de segurança e terrorismo de Estado

refugiados na região e instaurou uma política de medo


cotidiana de escala continental” (p.8), o livro se divide
em quatro partes. Seguindo essa divisão, faço algumas
anotações a partir da extensa documentação oferecida
pelo livro, ressaltando que muitos desses documentos
estão na íntegra, anexos à publicação.
O primeiro capítulo, que traz uma sistematização de
dados sócioculturais da região da Tchetchênia, descreve
sua geografia e sua organização social e econômica. Os
dados indicam que sua localização em região
montanhosa e de economia baseada na plantação de
grãos e atividade pastoril nômade, a predispõe à
resistência aos processos de unificação, primeiro pelo
Czar, e em seguida pelo governo soviético.
O segundo capítulo localiza a emergência do conflito
na unificação Czarista do Estado Russo e na ascensão
do governo bolchevista. Desfaz assim, a argumentação
marxista que aponta para um desvio stalinista da
revolução russa, lembrando que a Tcheka — polícia
secreta dos bolchevistas — foi criada em dezembro de
1917, pelo próprio Lênin, como comissão extraordinária
tornando-se, mais tarde, KGB (p. 24 e anexo II, pp. 84-
87). O governo do Partido Comunista, desde sua
instauração, perseguiu os inimigos da classe,
interrompendo as revoltas operárias e camponesas que
emergiam em território russo desde 1905 — entre
anarquistas e outras correntes do socialismo — com
violenta repressão comandada pelo Exército Vermelho
de Trotsky. O processo de russificação, das regiões em
torno do antigo Império czarista, iniciado em 1922, é
apenas o desdobramento do programa político dos
bolchevistas. Lançando mão de um extenso material
histórico e de documentos traduzidos do russo, o livro
apresenta os desdobramentos do conflito de uma região
que mostrou resistências à unificação do Império

311
12
2007

Czarista, à ditadura bolchevista e ao atual governo


nacionalista-democrático.
Marcadas as procedências históricas dos conflitos na
região tchetchena, a terceira parte do livro localiza
ascensão de sua versão contemporânea nos primeiros
movimentos de independência pós-segunda guerra
mundial. Estas organizações formadas pela grande
maioria islâmica da região lança mão, a partir de um
determinado momento, de ações terroristas. Um
terrorismo que realiza ações violentas objetivando a
criação de um Estado tchetcheno, um terrorismo por
Estado. A resposta imediata do governo russo é a
continuidade do terror de Estado. Mas, com o fim do
Império soviético, reacende-se a esperança dos
tchetchenos por um Estado independente. Ao contrário
do que alardeavam os democratas, o terror continua, de
ambos os lados. É assim que a ação militar do governo
de Putin, em 1994, desnuda um conflito que andava
camuflado.
“Eles reclamam das limpezas, queixam-se de
desaparecimento dos parentes. Só que isso não acontece
por acaso. Pessoas normais não somem na Tchetchênia.
Somem monstros que devem ser exterminados, extintos”
(p.56). Estas foram palavras de um oficial russo, em 1995,
que explicita ser a democracia liberal, alçada à condição
de panacéia planetária incapaz de resolver os conflitos
com suas leis e regras de freios e contrapesos. Mais do
que isso, evidencia o que já se sabe: nenhum Estado,
por mais democrático que seja, prescinde do uso da força
contra os dissidentes.
O oficial continua: “por isso exterminar os bandidos
na calada da noite é o meio mais eficaz da guerra. Eles
temem isso. E em nenhum lugar se sentem em casa.
Nem nas montanhas, nem dentro das casas. Hoje não
precisamos das grandes operações. Precisamos das

312
verve

Desejo de segurança e terrorismo de Estado

operações noturnas, precisas, cirúrgicas. Os fora da lei


podem ser combatidos somente fora da lei” (Idem). Não
há, nesta afirmação, desrespeito ou contrariedade às
leis, mas complementação de práticas que compõem
uma política de Estado. Tal afirmação parece traduzir o
desejo de uma época em que a obsessão por limpeza e
extermínio dos indesejáveis é o axioma de uma vida
segura e tranqüila.
Entretanto, nem tudo é continuidade ou retorno ao
passado. Seria impreciso afirmar que o que se passa
nesse conflito está predestinado à Rússia e determinado
pelo seu passado czarista ou socialista. Mais impreciso
seria dizer, como afirmam os autores juntos com Hanna
Arendt, que o país sofre uma “volta ao totalitarismo da
noite para o dia sem grandes convulsões” (p.68). Isso
apenas nos faria desejar ardorosamente a constituição
do Estado democrático de direito, sob o qual as cenas
que embrulham o estômago do leitor em relatos e fotos
do livro se repetem incessantemente das maneiras mais
diversas e sob os argumentos mais sutis. Argumentos
que afirmam a necessidade da existência do Estado, das
leis e da autoridade centralizada em nome da segurança
e da boa convivência entre os honestos cidadãos.
De fato, refaz-se nesse conflito a construção do
inimigo que justifica as ações policiais e militares. No
entanto, esse inimigo, no passado facilmente localizado
e identificado, de certa maneira, impunha limites às
ações violentas, mesmo que fosse apenas no limite
territorial determinado pelo Estado-Nação ou pelos
conflitos entre Estados e seus acordos de paz sempre
prontos a serem rompidos. Hoje, esse inimigo é invisível,
pode ser qualquer um. A guerra está desterritorializada,
procede por ações policias planetárias que lançam mão
de dispositivos eletrônicos conectados por satélites e de
mecanismos constitucionais do próprio Estado
democrático de direito.

313
12
2007

Isso nos leva a notar que se ações de extermínio


persistem, hoje, importa mais a administração
indeterminada do conflito como fim, do que a definitiva
anexação do território Tchetcheno ao Estado russo. É
desta maneira que se perpetua o que os autores chamam
de indústria da violência, que alimenta, com armas de
alta tecnologia, tanto o exército russo, quanto os
terroristas islâmicos, fazendo dos habitantes dessa
região inquilinos de uma grande prisão a céu aberto
(p.58).
O mais terrível é que entre o universalismo do direito
moderno, que emerge do Estado-Nação e que hoje se
pretende planetário, juntamente com o universalismo
religioso dos terroristas islâmicos tchetchenos, as
mortes, estupros, mutilações, torturas, ataques
noturnos, cirúrgicos ou aéreos seguem alimentando o
medo cotidiano da guerra e a esperança numa paz
inexeqüível.
Os que decidem sair dessa grande prisão tornam-se
refugiados em Moscou ou em outras grandes cidades
russas, tema do quarto e último capitulo do livro. A vida
desses refugiados nos grandes centros urbanos mostra
que antes dessas ações aparecerem em fotos e relatos
causando nojo, elas estão no desejo de cada cidadão que
clama por segurança e paz voltados para o Estado, para
Deus ou Alá. É esse desejo que prepara o terreno para o
surgimento tanto do terrorismo de Estado, quanto dos
atuais movimentos de extrema direita, também
documentados pelos autores — os skins heads. Estes são
cada vez mais abundantes na Rússia e em toda Europa,
identificando na figura do estrangeiro o motivo de suas
vidas frustradas.
É preciso ter estômago. Só uma reação física pode
explicitar o que ocorre ao se deparar com esse trabalho
da Ação Literária pela Autoderteminação dos Povos e a sua

314
verve

Mais do mesmo

terrível descrição da situação de guerra na região da


Tchetchênia. Mortes, estupros, ataques em massa,
exércitos; jovens, adultos, mulheres e crianças
massacrados pela glória do Estado unificado.

mais do mesmo gabriel prestes espiga*

Christiane Russomano Freire. A violência do sistema


penitenciário brasileiro contemporâneo – o caso RDD (Regime
Disciplinar Diferenciado). São Paulo, IBCCRIM, 2005, 169 pp.

O livro de Christiane R. Freire é uma monografia


premiada no 9º Concurso de Monografias Jurídicas,
promovido em 2005, pelo Instituto Brasileiro de Ciências
Criminais. A autora é mestre em Ciências Criminais pela
PUC-RS, professora de Direito Penal na Universidade de
Caxias do Sul e assessora de desembargador no Tribunal
de Justiça do Rio Grande do Sul.
Neste estudo sobre a violência no sistema penitenciário
brasileiro encontramos uma interessante análise sobre o
Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), implantado no
Brasil oficialmente em 2003 e, portanto, ainda pouco
estudado.
Para problematizar o RDD a autora parte da perspectiva
analítica das dimensões que envolvem o movimento de
revitalização das prisões a partir da noção de radicalização

* Bacharel em Direito pela UCPel, mestrando no Programa de Estudos Pós-


Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP e pesquisador no Nu-Sol.
verve, 12: 315-318, 2007

315
12
2007

e universalização das conseqüências da sociedade


moderna, proposta por Ulrich Beck e Anthony Giddens,
localizando o sistema penal brasileiro no movimento global
de punitividade.
Refere-se à punitividade como o conjunto de técnicas
de disciplina e controle incorporadas ao sistema penal
desde a década de 1960, através do movimento da Nova
Defesa Social, e, posteriormente, reformuladas com as
políticas inspiradas no Programa de Tolerância Zero
norte-americano, tendência de aplicar cada vez mais
penas reforçando a severidade dos dispositivos legais e
multiplicando o contingente de encarcerados.
Demonstra, como resultado dessa efervescência
punitiva, a profusão de leis que intensificam a execução
penal e dão um novo significado ao sistema penitenciário,
promovendo o cárcere como um espaço ideal para a
consecução do controle definitivo sobre o sujeito
aprisionado, sua contenção e eliminação do meio social.
O surgimento do RDD está associado à resposta
enérgica do Estado às mega-rebeliões organizadas pelos
integrantes das chamadas grandes facções “criminosas”,
em especial a ocorrida em São Paulo, no início de 2001,
que envolveu vinte e cinco unidades prisionais e quatro
cadeias públicas.
Com o RDD a noção de disciplina ganha outra
dimensão pedagógica ao romper com a lógica progressiva
de punições e recompensas, afastando o apenado do
contato com o exterior, já que sua prática efetiva consiste
em punir com o isolamento celular, voltando,
paradoxalmente, à época da solitária, agora revestida de
mecanismos legais e fundamentada de acordo com as
políticas de segurança pública.
Percebemos que o recrudescimento das práticas
punitivas, a intenção de conter/eliminar os sujeitos

316
verve

Mais do mesmo

encarcerados e a inflação legislativa de mecanismos


penais apontam para outras falácias no discurso jurídico-
penal, pois as novas políticas de segurança pública
continuam renovando os investimentos punitivos, mas
paradoxalmente eles continuam exaltando o fracasso do
sistema penal, se o enxergarmos frente aos
fundamentos legais que o constituem.
Tal análise transparece com o RDD, pois ele surgiu
para conter as principais lideranças das facções
criminosas, numa tentativa desesperada de evitar novas
rebeliões, entretanto, as rebeliões não deixaram de
acontecer e os líderes foram substituídos por outros.
Aliás, podemos também reconhecer este contínuo
fracasso de que se fala se analisarmos também outras
significações mais recentes para o sistema
penitenciário, como a sua utilização (principalmente nos
Estados Unidos) como albergue, ou mesmo como lar, já
que as penitenciárias são obrigadas a prestar os serviços
de alimentação, saúde, educação e trabalho aos
apenados, uma vez que o Estado cumpre menos com suas
garantias constitucionais em relação aos indivíduos em
liberdade.
Outra significação recente é a evidente tendência
de expansão do espaço carcerário para a prisão a céu
aberto, a partir da contenção das massas em zonas
altamente controladas e policiadas, onde é possível
investir em dispositivos tecnológicos de controle via
satélite, a exemplo das coleiras e pulseiras eletrônicas
utilizadas pelo Estado no condenado em liberdade
assistida (já em projeto no Congresso para a aplicação
no Brasil).
O estudo de Christiane R. Freire deixa claro que o
sistema penal brasileiro vem sendo preenchido por
dispositivos humanizados por retóricas garantistas no

317
12
2007

discurso jurídico-penal (RDD), mas perversos e


antagônicos em sua aplicabilidade prática (Solitária).
De uma perspectiva abolicionista do sistema penal,
entretanto, não interessa apenas a abolição dos meca-
nismos e dispositivos de controle e disciplina da execu-
ção penal, mas sim a ruína de seu sistema. Não inte-
ressa mediação de um Estado para a resolução dos con-
flitos ou tutela dos direitos e garantias fundamentais,
mas a possibilidade dos próprios envolvidos criarem so-
luções para as suas situações-problema. Toda a refor-
ma no sistema penal, por mais que melhore a condição
de execução e cumprimento da pena, é feita para conti-
nuar punindo; portanto, é mais do mesmo, com ou sem
garantismos, com penas mínimas ou não, pois estas são
a porta de entrada para as solitárias tanto quanto para o
RDD.
Já que estamos, segundo a autora, numa era de pu-
nitividades, podemos investir numa resistência justa-
mente contrária, investindo no fim da prisão a partir do
fim do sentenciamento de encarceramento. Quem ima-
gina penas mínimas nunca sabe onde terminam as
máximas. Quem se acomoda no RDD como política de
segurança se assemelha aos ocupantes das celas. Tra-
ta-se de um efeito reativo, próprio de uma sociedade em
fase conservadora e conformista como a nossa. O livro
de Christiane R. Freire é um retrato da época atual em
que se crê no aumento da punição, em que se levou o
programa de tolerância zero ao patamar de política de
segurança.

318
verve

319
12
2007

NU-SOL
Publicações do Núcleo de Sociabilidade Libertária, do Programa de
Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP.

hypomnemata
Boletim eletrônico mensal, 1999-2006

vídeos
Libertárias, 1999
Foucault-Ficô, 2000
Um incômodo, 2003
Foucault, último, 2004
Manu-Lorca, 2005
A guerra devorou a revolução. A guerra civil espanhola, 2006
Cage, poesia, anarquistas, 2006

CD-ROM
Um incômodo, 2003 (artigos e intervenções artísticas do Simpósio Um
incômodo)

Coleção Escritos Anarquistas, 1999-2004


1. a anarquia Errico Malatesta
2. diálogo imaginário entre marx e bakunin Maurice Cranston
3. a guerra civil espanhola nos documentos anarquistas C.N.T.

4. municipalismo libertário Murray Bookchin


5. reflexões sobre a anarquia Maurice Joyeux
6. a pedagogia libertária Edmond-Marc Lipiansky

7. a bibliografia libertária — um século de anarquismo em língua portu-


guesa Adelaide Gonçalves & Jorge E. Silva
8. o estado e seu papel histórico Piotr Kropotkin

9. deus e o estado Mikhail Bakunin


10. a anarquia: sua filosofia, seu ideal Piotr Kropotkin
11. escritos revolucionários Errico Malatesta

12. anarquismo e anticlericalismo Eduardo Valladares


13. do anarquismo Nicolas Walter

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14. os anarquistas e as eleições Bakunin, Kropotkin, Malatesta, Mirbeau,

Grave, Vidal, Zo D’Axa, Bellegarrigue, Cubero


15. surrealismo e anarquismo Joyeux, Ferrua, Péret, Doumayrou, Breton,
Schuster, Kyrou, Legrand

16. nestor makhno e a revolução social na ucrânia Makhno, Skirda,


Berkman
17. arte e anarquismo Ferrua, Ragon, Manfredonia, Berthet, Valenti

18. análise do estado — o estado como paradigma do poder Eduardo


Colombo
19. o essencial proudhon Francisco Trindade

20. escritos contra marx Mikhail Bakunin


21. apelo à liberdade do movimento libertário Jean-Marc Raynaud
22. a instrução integral Mikhail Bakunin

23. o bairro, o consumo, a cidade... espaços libertários Bookchin, Boino,


Enckell
24. max stirner e o anarquismo individualista Armand, Barrué, Freitag

25. o racionalismo combatente: francisco ferrer y guardia Ramón Safón


26. a revolução mexicana Flores Magón
27. anarquismo, obrigação social e dever de obediência Eduardo Colombo

28. Bakunin, fundador do sindicalismo revolucionário Gaston Leval

29. Autoritarismo e anarquismo Errico Malatesta

Livros

Edson Passetti e Salete Oliveira (orgs.). Terrorismos. São Paulo, Cortez,


2006.

Edson Passetti e Salete Oliveira (orgs.). A tolerância e o intempestivo.


São Paulo, Ateliê Editorial, 2005.
Edson Passetti (org.). Curso livre de abolicionismo penal. Rio de Janeiro,
Editora Revan/Nu-Sol, 2004.
Edson Passetti (org.). Kafka-Foucault, sem medos. São Paulo, Ateliê
Editorial, 2004.
Mikhail Bakunin. Estatismo e anarquia. São Paulo, Ed. Imaginário/Ícone
Editora/Nu-Sol, 2003.
Pierre-Joseph Proudhon. Do Princípio Federativo. São Paulo, Ed.
Imaginário/Nu-sol, 2001.

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Recomendações para colaborar com verve

Verve aceita artigos e resenhas que serão analisados pelo Con-


selho Editorial para possível publicação. Os textos enviados à re-
vista Verve devem observar as seguintes orientações quanto à for-
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a) Artigos: os artigos não devem exceder 26.000 caracteres


contando espaço (aproximadamente 15 laudas), em fonte Times
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b) Resenhas: As resenhas devem ter no máximo 05 páginas


(até 9.000 caracteres com espaço), em fonte Times New Roman,
corpo 12, espaço duplo.

Identificação:

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para identificá-lo em nota de rodapé.

Resumo:

Os artigos devem vir acompanhados de resumo de até 10 li-


nhas — em português e inglês — e de três palavras-chave (nos
dois idiomas).

Notas explicativas:

As notas, concisas e de caráter informativo, devem vir em nota


de fim de texto.

Citações:

As referências bibliográficas devem vir em nota de fim de texto


observando o padrão a seguir:

I) Para livros:

Nome do autor. Título do livro. Cidade, Editora, Ano, página.

Ex: Max Stirner. O falso princípio de nossa educação. São Paulo,


Imaginário, 2001, p. 74.

II) Para artigos ou capítulos de livros:

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verve

Nome do autor. “Título” in Título da obra. Cidade, Editora, ano,


página.

Ex: Michel de Montaigne. “Da educação das crianças” in


Ensaios, vol. I. São Paulo, Nova Cultural, Coleção Os pensadores,
p.76.

III) Para citações posteriores:

a) primeira repetição: Idem, p. número da página.

b) segunda e demais repetições: Ibidem, p. número da página.

c) para citação recorrente e não seqüencial: Nome do autor,


ano, op. cit., p. número da página.

IV) Para resenhas

As resenhas devem identificar o livro resenhado, logo após o


título, da seguinte maneira:

Nome do autor. Título da Obra. Cidade, Editora, ano, número


de páginas.

Ex: Pierre-Joseph Proudhon. Do Princípio Federativo. São Paulo,


Ed. Imaginário, 2001, 134 pp.

V) Para obras traduzidas

Nome do autor. Título da Obra. Cidade, Editora, ano, número


de páginas. Tradução de [nome do tradutor].

Ex: Michel Foucault. As palavras e as coisas. São Paulo, Martins


Fontes, 2000. Tradução de Salma T. Muchail.

As colaborações devem ser encaminhadas por meio eletrônico


para o endereço verve@nu-sol.org salvos em extensão rtf. Na
impossibilidade do envio eletrônico, pede-se que a colaboração em
disquete seja encaminhada pelo correio para:

Revista Verve

Núcleo de Sociabilidade Libertária (Nu-Sol), Programa de Estudos


Pós-graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Rua Ministro
Godói, 969, 4o andar, sala 4E-20, Perdizes, CEP 05015-001,
São Paulo/SP.

Informações e programação das atividades


do Nu-Sol no endereço:
www.nu-sol.org

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