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Curso de Formação em História e Cultura Afro Brasileira e Africana

2ª etapa
Maio – Julho/2007

Realização: Ágere Cooperação em Advocacy


Apoio: Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade/MEC

Autoria: Álvaro Sebastião Teixeira Ribeiro


Bárbara Oliveira Souza
Edileuza Penha de Souza
Iglê Moura Paz Ribeiro

MÓDULO I
Aula 4: Concepções que envolvem o Plano Político-Pedagógico – PPP

Problematização do tema:

• Que conhecimento da Lei nº 10.639/2003 você possui? Sua escola já realizou alguma
atividade para sua implementação? Quais? Dê que forma?

 Quais são os impactos que a Lei nº 10.639/03 e as Diretrizes Curriculares para o


Ensino da Cultura e História Afro-Brasileira e Africana geraram em sua escola?

 A cultura, história, literatura e tradições afro-brasileiras e a perspectiva étnico-racial


estão presentes no Projeto Político-Pedagógico da sua escola?

 Na sua opinião, é possível construir um Plano Político-Pedagógico segundo uma


perspectiva de ancestralidade afro-brasileira?

Informações sobre o tema:

Ando devagar porque já tive pressa


e levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história,
e cada ser em si carrega o dom de ser capaz, e ser feliz.
Tocando em frente - Almir Sater e Renato Teixeira

A luta pelo acesso e valorização da educação formal tem sido pautada pela população negra
desde a assinatura da Lei Áurea. Como salienta o pesquisador e sociólogo Sales Augusto
(2005), após a chamada abolição da escravatura “Houve uma propensão da população negra
a valorizar a escola e a aprendizagem escolar como um 'bem supremo' e uma espécie de
'abre-te sésamo' da sociedade moderna. A escola passou a ser definida socialmente pelos(as)
negros(as) como um veículo de ascensão social”.
O espírito de luta, independência e liberdade foi e é a contrapartida da situação de miséria e

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de exclusão social do povo negro, como marco de resistência. As comunidades de terreiro, os
diversos grupos culturais, esportivos e religiosos, a imprensa negra e as entidades sócio-
políticas e religiosas, além dos incontáveis quilombos, constituíram-se como instrumentos
eficazes de combate ao racismo e à discriminação racial ao longo de toda a história do Brasil.

As intensas demandas por parte da sociedade organizada no sentido de garantir uma


educação mais justa e igualitária resultaram na Lei nº 10.639/20031, seguida da instituição e
implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-
raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, aprovadas pelo
Conselho Nacional de Educação – CNE em 10 de março de 2004. As Diretrizes alteram a Lei
nº 9.394/1996 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, assegurando “o direito às histórias
e culturas que compõem a nação brasileira, além do direito às diferentes fontes da cultura a
todos os brasileiros”2.

As diretrizes são normas reguladoras, constituindo-se em orientações, princípios e


fundamentos para que as instituições de ensino desenvolvam programas de formação do
quadro docente, bem como promovam a educação de cidadãos atuantes e conscientes no
seio da sociedade brasileira, multicultural e pluriétnica3. Nesse sentido, as Diretrizes
Curriculares para a Educação das Relações Étnico-raciais e para o Ensino de História e
Cultura Afro-brasileira reconhecem a necessidade de políticas de reparação e apontam
caminhos de valorização e ações afirmativas, como a ação de combate ao racismo e à
discriminação, bem como o fortalecimento de direitos e identidade da população negra e afro-
descendente.

Proporcionar uma educação com vistas a interromper a reprodução de práticas


discriminatórias e racistas é o desafio posto a todos os educadores e educadoras, além de
expressar o comprometimento com uma escola de qualidade, centrada no respeito às
diferenças e na diversidade das crianças, adolescentes e jovens.
A escola deve ser um locus privilegiado da construção da coletividade e, conseqüentemente,
do espaço de cidadania, inclusão e respeito ao próximo. Para que a comunicação em tempos
de ações afirmativas seja possível, é necessária a utilização de uma dinâmica pedagógica
beneficiando as relações interativas das pessoas que compõem a comunidade escolar
(estudantes, pais, professores, funcionários e direção). Para isso, é necessária a construção
conjunta do processo educativo, por meio de mecanismos que propiciem um planejamento
coletivo, em que todas essas pessoas tenham plena participação criadora. Reunir, ritualizar,
renovar e repensar os caminhos percorridos pela escola é o papel político-social de todos(as)
os(as) envolvidos(as) com a educação. É, portanto, trazer a igualdade de gênero, raça e o
respeito à diversidade a todos os espaços educacionais o que conduz à institucionalização da
eqüidade, da humanização e do desenvolvimento emocional como base para criação e/ou
reformulação do Plano Político-Pedagógico.

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É importante que se entenda a Lei nº 10.639/2003 como bandeira de luta da sociedade organizada desde a assinatura da
Lei Áurea. Para saber mais sobre o assunto, veja o texto “A Lei Nº. 10.639/03 como fruto da luta anti-racista do
Movimento Negro”. SANTOS, Sales Augusto dos. In Educação anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal nº
10.639/03.
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Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-raciais e para o Ensino de História e Cultura
Afro-Brasileira e Africana (página 9).
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A sociedade brasileira é composta e fundamentada por várias culturas e povos, daí o seu caráter multicultural e
pluriétnico.

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Projeto Político-Pedagógico
O crescimento da participação e do envolvimento dos(as) professores(as) nas questões
pedagógicas, não só é necessário como também é garantido pela Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional – LDB. Esta recomendação amplia a autonomia e a consciência do
profissional quanto ao processo desenvolvido e aumenta o sentimento de pertencimento do(a)
professor(a) ao Projeto Político-Pedagógico. A gestão democrática não é uma concessão do
Estado, mas uma conquista da comunidade escolar que toma consciência da necessidade de
uma atuação transformadora das estruturas “a cada passo sobre o momento histórico”
(SIQUEIRA, 2006, p. 129). Com liberdade, ética e consciência política, maior é o alcance da
autonomia pedagógica, administrativa e financeira, da escola.
Nessa perspectiva, a instituição escolar precisa orientar-se por alguns princípios como o do
caráter público da educação, da inserção social da escola e da gestão democrática, na qual as
práticas participativas, a partilha do poder, a socialização das decisões desencadeia
processos de aprendizagem do jogo democrático. Daí que, mobilizar-se, organizar-se para
participar e decidir sobre as políticas em âmbito escolar é concorrer para a construção de uma
democracia local, alargando as possibilidades para construções em outros âmbitos.
O Projeto Político-Pedagógico – PPP é um instrumento possível e legal na construção dessa
gestão mais participativa e democrática. A professora Ilma Passos (2000) nos apresenta
alguns pressupostos que regem a organização do PPP. São eles:
a) Igualdade de condições para acesso e permanência na escola.
b) Qualidade para todos.
c) Gestão democrática.
d) Liberdade.
e) Valorização do magistério.

São muitas as concepções que envolvem o Plano Político-Pedagógico. Entretanto, constituir


uma gestão democrática, sedimentada nos valores da liberdade, da valorização do magistério
passa por incorporar novos formatos filosóficos para a escola. A estrutura organizativa do PPP
precisa atentar para os princípios, valores e tradições que permeiam a escola, cenário vivo em
que a tradição, os costumes, os saberes, os diferentes modos de vida, o conhecimento são
sementes que podem brotar, nascer, florir e frutificar em métodos pedagógicos, em que a
experiência dos mais velhos e a estrutura organizativa promovam a implementação de uma
escola plural sedimentada nos saberes e nos conhecimentos da ancestralidade africana.
(SIQUEIRA, 2006).

Para que a escola seja mais igualitária, ela tem de ser de qualidade para todas as pessoas.
Tanto qualidade pedagógica, como política. A escola necessita de mecanismos pedagógicos
e participativos que garantam ao estudante um ensino de qualidade e ininterrupto, evitando a
repetência e a evasão. Nesse sentido, a gestão democrática é condição indispensável para o
rompimento com uma prática escolar autoritária e mantenedora dos privilégios dos grupos fa-
vorecidos historicamente. Mais participação, para a superação das dicotomias, entre teoria e
prática, professor(a) e estudante, comunidade e instituição, entre outras.

Por isso, há necessidade de construir-se um projeto político-pedagógico que represente os


anseios e as possibilidades da comunidade educacional. A gestão democrática parte do prin-
cípio de que todos somos livres para tomar decisões. Liberdade é um princípio que a Consti-

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tuição nos assegura e devemos, também, ter liberdade para desenvolvermos um espaço es-
colar problematizador e investigativo.

Finalmente, uma escola livre, de qualidade, igualitária e democrática necessita de profissio-


nais valorizados. Valorização dos profissionais da educação significa formação profissional
qualificada e permanente e boas condições de trabalho, incluindo remuneração justa. (CF VEI-
GA, 2000).

Praticando

- Sua escola tem Projeto Político-Pedagógico? Se sim, verifique como estão retratadas a
história e a cultura africana e afro-brasileira? Qual é o espaço dedicado ao tema? Como você
pode contribuir para enriquecer essa abordagem? Se não, discuta a importância do Projeto
para a escola e apresente a relevância de abordar a temática.

- Reflita e escreva sobre alguns pontos para inserir a temática na sua disciplina.

- Você acha que a escola brasileira e, particularmente a sua, é de qualidade? O que você
considera uma escola de qualidade?

Referências:

Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-raciais e para o


Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, aprovadas pelo Conselho Nacional de
Educação – CNE em 10 de março de 2004.
Lei nº 9.394/1996 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,

RIOS, Terezinha. Significado e pressupostos do projeto pedagógico. In: Série idéias. São
Paulo: FDE, 1982.
SANTOS, Sales Augusto. A Lei nº 10.639/03 como fruto da luta anti-racista do movimento ne-
gro. In: Educação anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal nº 10.639/03. Brasí-
lia Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade / Ministério da
Educação (Coleção Educação para todos), 2005.
SIQUEIRA, Maria de Lurdes. Siyavuma- uma visão africana do mundo. Salvador: Ed.
Autora, 2006.
VEIGA, Ilma P.A. (Org.). O projeto político pedagógico da escola: uma construção
possível. 11.ed. Campinas: Papirus, 2000.

Filmes

Amistad

Direção: Steven Spielberg - Baseado numa história real, o filme conta a incrível viagem de
africanos escravizados que se apoderam do navio onde estavam aprisionados e tentam
retornar à sua adorada terra natal. Quando o navio, La Amistad, é capturado, os africanos são
levados aos Estados Unidos, acusados de assassinato e aguardam sua sentença na prisão.

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Inicia-se então uma contundente batalha, que chama a atenção de todo o país, questionando
a própria finalidade do sistema judicial americano. Mas para aqueles homens e mulheres sob
Julgamento, é uma luta pelo direito maior do ser humano: a liberdade.

Hotel Ruanda
Direção: Terry George. Em meio a um conflito que matou quase um milhão de pessoas em
menos de 4 meses, em Ruanda, um homem abre o hotel que gerencia para abrigar a maior
quantidade possível de pessoas.

Madame Brouette

Direção: Moussa Sene Absa. Se passa no Senegal, na França e no Canadá. É de 2002.

O Jardineiro Fiel

Baseado na obra do escritor John Le Carré, narra a história de um diplomata inglês no Quênia
que tenta desvendar a morte de sua mulher, ativista dos direitos humanos. Durante esse
processo, ele descobre que ela era alvo em potencial da indústria farmacêutica, que usa
cobaias humanas naquele país.

Um Grito de Liberdade

Nos anos 1970, na África do Sul do apartheid, Donald Woods (Kevin Kline) é um jornalista
branco que conhece e se torna amigo de Stephen Biko (Denzel Washington), o
importante militante pelos direitos dos negros. Quando Biko é morto na prisão, em
1977, Woods percebe a necessidade de divulgar a história do ativista, a perseguição
que sofreu, a violência contra os negros, a crueldade do regime do apartheid. Mas ele e
sua família também se tornam alvos do racismo, e precisam deixar o país às pressas.

Sítios

www.acordacultura.org.br
http://www.educacao.salvador.ba.gov.br/documentos/contribuicao-povos africanos.pdf
www.ceert.org.br
www.unidadenadiversidade.org.br
http://www.acordacultura.org.br

Texto da professora Ilma Passos Alencastro Veiga, Pesquisadora Associada da Faculdade de


Educação da Universidade de Brasília (UNB):
http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v23n61/a02v2361.pdf.

Texto da Professora Marília Fonseca. Pesquisadora associada da Faculdade de Educação da


Universidade de Brasília (UNB):http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-
32622003006100004&lng=pt&nrm=iso&tlng=p

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Materiais Áudio-visuais

Série de Programas Educativos “Salto para o Futuro”: www.tvebrasil.com.br/SALTO

1. Série: Brasil Alfabetizado em movimento (especificamente o programa 5): “Experiências


de Alfabetização de Pessoas Jovens e Adultas em Movimento” (2004).
2. Série: Repertório afro-brasileiro: entre o clichê e a pesquisa em sala de aula (2004).
3. Série:Valores Afro-brasileiros na Educação (2005).
4. Série:Contos e Re-contos: literatura e recreação. Especificamente, programa 3:
“Contos e Re-encantos: vozes africanas e afro brasileiras” (2005).