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O futuro do digital commons [domínio digital público]

Quinta-feira, 22.09.05

17:00-19:00 horas

A look at arguments and legal confrontations over the control of music, writing and visual
materials in the digital age.
abstract | speakers | summary | audiocast | video

32-155

Resumo

Argumentos e confrontos jurídicos sobre o controle da música, de escritos e de materiais visuais passaram
a integrar o cotidiano da vida contemporânea e certamente se ampliarão e se intensificarão em anos
futuros. Conforme produtores e distribuidores corporativos – incluindo algumas universidades e
bibliotecas particulares – assumem uma postura mais agressiva para reivindicar a propriedade de
conteúdo digital de toda sorte, e alguns setores pressionam para a inclusão de princípios de vigilância em
sistemas operacionais de computadores, outros defendem uma visão alternativa. Esta alternativa abraça os
ideais de compartilhamento e comunidade cívica, advertindo que as recentes ampliações de direitos
autorais ameaçam a criatividade e a livre troca de idéias. Existe um futuro para esta idéia de um digital
commons? A tradição americana de oferecer bibliotecas públicas gratuitas representa um valioso
precedente para a idade digital? A comercialização do ciberespaço já representa um problema para
aqueles que buscam informações confiáveis? Existem características ou tendências inerentes à tecnologia
digital que sempre desafiarão e até abalarão os esforços para controlar informações ou mesmo cobrar
taxas para acessá-las? Nossos oradores e nosso público debaterão estas e outras questões relacionadas.

Oradores

Nancy Kranich foi presidente da Associação Americana de Bibliotecas entre 2000 e 2001, com foco no
papel das bibliotecas nas democracias. Em 2003-2004 foi fellow de pesquisa sênior no Projeto Política de
Livre Expressão em Nova York, período no qual escreveu The Information Commons: A Public Policy
Report [Informações Públicas: Um Relatório de Política Pública]. Anteriormente, foi reitora adjunta de
bibliotecas da New York University, onde administrou as bibliotecas, a editora e os serviços de mídia
daquela universidade.

Steven Pinker tem um longo compromisso com os usos democráticos e cívicos da tecnologia,
especialmente da internet. É titular da cadeira Johnstone Family de psicologia em Harvard, sendo autor de
vários ensaios e livros, incluindo The Language Instinct (1994) [O Instinto da Linguage] e The Blank
Slate: The Modern Denial of Human Nature (2002) [O Quadro em Branco: A Moderna Negação da
Natureza Humana].

Ann Wolpert é diretora das bibliotecas do MIT e membro do Comitê MIT para Direitos Autorais e
Patentes. Preside também o conselho administrativo da MIT Press e integra a diretoria da Technology
Review, Inc., editora que publica a revista Technology Review.

Resumo

Nancy Kranich

Ultimamente, bibliotecários têm estado no centro de muitas controvérsias sobre políticas públicas. Na
década de 1980, lutamos para obter livre acesso às informações governamentais. Na década de 1990, a
ubiqüidade da pornografia na internet fez com que fossemos acusados de facilitar o acesso a esse tipo de
material. Também naquela década, enfrentamos controvérsias sobre quem é dono de quais informações,
sendo até acusados de pirataria. Ao longo de tudo isso, os bibliotecários mantiveram-se firmes na defesa
da liberdade de informações.

Um dos motivos do sucesso dos bibliotecários é sua capacidade de redefinir esses


debates. Invés de nos concentrarmos naquilo que não gostamos, oferecemos soluções.
Por exemplo, repensamos o debate sobre a publicidade versus a privacidade de
informações. Definimos esse debate em termos de criatividade, participação e confiança,
não apenas privacidade e pornografia.

Neste início do século 21, uma importante contribuição dos bibliotecários é a criação de
um digital commons, ou um lugar público para compartilhamento de informações. Já
compartilhamos recursos em sociedade, na forma de parques e bibliotecas. Por que não construímos uma
estrutura similar para informações, para que possamos administrar, criar e mantê-las reunidas?

Muitas pessoas e grupos apóiam a idéia de recursos compartilhados como um bem comum. Temos
lugares públicos para disseminação de informações e possibilidade de discursos em torno do processo
democrático. Temos bibliotecas digitais, software livre, e learning commons [lugares públicos para
aprendizado]. Temos redes de informações para pessoas que compartilham interesses, como tricô. Mas é
difícil compartilhar legalmente obras criativas. Portanto, vamos construir um creative commons. Temos
leis, tais como as de direitos autorais, que restringem o fluxo de informações, não importa se o autor
exige os direitos do seu conteúdo ou não. Precisamos criar formas legais de compartilhar acesso, não
apenas limitá-lo.

Muitos dos trabalhos acadêmicos sendo criados são caros e difíceis de obter. Por que não buscar formas
de compartilhar as informações gratuitamente? Acadêmicos podem fazer isso sem abrir mão dos direitos
autorais do seu trabalho. Isso fará com que mais pessoas tenham acesso e façam referência às suas obras.

Neste momento de transição, temos em nossas mãos a oportunidade de criar instituições que
administrarão recursos de forma sustentável e disseminarão valores compartilhados como a participação
democrática. Os commons representarão um dos modelos que utilizaremos para compartilhar informações
no futuro.

Ann Wolpert

Minha biblioteca pessoal abrange não apenas livros, mas também arquivos digitais. Esses arquivos
digitais me informam naquilo que eu preciso fazer. Cada empreitada depende de trabalhos anteriores.
Portanto, acesso a recursos comuns é essencial para inovação e criatividade. Assim,
tenho um compromisso em assegurar acesso livre e fácil a informações digitais no
futuro.

A tecnologia e a internet mudaram essas regras. As redes peer-to-peer mudaram a


forma em que muitas pessoas compartilham música. Isto resultou em mudanças nas
políticas, tais como a Digital Millennium Copyright Act [Lei de Direitos Autorais
Digitais do Milênio] e a acirrada perseguição das gravadoras aos piratas.

Contudo, idéias não são consumidas como picolés. Depois de saboreado, um picolé
não pode ser reutilizado. As idéias, pelo contrário, quanto mais utilizadas pela sociedade, menor a
probabilidade de elas desaparecerem. Ninguém é dono da internet – todo mundo é dono. Assim, os
mercados e os governos já não têm o poder de individualmente controlar a disseminação das informações.

Todas as informações devem ser controladas, caso isto seja possível? Direitos autorais são um tradicional
mecanismo de controle que oferece direitos, não importa se o autor queira ou não. Agora a pouco, assinei
um documento, permitindo que meus comentários sejam gravados e disponibilizados em vídeo na
internet, porque não tenho o desejo de proteger estas palavras. Hollywood e as gravadoras dominam os
nossos conceitos sobre direitos autorais e compartilhamento de informações. Contudo, seus objetivos
diferem daqueles do mundo acadêmico. Contratos de licenças muitas vezes substituem as leis de direitos
autorais, de forma que muitas vezes publicações acadêmicas e outras organizações pedem que professores
não distribuam seus trabalhos.
Muitas áreas obtêm grandes benefícios de um maior fluxo de idéias. O que seria da arquitetura se os
arquitetos tivessem direitos autorais sobre as formas dos prédios? Eles decidiram participar do
compartilhamento social, da mesma forma que fizeram a ciência, a engenharia e a escrita criativa.
Compartilhamento social pode coexistir com mercados e governo. Considerem a perfeita coexistência
entre livrarias e bibliotecas. E agora temos Google Print, com o texto completo de muitos livros em
domínio público. Universidades têm incentivos para utilizar compartilhamento social, já que trabalhos
livres são citados com mais freqüência. Como exemplo, papers de matemática são citados 91 vezes mais
quando publicados na internet aberta. Finalmente, a missão da MIT declara o compromisso da instituição
em criar, disseminar e preservar conhecimento para benefício da sociedade. Se o nosso trabalho vai para
um sistema fechado, precisamos nos perguntar se estamos honrando esse compromisso.

Podemos todos ajudar a assegurar a livre disseminação das informações. Utilizem softwares livres.
Pressionem para limitar os direitos autorais – a proteção automática que obtemos é longa demais. Evitem
apoiar monopólios de hardware ou software. Utilizem licenças de Creative Commons ao publicar seus
trabalhos. Apóiem acesso livre. Finalmente, defendam legislação baseada em evidências.

Steven Pinker

Bibliotecários são indispensáveis – tudo conhecem, ou pelo menos sabem onde encontrar. Eles
responderam a todas as minhas dúvidas, normalmente no prazo de algumas horas. Bibliotecários
promovem o acesso às informações.

Vamos pensar agora em revistas científicas. Quem ganha dinheiro dessas revistas? Não é o autor. Não é o
editor. Não são os peer reviewers. Não são as universidades – elas têm de pagar para receber as revistas
científicas. Intermediários ganham o dinheiro. De algumas formas, eles são importantes, mas as
mudanças tecnológicas podem estar dizendo que não precisaremos mais deles.

Muitos escritores já falaram sobre a assim chamada Tragédia dos Espaços Comuns.
Isto pode ser explicado através de uma analogia com vacas. Se a sua cidade tiver um
pasto público, aberto a todos, cada dono de rebanho deixará suas vacas pastarem no
espaço até que não exista mais capim. Nesse momento, o pasto público já não serve
para mais ninguém. O problema é que ninguém tem qualquer incentivo para preservar
essa área comum.

Podemos evitar a Tragédia dos Espaços Comuns de três formas. Uma delas é decidindo
que o governo deve controlar quais vacas podem pastar nessa área. A segunda forma é privatizar o pasto
público; assim, pelo menos o proprietário tem o incentivo de preservar o pasto. Uma terceira forma é
permitir que redes sociais informais controlem o uso do pasto público. Por exemplo, pescadores de
lagostas fiscalizam sua pesca, para evitar a exaustão da população desses crustáceos. Contudo, isto
funciona apenas em uma comunidade na qual todos se conhecem, podendo exercer pressão social para
que as regras da comunidade sejam respeitadas.

O compartilhamento das informações através de um espaço comum funciona apenas se as pessoas que
produzem essas informações têm incentivo em fazê-lo. Precisamos levar em consideração a tendência de
alguns indivíduos consumirem sem oferecerem a correspondente contribuição. Devo continuar
escrevendo se não sou pago por isso? Talvez sim, mas provavelmente não me esforçarei tanto. Mas por
que as pessoas contribuem para a Wikipedia sem receberem pagamento? É como um hobby ou software
livre. As pessoas gostam daquilo e obtêm respeito e reconhecimento. Contudo, buscarão uma
remuneração, se a atividade entrar em conflito com seu trabalho profissional.

Ainda não começamos a explorar a possibilidade de micro-pagamentos, através dos quais os produtores
recebem uma remuneração, porém em valor baixo que desestimula a pirataria. O iTunes Music Store, que
vende músicas a 99 centavos de dólar cada, é apenas o começo.

Debate
COMENTÁRIO: A Tragédia do Espaço Comum é que a abundância das informações e o livre acesso
estão destruindo informações de maior qualidade. A divisão entre opinião e fatos está se tornando mais
tênue – cada pessoa tem sua própria versão.

PINKER: As coisas estão ficando melhores ou piores? A tecnologia está facilitando ou dificultando a
verificação dos fatos? Em blogs e na Wikipedia, quando alguém comete um erro, o escrutínio público o
corrige rapidamente. Os blogs já estão corrigindo a mídia tradicional, como a CNN. A tecnologia ajuda a
verificação dos fatos, mas exige a contribuição de muitas pessoas.

KRANICH: Os bibliotecários preocupam-se em ajudar as pessoas a adquirir as habilidades necessárias


para determinar se as informações são fato ou opinião.

WOLPERT: Bibliotecas escolares em todo o país foram removidas e substituídas por salas de
computadores. Aos estudantes já não são ensinados os métodos tradicionais de pesquisa ou o
discernimento da qualidade das informações. A sociedade precisa voltar para este tipo de treinamento.

PERGUNTA: Como devem os acadêmicos escolher um determinado espaço público, ou commons? Vejo
dois tipos de commons. Em commons positivos, todos podem usar nosso trabalho, mas seu uso está
sujeito a algumas condições. Ao dar permissão de uso de um determinado trabalho, exige-se que o
usuário também disponibilize livremente o seu trabalho, e assim por diante. Em commons negativos,
qualquer pessoa pode usar o trabalho sem respeitar princípios de livre acesso ou atribuição responsável.

KRANICH: Nesta questão, bibliotecários são professores educadores. Algumas publicações permitem
que os termos de uso sejam mudados, basta pedir. Em física, as pessoas publicam e arquivam sem custo.
Algumas sociedades acadêmicas fizeram escolhas erradas de licenciamento na década de 1980, para
reduzir os custos das taxas de adesão. Hoje se arrependem dessa decisão, e estão tentando voltar atrás.

COMENTÁRIO: No longo prazo, arquivamento é caro, apesar do baixo custo de distribuição de


informações.

KRANICH: O setor privado não assume responsabilidade pelo arquivamento. Instituições educacionais
devem assumir a responsabilidade pelo arquivamento, mas não têm recursos suficientes.

WOLPERT: A internet se organiza usando estruturas sociais tradicionais. A internet administrará


conteúdo da mesma forma que faz o restante da sociedade.

DAVID THORBURN, diretor, Fórum de Comunicações: Precisamos ver um futuro tão ganancioso
quanto o passado? Uma economia compartilhada também pode ser lucrativa, como já foi defendido por
vários autores. A tradicional economia do toma lá, dá cá ignora produtos e práticas que recompensem
compartilhamento e livre acesso. O novo livro de Eric von Hippel, Democratizing Innovation
[Democratizando a Inovação] (MIT Press, 2005), descreve grandes empresas que estão descobrindo lucro
e melhorando seus produtos através do compartilhamento de seus segredos industriais com uma
comunidade de usuários e outras empresas. As novas tecnologias estão abrindo novas oportunidades de
lucro.
HAL ABELSON, professor de Ciência da Computação, MIT: O problema não é a Tragédia do
Espaço Comum, mas a Tragédia dos Anti-Comuns, com relação à idéia do pasto público. O problema
ocorre quando um pasto público, aberto a todos, é cercado e dividido em lotes de um metro quadrado
cada. Para viajar, são necessárias permissões de milhares de pessoas. É o que está acontecendo no mundo
digital hoje. O problema não é que as pessoas não recebem remuneração pelo uso do seu trabalho, mas
precisam pedir para receber. Precisamos encontrar formas de baixar os custos de transação. Um conjunto
musical pode cantar a minha música sem pedir permissão, mas deve pagar as taxas padrão.

Uma vez que alguém tenha decidido contribuir para o espaço comum, quais restrições devem ser
impostas ao seu trabalho? Cada um faz sua escolha individual com base em seus valores sociais. Na
publicação acadêmica, não queremos pôr as coisas em domínio público, porque queremos preservar nossa
atribuição. Quero introduzir um livro relevante neste ponto: The Access Principle: The Case for Open
Access to Research and Scholarship [O Princípio do Acesso: Em Defesa do Livre Acesso à Pesquisa e à
Erudição] por John Willinsky (a ser publicado em dezembro pela MIT Press). O livro fala sobre uma das
normas que deveria existir no mundo acadêmico – se você acredita em fazer pesquisa, deve acreditar em
disseminar sua pesquisa para o maior número de pessoas que possam beneficiar-se dela.