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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO

Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT);


Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS)
Departamento de Filosofia
Curso de Filosofia - Bacharelado – 8.o Semestre
Disciplina: Tópicos Especiais em Filosofia da Mente
Docente: Beatriz Sorrentino Marques
Discente: Fábio Lázaro Oliveira Queiroz

Com base na discussão da última aula (04/12/2018) e no texto abordado,


responda as questões abaixo:

1. O que é uma ação? Como podemos caracterizar uma


ação em oposição a não-ações?
De acordo com uma teoria causalista, as ações são eventos no mundo,
como os acontecimentos físicos, porém, na explicação de sua causa, usamos a
noção de “intenção”, pela qual descrevemos as causas dessas ações a partir de
uma perspectiva mentalista. A ideia de “intenção”, por sua vez, implica, no
mínimo, um par de crença-desejo. Assim, o que distingue uma ação de uma não-
ação é o fato de a primeira ser causada por certos estados mentais (crenças e
desejos no modelo crença-desejo), e a segunda, não.

2. Quais são as teorias que oferecem explicações de ações


(até o momento)? Descreva-as.
Há 3 teorias que tentam explicar a ação: o causalismo, o volicionismo e
os wittgensteinianos.
A teoria causalista (de Alfred Mele, Michael Bratman, Donald Davidson),
em filosofia da ação, é a que diz que o que distingue uma ação de uma não-ação
é o fato de a primeira ser causada por certos estados mentais (crenças e desejos
no modelo crença-desejo). Essa hipótese não apenas responde a questão da
natureza da ação, como a da explicação da ação, uma vez que o que explica a
ação são estados intencionais.

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A tese volicionista (H. McCann) se opõe ao causalismo e ao modelo


crença-desejo. De acordo com a primeira, a ação é um evento intencional, no
entanto, a intenção é um ato volitivo (atividade mental através da qual a “agência”
é realizada). Assim, deixa-se em aberto se o ato volitivo é ou não causado por
razões. A ação não está no acontecimento, mas no produzi-lo (agir é querer agir).
Crenças e desejos são necessários para ação e a volição é elemento suficiente.
Dizer que a volição é elemento suficiente para a ação é o mesmo que dizer que,
independente de um certo evento se dar no mundo (a pessoa de fato se dirigir
ao parque), o evento será considerado uma ação, caso tenha havido um ato
volitivo, pois pode ser que por algum motivo (algum mal funcionamento do
sistema motor do indivíduo) o evento não ocorra e, ainda assim, teremos tido
uma ação. No entanto, dizer que a ação não depende de um evento físico, pode
fazer com que estejamos a defini-la através de algo que não sabemos se de fato
existe – da mesma maneira que podem haver dois eventos físicos iguais, em
que um é resultante de uma ação e o outro não, pode ser que seja o caso que
para qualquer evento físico, não há qualquer ação associada a ele. Uma vez
mais, se a ação não está no evento físico, mas no ato volitivo, onde estaria o ato
volitivo? Nas palavras de Wittgenstein: “o que é o resto que fica se eu subtrair
ao fato de que eu ergo o meu braço, o fato de que o meu braço se ergue?”.
Por fim, Wittgenstein, no seu problema do resto, critica tanto o causalismo
quanto o volicionismo, porque diz que o elemento mental e o elemento físico não
podem ser separados na ação. Considerado assim, o problema da causalidade
e da volição se dissolvem: não há volição sem o evento físico (e vice-versa), e
não há um evento mental que “causa” um evento físico. Wittgenstein, portanto,
rejeita o dualismo cartesiano entre mente e corpo.

3. Intenções são relevantes para as explicações de ações?


Por quê?
Depende de como se considera a intenção, conforme as teorias
anteriormente mencionadas. Segundo a teoria causalista, as intenções (crença-
desejo) explicam as ações na medida em que as causam, uma vez que foram

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as razões que, de fato, fizeram com que o agente agisse. Já para a teoria
volicionista, as intenções são consideradas como o ato volitivo do agente. Assim,
não bastaria crenças e desejos para que agíssemos, mas é preciso querer agir.
Uma vez apresentada essa contraposição das duas teorias, é importante
mencionar o contexto atual em que a intenção é considerada relevante para a
explicação da ação. Esse novo terreno surgiu após um exemplo dado por
Davidson e que ficou famoso como o exemplo do montanhista. Nele, um sujeito
montanhista, que estava a escalar uma montanha e com um colega abaixo de
si, o qual causava peso excessivo na sua corda, fez com que o montanhista
tivesse o desejo e a crença relevantes para largar o seu colega, cortando a
corda, mas que se deteve de levar a cabo essa ação. No entanto, apesar de ter
se detido inicialmente, pela pressão psicológica decorrente do mero pensar e
desejar fazer isso, o montanhista deixou, inadvertidamente, que seu colega
caísse.
Nesse exemplo, a razão (crença-desejo) que causou a ação não a causou
de modo adequado, pois o montanhista claramente não quis fazer isso. O
exemplo mostra que ação intencional só acontece quando um sujeito agiu por
uma razão, ter uma razão não é condição suficiente para causar uma ação. Ou
seja, ter uma razão é causa necessária, mas não suficiente para definir todos os
casos de ação intencional. Os casos em que isso acontece são chamados de
“situações de cadeias causais desviantes”.
Uma razão – a partir desse exemplo do Davidson – explica a ação apenas
na circunstância de ter causado a ação de forma apropriada. É preciso uma
correspondência entre razão e ação de tal maneira que a razão guie a ação.
Para isso, é preciso que existe uma conexão direta entre o par razão-e-ação e a
percepção de que estamos agindo por essa razão.
Outro exemplo que mostra essa distinção é o caso de uma pessoa que
quer matar outra e, ao atirar, erra o alvo, fazendo com que um grupo de porcos
matem a pessoa que escapou do tiro. O efeito morte, nesse caso, é considerado
um efeito não-intencional, pois se exige da ação intencional que tenha uma
representação mental da ação pelo agente.

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4. Qual teoria explica melhor as ações humanas? Por quê?


A teoria intencional ou causal, uma vez que é a que melhor acomoda
aquilo que pode ser considerado um fato extraordinário da natureza: o fato de
que o meu braço se levantou porque eu planejei levantá-lo, tinha a crença de
que poderia levantá-lo e desejei levantá-lo.