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Fé, identidade de gênero

e deficiência ainda são


motivo de discriminação
Revista do Ministério Público do Trabalho • ano III • nº6 • 2015 no trabalho
ISSN 2317-2401

Liberdade sindical
Momento exige mais independência, transparência
e representatividade do sindicalismo brasileiro

LABOR 1
2 LABOR
LABOR 3
O sindicalismo no Brasil por CUT e CNTC
8

Mudar é preciso, companheiro?


14

Por trás do Carnaval


28

Menos perigo e mortes


32

Sangue, sujeira e contaminação


36

Barris de confusão
42

Em boas mãos
48

4 LABOR
Ser o que se é
56

Os mitos do porão
66

A crença é opcional. O respeito, obrigatório


74

Poder de polícia terceirizado em MG


78

Neva no sertão
84

Ressocialização de presos
92

Sob a ameaça do belo


96

Incoerências do modelo sindical brasileiro


101

LABOR 5
Labor
Revista do Ministério Público do Trabalho
ISSN 2317-2401

Ministério Público do Trabalho

Procurador-Geral do Trabalho
Luís Antônio Camargo de Melo

Vice-Procuradora-Geral do Trabalho
Eliane Araque dos Santos

Chefe de Gabinete do Procurador-Geral do Trabalho


Erlan José Peixoto do Prado

Diretora-Geral
Sandra Cristina de Araújo

Labor foi produzida pela Assessoria de Comunicação


Social do Ministério Público do Trabalho

Jornalista responsável
Marcela Rossetto (MTb 22.305)

Edição
Marcela Rossetto e Rodrigo Farhat

Redação
Aline Baroni, Ana Carolina Spinelli, Danielle Sena, Fabíula Sousa,
Fátima Reis, Francisco Gérson Marques de Lima, José Bosco Gouveia,
Keyla Tormena, Lília Gomes, Ludmila di Bernardo, Luis Nakajo, Mariana
Banja, Mariana Braga, Rafael Maia, Rodrigo Farhat, Rogério Brandão e
Tamiles Costa

Revisão
Marcela Rossetto

Estagiários de Jornalismo
Bruce Andrade, Camila Correia, Cínthya Oliveira, Fabiola de Souza Melo,
Ferrnanda Palheta e Rodrigo Rabelo

Fotografia
Aline Baroni, Aline Zerwes Bottari Brasil, Ana Carolina Spinelli, Beatriz
Malagueta, Cynthia Oliveira, Divulgação Salgueiro, Fabíula Sousa,
Fernanda Palheta, Fernanda Sunega, Frederico Tavares, Ione Moreno,
José Bosco Gouveia, Juliana Veiber, Lília Gomes, Luis Nakajo, Mariana
Banja, Mariana Braga, Neiva Motta, Rafael Almeida, Rafael Maia, Rodrigo
Farhat, Roberto Nascimento e Tamiles Costa

Capa
Cyrano Vital

Ilustrações
Cyrano Vital

Infográficos
Guilherme Monteiro e Sâmela Lemos

Diagramação
Guilherme Monteiro e Sâmela Lemos

Circulação
Ana Paula Fayão e Evelize Vidal

Administração
Kelma Barreto

Impressão
Gráfica Movimento

Tiragem
9 mil exemplares

Brasília, inverno de 2015

Redação
SCS Quadra 9, Lote C, Ed. Parque Cidade Corporate, Torre A, sala 1.209
CEP 70308-200 – Brasília, DF – (61) 3314-8222
marcela.rossetto@mpt.mp.br

6 LABOR
Vamos em
frente
No ano em que o sindicalismo brasileiro lembra três décadas e meia das primeiras
grandes greves do ABC paulista, que marcaram a história política do país e dos
direitos dos trabalhadores, a revista Labor traz uma edição cujo assunto principal
é a liberdade sindical. Fazendo uma análise do sindicalismo brasileiro, a revista
do Ministério Público do Trabalho reuniu em muitas páginas vários aspectos e
pontos de vista sobre o tema.

Resgatou um pouco da trajetória histórica, ouviu centrais sindicais, falou da


Proposta de Emenda Constitucional que tramita no Congresso Nacional e contou
um pouco da experiência da instituição ao ser chamada pelos trabalhadores para
intervir quando há flagrantes irregularidades. Um panorama pertinente em busca
da contribuição para um sindicalismo cada vez mais independente, transparente
e representativo dos trabalhadores.

A discriminação no ambiente de trabalho é realidade frequente no país,


ainda que expressamente proibida em lei. Por isso, o MPT atua para combater
essa chaga. Seja pela opção sexual, seja pela religião, seja pela deficiência, o
trabalhador tem direitos e deve ser respeitado pela sua competência tanto
quanto qualquer outro profissional na mesma atividade. Nesta edição de Labor,
três reportagens abordam o tema, lembrando a importância da igualdade de
direitos de todos os trabalhadores.

As péssimas condições de trabalho também estão nas páginas desta edição.


Nos matadouros de Alagoas, o sangue dos animais abatidos se mistura à falta de
refrigeração e de higiene para submeter os trabalhadores a condições perigosas e
desumanas de trabalho, que, além disso, vão levar à contaminação da carne que,
por fim, será servida na mesa de todos os cidadãos alagoanos.

Esta Labor traz mais reportagens interessantes, que reúnem uma mostra da
atuação do MPT país afora nos mais diversos temas afins à instituição. Intervindo
e/ou solucionando questões trabalhistas, o foco é, sempre, defender a ordem
jurídica e os direitos dos trabalhadores.

Felicidades.
Luís Camargo
Procurador-geral do Trabalho

LABOR 7
O sindicalismo no
Por Rodrigo Farhat

Um dos objetivos da organização ao conceito democrático. Para


sindical brasileira é a democracia piorar, o Brasil não ratificou a
sindical, mas no sindicalismo Convenção 87 da Organização
brasileiro inexiste o conceito. Internacional do Trabalho
É que a proposta da Carta de (OIT), que defende a liberdade
1988 conflita com normas sindical. Com liberdade, haveria
obsoletas, como a unicidade e a independência das entidades
contribuição sindicais, contrárias frente ao Estado.

8 LABOR
Brasil por CUT e CNTC Cyrano Vital

Com liberdade, os sindicatos poderiam se Nesta entrevista da Labor, os presidentes promove atos de ingerência nas convenções e
organizar sem restrições e os trabalhadores e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), acordos coletivos de trabalho.
empregadores, com mais opções de filiação, Vagner Freitas, e da Confederação Nacional
poderiam escolher o de perfil mais próximo ao dos Trabalhadores no Comércio (CNTC), Levi A CUT tem 3.820 entidades filiadas. São 7,8
seu para se filiar. Com liberdade, as fontes de Fernandes Pinto, falam sobre o papel dos milhões de trabalhadores sindicalizados e
custeio precisariam vir da própria categoria, sindicatos na modernidade tardia, abordam os 24 milhões de trabalhadores representados.
de forma voluntária. Com liberdade, as problemas dos jovens trabalhadores e também Já a CNTC tem 35 federações filiadas e 830
diretorias seriam eleitas pelos filiados de forma sobre terceirização e bandeiras de luta. Vagner sindicatos vinculados. Representa 12 milhões
democrática. Com liberdade, seriam proibidas Freitas fala, ainda, sobre a representação das de trabalhadores no comércio e serviços.
as ingerências patronais nas entidades centrais sindicais contra o Ministério Público
profissionais. Com liberdade, a greve se tornaria do Trabalho (MPT) junto à Organização Labor publica, ainda, artigo do procurador
direito fundamental dos trabalhadores e as Internacional do Trabalho (OIT). As entidades regional do Trabalho Francisco Gérson
negociações coletivas seriam essenciais na alegam que o MPT, apesar de o Estado brasileiro Marques de Lima sobre os problemas do
relação entre o trabalho e o capital. ser signatário das Convenções 81 e 154, modelo sindical brasileiro.

LABOR 9
Vagner Freitas, presidente nacional da Central Única
dos Trabalhadores (CUT)

Roberto Parizotti
Qual a importância do promoção discutidos com o sindicato. Aqui,
quase todos os direitos – como férias de 30
sindicatos estão próximos da
movimento sindical para os dias, jornada de 40 horas, tíquete-alimentação juventude? Eles acreditam em
trabalhadores? e refeição, participação nos lucros e resultados
(PLR), abono assiduidade – foram conquistados
suas bandeiras?
A importância decisiva é que o princípio com greve. Como isso não é incorporado na Nem os sindicatos estão próximos da
trabalhista brasileiro é o da legislação individual história como conquista dos trabalhadores, juventude, nem a juventude acredita nas
em detrimento da legislação coletiva. Ou seja, quando o trabalhador procura a empresa bandeiras dos sindicatos. Isso porque o mundo
quando você procura emprego, enfrenta um sozinho, ela vende essas conquistas como se da informática promoveu uma transformação
patrão e seu poder sozinho. Quando você vai fossem concessões. tão radical no mundo do trabalho quanto a
discutir aumento de salário ou promoção, vai invenção da máquina a vapor, que mudou a
sozinho contra toda a estrutura empresarial. relação entre patrões e empregados. E nem
o movimento sindical, nem tampouco a
Nos países que têm contratação coletiva de
trabalho, a contratação não só é combinada Antigamente, os sindicatos sociedade assimilaram essa nova relação de
produção. O trabalhador pode trabalhar em
com o sindicato dos trabalhadores como define precisavam estar na porta casa hoje. Nas fábricas, os robôs, que só existem
também os salários, os critérios de reajuste e os
de promoção. Isso dá muito mais tranquilidade da fábrica. Depois, passaram em função dos avanços na área da informática,
aliviaram o trabalho pesado, mas substituíram
para os trabalhadores. Se você não tem nada a atuar dentro da fábrica. os homens. Além disso, hoje, muitos trabalham
disso, está nas mãos do patrão. Isso significa
que, ao invés de o trabalhador ter uma relação Hoje, muitos jovens estão no comércio e nos serviços e também em locais
de trabalho dispersos. A produção fragmentada
profissional, tem uma relação de favor. em pequenas unidades de é uma realidade irreversível em função da alta
tecnologia e os sindicatos precisam representar
No Brasil, as categorias fortes e organizadas, produção fragmentadas e a cadeia produtiva.
como bancários, químicos, metalúrgicos e
petroleiros, têm convenções coletivas, quadro dispersas; estão trabalhando No Brasil, os sindicatos não representam a
de carreira, sistema previdenciário e de em casa ou nas ruas. Os cadeia produtiva, representam corporações

10 LABOR
de oficio, advogados, engenheiros, bancários,
motoristas, metalúrgicos. Numa mesma
A atual estrutura é verticalizada, corporativista e
subordinada a uma legislação ultrapassada do
O que está por trás da
empresa você chega a ter 22 categorias Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). representação das centrais
profissionais diferentes.
A estrutura sindical tem de refletir as relações sindicais contra o MPT junto à
Além disso, no Brasil, o sistema educacional de trabalho e essas relações precisam ser OIT?
é atrasado e os jovens usam o Fundo de normatizadas coletivamente, com contrato
Investimento Estudantil (Fies) para financiar coletivo de trabalho e negociação permanente. A reclamação das centrais sindicais brasileiras
seus estudos nas faculdades privadas e nelas junto à OIT partiu do princípio de que
aprendem tudo sobre o neoliberalismo. Além disso, para aumentar a legitimidade, existe liberdade de organização no Brasil
Resultado, os jovens se formam já alienados, é fundamental acabar com o imposto e, portanto, o Estado não pode intervir na
não têm consciência dos seus direitos. A escola sindical. Os sindicatos têm de sobreviver organização sindical.
não ensina direitos e o sindicato não tem apenas com as contribuições voluntárias dos
acesso a esses jovens. trabalhadores associados. A CUT nasceu contra o imposto sindical e
defende historicamente a substituição deste
imposto por uma taxa negocial que seja
aprovada em assembleia e dê direito de
Quais são as três principais Novas organizações sindicais oposição ao trabalhador. Defende, também, a
bandeiras de luta da CUT? não deveriam ser criadas de modernização da estrutura sindical brasileira.
Entretanto, não pode concordar com
Contrato coletivo de trabalho, redução de
forma a aproximar sindicatos intervenções que, muitas vezes, acabam por
jornada para 40 horas sem redução de salários e dos trabalhadores? O que o inviabilizar os sindicatos e as negociações.
uma alternativa ao fator previdenciário.
senhor acha da unicidade Estou falando do interdito proibitório e das
intervenções do MPT no processo negocial.
sindical? E da pluralidade No início de fevereiro, o MPT entrou com
Qual a posição da CUT sobre a sindical? ação direta de inconstitucionalidade
contra 31 leis negociadas pelos sindicatos
terceirização da mão de obra? A unicidade – um e somente um por base – é dos servidores e o governo do Distrito
um equívoco. Da mesma forma que temos Federal. Tem sindicato que é punido com
Para a CUT, terceirização é sinônimo de pluralidade religiosa, partidária, de time de multas altíssimas por greve e até por
precarização, de rebaixamento dos direitos futebol, nós também podemos e devemos ter convocação de greve. Essas são provas de
trabalhistas e de piora nas condições de pluralidade de organização dos trabalhadores. que há intervenção do Estado brasileiro na
trabalho e de vida para a classe trabalhadora. Nem a unicidade, nem a pluralidade fortalecem negociação. Isto não pode ser generalizado,
O objetivo da terceirização é diminuir custos e o sindicato. O que fortalece os sindicatos é a mas o MPT está intervindo no processo de
isso difere dos argumentos dos empresários, legitimidade do sindicato na base. negociação e liberdade sindical.
que dizem buscar a especialização. Não
é verdade: o objetivo da terceirização é
conter custos salariais e trabalhistas. Os
salários e benefícios, como vale-refeição, dos
terceirizados são baixos e eles ficam mais
expostos a mortes e acidentes em decorrência
da falta de condições de trabalho.

Setores da sociedade buscam


flexibilizar as relações
trabalhistas no Congresso
Nacional. O que o senhor
pensa a respeito?
Esses setores da sociedade são perdulários,
estão preocupados apenas, e tão-somente, em
ganhar dinheiro fácil.

Como é a estrutura sindical


brasileira? Como deveria ser?
A atual estrutura sindical brasileira é arcaica,
inconveniente e não contribui para o
fortalecimento do movimento sindical. A CUT
defende a ratificação da Convenção 8––7 da
Organização Internacional do Trabalho (OIT),
defende mais liberdade e autonomia sindical.

LABOR 11
Levi Fernandes Pinto, presidente da Confederação Nacional
dos Trabalhadores no Comércio (CNTC)
Fotoa: Rodrigo Farhat

Como é a relação dos


sindicatos com outros
movimentos populares?
Os sindicatos participam ativamente dos
conselhos das diversas atividades em seus
municípios e se engajam em todos os
movimentos sociais que levantam bandeiras
pela justiça social e pela melhoria das
condições de vida e trabalho dos cidadãos, em
especial dos trabalhadores brasileiros.

Quais são as três principais


bandeiras de luta da CNTC?
Qual a importância do dos ocupados, segundo a Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios (Pnad) de 2011 do Instituto Defendemos o fortalecimento do sindicalismo
movimento sindical no Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). brasileiro pela via da unicidade sindical,
cotidiano dos trabalhadores À primeira vista, esses dados revelam que, de
do sistema confederativo e do custeio das
entidades pelos próprios trabalhadores.
brasileiros? modo geral, os trabalhadores não reconhecem Defendemos o trabalho decente, contra a
ou não compreendem o papel dos sindicatos. precarização do emprego, a escravidão e o
Vivemos numa sociedade capitalista e em Isso precisa ser analisado por uma ótica mais desrespeito aos direitos trabalhistas garantidos
uma nação em desenvolvimento. Esse cenário profunda. Em primeiro lugar, vivemos uma em lei. Lutamos pela jornada de trabalho justa,
acirra ainda mais o clássico embate entre os sociedade de consumo, imediatista, que com redução para 40 horas semanais, regulação
interesses do capital e do trabalho e, nessa incentiva o individualismo em detrimento das e controle do uso do instrumento da hora extra
queda de braço, a corda costuma arrebentar do ações coletivas. Outro fator de descrença se e pelo fim do trabalho aos domingos e feriados
lado mais fraco, no caso, o do trabalhador. encontra na crise ética estabelecida no país, e também do banco de horas.
que desencadeia uma onda de desmoralização,
O movimento sindical, quando articula suas
inclusive do movimento sindical.
forças, assume protagonismo em importantes
transformações sociais, como foi o caso da
política de valorização do salário mínimo
Qual a posição da sua
(Lei 12.382/2011), com reflexo evidente
Os sindicatos estão próximos confederação a respeito da
na distribuição de renda e na melhoria da
qualidade de vida dos trabalhadores. da juventude? Eles acreditam terceirização da mão de obra?
A regulamentação da profissão comerciária em em suas bandeiras? Nós não somos contra a terceirização.
2013 foi importante marco para os mais de 12 Defendemos, porém, que a regulamentação
milhões de trabalhadores que representamos Não estamos mais na era industrial. Hoje, da terceirização no Brasil submeta-se aos
e abriu portas para que as questões específicas o que predomina são os serviços e a requisitos que garantam a isonomia de
de nossas categorias sejam discutidas nas três pulverização do trabalho em pequenas e direitos entre trabalhadores terceirizados
esferas do Poder Legislativo. médias empresas. Isso dificulta as negociações e celetistas, e que se coíbam relações
sindicais, pois nas menores os trabalhadores empregatícias pejotizadas não justificáveis.
Além da representatividade, os sindicatos têm uma relação mais direta com os seus
e federações prestam serviços aos patrões. O modelo mental dessa geração A CNTC quer assegurar que as mudanças
trabalhadores: nas negociações e acordos atual também é outro. A descentralização exigidas pelos novos tempos preservem
coletivos junto aos empregadores, na das atividades laborais em muitos setores, os os direitos dos trabalhadores ao
assessoria jurídica e na oferta de serviços de avanços tecnológicos e a comunicação online formatar a relação entre as empresas e
saúde, lazer e qualificação contínua. Isso sem modificaram a maneira como o jovem se seus empregados. Só apoiaremos um
falar na questão de apoio à fiscalização. relaciona com o mundo e o trabalho entre si. texto legal que considere os seguintes
requisitos: responsabilidade solidária;
No comércio e serviços, a atividade limitação da terceirização à atividade-
presencial ainda é predominante, por isso meio; igualdade de direitos do trabalhador
Os trabalhadores os sindicalistas devem continuar atuando terceirizado com o trabalhador da
empresa tomadora; e impedimento da
dentro dos estabelecimentos e junto aos
compreendem o papel dos interlocutores patronais. quarteirização e da pejotização.
sindicatos? Eles acreditam em O movimento sindical, para falar com os A CNTC é contrária a propostas de
suas bandeiras? jovens, precisa também se reciclar. Sem a terceirização que permitam legalizar as
conscientização dos jovens trabalhadores, práticas mais arcaicas de precarização do
A quantidade de trabalhadores sindicalizados fica difícil pensar em engajamento sindical. E, trabalho e a instituição do subemprego
tem caído. Hoje, são cerca de 16 milhões de para falar com eles, precisamos entender suas a serviço dos que praticam a acumulação
trabalhadores associados a aproximadamente necessidades, seus anseios e reivindicações, ilimitada de capital e a busca insaciável
10,2 mil sindicatos, o que corresponde a 17,2% falando a mesma linguagem. pelo lucro.

12 LABOR
O que o senhor acha da
unicidade sindical? E da
pluralidade sindical? A
pluralidade sindical não
fortaleceria os sindicatos?
A criação de entidades sindicais na mesma
base territorial, com as mesmas categorias
e com a anuência do Ministério do Trabalho
e Emprego (MTE) enfraquece o movimento
e prejudica o poder de mobilização das
bases nas empresas, além de fragilizar a
negociação com os empregadores.

Fica claro que a pulverização de entidades


representativas pelo modelo da pluralidade
sindical não atende aos interesses dos
trabalhadores, mas daqueles que desejam fazer
prevalecer seus interesses próprios, inclusive de
Setores da sociedade buscam Como mudar a visão da alcance político, fora da esfera sindical.

flexibilizar as relações sociedade em geral sobre o Sem a atuação dos sindicatos, federações
e confederações de trabalhadores por
trabalhistas no Congresso movimento paredista? categoria, a liberdade negocial fica
Nacional. O que o senhor É preciso resgatar os valores coletivos de nossa
totalmente comprometida, permitindo
prevalecer os interesses dos detentores do
pensa a respeito? sociedade e o movimento sindical precisa mostrar capital contra os direitos do trabalhador.
a importância de sua existência e atuação. Com sindicatos fragilizados, as disputas
A flexibilização dos direitos trabalhistas internas correm o risco de prevalecer sobre os
abrange o modo de contratação dos interesses da categoria.
trabalhadores, a duração do trabalho, o
estabelecimento de salários, a negociação Como é a estrutura sindical A CNTC defende a unicidade sindical e o
coletiva e as formas de cessação do contrato
de trabalho.
brasileira? Como deveria ser? sistema confederativo como a representação
direta do trabalhador. Para tanto, luta pela
A CNTC defende a independência política do preservação de sua sustentabilidade econômica
As medidas que alteram a concessão de financeira, de acordo com a lei em vigor, que
seu sistema confederativo. A entidade tem hoje
direitos trabalhistas, anunciadas no final de estabelece a contribuição sindical – um recurso
liberdade e legitimidade para transitar nos três
dezembro pelo governo federal, limitam o do próprio trabalhador para assegurar sua
poderes e dialogar com lideranças de quaisquer
acesso de milhões de trabalhadores a direitos adequada defesa e representatividade.
convicções políticas. Defendemos esta isenção
como seguro-desemprego e abono salarial,
porque somos nós – confederação, federações
direitos garantidos pela Constituição. Só com a preservação do princípio
e sindicatos – quem devemos sensibilizar os
constitucional da unicidade sindical
Pelas novas regras, 10 milhões de trabalhadores partidos e seus integrantes para as causas dos
estará garantida a representatividade dos
poderão ficar sem receber seus direitos. Nós trabalhadores das categorias que representamos.
trabalhadores de uma mesma categoria.
não vamos aceitar esse golpe aos direitos dos
Somos favoráveis a que o movimento sindical
trabalhadores. Estão empurrando para o bolso
forme lideranças políticas dentre os trabalhadores
do trabalhador o rombo na previdência.
para que possam ampliar a força de nossa
O governo prefere tirar do trabalhador direitos representação por meio dos cargos públicos
em todas as instâncias. A educação política dos
Como é a relação da CNTC
já conquistados, ao invés de executar medidas
mais concretas para aumentar as receitas, trabalhadores do comércio e serviços deve ser com o MPT? Quais são os
como a criação do imposto sobre grandes uma preocupação das lideranças sindicais para
que estes conheçam seus direitos, participem de
pontos positivos e negativos?
fortunas, o fim da isenção do imposto de
renda sobre lucros e dividendos e a criação de seus sindicatos e votem de forma consciente. O O que pode melhorar?
impostos sobre bens de luxo. desenvolvimento e fortalecimento dos sindicatos,
por sua vez, é um dos principais objetivos do
As novas regras afetam principalmente a sistema CNTC. Só assim, acreditamos, poderemos Com relação ao MPT, o que identificamos é
nossa categoria, que já sofre com a grande ter bases fortes para transformar a realidade em que está faltando um diálogo mais franco, leal
rotatividade de mão de obra causada pela cada cidade, em cada empresa. e aberto com as confederações laborais para
sazonalidade da atividade e pelo interesse que questões importantes como a redução da
econômico do setor patronal. É importante que cada um faça a sua parte, jornada e o combate às condições precárias de
buscando um alinhamento de diretrizes trabalho possam ser enfrentadas em conjunto.
A flexibilização das relações de trabalho, que venham ao encontro dos interesses dos
sobretudo no que tange aos critérios trabalhadores. Mas, isso não é o que vem A CNTC acompanha e valoriza o esforço do MPT
de admissão, pagamento de salário, acontecendo. Na realidade, muitas vezes um no combate ao trabalho escravo e infantil e
compensação de jornada e ainda os de ator do processo interfere na área de atuação tantas outras iniciativas relevantes das pautas
alteração, suspensão e rescisão do contrato de do outro ou vai além de suas competências trabalhista e social. Queremos estreitar esse
trabalho, como é hoje defendia, é um primeiro constitucionais. A soma de esforços precisa relacionamento e unir forças para avançar na
passo para a total desregulamentação do prevalecer sobre outros e quaisquer agenda das relações trabalhistas, e isso exige
direito do trabalho. interesses sectários. que possamos abrir esse espaço de diálogo.

LABOR 13
Ilustrações: Cyrano Vital

14 LABOR
REFORMA SINDICAL

Mudar é preciso,
companheiro?

A oxigenação do sistema sindical interessa


aos trabalhadores e à democracia

Por Camila Correia* e Rafael Almeida

“Doravante não há um só campo econômico estrutura compreendia, inclusive, o sindicato meio de um segundo Decreto-lei (nº 1.402),
em que o Estado não tenha de intervir. Ocorre único, englobando a influência do Partido Vargas deixou expresso o reconhecimento
depois do partido único o Estado totalitário, Nacional Fascista na forma de organização de um único sindicato “para cada profissão”.
isto é, o Estado que absorve para transformar dos trabalhadores. Nascia ali o princípio da A estrutura sindical brasileira unia-se à Carta
e fortalecer toda a energia, todos os interesses, unicidade sindical. del Lavoro – documento emitido em 1927
todas as esperanças de um povo.” Pronunciadas pelo Partido Nacional Fascista para orientar
há mais de 80 anos, durante assembleia geral No decorrer de pouco tempo, o modelo as relações de trabalho na sociedade – para
do Conselho Nacional das Corporações, as espalhou-se pela Europa tal como um vírus, ganhar vida longa.
palavras resvalaram da boca do duce italiano especialmente em países imbuídos do
Benito Mussolini em defesa do “Estado totalitarismo visto na Espanha franquista e no O Estado autoriza a criação de uma única
Corporativo”. Portugal salazarista. O conceito foi adotado entidade sindical para atender a uma categoria
por países da América Latina, dentre eles o profissional em determinada base territorial,
Tratava-se do estabelecimento de uma Brasil, pelo então presidente Getúlio Vargas que é beneficiária de uma contribuição anual a
“síntese estrutural”, algo como uma “unicidade e seu Estado Novo. Por meio da sanção de ser paga compulsoriamente por todos aqueles
organizativa”: todas as instituições políticas, um Decreto-lei datado de 1931 (nº 19.770), a representados por ela, também conhecida
sociais e jurídicas seriam unas, de modo ditadura varguista estabelecia o princípio da como “imposto sindical”. Essa é a regra do
a garantir o total controle do Estado; a unicidade sindical, mas apenas em 1939, por jogo, constitucionalmente falando. Pode-se

LABOR 15
concluir, sem eufemismos, que a estrutura O avanço da democracia em termos globais, pouco fizeram em prol de sua estruturação, o
sindical brasileira tem o mesmo frescor das mediante o fim de governos totalitários na governo teve de criar uma verba no orçamento
ondas do rádio (ao menos, foi inventada na Europa, Ásia e América Latina, e o avanço público destinada para amparar aqueles mais
mesma época). Dito isso, vão-se as certezas, das relações de trabalho em países ditos representativos. No fim das contas, quem
ficam as perguntas: o princípio da unicidade “desenvolvidos”, trouxe ao Brasil uma discussão sustenta as entidades e seus elefantes brancos
representa uma herança do autoritarismo? até então limitada aos bancos da academia: na Federação rubra é o contribuinte.
O sistema traz benefícios para a organização o princípio da pluralidade é algo possível de
sindical? Agride o Estado democrático? O ser adotado na estrutura sindical no Brasil. “O princípio da unicidade sindical foi criado
imposto garante a autonomia das entidades Com ele viria o fim do imposto sindical e uma na época em que vivíamos em um mundo
na luta por melhorias trabalhistas? nova forma de organização dos sindicatos, completamente diferente, é anacrônico aos
conferindo uma dinâmica totalmente diferente tempos modernos. Contudo, antes de decretar
No Brasil, a contradição se instalou na à atual realidade brasileira. Da luz veio uma o fim do modelo atual, é necessário que haja
organização da classe trabalhadora mediante a nova Proposta de Emenda Constitucional (PEC), uma alternativa ao imposto sindical, algo
promulgação da Constituição de 1988. O artigo de nº 369/05. Bom, dependendo do ponto de como uma contribuição negocial, de forma a
8º da Carta Magna sedimentou os princípios da vista, das sombras. O fato é que as discussões garantir a autonomia financeira das entidades”,
liberdade e da autonomia sindical, permitindo já travadas na sociedade, no âmbito sindical, afirma o procurador do Trabalho Eduardo
a livre associação, a auto-organização dos do Congresso Nacional, das universidades e até Luís Amgarten, especialista em Economia do
trabalhadores e a administração das entidades da imprensa, renderam opiniões favoráveis e Trabalho e Sindicalismo pela Universidade
livre da interferência do Estado. Mas, de forma contrárias à reforma sindical. Há argumentos Estadual de Campinas (Unicamp).
concomitante, o inciso II do mesmo dispositivo de ambos os lados. Mas, antes de ouvi-los,
prevê a manutenção da unicidade sindical, Labor irá importar um caso de mudança de
limitando a plenitude à liberdade proposta,
Gesso
paradigmas conduzido por um país europeu.
uma vez que a entidade representativa
necessita da chancela do poder público para
afiançar sua legitimidade. Mas como garantir Há quem diga que a quebra da unicidade
um sem ferir o outro? Contribuinte reduziria drasticamente, ou até erradicaria, a
promiscuidade administrativa de dirigentes
Na década de 1970, a Espanha, então adepta sindicais, especialmente com relação aos
do princípio da unicidade desde o Estado casos de falta de democracia interna e
Jekyll e Hyde de exceção de Francisco Franco, mudou as de manutenção de mandatos perpétuos,
leis e “descolou” os sindicatos da influência muitas vezes passados de pai para filho. O
O sistema de liberdade sindical proposto pela do Estado, dando autonomia para a criação descontentamento da categoria resultaria
Convenção nº 87 da Organização Internacional de outras entidades que atendessem a na criação de uma nova entidade, livre
do Trabalho (OIT) já prepondera em grande mesma categoria, na mesma base territorial. de imoralidades, capaz até de suplantar a
parte dos países do cone norte, com destaque Com isso, instituiu-se o fim da contribuição anterior. “A unicidade engessa a estrutura
para Alemanha e Inglaterra. Porém, a ratificação sindical, também obrigatória por lá, sem a sindical e é prejudicial à democracia. Se as
da norma internacional não é compatível com anuência da Suprema Corte espanhola para próprias entidades tivessem uma atuação
o ordenamento jurídico brasileiro, uma vez que a cobrança de uma taxa para negociação no sentido de preservar a unicidade, elas
ela propõe não apenas a liberdade e a proteção coletiva. Quase 40 anos mais tarde, o que se repensariam seus sistemas de gestão e de
ao direito de sindicalização, mas atrela tais vê é uma estrutura sindical falida, longe da renovação do poder. Mas infelizmente, o
princípios ao descolamento do Estado. Nesse sustentabilidade e dependente justamente egoísmo impera, e isso é algo difícil de mudar.
sentido, o sindicalismo brasileiro encena Jekyll do ente do qual se desgarrou: o Estado. Para Afinal, nenhum dirigente quer abrir mão do
e, ao mesmo tempo, o antagonista Hyde. a sobrevivência financeira dos sindicatos, que seu ‘feudo’”, observa Amgarten.

16 LABOR
A ordem do dia em análise na Coordenação de Comissões
Permanentes da Câmara dos Deputados.
trabalhadores associados”, destaca Vagner Freitas,
presidente nacional da CUT.

As duas maiores centrais do país, Central Única


Feitas as considerações iniciais, vamos ao que
dos Trabalhadores (CUT) e Força Sindical,
importa: a PEC 369/05, proposta pela base
governista do presidente Lula em 2005, dá
representantes de polos opostos do espectro
sindical brasileiro, mantêm acesa a divergência Força Sindical
nova redação aos artigos 8º, 11, 37 e 114 da
entre elas quando o assunto é a PEC 369. A Força, por sua vez, não tem uma visão tão
Constituição Federal. Na esteira, o Ministério
Apesar de terem baixado as armas em pessimista da realidade organizativa. O primeiro-
do Trabalho e Emprego (MTE) propôs um
assuntos de interesse mútuo, como a pressão secretário da central, Sérgio Luiz Leite, vê entraves
anteprojeto de lei de relações sindicais
em montadoras para costurar acordos mais à organização de classes, caso haja a aprovação
(com nada menos do que 238 artigos), para
relevantes e abrangentes para a categoria da emenda constitucional e sua regulamentação
regulamentar a PEC. Os pontos principais
dos metalúrgicos, as “entidades” (as aspas conforme proposta apresentada ao Congresso.
do projeto são os seguintes: implementar a
desaparecerão em caso de aprovação da “A estrutura sindical brasileira não está falida e
pluralidade sindical; acabar com o imposto
PEC) veem a proposta com olhos diferentes, uma grande prova disso é que nenhum direito
sindical, instituindo a chamada contribuição
principalmente no que se refere à quebra dos trabalhadores foi perdido nas últimas
sindical – o trabalhador paga uma taxa caso
(ou não) da unicidade e ao fim (ou não) do duas décadas como aconteceu no resto do
o acordo feito pela entidade beneficie a
imposto sindical. mundo, pelo contrário.” Os “forcistas”, como são
categoria; reconhecimento das centrais como
entidades representativas; fim da data-base; chamados os adeptos da Força, admitem que
direito à representação no local de trabalho; as leis trabalhistas brasileiras dificultam avanços
substituição processual (amplia a representação na negociação coletiva, mas advogam pela
do trabalhador em processos judiciais); limite CUT permanência da unicidade e da contribuição
de diretores com estabilidade, dentre outros. sindical; segundo eles, a pluralidade contribuiria
Para a CUT, a estrutura sindical brasileira para uma “divisão do movimento”, o que traria
Gerida na mesma placenta da reforma é inadequada e sabota o fortalecimento disputas de espaço em detrimento da luta efetiva
trabalhista, a PEC representa o primeiro passo do movimento pela representação dos por direitos de determinada categoria.
para a chamada “modernização” das relações trabalhadores. Por isso, a solução seria conferir
de trabalho no Brasil. Ao menos era essa a mais autonomia para a criação de novos “Também é precipitado dizer que a unicidade
intenção. Apesar de divulgada pelo Executivo sindicatos e dar fim à contribuição obrigatória, conflita com a liberdade sindical, porque
como consenso entre trabalhadores, empresas conforme prevê a PEC 369/05 e o anteprojeto de para se organizar um sindicato, tem que
e governo, a proposta encontrou resistência lei das relações sindicais. “Da mesma forma que haver a concordância dos trabalhadores. A
de guerrilha em movimentos organizados e no temos pluralidade religiosa, partidária de time de manutenção da unicidade sindical na base e
próprio Parlamento. Os oposicionistas alegam futebol, nós também podemos e devemos ter a pluralidade nas instâncias superiores é tão
que as medidas não garantem, na prática, pluralidade de organização dos trabalhadores. fundamental para o fortalecimento da estrutura
a liberdade sindical plena, conforme citado O que fortalece os sindicatos é a legitimidade sindical brasileira quanto a permanência da
em discussões preliminares. Assim, desde na base e para aumentar essa legitimidade contribuição sindical, a única que nos dá
que chegou ao Congresso Nacional, debaixo é fundamental, por exemplo, acabar com o segurança jurídica. Enquanto a PEC se basear
de saraivada de protestos, a PEC caminhou imposto sindical. Os sindicatos têm de sobreviver na pluralidade sindical, ficará onde está:
a passos de tartaruga – hoje encontra-se apenas com as contribuições voluntárias dos estacionada”, aposta o sindicalista.

LABOR 17
De fora para dentro
Fora do Brasil, o quadro é altamente Pois bem, a legislação brasileira é contrária aos extensão da organização dos trabalhadores
favorável à autonomia dos sindicatos, ditames da Convenção em muitos aspectos, pelo Estado.”
algo que não se vê na prática por aqui (ao a começar pela vigência dos incisos II e IV do
contrário até do que prega a Constituição). artigo 8º da Constituição Federal. Isso leva o
Ver porcos voando é mais fácil do que Brasil à privilegiada colocação de único país da
encontrar duas entidades atendendo América Latina a não ratificar a norma (incluindo Representatividade
à mesma categoria numa mesma base Venezuela e Bolívia, países com estrutura
territorial; o MTE simplesmente não deixaria democrática, digamos, mais frágil). Mas ainda Outra questão importante a ser levantada no
isso ocorrer. Mas, ainda assim, fica a máxima: há espaço para mudanças significativas em prol debate refere-se à sustentabilidade financeira
a liberdade sindical é uma premissa para a do Estado Democrático, segundo o docente da dos sindicatos. Nesse contexto, perder apoio do
garantia do Estado Democrático de Direito. Faculdade de Direito da Universidade de São braço forte do Estado, no sentido de garantir
Certo? Mas, então, o que dizer da não Paulo (USP), Antônio Rodrigues de Freitas Júnior. uma base contributiva e a manutenção do
ratificação da Convenção nº 87 da OIT pelo Inspirado na Convenção 87, um dos integrantes “imposto” obrigatório, poderia significar um
governo brasileiro? da equipe técnica que redigiu a PEC 369/05, duro golpe nos cofres das organizações e, por
Freitas Júnior defende a aprovação da proposta conseguinte, gerar alto grau de insegurança.
Para efeito ilustrativo, Labor apresenta aos pelo Congresso Nacional como forma de Não esqueçamos o já citado caso espanhol. A
leitores um trecho do artigo 3º da norma desenvolver as relações de trabalho e a estrutura verdade é que poucos sindicatos no Brasil são
internacional que trata de liberdade sindical sindical no Brasil. “É urgente aproximar o sistema representativos a ponto de serem custeados
e proteção ao direito de sindicalização: sindical brasileiro aos parâmetros internacionais espontaneamente pela própria categoria. Dessa
“as organizações de trabalhadores e da OIT. A Convenção 87 pede por autonomia forma, a maioria é financiada pela contribuição
de empregadores terão o direito de e liberdade sindical, a pluralidade é tolerada compulsória, advinda da famosa “Conta Especial
elaborar seus estatutos e regulamentos por ser um mal menos pior do que a unicidade Emprego e Salário” (ou até por meios ilícitos. Mas
administrativos, de eleger livremente seus imposta por lei pelo Estado. No caso do Brasil, a isso não vem ao caso). Ainda assim, especialistas
representantes, de organizar a gestão e a unicidade é um resquício de um sistema sindical e estudiosos do direito do trabalho ouvidos por
atividade dos mesmos e de formular seu pensado num cenário doutrinário autoritarista e Labor asseguram que não é função do Estado
programa de ação; as autoridades públicas de intolerância ao debate político.” recolher compulsoriamente contribuição de
deverão abster-se de qualquer intervenção trabalhadores e empresários e endereçá-las
que possa limitar esse direito ou entravar Para o professor, a democracia brasileira não a entidades sindicais. Os sindicatos, como
o seu exercício legal.” Mais adiante, uma só comporta uma reforma, como também associações privadas, devem buscar recursos
extração do artigo 4º: “as organizações demanda um aperfeiçoamento democrático do para a contribuição espontânea dos seus
de trabalhadores e de empregadores não sistema de representação sindical. “Esse sistema sócios. Mas, na prática, o sistema de custeio
estarão sujeitas à dissolução ou à suspensão não é considerado velho por ter mais de 70 dos sindicados no Brasil ainda está, e muito,
por via administrativa.” anos, mas por pensar o sindicato como uma contaminado pela histórica presença do Estado.

Unidade ou unicidade
Para contribuir ainda mais com o debate negociação” não infringe a Convenção 87, como a democracia, é liberdade, independência,
travado nestas páginas, Labor decidiu pois promove a liberdade sindical (sem que, pluralismo e participação nos processos decisórios.
importar outro caso de organização sindical, necessariamente, haja a pluralidade). No texto da Convenção 87, por exemplo, não
dessa vez dos Estados Unidos. A intenção consta nenhuma referência literal à pluralidade,
é mostrar que nem sempre a unicidade é Embora existam grandes diferenças nos mas inúmeros à liberdade sindical. A imposição
sinônimo de falta de democracia. Mas, para ordenamentos jurídicos do Brasil e dos EUA – de monopólio de organização sindical pelo
isso, vamos substituir a palavra unicidade inclusive com relação aos termos do processo Estado é considerada ilegítima e isso significa a
por unidade. No caso, faremos referência à interno de ratificação e incorporação dos possibilidade de várias organizações. Essa é a ideia
“unidade de negociação”. Mesmo havendo instrumentos normativos da OIT –, assim de pluralidade propagada pela OIT, o resultado de
uma série de entidades representativas da como nas próprias estruturas sindicais, o um processo natural. No Brasil há certa pluralidade
mesma categoria, em uma mesma base Brasil pode aprender muito com o exemplo sindical, porém em outros níveis”, explica, ao
territorial, como é o caso americano, para americano, afirma o diretor adjunto da OIT no sustentar que a liberdade sindical não impede a
fins de negociação coletiva, a estrutura Brasil, Stanley Gacek. unidade, desde que essa seja voluntária, como
sindical daquele país exige que seja eleito visto no caso norte-americano.
um sindicato mais representativo para
responder por toda a categoria, desde que O representante da OIT elucida que, mesmo
haja salvaguardas, tais como a certificação Pluralidade sem ter ratificado a Convenção 87, o Brasil,
da representatividade exclusiva por um como Estado-membro, deve demonstrar o que
órgão inteiramente independente e isento e Membro da Ordem de Advogados do Distrito está fazendo para progredir em relação aos
a própria anuência da maioria absoluta (ao de Columbia e professor do Departamento de princípios das convenções não ratificadas, e
menos 51% do total). Sociologia da Universidade de Harvard, Gacek lembra que o Brasil adotou a Convenção 141,
atuou como sindicalista nos EUA por muitos sobre organização sindical dos trabalhadores
Nesse exemplo, observe que não houve anos e trouxe sua experiência ao Brasil. Ele do setor agrícola, e a de 151, que discorre
qualquer interferência do Estado na começa a entrevista à Labor deixando claro sobre a organização sindical e as relações de
organização sindical. Apesar de haver que responde pela OIT e que, por isso, trará o trabalho na administração pública. “O conteúdo
um único sindicato atendendo toda uma ponto de vista técnico de um especialista em normativo dessas convenções é quase
categoria, a responsabilidade de elegê-lo é dos normas internacionais. Já na primeira pergunta, idêntico ao da 87”, lembra o norte-americano
próprios trabalhadores. Por isso, para o Comitê sobre o porque de a OIT defender a pluralidade, (e lembrando-nos, mais uma vez, do mar de
de Liberdade Sindical da OIT, a “unidade de Gacek desmistifica: “A liberdade sindical, assim contradições em que vivemos).

18 LABOR
Sem respostas
Muitos dizem que a proposta de reforma que o Brasil está preparado para empreender também não significa que a sociedade tem
sindical tem como princípio conferir uma reforma sindical à altura da classe que conduzir o debate dentro dos parâmetros
independência e autonomia aos sindicatos trabalhadora? O país pode cair na mesma da PEC 369/05 ou do anteprojeto de Lei
como organizações genuinamente armadilha da Espanha ou pode emergir como das Relações Sindicais. O que não se pode é
representativas dos trabalhadores, sem que democracia ainda mais consolidada? continuar fingindo que essa é uma questão
para tanto dependam do Estado para serem secundária que pode ser indefinidamente
custeados. Hoje, os sindicatos brasileiros “A oxigenação do sistema sindical não postergada”, conclui Antônio Rodrigues de
precisam da chancela do Estado até para se interessa só aos trabalhadores, mas à Freitas Júnior, da USP.
constituir, organizar e se custear. Mas ainda democracia como um todo. Portanto, ela não
paira no ar uma interrogação sem resposta: será deve ficar de fora da pauta política, mas isso * Estagiária de jornalismo no MPT em Campinas

LABOR 19
Sindicatos nas páginas policiais
Por Fátima Reis

Relações cercadas de suspeição e com trabalhadores contra trabalhadores. No em Santa Catarina. Em agosto de 2014, uma
desfechos criminosos, sindicatos que dia 4 de fevereiro de 2015, ele assumiu a decisão judicial em ação de improbidade
deveriam servir aos trabalhadores são alvos diretoria do Sindicato dos Trabalhadores em administrativa do MPT contra o Sintacril lacrou
de investigação e ocupam as manchetes Transportes de Criciúma e Região (Sintacril). a sede da entidade, afastou 11 integrantes e
policiais em várias regiões do Brasil. Foi eleito em segundo turno nas eleições nomeou um administrador para comandar a
Em Santa Catarina, atentados a líderes realizadas em novembro passado, após entidade por seis meses, devido às denúncias
sindicais se tornaram corriqueiros no Sul quatro anos de conflitos internos, onde de irregularidades.
do estado. Atitudes duvidosas, conflitos uma única direção comandava o poder da
de interesses, enriquecimento ilícito e entidade e agia, conforme relatos, em favor Os diretores foram acusados, em 2011, de
ameaças protagonizadas por diretores das dos donos de empresas de transportes do desviar para patrimônios particulares mais de
próprias entidades e, por vezes, com o apoio município. Celeir não foi vitorioso apenas nas R$ 498 mil. Em 2010, o montante desviado
de sindicatos patronais, levam à falência eleições. Venceu as pressões e saiu ileso de do sindicato foi de cerca de R$ 355 mil.
entidades de classe, intimidam empregados pelo menos três atentados, inclusive contra “Ficou comprovado o desvio de recursos
na luta por seus direitos e comprometem seus familiares, e hoje escreve uma nova dos trabalhadores e essa conduta tipifica
acordos coletivos. página da história do Sintacril. improbidade administrativa, porque o dinheiro
da contribuição sindical dos associados tem
Celeir Formentin Candido é um dos O pleito só foi possível com a intervenção natureza tributária”, diz o procurador do
sobreviventes das batalhas travadas por do Ministério Público do Trabalho (MPT) Trabalho Luciano Leivas, que atuou no caso.

20 LABOR
Ameaças e morte
A mesma sorte de Celeir, que agora constrói nova
história no Sintacril, não teve o vice-presidente
da Cooperativa de Extração de Carvão Mineral
dos Trabalhadores de Criciúma (Cooperminas),
Fernando Gomes Marques, de 34 anos. Ele foi
morto a tiros no final do ano passado, enquanto
passeava com o cachorro próximo à sua
residência. De acordo com integrantes da atual
administração do Sindicato dos Mineiros de
Criciúma, o assassinato do colega foi motivado
pela descoberta de um desvio de dinheiro
praticado pelos ex-diretores da entidade.

As ameaças e atentados envolvendo pessoas


ligadas à Cooperminas e ao sindicato
deixaram as autoridades em alerta. As relações
estreitas, e por vezes até duvidosas, entre a
empresa e o sindicato vêm desde a criação da
cooperativa, quando trabalhadores assumiram
a administração de uma mina falida.

O desvio denunciado por Marques, que tinha a


intenção de presidir o sindicato, diz respeito a um participar de negociações sindicais como processo de mudança no sindicato se consolide
contrato assinado em 1998. O não cumprimento representantes dos trabalhadores. com transparência e os procuradores da região
do acertado entre as partes, daquele ano até tenham suas vidas asseguradas, livres de qualquer
Uma liminar concedida no final de maio pela
2013, gerou um rombo de aproximadamente ato de violência é o nosso propósito maior”, disse
desembargadora do Tribunal Regional do
R$ 100 mil por mês nos cofres da entidade, o procurador regional do Trabalho Francisco
Trabalho de Santa Catarina (TRT-SC), Gisele
contabilizando quase R$ 20 milhões. Gérson Marques de Lima, coordenador nacional
Pereira Alexandrino, suspendeu as eleições para a
de Liberdade Sindical (Conalis).
Segundo o advogado Chalton Schneider, diretoria do Sindicato dos Mineiros em Criciúma,
que deixou a assessoria jurídica da entidade programadas para o início daquele mês. O procurador regional do Trabalho Francisco
alegando projetos pessoais, o dinheiro foi Gérson Marques de Lima teme pela vida da
A juíza do Trabalho responsável pelo processo já
desviado pela antiga diretoria. A verba era magistrada, dada a gravidade do assunto, e diz
havia determinado a nomeação de um interventor
proveniente do arrendamento de um terreno que o tribunal deveria dar segurança à juíza, a
para conduzir o processo. A magistrada deve ser
que a Cooperminas doou ao sindicato. No exemplo do que fez o MPT ao constituir um grupo
transferida de cidade devido às ameaças que
contrato, o arrendatário deveria pagar R$ de trabalho para atuar no conflito. “Garantir que
enfrenta desde que começou a atuar no caso.
100 mil por mês ao sindicato e cerca de R$ o processo de mudança no sindicato se consolide
1 milhão por mês à empresa. Porém, disse o Já o MPT, para proteger os procuradores com transparência e os procuradores da região
advogado, “esse dinheiro nunca chegou ao envolvidos na ação, constituiu um grupo de tenham suas vidas asseguradas, livres de qualquer
seu destino”. trabalho para atuar no conflito. “Garantir que o ato de violência é o nosso propósito maior.”

Além do MPT, as denúncias estão sendo


investigadas pelo Ministério Público Federal
(MPF), Ministério Público Estadual (MPE),
Polícia Federal e Polícia Civil. Membros do MPT
ajuizaram ação civil contra o sindicato e seus
dirigentes em setembro de 2014.

As provas colhidas revelaram que a Associação


Profissional dos Mineiros de Criciúma é um
simulacro, permanecendo, por muitos anos,
defendendo apenas os interesses de seus
dirigentes, inclusive para fins políticos. No
inquérito civil, consta que a Cooperminas e o
sindicato foram presididos, por muitos anos,
pelo mesmo grupo de pessoas, que também
figuram como réus no processo.

Na época da intervenção, cerca de 400


trabalhadores destituíram o grupo que se
revezou durante 28 anos na diretoria do
sindicato. Assumiu como presidente da
comissão provisória Djonatan Elias. Ele dirige
a entidade até hoje. A eleição marcada para
dezembro foi suspensa pela Justiça, em mais
uma decisão favorável à ACP, considerando
irregular a formação das chapas com a
participação de cooperados ou empregados
da Cooperminas, já que atuam juridicamente
como sócios da empresa e não poderiam

LABOR 21
Violência, fraude e enriquecimento ilícito
De acordo com Marques, em vários estados hoje está a serviço de golpistas que se valem
da federação é necessária a intervenção do da inocência e do suor de quem trabalha
MPT para troca de comando na direção dos honestamente para ganhar dinheiro fácil.”
sindicatos. Ele conta que na maior eleição da
América Latina, em 2013, para a escolha da
diretoria do Sindicato dos Rodoviários de São
Paulo, foi preciso a atuação de 20 procuradores Ultrapassado
e o apoio de 900 policiais. Dezenove pessoas
morreram no processo, que pôs fim a 30 anos O Brasil adota o modelo da unicidade sindical.
de uma luta incessante pela permanência de Nessa proposta, o sindicato representativo
diretores na gestão da entidade. de determinada categoria é aquele que
primeiro solicita o registro sindical. A partir
No Rio de Janeiro, o Sindicato dos Comerciários disso, terá a representação garantida para
está sob intervenção. O presidente da entidade, sempre, exceto se criados sindicatos mais
que ficou 20 anos no cargo, ganhava um salário específicos. Como sindicato, recebe ainda
de R$ 50 mil. Também empregava os filhos e a um percentual da contribuição sindical,
esposa, elevando a renda familiar e onerando os descontada compulsoriamente dos salários
gastos mensais da entidade a quase R$ 100 mil. dos trabalhadores.

Uma ação civil pública foi ajuizada e um Para o procurador do Trabalho Thiago Milanez
interventor nomeado pela Justiça comanda Andraus, esse modelo estimula a criação de
o processo para a nova eleição do sindicato, sindicatos pequenos e sem real identificação
enquanto, paralelamente, seguem as com a categoria. Com isso, há dirigentes
investigações e vistorias que apuram o rombo pouco preocupados em buscar legitimação
provocado pela administração. democrática por meio da melhoria das
condições de labor e vida dos trabalhadores.
O procurador lembra também a primeira
audiência entre representantes do Sindicato Em um caso ocorrido em Joinville, ficou
dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários comprovado no inquérito a realização de
de Pernambuco, centrais sindicais e do MPT, na pagamentos indevidos em benefício da esposa
sede da Procuradoria em Recife, em 2014, para do presidente do sindicato, tanto por meio de
resolver os impasses em relação ao processo remuneração incompatível com o cargo por
eleitoral da categoria, que também terminou ela desempenhado como por meio da empresa
em confusão. Houve tiros, e policiais tiveram da qual era proprietária. O sindicato também
que intervir para conter os ânimos. dificultava a participação dos trabalhadores em
assembleias. Em outro inquérito, ficou provado
Para Gérson Marques, é a facilidade para que empresas atuaram de modo que a única
a criação de sindicatos e a falta de regras chapa que concorreu às eleições do sindicato
eficientes para coibir o enriquecimento ilícito dos trabalhadores foi aquela que tinha o apoio
dos dirigentes de má-fé que geram esses do patronato.
conflitos. Ele explica que, com a Constituição de
Andraus lembra que o modelo da unicidade
1988, os sindicatos deixaram de ser fiscalizados
sindical, adotado pelo Brasil, está em
pelo Estado e a independência permitiu que
descompasso com as normas internacionais de
a prestação de contas fosse apresentada
Direito do Trabalho, que consagram o modelo
somente aos seus afiliados, de acordo com
da pluralidade sindical.
o estatuto aprovado por eles. “O que se vê
hoje é uma indústria dos sindicatos. O MPT Números de sindicatos fiscalizados são
tem conhecimento de grupos que criam as alarmantes
entidades e os presidentes são os mesmos em
sete ou oito sindicatos diferentes. Infelizmente, Em Santa Catarina, há 354 procedimentos em
o que deveria estar a serviço do trabalhador curso.
Sâmela Lemos

22 LABOR
Presidente do Sindicato das Domésticas
do PR era laranja
Por Aline Baroni

Uma semana para entrar em contato com a


antiga diretoria do Sindicato das Domésticas. Além da administração ilegítima, o sindicato
A cada ligação, uma justificativa diferente praticava cobrança ilegal de taxas sindicais
para não atender os pedidos de entrevista. dos trabalhadores e a verba era desviada para
Isso porque, desde 2012, o Ministério Público contas pessoais da diretoria, assim como de
do Trabalho (MPT) no Paraná move uma empresas de Bernardino.
ação contra o Sindicato das Domésticas de
Araucária e Região (Sindidom) e o Sindicato dos O processo foi suspenso para que o sindicato
Empregadores de Empregados e Empregadas não fosse esvaziado antes de uma nova eleição,
Domésticas no Estado do Paraná (Sedep). o que poderia fazer com que qualquer chapa
requisitasse a diretoria.
As investigações começaram após denúncia de
que o presidente do sindicato patronal, Bernardino Desde agosto de 2014, o MPT organiza a
Roberto de Carvalho, estaria coordenando promoção de eleições que restituirão a diretoria
as atividades do laboral por intermédio de e o conselho fiscal do Sindidom, para que
funcionários laranjas, o que configura ofensa ao reinicie suas atividades.
princípio da liberdade sindical. A eleição, coordenada pelo MPT, será
À época da investigação, coordenada pela acompanhada pelas secretarias Estadual e
procuradora do Trabalho Cristiane Sbalqueiro Municipal do Trabalho, centrais sindicais,
Lopes, a presidente do Sindidom era Lindacir Superintendência Regional do Trabalho e
de Oliveira. Em sua carteira de trabalho, havia Emprego do Paraná (SRTE), Instituto Nacional
o registro de que ela havia trabalhado como do Seguro Social (INSS) e Associação dos
zeladora na empresa BR Radiadores de 2008 a Advogados Trabalhistas do Paraná (AATPR).
2011, empresa de propriedade de Bernardino. Em audiência pública, uma última tentativa
Lindacir foi procurada pela Labor, sem sucesso. de “golpe”:
Há informações de que ela não mora mais no – Precisamos de pelo menos três nomes para
Paraná. Em depoimento ao MPT, ela assumiu compor a comissão que validará as inscrições
que quem mandava no Sindidom era mesmo das chapas – solicitou a procuradora Cristiane
Bernardino. “Conversei com a presidente Sbalqueiro Lopes.
anterior, Caroline Machelisa Stachera, e ela
disse que quem mandava no sindicato é – Nós podemos participar – propuseram dois
mesmo o senhor Bernardino, e que eu estaria representantes do Sedep.
ali apenas para representar o Sindidom
formalmente”, declarou à época. Ambos foram imediatamente impedidos pela
procuradora.
Mas não era apenas a presidente. O Sindidom,
Sedep e BR Amortecedores compartilhavam As inscrições das chapas ficaram abertas
ainda vários outros funcionários. Uma delas até 27 de março, e a eleição dos cargos de
era uma figura-chave: Mônica Andrade, que presidente, secretário-geral, tesoureiro e três
era, simultaneamente, advogada de ambos integrantes do Conselho Fiscal – que devem ser
os sindicatos, como se não houvesse conflito trabalhadores domésticos – foi marcada para
de interesses. Seu nome constava no estatuto o dia 27 de abril, data em que é comemorado
social do Sindidom e do Sedep, ambos datados o Dia da Empregada Doméstica. Apenas uma
de 2007. Mônica também foi procurada pela chapa se inscreveu. Após maciça campanha,
reportagem, até mesmo em sua boutique, mas as domésticas votaram e seu novo sindicato
nunca atendeu ou retornou as ligações. começa a atuar no final de maio.

LABOR 23
EDUCAÇÃO, DIVERSÃO
E DIREITOS
WWW.QUADRINHOS.MPT.MP.BR

24 LABOR
Cyrano Vital
A raposa e as galinhas
Diretoria do Sindicato dos Motoristas e Cegonheiros
de São Paulo é afastada
Por Ludmila di Bernardo e Fabiola de Souza Melo*

Adalberto de Souza Pinto ocupava a presidência dos réus da diretoria do sindicato e também a Na ação, o MPT pede, em caráter definitivo, e
do Sindicato dos Motoristas Cegonheiros (Simoc), de outro filiados, Jonas Lopes da Silva, sócio de que ainda será julgado pela Justiça do Trabalho,
quando surgiu a denúncia no MPT de que Claudemir em duas empresas de transportes. O que os quatro réus sejam proibidos de integrar
proprietários de caminhões-cegonha, ou seja, argumento usado foi de que o fato de empresários o quadro associativo ou de se filiarem a
empresários, haviam se apropriado da entidade e ocuparem a cúpula da representação sindical quaisquer entidades sindicais de trabalhadores
a utilizavam para fins particulares. Adalberto, no dos trabalhadores colide frontalmente, e anula de qualquer categoria pelo prazo de cinco anos.
comando do sindicato desde 2005, havia aberto integralmente, com princípios importantes para a Pede também que o Simoc seja obrigado a
empresas de transporte de cargas para explorar organização dos trabalhadores, o desenvolvimento excluir de seus quadros todas as pessoas que
economicamente a atividade. Claudemir Soares de de melhores condições de trabalho e o exercício exploram ou venham a explorar a atividade
Oliveira e Luciano Gomes Batista, respectivamente do poder político nas sociedades democráticas. econômica de transportes de carga, que
secretário-geral e diretor-executivo da entidade, preste informações detalhadas sobre a gestão
também são empresários e mantinham empresas Em 16 de março deste ano, o juiz da 2ª Vara administrativa, orçamentária e financeira em
com frota de caminhões e outros veículos para do Trabalho de São Bernardo do Campo assembleias ordinárias da categoria e que
explorarem economicamente a atividade do (SP) concedeu a tutela antecipada parcial somente passe a remunerar seus dirigentes na
transporte de cargas. ao MPT, determinando o afastamento de forma e limites definidos em assembleia.
Adalberto de Souza Pinto, Claudemir Soares,
A investigação aberta pelo Ministério Público do Luciano Gomes Batista da Diretoria do Como danos morais, o MPT pede a condenação
Trabalho (MPT) em 2011 comprovou a veracidade Simoc, e proibindo seu acesso e de Jonas a de Adalberto de Souza Pinto ao pagamento
das denúncias. Os procuradores do Trabalho quaisquer dependências do sindicato até de indenização de R$ 265,8 mil; de Claudemir
foram além. Descobriram que o sindicato o julgamento da ação. Tanto o sindicato Soares de Oliveira, de R$ 453,9 mil; de Luciano
não prestava contas à categoria e, inclusive, como os empresários irão responder Gomes Batista, R$ 239,9 mil; e de Jonas Lopes
remunerava seus dirigentes sindicais sem que os solidariamente em caso de descumprimento da Silva, de R$ 399,2 mil.
valores fossem aprovados em assembleia. da ordem judicial e pelas multas de R$ 10
mil, por dia, e de R$ 50 mil por constatação
A ação civil pública (ACP) pediu o afastamento de descumprimento. * Estagiária de Jornalismo do MPT em São Paulo

LABOR 25
Máfia comandava Sindicato dos
Comerciários do Rio há mais de 35 anos
Por Mariana Braga

Cinco meses após a intervenção decretada pela dos diretores – 15 no total – os quais melhoramos a colônia de férias, a creche e o
Justiça trabalhista no Sindicado de Empregados recebiam salários que chegavam a quase R$ refeitório”, afirma o interventor.
do Comércio do Rio de Janeiro (SEC-RJ), a 30 mil. A maioria deles – incluindo a mãe,
entidade já registrava uma economia de a irmã, a esposa e o filho do presidente – Com a economia, a nova gestão regularizou
aproximadamente R$ 3 milhões mensais, além nem sequer tinha registro de frequência o pagamento de salários e férias vencidas de
de melhorias para os sindicalizados, apesar relativo ao mês de outubro. De acordo com o empregados, dívidas com fornecedores, com a
das dificuldades para atrair novos associados. advogado e perito judicial, José Carlos Nunes, Previdência Social, com o Fundo de Garantia do
A medida foi possível após o afastamento da nomeado pela Justiça para administrar a Tempo de Serviço (FGTS) e o Imposto de Renda.
direção do sindicato, dominado há mais de entidade até que sejam realizadas novas Só em impostos federais, estaduais e municipais,
35 anos por uma mesma família. Os diretores eleições, apenas com o afastamento dos a entidade possui uma dívida de R$ 18 milhões,
recebiam salários que ultrapassam R$ 50 mil, diretores e seus familiares foi possível reduzir que está sendo paga de forma parcelada.
enquanto o piso da categoria não chega a R$ 1 os gastos com folha de pagamento em
mil. O caso traz à tona um problema enfrentado aproximadamente R$ 1,2 milhão.

Descaso
pelo modelo sindical no Brasil: a crise de
representatividade e a falta de democracia
interna, que tem afastado filiados e criado
brecha para desvios e perpetuação de grupos Testa de ferro O SEC-RJ também passou a priorizar o
ajuizamento de ações coletivas em benefício
no poder.
A intervenção também garantiu a economia da categoria. No início da intervenção,
De acordo com a inicial da ação civil pública de aproximadamente R$ 1,5 milhão por mês, existiam cerca de 2 mil processos trabalhistas
ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho ao encerrar o contrato com uma empresa ajuizados pelo sindicato, sendo que nenhum
(MPT) no Rio de Janeiro para apurar as responsável por toda a arrecadação da era ação coletiva. Conforme constatado, os
irregularidades, havia um “esquema de entidade. A empresa, de Carlos Américo, advogados atuavam para atender os interesses
dilapidação do patrimônio social do SEC- considerado pela investigação o testa de particulares dos dirigentes e os honorários
RJ e enriquecimento ilícito com o desvio ferro da família Mata Roma, cobrava pelos dos acordos celebrados em reclamações
do dinheiro arrecadado com o imposto serviços 45% de todo o valor arrecadado, que trabalhistas eram depositados diretamente na
sindical e das contribuições confederativa e ultrapassava R$ 3 milhões mensais. conta dos profissionais.
assistencial decorrentes de acordos coletivos
“Todos os procedimentos eram informais e não Foi constatado na área criminal da instituição
de trabalho celebrados”. A pedido do MPT-RJ,
documentados. O dinheiro que entrava podia contrato de R$ 60 mil com escritório de
a Justiça trabalhista concedeu, em outubro
ser pago a qualquer pessoa por meio de emissão advocacia destinado à defesa da ex-presidente
de 2014, liminar determinando a nomeação
de recibo, sem planejamento orçamentário do Sindicato dos Trabalhadores no Comércio
de um interventor para organizar as contas
ou acompanhamento”, explica Nunes. Além de Niterói (RJ), Rita de Cássia da Silva,
da entidade, que representa de 400 mil a 600
disso, foi verificado pela nova administração investigada em inquérito policial por supostos
mil trabalhadores apenas no município do
o pagamento de serviços não realizados. crimes de apropriação indébita, sonegação
Rio de Janeiro, segundo dados do Ministério
Agora, toda a arrecadação é depositada fiscal, lavagem de dinheiro e associação
do Trabalho e Emprego (MTE). Além disso,
obrigatoriamente na conta corrente do sindicato criminosa. “A estrutura organizacional
determinou o afastamento do presidente
para garantir o controle dos gastos. anterior evidencia o descaso e o desinteresse
Otton da Costa Mata Roma, do vice-presidente
com aquilo que devia ser o objetivo último
Raimundo Ferreira Filho, do tesoureiro Juraci
A economia possibilitou a implantação de do sindicato: os direitos e interesses do
Vieira de Sousa Júnior e do secretário-geral Gil
melhorias nos serviços oferecidos pela entidade comerciário. Não havia nenhum setor ou órgão
Roberto da Silva e Castro.
à categoria. “Muitos serviços em benefício no sindicato que tivesse como atribuição a
dos trabalhadores haviam sido suspensos. conquista e ampliação de benefícios para esta
A decisão também determinou a suspensão Equipamos as unidades, contratamos categoria”, destaca o relatório referente aos 90
do contrato de trabalho de todos os parentes advogados, médicos, homologadores, dias de intervenção.

26 LABOR
Eleição à vista
Em decisão da 19ª Vara do Trabalho do Rio
de Janeiro, o juiz Marcelo Antônio de Moura,
responsável pelo caso, determinou que a
eleição dos novos dirigentes do sindicato
ocorresse no primeiro semestre deste ano.
Para isso, foi formada uma nova comissão
eleitoral, para preparar o edital do pleito. No
intuito de garantir que a entidade tenha maior
representatividade e se aproxime da categoria,
está sendo feito o recadastramento dos
filiados, assim como campanha para estimular
novas adesões.

A antiga diretoria, conforme explica o


procurador do Trabalho responsável pelo
ajuizamento da ação, João Carlos Teixeira,
nunca se preocupou em atrair associados, pois
a maior parte da arrecadação, cerca de 80%,
é proveniente da contribuição assistencial
e do imposto sindical. “Esse é um problema
presente em muitos sindicatos, pois ambas
as contribuições acabam sendo suficientes

Ilustrações: Cyrano Vital


para gerir a entidade. Dessa forma cria-se um
ciclo, em que os sindicatos não se empenham
em oferecer um serviço eficiente que reverta
em benefícios para atrair associados, com
gestão transparente, e os trabalhadores, por
sua vez, não se empenham em participar das
atividades sindicais.”

A perda de credibilidade perante a categoria


é um dos problemas que têm dificultado a
adesão de novos associados no SEC-RJ. Desde
o início da intervenção, apesar do esforço em
recadastrar antigos associados e da campanha
para novas filiações, o número de adesões tem
sido baixo, o que levou a Justiça a prorrogar o
prazo para a realização das eleições. Também
por determinação judicial, a negociação
coletiva referente à data-base da categoria
será postergada para que seja conduzida pela
diretoria a ser eleita pelos comerciários. comerciários, não permitirá, em curto espaço desde 1966. Com a morte do pai, que presidia
de tempo, que este quadro seja revertido”, a entidade, Otton da Costa Mata Roma assumiu
conclui o juiz Marcelo Antônio de Moura. a presidência da entidade. Ele recebia salários
vultosos, empregava parentes e se perpetuava
no poder, embora atuasse, na verdade, como
Desmobilização empresário no ramo de táxi aéreo desde 1998.
Transparência
Embora o ritmo de novas filiações tenha As remunerações pagas aos quatro dirigentes
crescido – desde o início da intervenção foram Na avaliação do procurador do Trabalho sindicais afastados pela Justiça, conforme
conquistados 106 novos associados por mês, Carlos Augusto Sampaio Solar, o MPT tem demonstrou a investigação, chegava a R$
enquanto em 2014 o ritmo era de 15 novas verificado em suas investigações o afastamento 600 mil anuais para cada um. O padrão de
filiações mensais – atualmente o sindicato da direção dos sindicatos dos interesses vida deles era incompatível com a condição
conta com 2.035 filiados, o que corresponde da categoria profissional. “Essas entidades socioeconômica da maioria dos trabalhadores
a menos de 0,5% da categoria que atua na enfrentam uma crise de representatividade e de comerciários. Os dirigentes possuíam mansões,
capital. Além disso, durante o recadastramento, democracia sindical.” aviões e helicópteros.
diversas irregularidades nas filiações foram
verificadas. A grande maioria dos aposentados O problema decorre, em parte, da falta de Após o recebimento de denúncias, o MPT-RJ
filiados, por exemplo, nunca tinha atuado como transparência na gestão dos sindicatos, ajuizou ação civil pública na Justiça trabalhista
comerciário, e, apesar disso, contribuiu com sobretudo, em relação à arrecadação e às requerendo liminar, com auxílio de força
a entidade por 20 ou 30 anos, a pedido das despesas. Além disso, as assembleias, muitas policial, para determinar o afastamento da
antigas diretorias. “Fomos obrigados a criar vezes raras, segundo o procurador, não diretoria e do conselho fiscal, assim como a
uma categoria especial para esses sócios que garantem a participação dos diferentes grupos inelegibilidade dos dirigentes para o pleito que
contribuíram por anos sem serem comerciários, existentes dentro da categoria na composição seria realizado no fim de 2014.
de forma que possam usufruir dos serviços, das propostas. Para ele, outro problema é a
mas não tenham direito a votar ou de serem cobrança indiscriminada de contribuição a A Justiça acolheu a liminar e decretou o bloqueio
votados”, explica o interventor. todos os trabalhadores, sejam eles filiados ou das contas do sindicato, a disponibilidade dos
não, o que repercute negativamente sobre a bens móveis e imóveis e o lacre das salas para
A intervenção também constatou que a efetividade da atuação sindical. impedir o vazamento de informações, além de
antiga administração incluía no cadastro proibir a entrada dos dirigentes afastados na
dos sócios ativos funcionários do sindicato, entidade. No mérito, que ainda será apreciado
que não trabalhavam no comércio, para pelo juiz, o MPT-RJ pede que os réus sejam
que integrassem a chapa concorrente aos Entenda o caso condenados por lesão ao patrimônio moral
cargos de direção. “O grau de desmobilização e material do SEC-RJ, se tornem inelegíveis e
da categoria, após décadas de desmando A família Mata Roma dirigia o Sindicato de paguem danos morais coletivos de R$ 2 milhões,
e distanciamento dos interesses dos Empregados do Comércio do Rio de Janeiro pelos prejuízos causados à sociedade. X

LABOR 27
FOLIA

Por trás do Carnaval

Na avenida, o glamour. No barracão, as irregularidades

Por Bruce Andrade* e Danielle Sena

No desfile das escolas de música e têm outros nomes.


samba do Carnaval de Manaus, Eles são soldadores, pintores,
o mestre-sala e a porta- escultores e decoradores, e
bandeira, a rainha de bateria, trabalham em ritmo frenético
as passistas e os puxadores para finalizar os adereços
de samba-enredo estrelam a e as alegorias que serão
festa. Antes dos desfiles, os apresentados na avenida. São
protagonistas do espetáculo, eles que tiram do papel a alma
no entanto, dançam outra do enredo da escola de samba.

28 LABOR
Ione Moreno

O trabalho é braçal, não tem nenhum glamour. preparação, quem são e como trabalham os O Carnaval manauara tem se profissionalizado
E não rende fama. Mas, sem eles, a festa não agentes responsáveis por levar à avenida uma e, consequentemente, atraído um número
existiria. É uma rotina que requer muito esforço escola de samba. maior de especialistas em tornar sonhos em
e paixão. Se tivessem à mão adereços, em vez realidade. “Faz parte da minha rotina, da minha
de ferramentas, seriam uma categoria à parte Assim como em outras cidades, o Carnaval é vida. Quanto mais difícil a execução da arte
do carnaval. Para quem assiste aos desfiles das uma indústria que movimenta milhões de reais mais feliz fico. Fico satisfeito em realizar esse
escolas de samba de Manaus no sambódromo, e gera milhares de empregos em Manaus, como sonho coletivo e de apresentá-lo ao público”,
situado na Zona Centro-Oeste, ou mesmo ocorre em Recife, Olinda, Salvador, São Paulo e diz Diego da Silva, 29, escultor e pintor de ferro
pela TV, nem imagina como é o processo de Rio de Janeiro. e de isopor.

LABOR 29
Suor e paixão para adoção de medidas que resguardem a
saúde e a segurança dos trabalhadores foi
Arthur Brasil, 32, é mais um entre tantos firmado em 2013 com o Ministério Público do
exemplos de trabalhadores que emprestam sua Trabalho no Amazonas (MPT-AM).
arte para a cultura amazonense. Com mais de
doze anos de profissão, ele se sente orgulhoso Uma das principais medidas adotadas é a
por fazer parte deste espetáculo. “Esse é o obrigatoriedade de os extintores de incêndio
meu sustento e também a minha paixão. Eu estarem posicionados em lugares estratégicos
projeto esculturas em desenhos, depois faço a dentro dos barracões e de haver o desenho de
montagem e o acabamento delas. É um trabalho uma rota de fuga no chão com destino à saída
cansativo, mas é o que eu amo fazer”, revela o de emergência.
escultor da escola de samba Vitória Régia.
Em 2014, o risco iminente de incêndio
Para o soldador Luiz Carlos, 54 anos, chegou a ameaçar a integridade física dos
responsável pela montagem de carros trabalhadores, pois as agremiações obtinham
alegóricos da escola de samba Mocidade energia elétrica de forma indevida, por meio
Independente de Aparecida há seis anos, de ‘gatos’. Após fiscalizações do MPT, foi
o reconhecimento é só uma consequência constatado que devido ao furto de energia e
de um trabalho bem feito, um prêmio por à falta de manutenção, as instalações elétricas
tanta dedicação. “Quando você executa um estavam em condições precárias. Por conta da
bom serviço, a escola te procura de novo. reincidência das infrações e por exporem seus
Isso engrandece o nosso trabalho e é uma trabalhadores ao perigo, quatro escolas de
oportunidade de mostrar o que você faz para o samba foram interditadas.
público no sambódromo.”

Em Manaus, oito escolas de samba do grupo


especial possuem barracões cedidos pelo Altas temperaturas
governo do estado para que a decoração de
adereços e a montagem dos carros alegóricos Outras irregularidades relacionadas à
sejam feitas de forma eficaz. Os espaços ficam segurança do trabalhador ainda são
em uma rua, ao lado do sambódromo, palco recorrentes e a principal delas é a falta do
dos desfiles. Essa proximidade foi pensada uso de equipamentos de proteção individual
para facilitar a saída dos carros alegóricos (EPIs). Para a gerente de barracão da escola
dos barracões em direção ao sambódromo. de samba Reino Unido da Liberdade, Lenira
Os oito barracões têm as mesmas medidas Melo, é muito difícil controlar o uso dos
e características físicas. Cada um possui uma EPIs pelos trabalhadores. “A escola oferece
cozinha improvisada, um pequeno refeitório, todos os equipamentos, como botas, óculos,
também improvisado, banheiros masculino máscaras, luvas e cinto, mas, mesmo assim,
e feminino, um local para descanso, usado alguns trabalhadores insistem em não usá-los.
também como dormitório, além de uma sala Embora tente, não dá para fiscalizar o uso todo
destinada à diretoria das agremiações. o tempo.”

Alguns trabalhadores justificam a falta de EPIs


por conta das altas temperaturas registradas no
Emergência interior dos barracões. Segundo eles, por não
possuírem saídas de ar nas paredes e no teto,
Ao entrar nos barracões das escolas de em dias de calor intenso, a sensação térmica
samba durante o período de preparação chega a quase 50C° .
para o desfile de carnaval, o que se vê são
estruturas gigantescas de ferro que servem Outros trabalhadores, no entanto, têm
de sustentação para os carros alegóricos, consciência dos riscos que correm num
ocupando boa parte do local e restos de ambiente abafado, no qual estão sujeitos a
materiais espalhados pelo chão. Mal sobra intoxicação por inalação de gases tóxicos
espaço para uma locomoção mais confortável. exalados pelas tintas usadas nas decorações das
alegorias. Com a aspiração repetida, aumenta
Por se tratar de um ambiente fechado e com a chance de ocorrerem lesões irreversíveis
pouca ventilação, os galpões que abrigam no cérebro. O pintor Kédson Pereira, 34, da
as alegorias das escolas de samba precisam escola de samba Mocidade Independente
respeitar determinadas normas de segurança de Aparecida, sempre trabalha com EPI. “Uso
para evitar que incêndios ocorram. Por conta máscara, luvas, capacete e filtro. Exijo, porque
disso, um termo de ajuste de conduta (TAC) fico exposto diretamente à tinta.”

30 LABOR
Exemplos escola do grupo especial estava credenciada
a receber R$ 264,1 mil. O edital de patrocínio,
A escola de samba Mocidade Independente porém, só foi lançado em janeiro, um mês antes
de Aparecida, além de fornecer os EPIs, do Carnaval. “O repasse do governo ajuda nos
mantém um bombeiro civil em seu corpo de custos, mas deveria vir antes, para iniciarmos
funcionários. Ele tem por missão identificar, os trabalhos mais cedo. É complicado fazer
avaliar e controlar situações de risco, de forma o trabalho em cima da hora”, argumenta
a proporcionar um ambiente de trabalho mais Fabiano Fareal, carnavalesco da Mocidade
seguro e saudável para os trabalhadores. Independente de Aparecida.

“A orientação é fundamental no processo de A gerente de barracão da Reino Unido da


conscientização das pessoas. Costumo reunir Liberdade, Lenira Melo, acredita que muito
os trabalhadores e mostrar que eles podem do que é visto na avenida é fruto do esforço
estar sujeitos a acidentes caso não usem os da própria comunidade que, em comunhão,
equipamentos de segurança. Às vezes, tenho faz o carnaval da escola acontecer. “A gente
que chamar a atenção de um ou outro sobre a trabalha com o patrocínio de amigos e da
importância dos EPIs”, diz o bombeiro civil Ilmar própria comunidade até chegar a verba do
Carneiro de Oliveira, 49, há cinco anos na função. governo. Tivemos muitos patrocinadores.
Quando o dinheiro sai, ele é usado para
Nas fiscalizações nos barracões das escolas pagar o artista, para pagar as pessoas que
de samba durante a preparação para os fizeram as fantasias.”
desfiles, os membros do MPT descobriram
que as agremiações estavam alterando a folha Do TAC de 2013, firmado entre agremiações
de ponto dos trabalhadores, para esconder carnavalescas e o Governo do Amazonas,
jornadas excessivas de trabalho. perante o MPT, uma cláusula garante os
direitos dos trabalhadores. “A proposta é
“Os dirigentes das escolas de samba exigem garantir que as verbas trabalhistas sejam
que o trabalhador anote que o expediente pagas aos trabalhadores, pois constatamos
termina às 18h, quando, na verdade, que as agremiações não pagavam toda a
descobrimos, em fiscalizações realizadas jornada e as horas extras. Se as agremiações
após 20h, que mesmo com o ponto assinado, descumprem outras medidas firmadas no TAC,
as pessoas estavam trabalhando”, explica a como ocorreu no passado, o valor também
procuradora do Trabalho Fabíola Salmito. fica retido, a título de indenização por dano
moral coletivo”, explica a procuradora do
Trabalho Fabíola Salmito. O repasse do auxílio
financeiro governamental só é autorizado pelo
Patrocínio oficial
Beatriz Malagueta

MPT, caso as agremiações cumpram com seus


deveres trabalhistas. X
A demora no repasse de recursos do Governo
do Amazonas às escolas é apontado como um
dos responsáveis pela pressa na finalização
dos trabalhos para o desfile. Este ano, cada * Estagiário de Jornalismo do MPT no Amazonas.

LABOR 31
Cyrano Vital

32 LABOR
CONSTRUÇÃO CIVIL

Menos perigo
e mortes

Projetos buscam proteção de trabalhadores


no Rio Grande do Sul

Por Luis Nakajo

O setor da construção civil do problema complexa, agravada


concentra acidentes de trabalho pelo significativo aumento no
graves, com os maiores índices número de trabalhadores. Só de
de mortalidade da economia 2005 a 2010, o total de operários
brasileira. Problemas como a formalmente ligados ao setor no
terceirização de serviços e a falta país quase dobrou, chegando a
de treinamento tornam a solução 2,6 milhões.

LABOR 33
O Ministério Público do Trabalho (MPT)
no Rio Grande do Sul tem desenvolvido
Operações
programas específicos voltados ao setor, na Além de 18 audiências públicas, o MPT fez
capital e na Serra Gaúcha, regiões do estado forças-tarefas e operações, que combinam o
mais dinâmicas economicamente, para poder fiscal e o conhecimento agregado de
combater irregularidades, especialmente instituições parceiras, como o Conselho Regional
quanto ao meio ambiente de trabalho, de Engenharia do Rio Grande do Sul (Crea/RS),
responsável pela insegurança do trabalhador o Centro de Referência Regional em Saúde do
no canteiro de obras. A atuação, de natureza Trabalhador (Cerest) Regional Serra e a Vigilância
tripartite, busca estreitar o diálogo entre em Saúde do Trabalhador dos municípios.
estado, empregados e empregadores.
O resultado, que já pode ser observado, As irregularidades mais comuns encontradas
é a melhoria de condições de trabalho nessas operações estão no trabalho em altura,
para um contingente que soma 146 mil instalações elétricas e máquinas. Em todos os
trabalhadores, de acordo com dados de 2011 canteiros de obras, há insuficiência ou falta
do Departamento Intersindical de Estatística de proteção coletiva. No trabalho em altura,
e Estudos Socioeconômicos (Dieese). faltam os guarda-corpos. Inexistem rodapés
em periferias, vãos, poços de elevadores e
O programa do MPT na Serra Gaúcha, andaimes. Nas instalações elétricas, há fios
iniciado em 2007, tem caráter educativo esparramados pelo chão, sem isolamento,
e cooperativo, além de contar com ações às vezes em poças d’água, caixa elétrica
fiscais que resultaram por vezes em termos improvisada. Nas máquinas, há ausência
de ajustamento de conduta (TACs) e em de proteção das partes móveis, sistemas
ações civis públicas (ACPs), por parte do e dispositivos de segurança em guinchos,
MPT, e em embargos e interdições de elevadores, gruas, betoneiras e serras circulares.
obras, por parte do Ministério do Trabalho e
Emprego (MTE). Sanitários, vestiários, refeitórios, chuveiros
e fornecimento de água potável são
cuidadosamente investigados, por envolverem
Queda grande risco de adoecimento. “Essas situações
são recorrentes porque os empresários
Houve queda de 40% em acidentes entendem as medidas de segurança como
registrados na região, se comparados os se fossem separadas do projeto, quando, na
primeiros semestres de 2014 e 2013. Em verdade, estão dentro dele e devem evoluir
2013, o município de Caxias do Sul, com junto com a obra. Não há como dissociar um
cerca de 1 milhão de m² de construções, guarda-corpo de periferia da concretagem
completou 10 meses sem acidentes fatais no das lajes. Quando a concepção mudar, e as
setor, um recorde para uma cidade de 500 empresas entenderem que esses sistemas
mil habitantes. Em 2014, houve duas mortes. são parte do projeto e parte necessária do
O procurador do Trabalho Ricardo Garcia investimento, essa realidade não ocorrerá
informa que a média histórica de acidentes mais”, avalia o procurador Garcia.
fatais na região era de um a dois trabalhadores
por mês. “Isto é sinal de que já houve uma
evolução, mas não podemos acreditar que o
problema esteja resolvido. Primeiro, porque
Porto Alegre
é uma cultura secular, que ainda resiste, Responsável pela terceira maior área em
de negligência com segurança, improviso, construção entre as regiões metropolitanas
imprudências e amadorismo empresarial. no país, a construção civil de Porto Alegre
Segundo porque, com a crise que chegou emprega atualmente mais de 54 mil
ao Brasil, a tendência é economizar com trabalhadores. Baseado na experiência positiva
investimentos na segurança. Isso também faz de Caxias do Sul, foi iniciado, em 2014, projeto
parte da cultura. Nosso trabalho, então, tem para combater as irregularidades trabalhistas
que ser redobrado.” no setor.
O setor passou por um aumento agudo Desde novembro de 2014, audiências são
de atividade na última década. “A feitas com os públicos da construção civil,
construção viveu uma ascensão muito buscando esclarecer os participantes sobre
rápida, e incorporou um grande número de questões gerais relativas à legislação trabalhista
empresários e investidores sem experiência e fiscalização. Após as audiências, as forças-
no ramo, o que gera contratações sem tarefas de fiscalização serão iniciadas.
treinamento adequado e, pior do que isso,
obras levadas a toque de caixa, sem as De acordo com a procuradora do Trabalho
proteções coletivas necessárias.” O projeto Sheila Ferreira Delpino, na região há o
levou em conta a falta de informação e agravante de o setor concentrar casos do
investiu em duas frentes: repressão às Cadastro de Empregadores (“lista suja”)
ilegalidades e educação e capacitação do Ministério do Trabalho e Emprego de
de todos os seus públicos: empresários, aliciamento de trabalhadores vindos de estados
engenheiros, técnicos de segurança, mestres como o Maranhão e o Piauí, trazidos para
de obras e operários. trabalhar irregularmente em zonas urbanas. X

34 LABOR
Aline Zerwes Bottari Brasil

35
LABOR
CONDIÇÃO DEGRADANTE

Sangue, sujeira
e contaminação
Abatedouros públicos sem mínimas condições
de higiene expõem trabalhadores e população
a altos riscos em Alagoas

Por Rafael Maia

A carne bovina produzida em acondicionamento irregular


Alagoas que chega à mesa de produtos, dejetos jogados a
do consumidor faz parte de céu aberto e, principalmente, o
um processo muito mais desrespeito ao meio ambiente
complexo do que apenas de trabalho digno. O Ministério
a compra e a venda da Público do Trabalho (MPT), no
mercadoria: a matança de entanto, tem tentado mudar
bovinos, feita em diferentes esse cenário, ao manter como
municípios alagoanos, linha de atuação a erradicação
está envolta em falta de do trabalho sob condições
estrutura e de equipamentos, degradantes na matança
risco de contaminação, de bovinos.

36 LABOR
Rafael Maia

LABOR 37
Em setembro de 2014, o Ministério do pelo Ministério da Agricultura e Pecuária e
Trabalho e Emprego (MTE) interditou o Abastecimento (Mapa) em dia.
matadouro público de São Luiz do Quitunde,
distante 50 km de Maceió, depois que o MPT
e o MTE constataram que o local não possuía
nenhuma condição de funcionamento, apesar Saúde pública
de ter passado por reforma dois anos antes.
As irregularidades começavam no abate Em Santana do Mundaú, no interior do estado,
dos animais, realizado a marretadas e por o desrespeito do município às regras sanitárias
empregados sem qualificação. Os produtos vigentes também existe. Durante inspeção
eram manipulados em bancadas sujas, realizada no matadouro público para verificar
sem higienização, e a carne, submetida à o cumprimento de um termo de compromisso
temperatura ambiente até ser recolhida, pois firmado em março de 2013, a procuradora do
o matadouro não possuía câmara frigorífica Trabalho Adir de Abreu, auditores fiscais do
para armazenamento. trabalho e representantes sanitários estaduais
encontraram o ambiente sem a higiene necessária.
A situação degradante a que eram submetidos Os empregados manuseavam instrumentos
os trabalhadores do matadouro era visível improvisados para matar os bovinos e não
até para leigos. Sem utilizar equipamentos utilizavam EPIs. Como em São Luiz do Quitunde,
de proteção individual (EPIs), os empregados em Santana do Mundaú os empregados do
mantinham contato direto com a carne e as matadouro também usavam água contaminada
vísceras dos animais – jogadas a céu aberto, para lavar mãos e instrumentos e tratavam a carne
sob risco de poluição ambiental – e utilizavam em local próximo das fezes dos animais.
água suja de sangue para lavar as mãos e o
rosto. Também faltavam vestiários suficientes Há cerca de oito anos, o MPT em Alagoas já
e banheiros higienizados. Para fazer a matança atuava diante de condutas prejudiciais ao
dos bois, trabalhadores relataram receber R$ 35 trabalhador em matadouros. Em dezembro
por dia. Um dos empregados afirmou ganhar de 2007, a Justiça do Trabalho condenou o
R$ 70 por semana. município de Messias, próximo à capital, a
suspender o abate de animais no matadouro
Para o perito em Engenharia de Segurança do municipal, feito por servidores públicos, a ceder
Trabalho do MPT em Alagoas, Lúcio Avelar, o espaço físico a terceiros e a adequar o meio
não existe nenhuma possibilidade de um ambiente do trabalho. A Justiça determinou
estabelecimento continuar funcionando também que o município impedisse a
nessas condições. “O matadouro não entrada de crianças nas instalações físicas do
realizava a inspeção obrigatória de ante abatedouro. O abate dos animais e a entrada de
e post-mortem dos animais, não havia crianças no matadouro poderiam render multa
controle de manipulação, de preparo, de de R$ 100 mil e R$ 50 mil, respectivamente, em
conservação, de acondicionamento e de caso de descumprimento das obrigações.
embalagem da carne, o que punha em
dúvida a qualidade do produto e expunha A decisão foi fundamentada em ação civil pública
os funcionários e os consumidores a riscos (ACP) ajuizada pelo MPT, feita depois de tentativas
de saúde. Também não havia nenhuma de conciliação, sem sucesso. O argumento era de
fiscalização sobre a procedência dos animais.” que o matadouro público não possuía condições
Os animais destinados ao abate devem estar de higiene e estrutura devido à mistura de carne,
vacinados e com todos os controles exigidos sangue, fezes e outras impurezas.

38 LABOR
MPT Alagoas

LABOR 39
Rafael Maia

40 LABOR
Primeiros resultados matadouros públicos. A PTM de Arapiraca
conseguiu firmar acordo de conciliação com
Entre 2007 e 2013, o MPT instaurou 18 o município de Mata Grande, no Alto Sertão
procedimentos para investigar irregularidades alagoano, há cerca de três anos, depois que
em matadouros públicos no estado. As o município descumpriu TAC assinado para
ações resultaram em notificações, ações na regularizar o meio ambiente do matadouro
justiça, interdição e fechamento dos locais. Os público. Inspeção realizada para verificar
problemas encontrados estavam relacionados o cumprimento do acordo mostrou que,
a condições sanitárias e de conforto; uso de à época, os trabalhadores não possuíam
equipamentos de proteção individual ou pistola pneumática, essencial para o abate
coletiva; criação de Comissões Internas de dos animais, possuíam poucas cadeiras
Prevenção de Acidentes (Cipas), de Programas para descanso e que uma escada de acesso
de Controle Médico de Saúde Ocupacional ao ambiente de trabalho oferecia risco de
(PCMSOs) e de Programas de Prevenção de acidente. O procurador do Trabalho Alexandre
Riscos Ambientais (PPRAs), todos essenciais para Alvarenga chegou a pedir na Justiça a
garantir a saúde e a segurança dos empregados. execução do termo de compromisso.

Em São Luiz do Quitunde, a inspeção A PTM de Arapiraca ainda acompanha


realizada cumpriu determinação da Vara do compromisso de 2009 com o mesmo
Trabalho local e teve como propósito reavaliar município para regularizar o uso de EPIs,
tecnicamente as condições trabalhistas no a implantação do PCMSO e a adequação
matadouro. O procurador do Trabalho Matheus de condições sanitárias e de conforto no
Gama ajuizou ACP contra o município em 2010, ambiente de trabalho. Com a assinatura do
após o Sindicato dos Médicos Veterinários TAC, o município assumiu o compromisso de
e Zootecnistas de Alagoas (Sindimvet/AL) suspender as atividades de abate de animais
denunciar a precariedade do local. até a implementação de condições de
trabalho seguras.
A Justiça do Trabalho acatou o pedido de
interdição do matadouro pelo MPT e condenou No município de Viçosa, na Zona da Mata, a
o município e os ex-prefeitos Jean Cordeiro e PTM ajuizou ACP para readequar as condições
Cícero Cavalcante a pagar multa e indenização de trabalho no matadouro. O procurador
por danos morais coletivos causados aos Alexandre Alvarenga pediu à Justiça que
empregados. Um ano após a decisão da Justiça, o município fosse intimado a comprovar o
os réus no processo firmaram acordo judicial transporte adequado dos miúdos dos animais,
com o MPT para regularizar o meio ambiente a implementação da trilhagem do abate aéreo
de trabalho no matadouro, mas continuaram a e as reformas estruturais do local.
praticar as irregularidades.

Já em Santana do Mundaú, o prefeito deverá


pagar R$ 10 mil de multa por irregularidade Solução?
encontrada. O MPT aguarda que o município
institua, dentre as obrigações presentes A solução definitiva para os matadouros
no termo de ajustamento de conduta em Alagoas virá, segundo Adir de
(TAC), o serviço de engenharia, medicina e Abreu, quando os gestores entenderem
segurança do trabalho (conforme a Norma que o dinheiro público não deve ser
Regulamentadora 4, do MTE) e providencie investido em matadouros públicos. “O
transporte adequado para os animais, Direito Administrativo fala em Estado
equipamentos e veterinários capacitados. intervencionista. Assim, quando o município
realiza atividade fora de suas atividades-
fins, está intervindo fora de suas atribuições
primárias, como educação básica e saúde
Descentralização pública. O mesmo ocorre com a atividade
de abate de animais, que, em geral, é
As ações em busca de ambientes de trabalho privada, mas que, em Alagoas, tem sido
limpos e higienizados não se concentram responsabilidade de municípios, os quais
somente na sede do MPT em Maceió, mas sequer conseguem gerir as necessidades
se estendem à Procuradoria do Trabalho no básicas de seus cidadãos. As soluções devem
Município (PTM) de Arapiraca, que também vir de projetos de abate dos animais em
atua no combate às irregularidades em estabelecimentos de natureza privada.” X

LABOR 41
REFINARIA ABREU E LIMA

Barris de confusão
Falta de ética na gestão da obra da Petrobras
prejudica trabalhadores em Pernambuco

42 LABOR
Por Mariana Banja

Localizada em Pernambuco, desde a concepção; os


no complexo industrial de sociais, e a face perversa é a
Suape, a 60 quilômetros do crescente exploração sexual
Recife, a refinaria Abreu e Lima de crianças e adolescentes nas
se transformou em fonte de cidades do entorno da obra;
problemas. De vários problemas. e os de mobilidade, pois falta
A lista é grande e inclui os infraestrutura de meios de
ambientais, porque a indústria transporte terrestre e ferroviário
petrolífera é insustentável na região.

LABOR 43
Há, ainda, os entraves trabalhistas e as pulou para U$$ 18,8 bilhões –, a Rnest/ pela dificuldade financeira e alega ter mais
denúncias de corrupção nos contratos da Petrobras é investigada pela Polícia Federal na de R$ 1,2 bilhão a receber por serviços já
obra. Embora os desvios não sejam objeto Operação Lava Jato. Muitas das empresas que executados para a Petrobras. Desde então,
da atuação direta do Ministério Público do operam na Refinaria Abreu e Lima são citadas estão suspensas as ações de execução de
Trabalho (MPT), eles, de alguma maneira, nas investigações e parte delas quebrou dívidas e também as ações trabalhistas
desaguam no mundo laboral, produzindo compromissos com os trabalhadores. movidas contra a empresa em Pernambuco.
demandas administrativas e judiciais para o Esse é o primeiro grupo dos envolvidos
órgão, sobretudo em função dos calotes dados nas denúncias da Lava Jato a entrar em
nos trabalhadores em 2014. Alumini recuperação judicial.

De acordo com a procuradora do Trabalho Uma delas é a Alumini. Envolvida em uma Se, em 2014, o caso mais emblemático
Débora Tito, que tem acompanhado de perto série de processos trabalhistas em obras da foi o da Alumini, em janeiro de 2015, os
os casos, há sincronia entre o brotar da falta de Petrobras, a empresa demitiu, em outubro de funcionários do Consórcio Coeg, responsável
pagamento de trabalhadores e as denúncias 2014, 4,9 mil trabalhadores da Rnest. Além pela construção de uma tubulação que liga
de corrupção. “Não tenho como estabelecer disso, dispensou mais 400 no Complexo a refinaria ao Porto de Suape, protestaram
um nexo de causalidade, mas é certo que o Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) por falta de pagamento de salários. De
trabalhador está sendo atingido pela falta de e tem atrasado o pagamento de salários e acordo com o Sindicato dos Trabalhadores
ética na gestão dessa obra e ele não deve pagar benefícios rescisórios. das Indústrias de Construção de Estradas,
essa conta.” Pavimentação e Obras de Terraplanagem em
A Justiça do Trabalho em Pernambuco Geral no Estado de Pernambuco (Sintepav-
Envolvida em denúncias de desvio de bloqueou as contas e bens da Alumini, que, PE), 337 operários foram demitidos pelo
recursos e superfaturamento – o custo da por outra determinação judicial, teve a consórcio em dezembro e ainda não haviam
obra, previsto em U$$ 2 bilhões em 2007, falência decretada. A empresa culpa a estatal recebido as verbas rescisórias.
Frederico Tavares

44 LABOR
Cenário processo de desmobilização da refinaria,
orientando-os sobre as etapas para o
para discutir, cidade por cidade, as estratégias
locais para criação desses centros de
Até 2013, as demandas reivindicatórias andamento legal das rescisões contratuais. orientação e capacitação dos trabalhadores.
dos trabalhadores estavam dentro da
normalidade. Ano passado, porém, o MPT e, Às empresas, as recomendações do MPT e do A Petrobras foi orientada a apresentar projeto
sobretudo, a Justiça do Trabalho passaram MTE trataram da manutenção dos contratos de desmobilização para os próximos dois anos
a ser demandados por falta de salário e não de trabalho existentes e do compromisso de e a manter o acompanhamento das demissões
pagamento das rescisões, devido ao processo encaminhar os trabalhadores dispensados a junto às empresas parceiras. Ambas as
natural e previsível de desmobilização de mão outros postos, ao sindicato obreiro da categoria indicações foram ignoradas.
de obra na construção. ou aos Centros Municipais de Emprego.
Ao governo, a notificação recomendatória
A etapa final da obra, quando as dispensas Para as empresas com mão de obra migrante, orientava a manter e ampliar o funcionamento
passaram a ser intensificadas, foi inclusive foi pontuada a necessidade de garantir a das agências de trabalho, principalmente das
objeto de preocupação do MPT e do Ministério manutenção do alojamento, alimentação regiões ao entorno de Suape.
do Trabalho e Emprego (MTE), que lançaram e demais condições de saúde e segurança
uma instância de diálogo e articulação para até o efetivo desligamento do empregado Após seis meses de atividade, o MPT e o MTE
colaborar com a recolocação de trabalhadores e a concessão das passagens para retorno, suspenderam as atividades do Fórum Remos,
no mercado de trabalho, antevendo casos de realizando os pagamentos no prazo legal. O por falta de colaboração das empresas, tanto
desemprego na região e no Estado, dispensas documento também recomendava a realização do ponto de vista legal quanto do preventivo.
irregulares e fraudes em empresas terceirizadas. do pagamento das verbas rescisórias dentro da “Como as empresas não têm colaborado, não
legalidade, enviando relatório mensal ao MPT temos como atuar preventivamente. Todos os
Naquele momento, em dezembro de 2013, em que fossem discriminadas todas as etapas dias, recebemos demandas de ordem essencial,
o Fórum para Recolocação da Mão de Obra do processo. Todas as 16 empresas contratadas como o pagamento de salários, algo que não
de Suape (Remos) tinha como foco o destino pela Petrobras para as obras da refinaria se esperava nesse processo de desmobilização.
de 42 mil trabalhadores. Representantes das terceirizaram serviços. Na pior das hipóteses, nosso problema seria
empresas contratadas, dos sindicatos dos de ordem rescisória”, disse Débora Tito. Desde
trabalhadores, do poder público – prefeituras Para os municípios, foi entregue notificação então, o MPT passou a negociar o pagamento
e governo do estado – e da Petrobras foram que orientava sobre a criação das Centrais de salários, a recomendar que pousadas não
convocados a participar. Além de audiências de Emprego, em parceria com os sindicatos despejem operários por falta de pagamento das
públicas, o Remos emitiu notificação patronal e laboral ligados à Suape, nas cidades empresas e a tentar resolver calote de empresas
recomendatória a todos os envolvidos no sem agências de trabalho. Audiências públicas de transporte de trabalhadores.

Guilherme Monteiro

LABOR 45
3 perguntas
Débora Tito – procuradora do Trabalho
O que ocorreu em Suape? créditos, e a Petrobras, que tenta escapar
da responsabilidade subsidiária. Assim, é
A corrupção e a desorganização afetaram importante que o MPT haja como fiscal da
as empresas. Houve um calote em massa lei, inclusive nesses processos incidentais, de
gerado pelas perturbações internas da forma a evitar ofensas aos direitos alimentares
Petrobras. Passamos seis meses iludidos, dos trabalhadores.
pensando na prevenção e em como
encaminhar esses trabalhadores para outros
postos de trabalho. Isso funcionou até certo
ponto, mas a avalanche de não pagamentos
A Petrobras tem
transformou a prevenção em corrida para responsabilidade no caso
garantia de pagamentos básicos, de salários
e de verbas alimentares. As demissões
de Suape?
previstas para ocorrer em 2014-2015 Existe uma orientação jurisprudencial (OJ 199)
atrasaram e, em 2015, espero que as grandes que diz que a dona da obra não é responsável.
corporações consigam pagar as verbas Então a má-fé é evidente. E o que sustentamos
rescisórias. Neste ano, precisamos retomar aqui? Que a Petrobras não é uma mera dona
a ideia de realocar a mão de obra daqueles da obra. Ela agiu como um gerente. Sabia
trabalhadores que serão naturalmente quem entrava e quem saía das obras e todos
desmobilizados, porque ainda há cerca de 40 os pormenores, o que é típico de uma gestora.
mil pessoas empregadas em Suape. Na prática, em Suape, à Petrobras não cabe o
argumento jurídico que a está blindando. Na
verdade, são anos e anos de uma cultura de
Como tem sido a atuação corrupção que estourou pela transparência
hoje existente no Brasil. De forma alguma, essa
dos sindicatos? conta pode sobrar para o trabalhador.

Os sindicatos envolvidos têm sido rápidos Podemos criar um precedente preventivo a


e enérgicos no ingresso das ações, até partir da observação dessas obras, desde a
porque a comoção social assim exige, comemoração de seu início ao momento da
afinal, cada empresa que começa a atrasar desmobilização. A segunda lição é que esse
salários atinge uma massa de 500 a 3 mil papel cabe ao Estado e que o Ministério Público
trabalhadores de uma só vez, em média. Os deve provocar essa instância, da mesma forma
casos de Suape envolvem terceiros, quartos e como vem cobrando políticas públicas na área
quintos atores, como os bancos, que exigem de trabalho infantil, por exemplo. X

46 LABOR
O atleta Sebastião Sales da Silva,
52 anos, lê a Labor. E você?

LABOR 47
REVERSÃO

Em boas mãos
Recursos de TACs beneficiam diretamente as comunidades
atingidas pelas irregularidades trabalhistas
48 LABOR
Tamiles Costa

Quando o Ministério Público do normalmente são destinados ao assistenciais, instituições, projetos


Trabalho (MPT) propõe um termo Fundo de Amparo ao Trabalhador e programas sociais. Leia nas
de ajustamento de conduta (FAT). No entanto, tem se matérias de Mariana Braga,
(TAC) a uma empresa ou entra tornado cada vez mais comum Tamiles Costa e José Bosco
com ação civil pública (ACP) por a opção por indicar nos TACs ou Gouveia alguns exemplos dessas
irregularidades trabalhistas, os ACPs beneficiários nas próprias alternativas de reversão de
valores de dano moral coletivo, comunidades onde ocorreram as recursos no Rio de Janeiro, Pará
indenizações e multas obtidos irregularidades, como entidades e Rondônia.

LABOR 49
Samba, moda e sustentabilidade
Dinheiro de multa e indenização capacita costureiras

Por Mariana Braga

Divulgação Salgueiro
Depois de quatro meses de aulas de costura, e pretende cursar a faculdade de design de de Samba Acadêmicos do Salgueiro e a ONG
o projeto Samba, Moda e Sustentabilidade moda. Tina é da velha guarda do Salgueiro e por franco-brasileira Moda Fusion. Tina e Lorena
mudou a vida de 20 mulheres da comunidade muitos anos trabalhou como cabeleireira. Agora, tiveram aulas com estilistas brasileiros e de fora
da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro. ela se aventura na nova atividade. “Tinha uma do país três vezes por semana, durante quatro
Financiada com recursos de uma execução noção de costura, mas no curso aprendi a fazer meses. “O contato com as meninas foi prazeroso.
trabalhista requerida pelo Ministério Público do roupas sob medida, almofadas e flores de pano. Elas não estavam interessadas no bem em si,
Trabalho (MPT) no Rio de Janeiro, a iniciativa Pretendo vender e ajudar na renda da casa.” mas em aprender. Não foi uma troca material,
capacitou mulheres de 20 a 70 anos com um mas humana”, conta Andréa Lima, responsável
objetivo em comum: aprender um novo ofício e Colega de sala de aula, Lorena, por outro pelas aulas.
garantir maior perspectiva profissional. lado, dá os primeiros passos no que sonha em
seguir como profissão. “Quero ser estilista e
As participantes, a maioria donas de casa, foram
“São mulheres que tinham o sonho de aprender depois trabalhar com produção de moda. Não
selecionadas pela associação da comunidade.
a costurar e ter uma profissão. Pessoas que sabia costurar e aqui aprendi muita coisa, a
Algumas sabiam fazer coisas básicas, como
nunca tiveram uma oportunidade e agora viram desenhar e montar roupas e looks.” A jovem
costurar uma bainha ou pregar um botão, mas
a possibilidade de aprender a sonhar”, diz a diz que o contato com pessoas mais velhas e
ao participar do projeto acabaram aprendendo
advogada Patrícia Nascimento, responsável no experientes, como Tina, contribuiu para seu
um novo ofício. “No começo, ficaram
Salgueiro pela área de projetos financiados por crescimento pessoal e profissional. “Conheci
desconfiadas, já que nas comunidades é comum
meio de incentivo fiscal. Por não cumprimento os melhores professores.”
pessoas chegarem oferecendo promessas e
de acordo com o MPT, R$ 115 mil de multa
desaparecerem. Com o tempo, viram a seriedade
trabalhista foram destinados para formar as
do projeto”, explica Patrícia.
novas costureiras.

Foi na sala de aula montada no barracão do Aprender Roupas, estampas, acessórios, peças de
Salgueiro, na Cidade do Samba, zona portuária decoração e artesanatos foram produzidos
do Rio, que Juventina Maria Moraes (à esquerda O projeto que abriu novas perspectivas a partir do material reciclado dos desfiles de
na foto acima), viúva de 73 anos e chamada de profissionais a mulheres da comunidade carnavais anteriores. Um desfile de moda
Tina na comunidade, conheceu Lorena Moura, começou em março de 2014, com a parceria do com as passistas da escola de samba marcou
jovem de 20 anos que acabou o ensino médio MPT com o Instituto Pereira Passos (IPP), a Escola o encerramento do projeto. A coleção

50 LABOR
apresentada se baseou em influências da cláusula que obrigasse filiação compulsória
cultura mineira, já que este ano o Salgueiro do trabalhador – o que é ilegal –, nem exigir
levou para a avenida enredo em homenagem à que empresas pagassem uma contribuição
comida de Minas Gerais. sindical – o que fere o princípio da autonomia
dos sindicatos. Por descumprir essas medidas,
o sindicato foi acionado a pagar cerca de R$
150 mil, dos quais parte do valor foi destinado
Perspectiva ao Samba, Moda e Sustentabilidade.

O dinheiro serviu para pagamento dos


O Samba, Moda e Sustentabilidade buscou levar
profissionais e da bolsa-auxílio de R$ 400 por
às mulheres da comunidade noções de gestão de
mês paga às estudantes, além de auxílio-
economia solidária e criativa, além de promover
transporte e lanche. “O objetivo é dar maior
geração de emprego e renda. “No curso, aprendi
visibilidade e finalidade social aos recursos. A
a manusear a máquina, fazer modelagem, tirar
partir do levantamento das necessidades, esses
medidas, uma forma de tirar o sustento da
projetos melhoram a realidade das localidades.
família, o que é muito importante para a nossa
A qualificação proporciona dignidade ao
comunidade”, explica a dona de casa Margareth
trabalhador, além de elevar a autoestima
Caeiro, de 50 anos. Solteira e mãe de uma filha,
dessas pessoas”, destaca o procurador do
conta que se inscreveu no projeto para aprender
trabalho João Carlos Teixeira, responsável pela
um novo ofício e ter uma profissão.
destinação dos recursos.

Com a conclusão do curso, parte do grupo se


organiza para fazer uma feira na comunidade,
pelo menos uma vez por mês, para vender os CCR
produtos feitos com reciclados. “Usamos tecido,
cola e botão. São coisas que as pessoas vão A reversão de multas e indenizações
jogar fora, acham que é lixo, mas conseguimos trabalhistas para projetos sociais passou
dar nova destinação”, fala Margareth. a ser possível após decisão de janeiro de
2009 da Câmara de Coordenação e Revisão
A ideia, segundo Patrícia, é dar continuidade ao (CCR) do MPT. No Rio de Janeiro, o MPT tem
projeto, oferecer cursos mais longos e, ao final, convênio com o Instituto Pereira Passos (IPP)
montar uma cooperativa, para que a atividade para a destinação de recursos a projetos em
possa gerar uma renda extra e permanente comunidades pacificadas.
às participantes. “Queremos que elas se
organizem para andar com as próprias pernas.” O coordenador de projetos da Divisão de
Desenvolvimento Econômico e Estratégico
do IPP, Micael Amarante, diz que iniciativas

Recursos
dessa natureza contribuem para o
desenvolvimento de toda a comunidade.
“Não é algo imposto de cima para baixo.
Foi a execução contra o Sindicato dos Vamos a campo conhecer a realidade e as
Empregados do Comércio do Rio de Janeiro, necessidades locais. A partir daí, organizamos
por descumprimento de um termo de o projeto.” O IPP, além de indicar o projeto,
ajustamento de conduta (TAC) feito com o é responsável por fiscalizar a aplicação dos
MPT-RJ, em 2009, que gerou os recursos para recursos. “Esperamos financiar mais projetos,
o projeto. Pelo acordo, o sindicato não poderia para poder beneficiar outros moradores e
mais incluir em acordo ou convenção coletiva mudar uma realidade social.”
Mariana Braga

LABOR 51
Quando todos vencem
De formação musical a mecânica, recursos
melhoram a vida de crianças e jovens no Pará
Por Tamiles Costa
Fotos: Tamiles Costa
É possível, num processo judicial, todas
as partes saírem ganhando? Quando uma
condenação é transformada em instrumentos
musicais para crianças da periferia de Belém
ou em um centro de formação profissional em
uma comunidade de Marabá, todos ganham.

De janeiro de 2013 a fevereiro de 2015, o MPT


no Pará e Amapá destinou cerca de R$ 2,6
milhões a instituições sem fins lucrativos com
finalidades sociais, em procedimentos judiciais
e extrajudiciais. Desse total, R$ 2,1 milhões já
foram pagos. As multas revertidas em benefício
da música e da capacitação profissional
são quantificáveis em reais. O impacto na
comunidade, não.

O valor das reversões feitas pelo MPT atinge


R$ 1,6 milhão e é resultante de ação civil
pública (ACP) contra a Viena Siderúrgica S/A,
acusada de encabeçar grupo econômico que
utilizava mão de obra análoga à de escravo na
produção de carvão vegetal, no Sudeste do
Pará. Em novembro de 2004, o Grupo Móvel
de Combate ao Trabalho Escravo, integrado
pelo MPT e o Ministério do Trabalho e Emprego
(MTE), em ação na zona rural de Ulianópolis,
constatou graves irregularidades trabalhistas
nas carvoarias da região.

Após investigações, em 2006, o MPT requereu


à Justiça do Trabalho que as quatro rés da
ação fossem solidariamente condenadas a
cumprir obrigações de fazer e não fazer e ao
pagamento de indenização por dano moral
coletivo. Entre os beneficiários das reversões
estão a Superintendência Regional do Trabalho
e Emprego (SRTE/PA) e o Batalhão de Polícia
Ambiental do Pará (BPA), parceiros do MPT nas
diligências de combate ao trabalho escravo.

Sede nova
Além desses, o projeto Trabalho Justiça
e Cidadania (TJC), o Grupo de Pesquisa
Trabalho Escravo Contemporâneo (GPTec/
UFRJ), gerido pela Fundação Universitária
José Bonifácio, e outras três instituições
sociais com sede em Paragominas, sudeste
do Pará, receberam recursos: o Projeto
Juquinha, o Projeto Menino Feliz e o
Educandário Menino de Deus.

O primeiro projeto é voltado à assistência


neuropsicomotora, pedagógica e social de
crianças e jovens com deficiência. Em janeiro
de 2015, quando a nova sede do projeto
foi inaugurada, mais de 150 crianças já
aguardavam na lista de espera para receber
atendimento da instituição, que atua na
melhoria da saúde, recuperação e coordenação
motora dos pacientes.

52 LABOR
O segundo projeto funciona em parceria Na escola, muitos estudantes são
encaminhados ao mercado de trabalho
Música
com a Polícia Militar e, há 15 nos, desenvolve
ações de combate ao trabalho infantil. A antes mesmo do fim do período letivo. É o Os bairros União e Nova Vida, em Marabá,
instituição atende, diariamente, 250 crianças que conta Glouver Nascimento, de 17 anos, ganharam um centro técnico de formação
e adolescentes entre 8 e 16 anos em situação aluno de Mecânica Diesel: “A maioria dos profissional. A construção foi possível pela
de risco social. As ações envolvem atividades meus colegas já está trabalhando na área.” reversão de mais de R$ 1 milhão em acordo
culturais e esportivas – como reforço de O professor Isaias Franco confirma. “Em três judicial da HF Engenharia com o MPT. O valor
língua portuguesa e de matemática, aulas de meses, esses jovens já são absorvidos pelo foi empregado na aquisição de um terreno,
flauta, capoeira, caratê, xadrez, artes, futebol e mercado.” móveis e equipamentos, além de contratação
educação física. de profissionais e custeio direto de 24 cursos
O padre Angel Nieto, diretor da EST, explica oferecidos pelo Sistema S (Sesc, Senai e Senac)
que o curso de Mecânica Fiat é promovido e manutenção dos custos operacionais.
por meio de convênio com a montadora.
Jovens profissionais A proposta é preparar mecânicos para Há mais de uma década trabalhando na formação
as concessionárias. “Os professores são musical de crianças e adolescentes de áreas
Em março de 2012, um acidente envolvendo capacitados pela montadora, que também de risco, o Projeto Cururu tem a resposta para
três empregados da SME –Sistemas de cede veículos para fins didáticos.” a dúvida se há música erudita na periferia.
Montagem e Engenharia, quando realizavam Durante a inauguração do Centro Comunitário
serviços de grampeamento de cabos em postes Uma motocicleta 220cc, um escâner universal São Lourenço, no bairro da Condor, subúrbio
de energia elétrica, em Paragominas, matou para motos, três multímetros digitais, um de Belém, integrantes do grupo tocaram Vivaldi
dois deles. A empresa, que atua na construção motor diesel, carrinho de ferramentas, caixa e Luiz Gonzaga e provaram que existe arte em
de linhas de transmissão elétrica, após ser alvo de marcha, radiador e embreagem foram todos os lugares.
de inquérito civil instaurado pelo MPT, firmou entregues à EST. A instituição também
termo de ajustamento de conduta (TAC). recebeu um teclado sintetizador, microfone O Projeto Cururu e a nova sede da
profissional, fones de ouvido, monitores Comunidade São Lourenço receberam R$
Além da regularização dos procedimentos, a e módulo de percussão digital, que vão 466 mil revertidos pelo MPT. Os acordos
empresa também se comprometeu a pagar R$ aparelhar o estúdio de transmissão da rádio judiciais foram feitos com as empresas Gafisa,
140 mil por dano moral coletivo. A quantia foi interna da escola. Hileia Indústria de Produtos Alimentícios,
revertida à Escola Salesiana do Trabalho (EST), que
Transportes Marituba e Belém Rio Transportes;
promove cursos profissionalizantes gratuitos em A ex-aluna Érika Marques, hoje auxiliar dos
e os extrajudiciais com o Consórcio CCB/
Belém, há mais de 50 anos, e hoje atende cerca de alunos, já decidiu qual profissão seguir: “Quero
Fujita Engenharia e as empresas Construtora
460 alunos em oito cursos da área industrial. trabalhar em produção de estúdio.”
Modesto Viana e Artes em Aço e Ferro.

Localizado em área violenta da capital, o São


Lourenço desenvolve também o projeto Um
gesto de amor, que faz o reforço escolar de 80
crianças de 6 a 10 anos. O frei Edilson Rocha,
presidente do Centro Comunitário Santo
Antônio de Lisboa, do qual o São Lourenço
faz parte, conta que ver a sede revitalizada do
centro, fundado há 47 anos, era um sonho. “O
espaço, reformado para os pequeninos, também
será importante para os jovens e idosos e para o
fortalecimento do espírito comunitário e social.”

Transformação
A coordenadora do Projeto Cururu, Eliane
Fonseca, explica que mais de 1 mil crianças
foram atendidas em dez anos. “A música muda
e é capaz de transformar a vida.”

No projeto, as crianças têm aulas de música,


a partir dos 7 anos, e de ballet, a partir dos
4. O MPT reverteu cerca de R$ 60 mil em
instrumentos musicais para a iniciativa, em
acordos com as empresas Urbana Engenharia e
a Goiás Serviços de Concretagem. As doações
possibilitaram a aquisição de 17 violinos, três
violoncelos, um piano digital, um amplificador,
afinadores eletrônicos, 18 flautas doces, três
baterias acústicas, oito flautas transversais, sete
clarinetes, três saxofones e 45 flautas doces.

LABOR 53
Em Rondônia
Associações e casas de assistência são beneficiadas
Por José Bosco Gouveia

A Associação de Voluntários Casa de Apoio a As receitas usadas pelas Casas de investigações e apoio em diligências na área rural.
Pacientes com Câncer recebeu do MPT uma van Acolhimento a Pessoas Idosas de Porto
para o transporte de pacientes em cadeira de Velho e Ariquemes na aquisição de veículo, No mesmo ano, conselhos tutelares de Porto
rodas em 2014. Em Ji-Paraná, a Associação de mobiliário, roupas de cama e fraldas Velho, Chupinguaia e Alto Paraíso receberam
Pais e Amigos de Excepcionais (Apae) recebeu geriátricas também vieram do MPT. equipamentos.
recursos para construir um parque infantil. A
Associação de Pais e Amigos de Autistas da O Centro de Inteligência da Polícia Militar Entidade de ressocialização de egressos de
cidade também teve valores revertidos para de Rondônia também foi contemplado com prisões estaduais também recebeu valores para
ações de formação de pessoas com autismo. reversão de multas e ganhou quatro drones para montar um laboratório de informática. X

José Bosco Gouveia

54 LABOR
LABOR 55
TRANSGÊNEROS

Ser o que se é

Além de lutar por direitos básicos, travestis e transexuais


enfrentam discriminação no mercado de trabalho

Por Ana Carolina Spinelli, Keyla Tormena e Rogério Brandão

Assumir a identidade que a trans se force durante muitos


pessoa sente e sabe ser a sua é um anos, ou até a vida inteira, a se
desafio. Cada passo de se revelar comportar de acordo com o
socialmente é medido com todas gênero socialmente aceito, o que
as possíveis consequências. É pode ser devastador em
comum que a mulher ou homem termos psicológicos.

56 LABOR
Cyrano Vital

LABOR 57
Os termos trans, transexual ou travesti têm
sido usados para designar pessoas que
Privacidade Transfobia na TI
fizeram a transição do gênero masculino para Os alunos de Luiza, cerca de 400 do primeiro “Nunca trabalhei em uma empresa na qual não
o feminino ou vice-versa. O processo pode ao terceiro colegial, foram exemplares tenha sofrido alguma forma de discriminação”,
ou não envolver operações ou aplicações de durante todo o processo. “Na primeira afirma Daniela Andrade, após 17 anos na área
hormônios: o que importa é como a própria conversa com os alunos não falei de genitália, de informática. Ela se recorda quando foi
pessoa designa-se a si mesma – uma decisão isso é pessoal. Falei do sofrimento das trans. analista de sistemas sênior no falido banco
que grande parte das vezes simplesmente não E eles tinham uma bagagem teórica para Cruzeiro do Sul. “A única. Os outros eram
é aceita pela sociedade. entender, por isso aceitaram.” Quando na todos júniores ou plenos.” Ela percebia que
aula lhe perguntaram se ela havia “operado”, sua presença não era bem aceita: “A área de
“Passei dois anos de vida dupla”, conta Luiza respondeu simplesmente que seu corpo não informática já é extremamente machista. Se
Coppieters (com as flores, na foto abaixo), era público: “Alguém por acaso pergunta eu fosse uma mulher cis [que não fez transição
professora de Filosofia no ensino médio se você já fez operação de fimose?” Os de gênero], eles já iriam sentir que estava
em uma das maiores instituições de ensino adolescentes não só compreenderam como roubando o espaço deles. O desconforto
privado no país. Ela é uma mulher trans: seu lhe trouxeram flores e até hoje escrevem comigo era cristalino.”
sexo biológico é o masculino, mas ao longo palavras de incentivo em mensagens em uma
da vida passou por uma transição e assumiu o rede social. Quando o nome dela foi grafado Logo entrou outro sênior, para o mesmo
gênero feminino. erroneamente como “Luiz” na grade horária cargo. Sempre que ela falava com ele,
e nas avaliações, eles pressionaram pela recebia uma resposta bruta, mas com as
Pensamentos de suicídio foram recorrentes outras pessoas, era educado e formal. Mais
antes que ela conseguisse forças para encarar correção para o nome Luiza.
tarde, ela confirmou a transfobia [termo
a transexualidade. “Teve uma época em que Por causa da tensão com a direção e usado para preconceito contra pessoas
eu pintava a unha quando chegava em casa e reclamações de pais de alunos por conta de sua trans]: “Em um happy hour, ele falou que
tirava de manhã antes de ir para o trabalho.” transexualidade, Luiza vem perdendo a vontade odiava ‘traveco’ e que tinha vontade de
Com o início da aplicação de hormônios, ela de lecionar. Está fazendo um curso técnico de quebrar a minha cara.” Algum tempo
chegou a ocultar as curvas que começavam a locução, “ocupação em que imagem e presença depois, ficou sabendo que sua equipe vinha
surgir, usando roupas apertadas por debaixo não são determinantes”. As aulas acontecem no trocando e-mails com xingamentos e piadas
das camisas. O medo de ser descoberta e no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial contra ela. Acabou se demitindo: “Como você
discriminada era constante. (Senac), onde ela afirma ter sido muito bem volta ao trabalho no dia seguinte sabendo
Para Luiza, a pessoa trans anseia pelos recebida e tratada. que sua equipe está te difamando?”
elementos que reforcem a identidade
que percebe como verdadeira. “No

Arquivo pessoal
caso das trans femininas, é sempre uma
angústia a possibilidade de te olharem e
descaracterizarem como mulher. Hoje eu sei
que todas as mulheres passam por isso, mas
com a trans é pior: a outra vai ser uma mulher
feia, gorda, baixa, alta... Mas a gente não: a
gente não é [considerada] mulher.”

“Você não pode mais errar”


Desde 2010, Luiza dava aulas para cerca de 20
turmas de adolescentes. Em 2012, começou
a hormonização e, ao longo de 2013, o corpo
passou por alterações graduais e significativas:
“À medida que me sentia mais à vontade, não
queria mais usar roupa de menino, me fantasiar
de menino.”

O ambiente escolar até então era amistoso e


ela conseguiu contar da mudança a colegas
professores mais próximos. Mais tarde, falou
à coordenação. Logo vieram os problemas:
“Fiquei sabendo que, em junho de 2014, os
donos haviam pedido minha demissão, mas
o coordenador geral conseguiu segurar.”
A mediação evitou que ela fosse demitida,
mas, durante a atribuição de aulas para o
primeiro semestre de 2015, o número de
turmas e o salário de Luiza foram cortados pela
metade, sob alegação de que ela descumprira
obrigações como professora.

Sua relação com o colégio, que até o começo


da transição havia sido harmônica, começava
a azedar. “Passei a ouvir que eu não podia mais
errar, atrasar nota ou o preenchimento de diário.
Ouvi isso o ano inteiro da coordenação e de
colegas preocupados.” Ela também deveria evitar
a abordagem de determinados assuntos em sala
de aula: “Pediram para que eu não discutisse
nada relativo a gênero ou sexualidade”, conta,
sem ignorar a ironia da situação.

58 LABOR
Cyrano Vital

Ela relatou que, na seguradora AGF Allianz, a revelar a identidade trans aos pais. Mesmo público preenchem as vagas. No site, há
gerente dizia em alto e bom tom que não gostava assim, conseguiu concluir e continuar os empresas grandes oferecendo emprego, mas,
de trabalhar com gente esquisita. “Ninguém estudos no ensino técnico. Hoje, é formada segundo Daniela, são uma minoria.
falava comigo. Acabei sendo demitida sob em Análise de Sistemas e Letras, e possui
pretexto de corte de custos.” Quando Daniela duas pós-graduações. Ela também é membro Apesar de muito bem qualificada, sempre
foi buscar suas coisas, no dia seguinte, viu outra colaboradora da Comissão da Diversidade encontrou um mercado de trabalho
pessoa em seu lugar. “Perguntei quem era, e me Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil discriminatório ao extremo. “A população
disseram que a pessoa estava me substituindo. (OAB), subseção Osasco, e uma das criadoras do trans é ridicularizada, patologizada, muitas
Ou seja, não tinha nada a ver com cortar custos.” projeto online TransEmpregos, em que travestis vezes, com ajuda da mídia. É um círculo de
e transexuais cadastram seus currículos e discriminação que a empurra para as margens
Daniela foi expulsa de casa aos 18 anos, após as empresas interessadas em contratar esse da sociedade.”

LABOR 59
Portas fechadas
Além de serem alvo de chacotas de colegas transexualidade me ajudou, porque posso falar uma vaga para ambos os sexos em loja de
de trabalho e chefes, os transgêneros com meus pares.” vestuário no início de sua transição. “Quando
encontram muitas dificuldades para cheguei à entrevista, eram quatro meninas e
ingresso no mercado formal. Esse é o caso Hoje, além de participar de um programa eu. Elas estavam com maquiagem, salto, cabelo
de Ludymilla Anderson Santiago Carlos, de testagem rápida de HIV, Ludymilla é uma escovado e eu estava de calça jeans e camiseta.
de 32 anos. Formada em Publicidade pela das responsáveis pela Associação do Núcleo Tive que apresentar meus documentos e o
Universidade Católica de Brasília desde o fim de Apoio e Valorização à Vida de Travestis, empregador viu que eu não era um rapaz,
de 2008, ela nunca conseguiu ingressar na Transexuais e Transgêneros do Distrito Federal e então obviamente ele estava me analisando
carreira mesmo após sucessivas tentativas. Entorno (Anav-Trans). Embora seja remunerada como as outras quatro meninas.”
Quando concluiu a faculdade, imaginava pela atividade, explica que o contrato é
que conseguiria emprego na área, o que temporário e não garante os mesmos direitos Lam afirmou que as concorrentes jamais tinham
veio a se tornar uma frustração ao longo dos trabalhistas que um emprego com carteira trabalhado como vendedoras antes enquanto ele
anos. “Passei uns dois anos pra minha ficha assinada. Outra dificuldade é o salário de R$ tinha experiência na área e tinha capacitações.
cair totalmente. O fato de eu não conseguir 685, que não cobre todas as despesas por não “Fui à loja questionar o gerente para saber o
emprego tinha muito a ver com a questão da corresponder à jornada de trabalho integral. motivo, pois eu sabia que o meu currículo era
minha identidade de gênero.” muito melhor que o das meninas que concorriam
à vaga. Ele não apresentou um motivo.”
Embora tenha conquistado diploma de nível
superior com o apoio financeiro da mãe,
Ludymilla teve que encarar novos desafios ao
O peso de um nome
sair de casa. Sem o auxílio familiar e com contas Um dos principais entraves que transgêneros Nome social
a pagar, a alternativa era conseguir algum passam na busca por uma colocação no
emprego. Foi então que ingressou em projetos mercado é o conflito entre a documentação O presidente da Comissão da Diversidade
e programas ligados a movimentos sociais e e a nova identidade de gênero. Ludymilla Sexual da OAB seccional Mato Grosso do Sul
minorias, onde, desde então, consegue emprego. passou por isso logo após o término da (OAB-MS), Júlio César Valcanaia, relata que
Esse é o caso do programa de redução de danos, faculdade, quando estava em readequação. atuou em um caso semelhante ao de Lam.
que lida com usuários de álcool e outras drogas “Eu tinha aparência feminina e apresentava um Agências de intermediação de mão de obra
e engloba portadores de HIV, transexuais e documento com nome masculino, então, isso do estado e de Campo Grande indicaram
moradores de rua. acaba sendo um dificultador no ingresso ao uma mulher trans para 17 entrevistas de
mercado de trabalho.” emprego por preencher todos os requisitos
Segundo ela, a identidade de gênero nesse das vagas disponíveis. Ela foi rejeitada
nicho de mercado deixa de ser um obstáculo Apesar de mulheres trans serem as mais pelos recrutadores em todas as seleções no
para se tornar um trunfo. “Para eles, é expostas à discriminação, o problema também momento em que sua imagem pessoal de
estratégico também ter uma pessoa de cada afeta transexuais que adotam a identidade de mulher era confrontada com a documentação
segmento para poder atingir determinados gênero masculina. Lam Augusto já foi alvo de civil, ainda com prenome masculino, com
públicos. Então, minha questão de discriminação durante processo seletivo para justificativas de que a empresa desistiu da
Arquivo pessoal

60 LABOR
vaga ou de que o cargo foi preenchido por pois nós sabemos que se fosse um homem
outro candidato. heterossexual teria conseguido o emprego.”

Júlio César, que também é vice-presidente do


Conselho Estadual da Diversidade Sexual no
estado, afirma que a comissão já faz interlocução Empurrão
com agentes públicos para criar mecanismos
que facilitem o acesso de travestis e transexuais Ana Carolina ressalta ainda que, diante da
ao mercado de trabalho, especialmente quanto frustração em conseguir um emprego, muitas
à adoção e à aceitação do nome pelo qual delas recorrem a meios ilícitos ou se tornam
preferem ser tratados, o chamado nome social. garotas de programa. “E aí entra todo aquele
processo de depressão, de não aceitação do
Valer-se desse tipo de discriminação velada corpo, de crises depressivas e de questões
dificulta a caracterização da irregularidade. sociais. É como se elas fossem empurradas para
Segundo a coordenadora do Centro de a prostituição e para a drogadição.”
Referência Especializado de Assistência
Social (Creas) da Diversidade Sexual, Étnico Em 2014, o Creas da Diversidade atendeu, a cada
Racial e Religiosa do Distrito Federal, Ana mês, uma média de 198 travestis e transexuais
Carolina Silvério, não se consegue atingir em situação de ameaça ou violação de direitos,
objetivamente o motivo pelo qual os como violência física, psicológica, sexual e tráfico
candidatos transgêneros são eliminados de de pessoas. Ainda conforme dados do órgão, de
processos seletivos. “O empregador pode todos os transgêneros atendidos de 2011 a 2013,
dizer ‘não, ela não atende o que quero hoje apenas sete conseguiram ingressar formalmente
para um empregado’. Então há algo velado, no mercado de trabalho.

Mudando o registro
É preciso entrar com processo na Justiça A medida dará mais visibilidade aos dados sobre Agora está sendo contratada por uma
para solicitar alterações de prenome e sexo crimes por motivos de transfobia. escola particular cuja diretoria é formada
nos documentos. Enquanto a mudança por padres e freiras, que não sabem de sua
de nome ocorre por meio da Vara Cível, No Congresso Nacional, tramita desde 2013 o transexualidade. Não tem medo que seu nome
a retificação do sexo se dá pela Vara da projeto de lei João W. Nery (PL 5.002/2013), saia na reportagem? “Se souberem, melhor
Família, o que dificulta a plena conquista da que pretende garantir a mudança de prenome ainda: vai mostrar o quão competente eu sou,
nova identidade. Para amenizar a falta de e sexo em registros. independentemente de nome e gênero.”
legislação específica, órgãos da administração
pública concedem o direito de usar o nome Além de acompanhar esses casos, o Creas
desejado por meio de portarias. Títulos da Diversidade do DF oferece inscrições para
o Programa Nacional de Acesso ao Ensino
Uma resolução da Secretaria de Direitos Transexual há sete anos, a situação de Técnico e Emprego (Pronatec). “Será que toda
Humanos da Presidência da República (SDH/PR) Alexandra Adriana Braga de Vasconcelos travesti e transexual quer mesmo trabalhar com
publicada no Diário Oficial da União no dia 12 (foto na página 60) melhorou há dois, prostituição ou será que ela não foi empurrada
de março deste ano determina que instituições quando ela obteve na Justiça o direito de de forma quase compulsória para viver em
de ensino incluam o campo nome social em adotar o nome feminino e conseguiu alterar profissões estigmatizadas?”, questiona Ana
formulários. Além disso, a norma prevê que toda a documentação. Com formação Carolina Silvério.
alunos transgêneros possam utilizar banheiros superior em Pedagogia e pós-graduação em
conforme sua identidade de gênero. Psicopedagogia, Alexandra se sente aliviada Segundo estimativas da Associação Nacional
em ser tratada com respeito atualmente. “Hoje, de Travestis e Transexuais (Antra), 90% das
A SDH/PR também editou resolução que louvam meus títulos, me dão atenção, porque travestis brasileiras se prostituem. Principal
permite o preenchimento de orientação sexual, tenho nome feminino. As pessoas não olham motivo: muitas são expulsas de casa cedo, com
identidade de gênero e nome social em boletins torto, têm assunto para conversar, não me 12 ou 13 anos de idade, assim que começam a
de ocorrência emitidos pelas delegacias do país. julgam antes de me conhecerem.” revelar sua feminilidade.

De psicólogo a analfabeto
João W. Nery é considerado o primeiro homem trans a ser operado no Brasil, em 1977. Como a Justiça não permitia a retificação do
nome, ele solicitou uma nova documentação como se nunca tivesse se registrado.

Com a identidade masculina, Nery teve toda a sua história apagada. Passou de professor universitário de Psicologia a analfabeto.
Por isso, teve que trabalhar por 30 anos como pedreiro, pintor, vendedor, entre outras profissões que não exigem o mesmo nível de
qualificação que possui.

O pioneirismo e o inusitado de sua história por sua decisão de simplesmente tirar novos documentos como homem após a cirurgia
motivaram a escolha de seu nome para identificar o projeto de lei 5.002/2013.

LABOR 61
Vulnerabilidade precisar da prostituição e são encaminhadas a
centros educacionais para completar o ensino
vão passar por uma preparação para recebê-las
da melhor forma.
A trans Symmy Larrat (foto abaixo) é formada básico e depois se profissionalizarem.
em Comunicação Social e coordena o projeto Symmy lembra como foi quando assumiu a
Transcidadania, da Secretaria Municipal de A contraparte da bolsa é que se apliquem nos transexualidade. “As pessoas não me contratavam,
Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) estudos, o que sempre ocorre. “Elas agarram e meus amigos não me indicavam para nenhum
da Prefeitura de São Paulo. Por meio do a oportunidade e se empenham”, diz Symmy. trabalho. Nem para produção de cinema, que
projeto, transexuais e travestis em situação Além do apoio pedagógico e psicológico atual, costumava ser uma coisa extremamente informal.
de vulnerabilidade (moradoras de rua ou de também têm acompanhamento nas incursões Isso foi na época de transição: eu não estava nem
abrigos, a maioria é obrigada a se prostituir), no mercado de trabalho, sendo que as menino, nem menina. É pior ainda. As pessoas
ganham bolsa de R$ 840 para se manter sem empresas dispostas a oferecer estágio também rejeitam mesmo.”
Ana Spinelli

62 LABOR
Fabíola de Souza Melo
Transcidadania
O coordenador de políticas para LGBT da
Secretaria Municipal de Direitos Humanos e
Cidadania, Alessandro Melchior, constatou
o baixo nível de escolaridade em outras
iniciativas da prefeitura de inclusão de
transgêneros. “Em levantamento que
fizemos com programa de bolsas anterior
ao Transcidadania, verificamos que quase
100% das participantes haviam sido expulsas
de casa na adolescência. Do total, 95% não
tinham ensino fundamental completo. E
a escolaridade básica para qualquer vaga
no mercado de trabalho é o ensino médio.
Elas são inimpregáveis por isso, antes até
da discriminação”, diz Melchior. Ele ainda
acrescenta que grande parte delas vem
de outros estados e chega a São Paulo
normalmente por meio de redes de tráfico de
pessoas, para propósitos de exploração sexual.

Joyce Mendes (primeira foto ao lado) é uma das


bolsistas do programa. Ela afirma que iniciou o
processo transexualizador a partir dos 13. “Não
aguentava ficar na sala de aula por causa dos
colegas de classe, que vinham me ‘zoar’. Tive
que deixar os estudos justamente por causa
Fernanda Palheta disso. Nessa época, fui expulsa de casa, em
Pernambuco.” Sem saída, restou-lhe a rua, já
que nem da escola recebeu apoio.

Ela também rebate as críticas destinadas ao


programa, alegando o desconhecimento da
realidade dos transgêneros. “Não somos pobres-
coitadas. Nossa situação é vulnerável, porque o
mercado de trabalho é fechado para nós. Mas eu
sou capaz. Essa ajuda não me deixa sobreviver
o mês inteiro, porque São Paulo é uma cidade
cara e o dinheiro some, mas é um incentivo para
vermos que no fundo do poço tem uma corda
pela qual podemos subir, para entrarmos na
escola e, no futuro, sermos alguém na vida.”

Cris Stefanny (segunda foto ao lado), presidente


da Associação Nacional das Travestis e
Transexuais, acrescenta que não adianta apenas
qualificar as travestis e transexuais porque o
maior problema é o acesso às vagas. “Da parte
delas, também falta um pouco de consciência
em denunciar. Elas terminam se irritando e
decidem se prostituir, colocando a vida em risco
outra vez. Há muitos casos de violência.” Cris
Stefanny, que viveu oito anos da prostituição,
acredita que, para a maioria, essa escolha é pela
falta de oportunidades.

LABOR 63
O refúgio dos call centers
Juliane Veiber

O professor da Universidade Federal de Mato processo seletivo, “não exclui nem diferencia direitos e buscar os órgãos que interessam
Grosso do Sul (UFMS), Tiago Duque, mestre travestis ou transexuais na contratação para seu para fazer denúncia.”
em Ciências Sociais pela Universidade Federal quadro de funcionários em todas as unidades no
de São Carlos e doutor pela Universidade país” e “incentiva práticas não discriminatórias”. Para Renata Coelho, o grande fator de
Estadual de Campinas (Unicamp), desenvolve inclusão social das pessoas é por meio de
pesquisas sobre gênero e sexualidade e Conforme esclarece a diretora executiva da BT profissões amplamente reconhecidas pela
aponta que a construção do corpo teria Call Center, Marcia Pollard, a empresa oferece sociedade. “Se o transexual oferecendo esses
implicação direta na questão do trabalho. banheiros com e sem identificação de gênero serviços estiver apto a prestá-los, ele será
em suas dependências, para uso conforme visto. Então não dá para falar em visibilidade
Segundo ele, é provável que muitas transexuais vontade e conveniência dos empregados. trans se passarmos 30 anos em uma escola
possam ser mais favorecidas no mercado de Quanto ao nome social, afirmou que permite sem ver um transexual dando aula. A
trabalho por serem mais parecidas com o a inclusão no crachá de identificação se for visibilidade da sociedade hoje é o trabalho.”
padrão de beleza da mulher dita biológica ou solicitado pelo empregado, mas que, para
por ter os documentos civis alterados. fins de registro na empresa, são usados os Essa falta de visibilidade também é ressaltada
documentos oficiais. pelo procurador do Trabalho Cícero Rufino
Tiago aponta que nos call centers, por exemplo, é Pereira, que coordena o Fórum de Trabalho
mais comum ter tanto mulheres masculinizadas Decente. Ele aponta que, assim como outros
como jovens bastante efeminados, porque é desrespeitos aos direitos humanos, como o
apenas a voz que está no espaço de trabalho
com os clientes. O empregador olha de um jeito Aproximação tráfico de pessoas, a discriminação pode ser
considerada uma situação em que a própria
mais tolerante para vários perfis considerados vítima tem dificuldade de acreditar e de buscar
O Ministério Público do Trabalho (MPT)
inadequados para atendimento ao público do ajuda para fazer valer seus direitos.
atua na área por meio da aproximação
ponto de vista estético, corporal e de gênero.
com movimentos sociais, participação em
Com 18 mil funcionários e considerada a quinta audiências públicas e esclarecimento sobre Por conta dessa invisibilidade, muitas vezes
maior empresa do setor de telemarketing no as atribuições do órgão. De acordo com a cultural, acaba não havendo um grande
país, a empresa BT Call Center atua no ramo procuradora do Trabalho Renata Coelho número de denúncias de desrespeitos aos
de telemarketing e é uma das que contratam Vieira, a principal dificuldade em judicializar direitos humanos de uma forma geral e quanto
transexuais. A empresa possui unidades em casos de discriminação de transgêneros é à discriminação de travestis e a transexuais
Brasília, Goiânia, Rio de Janeiro, Curitiba e Campo o medo da exposição, que pode fechar as no mercado de trabalho. “É necessário que
Grande e opera desde 2007. portas no mercado para quem denuncia. sociedade, sindicatos e as comunidades LGBT
“Uma vez incluída no mercado de trabalho, tenham mais esclarecimentos e conscientização
Em nota, a BT Call Center afirmou que não essa pessoa terá capacidade econômica, mais não só dos direitos, mas a quem buscar para
faz qualquer diferenciação de gênero no seu instrução para então conseguir defender seus afastar as ilegalidades.”

64 LABOR
Vitória de Dourados. Ela se candidatou várias vezes
no período, pois tinha informação de que
e competência e quando saí [porque quis],
o gerente-geral me disse que eu tinha
Nosli de Jesus Bento (foto abaixo), 46 anos, é o frigorífico contratava todos os dias, mas a feito ele olhar de modo diferente para o
um exemplo de sucesso na luta por espaço no resposta era sempre a mesma: “não temos segmento ‘trans’, pois ele tinha uma ideia
mercado de trabalho formal. Atualmente, ela vagas.” Um ano depois, em junho de 2000, preconceituosa a nosso respeito.”
é servidora pública da Secretaria de Educação ela voltou lá e, por meio do contato com um
de Dourados (MS), e também trabalha em um chefe de produção, insistiu e foi contratada. A
posto de saúde. Nosli ainda se prepara para condição foi a de que o chefe de produção que a

Enfermagem
ir além: cursa o segundo ano de Pedagogia indicou “se responsabilizasse caso ela cometesse
na Universidade Federal da Grande Dourados alguma anormalidade dentro da empresa”.
(UFGD) e pretende criar uma organização para A servidora pública foi pioneira e abriu
combater a transfobia na cidade. Ela trabalhou nesse frigorífico por 11
anos em funções como desossa, corte de as portas para que outras trans tivessem
frangos e embalagem. “Sofri todos os tipos a oportunidade de trabalho lá. Hoje, sete
A história de Nosli mostra que é possível
de preconceito, exceto agressão física. travestis trabalham no frigorífico, segundo
enfrentar os obstáculos e se superar, mas
Mas diferente da dor física, que passa, as informações de seus contatos na indústria. “Eu
sua trajetória foi marcada por discriminação.
agressões psicológicas são as piores, pois me sinto recompensada.”
A primeira tentativa de obter uma vaga de
trabalho como trans foi em 1999, aos 31 marcam e ficam dentro da gente. Venci tudo
Nosli saiu do frigorífico por opção, após se
anos, em uma indústria frigorífica de frangos com muita determinação, profissionalismo
qualificar como enfermeira. Ela concluiu o curso
técnico de enfermagem em 2011 e, então,
mesmo tendo sido bem avaliada no curso,
vieram outras dificuldades para atuar na área.
Com o currículo em mãos, ela bateu na porta
Roberto Nascimento

de hospitais para pedir emprego. Em um deles,


disseram que não podiam contratá-la, porque
os donos eram evangélicos e, apesar do ótimo
currículo, eram ordens da direção. “Quem ficou
sem direção fui eu.”

Em outro hospital, a chefe de RH sugeriu que


ela fizesse o exame de HIV, e, dependendo do
resultado, ela poderia ser contratada. Não era
costume do hospital exigir o exame. A chefe de
RH confirmou que a sugestão era só para Nosli,
por ser travesti, grupo de risco, e que só ficaria
tranquila para contratá-la se ela fizesse o exame.

A opção foi trabalhar como enfermeira home


care na casa da família de uma menina de 3
anos que precisava de cuidados constantes.
Na casa, permaneceu até 2012. Deixou
o trabalho na residência após assumir
um concurso público do Estado de Mato
Grosso do Sul na área de educação, como
recepcionista, porque não conseguiu conciliar
com o trabalho de home care. Hoje, dedica
seu tempo à secretaria de educação à tarde
e, de manhã, em um posto de saúde, como
contratada, onde faz procedimentos de
enfermagem, serviços laboratoriais e de
administração. “O conhecimento é uma arma
poderosa contra a discriminação.” X

Colaborou Fernanda Palheta, estagiária do


MPT em Mato Grosso do Sul

LABOR 65
DEFICIÊNCIA

Os mitos do porão

Empresas cumprem lei, mas não consideram


qualificação do profissional

Por Rodrigo Rabelo*

Diante da concorrência cada vez competências exigidas por


mais acirrada no mercado de potenciais empregadores. Para
trabalho, muitos profissionais aqueles que possuem algum
buscam formas de se sobressair tipo de deficiência, porém,
por meio da capacitação plena, soma-se à disputa um adversário
especializações, idiomas e outras duro na queda: o preconceito.

66 LABOR
Rafael Almeida

67
LABOR
A Lei de Cotas (Lei nº 8.213/1991) abriu as portas de trabalho sadia e normal. Muitas ainda a
das empresas a pessoas cuja carreira profissional consideram como uma obrigação, um castigo,
existia apenas no mundo dos sonhos. Sua uma imposição do governo.”
vigência trouxe motivação, confiança no futuro
e amparo legal que permite o tratamento de O argumento de Dolores encontra eco no
forma igualitária e digna. Certo? Nem sempre. discurso de Daniela Milano, coordenadora do
Instituto Sorri, instituição voltada à inclusão de
Na prática, há um longo caminho a ser deficientes no mercado de trabalho na cidade
percorrido para que a inclusão da pessoa de Campinas (SP). “A Lei de Cotas trouxe a
com deficiência (PCD) no mercado atinja sua oportunidade das organizações desenvolverem
plenitude. A maioria das empresas cumpre a projetos muitos bons, mas foi somente a
legislação para evitar o pagamento de multas, partir de 2004 que os maiores avanços foram
processos judiciais e outros aborrecimentos, evidenciados, a partir da aplicação de multas
sem ao menos levar em consideração as pelo descumprimento da lei e mediante
qualificações e habilidades destes profissionais. a assinatura de termos de ajustamento
de conduta. Hoje, há uma maior busca na
A estudante de psicologia Simone Gobbo contratação porque existe a cobrança legal.”
Contelli (foto na página 67) pode atestar
essa realidade. Cega de um dos olhos e com O presidente da Federação Nacional das
menos de 10% de visão no outro, apesar de se Empresas de Serviços e Limpeza Ambiental
enquadrar como beneficiária da lei inclusiva, (Febrac), Edgar Segato Neto, diz que não é bem
ela possui um currículo bastante atraente, assim. O representante dos empregadores
com diversos cursos de extensão e fluência em afirma que as empresas do setor buscam a
inglês e espanhol. Contudo Simone sentiu a inclusão social, mas não contratam apenas por
desvalorização na pele ao tentar a contratação obrigação. “No setor de asseio e conservação,
pela Lei de Cotas por uma rede de farmácias. não tenho nenhum conhecimento de empresas
“Meu currículo especificava perfeitamente contratando profissionais somente para cumprir
a minha capacitação profissional, os cursos cotas, sem o objetivo de inclusão social”, afirma,
e experiências anteriores, porém, ao ser para depois tecer o seguinte comentário: “se
contratada, percebi que a função disponível existir mesmo esse tipo de contratação, tem
não era compatível com meu currículo e nem um motivo lógico: é porque a deficiência desse
com a minha trajetória, pois o único trabalho funcionário não permite que ele execute a tarefa
que me indicavam era na área de limpeza.” que estamos propondo nos nossos objetivos
contratuais, que é a limpeza e a conservação.”
O advento da lei que impõe a contratação
compulsória é um marco na inclusão de
deficientes no Brasil – o empresariado jamais
admitiria, mas muitas empresas ofereceriam Desconhecido
resistência na contratação deste tipo de
trabalhador sem que houvesse a obrigação. A auxiliar administrativa Amanda (nome fictício)
Mas, ao mesmo tempo em que abranda a já foi vítima dos mitos do porão. Surda desde
diferenciação, a lei transforma a discriminação os 11 anos, devido à sequela causada por uma
em algo velado. O preconceito existe, mas meningite, a trabalhadora que não quis ser
fica no porão, fabricando mitos. Formada identificada pela Labor relata que chegou a ser
em Gestão de Pessoas e deficiente auditiva, tratada como doente por chefes e colegas de
Nathany Almeida engrossa o caldo dos trabalho. “No meu segundo emprego, as pessoas
milhares de deficientes economicamente me tratavam como uma pessoa especial, a ponto
ativos que não conseguem o devido de eu nem poder sair na rua na hora do almoço.
reconhecimento dentro das empresas, Eles tinham medo de que eu não voltasse, de
enfrentando discrepâncias entre perfil que acontecesse alguma coisa comigo, como se
profissional e vagas oferecidas, e até baixas eu tivesse alguma doença.”
perspectivas de crescimento. “Trabalho em
uma empresa considerada um dos melhores A postura dos colegas de Amanda, apesar
lugares para trabalhar, que paga bem, tem os de isenta de má-fé, mostra o despreparo das
melhores benefícios, além de grandes chances empresas em receber pessoas com deficiência
de crescimento e desenvolvimento dentro no seu quadro de funcionários. Jaques Harber,
dela. Mas no setor onde atuo quase todos membro fundador do Instituto i.Social, aponta
foram promovidos, menos eu. Eu me encontro o medo do desconhecido como um entrave à
em uma situação de estagnação.” inserção, sendo esta uma barreira difícil de ser
transposta. “As pessoas não sabem como se
relacionar com os deficientes e levam em conta
alguns mitos relacionados à sua qualificação e à
Inclusão ou multa sua capacidade.”

Pesquisa realizada com quase 3 mil diretores e A história de Simone, trabalhadora com baixa
gestores de Recursos Humanos (RH) em 2014 capacidade visual em um dos olhos e cega
subsidia o cenário desenhado por Simone do outro, dá força à afirmação de Harber.
e Nathany, tornando-o ainda mais amplo Segundo ela, a estrutura física e operacional
e preocupante. Os estudos empreendidos das empresas não está apta a receber os
pelo Instituto i.Social mostram que 81% dos deficientes, e muito disso se dá por questões
entrevistados assumiram que a contratação de culturais e tecnológicas que até retardam o
pessoas com deficiência é feita somente para desenvolvimento do país. “Em vários processos
cumprir a lei, enquanto que 65% deles resistem à seletivos, já me foi dito que não sabiam lidar
contratação de deficientes. Segundo a professora com uma portadora de deficiência. Muitos
da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e idealizadora recrutadores desconhecem os recursos
do Congresso de Acessibilidade, Dolores Affonso, tecnológicos que permitem que uma pessoa
os empregadores encaram a contratação de uma que não enxerga execute atividades na área
PCD, muitas vezes, como um ato de caridade. de informática”, diz, referindo-se a monitores
“As empresas ainda encaram a Lei de Cotas especiais e telas de aumento que viabilizam o
como uma ação social, e não como uma relação trabalho de deficientes visuais em escritórios.

68 LABOR
Cyrano Vital

69
LABOR
Nathany Almeida, a trabalhadora com “limitação física, mental, sensorial ou múltipla,
deficiência auditiva, vai além: “sempre coloco no que incapacite a pessoa para o exercício de
meu currículo que sou deficiente auditiva, mas atividades normais da vida e que, em razão
isso atrapalha muito. Mesmo evidenciando todas dessa incapacitação, a pessoa tenha dificuldades
as minhas qualidades, cursos e especializações de inserção social”. Necessário citar que, de
realizadas, as pessoas pensam duas vezes antes acordo com o Decreto federal 5.296/04, pessoas
de me contratar quando falo que sou surda. Elas com visão monocular, surdez em apenas um
acham que não sei falar ou escrever, que me ouvido ou deficiência física que não implique a
comunico apenas por linguagem de sinais.” impossibilidade de execução das atividades do
corpo não são beneficiárias da Lei de Cotas.

As fontes ouvidas por Labor atestam que


Pegando leve? a contratação de pessoas com limitações
consideradas “leves” é uma prática corriqueira
As principais questões que impedem a evolução adotada pelas empresas, que de certa forma
das relações de trabalho entre empresas e contribui para burlar a Lei de Cotas, muitas
pessoas com deficiência, apontadas pelos vezes preenchendo as vagas divulgadas com
especialistas, levam a outro obstáculo: a profissionais que nem sequer atendem aos
predileção dos empregadores por deficiências critérios de deficiência impostos pela legislação
consideradas “leves” no momento da brasileira e internacional. “A maioria das
contratação. Antes de abordar o tema, é empresas busca deficiências leves, que não
importante estabelecer o conceito formal de impliquem adaptações internas, subutilizando-
deficiência: segundo a Convenção nº 159/1983, as, não aproveitando suas habilidades e fazendo
da Organização Internacional do Trabalho com que os profissionais é que precisem se
(OIT) – ratificada pelo Brasil –, trata-se de adaptar às organizações, e não o contrário, o

70 LABOR
que é uma inversão de valores e da própria gestores acreditarem que deficientes não de emprego permite uma avaliação mais Rafael Almeida
legislação”, alerta Dolores Affonso, da FGV. são capazes, que só podem atuar nestas ou precisa das vagas oferecidas exclusivamente
aquelas áreas, onde prejudicam menos a para pessoas com deficiência. Entre os dias
empresa ou não fazem a diferença”, afirma 2 e 10 de fevereiro foram analisados 764
Jaques Harber, da i.Social. anúncios de empregos. Destes, 524, ou 69%

Encostados
do total, eram de nível auxiliar e operacional,
como atendimento telefônico, organização
de arquivos, limpeza, portaria, ascensorista,
O ato incongruente, portanto, pode ter
operação de máquinas e controle de estoque.
fundo econômico. Para receber as pessoas
com deficiência, empresas devem mudar
Há vagas. Ou não As vagas voltadas para nível júnior/trainee
representavam 16% do total, ou 119. Os demais
sua cultura e estrutura, de forma a atender O estudo do Instituto i.Social aponta que há níveis, dedicados a pessoas com currículo
às necessidades específicas do trabalhador uma demanda maior de profissionais aptos a mais qualificado (pleno, sênior, coordenação,
especial. Para evitar os custos decorrentes laborar do que vagas disponíveis no mercado. gerência e diretoria), totalizaram 73 ofertas de
disso, e de quebra cumprir a cota imposta Segundo a pesquisa, no Brasil, existem cerca de 9 vagas, ou 10% do total.
pela lei, tornou-se comum a contratação milhões de deficientes prontos para trabalhar no
de profissionais de utilidade meramente regime de cotas, porém, somente 800 mil vagas
figurativa à empresa, os quais permanecem encontram-se abertas. E qual é o perfil dessas
“encostados” ou ocupados em tarefas vagas? Elas atendem ao público mais qualificado?
consideradas “fáceis”. “Quando as empresas As qualificações requeridas buscam valorizar Exemplo
precisam cumprir cotas, acham que basta as competências e habilidades da pessoa com
contratar qualquer pessoa para exercer deficiência ou estão lá por pura formalidade? Alguns exemplos: uma mesma empregadora
qualquer atividade, então abrem vagas anunciou duas vagas para PCDs, direcionadas
para as funções mais básicas, mais fáceis Um levantamento realizado pela Labor na para níveis de formação diferentes, cujo
de serem preenchidas. É uma situação primeira semana de fevereiro de 2015 em um conteúdo não distingue as diferenças de papel
muito comum os profissionais de RH e famoso sítio eletrônico especializado em ofertas desempenhadas por um profissional que vai

LABOR 71
Fernanda Sunega

trabalhar como suporte auxiliar/operacional que tenham, no mínimo, 10% do quadro desenvolvidas para gerar um novo cenário
e outro que pretende ser trainee. Em outro composto por trabalhadores com deficiência. No no município, tendo assim, de fato, a quebra
caso, a oferta pede formação superior em Panamá, há um decreto do Executivo (88/1993) das barreiras atitudinais. Um exemplo é
exatas para, basicamente, controlar o estoque que prevê incentivos fiscais a empregadores que estabelecer e manter parceria com a iniciativa
(cargo de analista de abastecimento jr.). Todos contratam as PCDs. No Brasil, por outro lado, privada, visando à inclusão social da pessoa
os anúncios analisados foram publicados por não há qualquer incentivo às empresas que com deficiência e mobilidade reduzida, além
empresas que possuem como objetivo social contratam pessoas com deficiência. O caráter de coordenar e opinar sobre planos e serviços
a inclusão de profissionais com deficiência no unilateral da legislação vigente pode servir públicos quanto à acessibilidade”, exemplifica
mercado de trabalho. como fator desmotivador para a valorização do a secretária.
profissional PCD nas empresas?
Mas será que alguém se sujeitaria a estudar por Outras cidades também têm desenvolvido
anos a fio para, em seguida, aceitar um posto de Daniela Milano, da Sorri, não acredita que políticas de inclusão profissional das PCDs;
trabalho onde suas capacidades profissionais não essa seja a solução para todos os problemas. a Secretaria Municipal do Desenvolvimento,
são valorizadas? Ou que aceite ser contratado Para ela, enquanto não houver uma mudança Trabalho e Empreendedorismo de São Paulo
pelo simples fato de ter uma deficiência? Simone significativa na cultura empresarial brasileira, criou o Programa Inclusão Eficiente para incluir
deu a sua resposta: não aceitou o emprego na pouco vai mudar quanto à desvalorização do o trabalhador no mercado formal por meio do
indústria farmacêutica. “Que tipo de competência profissional com deficiência dentro do local de atendimento, encaminhamento e subsídio de
adquirida no curso de psicologia pode ser útil trabalho. “É preciso investir na estruturação de projetos e ações específicas de empregabilidade.
para ficar limpando as prateleiras, tirando pó um projeto ético, promovendo a diversidade Logo em seu primeiro ano, o programa
dos produtos, lavando frascos de produtos dentro de uma cultura organizacional. As recebeu 16 mil cadastros de interessados em se
danificados e carregar caixas? “As empresas empresas que visam mais do que cumprir a cota colocarem no mercado de trabalho.
de colocação profissional precisam contratar têm tido melhores resultados.” Ela cita desde
com urgência para que seus clientes, no caso as a necessidade de dotar estruturas prediais de Mas apesar dos esforços demonstrados pelo
empresas contratantes, não sofram com multas rampas, elevadores, banheiros e espaços de salas poder público, mesmo que singelos, não há
por não cumprirem a cota e, neste sentido, até a mudança de comportamento dos gestores. políticas para a valorização do trabalhador
acabam não tendo critério na contratação”, deficiente já inserido no mercado, o que se
conclui a professora Dolores Affonso. afigura como nova preocupação no horizonte.
É possível que uma luz surja da consciência
Inclusão coletiva pela formação de uma nova cultura
organizacional voltada à diversidade, de
Exemplos Mas não há como descartar a importância dos forma a estruturar as rotinas produtivas em
projetos públicos, que começaram a ser pauta igualdade de condições. Contudo, tirar o
Na Colômbia, país com implementação de das administrações municipais. Em Campinas preconceito do porão e encerrar os mitos
políticas públicas de inclusão de deficientes em (SP), a prefeitura criou, em 2013, a Secretaria representa uma árdua tarefa, que ainda espera
grau bastante avançado, há uma lei sancionada Municipal dos Direitos das Pessoas com ser empreendida. X
e regulamentada (361/1997) que obriga o Deficiência e Mobilidade Reduzida, chefiada
governo a conceder isenções de tributos pela advogada e deficiente visual Emanuele
nacionais e de taxas de importação a empresas Garrido Alkmin (na foto). “Existem ações * Estagiário de Jornalismo do MPT em Campinas.

72 LABOR
LABOR 73
Cyrano Vital

74 LABOR
LIBERDADES INDIVIDUAIS

A crença é opcional.
O respeito, obrigatório
Acordo feito pelo MPT acaba com discriminação
religiosa em escritório de advocacia no RS

Por Luis Nakajo

O escritório de um grupo religiosa. A ação civil pública


de advocacia, assessoria e (ACP) se originou a partir de
administração empresarial de denúncias de empregados do
Porto Alegre foi acionado pelo Grupo Villela, que relatavam
Ministério Público do Trabalho pressão psicológica em razão da
(MPT) por discriminação opção religiosa.

LABOR 75
A conduta denunciada incluía a cobrança sob pena de multa de R$ 10 mil por
para frequentar cultos evangélicos semanais infração, reversível ao Fundo de Amparo ao
realizados na sede da empresa, no bairro Trabalhador (FAT).
Cristal, pressão para mudança de religião e
tratamento discriminatório. Com a ação do
MPT, o respeito à liberdade de crença dos
trabalhadores foi assegurado, com acordo Pressão psicológica
judicial homologado na 15ª Vara do Trabalho
da capital, em setembro de 2014. A constante A juíza do Trabalho Luísa Rumi Steinbruch
violação das garantias constitucionais considerou procedente o pedido de liminar,
relacionadas à liberdade religiosa causa danos à considerando presentes os dois requisitos do
saúde mental e ao bem-estar dos empregados. artigo 84 do Código de Defesa do Consumidor
“O acordo judicial foi a melhor solução para para a concessão da antecipação de tutela: a
o caso, na medida em que as empresas do relevância do fundamento da demanda e o
Grupo Villela demonstraram preocupação em justificado receio de ineficácia do provimento
resolver a situação, inclusive comprometendo- final. O primeiro requisito foi preenchido pelos
se a divulgar campanha na mídia contra a depoimentos dos trabalhadores e o segundo,
discriminação, incluindo a religiosa”, explica o porque a repetição das violações poderia causar
procurador do Trabalho Philippe Gomes Jardim, danos à saúde mental dos empregados.
autor da ação.
Nos grupos de oração, havia pressão para que
A campanha, a ser veiculada em jornais, outdoors todos participassem e falassem. “No último culto
e busdoors, soma R$ 250 mil e será feita em a que fui, havia cerca de 15 pessoas, que ficavam
substituição ao pagamento de indenização por em um círculo para que o senhor Renan pudesse
danos morais coletivos. A duração será de dois ‘tirar o capeta’”, lembra Josi Mendonça de Lima,
meses. Em respeito ao acordo, o grupo deu uma das testemunhas ouvidas pelo MPT no
ampla divulgação interna sobre os compromissos inquérito. Na última sessão a que compareceu, o
assumidos. O grupo publicou nota em seu site diretor colocou a mão na cabeça de um colega
na internet e afixou cartazes nos escritórios que estava ao seu lado e passou a repetir palavras
informando sobre o resultado do acordo. de ordem. “Fiquei com medo de ser a próxima.”
Durante os seis meses de seu estágio no grupo,
Lima compareceu a cerca de quatro cultos.

Caso “A ausência aos cultos era cobrada nas reuniões”,


conta C.M.S.T., que também fez estágio em
A situação já havia sido reconhecida em uma empresa do grupo. Em algumas ocasiões,
ações trabalhistas individuais em curso na quando disse que tinha aula à noite e não podia
Justiça do Trabalho, inclusive com decisões de participar do culto, fui encorajada a faltar à aula,
segunda instância favoráveis aos reclamantes. porque o grupo de oração era considerado
Responderam à ACP as quatro empresas que mais importante. Renan insinuava que quem
constituem o Grupo Villela e também o diretor- não acreditasse em Jesus Cristo estaria
presidente da empresa, Renan Lemos Villela. ‘endemoniado’. Isso era dito tanto nos cultos
Ficou comprovado em inquérito civil do MPT quanto em reuniões profissionais com o setor
que Lemos Villela realizava cultos na sede da jurídico, durante o horário de expediente.
empresa às terças-feiras, após o horário de
Outra testemunha, C., era evangélica quando
trabalho, acompanhado de pastor evangélico.
entrou no escritório e inicialmente não se
Nesses dias, de acordo com testemunhas, era
importava em frequentar o grupo de oração.
enviado e-mail corporativo informando todos
Mas, por conta do que via no escritório, deixou
os funcionários sobre a realização do culto, às
de sê-lo na época em que saiu do grupo Villela.
18h. Em torno das 17h, o próprio Renan passava
pelas salas para falar do culto aos empregados.
Os trabalhadores ouvidos relataram o clima de
pressão psicológica para participar do culto,
mesmo contra a vontade. Denúncia
O grupo se recusou a firmar termo de Um mês e meio depois de descobrir que o
ajuste de conduta (TAC) proposto pelo pai de uma empregada era espírita, Renan
MPT, o que resultou no ajuizamento da a despediu. Outra ex-trabalhadora, de
ACP. A liminar foi concedida em seguida. confissão judaica, se sentia “completamente
Esta impunha ao grupo a obrigação de não perdida e incomodada”, visto que não
praticar nenhuma das condutas denunciadas entendia o culto. Participou de três deles,
pelo MPT na ação: não adotar conduta logo quando foi contratada. No dia a dia da
ou critérios discriminatórios com relação empresa, ouvia chistes por sua religião. “Eu
aos empregados; evitar pressões para usava uma estrela de Davi em uma corrente
comparecimento a cultos religiosos; nem e por isso ouvia piadinhas do tipo ‘vou
condutas vexatórias que os desrespeitassem, ganhar uma cadeira no céu por converter

76 LABOR
Cyrano Vital

uma judia.’” Advogada tributarista, ela se do empregador, uma vez que é absolutamente funcionários das empresas ou os familiares.
demitiu da empresa. estranho ao objeto do contrato de emprego. Na prática, o acordo em nada afetou o nosso
Trata-se de uma postura discriminatória.” cotidiano ou a maneira como a empresa se
As vítimas de discriminação devem reunir relaciona com seus colaboradores, clientes,
provas, explica o procurador Gomes Jardim. fornecedores.” Bacelos ressalta que a assinatura
“Orientamos que os trabalhadores vítimas do acordo não implica reconhecimento das
de discriminação procurem registrar os fatos, Outro lado condutas indicadas na ACP. No entanto, os
gravando conversas ou guardando provas. De grupos de oração não ocorrem mais. “A média
posse desses documentos, esses trabalhadores De acordo com Juliano Bacelos, diretor jurídico de participantes era de oito a dez pessoas,
devem denunciar o caso ao MPT, para os casos do Grupo Villela, a opção pelo acordo judicial em um total superior a 120 colaboradores.
de repercussão coletiva, e ao Ministério do levou em conta o prejuízo à imagem da Não era uma atividade habitual, como outras
Trabalho e Emprego (MTE), além de ajuizar instituição, exposta com o ajuizamento da ACP. feitas, como futebol, almoços e aulas de inglês.
ações individuais reparatórias. Obrigar ou “A opção por firmar o acordo e não enfrentar A direção da empresa entendeu que não
induzir a presença dos trabalhadores em o que a empresa entendia ser injusto foi no poderia expor seus sócios e colaboradores,
cultos religiosos, no próprio local de trabalho, sentido de minimizar este prejuízo e preservar que passaram a ser vítimas das publicidades
não se trata de exercício do poder hierárquico os envolvidos, sejam os sócios do grupo, os vinculadas sobre o fato.” X

LABOR 77
SEGURANÇA PÚBLICA

Poder de polícia
terceirizado em MG

Prestação de serviços no presídio de


Ribeirão das Neves é investigado pelo MPT

Por Cínthya Oliveira* e Lília Gomes

As consequências da condições de trabalho é a


terceirização indiscriminada consequência mais nefasta e
têm sido enfrentadas pelo a bandeira maior em grande
Ministério Público do Trabalho parte das investigações do
(MPT) há mais de dez anos. MPT. Em Minas Gerais, foram
Setores como telefonia, instaurados, nos últimos cinco
siderurgia e energia elétrica anos, 739 inquéritos sobre
são campeões na matéria fraudes para descaracterizar a
e figuram em diversos relação de emprego. Cento e
procedimentos e ações civis quarenta e duas ações judiciais
públicas. A precarização das foram ajuizadas.

78 LABOR
Cynthia Oliveira

A terceirização invade o setor de segurança Prisionais Associados, que administra a PPP, precedentes”, enfatiza o procurador do Trabalho
pública no estado por duas vias. Uma delas é o prevê a terceirização de serviços como sistema que atuou no caso, Geraldo Emediato de Souza.
uso de mão de obra contratada para atuar nos de segurança e monitoramento interno, controle
presídios públicos. Hoje, segundo dados do disciplinar e inspeção do estabelecimento O aporte financeiro para a parceria foi
Sindicato dos Agentes Penitenciários de Minas penal, bem como assistência à saúde, jurídica, significativo. O contrato para o início da
Gerais (Sindasp), são 9.910 contratados e 7.132 educacional, cultural, recreativa e social. “Entre construção do complexo penitenciário do
efetivados, ou seja, 58,15% não são servidores os postos de trabalho terceirizados estão município de Ribeirão das Neves foi implantado
de carreira. A outra via, inaugurada em 2011, é atividades relacionadas com custódia, guarda, por meio de parceria público-privada com o
a parceria público-privada (PPP) para a gestão assistência material, jurídica e à saúde, uma governo do estado em junho de 2010 como
do presídio de Ribeirão das Neves, na região afronta à Lei 11.078/04, que classifica como consórcio Gestores Prisionais Associados
metropolitana de Belo Horizonte. indelegável o poder de polícia e também a S/A. O documento formalizou a concessão
outros dispositivos legais. Além de ser uma administrativa para a construção e gestão por
Em síntese, o contrato de prestação de serviços medida extremamente onerosa para os 27 anos do complexo penal. O valor estimado
firmado por Minas Gerais com o grupo Gestores cofres públicos, poderá causar abusos sem do contrato em 2008 era de R$ 2,1 bilhões.

LABOR 79
Lília Gomes

80 LABOR
Investigação
A terceirização na segurança pública é
alvo de investigações tanto no MPT como
no Ministério Público do Estado de Minas
Gerais. Em ação ajuizada contra a PPP, em
abril de 2011, Emediato defendeu que
são indelegáveis as funções de regulação,
jurisdição, exercício do poder de polícia e
de outras atividades exclusivas do Estado,
de acordo com a Lei 11.079/84, que dispõe
sobre licitação e contratação de parceria
público-privada no âmbito da administração
pública. Ou seja, é ilegal deixar seres humanos
encurralados pelo Estado sob custódia de
trabalhadores terceirizados.

Na ação, o procurador ressalta as várias


violações à legislação cometidas pelo Estado
ao criar a PPP, entre elas a Constituição Federal
e a súmula 331 do TST.

Geraldo Emediato de Souza também


colocou em evidência entendimentos de
respeitados juristas e estudiosos do tema:
“Acredito ser a privatização de prisões
inaceitável do ponto de vista ético e moral.
Numa sociedade democrática, a privação
de liberdade é a maior demonstração de
poder do Estado sobre seus cidadãos. Licitar
prisões é o mesmo que oferecer o controle
da vida de homens e mulheres para quem
der o menor preço, como se o Estado tivesse
o direito de dispor dessas vidas como bem
lhe aprouvesse”, escreveu a socióloga
Julita Kembruber. Para o magistrado Luis
Fernando Vidal, “o preso deixa de ser sujeito
em processo de ressocialização e torna-
se objeto da empresa, restando privado
de qualquer dignidade. Já o presidente
do Conselho Nacional dos Secretários de
Justiça, Direitos Humanos e Administração
Penitenciária, Emanuel Messias Oliveira
Cacho, foi enfático: “sou contra o modelo de
terceirização do serviço prisional adotado
e tolerado no Brasil. O Estado constrói
unidades e as empresas ganham dinheiro
nessas unidades, enquanto o Estado
permanece administrando unidades velhas,
ultrapassadas e caóticas, situação gerada por
anos de descaso político.”

LABOR 81
Fotos: Cynthia Oliveira
Soberania
A terceirização de atividades típicas de Estado,
como é a segurança pública, em especial
nos presídios, é perpassada por questões
complexas que vão além da irregularidade
objetiva de terceirizar atividade-fim. Geraldo
Emediato propõe a ampliação da discussão sob
outras três lentes, para além da ilegalidade da
terceirização e da precarização das condições
de trabalho distintas: a soberania do Estado,
a missão de ressocialização e a segurança do
status de servidor público.

Emediato argumenta: “o poder de punir é


faceta da soberania dada ao Estado, que pune
para ressocializar – essa é pretensão estatal,
conforme a Lei de Execução Penal, no seu
artigo 10. Entregar essa tarefa a terceiros, que
detêm o mesmo status jurídico dos detentos,
sendo que estes apenas estão com a sua
liberdade restringida, fere o direito de igualdade
resguardado no artigo 5º da Carta Magna.”

O presídio tem uma função social, defende


o procurador. “No momento em que a
sociedade reclama uma solução eficiente
para a ressocialização dos presos, não pode o
Estado ‘tirar o corpo fora’, alocando parte de
sua soberania a terceiros estranhos à estrutura
estatal, tudo em nome de uma economia de
custos. Os lucros econômicos não justificam as
perdas sociais.”

Brecha
Cada servidor do presídio, em maior ou menor
dimensão, carrega o dever de ser um agente
de ressocialização do detento, missão maior do
sistema prisional. Neste sentido, profissionais
terceirizados que não são submetidos à
capacitação adequada, submetidos a alta
rotatividade no emprego e condições precárias
de trabalho, enfrentam mais restrições e
dificuldades para contribuir para este fim.

Para o MPT, deixar que trabalhadores


terceirizados cuidem das mais diversas
atividades em uma prisão, que incluem práticas
relacionadas com custódia, guarda, assistência
material, jurídica e à saúde, pode configurar
uma brecha para que haja exploração destes e
violação da ordem jurídica.

Em momentos de fuga e rebelião, exemplifica


o procurador, “faz diferença o agente saber
que poderá reagir corretamente e, depois,
contará com a ajuda do Estado para ser, por
exemplo, transferido para outra unidade ou
entrar no serviço de proteção às testemunhas.
Diferentemente, o empregado de empresa
privada sabe muito bem que, se tentar impedir,
colherá, depois, consequências desagradáveis”.

Por outro lado, o servidor público é


desestimulado a praticar crimes contra a
administração da Justiça, já que, em regra,
as penas aumentam um terço quando os
réus são servidores públicos. Sendo assim,
por meio de seus servidores, o Estado se
faz sentir mais presente, tanto nas ações
de ressocialização dos presos como nas de
prevenção contra o crime.

82 LABOR
De frente para o risco

Lília Gomes

Administrar com equilíbrio emoções como O estudo enfatiza a tensão e a degradação


tensão, medo e ansiedade em escalas bem acima psíquica dos agentes, que são ameaçados o
do normal é angustia diária de profissionais que tempo todo. “Eles recebem ameaça verbal,
trabalham diretamente com pessoas em processo escrita. Isso limita a vida social dos agentes.
de ressocialização. Quem visita um presídio Dentre os diversos casos analisados da pesquisa,
experimenta a sensação contínua de insegurança relata a coordenadora, Vanessa Barros, está o de
e tensão. É com essa realidade que agentes uma agente, na cidade de Três Corações, que
penitenciários, psicólogos, assistentes sociais, foi perseguida por uma ex-detenta, mas não
professores, psiquiatras lidam todos os dias. conseguia provar que estava sendo seguida.
“Somente depois de entrar em uma depressão
O manuseio de armas, o contato direto profunda, ela conseguiu ser transferida.”
com detentos e o exercício de atividades
disciplinares colocam os agentes penitenciários Dentre as mais reiteradas reclamações dos
ainda mais expostos e vulneráveis, exige agentes participantes da pesquisa, está a
sangue frio para lidar com o alto nível de tensão falta de treinamento com arma de fogo. O
e, não raro, com ameaças. Além de ajudar trabalhador contratado precisa pagar o curso
a garantir a segurança do ambiente, onde do próprio bolso se quiser ter treinamento
tantas pessoas vivem e trabalham, o agente para o manuseio de armas. “O despreparo para
penitenciário tem ainda o importante papel de agentes contratados é ainda maior”, afirma
contribuir com a ressocialização do detento. Vanessa Barros.

A vulnerabilidade da terceirização compromete No caso dos presídios públicos, outros


essa missão. É o que aponta um estudo problemas observados são a falta de
lançado, no final de 2014, pelo Ministério infraestrutura e de equipamentos de proteção.
Público do Estado de Minas Gerais. A pesquisa As condições das instalações e mobiliário são
desenvolvida pelo Laboratório de Ensino, precárias e insalubres, não somente para os
Pesquisa e Extensão em Psicologia do Trabalho presos, mas também para os trabalhadores (leia
(LabTrab) da Universidade Federal de Minas mais a respeito das condições dos trabalhadores
Gerais, estudou as condições trabalho de em presídios públicos na edição 4 de Labor). X
detentos e de agentes penitenciários em
alguns estabelecimentos carcerários da Região
Metropolitana de Belo Horizonte e interior. * Estagiária de Jornalismo do MPT em Minas Gerais

LABOR 83
ENSAIO

Neva no Sertão
Por Mariana Banja

84 LABOR
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Com 18% das reservas de gipsita do país, Pernambuco é responsável ligadas ao setor geram 13,9 mil empregos diretos e 69 mil indiretos.
por 95% da produção nacional de gesso. A região do Araripe, no Segundo o Sindicato das Indústrias do Gesso, são 42 minas de gipsita,
sertão do extremo oeste do Estado, é formada pelos municípios 174 indústrias de calcinação e cerca de 750 indústrias de pré-moldados.
de Araripina, Bodocó, Cedro, Dormentes, Exu, Granito, Ipubi, Juntas, faturam, em média, R$ 1,4 bilhão por ano.
Moreilândia, Ouricuri, Parnamirim, Santa Cruz, Santa Filomena,
Serrita, Terra Nova e Trindade. É neste lugar árido, mas economicamente viável, que homens – e
mulheres e crianças e bichos e árvores e coisas – tornam-se brancos. A
Nessas 15 cidades, parte significativa da economia gira em torno da cada sopro de vento, o pó de gesso toma conta de todo o canto. Antes
cadeia produtiva do gesso. Estimativas dão conta que as atividades disso, anteriormente a se tornar a maior marca dessa parte do mundo, há

86 LABOR
que se dizer que ele – o pó – surge nas unidades fabris, onde o minério é uso de máquinas inadequadas; de comprometimento do aparelho
processado, calcinado e transformado em gesso – e em poeira. respiratório por conta da não contenção da poeira durante o processo
de produção.
É justamente sobre essa realidade que o Ministério Público do
Trabalho (MPT) em Pernambuco tem voltado parte de seus esforços. O ensaio a seguir, feito em janeiro de 2015, durante visita ao polo, é apenas
As questões de meio ambiente laboral geram preocupação ao órgão, um extrato daquilo que se pode captar da grandiosidade da natureza,
sobretudo pela ausência de medidas protetivas de caráter coletivo da dádiva que é o gesso para a localidade, da ganância e da ignorância
e individual. Por toda parte, salvo exceções, há risco de choque presentes nas relações de trabalho e, enfim, do que ninguém poderia
elétrico pela precariedade das instalações fabris; de lesões pelo acreditar: há neve no Sertão.

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LABORTERAPIA

Ressocialização
de presos

No Rio Grande do Sul, projeto capacita apenados, que


podem conquistar espaço no mercado de trabalho
quando saírem da prisão

Por Luis Nakajo

“Preciso aprender a me microempresa de carvão vegetal


comunicar mais com meus e de móveis e já trabalhou nos
clientes.” O depoimento de J.N.F., setores de serviços e comércio
37 anos, foi dado durante um nas funções de embalador e vigia.
intervalo das aulas que frequenta J.N.F. está inscrito no curso de
no Instituto Psiquiátrico Forense serviços de vendas. A certificação
(IPF), onde cumpre medida é do Serviço Nacional de
de segurança. Ele tem uma Aprendizagem Comercial (Senac).

92 LABOR
Fotos: Neiva Motta

O trabalho remunerado do preso é ainda pelo próprio sistema penitenciário, em serviços Iniciado em junho de 2014 no Presídio Central
pouco difundido no Brasil. A Lei de Execução de manutenção predial, limpeza e cozinha, ou em e no Instituto Psiquiátrico Forense (IPF), o
Penal (Lei nº 7.210/1984) estabelece que projetos locais das administrações penitenciárias, programa é feito em parceria com empresas,
o trabalho do apenado não se submete às principalmente, ligados ao artesanato. Raramente, que formalmente contratam os internos como
regras da Consolidação das Leis do Trabalho há contrapartida remuneratória e previdenciária. aprendizes, e com instituições de ensino, que
(CLT). Mesmo com os direitos concedidos pela respondem pela parte educativa do programa.
Constituição de 1988, o trabalho formalizado No Rio Grande do Sul, a Superintendência dos Durante 13 meses, os participantes obtêm
dos presos é uma exceção no sistema. Serviços Penitenciários (Susepe) desenvolve em formação profissional, reconhecida pelo
Porto Alegre o Programa Jovem Aprendiz. Os Ministério da Educação (MEC), e também a
A laborterapia, que busca auxiliar a ressocialização cursos são oferecidos para apenados e pacientes remuneração pelas horas trabalhadas, baseada
do preso, é aproveitada no país, majoritariamente cumpridores de medida de segurança. no salário mínimo regional.

LABOR 93
Parceria A exceção fica por conta do trabalho
formalizado”, diz Barreto de Almeida.
programa de aprendizagem, J.N.F. contribui
eventualmente com a manutenção predial
As duas primeiras turmas do Presídio Central, do IPF. O pagamento é de R$ 50 por semana.
com previsão de conclusão em julho de O caso da Susepe-RS comprova que a O auxílio que recebe do programa de
2015, vão formar profissionais de serviços formalização do vínculo e a observância da aprendizagem é depositado em conta pela
de vendas com certificação do Senac. A remuneração é possível e também apresenta empresa que os contrata. Por padrão, o valor
segunda turma montada no IPF formará um modelo replicável, organizado em torno seria apenas acessível após a conclusão do
apontadores de mão de obra para a indústria da aprendizagem profissional, que combina a curso, mas o IPF liberou o cartão da conta para
da construção civil, em parceria com a Rede qualificação profissional à prestação do trabalho. o controle de cônjuges dos internos. No caso de
Nacional de Aprendizagem, Promoção Social J., sua esposa e dois filhos usam o dinheiro para
Ao final do contrato especial de
e Integração (Renapsi). J.N.F. está matriculado complementar a renda.
aprendizagem, o participante terá certificação
na primeira turma. e a anotação na carteira, títulos que serão
O procurador do Trabalho Ruy Fernando Gomes reconhecidos posteriormente pela Previdência
Leme Cavalheiro visitou unidades prisionais no Social e pelo mercado de trabalho. Outro
Maranhão, em Minas Gerais, em Santa Catarina motivo para a regulamentação do trabalho Ganho
e no Distrito Federal e conheceu a realidade do do apenado, de acordo com Ruy Cavalheiro,
é a proteção das economias locais. “É que O procurador do Trabalho Philippe Gomes
trabalho do preso no Brasil. Ele explica que a
pode haver um impacto negativo em uma Jardim considera o projeto positivo. “O
iniciativa amplia outras formas de laborterapia
cidade pequena, quando uma empresa adota apenado é capacitado e, quando sair da prisão,
remunerada. A organização delas se dá
o trabalho do preso e acaba se tornando terá um diferencial que lhe permitirá entrar no
geralmente por meio de oficinas montadas
mais lucrativa, afinal, ela não precisa manter mercado de trabalho com a cabeça erguida.
em parceria com empresas locais. “Em Joinville
Comissão Interna de Prevenção de Acidentes Pode ser a única resposta que tenha para não
(SC), o presídio industrial tem 12 oficinas de
(Cipa) e não há o pagamento de contribuições retornar à criminalidade”.
pequenos reparos, pintura e ensacamento
de peças. Em outras unidades, há ateliês de trabalhistas e previdenciárias.”
Como as condições de trabalho nos presídios
costura e o produto das vendas é revertido em não são as ideais, isso se reflete no tratamento
benefício dos apenados.” que o Estado fornece aos apenados: “Em
A solução encontrada no Rio Grande do Sul, Aprendizado geral, as cadeias públicas estão em condições
deploráveis de infraestrutura e isto atinge
segundo o procurador do Trabalho Rômulo
As turmas do Presídio Central e do IPF fazem tanto os apenados como os responsáveis pelo
Barreto de Almeida, é pioneira. “A aprendizagem
a prática da aprendizagem em oficinas sistema de guarda e segurança”, sintetiza
nas unidades de Porto Alegre segue a prescrição
adaptadas dentro das próprias unidades, dado Gomes Jardim.
legal: mesmo presa, a pessoa tem a carteira de
o regime fechado das penas e as medidas
trabalho assinada e todos os encargos sociais Para boa parte dos presos, o trabalho com
de segurança dos participantes. O projeto
são recolhidos.” Além dos direitos trabalhistas e registro em carteira na prisão é a primeira
também pode receber participantes do regime
da qualificação profissional, o participante ganha anotação trabalhista da vida. Tanto que uma
aberto ou semiaberto.
um dia de remissão da pena ou da medida parcela muito pequena de seus dependentes
de segurança a cada três dias, ou 12 horas, de As primeiras turmas do Presídio Central recebe o auxílio-reclusão.
atividades completadas. começaram com 30 aprendizes e a turma do IPF,
com 13. A carga horária, de 1.110 horas, prevê De acordo com o Relatório Estatístico do Sistema
aulas de segunda a sexta-feira. A remuneração, Prisional, de dezembro de 2012, 28% dos 548
proporcional às quatro horas de atividades mil detentos brasileiros são jovens entre 18 e 24
Laborterapia diárias, é de meio piso salarial regional (R$ 503,44 anos, faixa etária abrangida pela aprendizagem
em fevereiro de 2015). No IPF, os pacientes profissional, que pode ser feita dos 14 aos 24.
Cada estado interpreta a Lei de Execução ganham roupas da empresa contratante e vão A maior parte (80%) deles não completou o
Penal de um modo e, se entende que o arrumados cumprir religiosamente as quatro ensino médio. Além disso, os sujeitos a medidas
trabalho do preso é permitido, desenvolve horas diárias de trabalho. de segurança, portadores de deficiência mental
projetos localmente. “Boa parte dos estados e dispensados do limite etário de 24 anos
simplesmente não operacionaliza o trabalho “É sempre bom se atualizar e aqui estamos equivalem a 8 mil indivíduos, o que corresponde
do preso. Em outros, o trabalho é informal. agregando valor.” Além de participar do a mais 1,6% da população total de internos.

94 LABOR
Jeniffer de Oliveira
Experiência Processo em período alternado à capacitação, e obtenha
também a certificação escolar formal em um
No Rio Grande do Sul, o percentual de No desenho do projeto de capacitação, foi dos 15 núcleos escolares no estado. É possível,
apenados na faixa de abrangência da considerada a carga horária reduzida, de dependendo de decisão judicial, que sejam
aprendizagem é ainda maior. “O projeto forma a permitir a frequência dos apenados e remidos ambos os períodos, o de aprendizagem
foi pensado a partir de visita do Conselho pacientes às aulas do ensino supletivo regular. e o de supletivo, cumulativamente.
Penitenciário do Estado, que buscava formas de O projeto também flexibilizou os requisitos de
reencaminhar os presos ao mundo social e do formação escolar. Podem participar aqueles com
trabalho”, explica a auditora fiscal do Trabalho capacidade de leitura e interpretação textual.
Denise Brambilla González, idealizadora De acordo com a assistente social Rosane Responsabilidade e ética
do projeto. “Propusemos a aprendizagem Lazzarotto Garcez, uma das coordenadoras
baseados na experiência positiva da Fundação do projeto Jovem Aprendiz na Susepe-RS, a O contrato de aprendizagem é um contrato
de Atendimento Socioeducativo (Fase), com seleção dos participantes é feita com base em especial, previsto na CLT, que abrange
menores de 18 e maiores de 14 anos. São cerca levantamentos demográficos para encontrar tempo determinado de no máximo dois
de 500 crianças contratadas no interior e na aqueles com o perfil do programa. anos e prevê remuneração, inclusive de 13º
capital.” A Fase construiu salas de aula e oficinas salário. Os beneficiários são contratados
com recursos externos, inclusive os repassados “A seleção dos aprendizes inclui entrevistas com como aprendizes de algum ofício previsto
como indenizações de termos de ajuste de os apenados, sensibilizações e regularização de na Classificação Brasileira de Ocupações
conduta (TACs). documentos para verificar o interesse de cada (CBO) do Ministério do Trabalho e Emprego
um em participar”, conta Rosane Garcez. (MTE).
“As destinações ajudam a promover a
emancipação de pessoas em situação de Parceria com a Receita Federal e outros órgãos A carga horária estabelecida no contrato
vulnerabilidade social”, explica o procurador- estatais permitiu a emissão de segunda via soma o tempo necessário à vivência das
chefe do MPT-RS, Fabiano Holz Beserra. “Nossa de certidões de nascimento, do número de práticas do trabalho, além de atividades
experiência diz que o adolescente que passou inscrição no cadastro de pessoa física (CPF), que estimulem o aprendiz a desenvolver
pela aprendizagem não se submeterá, na vida de carteiras de identidade e de trabalho para a autoestima, a criatividade, a cidadania,
adulta, a formas degradantes de trabalho e, em registro profissional dos aprendizes. a responsabilidade e a ética. Todas as
especial, ao trabalho escravo contemporâneo.” empresas de médio e grande porte no país
A maior parte dos participantes do Presídio devem contratar aprendizes, pois a cota
Em 2015, novas turmas poderão ser abertas, Central completou o ensino fundamental ou fixada por lei fica entre 5% e 15% do total
como as de auxiliar de cozinha no presídio tem o ensino médio incompleto. As instituições de empregados cujas funções demandem
central, após a reforma da cozinha industrial escolares decidiram aceitar candidatos, caso formação profissional.
do complexo, em decorrência de acordo houvesse capacidade intelectual, mesmo
judicial celebrado em ação civil pública (ACP) sem a escolaridade correspondente. Isto foi O projeto poderá ser estendido, nos
pelo procurador do Trabalho Paulo Joarês observado, em especial, com os participantes próximos anos, para unidades nos
Vieira. As obras devem ser concluídas ainda no mais idosos do IPF. A participação no programa municípios de Osório, Santa Maria, Ijuí, Jacuí
primeiro semestre. não impede que o aprendiz continue a estudar, e Rio Grande. X

LABOR 95
SALÃO DE BELEZA

Sob a ameaça
do belo

Ergonomia ruim e exposição a químicos


comprometem saúde de trabalhadores

Por Fabíula Sousa

O desafio de cabeleireiros e anos, foi diagnosticada como


manicures está muito além portadora de pigmentos de
da promoção da beleza. Eles esmalte no organismo. “Eu não
precisam driblar os riscos posso limpar o palito de unha
inerentes ao trabalho. Hélio no pulso e nem pintar as mãos,
Nakanishi, Nelson Cunha, Clarice como fazem as minhas colegas
Santiago, Sarah Resende e Adriana de profissão. O produto me causa
da Conceição conhecem de perto inchaço, coceira e a sensação de
os transtornos que as atividades que a garganta vai fechar.” Há
repetitivas, a falta de ergonomia mais de cinco anos, ela usa toalhas
dos salões e a exposição intensa descartáveis ou de pano para
a produtos químicos causam prevenir as reações. Quando tem
à saúde. Adriana, manicure, 44 crises, recorre a antialérgicos.

96 LABOR
Fotos: Fabíula Sousa

Pesquisa da Universidade de Massachusetts próprio, teve irritações na pele. “Com o tempo, aumentam as chances de desenvolvimento de
(UMass), divulgada no Brasil em 2011, revela o corpo começou a reclamar. Agora, só o odor câncer. A afirmação é resultado de um estudo
que os profissionais têm mais problemas do descolorante já me incomoda. Mesmo feito por ela e a bióloga Maira Galiotte, em
respiratórios e de pele que o restante da utilizando luvas, sinto a orelha e os braços 2008, antes do boom do formol tomar conta da
população por trabalhar em ambientes onde coçarem. Segundo meu médico, foi a exposição cabeça das brasileiras.
há grande quantidade de compostos, às vezes contínua a esse tipo de química que gerou a
tóxicos, que se espalham no ar. minha intolerância.” A pesquisa avaliou amostras de sangue de
124 mulheres paulistas, sendo que 69 delas
As manicures estão sujeitas ainda a outro risco: Para se cuidar, ela usa pomadas e medicamentos. trabalhavam em salões. As 55 restantes eram
estão mais propensas a contrair hepatite B por Hoje, dona de um salão em Brasília, a cabeleireira de outras áreas não correlatas. Ao todo, 18
trabalharem com instrumentos cortantes e chefia uma equipe de profissionais e evita ao manicures, 45 cabeleireiras e seis tinturistas
perfurantes, em que há o risco de contaminação máximo ter contato com a substância. “Tudo que foram submetidas a testes. “Procuramos
pelo contato com o sangue de clientes. eu consigo delegar, eu delego.” investigar modificações no DNA por meio
de testes citogenéticos, em especial o teste
A pesquisadora Gilka Gattás, da Faculdade de do Cometa. Ele é um dos procedimentos
Intolerância Medicina da Universidade de São Paulo (USP), utilizados para avaliação precoce do risco de
faz outro alerta: os trabalhadores do setor câncer decorrente da exposição ocupacional.
Cabeleireira há 24 anos, Clarice Santiago, são duas vezes mais suscetíveis a danos em A doença pode se manifestar em decorrência
40 anos, também desenvolveu alergia no seu material genético que a população em de mutações que ocorrem precocemente e
trabalho. Por usar cosméticos com amônia geral. Além das alergias, o manuseio habitual que levaram muitos anos para se estabelecer”,
para tingir os cabelos das clientes, e o seu de tinturas e outros cosméticos também explica Gilka Gattás.

LABOR 97
Formol mata
A venda do formol puro e o seu uso para e da sensibilidade individual, mas são da substância, é crime hediondo previsto na
alisamentos de cabelos são proibidos pela praticamente imediatos. Já os crônicos, caso legislação penal brasileira.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária do câncer, demoram a aparecer.
(Anvisa) desde 2009. No Brasil, a substância
só pode ser manipulada por indústrias e serve
apenas como conservante, na concentração Saúde
0,2%, e como endurecedor de unhas (5%). O Alisante A Vigilância Sanitária conta com o apoio do
produto é taxado pela Organização Mundial Ministério Público do Trabalho (MPT) em
da Saúde (OMS) como nocivo à saúde e está O epidemiologista do Instituto Nacional do São Paulo na elaboração de uma pesquisa
relacionado ao surgimento de tumores no nariz, Câncer (Inca) Ubirani Otero, que atua na para criar uma norma para mudar a forma de
na boca, na faringe, na laringe e na traqueia. área de vigilância do câncer ocupacional funcionamento dos salões e da indústria. A
e ambiental, destaca o uso de outros norma exigirá salas especiais para aplicação de
O cabeleireiro Nelson Cunha (foto abaixo), 46 produtos químicos maléficos à saúde em
anos, teve rinite e sinusite provocadas pelo química e é importante para regularizar o meio
procedimentos estéticos. “Ultimamente, ambiente de trabalho no setor, principalmente
contato com o formol. “Fazíamos uma média de o ácido glioxílico tem sido utilizado por
30 progressivas por mês. Usávamos máscaras considerando a gravidade do uso de formol. “O
cabeleireiros como alisante, uma vez que, objetivo é implementar medidas de segurança
e luvas e trabalhávamos com o ventilador e aquecido, também libera formol. É uma
o exaustor da sala ligados, mas nada disso para atenuar os riscos”, explica o procurador do
tentativa de mascarar a utilização do formol. Trabalho Marcelo Freire Sampaio Costa.
impedia que inalássemos o vapor da química.” Oferece o mesmo grau de risco à saúde.”
Depois de se sentir mal com a fumaça que saía A medida também obrigará as empresas
das escovas progressivas, Cunha passou por um Segundo a Anvisa, essas situações são a especificar com clareza, nos rótulos dos
tratamento médico e decidiu parar de fazer os previstas na legislação de cosméticos, produtos, não só quais substâncias estão
alisamentos. “O cheiro forte me causava mal- que estabelece limites e restrições para presentes, mas o que o profissional deve usar
estar e a minha pele ardia, como se queimasse.” qualquer substância utilizada na fabricação para se proteger, e também os clientes, durante
de cosméticos. O uso indiscriminado do a aplicação dos produtos. Para o MPT, os donos
Os efeitos agudos dessa exposição, como formol em salões é fiscalizado pelos agentes dos estabelecimentos são responsáveis por
dores de cabeça, vertigem, falta de ar, locais de vigilância sanitária. As punições providenciar equipamentos de segurança
irritação nos olhos, nas mucosas e no trato variam entre multa, apreensão dos produtos, coletiva, como exaustores, e individual, como
respiratório, sem falar em edema pulmonar, interdição e fechamento do estabelecimento. luvas e máscaras, mesmo que os cabeleireiros
dependem da concentração da substância Já a adulteração de cosméticos, com a adição sejam autônomos ou terceirizados.

98 LABOR
Doenças osteomusculares
Quem trabalha em salão de beleza também após uma crise de bursite e uma de tendinite,
costuma sofrer de doenças osteomusculares ambas doenças adquiridas pela profissão.
– que afetam os ossos e os músculos. O
cabeleireiro Hélio Nakanishi (foto abaixo),
57 anos, teve que passar pelo Hospital
Sarah Kubitschek, em Brasília, para tratar um
rompimento do manguito rotator do ombro.
RPG
O manguito é um grupo de músculos que “Eu tive inflamações na lombar e cervical
cobrem a parte anterior, a superior e a parte por trabalhar com uma postura errada.
posterior da cabeça do osso do braço, o Ficava curvada por muito tempo quando ia
úmero. “Durante mais de 37 anos trabalhando maquiar as clientes e não tinha informação
em ritmo acelerado, além do esforço sobre a altura ideal da cadeira. Também tinha
repetitivo, comecei a ter dores insuportáveis. dificuldade na hora de escovar os cabelos,
Exames que fazia periodicamente apontaram o desconhecia a posição certa de segurar o
problema, confirmado após uma ressonância.” secador e o jeito mais adequado de realizar os
movimentos com a escova.”
Devido à lesão, Nakanishi ficou com alguns
movimentos limitados. “Até hoje faço Atualmente, ela faz reeducação postural global
fisioterapia, o que evitou cirurgias sem (RPG) e acompanhamento regular com uma
certeza de sucesso. Nos últimos cinco anos, fisioterapeuta, além de praticar pilates para
diminuí o ritmo de trabalho em cerca de fortalecer a musculatura.
70%. Tive que criar novas maneiras de
cortar, escovar e fazer penteados.” Agora, ele Sarah Resende, 31 anos, também tem
pratica atividades contínuas de acupuntura, problemas de saúde em razão do trabalho
alongamento e musculação. como cabeleireira. Ela tem varizes pela
necessidade de ficar em pé por longos
Clarice Santiago chegou a ficar 15 dias sem períodos. “Depois de um dia intenso de
trabalhar por causa de um problema na coluna. Há trabalho, sinto cansaço nas pernas e dores nas
16 anos, a cabeleireira também procurou o médico articulações. A minha coluna também reclama.”
Arquivo pessoal

LABOR 99
Informalidade à vista

Fabíula Souza
Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de ferir direitos garantidos na Consolidação das
de Lei 5230/13, que estabelece a inexistência Leis do Trabalho.”
de vínculo empregatício ou de sociedade entre
o dono do salão e o profissional prestador de A proposta cria as figuras do “salão-parceiro”
serviço. O PL aguarda parecer da Comissão de e “profissional-parceiro”. O texto centraliza os
Trabalho, de Administração e Serviço Público. pagamentos e recebimentos decorrentes dos
serviços no proprietário do estabelecimento,
Para o procurador do Trabalho Marcelo Freire que deverá repassar ao trabalhador os valores
Sampaio Costa, se aprovado, o projeto pode devidos, conforme percentual acertado
precarizar as relações de trabalho e aumentar previamente. Os tributos serão recolhidos
a informalidade no setor. “Não é legítimo o separadamente pelas partes, exclusivamente
enfraquecimento do vínculo que deve haver sobre a parcela que couber a cada um. Pela
entre o profissional e o dono da atividade proposta, o acordo poderá ser desfeito a
econômica. Isso seria uma delegação da qualquer momento, desde que solicitado com
atividade-fim a um terceiro, o que é ilegal, além aviso prévio de 30 dias. X

Profissão regulamentada
As profissões de cabeleireiro, manicure, pedicure, depilador e maquiador foram
regulamentadas há três anos. A Lei 12.592/12 obriga os trabalhadores a obedecer
às normas sanitárias, efetuando a esterilização de materiais e utensílios utilizados no
atendimento a clientes. O texto também define 19 de janeiro como o Dia Nacional do
Cabeleireiro, Barbeiro, Esteticista, Manicure, Pedicure, Depilador e Maquiador.

Contenção de riscos
Os salões de beleza do Distrito Federal deverão ter, a partir de julho de 2015, um
profissional com conhecimento em microbiologia responsável pelas questões sanitárias
dos estabelecimentos. Ele deve possuir conhecimentos básicos de limpeza, desinfecção
e esterilização de equipamentos, higienização de superfícies e biossegurança e
gerenciamento de resíduos.

A medida atende a resolução normativa da Vigilância Sanitária e pretende diminuir os


riscos de transmissão de doenças nos locais. “A gente não quer tornar a atividade inviável,
apenas minimizar riscos sanitários através dessa medida”, explica Kleyca Martins, do
Núcleo de Inspeção Fiscal em Serviços de Interesse à Saúde da Vigilância Sanitária.

A resolução vale para todos os estabelecimentos da região que realizem atividades de


cabeleireiro, barbearia, depilação (sem o uso de eletrólise, luz pulsada, laser e similares),
manicure e pedicure, estética facial e corporal, banho de ofurô e massagem. Em caso
de infração à norma, as punições variam entre advertência, multa, cassação da licença
sanitária, apreensão de produtos e interdição do salão ou clínica.

100 LABOR
ARTIGO

Incoerências do modelo
sindical brasileiro
Francisco Gérson Marques de Lima*

Qual o modelo sindical brasileiro? Temos algum mal situadas no organograma, já é sintoma retirando-se do cenário, onde antes funcionava
modelo? Pode-se falar em sistema sindical no de que o modelo não é puro. O tipo de como importante interlocutor. Confundiu
Brasil? Existem vários [supostos] “modelos” organização foi por categoria, ficando vedados proibição de interferência e de intervenção
entrelaçados, decorrentes da Constituição, da os sindicatos por empresas, por setores, por com o afastamento da interlocução. Com
práxis das entidades e do entendimento do profissão ou outra forma. Por fim, o Brasil resiste a liberalidade do MTE, prevaleceu a práxis
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). em ratificar a Convenção 87-OIT, a principal sindical, não sendo fiscalizado, no âmbito
sobre matéria sindical. A opção do constituinte administrativo, o cumprimento da Constituição
O erro inicial firmou-se na Constituição Federal foi de uma liberdade contida, meio-termo nem os princípios da OIT.
de 1988, ao acolher alguns primados de entre a consagrada na Convenção 87-OIT e as
liberdade sindical, expressos na Convenção 87 limitações existentes no Brasil de antes de 1988.
da Organização Internacional do Trabalho (OIT),
mas, ao mesmo tempo, optou pela unicidade Judiciário e Ministério Público
sindical e pela contribuição compulsória, o
velho imposto sindical. Práxis sindical Procurando não intervir nem interferir na
organização sindical, o MPT evitou agir
Vejamos estes supostos modelos sindicais: Com a abertura política, as entidades sindicais de ofício nas questões sindicais. Mas, uma
do final dos anos 1980 e início da nova ordem vez provocado, não podia (nem pode)
constitucional apregoaram o primado da deixar de cumprir o dever constitucional
liberdade ao extremo. Os estatutos sindicais de verificar o cumprimento da CF/88.
OIT passaram a tratar de tudo, não raramente As provocações ao MPT provieram dos
perdendo o senso do razoável, estabelecendo próprios trabalhadores, sindicalizados ou
O modelo é o da liberdade sindical. Sendo
diretorias imensas, com mandatos fora do não, solicitando providências contra as más
ampla, a liberdade sindical significa
aceitável; construindo processos eleitorais diretorias e para espancar as práticas ilegais.
independência das entidades frente ao Estado,
convenientes à perpetuação de diretores; A cada investida do MPT, muito dessas
podendo se constituírem e se organizarem
normalizando muitos vícios; e criando fontes denúncias se confirmavam, o que resultava
livremente, regulando-se por seus estatutos.
anômalas de custeio, apesar do comodismo em termo de ajustamento de conduta (TAC)
Os trabalhadores e empregadores podem
provocado pela contribuição obrigatória. ou ajuizamento de ações judiciais.
dispor de mais de uma entidade e, portanto,
Muitas entidades nasceram, outras se dividiram.
podem escolher aquela que mais lhe convier
(pluralismo), conquanto a OIT estimule a A unicidade foi rapidamente contornada
pela pulverização sindical, uma maneira de
Conclusão
organização pelas entidades representativas
e acate a unidade, como opção manifestada implantar uma pluralidade distorcida a partir da
pelo próprio sindicalismo, e não por imposição organização setorial, profissional e por carreira, O modelo sindical no Brasil não é puro, não
do Estado. As fontes de custeio provêm da desconsiderando o modelo por categoria; e há sistema. Cabe, portanto, reorganizar o
própria categoria, voluntariamente, ficando a liberdade virou sinônimo de soberania, ao sindicalismo, para que se tenha um modelo
asseguradas a filiação e a desfiliação. As pretender espancar qualquer fiscalização pelo real, e não fictício. A balbúrdia existente
diretorias são eleitas pelos filiados, observando- Estado, inclusive Ministério Público e Judiciário. causa fragilidade sindical e facilita o ingresso
se a democracia. São proibidas as ingerências
patronais nas entidades profissionais e de aproveitadores nas diretorias sindicais. O
vice-versa, preservando-se as garantias ideal é que o próprio sindicalismo promova a
regularização e a coerência, o que proporcionará
dos dirigentes sindicais. A greve constitui
direito fundamental dos trabalhadores, e as A contribuição do MTE melhores condições de defesa da categoria. É
negociações coletivas são essenciais na relação preciso esta consciência: o sindicalismo precisa
Entrando em vigor a CF/88, o MTE claudicava promover a limpeza da casa e fechar as portas
entre o trabalho e o capital, como instrumentos no seu papel na nova ordem constitucional e a
de diálogo e de conquistas sociais. para os invasores viciados.
questão do registro sindical parecia não estar
muito clara. Esta atribuição foi submetida ao Espera-se que o movimento sindical e as
Supremo Tribunal Federal (STF), que acabou
CF/88, de liberdade parcial
instituições públicas brasileiras possam
pacificando da seguinte maneira: “Até que chegar em consenso sobre o modelo de
lei venha a dispor a respeito, incumbe ao sindicalismo e, juntos, defendam os princípios
A CF/88 se inspirou no modelo da OIT, inserindo Ministério do Trabalho proceder ao registro reais e verdadeiros do sindicalismo brasileiro,
os princípios de liberdade sindical. Todavia, das entidades sindicais e zelar pela observância com liberdade, independência, democracia,
manteve a contribuição sindical compulsória do princípio da unicidade.” Encarregado que transparência e representatividade. X
e a organização em sindicato único (unicidade ficou de, apenas, averiguar o atendimento
sindical). A própria estruturação das entidades, de condições formais para a concessão do *Doutor em Direito, professor da Universidade
o chamado sistema confederativo (sindicatos, registro sindical, o MTE acabou deixando Federal do Ceará (UFC), Procurador regional do
federações e confederações), com as centrais de acompanhar a organização sindical, Trabalho no Ceará

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