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Geografia

Espaço, Tecnologia e Globalização

Celso Donizete Locatel


Francisco Fransualdo de Azevedo
Espaço, Tecnologia e Globalização
Celso Donizete Locatel
Francisco Fransualdo de Azevedo

Geografia

Espaço, Tecnologia e Globalização


2ª Edição

Natal – RN, 2011


Governo Federal
Presidenta da República
Dilma Vana Rousseff

Vice-Presidente da República
Michel Miguel Elias Temer Lulia

Ministro da Educação
Fernando Haddad

Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN


Reitora
Ângela Maria Paiva Cruz

Vice-Reitora
Maria de Fátima Freire Melo Ximenes

Secretaria de Educação a Distância (SEDIS)


Secretária de Educação a Distância Secretária Adjunta de Educação a Distância
Maria Carmem Freire Diógenes Rêgo Eugênia Maria Dantas

FICHA TÉCNICA

COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS DIDÁTICOS EDITORAÇÃO DE MATERIAIS


Marcos Aurélio Felipe Criação e edição de imagens
Adauto Harley
Andrew Anderson Chagas Câmara
GESTÃO DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS Anderson Gomes do Nascimento
Luciana Melo de Lacerda Carolina Costa de Oliveira
Rosilene Alves de Paiva Dickson de Oliveira Tavares
Leonardo dos Santos Feitoza
Roberto Luiz Batista de Lima
PROJETO GRÁFICO
Rommel Figueiredo
Ivana Lima

Diagramação
REVISÃO DE MATERIAIS Ana Paula Resende
Revisão de Estrutura e Linguagem Carolina Aires Mayer
Eugenio Tavares Borges Davi Jose di Giacomo Koshiyama
Janio Gustavo Barbosa Elizabeth da Silva Ferreira
Jeremias Alves de Araújo Ivana Lima
José Correia Torres Neto José Antonio Bezerra Junior
Kaline Sampaio de Araújo Rafael Marques Garcia
Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade
Thalyta Mabel Nobre Barbosa Módulo matemático
Joacy Guilherme de A. F. Filho
Revisão de Língua Portuguesa
Camila Maria Gomes
IMAGENS UTILIZADAS
Cristinara Ferreira dos Santos
Acervo da UFRN
Emanuelle Pereira de Lima Diniz
www.depositphotos.com
Janaina Tomaz Capistrano
www.morguefile.com
Priscila Xavier de Macedo
www.sxc.hu
Rhena Raize Peixoto de Lima
Encyclopædia Britannica, Inc.

Revisão das Normas da ABNT


Verônica Pinheiro da Silva

Catalogação da publicação na fonte. Bibliotecária Verônica Pinheiro da Silva.

Locatel, Celso Donizete.


Espaço, tecnologia e globalização / Celso Donizete Locatel e Francisco Fransualdo de Azevedo. – 2.
ed. – Natal: EDUFRN, 2011.
252 p.: il.

ISBN 978-85-7273-828-6

Conteúdo: Aula 1 – Conceituando espaço, técnica e globalização. Aula 2 – O papel da tecnologia


na (re)produção do espaço. Aula 3 – Ciência, tecnologia e agricultura. Aula 4 – Globalização e blocos
econômicos. Aula 5 – A (re)organização regional do espaço geográfico brasileiro no período técnico-
científico-informacional. Aula 6 – A informação e a comunicação no espaço globalizado. Aula 7 – NTIC
e as empresas em redes. Aula 8 – Globalização, tecnologia e inserção econômica e social. Aula 9 –
Tecnologia, reestruturação produtiva e espaço local. Aula 10 – Globalização e meio técnico-científico-
informacional no Brasil. Aula 11 – Mercado de trabalho e meio técnico-informacional. Aula 12 – Espaço,
tecnologia e os circuitos da economia urbana.

Disciplina ofertada ao curso de Geografia a distância da UFRN

1. Globalização. 2. Tecnologia – informação. 3. Espaço. I. Azevedo, Francisco Fransualdo de. II.


Título.

CDU 005.44
L811e

© Copyright 2005. Todos os direitos reservados a Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – EDUFRN.
Nenhuma parte deste material pode ser utilizada ou reproduzida sem a autorização expressa do Ministério da Educacão – MEC
Sumário

Apresentação Institucional 5

Aula 1 Conceituando espaço, técnica e globalização 7

Aula 2 O papel da tecnologia na (re)produção do espaço 25

Aula 3 Ciência, tecnologia e agricultura 43

Aula 4 Globalização e blocos econômicos 67

Aula 5 A (re)organização regional do Brasil 85

Aula 6 A informação e a comunicação no espaço globalizado 103

Aula 7 NTIC e as empresas em redes 121

Aula 8 Globalização, tecnologia e inserção econômica e social 141

Aula 9 Tecnologia, reestruturação produtiva e espaço local 161

Aula 10 Globalização e meio técnico-científico-informacional no Brasil 183

Aula 11 Mercado de trabalho e meio técnico-informacional 207

Aula 12 Espaço, tecnologia e os circuitos da economia urbana 229


Apresentação Institucional

A
Secretaria de Educação a Distância – SEDIS da Universidade Federal do Rio Grande
do Norte – UFRN, desde 2005, vem atuando como fomentadora, no âmbito local, das
Políticas Nacionais de Educação a Distância em parceira com a Secretaria de Educação
a Distância – SEED, o Ministério da Educação – MEC e a Universidade Aberta do Brasil –
UAB/CAPES. Duas linhas de atuação têm caracterizado o esforço em EaD desta instituição: a
primeira está voltada para a Formação Continuada de Professores do Ensino Básico, sendo
implementados cursos de licenciatura e pós-graduação lato e stricto sensu; a segunda volta-se
para a Formação de Gestores Públicos, através da oferta de bacharelados e especializações
em Administração Pública e Administração Pública Municipal.
Para dar suporte à oferta dos cursos de EaD, a Sedis tem disponibilizado um conjunto de
meios didáticos e pedagógicos, dentre os quais se destacam os materiais impressos que são
elaborados por disciplinas, utilizando linguagem e projeto gráfico para atender às necessidades
de um aluno que aprende a distância. O conteúdo é elaborado por profissionais qualificados e
que têm experiência relevante na área, com o apoio de uma equipe multidisciplinar. O material
impresso é a referência primária para o aluno, sendo indicadas outras mídias, como videoaulas,
livros, textos, filmes, videoconferências, materiais digitais e interativos e webconferências, que
possibilitam ampliar os conteúdos e a interação entre os sujeitos do processo de aprendizagem.
Assim, a UFRN através da SEDIS se integra o grupo de instituições que assumiram o
desafio de contribuir com a formação desse “capital” humano e incorporou a EaD como moda-
lidade capaz de superar as barreiras espaciais e políticas que tornaram cada vez mais seleto o
acesso à graduação e à pós-graduação no Brasil. No Rio Grande do Norte, a UFRN está presente
em polos presenciais de apoio localizados nas mais diferentes regiões, ofertando cursos de
graduação, aperfeiçoamento, especialização e mestrado, interiorizando e tornando o Ensino
Superior uma realidade que contribui para diminuir as diferenças regionais e o conhecimento
uma possibilidade concreta para o desenvolvimento local.
Nesse sentido, este material que você recebe é resultado de um investimento intelectual
e econômico assumido por diversas instituições que se comprometeram com a Educação e
com a reversão da seletividade do espaço quanto ao acesso e ao consumo do saber E REFLE-
TE O COMPROMISSO DA SEDIS/UFRN COM A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA como modalidade
estratégica para a melhoria dos indicadores educacionais no RN e no Brasil.

SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA


SEDIS/UFRN

5
Conceituando espaço,
técnica e globalização

Aula

1
Apresentação

N
esta primeira aula, estudaremos as bases conceituais sobre espaço, técnica, tecnologia
e globalização. Nesse sentido, discutiremos diferentes concepções sobre o espaço,
especialmente aquela concebida por Milton Santos, além de analisar os elementos do
espaço e as categorias analíticas que ajudam a entendê-lo. Ademais, analisaremos a técnica,
buscando entender o seu domínio pelo homem, em diferentes contextos históricos, sociais,
políticos e culturais, de modo que se compreenda também o processo de produção espacial.
Por fim, abordaremos a globalização e sua relação com a técnica e a produção do espaço
inerente a essa fase do capitalismo. Nesse contexto, discutiremos a configuração do meio
técnico-científico-informacional, intrínseco a esse processo de globalização.

Objetivos
Conhecer os conceitos pertinentes ao tema, tais como:
1 espaço, meio técnico e globalização.

Discutir as bases teóricas da produção do espaço no con-


2 texto da globalização e a relação com a técnica.

Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização 9


Considerações preliminares

Q
ualquer tentativa de definição conceitual sempre se constitui numa tarefa difícil e es-
corregadia, pois envolve abstrações e muitas vezes diversas acepções. Abstrações no
sentido de se tentar explicar uma dada realidade. Por isso mesmo, há diversas formas
de interpretar e explicar a realidade, dependendo, fundamentalmente, do ângulo pelo qual se
observa ao se tentar conceituar, da ciência ou área do conhecimento que se está estudando,
de suas diferentes correntes de pensamento, além do tempo a que se refere.
É sabido que o objeto de estudo da Geografia é o espaço geográfico. Logo, para entender
o espaço, o estudioso dessa ciência necessita fazer algumas abstrações teórico-conceituais, as
quais ora relaciona-se com o pensamento de determinados autores, ora como resultado das
discussões e teorias propostas por esses, nas diferentes escolas do pensamento geográfico.
Vale frisar que cada escola apresenta uma concepção diferente sobre o espaço, uma não menos
importante que a outra, mesmo que em alguns momentos ocorram abstrações divergentes e/
ou parecidas e convergentes.

O conceito de espaço
Na obra A Natureza do espaço, Milton Santos (2008a, p. 22) apresenta de forma bastante
clara uma definição coerente acerca do objeto de estudo da Geografia, entendendo-o como “um
conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações”. O autor aponta também para
a necessidade de se buscar entender a técnica no sentido de se compreender o espaço, pois “as
técnicas são um conjunto de meios instrumentais e sociais, com os quais o homem realiza sua
vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço”. Assim, a técnica se constitui na principal forma
de interação entre o homem e o meio, sendo que nem sempre é estudada como deveria.
Nesse sentido, ao definir o espaço como um conjunto indissociável de sistemas de ob-
jetos e ações, o autor mostra que há categorias analíticas internas que merecem sempre ser
rediscutidas, a exemplo da paisagem, do lugar, do espaço produzido ou produtivo, da divisão
territorial do trabalho, das rugosidades e das formas-conteúdo, redes etc.
Já a técnica abrange categorias internas e externas que permitem assimilação empírica
sobre a coerência interna e externa. Essa necessita “ser vista sob um tríplice aspecto: como
reveladora da produção histórica da realidade; como inspiradora de um método unitário (afas-
tando dualismos e ambigüidades) e, finalmente, como garantia da conquista do futuro” numa
perspectiva de todo (SANTOS, 2008a, p. 23).
Na obra Espaço e Método, Milton Santos (1992, p. 1) considera o espaço

[...] uma instância da sociedade, ao mesmo título que a instância econômica e a instância
cultural-ideológica. Isso significa que, como instância, ele contém e é contido pelas demais
instâncias, assim como cada uma delas o contém e é por ele contida. A economia está no
espaço, assim como o espaço está na economia. O mesmo se dá com o político-institucional
e com o cultural-ideológico. Isso quer dizer que a essência do espaço é social.

Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização 11


Nesse contexto, o espaço geográfico se constitui numa instância social complexa que
envolve ações e objetos que a natureza normalmente nos oferece, processos sociais do tipo
econômico, institucional, cultural e ideológico, formas-conteúdo, momentos diversos, modos
de produção, configurações territoriais diversas, as quais têm a ver com o movimento do
mundo em sua totalidade.
Para o autor, “o espaço deve ser considerado como uma totalidade, a exemplo da própria
sociedade que lhe dá vida”, necessitando ser divido em partes, através da análise, estabele-
cendo-se critérios que possam levar ao entendimento sobre os diversos elementos do espaço
(SANTOS, 1985, p. 5).
Ao estudar o objeto e o objetivo da Geografia, Ruy Moreira (2007, p. 63) afirma que “o
espaço é o objeto da geografia. O conhecimento da natureza e das leis do movimento da for-
mação econômico-social por intermédio do espaço é o seu objetivo”. O autor entende que o
espaço é a categoria de análise que permite aos geógrafos o diálogo com os demais cientistas,
no sentido de tentar compreender o movimento da totalidade da formação econômico-social,
cada um no seu quadro de referência analítica. Diante do exposto, compreende-se que:

[...] o espaço não é suporte, substrato ou receptáculo das ações humanas. E não se
confunde com a base física. O espaço geográfico é um espaço produzido. Nele a natureza
não é mera base ou parte integrante. É uma condição concreta de sua produção social.
E isso porque a natureza é uma condição concreta da existência social dos homens.
Conquanto a ‘primeira natureza’ não seja o espaço geográfico, não há espaço geográfico
sem ela (MOREIRA, 2007, p. 64-65).

Trata-se, portanto, de mais um substrato analítico para se entender o espaço geográfico,


ambas concepções convergindo no sentido de explicar o espaço como categoria de caráter
social. Para Ruy Moreira, (2007, p. 65) “o caráter social do espaço geográfico decorre do fato
simples de que os homens têm fome, sede e frio, necessidades de ordem física decorrentes de
pertencer ao reino animal, ponte de sua dimensão cósmica”, com uma diferença, os homens
transformam, através do trabalho social, o meio natural em benefício da sua sobrevivência,
constituindo interações simultâneas e articuladas.

Elementos do espaço
Para explicar os elementos do espaço, Milton Santos faz referência a alguns autores, entre
eles Bertrand Russell, o qual entende que esses, os elementos do espaço, são a “base de toda
dedução”, ou melhor, “os princípios óbvios, luminosamente óbvios, admitidos por todos os
homens”. Nesse sentido, os elementos do espaço correspondem aos “homens, as firmas, as
instituições, o chamado meio ecológico e as infra-estruturas” (SANTOS, 1992, p. 6).
Logo, esses elementos que constituem o espaço apresentam funções e, por conseguinte,
interações, uma vez que “na medida em que função é ação, a interação supõe interdependência
funcional entre os elementos”. Diante dessa concepção, entende-se que:

[...] a demanda de cada indivíduo como membro da sociedade total é respondida em parte
pelas firmas e em parte pelas instituições. As firmas têm como função essencial a produ-
ção de bens, serviços e idéias. As instituições por seu turno produzem normas, ordens e

12 Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização


legitimações. O meio ecológico é o conjunto de complexos territoriais que constituem a
base física do trabalho humano. As infra-estruturas são o trabalho humano materializado
e geografizado na forma de casas, plantações, caminhos, etc. (SANTOS, 1992, p. 6).

Dessa forma, os elementos que formam o espaço precisam ser estudados e entendidos a
partir de suas funções e, em especial, conjuntamente, mesmo sabendo-se que ao serem estuda-
dos, esses se apresentam na forma de conceitos, os quais traduzem significados de abstrações
realizadas através da observação de fatos particulares, sem perder de vista a perspectiva do todo.
Vale ressaltar a importância do movimento do todo, pois ao estudar “diversas relações
bilaterais, como, por exemplo, entre homens e natureza, ou entre firmas e homens (capital e
trabalho), ou entre firmas e Estado (poder econômico e poder político) ou entre Estado e os
cidadãos, estaremos fazendo uma análise multivariável” e creditando valor em cada variável em
si mesma. No entanto, isso não ocorre de fato, haja vista que “somente através do movimento
do conjunto, isto é, do todo, ou do contexto, é que podemos corretamente valorizar cada parte
e analisá-la, para, em seguida, reconhecer concretamente esse todo” (SANTOS, 1992, p. 11).

Sobre a estrutura, o processo,


a função e a forma para entender o espaço
Diante da perspectiva teórica que vem sendo trabalhada, observa-se que o espaço é
definido como um sistema complexo de coisas, que inclui sistemas de estruturas, processos,
formas e funções, evocando sempre a totalidade do movimento do mundo, portanto, num
contexto de relações espaço-temporal.
Baseado em François Perroux, Milton Santos define estrutura como sendo uma “rede
de relações, uma série de proposições entre fluxos e estoques de unidades elementares e de
combinações objetivamente significativas dessas unidades. Isso põe em evidência a noção
de desigualdade de volumes ou de desigualdade de força funcional de cada elemento”. Logo,
as desigualdades criadas no interior da estrutura pressupõem dialeticamente um princípio de
mudança, obviamente se levado em conta os diferentes eventos e modificações no contexto
dos modos de produção.
Para melhor entender as estruturas do espaço, é importante considerar que elas

[...] são formadas de elementos homólogos e de elementos não homólogos. Entre as


primeiras estão as estruturas demográficas, econômicas, financeiras, isto é, estruturas
da mesma classe e que, de um ponto de vista analítico, podem-se considerar como
estruturas simples. As estruturas não homólogas, isto é, formada de diferentes classes,
interagem para formar estruturas complexas. A estrutura espacial é algo assim: uma
combinação localizada de uma estrutura demográfica específica, de uma estrutura de
produção específica; de uma estrutura de renda específica, de uma estrutura de consumo
específica, de uma estrutura de classes específica e de um arranjo específico de técnicas
produtivas e organizativas utilizadas por aquelas estruturas e que definem as relações
entre os recursos presentes (SANTOS, 1992, p. 16-17).

Considerando a importância do todo, isto é, da totalidade social, o espaço resulta da


interação entre todas as estruturas formadas tanto por elementos homólogos, quanto hete-
rogêneos. Portanto, a estrutura como categoria para entender o espaço compreende todas as

Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização 13


estruturas da sociedade, isto é, a estrutura econômica, a estrutura política e a estrutura cultural-
ideológica, sem que essa sequência implique uma classificação de níveis de importância, haja
vista o princípio da totalidade que sugere também o entendimento do processo, função e forma.
Para Milton Santos (1992, p. 50), a

forma é o aspecto visível de uma coisa. Refere-se, ademais, ao arranjo ordenado de


objetos, a um padrão. Tomada isoladamente, temos uma mera descrição de fenômenos
ou de um de seus aspectos num dado instante do tempo.

Daí a importância de se pensar a forma buscando entendê-la no conjunto das demais


noções que ajudam a entender o espaço, isto é, a estrutura, a função e o processo. A forma,
governada pelo presente, mas abrangendo também o passado, pode ser entendida como uma
estrutura técnica ou até mesmo um objeto com determinada finalidade-função. Logo, a função
é inerente a forma, pois é ela mesma a “atividade elementar de que a forma se reveste”.
Vimos que a estrutura compreende a inter-relação das partes que constitui o todo, já a
forma é o aspecto visível da estrutura em seus diferentes contextos com determinadas finali-
dades-funções. O processo, por sua vez, compreende “uma ação contínua, desenvolvendo-se
em direção a um resultado qualquer, implicando conceitos de tempo (continuidade) e mudança”
(SANTOS, 1992, p. 50). Resumidamente,

[...] pode-se expressar a forma como uma estrutura revelada. Sendo mais visível, ela é,
aparentemente e até certo ponto, mais fácil de analisar que a estrutura. As formas ou
artefatos de uma paisagem são o resultado de processos passados ocorridos na estrutura
subjacente, Todavia, divorciada da estrutura, a forma conduzirá a uma falsa análise: com
efeito, formas semelhantes resultaram de situações passadas e presentes extremamente
diversas. A refletir os diferentes tipos de estruturas, aí estão as diferentes formas revela-
das – naturais e artificiais. Ambas estão sujeitas a evolução e, por esse meio, as formas
naturais podem tornar-se sociais (SANTOS, 1992, p. 51).

Diante do exposto, percebe-se que o entendimento acerca do espaço requer a compre-


ensão de diversas noções e categorias analíticas, como as elucidadas anteriormente, que
segundo o autor são categorias primárias na compreensão da atual organização espacial numa
perspectiva de enfoque holístico.
Ademais, o estudo da técnica se reveste de fundamental importância quando se busca
explicar e entender o espaço na contemporaneidade, isto é, no atual estado de coisas e na to-
talidade do movimento do mundo. Daí a necessidade de se conceituar a técnica e a tecnologia.

1 Discuta as principais definições conceituais sobre o espaço abordadas no texto.

2 Identifique e explique os principais elementos do espaço discutidos por Milton Santos.

3 Explique a relação entre espaço e as categorias estrutura, processo, função e forma.

14 Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização


Técnica e tecnologia:
uma diferenciação necessária
Para a análise espacial, por que é mais importante tratar da história da técnica e não da
tecnologia? Essa discussão conceitual se faz necessária, pois a técnica é o procedimento ou o
conjunto de procedimentos que têm como objetivo obter um determinado resultado, que pode
ser no campo da ciência, da tecnologia, das artes, da política etc. Santos (2008a) lembra que
para Sorre (1948, p. 5) a noção de técnica “estende-se a tudo o que pertence à indústria e à
arte, em todos os domínios da atividade humana”, entendendo assim a técnica como sistema.
Ainda, se voltarmos a atenção para a etmologia da palavra, técnica que tem origem
grega (τ χνη) significa arte, ou seja, meio de fazer. Observando o dicionário Michaelis, da
língua portuguesa, técnica significa também conhecimento prático; conjunto de método e
pormenores práticos essenciais à execução perfeita de uma arte ou profissão. A técnica
surge da relação humana com o meio e se caracteriza por ser consciente, reflexiva, inventiva
e fundamentalmente individual.
Tecnologia, por sua vez, diz respeito à sistematização científica dos conhecimentos rela-
cionados à técnica, ou seja, a tecnologia não se confunde com a técnica, pois a primeira seria
uma meta-técnica por possuir a técnica como objeto de seus estudos e aplicação (GAMA, 1989,
p. 132). A palavra tecnologia também tem origem grega (do grego τεχνη – “ofício” e λογια
– “estudo”) e é um termo que envolve o conhecimento técnico e científico e as ferramentas,
processos e materiais criados e/ou utilizados a partir de tal conhecimento. Dizendo de outra
maneira, tecnologia pode ser entendida como a aplicação dos conhecimentos científicos à
produção em geral ou para se obter um resultado prático.
Cabe frisar que, para Diogo (2009), os padrões culturais contemporâneos incorporam
os valores da tecnologia como parte da definição de humanidade. Essa noção de um quadro
tecnológico presente e atuante no interior de um complexo civilizacional desenvolve-se a partir
do processo de industrialização do século XVIII, identificando, num primeiro momento, as
relações entre o crescimento econômico e o potencial técnico e penetrando, posteriormente,
a própria estrutura mental e conceitual da sociedade.
A base técnica da sociedade atual, constituída pela ciência, a tecnologia e a informa-
ção, vem sendo incorporada com intensidade crescente e é posta a serviço da valorização do
capital. Para Linhares (2006), “a tecnologia e sua evolução desvelam um importante elemento
explicativo da história das sociedades, principalmente no que tange à sua reprodução material”.
Nesse sentido, Linhares (2006, p. 16) afirma que

[...] os processos de modernização e os progressos tecnológicos levados a efeito pela


industrialização e pela revolução informacional conferem aos agentes produtores do
espaço uma maior fluidez, propiciando maior integração dos mercados e flexibilização
dos espaços econômicos. Erige-se assim o meio técnico-científico, entendido enquanto o
resultado geográfico da tecnologia, de seu espraiamento e do aprofundamento do modo
de produção capitalista. Dessa forma, no capitalismo, o espaço adquire a materialidade
que esse modo de produção lhe imprime por meio de sua base técnica.

Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização 15


Assim, a tecnologia está presente e submete o campo e a cidade aos ditames de um
modo de produção, assentando-se na técnica, exigindo o progresso técnico cumulativo para
continuar existindo. Diante disso, a realidade espacial também é fortemente condicionada e
definida pela base técnica. O território cada vez mais se configura conforme as engenharias
técnicas que lhe são superpostas (LINHARES, 2006).
Na concepção de Milton Santos (2008b), ocorre assim a substituição do meio natural
por um meio cada vez mais artificializado, processo que se dará de maneira particular em cada
fração da superfície da Terra. A partir dessa concepção o autor admite que a história do meio
geográfico pode ser dividida em três etapas: o meio natural, o meio técnico, o meio-técnico-
científico-informacional. Assim, compreende-se o meio-técnico-científico-informacional como
meio geográfico no período atual, “onde os objetos mais proeminentes são elaborados a partir
dos mandamentos da ciência e se servem de uma técnica informacional da qual lhes vem o
alto coeficiente de intencionalidade com que servem às diversas modalidades e às diversas
etapas da produção” (SANTOS, 2008a, p. 235).
Para Castells (1999), a sociedade informacional enfatiza uma forma específica de orga-
nização social em que a geração, o processamento e a transmissão da informação tornam-se
as fontes fundamentais de produtividade e poder devido às novas condições tecnológicas
surgidas com a Revolução da Tecnologia da Informação.

Figura 1 – La Templanza. Ilustração de Pieter Bruegel, o Velho, de 1560

Fonte: <http://employees.oneonta.edu/farberas/arth/arth214/NewLearning.html>. Acesso em: 30 mar. 2010.

16 Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização


Importante

Essa gravura, de meados do século XVI, retrata uma série de técnicas dispo-
níveis na sociedade europeia, naquele momento. Ela é uma espécie de pour
pourri do que estimulava a atenção dos europeus ocidentais urbanos até 1560,
o que se poderia chamar de “sonho renascentista ocidental”. Para que isso se
concretizasse, houve um intercâmbio de informações entre artistas/desenhis-
tas, astrônomos, comerciantes, cartógrafos, fabricantes de instrumentos, etc.,
resultante do Renascimento. Todas essas técnicas aí representadas, como ca-
nhões, a ciência representada pelo livro, a matemática pela régua e o compas-
so, as artes com a música e o teatro, entre outros, corresponde a um sistema
técnico que deu suporte ao expansionismo e imperialismo europeu dos séculos
seguintes (CROSBY, 1998).

Assim, compreender o domínio da técnica pelo homem em diferentes contextos históri-


cos, sociais, políticos e culturais é fundamental para se compreender o processo de produção
do espaço e de configuração territorial.
Nesse sentido, Santos (2008a, p. 171) afirma que

As características da sociedade e do espaço geográfico, em um dado momento de sua


evolução, estão em relação com um determinado estado das técnicas. Desse modo, o
conhecimento dos sistemas técnicos sucessivos é essencial para o entendimento das
diversas formas históricas de estruturação, funcionamento e articulação dos territórios,
desde os albores da história até a época atual. Cada período é portador de um sentido,
partilhado pelo espaço e pela sociedade, representativo da forma como a história realiza
as promessas da técnica.

Esse raciocínio permite fazer referência a várias técnicas, como as agrícolas, industriais,
comerciais, culturais, políticas, da difusão da informação, dos transportes, das comunicações,
da distribuição, entre outras, que são um dos dados que pode servir para explicar o espaço.
Porém, Santos (2008b, p. 57) argumenta que

Tais técnicas não tem a mesma idade e, desse modo, pode-se falar do anacronismo de
algumas e do modernismo de outras [...]. Essas técnicas se efetivam em relações con-
cretas, relações materiais ou não, que presidem a elas, o que nos conduz sem dificuldade
à noção de modo de produção e de relações de produção.

Linhares (2006) ressalta que os sistemas técnicos recentes assumam um caráter mundia-
lizado, ainda que nos países periféricos tais sistemas apresentem uma distribuição geográfica
irregular e, em muitos casos, incompleta, além de um uso social excludente. Contudo, de
acordo com Santos (2008b), trata-se de um sistema técnico único (atrelado a um modo de
produção mundial ou globalizado), hegemônico que é apropriado, monopolizado e utilizado
pelos agentes hegemônicos da constituição social e, portanto, da produção do espaço. Nesse
sentido, para Santos (2008a), as técnicas funcionam como sistemas que marcam as diversas

Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização 17


épocas, são examinadas através de sua própria história e vistas não apenas no seu aspecto
material, mas também nos seus aspectos imateriais. É assim que a noção de técnica permite
empiricizar o tempo e se encontra com a noção de espaço. A unicidade das técnicas levou à
unificação do espaço em termos globais.

Figura 2 – História da tecnologia

Fonte: <http://gizmodo.com/253268/a-moment-of-reflection>. Acesso em: 30 mar. 2010.

Diferencie técnica de tecnologia e explique a importância das mesmas para a com-


1 preensão do espaço.

Faça uma pesquisa, em seu município, sobre a história da técnica e ressalte os


2 reflexos da evolução técnica na configuração socioespacial.

18 Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização


As diversas
concepções sobre globalização
Assim como os conceitos de espaço e técnica, o entendimento sobre a globalização
pressupõe abstrações complexas e diversas da realidade, que normalmente resultam em acep-
ções, ora referendadas ou contrapostas pelas correntes de pensamento das ciências sociais. É
importante considerar que não se pode confundir globalização com mundialização ou interna-
cionalização, haja vista as diferenças conceituais e teóricas que definem esses termos, muito
embora não difiram totalmente entre si.
Nota-se certo consenso entre um grupo de estudiosos que discutem a globalização e
a consideram

um novo ciclo de expansão do capitalismo, como modo de produção e processo civili-


zatório de alcance mundial. Um processo de amplas proporções envolvendo nações e
nacionalidades, regimes políticos e projetos nacionais, grupos e classes sociais, econo-
mias e sociedades, culturas e civilizações (IANNI, 1996, p. 11).

Mesmo assim, nota-se a utilização de várias metáforas ao se tentar explicar o termo.


Ao definir a globalização, Ulrich Beck afirma que se trata de um período histórico que
surge mediante uma nova variedade de conexões e relações entre estados e sociedades. Trata-
se, sobretudo, de um

[...] conjunto das suposições fundamentais sob o qual todas as sociedades até hoje
organizaram, viveram e apoiaram sua condição de unidades territoriais mutuamente
separadas. Globalidade significa o desmanche da unidade do Estado e da sociedade na-
cional, novas relações de poder e de concorrência, novos conflitos e incompatibilidades
entre atores e unidades do Estado nacional por um lado e, pelo outro, atores, identidades,
espaços sociais e processos sociais transnacionais (BECK, 1999, p. 49).

Na Geografia, Milton Santos explica a globalização a partir do espaço geográfico, que


ele chama “espaço da globalização”. O autor analisa também o período marcado pelo avanço
do meio técnico-científico-informacional, no sentido de tentar entender a globalização e o
espaço. Para tal, discute e problematiza a velocidade das mudanças em curso, especialmente
no âmbito da produção, circulação e consumo, como também na ordem financeira, política e
cultural. Para o autor,

[...] a globalização constitui o estádio supremo da internacionalização, a amplificação


em “sistema-mundo” de todos os lugares e de todos os indivíduos, embora em graus
diversos. Nesse sentido, com a unificação do planeta, a terra torna-se um só e único
“mundo”, e assiste-se a uma refundição da “totalidade-terra”. Trata-se de nova fase da
história humana. Cada época se caracteriza pelo aparecimento de um conjunto de novas
possibilidades concretas, que modificam equilíbrios preexistentes e procuram impor sua
lei. Esse conjunto é sistêmico: podemos, pois, admitir que a globalização constitui um
paradigma para a compreensão dos diferentes aspectos da realidade contemporânea. [...]
como qualquer totalidade, a globalização só se exprime por meio de suas transformações.
Uma delas é o espaço geográfico (SANTOS, 2005, p. 145).

Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização 19


Assim, a globalização se constitui numa das fases da história da reprodução capitalista,
marcada por mudanças velozes em diversas ordens, sobretudo econômica, política, ambiental
e sociocultural. Os espaços globais, em suas características mais marcantes, podem explicar
melhor o processo de globalização. A configuração do meio técnico, científico e informacional
é uma evidência nítida desse processo de mudança.
Dentre outros fatores, os espaços globais são marcados por: transformação de territórios
nacionais em espaços nacionais da economia internacional; elevada especialização produtiva;
concentração de produção em unidades menores, com o concomitante aumento da produ-
tividade; aceleração de todas as formas de circulação e crescente regulação das atividades
localizadas, concomitante ao fortalecimento da divisão territorial e social do trabalho; recorte
horizontal e vertical dos territórios; e tensões crescentes entre o local e o global, na medida
em que a globalização avança (SANTOS, 2005).
O meio técnico-científico-informacional é outra marca característica do atual processo
de globalização. Nesse sentido,

o meio geográfico em via de constituição (ou de reconstituição) tem uma substância


científico-tecnológico-informacional. Não é nem meio natural, nem meio técnico. A ciên-
cia, a tecnologia e a informação estão na base mesmo de todas as formas de utilização e
funcionamento do espaço, da mesma forma que participam da criação de novos proces-
sos vitais e da produção de novas espécies (animais e vegetais). É a cientificização e a tec-
nicização da paisagem. É, também, a informatização, ou, antes, a informacionalização do
espaço. A informação tanto está presente nas coisas como é necessária à ação realizada
sobre essas coisas. Os espaços assim requalificados atendem sobretudo a interesses dos
atores hegemônicos da economia e da sociedade, e assim são incorporados plenamente
às correntes da globalização (SANTOS, 2005, p. 148).

Para o autor, o meio técnico-científico-informacional encontra-se em toda parte, muito em-


bora suas dimensões não sejam as mesmas entre os continentes, países e regiões. No contexto de
relações que marca esse meio, prevalecem, sobretudo, os interesses de atores hegemônicos, pois

é nesse meio que se vêm implantar, tanto no campo como na cidade, as produções
materiais ou imateriais características da época. Em uma frase, poderíamos dizer que as
ações hegemônicas se estabelecem e realizam-se por intermédio de objetos hegemônicos
(SANTOS, 2005, p. 148).

É devido a essa hegemonia dos atores globais, e da capacidade de exploração e domina-


ção que esses impõem, aumentando as desigualdades em todos os âmbitos, que a globalização,
caracterizada pelo avanço do meio técnico-científico-informacional, se apresenta como um
processo marcado pela perversidade.
Na sua análise sobre a globalização, Vergopoulos (2005, p. 43) assinala que a noção
de globalização

[...] aparece hoje como a inevitável referência mítica em toda reflexão econômica, política
e social contemporânea, como peça principal da nova ideologia dominante. A persistente
desaceleração da atividade econômica nas duas últimas décadas, a aplicação de políticas
restritivas e monetaristas, a extinção da coesão social com a instalação do desemprego em
massa, da pobreza e das exclusões em larga escala, mesmo nos países industrializados,
são apresentadas pela ideologia corrente como conseqüências diretas da globalização.

20 Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização


Para esse autor, a globalização não diz respeito a uma fase superior do capitalismo, nem a
um novo crescimento intensivo ou extensivo desse, tampouco a uma nova etapa qualitativa ou
quantitativa da acumulação capitalista. “Ao contrário, ela apenas maneja a recente degradação
das condições de funcionamento da economia mundial, a exacerbação das disparidades de
renda, a multiplicação das fraturas e exclusões em escala nacional e mundial” (VERGOPOULOS,
2005, p. 44).
É por isso que Milton Santos (2001), quase no fim da sua obra, num dos seus últimos
livros, “Por uma outra globalização”, interpreta “o mundo como fábula, como perversidade e
como possibilidade”, isto é, discute o mundo tal como nos fazem crer: a globalização como
fábula, o mundo tal como ele é de fato: a globalização como perversidade e o mundo como
possibilidade: uma outra globalização.

Com base nos autores trabalhados anteriormente, como definir conceitualmente a


1 globalização?

2 Explique como o seu lugar se insere no contexto do atual processo de globalização.

Leitura complementar

Recomendamos como leitura complementar, mas essencial, para aprofundar o conteúdo


discutido na aula:
SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: EDUSP, 2008.
Nesta obra, o autor apresenta uma ampla discussão, consistente e aprofundada sobre o
espaço, trazendo elementos que nos permite entender diferentes contextos e co-relações no
entendimento sobre esse objeto de estudo da ciência geográfica. Nesse sentido, o autor discute
também o papel da técnica no processo de produção espacial, bem como a definição de meio
técnico-científico-informacional que nos permite entender o atual processo de globalização.

Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização 21


Resumo

Nesta aula, contatamos que o espaço, assim como todos os conceitos,


apresenta mais de uma definição, no entanto, na Geografia este é entendido como
um indissociável sistema de objetos e ações numa perspectiva de totalidade-mundo,
ou seja, uma instância da sociedade, como afirmou Milton Santos. Buscamos
entender também a diferença entre técnica e tecnologia para entender a produção
do espaço. Logo, considerando que o espaço se constitui também em um sistema
de objetos, a técnica nos ajuda a compreendê-lo, uma vez que ela corresponde a
um procedimento ou a um conjunto de procedimentos que têm como objetivo obter
um determinado resultado, que pode ser no campo da ciência, da tecnologia, das
artes, da política etc. Ela ainda pode ser entendida como tudo aquilo que pertence à
indústria e à arte, em todos os domínios da atividade humana. Vale frisar ainda que
a noção de técnica permite empiricizar o tempo e aí ela se encontra com a noção
de espaço, logo, a unicidade das técnicas levou à unificação do espaço em termos
globais. Daí a importância de se discutir a globalização para se entender a produção
do espaço no contexto do capitalismo no tempo presente.

Autoavaliação
Apresente as principais definições conceituais sobre o espaço, relacionando aos
1 principais elementos e categorias que o constitui.

2 Estabeleça relações entre espaço, técnica e globalização.

Referências
BECK, Ulrich. O que é globalização? equívocos do globalismo: respostas à globalização.
Tradução de André Carone. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

CROSBY, Alfred W. La medida de la realidad: la cualificación y la sociedad occidental, 1250-


1600. Barcelona: Crítica, 1998.

22 Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização


DIOGO, Maria Paula. História da tecnologia. 2009. Disponível em: <http://www.ebah.com.br/
historia-da-tecnologia-pdf-a12201.html>. Acesso em: 12 mar. 2010.

GAMA, Ruy. História da técnica colonial no Brasil. Revista Brasileira de História da Ciência,
n. 3, p. 131-136, 1989.

IANNI, Octavio. Teorias da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995.

______. A era do globalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.

LINHARES, Lucas Roosevelt Ferreira. Tecnologia, espaço e economia em países subdesen-


volvidos: explorando relações a partir do estruturalismo latino-americano. In: ENCONTRO
NACIONAL DE ECONOMIA POLÍTICA, 11., 2006, Vitória. Anais... Vitória, ES, 2006.

MOREIRA, Ruy. Pensar e ser em Geografia. São Paulo: Contexto, 2007.

SANTOS, Milton. Espaço e método. São Paulo: Nobel, 1992.

______. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência. universal. Rio de
Janeiro: Record, 2001.

______. Da totalidade ao lugar. São Paulo: Edusp, 2005.

______. A natureza do espaço. São Paulo: EDUSP, 2008a.

______. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico-informacional. São


Paulo: EDUSP, 2008b.

SANTOS, Milton; SOUZA, Maria Adélia A. de; SILVEIRA, Maria Laura (Org.). Território: globa-
lização e fragmentação. São Paulo: Hucitec, 2006.

VERGOPOULOS, Kostas. Globalização: o fim de um ciclo: ensaio sobre a instabilidade inter-


nacional. Tradução Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005.

Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização 23


Anotações

24 Aula 1 Espaço, Tecnologia e Globalização


O papel da tecnologia
na (re)produção do espaço

Aula

2
Apresentação

N
a primeira aula, discutimos as bases conceituais sobre espaço, técnica, tecnologia e
globalização. Vimos a importância desses conceitos para a ciência geográfica, uma vez
que eles se constituem em noções explicativas sobre a realidade social e suas nuances.
Nesta aula, abordaremos especificamente o papel da tecnologia no processo de (re)produção
do espaço no contexto capitalista. Retomaremos a discussão sobre técnica e tecnologia para
entender o processo de produção e organização do espaço inerente ao atual processo de glo-
balização. Abordaremos o processo de produção do espaço urbano na contemporaneidade,
elucidando a diversidade, complexidade e contradições que permeiam a cidade do presente.

Objetivos
Compreender as abordagens teóricas referentes à técnica,
1 tecnologia e reprodução do espaço.

Analisar o papel da tecnologia no processo de (re)produ-


2 ção e organização do espaço.

Discutir a produção do espaço urbano e, por conseguinte,


3 a cidade contemporânea, em sua diversidade e complexi-
dade do período atual.

Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização 27


Breve explicação
sobre técnica e tecnologia

A
história do homem envolve também a própria história da técnica, uma vez que desde os
primórdios o homem busca cada vez mais aperfeiçoar seus instrumentos de trabalho,
condições e meios de sobrevivência. Para tal, normalmente recorre à técnica que pode
ser entendida como algo que pertence à indústria e/ou à arte, no contexto dos domínios da
atividade humana. Ela também pode ser compreendida como um conhecimento prático, o
saber fazer, que surge através da relação do homem com o meio, logo, é reflexiva, inventiva e
passível de aperfeiçoamento constante.
Já a tecnologia corresponde a um conjunto sistematizado de conhecimentos sobre a téc-
nica, normalmente alcançado através da ciência, mas aplicável de forma prática nos processos
produtivos que marcam a própria história da humanidade, em diferentes contextos temporais
e espaciais. Portanto, os avanços tecnológicos marcam a evolução dos diferentes modos de
produção e suas respectivas sociedades e culturas.
Para Milton Santos (2008b, p. 57), “técnicas agrícolas, industriais, comerciais, culturais,
políticas, da difusão da informação, dos transportes, das comunicações, da distribuição, etc.”
se constituem em dados explicativos sobre o espaço, mesmo que visíveis ou não na paisagem.
Assim, para entender a produção do espaço é preciso entender o papel das técnicas e, por
conseguinte, da tecnologia.
É importante frisar que as técnicas não têm a mesma idade, por isso fala-se de anacro-
nismo de algumas e modernismo de outras, além de situações intermediárias. As técnicas “se
efetivam em relações concretas, relações materiais ou não, que presidem a elas, o que nos
conduz sem dificuldade à noção de modo de produção e de relações de produção” (SANTOS,
2008b, p. 57). Cada modo de produção apresenta diferentes aparatos tecnológicos e, por isso,
diversos usos e apropriações da técnica.
Baseado em Lévy (1999, p. 23), é possível entender como as técnicas interferem no
processo de (re)produção do espaço, pois elas “carregam consigo projetos, esquemas ima-
ginários, implicações sociais e culturais bastante variados. Sua presença e uso em lugar e
época determinados cristalizam relações de força sempre diferentes entre seres humanos”.
Ao aprofundar as discussões sobre o papel da técnica num dado contexto social, Lévy
(1999, p. 26) enfatiza que:

uma técnica não é nem boa, nem má (isto depende dos contextos, dos usos e dos pontos
de vista), tampouco neutra (já que é condicionante ou restritiva, já que de um lado abre
e de outra fecha o espectro de possibilidades). Não se trata de avaliar seus ‘impactos’,
mas de situar as irreversibilidades as quais um de seus usos nos levaria, de formular os
projetos que explorariam as virtualidades a que se reporta e de decidir o que fazer dela
(LÉVY, 1999, p. 26).

Considerando que a tecnologia é um conjunto sistemático de conhecimentos sobre a


técnica, normalmente alcançado através dos avanços da ciência, é importante destacar que
ela, a tecnologia, associa-se à realidade, isto é, ao contexto das relações sociais, pois é aí

Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização 29


que surge a técnica. Ademais, a técnica se explica pelos seus diferentes usos por parte da
sociedade, numa relação espaço-tempo, no sentido de proporcionar melhorias, embora nem
sempre desejáveis por toda a sociedade.
Nesse sentido, o estudo da técnica ultrapassa consideravelmente “o dado puramente
técnico e exige uma incursão bem mais profunda na área das próprias relações sociais”, pois
estas é que

explicam como, em diferentes lugares, técnicas (ou conjuntos de técnicas semelhantes)


atribuem resultados diferentes aos seus portadores, segundo combinações que extrapo-
lam o processo direto da produção e permitem pensar num verdadeiro processo político
da produção (SANTOS, 2008b, p. 59-60).

Toda essa discussão serve para chamar a atenção sobre o papel e a importância da tec-
nologia no processo de produção espacial, haja vista que não se pode entender o espaço sem
entender como se dá o uso efetivo, e muitas vezes racional e desigual da tecnologia, mesmo
que de modo diferenciado no espaço e no tempo.

Faça uma breve contextualização sobre o anacronismo que envolve a histó-


1 ria da técnica.

Discuta de forma correlacionada as interpretações de Milton Santos e de Pierre Lévy


2 sobre técnica e tecnologia.

30 Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização


A tecnologia e a (re)produção
do espaço urbano no capitalismo
O conceito de produção envolve mais de uma acepção, não se restringindo apenas à
produção material em si, mas ao conjunto de relações inerente ao processo produtivo, isto é,
as relações que permitem a reprodução de outras relações num determinado modo de pro-
dução. Para Lefebvre, a produção refere-se também à produção de fatos, conflitos, guerras,
acontecimentos históricos etc., mas a categoria essencial na sua fundamentação é o trabalho,
em toda sua capacidade de transformação da natureza.
Para esse autor, o trabalho é considerado o princípio gerador do homem, muito mais,
portanto, que uma atividade produtiva. Trata-se da constituição de uma natureza objetiva e
de um horizonte de apreensão e transformação da realidade. Assim, pode-se afirmar que o
trabalho é essencial no processo de produção do espaço. Baseado em Lefebvre, Godoy (2008,
p. 126) afirma que a categoria trabalho:

estabelece, em princípio, uma forma de analisar e entender a sociedade, o Estado, o


capital, o poder, a produção e as relações espaço/sociedade. O Trabalho enquanto ca-
tegoria de análise não se reduz a exploração apenas da natureza objetiva das condições
materiais e imateriais da produção em geral, mas a compreensão do que está além da
exteriorização da ideologia e da objetivação das formas concretas, o que conduz à com-
preensão da própria gênese cultural do Homem. O homem histórico, neste caso, resulta
do seu próprio trabalho.

Depreende-se, portanto, que só se pode entender a (re)produção do espaço se conseguir-


mos compreender a importância do trabalho no interior desse processo, obviamente associado
à tecnologia. Logo, a reprodução espacial é em certo sentido uma materialidade social, uma
dimensão da totalidade social circunscrita pelo homem ao fazer sua história.
Ao discutir o assunto, Corrêa (1998) define o conceito de organização espacial, referindo-
se à capacidade de transformação da natureza pelo homem, que dentre outros sinônimos,
define o espaço socialmente produzido. Para esse autor,

os campos cultivados, os caminhos, os moinhos e as casas, entre outros, são exemplos


de segunda natureza. Estes objetos fixos ou formas dispostas espacialmente (formas
espaciais) estão distribuídos e/ou organizados sobre a superfície da terra de acordo
com alguma lógica. O conjunto de todas essas formas configura a organização espacial
da sociedade. A organização espacial é a segunda natureza, ou seja, a natureza primitiva
transformada pelo trabalho social (CORRÊA, 1998, p. 54).

Reforça-se aqui, a importância do trabalho enquanto categoria social no contexto da


reprodução do espaço. E associada a este, a tecnologia, a qual permite transformações rápi-
das e muitas vezes vorazes e desastrosas da natureza. Desse modo, a produção do espaço
capitalista constitui-se a partir das diversas cristalizações criadas pelo trabalho social, este,
comandado pelo capital, através dos seus diferentes proprietários, somando-se aí o Estado
capitalista. Logo, a produção do espaço resulta do acúmulo de trabalho ao longo do tempo.

Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização 31


Ao discutir o meio natural, baseado em Vidal de La Blache, Moreira (2007, p. 176) afirma
que este corresponde “a forma societária dos homens determinarem um modo de vida que
pouco se distingue das características e elementos do meio natural que o cerca”. Trata-se do
meio técnico das sociedades de coletores, agricultores e criadores das civilizações primitivas.
Nesse período, havia certa fragilidade da técnica, logo, isso evidencia um “espaço de sistemas
técnicos sem objetos técnicos” (MOREIRA, 2007, p. 176).
Atualmente, vivemos o período do meio técnico-científico-informacional, no qual o espa-
ço produzido constitui-se de paisagens cientificizadas e tecnicizadas, a partir da divisão social
e internacional do trabalho. Assim, a ciência e a tecnologia têm papéis importantíssimos no
processo de (re)produção do espaço desse período, seja no urbano ou no rural. A infraes-
trutura, as edificações, o sistema informacional, a tecnologia agrícola, enfim todo o aparato
tecnológico que sustenta o sistema societário atual demonstra a capacidade da tecnologia
transformar e (re)produzir espaço.
Mas, vale destacar que a tecnologia não se difunde por igual no espaço e no tempo, daí as
diferenciações no processo de reprodução do espaço. De acordo com Santos (2008b, p. 63):

a base técnica da sociedade e do espaço constitui, hoje, um dado fundamental da expli-


cação histórica, já que a técnica invadiu todos os aspectos da vida humana, em todos os
lugares. Diacronia e sincronia são, ambas, passíveis de explicação em termos de técnica,
ainda que nada se possa entender sem que se conheçam e avaliem as respectivas formas
de organização.

Sendo assim, os espaços se (re)produzem com usos diferenciados, mais ou menos in-
tensos de tecnologia, logo todos sofrem influências dela. Um exemplo desses aspectos pode
ser verificado no campo brasileiro, onde o agronegócio utiliza todo um aparato tecnológico
(Figura 1), isto é, um sistema de técnicas extremamente complexo e diverso, ao passo que os
plantios de sequeiro, ainda bastante desenvolvidos no sertão do nordeste brasileiro, se utilizam
de tecnologia sem a mesma complexidade e diversidade do primeiro (Figura 2).

Figura 1 – Plantio de soja (agricultura moderna)


Disponível em: <http://www.agrisus.org.br/foto/38_colheita_de_soja_e_plantio_
de _milho_31032004_sorriso_MT_Grupo_Pinesso.g.jpg>. Acesso em: 18 dez. 2010.

32 Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização


Figura 2 – Colheita manual de arroz

Disponível em: < http://www.varzeaalegre.ce.gov.br/mat285_01.jpg>. Acesso em: 18 dez. 2010.

As contradições socioespaciais se evidenciam onde a tecnologia produz espaço de forma


diferenciada, muitas vezes numa mesma região, cidade, bairro ou numa mesma rua, onde os
contrastes são maiores, e os usos diferenciados do sistema técnico circunscrevem a própria
segregação socioespacial.
Os avanços da indústria, associados aos avanços do mercado e do sistema financeiro,
bem como a difusão da eletricidade e a elaboração e uso do sistema de informação, marcam
a reprodução do espaço no contexto capitalista contemporâneo.
Em seu conjunto, esses eventos mostram-se bastante complexos, pois

a todo momento uma infinidade de novos projetos são idealizados e construídos e a


todo momento também são destruídas as ‘velhas coisas’. [...] Sem cessar, trocamos
os objetos da casa, adequamo-nos às modas, entrando num eterno ciclo de produção e
consumo (VIDAL, 1994, p. 40).

Isso implica, portanto, num processo contínuo de expansão da produção, da circulação e


do consumo de bens, serviços e capital, por conseguinte, numa transformação cada vez maior
da natureza, isto é, na (re)produção do espaço, acentuando, muitas vezes, as desigualdades
e as contradições internas desse processo.
Inspirado em Lefebvre, Santos (2008a) afirma que o ato de produzir é inexoravelmente
o ato de produzir espaço. Nesse sentido, o “espaço é um testemunho”, pois

ele testemunha um momento de um modo de produção pela memória do espaço cons-


truído, das coisas fixadas na paisagem criada. Assim, o espaço é uma forma, uma forma
durável, que não se desfaz paralelamente à mudança de processos, ao contrário, alguns
processos se adaptam às formas preexistentes enquanto que outros criam novas formas
para se inserir dentro delas (SANTOS, 2008a, p. 173).

O espaço aqui pode ser entendido como o locus da reprodução das relações capitalistas
de produção, isso para se fazer referência ao pensamento lefebvreano. Baseando-se em Lefe-
bvre (1973), entende-se que o espaço possui múltiplas propriedades na dimensão estrutural,

Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização 33


logo é meio de produção, a exemplo da terra e parte das forças sociais de produção. Além do
mais, “o espaço é um objeto de consumo, um instrumento político, e um elemento na luta de
classes” (GOTTDIENER, 1993, p. 127).
Para Lefebvre (1973), é no espaço (dialetizado) dos conflitos que acontece a reprodu-
ção das relações de produção, onde em tais relações se inscreve as contradições múltiplas
do processo, vindas ou não do tempo histórico. Assim, “as relações espaciais são geradas
logicamente, mas tornam-se dialeticizadas através da atividade humana no espaço e sobre
ele. É este espaço dialeticizado e de conflito que produz a reprodução, introduzindo nele suas
múltiplas contradições” (LEFEBVRE, 1973 apud SMITH, 1988, p. 139).
Diante disso, o espaço é produto das relações que surgem das forças e meios de pro-
dução. Mas, “além de haver um espaço de consumo ou, quanto a isso, um espaço como área
de impacto para o consumo coletivo, há também o consumo do espaço, ou o próprio espaço
como objeto de consumo” (GOTTDIENER, 1993, p. 129).
Alguns exemplos podem ser citados sobre o consumo do espaço ou o espaço como ob-
jeto de consumo. É o caso, por exemplo, do que acontece na maior parte do mundo, quanto à
valorização do espaço urbano a partir das diferentes formas de uso deste, seja quando o Estado
cria infraestrutura diferenciada, gerando condições para a alocação de capital, seja quando o
próprio capital privado investe nas mais diversas formas, do tipo criação de edificações com
funcionalidades diversas, desde o oferecimento de serviços e comércio de produtos até as fun-
ções específicas de moradia. Nesse caso, o espaço urbano se produz a partir de infraestruturas
(vias de circulação, praças, portos, aeroportos, ferrovias, avenidas etc.), edificações para fins
comerciais, financeiros, de moradia, venda e oferta de serviços, indústrias etc. Por outro lado,
a configuração dos subúrbios, cortiços, favelas, conjuntos habitacionais operários, tudo isso
enreda e configura o contraditório processo de reprodução do espaço urbano no capitalismo.
Nesse contexto, a produção do espaço urbano ocorre por meio da constituição de um
sistema complexo e contraditório de relações, fortemente marcado pelo uso diferenciado da
tecnologia. Diferentes atores e agentes participam desse processo de produção espacial, com
o uso diferenciado da tecnologia, a depender do nível social e de capitalização que apresenta,
mas é importante destacar que todos participam desse processo.
Para Carlos (2006), o espaço urbano tem cada vez maior importância para o capital, haja vis-
ta que é fortemente influenciado pela própria dinâmica capitalista de produção, que na contempo-
raneidade assume cada vez maior importância baseado no capital financeiro. Como exemplos da
produção do espaço urbano associado ao capital financeiro e outros setores do capital, industrial
e comercial, por exemplo, têm-se: os shoppings centers, centros empresariais, empreendimentos
de lazer, turismo e entretenimento, condomínios residenciais de luxo, verticais e horizontais,
bancos, hospitais, centros privados de educação superior ou não, hotéis, flats etc. Associado
a tudo isso, nota-se, muitas vezes, várias intervenções públicas, do Estado, criando rearranjos
espaciais, com o intuito claro de viabilizar a reprodução do capital por meio da circulação.
Diante do exposto, percebe-se que a reprodução do espaço urbano requer uma com-
preensão sobre a reprodução do capital, pois o espaço se constitui em espaço-mercadoria
tornado, por exemplo, produto imobiliário, através da concentração de relações que permitem
a produção e o consumo produtivo, pilares de sustentação do capital.
É no espaço urbano que se concentram forças produtivas, meios de produção e oferta de
serviços diversos, fatores que na contemporaneidade vêm se associando ao capital financeiro
e viabilizando a reprodução capitalista contemporânea. Nesse sentido, Carlos (2006) aponta

34 Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização


que a reprodução do espaço urbano ocorre por meio desses fatores, mas, sobretudo pela
forte influência do capital financeiro. Especialmente na metrópole, isso se traduz através da

construção dos edifícios corporativos que, sob a forma de ‘produto imobiliário’, se voltam
ao mercado de locação (fundamentalmente no que se refere aos edifícios corporativos de
escritórios, rede hoteleira e flats). Na sua construção, associa várias frações do capital a
partir do atendimento do setor de serviços modernos. Nesse sentido, estabelece-se um
movimento de passagem da predominância/presença do capital industrial produtor de
mercadorias destinadas ao consumo individual (ou produtivo) à preponderância do capital
financeiro que produz o espaço como mercadoria enquanto condição de sua realização.
Mas o espaço-mercadoria, tornado ‘produto imobiliário’, transforma-se numa merca-
doria substancialmente diferente daquela produzida até então, pois se trata, agora, de
uma mercadoria voltada essencialmente ao ‘consumo produtivo’, isto é, entendido como
lugar da reprodução do capital financeiro em articulação estreita com o capital industrial
(basicamente o setor de construção civil) que, pela mediação do setor imobiliário, trans-
forma o investimento produtivo no espaço sobrepondo-se ao investimento improdutivo,
regulando a repartição das atividades e usos (CARLOS, 2006, p. 82).

Depreende-se, portanto, a importância do capital financeiro para a produção do espaço


urbano na contemporaneidade, especialmente na metrópole e nas grandes cidades (Figura 3).
Passa-se da hegemonia ou preponderância do capital industrial, produtor de mercadorias para
o consumo, à preponderância do capital financeiro, o qual transforma o espaço em mercadoria,
através da mediação do setor imobiliário, altamente especulativo e, muitas vezes, associado a
outros setores da economia, como a própria indústria e a construção civil.

Figura 3 – Avenida Berrini, São Paulo

Fonte: <http://www.tiosam.net/enciclopedia/?q=Imagem:Berriniave.jpg>. Acesso em: 15 dez. 2010.

Dessa forma, o espaço urbano se reproduz por meio da presença efetiva de diferentes
sistemas técnicos, que evidenciam diferentes tempos inscritos na paisagem urbana. Isto se
dá por meio de diferentes atores e agentes, com diferentes formas de uso da tecnologia, mas
que em conjunto propiciam a reprodução do espaço capitalista. Nota-se que no interior desse
processo, a economia e a tecnologia exercem papel importantíssimo, pela própria relação
simbiótica que apresentam entre si.

Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização 35


De acordo com Milton Santos (2008b, p. 148), há com a modernização “a reformulação
do sistema urbano e o reordenamento das cidades, como resultado das novas formas de
realização da vida econômica e social”. Isso se dá de forma complexa, heterogênea, diversa e
diferenciada no território, marcada por um aumento simultâneo de riqueza e pobreza.
Para o autor, mesmo diante do imperativo da modernidade, a qual se mostra praticamente
irrecusável no tempo presente, o mais importante não é pensar a escolha das novas variáveis
históricas, mas refletir sobre como fazer sua combinação,

não mais a partir dos imperativos da técnica a que a economia se tornou subordinada,
mas a partir dos valores, o que ensejaria uma nova forma de pensar um porvir onde o
social deixaria de ser residual e se atribuiria à economia e à tecnologia um papel histórico
subordinado em benefício do maior número (SANTOS, 2008b, p.149).

O maior desafio é conseguir fazer com que a maioria escreva sua própria história, sobre-
pujando a minoria que normalmente detém o controle da economia e da tecnologia no contexto
atual. A partir daí ter-se-ia uma outra forma de produção do espaço urbano, bastante diferente
do que se verifica na contemporaneidade.

1 Contextualize o processo de (re)produção do espaço no período do meio natural, re-


lacionando a produção espacial no período do meio técnico-científico-informacional.

Com base no texto, o que se entende por produção do espaço urbano associado ao
2 uso da tecnologia no contexto histórico atual?

Cite exemplos que ajudam a entender o processo de (re)produção do espaço ur-


3 bano no Brasil.

36 Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização


Leituras complementares

Recomendam-se como leituras complementares, essenciais para o aprofundamento do


conteúdo trabalhado na aula:

CARLOS, Ana Fani Alessandri. A (re)produção do espaço urbano. São Paulo: EDUSP, 1994.
Nessa obra, a autora utiliza a perspectiva teórica do materialismo dialético de Marx para
explicar a (re)produção do espaço urbano, rediscutindo inclusive o papel da Geografia. Ela
também analisa a reprodução do espaço urbano, associando ao desenvolvimento capitalista
em curso no Brasil, no final do século XX.

CORRÊA, Roberto Lobato. O espaço urbano. São Paulo: Ática, 2004. (Série Princípios).
Nesse texto, o autor analisa a produção do espaço urbano na cidade capitalista, buscando
entender a ação dos diferentes agentes sociais que produzem o espaço urbano e participam
dos processos e formas espaciais.

HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005


Nessa obra, o autor discute a produção do espaço capitalista, buscando entender o
contexto de contradições que marcam esse processo.

SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico-informacional.


5. ed. São Paulo: Hucitec, 2008.
Nesse livro, o autor busca explicar a relação entre os elementos técnica, espaço e tempo no
contexto da globalização. O texto mostra, sobretudo, como a técnica se constitui no elo entre os
sistemas de objetos e os sistemas de ações, afetando a própria constituição do espaço geográfico.

Resumo

Nesta aula, vimos que a tecnologia se constitui a partir de um conjunto


sistemático de técnicas, normalmente produzido pela ciência. Vimos ainda que
a tecnologia exerce um importante papel no processo de produção do espaço
capitalista, que no caso do espaço urbano se dá de forma heterogênea, diversamente
complexa e contraditória em suas formas-conteúdos. A tecnologia se constitui
no elo entre os sistemas de objetos e os sistemas de ações. O espaço urbano
apresenta cada vez maior importância para o capital, considerando que é fortemente
influenciado pela própria dinâmica capitalista de produção, alterando, muitas vezes,
o papel do Estado, que não raro se sujeita aos ditames dos atores hegemônicos.
Nas metrópoles e grandes cidades, o capital financeiro assume cada vez mais um
lugar de destaque no contexto de relações socioespaciais, alterando as estruturas
e as formas e, por conseguinte, as funções do sistema urbano.

Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização 37


Autoavaliação
Com base nas discussões feitas ao longo do texto, discuta como se dá a repro-
1 dução do espaço capitalista, fazendo referência à base teórica e conceitual que
fundamenta a análise.

Faça uma relação entre o papel da tecnologia e a (re)produção do espaço urbano.


2 Para sua análise leve em consideração o período do meio natural e o período do
meio técnico-científico-informacional.

Contextualize, a partir de exemplos, o processo contraditoriamente complexo de


3 produção do espaço urbano no Brasil. Leve em consideração o sistema de relações
dos diferentes atores e agentes que participam desse processo

Referências
CARLOS, Ana Fani Alessandri. A (re)produção do espaço urbano. São Paulo: EDUSP, 1994.

______. Dinâmicas urbanas na metrópole de São Paulo. In: LEMOS, Amalia Inés Geraiges
de; ARROYO, Mónica; SILVEIRA, María Laura. América Latina: cidade, campo e turismo. São
Paulo: CLACSO, Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais, 2006.

CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. São Paulo: Ática, 1998.

______. O espaço urbano. São Paulo: Ática, 2004. (Série Princípios).

GODOY, Paulo Roberto Teixeira de. A produção do espaço: uma reaproximação conceitual da
perspectiva lefebvriana. Revista GEOUSP, São Paulo, n. 23, p. 125-132, 2008.

GOTTDIENER, M. A produção social do espaço urbano. Tradução: Geraldo G. de Souza. São


Paulo: EDUSP, 1993.

LEFEBVRE, Henry. A reprodução das relações de produção. Tradução: Antonio Ribeiro e M.


do Amaral. Portugal: Publicações Escorpião, 1973. (Cadernos O Homem e a Sociedade).

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Edições 34, 1999.

MOREIRA, Ruy. Pensar e ser em geografia. São Paulo: Contexto, 2007.

38 Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização


SANTOS, Milton. Espaço e método. São Paulo: Nobel, 1985.

______. Da totalidade ao lugar. São Paulo: Edusp, 2005.

______. Por uma geografia nova: da crítica da geografia a uma geografia crítica. São Paulo:
EDUSP, 2008a.

______. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico-informacional. São


Paulo: EDUSP, 2008b.

SMITH, Neil. Desenvolvimento desigual: natureza, capital e a produção do espaço. Rio de


Janeiro: Bertrand Brasil, 1988.

VIDAL, Diana Gonçalves. Técnica e sociedade no Brasil. São Paulo: Contexto, 1994.

Anotações

Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização 39


Anotações

40 Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização


Anotações

Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização 41


Anotações

42 Aula 2 Espaço, Tecnologia e Globalização


Ciência, tecnologia e agricultura

Aula

3
Apresentação

N
esta aula, discutiremos as transformações recentes observadas na agricultura e suas
relações com a revolução técnico-científica. Nesse sentido, focaremos a análise na im-
portância da ciência aplicada ao desenvolvimento de tecnologias voltadas ao processo
produtivo agrícola. Ressaltaremos ainda a influência das novas tecnologias da comunicação e
da informação na organização da produção agrícola, com a utilização de sistemas informatiza-
dos, planos de controle de gestão e exploração, aplicação da agricultura de precisão e ligação
da produção ao mercado internacional em tempo real. Para tanto, num primeiro momento, as
discussões estarão focadas na evolução das tecnologias agrícolas e, nesse contexto, a moder-
nização da agricultura brasileira, ocorrida a partir da década de 1960. Agricultura de precisão
e agricultura e internet são os temas explorados na sequência. Para finalizar, realizamos uma
discussão sobre as consequências da incorporação das NTIC no setor agropecuário brasileiro.

Objetivos
Analisar a importância da ciência numa relação espaço-tempo
1 para o desenvolvimento tecnológico aplicado à agricultura.

Compreender a relação entre a Revolução Técnico-Científi-


2 ca da agricultura e as transformações produtivas e sociais
observadas no campo.

Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização 45


Para iniciar...

A
s Novas Tecnologias de Informação e da Comunicação (NTIC) estão produzindo mudan-
ças em todas as atividades humanas, incluindo a agricultura. Sua influência varia desde
pesquisa sobre melhoramento genético, com a utilização de sistemas informatizados,
planos de controle de gestão e exploração, aplicação da agricultura de precisão, ligação da Sistemas de
produção ao mercado internacional em tempo real, realidade virtual e uso de sistemas de inteligência artificial
Há possibilidade de uso
inteligência artificial. Mas, a sua incorporação tem sido mais intensa, como era esperado,
de inteligência artificial
no contexto rural dos países centrais. Nesse sentido, consideramos pertinente concentrarmos para o planejamento,
esforços para compreender a incorporação das NTIC no processo produtivo agrícola dos pa- controle, monitoramento,
íses centrais e periféricos na tentativa de identificar os impactos e as implicações territoriais projeção ou diagnósticos
de problemas na prática
e sociais, em diferentes contextos.
agrícola e em aspectos
Iniciamos nossa discussão com algumas observações gerais sobre a incorporação de relacionados (CHAPARRO;
tecnologia na produção agrícola e, mais especificamente no Brasil, a partir da modernização LOCATEL, 2004).
agrícola. Em seguida, é apresentada a análise da aplicação de alguns softwares projetados para
apoiar as atividades agrícolas. Num segundo momento, discutem-se alguns aspectos relativos
à introdução da agricultura de precisão e da Internet em atividades rurais, para concluir serão
feitos alguns comentários sobre as implicações sociais, com o aumento do fosso entre os
agricultores com a chegada do aparato técnico digital ao mundo rural.

Tecnologia e agricultura
O desenvolvimento e implementação de sistemas de manejo das explorações agrícolas
e fazendas incluem quatro etapas principais: a fase em que todas as tarefas eram realizadas
manualmente; em seguida, houve outra fase em que se incorporaram alguns sistemas e téc-
nicas – a mecanização –, mas o trabalho manual ainda continuou sendo fortemente utilizado.
Posteriormente, incorporou o uso de computadores e softwares e, então, uma fase final em
que foi introduzida a Internet (LEWIS, 1998). É precisamente esse último, ou seja, a rede das
redes, que se constitui um dos fatores que estão causando mais mudanças, porque oferece a
possibilidade da intensificação e da incorporação da produção aos mercados mundiais, com a
facilidade da teleoperação – manejo a distância –, de fazendas de consideráveis dimensões a
partir de praticamente qualquer lugar conectado à rede, a exemplo das grandes fazendas no Brasil
que pertencem a grupos multinacionais ligados ao agronegócio (CHAPARRO; LOCATEL, 2004).
Historicamente, o progresso tecnológico na agricultura foi lento, em especial até a Re-
volução Industrial, quando se nota grandes transformações. Até esse momento, a enxada e
o arado romano representavam os meios mais eficazes de produção agrícola. Fatores como
o desconhecimento técnico e a escassez de capitais impediam um progresso mais acelerado
desse setor, de tal modo que a agricultura pré-industrial foi também denominada de pré-
capitalista (MOLINERO, 1990).
A partir da Revolução Agrária (século XVIII), que precede a Revolução Industrial, as trans-
formações passam a ocorrer de forma acelerada, rompendo definitivamente com a situação

Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização 47


de atraso técnico observado até então. De fato, foi no século XIX que ocorreram mudanças
significativas nas condições técnicas da agricultura (Figuras 1 e 2), ainda que os avanços só
se consolidaram no início do século passado e se generalizaram a partir da década de 1960
com a Revolução Verde (MOLINERO, 1990).
As transformações ocorridas no mundo agrário, impulsionadas pela Revolução Indus-
trial, foram representadas por drásticas mudanças nas condições técnicas de produção. Esse
processo foi mais evidente nos países europeus e norte-americanos. No entanto, com menor
intensidade, pôde-se observar reflexos desse processo nas condições técnicas de produção em
atividades agrícolas no Brasil, principalmente, no cultivo de café, quando se verificam grandes
transformações com a criação de um setor de máquinas, como secadoras e descascadoras
para a produção cafeeira (MONBEIG, 1984).
O uso de máquinas e arados de tração mecânica na agricultura, já no início do século
XX, foi muito expressivo em países como EUA, França e Inglaterra. No Brasil, o processo de
mecanização agrícola se manteve incipiente até a década de 1950, quando foram implemen-
tadas políticas de incentivo à produção agrícola, com a importação desses bens de produção.
Juntamente com o processo de mecanização agrária, ocorreu a incorporação de produtos
químicos à pratica agrícola, tanto para a nutrição das plantas, como para o tratamento de
doenças e combate às pragas. Já, no fim do século XIX, o uso de adubos químicos era uma
prática relativamente comum entre os agricultores europeus e norte-americanos (MAROTO
BORREGO, 1998).

Figura 1 – Semeadora-adubadora de tração animal

Fonte: Santos (2006).

48 Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização


Figura 2 – Primeiros tratores

Fonte: Comercializa (2006).

No caso brasileiro, o uso desses produtos só se tornou expressivo a partir da década de


1950, situação similar à da mecanização. A consolidação de um conjunto de técnicas moder-
nas para a prática da agricultura só vai ocorrer com a chamada Revolução Verde, ocorrida na
década de 1960, impulsionando a incorporação crescente de máquinas, tratores, equipamen-
tos, fertilizantes, agrotóxicos ao processo produtivo, buscando maximizar a produtividade. O
elemento central da Revolução Verde foi a introdução de variedades de cereais híbridos de alta
produtividade e resistência. Inicialmente, esse processo consistiu na transferência de tecnologia
no setor agrícola, seguido pelos setores de bens de produção e de capital para a agricultura.
Pode-se afirmar isso, apoiando-se no fato de que o desenvolvimento das pesquisas, mesmo
tendo sido realizadas em países subdesenvolvidos, foram financiadas e controladas por gran-
des corporações multinacionais, como, por exemplo, o Grupo Rockefeller. Além disso, toda a
tecnologia no setor de tratores, máquinas e produtos químicos necessários ao cultivo dessas
variedades (para que se tornassem mais rentáveis) tiveram origem nos países desenvolvidos.

Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização 49


Importante

Para exemplificar, podem ser citadas as pesquisas de novas variedades de trigo


híbrido que se desenvolveram no Centro Internacional para la Mejora del Maíz
y del Trigo (CIMMYT), na cidade do México, com financiamento da Fundação
Rockefeller, nos anos de 1950, onde também se produziram as novas varie-
dades de milho nos anos 1960 (GARCÍA RAMON, 1995, p. 102). Juntamente
com esse Centro, a organização de maior peso foi a International Rice Reserch
Institute (IRRI), instalada em Los Baños, nas Filipinas, financiada pela Funda-
ção Ford, que desenvolveu diversas variedades de arroz a partir de 1962. Além
do CIMMYT, no México e do IRRI, nas Filipinas, foram criadas outras organi-
zações para a pesquisa agronômica, como o International Institute of Tropical
Agriculture (ITTA), na Nigéria, e o Centro Internacional de Agricultura Tropical
(CIAT), na Colômbia, dedicados a programas de melhoramento de cultivos tro-
picais (MOLINERO, 1990, p. 96). A essas instituições deve-se acrescentar o
Centro Internacional de Recursos Fitogenéticos (CIRF), em Roma; o Centro In-
ternacional de Investigación Agrícola en las Zonas Secas (ICARDA), em Aleppo,
Síria; o Laboratório Internacional de Investigación sobre Enfermidades Anima-
les (LIIEA), em Nairobi, Quênia; O Servicio Internacional para la Investigación
Agrícola Nacional, na Bélgica; e a Associación para el Desarrollo del Cultivo del
Arroz en El África Occidental (ADRAO), em Bovaké, Costa do Marfim. Todos es-
ses institutos e alguns outros foram patrocinados pelo Grupo Consultivo sobre
Investigación Agrícola Internacional (GCIAI), criado na conferência de Bellagio,
na Itália, em abril de 1971.

Esse aspecto converte-se em um problema de dependência tecnológica, ao qual se so-


mam outros, o que permite críticas a esse modelo de desenvolvimento para a agricultura.
Em primeiro lugar, as novas variedades de cereais requerem grande quantidade de adubos,
principalmente nitrogenados. Esse fato implicou, e ainda implica para muitos países, numa
grande dependência das importações de adubos químicos, os quais têm que ser adquiridos
com divisas geradas pelas exportações. Obter essas divisas torna-se cada vez mais difícil, já
que os preços das commodities no mercado internacional são cada vez mais baixos. Por outro
lado, as sementes dessas variedades se degeneram, ou seja, não podem mais ser utilizados
os grãos colhidos como semente para a próxima semeadura, o que implica na sua reposição,
obrigando o produtor a comprar novas sementes de empresas fornecedoras que estão ligadas
as grandes multinacionais do setor agroalimentar (GARCÍA RAMON, 1995).
É evidente que para uma conclusão sobre as consequências disso seria necessário uma
análise caso a caso, pois as características internas de cada país e região influenciam nos re-
sultados obtidos com a incorporação do pacote tecnológico da Revolução Verde. No entanto,
é indiscutível que, de forma geral, essas inovações possibilitaram o crescimento da produção
de alguns cereais, mas, por outro lado, agravaram as desigualdades que já existiam entre

50 Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização


regiões e entre classes, ou seja, as desigualdades territoriais e sociais, que são muito mais
evidentes nos países periféricos.
De maneira geral, a incorporação das novas variedades de sementes melhoradas, acompa-
nhadas pela mecanização do processo produtivo de forma prematura e indiscriminada, trouxe
benefícios econômicos para alguns (médios e grandes produtores, agroindústrias, indústrias
produtoras de insumos e máquinas), em detrimento de muitos. No entanto, isso dependerá,
em grande medida, das estratégias adotadas para sua execução. Quanto mais seletivas forem
as escolhas das medidas para a adequação às necessidades específicas de cada país, mais
favoráveis serão os impactos da modernização sobre a economia rural (MOLINERO, 1990).
Associado ao modelo de inovação tecnológica está a ideia de desenvolvimento via mo-
dernização agrícola, que se converteu num instrumento privilegiado de divulgação do sistema
dominante: industrial e urbano. Tal modelo coloca a agricultura no centro dos problemas rurais
e transforma a modernização agrícola em solução a todos os outros problemas. No entanto,
o que se observa com facilidade é a defrontação com impasses, como a sobreprodução da
agricultura (em alguns casos), os vazios populacionais, corolário da industrialização da agri-
cultura. Esses impactos demonstram que o desenvolvimento de um segmento (setorial) não
representa necessariamente fator de desenvolvimento global (BONNAUD, 2002).
No caso brasileiro, o processo de incorporação de tecnologia na produção agrícola, até
atingir o nível de uma agricultura industrial, está associado à ideologia da Revolução Verde,
somada ao pensamento econômico predominante a partir da década de 1950 e à compreen-
são de desenvolvimento que se tinha na época, que serviram para direcionar o processo de
modernização da agricultura brasileira e para a constituição do Complexo Agroindustrial (CAI).

A modernização
da agricultura brasileira
A modernização da agricultura brasileira, através da incorporação de insumos químicos
e equipamentos específicos, teve seu início na década de 1950. A incorporação das inovações
técnicas conduz a um progresso tecnológico marcado por mudanças na intensidade e no ritmo
da jornada de trabalho, com as inovações mecânicas, modificações nas condições naturais
do solo, elevando a produtividade do trabalho aplicado a esse meio de produção, mediante a
aplicação de inovações físico-químicas e, por fim, ocorrem mudanças na velocidade de rotação
do capital variável utilizado no processo produtivo, com a utilização das inovações biológicas,
já que essas possibilitam a redução do período de trabalho e potencializam as inovações
mecânicas e físico-químicas, de acordo com Silva (1981). Para Graziano Neto (1982, p. 68),

[...] nesse processo, a agricultura, que era auto-suficiente, vai perdendo esta condição,
tornando-se cada vez mais dependente. Isto ocorre porque a dinâmica da acumulação
econômica se encontra nos setores industriais, onde os capitais são mais concentrados
ou oligopolizados e tendem, portanto, a comandar as rédeas da economia.

Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização 51


Assim, a análise do índice de consumo de produtos industriais no processo produtivo
agrícola, como os fertilizantes, defensivos, corretivos de solo, produtos veterinários, máquinas,
tratores e implementos e o número de estabelecimentos que os utilizam tornam-se indicadores
importantes para avaliar o grau de modernização da agropecuária. No entanto, cumpre ressal-
tar que somente esses indicadores não são suficientes para caracterizar a modernização da
atividade agrícola em uma dada região, já que para que o processo seja completo é necessário
que ocorram mudanças estruturais no padrão produtivo, com reformulações no sistema de
comercialização, assistência técnica, como aponta Hespanhol (1996), além de alteração no
gerenciamento na unidade de produção e na inserção dos produtores no mercado.
Note-se que, neste processo de modernização ou transformação capitalista da agricultura, o
aumento da dependência do sector agrícola em relação ao setor industrial intensifica as relações
intersectoriais. Esse processo de crescente dependência da agricultura é o resultado dinâmico
de acumulação econômica nos setores industrial, onde o capital se concentra mais e, portanto,
possui mecanismos de controle de maior impacto na economia (GRAZIANO NETO, 1982).
Nesse sentido, “a modernização é o resultado da integração entre industrialização do
campo, agroindustrialização das atividades agrárias e mudanças sociais e políticas entre grupos
sociais”. O complexo agroindustrial é uma categoria de análise do processo socioeconômico
que envolve a geração de produtos agrícolas, o beneficiamento e sua transformação, a pro-
dução de bens industriais para a agricultura, os serviços financeiros, técnicos e comerciais
correspondentes e os grupos sociais (MÜLLER, 1986, p.46-63).
O processo de incorporação de novas tecnologias na agricultura passa por uma nova
fase. Hoje, a busca pela eficiência na agricultura não se limita à incorporação de plantas gene-
ticamente melhoradas, fertilizantes e máquinas modernas; é a incorporação das NTIC que está
permitindo uma maior eficácia e eficiência no processo de produção agrícola, o qual coloca
novos desafios em termos de pensar e avaliar os impactos já visíveis, tanto como o potencial,
na estrutura e dinâmica do setor agropecuário, assim como nos aspectos sociais do campo.
A Agricultura está passando pela sua terceira revolução. A primeira foi a substituição
da tração animal pela tração motora; a segunda foi o controle químico da produção. Agora, a
transformação é liderada pela biotecnologia e tecnologia da informação (HERBÁRIO, 2002). Os
produtores que podem acessar rapidamente as informações podem planejar suas atividades
e colocar sua produção no mercado de forma mais competitiva. Assim, o produtor rural será
mais competitivo ao usar insumos intelectuais do que se utilizar de forma abundante insumos
materiais (DALL’AGNOL, 2004).
Devido à importância da produção agrícola na economia nacional e as características do
setor, o Brasil é um país com grande potencial no desenvolvimento de tecnologias de informa-
ção e comunicação aplicadas à agricultura. Nesse sentido, principalmente a partir da década de
1980, surgiu a preocupação dos institutos de pesquisa e universidades, que resultou em planos
para desenvolver projetos relacionados à aplicação da informática à agricultura. Os principais
centros de investigação nessa área estão concentrados no Estado de São Paulo. Para ilustrar
essa situação, podemos citar o Centro Nacional de Pesquisa em Tecnologia da Informação
para a Agricultura, que pertence a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA).
Essa instituição surgiu vinculada ao Centro de Tecnologia da Informação da Universidade de
Campinas. Também sob o controle da EMBRAPA existe o Núcleo de Monitoramento Ambiental
e de Recursos Naturais por satélite, que tem desenvolvido projetos em parceria com o Insti-
tuto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Mesmo na Universidade de Campinas, existem

52 Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização


grupos de pesquisa do Centro de Ensino e Pesquisa em Agricultura que desenvolvem projetos
nas áreas de geoprocessamento, dados e imagens meteorológicas e planejamento agrícola
(SABBATINI, 1998). Além da estrutura de pesquisa estatal, há várias empresas privadas que
investem em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias aplicadas às áreas agrícolas, John Deere
dentre os quais destacamos a participação de empresas ou grupos, tais como: John Deere, Ver a atuação dessa em-
presa no site <www.deere.
Bayer do Brasil, Monsanto, Massey Ferguson, entre outros.
com.br>. Acesso em: 21
Na atualidade, dispõe-se de muitos produtos e serviços relacionados à telemática, os out. 2010.
quais são destinados a produtores rurais e empresas que atuam no setor agrícola brasileiro
e mundial. Além disso, as pesquisas na área de software estão avançando rapidamente. A Bayer do Brasil
partir da aplicação dessas novas técnicas, está se desenvolvendo a agricultura de precisão, Para mais informações,
consulte o site da empresa
possibilitando que a produção agrícola torne-se muito mais racional e eficaz, com redução
no endereço (Bayer CropS-
dos riscos de produção e ambiental. Outra linha de aplicação das NTIC que está crescendo, cience) <www.bayercrops-
de forma progressiva e gradual, no campo brasileiro é a internet, onde o produtor pode dispor cience.com.br>. Acesso
de informações que ajudam na tomada de decisões, além de permitir o comércio eletrônico de em: 21 out. 2010.

produtos agrícolas. Esses são alguns dos aspectos relacionados com as mudanças que estão
germinando vinculada a atividade agropecuária no mundo, assim como no Brasil. Monsanto
Ver o site da empresa
Monsanto: <http://www.
monsanto.com.br/institu-
cional/institucional.asp>.
Acesso em: 21 out. 2010.

Massey Ferguson
1 Agricultura de Precisão.
Acesse: <http://www.
massey.com.br/portugues/
default.asp>. Acesso em:
Descreva o processo de incorporação técnica à produção agrícola, destacando as 21 out. 2010.
1 transformações ocorridas no emprego da mão de obra.
Telemática
Explique o contexto de contradições que marca o processo de transformações no De acordo com o dicioná-
2 espaço agrário dos países subdesenvolvidos, especialmente no Brasil, destacando
rio Michaelis (WEISZFLOG,
2010), telemática é a
como se dá a acessibilidade às NTIC. “ciência que trata da
manipulação e utilização
de informação através do
computador e da teleco-
municação”.

Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização 53


Os softwares
aplicados à atividade agrícola
No mercado brasileiro, estão disponíveis muitos softwares aplicados à agricultura, ao
agronegócio e à preservação ambiental. São programas de computador desenvolvidos para
executar funções específicas, que variam desde o planejamento da produção agrícola ou pe-
cuária, de gestão agrícola e até mesmo ao controle de estoques.
Existem vários programas que podem ser citados, mas ficaremos apenas com alguns
exemplos, como o da Universidade Federal de Viçosa, instituição de destaque no ensino e
pesquisa nas áreas das ciências agrárias. Destacamos o desenvolvimento dos sistemas de
apoio na tomada de decisão e gestão da produção rural e agroindustrial. Entre os muitos
projetos desenvolvidos pela universidade, merecem destaque os sistemas descritos a seguir.

 Sistema inteligente de apoio à decisão para o planejamento de propriedades agrícolas


(SOLAR): integra técnicas de armazenamento e consulta de banco de dados, pesquisa
operacional e inteligência artificial. É uma ferramenta amigável para o usuário no trabalho de
extensão rural. A partir da coleta e cadastro de dados de uma propriedade rural, o sistema
formula um problema de programação linear e produz uma solução ótima de alocação de
recursos com o objetivo de maximização da margem de lucro (UFV, 1996).

 Sistema especialista para avaliar a qualidade da água (Acqua-Sist): é um sistema desen-


volvido para a indústria agrícola para o controle e tratamento da água utilizada no processo
industrial. Permite a consulta a dados técnicos e emissão de laudos sobre as condições
de potabilização da água de mananciais e também contém aplicações específicas para a
indústria alimentar (UFV, 1996).

 Sistema de recomendação de práticas de manejo de rebanho leiteiro (Especialista/Rebanho


Leiteiro): é uma ferramenta capaz de fornecer apoio aos produtores de leite, para a resolu-
ção de problemas rotineiros inerentes à sua atividade econômica. É um sistema específico
que, através da entrada de informações de manejo dos rebanhos, gera um diagnóstico
contendo os problemas encontrados no rebanho analisando, assim como apontando várias
soluções para os problemas diagnosticados (UFV, 1996).

Outras universidades também estão pesquisando e desenvolvendo softwares para atender


as demandas das atividades de agricultura, pecuária e agroindustrial. O Centro Nacional de
Investigação Agrícola em Ciência da Computação na Agricultura (CNPTIA), unidade de pesquisa
da EMBRAPA, desenvolveu, entre outros projetos, os sistemas Customaq (Sistema de Custo
de Mecanização Agrícola) e Custos (Sistema de Custos de Produção Agrícola). O software
Customaq oferece, em três minutos, o custo operacional de cinquenta máquinas agrícolas,
enquanto o mesmo trabalho feito manualmente levaria um período não inferior a uma semana.
Claramente, esses tipos de sistemas de gestão facilitam a mecanização da produção. Além
disso, considerando que o custo da mecanização nas principais culturas varia entre 20% e 40%

54 Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização


do custo operacional total da produção, dependendo da tecnologia utilizada, pode-se justificar
o investimento em pesquisa para desenvolver sistemas que ajudam na administração desses
processos (SERRA, 1995).
Há também um grande número de programas específicos disponíveis no mercado bra-
sileiro para a gestão de produção animal e vegetal que têm sido desenvolvidos por empresas
privadas. São programas fáceis de usar e seu preço é acessível, o que torna possível controlar
todo o processo produtivo de bovinos, suínos, eqüinos, ovinos e caprinos. Através de uma
interface gráfica que usa o Windows, o produtor gerencia seu rebanho de gado, acompanhando
a realização de exames de saúde e o processo de engorda, bem como avalia custo de produ-
ção, rendimento e despesas. No entanto, o programa não prever o desempenho através de
simulações de custo e benefício em relação aos preços de mercado para a produção estimada.
Além de programas específicos para o sector agrícola, a utilização de programas de apli-
cação geral também prevalece nas propriedades rurais que incorporam essas tecnologias. De
acordo com um estudo realizado pelo Instituto de Economia Agrícola (IEA) em 2000, as utili-
zações mais comuns declaradas pelos proprietários entrevistados foram: produção de textos,
cartas e similares (81%), contabilidade agrícola (77%), administração geral da propriedade
(76%), gestão rural (66%), gestão da produção pecuária (56%), gestão de cultivos (53%) e
administração de máquinas (56%) (HERBÁRIO, 2002).

A agricultura de precisão
A agricultura de precisão está ligada a estratégias de gestão que utilizam tecnologias de
informação para coletar e analisar dados de várias fontes, com o objetivo de apoiar a tomada
de decisões relacionadas à produção agrícola (MACHADO, 2003). Esses sistemas informa-
tizados também se destinam a aumentar a eficácia e a eficiência da produção em uma área
específica ou em toda a propriedade, além de buscar aumentar os lucros com a minimização
simultânea dos custos de produção e impactos ambientais causados por atividades agrícola e
pecuária, embora seja necessário salientar que o sistema por si só não significa uso racional
dos recursos naturais.
Os benefícios gerados pela agricultura de precisão dependerão da quantidade de in-
formação disponível. Considerando que esse é um tipo de agricultura, com um processo
contínuo de acumulação de informações, de modo que os resultados tendem a melhorar com
a continuação da sua aplicação.
A incorporação da agricultura de precisão implica requisitos iniciais, compostos princi-
palmente de equipamentos agrícolas e sofisticados sistemas de processamento de dados de
certa complexidade, bem como o uso de satélites, indispensáveis para o uso de GPS (Global
Positioning System) (BAYER DO BRASIL, 2002). Essas possibilidades tecnológicas aplicadas
à agricultura permitem o controle de metro por metro da área cultivada, enquanto tornam
possível a ação localizada em cada porção do terreno de acordo com suas necessidades
técnicas individuais.

Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização 55


O ciclo da agricultura de precisão pode ser dividido em três grandes fases: coleta de
dados, processamento/interpretação dos dados associados com as recomendações técnicas
e, finalmente, a intervenção direta no sistema produtivo, como pode ser observado na Figura
3 (CIGANA, 2002).

SISTEMAS
Sensoramento remoto;
Hardware;
Posicionamento 1 2
Software;
(GPS); Mapa de Produtividade; Coleta dos Processamento SIG.
Monitoramento de Dados dos Dados
Culturas
Análise de solo.

PESSOAS
Fases da

MÁQUINAS
Agricultura de
Precisão

Veículos Robotizados; Agrônomos


4 3 Produtores
Cultivo; Pulverização;
Aplicação Interpretação Especialistas em
Adubação; Plantio.
sistemas
MÁQUINAS

Figura 3 – Diagrama das etapas da agricultura de precisão

A primeira fase começa no momento da colheita. O uso de máquinas equipadas com sen-
sores e receptores GPS gera informações de produtividade metro por metro de área cultivada.
Em seguida, é necessário reunir informações diretamente no campo, associada, por exemplo,
à análise da fertilidade da terra, impacto dos processos erosivos e da interferência de outros
fatores que podem causar variações ou modificações da produtividade (JOHN DEERE, 2003).
Na segunda fase, com o processamento e análise dos dados, são gerados mapas de pro-
dutividade. A partir da análise e representação cartográfica das variáveis, é possível identificar
a maioria dos procedimentos técnicos adequados para alcançar uma maior rentabilidade nos
cultivos. Com a orientação técnica necessária, inicia-se a intervenção mediante a aplicação
de corretivos e fertilizantes em quantidades variadas de acordo com os resultados da análise.
A partir desta etapa, com o solo já preparado, efetua-se o plantio de sementes, também
em quantidades variadas de acordo com o potencial produtivo de cada setor analisado.
Essas duas etapas podem ser executadas ao mesmo tempo através do uso de tratores e
equipamentos que possuem sofisticados sistemas automáticos que regulam a quantidade de
adubo e sementes que devem ser distribuídas no solo de acordo com as informações armaze-
nadas no computador de bordo e os sinais recebidos de satélites via GPS (JOHN DEERE, 2003).
Após o plantio das sementes, inicia-se a fase de acompanhamento do cultivo para o
mapeamento de plantas invasoras, doenças causadas por fungos e vírus, infestação por inse-
tos e outras situações. A fase seguinte realiza-se com a aplicação de agrotóxicos, variando a
aplicação de acordo com as informações representadas nos mapas produzidos na fase anterior.
Finalmente, o processo é completado com a nova safra que deve ser realizada utilizando má-
quinas equipadas com sensores e receptores de GPS, permitindo a coleta de informações de

56 Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização


interesse para a adequada intervenção no próximo ciclo produtivo da área explorada. (JOHN
DEERE, 2003).
No Brasil, a aplicação da agricultura de precisão é orientada principalmente para o cultivo
de cereais, especialmente aqueles relacionados a setores agroindustriais mais complexos.
Pode-se destacar o caso do trigo, da soja e do milho, entre outros. Em cultivos permanentes
também estão sendo aplicadas essas possibilidades tecnológicas, especialmente na produção
de café, na região do Cerrado em Minas Gerais, e laranja, no Estado de São Paulo.
Os testes de desempenho mostram que o uso da informática na agricultura de precisão
pode aumentar a produtividade para 5.880 kg de milho por hectare, um resultado 20% superior
à média das regiões mais produtivas do país (CIGANA, 2002). Confrontado os resultados da
agricultura de precisão com os dados das regiões com produtividade mais baixa, a diferen-
ça pode ultrapassar 60%. Para a soja, os resultados foram ainda maiores, alcançando uma
produtividade de 2.880 kg por hectare, representando uma melhoria de 41%, em relação à
produtividade média do Rio Grande do Sul, um dos principais estados produtores no Brasil.
A prática da agricultura de precisão no Brasil está crescendo rapidamente e já existe um
programa de incentivo do Governo Federal, visando sua expansão. “O programa Agricultura
de Precisão presta assistência técnica a produtores rurais, agroindústrias, cooperativas, ou-
tras instituições, repassando novos conhecimentos e tecnologias para o setor. O trabalho é
desenvolvido em colaboração com universidades, centros de pesquisa, empresas privadas,
serviços, extensão rural e os usuários”, de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária
e do Abastecimento (2003).

Internet e agricultura
Há algumas décadas no Brasil, para iniciar a atividade agrícola, bastava um pedaço de terra,
tratores, silos, algumas vacas, porcos e galinhas, e se podia integrar-se a um mercado, na maioria
dos casos locais, e obter um rendimento suficiente para assegurar a continuidade da atividade.
Hoje, no entanto, a concorrência está aumentando, com interação maior entre o local e
o global, do micro ao macro, o que implica, para os produtores, uma necessária e constante
atualização, a fim de obter retornos suficientes para permitir continuidade na agricultura. A
busca de informações para continuar sendo competitivo está causando mudanças significativas
no campo, onde o computador e a internet estão se tornando ferramentas indispensáveis para a
busca da eficiência na produção e comercialização de produtos agrícolas (AGROSOFT, 2002a).
Outra mudança que pode ser observada é o aumento de sites agro-comerciais eletrônicos,
nos quais tudo pode ser comprado e vendido, desde sêmen de reprodutores bovinos de alto
desempenho até máquinas agrícolas, diretamente ou através de leilão virtual. Vários sites de
agrocomércio eletrônico, empresa-empresa (business-to-business) ou empresa-consumidor
(business-to-consumer) estão chamando a atenção de investidores do mercado de risco, e é
provável que essa nova possibilidade de investimento coloque ações desses portais de agri-
cultura em pregões das bolsas de valores ao redor do mundo (AGROSOFT, 2002b).

Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização 57


O desenvolvimento da internet no Brasil é relativamente recente, mas, ainda assim, desde
1995, é cada vez maior o volume de informações disponíveis para os agricultores, empresas
e cooperativas. Desde o ano de 2000, muitos portais, alguns deles dedicados exclusivamente
ao agronegócio, foram criados no Brasil motivados principalmente pelo dinheiro fácil que
atrai capital de risco, pela projeção de crescimento exponencial do comércio eletrônico e a
necessidade de grandes empresas submergidas na velha economia, de posicionarem-se na
atual atmosfera virtual da nova economia ou da economia digital (AGROSOFT, 2002b).
Com a internet, os produtores e empresas ligados à agropecuária podem acessar uma
variedade de informações de natureza técnica e de mercado, úteis no momento de tomada
de decisão. Por outro lado, empresas privadas, universidades, centros de pesquisa estatal,
serviço de extensão rural e cooperativas podem acessar informações a um custo muito baixo
ou mesmo gratuito, como já acontece em alguns casos. Também se desenvolveram diversos
e variados novos serviços; outros poderão surgir, ou ser viáveis e possíveis, com base em
recursos e flexibilidade oferecida pela internet.
A internet oferece uma ampla gama de informações para os agricultores, empresários e
gestores, que podem apoiar suas decisões e realizar a gestão da produção e comercialização
agrícola. Por exemplo, pode-se encontrar várias informações de eventos e leilões no portal
da Associação Brasileira de Agribusiness (ABAG), que tem disponível ao público em geral
informações referentes à produção agrícola.
As informações meteorológicas, necessárias para o planejamento de plantio e colheita,
podem ser obtidas em vários sites. Pode-se mencionar como exemplos os sites da Cepagri/
Unicamp <http://orion.cpa.unicamp.br/> e Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos,
do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) <http://www.cptec.inpe.br/>, que também
oferece a possibilidade de pesquisar o banco de dados da produção técnico-científica. Também
digno de nota é o Instituto Nacional de Meteorologia <http://www.inmet.gov.br/>, que oferece
a previsão meteorológica, através da agrometeorologia.
Os produtores, empresas e cooperativas podem obter informações sobre mercados e
preços na página mantida pela ESALQ/USP (Universidade de São Paulo) <http://am.esalq.usp.
br/desr/market/mercados>. Outro site onde se pode ter acesso a esses tipos de dados é a BM
& F (Mercadorias e Futuros) <http://www.bmf.com.br/>, domínio web onde é possível simular
a compra e venda de gado, como também consultar indicadores de preços e tendências futuras
do mercado, além de outros serviços.
Há também uma grande quantidade de informações oferecidas por instituições públicas
relacionadas à educação, pesquisa agrícola e extensão rural. Entre os sites, merece destaque o
da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) <http://www.embrapa.br/>. Nesse
site, está disponível informação agrícola sobre diversos cultivos, que podem ser acessados
através de consulta ao banco de dados, no catálogo de jornais e registros de instituições.
O comércio de produtos agrícolas e insumos pela internet também está crescendo, parti-
cularmente, no Estado de São Paulo. De acordo com os resultados de uma pesquisa realizada
pelo Instituto de Economia Aplicada (IEA), em 2001, as empresas envolvidas nesse tipo de
comercialização mobilizaram cerca de R$ 300 milhões, sendo que no ano de 2002 o volume
de negócios, nesse segmento, foi de cerca de R$ 700 milhões.
Existem sites, como AGRO1 <http://www.agro1.com.br/>, que se especializam no co-
mércio eletrônico. Esse site permite ao produtor vender todo tipo de produtos agropecuários e
comprar insumos. Para acessar alguns serviços, é necessário que o produtor possua registro

58 Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização


de pessoa jurídica, ou seja, ter o registro da propriedade. Mas, o comércio na internet não se
limita aos produtos agrícolas e insumos. Existem vários sites de venda de propriedades rurais.
Um exemplo no Brasil é o <http://www.terras.com.br/>, em que o usuário pode encontrar
informações sobre venda de terra, escolhendo a região, tamanho da propriedade e valor. Esse
endereço também torna possível a busca de informações de outro tipo de transação como o
contrato de arrendamento.
Um estudo do Instituto de Economia Agrícola (IEA), da Secretaria de Estado da Agricultura
e Abastecimento do Estado de São Paulo, mostra que entre os proprietários rurais paulistas
que declararam ter acesso à internet, 74% utilizam essa ferramenta para obter notícias sobre
o setor agropecuário; 71% para acessar dados do mercado agrícola – como preços e análise
financeira –; 48% declaram utilizar para obter informações sobre a extensão rural e assistência
técnica e 28% para acessar as redes de comercialização (HERBÁRIO, 2002).

A incorporação das NTIC no


setor agropecuário brasileiro
Não se pode duvidar de que o desenvolvimento das NTIC está afetando a dinâmica do setor
agrícola, melhorando a produção e comercialização. No entanto, no caso do Brasil, embora sendo
recente o processo de incorporação de novas tecnologias na realidade rural, podemos verificar
que as mudanças produzidas aumentam e reforçam as desigualdades existentes no campo.
Essa situação deve ser analisada com cuidado e a partir de dois matizes distintos. Por um
lado, verifica-se que as informações para a tomada de decisões existem e estão disponíveis,
mas seu uso é muito restrito, limitado a um pequeno grupo de produtores, especificamente,
aqueles que dispõem de mais capital e que, por sua vez, dispõem de pessoal com formação
acadêmica e profissional mais especializado. Esses empresários têm acesso a fontes seguras
de informação e utilizam as NTIC para a tomada de decisão.
Por outro lado, os produtores que não têm acesso às novas oportunidades tecnológicas
tomam as suas decisões com base em suas experiências passadas, ou informações de fontes
incertas ou vagas, tais como televisão, rádio e jornais. Muitas vezes não se executa um plane-
jamento detalhado, pela ausência de informação prévia e, em muitos casos, devido à falta de
formação para compreender, processar e aplicar tais informações. A maioria dos produtores
rurais brasileiros, principalmente os pequenos e médios decidem o que produzir, quanto, quan-
do e com que tecnologia, com base nas recomendações de amigos, fornecedores de insumos
agrícolas e, raramente com assistência técnica e informações confiáveis (OLIVEIRA, 1995).
O segundo aspecto que gera conflito está associado ao uso do computador. Verifica-se
uma concentração do número de computadores nas propriedades com grandes áreas, ou seja,
aquelas que variam entre 5.000 e 10.000 hectares representam 65% das propriedades que
fazem uso desses equipamentos. Também se identifica uma concentração em relação ao nível
de escolaridade do proprietário, sendo que 56% deles têm o ensino universitário. O fato de
83% das propriedades que utilizam computadores pertencerem a pessoas que não residem na

Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização 59


fazenda também mostra a seleção que fez a expansão da tecnologia da informação no campo,
além do fato de que 67% dessas são empresas cuja administração não é feita diretamente
pelo proprietário (HERBÁRIO, 2002). Pode-se notar, portanto, as empresas mais estruturadas
que operam na produção agrícola são as que mais estão investindo na busca de eficiência e
competitividade, apoiada por novas tecnologias e nas possibilidades da informática.
Se isso acontece em um contexto socioterritorial, em que há um maior nível de justiça
social e melhor distribuição de riqueza, certamente as consequências negativas seriam menores
para aqueles produtores que não têm acesso às NTIC e, em contrapartida, poderia estimular
um ambiente produtivo não tão desigual e polarizado. No entanto, em uma realidade como a
brasileira, marcada por fortes contrastes e desigualdades, a incorporação das NTIC pode con-
duzir à eliminação da maioria dos agricultores rurais do mercado, por não serem competitivos.
A preocupação não é exagerada, especialmente quando estamos diante de declarações
de técnicos das empresas estatais de pesquisa em que a ênfase recai sobre a competitividade.
Para Dall’Agnol (2004):

[...] o produtor rural que não souber incorporar tecnologia ao processo produtivo da
sua lavoura, compensando com aumentos de produtividade a queda dos preços, muito
provavelmente engrossará o contingente dos desesperançados que habitam as perife-
rias de nossas grandes e pequenas cidades, criando, para a sociedade urbana, um sério
problema social e econômico.

No entanto, existe uma preocupação por parte de alguns pesquisadores de encontrar me-
canismos viáveis para o acesso e utilização dessas novas tecnologias por todos os agricultores.
Precisamente, um dos aspectos mais questionados das NTIC é a relação custo/benefício e a
limitada capacidade de adaptação dos pequenos produtores, do agricultor capitalizado, das
pessoas com um baixo grau de instrução e os semialfabetizados diante da possibilidade de se
ter acesso e poder usar as inovações emergentes.
Sobre esses aspectos, considera-se pertinente as alusões de Luciel H. Oliveira, que
destaca que “Não se espera que todos os produtores comprem um microcomputador, que
façam cursos de operação e programação e contratem analistas de sistemas” (OLIVEIRA,
1995, extraído da internet). O autor destaca ainda que

todos os produtores rurais podem e devem utilizar-se da TI. O acesso à tecnologia não
demanda, necessariamente, altos investimentos. Um empresário pode adquirir um mi-
crocomputador e instalá-lo em seu escritório na sede da fazenda, ou pode até mesmo
trabalhar em redes locais, nos casos de empresas maiores. Por outro lado, uma coopera-
tiva ou mesmo um sindicato rural pode fazer esse investimento, constituindo um centro
de informações para os pequenos produtores, que poderiam beneficiar-se da tecnologia
disponível, melhorando a qualidade de suas decisões, e seu planejamento, sem, contudo,
investir em equipamentos ou sistemas (OLIVEIRA, 1995, extraído da internet).

Finalmente, pode-se notar que a crescente integração das NTIC em áreas rurais e na
produção agropecuária em países periféricos, em especial aqueles que possuem economia
depende em grande medida desse setor, oferece desafios significativos para os produtores,
acadêmicos, investigadores e legisladores.
No caso brasileiro, as novas possibilidades de emprego da informática afeta a atividade
agropecuária em termos de intervenção física no solo, como na disponibilidade de infor-
mações para o planejamento e para a colocação de produtos no mercado. Nesse sentido, é

60 Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização


necessário dar início a esforços – que poderão ser convertidos em ações reais, não centradas
na ignorância –, em diferentes frentes, visando compreender os fenômenos decorrentes da
integração das NTIC nas áreas de produção agropecuária, permitindo assim perfilar seus
impactos econômicos, sociais e ambientais, bem como revelar, caracterizar e fazer frente à
nascente segregação digital rural.

Em que consiste a agricultura de precisão e quais as etapas desse processo de


1 produção agrícola?

Faça uma pesquisa na internet e liste os sites de comercialização de insumos e pro-


2 dutos agrícolas, de assistência técnica e de divulgação de resultados de pesquisas
agropecuárias, assim como de informações meteorológicas aplicas à agricultura,
destacando os serviços oferecidos por eles.

Analise as consequências da aplicação das novas tecnologias da comunicação e da


3 informação para o pequeno agricultor brasileiro descapitalizado e aponte possíveis
formas de promover sua inclusão digital.

Leitura complementar

ELIAS, D.; PEQUENO, R. (Org.). Difusão do agronegócio e novas dinâmicas socioespaciais.


Fortaleza: Banco do Nordeste, 2006.
Nesta obra, o tema principal refere-se às transformações recentes ocorridas no Nordeste
a partir da implantação do agronegócio, da sojicultura, da fruticultura irrigada e das novas rela-
ções de trabalho surgidas nessa região, a partir de um novo uso do tempo e do espaço. Além
disso, é dada ênfase às desigualdades socioespaciais surgidas no contexto da modernização
que tem como principal componente desse processo as políticas e as ações baseadas na repro-
dução do capital monopolista, a partir da ampliação do uso da técnica no processo produtivo.

Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização 61


Resumo

Principalmente nos países desenvolvidos, a agricultura está passando por


mais uma revolução tecnológica com a crescente incorporação da telemática
no processo produtivo agrícola. Ainda que de maneira diferenciada, isso
também ocorre em outros contextos regionais. No Brasil, as novas tecnologias
da informação e comunicação estão sendo incorporadas de forma diferente,
dependendo da sua utilização. Nessa abordagem, compreende-se que estão
ocorrendo mudanças radicais na agricultura, ainda que na realidade brasileira
denota-se diferentes estágios em termos de implementação. Toda essa questão
não ocorre sem suscitar muitos desafios, especialmente em termos de uma nova
dualidade que se configura no campo brasileiro entre os agricultores com acesso
a essas tecnologias e numeroso grupo dos excluídos digitalmente.

Autoavaliação
Destaque os principais conceitos apreendidos nesta aula e como eles contribuem
1 para a compreensão do espaço geográfico.

Evidencie o contexto social atual marcado pelo avanço contraditório e desigual do


2 uso da técnica no espaço agrário, destacando a participação do Estado no interior
desse processo.

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64 Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização


Anotações

Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização 65


Anotações

66 Aula 3 Espaço, Tecnologia e Globalização


Globalização e Blocos Econômicos

Aula

4
Apresentação

N
a última aula, estudamos a relação entre tecnologia e reestruturação produtiva no con-
texto da globalização econômica. Nesta aula, discutiremos as transformações ocorridas
no contexto da economia global, buscando entender a formação e o papel dos blocos
econômicos de poder, mostrando o conjunto de ações que marcam essa fase da economia mun-
dial que, por conseguinte, reflete na dinâmica da sociedade e na reorganização dos territórios. É
possível observar que a formação dos blocos econômicos de poder se constitue em estratégias
político-econômica-institucionais de determinados países, no sentido de se fortalecerem frente ao
jogo de interesses do capitalismo contemporâneo, numa escala espaço-temporalmente desigual.
Analisaremos os principais blocos econômicos e suas estratégias de fortalecimento, bem como
mostraremos como o Brasil e a América Latina se inserem nesse processo.

Objetivos
Discutir as transformações recentes ocorridas na econo-
1 mia global, a partir da formação dos blocos econômicos de
poder, buscando entender o papel desses na reorganização
dos territórios.

Mostrar os principais blocos econômicos mundiais e as


2 relações de poder desiguais entre eles.

Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização 69


Breve contextualização sobre a
economia global e os blocos econômicos

P
ode-se afirmar que a economia global é diferenciada e heterogênea espaço-temporal-
mente, e ao mesmo tempo contraditória. Trata-se de diferentes processos e diferentes
eventos, envolvendo diversos atores, ditos globais, imbuídos de relações de forças e
interesses muitas vezes consideravelmente desiguais, contraditórios e diversificados.
A gênese da economia global está associada ao avanço do meio técnico-científico-infor-
macional proporcionado principalmente pelos avanços da ciência moderna contemporânea.
A economia global caracteriza-se, dentre outros aspectos, pelas melhorias em infraestrutura
em escala global, no sentido de garantir maior dinamismo e fluidez ao sistema econômico
capitalista como um todo (matéria-prima, mercadorias, informações, dinheiro, pessoas etc.).
Associado a esses eventos, tem-se a elaboração de um avançado sistema de tecnologias
da informação e da comunicação, desregulamentação e liberalização estatal praticadas por
diversos países, além de novas formas de cooperação internacional, evidenciando muitas
vezes o que Ulrick Beck chama de “topoligamia de lugares”, isto é, o casamento do sistema
econômico global com vários lugares ao mesmo tempo, como forma de fazer com que esse
momento histórico aconteça em benefício do capital.
Para Beck (1999), é preciso atentar para os equívocos que envolvem a noção de globa-
lismo, e de modo particular o chamado livre comércio mundial. É um equívoco, por exemplo:
acreditar que a economia globalizada seja a mais adequada para oferecer o bem-estar para todo
o mundo, ou que essa é capaz de eliminar as desigualdades sociais. É evidente que não haverá
jamais a partilha igualitária da riqueza gerada pela economia global, tampouco o atingimento
universal da dignidade de sobrevivência e da cidadania. Ocorre de fato um acirramento das
desigualdades entre nações e regiões, assim como num mesmo país ou região, aumentando
ainda mais o distanciamento entre ricos e pobres.
Há de fato um privilegiamento das relações de mercado em detrimento das questões
sociais. Nesse contexto, constitui-se um núcleo de controle dotado de um conjunto de ele-
mentos necessários à interligação global do sistema econômico, isto é, componentes como:
mercados financeiros, comércio internacional, produção transnacional, ciência e tecnologia.
Nesse sentido, a economia global pode ser entendida como “uma economia cujos componentes
centrais têm a capacidade institucional, organizacional e tecnológica de trabalhar em unidade
e em tempo real, ou em tempo escolhido, em escala planetária” (CASTELLS, 2007, p. 143).
Tudo converge para uma velocidade cada vez maior das transformações, especialmente
tecnológicas, refletindo significativamente no mundo do trabalho, do consumo, portanto, no
sistema econômico, favorecendo, sobretudo, os países que detêm maiores níveis de riqueza
e de desenvolvimento científico e tecnológico.

Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização 71


1

Com base nos autores trabalhados, faça uma breve contextualização sobre as
1 transformações ocorridas na economia global, associando ao período do meio
técnico-científico-informacional.

2 De acordo com Ulrich Beck (1999), o que se entende por “Topoligamia de Lugares”?

Os blocos econômicos:
uma estratégia capitalista
A diminuição progressiva das barreiras às trocas comerciais bem como os movimentos
de integração econômica tiveram início desde o século XVI quando os europeus iniciaram
os movimentos de expansão e investimentos no mundo por meio das grandes navegações
europeias e das companhias de comércio. E essa integração progressiva se constituiu nas
bases do que mais tarde se denominou processo de globalização ou mundialização do capital.
O período de expansão do pós-guerra entre 1945 e 1973 estava embasado na disciplina
da força de trabalho para os propósitos de acumulação do capital - controle social das capaci-
dades físicas e mentais - tecnologias, hábitos de consumo e configuração de poder político e
econômico. A esse conjunto de práticas, deu-se o nome de Fordista - Keynesiano.
Havia aí o anseio de estabilizar o Capitalismo e evitar as crises cíclicas, bem como o nacio-
nalismo das soluções nacional-socialistas, que só seria possível por meio do estabelecimento
de um conjunto de estratégias administrativas científicas e poderes estatais. De acordo com
Harvey (1990), o Capitalismo ainda era bastante instável e dependia da ação coletiva, ou seja,
dependia de uma regulamentação e intervenção do Estado.
Ocorre que, no final da década de 1980, estabeleceu-se a crise econômica mundial do
Capitalismo, daí o início das políticas de sua reestruturação, iniciando uma nova divisão interna-
cional do trabalho, com ênfase no desenvolvimento tecnológico como subsídio da estruturação
dessa nova divisão, principalmente nas áreas da informática e da comunicação.
Corroborando com isso, Harvey (199, p. 121) afirma que “os novos métodos de trabalho
são inseparáveis de um modo específico de viver e de pensar e sentir a vida”. E é essa mesma
revolução tecnológica que vai agir diretamente em todo o sistema social, econômico, político
e cultural do mundo.
O final do século XX é marcado por transformações na economia política do Capitalismo.
As marcas dessas modificações podem ser observadas em processos de trabalho, hábitos de
consumo, configuração geográfica, regime de acumulação e modo de regulamentação social

72 Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização


e política. Os mercados globais e os blocos econômicos de poder surgem no contexto da
globalização por meio da nova dinâmica do capital.
Sendo assim, as economias mundiais apresentam a necessidade de integrarem-se, tendo
em vista a dinâmica e a rapidez que marcam o funcionamento da economia capitalista contem-
porânea. Logo, tais países são impulsionados pelas grandes empresas e fazem mudanças na sua
estrutura econômica e política para que possam atender à lógica do neoliberalismo. Ianni (1996,
p. 134) afirma que “as corporações transnacionais desempenham um papel básico, que pode
ser decisivo na criação, institucionalização e dinamização dos sistemas econômicos regionais”.
Um conjunto de países integra-se, a fim de aumentar sua força e representatividade, pois
quando essas economias nacionais se unem, suas influências têm um maior alcance espacial,
de modo que seus interesses serão mais facilmente garantidos, ampliando seu mercado consu-
midor e sua produção. Dessa forma, é possível observar que, enquanto alguns desses blocos
comerciais encontram-se bem estruturados, outros ainda demonstram incipiência e fragilidades.
Os principais blocos econômicos de poder são: União Europeia, Nafta, Mercosul, APEC
e ASEAN, além de outros blocos menores, conforme análise e representações a seguir

União Europeia
A União Europeia é o bloco econômico mais bem estruturado e atuante de todos, e
entende-se que a nova maneira com a qual esses países passaram a se relacionar e se impor
economicamente é bastante influenciada por essa nova realidade na qual estão inseridos. A
União Europeia foi instituída em 1991 e exerce um grande poder sobre os demais países do
mundo, pois, como coloca Castells (2007), dinamiza a economia global, estabelecendo alianças,
realizando fortes transações em segundos, de modo que é responsável por expressivos fluxos
financeiros e uma circulação veloz, complexa e mundialmente conectada.
É importante destacar que as noções de soberania e territorialidade é algo marcante
entre as nações europeias. Logo, a consolidação de um sistema de cooperação e integração
econômica entre esses países demorou décadas e enfrentou diversos obstáculos. Isso pode
ser evidenciado pelos diferentes tratados que foram realizados, objetivando essa configuração,
a exemplo dos tratados de Roma, Maastricht e Amsterdã, buscando a conciliação de inte-
resses e forças que convergiram para a consolidação do bloco econômico regional formado
pelos países europeus na década de 1990, embora alguns países ainda permaneçam de fora,
conforme o Figura 1.

Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização 73


Figura 1 – Mapa da União Europeia

Fonte: <http://economiaa.wikispaces.com/UNI%C3%83O+EUROPEIA>. Acesso em: 15 dez. 2010.

Dos principais objetivos da União Europeia, destaca-se: uma política de comércio comum,
bem como uma política agrícola comum; promoção do bem-estar socioeconômico dos países
membros; política comum no setor de infraestrutura, como energia, transporte e telecomunica-
ções; livre circulação de pessoas, mercadorias, serviços e capitais; política monetária comum,
o que ainda não atingiu a todos os países membros, a exemplo da Inglaterra, que não aderiu
à moeda comum: o Euro.
Vale destacar que há divergência e desigualdade entre os países membros da União Eu-
ropeia, pois nem todos apresentam o mesmo estágio de desenvolvimento, pelo contrário, há
países em situação socioeconômica de acentuada fragilidade, a exemplo da Romênia.
Constituem a União Europeia os seguintes países: Alemanha, Aústria, Bélgica, Bulgária,
Chipre, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Hungria,
Irlanda (Eire), Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos (Holanda), Polônia,
Portugal, Reino Unido, República Tcheca, Romênia e Suécia. São países candidatos: Mace-
dônia, Croácia e Turquia.
Além da União Europeia, merece destaque os blocos econômicos Nafta, Mercosul, APEC
e ASEAN, além de outros blocos com menor representatividade política e econômica, mas que
participam do cenário da economia global e da nova configuração dos blocos regionais de poder.

74 Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização


Nafta (Acordo de Livre
Comércio da América do Norte)
O Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) foi instituído em 1988 e entrou
em vigor em 1994, reunindo o Canadá, os Estados Unidos e o México (Figura 2), formando
“um grande mercado e um poderoso sistema produtivo, com influências em todo o mundo”
(IANNI, 1996, p. 132).
De acordo com Castells (2007), já havia uma forte relação entre esses países, de modo
que o NAFTA surgiu apenas para institucionalizá-la. Atentando para as transformações na
dinâmica econômica global no final do século XX, Castells (2007, p. 154) observa que na
verdade “há uma economia norte-americana, composta por EUA, Canadá e México, e não o
surgimento de um bloco”.
Assim, para o autor, há na verdade uma intensificação das relações que já existiam entre
esses países, inclusive da dependência histórica do Canadá e do México, em relação aos Estados
Unidos, portanto, esse bloco também sofre com as desigualdades entre os países do próprio bloco.

Figura 2 – Mapa do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA)

Fonte: < http://br.oocities.com/cynthiamalta/capglob.htm >. Acesso em: 15 dez. 2010.

Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização 75


Mercosul
(Mercado Comum do Sul)
O Mercado Comum do Sul (Mercosul), instituído em 1991 através do Tratado de Assun-
ção, foi criado para inserir as economias nacionais sul-americanas integradas na economia
global. Esse bloco visa desenvolver o potencial econômico dos países membros, aumentando
as relações econômicas dentro do próprio grupo.
Nos últimos anos, o ritmo de importações e exportações tem sido crescente entre os
países do Mercosul, o que justifica uma relativa diminuição da dependência de importação
desses países, em relação aos Estados Unidos, o qual era responsável por mais da metade das
importações feitas por esses antes da criação do bloco. Portanto, conforme Arroyo (2006),
constata-se um aumento não só das relações econômicas, como também políticas, diplomá-
ticas e empresariais entre os países membros, e entre esses e o resto mundo.
Na medida em que esse bloco comercial cresce, verifica-se a ampliação do seu mercado,
configurando uma nova escala no processo de produção e de circulação, bem como uma
mudança nos fluxos que, por sua vez, modificam o território (ARROYO, 2006).
O fato é que toda essa articulação não promove a inclusão total das regiões e de todos os
indivíduos, mas a intensificação das diferenças sociais entre os países e regiões, bem como
entre suas classes. Ou seja, muitas vezes os blocos econômicos aumentam as desigualdades
e as contradições socioespaciais, dentro e fora dos países e regiões. Cria-se geralmente um
conjunto de relações de poder marcado por forças desiguais, onde sempre haverá benefícios
e beneficiados em detrimento de prejuízos e explorados.
Os países que compõem o Mercosul são: Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai. A Vene-
zuela se constitui num país candidato a membro do bloco. Além desses, aparece os países
associados: Bolívia, Chile, Colômbia, Peru e Equador (Figura 3).

76 Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização


VENEZUELA
GUIANA
Caracas
SURINAME
GUIANA FRANCESA
COLÔMBIA Bogotá
Oceano
Quito Atlântico
EQUADOR

PERU BRASIL
Lima
La Paz Brasilia
BOLÍVIA

Oceano
Pacícifo
PARAGUAI
Rio Grande
Santiago do Sul
CHILE
URUGUAI
Montevidéu
Buenos Aires Oceano
N Atlântico
ARGENTINA
Legenda
0 500 1.000 Capital de país
Km Estados membros do Mercosul
Estados associados ao Mercosul

Figura 3 – Mapa do MERCOSUL

Fonte: <http://mapas.fee.tche.br/wp-content/uploads/2009/08/mercosul_RS_2008.png>. Acesso em: 15 dez. 2010.

Apec (Cooperação
Econômica da Ásia e do Pacífico)
A articulação em torno da Apec teve início em 1992, prevendo-se a instalação gradual
e a configuração de uma área de livre-comércio abrangendo países asiáticos, americanos e
da Oceania, banhados pelo Pacífico. O principal objetivo do bloco é aproveitar o crescimento
econômico da bacia do Pacífico e da costa oeste do continente americano, tendo em vista que
os Estados Unidos e o Canadá são países banhados tanto pelo Atlântico quanto pelo Pacífico.
De alguma forma, a Apec também inclui outros blocos, a exemplo do Nafta, e alguns blocos
menores, como o Pacto Andino e Asean.
Os países que compõem a APEC são: Austrália, Brunei, Canadá, Chile, República Po-
pular da China, Singapura, Coreia do Sul, Estados Unidos, Filipinas, Hong Kong, Indonésia,
Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Papua – Nova Guiné, Peru, Rússia, Tailândia, Taiwan,
Vietnã (Figura 4).

Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização 77


Figura 4 – Mapa do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA)

Fonte: <http://br.oocities.com/cynthiamalta/capglob.htm>. Acesso em: 15 dez. 2010.

Entre os blocos menores, destacam-se: o Pacto Andino (CAN - Comunidade Andina)


(Figura 05), Mercado Comum do Caribe (CARICOM) (Figura 06), Associação Latino-Americana
de Integração (ALADI), Mercado Comum Centro-Americano (MCCA), Comunidade da África
Meridional para o Desenvolvimento (SADC) (Figura 07), Mercado Comum dos Países do Leste
e Sul da África (COMESA), Acordo Comercial sobre Relações Econômicas entre Austrália e
Nova Zelândia (ANZCERTA).

Figura 5 – Mapa do Pacto Andino

Fonte: <http://br.oocities.com/cynthiamalta/capglob.htm>. Acesso em: 15 dez. 2010.

78 Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização


Figura 6 – Mapa do Mercado Comum e comunidade do Caribe
Fonte: <http://br.oocities.com/cynthiamalta/capglob.htm>. Acesso em: 15 dez. 2010.

Figura 7 – Mapa da Comunidade da África Meridional para o Desenvolvimento


Fonte: <http://br.oocities.com/cynthiamalta/capglob.htm>. Acesso em: 15 dez. 2010.

Figura 8 – Mapa do bloco econômico do Sudeste da Ásia.


Fonte: < http://br.oocities.com/cynthiamalta/capglob.htm>. Acesso em: 15 dez. 2010.

Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização 79


É importante ressaltar que todos os blocos econômicos são marcados por um contexto
de relações desiguais e contraditórias entre as nações-membros, bem como esse mesmo
sentido marca as relações entre os blocos, sobressaindo blocos hegemônicos em detrimento
de blocos incipientes e frágeis econômica e politicamente. Os blocos de maior representativi-
dade política e econômica são a União Europeia e o NAFTA, com maior representatividade de
alguns países europeus (Alemanha, Inglaterra e Espanha, por exemplo) e os Estados Unidos.

Explique o contexto de relações econômicas, políticas e institucionais que levou


1 os principais países que constituem o cenário da economia global a se integrarem
através de blocos econômicos de poder.

Identifique os principais blocos econômicos de poder e explique as principais ca-


2 racterísticas e seus principais objetivos.

Identifique os países que compõem a União Europeia e os que se destacam en-


3 quanto potência econômica.

Identifique os países que compõem o MERCOSUL e o contexto de relações de


4 poder entre os países-membros.

Identifique os países que constituem o bloco econômico NAFTA e sua importância


5 na economia global.

Identifique os países que formam a APEC e sua relação com outros blocos, tendo
6 em vista a inserção de países em mais de um bloco.

Leituras complementares

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. (A era da informação:
economia, sociedade e cultura, 1). cap. 2, 3 e 4.
No capítulo 2, é possível aprimorar o conhecimento sobre a estrutura e gênese da econo-
mia global, a formação dos mercados financeiros globais, globalização versus regionalização.
No capítulo 3, é possível conhecer o funcionamento da economia em rede, a organização
econômica do bloco do Leste Asiático. No capítulo 4, o autor apresenta uma ampla discussão
sobre as transformações do mercado de trabalho e no sistema de emprego.

80 Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização


HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.
Nesta obra, o autor discute as transformações contemporâneas do modo de produção
capitalista, buscando entender o contexto de contradições que marcam esse período.

SANTOS, Milton et al. Fim de século e globalização: o novo mapa do mundo. São Paulo:
HUCITEC-ANPUR, 2002.
Neste livro, os autores organizadores buscam elaborar uma coletânea de trabalhos bas-
tante diversificada em abordagens que tratam desde os conceitos de globalização, mapas
políticos da globalização, cultura, técnica e meio, Geografia Econômica da globalização e a
globalização dos lugares.

Resumo

A partir do conteúdo tratado nesta aula, buscou-se contextualizar a dinâmica


da economia global contemporânea, pautada na formação dos blocos econômica
regionais de poder. Observou-se que se trata de uma estratégia do capital na
busca pelo fortalecimento da economia, especialmente dos países que exercem
forte influência na divisão internacional e territorial do trabalho. Dentro e
fora dos blocos econômicos, configura-se um contexto de relações de poder
(econômico, político e institucional) marcado por desigualdade e contradições,
onde sobressaem os interesses dos países hegemônicos.

Autoavaliação
Contextualize o funcionamento da economia-mundo a partir da política de criação
1 dos blocos regionais de poder e dos mercados globais.

Discorra sobre cada bloco econômico, explicando como se dá a relação entre eles,
2 bem como o contexto de relações entre países de um mesmo bloco.

Explique a importância do MERCOSUL no que concerne ao funcionamento da eco-


3 nomia latino-americano, face à dinâmica da economia global.

Discuta o papel do Brasil no âmbito do MERCOSUL, por conseguinte, no conjunto


4 de relações econômicas globais.

Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização 81


Referências
ARROYO, Mônica. Mercosul: discurso de uma nova dimensão do território que encobre anti-
gas falácias. In: SANTOS, Milton. SOUZA, Maria Adélia A. de. SILVEIRA, Maria Laura. (Org.).
Território: globalização e fragmentação. São Paulo: HUCITEC, 2006.

BECK, Ulrich. O que é Globalização?: equívocos do globalismo: resposta a globalização. São


Paulo: Paz e Terra, 1999.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. v 1.

HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança Cultural.
São Paulo: Edições Loyola, 1992.

IANNI, Octavio. A era do globalismo. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.

Anotações

82 Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização


Anotações

Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização 83


Anotações

84 Aula 4 Espaço, Tecnologia e Globalização


A (re)organização regional do Brasil

Aula

5
Apresentação

N
esta aula, discutiremos as diferentes concepções sobre região, a atualidade desse
conceito-chave da ciência geográfica, bem como a concepção dele no tempo presente,
face ao avanço do meio técnico-científico-informacional e da globalização. Será aborda-
do principalmente como esse período tem influenciado a reorganização do espaço geográfico
brasileiro, a ponto de sugerir regionalizações consonantes com as transformações socioespa-
ciais verificadas nos distintos períodos técnicos, especialmente no tempo presente. O conteúdo
apresentado fundamenta-se especialmente nas obras de autores como Corrêa (1996), Santos
e Silveira (2001), Haesbaert (1999) entre outros. Mostraremos mapas que ilustram o avanço
do meio técnico-científico-informacional no Brasil, como também a reorganização regional do
espaço geográfico brasileiro.

Objetivos
Entender o conceito de região e suas diferentes concep-
1 ções na evolução da história do pensamento geográfico.

Identificar a concepção e importância do conceito de re-


2 gião na contemporaneidade, em tempos de globalização,
especialmente no período técnico-científico-informacional.

Descrever como o avanço do meio técnico-científico-in-


3 formacional influenciou o pensamento geográfico a ponto
de apontar para uma reorganização regional do espaço
geográfico brasileiro.

Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização 87


Em busca da
compreensão de região no período
técnico-científico-informacional

A
o lado dos conceitos de espaço, lugar, território e paisagem, o conceito de região cons-
titui um dos conceitos fundamentais da ciência geográfica. Esse conceito vem sendo
modificado de acordo com os momentos históricos, políticos, econômicos e sociais,
mas, sobretudo, de acordo com os debates teóricos das escolas do pensamento geográfico,
e sempre associado à diferenciação das áreas. De acordo com Corrêa (1996), desde a ins-
titucionalização da ciência geográfica até a década de 1970, três concepções de região são
identificadas. A região natural, a região-paisagem e a região como classe de área. A região
natural é entendida como:

uma porção da superfície terrestre identificada por uma específica combinação de ele-
mentos da natureza como, sobretudo, o clima, a vegetação e o relevo, combinação que
vai se traduzir em uma específica paisagem natural: as áreas de cerrado e de floresta
equatorial são exemplos de regiões naturais (CORRÊA, 1996, p. 184).

Nota-se que os elementos naturais são essenciais na concepção de região natural, ele-
mentos esses presentes na paisagem de forma homogênea e semelhante ou de forma hete-
rogênea e diversa.
A região geográfica, região cultural ou região-paisagem, dependendo da Escola de Ge-
ografia, resulta:

de um longo processo de transformação da paisagem natural em paisagem cultural.


O arranjo dos campos, o sistema agrícola e o habitat rural, mas também o dialeto e os
costumes estão, entre outros, constituindo um conjunto integrado de traços culturais
que definem um gênero de vida (CORRÊA, 1996, p. 185).

A concepção de região natural e região-paisagem foram desenvolvidas durante o período


denominado de Geografia Tradicional, entre 1870 e 1950. A região natural foi trabalhada na
perspectiva da Escola Alemã de Geografia, influenciada por uma matriz filosófica positivista, e
denominada por alguns estudiosos de escola do “determinismo geográfico”. A região-paisagem
foi desenvolvida pela Escola Francesa de Geografia, a qual teve La Blache como seu principal
pensador. A matriz filosófica que sustenta esse conceito é o historicismo e o neokantismo,
na qual se enfatiza a separação entre ciências humanas e naturais, portanto, há a dicotomia
entre sociedade-natureza.
Entre 1950 e 1970, com o advento da Geografia Teorética Quantitativa, de base neopo-
sitivista, a região passa a ser entendida enquanto classe de área, ou seja, “um conjunto de
unidades de área, como os municípios, que apresentam grande uniformidade interna e grande
diferença face a outros conjuntos” (CORRÊA, 1996, p. 186). Observa-se, portanto, que a ideia
de região sempre se constitui enquanto diferenciação de áreas.

Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização 89


Segundo Corrêa (1986, p. 39):

Na Nova Geografia não existe, como na hartshoniana, um método regional, e sim estudos
nos quais as regiões formam classificações espaciais. Em outras palavras, identificam-se
padrões espaciais de fenômenos vistos estaticamente ou em movimento. [...] a região
adquire, junto a sua inexistência como entidade concreta, o sentido de padrão espacial. A
geografia regional, por sua vez, não tem o propósito de reconhecer uma síntese, como em
Vidal de La Blache, nem de procurar pela singularidade de cada área, como em Hartshone.

A partir da década de 1970, evidencia-se o pluralismo de pensamento acerca da região,


aparecendo a região econômica, a região política e a região cultural. A região econômica é
entendida como:

uma resposta aos processos capitalistas, sendo a região entendida como a organização
espacial dos processos sociais associados ao modo de produção capitalista. Trata-se da
regionalização da divisão social do trabalho, do processo de acumulação capitalista, da
reprodução da força de trabalho e dos processos políticos e ideológicos. Alguns autores
argumentam ainda ser a região o resultado de práticas específicas de classe, de uma
cultura distinta ou do regionalismo (CORRÊA, 1996, p. 187).

A região política é “meio para as interações sociais”, e se baseia “na ideia de que domi-
nação e poder constituem fatores fundamentais na diferenciação de áreas” (CORRÊA, 1996, p.
188). A terceira concepção – região cultural - compreende “um conjunto específico de relações
culturais entre um grupo e lugares particulares, uma apropriação simbólica de uma porção
do espaço por um determinado grupo e, assim, um elemento constituinte de uma identidade”
(CORRÊA, 1996, p. 188).
As três concepções do conceito de região emergem após 1970, e apóiam-se também
na diferenciação de áreas, contrariando a ideia de que o mundo está se homogeneizando e as
regiões desaparecendo. Assim, em um período de globalização, que tende à homogeneização,
exprimi-se a fragmentação, a divisão territorial do trabalho e a constituição das regiões. De
acordo com Haesbaert (1999), a diversidade territorial no período de globalização faz com
que aflorem as regiões.
Remetendo-se às categorias de análise filosófica (universal, particular, e singular), a região
se constitui enquanto particularidade, ou seja, ela está entre o universal e o singular. O universal
na Geografia seria representado pelo espaço geográfico e o singular seria representado pelo
lugar. Assim, a região é resultado de:

processos universais que assumiram especificidades espaciais através da combinação


dos processos de inércia, isto é, a ação das especificidades herdadas do passado e soli-
damente ancoradas no espaço, de coesão ou economias regionais de aglomeração que
significa a concentração espacial de elementos comuns numa dada porção do espaço e
de difusão que implica no espraiamento dos elementos de diferenciação e em seus limites
espaciais impostos por barreiras naturais ou socialmente criadas (CORRÊA, 1996, p. 192).

Assim, as diferentes concepções sobre a região geralmente levam em consideração


fatores como: especificidades espaciais, aglomeração e concentração, elementos comuns,
diferenciação etc.

90 Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização


Para Santos (1996, p. 46):

Compreender uma região passa pelo entendimento do funcionamento da economia ao


nível mundial e seu rebatimento no território de um país, com a intermediação do Estado,
das demais instituições e do conjunto de agentes da economia, a começar pelos seus
atores hegemônicos.

Nas Figuras 1, 2 e 3, é possível verificar as principais concepções oficiais sobre a organiza-


ção regional do espaço geográfico brasileiro, as quais levaram em consideração os elementos aci-
ma, isto é, inicialmente considerando os elementos da paisagem, em suas características naturais,
representadas no clima, no relevo, na vegetação etc., posteriormente levando em consideração
as especificidades espaciais, associadas aos processos socioeconômicos, políticos e culturais.

70° 60° 50° 40° W

TERRITÓRIO DO
TERRITÓRIO
RIO BRANCO
DO AMAPÁ

AM PA MA CE RN
PI PB
PE
TERRITÓRIO AL
DO ACRE TERRITÓRIO DO SE 10° S
GUAPORÉ GO BA
Regiões MT
Norte
Nordeste ocidental MG
ES
Nordeste oriental
SP RJ 20°
TERRITÓRIO DE
Leste setentrional PONTA PORÃ PR DF
Leste meridional TERRITÓRIO DE SC
IGUAÇU 0 250 500 750 1000 Km
Centro-Oeste
RS Escala Aproximada
Sul
30°

Figura 1 – Divisão Regional do Brasil, 1945

Fonte: IBGE. Anuário estatístico do Brasil (1999).

Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização 91


70° 60° 50° 40° W

TERRITÓRIO DE
TERRITÓRIO
RORAIMA
DO AMAPÁ

AM PA MA CE RN
PI PB
AC PE
AL
TERRITÓRIO DE SE 10° S
RONDÔNIA GO BA
Regiões MT
DF
Norte
Nordeste MG
ES
Sudeste
SP RJ 20°
Centro-Oeste PR GUANABARA (GB)
Sul
SC 0 250 500 750 1000 Km
RS Escala Aproximada

30°

Figura 2 – Divisão Regional do Brasil, 1969


Fonte: IBGE. Anuário estatístico do Brasil (1999).

70° 60° 50° 40° W

RR AP

AM PA MA CE RN
PI PB
AC PE
TO AL
RO SE 10° S
MT BA
Regiões DF
Norte GO

Nordeste MG
MS ES
Sudeste
SP RJ 20°
Centro-Oeste PR
Sul
SC 0 250 500 750 1000 Km
RS Escala Aproximada

30°

Figura 3 – Divisão Regional do Brasil, 1988

Fonte: IBGE. Anuário estatístico do Brasil (1999).

92 Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização


1

1 Identifique e explique sucintamente as principais definições conceituais, aborda-


das na aula, sobre região, observadas até meados do século XX.

2 De acordo com o que foi visto na aula, identifique e explique as principais defini-
ções conceituais sobre região surgidas na última metade do século XX.

A reorganização do espaço
geográfico brasileiro no período
técnico-científico-informacional
A compreensão do processo de reorganização regional do espaço geográfico brasileiro
pressupõe a análise das diferentes concepções acerca da região, observando o contexto de
relações e transformações que marcam a sociedade nacional, bem como da sociedade-mundo
Nesse contexto, Corrêa (1996) propõe uma nova regionalização do espaço geográfico
brasileiro, reorganizando o território nacional com base em 3 regiões: a Região Centro-Sul, a
Região Nordeste e a Região Amazônica (Figura 4).

70° 60° 50° 40° W

RR AP

AM PA MA CE RN
PI PB
AC PE
TO AL
RO SE 10° S
MT BA
Regiões DF
Amazônia GO

Nordeste MG
MS ES
Centro-Sul
SP RJ 20°
PR

SC 0 250 500 750 1000 Km


RS Escala Aproximada

30°

Figura 4 – Complexos Regionais do Brasil


Fonte: Becker, Berta. Crescimento econômico e estrutura espacial do Brasil. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, ano 34, n. 4.

Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização 93


De acordo com Corrêa (1996), o Centro-Sul é formado pelas regiões Sudeste e Sul da
regionalização proposta pelo IBGE no século XX, e mais os estados federativos do Mato Grosso
do Sul, Goiás e o Distrito Federal. O Centro-Sul caracteriza-se pela concentração dos principais
centros de gestão econômica e política do país (São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília), onde se
concentra a produção industrial; são as áreas mais urbanizadas do território, em que a rede
de circulação é mais densa e se evidenciam os principais nós de circulação. Caracteriza-se
também como a principal área agropecuária do país, região que recebe um grande número de
correntes migratórias e onde tem uma grande concentração de renda e de capital, bem como
a principal área política do país.
O Nordeste é definido por todos os estados da Região Nordeste proposta pelo IBGE,
exceto o Maranhão. Caracteriza-se, segundo Corrêa (1996), como a região de importância
declinante da agropecuária nacional, a região de perda demográfica para as demais regiões.
As atividades mais dinâmicas do Nordeste são controladas de fora da região, fazendo com que
suas atividades tenham uma pequena articulação interna, ou seja, a região caracteriza-se por
uma pequena divisão social e territorial do trabalho em relação ao Centro-Sul.
A Amazônia é formada pelos estados da Região Norte proposta pelo IBGE, e mais os
estados do Mato Grosso e do Maranhão. Essa região caracteriza-se pela apropriação dos
recursos naturais, com uma histórica dizimação física e cultural da base social anteriormente
existente, como os indígenas. Também constitui uma região receptora de correntes migrató-
rias, principalmente do Centro-Sul, responsáveis pela formação da fronteira agrícola e pelo
estado de Rondônia.
Nesse espaço regional, são observados investimentos pontuais do capital e do Estado
capitalista em obras de infraestrutura. Nota-se interligação dessa com o Centro-Sul e o Nordeste
através de rodovias, portos e aeroportos, constituindo-se aí um mercado e um fornecedor de
produto industrializado do Centro-Sul.
Por fim, a região Amazônica caracteriza-se pelos diferentes tipos de conflitos sociais, que
envolvem desde os interesses de latifundiários, empresas trans e multinacionais, população
indígena, seringueiros e garimpeiros, sendo a terra o centro dos conflitos.
Essa regionalização difere parcialmente da proposta por Santos e Silveira (2001), quando
esses se referem ao período técnico-científico-informacional. Para os autores, tal regionalização
compreende “quatro brasis”, a Região Concentrada, a Região Centro-Oeste, a Região Nordeste
e a Região Amazônica (Figura 5).

NORTE
NORDESTE
CENTRO-OESTE
DESTE

94 Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização


70° 60° 50° 40° W

RR AP

AM PA MA CE RN
PI PB
AC PE
TO AL
RO SE 10° S
MT BA
Regiões DF
Amazônica GO

Nordeste MG
MS ES
Concentrada
SP RJ 20°
Centro-Oeste PR

SC 0 250 500 750 1000 Km


RS Escala Aproximada

30°

Figura 5 – Divisão Regional do Brasil, segundo Silveira e Santos, 2001

Fonte: Silveira e Santos (2001).

Ao analisar as transformações territoriais do espaço geográfico brasileiro no início do


século XXI, Santos e Silveira (2001) propõem uma periodização da história do território na-
cional. Para os autores, os períodos “são pedaços de tempo definidos por características que
interagem e asseguram o movimento do todo” (SANTOS; SILVEIRA, 2001, p. 24).
Para os autores, as periodizações feitas por economistas e sociólogos são importantes,
mas muitas vezes não abarcam a materialidade e a dinâmica do território. Nessa perspectiva,
propõe-se uma periodização a partir do desenvolvimento das técnicas, ou seja, a partir do meio
geográfico. As técnicas são “formas de fazer e de regular a vida” e são, também, cristalizações
dos “objetos geográficos, pois estes também têm um papel de controle devido ao seu tempo
próprio, que modula os demais tempos (SANTOS; SILVEIRA, 2001, p. 24).
Santos (2002) divide a história do meio geográfico em três períodos, a saber: o meio natural,
o meio técnico e o meio técnico científico informacional. O meio natural é o período em que “o
homem escolhia da natureza aquelas suas partes ou aspectos considerados fundamentais ao
exercício da vida, valorizando, diferentemente, segundo os lugares e as culturas, essas condições
naturais que constituíam a base material da existência do grupo” (SANTOS, 2002, p. 235).
O meio técnico é o período em que se “vê a emergência do espaço mecanizado. Os objetos
que formam o meio não são, apenas, objetos culturais; eles são culturais e técnicos, ai mesmo
(SANTOS, 2002, p. 236). O meio técnico-científico-informacional “começa praticamente após a
segunda guerra mundial, e sua afirmação, incluindo os países de terceiro mundo, vai realmente
dar-se no ano 70” (SANTOS, 2002, p. 238).
Seguindo essa linha de raciocínio, é possível entender os meios geográficos no Brasil.
O meio natural era formado por uma enorme floresta, a Mata Atlântica, associada a outra

Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização 95


maior, a Floresta Amazônica, e entre elas afloravam o Cerrado e a Caatinga. Nesse período, os
indígenas domesticavam plantas e animais e possuíam objetos semelhantes aos criados por
outros povos, além de habitarem aldeias e viverem em tribos nessas diversas florestas. Nesse
sentido, “os assentamentos humanos fundavam-se assim nas ofertas da natureza” (SANTOS;
SILVERA, 2001, p. 30).
O meio técnico no Brasil é formado por três momentos (SANTOS; SILVEIRA, 2001). O
primeiro é o Brasil arquipélago, com a mecanização incompleta; o segundo é o Brasil da cir-
culação mecanizada e dos inícios da industrialização, no qual se formou a Região Concentrada
e a urbanização do interior; e o terceiro é o momento da integração nacional.
Durante o período do Brasil arquipélago, começou o difuso processo de uso e ocupação
do solo brasileiro, originando-se as primeiras cidades, geralmente, ligadas a alguma atividade
econômica, com a instalação de alguns serviços do governo. Surgiram as cidades do ouro,
do diamante, das estradas de ferro, de passagem, das bocas do sertão conforme aponta De-
ffontaines (1944). Esse período é marcado também pela estrutura política do governo geral,
a vinda da família real portuguesa e a independência política do país. A escravidão também
marca a história desse período. A produção de cana-de-açúcar foi responsável pela ocupação
e a urbanização no litoral, porção geográfica mais urbanizada do Brasil atualmente. A mine-
ração, o ciclo da borracha, a criação de gado e a cotonicultura contribuíram sobremaneira
para a ocupação do interior do país. Portos, ferrovias e estradas de rodagem tornaram-se os
primeiros sistemas de engenharia do território nacional.
No período da circulação mecanizada, iniciaram-se as industrializações, isso na primeira
metade do século XX. Logo, “pode-se dizer que esse é o momento da mecanização do terri-
tório brasileiro e também da sua motorização, com a extensão, em sistema com os portos,
de linhas ferroviárias” (SANTOS; SILVEIRA, 2001, p. 38). Isso é possível de se situar entre o
início do século XX até a década de 1940. Nesse período, difundiram-se os bondes elétricos, a
iluminação pública, as primeiras indústrias, novos portos inaugurados, usinas elétricas cons-
truídas, bem como o desenvolvimento das telecomunicações. Acrescente-se no interior desse
processo o aumento populacional, aumento do crescimento vegetativo do país, além de maior
mobilidade espacial da população, proporcionado, dentre outras circunstâncias, pelo êxodo
rural, disseminação do pensamento higienista, aumento do número de cidades, entre outros
eventos e mudanças, embora o número de cidades com mais de 100 mil habitantes tenha se
mantido baixo até as décadas de 1940 e 1950-60. Nos anos 1950, o número de cidades com
mais de 500 mil habitantes também se mantinha bastante reduzido.
No que concerne à introdução das técnicas no território nacional, observa-se um processo
que se deu de forma bastante desigual, tendo uma maior densidade na denominada Região
Concentrada, que se consolidou como tal nos idos dos 1950-60.
O terceiro e último período do meio técnico é a integração nacional, na qual o Brasil avança
no processo de industrialização, configurando-se em São Paulo o principal parque industrial do
país. A concentração econômica e espacial foi facilitada pelo regime de Getúlio Vargas, no qual
a maior parte dos investimentos públicos foram destinados à Região Concentrada. Essa região
tornou-se destino de milhares de migrantes nordestinos, que buscavam melhores condições
de vida e emprego, muitas vezes fugindo das condições socioambientais presentes na região.
O final do período técnico é marcado pela transferência da capital brasileira para Brasília,
marcando a integração nacional, com a geopolítica de ocupação do Centro-Oeste e da Ama-
zônia, integrando essas regiões e o Nordeste à Região Concentrada. O governo de Juscelino

96 Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização


Kubitschek também foi responsável por investimentos em rodovias, favorecendo, sobretudo,
o mercado consumidor da indústria automobilística que se instalava no país.
Por fim, o meio técnico no Brasil é concluído com “um novo passo para a internacionali-
zação da economia brasileira” (SANTOS; SILVEIRA, 2001, p. 46) que, através do golpe militar
de 1964, assegurou a entrada de capitais estrangeiros no país e a consolidação de um parque
industrial altamente dependente de tecnologia e capital externos.
Os autores Santos e Silveira (2001) dividem o meio técnico-científico-informacional do
Brasil em dois períodos distintos: o primeiro período é o técnico-científico e o segundo é o
técnico-científico-informacional que advém juntamente com o período da globalização. O fim
da Segunda Guerra Mundial marca o início da revolução técnica e científica do capitalismo. Nos
países subdesenvolvidos, a ideologia do desenvolvimento e do crescimento se impõe aumen-
tando no pensamento dos indivíduos a necessidade do consumo. Aumentaram as migrações
para a Região Concentrada, a agricultura se moderniza, se mecaniza, consequentemente,
elevou o êxodo rural, logo, o processo de industrialização se consolidou, juntamente com a
urbanização acelerada. Nesse período, a rede urbana nacional passou a se estruturar de forma
considerável, principalmente através da criação de infraestrutura para dar fluidez ao processo
de produção e consumo. Nota-se, portanto, uma significativa ampliação do sistema técnico
no país, com um processo de urbanização concentrada e de metropolização (SANTOS, 2005).
Portanto, o meio técnico-científico-informacional consolida-se no Brasil na década de
1970. Para Santos (2000), esse termo é a expressão geográfica da globalização, período
representado pela unicidade técnica, pelo motor único, pela congnoscibilidade do planeta,
um período que é uma fábula, uma perversidade, mas, ao mesmo tempo, uma possibilidade.
Harvey (1992) denomina esse novo momento, marcado pela produção e acumulação
flexível do capital, de período pós-moderno, no qual os tempos tornaram-se efêmeros e os
espaços (distâncias) encurtados, período do desenvolvimento geográfico desigual (HARVEY,
2004), sob a égide do neoliberalismo.
Não importa a denominação, mas, sabe-se que o território no meio técnico-científico-
informacional, que também é um período, “ganha novos conteúdos e impõem novos com-
portamentos, graças às enormes possibilidades da produção e, sobretudo, da circulação dos
insumos, dos produtos, do dinheiro, das ideias e informações, das ordens e dos homens”
(SANTOS; SILVEIRA, 2002, p. 52 - 53).

Discuta a relação entre a reorganização regional do espaço geográfico brasileiro e


1 o avanço do meio técnico-científico-informacional.

Explique os principais períodos e elementos discutidos por Santos e Silveira (2001)


2 capazes de justificar e explicar uma nova concepção regional para o Brasil.

Explique a concepção de Corrêa (1996) sobre a reorganização regional do espaço


3 geográfico brasileiro.

Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização 97


Leituras complementares

Recomenda-se o material a seguir para um maior aprofundamento do conteúdo traba-


lhado na aula.

BEZZI, Meri Lourdes. Região: Uma (re)visão historiográfica da gênese aos novos paradigmas.
Santa Maria: UFSM, 2004.
Nesta obra, a autora revisa os diferentes conceitos sobre região, buscando nas escolas
do pensamento geográfico ferramentas para problematizar tais concepções.

CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. São Paulo: Atlas, 1997.
O autor recorre às diferentes concepções sobre a região nas escolas do pensamento
geográfico, mostrando a evolução do conceito, bem como a importância de tal concepção no
processo de organização espacial

IANNI, Octávio. Nacionalismo, regionalismo e globalismo. In: BOLAÑO, César; SIQUEIRA,


Ricardo (Org.). Globalização e regionalização das comunicações. Aracaju: EDUC/UFS, 1995.
Neste texto, o autor mostra como no processo de globalização a região é revalorizada e
entendida, necessitando ser analisada mediante o contexto de relações que marcam os pro-
cessos contraditórios de globalização e fragmentação.

Resumo

Na história do pensamento geográfico, a região tem sido estudada em


diferentes escolas, com enfoques teóricos também distintos. No atual processo
de globalização, a região é vista, por alguns teóricos, como pouco relevante
nos estudos geográficos, haja vista as transformações globais e o “processo
homogeneizador” dos espaços, mas também é vista como importante de ser
estudada, pois, paralelamente ao movimento homogeneizador, existe também
um movimento de diferenciação, fragmentação e segregação espacial, daí
a importância dos estudos regionais, seja numa ótica geopolítica, cultural ou
econômica. Nesse sentido, esta aula apresenta um debate sobre o processo de
regionalização face ao atual processo de globalização, voltando-se especificamente
para a explicação da reorganização regional do espaço geográfico brasileiro em
tempos de globalização. O trabalho apresenta ainda os processos oficiais de
regionalização do espaço geográfico brasileiro, elucidando as concepções teóricas
sobre esse mesmo assunto.

98 Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização


Autoavaliação
A partir das discussões contidas na aula, discuta as principais concepções geográ-
1 ficas sobre a região, destacando a evolução conceitual sobre esse conceito-chave
da ciência geográfica

Com base na aula, discuta a relação entre o processo de reorganização regional do


2 espaço geográfico brasileiro e a configuração do meio técnico-científico-informacional.

Mostre a evolução do processo oficial de regionalização do Brasil, fazendo referên-


3 cia às principais fases e mudanças implícitas no referido processo.

Identifique e explique as concepções teóricas apontadas no texto sobre a reor-


4 ganização regional do espaço geográfico brasileiro em tempos de globalização,
especialmente mediante a configuração do meio técnico-científico-informacional.

Referências
CORRÊA, Roberto Lobato. Trajetórias geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.

CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. São Paulo: Ática, 1986.

DEFFONTAINES, Pierre. Como se constitui no Brasil a rede de cidades. Boletim Geográfico,


Rio de Janeiro, ano 2, n. 14-15, abr. 1944.

HAESBAERT, Rogério. Região, diversidade territorial e globalização. In: GEOgraphia, ano 1,


n. 1, 1999.

HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992.

______. Espaços de esperança. São Paulo: Loyola, 2004.

SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século
XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.

SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. 5. ed. São Paulo: Edusp, 2005.

______. Economia espacial. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2003.

Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização 99


SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo: razão e emoção. 4. ed. São Paulo:
Edusp, 2002.

______. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2000.

______. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvi-
dos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979.

______. Metamorfoses do espaço habitado. São Paulo: Hucitec, 1996.

Anotações

100 Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização


Anotações

Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização 101


Anotações

102 Aula 5 Espaço, Tecnologia e Globalização


A informação e a comunicação
no espaço globalizado

Aula

6
Apresentação

N
esta aula, discutiremos como a informação e a comunicação se produz e se reproduz
face ao atual processo de globalização, servindo muitas vezes para reforçar o contexto
ideológico vigente, marcado pelo despotismo do consumo, pelo poder das empresas
e pelo poder midiático, eventos marcantes no período atual. Ademais, será discutido como a
informação e a comunicação se (re)produz obedecendo a lógica da acumulação e reprodução
desigual do capital.

Objetivos
Reconhecer como se processa a informação e a comuni-
1 cação no contexto da globalização.

Identificar o papel da informação no processo de repro-


2
dução do capital e, por conseguinte, no processo de pro-
dução do espaço.

Reconhecer como o Brasil participa do sistema de (re) produ-


3 ção de informação e comunicação em tempos de globalização.

Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização 105


A informação e a comunicação
no espaço globalizado:
breves considerações

P
ara Mattelart (2002a), o processo de internacionalização da comunicação se originou
a partir de dois pensamentos, a saber: o Iluminismo e o Liberalismo no século XVIII.
Assim, a comunicação internacional surge juntamente com a constituição dos Estados
nacionais burgueses, que exercem suas soberanias nos territórios.
Com a égide do Iluminismo, a comunicação é inventada como a ideia da modernidade e
da perfeição, propondo o comércio como gerador de valores. Nesse sentido, a liberalização
dos fluxos torna-se um importante fator para o crescimento das trocas e do comércio nos
territórios nacionais. O desenvolvimento das ideias iluministas é acompanhado pela revolução
da linguagem, pois, os Estados também necessitavam de uma única língua e da padronização
de pesos e medidas para que houvesse a soberania. A comunicação de sinais torna-se um
importante instrumento, e o telégrafo (Figura 1) é inventado e difundido como fruto da busca
da “linguagem de sinais”. Nesse contexto, se padroniza e se normatiza a comunicação como
forma de facilitar o exercício da soberania do Estado burguês sobre seu território.

Figura 1 – Primeiro telégrafo

Fonte: <http://www.batlab.ufms.br/~rubens/TEL%C3%89GRAFO.htm>. Acesso em: 8 nov. 2010.

Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização 107


Importante

O primeiro telégrafo foi patenteado em 1837. Tinha seis fios e cinco agulhas
magnéticas, de onde surgiu o nome de telégrafo de 5 agulhas. As agulhas
eram acionadas por eletroímãs. Eram acionadas duas agulhas de cada vez, pois
cada letra era definida por duas agulhas.
Foi com o pintor Samuel Finlay Breese Morse, o qual inventou um sistema mais
prático, com um interruptor, um eletroímã e apenas um fio, que o telégrafo
avançou significativamente em termos de popularização e eficiência.

CÓDIGO MORSE U .._

A ._ F .._. K _._ P ._ _. V ..._

B _... G _ _. L ._.. Q _ _._ W ._ _

C _._. H .... M __ R ._. X _.._

D _.. I .. N _. S ... Y _._ _

._
E . J O ___ T _ Z _ _..
__

A passagem de impulsos elétricos pelo eletroímã fazia com que o lápis se mo-
vesse na superfície de uma fita de papel apoiado sobre um cilindro. À medida
que a fita avançava sobre o cilindro, o lápis ia traçando uma linha ondulada, a
qual incorporava o código ou o dito alfabeto de Morse.
Fonte:<http://www.batlab.ufms.br/~rubens/TEL%C3%89GRAFO.htm>. Acesso em: 8 nov. 2010.

Com a consolidação do capitalismo comercial, passa a existir uma divisão internacional


do trabalho, na qual os mercadores eram os responsáveis pelas trocas de mercadorias e de
capital entre os diversos Estados que se constituíam na Europa. Em 1865, com o advento do
telégrafo elétrico, é criada a União Telegráfica Internacional, e alguns anos após são criadas
a União Geral dos Correios (1874), a Comissão Internacional de Pesos e Medidas (1875), a
Convenção Nacional para a Regulamentação das Rotas Marítimas (1879), entre outras ins-
tituições internacionais que foram responsáveis pelo que Matterlart (2002a) denominou de
primeiro espaço unificado dos fluxos, ou seja, as primeiras regulamentações internacionais.
A esse contexto, acrescenta-se o trem como símbolo do Estado nacional industrial. A
primeira estrada foi feita na Inglaterra em 1830, disseminando-se por outras partes da Europa,
em especial a partir da década de 1870. Para facilitar a troca desses fluxos de mercadorias,

108 Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização


capital e pessoas entre os Estados, cria-se o horário universal em 1884, tendo como marco
zero o horário de Greenwich.
No século XIX, a Inglaterra já era a primeira grande potência mundial, onde se concentrava
a maior parte dos destinos e origens dos fluxos econômicos e financeiros do mundo, e onde
se consolidou a comunicação com a construção do cabo submarino ligando Londres a Paris
na década de 1850.
No início do século XX são criadas as primeiras radiocomunicações. De acordo com
Matterlart (2002a), há uma estreita ligação entre o desenvolvimento da comunicação e os
conflitos na segunda metade do século XIX. O desenvolvimento da comunicação está ligado
diretamente à necessidade de soberania do Estado e a expansão do território proposta por
Ratzel, disseminando-se assim a ideia das redes que “oxigenam” o território.
Claude-Henri de Saint Simon, um dos primeiros estudiosos a usar o termo redes, pro-
põe a disseminação da ideia de associação universal, no qual o mundo seria formado por um
conjunto de trabalhadores associados em busca de um bem comum. A ideia de redes de Saint
Simon é disseminada para a construção das redes de estradas, de ferrovias e da comunicação
que “encurtariam” as distâncias. Seguindo essa ideia determinista das redes, dissemina-se
também a ideia da internacionalidade das redes sociais. A disseminação da comunicação e a
tendência a torná-la mundial deixa de ser uma utopia e passa a ser uma possibilidade com o
desenvolvimento da energia elétrica.
É importante frisar que no século XIX inventam-se os “news” (jornais), e dissemina-se
o ideal da informação instantânea. Entre 1830 e 1850 foram criadas as grandes agências, e
massifica-se a produção cultural. A indústria do cinema e da música dissemina e exporta uma
cultura associada, sobretudo ao despotismo do consumo.
As agências de notícias se disseminam pelo mundo no século XIX, com a criação da AFP
(França) em 1835, da Wolff (Alemanha) em 1851, e da Reuter (Inglaterra). Nos Estados Unidos
são criadas a Times, Financial Times, e o Wall Street Journal. A disseminação da informação
econômica nesses países torna-se importante para as suas estratégias do capital já avançado.
Nesse contexto, os primeiros gêneros da cultura de massa se disseminam pela França nas
décadas de 1830 e 1840, através das histórias em quadrinhos. Na década de 1870 disseminam-
se os desenhos animados e os sons dos personagens, e no final do século XIX é criado o
primeiro filme. Portanto, a indústria fonográfica e cinematográfica já nasceu internacionalizada.
No século XIX consolida-se a ideia de que a comunicação é responsável pela constituição
do mundo enquanto um organismo no qual as partes são solidárias, ou seja, há uma “solida-
riedade orgânica”. No início do século XX propaga-se a ideia de que a interdependência das
nações conduz o mundo para uma unificação cultural. Matterlart (2002a) mostra o exemplo
das línguas que tendiam a uma homogeneização, colocando o inglês como a língua universal,
e com isso, outras línguas tenderiam a se homogeneizar como a língua a espanhola, a ger-
mânica e a eslava.
A propaganda se consolida no período entre guerras, disseminada pelos Estados Unidos
como forma de propagar a internacionalização do rádio.
A Primeira Guerra Mundial é vista como a guerra de informação, e durante o conflito
cresceu a importância da propaganda para a disseminação dos discursos políticos e sociais
dos diversos cientistas do mundo. A propaganda serviu também para disseminar a ideia da paz
mundial no período entre guerras. Portanto, a disseminação da cultura norte-americana se deu
através da propaganda e da disseminação da informação através dos meios de comunicação.

Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização 109


Já a França lança outra estratégia, que é o intercâmbio entre os estudiosos e pesqui-
sadores franceses e os países (ex-colônias) como forma de disseminar a cultura francesa.
Nesse período, diversos estudiosos franceses criaram cursos universitários em vários países
do mundo, a exemplo de Pierre Mombeig que ajudou a criar cursos de Geografia em univer-
sidades brasileiras.
Ainda durante a Primeira Guerra Mundial desenvolveram-se as técnicas de decodificação
de mensagens com o desenvolvimento do telégrafo, da telefonia e das radiocomunicações.
Concomitantemente, avança a indústria cinematográfica e, em 1919, cerca de 90% dos filmes
exibidos na Europa eram da indústria de Hollywood. Desse período até o ano de 1930 criaram-
se a Warner, a 20th Century, a Fox, a Walt Disney.
Ao lado da disseminação da cultura em massa, disseminam-se as indústrias automobi-
lísticas fordistas, através das fábricas da Ford e da General Motors. O que pode se chamar de
avanço do processo de americanização do mundo.
Ademais, as rádios sustentam a internacionalização da propaganda da cultura norte-
americana. Isso também serviu para que os governos mostrassem o que estão fazendo para
a construção do território nacional. A Igreja Católica também criou a Rádio Vaticano como
forma de disseminar seu poder e sua fé. E a rádio serviu por fim para disseminar a ideia da
sociedade alemã, a raça ariana proposta pelo Terceiro Reich.

Faça uma breve contextualização histórica sobre os avanços do sistema de comunicação


e informação, levando em consideração os principais eventos que marcam esse processo.

110 Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização


A geopolítica
bipolar das tecnologias
Ao discutir a geopolítica bipolar das tecnologias, Mattelart (2002a) afirma que durante a
Guerra Fria há um grande salto no desenvolvimento da propaganda e da comunicação através
da implantação dos sistemas de satélite. Diante desse processo o conflito Norte/Sul é masca-
rado pelo conflito Leste/Oeste (Socialismo/Capitalismo).
Nesse período são criadas a CIA e a USIA, agências de informação, comunicação e inves-
tigação dos Estados Unidos. Sob a égide do pensamento liberal a comunicação se dissemina
pelo mundo, fazendo com que a cultura ocidental adentrasse e fosse incorporada pelos países
do Oriente. Em 1947, a União Internacional das Telecomunicações é incorporada à ONU. Os
países do Leste viram esse fato como uma invasão dos “meios de comunicação burgueses”.
Desse modo, a Guerra Fria também se transforma na guerra “pela conquista do espaço”.
Assim, EUA e URSS buscam a conquista do espaço. Em 1959, a IBM cria o primeiro compu-
tador que veio apoiar o desenvolvimento das tecnologias na busca pela conquista espacial
(Figura 2). Em 1957, a União Soviética lança o primeiro satélite artificial, o Sputnik (Figura
3). EUA e URSS criaram e lançaram diversos satélites durante alguns anos, como o Telstar,
o Early Bird, e o principal o ERTS-1. A Europa, que entrou atrasada nesta corrida, lançou
posteriormente o Spot.

Figura 2 – Primeiro computador totalmente eletrônico


Fonte: <http://frizarini.blogspot.com/2009/
03/mark-11944-aiken.html>. Acesso em: 8 nov. 2010.

Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização 111


IMPORTANTE

O Mark I, foi o primeiro computador totalmente eletromecânico produzido pela


IBM: ele tinha cerca de 17 metros de comprimento por 2 metros e meio de
altura e uma massa de cerca de 5 toneladas.  O barulho do computador em
funcionamento, segundo relatos da época, se assemelhava a varias pessoas
tricotando dentro de uma sala. Mark I continha nada menos que 750.000 partes
unidas por aproximadamente 80 km de fios.
Fonte: <http://frizarini.blogspot.com
/2009/03/mark-11944-aiken.html>. Acesso em: 8 nov. 2010.

Figura 3 – Sputnik: primeiro satélite artificial

Fonte: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Sputnik>. Acesso em: 8 nov. 2010.

IMPORTANTE

O Sputnik foi a primeira série de satélites artificiais soviética concebida para


estudar as capacidades de lançamento de cargas úteis para o espaço e para es-
tudar os efeitos da ausência de peso e da radiação sobre os organismos vivos.
Serviu também para estudar as propriedades da superfície terrestre com vista
à preparação do primeiro voo espacial tripulado.
Fonte: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Sputnik>. Acesso em: 8 nov. 2010.

No período pós-guerra cria-se a necessidade do desenvolvimento. A partir daí o nível de


desenvolvimento de uma sociedade, de uma nação passa a ser medido pelo nível de consumo,
pela geração de riquezas, e pelo Produto Interno Bruto. Nesse contexto, os países do Terceiro
Mundo passaram a buscar esse desenvolvimento econômico, ou através do Capitalismo, ou
através do Socialismo soviético. Alguns países do chamado Terceiro Mundo criaram um terceiro
eixo para não se aliarem ou aos EUA ou a URSS.

112 Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização


A transnacionalização
e a razão geoeconômica
Duas ideias entraram em conflito na década de 1970. De um lado as corporações mundiais
se integram e formam redes. E de outro há um temor de investimento dessas grandes empresas
nos países subdesenvolvidos que estavam em processo de nacionalização e independência.
Nesse sentido, as empresas de comunicação adentram no conflito entre o global, o nacional
e o local. Assim, os meios e as empresas de comunicação passam a ter uma influência maior
sobre a vida da população mundial, e em especial na propagação da cultura e da ideologia
capitalista e do Primeiro Mundo sobre os países periféricos.
Nota-se que houve uma expansão das redes publicitárias. O Estado entra no “jogo” dessas
empresas, atendendo aos interesses das mesmas. Assim, consolida-se a internacionalização
das redes na década de 1970. Revistas norte-americanas passaram a ter suas edições em
outros países e em outras línguas como Scientific American, Cosmopolitan, Family circle,
Playboy, Glamour, Good Horsekeeping, Time, Newsweek, Readers’Digest.
De acordo com Mattelart (2002a), a década de 1970 marca a consolidação de um novo
capitalismo, com novas dinâmicas globais, regionais e locais, com aumento dos fluxos cada
vez mais instantâneos, e as distâncias tornando-se “reduzidas”, favorecendo também a com-
pressão espaço-tempo. Há uma tendência à homogeneização da cultura mundial, mas essa
tendência faz com que aflorem as diferenças e especificidades culturais.
Nesse contexto, os países do chamado Terceiro Mundo passaram a importar, e continuam
importando, as tecnologias dos países desenvolvidos. Apesar da entrada de empresas estran-
geiras nos países subdesenvolvidos, o aparato técnico-científico continuou sob o poderio das
nações desenvolvidas.

Mostre as principais características que marcam a geopolítica bipolar das tecnolo-


1 gias durante o século XX.

Explique o processo de transnacionalização da economia capitalista associando à


2 (re)produção do sistema de informação. Contextualize como a informação favore-
ce e legitima tal processo.

Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização 113


Globalização:
(re)visitando o processo histórico
Para Mattelart (2002a, p. 123), a globalização é “o processo de unificação do campo
econômico e, por extensão, caracteriza o estado geral do planeta”.
Vale salientar que a globalização aumentou o intercâmbio financeiro, aumentando os
fluxos de trocas monetárias internacionais. A globalização torna-se, assim

um modelo de administração de empresas que, respondendo à crescente complexidade


do ambiente da concorrência, procede da criação e da exploração de competências em
nível mundial, objetivando maximizar os lucros e consolidar suas fatias de mercado
(MATTELART, 2002a, p. 125).

Ao mesmo tempo em que padroniza, o processo de globalização provoca a segmentação.


Nessa perspectiva, a comunicação passa a ser um fator estratégico nesse modelo de gestão
global. A tecnologia, o desenvolvimento científico e a informação econômica transformaram o
papel da comunicação, aumentando sua importância na estratégia das empresas e dos atores
públicos. Com a pesquisa científica sendo influenciada pelos interesses de grandes empresas,
as pesquisas desenvolvidas nas universidades passam a ter uma finalidade operacional ou
administrativa, tornando distante a sua relação com o objeto.
Nota-se ainda no período a busca pelo mercado único de imagens, constituindo-se num
desafio do período da globalização. A televisão passa a ter um papel fundamental, canais de
TV por assinatura, via satélite, passam a se disseminar pelo mundo. Cresceu nesse período a
indústria da imagem interligada ao desenvolvimento das redes de informação e da multimídia.
Ademais, Mattelart (2002a) identifica a Guerra do Golfo como a Guerra da Comunicação,
a Guerra Globalizada. Segundo o autor, o primeiro motivo para isso seria a estratégia de infor-
mação e censura imposta pelo Pentágono. E o segundo motivo porque é a guerra da perícia, da
informação, da comunicação, da tecnologia e dos “armamentos inteligentes”. Transmissões dos
ataques norte-americanos eram feitas “ao vivo” e em tempo real para a maior parte do planeta.
Pensando numa crítica ao globalismo, e observando o novo mapa das desigualdades
territoriais e regionais é possível verificar a complexidade da sociedade atual, marcada por
eventos globais. Para o teórico “a integração das economias e dos sistemas de comunicação
conduz ao surgimento de novas disparidades entre países ou regiões, e entre os grupos sociais”
(MATTELART, 2002a, p. 149-150).
Diante do exposto, nota-se que se desenvolve o conceito de “comunicação-mundo” que
é o inverso “do que faz crer a representação igualitária e globalista do planeta, o qual permite
analisar o sistema em via de mundialização sem transformá-lo num fetiche, ou seja, restituindo-
lhe sua concretude histórica” (MATTELART, 2002a, p. 150).
O estudioso denomina a monocultura de “McMundo” que é “o resultado lógico do livre
comércio e da formação dos grandes blocos econômicos” (MATTELART, 2002a, p. 157). Assim,
a “aldeia global tem alimentado o imaginário do grande público sobre o futuro da comunidade
humana e que, na das empresas, tem, sobretudo, constituído uma fonte inesgotável de legi-
timação das grandes sagas da conquista do mercado mundial” (MATTELART, 2002a, p. 157).

114 Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização


A negação à homogeneização da cultura, imposta pelos impérios e países hegemônicos
ao longo da história, é um fato importante para a compreensão da segmentação na globali-
zação. O interesse pela singularidade das culturas fez com que o sistema global impusesse
através da mídia, da informação e da comunicação a cultura do Estado hegemônico mundial,
a massificação de uma cultura global. Nesse sentido, aquela cultura que não foi mundializada
(globalizada) tende à mundialização.
As reações ao globalismo são identificadas por Mattelart (2002a) através do papel exerci-
do pelas ONGs que, através de suas atuações, forçaram a criação de instituições internacionais
e de movimentos como a Conferência de Estocolmo em 1972, a Rio-92, e os diversos “Fóruns”
pelo mundo. Nesse sentido, as ONGs têm um importante papel sobre “o pensar no global e o
agir no local”. Seguindo essa mesma linha de raciocínio de Mattelart (2002a),pode-se comple-
mentar a análise citando a obra do geógrafo Milton Santos “Por uma outra globalização”, que
destaca, uma certa força contra o globalismo, contra a globalização em curso, uma globalização
como possibilidade, diferente da globalização fabulosa da mídia e dos atores hegemônicos, e
da globalização perversa da realidade.
No texto “a sociedade global da informação: implicações geopolíticas”, Armand Matterlat
(2002b) traz uma discussão a respeito de como as tecnologias da informação têm trazido
transformações no setor econômico e gerado novas configurações mundiais, principalmente
no âmbito das políticas de mercado.
A princípio Matterlat (2002b) destaca a ocorrência de uma emigração da linguagem
revolucionária para o campo do liberalismo, o qual transformou a “revolução da informação”
em uma expressão com pretensões totalizantes, bem como revoluções que se desencadea-
ram, a exemplo da revolução, nas relações diplomáticas. Sobre esse aspecto o autor afirma
que dentro da era tecnoeletrônica o conceito de diplomacia das redes dá uma nova forma aos
parâmetros da hegemonia, nos quais o poder de um determinado país procede do saber, do
acúmulo de conhecimentos e isso é o que lhe garante a hegemonia sobre outros. Ou seja, a
hegemonia passa a pertencer ao mais desenvolvido no que se refere às tecnologias de infor-
mação e comunicação.
Nesse contexto surgem então os conflitos e as disputas nos quais os EUA são apontados
como polarizador das tecnologias da informação, em que se funda o termo entendido como
a atração que a democracia americana e os mercados livres exercem (MATTELART, 2002b).
Vale frisar que estes possuem certa capacidade de manipulação dos resultados almejados. E
dentro desse contexto observa-se ainda uma nova forma de conflito intitulada ,que se constitui
em uma ação conduzida por atores não estatais que influenciam diretamente as hierarquias
governamentais por meio das redes.
Discute-se também a revolução nas questões militares, na qual se cita até mesmo o
exemplo dos EUA se utilizando de instrumentos de informações, sistema de visualização de
terrenos (PowerScene), para levar os presidentes da Bósnia, da Croácia e da Sérvia a chegarem
a um acordo sobre as linhas de cessar fogo. Fato que viria a confirmar a supremacia americana
no que diz respeito à hegemonia das tecnologias da informação.
Outro fator que Mattelart (2002b) pontua no texto é o da questão da permanência ou
extinção das mediações no mundo global informatizado. Portanto, reconhece-se que as discus-
sões acabam por concordar com o fim dos determinantes sociais e econômicos na construção
dos modelos de implantação das tecnologias digitais e de suas redes. Ou seja, a tecnologia de
comunicação e informação rompe com barreiras e dispensa mediadores em meio às transações

Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização 115


em todas as escalas. E até mesmo o Estado não se constitui mais em um mediador como antes.
Sendo assim, cabe-nos afirmar que nasce daí uma espécie de sociedade autônoma para fazer
transações diretas. Cria-se a ideia de um mundo sem obstáculos e sem leis no qual, como
afirma Mattelart (2002b) o local, o nacional e o global se interpenetram com liberdade legiti-
mada, mas ocorre apenas no mundo das empresas, da política em estado puro e do dinheiro
em estado puro como destaca o geógrafo Milton Santos.
E, por fim, é possível observar as “tecno-utopias” nas quais se insere a falsa ideia do
igualitarismo. No entanto, Mattelart (2002b) concorda com a ideia de que a segregação per-
manece de maneira bem evidente, uma vez que desde que o sistema econômico iniciou o
processo de mundialização, a sociedade passou a ser dividida de acordo com o seu nível de
desenvolvimento, aumentando assim as separações entre as economias, as sociedades, como
também as culturas.
O fato é que as tecnologias de comunicação e informação não foram proporcionadas de
forma geral para todos os países e dessa forma produziu a marginalização daquelas nações
que não tiveram condição de aderir ao novo sistema informacional. Consequentemente, “a era
digital redesenha a fisionomia dos territórios”.
É desse resultado que surgem as iniciativas de resistências dos desfavorecidos da era
informacional, por meio da organização de sindicatos, associações, dentre outros movimentos
sociais. Esses atores não hegemônicos vislumbram influenciar outras sociedades a participa-
rem da luta contra essas desigualdades geradas pelo avanço das tecnologias da informação
que beneficia apenas parte do mundo, especialmente o mundo desenvolvido.

Faça uma breve contextualização sobre o avanço do processo de globalização re-


1 lacionando com o avanço das tecnologias da informação a partir da última metade
do século XX.

Explique as contradições que marcam a (re)produção da informação no contexto


2 do atual processo de globalização.

116 Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização


Uma crítica ao atual sistema
ideológico de produção da informação
Para entender como a informação se (re)produz no atual sistema ideológico de coisas é
preciso compreender sua relação com o dinheiro e com a política. Ao enfatizar a globalização
como perversidade no sistema ideológico, Santos (2001) aponta que dentre os fatores que
constituem a globalização encontra-se a forma como a informação é oferecida à humanidade,
associada à emergência do dinheiro em estado puro como motor da vida econômica e social.
Para esse autor, “são duas violências centrais, alicerces do sistema ideológico que justifica as
ações hegemônicas e leva ao império das fabulações, a percepções fragmentadas e ao discurso
único do mundo, base dos novos totalitarismos – isto é, dos globalitarismos – a que estamos
assistindo” (SANTOS, 2001, p. 38).
Nota-se, portanto, um papel despótico da informação, como se esta se tornasse impres-
cindível na sociedade atual, tanto para as empresas, quanto para os atores sociais de modo
geral. Santos (2001) entende que as condições técnicas atuais deveriam antes

permitir a ampliação do conhecimento do planeta, dos objetos que o formam, das socie-
dades que o habitam e dos homens em sua realidade intrínseca. Todavia nas condições
atuais, as técnicas da informação são principalmente utilizadas por um punhado de
atores em função de seus objetivos particulares. Essas técnicas da informação (por
enquanto) são apropriadas por alguns Estados e por algumas empresas, aprofundando
assim os processos de criação de desigualdades. É desse modo que a periferia do
sistema capitalista acaba se tornando ainda mais periférica, seja porque não dispõe
totalmente dos novos meios de produção, seja porque lhe escapa a possibilidade de
controle (SANTOS, 2001, p. 38).

Praticamente toda a informação produzida e transmitida à maior parte da humanidade


atualmente sobrepuja-se de forma extremamente manipulada e manipuladora, constituindo
uma ideologia que, como afirma Santos (2001), em vez de esclarecer, confunde, tudo isso
associado ao imperativo do consumo que marca o contexto social atual.
Nesse contexto, a publicidade tem um papel altamente relevante, o que Santos (2001, p.
40) chama de “nervo do comércio”, pois “há uma relação carnal entre o mundo da produção
da notícia e o mundo da produção das coisas e das normas. A publicidade tem, hoje, uma
penetração muito grande em todas as atividades [...] Hoje, propaga-se tudo, e a própria política
é, em grande parte, subordinada às suas regras”.
Portanto, o sistema informacional é resultado de todo um processo evolutivo, ideolo-
gicamente concebido, associado ao sistema produtivo capitalista, mas também ao sistema
financeiro e político contemporâneo, marcado pela emergência do dinheiro em estado puro
como motor da vida econômica e social, responsável em boa medida pelo acirramento das
desigualdades socioespaciais e pela pobreza estrutural dos tempos de globalização.

Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização 117


4

Discuta como Milton Santos analisa o atual sistema ideológico da globalização


1 como perversidade, haja vista o papel despótico da informação.

2 Esclareça o que o autor denomina “tirania da informação e do dinheiro”

Leituras complementares

Orientam-se como leituras complementares, essenciais para o aprofundamento do con-


teúdo trabalhado na aula:
RECTOR, Mônica; NEIVA, Eduardo (Org.) Comunicação na era pós-moderna. Petrópolis:
Vozes, 1998.
Trata-se de uma coletânea de textos sistematizada em torno do tema comunicação conso-
nante com o período atual. A obra discute desde os aspectos históricos, culturais e evolutivos
sobre os sistemas de comunicação e (re)produção da informação, passando pela ética, mo-
delos e tipos de comunicação, além da constituição desse mesmo sistema na América Latina.

SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico-informacional.


5. ed. São Paulo: Hucitec, 2008.
Nessa obra, o autor discute a concepção de técnica, numa relação espaço-temporal, se
utilizando de categorias de análise importantes para explicar o atual processo de globaliza-
ção e o meio técnico-científico-informacional. O texto esclarece, sobretudo, como a técnica
se constitui no elo entre os sistemas de objetos e os sistemas de ações, afetando a própria
constituição do espaço geográfico.

118 Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização


Resumo

Nesta aula, discutiu-se o processo histórico sobre a evolução do sistema


informacional, evidenciando-se o papel da técnica e da tecnologia em seus diferentes
eventos e contextos. Discutiu-se a importância do sistema informacional enquanto
um sistema ideológico, associado, sobretudo, ao sistema produtivo do capital, mas
também ao sistema financeiro e político, legitimadores do despotismo do dinheiro,
o qual se imbrica ao despotismo do consumo. Por fim, faz-se uma crítica a esse
sistema ideológico, marcado pela tirania da informação e do dinheiro, baseando-se
na teoria do geógrafo Milton Santos, o qual entende o período como sendo marcado
pela emergência do dinheiro em estado puro, o qual se constitui como motor da vida
econômica e social, responsável em boa medida pelo aumento das desigualdades
sociais e pela pobreza estrutural em tempos de globalização.

Autoavaliação
Com base nas discussões feitas ao longo do texto, discuta como se dá a configu-
1 ração do sistema informacional em sua evolução histórica.

Faça uma relação entre o papel da comunicação e da informação e a (re)produção


2
do capital. Para sua análise leve em consideração o poder manipulador e manipu-
lável do sistema ideológico da informação.

Estabeleça uma crítica ao sistema ideológico vigente, o qual pauta-se no despotis-


3
mo da informação e no despotismo do consumo.

Referências
MATTELART, Armand. A globalização da comunicação. 2. ed. Tradução de Laureano Pelegrin.
Bauru: EDUSC, 2002a.

______. História da sociedade da informação. São Paulo: Edições Loyola, 2002b.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal.
Rio de Janeiro: Record, 2001.

Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização 119


Anotações

120 Aula 6 Espaço, Tecnologia e Globalização


NTIC e as empresas em redes

Aula

7
Apresentação

N
esta aula, buscamos explicitar a importância das Novas Tecnologias da Informação e da
Comunicação na lógica de atuação das empresas no sistema-mundo. O surgimento de
uma Nova Economia em escala global sob a égide das novas tecnologias da informação
tem orientado, desde o último quartel do século XX, novos caminhos para o funcionamento
e sobrevivência das empresas, como é o caso da articulação de sua produção a uma rede.
A organização em rede vem sendo o principal modelo para o aumento da produtividade
e competitividade das empresas no dinâmico contexto da economia global. As estratégias
empresariais estão a cada dia sendo induzidas no sentido de incorporar-se a uma rede para ter
a possibilidade de agregação de mais valor à produção, ou monopolizar mercados, e assumir
assim novos empreendimentos em torno de sistemas produtivos de redes dinâmicas e flexíveis.

Objetivos
Reconhecer a importância das Novas Tecnologias da
1
Informação e da Comunicação para as empresas ditas
globais (multinacionais).

Identificar como se processam as redes e os fluxos (de


2
capital e informação) no contexto da globalização.

Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização 123


Novas Tecnologias da Informação
e da Comunicação e empresas globais

A
s Tecnologias da Informação podem ser definidas como sendo todo o conjunto de
aportes técnicos provenientes do desenvolvimento da Engenharia da Computação
que contempla, fundamentalmente, tecnologias associadas à microeletrônica, de-
senvolvimento de softwares e hardwares aplicados às telecomunicações e radiodifusão. No
entanto, para entendermos a Tecnologia da Informação enquanto processo e paradigma da
“Nova Economia” em escala global, faz-se necessário antes de tudo, delimitar algumas das
principais consequências históricas decorrentes da própria evolução estrutural do capitalis-
mo. Essa “Nova Economia”, segundo Castells (2007, p. 176) “surgiu em local específico, na
década de 1990, em espaço específico, nos Estados Unidos, e ao redor/proveniente de ramos
específicos, em especial da Tecnologia da Informação e das Finanças, com a biotecnologia
avultando-se no horizonte”.
Porém, fases anteriores do capitalismo determinaram a revolução tecnológica atual,
marcada pela eficácia e difusão das tecnologias da informação, processamento e transmissão
de dados, apontada como o cerne das empresas em rede.
O processo evolutivo das tecnologias da informação é assinalado por inovações que ante-
cederam sua atual estrutura e dinâmica. Os períodos críticos pelos quais passaram as principais Períodos críticos
economias mundiais revelam a busca ininterrupta por novas tecnologias que possibilitaram a Faz-se alusão aos
três grandes períodos
reestruturação do sistema capitalista, bem como sua reprodução em escala mundial. Manuel
históricos propulsores da
Castells (2007) divide em três os marcos que pontuam o progresso da tecnologia da informação: revolução tecnológica: a
Segunda Grande Guerra
1) Macromudanças da microeletrônica: eletrônica e informação – essa fase se deu du- Mundial (1939-1945),
Guerra Fria (1945-1989),
rante a Segunda Guerra Mundial (1939-45) e posteriormente a ela, através das principais
e a crise econômica que
descobertas tecnológicas em eletrônica: primeiro computador programável e o transistor, decorreu do choque do
fonte da microeletrônica, o verdadeiro cerne da revolução da tecnologia da informação no petróleo, em
século XX. No entanto, somente na década de 1970 as novas tecnologias da informação 1973-1974.

difundiram-se amplamente, acelerando seu desenvolvimento sinergético e convergindo


ao novo paradigma.

2) Criação da internet – a criação e o desenvolvimento da internet nas três últimas décadas


do século XX foram consequência de uma fusão singular de estratégia militar, grande
cooperação científica, iniciativa tecnológica e inovação contracultural. A internet teve ori-
gem num trabalho de uma das mais inovadoras instituições de pesquisas do mundo: a
Agência de Projetos de Pesquisas Avançadas (ARPA) do Departamento de Defesa dos EUA.

3) Tecnologias de rede e a difusão da computação – ampliada no final da década de 1990,


o poder de comunicação da internet, juntamente com os novos progressos em telecomu-
nicações e computação, provocou mais uma grande mudança tecnológica, dos microcom-
putadores e dos mainframes (computador de grande porte) descentralizados e autônomos
à computação universal por meio da interconexão de dispositivos de processamentos de

Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização 125


dados, existentes em diversos formatos. A difusão de aparelhos especializados – muitos
deles portáteis – conectados a uma rede ocorre comunicando-se entre si, sem a necessida-
de de sistema operacional próprio. Dessa forma, o poder de processamento, os aplicativos
e os dados ficam armazenados nos servidores da rede, e a inteligência da computação fica
na própria rede: os sítios da web se comunicam entre si e têm à disposição o software
necessário para conectar qualquer aparelho a uma rede universal de computadores.

É importante destacar que a gênese do processo de desenvolvimento das Tecnologias


da Informação se deu de forma concentrada em determinado tempo e espaço. Destaca-se
nesse contexto o pioneirismo dos EUA, onde ocorreu a primeira revolução da informação,
sobressaindo-se o mais importante centro de pesquisa tecnológica do país, o Vale do Silício,
que abrange um conjunto de empresas implantadas desde a década de 1950, organizadas ao
longo do Condado de Santa Clara, São Francisco, Stanford e San Jose, situadas ao Sul do
Estado da Califórnia (Figura 1).

Figura 1 – Vista panorâmica do Vale do Silício em São Francisco – EUA

Fonte: <www.yorku.ca/anderson/Images/silicon_valley_3.jpg>. Acesso em: 6 nov. 2010.

Cabe ressaltar que o privilégio dos empreendimentos científicos direcionados à revolução


das Tecnologias da Informação não esteve absolutamente confinado aos centros avançados de
pesquisas dos EUA. Na verdade, foram as descobertas científicas originadas em várias partes
do mundo, como no Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Japão etc. que constituíram a base
para o desenvolvimento das Novas Tecnologias da Informação.
Outra importante forma de compreensão das Tecnologias da Informação em seu processo
evolutivo é através dos paradigmas que norteiam hodiernamente a difusão e as tendências da
tecnologia da informação. Os aspectos que representam a emergente sociedade da informa-
ção se revelam na: a) penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias; b) lógica das redes,
flexibilidade e c) a convergência de tecnologias específicas para um sistema integrado. Todos
esses paradigmas viabilizaram a recomposição das bases do capital e direcionam a sociedade
e a economia à complexidade e disposição das redes formadas em torno da Nova Economia
(CASTELLS, 2007).

126 Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização


Empresas globais
A reestruturação do capitalismo foi decisiva para a formação da Nova Economia em escala
global no último quartel do século XX. Para Castells (2007), essa reestruturação está marcada
por uma evolução organizacional das empresas, transcorridas nas transformações associadas
à transição do industrialismo para o informacionalismo.
Esquematicamente, pode-se representar essa transição da seguinte forma:

O modelo de produção em massa estava fundamentado na


produtividade em escala, estruturado num processo
mecanizado de produção padronizada organizado nas
FORDISMO
divisões de linhas de montagem, condicionado ao controle
de um mercado que a priori apresentava-se com uma
forma organizacional específica.

Quando a demanda de quantidade e qualidade tornou-se


imprevisível; quando os mercados ficaram mundialmente
diversificados e, portanto difíceis de serem controlados e
TRANSIÇÃO quando o ritmo da transformação tecnológica tornou
obsoletos os equipamentos de produção com objetivo
único, o sistema de produção em massa ficou muito rígido
e dispendioso para as características da nova economia.

O sistema produtivo flexível surgiu como uma possível


resposta para superar a rigidez. Esse modelo é caracteriza-
do por sua “produção adaptada às transformações contí-
PÓS-FORDISMO nuas do mercado, sem pretensões de controlá-lo”. Sendo
assim, esse sistema está focado na produção diversificada
ou personalizada.

Fonte: Adaptado de Castells (2007).

As fases supracitadas demonstram a passagem da produção em massa (Fordismo) para


uma produção flexível pós-fordista (Toyotismo), dando origem a uma nova lógica da produção,
produtividade, consumo e concorrência das empresas.
Nesse cenário de transformações, as empresas nacionais começam a articular-se ao co-
mércio internacional através das novas tecnologias da informação, mais flexíveis e poderosas,
conduzindo com maior eficiência a sua produção e a difusão dos seus serviços e produtos.

Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização 127


No transcurso da acumulação flexível do capital, a economia dos países desenvolvidos
torna-se, a cada dia, mais globalizada e as ditas “Empresas Multinacionais”, constituídas de
uma estrutura divisional centralizada, dão lugar a uma nova organização estrutural das “Empre-
sas Globais” caracterizadas pelo uso das redes internacionais de empresas e de subunidades
empresariais descentralizadas (CASTELLS, 2007).
As empresas globais são estruturadas em rede obedecendo a dois tipos:

 modelo de redes multidirecionais, posto em prática por empresas de pequeno e médio porte;

 modelo de licenciamento e subcontratação de produção, sob controle de uma grande empresa.

Nesse esquema de redes, as pequenas e médias empresas muitas vezes ficam sob o
comando de sistemas de contratação e/ou sob controle financeiro/tecnológico de empresas
de grande porte, dando assim origem a uma estrutura horizontalizada eliminando as burocra-
cias verticalizadas, típicas das grandes empresas da década de 1970, que se mantinham sob
condições de produção padronizada em massa, conservando mercados oligopolistas.
O novo modelo organizacional das empresas globais baseia-se assim numa rede hori-
zontal de subcontratação, com o objetivo principal de adaptar-se às condições de imprevisibi-
lidade introduzidas pela rápida transformação econômica e tecnológica do mercado. Sobre as
características dessa organização horizontal, Castells (2007) elege sete principais tendências
das empresas horizontais:

 organização em torno do processo, não da tarefa;

 hierarquia horizontal;

 gerenciamento em equipe;

 medida do desempenho pela satisfação do cliente;

 recompensa com base no desempenho da equipe;

 maximização dos contatos com fornecedores e clientes;

 informação, treinamento e retreinamento de funcionários em todos os níveis.

Para se adequar à Nova Economia global, as empresas tiveram que se organizar em rede,
adotando o sistema de produção flexível à lógica imprevisível do mercado, transformando a
própria estrutura interna da empresa numa rede e dinamizando cada elemento da sua com-
posição interna, tornando-os cada vez mais descentralizados e autônomos de suas unidades.
A organização em rede das empresas globais possui estreita ligação com o desenvol-
vimento das tecnologias da informação a nível global. Um dos mecanismos que possibilita a
conexão das empresas em tempo real é a rede mundial de computadores (Figura 2). Porém,
existem outras redes físicas que dão suporte à operação da economia global, como, por
exemplo, a rede mundial de cabos de fibra óptica (Figura 3), além de uma estrutura portuária

128 Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização


e aeroportuária, que juntas possibilitam os fluxos de pessoas, mercadorias e dinheiro. Todos
os sistemas em rede das grandes e médias empresas são mediados pelo potencial de difusão
e articulação das novas tecnologias da informação.

Reino Unido Rússia


48m 38m China
72 %
EUA 27%

227m
França
Alemanha
37m 298m Japão
Usuários de internet

Porcentagem da
41m
66%
67 %
22.4% 94m
74.7% população do país 73.8%
Coréia do Sul
Índia
37m
Brasil 81m 76%
7.1%
68m
34.3%

Figura 2 – Usuários de internet por países (em milhões de usuários), 2009

Disponível em: <http://www.numclique.net/wp-content/uploads/2009/


07/internet_mapa_usuarios.jpg>. Acesso em: 15 dez. 2010.

Figura 3 – Redes de cabos submarinos (2009)

Disponível em: <http://www.newscientist.com/data/galleries/mg20227061900-


exploring-the-exploding-internet/sub_capacity_500.jpg>. Acesso em: 15 dez. 2010.

Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização 129


Tecnologias da informação e
sua importância para as empresas globais
O uso de tecnologias inovadoras sempre foi condição cine qua non para a reestruturação
das empresas durante as crises que abateram o sistema capitalista, no decurso dos últimos
quatro decêndios do século XX. No entanto, o advento da produção flexível (que funciona na
Just in time lógica do Just in time) ocorreu de forma descentralizada, acentuou ainda mais a dependência
Termo usado para das empresas globais às novas tecnologias da informação em fins da década de 1990.
indicar que um pro-
cesso que é capaz de Nesse período, ocorreu um rápido desenvolvimento das tecnologias em rede, obedecendo
responder instantanea- aos ditames da Nova Economia mundial, caracterizada pelo informacionalismo (capacidade
mente à demanda, sem
de gerar, processar e aplicar a informação), pela globalização da economia (capital, trabalho,
necessidade de qual-
quer estoque adicional, administração e mercado organizados em escala global) e pelas redes (a concorrência é feita
seja na expectativa de em rede global de interação entre redes empresarias).
demanda futura, seja
como resultado de ine-
A interconexão de empresas em escala global seria impossível se não fosse a dispo-
ficiência no processo. nibilidade de tecnologias em rede e dos softwares avançados, essenciais na implantação e
difusão do intercâmbio de dados. Soma-se a esse período revolucionário a generalização da
internet, com base na banda larga e nas redes de comunicação rápida online, possibilitando
que grandes e médias empresas se relacionem com facilidade, entre si, e com os clientes,
num padrão interativo e flexível.
Para se inserir nas redes globais é imprescindível às empresas a adoção de tecnologias
da informação que viabilizem sua inserção, pois viver fora das redes compromete sua sobre-
vivência, dada a crescente interconectividade da economia global.
Para adotar a organização em rede é preciso que a empresa tenha primeiramente uma
capacidade tecnológica que viabilize tal projeto, essa necessidade é gerada uma vez que a em-
presa necessita maximizar sua participação acompanhando a intensa rapidez das transações
comerciais da economia em rede. Para essa finalidade é que são requisitadas as novas tecno-
logias da informação, que possuem o poder de condicionar a competitividade das empresas
dentro da rede global de fornecedores, clientes e produtores.
A adoção de novas tecnologias demanda, igualmente, a capacidade administrativa das
empresas para lidar com essa complexa tessitura de redes empresariais interligadas e assi-
métricas. Sendo assim, o gerenciamento dentro da rede exige uma mão de obra especializada
que consiga operacionalizar, estrategicamente, todos os recursos tecnológicos, como apa-
rato das telecomunicações avançadas, sistemas interativos de informação e computadores
potentes, utilizando o potencial neles existentes para mobilizar o capital da empresa através
de poupança e investimentos, processando com alta velocidade os modelos de transações de
alta complexidade.
O uso das novas tecnologias da informação abre a possibilidade para as empresas realiza-
rem altas transações em consonância com a mutante e complexa lei de mercado, facilitando estra-
tégias, manobras especulativas e a administração de conflitos e turbulências a longas distâncias.
A estrutura formada a partir das novas tecnologias da informação projetou um cenário
de interdependência dos mercados financeiros permitindo a mobilidade do capital de um
lugar qualquer para ser investido em outro. Fica claro que as empresas mais bem-sucedidas
são aquelas que conseguem transformar seus meios na mesma rapidez com que mudam
os objetivos sob o impacto da rápida transformação cultural, institucional e principalmente
tecnológica, sendo a inovação o principal artifício competitivo.

130 Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização


1

1 A difusão das novas tecnologias da informação no final da década


de 1990 possibilitou a reestruturação do capitalismo num sistema
produtivo flexível e em rede. Tratando a difusão das tecnologias da
informação em seu processo evolutivo, relacione os principais perío-
dos históricos que impulsionaram o desenvolvimento das principais
novas tecnologias da informação.

2 Quais as características das empresas globais?

A Nova Economia é responsável pelo crescente processo sem prece-


3 dentes de interdependência das empresas. Dessa forma, explique o
papel das tecnologias da informação nesse processo, relacionando-
as com a evolução organizacional em rede das empresas globais.

Redes e fluxos
no contexto da globalização
Foi visto anteriormente que o cenário econômico atual está organizado num sistema com-
plexo de redes globais que estabeleceu uma nova dinâmica para os fluxos de informações entre
as economias hegemônicas e emergentes. Vimos como as novas tecnologias da informação
contribuíram de forma determinante para tornar possível o processamento de informações em
tempo real e interconectando em rede as empresas globais. Agora, analisaremos a tipologia
das redes e os fluxos de informações e produtos dentro das redes empresariais.
Nesse contexto de interconexões globais, as atividades comerciais das empresas hege-
mônicas saem de uma “lógica zonal” para uma “lógica multiterritorial” (HAESBAERT, 2007).
Assim, o império das conexões globais predomina e possibilita a atuação competitiva das
empresas hegemônicas em vários outros territórios economicamente múltiplos. As redes
representam as possibilidades de articulação dos territórios e, nesse caso, assumem caráter
determinante na organização “espaço-territorial” das empresas.
De fato as redes empresariais surgem com a própria necessidade de modernização de
algumas atividades do setor terciário, sobretudo naquelas com maior movimento de capital,
dependentes de uma maior especialização em suas transações comerciais. A aceleração dos
processos globais pelas redes informacionais deixaram as distâncias mais curtas, de forma
que sentimos, aparentemente, o mundo menor, fenômeno esse denominado por David Harvey
(1996) como a “compressão espaço-tempo”, no qual os eventos que se iniciam em determi-

Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização 131


nado lugar desencadeiam uma série de impactos com diferentes níveis de intensidades sobre
outras pessoas e lugares em diferentes partes do mundo.
As redes empresariais assumem tipologias diversas como é o caso das empresas japo-
nesas, coreanas e chinesas inseridas dentro das Redes Empresariais do Leste Asiático. No
entanto, as práticas comerciais definem, conforme analisou Castells (2007), uma organização
básica em cinco principais redes empresariais na economia global:

 Redes de fornecedores: incluem subcontratação, acordos OEM (Original Equipment


Manufacture – Fabricação de Equipamento Original) e ODM (Original Design Manufacturing
– Fabricação do Projeto Original) entre um cliente (a “empresa focal”) e seus fornecedores
de insumos intermediários para produção.

 Redes de produtores: abrangem todos os acordos de coprodução que oferecem possibi-


lidade a produtores concorrentes de juntarem suas capacidades de produção e recursos
financeiros/humanos, com a finalidade de ampliar seus portfólios de produtos, bem como
sua cobertura geográfica.

 Redes de clientes: são os encadeamentos à frente das indústrias e distribuidores, canais


de comercialização, revendedores com valor agregado e usuários finais, nos grandes
mercados de exportação ou nos mercados domésticos.

 Coalizões-padrão: são iniciadas por potenciais definidores de padrões globais com o objetivo
explícito de prender tantas empresas quanto possível a seu produto ou padrões de interface.

 Redes de cooperação tecnológica: facilitam a aquisição de tecnologia para projetos e


produção de produto, capacitam o desenvolvimento conjunto dos processos e da produ-
ção e permitem acesso compartilhado a conhecimentos científicos genéricos e de P&D
(Pesquisa e Desenvolvimento) (ERNEST apud CASTELLS, 2007, p. 210).

Esse conjunto de redes torna a empresa cada vez mais internacional, e não transnacional,
no sentido de que os elementos de sua gestão resultam da interação administrativa entre as es-
tratégias globais e os interesses nacionalmente/regionalmente imbuídos em seus componentes.
As redes empresariais, de acordo com Castells (2007), também são formadas conforme
a natureza comercial e a orientação político-estratégica de cada país onde estão sediadas,
desenvolvendo assim diferentes tipos de redes empresariais, ou seja, apresentam diferentes
formas conforme os contextos culturais em que se estrutura cada uma delas, por exemplo:

 Redes familiares nas sociedades chinesas e no Norte da Itália.

 Redes de empresários oriundos de ricas fontes tecnológicas dos meios de inovação,


como o Vale do Silício.

 Redes hierárquicas comunais do tipo keiretsu japonês.

132 Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização


 Redes organizadas de unidades empresariais descentralizadas de antigas empresas
verticalmente integradas, forçadas a adaptar-se às realidades da época.

 Redes empresariais compostas de clientes e fornecedores de determinada empresa,


inseridos numa teia mais ampla de redes formadas ao redor de outras empresas em rede.

 Redes internacionais resultantes de alianças estratégicas entre empresas, suas redes


auxiliares de apoio.

Essa diversidade mostra como a lógica da organização em rede vem predominando


nas principais economias mundiais, construindo diferentes geometrias através das empresas
internacionais como também de subunidades empresariais. Além dos benefícios, como o
aumento da produtividade e a organização em rede, esse processo tem se mostrado favorável
à lucratividade e à ampliação de mercados em potencial como também à aceleração do giro
do capital. Essa fase peculiar da Nova Economia mundial é condicionada pela articulação das
empresas em rede. Por conseguinte, é preciso compreender a estrutura das redes globais e
dos fluxos de informações e capitais.

Os fluxos de capitais e informação


nas redes empresariais globais
Como foi dito anteriormente, as redes revelam-se multiformes e o contexto socioeconô-
mico apresenta-se como condicionante para o uso estratégico delas pelas empresas globais.
Para Castells (2007, p. 255), independentemente das formas que as redes empresariais
possam apresentar, todas são estruturadas sobre o aporte técnico das ferramentas tecnológi-
cas: novas redes de telecomunicações; novos computadores de mesa; computadores onipre-
sentes conectados a servidores potentes; novos softwares adaptáveis e autoevolutivos; novos
dispositivos móveis de comunicação que estendem as conexões on-line para qualquer espaço
a qualquer hora; novos trabalhadores e gerentes conectados entre si em torno de tarefas e
desempenho sintonizados numa mesma linguagem digital.
As redes são dotadas de uma estrutura (i)material, ou em outras palavras, são constituídas
por elementos de concretos e invisíveis. O caráter de cada uma dessas estruturas determina
também o conteúdo dos fluxos a serem transitados dentro delas.
Basta olharmos as malhas rodoviárias para percebermos que se tratam de redes concretas
que articulam os espaços em rotas e percursos assimétricos, condicionando o fluxo de objetos e
informações que também são concretos. Mostrando a evolução das interações espaciais, Corrêa
(1997) identifica o fluxo nessas redes, como um amplo e complexo conjunto de deslocamento
de pessoas, mercadoria, capital e informação sobre o espaço geográfico. O autor considera que
o fluxo na rede “[...] pode apresentar maior ou menor intensidade, variar segundo a frequência
de ocorrência e, conforme a distância e direção, e caracterizar-se por diversos propósitos e se
realiza através de diversos meios e velocidades” (CORRÊA, 1997, p. 279).

Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização 133


Paralelo a essas articulações espaciais surgem outras redes flexíveis estruturadas por um
sistema intangível que opera numa velocidade nunca antes prevista. A invisibilidade das redes
informacionais permite o fluxo invisível e instantâneo de informações a distâncias quilométricas
interligando os ciberespaços via internet. Além da rede cabeada, termos como Bluetooth e
Wi-Fi aludem à transmissão de informação a curtas e longas distâncias sem o uso de fios, e
hoje se tornam cada vez mais populares as possibilidades de acesso que permitem se conectar
em tempo real com outros espaços virtuais.
As redes virtuais sustentam o processo dinâmico de globalização da economia, permitindo
uma maior fluidez dos investimentos empresarias, onde vários mercados financeiros podem
em tempo real desenvolver transações em bilhões de dólares em questão de segundos através
de circuitos eletrônicos por todo o planeta.
Essa estrutura (i)material de redes e fluxos permite assim que o capital seja transportado
de um lado para outro num curto intervalo de tempo. Essa dinâmica mostra que o capital,
poupança e investimentos, estão interconectados em todo o mundo, de bancos a fundos de
pensão, bolsas de valores e câmbio.
As pequenas e médias empresas por si só, não têm poder para gerar recursos e capaci-
tação para a realização de atividades de alto custo fixo, como por exemplo, uma rede própria
de comercialização, publicidade e pesquisa, tendo em vista que sua pequena produção inca-
pacita a aquisição de equipamentos de grande porte que proporcionem grande produtividade.
Para superar essa realidade, muitas das empresas de pequeno e médio porte têm buscado a
articulação em rede, procurando atender as novas exigências do mercado.
Segundo Paulo Tigre (2006, p. 226) a organização em redes horizontais se dá necessa-
riamente “quando os produtores se articulam em associações ou projetos específicos visando
ações comuns para o aumento da competitividade”. As redes formadas podem desenvolver
objetivos comuns na área Comercial, Operacional, Tecnológica e Político Institucional. Em
sua análise sobre a formação de redes de cooperação empresariais, Tigre (2006) cita um
interessante processo de agregação de valor e mobilidades de cadeias produtivas, a partir da
formação em redes horizontais, em núcleos competitivos como é o caso do Vale Tecnológico
de Santa Rita (Figura 4).

Figura 4 – Vale da eletrônica de Santa Rita e sua localização


entre os maiores centros econômicos comerciais do Brasil (SP, RJ e BH)

Fonte:<http://www.electrotech.com.br/imagens/mapa.gif>. Acesso em: 9 nov. 2010.

134 Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização


O vale da eletrônica de Santa Rita

Santa Rita do Sapucaí (MG) é considerada um pólo tecnológico de sucesso,


já que logrou reunir, em menos de 20 anos, cerca de 100 empresas de alta
tecnologia que empregam diretamente cerca de 6.500 pessoas. Os investimen-
tos locais em P&D atingem, em média, 9% do faturamento das empresas, um
esforço significativo em nível internacional. A estratégia seguida pela maioria
é desenvolver produtos para nichos do mercado de equipamentos eletrônicos
cuja competitividade não exija grande escala de produção. A origem desse êxi-
to reside na capacitação local gerada por três instituições privadas de ensino
tecnológico instaladas em Santa Rita a partir dos anos 60: a Escola Técnica de
Eletrônica, o Instituto de Engenharia de Telecomunicações, Inatel, e a Faculdade
de Administração e Informática, FAI. A principal fonte de capacitação dessas
instituições, por sua vez, foi a Universidade Federal de Itajubá (Unifei), distante
apenas 40 km de Santa Rita. Tal aglomeração local de competências acabou
por estimular uma forte vocação empreendedora. Ao contrário de outros pólos
brasileiros de eletrônica, onde predominam grandes empresas multinacionais,
o de Santa Rita é controlado por empresários independentes, formados na pró-
pria cidade, permitindo a construção de uma forte identidade local. Valores e
regras táticas contribuem para reduzir custos de transação e para a realização
de projetos tecnológicos e comerciais coordenados por associações empre-
sariais e sindicatos. Do ponto de vista político, os professores e estudantes
passaram a dominar a agenda municipal, já que o município é praticamente
desprovido de alternativas econômicas. A Prefeitura, frequentemente ocupada
por egressos das escolas técnicas locais, contribui para o desenvolvimento por
meio de incubadoras de empresas, da doação de terrenos para novas plantas
e do treinamento de mão-de-obra operacional para a indústria (TIGRE, 2006,
p. 226).

Externalidades
positivas
Normalmente, cabe ao
Estado criar ou estimular
A rede se mostra como um modelo eficiente de organização da produção das empresas, a instalação de atividades
pois consegue agregar uma diversidade bem maior de capacidades em relação à empresa isolada. que constituam externa-
A concentração é extremamente favorável para a captação de externalidades positivas com o lidades positivas (como
a educação), e impedir
aumento das economias de escala, permitindo também a ampliação de mercados, aceleração ou inibir a geração de
de processos de inovação e intercâmbio de competências tecnológicas. externalidades negativas.

Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização 135


2

Discorra sobre os dois tipos estruturais de redes considerando


1 suas principais características.

Sabemos que a organização em rede é fundamental para o


2 crescimento empresarial na Nova Economia. Dessa forma, ex-
plique os benefícios gerados a partir da organização em rede
pelas empresas.

Leituras complementares

CARLOS, Ana Fani. O lugar do/no Mundo. São Paulo: Edição Eletrônica/LABUR, 2007.
Nessa obra, a autora defende que a globalização permeia nosso cotidiano. No entanto, os
debates em torno da noção de globalização revelam, fundamentalmente, a dimensão econômica
do processo; que por isso passa a ser visto como articulação de mercados, reunião de empre-
sas, construção do mercado mundial etc. A essa noção contrapõe-se a de mundialização, que
aponta para outra direção ao permitir que se reflita sobre a sociedade urbana em constituição,
bem como sobre o conteúdo da construção de novos valores, de um modo de vida e de outra
identidade, agora mediada pela mercadoria.

SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização. Rio de Janeiro: Record, 2000. 
Milton Santos mostra como o processo de globalização transforma o espaço mundial,
aumentando as desigualdades, originando os diversos tipos de pobreza explicitados por ele.
Além disso, o autor mostra como o Estado se torna um elemento importante para a atuação
do “globaritarismo”, atendendo aos interesses das grandes corporações mundiais. Por fim, o
estudioso mostra a importância da “flexibilidade tropical” e a construção do “período popular da
história”. Essas duas categorias de análise também dão suporte ao estudo do circuito inferior.

136 Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização


Resumo

Nesta aula, vimos como as Novas Tecnologias da Informação contribuíram para


a revolução organizacional das empresas em seu modelo em rede, considerando
as principais diretrizes e tendências da produção, produtividade, consumo e
concorrência na Nova Economia mundial. A caracterização das redes empresariais
em suas tipologias, também foi importante para a compreensão de como os
fluxos produtivos estão sendo dinamizados pelo avanço das tecnologias da
informação. O novo cenário econômico mostra que a capacidade de difusão e
processamento da informação determina o lugar de privilégio das empresas nas
redes globais. Dessa forma, fica clara a importância da articulação em rede pelas
empresas via aquisição de novas tecnologias e estratégias de gerenciamento mais
flexíveis para a maximização dos investimos e controle de mercados.

Autoavaliação
O que se entende por Tecnologias da Informação e quais os períodos cruciais que
1
acabaram por estimular o desenvolvimento das novas tecnologias da informação?

As empresas globais surgem da transição entre o industrialismo e o informacio-


2 nalismo. Como são identificados os modelos industriais e quais suas principais
características? Como são caracterizadas essas empresas, e quais os dois tipos de
rede que prevalecem em sua organização estrutural?

Quais são as principais características da Nova Economia mundial? Quais os prin-


3
cipais parâmetros a serem adotados por uma empresa quando esta procura se
organizar em rede?

Por que as empresas hoje se tornam cada vez mais internacionais e não transna-
4
cionais? O que são fluxos (i)materiais nas redes globais? Cite exemplos.

Explique por que as pequenas e médias empresas têm buscado se adequar à lógica
5
das redes horizontais, e mostre como se processa essa organização em rede.

Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização 137


Referências
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

CORRÊA, Roberto Lobato. Interações espaciais. In: CASTRO, I. E.; GOMES, P. C. da C.; CORRÊA,
R. L. (Org.). Explorações geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

HAESBAERT, R. O mito da desterritorialização: do fim dos territórios à multiterritorialidade.


Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural.
São Paulo: Edições Loyola, 1996. 349 p.

TIGRE, P. B. Gestão da inovação: a economia da tecnologia do Brasil. Rio de Janeiro: Editora


Elsevier, 2006.

Anotações

138 Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização


Anotações

Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização 139


Anotações

140 Aula 7 Espaço, Tecnologia e Globalização


Globalização, tecnologia
e inserção econômica e social

Aula

8
Apresentação

A
partir do tema proposto, abordaremos, nesta aula, o processo de inserção econômica e
social no contexto da globalização, especialmente no que concerne aos avanços tecno-
lógicos e sua difusão espacial, contraditória e desigual no mundo contemporâneo. Por
conseguinte, problematizaremos o processo de exclusão social em curso no período atual,
fruto, sobretudo, das contradições internas do sistema capitalista de produção, ora mundiali-
zado. Nesse sentido, retomaremos a discussão sobre o processo de globalização, bem como
sobre a tecnologia, buscando explicar o contexto de inserção econômica e social que marca
o atual período. Ademais, discutiremos a noção de cidadania no contexto da globalização.

Objetivos
Avaliar a capacidade de inserção econômica e social diante
1
do nível tecnológico utilizado no processo produtivo.

Reconhecer o processo de apropriação e uso desigual da


2
técnica no âmbito da globalização, especialmente no con-
texto educacional.

Identificar a noção de cidadania no contexto da globaliza-


3 ção, relacionando ao mundo do consumo e da tecnologia.

Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização 143


Globalização, tecnologia e
inserção econômica e social:
breve contextualização

A
globalização pode ser considerada um dos eventos (faces) da atual fase do sistema
capitalista mundial, no qual tem uma forte ideologia, pregando, sobretudo, a homo-
geneização do mundo. Nesse sentido, Santos (2000) ressalta as diversas unicidades
originárias desse processo, como a unicidade técnica, a unicidade do tempo ou convergência
dos momentos.
A unicidade técnica representa a existência de uma técnica dominante, uma técnica mais
avançada e moderna. A convergência dos momentos remete à capacidade que o indivíduo tem
de poder se comunicar, sem se deslocar, com diversas pessoas e de diversos lugares, tudo
ao mesmo tempo, em um momento de cognoscibilidade do planeta. O motor único mostra
a existência de apenas um caminho, o consumismo, gerando os momentos de crise, que
não se apresentam apenas através de uma crise econômica, tornando-se uma crise política,
ambiental, cultural e, principalmente, social. Vale ressaltar que o motor único é a expressão
utilizada por Milton Santos para explicar o contexto atual do processo de globalização, marcado
principalmente pelo imperativo do consumo despótico, forte política das empresas capitalistas,
associado aos avanços da comunicação e da informação.
O processo de globalização revela-se, portanto, uma fábula e uma perversidade, pois é
desigual, contraditório e excludente. A unicidade das técnicas, a convergência dos momentos
e o motor único não ocorrem de forma homogênea no espaço, pois os eventos e acessos que
marcam esse processo concentram recursos e avanços em alguns lugares em detrimento
de outros, isso de acordo com a lógica e a estratégia capitalista de localização, findando em
mais consumo e mais lucro, fortalecendo assim os agentes já hegemônicos. Nesse sentido, a
homogeneização difundida pela globalização, contraditoriamente, promove heterogeneização
e fragmenta o espaço, gerando desigualdade e exclusão social.
A educação torna-se, portanto uma importante ferramenta (não a única) para a emancipa-
ção e ascensão social de indivíduos. A educação também promove a conscientização política
e social dos indivíduos, fazendo com que eles sejam, acima de tudo, cidadãos, inserindo-os
social e economicamente, gerando uma contrarracionalidade ao atual processo de globalização.
O uso da tecnologia no sistema educacional e no ensino é de grande importância para
auxiliar na inserção dos indivíduos enquanto cidadãos. Mas, como o sistema capitalista se
desenvolve de forma desigual e contraditória, o uso da tecnologia na educação também ocorre
de forma heterogênea e desigual. Nota-se que há, assim, uma concentração da técnica em
determinados lugares e em determinados estratos sociais.

Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização 145


Inclusão social e
tecnologia na educação
Diante da desigualdade social e espacial que marca o atual período é possível notar que
tem ocorrido um aumento significativo da pobreza no mundo, ao mesmo tempo em que cresce
a vulnerabilidade social de diversos segmentos e grupos sociais. Pode-se afirmar que isso
decorre, sobretudo, da capacidade de exploração e apropriação de riquezas, que determinadas
nações e determinados atores econômicos, ditos globais, têm sobre o sistema-mundo. Nesse
contexto, somente com uma mudança radical no sistema produtivo e na lógica de produção
e distribuição da riqueza gerada atualmente poderia mudar o quadro caótico que se revela
com o aumento da pobreza e da indigência na sociedade mundial, especialmente nos países
periféricos, como pode ser observado a partir do mapa-múndi do IDH de 2008 (Figura 1).

Desenvolvimento humano muito elevado (acima de 0,900) Desenvolvimento humano médio (de 0,500 a 0,799)
Desenvolvimento humano elevado (de 0,800 a 0,899) Desenvolvimento humano baixo (abaixo de 0,500)

Figura 1 – Mapa-múndi: IDH de 2008

Adptado de: <http://www.cosif.com.br/publica.asp?arquivo=20100105islandia>. Acesso em: 22 out. 2010.

É importante frisar que é possível mudar o quadro de exclusão social verificado nos países
subdesenvolvidos, sendo a educação uma possibilidade de inserção econômica e social da
população historicamente excluída e marginalizada.
Nesse contexto, Mittler (2000) analisa o elo existente entre a pobreza e o fracasso escolar
de alguns indivíduos e grupos. Para o autor, é possível diminuir o fracasso escolar das crianças
que vivem na pobreza e na miséria, ou ainda, diminuir a disparidade existente entre as crianças
do mundo. Para isso, deve-se pensar em melhores condições para as escolas e para o sistema
educacional, observando-se que eles são inseparáveis.

146 Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização


O tema da inclusão está cada vez mais presente na pauta das políticas educacionais e
sociais nas diversas regiões e nações, embora muitas vezes as ações discutidas não se efe-
tivem. Pensar a inclusão é pensar “uma mudança na mente e nos valores para as escolas e
para a sociedade como um todo, porque, subjacente à filosofia, está aquele aluno ao qual se
oferece o que é necessário, e assim celebra-se a diversidade” (MITTLER, 2000, p. 36). Nesse
contexto, a educação inclusiva é uma representação das lutas sociais na busca pelos direitos
humanos universais.
Na busca pela inclusão, e no movimento de educação inclusiva, as Nações Unidas (ONU)
passam a liderar um movimento mundial pela inclusão na educação através de algumas impor-
tantes iniciativas pelo mundo. Em 1990, na Conferência de Jomtien, na Tailândia, organizada
pela UNICEF, pela UNESCO e pelo Banco Mundial, vários ministros da educação de todo o
mundo se comprometeram em atingir o objetivo da “Educação para Todos em 2000”.
Nota-se que, em geral, os avanços ainda são poucos, pois o mundo ainda apresenta uma
população de aproximadamente 800 milhões de adultos analfabetos, concentrados, sobretudo,
nos países subdesenvolvidos, merecendo destaque os continentes africano, sul-americano e
parte do continente asiático.
Daniel (2003) traz à tona a necessidade do uso da tecnologia na educação como forma de
inclusão, dando ênfase ao Programa Educação para Todos da UNESCO. Para o autor, é impor-
tante que a aprendizagem seja a mistura de dois tipos de atividades: a atividade independente
e a atividade interativa. A aprendizagem independente se dá através de atividades como ler
um livro, trabalhar em um programa de computador, ouvir uma conferência através de um
aparelho de som, assistir TV e escrever um trabalho. A aprendizagem interativa ocorre através
de atividades como diálogo direto, telefônico, ou via internet com um professor ou colega de
estudo, comentários e anotações no quadro do professor em sala de aula.
Há, portanto, uma grande importância da Universidade Aberta (ensino a distância), a
qual só se torna possível através da aplicação da tecnologia no ensino. Vale salientar que essa
forma de ensino ainda é muito questionada por profissionais da educação e cientistas sociais,
no entanto, tem se difundido espacial e quantitativamente.
Para Daniel (2003, p. 119),

as tecnologias de informação e comunicação têm duas virtudes principais. Em primeiro


lugar, elas apoiam as experiências de aprendizagem ativa. Em segundo lugar, apoiam o
acesso a uma ampla gama de meios e de oportunidades de aprendizagem.

No Brasil, os projetos de expansão da acessibilidade aos cursos superiores e às univer-


sidades, a exemplo do REUNI, PROUNI e Ensino a Distância, somados à ampliação da rede
de Institutos Federais, através do ensino técnico, representam iniciativas de ampliação do
sistema educacional, que de certa maneira tem recebido forte influência da política mundial
de organismos como a ONU e o Banco Mundial, no sentido de massificar o ensino superior e
ampliar o nível de escolarização e letramento.
Mas nem tudo se configura de forma homogênea e totalmente inclusiva no processo de
expansão educacional, pois como o uso da tecnologia na educação está atrelado aos interesses
das grandes corporações capitalistas, há uma densidade técnica diferente entre os diversos
lugares, tornando o espaço desigual. O processo de desenvolvimento desigual e combinado
gera a inclusão/exclusão, ou seja, a inclusão de um grupo privilegiado, a minoria, e a exclusão

Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização 147


de vários segmentos sociais, gerando e difundindo a pobreza numa escala mais ampla. Nesse
sentido, é possível afirmar que a exclusão social tem suas raízes

na pobreza, na moradia inadequada, na doença crônica e no longo período de desempre-


go. São negados às crianças nascidas na pobreza os recursos e as oportunidades dispo-
níveis para as outras crianças. Algumas delas enfrentam obstáculos adicionais por causa
do seu gênero, da sua raça, da sua religião ou de sua deficiência (MITTLER, 2000, p. 79).

Assim, não ter nenhum dinheiro ou viver abaixo da linha de pobreza oficial afeta todos os
outros aspectos da vida. As crianças podem suportar fortes tensões, como o divórcio dos pais
e outras questões, mas o poder delas de se recuperarem diminui com o adicional de tensão,
consequência da pobreza.
A noção de exclusão remete a dimensões sociais, econômicas, políticas e simbólicas
articuladas. A exclusão manifesta-se também por uma frequente marginalização no acesso
aos direitos, que nem sempre é contrabalanceada por uma inserção nas engrenagens da assis-
tência social, como mostram os trabalhos sobre os sem-teto ou sobre aqueles em situação de
indigência. Assim, o processo de exclusão aparece como uma queda, uma espiral, engrenada
a uma ruptura inicial (perda de emprego, dificuldades familiares e separação, fracasso escolar,
doença, invalidez).
Apesar do desigual acesso à tecnologia na educação, contraditoriamente a tecnologia
pode dar oportunidade de emancipação das classes sociais inferiores. Se trabalhado de forma
consciente e bem estruturado, o ensino a distância, por exemplo, torna-se um meio de eman-
cipação individual, pois é a aplicação da tecnologia na educação que pode dar oportunidade de
inclusão para diversos indivíduos socialmente excluídos. Essa concepção pode ser o primeiro
passo para uma globalização como possibilidade.
No Brasil, a política do Ministério das Comunicações voltada para a implantação de tele-
centros no território nacional tem amenizado parcialmente o fosso que há no nível de acesso às
tecnologias da informação e comunicação, especialmente no que concerne ao uso da internet
em comunidades interioranas, inclusive em comunidades rurais (Figura 2).

Figura 2 – Telecentro comunitário

Fonte: <http://portal.cnm.org.br/sites/8800/8887/noticias/telecentro.JPG> Acesso em: 19 dez. 2010

148 Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização


Além dessa possibilidade de acesso à educação por parte da população excluída social-
mente, a difusão de escolas bem estruturadas, com profissionais qualificados e valorizados,
a difusão de universidades, centros tecnológicos e projetos de ensino, pesquisa e extensão
nos lugares mais remotos e periféricos da sociedade, também se constituem em alternativas
que poderão viabilizar as mudanças e a alteração do quadro de exclusão social, fruto da baixa
formação e baixa qualificação que atinge milhões de indivíduos no mundo, de modo muito
particular no Brasil, haja vista a dimensão territorial que o País apresenta.
Nota-se que nos últimos anos a política de expansão das universidades públicas federais,
bem como a expansão dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia têm propor-
cionado mudanças no nível de acesso à educação pública superior, inclusive no interior do País
(Figura 3). Mesmo assim, vários problemas educacionais continuam existindo, sobretudo na
educação básica e no Ensino Médio, a exemplo da baixa qualificação e baixa remuneração de
um grupo de professores, precariedade no transporte escolar em determinadas comunidades
rurais etc. (Figura 4).

Figura 3 – Instalações do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande Norte – Campus de Caicó - RN

Fonte: <http://www.euamocaico.com.br/sistema/sistema_de_noticias/arquivos/img4a96a6be75c6a.jpg>. Acesso em: 22 dez. 2010.

Figura 4 – Transporte escolar rural

Fonte: <http://4.bp.blogspot.com/_xrW-m2PxDsE/S82GwMpEbJI/AAAAAAAABeg/YNNz_lP477E/s1600/pau-de-arara.jpg>. Acesso em: 22 dez. 2010.

Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização 149


1

Elabore um texto abordando todos os aspectos do processo de globa-


1 lização e seus reflexos na capacidade de inserção econômica e social.

Explique o papel da educação no contexto do atual processo de


2 globalização, mostrando como esta pode se constituir numa possi-
bilidade de inserção econômica e social, considerando ainda o papel
da tecnologia.

Da exclusão social à pobreza:


uma aproximação conceitual
A respeito do tema pobreza, Salama e Destremau (1999) iniciam a discussão levantando a
importância da análise das ambiguidades ligadas aos termos “pobre”, “mais ou menos pobre”
e “mais rico”, definindo as diferentes acepções de pobreza.
A medida da pobreza pode ser abordada sob diversos aspectos e de várias formas: mo-
netária, fluxos, satisfação das necessidades básicas ou ainda por elementos de patrimônio.
Quando relativa à moeda, essa medida da pobreza fornece uma medida indireta, privilegiando
o mercado. Em relação à satisfação das necessidades básicas, refere-se à reprodução dos
indivíduos e dos grupos familiares na sociedade.
Tratando-se de fluxos e elementos de patrimônio, a análise se torna mais complexa.
Os pobres possuem um patrimônio, ainda que frágil. No entanto, na maioria dos casos é
insuficiente. Mesmo assim, não se pode definir pobreza por fluxos monetários. Fazer isso é
subestimar a pobreza.
Diante da abordagem feita, pode-se interpretar a pobreza enquanto absoluta ou relativa.
Analisando a pobreza absoluta, percebe-se que ela necessita da determinação de patamares
de rendimento, os quais se dividem entre inferiores à linha de pobreza e abaixo da linha de
indigência (pobreza extrema). A linha de pobreza é determinada pelo mínimo necessário de
bens para a reprodução do indivíduo e o acesso a uma alimentação com o número de calorias
necessárias a sua subsistência (convertidas a uma série de bens de alimentação/cesta básica).
A renda necessária para obter a cesta básica é o que define a linha de indigência. Os indivíduos
ou grupos familiares cujo rendimento está situado aquém dessa linha possuem uma situação
de pobreza extrema.
Quanto à pobreza relativa, esta é definida com base na renda mediana. Assim, pessoas ou
grupos familiares com rendimentos inferiores a esse patamar seriam considerados pobres. A

150 Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização


pobreza monetária, a pobreza subjetiva e as necessidades básicas insatisfeitas são os enfoques
que dão uma imagem mais completa, e certamente mais próxima, da pobreza.
Há muitas críticas em relação a essa concepção de pobreza destacada por Salama &
Destremau. Tomando por base as ideias de Santos (2009), ao se analisar o tema pobreza ur-
bana nos países subdesenvolvidos, incorre-se em ciladas devido aos inúmeros instrumentos
deficitários de pesquisa (estatísticas e classificações duvidosas). E isso só se complica quando
nos voltamos aos objetivos e às formulações teóricas falsas ou incompletas.
Certas definições de pobreza, miséria ou mesmo de riqueza corroboram para essa insatis-
fação estatística, restringindo os problemas abordados a parâmetros de abordagem puramente
material. A restrição da pobreza a definições parciais também está vinculada a órgãos inter-
nacionais, pois estes normalmente estão interessados apenas em informações quantitativas
e soluções contábeis, o que impossibilita comparações.
Para rever tais contradições, se exige um tratamento dinâmico do problema, levando em
consideração todo o conjunto de fatores, havendo assim uma tentativa de teorização adequada
para a análise.
É comum relacionar a pobreza e, sobretudo, a pobreza urbana, ao crescimento de-
mográfico. Trata-se de um raciocínio mecânico, que conduz a outro. Para Santos (2009),
muitos estudiosos guiam suas pesquisas sobre essa dualidade levando em consideração
a limitação do crescimento demográfico, enquanto ação indispensável à manutenção do
crescimento econômico.
Surge aí a crítica sobre a “cultura da pobreza”, na qual o indivíduo pobre está condenado
a viver pobre, salvo se houver um acidente em sua vida, ou seja, a pobreza se autocriaria e se
automanteria. Tratar-se-ia, assim, de um grupo social marcado por uma enfermidade incurável:
sua própria cultura.
Finalmente, chega-se à conclusão de que a pobreza decorre do fato de um país passar
por um crescimento sem que nele haja desenvolvimento. Para se pensar em crescimento é
necessário se considerar e observar profundas transformações estruturais. O desenvolvimento
vem acompanhado, sobretudo por transformação das estruturas sociais.
A discussão sobre a pobreza tem sido intimamente ligada ao que se chamou de teoria
da marginalidade. Nesse sentido, os dois termos quase se tornaram sinônimos. Além disso, a
discussão desse problema não resultou em elaboração de nenhuma teoria real.
A noção de marginalidade foi julgada inadequada, pois se mostrou ambígua. O uso da
própria expressão marginalidade permitiu que a chamada “população marginal” de um país
fosse julgada excedente ou até, economicamente falando, inútil. É incorreto contrapor marginais
à sociedade global, porque esta não pode ser definida sem os pobres. Esses últimos, não são
socialmente marginais, mas rejeitados, explorados e reprimidos.
É possível afirmar que a “crise urbana” como resultado da explosão demográfica é a forma
parcial de tratar o problema da pobreza. Há uma preocupação maior no sentido de se evitar agi-
tações do que de se impedir a pobreza. O mesmo se faz na análise da “pressão demográfica” no
âmbito da economia tradicional. Ou seja, é mais importante a formulação de slogans, os quais
ocultam a realidade e selecionam apenas alguns aspectos para análise da pobreza. Tudo isso
culmina na desilusão e impotência de muitos estudiosos diante da problemática da pobreza.
Por fim, discutindo o “consumismo”, este é considerado como manobra política ou
oportunismo sofisticado, podendo conquistar o povo e ganhar o poder. Não raro, no discurso
oficial, se associa eliminação da pobreza à ampliação da capacidade de consumo da população.

Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização 151


Nesse aspecto, o problema da pobreza aparece para transformar a estrutura de poder no atual
período de globalização.
Portanto, a globalização que é transmitida pela mídia, pelos meios alienantes de comu-
nicação, é uma globalização como fábula, em que se prega a ideia de uma tendência a homo-
geneização dos espaços. Na verdade, a única coisa que o sistema quer que seja realmente
globalizado é o consumo, ou seja, por trás da ideia de sociedade homogênea está o verdadeiro
sentido da globalização, que é a homogeneização do consumo, todos poderem consumir tudo
de forma igual. Esse consumismo despótico criado gera a necessidade incessante de consu-
mir, que de forma encadeada gera a exclusão, já que nem todos podem consumir, gerando a
pobreza como marginalidade. Nesse sentido, a globalização se mostra perversa.
Uma alternativa à globalização como fábula e como perversidade está na educação, a
qual se constitui num importante instrumento para a emancipação e ascensão de indivíduos
e grupos, e que pode ser capaz de promover a conscientização política e social, gerando um
importante processo de construção da cidadania.

Explique como é possível definir a pobreza e a exclusão social, mos-


1 trando quais os fatores essenciais para essa explicação, e quais os
limites que se apresentam ao se analisar esse tema.

2 Existe alguma relação entre pobreza e consumo? ( ) Sim ( ) Não

3 Justifique sua resposta.

Inserção econômica e social e cidadania:


refletindo sobre o “espaço do cidadão”
Na obra “Espaço do cidadão”, Santos (2007) indaga: “há cidadãos nesse país (Brasil)?”.
Para o autor, simplesmente nascer confere ao indivíduo uma soma inalienável de direitos,
apenas pelo fato de ingressar na sociedade humana. Logo, viver, tornar-se um ser no mundo,
é assumir, com os demais, uma herança moral, que faz de cada qual um portador de prerro-
gativas sociais.
O discurso das liberdades humanas e dos direitos como seus garantidores é, certamente,
ainda mais vasto. Tantas vezes proclamado e repetido, tantas vezes menosprezado. É isso,
justamente, o que faz a diferença entre a retórica e o fato. O respeito ao indivíduo é a consa-

152 Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização


gração da cidadania, pela qual uma lista de princípios gerais e abstratos se impõe como um
corpo de direitos concretos individualizados.
A cidadania evolui por meio de um processo de lutas desenvolvidas paralelamente em
diversos países, que leva da condição de “membro da sociedade nacional” no século XVII, ao
“direito de associação” no século XIX, até serem alcançados os “direitos sociais” em pleno
século XX.
Mas há diferentes concepções de cidadania. Nos países subdesenvolvidos, de um modo
geral, há cidadãos de classes diversas: há os que são mais cidadãos, os que são menos cida-
dãos e os que nem mesmo ainda o são. É certo que a cidadania se realiza segundo diversas
formas, mas não podemos partir do princípio de que homens livres possam ter respostas
diferentes aos seus direitos essenciais apenas pelo fato de viverem em países diferentes.
Comprometendo o processo de construção da cidadania, as firmas hegemônicas, os
bancos e outros agentes, tomam o lugar das instituições governamentais, usurpam das assem-
bleias eleitas, demonstrando um poder legislativo que não têm, impondo regras à totalidade
dos cidadãos. Mediante essa invasão descabida, a vida social é ilegalmente regulada em função
de interesses privatistas.
Que as firmas se assemelham a instituições nos países onde impera o capitalismo mo-
nopolista é fato já arquiconhecido. Mas em certos países, como o Brasil, onde a cidadania
apresenta-se imperfeita e a figura do cidadão ainda é pouco representativa, as firmas se com-
portam impunemente e de forma abusiva.
No Brasil atual, em matéria política, da organização dos partidos à legislação da pro-
paganda eleitoral, da proporcionalidade da representação às modalidades de representação,
tudo isso somente pode ser entendido se examinarmos a maneira como foi decidido instituir
a transição do regime autoritário para a nova forma política que está em desenvolvimento. A
definição atual da cidadania não escapa a essa regra. É uma cidadania mutilada, subalternizada,
muito longe do que, habitualmente, se observa em outros países capitalistas.
Falando sobre “O Cidadão Mutilado”, Santos (2007) inicia sua discussão colocando como
extensa a tipologia das formas de vida não cidadãs, a qual se expressa desde a retirada, direta
ou indireta, dos direitos civis à maioria da população, às fórmulas eleitorais engendradas para
enviesar a manifestação da vontade popular, ao abandono de cada um a sua própria sorte.
O autor fala sobre a perversão do nosso tempo, no qual o consumo aparece como o vício
que representa a vida do coletivo e atua na formação do caráter dos indivíduos. O consumo
instala sua fé por meio de objetos, quer pela sua presença ou expectativa de obtê-los mais à
frente. Assim, surge uma sociedade que não só consome, como também produz desperdícios.
A glorificação do consumo acompanha-se da diminuição gradativa de outras sensibilidades.
Enquanto constrói e alimenta um individualismo feroz e sem fronteiras, o consumo contribui
para o aniquilamento da personalidade.
A moda também aparece como um dos artifícios do consumo, apresentando as coisas
da mesma forma, embora aparentando uma transformação. A criação de novos objetos que
se impõem ao indivíduo faz da moda a manivela do consumo. Tudo isso é parte da alienação,
a qual fragmenta o conhecimento e distorce a realidade humana, criando um estado de ânimo
de vacuidade emotiva, abatimento e de existencialismo carente de perspectivas.
Esse tipo de pensamento ou ideologia passou a ser propagado no Brasil com o advento
do “Milagre” Econômico, o qual disseminava uma prosperidade ilusória que contaminava a
sociedade de alto a baixo, enriquecendo de sonhos injustificados quem jamais deixaria de ser

Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização 153


pobre. Assim, a cara hedionda do sistema torna-se um pouco menos feia. Assim se cria uma
sociedade onde não há o cidadão, mas um consumidor mais-que-perfeito, o que engloba o
caso do nosso país.
Configura-se, assim, “o espaço sem cidadãos”, no qual o espaço fora deixado ao exclu-
sivo jogo do mercado, consagrando desigualdades e injustiças. Um espaço que existe sem
se preocupar em assistir à sociedade como um todo, que reproduz extensas áreas vazias de
infraestrutura básica (hospitais, escolas, moradia, informações em geral), como se as pessoas
nem lá estivessem.
Na sociedade burguesa, a comunidade é dividida através da competitividade e é invadida
por uma mediocridade espiritual, de tal forma que a existência material do homem se torna
escravizada, insegura e unilateral.
No mundo de hoje, cada vez mais as pessoas se reúnem em áreas mais reduzidas, como
se o habitat humano minguasse. Isso permite experimentar, através do espaço, o fato da es-
cassez. A capacidade de utilizar o território não apenas divide como separa os homens, ainda
que eles apareçam como se estivessem juntos.
O território em que vivemos é mais que um simples conjunto de objetos, mediante os
quais trabalhamos, circulamos, moramos, mas também é um dado simbólico.
A vida de cada um, nesse lugar das grandes mutações, é uma grande incógnita, porque,
para a maior parte das pessoas, a cidade, como um todo, ao primeiro contato é impalpável,
não se deixando entender apenas com o que apreendemos em suas enormes quantidades,
nada mais que uma fração do todo. Por isso, a grande maioria dos cidadãos não percebe a
cidade senão pela lógica dos medos, das premonições, da sensibilidade, que se aguça com o
próprio acesso ao trabalho.
Entre a realização plena do indivíduo e a realização do cidadão, encontram-se as diversas
organizações que estruturam a vida social.
Sob o ângulo formal, a organização maior é, teoricamente, o conjunto de normas legais,
estabelecidas pelas diversas instâncias políticas, desde a Constituição, que é a lei das leis, até
as posturas municipais.
A sociedade, porém, não se rege apenas por leis, decretos, portarias nos níveis federal,
estadual ou municipal. As relações atuais entre as firmas e o poder público atribuem às em-
presas um certo poder de regulação da vida social. Cada vez mais, e a cada dia, as empresas
ditam normas, que são frequentemente ainda mais rígidas que as do poder público e as quais
o cidadão não pode resistir, sob pena de se ver paralisado ou tolhido em seu cotidiano.
A esfera do público e a do privado se confundem de forma intolerável, em detrimento do
indivíduo e do cidadão. Frequentemente, são abusos para os quais não há apelação, mormente
pelo fato de que a justiça, a quem nesses casos dever-se-ia poder recorrer, não está aparelhada
para oferecer, em tempo hábil, o respaldo necessário. Sua falência é dupla: organizacional e
ideológica, ou, pelo menos, sociológica.
As formas de distorção da condição de cidadão são extremamente numerosas e, em
muitos casos, sutis e sofisticadas. As relações entre a sociedade civil e o Estado tornam-se,
cada vez mais, objeto de deformações e enviesamentos, mistificações sabiamente engendradas.
Para Santos (2007), a cidadania é mais que uma conquista individual. Uma coisa é a
conquista de uma personalidade forte, capaz de romper com os preconceitos. Outra coisa é
adquirir os instrumentos de realização eficaz dessa liberdade.

154 Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização


O homem livre nasce com a desalienação e se afirma no grupo. O cidadão, porém, é uma
categoria política que só tem eficácia enquanto categoria jurídica. Por isso, é mais fácil chegar
a ser uma personalidade forte, liberada, que um cidadão.
Cada homem passa então a valer pelo lugar onde está: o seu valor como produtor, con-
sumidor, cidadão depende de sua localização no território. Seu valor vai mudando, incessan-
temente, para melhor ou para pior, em função das diferenças de acessibilidade, independentes
de sua própria condição. Pessoas com as mesmas virtualidades, a mesma formação, ou até
o mesmo salário têm valores diferenciados segundo o lugar em que vivem: as oportunidades
não são as mesmas.
O próprio estudo da distribuição da pobreza no espaço supõe que se pesquise a razão
pela qual indivíduos dotados das mesmas virtualidades, das mesmas capacidades potenciais,
têm “valor” diferente segundo o lugar em que se encontram.
Por mais simples que seja o exame das características relativas à distribuição da po-
pulação segundo seus diversos estratos e à repartição dos serviços públicos, dos tipos de
comércio, dos preços e das amenidades, pode-se inferir a existência de uma correlação entre
a localização das pessoas e o seu nível social e de renda.
Em outras palavras, pode-se dizer que, com exceção de alguns bolsões atípicos, o es-
paço urbano é diferentemente ocupado em função das classes em que se divide a sociedade
urbana. O fenômeno é antigo, mas, na medida em que a aglomeração evolui, aparece cada
vez mais nítido.
Santos (2007) discorre sobre a insuficiência do modelo econômico enquanto solução
para os grandes problemas da nação. A sociedade é mais que a economia. A interferência das
demais entidades que formam o corpo da nação corrige ou deforma ou, simplesmente, modifica
as intenções do planejamento econômico, sobrepondo-o à realidade social.
É do modelo político, considerado como abrangente de todas as ações sociais que se
dão num território, que se deveria ou poderia esperar um tratamento sintético dessas variáveis
interdependentes, com a formulação de projetos de nação. No entanto, mudar o modelo eco-
nômico, ou o modelo político, tal como praticado, de nada valerá se um novo modelo cívico
não se instala.
Um modelo cívico, sobretudo em um país como o nosso – em que a figura do cidadão
jamais teve apreço verdadeiro –, exigirá, como premissa indispensável, essa coragem de ser
que a nossa civilização parece coibir e até proibir.
Todo nosso esforço deve estar empenhado na codificação desse modelo cívico, não mais
subordinado ao modelo econômico, como até agora se deu, mas com um modelo cívico que
oriente a ação política e alicerce a solidariedade social, e ao qual o modelo econômico e todos
os demais modelos sejam subordinados.
No Estado moderno, os governos devem, em sua ação, levar em conta dois horizontes
temporais: o do longo prazo e o do curto prazo. O horizonte de longo prazo dá conta das grandes
opções nacionais, os chamados grandes desígnios, que partem de uma visão prospectiva do
lugar a alcançar ou manter dentro da comunidade internacional e do jogo de forças internamente
desejável, para que sejam atingidos os ideais proclamados de liberdade, justiça e bem-estar para
a população, do crescimento econômico adequado, da paz e do progresso sociais.
Quanto ao horizonte de curto prazo, é o da adaptação cotidiana da dialética exposta
anteriormente, de modo a encontrar soluções para os inúmeros conflitos que aparecem no

Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização 155


domínio da economia, da sociedade, da cultura e da política, e eliminar os desajustes que a
implementação dos desígnios de longo prazo costuma acarretar.
As diversas escalas geográficas e os seus correspondentes níveis de governo abrigam
princípios e projetos destinados a se concretizar no longo prazo e no curto prazo. Por isso, a
organização política e a organização territorial da nação não podem ser consideradas como
dados separados, mas devem ser pensadas unitariamente, como uma organização político-
territorial que necessita ser idealizada para fornecer resposta adequada às grandes opções
nacionais, tanto no plano externo como no plano interior.
Ao modelo cívico territorial estariam subordinados todos os demais, a começar pelo
próprio modelo econômico, que, no Brasil moderno, tanto anterior à Nova República como
agora, tiraniza os demais. Estamos, portanto, muito distantes da constituição de uma cida-
dania plena, mas corroborando de alguma forma com os avanços do consumo despótico. Por
conseguinte, o processo de inserção econômica e social em tempos de globalização mostra-se
diferenciado e contraditório, especialmente quando se considera os avanços do meio técnico-
científico-informacional e sua égide.

Com base no texto, o que se entende por “espaço do cidadão” e cida-


1
dania? Exemplifique!

De acordo com as ideias do geógrafo M. Santos (2009), como é pos-


2
sível explicar o processo de constituição da cidadania no Brasil face
ao atual processo de globalização, que dentre outras características é
marcado pela tirania da informação e pelo consumo despótico?

Leituras complementares

SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Hucitec, 1996.


Trata-se de uma importante obra para a compreensão do espaço geográfico no atual pe-
ríodo do meio técnico-científico-informacional, que é a designação geográfica da globalização.
Nessa obra, são discutidas, de forma mais aprofundada, as unicidades da técnica, do tempo
e do dinheiro na atual fase do sistema capitalista.

156 Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização


CASTRO, Josué de Castro. Geografia da fome. 8. ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2008
Nessa obra, Josué de Castro mostra a pobreza originária do consumismo e dos fatores
estruturais da sociedade. O autor descreve a pobreza nas diversas áreas do País, atrelando essa
situação à fome que assola o território nacional na primeira metade do século XX, mas que
mesmo transcorrido mais de meio século de história não se nota profundas transformações.

Resumo

Nesta aula, vimos que no período de globalização, a fábula e a perversidade


se apresentam contraditoriamente incutidas nos eventos e fatos que assinalam
ideologicamente o atual período, marcado pela tirania da informação, do dinheiro
em estado puro e da política em estado puro. A educação se constitui numa
forte possibilidade de inserção econômica e social, portanto, de emancipação do
homem. A exclusão social contradiz-se com o consumismo despótico imposto
pelo “globaritarismo”, gerando a pobreza estrutural. Nesse sentido, a cidadania
torna-se comprometida e distante de ser alcançada em sua plenitude. Mas,
através da consolidação de um avançado processo educativo, fazendo uso da
tecnologia para promover um sistema educacional eficiente, pode-se alcançar
a inserção econômica e social. Portanto, através da educação o indivíduo pode
deixar de ser um “cidadão sem espaço”, para exercer sua cidadania, ajudando,
assim, a construir o “espaço do cidadão”.

Autoavaliação
Faça uma análise correlacionada, observando semelhanças e divergências entre a
1
concepção de pobreza na obra “O tamanho da pobreza” de Salama e Destremau
(1999) e na obra “A pobreza urbana” de M. Santos (2009).

Discorra, sucintamente, sobre como a educação pode se constituir numa possibili-


2
dade de inserção econômica e social, portanto de emancipação humana, podendo
contribuir com a construção do “espaço do cidadão” e da cidadania.

Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização 157


Referências
DANIEL, John. Educação e tecnologia num mundo globalizado. Brasília: UNESCO, 2003.

MITTLER, Peter. Educação inclusiva: contextos sociais. Porto Alegre: Artmed, 2000.

SALAMA, Pierre; DESTREMAU, Blandine. O tamanho da pobreza. Rio de Janeiro: Editora


Garamond, 1999.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2000.

______. O espaço do cidadão. 7. ed. São Paulo: EDUSP, 2007.

______. Pobreza urbana. 3. ed. São Paulo: EDUSP, 2009.

Anotações

158 Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização


Anotações

Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização 159


Anotações

160 Aula 8 Espaço, Tecnologia e Globalização


Tecnologia, reestruturação
produtiva e espaço local

Aula

9
Apresentação

N
esta aula, será enfocado o processo de internacionalização da economia, a partir do
desenvolvimento das forças de produção capitalista, assim como a nova dinâmica
de acumulação e suas implicações na (re)organização do espaço local. Para tanto,
buscamos interpretar esse processo a partir do resgate histórico da ampliação da capacidade
produtiva capitalista, mediante a unicidade das técnicas. Assim, parte-se da ideia do “motor
único”, entendido como a mais-valia mundial, que se tornou possível devido à mundialização
do produto, do dinheiro, do crédito, da dívida, do consumo, da informação. Esses elementos
são os que dão dinamicidade aos processos globais e ao mesmo tempo se realizam no local.

Objetivos
Compreender a reestruturação das forças produtivas do
1
capital, a partir da incorporação crescente da técnica, como
elemento central da dinamização do processo de globalização.

Identificar a dinâmica de relações entre o global e o local


2 numa relação espaço-tempo.

Reconhecer o papel da tecnologia no contexto de relações


3 global-local.

Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização 163


Uma breve introdução

A
discussão sobre a relação do local com o global, sem dúvida nenhuma, se constitui num
dos temas que melhor nos permite aproximar do objeto da Ciência Geográfica, ou seja,
do espaço enquanto totalidade. Não é possível compreender os processos que ganham
materialidade no local sem compreender suas relações com o global, o que nos coloca diante
da necessidade de compreensão dos fenômenos e processos nas suas múltiplas escalas.
Segundo Carlos (1997, p. 309):

O lugar revela, todavia, a especificidade da produção espacial global, [...] ele tem um
conteúdo social; só pode ser entendido nessa globalidade e justificado pela divisão es-
pacial do trabalho que cria uma hierarquia espacial que se manifesta na desigualdade que
configura-se enquanto existência real em função das relações de interdependência com
o todo, fundamentada na indissocialização dos fenômenos sociais.

Para realizar uma abordagem das transformações recentes no cenário mundial, provocadas
pela nova dinâmica do capital e sua territorialidade, faz-se necessário remeter-se a uma aborda-
gem histórica para ressaltar os condicionantes que apontam para essa nova e complexa fase do
desenvolvimento do modo de produção capitalista, a partir da consolidação do “motor único”,
entendido como a mais-valia mundial, de acordo com Santos (2004).
Assim, proceder-se-á com uma descrição da evolução histórica do capitalismo, destacando as
etapas da internacionalização, multinacionalização e globalização do capital, entendidas enquanto
processo histórico, embora do ponto de vista teórico-conceitual essas concepções apresentam
variações. Em seguida, mostra-se a discussão das características da organização da produção no
fordismo e na produção flexível, correlacionando com o avanço tecnológico, indispensável para
se entender as transformações recentes. E, para finalizar, buscar-se-á analisar as implicações do
processo de globalização e da flexibilização da produção na organização do espaço local.

Os estágios de desenvolvimento das


forças produtivas do capitalismo
Os conceitos de internacionalização, multinacionalização e globalização vêm sendo usa-
dos, principalmente pelos meios de comunicação de massa, indistintamente ou como sinôni-
mos, para designar as complexas relações estabelecidas entre os países e a expansão e repro-
dução ampliada do capital por todo o globo. Contudo, segundo Petrella (1996), em relação à
internacionalização e à multinacionalização, a globalização constitui-se em um fenômeno novo.
Segundo Ianni (1996), apesar do seu recente emprego, não se pode falar de globalização Ianni (1996)
Notas da palestra proferida
sem se considerar o processo histórico de desenvolvimento do capitalismo, desde a expansão
pelo Prof. Dr. Otávio Ianni,
marítimo-comercial, do século XVI, fato que intensificou as relações mercantis entre diferentes no Centro Paula Souza, em
áreas do mundo e que dá início à expansão do modo de produção capitalista, inicialmente São Paulo, 1996.
baseado no acúmulo de capital através das relações comerciais desiguais entre os povos.

Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização 165


Na perspectiva de Santos (2004), a globalização se constitui no ápice da internacionaliza-
ção do mundo capitalista. O autor ressalta que para compreendê-la deve-se levar em conta o
estado das técnicas e o estado da política. Sendo que, para que as primeiras possam se realizar,
tornando-se história, necessita da intermediação da política, que pode partir das empresas e dos
Estados. Eles podem trabalhar juntos ou separadamente. Dessa forma, a globalização não pode
ser explicada apenas por esse novo sistema de técnicas (técnica, ciência, informação) “presidido
pelas técnicas da informação”, mas também a partir das ações dos agentes citados anteriormente.
O desenvolvimento das forças produtivas capitalistas imprimiu ao mundo um modo de
produção com base na propriedade privada dos meios produtivos, que, deve-se considerar,
não ocorreu de maneira uniforme em todas as partes. Esse desenvolvimento inicialmente
marcado pela dominação europeia sobre áreas consideradas menos desenvolvidas – o que é
questionável –, propiciou, do século XVI ao XVIII, uma série de vantagens ao desenvolvimento
do capitalismo dentro do território europeu e uma consequente dominação sobre o restante
do mundo.
O desenvolvimento das forças produtivas capitalistas conduziu a uma divisão internacional
do trabalho em que as áreas dominadas se especializam na produção de produtos primários,
enquanto a Europa desenvolvia um significativo aparato tecnológico empregado na produção
de bens manufaturados, o que a colocava em posição de domínio no mercado, propiciando-lhe
acúmulo de capital. Além desse aspecto, o processo de desenvolvimento da manufatura na
Europa levou a uma especialização da mão de obra, a uma mudança nas relações de trabalho,
que deixa de ser servil e passa a ser assalariada. Isso possibilitou o desenvolvimento de um
importante mercado consumidor, além de fazer surgir novas classes sociais: a burguesia
detentora dos meios de produção e o proletariado possuidor apenas da força de trabalho.
Todos esses elementos, associados ao desenvolvimento do modo de produção capitalis-
ta, que segundo Goldenstein e Seabra (1989), não ocorreram, simplesmente, pelos aspectos
naturais e históricos, mas também por consequência dos aspectos técnicos, econômicos e
políticos, provocou uma profunda desigualdade entre as áreas dominantes e as dominadas.
Essa desigualdade tornou-se mais marcante com a Revolução Industrial, que se iniciou
nas áreas onde, durante o período mercantil, houve a criação de condições necessárias ao
desenvolvimento da indústria, ou seja, na Europa. O restante do mundo, com exceção das
Américas que já eram colônias (a do Norte, de povoamento e a Latina, de exploração) desde o
século XVI, sofreu uma divisão e dominação pelos países que se industrializavam e necessita-
vam, a partir daí, de novas áreas de influência para expandir a oferta de matéria-prima e novos
mercados consumidores. Nesse período ocorreu a primeira grande expansão capitalista com
a Revolução Industrial, que proporcionou maior rapidez e um aumento jamais visto antes na
produção de mercadorias. Esse modelo de acumulação vai se esgotar em meados do século
XIX, com o acirramento dos conflitos gerados pelo próprio modelo de acumulação.
Um novo modelo de acumulação privada do capital emergiu com o desenvolvimento da
indústria siderúrgica, que inaugura uma nova fase da evolução do setor industrial, que revolu-
cionou o setor de transportes, com a era das ferrovias. Além dessas transformações internas
do setor produtivo, ocorreram no final do século XIX e início do século XX, em função da
crise do capitalismo, a formação de grandes monopólios, período em que inúmeras empresas
faliram, outras foram compradas pelas que não tiveram perdas com a crise e outras optaram
pela fusão para se fortalecerem.

166 Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização


Essa fase do desenvolvimento do modo de produção capitalista é marcada por disputas
intensas entre as potências imperialistas europeias, o que vai conduzir aos confrontos mundiais
– Primeira e Segunda Guerra Mundial (1914-1918 e 1939-1945) – que provocaram mudanças
na estrutura geopolítica mundial.
Durante essa etapa de desenvolvimento do capitalismo, pode-se considerar que houve um
processo de internacionalização da economia, que se refere à circulação de matérias-primas,
produtos industrializados e semi-industrializados, serviços, dinheiro, ideias e pessoas entre os
diferentes Estados-Nações. Essa circulação está apoiada em agentes nacionais, com destaque
especial para “as autoridades públicas nacionais, as quais dirigem e controlam os intercâmbios
mediante instrumentos da política monetária e fiscal, através da adjudicação de contratos
públicos ou do estabelecimento de normas e especificações” (PETRELLA, 1996, p. 47-48).
Com a crise do capitalismo (as duas guerras mundiais e a crise de 29 – período entre
1914 e 1945), acirram-se os conflitos imperialistas e outras economias – como a dos Estados
Unidos – despontaram na disputa pela hegemonia mundial indicando mudanças na ordem
anterior, inclusive com a reestruturação da composição de forças, até então centrada na Europa
(no momento, mais especificamente, na Inglaterra).
No período posterior à guerra, houve uma nova fase de expansão do capitalismo com
o desenvolvimento de alguns segmentos da indústria de bens de consumo duráveis como a
automobilística, eletroeletrônico, informática e aeroespacial. Esse período é marcado por um
desenvolvimento técnico-científico extraordinário e por uma nova forma de atuação do Estado,
que começa a criar mecanismos de controle sobre o desenvolvimento da economia, através
do planejamento e dos investimentos diretos no setor produtivo, com o intuito de evitar crises
parecidas com a de 1929, favorecendo a acumulação e a reprodução ampliada do capital,
interna e externamente.
Nesse contexto, após 1945, intensificam-se os investimentos diretos de um país em outro,
ou seja, começa a se concretizar um novo cenário mundial através da multinacionalização da
economia, que pode ser entendida a partir da transferência e descentralização de recursos,
entre uma e outra economia nacional, principalmente de capital e trabalho, o que se concretiza
através da instalação de filiais de uma empresa em outros países, aumentando sua capacidade
produtiva e expandindo seu mercado. A ação do Estado nesse processo, principalmente nos Anti-trustes
A Lei Antitruste brasileira
países centrais, ocorre de duas formas distintas, tanto para fortalecer suas empresas, com (Lei nº 8.884/1994), criada
a ampliação da sua capacidade produtiva, como para “dificultar” a entrada de empresas es- para atender o manda-
trangeiras em território nacional, através de leis anti-trustes, para proteger a economia e as mento constitucional
da regulamentação da
empresas nacionais contra a competitividade estrangeira. Assim:
atividade econômica e
financeira, no que se refere
Em um sentido mais amplo, a multinacionalização da sociedade significa que os agentes à repressão do abuso do
sociais [...] são capazes de expandir-se e instalar-se em outros espaços nacionais e poder econômico que
transformá-los desde dentro sem considerar sua peculiaridade. Em sentido inverso, estes vise à dominação dos
agentes também podem ver-se influenciados e dominados por outros agentes nacionais mercados, à eliminação da
e ser, por sua vez, transformados por eles (PETRELLA, 1996, p. 51). concorrência e ao aumento
arbitrário dos lucros,
Com esse processo, os países centrais começam a instalar filiais de suas empresas em prevê a participação do
Ministério Público nos
áreas periféricas, o que provocou, por um lado, em grande medida, a industrialização de um
processos de prevenção
grupo de países, porém, por outro, não conseguiram resolver seus problemas sociais mais e repressão às infrações
elementares. É importante destacar que esse processo de desconcentração geográfica da in- contra a ordem econômica
dústria não mudou as relações de desvantagens dos chamados países de economia dependente (ALVES, 2000).

Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização 167


no mercado mundial. Eles apenas deixaram de ser, tradicionalmente, exportadores de produtos
primários para se tornarem exportadores de produtos industrializados de baixa tecnologia,
havendo uma nova redefinição na divisão internacional do trabalho, com esse processo.
Teoria keynesiana Esse período é marcado por transformações econômicas e, sobretudo, tecnológicas,
Conjunto de ideias que que repercutiram, principalmente, sobre o trabalho, a produção e o consumo. Para Tavares
propunham a intervenção
(1997, p. 272), “as mudanças que ocorriam na produção tinham seu correspondente no plano
estatal na vida econômica
com o objetivo de conduzir da regulação, na ideologia socialdemocrata, que se completavam com os princípios da teoria
a um regime de pleno em- keynesiana e do Welfare State”.
prego. As teorias de John Essa ordem mundial keynesiana do pós-guerra, baseada na produção em massa desmo-
Maynard Keynes tiveram
ronou nos anos de 1970. Nesse sentido, Stoper (1994, p. 33) ressalta que:
enorme influência na
renovação das teorias clás-
sicas e na reformulação da Muitas foram as causas da desmontagem do paradigma da produção em massa [...]:
política de livre mercado. exaustão dos ganhos de produtividade no interior do próprio sistema tecnológico; satu-
Acreditava que a economia ração dos mercados; pressões salariais constantes; mudanças no mercado de consumo
seguiria o caminho do em direção a uma maior diferenciação do produto; abandono do sistema Breton Woods de
pleno emprego, sendo o taxas fixas de câmbio em torno de um dólar supervalorizado, do qual havia estabelecido
desemprego uma situação a configuração territorial dos preços de produção desde a guerra.
temporária que desapare-
ceria graças às forças do
Diante da exaustão dessa ordem estabelecida no pós-guerra, transformações profundas
mercado (KEYNES, 1992).
começaram a se desenhar no cenário mundial, afetando o setor financeiro, os sistemas de co-
Welfare State municação e transporte, infraestrutura, organização e gestão empresarial, modelo de consumo
Estado de bem-estar e o papel do Estado. Com isso, segundo Petrella (1996), os conceitos de internacionalização e
social, ou Estado-pro-
de multinacionalização tornam-se inadequados para explicar o que está ocorrendo, havendo
vidência, é um tipo de
organização política e a necessidade de utilizar um novo conceito, como o de globalização, para se compreender os
econômica que coloca fenômenos que já não podem ser analisados pela ótica tradicional.
o Estado (nação) como Faz-se necessário ressaltar que as transformações observadas na dinâmica da economia
agente da promoção (pro-
mundial, que provocaram mudanças profundas nas relações internacionais e na organização
tetor e defensor) social e
organizador da economia. interna da produção nacional, não implicam no desaparecimento das desigualdades e desequi-
líbrios apresentados no campo econômico e social entre os países. O processo de globalização
Breton Woods não é um processo homogeneizador, que tende a diminuir as desigualdades existentes, ao
O sistema Bretton Woods, contrário, cria novas desigualdades, como pode ser observado na Figura 1, que representa a
estabelecido em junho de
distribuição mundial da indústria. Já as Figuras 2 e 3 apresentam o crescimento dos estoques
1944, foi o primeiro exem-
plo, na história mundial, de de investimentos mundiais de um país em outro e a desigualdade na distribuição do PIB entre
uma ordem monetária to- os países do mundo.
talmente negociada, tendo
como objetivo estabelecer
regras para as relações
comerciais e financeiras
entre os Estados-Nações
independentes.

168 Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização


Figura 1 – Distribuição mundial da indústria

Fonte: Fernández (2010). Disponível em: <http://joseantoniomora.50webs.com/images/industrializacion.jpg>. Acesso em: 9 set. 2010.

Figura 2 – Mapa-múndi: Estoques de Investimentos Externos, 1980 e 2004

Fonte: Revista Vestibular, UERJ, 2009. Disponível em: <http://www.revista.vestibular.uerj.br/questao/busca-questao-imprimir.php?aseq_disciplina=7>. Acesso em: 23 out. 2010.

Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização 169


Figura 3 – Mapa-múndi: População total e Produto Nacional Bruto em 2003

Fonte: Le Monde Diplomatique, 2003. Disponível em: <http://www.geografiaparatodos.com.br/index.php?pag=geobr_cap25>. Acesso em: 12 out. 2010.

A lógica da acumulação e a organização das atividades econômicas baseadas no fordis-


mo e no keynesianismo demonstraram-se totalmente incapazes de conter as contradições
inerentes ao capitalismo, por conta da rigidez apresentada por estes, ao que se pode atribuir
o desencadeamento das transformações observadas atualmente na organização do capital
(HARVEY, 1993).
O regime de acumulação fordista tem como características básicas a produção industrial
padronizada apoiada no consumo de massa. Nesse modelo de desenvolvimento o Estado tem
papel de destaque, atuando na regulação dos conflitos capital X trabalho, na produção de
infraestrutura, para a geração de economias de aglomeração, além de, em muitos casos, criar
benefícios diretos, como incentivos fiscais e subsídios para o grande capital, visando regular
a demanda efetiva, garantindo o aumento da produção e da acumulação privada do capital.
Esse modelo de acumulação chegou aos seus limites no final dos anos de 1960, quando
entra em colapso, dando início a mais uma crise econômica a partir dos anos de 1970. Nos
anos de 1980, observam-se sinais de organização de uma nova forma de desenvolvimento do
capitalismo, baseada na produção flexível. De acordo com Swyngdouw & Kestellot (1989),
nesse contexto:

A transição para um novo regime de acumulação é, portanto, acompanhada por mudanças


fundamentais nos modos de produção e consumo, nas formas de transações materiais
e informacionais, nas infra-estruturas que sustentam os mecanismos institucionais de
regulação das relações sociais. Elas induzem a uma reestruturação espacial da sociedade

170 Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização


inteira (definindo uma nova divisão espacial do trabalho, mudanças na política do espaço,
criação de novos espaços de consumo, redefinição do conteúdo ideológico dos espaços,
etc.) (SWYNGDOUW; KESTELLOT, 1989, p. 248).

Assim, o confronto entre a acumulação flexível e a rigidez do fordismo gerou, e está


gerando, uma reestruturação das indústrias tradicionais e uma perda generalizada de empre-
gos, levando inúmeras regiões industriais a profundas crises sociais, por um lado, enquanto
que, por outro, observa-se o surgimento de novas zonas industriais apoiadas na produção
de produtos de alta tecnologia e na flexibilização da produção. Para Harvey (1993, p. 140), a
acumulação flexível

se apóia na flexibilização dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos


produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção
inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos
mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnoló-
gica e organizacional. A acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos padrões de
desenvolvimento desigual, tanto em setores como entre regiões geográficas, criando, por
exemplo, um vasto movimento no emprego no chamado ‘setor de serviço’, bem como
conjuntos industriais completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas (tais
como a ‘Terceira Itália’, Flandres, os vários vales e gargantas do silício, para não falar da
vasta profusão de atividades dos países recém-industrializados). Ela também envolve um
novo movimento que chamarei de ‘compressão do espaço-tempo’ no mundo capitalista –
os horizontes temporais das tomadas de decisões privada e pública se estreitam, enquanto
a comunicação via satélite e a queda dos custos de transporte possibilitam cada vez mais
a difusão imediata dessas decisões num espaço cada vez mais amplo e variegado.

Nessa perspectiva, “a estruturação do espaço das atividades econômicas é uma parte


intrínseca da forma concreta de um regime de acumulação, e toda crise leva ao abandono dos
antigos e criação de novas configurações espaciais de produção” (SWYNDOUW; KESTELLOT,
1989, p. 248).
Diante dessa nova forma de organizar a produção, do fenômeno da globalização, com uma
multiplicidade de vínculos e inter-relações entre os Estados e da criação de novas configurações
espaciais da produção, a organização do espaço local é o que apresenta maior transformação.

Como podemos diferenciar mundialização, internacionalização


1
e globalização?

Destaque as transformações ocorridas na estrutura produtiva do


2 capital, com a passagem da organização fordista para a flexível.

Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização 171


Reestruturação
produtiva e tecnologia
Para melhor compreender a reestruturação produtiva do capital, faz-se necessário com-
preender a arquitetura da globalização. Nesse sentido, para Santos (2004), são quatro os fatores
que contribuem para explicar “a arquitetura da globalização atual”, quais sejam: a unicidade
da técnica, a convergência dos momentos, a cognoscibilidade do planeta e a existência
de um motor único na história, a mais-valia globalizada.
Para o autor, as técnicas nunca aparecem isoladas, mas em grupos, ou seja, como famílias
que representam a época em que foram instaladas. Assim, o que representa o período atual é
a chegada da técnica da informação, que permitiu a comunicação entre as técnicas existentes
e a atuação sobre o uso do tempo, permitindo assim, “a convergência dos momentos” que
assegura a simultaneidade das ações e acelera o processo histórico. Assim, a partir da criação
dessas novas técnicas, cada lugar passa a ter acesso ao acontecer do outro.
Em contrapartida, as novas técnicas que vão surgindo não anulam as anteriores e é essa
constatação que explica a hierarquia dos territórios, onde alguns são dotados das técnicas mais
modernas e outros possuem baixa densidade técnica. Nesse sentido, para Santos (2004, p. 25),

ao surgir uma nova família de técnicas, as outras não desaparecem. Continuam existindo,
mas o novo conjunto de instrumentos passa a ser usado pelos novos atores hegemônicos,
enquanto os não hegemônicos continuam utilizando conjuntos menos atuais e menos
poderosos. Quando um determinado ator não tem condições para mobilizar as técnicas
consideradas mais avançadas, torna-se, por isso mesmo, um ator de menor importância
no período atual.

Dessa forma, esse sistema técnico presente na atualidade é “invasor”, ou seja, ele sem-
pre busca espalhar-se no sistema produtivo e, consequentemente, no território, embora nem
sempre consiga. Essa característica encontra embasamento no próprio funcionamento dos
agentes hegemônicos (principalmente as empresas globais) cuja produção acontece de forma
fragmentada (localizando-se nos territórios mais atraentes às empresas) graças à hegemonia
das técnicas, passível de presença em toda parte. Porém, apesar dessa produção fragmentada
“tudo se junta e articula depois, mediante a ‘inteligência’ da firma”. Sendo assim, “[...] se a
produção se fragmenta tecnicamente, há do outro lado, uma unicidade política de comando”.
Continuando o raciocínio, diante dessa realidade, os Estados e as instituições suprana-
cionais não conseguem eficiência no sentido de impor uma ordem global, porque “não há
propriamente uma unidade de comando do mercado global e cada empresa comanda suas
operações dentro do conjunto de lugares de sua ação” (SANTOS, 2004, p. 25 e 26).
A unicidade das técnicas, tendo o computador como carro-chefe, permite a existência
de uma finança global, principal responsável pela imposição em todo o globo de uma mais-
valia mundial, que, consequentemente, juntamente com a unicidade do tempo torna eficaz a
unicidade da técnica (SANTOS, 2004).
A mais-valia mundial, motor único que move o mundo nos dias atuais, difere do que
ocorria anteriormente, quando havia diversos motores,

172 Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização


[...] o motor francês, o motor inglês, o motor alemão, o motor português, o belga, o
espanhol etc., que eram todos motores do capitalismo, mas empurravam as máquinas
e os homens segundo ritmos diferentes, modalidades diferentes, combinações diferen-
tes. Hoje haveria um motor único que é, exatamente, a mencionada mais-valia universal
(SANTOS, 2004, p. 29).

Segundo o referido autor, esse motor único se tornou possível devido à mundialização
do produto, do dinheiro, do crédito, da dívida, do consumo, da informação. Dentre as formas
de exercício dessa mais-valia está a competitividade entre as empresas que conclamam uni-
versidades, centros de pesquisas etc., a fornecerem novas técnicas, novos produtos, novas
formas de gestão, enfim, novas formas de aumentar a mais-valia e lhe permitir passar à frente
de uma empresa concorrente.
No período técnico-científico atual passamos a “conceber” os objetos que desejamos –
criamos antes as necessidades e depois os objetos para satisfazê-las –, adquirimos o poder de
conhecer o planeta de forma aprofundada e esse poder tem sido amplamente utilizado pelos
agentes hegemônicos que valorizam as localizações de forma diferenciada.
Porém, apesar da impressão que existe de que o mundo caminha para uma homoge-
neização, devido à mundialização dos fatores até aqui explicitados, isso deve ser encarado,
sobretudo como “[...] tendência, porque em nenhum lugar, em nenhum país, houve completa
internacionalização” (SANTOS, 2004, p. 30).
O autor ressalta ainda que quem comanda a história são os grandes agentes hegemônicos,
os donos da velocidade e os donos do discurso ideológico, o que ele denomina de agentes
do tempo real. E, salienta que os homens não são igualmente agentes desse tempo real, e
que este, só existe “para todos” fisicamente, porém, socialmente ele é privilégio de poucos.
Dessa forma, estamos vivenciando “um período que é uma crise”, pois ele contraria
os períodos anteriores, que eram antecedidos e sucedidos por crises – sempre que algum
(ns) fator (es) comprometia (m) a ordem estabelecida. Diante disso, pode-se afirmar que
‘há um processo ideológico’ que não só justifica o processo de globalização considerando-o
como único caminho histórico, como “impõe uma visão da crise e a aceitação dos remédios
sugeridos” em nível global, como se essa crise fosse a mesma para todos (SANTOS, 2004).

1 O que se entende por “motor único” da economia mundial?

Explique o papel da técnica no surgimento do “motor único” da eco-


2 nomia e na “convergência do momento”.

Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização 173


Nova dinâmica de acumulação e
implicações na (re)organização do espaço local
Todas as transformações técnicas observadas no período atual repercutem na organi-
zação da produção, que se materializa no local. Nesse sentido, Benko (1996) ressalta que a
flexibilidade das formas organizacionais da produção provoca a flexibilidade dos mercados de
trabalho que são fortalecidos na aglomeração geográfica, ou seja, na escala local, em especial
nos espaços urbanizados.
Contudo, a “ampliação dos mercados locais de trabalho e as novas formas da repro-
dução socioespacial contribuem para o processo global de crescimento dos novos comple-
xos” (BENKO, 1996, p. 148). Nesse sentido, o autor destaca que a concentração espacial da
produção oferece muitas vantagens à reprodução do capital, porém, ao passo que ocorre o
desenvolvimento excessivo da aglomeração, esta pode se tornar desvantajosa, tendendo a
Deseconomias provocar a acumulação de deseconomias.
Pode-se exemplificar
esse processo com os Em decorrência das novas dinâmicas, sentidas de forma mais expressivas atualmente,
problemas verificados nas
grandes metrópoles, tais
tem-se o desencadeamento do processo de desconcentração das atividades produtivas que
como: congestionamentos; ocorrem de forma mais significativa na organização da produção associada à evolução tecno-
violência, que obriga as
empresas a maiores inves- lógica e à modificação dos métodos de trabalho.
timentos em segurança;
especulação imobiliária,
Assim, o processo de desconcentração ocorre com o nascimento de novos setores de
encarecendo a instalação atividades, de novos produtos e com o desenvolvimento de novas tecnologias, que vão encon-
ou ampliação de atividades
econômicas, entre outras, trar, também, nos espaços sem tradições industriais, condições favoráveis para se desenvolver.
o que compromete a repro-
dução ampliada do capital
Dessa forma, a localização das atividades produtivas apresenta dois movimentos sucessivos:
e, portanto, dos lucros.

uma concentração geográfica das atividades, que permite obter economias de aglomera-
ção (baseadas na organização da produção e na formação dos mercados locais de traba-
lho), seguida por desconcentração geográfica da produção para evitar as deseconomias
de aglomeração crescente provocadas pela concentração acentuada das atividades [...]
desse modo os novos espaços de produção nascem e os antigos são condenados seja
a renovar-se, seja a desaparecer” (BENKO, 1996, p. 150).

174 Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização


É comum, com essa reestruturação das atividades produtivas, o aparecimento dos tecno-
polos, que podem ser considerados como centros caracterizados pelas atividades industriais
de alta tecnologia. Podemos citar como exemplo o Vale do Silício, na Califórnia, EUA (Figura 4).

Figura 4 – Vale do Silício, Califórnia, EUA. Concentração de indústrias de alta tecnologia

Fonte: <http://www.lucafiligheddu.com/wp-content/uploads/2008/09/siliconvalley.jpg>. Acesso em: 23 nov. 2010.

Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização 175


Para Benko (1996), pode-se classificar os espaços onde se encontram os tecnopolos
em três categorias distintas: as velhas regiões industriais, que para atrair novas atividades e
reconverter-se superando sua característica de área tradicional, são levadas a criar tecnopolos;
os espaços metropolitanos, por oferecerem economias de aglomeração, possibilidade de tran-
sição entre antigas e novas tecnologias, além de apresentarem forte concentração dos setores
de tecnologia elevada e os novos espaços industriais, que surgem por iniciativa de empresas
já existentes ou por novas empresas que se lançam em novas atividades e buscam regiões
sem tradição industrial para se instalarem, por apresentarem maior adaptação às condições
e à organização da produção.
Diante desse processo de (re)localização das novas atividades produtivas, observam-se
grandes transformações na organização do espaço local e urbano, que se torna, cada vez mais,
pontos centrais fundamentais para a (re)estruturação das atividades econômicas em escala
internacional. Nesse sentido, Sassen (1998, p. 47) destaca que ocorre o “surgimento de um
novo tipo de sistema urbano, que opera em níveis regionais, globais e transnacionais. [...]
Essas cidades despontam como lugares estratégicos na economia global”.
Contudo, os impactos provocados pelo processo de globalização na reestruturação dos
espaços locais não se processam da mesma forma nos países com níveis diferenciados de
desenvolvimento.
Como exemplo, Sassen (1998, p. 56) ressalta que nas cidades da América Latina esse processo

Em alguns casos, contribui para o desenvolvimento de novos pólos de crescimento


situados fora das grandes aglomerações urbanas. [...] Em outros casos aumentou o
peso das aglomerações urbanas principais, à medida que novos pólos de crescimento
foram desenvolvidos nessas áreas. Um terceiro caso é aquele representado por grandes
centros comerciais e financeiros da região, vários dos quais presenciaram um grande
fortalecimento de suas ligações com os mercados globais e com os grandes centros de
comércio internacional do mundo desenvolvido.

Já para a realidade europeia, os impactos estão se dando de maneira diferente, sendo que

As implicações organizacionais e espaciais das novas tendências econômicas assumem


formas distintas em vários sistemas urbanos. Algumas cidades tornam-se parte de redes
transnacionais, enquanto outras passam a ser independentes dos centros principais de
crescimento econômico em suas regiões ou nações. [...] podemos identificar pelo me-
nos três tendências na reconfiguração dos sistemas urbanos da Europa ocidental. [...]
Em primeiro lugar, surgiram vários sistemas regionais subeuropeus [...]. Em segundo,
nos limites do território da União Européia e em várias das nações adjacentes [...], um
número limitado de cidades fortaleceu seu papel de sistema urbano europeu emergente.
Finalmente, algumas dessas cidades fazem também parte de um sistema urbano que
opera em nível global (SASSEN, 1998, p. 61).

Ainda cumpre destacar que o processo de metropolização na América Latina inicia-se com
o processo de multinacionalização da economia e com a lógica de acumulação e organização
da produção baseadas no fordismo.
Para Cordeiro (1997), a nova dinâmica criada pela expansão do capitalismo (e conse-
quente flexibilização da produção), impõe ao processo de metropolização um ajustamento
às novas situações, o que implica em uma interação das subestruturas de cada subsistema

176 Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização


(territorial, econômico, sociocultural) e do sistema como um todo, o que leva a novos níveis
de equilíbrio. Nesse sentido,

no seu ajustamento atuam tanto agentes hegemônicos, agindo sobre cada um dos sub-
sistemas, quanto a grande massa de pobres, levando à modernização incompleta, seletiva
e desigual, que privilegia parcelas da sua região e grupos da sua população (CORDEIRO,
1997, p. 318).

Esse processo, por um lado, conduzido pela produção monopolista do espaço, que possi-
bilita a materialização de um novo espaço social, superando o espaço concreto preexistente, por
outro, é influenciado pela condição anterior de um espaço também preexistente mais amplo que
vai determinar a nova forma de organização do espaço, como a acumulação do anterior. Assim:

em vez de uma reprodução ampliada por germinação em volta do espaço antigo, há


acumulação do espaço social/econômico preexistente e produção programada no tem-
po de um novo espaço. Os grandes conjuntos habitacionais em grandes subúrbios ou
a renovação maciça dos centros são os exemplos mais conhecidos, mas a diferença é
também nítida no que concerne às zonas industriais e portuárias. [...] O que se torna
determinante é o cálculo interno do planejados, a relação entre o capital a investir e o
lucro esperado, e resumo, o que chamei de mecanismo do tributo diferencial endógeno
(LIPIETZ, 1988, p. 142).

Diante do exposto, pode-se inferir que a nova dinâmica econômica, que é global, está inter-
ferindo de forma explícita na (re)produção/(re)organização do espaço local, em especial nas áreas
metropolitanas, através das novas formas de territorialização desse processo. Contudo, essa (re)
produção/(re)organização espacial insere-se na fase mais recente do processo de metropolização,
que se desenvolve por meio das forças que possuem o controle do capital que é aplicado na
produção de espaços adaptados às novas condições tecnológicas, com vista à multiplicação da
eficiência desses, enquanto espaços de reprodução ampliada do capital.

Descreva o processo de reestruturação produtiva e seus reflexos na


1
produção do espaço local.

Explique como e por que o processo de reestruturação produtiva


2
levou ao aparecimento dos tecnopolos.

Aponte algumas contradições inerentes ao processo de reestrutura-


3
ção produtiva em escala global e local, especialmente no que concer-
ne ao processo de metropolização. Exemplifique.

Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização 177


Leituras complementares

HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. Tradução: Carlos Szlak. São Paulo:
Annablume, 2005.
Nessa obra, o autor trata sobre as mudanças no sistema capitalista de produção, abor-
dando questões como o fordismo, acumulção flexível, mudanças no mundo do trabalho e seus
desdobramentos no processo de produção espacial. Trata-se de um texto importante para as
análises geográficas que versam sobre o período atual e suas contradições.

SANTOS, Milton. Pobreza urbana. 3. ed. São Paulo: EDUSP, 2009.


Em continuidade a outros trabalhos e reflexões feitas sobre as contradições que marcam
o atual período, o teórico mostra como a pobreza se estabelece e se reproduz no mundo, es-
pecialmente nos países subdesenvolvidos onde o processo de urbanização se dá tardiamente
associado, dentre outros aspectos, ao avanço tecnológico.

Resumo

Nesta aula, discutimos o processo de internacionalização da economia, a


partir do desenvolvimento das forças produtivas capitalistas, assim como a nova
dinâmica de acumulação e suas implicações na (re)organização do espaço local.
Ademais, buscamos interpretar esse processo a partir do resgate histórico da
ampliação da capacidade produtiva capitalista, mediante a explicação sobre a
unicidade das técnicas, a ideia do “motor único”, entendido como a mais-valia
universal, algo possível a partir da mundialização do produto, do dinheiro, do
crédito, da dívida, do consumo e da informação. Nota-se que esses elementos são
os que dão dinamicidade aos processos globais e ao mesmo tempo se realizam
no local. Enfatizou-se como a reestruturação econômica, que opera em níveis
regionais, globais e transnacionais, implicou no surgimento de um novo sistema
urbano, viabilizando o processo de metropolização concomitante à pauperização
de uma camada social significativa, isto é, a uma intensificação da pobreza urbana.

178 Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização


Autoavaliação
Faça uma breve contextualização mostrando as principais características e eventos
1 que marcam o processo de reestruturação produtiva a partir de meados do século
XX. Leve em consideração a política dos Estados e a política das empresas numa
escala global.

Aponte como o meio técnico-científico-informacional legitima e sustenta o atual


2 período de internacionalização e mundialização do capital.

Problematize sobre a relação global-local numa perspectiva geográfica, no


3 contexto da reestruturação produtiva, mostrando alguns eventos e fatos que
marcam tal processo.

Referências
ALVES, Waldir. O Ministério Público Federal e o CADE na Lei Antitruste. 2000. Disponível
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/revista/rev_27/artigos/art_Waldir.htm#1>. Acesso
em: 10 out. 2010.

BENKO, Georges. Economia, espaço e globalização. São Paulo: Hucitec, 1996.

CARLOS, Ana Fani Alessandri. O lugar: mundialização e fragmentação. In: SANTOS, Milton et
al. (Org.) Fim de século e globalização. São Paulo: Hucitec/ANPUR, 1997. p. 303-309.

CORDEIRO, Helena Kohn. A “cidade mundo” de São Paulo e o complexo corporativo do seu
centro metropolitano. In: SANTOS, Milton, et al. (Org.) Fim de século e globalização. São
Paulo: Hucitec/ANPUR, 1997. p. 271-284.

GOTTDINER, Mark. A produção social do espaço urbano. São Paulo: EDUSP, 1993. p. 229-290.

HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural.
São Paulo: Loyola, 1993.

LIPIETZ, Alain. O capital e seu espaço. São Paulo: Nobel, 1988.

PETRELLA, Ricardo. Los limites a la competitividad. Buenos Aires, UNQ, 1996.

Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização 179


SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo. São Paulo: Hucitec, 1994.

______. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 11. ed.
Rio de Janeiro: Record, 2004.

SASSEN, Saskia. As cidades na economia mundial. São Paulo: Nobel, 1998. p. 47-73.

SWYNGENDOUW, E.; KESTELOOT, C. Le passage sociospatial du fordisme à la flexibilité: une


interpretation des aspects spatiaux de la crise et de son issue. Espaces & Sociétés, Paris,
L’Harmattan, n. 54-55, p. 243-268, 1989..

Anotações

180 Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização


Anotações

Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização 181


Anotações

182 Aula 9 Espaço, Tecnologia e Globalização


Globalização e meio técnico-
científico-informacional no Brasil

Aula

10
Apresentação

N
esta aula, discutiremos o processo de construção do meio técnico-científico-informacio-
nal no Brasil, observando suas diferenciações no território, as especificidades regionais,
a reorganização produtiva, a configuração do sistema financeiro e as contradições
inerentes ao processo de construção e uso do sistema de engenharia, o qual obedece tanto
à política do Estado, quanto à política das empresas. Nesse contexto, mostraremos como o
meio técnico-científico avançou desigualmente no território, associado ao processo de globa-
lização, mas como consequência do processo contraditório de expansão capitalista no mundo
subdesenvolvido, especialmente no Brasil. Nossa análise pauta-se, sobretudo, na obra do
geógrafo Milton Santos, haja vista sua contribuição científica no entendimento sobre o espaço
e a técnica e, por conseguinte, sobre a globalização e o meio técnico-científico-informacional.

Objetivos
Apresentar a base teórica que explica o processo de globa-
1 lização e o meio técnico-científico informacional no Brasil.

Descrever o contexto de contradições socioespaciais re-


2 lacionados ao processo de construção e implantação do
meio técnico-científico-informacional no Brasil.

Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização 185


A globalização e o meio técnico-científico-
informacional: uma aproximação teórica
A explicação sobre o período que se denominou de globalização nas Ciências Humanas
e Sociais requer fundamentalmente uma discussão profunda sobre o processo de construção
do meio técnico-científico-informacional. Na Ciência Geográfica, Milton Santos explica a glo-
balização a partir do espaço geográfico, que ele chama de “espaço da globalização”.
Nesse sentido, o autor contextualiza a velocidade das mudanças, sobretudo no âmbito da
produção, da circulação e do consumo, assim como na ordem financeira, política e cultural.
Para Santos (2005, p. 145), “a globalização constitui o estádio supremo da internacionalização,
a amplificação em ‘sistema-mundo’ de todos os lugares e de todos os indivíduos, embora em
graus diversos”.
Nesse sentido, Santos (2005) destaca ainda que se trata de uma nova fase da história
da humanidade, muito embora cada época se explique e se caracterize pelo surgimento de
um conjunto de novas possibilidades concretas, modificando, normalmente, os equilíbrios
preexistentes e procurando impor sua lei. Contudo, a globalização como totalidade, só se
exprime e se explica por meio das transformações em curso, dentre elas as transformações
no/do espaço geográfico.
Como vimos anteriormente, a globalização se constitui numa das fases da história da
reprodução capitalista marcada por rápidas mudanças em várias ordens, sobretudo econômica,
política, ambiental e sociocultural. A construção e configuração do meio técnico-científico-
informacional, portanto, é uma evidência desse processo de mudança. Nesse sentido, o meio
técnico-científico-informacional é uma marca característica do atual processo de globalização.
É sabido que o meio geográfico tem uma substância científico-tecnológico-informacional,
logo, “a ciência, a tecnologia e a informação estão na base mesma de todas as formas de
utilização e funcionamento do espaço, da mesma forma que participam da criação de novos
processos vitais e da produção de novas espécies (animais e vegetais). É a cientificização e a
tecnicização da paisagem” (SANTOS, 2005, p. 148).
Ao explicar a globalização como perversidade, o autor enfatiza que os interesses dos
atores hegemônicos marcam sobremaneira o atual período, fazendo-se refletir tanto no cam-
po quanto na cidade. Desse modo, “as ações hegemônicas se estabelecem e realizam-se por
intermédio de objetos hegemônicos” (SANTOS, 2005, p. 148).
Seguindo essa linha de raciocínio, Vergopoulos (2005, p. 43) explica que a globalização
mostra-se como uma “inevitável referência mítica em toda reflexão econômica, política e so-
cial contemporânea, como peça principal da nova ideologia dominante”. Para esse autor, as
crises econômicas das últimas décadas, assim como a implementação de políticas restritivas
e monetaristas, acompanhadas da “extinção da coesão social com a instalação do desemprego
em massa, da pobreza e das exclusões em larga escala, mesmo nos países industrializados,
são apresentadas pela ideologia corrente como consequências diretas da globalização” (VER-
GOPOULOS, 2005, p. 43). Diante do exposto, é importante entender como se constrói o meio
técnico-científico-informacional no Brasil, enquanto característica evidente do atual processo
de globalização.

Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização 187


O processo de constituição do
meio técnico-científico-informacional
Seguindo o raciocínio de Santos e Silveira (2008) é possível afirmar que “a história do
território brasileiro é, a um só tempo, una e diversa, pois é também a soma e a síntese das
histórias de suas regiões”. E por isso o entendimento do seu processo de formação territorial
e de sua realidade atual passa por uma periodização prévia.
Dessa forma, faz-se necessário uma reflexão dos períodos, que segundo Santos e Silveira
(2008) se constituem em pedaços de tempo definidos por características que interagem e
asseguram o movimento do todo.
Nessa análise são pontuados três momentos ao longo da história da organização do ter-
ritório brasileiro que podem ser identificados como: meio “natural”, o qual se caracteriza por
um momento em que o homem, sem instrumentos artificiais que o permitisse agir fortemente
sobre a natureza, estava de certa forma, subordinado a ela. Considera-se esse interstício como
período pré-técnico, pois para desenvolver sua base material o homem utilizava-se de objetos
da própria natureza, pouco transformado, para ampliar sua força ou capacidade de produção.
O segundo período corresponde ao meio técnico. Neste, o homem já desenvolvera alguns
instrumentos e conseguia agir sobre a natureza. É marcado principalmente pelas técnicas,
que vão desde simples ferramentas até as máquinas, dando início, ainda que timidamente, ao
processo de industrialização.
Finalmente, temos o terceiro período que se caracteriza pelo meio técnico-científico-
informacional, o qual se divide em duas partes: a primeira chamada meio técnico-científico,
momento da revolução das telecomunicações, e a segunda, conhecida como meio técnico-
científico-informacional propriamente dito, o qual se circunscreveu apenas em algumas áreas.
Assim sendo foi utilizando-se das diferentes técnicas disponíveis em cada um desses momen-
tos que a sociedade fez uso diferenciado do território.
Segundo Santos e Silveira (2008), num primeiro momento a atuação do homem base-
ava-se apenas em domesticação de plantas e animais. O seu corpo era o principal agente de
transformação da natureza. Assim, “esse processo não significou a implantação e próteses nos
lugares, mas a imposição à natureza de um primeiro esboço de presença técnica, pois ritmos
e regras humanas buscavam sobrepor-se às leis naturais” (SANTOS; SILVEIRA, 2008, p. 29).
É importante frisar que a evolução das técnicas não aconteceu de forma homogênea
em todo o mundo, ou seja, as técnicas dominadas pelos povos europeus diferiam muito das
dominadas pelos povos pré-colombianos. Sendo assim, no século XVI, momento da colo-
nização, as terras brasileiras eram habitadas por diversos grupos tribais que moravam em
aldeias distintas, somando cerca de um milhão de índios no início do processo colonizador.
Habitavam amplas áreas da Floresta Amazônica e da Floresta Tropical, a maior parte do litoral
e ainda parte do cerrado e da caatinga.
Diz-se que nesse momento, os indivíduos fixavam-se de acordo com a oferta da natureza.
Cada economia localizava-se de acordo com a necessidade de cada produto e as condições
que a natureza dispunha. De acordo com Santos e Silveira, tinha-se “desse modo, um terri-
tório caracterizado pelos tempos lentos, onde as diferenciações enraizavam-se na natureza e
um tempo natural humano buscava timidamente ocupar os alvéolos de um tempo ‘natural’”.

188 Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização


1

Explique a relação entre o processo de globalização e a constituição


1
do meio técnico-científico-informacional.

Considerando o estágio de desenvolvimento, como podemos


2 periodizar a história da técnica? Quais as principais características
de cada período?

Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização 189


Os sucessivos meios técnicos e
suas diferenciações territoriais no Brasil
A partir da segunda metade do século XIX, a produção e depois o território se mecanizam,
mediante a instalação de usinas açucareiras e mais tarde mediante a instalação da navegação
a vapor e das estradas de ferro. Às técnicas da máquina circunscritas à produção sucedem as
técnicas da máquina incluída no território.
Pode-se dizer então que a invenção e difusão das máquinas trazem uma nova realidade
ao Brasil, pois elas permitiram novas formas de usos do território. Esse momento é conhecido
como período técnico, o qual se desenrolou da seguinte forma: a princípio, o território brasileiro
se constituiu em um verdadeiro arquipélago mecanizado, ou seja, apenas em partes ou pontos
específicos do território havia produção mecanizada. Nesse período, inexistiam transportes
interiores rápidos causando, assim, o isolamento dos locais de produção e dificultando a
integração dos mesmos, por isso, Santos e Silveira (2008) afirmam que inexistia uma rede
urbana verdadeiramente nacional.
As primeiras indústrias brasileiras não eram obrigatoriamente urbanas. Na verdade,
muitas se localizaram fora das cidades por diversos motivos, como necessidade de se estar
próximo das fontes de energia e de matérias-primas.
Posteriormente, a industrialização veio a se instalar associada à mecanização da circula-
ção, que consequentemente provocou a ligação das partes ou dos pontos que antes estavam
separados. Dessa forma, a implantação de rodovias e a extensão das ferrovias nacionais pro-
porcionaram a integração do mercado e do território. Ou seja, inicia-se um processo tímido
de uma rede geográfica de cidades nesse momento.
Para Santos e Silveira (2008), o período de transição que culminou na verdadeira inte-
gração nacional ocorreu regionalmente com expressão e duração diferentes. Porém, de forma
geral, pode-se caracterizar esse momento entre o começo do século XX e a década de 1940.
Nessa fase, se estabeleceu, de fato, uma rede brasileira de cidades e já aí se iniciou a expressão
hegemônica de São Paulo devido ao crescimento industrial.
As navegações, importantes para o exterior, passaram a diminuir o contato com as capi-
tais regionais já que cidades beneficiadas com o aparelhamento dos portos e a construção de
estradas de ferro aumentaram seu comando sobre o espaço regional. Definitivamente iniciou-
se uma nova fase deixando o tempo natural para traz. Nessa nova fase, o território brasileiro
detinha as máquinas de produção e as de circulação que proporcionaram a consolidação das
áreas de mineração e criação de áreas de monocultura de exportação.
À medida que a urbanização aumentava, consequentemente, as demandas de eletricidade
também cresciam. O fato é que o território agora dispunha de bondes elétricos, iluminação
pública e indústrias. Dessa forma, Santos e Silveira (2008) concordam que num período rela-
tivamente curto, entre 1901 e 1920, o estabelecimento de usinas passa de 77 a princípio para
343 unidades, as quais estariam distribuídas principalmente entre os estados do Sudeste, do
Sul e Pernambucano na região Nordeste.

190 Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização


Observou-se que o crescimento desordenado da industrialização provocou um cresci-
mento expressivo na construção de usinas (de 1.208 para 1.833, entre 1930 e 1940) por todas
as regiões brasileiras.
Outro evento importante é o aumento da população urbana que ocorreu associado, den-
tre outros fatores, ao desenvolvimento dos meios de transportes e principalmente dos meios
de comunicação, ora concentrados na cidade. Vale salientar que os meios de comunicação
passaram a informar sobre as possibilidades de melhores condições de vida em outras loca-
lidades, viabilizando assim a migração, apoiada pelos meios de transportes agora disponíveis
ao longo do território.
O estado de São Paulo se destacou no que diz respeito à atração dos migrantes de ou-
tros estados brasileiros, principalmente da região Nordeste, devido as suas características de
metrópole industrial em meados da década de 1930.
Santos e Silveira (2008) observam que nesse período ocorre o surgimento e desenvol-
vimento de várias outras cidades com vistas a atender as necessidades de uma população
que atuaria nos setores da indústria e dos serviços. No século XX, a localização de boa parte
das cidades brasileiras não mais se restringia apenas à franja litorânea, mas evidenciava certo
espraiamento pelo hinterland, como é o caso de Manaus e outras cidades importantes, isso
justificado pela dependência em relação à navegação marítima. Os transportes e as necessi-
dades advindas da industrialização tornaram o Brasil um país integrado e é nesse contexto
que surgem novas importantes cidades no interior.
Dessa forma, pode-se dizer que nesse momento o Brasil conseguiu atingir a integração
do mercado e do território por meio da mecanização da produção e da circulação.
Pode-se afirmar que “a ideologia do consumo, do crescimento e do planejamento foram
os grandes instrumentos políticos e os grandes provedores das idéias que iriam guiar a recons-
trução ou a remodelação dos espaços nacionais” (SANTOS; SILVEIRA, 2008, p. 47). A partir
dessa nova ideologia iniciou-se uma corrida em busca de se equipar o território e integrá-lo
por meio de recursos modernos visando o seu crescimento e desenvolvimento.
Buscava-se a modernização a qualquer custo e isso gerou um grande problema, pois
quanto mais se importava tecnologia sofisticada para a produção, menos postos de trabalho
eram criados, desencadeando assim um excedente do exército reserva de mão de obra.
As redes de transportes foram ampliadas tornando-se mais densas e mais modernas. Os
intercâmbios aumentaram e o aparato produtivo cada vez mais dependia de recursos exógenos
e quanto mais se necessitava importar, aumentava também a necessidade de uma política de
exportação agressiva.
O período da globalização sob a égide do mercado fez com que os recursos da informação
estimulassem as transformações já causadas no território brasileiro a partir de 1970, por meio
da união entre a ciência e a técnica. Santos e Silveira (2008) afirmam que graças à técnica, à
ciência e à informação, o mercado se tornou global e o território assume novos conteúdos e
apresentam-se nele novos comportamentos.
O território brasileiro teve sua materialidade renovada nos últimos anos em decorrência
principalmente do desenvolvimento de várias técnicas que foram praticadas no território. Essa
renovação da materialidade foi evidenciada através das construções no território brasileiro no
decorrer do tempo, como as infraestruturas de irrigação e as barragens, os portos e aeroportos,

Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização 191


as ferrovias, rodovias e hidrovias, as instalações ligadas à energia elétrica, refinarias e dutos,
as bases materiais das telecomunicações, além de semoventes e insumos ao solo (SANTOS;
SILVEIRA, 2008)
Quanto à construção de infraestrutura, visando o aumento da produção através de téc-
nicas avançadas, como a irrigação, nota-se que em meados do século XX, à medida que a
produção aumentava, crescia também a necessidade de criação de mais depósitos, paióis
e silos no campo para estocar os produtos. Há muito tempo que as regiões Sul e Sudeste
concentravam o maior número de construções, como também a maior extensão de terras
irrigadas devido à incorporação de técnicas, diminuindo a dependência de fatores climáticos.
Por outro lado, no Nordeste, somente a partir da construção de grandes reservatórios é que
se possibilitou o aumento das terras irrigadas e consequentemente do volume de produção
regional, tudo isso com fortes gastos estatais através de órgãos como o Departamento Na-
cional de Obras Contras as Secas (DNOCS). Já em regiões como o Centro-Oeste as técnicas
de irrigação transformaram áreas quase desabitadas em zonas de agricultura de exportação
de produtos como a soja, por exemplo.
A partir dos anos 1950, o rearranjo da configuração territorial ocorre em grande parte
devido à expansão rodoviária (Figura 1) e ao desenvolvimento do transporte aéreo que, princi-
palmente, em meados da década de 1980 expandiu-se através da criação de novos aeroportos,
a exemplo do aeroporto internacional de Guarulhos, em São Paulo e o aeroporto internacional
Tancredo Neves em Belo Horizonte, Minas Gerais.

192 Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização


Figura 1 – Mapa das principais rodovias brasileiras

Fonte: Ministério dos Transportes. Disponível em: <http://www.geomundo.com.br/images/images-geografia/mapa-rodovias.pdf>. Acesso em: 23 out. 2010.

Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização 193


O Centro-Sul concentra a maior parte do fluxo aéreo brasileiro, seguido principalmente
do litoral nordestino. Nesse caso, nota-se uma importante participação do fluxo de turistas,
especialmente nas capitais onde o turismo tem apresentado certo dinamismo (Figura 2).

Figura 2 – Mapa do fluxo aéreo de passageiro no Brasil

Fonte: Théry e Mello (2008 apud ANUÁRIO DA AVIAÇÃO CIVIL, 2008).

Mais uma vez as regiões Sudeste e Sul despontam pela quantidade de aeroportos cons-
truídos e isso se dá pelo fato de o desenvolvimento nessas regiões ser mais diversificado,
concentrando além da indústria, uma agricultura moderna, ambas exigindo deslocamentos
rápidos de pessoas e produtos, consolidando assim a agroindústria no País.
Em relação à construção dos portos, foram construídos 14 novos, visando o escoa-
mento de produtos nacionais e a difusão de mercadorias importadas no território (Figura 3).
A cada momento as telecomunicações (Figura 4) ampliam as possibilidades de circulação de
informações e o aumento da produção. Nota-se que a necessidade dos fluxos de importação e
exportação contribuiu para que durante toda segunda metade do século XX os portos viessem
a ter sua infraestrutura ampliada e modernizada. Vale salientar que esse processo de moderni-
zação é comandado pelo poder público, por intermédio do Ministério dos Transportes, havendo
uma relação clara entre a política das empresas e a política do Estado. Nesse contexto, são
citados casos de autorização por parte do Estado de construção de terminais de uso privativo,
um exemplo disso é o terminal da Usina Siderúrgica da Bahia S.A.(USIBA). Observa-se que o
custo para o País como um todo é muito elevado, mas o benefício é monopolizado por algumas
poucas empresas.
194 Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização
Porto de Manaus
VENEZUELA GUIANA GUIANA
SURINAME FRANCESA Porto de Santarém

COLÔMBIA BOA Porto de Macapá


VISTA
Porto de Belém
MACAPÁ Porto de Vila do Conde
Porto de Caqui
BELÉM
Porto de Luíz Corrêa
MANAUS
Porto de Pecém
SÃO LUIS Porto de Fortaleza
FORTALEZA Porto de Areia Branca
TERESINA
NATAL Porto de Natal
JOÃO PESSOA
Porto de Cabedelo
RIO RECIFE Porto de Recife
BRANCO
PORTO MACEIÓ Porto de Suape
VELHO
PALMAS ARACAJÚ Porto de Maceió
Porto de Porto Velho Porto de Barra
SALVADOR
dos Coqueiros
PERU Porto de Salvador
BOLÍVIA
BRASÍLIA Porto de Aratu
CUIABÁ
Porto de Ilhéus
Porto de Cáceres GOIÂNIA
Porto de Pirapora
Porto de Ladário
BELO Porto de Barra do Riacho
Porto de Corumbá HORIZONTE Porto de Vitória
CAMPO VITÓRIA Porto de Forno
GRANDE Porto de Niterói

Figura 3 – Mapa dos principais portos brasileiros


RIO DE JANEIRO Porto do Rio de Janeiro
Porto de Itaguai

Aula 10
PARAGUAI SÃO PAULO
ARGENTINA Porto de Angra dos Reis
CHILE
CURITIBA
Porto de São Sebastião
PORTOS FLUVIAIS E MARÍTIMOS Porto de Santos
Portos Administrados por Cia. Docas FLORIANÓPOLIS
Porto de Antonina
Controladas da União Porto de Paranaguá
Portos Administrados por Estados e Municípios PORTO ALEGRE Porto de São Francisco do Sul
Portos Administrados por Empresas Privadas Porto de Itajái
Porto de Imbituba
Observação:
Não foram incluídos os terminais de us exclusivo e misto.
Porto de Laguna
Porto de Estrela
URUGUAI Porto de Porto Alegre
Porto de Cachoeira do Sul
Porto de Pelotas
Porto de Rio Grande

Fonte: Ministério dos Transportes (1999).

Espaço, Tecnologia e Globalização


195
Figura 4 – Mapa do sistema básico de telecomunicações

Fonte: Santos (2008 apud EMBRATEL, 1997).

196 Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização


Por outro lado, as ferrovias são construídas nas regiões brasileiras pela necessidade
de unir cidades que são sedes de grandes empresas, de funções portuárias, mas também de
funções políticas e econômicas. Um exemplo mostrado por Santos e Silveira (2008), dentre
tantos outros, é a ferrovia que se complementa com trechos que são quase paralelos à costa
marítima que une cidades dos estados do Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba,
Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia (Figura 5). Em 1970, foram construídos os trens urba-
nos eletrificados nas áreas metropolitanas, proporcionando o deslocamento da mão de obra
e trazendo à vida metropolitana novas relações como também novas velocidades.

VENEZUELA GUIANA GUIANA


COLÔMBIA SURINAME FRANCESA
BOA
VISTA
Estrada de Ferro Jari (EFJ)
Estrada de Ferro Amapá (EFA)
PRINCIPAIS FERROVIAS
Estrada de Ferro Trombetas (EFT)

MACAPÁ
Estrada de Ferro Carajás (EFG)

BELÉM Cia Ferroviária Nordeste (CFN)


Ferrovia Norte Sul (FNS) MANAUS SANTARÉM

SÃO LUIS
FORTALEZA

TERESINA NATAL

JOÃO PESSOA
PORTO VELHO
RECIFE
RIO
BRANCO PALMAS MACEIÓ

ARACAJÚ
PERU SALVADOR
BOLÍVIA
Ferrovia Centro-Atlântica (FCA)
CUIABÁ
BRASÍLIA
Ferrovia Norte Brasil S.A. (Ferronorte)
GOIÂNIA

BELO
CAMPO HORIZONTE Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM)
GRANDE
Ferrovia Novoeste S.A. (NOVOESTE)
VITÓRIA
MRS Logística

Estrada de Ferro Paraná Oeste S.A (FERROESTE)


Estrada de Ferro Corcovado (ESFECO)
RIO DE JANEIRO
CHILE ARGENTINA PARAGUAI SÃO PAULO
Estrada de Ferro Campos do Jordão (EFCJ)
CURITIBA

Ferrovia Bandeirantes S.A. (FERROBAN)


FLORIANÓPOLIS
Ferrovia existente
Estrada de Ferro Votorantim (EVM)
Ferrovia em Construção
Ferrovia Planejada Ferrocia Tereza Cristina (FTC)
PORTO ALEGRE
Capitais
América Latina S.A. (ALL)
URUGUAI

Figura 5 – Mapa das principais ferrovias brasileiras

Apaptado: Fonte: Ministério dos Transportes (1999).

Conforme Santos e Silveira (2008), a circulação, em sentido amplo, viabiliza a criação e


a continuidade das áreas de produção. Portanto, os sistemas de engenharia são incumbidos
de promover a circulação fluida dos produtos e possibilitar a produção em escala comercial,
e isso o faz por meio da construção de rodovias modernas.
Dessa forma, a partir da segunda metade do século XX, a infraestrutura de circulação
ligou diversas regiões brasileiras entre si, e com a região concentrada do País. Sendo assim, a
extensão da rede rodoviária brasileira passa de 302.147 quilômetros em 1952 para 1.657.769
quilômetros em 1995 (SANTOS; SILVEIRA, 2008).

Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização 197


Santos e Silveira (2008) afirmam que a rede nacional de estradas de rodagem apresenta
densidade diversa, na qual o Sul e o Sudeste apresentam espaços de maior espessura de
caminhos por unidade de superfície em relação às regiões Nordeste, Centro-Oeste e Norte. A
partir da década de 1970 é lançado o projeto de integração nacional, o qual buscava integrar
as regiões mais isoladas levando a construção de fixos, como as rodovias Transamazônica,
Cuiabá-Santarém e Cuiabá-Porto Velho. Na região Norte, os sistemas de engenharia ganham
maior complexidade a partir da especialização das hidrovias.
Outra mudança notória observada nas novas bases materiais refere-se ao sistema elé-
trico nacional, o qual se tornou progressivamente integrado, ao mesmo tempo em que o seu
comando político e uma parcela do seu comando técnico separam-se dos lugares aptos para
a produção. Essa desterritorialização dos comandos opõe-se às necessidades das populações
regionais circunscritas ao uso local do território e alheias aos imperativos de funcionamento
dos grandes sistemas técnicos.
A princípio, as refinarias foram construídas no Brasil com a finalidade de realizar o pro-
cessamento final do petróleo que era importado da Venezuela. Nessa fase, (anterior a década de
1960), as jazidas do litoral, do Maranhão ao Rio de Janeiro, ainda não tinham sido descobertas.
Dessa forma, pode-se dizer que “o refinamento antecedeu a exploração”.
A partir da década de 1970 se iniciou a revolução das telecomunicações no Brasil, e seu
desenvolvimento foi o responsável principal pela separação material das atividades e unificação
organizacional dos comandos no território brasileiro. Trata-se de um processo evolutivo que
se iniciou com o telégrafo e seguiu com o telefone, o telex, o fax, o computador, o satélite, a
fibra óptica e a internet.
O fenômeno das telecomunicações passou a servir principalmente para a área dos ne-
gócios. Fatos como a chegada do telex no Brasil em 1957 e a implantação pela Embratel de
uma rede nacional de telex em 1973, que envolveu milhares de terminais, primeiramente no
Rio de Janeiro e São Paulo, se espalharam posteriormente para outras localidades do território
nacional mostrando a atuação das demandas das empresas.
Em 1980, as principais metrópoles litorâneas do País e, sobretudo, a região concentrada
dispunham de bases materiais que lhes possibilitavam uma comunicação rápida e eficiente
entre elas e em relação ao exterior.
Aos poucos o telefone foi se transformando num contemporâneo do telégrafo nos sis-
temas de engenharia, e suas densidades em relação ao País e à população aumentava com
dinamismo diferenciado. Em 1980, o Brasil apresentava uma relação de um telefone para
16,33 habitantes e em 1996 a densidade é aumentada para um telefone para 8,03 habitantes.
Entretanto, as técnicas vão criando novas necessidades ao movimento social, e as em-
presas, cada vez mais, demandam por maior velocidade e isso dá margem para o surgimento
de novas técnicas que substituem as anteriores.
O fato é que é o avanço das tecnologias das telecomunicações que permite uma comu-
nicação eficiente a ponto de causar novas formas de dispersão-concentração territorial das
instâncias da produção, da distribuição e da gestão, como afirmam Santos e Silveira (2008).
Outro fato marcante que deve ser destacado foi a incorporação das fibras ópticas aos
sistemas técnicos nacionais, que ampliou a participação do Brasil na globalização das telecomu-
nicações. Segundo Santos e Silveira (2008), observa-se que as fibras ópticas se constituíram
em uma inovação fundamental nos sistemas de engenharia, e o desenvolvimento das teleco-
municações é devido em grande parte aos avanços paralelos da informatização do território.

198 Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização


Outra inovação técnica que se integrou aos sistemas de engenharia foi a telefonia móvel,
o telefone celular, que chegou primeiro no Rio de Janeiro e São Paulo e depois se irradiou
para outras cidades brasileiras.
O fato é que a configuração atual do território nacional é marcada por apresentar pontos de
concentração de tecnologia de ponta. Pode-se afirmar que São Paulo representa um desses pontos.

Afinal, como se constituiu o meio


técnico-científico-informacional no Brasil?
Seguindo o pensamento de Santos e Silveira (2008), observa-se que o uso do território vai
se diferenciar de acordo com a ciência e a técnica nele inseridas, e tal situação o define como
um novo meio geográfico. Então, nesse caso a informação é essencial para sua constituição
e uso. Porém, a informação se processa de forma desigual no território. Desse modo, a infor-
mação pode se apresentar em nível baixo, alto e médio em territórios diferenciados. Logo, a
utilização de objetos técnicos modernos para a produção de informação no espaço-tempo se
constituiu em formas de controle do território.
Os autores exemplificam enfatizando o zoneamento agropedoclimático, que seria o re-
sultado da confluência das técnicas de geoprocessamento, sistemas de informação geográfica,
dados sobre clima e solo e informações agrossocioeconômicas que servem na orientação das
decisões sobre o uso de recursos naturais e agricultura.
Sendo assim, a informação se constitui como essencial para o trabalho contemporâneo,
já que a especialização dos lugares é de certa forma uma manifestação da divisão territorial do
trabalho, na qual a circulação das informações se faz extremamente necessária.
O fato é que a informação chegou a um nível de se realizar em tempo real nos diferentes
espaços e isso interfere diretamente nas atividades econômicas, possibilitando àquelas que
têm acesso à informação o aumento da sua produtividade e rentabilidade. Dessa forma, os
territórios menos instrumentalizados apresentam diferenciações com relação aos mais ins-
trumentalizados. Quanto ao conhecimento do território, acabam por se apresentar como uma
área menos informada.
O trabalho permanente, a progressiva incorporação de capitais fixos e constantes, junta-
mente com os acréscimos de ciência, tecnologia e informação, os quais são ao mesmo tempo
produto e condição para o desenvolvimento de um trabalho material e intelectual, transfor-
maram o território brasileiro em meio técnico-científico-informacional (SANTOS; SILVEIRA,
2008). Pode-se falar hoje em um uso mais fluido do território, por meio de um sistema de
engenharia projetado e construído de forma integrada, ou seja, surgem necessidades numa
escala que ultrapassa a regional, que incorre na convergência de outros agentes, de outras
regiões, e acabam por desenvolver certa solidariedade entre técnicas de vários tipos que po-
voam o território por meio das redes materiais e imateriais.
Entretanto, essa expansão do meio técnico-científico-informacional é analisada por Santos
e Silveira (2008) como algo seletivo, ou seja, não se espalha igualmente sobre o território, mas
como manchas em determinadas partes do Brasil como, por exemplo, a região Sul e Sudeste,
nas quais o uso das técnicas, da ciência e da informação é concentrado.

Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização 199


2

Apresente os diferentes eventos e fatos que marcam o processo de construção do


1
meio técnico no Brasil.

Contextualize as diferenciações territoriais que marcam o processo de construção


2 do meio técnico-científico-informacional no espaço brasileiro.

Uma reorganização
produtiva do território
A partir da década de 1960, as indústrias passam por um processo de descentralização.
Surgem os belts modernos, ou monoculturas modernas, com o uso intensivo da técnica e
da tecnologia, buscando o aumento significativo da produção e da produtividade. Há ainda a
especialização comercial e de serviços em determinadas porções do país.
Dessa forma, tais mecanismos acabam por segmentar o território e por isso exige-se a
maior cooperação entre as partes especializadas do território, e com isso impõe-se uma circu-
lação mais fluida. O resultado disso tudo é a verdadeira fragmentação do território e territórios
alienados quanto à produção completa.
Segundo Santos e Silveira (2008), o movimento de descentralização se iniciou no Brasil
a partir da década de 1970 e a partir da década de 1990 já se estimulava a construção dos
tecnopolos no Brasil. Ao mesmo tempo em que a produção industrial passava a apresentar
maior nível de complexidade, as indústrias se espalhavam pelas regiões Sul, Centro-Oeste,
Nordeste e Norte. Como consequência desses processos de mudanças, observa-se que entre
as décadas de 1970 e 1990 houve uma diminuição do Sudeste quanto à participação no número
de estabelecimentos industriais e pessoal ocupado em relação ao Sul.
A região Centro-Oeste também apresentou aumento dos estabelecimentos industriais,
ainda que tímido, porém quanto às transformações industriais teve um crescimento extraor-
dinário entre 1970 e 1990. O Nordeste apresentou queda no número de estabelecimentos e
empregados, bem como certa estagnação da transformação industrial em relação às outras
regiões. Já no Norte os estabelecimentos diminuíram, mas verificou-se aumento no número
de pessoas ocupadas e no valor de transformação industrial.
Mas foi no estado de São Paulo que a desconcentração industrial se tornou mais evidente.
Entre as décadas de 1970 e 1990 cresceu no interior do estado o número de estabelecimentos
e o valor das transformações industriais, porém não foram capazes de oferecer maior número
de empregos devido ao uso de tecnologias mais avançadas na produção.
Para Santos e Silveira (2008), a nova divisão do trabalho industrial acompanha uma nova
repartição geográfica. Uma evidência disso é o fato de que as indústrias de setores como me-

200 Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização


talurgia, mecânica, material elétrico, comunicação, transportes, papel, indústria química e de
plástico se concentraram no Sudeste, seguida da região Sul. Quanto à indústria de madeira, o
Sul e o Norte apresentaram maior concentração. Já os setores farmacêutico e veterinário se
instalaram principalmente no Sudeste e Nordeste.
Vale lembrar que outro fator que interfere diretamente nas mudanças da localização das
atividades industriais é a disputa entre estados e municípios. Devido à ideia criada de que a
instalação de indústrias dentro de um território traz o desenvolvimento local e gera empregos
diretos e indiretos, iniciou-se no Brasil uma verdadeira “guerra fiscal” ou guerra dos lugares,
isto é, os estados e municípios brasileiros passaram a competir pela instalação de fábricas e
mesmo pela transferência das já existentes.
Essa disputa é acompanhada pela concessão de terrenos, de créditos para capital de giro
e financiamento de equipamentos, isenção de impostos e taxas durante vários anos, criação
de infraestruturas adequando-se às necessidades de tais fábricas, além de empréstimos sobre
o faturamento. Vale frisar que quase sempre não foi atingido o nível de emprego e desenvol-
vimento imaginados, assim como no item tecnologia, tais indústrias buscaram cada vez mais
serem independentes, não trazendo o retorno esperado a quem as receberam.
Um exemplo prático é o das montadoras que fazem com que a dinâmica de funcionamento
do território gire em torno delas, pois como afirmam Santos e Silveira (2008), as ações e ob-
jetos dos lugares escolhidos são chamados a colaborar com a instalação dessas montadoras,
fazendo com que o território seja organizado e usado de acordo com a lógica dessa possível
produção. São os lugares que acabam por se submeter a isso, haja vista as promessas da
chegada dos objetos modernos, como é o caso da instalação da Mercedes-Benz em Juiz de
Fora (MG) e de diversos outros lugares que receberam montadoras automobilísticas, que
receberam incentivos dos diversos níveis do governo.
Porém, a busca por uma densidade técnica e meios que atraiam o capital tem tornado os
lugares cada vez mais escravos dessa corrida por se manter atrativo, pois estão sempre sujei-
tos à ameaça de haver o deslocamento das fábricas aí instaladas, já que se trata de sistemas
egoístas, que visam apenas seus interesses econômicos.
Segundo Santos e Silveira (2008), estamos assistindo a uma nova forma de uso agrícola
do território que é proporcionada pelo período técnico-científico-informacional. Utilizam-se
técnicas que se sobrepõem até mesmo às leis naturais, como o clima e o solo, por exemplo.
Dessa forma, tal meio torna a produção agrícola cada vez mais independente e eficaz.
Ao discutir a ideia de movimento e fluidez do território, Santos e Silveira (2008) afirmam
que com o advento do meio técnico-científico-informacional os círculos de cooperação se
tornaram mais complexos e numa escala geográfica mais ampla. Dessa forma, os fluxos se
intensificaram de maneira extensa e seletiva, tornando-se indispensável e inevitável o investi-
mento na construção e modernização dos aeroportos, portos, ferrovias, rodovias e hidrovias,
pois estes se constituem nos fixos que balizam o movimento dos fluxos surgidos a partir da
criação dos fixos produtivos.
Quanto ao sistema financeiro, nota-se que a mudança das bases materiais e políticas
trouxeram ao mundo atual a revolução das formas de circulação de capitais e novos modos de
acumulação. Diferentes tipos de dinheiro circulam freneticamente por meio das interligações,
em tempo real, das bolsas, bancos e praças financeiras. Inclusive, outro fator contribui para
facilitar os fluxos de dinheiro além das fronteiras, a desregulação.

Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização 201


Assim sendo, Santos e Silveira (2008) afirmam que a relativa superioridade técnica e
política do subsistema financeiro resulta do comando sobre a economia, mas também sobre
outras instâncias da sociedade, bem como sobre o território. Observa-se que expansões e
retrações do sistema bancário brasileiro constituem-se numa manifestação desse processo. É
notória a mudança ocorrida no mapa financeiro, pois o Sudeste e o Sul concentravam a maior
parte das agências do Brasil e essa concentração foi caindo progressivamente e paralelo a isso
outras porções do País aumentavam sua importância relativa como, por exemplo, o Centro-
Oeste e o Nordeste (Figura 6).

Figura 6 – Mapa da distribuição geográfica das agências bancárias no Brasil (1997)

Fonte: Santos (2008).

Já em 1996, o Brasil apresentava um total de 16.224 agências espalhadas pelo seu ter-
ritório, porém apresentando densidades bastante diferenciadas entre as regiões. Um exemplo
desse fato é o menor número de agências estabelecidas nas regiões Norte e Nordeste em
comparação com o Centro-Oeste, o Sul e o Sudeste.
Ao discutir as diferenciações no território, Santos e Silveira (2008) enfatizam as novas
desigualdades territoriais, buscando por meio da análise das zonas de densidade e de rarefação,
de fluidez e viscosidades, espaços de rapidez e de lentidão e espaços luminosos e opacos,
entender a configuração das diferenciações no território, ou seja, entender os espaços que
mandam e os que obedecem.

202 Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização


Quanto às zonas de densidade e de rarefação, Santos e Silveira (2008) afirmam que
dentro do território existem diferentes densidades a respeito das coisas, dos objetos, dos
homens, dos movimentos das coisas, das informações, dos dinheiros e das ações. Quanto
maior a presença desses, maior a densidade e, por conseguinte, quanto menor a densidade,
mais rarefeito o espaço.
O contexto de fluidez e viscosidades se explica a partir das condições que viabilizam
maior circulação dos homens, dos produtos, das mercadorias, do dinheiro, das informações,
das ordens etc. Países com maior extensão territorial, como o Brasil, geralmente são países
que apresentam grandes disparidades de renda, portanto, a fluidez se dá de forma seletiva.
Os autores fazem ainda a distinção entre fluidez virtual (presença do sistema de engenharia)
e fluidez efetiva (o uso efetivo das vias do sistema de engenharia), afirmando que um espaço
pode muito bem ter densidade no que diz respeito às vias, porém não ser fluido quando não
se faz o uso efetivo das vias.
Podemos classificar os espaços em dois tipos: os da rapidez e os da lentidão. Diz-se que
os espaços da rapidez se constituem naqueles dotados de maior número de vias e em bom
estado de uso. São espaços possuidores de maior número de veículos privados modernos e
velozes e de transportes públicos que dispõem de serviços de qualidade. E do ponto de vista
social, os espaços da rapidez estão onde a vida de relações é maior. Eles ainda podem ser os
espaços do mandar e do fazer, do mandar e do obedecer. Os espaços lentos são justamente
o oposto, isto é, os espaços que apresentam menor intensidade de fluxos, serviços, pessoas,
informações etc.
Com relação aos espaços luminosos e espaços opacos, Santos e Silveira (2008) observam
que os espaços luminosos se diferenciam dos opacos quanto ao seu alto nível de atração,
devido a sua maior densidade técnica e informacional acumulada, que os tornam aptos para
receber atividades com maior conteúdo em capital, tecnologia e organização. Os autores afir-
mam que devem ser considerados os espaços que mandam e os espaços que obedecem como
espaços reais, sendo o comando e a obediência resultado, não de uma condição isolada, mas
de um conjunto de condições.
Portanto, à luz dessas afirmações pode-se dizer que as diferenciações espaciais resultam
de todo esse processo de apresentar ou não as condições necessárias para o comando sobre os
diferenciados espaços, condições estas que estão diretamente ligadas aos níveis de densidade
e rarefação, fluidez e viscosidade, rapidez e lentidão e luminosidade e opacidade dos espaços.

Como explicar a reorganização produtiva do território brasileiro a partir do período


1 do meio técnico-científico-informacional?

Apresente as contradições que permitem explicar o movimento do território no


2 Brasil, considerando os pares dialéticos que caracterizam o processo de reorgani-
zação produtiva no espaço geográfico brasileiro.

Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização 203


Leituras complementares

Recomendam-se como leituras complementares as obras abaixo, as quais permitem o


aprofundamento do conteúdo trabalhado na aula.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

Nessa obra, o autor discute o processo de construção da sociedade em rede na era da


informação, enfatizando desde uma perspectiva histórica do sistema capitalista de produção,
mostrando suas contradições e paradoxos sociais e regionais, bem como mostrando como o
meio técnico-científico-informacional é uma marca característica do atual período.
SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico-informacional.
São Paulo: EDUSP, 2008.

Nesse livro, Santos explica o papel da técnica no processo de transformações e mudanças


espaciais. Para tal considera o fator tempo, sem o qual não é possível entender o espaço. Mas,
de fato, o cerne de sua explicação está na definição e no entendimento sobre o meio técnico-
científico-informacional, em sua gênese e evolução.

Resumo

Nesta aula, discutimos como se deu o processo de construção do meio


técnico-científico-informacional no Brasil, com base na construção teórica do
geógrafo Milton Santos. Para tal, consideraram-se as diferenciações territoriais
e regionais, o contexto de reorganização produtiva do território, a constituição do
sistema financeiro e as contradições inerentes ao processo de construção e uso
do sistema de engenharia, o qual obedece tanto à política do Estado, quanto à
política das empresas. Explicamos ainda como o meio técnico-científico avançou
desigualmente no território, intrínseco ao atual processo de globalização, mas
consequência do processo contraditório e desigual de expansão capitalista no
mundo subdesenvolvido, em especial no Brasil. Portanto, buscou-se explicar o
movimento dialético do território, marcado por espaços de rapidez e lentidão,
fluidez e viscosidade, densidade e rarefação, luminosidade e opacidade.

204 Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização


Autoavaliação
Com base no conteúdo apresentado, explique por que o meio técnico-científico-
1 informacional é uma marca característica da atual fase de expansão do sistema ca-
pitalista de produção. Na sua análise faça referência à base teórica que fundamenta
seu entendimento.

Faça uma relação entre o período do meio natural e o período do meio técnico-cien-
2 tífico-informacional no Brasil, apontando o contexto de mudanças e transformações.

Contextualize as diferenciações territoriais e regionais quanto ao processo de


3
construção do meio técnico-científico-informacional no Brasil.

Explique como a política do Estado tende a se subordinar à política das empresas


4
quando se trata de viabilizar maior fluidez, densidade e rapidez em determinados
espaços, gerando, por outro lado, lentidão, rarefação e opacidade em outros.

Referências
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal.
Rio de Janeiro: Record, 2001.

SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século
XXI. Rio de Janeiro: Record, 2008.

VERGOPOULOS, Kostas. Globalização: o fim de um ciclo: ensaio sobre a instabilidade inter-


nacional. Tradução Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005.

Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização 205


Anotações

206 Aula 10 Espaço, Tecnologia e Globalização


Mercado de trabalho
e meio técnico-informacional

Aula

11
Apresentação

N
esta penúltima aula da disciplina, discutiremos o contexto de transformações do merca-
do de trabalho no período técnico-científico-informacional. Será abordado o conjunto de
relações que marcam a transição do período de acumulação Fordista para o período de
acumulação flexível, fase esta marcada pela flexibilização da produção e especialização flexível,
uma marca característica do modelo Toyotista. Mostraremos as transformações no mundo
do trabalho, apresentando as contradições que elevam o nível de desemprego, subemprego e
vulnerabilidade social, especialmente no mundo subdesenvolvido. Tais transformações marcam
o espaço geográfico em escala global, ocasionando mudanças tanto nos países desenvolvidos,
quanto nos países subdesenvolvidos.

Objetivos
Estabelecer a relação entre mercado de trabalho e meio
1
técnico-informacional.

Reconhecer as fragilidades do mundo do trabalho tendo


2 em vista o avanço do meio técnico-científico-informacional.

Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização 209


Reestruturação do processo
produtivo e mercado de trabalho

A
década de 1980 foi marcada por profundas transformações no mundo do trabalho,
nas suas formas de inserção na estrutura produtiva, bem como nas formas de re-
presentação sindical e política, em especial, nos países capitalistas avançados. As
consequências dessas transformações se manifestam em intensas modificações causadas
pela crise da classe-que-vive-do-trabalho (ANTUNES, 2006).
Para Castells (2007), a evolução histórica do emprego, no âmago da estrutura social,
foi dominada pela tendência secular do aumento da produtividade do trabalho humano.
As inovações tecnológicas passaram a permitir que homens e mulheres aumentassem a
produção de mercadorias com mais qualidade e menos esforço e recursos. O trabalho e
os trabalhadores mudaram da produção direta para indireta, do cultivo, extração e fabri-
cação para o consumo de serviços e trabalhos administrativos e de uma estreita gama de
atividades econômicas para um universo profissional cada vez mais diverso.
Assim, a crise da classe-que-vive-do-trabalho a que se refere Antunes (2006) está
associada às transformações observadas no período técnico-científico-informacional,
que possibilita a reestruturação do processo produtivo na lógica que foi denominada por
vários teóricos como Pós-Fordista ou Toyotista. Essa forma de organização do processo
produtivo possibilita a acumulação flexível do capital, que está diretamente relacionada
com o mundo do trabalho.
Nesse sentido, Antunes (2006) destaca que o grande salto tecnológico, marcado pela
automação, a robótica e a microeletrônica invadindo o universo fabril, propiciou profundas
transformações nas relações de trabalho e nas relações de produção capitalistas.
Nesse contexto de transformações, novos processos de trabalho emergem, no qual
o cronômetro e a produção em série e de massa são “substituídos” pela flexibilização
da produção, pela “especialização flexível”, por novos padrões de busca de produtividade,
por novas formas de adequação da produção à lógica do mercado (ANTUNES, 2006).
Ao desenvolver uma compreensão do Fordismo enquanto processo de produção,
Antunes (2006) entende fundamentalmente a forma pela qual a indústria e o processo de
trabalho consolidaram-se ao longo do século XX, cujos elementos constitutivos básicos
eram dados pela produção em massa, através do controle dos tempos e movimentos pelo
cronômetro taylorista, bem como da produção em série Fordista. Esse contexto é marcado
pela existência de um trabalho parcelar e pela fragmentação das funções; pela separação
entre elaboração e execução no processo de trabalho; pela constituição/consolidação
do operário-massa.

Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização 211


Segundo Antunes (2006, p.191) entende-se

Taylorismo e Fordismo como um padrão produtivo capitalista desenvolvido ao


longo do século XX e que se fundamentou basicamente na produção em massa,
em unidades produtivas concentradas e verticalizadas, como um controle rígido
dos tempos e dos movimentos, desenvolvidos por um proletariado coletivo e de
massa, sob forte despotismo e controle fabril.

Referente à “especialização flexível”, Antunes (2006) discorre que, essa teria possibilitado
o advento de uma nova forma produtiva que articula, de um lado, um significativo desenvolvi-
mento tecnológico e, de outro, uma desconcentração produtiva baseada em empresas médias
e pequenas “artesanais”. Essa nova forma produtiva é caracterizada também pela sua recusa
à produção em massa, típico da grande indústria Fordista, recuperando uma concepção de
trabalho que, sendo mais flexível, estaria isenta da alienação intrínseca à acumulação de base
Fordista. Vê-se então um processo “artesanal” mais concentrado e tecnologicamente desen-
volvido, produzido para um mercado também mais tecnificado, mais localizado e regional,
que extingue a produção em série. Por sua vez, a fragmentação do trabalho, adicionada ao
incremento tecnológico, pode possibilitar ao capital tanto uma maior exploração quanto um
maior controle sobre a força de trabalho.
Para Castells (2007) a evolução do mercado de trabalho durante o chamado período
“pós-industrial” (1970-90) mostra, ao mesmo tempo, um padrão geral de deslocamento do
emprego industrial em dois caminhos diferentes em relação à atividade industrial: o primeiro
significa uma rápida diminuição do emprego na indústria, aliada a uma grande expansão do
emprego em serviços relacionados à produção e em serviços sociais (em volume), enquanto
outras atividades de serviços ainda são mantidas como fontes de emprego. O segundo cami-
nho liga mais diretamente os serviços industriais e os relacionados à produção, aumenta com
mais cautela o nível de emprego em serviços sociais e mantém os serviços de distribuição.
Numa observação empírica da evolução do emprego nos países do G7, Castells (2007) revela
alguns aspectos básicos que, de fato, parecem ser característicos das sociedades informacionais:

 Eliminação gradual do emprego rural.

 Declínio estável do emprego industrial tradicional.

 Aumento dos serviços relacionados à produção e dos serviços sociais, com ênfase sobre
serviços de saúde no segundo grupo;

 Crescente diversificação das atividades do setor de serviços como fontes de empregos.

 Rápida elevação do emprego para administradores, profissionais especializados e técnicos.

 A formação de um proletariado “de escritório”, composto de funcionários administrativos


e de vendas.

212 Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização


 Relativa estabilidade de uma parcela substancial do emprego no comércio varejista.

 Crescimento simultâneo dos níveis superior e inferior da estrutura ocupacional.

 A valorização relativa da estrutura ocupacional ao longo do tempo, com uma crescente


participação das profissões que requerem qualificações mais especializadas e nível avan-
çado de instruções em proporção maior que o aumento das categorias inferiores.

O fato de haver uma proporção mais baixa de emprego industrial ou uma proporção mais
alta de administradores em países de economia central, em parte, é resultado da criação de
emprego industrial nos países periféricos pelas empresas multinacionais e da concentração
das atividades administrativas e de processamento da informação nos países centrais (CAS-
TELLS, 2007).
Nesse sentido, para Antunes (2006) a acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos
padrões do desenvolvimento desigual, tanto entre setores como entre regiões geográficas,
criando, por exemplo, um vasto movimento no emprego no chamado setor de serviços, bem
como conjuntos industriais completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas.
Baseado nas concepções de Harvey (2003), Antunes (2006) reconhece que as pressões
competitivas, bem como a luta pelo controle da força de trabalho, levaram ao nascimento de
formas industriais totalmente novas ou à integração do Fordismo a toda uma rede de subcon-
tratação e de deslocamento para dar maior flexibilidade diante do aumento da competição e
dos riscos.
Como consequências dessas mudanças, Antunes (2006) afirma que a acumulação flexí-
vel, na medida em que ainda é uma forma própria do capitalismo, mantém três características
essenciais desse modo de produção: 1) é voltado para o crescimento; 2) este crescimento em
valores reais se apoia na exploração do trabalho vivo no universo da produção; 3) o capitalismo
tem uma intrínseca dinâmica tecnológica e organizacional.
A consequência dessa processualidade, quando remetida ao mundo do trabalho orga-
nizado, segundo Antunes (2006), provocou o solapamento deste. Ocorreram altos níveis de
desemprego estrutural e houve retrocesso da ação sindical. O individualismo exacerbado en-
controu também condições especiais favoráveis, entre tantas outras consequências negativas.
O Toyotismo ou modelo japonês apresentou, na década de 1990, uma expansão que
atingiu a escala mundial. Antunes (2006) oferece alguns traços constitutivos desse novo
modelo, de modo a pontuar as enormes consequências que ele acarreta no interior do mundo
do trabalho. Entre os elementos constitutivos desse modelo destacam-se:

 A competência e a competitividade determinada a partir da capacidade para satisfazer


rapidamente pedidos pequenos e variados.

 Produção voltada e conduzida diretamente pela demanda.

 Produção variada, diversificada e pronta para suprir o consumo.

 É a demanda que determina o que será produzido, e não o contrário. Como se procede na
produção em série e de massa do Fordismo.

Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização 213


 Produção sustentada na existência de estoque mínimo.

 Melhor aproveitamento do tempo de produção (incluindo-se também o transporte, o con-


trole de qualidade e o estoque), além de ser garantido o just time.

Vale destacar que o Toyotismo originou-se no Japão e compreende um modo de organi-


zação da produção capitalista, criado por Taiichi Ohno na fábrica da TOYOTA, a qual deu origem
ao nome, no período Pós-Segunda Guerra Mundial. Posteriormente, o modelo adquiriu uma
projeção global.
Além da flexibilidade do aparato produtivo, ocorreu também a flexibilização da organiza-
ção do trabalho. Diferentemente da verticalização Fordista (Figura 1), de que são exemplos
as fábricas dos EUA que ampliaram as áreas de atuação produtiva, no Toyotismo (Figura 2),
tem-se uma horizontalização, reduzindo-se, assim, o âmbito de produção da montadora e
estendendo-se às subcontratadas, às “terceiras”, a produção de elementos básicos, que no
Fordismo são atributos das montadoras. Essa horizontalização acarreta também, no Toyotismo,
a expansão desses métodos e procedimentos para toda a rede de fornecedores.

Figura 1 – Linha de produção de uma fábrica de motores na década de 1960

Fonte: <http://ruralwillys.tripod.com/historia/fabricawillys/fabrica1963.htm>. Acesso em: 15 dez. 2010.

214 Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização


Figura 2 – A robotização na produção da indústria automobilística

Fonte: <http://thescienceworld.blogspot.com/2010/11/robotizacao-na-producao-industrial.html>. Acesso em: 15 dez. 2010.

A especialização flexível (em termos de organização do trabalho), a incorporação de novas


tecnologias na produção (aumento do capital constante nas empresas), os novos métodos de
organização do trabalho como o kanban (processo de reposição de mercadorias), o just-in-time
(estoques mínimos, máximo aproveitamento do tempo), flexibilização, subcontratações, controle
do desperdício, da qualidade, não estão descolados da intensificação da exploração do trabalho
(ANTUNES, 2006, p. 26-27).
O Toyotismo estrutura-se a partir de um número mínimo de trabalhadores, ampliando-o,
através da contração de trabalhadores temporários ou subcontratação, dependendo das condi-
ções de mercado. O ponto de partida básico é o número reduzido de trabalhadores e a realização
de horas extras. Assim, o Toyotismo é uma resposta à crise do Fordismo nos anos de 1970. Ao
invés do trabalho desqualificado, o operário torna-se polivalente. Ao invés da linha individualizada,
o trabalhador se integra em uma equipe.
Ainda de acordo com Antunes (2006) o desemprego estrutural, que se expande mundo
afora em dimensões elevadas, não polpa nem mesmo o Japão, que nunca contou com excesso
de força de trabalho. Desemprego este que é resultado dessas transformações no processo
produtivo, e que se encontra no modelo japonês, o Toyotismo, aquele que tem causado forte
impacto na ordem mundializada e globalizada do capital.
Essas transformações, presentes ou em curso, segundo Antunes (2006) tem, em maior
ou menor escala, afetado diretamente o operário industrial tradicional, acarretando metamor-
foses no ser do trabalho. A crise atinge também intensamente, como também se evidencia
o universo da consciência, da subjetividade do trabalho, das suas formas de representação.
Assim, o retorno da luta da classe trabalhadora não está fora de cogitação com a contes-
tação da ordem imposta, bem como tendo em vista a potencialidade anticapitalista, havendo
a necessidade de maior articulação da “classe-que-vive-do-trabalho”, pois

Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização 215


[...] a heterogeneidade, a fragmentação, a complexificação efetivam-se no interior do
mundo do trabalho, nele incluído desde os trabalhadores produtivos, “estáveis”, até o
conjunto dos trabalhadores precários, daqueles que vivenciam o desemprego estrutural
etc. É este conjunto de segmentos, que dependem da venda de sua força de trabalho que
configura a totalidade do trabalho social, a classe trabalhadora e o mundo do trabalho.
(ANTUNES, 2006, p. 90).

Nesse sentido, ao contrário dos que apregoam o fim da luta entre as classes, Antunes
(2006) reconhece “a persistência dos antagonismos entre capital social total e a totalidade do
trabalho”, sem esquecer as particularidades, singularidades, diferencialidades presentes em
tais relações e nos diferentes lugares.

Caracterize o processo de produção industrial Fordista e o Toyotista.


1
Destaque as principais mudanças ocorridas no processo de transição
entre esses dois modelos.

Qual a relação do surgimento do Toyotismo com a evolução tecnológica e


2 quais as implicações para o mundo do trabalho?

Sociedade informacional e
a nova estrutura ocupacional
A crise estrutural do capital desencadeou várias mudanças na passagem do século XX
para XXI, tendo em vista a superação dessa fase crítica. O processo de produção do capital se
impõe agora metamorfoseado e intervindo de forma direta no processo de trabalho. De acordo
com Antunes (2006), neste cenário de transformações tem papel preponderante o avanço
tecnológico, a constituição das formas de acumulação flexível e dos modelos alternativos ao
binômio Taylorismo-Fordismo em que se destaca o Toyotismo.
O Toyotismo é a expressão mais clara das transformações resultadas da crise estrutural
do capitalismo. Em suma, esse modelo de produção horizontaliza o processo produtivo e
transfere a “terceiros” grande parte do que era produzido dentro da própria empresa.
Para Antunes (2006), esse processo tem como consequências:

 Redução do proletariado fabril estável, que se desenvolveu na vigência do binômio


Taylorismo-Fordismo, que vem diminuindo com a reestruturação, flexibilização e descon-
centração do espaço físico produtivo, típico da fase do Toyotismo.

216 Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização


 Incremento de um novo proletariado fabril e de serviços, o que tem sido denominado
mundialmente de trabalho precarizado. São os terceirizados, subcontratados, part-time,
entre tantas outras formas assemelhadas, que se expandem em inúmeras partes do mundo.

Um emprego part-time (tempo parcial) geralmente paga menos do que um


emprego full-time (tempo integral), e possui menos horas de trabalho por
semana. Geralmente os trabalhadores não tem nenhum benefício garantido
(como plano de saúde) com empregos part-time. Portanto, esse tipo de em-
prego nada mais é que um emprego com horários reduzidos e, consequente-
mente, benefícios e salários também menores.

 Aumento do trabalho feminino, que atinge 40% da força de trabalho nos países avançados,
e que tem absorvido pelo capital o universo de trabalho precarizado e desregulamentado.

 Incremento dos assalariados médios e de serviços, que possibilitou um significativo incre-


mento no sindicalismo desses setores, ainda que o setor de serviços já presencie também
níveis de desempregos acentuados.

 Exclusão de jovens e dos idosos no mercado de trabalho dos países centrais: os primeiros
acabam muitas vezes engrossando a fileira de movimentos neonazistas, e aqueles com
cerca de 40 anos ou mais, quando desempregados e excluídos do trabalho dificilmente
conseguem o reingresso no mercado de trabalho.

 Inclusão precoce e criminosa de crianças no mercado de trabalho, particularmente, nos


países de industrialização intermediária e subordinada, como nos países asiáticos, latino-
americanos etc.

 Expansão do que Marx chamou de trabalho social combinado, a partir daí trabalhadores
de diversas partes do mundo participam do processo de produção e de serviços. Isso não
indica uma tendência à eliminação da classe trabalhadora, mas sua precarização e utilização
de maneira ainda mais intensificada, aumentando os níveis de exploração do trabalho.

Assim, de forma sucinta, Antunes (2006) afirma que a classe trabalhadora fragmentou-se,
heterogeneizou-se e complexificou-se ainda mais. Tornou-se mais qualificada em vários setores,
como na siderurgia, em que houve uma relativa intelectualização do trabalho, mas desqualificou-se
e precarizou-se em diversos ramos, como na indústria automobilística, em que o ferramenteiro não
tem mais a mesma importância, sem falar na redução dos mineiros, dos portuários, dos trabalhadores
da construção naval etc.
Criou-se em escala minoritária, o trabalhador polivalente e multifuncional da era infor-
macional, capaz de operar com máquinas com controle numérico e de, por vezes, exercitar com
mais intensidade sua dimensão mais intelectual. De outro lado há uma massa de trabalhadores

Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização 217


precarizados sem qualificação, que hoje está presenciando as formas de part-time, emprego
temporário, parcial, ou então vivenciando o desemprego estrutural.
No entanto, o capital pode diminuir o trabalho vivo, mas não eliminá-lo. Pode intensificar
sua utilização, pode precarizá-lo e mesmo desempregar parcelas imensas, mas não chega a
extingui-lo. As consequências da crise estrutural do capitalismo no mundo do trabalho eviden-
ciam que neste modo de produção não se constata o fim do trabalho como medida de valor,
mas uma mudança qualitativa, dada por um lado, pelo peso crescente da sua dimensão mais
qualificada, do trabalho multifuncional, do operário apto a operar com máquinas informatizadas,
da objetivação de atividades cerebrais.

1 Faça um levantamento das mudanças ocorridas no mercado de trabalho de seu


município, destacando os empregos rurais, industriais e do setor de comércio e
serviços, destacando se o emprego de novas tecnologias afetou tanto o tipo de
trabalho como o número de vagas.

Identifique as principais atividades que empregam o maior número de trabalha-


2 dores com carteira assinada e as atividades que empregam o maior número de
trabalhadores informais, isto é, sem carteira assinada.

As novas tecnologias da informação


e os padrões flexíveis de trabalho
Tratando dessa questão do emprego diante do avanço tecnológico, Castells (2007) afirma
que embora o capital flua com liberdade nos circuitos eletrônicos das redes financeiras globais,
o trabalho ainda é muito delimitado (e continuará assim no futuro previsível) por instituições,
culturas, fronteiras, polícia e xenofobia. Contudo, as migrações internacionais estão aumen-
tando, numa tendência de longo prazo que contribui para a transformação da força de trabalho.
Em se tratando da dinâmica da migração em escala global, é perceptível uma intensificação de
mobilidade da mão de obra em todas as regiões do mundo, e na maioria dos países.
Há de fato, um mercado global para uma fração minúscula da força de trabalho. Esta,
composta por profissionais com a mais alta especialização, atuando na área inovadora de
P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), engenharia de ponta, administração financeira, serviços
empresariais avançados e entretenimento, movimentando-se entre os nós das redes globais
que controlam o planeta. No entanto, embora essa integração dos melhores talentos nas

218 Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização


redes globais seja importantíssima para os altos comandos da economia informacional, parte
esmagadora da força de trabalho dos países desenvolvidos e dos países em desenvolvimento
permanece presa à nação (CASTELLS, 2007).
Quanto mais o processo de globalização econômica se aprofunda, mais a interpenetração
das redes se expande através das fronteiras, e mais próximos ficam os elos entre as condições
da força de trabalho em diferentes países com diferentes níveis salariais. Desse modo, abre-se
uma ampla gama de oportunidades para as empresas dos países capitalistas avançados em
relação à estratégia para a mão de obra qualificada e também para a não qualificada. Segundo
Castells (2007) essas empresas podem optar entre:

 Reduzir o quadro funcional, mantendo os empregados altamente qualificados indispensá-


veis nos países centrais e importando insumos das áreas de baixo custo.

 Subcontratar parte do trabalho nos seus estabelecimentos transnacionais e para as redes


auxiliares, cuja produção pode ser absorvida no sistema da empresa em rede.

 Usar uma mão de obra temporária, trabalhadores de meio expediente ou empresas infor-
mais como fornecedores no país natal; ou

 Automatizar ou relocar tarefas e funções para as quais os preços do mercado de trabalho


sejam considerados muito altos na comparação com as fórmulas alternativas;

Diante disso, pode-se afirmar que a revolução das tecnologias da informação, em especial
na década de 1990, transformou o processo de trabalho, introduzindo novas formas de divisão
técnica e social, além de alterar o processo diante do paradigma informacional, de acordo com
a análise de Castells (2007).
Ainda para esse autor, a mecanização e, depois, a automação vêm transformando o traba-
lho humano há décadas, sempre provocando debates semelhantes sobre questões relacionadas
à demissão de trabalhadores, “desespecialização” versus “reespecialização”, produtividade
versus alienação, controle administrativo versus autonomia dos trabalhadores.
A automação, que só se completou com o desenvolvimento da tecnologia da informação,
aumenta consideravelmente a importância dos recursos do cérebro humano no processo de
trabalho. Quanto mais ampla e profunda a difusão da tecnologia da informação avançada em
fábricas e escritórios, maior a necessidade de um trabalhador instruído e autônomo, capaz
e disposto a programar e decidir a sequência inteira de trabalho. O trabalhador autônomo
na rede é o agente necessário à empresa em rede, possibilitada pelas novas tecnologias da
informação. Dessa forma o que tende a desaparecer com a automação integral são as tarefas
rotineiras, repetitivas que podem ser pré-codificadas e programadas para que máquinas a
executem (CASTELLS, 2007).
A nova tecnologia da informação está redefinindo os processos de trabalho e os traba-
lhadores e, portanto, o emprego e a estrutura ocupacional. Embora um número substancial
de emprego esteja melhorando de nível em relação a qualificações e, às vezes, a salários e
condições de trabalho nos setores mais dinâmicos, muitos empregos estão sendo eliminados
gradualmente pela automação da indústria e serviços.

Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização 219


As instituições e organizações sociais de trabalho parecem desempenhar um papel im-
portante na criação de empregos. Todavia, embora a tecnologia em si não gere nem elimine
empregos, ela transforma profundamente a natureza do trabalho e a organização da produ-
ção. A nova organização social e econômica baseada nas tecnologias da informação visa à
administração descentralizada, trabalho individualizante e mercados personalizados e, com
isso, segmenta o trabalho e fragmenta as sociedades. As novas tecnologias da informação
possibilitam, ao mesmo tempo, a descentralização das tarefas e a sua coordenação numa rede
interativa de comunicação em tempo real, seja entre continentes, seja entre os andares de um
mesmo edifício (CASTELLS, 2007).
Assim, de acordo com Castells (2007) os padrões flexíveis de trabalho, derivados da
implantação das novas tecnologias da informação, se desenvolvem simultaneamente em
quatro dimensões:

 Jornada de trabalho: trabalho flexível significa trabalho que não está restrito ao modelo
tradicional de 35-40 horas por semana em expediente integral.

 Estabilidade no emprego: o trabalho flexível é regido por tarefas, e não inclui compromisso
com permanência futura no emprego.

 Localização: embora a maioria trabalhe regularmente no local de trabalho da empresa,


um número cada vez maior de trabalhadores exerce suas funções, durante parte do tem-
po ou durante todo o tempo, em casa, em trânsito ou nas instalações de outra empresa
contratada pela sua.

 O contrato social entre patrão e empregado: o contrato tradicional baseia-se/baseava-se


em compromisso do patrão com os direitos bem definidos dos trabalhadores, níveis pa-
dronizados de salários, opções de treinamento, benefícios sociais e um plano de carreira
previsível, ao passo que, do lado do patrão, espera-se/esperava-se que o empregado fosse
leal à empresa, perseverasse no emprego e tivesse boa disposição para fazer horas extras
se fosse necessário – sem remuneração no caso de gerentes, com remuneração no caso
dos trabalhadores da produção.

A lógica desse sistema de trabalho altamente dinâmico interage com as instituições


trabalhistas de cada país: quanto maior as restrições a essa flexibilidade e quanto maior o
poder de barganha dos sindicatos de trabalhadores, menor será o impacto sobre salários e
benefícios e maior será a dificuldade de os novos trabalhadores serem incluídos na força de
trabalho permanente, com isso limitando a criação de emprego (CASTELLS, 2007). O autor
ainda afirma que há efetivamente uma transformação do trabalho, dos trabalhadores e das
organizações de nossas sociedades, mas não pode ser percebida nas categorias tradicionais
de debates obsoletos sobre o “fim do trabalho” ou sua “desespecialização”.
Por fim, as tendências tecnológicas atuais promovem todas as formas de flexibilidade,
de modo que na ausência de acordos específicos sobre a estabilização de uma ou várias
dimensões do trabalho, o sistema evoluirá para uma flexibilidade generalizada multifacetada
em relação a trabalhadores e condições de trabalho, tanto para trabalhadores especializados
quanto para os sem especialização (CASTELLS, 2007).

220 Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização


Analisando as consequências desse processo no mercado de trabalho, Pochmann (2001)
destaca que a evolução do desemprego aberto mundial, no período que vai de 1975 a 1999,
apresentou uma taxa ascendente no final do período. O autor destaca que nas nações não
desenvolvidas o volume de desempregados ultrapassou e muito o das nações desenvolvidas,
que também tem se mostrado elevado.
Quanto às modalidades de manifestação do desemprego aberto no mundo, Pochmann
(2001) apresenta uma análise do período de 1980 a 1998. Logo, constata-se:

 Concentração desse tipo de desemprego, tendo por base sua composição por faixa etária,
é maior entre a população na faixa etária de 15 a 49 anos de idade.

 Nos anos de 1990 cresceu esse tipo de desemprego para as pessoas com mais de 25 anos,
fato esse que é mais notado nos países desenvolvidos.

 nos países subdesenvolvidos 51% dos desempregados referem-se àqueles com menos
de 25 anos de idade, inclui-se neste caso o Brasil, onde as pessoas nessa faixa etária
correspondem a 54% da mão de obra desempregada.

Pochmann (2001) também destaca a manifestação deste tipo de desemprego quanto


ao gênero, afirmando que nos países não desenvolvidos aumentou a participação feminina
no desemprego. Assim, nota-se a rápida elevação da participação feminina no desemprego
brasileiro no período (1980-1998).
Quanto aos setores econômicos responsáveis pela evolução do desemprego, Pochmann
(2001) ressalta que o setor terciário, isto é, o comércio e os serviços, é o que mais tem contri-
buído para a evolução do desemprego aberto mundial, sendo esse fato mais notado nos países
desenvolvidos, onde 71% dos desempregados estão nesse setor. Enquanto isso, nos países não
desenvolvidos o percentual desse tipo de desemprego situa-se em 53,2% e no caso específico
do Brasil, 68,5% em 1980 e 50,1% em 1998. No caso dos países não desenvolvidos o autor
cita também o fato de que os setores agropecuário e industrial mostram-se como grandes
geradores do desemprego aberto.
Com a crise econômica ocorrida na segunda metade da década de 2010, apesar dos si-
nais de recuperação da economia global, em especial no ano de 2009, o mercado de trabalho
mostrou poucos sinais de melhoria. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho
– OIT – (2010) mesmo com o crescimento do PIB mundial, a taxa de desemprego global em
2009 foi estimada em 6,6%. Após quatro anos consecutivos de quedas, a taxa de desempre-
go global aumentou em 2008. O número de desempregados em 2009 foi estimado em 212
milhões, que significa um aumento de quase 34 milhões em relação a 2007, e grande parte
desse aumento ocorreu em 2009 (Figura 3).

Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização 221


230 7.0

220 6.0

210 5.0

Porcentagem
200 4.0

Milhões
190 3.0

180 2.0

170 1.0

160 0.0

150 -1.0

140 -2.0
1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009
Desemprego total - estimativa limite superior Taxa de crescimento real do PIB
Desemprego total - estimativa preliminar Taxa de desemprego total
Desemprego total - uma estimativa inferior Taxa de desemprego total - Intervalos
Desemprego total de confiança limites inferior e superior

Figura 3 – Tendências globais de desemprego, 1999-2009

Fonte: OIT (2010).

Segundo dados do relatório da OIT (2010), a taxa de desemprego global em 2010 situa-
se em torno de 6,5%, podendo chegar até 7,0%. Observando os dados por regiões, a taxa de
desemprego em economias industrializadas e na União Europeia deverá aumentar de 8,4% em
2009 para 8,9% em 2010, enquanto, nas demais regiões, a taxa deverá manter-se relativamente
estável ou apresentar uma pequena diminuição (Figura 4).

Figura 4 – Tendência de aumento de vagas de emprego nos países subdesenvolvidos

Fonte: <http://1.bp.blogspot.com/_frXR4G5ceIM/TB2ePzcY1kI/AAAAAAAABYI/r-_bJuxXPmA/s1600/814141590238885.jpg>. Acesso em: 15 dez. 2010.

222 Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização


Para Castells (2007) a difusão da tecnologia da informação na economia não causa de-
semprego de forma direta. Pelo contrário, dada as condições institucionais e organizacionais
certas, parece que, em longo prazo, gera mais empregos. A transformação da administração
e do trabalho melhora o nível da estrutura ocupacional e aumenta o número dos empregos de
baixa qualificação. Todavia, o processo de transição histórica para uma sociedade informacional
e uma economia global é caracterizado pela deterioração das condições de trabalho e de vida
para uma quantidade significativa de trabalhadores.
Essa deterioração assume formas distintas nos diferentes contextos: aumento do desem-
prego na Europa; queda dos salários reais (pelo menos até 1996), aumento da desigualdade e
instabilidade no emprego nos Estados Unidos; subemprego e maior segmentação da força de
trabalho no Japão; “informalização” e desvalorização da mão de obra urbana recém-incorporada
nos países pobres; e crescente marginalização da força de trabalho rural nas economias sub-
desenvolvidas e estagnadas.
Para Castells (2007) o aumento extraordinário de flexibilidade e adaptabilidade possi-
bilitadas pelas novas tecnologias contrapõe a rigidez do trabalho à mobilidade do capital. A
produtividade e a lucratividade foram aumentadas, mas os trabalhadores perderam proteção
institucional. A sociedade ficou dividida, como na maior parte da história humana, entre vence-
dores e perdedores do contínuo processo de negociação desigual. Os trabalhadores (indepen-
dentemente de suas qualificações) nunca estiveram tão vulneráveis à empresa, uma vez que se
tornaram indivíduos pouco dispendiosos, contratados em uma rede flexível, cuja dinâmica era
desconhecida da própria rede. Dessa forma, o trabalho informacional desencadeou, sobretudo,
um processo de desagregação do trabalho, introduzindo a sociedade em rede.

03

1 Qual a nova estrutura ocupacional da sociedade informacional?

De acordo com Castells (2007) como se configura o emprego mediante o avanço


2 tecnológico?

Sobre o desemprego, como podemos caracterizá-lo entre a década de 1980 e


3 1990? Destaque as consequências da crise econômica da década de 2010 sobre o
mercado de trabalho mundial.

Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização 223


Leitura complementar

ANTUNES, Ricardo. Adeus ao Trabalho? ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do


mundo do trabalho. 11. ed. São Paulo: Cortez; Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual
de Campinas, 2006.
Nessa obra, o autor apresenta de forma crítica as mudanças no mundo do trabalho no
período recente, através de uma abordagem histórica que perpassa o período e o modelo For-
dista, bem como o Toyotismo e o processo de acumulação flexível. O autor ressalta a evolução
do Fordismo, modelo este marcado pela produção em série, controle de tempos e movimentos
e forte presença tecnológica. Ademais, o autor critica a invasão da automação, da robótica e da
microeletrônica no ambiente de trabalho, afirmando que os modelos tradicionais – Fordismo e
Taylorismo – deram lugar à especialização flexível, que se constitui uma nova forma de elevar a
produtividade. Isso se traduz no arcabouço do modelo japonês – o Toyotismo –, o qual se apoia
numa correlação de forças desiguais, ora extremamente desfavoráveis à classe trabalhadora.

Resumo

Nesta aula, discutimos a relação entre mercado de trabalho e o avanço


do meio técnico-científico-informacional, problematizando o contexto de
transformações desse período, além de caracterizar o processo de reestruturação
produtiva, associando as mudanças globais no âmbito socioeconômico e político-
institucional. Para tal, discutimos as principais características e mudanças no
mundo do trabalho, na fase que compreende a transição do período de acumulação
Fordista ao período de acumulação flexível, fase esta marcada pela flexibilização
da produção e especialização flexível. Apresentamos as principais características
do Toyotismo, modelo este que é uma resposta à crise do Fordismo nos anos
1970. Nesse contexto, foram apresentadas as principais mudanças, muitas vezes
ainda em curso, nas condições de trabalho, apresentando estatísticas quanto ao
nível de desemprego, subemprego e vulnerabilidade social, tanto em países ricos,
quanto nos países subdesenvolvidos.

224 Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização


Autoavaliação
Mostre a relação entre mercado de trabalho e avanço tecnológico, embora se saiba
1
que a tecnologia por si só não gera desemprego, mas altera profundamente as
condições de trabalho.

Contextualize o período do meio técnico-científico-informacional, levando em conside-


2 ração as diferentes formas de emprego e subemprego dos países subdesenvolvidos.

Explique o período recente da história do capital, sobretudo, aquele marcado por


3 crises sucessivas, como aquelas observadas a partir da década de 1980 até a dé-
cada de 2010. Mostre as diferenças observadas entre os países desenvolvidos e
os subdesenvolvidos.

Referências
ANTUNES, Ricardo. Adeus ao Trabalho? ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do
mundo do trabalho. 11. ed. São Paulo: Cortez; Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual
de Campinas, 2006.

ARROYO, M. Mercosul: novo território ou ampliação de velhas tendências. In: SANTOS, M.


et al. (Org.). Globalização e espaço latino-americano: o novo mapa do mundo. 3. ed. São
Paulo: Hucitec/ANPUR, 1997. p. 122-31.

BENKO, G. Leitura socioeconômica do fim do século. Economia, espaço e globalização na


aurora do século XXI. São Paulo: Hucitec, 1996.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

CHESNAIS, F. A mundialização do capital. São Paulo: Xãma, 1996. cap. 1. p. 23-44. e 6


(p.139-59).

______. A mundialização do capital. São Paulo: Xãma, 1996. cap. 6. p. 139-59.

HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural.
São Paulo: Ed. Loyola, 2003.

Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização 225


ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO TRABALHO – OIT. Global Employment Trends: January 2010.
Genebra, Suíça: International Labour Office, 2010.

POCHMANN, Marcio. O emprego na globalização: A nova divisão internacional do trabalho e


os caminhos que o Brasil escolheu. São Paulo: Boitempo Editorial, 2001.

Anotações

226 Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização


Anotações

Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização 227


Anotações

228 Aula 11 Espaço, Tecnologia e Globalização


Espaço, tecnologia e os
circuitos da economia urbana

Aula

12
Apresentação

N
esta aula, serão abordados os circuitos da economia urbana nos países subdesenvol-
vidos, isto é, o circuito inferior e o circuito superior, os quais marcam a fase atual de
expansão do modo de produção capitalista nos países periféricos, associados, dentre
outros fatores, a questões como a pobreza, a urbanização e ao avanço tecnológico espacialmen-
te desigual. Será discutido como se configuram tais circuitos e como eles apresentam relação
de dependência mútua. Por fim, apresentaremos os estudos recentes que tratam o assunto,
tendo em vista que a teoria dos circuitos da economia urbana em países subdesenvolvidos foi
criada há mais de três décadas pelo geógrafo Milton Santos.

Objetivos
Reconhecer os circuitos da economia urbana nos países
1
subdesenvolvidos, face ao atual processo de globalização.

Distinguir o processo tecnológico e o uso do espaço a


2 partir dos circuitos da economia urbana.

Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização 231


A teoria dos circuitos da
economia urbana: uma introdução

A
teoria dos dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos foi originalmen-
te publicada na década de 1970, e constitui um esforço único de interpretação sistemática
da evolução econômica, social e política dos países do Terceiro Mundo, em um período
posterior à Segunda Guerra Mundial. O objetivo de Santos (2004) é propor que o fenômeno da
urbanização e a organização do espaço geográfico sejam analisados segundo um enfoque que
leve em consideração a modificação das noções do planejamento urbano e regional.
Os estudos sobre urbanização nos países subdesenvolvidos são relativamente recentes.
Diferentes abordagens foram feitas mostrando a cidade, muitas vezes, de forma dicotômica,
adjetivando as cidades do Terceiro Mundo, comparando-as com as cidades dos países desen-
volvidos. Assim, Santos (2004) propõe uma análise substantiva, que abrange a realidade e a
dinâmica da cidade em sua totalidade.
Na década de 1950, são feitas as primeiras planificações nos países subdesenvolvidos, e
na década seguinte os primeiros estudos sobre a planificação espacial. As planificações eram
feitas de forma rápida e submetidas aos interesses das políticas internacionais.
Os estudos sobre a urbanização do Terceiro Mundo eram feitos tendo como foco principal
as instabilidades (problemas na habitação, no emprego, na marginalidade, na migração, na
miséria). As preocupações eram muito maiores com as consequências dos problemas, como
a miséria, do que com as causas. Os estudos eram sistemáticos e com uma análise feita por
métodos matemáticos, com o intuito de se ter um melhor prognóstico, havendo erros de
interpretação, por não se conhecer a realidade local.
Portanto, via-se a necessidade de um estudo com a dimensão histórica, analisando
o processo de subdesenvolvimento. Os resultados das pesquisas utilizando esse método
colocam em oposição as cidades dos países subdesenvolvidos frente às cidades dos países
desenvolvidos, revelando especificidades na evolução daqueles em relação a estes. Não se
pode comparar os países desenvolvidos com os subdesenvolvidos antes desses últimos se
industrializarem, pois os eventos socioespaciais são diferentes entre esses países.
Os componentes do espaço são os mesmos em todo o mundo, variando na quantidade
e na qualidade, dependendo do lugar, e também variando as combinações, diferenciando os
espaços. O espaço dos países desenvolvidos e subdesenvolvidos se (re)organizam em função
de interesses distantes, muitas vezes, de escala mundial. É um espaço multipolarizado, com
múltiplas influências externas, descontínuo e instável.
O espaço dos países subdesenvolvidos é caracterizado por grandes diferenças de renda
na sociedade, com tendência à hierarquização das atividades, coexistindo no lugar atividades
de mesma natureza, mas, por exemplo, de níveis tecnológicos distintos. A seletividade do
espaço no âmbito econômico e social é a essência da abordagem espacial, observando-se as
diferentes situações geográficas. A cidade pode ser estudada a partir de dois subsistemas: o
circuito superior e o circuito inferior.
O circuito superior e o circuito inferior não significam o mesmo que setores formal e
informal da economia, sucessivamente. Todas as firmas do circuito superior pertencem ao

Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização 233


setor formal. E o circuito inferior é constituído tanto do setor formal quanto do informal. O
que vai diferenciar o circuito superior do circuito inferior são as características que serão
apresentadas a seguir (Figuras 1 e 2 ).

Figura 1 – Avenida Paulista em São Paulo: presença de bancos e sedes de


grandes empresas (evidência do circuito superior da economia urbana)

Disponível em: <http://www.sp-turismo.com/imagens/sao-paulo.jpg>. Acesso em: 12 nov. 2010.

Figura 2 – Comércio informal: um exemplo do circuito inferior

Fonte: Bruno Ortiz. Disponível em <http://brunortiz.blogspot.com/2007/12/breve-soluo-para-driblar-aglomerao-de.html>. Acesso em: 10 nov. 2010.

234 Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização


O circuito superior “originou-se diretamente da modernização tecnológica e seus ele-
mentos mais representativos hoje são os monopólios. O essencial de suas relações ocorre
fora da cidade e da região que os abrigam e tem por cenário o país ou o exterior” (SANTOS,
2004, p. 22).
O circuito inferior é “formado de atividades de pequena dimensão e interessando princi-
palmente às populações pobres, é, ao contrário, bem enraizado e mantém relações privilegiadas
com sua região” (SANTOS, 2004, p. 22).
Os dois circuitos se constituem como subsistemas do sistema cidade. Assim, deve-se
caracterizar cada circuito da economia urbana com suas relações recíprocas, as relações com
a sociedade e com o espaço circundante. A teoria dos dois circuitos faz com que se repense
a teoria da base econômica, a teoria dos lugares centrais e a teoria dos polos de crescimento.
Os estudos sobre o circuito inferior são numerosos, mas os estudiosos incluíram esse
circuito apenas como mais um aspecto de outras preocupações. Portanto, os estudos acerca
do mercado urbano, e da cidade como mercado, foram pouco desenvolvidos. As estatísticas
não são capazes de abarcar esse circuito, daí a dificuldade de dados para estudá-lo.
Sabe-se que a industrialização dos países subdesenvolvidos enfrenta diversas crises e
dificuldades, seus problemas estão ligados à dependência de tecnologia dos países polos, que
passam por um processo de modernização acelerado. A industrialização ocorre pelo processo
de substituição de importações, desenvolvendo uma exportação, sobretudo de produtos primá-
rios, a exemplo da produção mineral e agrícola. Há uma indústria para o consumo doméstico,
uma indústria de exportação tradicional e uma indústria de exportação moderna.
A modernização tecnológica não atinge de forma homogênea as diferentes dimensões e
os diferentes setores da indústria. A industrialização pautada na substituição de importações
torna-se um problema para os países subdesenvolvidos, pois há uma preocupação em prote-
ger as indústrias locais da competição das indústrias hegemônicas, ao mesmo tempo em que
ocorre a dependência com as importações. Ou seja, esse processo se dinamiza e provoca o
surgimento de contradições.
Com a Revolução Industrial, os países periféricos tornaram-se cada vez mais exportadores
de matéria-prima e produtos agrícolas, em troca da importação de produtos industrializa-
dos. Assim, cresce a dependência desses países para com os desenvolvidos. Muitas vezes,
a matéria-prima não é exportada de forma bruta, passando por uma primeira transformação.
Com esse processo, os países periféricos tendem a uma maior dependência, como também
tendem a uma produção pouco diversificada ou pouco integrada.
Desde o início do século XX, os países periféricos também passam a exportar produtos
industrializados. Esse momento corresponde à segunda fase do período tecnológico. A primeira
fase corresponde à internacionalização da divisão do trabalho, na qual os países subdesen-
volvidos tinham dificuldades de exportar. Os produtos exportados por estes correspondiam,
principalmente, às matérias-primas.
E a segunda fase é a continuação da primeira, mas com a introdução da exportação de
produtos industrializados pelos países subdesenvolvidos, na qual houve a necessidade dos
países desenvolvidos produzirem nos países periféricos, importando a preços baixos parte
do que necessitam. Essa nova situação geográfica é facilitada pelo baixo valor da mão de obra
dos países subdesenvolvidos. Esse momento é benéfico aos países desenvolvidos que lucram
muito mais produzindo fora do seu próprio território.

Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização 235


1

A partir da teoria dos dois circuitos da economia urbana, explique os avanços


1 observados nos estudos urbanos, especialmente nos estudos sobre a cidade no
mundo subdesenvolvido.

2 Identifique e explique as duas principais fases do período tecnológico nos países


subdesenvolvidos, associando-as aos ciclos econômicos que marcaram a dinâmica
territorial desses países. Destaque os principais eventos que marcaram esse processo.

A pobreza urbana e
os circuitos econômicos
Para Santos (2009), a urbanização e a pobreza são fenômenos profundamente conectados,
fato evidenciado com mais clareza nos países periféricos. Os processos responsáveis pela gene-
ralização da pobreza na escala mundial tem sido frequentemente colocado de modo equivocado.
A singularidade da experiência histórica nos países pobres nos faz refletir sobre os desafios
enfrentados por essas sociedades.
Segundo Santos (2009), a discussão sobre os fenômenos da pobreza tem sido tão inti-
mamente relacionada ao que se chamou de teoria da marginalidade que os dois termos quase
se tornaram sinônimo. Além disso, a discussão desse problema não resultou na elaboração
de nenhuma teoria real. A noção de marginalidade foi julgada inadequada, pois se mostrou
ambígua. O uso da própria expressão marginalidade permitiu que a chamada “população
marginal” de um país fosse julgada excedente ou até inútil, economicamente falando.
Os pobres não são socialmente marginais, mas explorados e reprimidos. Essa discus-
são reabre o debate de Marx sobre o exército industrial de reserva, termo pelo qual muitos
autores substituíram por superpopulação. No entanto, Marx também nos trouxe a expressão
superpopulação relativa, uma ambiguidade intencional, já que superpopulação supõe uma
abundância de pessoas inúteis, enquanto que superpopulação relativa traz de volta a relação
entre necessidades e recursos, acabando com o problema de escassez.
Dentro do mesmo contexto, mas em outro nível, a ideia de “massa marginal” incorreu
também em equívocos e erros interpretativos. O conceito de “massa marginal” aproxima-se da
noção de “pobreza oficial”, mas difere quando o segundo remete ao exército industrial de re-
serva e o primeiro a uma parte funcional ou disfuncional da superpopulação ativa. Outro ponto
de vista é o da justaposição da população urbana com uma grande massa de desempregados

236 Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização


que cresce continuamente, não tendo função específica na sociedade urbana e rompendo suas
ligações com a sociedade rural.
Uma versão mais sofisticada declara que os pobres participam apenas parcialmente do
mercado de trabalho, errando quando diz que a pobreza urbana não afeta o preço da mão de
obra e a taxa de exploração.
Por fim, a formação do salário nas atividades modernas também coloca em risco a tese
da “massa marginal”, desbancando o conceito de que essa é afuncional ou disfuncional. Para
superar esse impasse, têm sido usados adjetivos demais. Porém, uma discussão semântica
pura e simples não leva a nada, exceto se servir para descobrir, ao mesmo tempo, a explicação
e a solução dos problemas correspondentes. Assim, a abordagem do problema da pobreza
através da tese da marginalidade não é satisfatória.
O estudo do processo de modernização é o que facilita o entendimento. A criação de
empregos, que exige mão de obra especializada, desencadeia o crescimento do desemprego,
como há a separação entre trabalhadores e meios de produção. Trata-se de um mecanismo
marcado por um processo dialético, no qual a economia incorpora certo número de pessoas
ao mercado de trabalho efetivo e, ao mesmo tempo, expulsa um número muito maior. É para
esses remanescentes da força de trabalho que foi reservado o termo marginal.
Dessa forma, deve-se estudar a economia urbana como um sistema único, mas com-
posto de dois subsistemas: o “circuito superior”, que emana diretamente da modernização
tecnológica, mais bem representada atualmente nos monopólios (sem relação com a região
de influência); e o “circuito inferior”, formado de atividades de pequena escala, servindo, prin-
cipalmente à população pobre (usufrui de um relacionamento privilegiado com sua região).
Apesar da interdependência entre ambos, o circuito inferior depende do circuito superior.
É importante lembrar que o circuito superior inclui bancos, comércio de exportação e
importação, indústria urbana moderna, comércio e serviços modernos, bem como atacadista
e transportes, todos estes operando com crédito bancário, apresentando relação direta com
o sistema financeiro. Já o circuito inferior é formado essencialmente de diferentes tipos de
pequeno comércio, e da produção de bens manufaturados de capital não intensivo, constituída
em grande parte de artesanato e também de toda uma gama de serviços não modernos, os
quais se baseiam no crédito e dinheiro corrente, mas de natureza pessoal e direta. Entendendo
essas peculiaridades, chega-se à compreensão da dinâmica e da dialética desses circuitos.
Quanto às teorias do desenvolvimento, essas têm sido apresentadas como soluções para
corrigir as desigualdades entre indivíduos, regiões e países. A ideia de planejamento, muito
contribui para encontrar medidas para eliminar, tanto quanto possível, as disparidades. No en-
tanto, apesar da decorrência dessas ideias-forças, as desigualdades não pararam de aumentar
em nível local, regional e internacional. Sendo assim, mesmo com toda a discussão sobre os
aspectos da pobreza ligados diretamente à urbanização, chegamos sempre ao problema real
que se dá na explicação da pobreza.
Ainda que a descrição do fenômeno seja quase sempre completa e frequentemente objetiva,
as explicações dividem-se em três grupos: as que evitam a pobreza, as que abordam a pobreza
parcialmente e as que procuram dar uma interpretação completa da pobreza. Tratar o problema
como um tema de estudo à parte, analisando a sociedade como se não tivesse classes é uma
dessas estratégias.
A “crise urbana” como resultado da explosão demográfica é a forma parcial de tratar o
problema da pobreza. Há uma preocupação maior em se evitar agitações do que em se mitigar

Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização 237


a pobreza. O mesmo se faz na análise sobre a “pressão demográfica” em relação à economia
tradicional. Ou seja, é mais importante a formulação de slogans, os quais ocultam a realidade
e selecionam apenas alguns aspectos para análise da pobreza.

Discuta a relação entre pobreza e urbanização nos países periféricos, fazendo refe-
1
rência à existência do circuito inferior da economia urbana.

Exemplifique a partir do seu contexto local, como o circuito inferior se manifesta,


2
associando pobreza e urbanização.

Características dos dois


circuitos da economia urbana
A análise da modernização é a melhor forma de entender as relações temporais no espaço.
A abordagem de um fenômeno a partir das modernizações permite periodizá-lo levando-se
em conta a gênese, a evolução, e a situação atual. Assim, deve-se entender a periodização da
história a partir de modernizações sucessivas. Evita-se, portanto, o erro de colocar lado a lado
a teoria de um período e a realidade de outro período.
O período é “um conjunto coerente de elementos de ordem econômica, social, política e
moral, que constituem um verdadeiro sistema” (SANTOS, 2004, p. 31). Cada um desses perí-
odos é representado por uma modernização. A modernização traz diversos impactos sociais,
econômicos, e políticos no espaço.
As maiores transformações no espaço ocorrem devido às primeiras modernizações, e
devido aos impactos sucessivos de outras modernizações, quando novos dados são acrescen-
tados a atual situação geográfica. Nesse contexto, cada espaço possui sua própria evolução,
resultado de forças externas e de forças já existentes no espaço, daí as diferentes situações
do subdesenvolvimento, e a singularidade de cada lugar.
O mundo passou por vários processos de modernização, mas de forma equivocada al-
guns estudiosos associam modernização com desenvolvimento. Nesse sentido, vários estudos
foram feitos na tentativa de analisar as modernizações do mundo. Santos (2004) propõe três
períodos para os países subdesenvolvidos.

238 Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização


O primeiro período vai do fim do século XV até a Revolução Industrial, fruto da moder-
nização comercial, quando se esboça a primeira divisão internacional do trabalho. O segundo
período vai de meados do século XVIII até o fim da Segunda Guerra Mundial, fruto da moder-
nização industrial, com a modernização dos transportes, dos portos e das ferrovias. O terceiro
período vai de meados do século XX até o presente, fruto da modernização tecnológica, com
uma revolução do consumo e a industrialização dos países subdesenvolvidos.
As modernizações atuais são fruto do sistema tecnológico, comandadas pelas firmas mul-
tinacionais. A informação e o consumo se difundem nos países subdesenvolvidos. A revolução
do consumo acarretou novas formas de produção e de comércio. Essas modernizações criam
poucos empregos no Terceiro Mundo, fazendo com que existam pessoas com salários muito
baixos, vivendo de atividades ocasionais. Cria-se a divisão social entre aqueles que têm acesso
permanente aos bens e serviços oferecidos, e aqueles que têm as mesmas necessidades, mas
não têm condições de satisfazê-las. Daí surge dois circuitos na economia urbana.
O circuito superior “é o resultado direto da modernização e diz respeito às atividades cria-
das para servir ao processo tecnológico e à população que dele se beneficia” (SANTOS, 2005,
p. 96). O circuito inferior “é também resultado da modernização, mas um resultado indireto,
visto que concerne àqueles indivíduos que só parcialmente se beneficiam, ou absolutamente
não se beneficiam, do recente progresso técnico e das vantagens a ele ligadas” (SANTOS, 2005,
p. 96). Portanto, nos países periféricos, a modernização cria formas integradas da organização
econômica urbana.
A teoria dos dois circuitos da economia urbana mostra que a cidade não é apenas uma
máquina viva. A teoria mostra que os dois circuitos são subsistemas que compõem o sistema
urbano dos países subdesenvolvidos. Explica-se sob uma nova ótica a cidade, sua região de
influência e a relação com outras cidades, tornando-se um novo paradigma da geografia urbana
e da planificação nos países subdesenvolvidos.
O circuito superior é “constituído pelos bancos, comércio e indústria de exportação, in-
dústria urbana moderna, serviços modernos, atacadistas e transportadores” (SANTOS, 2004,
p. 40). O circuito inferior “é constituído essencialmente por formas de fabricação não-‘capital
intensivo’, pelos serviços não-modernos fornecidos ‘a varejo’ e pelo comércio não-moderno
e de pequena dimensão” (SANTOS, 2004, p. 40).
O circuito superior pode ser distinguido em atividades puras, impuras e mistas. As ati-
vidades puras são as específicas da cidade e do circuito superior, como a indústria moderna,
o comércio e os serviços modernos. As atividades impuras são aquelas que o interesse está
fora da cidade, como as indústrias de exportação, o comércio de exportação, e os bancos.
As atividades mistas são aquelas que têm laços com os dois circuitos da economia urbana e
regional, como os atacadistas e os transportadores.
A definição dos dois circuitos está atrelada não apenas aos elementos que os compõem,
mas também ao conjunto de atividades realizadas e ao setor da população que se liga a eles
pela atividade e pelo consumo. A definição das atividades ligadas a cada um dos circuitos não
é rígida, podendo haver vários desvios. Nem todas as cidades do mundo subdesenvolvido
dispõem de todas as atividades. Os elementos fundamentais para diferenciar os dois circuitos
são a tecnologia e a organização (Quadro 1).

Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização 239


Circuito Superior Circuito Inferior

Tecnologia Uso intensivo de capital Uso intensivo de mão de obra

Organização Burocrática Primitiva, não estruturada

Capital Importante Escasso

Mão de obra Limitada Abundante

Salários regulares Prevalecentes Não requeridos


Pequenas quantidades; baixa
Estoque Grande quantidade e/ou alta qualidade
qualidade
Negociáveis entre comprador e
Preços Fixos (em geral)
vendedor (regateio)
Crédito De banco, institucional Pessoal, não institucional
Pequena por unidade, mas importante Elevada por unidade, mas pequena em
Margem de lucro
dado o volume dos negócios relação ao volume dos negócios
Relação com fregueses Impessoal e/ou por escrito Direta, personalizada

Custos fixos Importantes Negligenciáveis

Propaganda Necessária Nenhuma

Reutilização das mercadorias Nenhuma (desperdício) Frequente

Capital de reserva Essencial Não essencial

Ajuda governamental Importante Nenhuma ou quase nenhuma


Dependência direta de
Grande; orientação para o exterior Pequena ou nenhuma
países estrangeiros

Quadro 1 – Características dos Dois Circuitos da Economia Urbana dos Países Subdesenvolvidos

Fonte: Santos (2003).

O circuito superior utiliza mais tecnologia, o que implica na utilização de capital intensivo,
e possui uma forma organizacional burocrática (SANTOS, 2003). Os capitais desse circuito são
importantes, o emprego é reduzido, com a predominância do trabalho assalariado. Os estoques
são grandes em quantidade e qualidade e os preços são fixos. A margem de lucro é reduzida
por unidade (com exceção dos produtos de luxo), mas é grande pelo volume de negócios. O
crédito bancário institucional se faz presente nesse circuito. As relações com a clientela são
impessoais, “no papel”. Os custos fixos são importantes, a publicidade é necessária, e tem
uma importante ajuda governamental. É uma atividade com dependência direta do exterior.
O circuito inferior utiliza como tecnologia o trabalho intensivo e se constitui como uma
forma primitiva de organização (SANTOS, 2003). Os capitais são reduzidos. O número de em-
prego é volumoso e o assalariado não é predominante. Os estoques são de pequena quantidade
e qualidade, com o preço submetido à discussão entre o comprador e o vendedor. A margem de
lucro é elevada por unidade e pequena em relação ao volume de negócios. O crédito é pessoal.
Há uma relação direta com a clientela, os custos fixos são desprezíveis, a publicidade é nula,

240 Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização


e a reutilização dos bens é frequente. Há uma nula ou quase nula ajuda governamental e uma
reduzida ou nula relação direta com o exterior.
A maioria dos consumidores do circuito inferior é constituída de pobres. Pobres “são
aqueles que não têm acesso, de modo regular, aos bens de consumo corrente considerados
como o mínimo indispensável numa certa sociedade” (SANTOS, 2004, p. 50). A maioria dos
consumidores do circuito superior são as classes superiores. Estas “dispõem do controle da
economia urbana e regional e até nacional, seja como proprietários das grandes firmas que
controlam o essencial da economia moderna, seja como seus agentes de finança” (SANTOS,
2004, p. 50).
As classes médias “seriam formadas de assalariados de todo tipo que se situam acima do
nível de subsistência, mais os proprietários e empresários cujos ganhos são insuficientes para
que passem para as classes superiores” (SANTOS, 2004, p. 51). A existência de três classes
sociais no Terceiro Mundo não significa a existência de três circuitos da economia urbana.
Alguns consumos da classe média (casa, automóvel, lazer) são alinhados aos consumos da
classe superior, e outros consumos (como os produtos alimentícios) são realizados no circuito
inferior. Não existe, portanto, um circuito intermediário.
A teoria dos dois circuitos da economia urbana é herdeira do dualismo, como a oposição
entre a “economia do centro” e a “economia da favela”, ou a oposição entre a “economia mo-
derna” e a “economia tradicional” na cidade (Figuras 3 e 4). Em muitos espaços a “economia
tradicional” deixou de existir com os eventos e objetos da sociedade moderna, especialmente
a partir da revolução do consumo. Mostra-se, com isso, que os efeitos da modernização não
são parciais, pois as atividades ditas tradicionais passam a desempenhar um novo papel,
reduzem ou desaparecem.

Figura 3 – Loja de departamentos (comércio de luxo como evidência do circuito superior)

Fonte: <http://www.vendamuitomais.com.br/site/img/Upload/image/loja_departamento.jpg>. Acesso em: 18 dez. 2010.

Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização 241


Figura 4 – Rua Vinte e Cinco de Março: evidências do circuito inferior da economia urbana de São Paulo

Fonte: <TTP://casadaluzvermelhasp.blogspot.com/2009/03/vinte-e-cinco-de-marco.html>. Acesso em: 10 nov. 2010.

É importante observar as especificidades dos circuitos da economia urbana para não


cair no erro de analisar comparativamente o que aconteceu com a industrialização das cida-
des dos países desenvolvidos, com o que ocorre nos países subdesenvolvidos. Não se pode
confundir, também, a economia dos guetos e a economia das favelas com o circuito inferior,
pois as populações dos guetos e das favelas não correspondem a todos os pobres da cidade.
A atual situação de subemprego existente nos países subdesenvolvidos lembra a situação
das cidades européias no século XVIII. Mas, ao contrário do que ocorreu naquelas cidades, nos
países subdesenvolvidos há uma gradual redução percentual da população ativa em relação
à população total face ao atual processo de industrialização. Nos países subdesenvolvidos,
a geração de emprego não é suficiente para toda a demanda existente. O setor terciário se
expandiu com maior velocidade nos países subdesenvolvidos, apesar de ser um terciário
muitas vezes “primitivo”.
O fenômeno dos dois circuitos é contemporâneo ao período atual de modernização, não
podendo ser encontrado nos países subdesenvolvidos antes da Segunda Guerra Mundial,
mesmo que eles tenham se industrializado anteriormente. Hoje, as cidades médias e até várias
pequenas possuem um comércio integrado ou especializado, caracterizando a interação entre
os circuitos.

242 Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização


3

Frutos de um mesmo processo, a modernização tecnológica e os dois circuitos


1
da economia urbana (circuito superior e circuito inferior) se diferenciam principal-
mente na organização administrativa e na tecnologia utilizada. Levando em consi-
deração esse contexto, faça uma caracterização dos dois circuitos, considerando
os seguintes elementos: tecnologia, organização, capital, mão de obra, salário,
estoque, preço, crédito, margem de lucro, relação com freguesia, custos, ajuda
governamental e relação com o exterior.

A partir da realidade do seu município, faça uma correlação dos dois circuitos da
2 economia urbana, identificando as principais características do comércio, serviços
e possíveis indústrias (padarias, fábricas de doce etc.). Explique se existe circuito
superior e se há ou não predominância do circuito inferior. Justifique sua resposta.

Os estudos recentes sobre os


circuitos da economia urbana
A teoria dos dois circuitos da economia urbana foi desenvolvida por Milton Santos na
década de 1970. Atualmente, essa teoria tem sido comprovada na empiria e tem sido atualizada
nos trabalhos de diversos autores, a exemplo de Silveira (2004, 2007a, 2007b, 2009, 2010).
Num texto publicado em 2009, a autora mostra a importância das firmas financeiras
no circuito superior. A cidade de São Paulo tem sido sede de vários bancos brasileiros, e
subsede de bancos internacionais, controlando todo um sistema bancário nacional. Nesse
sentido, Silveira (2009) mostra a interferência do dinheiro global na cidade, e a importância
dos créditos em várias empresas. O crediário disponível em lojas de eletroeletrônicos e lojas
de confecções, por exemplo, é uma forma do circuito superior também atrair uma clientela
pobre, enfraquecendo a procura desses consumidores pelo circuito inferior.
O circuito inferior é fruto da pobreza estrutural e uma forma de resistência dos pobres
em um momento de oligopolização da economia urbana, representado pelo alargamento do
circuito superior. Esse comportamento dos pobres faz parte do existencialismo territorial que é
“a forma de sobrevivência da maior parte da população brasileira: pragmatismo mais emoção
na busca de soluções que são vistas como irracionais, como formas de atraso, como economia
tradicional” (SILVEIRA, 2004).
O banco é o agente hegemônico do circuito superior, de forma direta e indireta, através
de créditos em seu próprio nome ou através de representantes. Os bancos se disseminam na
medida em que há uma difusão da monetarização das economias dos países, além de financia-
rem atividades comerciais que proporcionam uma maior rotatividade do capital em um prazo
mais curto, com menores riscos e maiores lucros.

Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização 243


Os bancos também financiam as atividades agrícolas, sobretudo as atividades voltadas
para a exportação. Ao mesmo tempo em que o banco canaliza capitais externos para a região
ou para a cidade, modernizando a economia local, o fluxo de fundos acorrem para os países
sedes desses bancos – os países desenvolvidos. Os bancos tornam-se, portanto, instrumentos
dos desequilíbrios regionais.
O capital estrangeiro investe nos ramos da indústria que mais lhe interessam. Nos países
subdesenvolvidos, os capitais estrangeiros são investidos em indústrias modernas voltadas
para o mercado interno, principalmente, na indústria química e no setor siderúrgico, quando
o país já tem uma infraestrutura bem desenvolvida. Essa tendência aumenta com a formação
das empresas multinacionais e conglomerados, que são gigantes financeiros que atuam sem
respeitar os limites dos países.
Uma das consequências da presença estrangeira no Terceiro Mundo é a transferência
de capitais para os países desenvolvidos. Essa medida de transferência de lucros feita pelas
corporações é consequência do medo da desvalorização do capital e da moeda, assim como
das instabilidades políticas. Isso aumenta o poder das empresas, e os países subdesenvolvidos
tornam-se multiplicadores de capital dos países do centro.
A Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) tornou-se um dos elementos mais importantes
das grandes firmas industriais do mundo. Através da modernização tecnológica é que os
monopólios e as corporações mantêm o poder sobre outras. Assim, há um duplo monopólio
em P&D: o dos países desenvolvidos sobre os países subdesenvolvidos e o das corporações
sobre as outras firmas e sobre os países pobres.
A modernização faz com que haja mudanças na decisão e na dependência. Isso é re-
presentado pela não integração do circuito superior na cidade. As políticas exercidas pelas
empresas não se inserem na planificação das cidades. Com a internacionalização da economia
todos os países subdesenvolvidos tiveram que seguir um modelo estrangeiro para garantir
investimentos e financiamentos do exterior.
Silveira (2007a) entende que há um crescimento do circuito superior marginal, principal-
mente nas cidades médias ou intermediárias. Para Santos (2004, p. 103), o circuito superior
se divide em duas formas de produção, o circuito superior e o circuito superior marginal,
este é “constituído de formas de produção menos modernas do ponto de vista tecnológico e
organizacional”. O circuito superior marginal é, portanto,

resultado da sobrevivência de formas menos modernas de organização ou respostas


a uma demanda incapaz de suscitar atividades totalmente modernas. Essa demanda
pode vir tanto de atividades modernas, como do circuito inferior. Esse circuito superior
marginal tem, portanto, ao mesmo tempo um caráter residual e um caráter emergente.
Nas cidades intermediárias é o caráter emergente que domina (SANTOS, 2004, p. 103).

O circuito superior marginal não se constitui em outro circuito, nem no circuito intermedi-
ário, como já tratado na obra de Santos. Por isso, não se pode afirmar que existe um comércio
marginal no circuito superior. Várias classificações foram adotadas por diversos estudiosos
devido às diversas intensidades das atividades de fabricação. Santos (2007a) prefere identificar
a existência de dois níveis no circuito superior, baseados na diferença de tecnologia utilizada
e de organização administrativa.
O circuito superior marginal é “causa e conseqüência do acontecer solidário, isto é,
da atual interdependência dos eventos, que advém da tendência à unicidade das técnicas,

244 Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização


da informação e do dinheiro”, e também “resulta e produz diversas formas do acontecer:
complementar e homólogo e, por vezes, suas ações são hierárquicas com relação ao circuito
inferior” (SILVEIRA, 2007a, p.9).
O circuito superior marginal é constituído por formas mistas, pertencentes tanto às ativi-
dades herdadas, como a formas de trabalho emergentes que participam, subordinadamente,
da divisão do trabalho hegemônica (SILVEIRA, 2007b). Portanto, o circuito superior marginal é
constituído de empresas que prestam serviços e estão diretamente ligadas ao circuito superior,
seja de forma residual ou de forma emergente.
O circuito superior marginal é residual “quando a oligopolização cerca a atividade não raro
pela via da modernização tecnológica” (SILVEIRA, 2010, p. 4). O circuito superior marginal é
emergente “quando o domínio dos objetos técnicos modernos ou de formas organizacionais
contemporâneas assegura a procura do circuito superior” (SILVEIRA, 2010, p. 4).
Para entender os circuitos da economia urbana deve-se analisar a economia política da
urbanização e a economia política da cidade em conjunto (SILVEIRA, 2010, p. 1). A economia
política da urbanização é “a economia política do território, revelando a repartição dos instru-
mentos de trabalho, do capital, do emprego e dos homens numa formação socioespacial”,
logo, a cidade como meio construído. A economia política da cidade pressupõe o entendimento
de “como o meio construído urbano se organiza face a produção e como os agentes da vida
urbana encontram seu lugar nesse meio construído e na divisão do trabalho”, logo, a cidade
como mercado.
A cidade é, nesse sentido,

o ‘prático-inerte’ por excelência, pois agrega no seu seio um leque de próteses e semo-
ventes de idades diversas e uma pluralidade de práticas, ideias, normas, cosmovisões
e formas de fazer que não se explicam apenas pelo presente nem apenas pela divisão
territorial do trabalho hegemônico (SILVEIRA, 2010, p. 9).

Portanto, deve-se entender a cidade como uma superposição de divisões do trabalho,


a cidade como meio construído e a cidade como um mercado. Esse mercado é formado por
diversos circuitos de produção, distribuição e consumo. Deve-se, portanto, analisar a cidade
como a relação dialética e indissociável entre o circuito superior e o circuito inferior, buscando
assim compreender essa totalidade una e fragmentada.

1 O banco é uma importante firma do circuito superior, pois é traço da união entre os
dois circuitos. Nessa perspectiva, descreva sobre a importância dos bancos no que
diz respeito ao financiamento e seus impactos, tanto no circuito superior quanto
no circuito inferior, isto é, explique a relação entre esses dois circuitos a partir das
relações bancárias.

Caracterize o circuito superior marginal, mesmo sabendo que ele não se constitui
2
em um circuito intermediário. Exemplifique.

Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização 245


Leituras complementares

SANTOS, Milton. A natureza do espaço. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2002.


Nessa obra, Milton Santos mostra como se construiu o atual meio geográfico, o meio
técnico-científico-informacional. É importante levar em consideração que a modernização
tecnológica mostrada pelo autor na obra “O espaço dividido” é um dos processos que dará
origem ao atual meio geográfico. Essa obra também mostra que os lugares e as cidades são
constituídos de verticalidades e de horizontalidades. As verticalidades podem ser expressas
no circuito superior da economia urbana. E as horizontalidades são expressas, principalmente,
no circuito inferior da economia urbana.

SANTOS, Milton. Por uma economia política da cidade. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2009.
Nessa obra, Milton Santos discute de forma mais aprofundada a economia política da
urbanização e a economia política da cidade, levando em consideração o processo de produção,
circulação, distribuição, consumo, portanto, o funcionamento do capital, e o funcionamento
do trabalho. Além disso, o autor discute sobre o valor de uso e o valor de troca no espaço
urbano, trazendo uma discussão de Marx para a Geografia. Por fim, aponta para a necessidade
de estudarmos a cidade enquanto mercadoria e a cidade enquanto meio ambiente construído,
o que dará respaldo para entendermos os dois circuitos da economia urbana.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2000.
Milton Santos mostra como o processo de globalização transforma o espaço mundial,
aumentando as desigualdades, originando os diversos tipos de pobreza explicitados pelo autor.
Além disso, o autor mostra como o Estado se torna um elemento importante para a atuação
do “globaritarismo”, atendendo aos interesses das grandes corporações mundiais. Por fim, o
estudioso mostra a importância da “flexibilidade tropical” e a construção do “período popular da
história”. Essas duas categorias de análise também dão suporte ao estudo do circuito inferior.

SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século
XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.
Esse livro é importante para pensarmos a construção do meio técnico-científico-informacional
no Brasil, com a criação e a sobreposição de divisões territoriais do trabalho. A noção de território
usado é importante para entender de que forma o circuito superior e o circuito inferior usa o terri-
tório. É importante observar que o uso corporativo do território, ou seja, a forma como as grandes
corporações se apropriam e usam o território, geralmente, com o apoio do Estado, dá à cidade
uma condição oligopolista.

246 Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização


Resumo

Nesta aula, percebemos que é um equívoco estudar a cidade numa


perspectiva geográfica, enquanto um “organismo vivo”, sem relacioná-la com
os processos exógenos (globais). Outro equívoco é comparar as cidades dos
países desenvolvidos com as dos países subdesenvolvidos. A proposta de Milton
Santos foi criar uma teoria que analisasse a cidade e economia urbana dos países
subdesenvolvidos a partir delas próprias, analisando os dois circuitos aí existentes,
isto é, o circuito superior e o circuito inferior. Aprendemos que os dois circuitos
são originários de um mesmo processo: a modernização tecnológica ocorrida
após a Segunda Guerra Mundial. Os mesmos se diferenciam, principalmente,
em relação à tecnologia e à organização administrativa. Entendemos também
que o circuito superior se subdivide em circuito superior propriamente dito, e
circuito superior marginal. Observamos que os bancos são importantes firmas
que estão ligadas aos dois circuitos. Por fim, entendemos que os dois circuitos
são indissociáveis e não podem ser analisados separadamente.

Autoavaliação
Explique o processo de urbanização dos países subdesenvolvidos, tendo como
1 base a teoria dos circuitos da economia urbana.

Explique os dois circuitos da economia urbana dos países periféricos, conside-


2 rando todos os elementos e fatores envolvidos, isto é, tecnologia, organização,
capital, mão de obra, salário, estoque, preço, crédito, margem de lucro, relação
com freguesia, custos, ajuda governamental e relação com o exterior.

Referências
SANTOS, Milton. Economia espacial. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2003.

______. O espaço dividido. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2004.

______. Da totalidade ao lugar. São Paulo: EDUSP, 2005.

______. Pobreza urbana. 3. ed. São Paulo: EDUSP, 2009.

Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização 247


SILVEIRA, Maria Laura. Globalización y circuitos de la economía urbana en ciudades brasileñas.
Cadernos del Cendes, v. 21, n. 57, p. 3-22, set. 2004.

______. Crises e paradoxos da cidade contemporânea: os circuitos da economia urbana. In: X


SIMPÓSIO NACIONAL DE GEOGRAFIA URBANA, 2007, Florianópolis. Anais... Florianópolis,
out. 2007a.

______. Metrópolis brasileñas: un análisis de los circuitos de la economía urbana. Revista


Eure, Santiago, v. 33, n. 100, p 149-164, dez. 2007b.

______. Finanças, consumo e circuitos da economia urbana na cidade de São Paulo. Caderno
CRH, Salvador, v. 22, n. 55, p 65-76, jan./abr. 2009.

______. Da pobreza estrutural à resistência: pensando os circuitos da economia urbana. In: EN-
CONTRO NACIONAL DE GEÓGRAFOS, 16., 2010, Florianópolis. Anais... Porto Alegre, jul. 2010.

Anotações

248 Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização


Anotações

Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização 249


Anotações

250 Aula 12 Espaço, Tecnologia e Globalização


Esta edição foi produzida em mês de 2012 no Rio Grande do Norte, pela Secretaria de
Educação a Distância da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (SEDIS/UFRN).
Utilizando-se Helvetica Lt Std Condensed para corpo do texto e Helvetica Lt Std Condensed
Black títulos e subtítulos sobre papel offset 90 g/m2.

Impresso na nome da gráfica

Foram impressos 1.000 exemplares desta edição.

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