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Doutrinas Metodista

1. Doutrina da Criação do Ser Humano e o Pecado Original

Introdução
Para coroar os sucessivos atos da Crisção, Deus cria o homem e a mulher a sua imagem e
semelhança (Gn 1:26-27). Mas afinal, em que somos semelhantes a Deus?

1 - O Sentido Global da Imagem de Deus em Nós:


O que nos faz diferentes dos animais e nos torna imagem de Deus é a capacidade de ter comunhão
com Ele. Só os seres humanos podem se relacionar com Deus face-a-face, de maneira íntima e
pessoal. João Wesley detectou três aspectos de imagem dos seres humanos com seu Criador:

a) A IMAGEM MORAL - ao ser criado, o ser humano possuia a santidade, a pureza e o amor de
Deus. Sua verdadeira natureza é ser santo, misericordioso, puro, livre, incorruptível e eterno.

b) A IMAGEM NATURAL - isto significa que Deus criou o ser humano com perfeita liberdade de
escolha não só em pequenas questões da vida, mas também naquelas que determinam seu destino.
No estado de inocência ele podeia escolher obedecer a Deus ou não, sem qualquer interferência
sobre sua capacidade de escolha (Gn 2:15-17).

c) A IMAGEM POLÍTICA - Deus delega poderes aos seres humanos quando ordena o domínio
sobre os habitantes do mar, dos céus e da terra (Gn 1:28) e a incumbência de dar nomes às outras
criaturas (Gn 2:19-20; Sl 8:6-7).

2 - O Pecado Original:
O ser humano, usando a liberdade dada por Deus, escolheu DESOBEDECÊ-LO, ou seja, pecou.
Este pecado acarretou funestas (desastrosas, fatais) conseqüências para toda a criação: conflito,
desarmonia, mal-estar, morte. E arruinou o relacionamento com Deus e com outras pessoas. O ser
humano perdeu sua verdadeira natureza. O pecado distorceu a imagem moral de Deus no ser
humano, quebrando a sua comunhão com o Criador. Tornando-o injusto, desonesto, mau, violento
(Rm 3:10-18).

Com o pecado, o ser humano perde a capacidade de escolher o Bem e a Vida, por si mesmo, pois
sua imagem natural é danificada (Rm 7:14b-15). Também a imagem política, apesar de não ser
destruída, fica difícil de ser exercida, porque a natureza torna-se hostil. Mas para sobreviver, o
homem e a mulher, terão de enfrentar o desafio de dominar, cultivar e guardar toda a Criação de
Deus.

3 - A Providência de Deus:
Nos Salmos 8:5 lemos: "Fizeste-o, no entanto, um pouco menor do que os anjos e de glória e honra
o coroaste".

Esta é a descrição do ser humano criado por Deus. Que diferença fez a entrada do pecado em sua
vida!

Se Deus não tomasse a iniciativa de providenciar um meio de reabilitar-nos, estaríamos


implacavelmente destruidos. Mas sua graça veio até nós através de Jesus Cristo e a possibilidade de
reavermos nossa verdadeira natureza tornou-se real.
E Deus oferece também a esperança da transformação de toda a Criação quando efetivar a vitória
final sobre o pecado (cf. Rm 8:18-24).

Estamos caminhando para o cumprimento total da promessa feita por Isaías (Is 11:1-9) e
confirmada nos capítulos 21 e 22 de Apocalipse (ler Ap 21:1).

Conclusão:
A compreensão bíblica e dos metodistas do ser humano leva bem a sério a situação trágica da
humanidade. O pecado original contamina e estraga não apenas cada indivíduo como também a
toda a sociedade humana.

Mas cremos na graça de Deus. Através dela o Paraíso pode ser reconquistado. O ser humano, e toda
a sociedade, pode reaver sua verdadeira natureza e humanidade proposta inicialmente por Deus!

2. Doutrina do Arrependimento

Introdução:
A maneira característica do Antigo Testamento para expressar o arrependimento do ser humano para
com Deus e dizer que houve uma volta, um retorno: o ser humano saiu do pecado e voltou-se para
Deus.

No Novo Testamento o arrependimento é enriquecido em sua significação: ele é a mudança de


mente; consiste na radical transformação de PENSAMENTO, ATITUDE, DIREÇÃO.

Textos Bíblicos:

Lc 3:1-4: João Batista chama o povo judeu ao arrependimento, como indispensável preparação para
sua participação no Reino de Deus;
Mt 4:17 e Mc 1:15: Jesus inicia sua missão com o desafio do arrependimento e a promessa das Boas
Novas, semelhante à mensagem de João Batista;
Is 1:10-17: O povo é desafiado a voltar-se para Deus, fazendo o BEM, caso contrário ele não
aceitaria o culto, o louvor ou a adoração;
Am 5:11-14: O arrependimento toma forma de imperioso chamado à obediência da aliança do povo
com Deus. Se não se arrependesse, não teria vida;
Lc 18:9-14: Só pode haver arrependimento se o ser humano reconhece que é pecador. So assim ele
pode ser justificado;
Rm 10:11-15: É preciso que alguém fale de Jesus, o que ele exige e a esperança da Salvação que
nele há, , para que se oportunize o arrependimento e a seguir, creia nele (Jesus).

O Que é Arrependimento:
Não podemos confundir arrependimento com remorso ou desespero. As emoções de tristeza ou
remorso e as lágrimas que acompanham tais sentimento, não são o arrependimento e nem o tornam
verdadeiro.

O arrependimento possui dois momentos, segundo os ensinamentos bíblicos: a auto-conhecimento e


a produção das obras de arrependimento.

O AUTO-CONHECIMENTO é a correta compreensão do estado religioso de cada um de nós. Deus


emprega muitos meios para nos fazer enxergar como realmente somos. O meio mais cumum é a
Bíblia. Ela é como um espelho onde nos vemos tal qual somos.
O povo judeu por se julgar escolhido e ter assegurado provilégios que os gentios não possuiam, não
conseguia enxergar sua condição de "raça de víboras", tal era o seu distanciamento da vontade de
Deus. Foi necessário João Batista e o próprio Jesus mostrarem como o povo seguia a Lei mas não
tinha compaixão; como observar as festas, os cultos e os sacrifício, mas não praticava a Justiça, o
Amor e a Santificação.

Como nos arrepender de algo se nos achamos ótimos?

As OBRAS DIGNAS DO ARREPENDIMENTO eram exigidas do povo após o reconhecimento


dos pecados: repartir as túnicas e os alimentos, não cobrar impostos injustos, não explorar o
próximo, não roubar ou maltratar alguém. Por outro lado, praticar o amor e o serviço de Deus e ao
próximo, andando a segunda milha, amando até aos inimigos e mostrando verdadeira transformação
em sua CONDUTA.

Conclusão:
O arrependimento consiste no abandono do pecado e no voltar-se para Deus e seu serviço
(ministério). A mente que é o âmago do ser humano, é radicalmente transformada pelo
arrependimento. O arrependimento inclui a tristeza, e geralmente lágrimas, pelos pecados cometidos
e dá oportunidade para que a Graça de Deus alcance o ser humano e o leve à justificação.

O arrependimento é o primeiro movimento para a salvação (Mt 4:17). Deus está nos convidando ao
arrependimento e torna possível uma resposta positiva através de sua Graça Preveniente. Um
cadáver nada pode responder, mas o pecador e pecadora até o último instante tem a oportunidade de
fazer o primeiro movimento.

3. Doutrina da Graça Preveniente (Ou Graça Preventiva ou Graça Salvadora)

Introdução
Havendo chegado à conclusão de que o ser humano é pecador, sem possibilidade alguma de, por si
mesmo, libertar-se do pecado e recuperar a comunhão com Deus que lhe seria possível em estado de
pureza, somos agora levados à pergunta mais importante para a nossa vida: Como podemos nós ser
salvos? A resposta está na própria Escritura: "Pela Graça de Deus sois salvos".

Textos Bíblicos:

Dt 30:15-20: diante da Graça de Deus, o ser humano não pode ser indiferente. A Graça exige uma
resposta. No texto, o povo de Israel foi chamado a escolher entre a VIDA e a MORTE.
Js 24:19-24: Josué explica ao povo de Israel as duas opções: servir ao Senhor ou não. Após a
escolha lhe restava arcar com as conseqüências dessa escolha.
Sa 119:30: o salmista declara sua escolha e decisão.
Is 1:18-20: aí está o convite à Graça. Não há pecados horrendos que Deus não possa perdoar. Ele
continua convidando ainda hoje à participação de sua Graça e perdão.
Ez 18:30-32: Como um Pai amoroso, Deus se aflige com a perdição de sua criatura e apela para a
conversão e a vida.

1 - O Que é Graça de Deus?


Quando se fala em graça de Deus tem-se, geralmente, a impressão de que é algo que Deus concede
ao ser humano, uma realidade independente de Deus, uma força misteriosa, um poder
extraordinário, que opera a salvação.
Todavia a graça de Deus não é nada mais que a disposição benevolente de Deus para com o ser
humano, sua misericórdia posta em ação a favor do ser humano, exercendo-se de tal maneira que o
ser humano possui agora uma possibilidade de ser salvo.

Dizer "somos salvos pela graça de Deus", significa então que somos salvos pela misericórdia de
Deus posta em ação a nosso favor.

De todas as coisas que a Bíblia revela aos homens e mulheres, nenhuma é tão única e importante
como a existência em Deus de um tal espírito de misericórdia e amor para com o ser humano
pecador. Deixados sem esta revelação, homem e mulher, não teriam certeza de coisa alguma. Se se
considera como se desenvolveram as religiões nascidas da supertição humana, de sua observação
dos fenômenos físicos e naturais (raios, trovões, seca, vulcões, etc.), se compreenderá muito
facilmente como puderam surgir opiniões das mais variadas a respeito da divindade, que por se
imaginá-la multiforme, na crença de muitos deuses, quer por julgá-la insensível às necessidades
humanas ou sujeita aos caprichos da natureza do ser humano, podendo ora ser propícia, ora ser
irritadiça, ora mesmo ser irada e desejosa de exterminar as suas criaturas.

Esse tipo de conceituação e pensamento ainda se é atribuida a Deus (Javé), na Bíblia, muitas vezes,
até que Jesus Cristo surja e revele um Deus de amor e de bondade, cuja característica mais marcante
é a de ser gracioso com os homens e mulheres, pronto a, por causa de sua graça, perdoar os
pecadores e salvá-los de seus pecados.

E isto Ele o faz concretamente enviando o seu próprio e Unigênito Filho como redenção de toda a
humanidade. É na cruz que vemos revelada de maneira mais notável, a maravilosa e salvadora graça
de Deus.

2 - A Motivação da Graça de Deus:

Um ponto importante temos de levantar aqui: Por que motivo resolve Deus mostrar a sua graça?
Qual a motivação que o leva a assim compadecer-se do ser humano pecador?

A resposta de muitos será que afinal Deus vê um valor no ser humano, sente que apesar dos seus
pecados ele é digno de ser salvo porque possui em simesmo valor. Ou quem sabe, porque a sua
situação de pecador não é de desgraça total, podendo através de seus esforços possuir o mérito de
provocar a misericórdia de Deus.

Nenhuma dessas ipóteses, porém, é admitida por João Wesley. Para Wesley nada há no ser humano
que possa alterar a posição de Deus a seu respeito. Seu coração é pecador e sua condição é de
irremediavelmente perdido, uma vez que vive apenas para si mesmo. Os esforços nos quais se
empenhe são totalmente egoistas, visando seu próprio benefício. Deus não é o centro de sua vida.

"A graça de Deus - diz Wesley - da qual nos vem a salvação, é gratuita em tudo e para todos. É
gratuita a todos a quem é concedida. Não depende do poder ou mérito do ser humano, em nenhum
grau, nem no todo, nem em parte. Do mesmo modo ela não depende das boas obras ou da retidão
daquele que recebe, de coisa alguma que tenha feito ou que seja. Não depende dos seus esforços,
dos seus sentimentos, bons desejos, bons propósitos ou intenções, pois todos estes fluem fa graça
gratuita de Deus; são apenas a corrente, não a fonte. São os frutos da graça gratuita e não a raiz.
Não são a causa mas os efeitos da mesma. Seja o que for de bom que haja no homem ou 1ue seja
feito por ele, é Deus o autor e que o faz. Assim é a sua graça gratuita em tudo, isto é, não depende
de nenhum poder ou mérito no homem, massomente em Deus, que nos deu gratuitamente o seu
próprio Filho e "com Ele deu-nos gratuitamente todas as coisas".
3 - A Universalidade da Graça de Deus:

Mas terá Deus distribuido a sua graça com todos os seres humanos? É aqui que Wesley se torna
mais enfático. Nem mesmo as doutrinas católico-romanas provocaram-lhe tão grande ira quanto a
propagada idéia ao seu tempo de que Deus havia escolhido uns quantos para a salvação, deixando a
grande maioria perecer nos seus próprios pecados.

A chamada doutrina da reprovação, a de que Deus não apenas não se importa com milhões, mas
deliberadamente os predestinou à perdição, enchia Wesley de horror, que a considerava uma terrível
blasfêmia contra Deus, pois o considerava injusto, cruel e mentiroso.

A graça de Deus estava aberta a todos os homens e mulheres. Não apenas aberta a todos mas
presente em todos. Wesley acreditava que a Graça Salvadora (ou Preventiva, como ele a chamava)
estava em atuação no coração de todos os seres humanos, ao lado de sua consciência, a própria
presença de Deus em ação, por sua misericórdia, procurando levar o ser humano ao arrependimento:
"Parece ser esta faculdade a que se referem usualmente aqueles que falam de consciência natural,
expressão encontradiça amiúde em alguns dos nossos melhores autores, contudo não estritamente
certa, pois, embora possa ser chamada natural, por achar-se em todos os homens, não é, todavia
natural, propriamente falando-se, mas um don sobrenatural de Deus, acima de todos os seus dotes
naturais".

Era esta graça universal a verdadeira boa nova do Evangelho, que anunciava a todos os homens e
mulheres a salvação pela fé em Jesus Cristo. Wesley não a cria eficiente, isto é, ela não realizava a
salvação, mas plenamente eficaz, suficiente e capaz para salvar a todos os que cressem.

4. Resposta à Graça de Deus:

Colocada, porém, diante dos homens e mulheres a graça de Deus não lhes permitia uma situação de
indiferença. ela era um desafio a que todos os homens e mulheres deveriam responder afirmativa ou
negativamente. Responder indiferentemente era apenas outra maneira de repudiá-la, "apagando o
Espírito", expressão que Wesley tomara emprestada à Escritura e usava constantemente.

A rejeição consciente da graça de Deus era na verdade, a escolha da perdição eterna, uma vez que
não havia outra maneira de poder o ser humano alcançar a salvação.

Isto nos leva ao ponto de considerar se o ser humano pode ou não resistir à graça de Deus. É a graça
de Deus irresistível como muitos acreditavam? Absolutamente, responderia Wesley. Não apenas o
homem e mulher podem resistir à graça de Deus mas até mesmo destruir aquela graça divina que já
está alojada em seu coração. Neste sentido negativo o ser humano é senhor absoluto de seu destino
e capitão de sua própria salvação. E algumas vezes a graça de Deus opera de maneira irresistível,
"como um relâmpago caindo dos céus", ele declara decisivamente que este não é o método usual da
operação divina e que mesmo nestes casos esta irresistibilidade é passageira, dependendo
finalmente do ser humano, como veremos no tópico Doutrina do Livre Arbítrio, a decisão final a
respeito de sua salvação.

Ou como diz Santo Agostinho, que Wesley cita em um de seus sermões: "Qui fecit sine nobis, non
salvabis nos sine nobis, "ou seja, "Aquele que nos fez sem nossa atuação não nos salvará sem nosso
assentimento"(consentimento, concordância).

Obs.: As citações feitas de João Wesley foram retiradas da COLETÂNEA DA TEOLOGIA DE


JOÃO WESLEY, de Burtner e Chiles, pág. 117 e 118 (1ª citação) e p. 152 (2ª citação).
4. Doutrina do Livre Arbítrio

Introdução:

Se houve uma doutrina que causou grande discussão e criou barreiras de comunicação entre muitos
e grandes pensadores cristãos do passado foi a questão de poder ou não o ser humano determinar o
seu próprio destino, exercendo, o que se convencionou chamar em linguagem teológica, o seu livre
arbítrio.

Muitos foram os ódios que esta discussão acendeu em virtude, porém, de esforços sinceros tanto de
um lado quanto de outro, que buscavam de igual modo manter uma concepção adequada e bíblica a
respeito de Deus e de seu amor. Que creram os metodistas a respeito disso?

1 - Textos Bíblicos:

Jo 1:14-18: o texto mostra como Jesus, deixando sua glória, fez-se ser humano para revelar o amor
de Deus a nós. Ele se esvaziou de seu poder, livremente, sem imposição.
Rm 6:1-4: se morremos para o pecado, ele não tem mais domínio sobre nós. Com nova vida em
Cristo andamos dirigidos por sua Graça. A vontade de Cristo passa a ser a nossa vontade.
Ef 2:8-10 e Tt 3:4-7: Deus nos dá a possibilidade da salvação através de sua Graça: é um dom, um
presente que Ele nos oferece. Resta-nos receber esse presente. Nenhum esforço nosso, nem obras,
nem sacrifícios, poderiam nos salvar, se Deus nada fizesse.

2 - Que Aconteceu ao Ser Humano?

Criado para a perfeição, para responder a Deus da maneira mais adequada e imediata, descobre-se o
ser humano impotente para poder escolher. A experiência de Paulo, descrita em Rm 7:15 em diante,
não lhe foi única. Através dos tempos a mesma frustração tem levado os homens e as mulheres,
judeus ou gregos, cristãos ou pagãos, a sentirem a sua incapacidade de afirmar a sua própria
vontade: "não faço o que prefiro e sim o que detesto... O querer o bém está em mim, não porém o
efetuá-lo."

A resposta que os hebreus deram a esta situação de decadência foi a criação perfeita do primeiro ser
humano, seguida de sua desobediência à vontade de Deus, o que determinou todo um processo de
desordem no universo, em contradição entre ele e Deus, entre ele e seu próximo e dentro de si
mesmo. Esta dualidade de vontades em choque dentro da personalidade humana, foi caracterizada
por Paulo como uma luta que se deve travar entre a carne e o espírito, o princípio decadente e a
ansiedade de fazer a vontade de Deus, ambos presentes simultaneamente no ser humano.

O fato é, porém, indiscutível. O ser humano não tem a capacidade real de escolher entre o bem e o
mal e de permanecer do lado da virtude. Wesley diz que o ser humano perdeu o seu livre arbítrio
natural. Entre os artigos de religião da Igreja da Inglaterra havia um que Wesley incluiu entre os 24
que ele escolheu como padrão doutrinário dos Metodistas, como segue: "A condição do homem,
depois da queda de Adão, é tal que ele não pode converter-se e preparar-se pelo seu próprio poder e
obras, para a fé e invocação de Deus; portanto não temos forças para fazer obras agradáveis e
aceitáveis a Deus sem a sua graça por Cristo, predispondo-nos para que tenhamos boa vontade e
operando em nós quando temos essa boa vontade."

3 - Até Que Ponto Podemos Escolher?


É , porém, perfeitamente verificável pela experiência de cada dia que somos capazes de escolher em
nossa vida as coisas que desejamos para nós e, ao mesmo tempo rejeitar as que não nos interessam.
O senso de escolha não foi extirpado em nós.

Wesley dizia que não somente o ser humano pode escolher o agir ou deixar de agir, como pode
também escolher entre duas formas diferentes de ação. "Negar isto, diz Wesley, seria negar a
experiência constante de toda experiência humana. Todos sentem que têm um poder inerente de
mover esta ou aquela parte de seu corpo, de movimentá-lo ou não, e de movimentá-lo deste ou
daquele modo como for do seu agrado. E posso, conforme escolher (e assim todos os que são
nascidos de mulher), abrir ou fechar meus olhos, falar ou calar-se, levantar-me ou sentar-me,
estender minha mão ou escondê-la, usar qualquer dos meus membros conforme for do seu agrado
bem como todo meu corpo".

Wesley também dizia que o ser humano era livre para escolher nas coisas de natureza indiferente.
Nas coisas, porém, que envolviam questões morais sua tendência era sempre a de escolher para o
mal. Dizia mesmo que a vontade do ser humano é, por natureza, livre apenas para o mal.

Entretanto, embora tivesse perdido todo o seu livre arbítrio natural em virtude da degeneração da
raça pelo pecado, o ser humano, pela misericórdia de Deus, teve em si restaurada, até certo ponto, a
capacidade de escolha. É o que poderíamos chamar de LIVRE ARBÍTRIO PELA GRAÇA. A Graça
preventiva de Deus, na linguagem de Wesley, atuando sobre o coração do ser humano, recupera-lhe
a possibilidade de responder positiva ou negativamente, aos apelos que o próprio Deus lhe faz.

A Graça dá assim ao ser humano a possibilidade de aceitar ou rejeitar esta mesma graça. A decisão,
finalmente, é sua. É isto o que diz o Artigo de Religião, que afirma que a Graça de Deus em Cristo é
que nos predispõe para que tenhamos a boa vontade de aceitar esta mesma graça. Quando, então,
demonstramos esta boa vontade, a graça passa a operar em nós dando-nos então a possibilidade de
praticar as boas obras que de outra forma nos seriam impossíveis.

4 - Calvinismo e Arminianismo

João Calvino e Tiago Armínio são dois nomes que podem ser postos de pólos opostos, quando
consideramos a questão da decisão humana na aceitação ou rejeição da graça de Deus.

Calvino, na Suíça, estabeleceu as linhas tradicionais da teologia reformada, rejeitando o catolicismo


romano e demonstrando com argumentos bíblicos irrespondíveis que nehum ser humano tem
méritos de si mesmo para alcançar a salvação, que é concedida ao ser humano por Deus em virtude
de sua graça gratuita e imerecida, que promove a fé no coração.

Calvino procurou colocar Deus no seu devido lugar, como o Soberano e Supremo Criador de todas
as coisas, que dirige e governa o mundo e os homens e mulheres. No desenvolvimento de sua
teologia, entretanto, não encontrando explicação para o fato de que muitos seres humanos não
aceitam o evangelho e fundamentando-se em certas passagens da Escritura, Calvino chegou à
conclusão de que Deus predestinou alguns seres humanos para a salvação, operando em suas almas,
por sua graça irresistível e levando-os à fé. A princípio Calvino nada afirmou a respeito dos demais,
dos que não creram em Cristo. Posteriormente, porém, o desenvolvimento lógico de sua posição
teológica o levou a admitir que Deus havia também predestinado a estes para a perdição.

Tiagi Armínio, que nasceu na Holanda quatro anos antes da morte de Calvino, tornou-se pastor
reformado em seu país e seguidor de perto das idéias calvinistas. Quando lhe pediram entretanto,
que elaborasse uma tese para defender o calvinismo, especialmente no que diz respeito à
predestinação, Armínio parou para pensar e concluiu que esta doutrina era incompatível com o
testemunho total da Escritura. Ele concluiu que a exaltação do Criador exigia a liberdade do ser
humano. "De suas mãos saíram um ser racional, feito espiritualmente à sua semelhança e não um
autômato. Dotara-o com a capacidade de escolha e opção; fê-lo responsável pela consequência da
escolha; deu-lhe disposições para conhecer a Deus e gozar a vida eterna... Admitida a predestinação
absoluta, o livre arbítrio torna-se impossível, porque a vontade já se acha determinada em seu
exercício. qualquer ordem dada a qualquer ser humano, nestas condições, é contra senso.

Confrontado com as duas posições, João Wesley não teve dúvidas: abraçou o arminianismo neste
ponto, chegando mesmo a dar à publicação que fazia periodicamente para os metodistas o nome de
A Revista Arminiana. "Sem a liberdade, diz Wesley, não pode haver mal nem bem, moralmente
falando, virtude ou vício. A virtude não existe, a não ser quando um ser inteligente conhece, ama e
escolhe o que é bom; nem existe o vício, a não ser onde um ser conhece, ama e escolhe o mal".

Qualquer doutrina que nega o livre arbítrio concedido pela graça de Deus já em operação no
coração humano, destrói a possibilidade da compreensão humana e faz do homem e da mulher nada
mais do que uma simples máquina, mera sombra daquilo que ele e ela na realidade são,
trasformando-os em brinquedo de marionetes nas mãos de um tirano. E não é assim que Deus se
relaciona conosco.

5. Doutrina da Fé Salvadora

1 - Introdução:

Sabemos que o pensamento central do Novo Testamento é o de que Deus enviou seu filho para ser o
Salvador do mundo. A atitude mediante a qual o ser humano abandona toda a confiança em seus
próprios esforços para obter a salvação, quer sejam ações de piedade, de bondade ética, ou seja lá o
que for, chama-se fé.

Textos Bíblicos:

Mc 1:15: Após o arrependimento, é necessário crer no Evangelho, isto é, ter fé que Jesus pode
salvar;
Lc 4:18-19: Aí está a síntese da missão de Cristo. Só Ele cumpriu o que estava previsto em Is 61:1-
2;
I Co 2:1-5: O apóstolo Paulo depositava sua fé inteiramente em Jesus Cristo e sua pregação
objetivava que os coríntios fizessem o mesmo.

2 - DIFERENÇA ENTRE CRENÇA E FÉ

Entende-se por crença a aceitação intelectual ou o consentimento a uma verdade doutrinária. A fé


salvadora vai além de se crer na encarnação, na morte sacrificial de Jesus e na sua vitória sobre a
morte.

Fé em Cristo é a entrega pessoal de nossa vida a Cristo em confiança e obediência.

3 - A FÉ COMO CONFIANÇA

João Wesley pregou e escreveu muito sobre a natureza e conteúdo da fé, mas sua posição básica
continuou até o fim: a fé é a confiança em Cristo e só n'Ele para a salvação!
A fé não consiste em aceitar certas coisas como verídicas e ficar por aí. É mais que isto. Consiste
em CONFIAR em uma pessoa, e essa pessoa é Jesus Cristo.

4 - A NATUREZA DA FÉ

a) A fé pressupõe engajamento no projeto e obra de Jesus Cristo;

b) Estabelece um íntimo relacionamento pelo qual não somos mais nós (Gl 2:20);

c) A fé significa lançar-se sem reservas nas mãos misericordiosas de Deus; implica em completa
dependência de Deus e plena obediência a Ele;

d) A fé significa também, apegar-se às promessas de Deus. Não só de que o Sangue de Cristo nos
salva, como também a promessa de que receberemos poder pelo seu Santo Espírito. É a firme
convicção de que Deus é fiel nas suas promessas e poderoso para realizá-las;

e) O autor da carta aos Hebreus define a fé como a certeza pela qual o ser humano aguarda com
firme confiança e em plena segurança a realização das promessas divinas (Hebreua 11:1; e 10:36-
38).

5 - CONCLUSÃO
De nada adiantará ao pecador arrepender-se de seus pecados e não confiar que Jesus Cristo pode
perdoá-lo e salvá-lo. Sozinho e por seus próprios esforços não será salvo. A fé em Cristo abre o
caminho para que se seja justificado, para que se nasça de novo e se percorra o processo da
santificação.

6. Doutrina da Justificação Pela Fé

INTRODUÇÃO:

Como pode o pecador ser justificado perante Deus? Não há verdadeira paz ou alegria enquanto
nossa consciência nos acusar de pecado. Para esclarecer questão de tão grande inportância, veremos
qual é o fundamento geral da doutrina da justificação, o que é justificação, quais são os justificados
e em que termos eles são justificados. E por fim, quais são as obras da fé.

1 - TEXTOS BÍBLICOS

Rm 5:1-11: Deus providencia o meio de pagar nossa dívida em relação a Ele, pelo sacrifício de
Jesus Cristo. Aceitar, crer, receber, apropriar-se dessa misericórdia de Deus, é ter fé. E somente pela
fé podemos ser justificados.
Ef 2:1-10: Estávamos condenados a morte, ao tormento e à escravidão do pecado. Deus nos tira
dessa terrível situação porque nos amou, mesmo sendo nós ainda pecadores.
Rm 3:21: O texto mostra que o ser humano poderia cumprir toda a lei e não ser salvo se não tivesse
fé que Deus o justifica através de Jesus Cristo.
Hb 11:6: O texto desse livro bíblico relata fatos ocorridos com várias pessoas movidas por um fator
em comum: a fé. Elas criam no poder de Deus. Por isso foram até Ele, andaram, viveram e
participaram do seu poder.

2 - FUNDAMENTO GERAL DA DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO

A pessoa humana foi criada à imagem de Deus: santa, pura, misericordiosa, perfeita, incorruptível
como o próprio Deus. A ela Deus deu uma lei perfeita, exigindo plena obediência a ela. Mas o ser
humano desobedeceu a Deus. O pecado, então, destrói a comunhão com Deus, faz o ser humano
decair da graça divina e estar sujeito ao juízo e à ira de seu Criador.

Aí está o fundamento da doutrina da justificação: "o juízo veio sobre todos os homens para a
condenação". Porém, Deus providencia um meio de reconciliação, mediante o sacrifício do
"segundo Adão", nosso representante, Jesus Cristo. Pela redenção que há em Cristo, fica preenchida
a condição imposta. Não há mais condenação.

3 - O QUE É JUSTIFICAÇÃO

A clara noção bíblica da justificação é o perdão de pecados. É o ato de Deus Pai, pelo qual, em
atenção ao sacrifício de Jesus por nós, mostra sua justiça (ou misericórdia), perdoando-nos os
pecados. Estes pecados são cancelados. Cristo tomou sobre si as nossas culpas. Sofreu,
imerecidamente, em nosso lugar. Assim, estamos reconciliados com Deus mediante o sangue de
Cristo.

4 - QUAIS SÃO OS JUSTIFICADOS?

Jesus disse que os justos não precisam de arrependimento. Somente aos pecadores cabe o perdão.
Deus justifica o pecador de toda espécie e categoria. É para com a nossa injustiça que o Deus
perdoador é misericordioso, é de nossa iniquidade que Ele não se lembra mais.

5 - EM QUE TERMOS OU COMO SÃO OS PECADORES JUSTIFICADOS?

Sob uma condição o ser humano pecador é justificado: pela fé. Ele precisa crer naquele que justifica
o pecador, pois "aquele que crer não é condenado"pois já "passou da morte para a vida".

A fé implica não só na convicção de que Deus reconcilia o ser humano consigo mesmo através de
Jesus Cristo, mas também na confiança de que Cristo morreu pelos nossos pecados, já que ele amou
a cada um de nós e se entregou ao sacrifício e em nosso lugar. Deus por amor de seu filho, perdoa e
absolve o ser humano que até então nada pudera apresentar de bom.

O arrependimento, que antecede a fé, é um profundo sentimento da ausência do bem e a consciência


da presença do mal. Só a fé traz o bem. Primeiro a árvore se torna boa; depois os frutos se fazem
bons.

6 - AS OBRAS DA FÉ

Nenhuma obra, de que excelência for, pode tirar os nossos pecados, nem suportar a retidão dos
juizos de Deus. Nós, metodistas, cremos que a justificação de nossos pecados se dá pela fé em
Cristo Jesus. E não aceitamos que as boas obras substituam esta atuação de Cristo. As obras para
este fim são inúteis (Lc 17:7-10; Rm 27:31).

No entanto, uma vez justificados, nossa fé em cristo é testemunhada em obras (=serviços). Como
parte do Corpo de Cristo somos chamados e preparados para dar bons frutos. São estes que revelam
a natureza, a profundidade e a extensão da nossa fé.

Os protestantes, em geral, enfatizam de tal modo a justificação só pela fé, que tendem a esquecer ou
menosprezar a importância do serviço, do engajamento do crente.

7 - OUTROS PONTOS A SEREM CONSIDERADOS:


a) Se as nossas obras, sejam quais forem, buscam no íntimo o louvor e a glória para o nosso próprio
nome, ou acúmulo de méritos pessoais, nenhum valor têm, pois não foram feitas NO e PARA o
Senhor. Não vêm d'Ele. Ele não as aceita.

b) Nenhum esforço ou empenho feito através das obras (serviço), consegue satisfazer todas as
exigências da lei.

c) Não existe contradição entre os ensinos de Paulo e Tiago, em suas colocações sobre a fé e obras.
Os ensinos se completam e nos ajudam a reconhecer que a nossa salvação é pela fé e que esta fé se
manifesta, se dá a conhecer, em obras de amor.

Não se concebe o cristianismo sem fé e sem obras (o serviço agradável a Deus e ao próximo).

7. Doutrina do Novo Nascimento

INTRODUÇÃO:

Por que terá Jesus se admirado de que Nicodemos, o mestre israelita que o visitou à noite, não
entendesse sua declaração de que lhe era necessário nascer de novo?

A princípio fica difícil entender a admiração de Jesus diante deste fato, uma vez que julgamos ser a
expressão peculiar aos lábios do Senhor, não tendo Nicodemos o mesmo dever de entendê-la
profundamente.

João Wesley, entretanto nos ajuda a compreender a admiração de Jesus ao nos informar que a
expressão "nascer de novo" era corrente em Israel. Quando um gentio se convertia à fé judaica,
antes mesmo de ser submetido ao ato de circuncisão, era batizado como sinal de sua morte para o
paganismo e de sua adoção na família de Deus. Diziam-lhe então que ele nascera de novo, passando
a viver uma nova vida na comunidade de Israel. Daí a admiração de Jesus. Porque Nicodemos,
sendo um mestre em Israel, deveria entender destas coisas. Mas aí também estava a razão do
espanto: admiração e confissão de ignorância por parte de Nicodemos. Afinal de contas ele era
judeu, circuncidado desde os oito dias de nascido, trazendo no corpo as marcas da fidelidade a Javé.
Por que lhe dizia Jesus ser-lhe também necessário nascer de novo?

1 - TEXTOS BÍBLICOS:

Jo 1:12-13 - O texto explica que todas as pessoas que crêem em Cristo passam a ser filhos de Deus
porque essa é a vontade do Pai. O poder de sermos filhos de Deus depende então de crermos em
Cristo e aceitar a vontade de Deus para nós.
Jo 3:15 - Jesus explica a Nicodemos o que significa nascer de novo: a transformação do íntimo do
ser humano pela ação do Espírito Santo. Para Nicodemos, que pensava em coisas concretas e
visíveis, era difícil compreender o que Jesus lhe ensinava.
I Pe 1:22-23 - Em várias ocasiões, como na Parábola do Semeador, Jesus compara sua Palavra com
a semente. Neste texto Pedro retoma essa figura dizendo que a Palavra é como a semente que não
morre jamais e é por ela que somos regenerados e modificados. E nesta condição estamos aptos a
sermos obedientes a Deus e cheios de amor uns para com os outros.
I Jo 3:9 - Se realmente somos filhos de Deus, não temos prazer em praticar o pecado, pois em nós
está a Palavra de Deus que nos faz repudiar o pecado. Novamente a Palavra é comparada à divina
semente.
I Jo 5:3-4 - Se somos nascidos de novo para Deus temos algo a nosso lado para vencer os pecados e
guardar os mandamentos de Deus: a fé.
2 - O NOVO NASCIMENTO: IMPORTANTE E MISTERIOSO:

Wesley compreendeu a tremenda importância que Jesus dava ao novo nascimento ou regeneração
individual. Para o fundador do Metodismo esta era a segunda doutrina fundamental do cristianismo.
Uma condição indispensável para a salvação.

O novo nascimento não era algo que se dava antes da justificação (que examinamos na lição
anterior) nem posterior a ela. Ao contrário. No mesmo momento em que uma pessoa era justificada
de seus pecados por meio da fé no sacrifício de Cristo, sinal definitivo da graça de Deus, esta
mesma graça operava em seu coração o novo nascimento, a regeneração de sua vida, sendo a pessoa
mudada realmente em nova criatura.

Misteriosa como fosse a explicação que Jesus deu a respeito da maneira que se dava o novo
nascimento e por que processos de mudança passava a pessoa para ser transformada assim, o fato
permanecia, embora não se pudesse esclarecer como ocorria.

Wesley nunca teve a pretenção desse esclarecimento: "Não que devamos esperar por alguma
explanação minuciosa, filosófica, acerca da maneira por que isso se faz. Nosso Senhor
suficientemente nos previne contra semelhante expectativa... Podes estar tão certo do fato, como o
soprar do vento; mas o modo preciso por que isso se faz, como o Espírito opera na alma, nem tu,
nem o mais sábio dos filhos dos homens será capaz de explicar."

3 - A NATUREZA DO NOVO NASCIMENTO:

Para explicar o que realmente resulta donovo nascimento na vida do ser humano que é justificado
pela fé em Cristo e transformado pelo Espírito Santo, Wesley lança mão dos fatos que marcam o
nascimento natural, duas realidades que possuem grande analogia entre si.

Uma criança no ventre de sua mãe tem olhos mas não vê,, tem ouvidos mas não ouve. O uso de seus
outros sentidos não se desenvolveu ainda, ela não tem conhecimento algum do que se passa no
mundo exterior e nem tem compreensão alguma a respeito de qualquer coisa. Não podemos dizer
que a criança do ventre de sua mãe esteja realmente vivendo. É somente quando ela surge para o
mundo, quando nasce, que realmente começa a viver. Agora começa a experimentar uma porção de
coisas diferentes das que conhecia. Agora a criança respira. Dentro em pouco os seus sentidos
estarão plenamente desenvolvidos e capazes de captar os sinais do mundo em que agora vive.

"Como o paralelo se verifica em todos esses exemplos. Enquanto o homem se encontra no estado
meramente natural, antes que seja nascido de Deus, possui, em sentido espiritual, olhos e não vê...
possui ouvidos mas não ouve... Seus demais sentidos espirituais estão anulados e é o mesmo que
não os tivesse... Daí não ter conhecimento de Deus, nenhum contato com Ele: o homem natural não
se relaciona com Deus de modo nenhum... Logo, porém, que é nascido de Deus há uma total
mudança em todos aqueles pormenores. Os "olhos do seu entendimento são abertos"... ele vê a luz
da glória de Deus..."na face de Cristo". Seus ouvidos, sendo abertos, é agora capaz de ouvir a voz
interior de Deus dizendo: "tem bom ânimo; teus pecados estão perdoados."

O novo nascimento é, portanto, a transformação que Deus opera na alma, quando, pelo seu Espírito,
regenera a criatura humana, modificando o seu centro de referência, não vivendo mais a pessoa para
si mesma, mas para Deus. Caminhando para sua santificação, que se inicia realmente com este
acontecimento, como veremos posteriormente nesta unidade de estudos.

Como dissemos, João Wesley afirma que "a justificação do cristão e seu novo nascimento ocorrem
simultaneamente. E é fácil entender por que motivo ele faz esta afirmação. O fato é que a
justificação do ser humano pecador, que é realizada por Deus por sua graça gratuita e que não leva
em conta os méritos do pecador, não fosse acompanhada por um ato de purificação realizado no ser
humano e isto simultaneamente, seguir-se-á que descobriríamos a graça de Deus operando em um
patente desafio à própria justiça divina, uma vez que Deus estaria perdoando ao pecador e ao
mesmo tempo permitindo que ele continuasse no pecado. A justificação não é uma mera desculpa
paternal dos pecados humanos. Se Deus perdoa o pecado, Ele ao mesmo tempo purifica o pecador, a
pecadora.

4 - O NOVO NASCIMENTO E O BATISMO:

Wesley mantendo como um dos artigos de religião o que diz ser o batismo (além de um sinal de
profissão de fé e de diferenciação entre os pagãos) "um sinal de regeneração ou de novo
nascimento", é obrigado a definir melhor o que isto realmente significa. Em sua mente, nenhum
relacionamento necessário havia entre o sacramento e a regeneração. Wesley repudiava a idéia de
que os que haviam sido batizados haviam necessariamente nascidos também de novo.

Wesley não pretendia rejeitar o ensino da Igreja Anglicana (dentro da qual surge o movimento
metodista) de que o batismo infantil era simultâneo com o novo nascimento nas próprias crianças.
Mas ele simplesmente recebe esta posição sem comentá-la. Em lugar algum ele a defende como
parte integrante de sua posição doutrinária. Ao contrário, se a criança que foi batizada, não mostrar
em sua vida os sinais do novo nascimento, o seu batismo de nada valeu: "O batismo é o sinal
exterior desta graça interior, que nossa igreja supõe (note-se a expressão) ser dada com e através
deste sinal a todas as crianças e a todos aqueles adultos que se arrependerem e crerem no
Evangelho. Mas quão extremamente fúteis são as discussões comuns a respeito disto! Eu digo a um
pecador: 'você precisa nascer de novo'. 'Não', dizes tu, 'ele já foi nascido de novo no batismo.
Portanto não pode nascer de novo agora'. Mas, oh! Quão trivial é isto! Que importa se ele era então
um filho de Deus? Ele é manifestamente um filho do diabo; faz as obras do seu pai. Não
brinquemos com questões de termos. Esse "ele" precisa passar por uma mudança total em seu
coração. Em alguém que não foi batizado tu mesmo chamaria a esta mudança de novo nascimento.
Em relação a "ele", dá-lhe o nome que quiseres; mas lembra-te agora, que se ele ou tu mesmo
morrer sem isto, o vosso batismo não somente não vos beneficiará de modo algum como, ao
contrário, aumentará ainda mais a vossa condenação".

É verdade que algumas vezes Wesley não foi muito claro em sua exposição a respeito do batismo.
Em um tratado sobre o batismo ele usa parte de um livro escrito por seu pai, na qual chega mesmo a
admitir que o Batismo é simultâneo à regeneração. No volume total de suas obras, porém, de acordo
com as linhas básicas de sua teologia, Wesley tinha por certo o fato de que o batismo não tem
necessariamente esta simultaneidade: "...é certo que todos os que são batizados em idade adulta não
são ao mesmo tempo nascidos de novo. 'A árvore é conhecida por seus frutos'. E destes resulta,
demasiadamente claro para ser negado, que vários que eram filhos do diabo antes de serem
batizados, continuaram na mesma condição depois do batismo..."

A regeneração ou novo nascimento, portanto, nada tem a ver com os sinais externos, sejam eles o
batismo ou quaisquer outras formas com que se pretenda demonstrar a sua realidade. Ao contrário,
ela se revela antes por uma vida transformada, em decorrência da qual o cristão, homem ou mulher,
torna-se centralizado em Deus, vivendo em amor e vitória constante.

Bibliografia:
1 - Sermões de Wesley, Vol II (pg 387, 388,389,394)
2 - The Teology of Wesley, W.R.Cannon

8. Doutrina do Testemunho do Espírito


INTRODUÇÃO:

"Coube aos Metodistas o terem compreendido, explanado e defendido, mais de perto, restaurando
esta grande verdade do Evangelho, após ter estado por muitos anos quase perdida e esquecida."
(Sermões de Wesley, Vol I, pg 220).

1 - TEXTOS BÍBLICOS:

Rm 8:14-16 - O Espírito de Deus mostra nossa filiação;


Lc 18:9-14 - A diferença entre a certeza da salvação e a segurança de um "estado espiritual
conveniente";
Mt 25:36-46 - A alegria do cristão pode ficar obscurecida pelas provações. Não deixará porém de
existir e de se manifestar depois;
Gl 4:6 - Deus fala de maneira direta e imediata a nós.

2 - O TESTEMUNHO DO ESPÍRITO SANTO:

O testemunho do Espírito é uma impressão íntima feita sobre nós, pela qual o Espírito de Deus
testifica diretamente ao nosso espírito que somos filhos de Deus. Passamos a ter consciência de que
Cristo nos ama e deu-se a si mesmo por nós; e que todos os nossos pecados são cancelados.
Estamos, então, conciliados com Deus.

Este testemunho precede nosso amor a Deus e a santidade de vida, bem como o testemunho de
nosso próprio espírito que somos filhos de Deus.

É a partir da tomada de consciência, da certeza íntima e profunda de que fomos perdoados e


reconciliados com Deus porque Ele nos amou primeiro, sem que merecessemos isto, é que
acontecem as outras coisas: o amor a Deus e o nosso próprio testemunho.

Durante muitos anos João Wesley não teve esta consciência: ele duvidava de haver sido totalmente
perdoado e de ser filho de Deus.

O testemunho do Espírito é imediato e direto (Gl 4:6); não é resultado de reflexão ou argumentação.
Ele nos faz crer e permitir que a vida, a partir daí, seja vivida pela fé em Cristo, que nos ama e
morreu por nós. Ele nos faz chamar a Deus de "Pai"como a criança que depende e espera tudo de
seus pais. Ele ainda nos dá a certeza de que só é possível nossa justificação perante Deus, pelo que
seu filho sofreu por nós.

3 - O TESTEMUNHO DO NOSSO PRÓPRIO ESPÍRITO:

Do mesmo modo que temos conciência de que estamos vivos, podemos ter a evidência de que
somos filhos de Deus, quando descansamos nesta certeza; quando percebemos que amamos a Deus
e nos alegramos em fazer sua vontade.

"O testemunho do nosso espírito manifesta-se em termos da íntima convicção, evidenciando, acima
de toda dúvida razoável, a realidade de nossa filiação divina"(Sermões de Wesley, vol I, pg 207).

A certeza da salvação, a segurança do perdão, a absoluta confiança de que o sacrifício de Cristo nos
reconcilia com Deus, nos dá uma paz que ninguém e nada no mundo pode tirar. É a paz sobre a qual
Jesus se referia: "A minha paz vos dou". Toda a dúvida sobre o amor de Deus é excluída da nosa
vida e passamos, naturalmente, a produzir os frutos desta convicção.
4 - AS PROVAS DE QUE SOMOS FILHOS DE DEUS:

O fato de sermos filhos de Deus e a convicção disto se evidencia por:

a) Profundo sentimento de amor a Deus que se expressa na alegria de fazer a sua vontade, de
obedecer-lhe, de participar da sua Missão, de estar em comunhão com Ele;

b) Sentimento de amor ao próximo que se expressa na misericórdia, paciência, tolerância,


hospitalidade, cuidado no falar, etc;

c) Na prática da justiça. O filho de Deus enxerga a injustiça, denuncia-a e tudo faz para que se
restabeleça a justiça;

d) Ele nasce de novo para Deus. O pecado e suas consequências não o atraem mais. Sua escala de
valores é centralizada em Deus e toda a sua vida é dirigida por Ele (Ef 2:1-6).

5 - CONCLUSÃO:

A convicção de que somos filhos de Deus pelo testemunho do Espírito Santo e pelo nosso próprio
espírito, não nos leva a ser pessoas extasiadas e estáticas.

Ela tem uma razão de ser: dá-nos PODER como filhos e HERDEIROS de continuar a obra de
Cristo sem temor. Faznos responsáveis na concretização do plano de Deus para a instauração de seu
Reino neste mundo e nos impulsiona à ação.

Alienar-se ou acomodar-se é negar este PODER. É urgente que façamos uso deste maravilhoso
dom, aprppriando-nos inteiramente dele!

9. Doutrina da Santificação ou Perfeição Cristã

INTRODUÇÃO:

O termo "santificação" tem dois sentidos básicos: o primeiro entende a santificação como uma
posição, estado ou relação e é traduzido por "separação", "corte", "consagraçã para uso exclusivo".
Era santificado tudo o que era separado do comum ou secular, para uso sagrado.

O segundo significado diz respeito à condição, estado, ou processo que leva a uma transformação
interna e que resulta em pureza, retidão moral e pensamentos santos expressados por meio de uma
vida de piedade e de bondade, em relação a Deus e ao próximo.

1 - TEXTOS BÍBLICOS

Mt 5:43-48 - O aspecto da santificação através do amor.


Fl 2:5-11 - Ter a mente de Cristo, a mente de abnegação e de esvaziamento, tudo em benefício de
outrem.
Ef 5:25-27 - Cristo santifica sua Igreja ao lhe dar sua Palavra de verdade, amor e libertação.
Hb 12:10 e 14 - A santificação, incluindo a pureza de coração é essencial à salvação final.

2 - A SANTIFICAÇÃO NO PENSAMENTO DE JOÃO WESLEY:


Para Wesley, a Santificação e Perfeição Cristã, "são dois nomes para definir a mesma coisa. Não há
perfeição na terra. O ser humano tem sempre necessidade de crescer em graça e avançar
diariamente no conhecimento e no amor de Deus". (Sermões de Wesley, vol. 2, pg 286).

Não existe, nesta vida, uma perfeição tal que implique na dispensa da obediência dos mandamentos
de Deus e da prática do bem a todos os seres humanos, enquanto há tempo.

Enquanto vivermos estaremos sujeitos à ignorância e ao erro nas coisas não essenciais à salvação,
bem como às tentações e fraquezas próprias de nosso corpo corruptível.

3 - EM QUE SENTIDO PODEMOS ALCANÇAR A SANTIFICAÇÃO OU A PERFEIÇÃO


CRISTÃ?

João Wesley entende por uma pessoa que alcançou a santificação ou perfeição cristã "aquele em
quem existe a mente de Cristo e que anda como Cristo andou; aquele que tem as mãos limpas e o
coração puro, que foi lavado de todas as impurezas, que não é motivo de tropeço para os outros". É
aquele sobre quem o pecado não tem mais domínio (Romanos 6:11)."

Em I Jo 5:18 lemos: "Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado, antes,
aquele que nasceu de Deus o guarda, e o maligno não o toca".

4 - COMO SE REVELA A SANTIFICAÇÃO?

A santificação se revela através da vida da pessoa que pode afirmar: "estou crucificado com Cristo,
já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim".

Esta pessoa ama a Deus e o serve com alegria; ama a seu próximo como a si mesmo. E isto se
expressa por sua misericórdia, bondade, mansidão, tolerância, bem como na prática das obras de fé
e amos. Tudo quanto faz é em nome, no amor e no poder de Cristo.

5 - A SANTIFICAÇÃO É OBRA DO ESPÍRITO SANTO:

O Espírito Santo habitando em nós, conduz o processo da santificação que se inicia com a fé em
Jesus Cristo, o perdão dos pecados e a regeneração de nossa vida.

O Espírito Santo santifica nossa vontade de tal maneira que passamos a escolher o BEM e dizer
NÃO ao mal e ao pecado. Fica-se livre para não se cair em tentação. Nossa opção passa a ser a de
Cristo; nossa vontade e nosso viver só tem sentido se são a vontade e o viver do nosso Mestre.

O Espírito Santo leva-nos a traduzir a santificação em OBRAS (= SERVIÇO). Não é a santidade


buscada em conventos, isoladas das aflições e tentações do mundo. Nem é aquela que se nutre na
comunhão com Deus e com os irmãos da fé, como em um refúgio, isolando-se e alienando-se das
necessidades dos outros que estão fora do círculo dos cristãos.

O amor transborda de tal maneira nos corações das pessoas santificadas pelo Espírito Santo que é
impossível a elas ficar quietas perante a injustiça, a falsidade e todas as outras necessidades das
criaturas de Deus.

6 - CONCLUSÃO

Ansiar pela santificação é ter um objetivo overnando todos os nossos sentimentos. É querer dedicar
a vida a Deus e devotar tudo o que somos a Ele. É querer ter a mente de Cristo que nos capacita a
andar como Ele andou; é ser livre para escolher sempre o bem e não pecar. É ter tanto amor que
amar passa a ser tão natural como respirar.

Os 25 artigos da Religião

1) Da fé na Santa Trindade
Há um só Deus vivo e verdadeiro, eterno, sem corpo nem partes; de poder, sabedoria e bondade
infinitos; criador e conservador de todas as coisas visíveis e invisíveis. Na unidade desta Divindade,
há três pessoas da mesma substância, poder e eternidade - Pai, Filho e Espírito Santo.

2) Do Verbo ou Filho de Deus que se fez verdadeiro homem


O Filho, que é o verbo do Pai, verdadeiro e eterno Deus, da mesma substância do pai, tomou a
natureza humana no ventre da bendita Virgem, de maneira que duas naturezas inteiras e perfeitas, a
saber, a divindade e a humanidade, se uniram em uma só pessoa para jamais se separarem, a qual
pessoa é Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, que realmente sofreu, foi crucificado, morto
e sepultado, para nos reconciliar com seu Pai e para ser um sacrifício não somente pelo pecado
original, mas, também, pelos pecados atuais dos homens.

3) Da ressurreição de Cristo
Cristo, na verdade, ressuscitou dentre os mortos, tomando outra vez o seu corpo com todas as coisas
necessárias a uma perfeita natureza humana, com as quais subiu ao Céu e lá está até que volte a
julgar os homens, no último dia.

4) Do Espírito Santo
O Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, é da mesma substância, majestade e glória com o
Pai e com o Filho, verdadeiro e eterno Deus.

5) Da suficiência das Santas Escrituras para a salvação


As Santas Escrituras contém tudo que é necessário para a salvação, de maneira que o que nelas não
se encontre, nem por elas se possa provar, não se deve exigir de pessoa alguma para ser crido como
artigo de fé, nem se deve julgar necessário para a salvação. Entende-se por Santas Escrituras os
livros canônicos do Antigo e do Novo Testamentos de cuja autoridade nunca se duvidou na Igreja a
saber, do Antigo Testamento: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes,
Rute, I e II Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Jó, Salmos, Provérbios,
Eclesiastes, Cânticos, Isaías, Jeremias, Lamentações de Jeremias, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel,
Amós, Obadias Jonas, Miquéias, Naum, Habacuqaue, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias; e do
Novo Testamento: Evangelhos; segundo S. Mateus, S. Marcos, S. Lucas, e S. João; Atos dos
Apóstolos; Epístolas de S. Paulo: aos Romanos, I e II aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos
Filipenses, aos Colossenses, I e II aos Tessalonicenses, I e II a Timóteo, a Tito e a Filemon;
Epístolas aos Hebreus; Epístola de S. Tiago; Epístolas I e II de S. Pedro; Epístolas I, II e III de S.
João; Epístola de S. Judas e o Apocalípse.

6) Do Antigo Testamento
O Antigo Testamento não está em contradição com o Novo, pois, tanto no Antigo como no Novo
Testamentos a vida eterna é oferecida à humanidade por Cristo, que é o único mediador entre Deus
e o homem, sendo ele mesmo Deus e Homem; portanto não se deve dar ouvidos àqueles que dizem
que os patriarcas tinham em vista somente promessas transitórias. Embora a lei dada por Deus a
Moisés, quanto às cerimônias e ritos, não se apliquem aos cristãos, nem tão pouco os seus preceitos
civis devam ser necessariamente aceitos por qualquer governo, nenhum cristão está isento de
obedecer aos mandamentos chamados morais.

7) Do pecado original
O pecado original não está em imitar Adão, como erradamente dizem os Pelagianos, mas é a
corrupção da natureza de todo descendente de Adão, pela qual o homem está muito longe da retidão
original e é de sua própria natureza inclinado ao mal e isto continuamente.

8) Do livre arbítrio
A condição do homem, depois da queda de Adão, é tal que ele não pode converter-se e preparar-se
pelo seu próprio poder e obras, para a fé e invocação de Deus; portanto, não temos forças para fazer
boas obras agradáveis e aceitáveis a Deus sem sua graça por Cristo, predispondo-nos para que
tenhamos boa vontade e operando em nós quando temos essa boa vontade.

9) Da justificação do homem
Somos reputados justos perante Deus somente pelos merecimentos de nosso Senhor e Salvador
Jesus Cristo, por fé e não por obras ou merecimentos nossos; portanto, a doutrina de que somos
justificados somente pela fé é mui sã e cheia de conforto.

10) Das boas obras


Posto que as boas obras, que são o fruto da fé e seguem a justificação, não possa tirar nossos
pecados, nem suporta a severidade do juízo de Deus, contudo, são agradáveis e aceitáveis a Deus
em Cristo e nascem de uma viva e verdadeira fé, tanto assim que uma fé viva é por elas conhecida
como a árvore o é pelos seus frutos.

11) Das obras de superrogação


As obras voluntárias que não se achem compreendidas nos mandamentos de Deus, as quais se
chamam obras de superrogação, não se podem ensinar sem arrogância e impiedade; pois, por elas,
declaram os homens que não só rendem a Deus tudo quanto lhe é devido, mas também de sua parte
fazem ainda mais do que devem, embora Cristo claramente diga: "Quando tiverdes feito tudo o que
se vos manda, dizei: Somos servos inúteis."

12) Do pecado depois da justificação


Nem todo pecado voluntariamente cometido depois da justificação é o pecado contra o Espírito
Santo e imperdoável; logo, não se deve negar a possibilidade de arrependimento aos que caem em
pecado depois da justificação. Depois de termos recebido o Espírito Santo, é possível apartar-nos da
graça recebida e cair em pecado e pela graça de Deus levantar-nos de novo e emendar nossa vida.
Devem portanto, ser condenados os que digam que não podem mais pecar enquanto aqui vivem, ou
que neguem a possibilidade de perdão àqueles que verdadeiramente se arrependem.

13) Da Igreja
A Igreja visível de Cristo é uma congregação de fiéis na qual se prega a pura Palavra de Deus e se
ministram devidamente os sacramentos, com todas as coisas a eles necessárias, conforme a
instituição de Cristo.

14) Do purgatório
A doutina romana do purgatório, das indulgências, veneração e adoração, tanto de imagens como de
relíquias, bem como a invocação dos santos, é uma invenção fútil, sem base em nenhum testemunho
das Escrituras e até repugnante à Palavra de Deus.

15) Do falar na congregação em língua desconhecida


É claramente contrário à Palavra de Deus e ao costume da igreja Primitiva celebrar o culto público
na Igreja, ou ministrar os sacramentos, em língua que o povo não entenda.

16) Dos sacramentos


Os sacramentos instituídos por Cristo não são somente distintivos da profissão de fé dos cristãos;
são também, sinais certos da graça e da boa vontade de Deus para conosco, pelos quais Ele
invisivelmente, opera em nós e não só desperta, como fortalece e confirma a nossa fé n'Ele. Dois
somente são os sacramentos instituídos por Nosso Senhor, no Evangelho, a saber: o batismo e a
Ceia do Senhor. Os outros cinco, vulgarmente chamados sacramentos, a saber: a confirmação, a
penitência, a ordem, o matimônio e a extrema unção, não devem ser considerados sacramentos do
Evangelho. Sendo, como são, em parte, uma imitação corrompida de costumes apostólicos e, em
parte, estados de vida permitidos nas Escrituras, mas que não têm a natureza do batismo, nem a da
Ceia do Senhor, porque não têm sinal visível, ou cerimônia estabelecida por Deus. Os sacramentos
não foram instituídos por Cristo para servirem de espetáculo, mas para serem recebidos dignamente.
E somente nos que participam deles dignamente é que produzem efeito salutar, mas aqueles que os
recebem indignamente recebem para si mesmos a condenação, como diz S. Paulo (1 Coríntios
11:29).

17) Do batismo
O batismo não é somente um sinal de profissão de fé e marca de diferenciação que distingue os
cristãos dos que não são batizados, mas é, também, um sinal de regeneração, ou de novo
nascimento. O batismo de criança deve ser conservado na Igreja.

18) Da Ceia do Senhor


A Ceia do Senhor não é somente um sinal do amor que os cristãos devem ter uns para com os
outros, mas antes é um sacramento da nossa redenção pela morte de Cristo, de sorte que, para quem
reta, dignamente e com fé o recebe, o pão que partimos é a participação do corpo de Cristo, como
também o cálice de bênção é a participação do sangue de Cristo. A transubstanciação ou a mudança
de substância do pão e do vinho na Ceia do Senhor, não se pode provar pelas Santas Escrituras, e é
contrária às suas terminantes palavras; destrói a natureza de um sacramento e tem dado motivo a
muitas superstições. O corpo de Cristo é dado, recebido e comido na Ceia, somente de modo
espiritual. O meio pelo qual é recebido e comido o corpo de Cristo, na Ceia, é a fé. O sacramento da
Ceia do Senhor não era, por ordenação de Cristo, custodiado, levado em procissão, elevado nem
adorado.

19) De ambas as espécies


O cálice do Senhor não se deve negar aos leigos, porque ambas as espécies da Ceia do Senhor, por
instituição e mandamento de Cristo, devem ser ministradas a todos os cristãos igualmente.

20) Da oblação única de Cristo sobre a cruz


A oblação de Cristo, feita uma só vez, é perfeita redenção, propiciação e satisfação por todos os
pecados de todo o mundo, tanto o original como os atuais, e não há nenhuma outra satisfação pelo
pecado, senão essa. Portanto, o sacrifício da missa, no qual se diz geralmente que o sacerdote
oferece a Cristo em expiação de pecados pelos vivos e defuntos, é fábula blasfema e engano
perigoso.

21) Do casamento dos ministros


Os ministros de Cristo não são obrigados pela lei de Deus, quer a fazer voto de clibato, quer a
abster-se do casamento; portanto, é tão lícito, a eles como aos demais cristãos, o casarem-se à sua
vontade, segundo julgarem melhor à prática da piedade.

22) Dos ritos e cerimônias da Igreja


Não é necessário que os ritos e cerimônias das Igrejas sejam em todos os lugares iguais e
exatamente os mesmos, porque sempre têm sido diferentes e podem mudar-se conforme a
diversidade dos países, tempos costumes dos homens, contando que nada seja estabelecido contra a
Palavra de Deus. Entretanto, todo aquele que, voluntáriamente, aberta e propositadamente quebrar
os ritos e cerimônias da Igreja a que pertença, os quais, não sendo repugnantes à Palavra de Deus,
são ordenados e aprovados pela autoridade competente, deve abertamente ser repreendido como
ofensor da ordem comum da Igreja e da consciência dos irmãos fracos, para que os outros temam
fazer o mesmo. Toda e qualquer Igreja pode estabelecer, mudar ou abolir ritos e cerimônias,
contanto que isso se faça para edificação.

23) Dos deveres civis dos cristãos


É dever dos cristãos, especialmente dos ministros de Cristo, sujeitarem-se à autoridade suprema do
país onde residam e empregarem todos os meios louváveis para inculcar obediência aos poderes
legítimamente constituídos. Espera-se, portanto, que os ministros e membros da Igreja se portem
como cidadãos moderados e pacíficos.

24) Dos bens dos cristãos


As riquezas e os bens dos cristãos não são comuns, quanto ao direito, título e posse dos mesmos,
como falsamente apregoam alguns; não obstante, cada um deve dar liberalmente, do que possui, aos
pobres.

25) Do juramento do cristão


Assim como confessamos que é proibido aos cristãos por nosso Senhor Jesus Cristo e por Tiago,
seu apóstolo, o jurar em vão e precipitadamente, assim também julgamos que a religião Cristã não
proíbe o juramento quando um magistrado o requer em causa da fé e caridade, contanto que se faça
segundo o ensino do profeta, em justiça, juízo e verdade.