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GATOS - CRIAÇÃO INDOOR

Por que insistir em conscientizar os proprietários de gatos sobre a importância de


mantê-los sem acesso à rua em vez de brigar com os malvados que atropelam,
envenenam, torturam... a culpa dessas atrocidades não é de quem as comete? Simples,
pois é muito mais fácil e eficiente fazer com que quem REALMENTE GOSTA de gatos
se conscientize sobre a importância de castrá-los e não dar acesso à rua do que fazer
com que psicopatas deixem de ser psicopatas.

Se com leis rígidas contra o assassinato de seres humanos ainda tem um monte de gente
matando por aí, imagina em relação aos gatos, animais de que a maioria das pessoas não
gosta e tem preconceito e a quem não há lei eficiente que proteja?

Não, gatos que vivem dentro de casa não estão sofrendo e infelizes. E não, gatos que
têm acesso à rua não estão livres e felizes. Como eu sei disso? Porque meu conceito de
felicidade e infelicidade felina não está apoiado em meus valores humanos (isso seria
um contra senso, não? "Eu sou feliz transando, logo, meu gato é feliz transando
também"), mas em como os gatos demonstram felicidade ou infelicidade.

Porém, algumas coisas são universais: nenhum ser espancado é feliz. Nenhum ser
envenenado é feliz. Nenhum ser torturado é feliz. Nenhum ser com ferimentos
infeccionados é feliz. É só ter noção de causa e conseqüência. Um gato não castrado vai
fazer pelo menos quatro gatinhos abandonados em cada gata que encontrar pelo
caminho, em suas "andanças". O que acontecerá com esses gatinhos? O que acontece
com filhote de gato na rua? Os poucos que sobreviverem farão mais gatos abandonados,
e a responsabilidade é do gato que originou tudo isso ou do dono que não o castrou? E a
gata na sua casa que tem uma cria que você distribui entre os amigos? E os filhotes
desses filhotes? O que seus amigos farão com eles? E os que fizerem filhotes pelas
ruas? Isso não é responsabilidade nossa?

A realidade sobre a castração

Gatos são animais com uma grande profusão hormonal. Bem maior do que a nossa,
aliás. Hormônios sexuais que os obrigam a reproduzir a espécie, para que não
desapareça. Porém, há uma superpopulação de gatos sofrendo nas ruas e se
reproduzindo descontroladamente (todo mundo sabe disso, não é?) logo, não há
necessidade de mais reprodução da espécie.

Mas eles não gostam de "transar"? A atividade sexual dos gatos é regulada única e
exclusivamente pela atividade hormonal, não tem o apelo emocional que tem nos
humanos, por exemplo, nem é sequer prazeroso. Mas como a gente sabe disso? O pênis
do gato possui pequenos espinhos, que servem para sangrar a vagina da fêmea, pois o
espermatozóide do gato só sobrevive em meio sanguíneo. A dor e o sangramento
estimulam a ovulação na fêmea.

O gato tem primeiro que brigar com outros gatos pela fêmea. Após muita briga, gritaria,
arranhões, machucados e mordidas, ele vai até a fêmea que o aceita por causa do cio,
induzido pelos hormônios. Ele morde a fêmea pela nuca, para imobilizá-la e introduz o
pênis espinhoso. Ela grita de dor, não de prazer. E ele a segura para que ela não se
mova, e possa, assim, perpetuar a espécie. Quando a solta, ele ainda apanha dela. Todo
esse estresse é dirigido pelos hormônios que não têm a menor consciência de que a
espécie sofre com a superpopulação. O gato chega em casa (quando tem casa) todo
machucado das brigas e possivelmente não está nada feliz com essa situação, mas não
pode evitar.

Quanto aos riscos... eles são animais, têm instintos, não se defendem sozinhos?

Doenças muito comuns em gatos, para as quais não há tratamento eficaz, nem vacina,
como Peritonite Infecciosa Felina (PIF), AIDS Felina (FIV) e Leucemia Felina (FELV)
são transmitidas nas brigas, através de mordidas e do contato sexual. São muito
contagiosas entre os gatos, embora não passem para os seres humanos. Como gatos não
castrados - ou mesmo castrados - sem acesso à rua poderiam se defender de brigas de
gatos infectados?

Além disso, gatos na rua estão sujeitos a atropelamentos (eles não sabem atravessar a
rua, não entendem nossas regras de trânsito), envenenamentos, ataques de cachorros (aí
sim, até podem correr para se defender, mas o último que eu soube que fez isso escapou
de três cachorros que o perseguiam e na fuga colidiu violentamente com um carro que
passava na rua e quebrou o pescoço. O motorista nem teve tempo de desviar) e
espancamentos por pessoas ruins (de criaturas tão maiores, maldosas e mais fortes não
há como se defender).

A castração e a criação indoor evitam que a vida do gato seja abreviada por motivos tão
estúpidos. O que pode ser evitado não deve ser considerado acidente, nem visto com
naturalidade quando acontece. Se o gato está sob sua responsabilidade, é seu dever
protegê-lo do mundo criado pela nossa espécie e para a nossa espécie, tão hostil aos
animais domésticos que não têm culpa de terem sido tirados de seu habitat há milhares
de anos, perdido grande parte de seus instintos sem a menor possibilidade de
desenvolver ferramentas para se proteger em meio aos humanos.
Com tanta castração, gatos não serão extintos?

Gato castrado não se despersonaliza, ele só deixa de ser guiado exclusivamente pelos
hormônios. Assim, ele pode viver tranqüilamente sua vida de gato, sem a neurose da
perpetuação da espécie a qualquer custo (já que a espécie está mais do que perpetuada).

Mas se todo mundo castrar, eles não serão extintos? Quem se faz essa pergunta não
parou para pensar ou nunca procurou sair às ruas à procura de gatos abandonados para
alimentar. Eles saem bem tarde da noite, e voltam a se esconder assim que amanhece.
Para começar, existem gatos em todos os lugares, se reproduzindo descontroladamente.
Alguns nunca sequer serão pegos, pois são extremamente ariscos e morrerão doentes ou
sob as rodas de algum carro, não sem antes se reproduzir muito.

Existem gatos nos bairros mais pobres, nas favelas mais distantes, onde as pessoas nem
sequer ouviram falar de controle de natalidade e as próprias mulheres têm dezenas de
filhos, que acabam não tendo condições de estudo, nem de um futuro. Essas pessoas
criam gatos soltos e que se reproduzem descontroladamente, pois essa é sua própria
realidade, vai demorar um bocado para que tenham acesso a informação e castração.
Existem pessoas ignorantes - e elas sempre existirão - cujos gatos continuarão a morrer
atropelados, doentes, envenenados, assassinados e sem castrar, se reproduzindo
descontroladamente. Existe uma superpopulação absurda de gatos abandonados, que só
cresce, cresce e cresce. A possibilidade de extinção diante dessa realidade parece piada.
E é.

E a liberdade? Gatos não são animais livres?

Mais um conceito que enxergamos baseados em nossos valores. O homem gostaria de


viver solto, fazendo o que quisesse, andando de lá para cá sem medo e sem noção,
transando com todo mundo sem responsabilidade, fazendo filhos que não precisaria
assumir, apenas para provar virilidade. As mulheres gostariam de ter milhares e
milhares de filhos para provar a maternidade, sem precisar criá-los ou se preocupar com
seu futuro, ser desejadas por dezenas de machos, que se matariam por causa delas. É
uma visão, de certa forma, romântica, e bem longe da realidade.

A liberdade dos gatos na rua, da forma como imaginamos, não existe. Já falei da relação
sexual, que não é nada bonita, nem prazerosa, e nunca poderia ser chamada de
"namoro".

A estrutura social dos gatos urbanos é um tanto quanto agressiva. Existe um macho
dominante (macho alfa) que, aliás, dificilmente vai ser o seu gato domiciliado (antes
que algum homem ache legal a idéia do seu gato ser o macho dominante do pedaço).
Eles têm uma sociedade dividida em classes (sim!!), cada um tem seu território e briga
por ele.

Existem caminhos que pertencem apenas ao dono do território (e ninguém pode passar
ali), outros caminhos são comunitários e também existem regras de tráfego bem
definidas. Se um desavisado cortar o caminho do dono do território, pode até ser
expulso, sem conseguir voltar. Gatos que brigam na rua, guiados por hormônios, podem
até se matar em uma disputa violenta, cegar ou machucar profundamente. É um mundo
violento, com regras estruturadas.

Mas se é tão ruim, por que eles saem? Seus gatos não vão ficar pensando "Ah, lá fora o
fulaninho pode me bater, o cachorro já correu atrás de mim, então acho que eu não vou
sair". Eles são curiosos e não têm noção. Embora até consigam se virar bem dentro da
estrutura que eles próprios criaram, não conseguem lidar direito com a estrutura dos
humanos: carros, motos, gente ruim, veneno, etc. Ao primeiro sinal de perigo, correrão
para o lugar em que eles realmente são livres: suas casas (seu território). O gato que
citei, que estava fugindo dos três cachorros, foi atropelado enquanto corria, desesperado
e atento apenas aos predadores, em direção à casa onde morava com seu "dono". Estava
querendo voltar para a segurança de seu território, onde sabia que ninguém o
machucaria.

Dentro de casa

Gatos só são mesmo livres dentro de casa, pois ali é o território deles, onde eles se
sentem seguros. Mas são curiosos e sempre irão querer passar pelas portas ou janelas
que estiverem abertas para eles. Feche a porta de um cômodo qualquer da sua casa e
imediatamente aquele será o lugar mais legal do mundo, no qual seu gato irá querer
entrar a qualquer custo, até esquecer a idéia.

Gatos que vivem dentro de casa, com as janelas teladas não ficam miando
desesperadamente para sair, sinto desiludir quem se apoiava nesse argumento. Mesmo o
que eu adotei adulto e morava na rua, miou por apenas uma semana, pois tinha o hábito
de sair (e hábito não é necessidade). Quando viu que eu não cederia, resolveu explorar o
ambiente interno e começou a brincar, a se adaptar à nova casa.

Hoje ninguém tenta sair, ninguém fica miando desesperadamente, mas também não
tenho sequer um gato apático em casa. Agora mesmo, acabaram de brincar de lutinha, o
Tiggy está caçando seu ratinho de brinquedo e o Gatão perseguindo uma bolinha. A
Ricota está bebendo água. Eles são bem livres dentro de casa, escolhem seus lugares
preferidos, seus brinquedos preferidos, brincam bastante, comem bem e depois dormem
junto da gente (ou no sofá da sala, quando está muito calor).

Assistem à janela como assistimos à TV, curiosos com a movimentação de vizinhos,


cachorros e pássaros. Eles são pequenos, até mesmo um apartamento de um quarto,
como aquele em que eu morava no Rio, é um mundo para eles, pois ao contrário dos
cachorros, eles sobem nos móveis, entram embaixo das coisas, o espaço não é apenas
horizontal, tem várias possibilidades.

Meus gatos não são exceção, todo mundo que tem gato castrado sem acesso à rua sabe
que eles vivem muito melhor do que os que tivemos em casa pelo método "antigo". E
isso não é egoísmo. Garanto que seria muito mais cômodo ter meu gatinho para brincar
e apertar, mas não ter o trabalho de levar ao veterinário, me responsabilizar por ele o
tempo todo e ainda ter a tranqüilidade de dizer que ele "sumiu" ou que foi morto e
culpar o vizinho, depois arrumar outro gato, sem peso algum na consciência.

O cara que odeia animais e envenena o gato que aparece sempre em sua casa está certo?
Não. Alguma coisa justifica o que ele fez? Não. Mas ele não é obrigado a aceitar um
bicho que ele não gosta em seu quintal. Não é mesmo. Isso não o faz menos assassino,
não o faz menos monstro, não o faz menos malvado, nem menos psicopata, nem menos
imbecil, covarde, fraco e babaca. Isso não faz com que ele esteja certo ao maltratar, mas
mostra que ele não é o único responsável por esse acontecimento, pois ele não foi na
casa da menina para matar a gata dela, ele teve seu espaço invadido por uma criatura
que ele não sabe respeitar.

É exatamente a mesma coisa de dizer que um pai é co-responsável pela morte de sua
filha de dois anos, que ele deixou sair às onze da noite até a casa de um vizinho que já
era suspeito de assassinar crianças, inclusive o irmão mais velho da menina. Não dá
para dizer "é a vida", nós temos responsabilidades e devemos assumí-las.

Uma criança não conhece a estrutura da nossa sociedade e os perigos da rua, é pequena,
sem maldade e fraca demais para conseguir se defender de adultos, maldades e
acidentes. Um gato adulto tem como se defender em sua sociedade felina, mas essa
sociedade é estruturada dentro da nossa sociedade e das nossas ruas, para as quais ele
também é pequeno, fraco e sem maldade, incapaz de se defender sozinho e supor os
perigos que não são naturais, foram criados pelo homem.

Meu gato é louco para entrar no forno. Se eu abro a porta, tenho que cuidar para que ele
não se jogue lá dentro. Mas ele não tem instintos que deveriam protegê-lo dessa
vontade? Pois é, avise isso para ele. Não é porque ele tem curiosidade de entrar no forno
que eu vou achar que ele precisa entrar lá, que ele gosta e vai sofrer se eu não deixar. Se
eu deixar e um dia ele entrar no forno ligado e se queimar, não posso dizer que foi culpa
dele ou que "pelo menos ele morreu feliz, fazendo o que queria". Seria um tanto quanto
irresponsável de minha parte, não?

Dizer que eles são livres nas ruas, que essa é a "natureza" do gato e que eles têm que
"namorar" e são infelizes dentro de casa é argumento de quem não tinha até agora
informação suficiente sobre a realidade da sociedade deles, da natureza deles e da vida
de gatos castrados e sem acesso à rua.

Gostaria que ninguém comentasse absolutamente nada antes de ler (e ter certeza de que
entendeu, nem que precise ler mais de uma vez) tudo o que escrevi. Sei que é muita
coisa, mas também sei que ninguém está interessado a exercitar preguiça mental e que
todos têm interesse em informações, não apenas em manter suas opiniões arraigadas e
"ganhar a discussão". Eu não quero ganhar nada, meu interesse é ver menos gatos nas
ruas, e esse é o único caminho.

Assunto sem fim

É consenso entre as entidades sérias de proteção animal de que a castração e criação


indoor (sem acesso à rua) é a melhor forma de cuidar de gatos e ao mesmo tempo
proteger a espécie. Acredito que quem gosta de gato não gosta apenas do seu gato, mas
de todos, e se preocupa com a espécie inteira.

Idéias pré-concebidas e mais do que ultrapassadas, mitos como o que prega que a
castração deixa o animal letárgico, que a castração deixa o animal infeliz, que gato
precisa "dar voltinhas", que gato se apega a casa e não ao dono, que mulher grávida
pode pegar toxoplasmose acariciando qualquer gato (argh, por favor, se você não tem o
hábito de comer fezes de gato infectado pelo toxoplasma expostas no ambiente por 48
horas, ou comer a carne crua de gatos infectados pelo toxoplasma - e poucos gatos são
infectados - não se preocupe com uma possível transmissão de toxoplasmose pelos
gatos. Muito mais importante é cuidar da higiene dos vegetais que você consome e do
cozimento da carne que você costuma comer. Toxoplasmose se pega por via oral, dessas
maneiras), que gato é traiçoeiro, etc. etc. etc. são coisas que só prejudicam os pobres
animais, que nada têm com a ignorância humana. E além de prejudicar os gatos, me
deixam muito, mas muito revoltada e chateada por ver o quanto minha espécie ainda
está atrasada.

E de uma vez por todas: é muito fácil não dar acesso à rua a um gato castrado (e de
preferência, castre as fêmeas antes do primeiro cio, com quatro ou no máximo cinco
meses. E os machos, com cinco ou seis meses. Embora possa ser feita a castração
precoce, mas aí o procedimento é diferente), basta instalar redes de proteção em todas as
janelas (inclusive nos vitrôs).

A quem mora em apartamento, redes de proteção são obrigatórias, mas se você mora em
casa e quer que seus gatos tenham acesso ao quintal, pode telar os muros e o portão, de
maneira a não deixar nenhum lugar pelo qual ele possa escapar. Algumas idéias de tela
nesse site: http://mopibichos.sites.uol.com.br/modelosdetela.htm