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Economia Política

Compra de dólar
é unanimidade;
controle do
câmbio, não

Por Marcel Gomes e Maurício Hashizume –


9/1/2004

09/01/2004 00:00

Brasília e São Paulo - É verdade que há


divergências em relação ao montante ideal das
reservas e ao uso de estratégias para tornar a
taxa de câmbio mais competitiva. Mas para
usar um termo bem distante do “economês”,
pode-se dizer que a decisão do Ministério da
Fazenda e do Banco Central (BC) de comprar
dólares no mercado, para recompor as reservas
internacionais, agradou a gregos e troianos. No
caso, dos economistas da Federação Brasileira
dos Bancos (Febraban) aos professores do
Instituto de Economia da Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp). Ou dos ortodoxos aos
heterodoxos, agora sim, para voltar ao
“economês”.
A avaliação consensual é que o atual nível de
reservas do país é uma das causas da
vulnerabilidade externa. Em 2003, o Brasil
fechou o ano com reservas líquidas de US$ 17
bilhões, apenas um suspiro perto dos
compromissos a serem cumpridos em 2004. A
conta só vai fechar por causa dos empréstimos
do Fundo Monetário Internacional (FMI). Com
essa mãozinha, a disponibilidade de recursos
chega a US$ 49 milhões e garante o ano.
"Há muito tempo defendo a tese de que US$ 17
bilhões de reservas líquidas é muito pouco em
relação ao montante de dívidas de curto prazo",
diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, que,
por alto, estima essas dívidas em mais de US$
30 bilhões. "Nesse mundo, quem não tem
reserva morre pagão", diz ele, que dá aulas na
Unicamp e é um conhecido crítico de alguns
"dogmas do neoliberalismo".
O professor usa uma fórmula asiática para
calcular quanto seria o nível mínimo de
segurança das reservas do país. Lá, o piso
utilizado em muitos países é igual ao dobro das
dívidas de curto prazo. No Brasil, esse número
teria de ultrapassar a barreira dos US$ 60
bilhões. "Nosso nível de segurança seria um
pouco maior, de US$ 80 bilhões", projeta
Belluzzo.
Mas para chegar a esse nível de reservas, o BC
precisaria de um apetite muito maior do que o
demonstrado nos últimos dias. Também nessa
questão, predomina a cautela característica da
gestão Palocci.
Na quarta-feira (7), um dia depois do anúncio de
que o governo compraria dólares, o BC não
gastou um tostão, como se estivesse
esperando o mercado digerir a informação do
dia anterior. Na quinta (8), operadores disseram
que o BC comprou dólares no mercado à vista,
mas numa atuação tímida que não passou,
segundo veículos de comunicação
especializados na cobertura do mercado
financeiro, de US$ 50 milhões.
Tão pouco que o economista-chefe da
Febraban, Roberto Luis Troster, disse ao final
do dia que "ainda não havia registro de entrada
do BC no mercado". Mas ele não critica a
prudência do governo. Muito pelo contrário.
"A medida é oportuna. É importante fazer o
telhado enquanto não está chovendo, ou seja,
os juros internacionais estão baixos, há grande
liquidez e procura por ativos brasileiros", afirma
Troster, para logo em seguida alertar. "Mas é
importante que o BC seja neutro e essas
intervenções não alterem o nível do câmbio."
O receio do economista da Febraban, em linha
com a opinião de muitos colegas de bancos e
consultorias, é de que o BC aproveite as
compras de dólares para definir o patamar do
câmbio e, assim, influenciar nos resultados da
balança comercial. "Isso seria administração do
câmbio, o que não é aceitável para quem
acredita na independência do BC", diz Troster.
É aqui que os gregos e troianos afiam as armas.
Para economistas como Belluzzo e Paulo
Nogueira Batista Junior, professor da Fundação
Getúlio Vargas (FGV), seria muito bom, sim, que
o BC incentivasse alguma depreciação do real.
Em artigo publicado quinta (8) na Folha de S.
Paulo, Batista assinala que as ações do BC
poderiam colocar "a taxa de câmbio em nível
mais competitivo e compatível com a retomada
do crescimento econômico ao longo dos
próximos anos".
Segundo o professor da FGV, diversos países
em desenvolvimento têm comprado dólares
para ampliar seu estoque de divisas. Nos
meses finais de 2003, a China mantinha US$
384 bilhões, a Coréia do Sul, US$ 143 bilhões, a
Índia, US$ 92 bilhões, e a Rússia, US$ 64
bilhões.
"Todos esses países ampliaram
substancialmente o seu estoque de divisas em
2003. Adotaram a política de comprar reservas
para evitar a apreciação de suas moedas e
manter as suas taxas de câmbio em níveis
competitivos", escreveu Batista, que também é
articulista da Agência Carta Maior.
Belluzzo segue a mesma linha. "A verdade é que
o governo deixou o câmbio se valorizar demais
em 2003", diz ele. O argumento é que o
superávit comercial do ano passado só foi
obtido porque a economia estava estagnada.
Com a retomada do crescimento, aumentam as
importações e o enorme superávit vira passado.
O ministro Palocci, quem realmente decide,
discorda. Para ele, o câmbio não é problema.
"Estamos com um câmbio muito competitivo
hoje. Tivemos um câmbio equilibrado, um
câmbio com pouca vulnerabilidade durante
todo o ano (2003) e numa posição que permitiu
um saldo de balança comercial muito
importante", disse o ministro, na quarta-feira (7),
durante entrevista coletiva sobre a reunião da
Comissão de Política Econômica do governo
que ocorreu no Palácio do Planalto.
Com essa declaração, Palocci deixou claro que
não tem a intenção de fazer uso da nova
estratégia para mexer no patamar do câmbio.
"Nós estamos muito convictos de que o câmbio
flutuante fez bem ao Brasil, ao longo dos anos,
tem mostrado ser uma política eficiente, relativa
à posição da moeda brasileira, em relação a
outras moedas do mundo. E é importante
ressaltar: o câmbio flutuante não tem sido uma
política só boa para o Brasil. São dezenas de
países, no mundo, que utilizam esse
mecanismo, com resultados muito positivos",
afirmou o ministro.
A divergência, nessa questão, torna-se frontal
com o que pensa Belluzzo. "Não existe essa
história de taxa de câmbio de equilíbrio. O que
ficou implícito nas declarações do ministro é
que o mercado sabe melhor definir a taxa de
câmbio que o governo. Isso é uma bobagem.
Nem os mais ortodoxos acreditam nisso. Não
há um ‘valor fundamental’ para o câmbio",
defende o professor.
O receio é que, seguindo essa linha, a
comemorada iniciativa do governo não ajude a
recompor as reservas significativamente, nem
ajuste o câmbio de modo a incentivar as
exportações.

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