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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 00ª VARA CÍVEL DE CURITIBA

(PR)

Ação Revisional de Contrato Bancário


Proc. nº. 44556.2016.11.8.99.0001
Autora: CONSTRUTORA XISTA S/A
Ré: BANCO ZETA S/A

CONSTRUTORA XISTA S/A , pessoa jurídica de direito privado, inscrita


no CNPJ(MF) sob o nº. 11.333.444/0001-55, estabelecida na Rua Xista, nº. 000, nesta Capital,
comparece, com o devido respeito à presença de Vossa Excelência, por meio de seu patrono
que abaixo assina a presente, não se conformando, venia permissa maxima, com a sentença
exarada no tocante à extirpação da mora do pacto em ensejo, , tempestivamente (CPC, art.
1.003, § 5º), com suporte no art. 997, § 2º, do CPC, o presente recurso de

APELAÇÃO,
NA FORMA ADESIVA,

em virtude dos argumentos fáticos e de direito expositados nas RAZÕES ora acostadas.
Outrossim, ex vi legis, solicita que Vossa Excelência declare os efeitos
com que recebe o recurso evidenciado, determinando, de logo, que a Apelada se manifeste
sobre o presente (CPC, art. 1.010, § 1º) e, depois de cumpridas as formalidades legais, seja
ordenada a remessa desses autos, com as Razões de Apelação , ao Egrégio Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná.

Respeitosamente, pede deferimento.

Cidade, 00 de janeiro de 0000.

Fulano de Tal
Advogado - OAB(PR) 112233
RAZÕES DE APELAÇÃO

Processo nº. 44556.2016.11.8.99.0001


Originário da 00ª Vara Cível de Curitiba (PR)
Recorrente: CONSTRUTORA XISTA S/A
Recorrido: BANCO ZETA S/A

EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ:


Em que pese à reconhecida cultura do eminente Juízo de origem e à
proficiência com que o mesmo se desincumbe do mister judicante, há de
ser reformada a decisão ora recorrida, porquanto proferida em
completa dissonância para com as normas aplicáveis à espécie,
inviabilizando, portanto, a realização da Justiça.

(1) – DA TEMPESTIVIDADE
(CPC, art. 1.003, § 5º)

O presente recurso há de ser considerado tempestivo, vez que a


sentença em questão fora publicada no Diário da Justiça nº. 0000, em sua edição do dia
00/11/2222, o qual circulou no dia 11/00/2222.

Nesse ínterim, à luz da regência da Legislação Adjetiva Civil (art.


1.003, § 5º), este recurso é interposto dentro do lapso de tempo fixado em lei.

(2) – PREPARO
(CPC, art. 1.007, caput)
O Recorrente acosta o comprovante de recolhimento do preparo
(CPC, art. 1.007, caput ), cuja guia, correspondente ao valor de R$ 00,00 ( .x.x.x. ), atende à
tabela de custas deste Tribunal.

(3) – SÍNTESE DO PROCESSADO


(CPC, art. 1.010, inc. II)

A Apelante ajuizou Ação Revisional de Contrato Bancário em


desfavor da Recorrida, visando, em suma, a reavaliação judicial das cláusulas de contrato,
maiormente seus reflexos financeiros no débito.

A Recorrida apresentou contestação, tempestivamente, a qual fora


devidamente rebatida, no decêndio legal, por meio de réplica.

Houve, mais, perícia contábil, a qual fora devidamente questionada


por meio de quesitos que fluíram em face das teses defendidas pelo Apelante.

A ação fora julgada parcialmente procedente, sentenciando-se pelo


recálculo do débito, afastando-se a capitalização diária dos juros.

Tendo em conta que a decisão fora omissa quanto ao pedido de


remoção dos encargos moratórios, a Apelante opusera Embargos de Declaração. Para a
recorrente, em razão da cobrança de encargos ilegais no período de normalidade contratual, os
encargos de mora deveriam ser afastados. Referido recurso fora julgado improcedente,
definindo-se na sentença que o Recorrente havia pagado o débito fora do prazo contratualmente
estipulado. Em face disso, era impertinente o afastamento dos encargos de mora.
Contudo, entende o Recorrente que os efeitos da mora devem ser
afastados, maiormente porquanto a Recorrida, segundo inclusive manifestado na sentença,
cobrara encargos abusivos no período de normalidade contratual.

(4) – NO MÉRITO
(CPC, art. 1.010, inc. II)

( 4.1. ) - DA AUSÊNCIA DE MORA

Não há que se falar em mora do Apelante, como


equivocadamente ficou fundamentado na sentença recorrida .

A mora reflete uma inexecução de obrigação diferenciada,


maiormente quando representa o injusto retardamento ou o descumprimento culposo da
obrigação. Assim, na espécie incide a regra estabelecida no artigo 394 do Código Civil, com a
complementação disposta no artigo 396 desse mesmo Diploma Legal.

CÓDIGO CIVIL
Art. Art. 394 - Considera-se em mora o devedor que não efetuar o pagamento e o
credor que não quiser recebê-lo no tempo, lugar e forma que a lei ou a convenção
estabelecer.

Art. 396 - Não havendo fato ou omissão imputável ao devedor, não incorre este em
mora

Nesse sentido:
APELAÇÃO CÍVEL. BUSCA E APREENSÃO. MORA DESCARACTERIZADA. ENCARGOS.
ABUSIVIDADE NO PERÍODO DE NORMALIDADE CONTRATUAL. COMISSÃO DE
PERMANÊNCIA. CUMULAÇÃO. TARIFA DE REGISTRO DE CONTRATADO E AVALIAÇÃO
DE BEM. IMPOSSIBILIDADE. CDC
o reconhecimento da abusividade nos encargos exigidos no período da normalidade
contratual descaracteriza a mora, nos termos dos precedentes firmados pelo Superior
Tribunal de Justiça. As instituições financeiras foram autorizadas a cobrar de seus
devedores a comissão de permanência, desde que previstas em contrato, porém, sem
que haja possibilidade de cumulação da cobrança com "quaisquer outras quantias
compensatórias pelo atraso no pagamento dos débitos vencidos", nos termos do inciso
II da resolução 1.129/86 do Banco Central do Brasil. O art. 51, IV, do Código de Defesa
do Consumidor, prevê a nulidade de pleno direito de cláusulas que "estabeleçam
obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em
desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a equidade".
Conforme dispõe o inciso XII do artigo retro, é igualmente nula cláusula que obrigue o
consumidor a "ressarcir os custos de cobrança de sua obrigação, sem que igual direito
lhe seja conferido contra o fornecedor". Recurso conhecido e desprovido. (TJDF; Rec
2013.01.1.179214-8; Ac. 922.454; Sexta Turma Cível; Rel. Des. Hector Valverde
Santanna; DJDFTE 02/03/2016; Pág. 498)

PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO. DECISÃO MONOCRÁTICA QUE DEU PARCIAL


PROVIMENTO A APELAÇÃO. CONSUMIDOR. REVISÃO DE CONTRATO DE EMPRÉSTIMO
BANCÁRIO. CLÁUSULA DE JUROS REMUNERATÓRIOS ABUSIVA. TAXA CONTRATUAL
DISCREPA SUBSTANCIALMENTE DA MÉDIA DE MERCADO AO TEMPO DA
CONTRATAÇÃO. ABUSIVIDADE RECONHECIDA. COBRANÇA ILEGAL NO PERÍODO DE
NORMALIDADE CONTRATUAL. DESCARACTERIZAÇÃO DA MORA E SEUS EFEITOS.
POSSIBILIDADE DE COMPENSAÇÃO/REPETIÇÃO DO INDÉBITO. ORIENTAÇÕES
REITERADAS DO TJCE E STJ. AGRAVO INTERNO CONHECIDO E NÃO PROVIDO.
1 É admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais,
desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade (capaz de colocar o
consumidor em desvantagem exagerada) fique cabalmente demonstrada, ante às
peculiaridades do caso concreto. Conforme observase: (1) o contrato indica as taxas
efetivas mensal (2,80%) e anual (39,29%); e (2) as taxas contratadas discrepam,
substancialmente, da média de mercado apurada pelo Banco Central do Brasil, ao
tempo da contratação (março de 2008), em operações da espécie (26,90%a.a). 2 O
reconhecimento da abusividade nos encargos exigidos no período da normalidade
contratual (juros remuneratórios) descaracteriza a mora. Afastada a mora do
autor/agravado, impõese a concessão da antecipação dos efeitos da tutela pretendida,
no sentido de impedir ou suspender a inscrição do agravado nos órgãos de restrição ao
crédito. 3 A decisão monocrática está amparada em jurisprudência dominante nos
tribunais superiores, perfeitamente aplicável à hipótese. 4 Agravo interno conhecido e
improvido. (TJCE; AG 045937706.2011.8.06.0001/50000; Quinta Câmara Cível; Rel. Des.
Teodoro Silva Santos; DJCE 22/02/2016; Pág. 29)

Com o mesmo entendimento, vejamos julgados originários do


Egrégio Superior Tribunal de Justiça:

AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. SFH. RECONHECIMENTO DA


COBRANÇA DE ENCARGOS ABUSIVOS NO PERÍODO DA NORMALIDADE.
DESCARACTERIZAÇÃO DA MORA.
Impossibilidade de cobrança de multa e de juros moratórios. Agravo regimental
desprovido. (STJ; AgRg-REsp 1.325.626; Proc. 2012/0109512-9; DF; Terceira Turma; Rel.
Min. Paulo de Tarso Sanseverino; DJE 18/02/2015)
AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE REVISÃO DE
CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO. DESCARACTERIZAÇÃO DA MORA. COBRANÇA DE
QUANTIAS INDEVIDAS NO PERÍODO DA NORMALIDADE CONTRATUAL.
1. A constatação de abuso na exigência de encargos durante o período da normalidade
contratual afasta a configuração da mora. Na hipótese dos autos, o acórdão declarou
que foram cobradas quantias indevidas a título de correção monetária e de despesas e
honorários extrajudiciais. 2. Agravo regimental não provido. (STJ; AgRg-AREsp 443.637;
Proc. 2013/0399449-8; RS; Terceira Turma; Rel. Min. Ricardo Villas Boas Cueva; DJE
12/02/2015)

Nesse sentido é a doutrina de Washington de Barros Monteiro:

“ A mora do primeiro apresenta, assim, um lado objetivo e um lado subjetivo.


O lado objetivo decorre da naã o realizaçaã o do pagamento no tempo, lugar e forma
convencionados; o lado subjetivo descansa na culpa do devedor. Este eé o elemento
essencial ou conceitual da mora solvendi. Inexistindo fato ou omissaã o imputaé vel ao
devedor, naã o incide este em mora. Assim se expressa o art. 396 do Coé digo Civil de
2002. “ (MONTEIRO, Washington de Barros. Curso de Direito Civil. 35ª Ed. Saã o
Paulo: Saraiva, 2010, vol. 4. Paé g. 368)

Como bem advertem Cristiano Chaves de Farias e Nélson


Rosenvald:

“ Reconhecido o abuso do direito na cobrança do creé dito, resta


completamente descaracterizada a mora solvendi. Muito pelo contraé rio, a mora
seraé do credor, pois a cobrança de valores indevidos gera no devedor razoaé vel
perplexidade, pois naã o sabe se postula a purga da mora ou se contesta a açaã o. “
(FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Direito das Obrigações. 4ª Ed.
Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010. Paé g. 471)

Na mesma linha de raciocínio, Silvio Rodrigues averba:

“ Da conjunçaã o dos arts. 394 e 396 do Coé digo Civil se deduz que sem culpa do
devedor naã o haé mora. Se houve atraso, mas o mesmo naã o resultar de dolo,
negligeê ncia ou imprudeê ncia do devedor, naã o se pode falar em mora. “ ( In, Direito
civil: parte geral das obrigações. 32ª Ed. Saã o Paulo: Saraiva, 2002. p. 245).

Por fim, colhe-se lição de Cláudia Lima Marques:

“ Superadas as dué vidas interpretativas iniciais, a doutrina majoritaé ria conclui


que a nulidade dos arts. 51 e 53 eé uma nulidade cominada de absoluta (art. 145, V,
do CC/1916 e art. 166, VI e VII, do CC/2002, como indica o art. 1º do CDC e reforça
o art. 7º, caput, deste Coé digo.
(...)
Quanto aà eventual abusividade de claé usulas de remuneraçaã o e das claé usulas
acessoé rias de remuneraçaã o, quatro categorias ou tipos de problemas foram
identificados pela jurisprudeê ncia brasileira nestes anos de vigeê ncia do CDC: 1) as
claé usulas de remuneraçaã o variaé vel conforme a vontade do fornecedor, seja atraveé s
da indicaçaã o de vaé rios íéndices ou indexadores econoê micos, seja atraveé s da
imposiçaã o de ‘regimes especiais’ naã o previamente informados; 2) as claé usulas que
permitem o somatoé rio ou a repetiçaã o de remuneraçoã es, de juros sobre juros, de
duplo pagamento pelo mesmo ato, claé usulas que estabelecem um verdadeiro bis in
idem remuneratoé rio; 3) claé usulas de imposiçaã o de íéndices unilaterais para o
reajuste ou de correçaã o monetaé ria desequilibradora do sinalagma inicial; claé usulas
de juros irrazoaé veis. “(MARQUES, Claé udio Lima. Contratos no Código de Defesa do
Consumidor. 6ª Ed. Saã o Paulo: RT, 2011. Paé gs. 942-1139)

Em face dessas considerações, conclui-se que a mora cristaliza o


retardamento por um fato, quando imputável ao devedor. É dizer, quando o credor exige o
pagamento do débito, agregado com encargos excessivos, retira-se do devedor a
possibilidade de arcar com a obrigação assumida. Por conseguinte, não pode lhes ser
imputados os efeitos da mora.

Entende-se, uma vez constatado a cobrança de encargos


abusivos durante o “ período da normalidade ” contratual, restará afastada eventual
condição de mora do Promovente.

O Superior Tribunal de Justiça, ao concluir o julgamento de


recurso repetitivo sobre revisão de contrato bancário (REsp nº. 1.061.530/RS), quanto
ao tema de “configuração da mora” destacou que:

“ORIENTAÇÃO 2 – CONFIGURAÇÃO DA MORA

a) O reconhecimento da abusividade nos encargos exigidos no período


da normalidade contratual(juros remuneratórios e capitalização) descaracteriza
a mora;
b) Não descaracteriza a mora o ajuizamento isolado de ação revisional,
nem mesmo quando o reconhecimento de abusividade incidir sobre os
encargos inerentes ao período de inadimplência contratual. “
( os destaques são nossos )
E do preciso acórdão em liça ainda podemos destacar que:

“Os encargos abusivos que possuem potencial para descaracterizar a mora


são, portanto, aqueles relativos ao chamado ‘período da normalidade’, ou
seja, aqueles encargos que naturalmente incidem antes mesmo de configurada
a mora. “ ( destacamos )

Com efeito, de rigor sejam afastados todos os


encargos moratórios, ou seja, comissão de permanência, honorários
advocatícios, multa contratual e juros moratórios.

(5) – RAZÕES DO PEDIDO DA REFORMA


(CPC, art. 1.010, inc. III)

Em conta disso, é inarredável que a sentença merece ser


reformada, porquanto:

( i ) a decisão deixou de afastar os efeitos da mora, não obstante haver reconhecido a


cobrança de juros indevidamente capitalizados, ou seja, cobrança abusiva no período de
normalidade.

(6) – PEDIDO DE NOVA DECISÃO


(CPC, art. 1.010, inc. IV)

Nessas condições, pleiteia-se que este


Egrégio Tribunal reedite mais uma de suas brilhantes
atuações, para, em considerando tudo o mais que dos autos
consta, conheça das presentes razões recursais, provendo
este recurso em uma nova decisão (CPC, art. 1.010, inc. IV), e,
via reflexa, sejam afastados do débito todos os encargos
moratórios, em razão da cobrança de encargo abusivo no
período de normalidade contratual.

Respeitosamente, pede deferimento.

Cidade, 00 de janeiro do ano de 0000.

Fulano de Tal
Advogado - OAB(XX) .x.x.x