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Revista de Psicologia

DEMOCRACIA POR VIR: INDIGNAÇÃO


E ESPERANÇA.
Revista DEMOCRACY TO COME: INDIGNATION AND HOPE.
de Psicologia

Betty Bernardo Fuks 1

Resumo
O artigo propõe, a partir de uma reflexão da posição extraterritorial da psicanálise na cultura e as consequências disso sobre as
análises de Freud e de Lacan sobre a política, pensar a democracia. Procede-se então um questionamento das manifestações coletivas
ocorrida em vários países na contemporaneidade.

Palavras-chave: psicanálise, política, democracia, manifestações coletivas, identificações

Abstract
This article proposes , from a reflection on the extraterritorial position of psychoanalysis in culture and its consequences on the
analyzes of Freud and Lacan about politics, to approach democracy . It then proceeds to a questioning of collective demonstrations
which took place in many countries in contemporariness.

Keywords: psychoanalysis, politics, democracy, collective manifestations, identifications

1
Betty Bernardo Fuks é doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ, psicanalista e professora do Curso de Pós-Graduação em Psicanálise, Ciência e
Sociedade da Universidade Veiga de Almeida - RJ e da Especialização em Psicanálise da PUC - RJ. É autora de Freud e a Judeidade, de Freud e a Cultura,
ambos publicados pela Editora Zahar, e de O Homem Moisés e a religião monoteísta. Três Ensaios. O desvelar de um assassinato, publicado pela Civilização
Brasileira. E-mail: betty.fuks@gmail.com

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Sabe-se que a psicanálise ocupa dem ao outro ser um perfeito semelhante


na cultura a posição suis generis de estar ao grupo. Não se trata de uma diferença
sempre em movimento, fora do espaço da qualquer, mas daquela que produz estra-
maioria, em muitos outros espaços. Sucede nhamento suficiente para lembrar a pró-
que a invenção freudiana vive no entre dois: pria divisão do sujeito. Levando o fenôme-
frequenta vários campos do saber (ciência, no do narcisismo das pequenas diferenças
arte, estética, história, filosofia, literatura, ao paroxismo, desemboca-se na segrega-
religião política), ao mesmo tempo em que ção e no racismo, tal como os define a psi-
exige repensá-los. Isso é o que justifica sua canálise: repulsa do sujeito (individual ou
função de corte e ao mesmo tempo obriga coletivo) ao que lhe é mais íntimo e fami-
o analista a buscar seus alimentos sempre liar mas projetado sobre o objeto externo
mais além, alhures. Enquanto saber extra- a quem endereça o ódio. Esse potencial de
territorial o Inconsciente exige do analista, exclusão, situado para além de uma dife-
principalmente quando trata de questões renciação entre o “eu” e o “outro” ou entre
que incidem sobre a política, estar fora e o “nós” e os “outros” visa, justamente, eli-
dentro da polis, isto é, no circuito em que minar a diferença.
é possível perscrutar o para-além do polí-
A escrita do texto de 1921 foi pre-
tico - a pulsão (o atemporal) - no político
monitória. Freud desvela o ovo da ser-
(tempo histórico). Certamente, foi a partir
pente: na modernidade, os filhos crentes
dessa modalidade de escuta dos fenôme-
e praticantes do Pai idealizado e em nome
nos sociais, que Freud pode enunciar que
da ideologia do sangue e do solo, levavam
a vida coletiva, ao igual a do indivíduo,
ao paroxismo as pulsões destrutivas e a
se traduz como embate entre os afetos de
crueldade contra o outro, então transfor-
amor e ódio.
mado no “bode expiatório” da massa. Na
Conhecemos a análise freudiana década de trinta, ao descontruir a figura
desse estado de coisas desde Psicologia das bíblica do legislador e fundador do mo-
massas e análise do eu (Freud,1921/2014). noteísmo transformando-o num egípcio,
Nesse texto o autor demonstra de que Freud confirmava o princípio psicanalí-
modo a coesão entre os membros da mas- tico de que a “identidade” do sujeito ou
sa se dá, necessariamente, por força da a de um povo chega sempre de fora, da
convicção de cada um acerca do amor do alteridade. O estrangeiro na constituição
líder - ponto de agregação que reduz o laço de uma identidade é o ponto sobre o qual
social ao apego especular e hipnótico -, O homem Moisés e a religião monoteísta:
em nome do qual virá a salvação do de- três ensaio (Freud, 1939/2014) reitera
samparo. Uma operação que só terá pleno o princípio psicanalítico de que a origem
êxito se for possível apagar a ambivalência do sujeito, individual e coletivo, advém do
amor-ódio do interior da massa, mantendo Outro, do heterogêneo em relação ao si
o amor de si entre os idênticos e dirigindo mesmo; do estrangeiro como condição da
o ódio ao outro estrangeiro, assegurando identidade. Mais uma vez, a psicanálise
assim uma unidade coesa. Porque o ódio deixa entrever sua função na civilização:
garante a formação da massa e a consti- desconstruir o que se quer fixo e imutá-
tuição do eu? A resposta encontra-se no vel. No contexto político da escrita pode-
conceito do “narcisismo das pequenas di- -se considerar que a figura de “Moisés, o
ferenças”, base da constituição do “nós” egípcio”, foi uma bela resposta à ideologia
e do outro. O termo “narcisismo” define a do Nacional Socialismo, em sua insistên-
estrutura do amor; e o termo “pequenas cia de criar o impossível: uma unidade
diferenças” designa diferenças reais, mas pura e sem falta. Aliás, essa resposta se-
não absolutamente regulares, que impe- gue à risca o fundamento da categoria de

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estrangeiro na obra freudiana: “o eu não é acrescenta-se a preocupação do autor em


senhor nem mesmo em sua própria casa” estabelecer pontos de apoio “de conheci-
(Freud, 1917/1976, p. 261). mento especializados no campo escolhido
de modo a cercar e tentar explicar as moda-
Nos anos sessenta, Lacan, ciente
lidades de intervenção ou parte do psíqui-
da importância do discurso psicanalítico
co implicado no campo da política” (Plon,
a apreensão dos laços sociais analisou os
2002). Lacan, seguindo a trilha aberta pelo
sintomas coletivos de maio de 1968, na
inventor da psicanálise sabia da importân-
intenção de demonstrar como um psica-
cia do analista estar atento à politica de
nalista deve “agir sobre a cultura” (Lacan,
seu tempo. Na verdade ele soube transfor-
1969 - 1970/ 1920 p. 177). Diante da cena
mar em injunção, toda a acuidade, a obser-
em que jovens estudantes esbravejavam na
vação e a sensibilidade de Freud para com
rua a palavra de ordem “é proibido proibir”
a sua época: “Que antes se renuncie a isso
e o lema “as estruturas não descem à rua”
(exercer a psicanálise), quem não conseguir
- em alusão ao seu pensamento e ao de Lé-
alcançar em seu horizonte a subjetividade
vi-Strauss, Lacan os “interpretou”: “Como
de sua época” (Lacan, 1966/1988, p. 332).
revolucionários vocês são histéricos a de-
mandar um novo mestre. Vocês o terão”! Feita essa observação chegamos à
Como bem assinalou Sérgio Laia, em base nossa contemporaneidade. Mais precisa-
à sua leitura do Seminário 17, a interven- mente às manifestações políticas que eclo-
ção de Lacan na política de seu tempo foi diram recentemente nos quatro cantos do
singular: ao considerar o turbilhão polí- mundo, desmanchando o consenso entre
tico 68 como uma “impotência” permeada “direita” e “esquerda” a cerca do modos ope-
de efeitos mortíferos, sua intensão foi o randi das instituições políticas e do capi-
de “procurar, na efusão de maio, qual o talismo, de modo inusitado. Antes, porém,
sujeito em questão, qual era a sua causa, quero registar que o título desse trabalho
sua determinação significante, e o saber nasceu da leitura de um livro - Redes de
que dali se depreendia”. (Laia www.insti- indignação e esperança - do sociólogo Ma-
tutopsicanalise-mg.com.br/psicanalise/.) nuel Castell (2013). Pensador da socieda-
Procurar o sujeito em questão significa to- de conectada em rede, Castell oferece uma
mar o ponto de vista da ligação íntima que análise sociológica complexa sobre mí-
a psicanálise propõe entre dimensão da dias e os novos movimentos sociais e efei-
política e da ética. O inédito dessa propos- tos inovadores dessa relação: ocupação do
ta advinda de um acontecimento coletivo é espaço público urbano, criação de tempo e
alertar os analistas para os efeitos da uni- de espaço próprios, ausência de lideranças
versalização e da homogeneização que pre- e de programas. Vou me servir apenas de
valece na civilização moderna e sua conse- dados históricos apresentados pelo autor
quência maior: o apagamento do desejo. para pensar, à luz da psicanálise, algumas
hipóteses sobre as manifestações de indig-
A incursão de Freud e a de Lacan
nação e suas contribuições à reflexão sobre
no campo da política sempre andaram em
os impasses e destinos da democracia.
intima consonância com a teoria do in-
consciente e ligadas à metapsicologia. Em Fiat Lux! Uma convocação por meio
O mal-estar na cultura (1930/2010) Freud, digital e milhares saem à rua para reivindi-
reconhece que o analista deve ser prudente car direitos, expressar suas insatisfações,
e quando se trata de transferir à psicanáli- protestar contra o abuso de poder, contra
se à cultura para não arrancar os conceitos a corrupção, contra tarifas indevidas, etc.,
que a sustentam de onde nascem e se de- etc. Massas não lideradas por um líder
senvolvem. A essa vigilância epistemológica determinado ou partido político, embora

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algumas delas tenham tidos heróis rebel- sistema econômico que a sustentava”. E o
des ou mártires como ponto de partida. A caso de perguntar: que sistema político é
morte, seja a do Pai da horda ou a de um esse que permitiu uma satisfação pulsional
mártir do século XXI significa o anúncio de de tal ordem ao ponto de quebrar os limi-
um novo tempo. tes das políticas democráticas?
Tudo começa inesperadamente na Na mesma linha, “Occupy Wall Stre-
Tunísia. Um jovem se sacrifica em frente et”, gerou a consciência de que “a forma
ao prédio do governo. O ato foi uma respos- institucionalizada de democracia repre-
ta à humilhação que sofria cotidianamen- sentativa não foi suficiente para combater
te - o confisco de sua banca de verduras e os excessos do capitalismo”. Dito de outra
frutas pela polícia local ao recusar se sub- forma: o “big brother Wall Street” contro-
meter ao pagamento de propina. A cena foi lou os Estados Unidos sem dificuldades,
postada na internet e, num curto espaço de corrompendo legalmente o Congresso. Em
tempo, levou milhares a protestarem con- termos lacanianos, a democracia, por estar
tra o governo. Em alguns dias, graças às submetida ao poder de Wall Street, não
redes sociais e à ocupação do espaço urba- pôde impedir a totalização e contabilização
no, o ditador Ben Ali deixava pais. Logo em do mais-de-gozar capitalista.
seguida chegou a Primavera Árabe”. Guar-
Finalmente no Brasil, o movimento
dando as diferenças político-ideológicas de
“Passe Livre” - que num princípio significou
cada país, o fato é que, em pouco tempo,
um grito de indignação contra o aumento do
os movimentos na Arábia saudita, na Líbia
preço dos transportes, revelou um sentido
e no Iêmen depuseram seus presidentes
muito singular: a tomada de consciência da
vitalícios e ditadores. No Egito a indignação
falácia dos partidos políticos, estruturas go-
do povo contra a pobreza, desemprego, se-
vernamentais, a falta de educação, saúde,
xismo, falsa democracia, opressão religio-
bem estar para o povo brasileiro, a redução
sa e brutalidade policial destronou o último
da democracia a um mercado de votos, prá-
dos faraós e deu origem a novos movimen-
tica essa exercida tanto pelos partidos de
tos políticos apoiados pelas redes sociais. direita como os de esquerda, negócios ma-
Chama a atenção nos protestos egípcios fiosos, corrupção, por parte do governo esta-
seu caráter anticapitalista: as manifesta- dual e federal. “Não são os centavos, são os
ções de indignação, segundo os analistas nossos direitos”! Indignação e reivindicação
politicas, recaíram sobre a “ditadura” do de direitos gerou uma proposta contunden-
capital travestido de democracia. te: “Trocamos dez estádios por um hospital
Mas vejam: os protestos também decente” - Nota se, por essa frase, que os
surpreenderam os países “francamente” de- manifestantes além de acusar a corrupção
mocráticos, dando mostras de que a demo- de um Congresso, tinham em mente uma
cracia precisa de ser reinventada, se é que solução coerente com qualquer nação de-
ela “existe” de fato em algum país. Exem- mocrática que, por princípio, tem como
plos: a Revolução das Panelas” na Islân- urgência a saúde e a educação do pais. Em
dia foi fruto da indignação de muitos frente poucas semanas, pela força da indignação,
aos resultados negativo das especulações segundo a análise do crítico literário Rober-
do capitalismo financeiro. Os Indignados to Schwartz (2013), o Brasil que logrou in-
na Espanha”, cientes do reino podre de seu cluir os excluídos foi substituído por outro
sistema político que admitiu os excessos pais, em que o transporte popular, a educa-
das especulações capitalistas cunharam ção e a saúde pública são um desastre.
uma frase bastante contundente: “Nossa Os brasileiros vivem hoje o paradoxo
democracia parlamentar faliu junto com o de estar comemorando o fim do golpe mili-

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tar de 1964 e, ao mesmo tempo, manifestar Seria preciso então admitir, com Ja-
indignação pelo fracasso do regime demo- cques Derrida, a concepção de “democracia
crático que o sucedeu. As Jornadas de Ju- por vir”. Para esse filósofo a democracia é
nho nada mais foram do que uma resposta, um sistema politico a ser permanentemen-
como todo o sintoma, à esse fracasso. Po- te construído. Nesse sentido, se pudermos
demos arriscar dizer que a diferença entre enquanto analistas traduzir a ideia de de-
o acontecimento de maio de 1968 em Pa- mocracia por vir, diria que trata-se de con-
ris e a de junho de 2013 no Brasil, reside ceber a possibilidade de exercer uma poli-
em que se a primeira solicitava um Mestre, tica em base a reescrita de seus próprios
a segunda tenta mudar a história política traços originários. O porvir exige uma luta
brasileira e seus infortúnios nas mãos de incessantemente contra o poder arbitrário,
líderes e partidos políticos obscenos. Res- seja ele o protótipo da figura mítica do Pai
ta saber, o que talvez ainda seja impossível totêmico, o chefe que promete às massas
determinar o destino do que as manifesta- o fim do conflito e uma sociedade perfeita,
ções começaram a denunciar. ou qualquer outra figura hodierna, como
por exemplo o capitalismo global. Reescre-
Continuemos, a partir daqui, na
ver a herança arcaica, nos termos de Totem
companhia de interlocutores que se em-
e Tabu (Freud, 1913/2013a), os traços e os
penham e refletir sobre a singularidade da
rastros do acontecimento mítico originário
incursão da psicanálise na politica. O que
- a morte de uma figura de poder arbitrária.
nos interessa nesse momento é refletir so-
A reescrita dessa herança como estratégia
bre a democracia, definida pela psicanalise
política significa uma esperança, não no
como o sistema político fundado na asso-
sentido usado por Castell no título de seu
ciação de irmãos que pactuaram entre si
livro, que tomei emprestado, mas no sen-
deixar vazio o lugar que fora ocupado pelo
tido dp exercício de uma ética orientada
poder tirânico. A democracia, enquanto
ao real. Uma esperança sem utopia; uma
sistema fundado sobre as leis da lingua-
promessa que tem lugar no aqui e agora
gem, é marcada pela falta. Recorrerei ao
pensamento do Yaniis Stravrakakis, cientis- nos termos de Derrida: “em um aqui e ago-
ta politico e autor de muitos trabalhos so- ra que trato regularmente de dissociar do
bre a relevância da psicanálise para a teoria presente” (Derrida, 1996).
social e análise do politico. Em seu livro Essa esperança sem utopia encon-
Lacan e o político (Stravrakakis, 2007), ele tramos, por exemplo, na declaração de uma
defende que a radicalização da democracia rede criada em torno do grupo do Facebook:
só pode ocorrer dentro de uma perspectiva “Todos somos Khaled Said”, um manifes-
ético-política, em base ao estatuto ético da to à memória do jovem ativista espancado
concepção freudiana do Inconsciente e às até a morte pela polícia num cibercafé após
evidências demonstradas por Lacan, a par-
distribuir um vídeo mostrando a corrupção
tir do conceito de “Spaltung”, de que cam-
policial em Alexandria. A identificação dos
po social é intrinsicamente dividido. Stra-
manifestantes à verdade excluída do campo
vrakakis (2007) propõe que no lugar de uma
social é a tomada de uma posição ética sob
ética de harmonia social, a ética sem ideal,
a forma de uma promessa pois, conforme o
tal como formulada na tradição lacaniana,
pensamento de Derrida, não há linguagem
seja incorporada ao exercício da democra-
sem a dimensão performativa da promessa.
cia. Desde essa perspectiva não é possível
“Todos somos Khaled Saíd” é uma resposta
conceber uma forma de democracia acaba-
ao intolerável do aqui e agora.
da e sem faltas porque isso significaria de-
fender uma utopia à serviço do império da Se for possível para nós brasileiros
demagogia e da corrupção. fazermos o mesmo tipo de manifesto e nos

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identificarmos ao jovem espancado na ci- O tempo do reconhecimento de que esse


dade do Rio de Janeiro por justiceiros “neo- assassinato é parte verdadeira da história
-nazistas” em nome do bem, a frase “Todos de cada um e não apenas da família do ci-
somos negros e pobres como aquele jovem negrafista morto em serviço. A ação não
carioca” pode ganhar a força necessária pode ser tomada apenas como um “aci-
para se tornar um manifesto a favor da dente”, como querem os Black Blocks”, ou
politica democrática no século XXI. À ten- como mera expressão de violência a ser re-
tativa de diminuir a desigualdade social primida pelo exército brasileiro. Sustentar
exige, necessariamente, um processo de o espaço democrático, requer, do ponto de
identificação ao sintoma da sociedade bra- vista da psicanálise, uma firme articulação
sileira, o outro excluído das melhorias entre a consciência dos limites que susten-
sociais. Esse eixo da ética lacaniana - o tam a convivência humana à uma crítica
da identificação ao sinthome” - traduz a contínua das instituições democráticas
verdade de que o porvir da democracia contemporâneas.
depende não apenas de atos de indignação
Por fim, gostaria de incluir nesse
mas da responsabilidade de cada um di-
artigo uma reflexão sobre o último acon-
minuir o curso do rio da pulsão de cruel-
tecimento político na França que deixou o
dade, ou como dizia Freud, “distrair e
mundo perplexo diante do ataque terrorista
desviar nossas pulsões do ato de destruir”
à revista “Charlie Hebdo” e a imediata res-
(Freud, 1982, p. 398).
posta da população – “Je suis Charlie”. Uma
O assassinato do cinegrafista San- identificação aos mortos assassinados que,
tiago Andrade pelos Black Blocks numa justamente, não ocupavam propriamente o
manifestação no Rio de Janeiro em 2013, é lugar de estrangeiro do outro em terra pró-
a prova evidente da compulsão da repetição pria. Dessa identificação, Freud nos retirou
à destruir e matar que todos carregam à a ilusão: quando o homem experimenta o
despeito das forças civilizitórias. Logo após horror diante da crueldade, isso se dá por-
essa morte que indignou o país, nossa Pre- que no lugar da vítima, imagina um de seus
sidente, que recebeu as primeiras manifes- familiares ou a si próprio. Seu narcisismo
tações de rua nas cidades brasileiras com fica ferido no momento em que se identifica
bom humor e reverência, anunciou que o com a vítima. Esse é o momento em que
Planalto não vai hesitar em colocar o exér- a morte, enquanto estrutura simbólica da
cito na rua para garantir a ordem. Muito transmissão geracional, convoca o sujei-
bem, a repressão é de fato um meio para to a se comprometer com a estratégia de
calar a violência. Tanto a direita quanto a convocar a vida. Ao dizer “Je suis Charlie”,
esquerda sabem disso muito bem. É hora, os franceses conseguem uma posição mais
então, do psicanalista intervir na cultura firme para combater o terrorismo. Momen-
mostrando que, se for necessário o exérci- to de despertar: “Posso ser eu a próxima
to na rua, isso não será o bastante para vítima”. E o despertar, sabemos, significa
conter a violência nem muito menos para construir uma narrativa sobre o trauma.
sustentar um projeto-ético democrático.
A crueldade assassina, não erotiza-
Um projeto ético-democrático deve da, é o mal maior da civilização contempo-
procurar devolver à cultura brasileira en- rânea. O terrorismo é herdeiro da invenção
tre outras coisas o senso de vergonha pelo das máquinas de extermínio no século pas-
que ocorre nesse país. “Todos somos aquele sado. Uma verdadeira “cultura do extermí-
cinegrafista” mais do que uma manifesta- nio” cujo alvo é o sacrifício do sujeito aos
ção de indignação, traduz a urgência de deuses obscuros do sistema totalitário. Se,
que essa morte inaugure um novo tempo. freudianamente, é impossível erradicar

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o Mal e o conflito entre os homens nesse Lacan, J. (1970) O Seminário. Livro 17 O


mundo em que a discórdia das línguas se avesso da psicanálise. Rio de Janeiro,
encontra cada vez maior, então, a luta in- Zahar. (Original publicado em 1991).
terminável pela democracia exige do sujeito
Lacan, J. (1998) Escritos. Trad. Vera Ribei-
(individual ou coletivo) não justificar, em
ro. Riuo de Janeiro, Jorge Zahar Editor.
nenhum momento, a barbárie.
(Original publicado em 1996).
Resta então uma questão que só o
Laia, S. “Análise e interpretaçao de uma
tempo e os rumos da política nos próximos
ilusão coletiva: os discursos, a ação laca-
anos poderá responder: Será que esses mo-
niana a partir de maio de 68 e suas con-
vimentos que vimos se espalhar por várias
sequências”. Instituto de Psicanálise e
cidades do mundo reinaugurou um novo
Saúde. www.institutopsicanalise-mg.
tempo; tempo em que o jogo conflitante en-
com.br/psicanalise/.. Acesso em 30 ou-
tre a Pulsão de Vida e a Pulsão de Morte
tubro de 2013.
rouba a cena da barbárie e renova, com a
máxima potência, a cultura? Plon, M. (2003) “Da política de O mal estar
ao mal-estar na política”. In: Em torno de
mal-estar na cultura de Freud. São Paulo.
Escuta.
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São Paulo. Boi Tempo Editorial
Internete. Rio de Janeiro. Zahar.
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Derrida, J. (1988) “Notas sobre descons-
Buenos Aires: Prometeo Libros.
truccíón y pragmatismo”. In. Desconstruc-
ción y Pragmatismo. Buennos Aires Pai-
dos, pp 151-170. (Original publicado em
1996).
Freud, S. (1976) “Conferencias de intro-
ducción al psicoanálisis”, Obras Comple-
tas. vol. XVI. Rio de Janeiro: Imago. (Ori-
nal publicado em 1917)
Freud, S. (2013) Totem e tabu. Porto Ale-
gre: L&PM. (Orinal publicado em 1913).
Freud, S. (2013b ). Psicologia das mas-
sas e Análise do Eu. Porto Alegre: L&PM.
(Original publicado em 1921)
Freud, S. (2010) O mal-estar na cultura.
Porto Alegre: L&PM. (Original publicado
em 1930)
Freud, S. (2014) O homem Moisés e a re-
ligião monoteísta. Porto Alegre: L&PM.
(Original publicado em 1939)
Freud, S. Correspondência de amor e outras
cartas, Rio de Janeiro. Nova Fronteira: 982.

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