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AVALIAÇÃO DA RIGIDEZ ESTRUTURAL DE DUAS EDIFICAÇÕES DE

MÚLTIPLOS PISOS EM MADEIRA

Juliano Fiorelli e Antonio Alves Dias

RESUMO: O presente trabalho trata de um estudo do comportamento estrutural de duas


edificações de madeira de dois e três pavimentos, através da aplicação de forças horizontais
simulando a ação do vento. As duas edificações denominadas Unidades 001 e 002 possuem
sistema estrutural em madeira de reflorestamento do tipo Eucaliptus citriodora, sistema de ligação
pilar-viga constituído por chapas metálicas e vedação em painéis de taipa, pinus e terra palha. Os
esforças horizontais foram aplicados no ponto de maior incidência da força do vento, e os
deslocamentos foram medidos no lado oposto de aplicação dos esforços. Conseguiu-se, com este
trabalho, mapear o comportamento estrutural das duas unidades, verificando a rigidez do sistema
estrutural utilizado.
Palavras Chaves: madeira de reflorestamento, rigidez estrutural, forças horizontais

EVALUATION OF STRUCTURAL STABILITY OF TWO MULTIPLE FLOOR


WOODEN HOUSE

ABSTRACT: This present work treat by a study the structural behavior by two erection of a two
and three floor wood, through in application of horizontal forces mock of the wind action. The
two erection termed unit 001 and 002 hooded structural system at wood by forestation type
Eucaliptus citriodora, system of liaison pillar-bean build up for metal plate and seal panels of
mud walls, pine and met are. The horizontal forces went applicant in major point of inced the
wind force, and the dislocation went measured in opposit side in application this efforts. Got, in
the work, map out structural behavior by two units, verification of rigidity structural system
utilized.
Keywords: forestation wood, rigidity structural, horizontal forces

Trabalho de Iniciação Científica – Apoio: FAPESP


1. INTRODUÇÃO

Este trabalho está inserido em um programa de pesquisa de apoio a jovens pesquisadores em


centros emergentes, o qual visa estudar a utilização de materiais alternativos, como a madeira de
reflorestamento, em especial eucalipto e pinus, em habitação social, na tentativa de propor novas
tecnologias construtivas para o mercado consumidor brasileiro. Pode também ser empregado em
habitação social já que, no Brasil, não é comum a utilização de madeiras de reflorestamento na
construção civil.

Este trabalho apresenta os resultados de estudo que teve como objetivo avaliar a estabilidade
estrutural de duas edificações em madeira de dois e três pavimentos, quando solicitada por
esforços horizontais. Esta avaliação foi feita por intermédio de experimentação, aplicando-se
esforços horizontais, simulando a ação do vento, e medindo deslocamentos horizontais.

2. MATERIAIS E MÉTODOS

As edificações estudadas de três e dois pavimentos, denominadas unidade 001 e 002


respectivamente, possuem sistema estrutural modular em madeira serrada da espécie Eucaliptus
citriodora, com sistema de pilar e viga, ligados por peças metálicas. Os pilares possuem seção
transversal quadrada com dimensão 12x12 cm, obtidos a partir da junção de duas peças. As vigas
possuem seção tipo "I", com a alma constituída por peça com dimensões 6x12cm e as mesas
constituídas por peças de 2,5x10cm. As ligações entre os pilares e as vigas, são feitas por
intermédio de chapas metálicas, conforme apresentado na fig. 1.

Conector metálico T Viga I Conector metálico U


Conectores metálicos Unidade 001 Conector metálico Unidade 002

Figura 1: Chapas metálicas utilizadas na ligação da viga com o pilar

Foi utilizado o sistema de viga e pilar, pela dificuldade de estabelecer o comportamento de


pórtico, isto é, com as ligações entre as vigas e os pilares transmitindo momentos fletores. Assim,
as ligações dimensionadas não são aptas a transmitir momento fletor. Este tipo de composição
estrutural exige, quando não há o travamento lateral proporcionado pelas paredes de fechamento,
a existência de contraventamento, de maneira que a edificação se comporte como um volume
rígido, resistindo aos esforços em todas as direções.

A fig. 02 e 03 ilustram as unidades 001 e 002, em planta.


Figura 2: Planta baixa Unidade 001

Figura 3: Planta baixa Unidade 002

Abaixo o corte das respectivas unidades ilustram a composição estrutural

Corte BB 002
Corte BB 001

Figura 4: Cortes das unidades 001 e 002.

As unidades experimentais são constituídas por dois módulos denominados bloco serviço e bloco
servido, possuem pé direito de 2,40 m e são diferenciados pelo tipo de vedação que possuem.

Um dos módulos possui painéis de vedação em madeira do tipo aglomerado e ossatura em Pinus
elliotti. Os painéis possuem diagonais de madeira para travamento da estrutura, possibilitando um
aumento de sua rigidez, conforma mostra a fig. 05. Um detalhamento mais aprofundado deste
tipo de vedação pode ser encontrado em NAVARRO (1999).

1- Lambris internos
2 – Ossatura
3 – Chapa aglomerado
4- Sarrafos
5 – Deck externos

Figura 5: Painel de Madeira.

Na unidade 001, um dos módulos possui vedação em taipa (barro misturado a palha seca)
(KASSER, 1999). Como este tipo de vedação não possui rigidez suficiente para o travamento
lateral dos painéis, depois da execução verificou-se a necessidade de efetuar travamento. Isto
feito por intermédio de contraventamento em “X”, com barras de aço, conforme pode ser visto na
fig.07.

Na unidade 002, um dos módulos possui painéis de madeira conforme descrito acima e o outro
de terra palha, sistema construtivo artesanal onde blocos de palha de trigo seca, recebe um
barreamento de terra e forma um painel de vedação, estes painéis não possuem nenhum tipo de
travamento.

Para avaliar a estabilidade estrutural, das edificações, foram realizados ensaios simulando a ação
do vento fez-se um ensaio, simulando a ação do vento atuante na edificação, que foi avaliada de
acordo com a norma (NBR 6123)–Forças Devidas ao Vento em Edificações, da Associação
Brasileira de Normas Técnicas (1988). Nos ensaios, a simulação da ação do vento foi feita
através da aplicação de forças no topo da edificação e medidos os deslocamentos nos nós
adjacentes.

Para facilitar a realização do ensaio, as forças foram aplicadas inclinadas. A componente vertical
da força é absorvida pelos pilares, provocando tensões de compressão desprezíveis. Para a
unidade 001, a qual possui pé direito de 7,00m, a componente horizontal de forças foi igual a
aplicou-se uma carga de aproximadamente 4,37kN. Na unidade 002, cujo pé direito é de 5,40m
aplicou-se uma carga próxima a 1,78kN. A fig. 06 mostra os pontos de aplicação das forças e os
locais onde mediu-se os deslocamentos, indicados pelas letras de A-F.
A
F D
B Cabo de aço
E
Cabo de
aço
C

Figura 6: Modelo do ensaio realizado nas Unidades 001 e 002

As cargas foram aplicadas no sentido transversal da edificação, por ser este o mais crítico e com
menor rigidez. No lado oposto de aplicação das forças foram medidos os deslocamentos com a
utilização de relógios comparadores.

Para aplicação da carga, utilizou-se um cabo de aço e um aparelho manual denominado “til-for”,
que tracionava o cabo de aço. A força foi medida por intermédio de um anel dinamométrico. A
fig. 07 ilustra os ensaios realizados nas unidades 001 e 002.

Figura 7: Ensaio de forças horizontais realizado nas unidades 001 e 002

As forças foram aplicadas gradativamente. Para cada incremento de carga, foi medido o
deslocamento correspondente.

RESULTADOS OBTIDOS

Os resultados obtidos durante o ensaio estão apresentados nas tabelas 1 e 2, abaixo. Para cada
carregamento aplicado nos três diferentes tipos de painéis, obteve-se vários valores de
deslocamentos.
Tabela 1: Dados do ensaio da unidade 001
Força Deslocamento mm/100 Deslocamento mm/100
Horizontal (painel de madeira) (Taipa)
(kN)
A B C A B C

0 0 0 0 0 0 0
0,74 55 47 18 12 5 3
1,56 115 90 48 26 18 5
2,34 210 140 81 50 26 12
3,11 310 190 113 80 45 20
3,89 415 238 143 112 66 32
4,67 486 320 192 155 89 45
6,27 579 431 238

Tabela 2: Dados do ensaio na unidade 002


Força Deslocamento mm/100 (Bloco Deslocamento mm/100 (Bloco
Horizontal painel de madeira) Terra palha)
(kN)
D E F D E F

0 0 0 0 0 0 0
0,21 9 5 0 21 8 0
0,42 24 9 0 65 33 0
0,66 55 23 0 197 76 0
0,84 164 65 0 314 115 30
1,05 305 110 0 475 160 60
2,36 447 155 0 598 210 80
1,47 548 200 0 821 280 105

3. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Os resultados acima apresentados permitiram verificar o aumento de rigidez conseguido com a


introdução de algum tipo de contraventamento. Percebe-se claramente que o painel de taipa,
contraventado externamente com barras metálicas, é o que apresenta maior rigidez. Como
ilustração, as fig. 8 e 9 apresentam a elástica observadas nos painéis quando em relação à altura
da aplicação da força máxima.
Altura x Deslocamento
8
Taipa Madeira
6
Alt
ura 4

0
0 100 200 300 400 500 600 700 800

Deslocamento (mm/100)

Figura 8-Altura x deslocamento horizontal da edificação 001


Altura x Deslocamento
6
5.2(madeira) 5.2(terra palha)
Altura da Edificação(m)

3
2,5 2,5
2

0 0
0 100 200 300 400 500 600 700 800 900

Deslocamento(mm/100)

Figura 9=Altura x deslocamento horizontal da edificação 002

Percebe-se através desses gráficos que os painéis de madeira apresentam comportamento típico
de deformação por cisalhamento.
Nos painéis de Taipa- X vertical, observou o bom funcionamento do contraventamento
comprovado pelos menores deslocamentos e pela forma da elástica que sugere um
comportamento de treliça, formada pelos pilares, vigas e X-externo.
Já nos painéis de terra palha pode-se notar a maior deformação, isso devido a ausência de
contraventamentos auxiliares.
Elaborou-se gráficos de força x deslocamento, o deslocamento apresentado foi medido no ponto
mais alto da edificação. Esses gráficos estão ilustrados nas fig.10 e 11.
Forçax Deslocamento

6 taipa-Xmetálico
madeira
For
ça 4
kN
2

0
0 2 4 6
Deslocamento (mm)

Figura 10=Força x deslocamento horizontal da edificação 001


ForçaxDeslocament
o

4
madeira
For3
ça 2 terra palha
kN
1
0
0 2 4 6 8 10
Deslocamento (mm)

Figura 11=Força x deslocamento horizontal da edificação 002

4. CONCLUSÃO

As principais conclusões obtidas foram:


A unidade 001 apresenta uma rigidez maior no módulo de taipa. Isso se deve a existência do
contraventamento metálico existente. Na unidade 002, a rigidez é maior no módulo da edificação
com painéis de madeira, isto devido a maior rigidez deste painel, em comparação com os de terra
palha e de taipa.
Durante o ensaio pode-se constatar a transferência de esforços do painel ensaiado para o painel
adjacente, para o caso do painel de terra palha. Isto ocorreu devido a grandes deslocamentos do
painel que mobilizavam o painel adjacente.
Os painéis de terra palha, por apresentarem baixa resistência têm necessidade de um
contraventamento auxiliar;
Isto nos leva a concluir que em edificações de múltiplos pisos de madeira, cujo sistema estrutural
seja pilar viga, há necessidade de se utilizar algum tipo de contraventamento auxiliar, o qual
proporcionará um aumento da rigidez do sistema.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CITADAS

ABNT -Associação Brasileira de Normas Técnicas.(1988). Forças Devidas ao Vento em


Edificações – NBR-6123.

INO, Akemi –Experimental Construction of Two and Three Storey Wooden Housing, Rilien,
1998.

NAVARRO, A. Sistema de Vedação Pré- Fabricado em Madeira de Reflorestamento;


Dissertação de Mestrado, São Carlos EESC-USP, 1999;

KASSER, K. TAIPA DE MÃO revisão crítica de projetos realizados no Espírito Santo e


perspectivas de seu desenvolvimento; Dissertação de Mestrado, São Carlos EESC-USP,
1999.