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Fundamentos da

Economia
Julia Taunay Perez

Fundamentos da
Economia

São Paulo
Rede Internacional de Universidades Laureate
2015
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desde que sejam respeitados os direitos do Autor, conforme determinam
a Lei n.º 9.610/98 (Lei do Direito Autoral) e a Constituição Federal, art. 5º,
inc. XXVII e XXVIII, “a” e “b”.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

C416s
Cerqueira, Sônia Margarida Bandeira

Sociedade, direito e cidadania. / Sônia Margarida


Bandeira Cerqueira, Raquel Mattoso Mattedi. –
Salvador: UNIFACS, 2013.

181 p.
ISBN

1. Cidadania. 2. Direito. 3. Estado I. Mattedi,


Raquel Mattoso. II. Título.
CDD: 326.3
Sumário
Capítulo1: Introdução--------------------------------------------------------------------------- 11
1 Conceito de economia------------------------------------------------------------------------ 12
1.1 Problemas econômicos fundamentais----------------------------------------------------- 15
1.2 Curva das possibilidades------------------------------------------------------------------- 18
2 Evolução do pensamento econômico------------------------------------------------------- 23
2.1 Escola Clássica------------------------------------------------------------------------------ 24
2.2 Teoria Neoclássica-------------------------------------------------------------------------- 25
2.3 Marxismo------------------------------------------------------------------------------------- 26
2.4 Keynesianismo------------------------------------------------------------------------------- 27
3 A relação entre Economia e outras áreas do conhecimento----------------------------- 28
Síntese--------------------------------------------------------------------------------------------- 33

Capítulo 2: Microeconomia--------------------------------------------------------------------- 35
Introdução----------------------------------------------------------------------------------------- 35
1 Conceito de microeconomia----------------------------------------------------------------- 36
1.1 Pressupostos básicos da análise microeconômica--------------------------------------- 37
2 Demanda, oferta e equilíbrio de mercado-------------------------------------------------- 39
2.1 Demanda------------------------------------------------------------------------------------- 39
2.2 Oferta----------------------------------------------------------------------------------------- 44
2.3 Equilíbrio de mercado---------------------------------------------------------------------- 47
3 Interferência do governo---------------------------------------------------------------------- 49
3.1 Políticas de controle de preços------------------------------------------------------------ 49
4 Conceito de elasticidade---------------------------------------------------------------------- 52
4.1 Elasticidade – Preço da demanda--------------------------------------------------------- 52
4.2 Elasticidade – Preço da oferta------------------------------------------------------------- 54
4.3 Elasticidade – Renda da demanda-------------------------------------------------------- 55
4.4 Elasticidade – Cruzada da demanda----------------------------------------------------- 56
5 Produção e custos------------------------------------------------------------------------------ 57
5.1 Teoria da Produção-------------------------------------------------------------------------- 57
6 Custos de produção--------------------------------------------------------------------------- 61
7 Maximização dos lucros----------------------------------------------------------------------- 63
8 Estruturas de mercado------------------------------------------------------------------------- 63
Síntese--------------------------------------------------------------------------------------------- 66

Capítulo 3: Macroeconomia-------------------------------------------------------------------- 67
Introdução----------------------------------------------------------------------------------------- 67
1. Introdução à macroeconomia--------------------------------------------------------------- 68
1.1 Estrutura de análise macroeconômica---------------------------------------------------- 68
1.2 Instrumentos de política macroeconômica----------------------------------------------- 74
2. Contabilidade social-------------------------------------------------------------------------- 77
2.1 Medida do Produto e da Renda Nacional------------------------------------------------ 77
2.2 Teoria da Determinação da Renda-------------------------------------------------------- 81
Sumário
2.3 Introdução à Teoria Monetária------------------------------------------------------------ 86
2.4 Inflação--------------------------------------------------------------------------------------- 93
Síntese--------------------------------------------------------------------------------------------- 96

Capítulo 4: O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico----------------------------- 97


Introdução----------------------------------------------------------------------------------------- 97
1 O setor público-------------------------------------------------------------------------------- 98
1.1 Funções econômicas do setor público---------------------------------------------------- 99
1.2 Estrutura tributária------------------------------------------------------------------------- 101
1.3 Tipos de tributos--------------------------------------------------------------------------- 103
1.4 Orçamento público----------------------------------------------------------------------- 104
1.5 Déficit público----------------------------------------------------------------------------- 106
2 Teorias de crescimento e desenvolvimento econômico---------------------------------- 108
2.1 Fontes de crescimento-------------------------------------------------------------------------
2.1 Fontes de crescimento-------------------------------------------------------------------- 110
2.2 Financiamento de desenvolvimento----------------------------------------------------- 112
2.3 Modelos de crescimento econômico --------------------------------------------------- 113
2.4 Estágios de desenvolvimento------------------------------------------------------------- 114
Síntese------------------------------------------------------------------------------------------- 117
Bibliográficas----------------------------------------------------------------------------------- 118
Apresentação
Por que estudar Economia? Para responder a essa indagação, é preciso pensar como essa
disciplina pode lhe auxiliar a compreender o mundo de maneira mais crítica.

Por que os imóveis na cidade de São Paulo são mais caros do que em muitas cidades do interior?
Por que Neymar Jr. tem um salário tão acima de outros jogadores? Por que temos a sensação de
que os nossos salários passam a comprar menos produtos em determinados períodos? Ganhos
de renda se traduzem em qualidade de vida? Por que o governo não imprime mais dinheiro e o
distribui?

E a Economia também apresenta um instrumental poderoso para a tomada de decisão: quanto da


minha renda devo gastar? Devo dedicar meu tempo e esforço fazendo faculdade ou trabalhando?
Quanto devo cobrar pelo meu trabalho? Qual preço deve ser cobrado pelo produto que vendo?
Quanto devo produzir para maximizar o meu lucro?

Por fim, a Economia lhe permite avaliar a efetividade e a necessidade das políticas econômicas
adotadas pelo Estado: os programas de redistribuição de renda, como o Bolsa Família, são
socialmente justos e eficientes? A imposição de impostos sobre produtos importados beneficia a
quem? A privatização do setor de telefonia trouxe melhores serviços?

Na medida em que os argumentos para todos esses questionamentos têm respaldo na Ciência
Econômica, espera-se que, ao final desta disciplina, você seja capaz de buscar suas próprias
respostas.

Bons estudos!
Capítulo 1 Visão Geral das Questões
Econômicas Fundamentais
Introdução
Neste Capítulo, você terá contato com os conceitos de escassez, produção, bens e serviços e
fatores de produção. Você vai aprender sobre a evolução do pensamento econômico através
dos tempos e estudar as principais teorias econômicas que marcaram as ações desse campo do
conhecimento. Além disso, terá contato com os modelos econômicos e aprenderá sobre dois
modelos elementares da economia: o Fluxo Circular de Renda e a Curva das Possibilidades de
Produção. O principal objetivo deste Capítulo é propiciar-lhe conhecimentos suficientes para
que você tome decisões quando estiver diante de conjecturas mercadológicas ou financeiras,
nacionais ou internacionais.

11
Visão Geral das Questões Econômicas Fundamentais

1 Conceito de economia
Você já deve ter ouvido falar a palavra “economia” milhares de vezes, não é mesmo? Desde
que era criança, ouvia seus pais dizerem que é preciso fazer economia, e depois que passou a
entender melhor o mundo, ouviu essa palavra ser pronunciada por uma porção de pessoas e
com as mais diversas utilizações. Tem economia financeira, economia política, microeconomia,
macroeconomia... Ufa!

Mas o que é economia, afinal? A origem da palavra é atribuída a Aristóteles, filósofo e matemático
grego que viveu entre 384 e 322 a.C. É a junção da palavra grega oikos (casa) e nomos (norma,
lei), e deve ser entendida como “administração da casa”, ou “administração da coisa pública”.
Nos tempos modernos, a economia passou a ser a ciência social que estuda a forma pela qual
os homens, as nações ou as instituições empregam seus recursos na produção de bens e serviços
para atender às suas necessidades.

VEJA O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS


SAMUELSON, P. A. (1975): A Economia é a ciência que se preocupa com o estudo das
leis econômicas indicadoras do caminho que deve ser seguido para que seja mantida em
nível elevado a produtividade, melhorado o padrão de vida das populações e empregados
corretamente os recursos escassos.

BARRE, R. (1970): A Economia é a ciência voltada para a administração dos escassos


recursos das sociedades humanas: ela estuda as formas assumidas pelo comportamento
humano na disposição onerosa do mundo exterior em decorrência da tensão existente entre
os desejos ilimitados e os meios limitados aos agentes da atividade econômica.

STONIER, A. W.; HAGUE, D. C. (1971): Não houvesse escassez nem necessidade de repartir
os bens entre os homens, não existiriam tampouco sistemas econômicos, nem Economia. A
Economia é, fundamentalmente, o estudo da escassez dos problemas dela decorrentes.

Fonte: ROSSETTI, J. P. (1994)

A humanidade somente sentiu a necessidade de estudar economia ou ciências econômicas em


função da falta ou insuficiência de alguma coisa, ou seja: a escassez. Observe que existe um
eterno conflito entre as nossas necessidades e os recursos disponíveis. As nossas necessidades
são ilimitadas, enquanto os nossos recursos são escassos.

Vamos entender isso de outra forma. Um antigo professor de economia costumava perguntar
aos seus alunos, logo na primeira aula: quem aqui ganha pouco? E solicitava que os alunos que
julgavam ganhar pouco levantassem uma das mãos. Quando me vi diante desse questionamento,
levantei as duas mãos, confesso.

Para minha surpresa, o professor disse para eu experimentar viver na época dos meus avós, em
que certamente meus ganhos seriam mais que suficientes.

Isso me forçou a uma rápida reflexão: meus avós não tinham automóvel, televisão, telefone,
micro-ondas, TV por assinatura, celular, computador, máquina de lavar roupas etc. Sem contar
que não tinham qualquer conforto em sua residência, como chuveiro elétrico, banheiro interno,

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água tratada, esgoto, fogão a gás etc. Também tinham pouco acesso ao lazer, não viajavam,
não iam ao cinema, ao teatro, ou a algum show musical, aliás, pouco sabiam da existência de
artistas.

Dá para entender facilmente por que meus ganhos são insuficientes, não é mesmo? Eu tenho
outras necessidades, e olha que elas são infinitas, ou melhor, não basta mais eu ter um automóvel,
que deveria ser o sonho de consumo dos meus avós, um automóvel para a família inteira. As
famílias modernas possuem a necessidade de um automóvel para cada membro da família. A
vida nos impõe isso.

Agora, vamos sair do plano individual para o plano coletivo. Nesse plano, quando você ouvir
falar de necessidade, esteja certo de que alguém está se referindo aos bens e serviços que
garantem a nossa sobrevivência enquanto espécie.

Você já pensou em uma lista para as suas necessidades? Somente para ajudá-lo, elaborei uma
lista das necessidades do homem atual, e é bem provável que sua lista seja muito parecida com
esta:

• Alimentos;

• Vestuário;

• Moradia;

• Móveis para a casa;

• Água tratada e saneamento básico;

• Eletricidade;

• Utensílios domésticos;

• Eletrodomésticos;

• Transporte;

• Lazer e recreação;

• Educação;

• Saúde;

• Segurança;

• Cultura.

Observe que a lista é infindável, e existe apenas uma pequena parcela da humanidade que
consegue usufruir da totalidade da lista de necessidades humanas. Uma parcela significativamente
maior consegue acesso somente a uma parte da lista, a parte denominada necessidades básicas,
ou seja, as necessidades ligadas às questões de sobrevivência.

Porém, milhões de pessoas em todo o mundo não conseguem alcançar a lista de necessidades
básicas como um todo, e ainda assim em quantidades insuficientes. Você já imaginou quantas
pessoas passam fome no mundo? Ou no Brasil? Quantas pessoas não têm acesso a água
tratada ou saneamento básico? Quantas pessoas moram na rua? Pois é, o nome dessa situação

13
Visão Geral das Questões Econômicas Fundamentais

é “exclusão social”. Os socialmente excluídos não possuem acesso aos bens e serviços mais
elementares para a sua sobrevivência e, por conseguinte, não participam das decisões da
sociedade.

Outro detalhe importante que precisa ser levado em consideração é que, dentre a parcela da
população que tem acesso pelo menos à lista de necessidades básicas, a imensa maioria não tem
segurança de que continuará mantendo esse acesso pela vida inteira.

Você deve estar se perguntando: onde a economia entra em tudo isso? Isso que você acabou de
ler diz respeito à escassez. A maioria das pessoas que conseguem acesso aos itens da lista de
necessidades básicas o faz à custa de muito trabalho e luta, por todo o tempo das suas vidas.
Esteja certo disso.

Agora é chegado o momento de você entender o que é “escassez de recursos”. Mas você sabe
o que são recursos?

Para responder a essa questão, pense na lista das necessidades humanas. O que é preciso para
que cada um desses itens esteja disponível para o consumo? Em linhas gerais, uma necessidade
humana é satisfeita através do acesso a um bem econômico, o qual foi resultado de um processo de
transformação. Esse processo de transformação se caracteriza pelo “uso de recursos para mudar
o estado ou condição de algo para produzir outputs” (SLACK; CHAMBERS; JOHNSTON, 2007,
p. 36). O quadro a seguir descreve algumas operações por meio de processos de transformação:

Quadro 1 – Descrição dos processos de transformação de diferentes operações

Fonte: SLACK; CHAMBERS; JOHNSTON, 2007, p. 37.

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Se observarmos mais atentamente, os recursos de inputs listados no quadro podem ser classificados
em três grupos fundamentais:

• Terra ou recursos naturais: representa todos os recursos originados diretamente na natureza;

• Trabalho: além de mão de obra, esse recurso engloba as atividades técnicas, administrativas
e intelectuais, representando, portanto, todo o esforço humano empregado no processo de
produção;

• Capital: todos os inputs capazes de elevar a eficiência do trabalho humano, por exemplo,
equipamentos e instalações.

Você já deve ter percebido que todos os recursos da produção, qualquer que seja a classificação,
são escassos. Isso ocorre porque a natureza é finita, não dispõe dos recursos de forma abundante
e não os disponibiliza em todos os lugares. O petróleo, por exemplo, é encontrado em apenas
algumas regiões do mundo.

A mão de obra também é limitada, ora por problemas de qualificação e conhecimento, ora por
questões de disponibilidade de pessoas. Ainda sobre a questão da mão de obra, existe também
o problema da distribuição demográfica, ou seja, algumas regiões do mundo são mais habitadas
que outras, o que provoca um desequilíbrio no uso do recurso.

Finalmente, você há de convir que o homem faz mau uso dos recursos existentes, e alguns recursos
que já foram encontrados em abundância passaram a ser escassos pelo seu uso indiscriminado e
irresponsável. Você já deve ter ouvido falar sobre a crise hídrica, iniciada em 2014, certo?

Se todos os recursos fossem encontrados em abundância, ou seja, se não houvesse escassez de


recursos, você não precisaria estar estudando economia neste instante. Temas como desemprego,
inflação, balança de pagamentos etc. decididamente estariam fora da mídia e das nossas
preocupações diárias, não é mesmo?

1.1 Problemas econômicos fundamentais


O maior problema enfrentado pela humanidade ao longo de toda a sua história é fazer escolhas
diante da escassez de recursos. As pessoas, empresas, governos, sindicatos e qualquer forma de
organização social humana precisam decidir o que, quanto, como e para quem produzir.

Há quase meio século, o homem convive com o “conflito de gerações”, provocado pelas
mudanças nas tecnologias de produção e no ritmo de consumo que afetam os valores e o
comportamento da sociedade. O trabalho é o vetor-chave desse processo de transformação, de
postura empreendedora e de geração de novas necessidades, e a escassez é o obstáculo a ser
transposto.

Você já deve ter deparado com uma fila em uma agência bancária, correto? A fila se forma
porque o caixa não consegue atender todos os clientes na mesma velocidade de chegada destes,
ou seja, no intervalo de tempo em que o caixa está atendendo o primeiro da fila, chegam mais
dois ou três clientes. Se você estiver na fila, normalmente reclama com a gerência do banco, que
deveria abrir mais pontos de atendimento, mais caixas.

Esse é um problema de escassez de recursos. O gerente do banco não pode abrir novos pontos
de atendimento indefinidamente, tanto pelo custo operacional do banco quanto pela falta de
funcionários capacitados a executar essa função.

Observe que o simples pensar em aumentar os pontos de atendimento lhe direciona para o

15
Visão Geral das Questões Econômicas Fundamentais

trabalho, ou melhor, aumentando o volume de trabalho, o problema estaria resolvido. Como


essa solução não é possível, o jeito é administrar a escassez.

Para administrar a escassez ou tentar superá-la, usamos a produção e, por conseguinte, o


trabalho. Assim, voltamos ao questionamento inicial: o que produzir? Quanto produzir? Como
produzir? E para quem produzir?

Uma coisa é certa: a humanidade produz apenas bens e serviços. Produzir bens e serviços é a
resposta humana para os problemas de escassez.

Você não tem uma ideia clara do que sejam bens e serviços? Não se preocupe, isso é confuso
mesmo. Afinal existem bens de consumo, bens de capital, bens duráveis etc. Mas aqui vão
algumas dicas para esclarecer suas dúvidas:

VEJA ESTAS DICAS


Bens e serviços são resultado do trabalho humano realizado para suprir
as necessidades humanas. Os bens são tangíveis, físicos, e são resultado da
transformação da matéria-prima em produtos. Os serviços são intangíveis,
abstratos, e são resultados de ações específicas realizadas por técnicas
específicas, dominadas pelos homens. Um avião é físico, pois é possível tocá-
lo, senti-lo, e vê-lo, mas o transporte de passageiros que ele realiza não poe
ser tocado, sentido e nem visto, sendo portanto um serviço.

Espero que, após as dicas, você tenha entendido as diferenças entre bens e serviços. Para
sedimentar mais ainda essa compreensão, veja a Figura 1. Ela apresenta as características que
diferenciam os bens e os serviços. Observe que no centro do gráfico existem “bolas divididas”, ou
melhor, tipos de produção que atuam tanto como bens quanto serviços, ou seja, atividades que
englobam características tangíveis e intangíveis. É o caso dos restaurantes, que servem um bem
(o alimento físico) e o serviço (atendimento do garçom).

sal
refrigerantes
detergentes
automóveis
cosméticos
lojas de
fast-food
PREDOMINANTEMENTE
INTANGÍVEIS

PREDOMINANTEMENTE
TANGÍVEIS
lojas de
fast-food

agências de
propaganda linhas
aéreas gerência de
investimentos consultoria
ensino

Figura 1 – Escala de tangibilidade. Fonte: HOFFMAN et al., 2010, p. 6.

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Mas esteja atento porque isso não para por aí. Os bens são subdivididos em quatro grupos:

• Bens de consumo não duráveis: são os produtos físicos que se esgotam em curto período
de tempo, e assim devem ser repostos com frequência. Neste subgrupo incluem-se peças de
vestuário e calçados, alimentos, produtos de higiene e limpeza, medicamentos etc.;

• Bens de consumo duráveis: são os produtos físicos que não precisam ser substituídos
com tanta frequência, pois o tempo de desgaste é consideravelmente maior. Automóveis,
eletrodomésticos, computadores e aparelhos eletrônicos, mobília e utensílios domésticos são
produtos que se encaixam neste subgrupo;

• Bens intermediários: são produtos resultantes das ações de extrativismo ou da fase inicial
do processo industrial, porém não são consumidos, necessitando de reprocessamento para se
transformarem em bens de consumo. Neste subgrupo estão classificados o aço, o petróleo, os
produtos químicos, a celulose e as matérias-primas em geral;

• Bens de capital: são os produtos que não se destinam ao consumo das pessoas, e sim das
empresas. Em geral, esses bens atuam no processo produtivo transformando matérias-primas
em bens de consumo. Máquinas e equipamentos são os produtos mais característicos deste
subgrupo.

Agora, preste muita atenção: você acredita que existem produtos que podem tanto ser classificados
como bens de capital quanto como bens de consumo duráveis? Pois é, o automóvel é um desses
casos. Imagine um motorista de táxi. Se ele adquirir um automóvel para seu trabalho diário, é
um bem de capital, mas se adquirir um automóvel para o lazer de sua família, é um bem de
consumo durável.

Agora que você é quase um expert em bens e serviços, vamos retornar às nossas questões
fundamentais: o que produzir? Quanto produzir? Como produzir? Para quem produzir?

A escassez aliada a essas quatro questões centraliza os problemas econômicos fundamentais. A


economia busca incessantemente as respostas para essas questões.

• O que produzir? Esta é uma decisão que vai além dos limites da economia. A resposta
para essa questão está no centro da sociedade. É ela quem deve decidir se produz maiores
quantidades de bens de capital ou de bens de consumo.

Em países onde imperam as economias de mercado, como os países europeus, o Japão, o


Brasil e os Estados Unidos, somente para citar alguns, são os consumidores que indicam o que
produzir. A isso dá-se o nome de “soberania do consumidor”.

Mas em países com economias planificadas ou centralizadas, como China, Cuba e outros, a
decisão é tomada por um Órgão Central de Planejamento, vinculado ao Estado.

• Quanto produzir? Aqui também é uma decisão da sociedade. É ela quem deve dizer quais
quantidades de cada bem devem ser produzidas. Mais uma vez existe uma diferença entre a
tomada de decisão nas economias de mercado, em que as quantidades a serem produzidas são
definidas pela oferta e demanda. Porém, nas economias planificadas, ou centralizadas, essa
decisão cabe ao Órgão Central de Planejamento.

• Como produzir? Esta decisão cabe ao contexto empresarial nas economias de mercado, pois
é dependente dos recursos disponíveis e da capacidade de investimento. Geralmente, passa pela
eficiência desejável e pelos métodos de produção utilizados: capital intensivo ou mão de obra
intensiva? Sociedades com necessidade de geração de emprego optam pelo uso da mão de obra
intensiva. Já as sociedades com grande disponibilidade de recursos financeiros optam pelo uso

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Visão Geral das Questões Econômicas Fundamentais

do capital intensivo.

• Para quem produzir? Aqui o problema é de distribuição da renda gerada, ou seja, a


sociedade deve decidir quem serão os beneficiados na comercialização dos produtos. Nas
economias de mercado, os beneficiários são as pessoas de maior poder aquisitivo, porém nas
economias planificadas ou centralizadas, a decisão sobre os beneficiários cabe ao governo.

Assim, para entender a economia como ciência, você precisará colocar o conjunto de processos
(produção, distribuição e consumo) no centro da dinâmica. Você pode imaginar quantas decisões
a combinação desses processos pode gerar?

Os produtores precisam decidir como combinar os recursos de produção e quanto de cada


recurso utilizar. Os consumidores precisam decidir quanto adquirir de cada bem ou serviço
para satisfazer suas necessidades. Tanto produtores quanto consumidores possuem restrições
financeiras, o que implica renunciar a alguma coisa para priorizar outra.

Assim, você enquanto consumidor, ao escolher comprar mais de um determinado produto, esteja
certo de que terá que reduzir a compra de outros. Esta lei da economia é implacável.

1.2 Curva das possibilidades


Atualmente existem mais de 7 bilhões de pessoas em todo o mundo, todas envolvidas em um
frenético conjunto de atividades de comprar, alugar, produzir, vender, trabalhar, viajar etc.
Em razão dessa complexidade toda é que se torna cada vez mais difícil o entendimento do
funcionamento da economia.

Mas, calma, sempre existe uma solução. Alguns economistas desenvolveram modelos simplificados
para explicar como a economia se organiza. A Figura 2 é um exemplo:

Figura 2 – Fluxo circular da renda. Fonte: BRAGA; VASCONCELLOS, 2011, p. 11.

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Ao analisar a Figura 2, você deve ter concluído que esse modelo apresenta apenas dois agentes
econômicos responsáveis por tomar decisões no sistema econômico: famílias e empresas, mas
poderíamos ter uma infinidade deles, incluindo também o governo, o comércio internacional, ou
subdividindo as famílias.

Observe que a interação dos agentes econômicos se dá em dois tipos de mercados (os fatores
de produção e bens e serviços) e efetiva dois fluxos (real e monetário).

O fluxo real representa o processo de satisfação das necessidades em si, ou seja, a produção e
a distribuição de bens e serviços. Ao observarmos esse fluxo, cada um dos agentes assume um
papel duplo: as famílias demandam bens e serviços e ofertam fatores de produção; as empresas,
por sua vez, demandam esses fatores de produção para poder ofertar bens e serviços.

Nesse sentido, descrevemos o fluxo real da seguinte maneira: as empresas alocam os fatores
de produção ofertados pelas famílias em processos produtivos, os quais terão como resultado a
produção de bens e serviços. Estes serão vendidos através dos mercados de bens e serviços para
as famílias. E esse fluxo é incessante, ocorrendo de maneira ininterrupta.

Por sua vez, para que esse fluxo real de mercadorias que suprem as necessidades humanas seja
efetivado em um sistema econômico, há a necessidade do estabelecimento do fluxo monetário:
ninguém “trabalha” de graça, assim como nenhum produto é gratuito.

Isso significa que, quando as famílias ofertam os fatores de produção às empresas, elas exigem
em contrapartida uma remuneração. Assim, cada proprietário de fator de produção recebe uma
renda por sua utilização: trabalhadores ganham salários; arrendatários, aluguel; capitalistas,
juros e/ou lucro etc. Essa renda, que é ao mesmo tempo custo para as empresas, deverá ser
gasta na aquisição de bens e serviços. Logo, o que é gasto para as famílias se transforma em
receita para as empresas.

Nas chamadas economias de livre mercado, o governo apenas fiscaliza esse círculo de trocas de
forma a evitar abusos, mas, nas economias planificadas, o governo assume a tomada de decisão
tanto das empresas quanto da sociedade.

Guarde bem esse conceito do Fluxo Circular de Renda, pois ele será muito importante durante o
curso. Outro conceito de importância ímpar é a Curva das Possibilidades de Produção, também
conhecida como “Fronteira das Possibilidades de Produção”.

Imagine uma economia tão simplificada que produz apenas dois tipos de bens: máquinas agrícolas
(bens de capital) e alimentos (bens de consumo). Todo alimento produzido será utilizado para as
necessidades de nutrição das pessoas, e não poderá ser estocado para ser usado no dia seguinte
ou no futuro.

Como em toda economia, complexa ou simplificada, os recursos são escassos, e, para aumentar
a produção de alimentos e atender ao crescimento da população, por exemplo, precisamos
diminuir a produção de máquinas agrícolas. Mas se diminuirmos a produção de máquinas
agrícolas, a produção de alimentos nos anos seguintes será insuficiente para atender à demanda
da população. O que você faria?

A tabela a seguir mostra algumas possibilidades de produção dessa economia.

19
Visão Geral das Questões Econômicas Fundamentais

Tabela 1 – Economia com dois fatores de produção

Fonte: BRAGA; VASCONCELLOS, 2011, p. 6.

A alternativa A indica que todos os recursos de produção existentes serão utilizados para produzir
máquinas agrícolas, ou seja, representa a quantidade máxima de máquinas que essa economia
é capaz de produzir. A Alternativa D indica que todos os recursos de produção existentes serão
utilizados para produzir alimentos, ou seja, representa a quantidade máxima de alimentos que
essa economia é capaz de produzir. Somente para lembrar, se você optar por resolver o problema
imediato das pessoas, saciando a fome e produzindo somente alimentos, no futuro terá uma série
de problemas, afinal, se não produzir maquinário agrícola, não conseguirá expandir a produção
de alimentos para atender ao crescimento da população. Então, o que você faria?

Aparentemente, essa é uma questão de fácil solução. Basta identificar o nível de consumo de
alimentos atual, produzir somente o necessário e alocar os recursos de produção excedentes na
produção de maquinário agrícola. Mas você não pode estocar alimentos, e as necessidades da
população são crescentes. Além disso, os maquinários, como tratores e colheitadeiras, demoram
algum tempo para serem fabricados. E aí, o que você faria?

Para solucionar esse problema, primeiro você precisa conhecer o conceito da Curva de
Possibilidades de Produção (CPP), que representa esquematicamente a fronteira máxima que uma
economia consegue produzir, onde se pressupõe o pleno emprego dos recursos disponíveis.
Analise atentamente o gráfico apresentado na Figura 3.

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Figura 3 – Curva de possibilidades de produção. Fonte: BRAGA; VASCONCELLOS, 2011, p. 7.

O que você concluiu da análise da Curva das Possibilidades de Produção representada na Figura
3? Vamos dar uma mãozinha.

Observe que, para produzir 10 mil máquinas agrícolas, nenhuma tonelada de alimento pode
ser produzida, pois todos os recursos da economia estão sendo empregados na produção das
máquinas agrícolas. Se produzir 8 mil máquinas, a economia conseguirá produzir no máximo
6 milhões de toneladas de alimentos. Essa análise se repete em todos os pontos sobre a Curva
das Possibilidades de Produção, e os especialistas dizem que a economia está operando a pleno
emprego de recursos, ou seja, não existe desemprego nem capacidade ociosa de produção.

Agora, observe o ponto E, em que a economia produz 8 mil máquinas agrícolas e 2 milhões de
toneladas de alimentos. Nesse caso, e para todo e qualquer ponto situado na parte interna da
curva, os especialistas dizem que a economia está subutilizando os recursos de produção, ou
seja, existe desemprego ou algum recurso está ocioso.

Por outro lado, a situação do ponto F, em que a economia produz 8 mil máquinas e 10 milhões de
toneladas de alimentos, é uma situação impossível de existir, pois a economia estaria operando
acima da sua capacidade e não disporia de recursos para tanto.

Os desdobramentos analíticos da CPP podem ser normativos1 e positivos2.

1
A análise econômica normativa estabelece as bases para a construção de um cenário idealizado, com o intuito de estabele-
cer propostas do que deveria ser.
2
A análise econômica positiva, por sua vez, estabelece os aspectos práticos dos problemas econômicos, com enfoque em
descrever o que de fato é.

21
Visão Geral das Questões Econômicas Fundamentais

Quadro 2 – Desdobramentos analíticos da CPP

Fonte: Autor.

A análise da Curva das Possibilidade de Produção não para por aí. Observe que a CPP é côncava
em relação à origem e decrescente.

A concavidade é relativa à denominada “Lei dos Custos Crescentes”, em que a remoção de


mão de obra da produção de alimentos para a produção de máquinas agrícolas provoca custos
gradativamente crescentes, pois o uso de trabalhadores menos qualificados em um setor traz
aumentos significativos nos custos. Já o fato de a CPP apresentar-se decrescente é devido ao
sacrifício que será feito ao optar-se pela produção de bens de consumo em detrimento de bens
de produção.

Agora você já pode ser considerado um expert em Curva das Possibilidades de Produção e
apostamos que você está apto para propostas mais desafiadoras, quer experimentar?

NÓS QUEREMOS SABER!


Nos períodos pós-guerras, o mundo acaba vivendo períodos de grande desenvolvimento
e consequente aumento da produtividade. Você saberia responder por que isso acontece?

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2 Evolução do pensamento econômico
O estudo da Teoria Econômica teve sua origem a partir da publicação da obra clássica de Adam
Smith, A Riqueza das Nações, em 1776. O livro lançou as bases da Revolução Industrial e o
estudo da economia de forma sistematizada.

VOCÊ O CONHECE?
Você já ouviu falar de Adam Smith? Ele é considerado o “Pai da Economia Moderna“.
Nasceu em 5 de junho de 1723 em Kirkcaldy, na Escócia. Foi filósofo e economista,
tendo como cenário de vida o século XVIII. Em 1776, publicou sa principal obra: A
Riqueza das Nações, um verdadeiro classico lido e relido até os dias atuais. Adam
Smith acreditava na livre iniciativa e que o mercado se ajustaria sozinho, sem qualquer
tipo de intervenção do governo. Para ele, a simles competição entre concorrentes seria
suficiente para que os preços caíssem e as inovações tecnológicas, por si só, seriam
responsáveis pelo barateamento dos custos de produção.

Apesar da importante contribuição de Adam Smith para a Economia Moderna, os primeiros


estudos sobre economia vêm da Grécia Antiga, onde, segundo consenso dos historiadores e
economistas, o termo “economia” foi cunhado por Aristóteles.

Somente no século XVI é que surgiu a primeira escola econômica: o mercantilismo. Essa escola
preocupava-se com a acumulação de riquezas das nações e o fomento do comércio exterior,
muito embora ainda se tratasse de conceitos elementares.

Apesar de iniciar uma série de discussões a respeito do papel da moeda na economia, dos
efeitos multiplicadores da renda, entre outros, a escola mercantilista assentava-se em princípios
absolutamente empíricos, sem a preocupação com o desenvolvimento de fundamentos teóricos
que os embasassem.

Um preceito básico do mercantilismo era atribuir o poder e a força de um país ao acúmulo de


ouro e prata. Essa influência chegou até nossos dias, à medida que a capacidade de emissão de
moedas de um país estava vinculada ao lastro em ouro desse mesmo país.

É evidente que esses preceitos reforçaram o poder do Estado nas decisões econômicas, além de
incentivar guerras e estimular o nacionalismo.

Como contraponto ao mercantilismo, surgiu no século XVIII, na França, a fisiocracia. Essa


escola do pensamento econômico pregava a supremacia da lei da natureza, acreditando ser
desnecessária a regulamentação do Estado sobre a economia. Para os fisiocratas, a terra era
tida como fonte de riqueza única e o universo era regido por leis naturais determinadas pela
Providência Divina.

Contrariando o pensamento mercantilista, em que a riqueza era proporcionada pelo acúmulo


de metais preciosos, os fisiocratas afirmavam que a riqueza era derivada da produção de bens
obtidos pelas atividades econômicas da época (agricultura, pesca e mineração).

Sobretudo o desenvolvimento da escola fisiocrata estava centrado na figura de Quesnay,


primeiro autor a conferir um viés analítico e científico para problemáticas econômicas. Suas
ideias ancoravam-se em princípios da escola filosófica utilitarista e sua maior contribuição foi a

23
Visão Geral das Questões Econômicas Fundamentais

construção de um quadro econômico, o qual expunha as contribuições dadas por cada classe
social ao sistema econômico.

Para o autor, o sistema econômico era considerado um organismo vivo (lei natural), e sua
representação numérica permitiu que se chegasse à conclusão do papel de cada classe social,
as quais dividiam-se em:

• Classe produtiva: agricultores, assalariados e outros trabalhadores agrícolas;

• Classe proprietária: soberano, nobreza proprietária e clero;

• Classe estéril: comerciantes, manufatureiros e seus trabalhadores.

Ao observar que os agricultores precisam acumular capital para conseguir iniciar a produção,
chegou-se à conclusão de que a única classe capaz de gerar algum tipo de excedente era a
produtiva.

2.1 Escola Clássica


O período da Escola Clássica foi especialmente fértil em estudos e publicações econômicas, a
começar por Adam Smith. A contribuição dos autores da Escola Clássica foi fundamental para
que a Economia passasse a ter suas próprias teorias e formar um conjunto de ferramentas de
análise das consequências das ações econômicas.

O pensamento comum a todos os autores da Escola Clássica era o da livre iniciativa e as leis do
mercado regendo a economia, cabendo ao Estado apenas as funções fiscalizatórias para coibir
abusos.

Adam Smith desenvolveu o conceito da “mão invisível”, segundo o qual a livre concorrência,
por si só, conduziria a sociedade à perfeição. Ele criou a Teoria do Valor-Trabalho, em que a
divisão do trabalho e a especialização nas funções são fatores decisivos na busca pelo aumento
da produção.

Para Adam Smith, a produtividade é derivada da divisão e da subdivisão do trabalho e da


ampliação dos mercados, ou seja, especializar os trabalhadores em suas tarefas mais simples e
ganhar a escala de produção como fatores de geração de riqueza.

O papel do Estado, na economia de Adam Smith, é limitado à proteção da sociedade contra a


especulação financeira e à manutenção da infraestrutura necessária para o funcionamento da
economia.

Outro autor bastante influente foi David Ricardo, que discutiu o rendimento das terras mais
férteis quando comparado à produtividade das terras menos férteis e a questão do comércio
internacional.

Ele desenvolveu a ideia de que somente o custo do trabalho resume todos os demais custos e
que o crescimento da população aliado à acumulação de riqueza provoca um aumento da renda
da terra até um certo limite. Após esse limite, os rendimentos decrescentes diminuem os lucros
e a poupança torna-se nula, colocando a economia em um estágio estacionário, com salários
marginais e crescimento zero.

Vale ressaltar que Adam Smith criou a Teoria das Vantagens Absolutas, no comércio internacional,
enquanto David Ricardo criou a Teoria das Vantagens Comparativas. Assim, ambos trabalharam
teorias a respeito desse comércio.

24 Laureate- International Universities


VEJA O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS
ADAM SMITH (1723-1790): a defesa do mercado como regulador das decisões econõmicas
de uma nação traria muitos benefícios para a coletividade, independente da ação do Estado.
É o princípio do liberalismo.

DAVID RICARDO (1772-1823): seus estudos deram origem a duas correntes antagônicas: a
neoclássica, pelas suas abstrações simplificadoras, e a marxista, pela ênfase dada à questão
distributiva e aos aspectos sociais na repartição da renda da terra.

JOHN STUART MILL (1806-1873): consolidou o exposto por seus antecessores, e avança
ao incorporar mais elementos institucionais e ao definir melhor as restrições, vantagens e
funcionamento de uma economia de mercado.

JEAN BAPTISTE SAY (1768-1832): criou a Lei de Say: “A oferta cria sua própria procura“, ou
seja, o aumento da produção transforma-se-ia em renda dos trabalhadores e empresários,
que seria gasta na compra de outras mercadorias e serviços.

THOMAS MALTHUS (1766-1834): a causa de todos os males da sociedade reside no


excesso polulacional. Enquanto a população cresce em progresso geométrico, a produção
de alimentos segue em progresso aritmético. Assim, o potencial da população esxcede em
muito o potencial da terra na produção de alimentos.

Fonte: VASCONCELLOS; GARCIA (2000)

Os economistas clássicos procuraram descobrir leis gerais que regiam e regulamentavam o


comportamento da economia, porém são criticados pela abordagem excessivamente normativa
que tentaram dar à complexa ciência econômica, esquecendo ou minimizando a influência do
homem na questão.

2.2 Teoria Neoclássica


Os autores da Teoria Neoclássica deram ênfase ao raciocínio matemático aplicado às questões
econômicas, deixando um pouco de lado as questões políticas e o planejamento devido à crença
no livre mercado e sua condição autorreguladora.

O foco da Teoria Neoclássica está no desejo de satisfação do consumidor e na maximização


do lucro por parte do produtor. O equilíbrio do mercado é calculado através da medição do
grau de satisfação do consumidor e de produção, sendo consideradas também as restrições
financeiras e as restrições dos recursos de produção. Essa forma de ver as coisas deu origem à
Teoria Marginalista desenvolvida por Alfred Marshall.

A Teoria Neoclássica colocou a microeconomia no centro das atenções, porém não se furtou
totalmente das questões da macroeconomia, em que se destacam os trabalhos de Schumpeter,
“Teoria do Desenvolvimento Econômico” e de Böhm-Bawerk, “Teoria do Capital e dos Juros”.
A Teoria Neoclássica foi fundamentada no trinômio produção-distribuição-consumo, porém as
ideias de Alfred Marshall deram outro contorno a essa visão, incluindo também os conceitos de
riqueza e bem-estar social.

25
Visão Geral das Questões Econômicas Fundamentais

VOCÊ O CONHECE?
Você já ouviu falar de Alfred Marshall? Nasceu em Londres em 26 de julho de 1842 e
foi um dos mais influentes economistas dentre os neoclássicos. Sua principal obra foi o
livro “Princípios de Economia“ onde foram reunidas as teorias da oferta e da demanda,
a utilidade marginal e dos custos de produção. O seu livro transformou-se em um
verdadeiro manual de economia, reconhecido nas principais escolas de economia de
todo o mundo. Em 1868 tornou-se professor na Universidade de Cambridge ocupando
a cadeira de economia política. Ele tinha como objetivo transformar a teoria econômica
em uma disciplina mais científica através do uso do rigor matemático. Publicou ainda,
em 1879, as obras A Teoria Pura do Comércio Exterior e A Teoria Pura dos Valores
Domésticos. Publicou ainda, juntamente com sua esposa Mary Payley Marshall, da qual
foi professor, “A Economia da Indústria“.

Na primeira metade da década de 1930, Lionel Robbins elaborou uma forma de caracterizar
e identificar os fenômenos econômicos. Ele fundamentou sua sistemática nos seguintes pontos:

• A atividade humana sempre possui múltiplas finalidades;

• Os objetivos humanos têm diversos níveis de importância e podem ser priorizados por essa
ordem;

• Os meios utilizados pelo homem para alcançar os múltiplos objetivos são limitados;

• Os meios utilizados pelo homem são flexíveis e podem ser utilizados de diferentes formas para
alcançar diversos objetivos.

Para Robbins, o fato econômico é caracterizado por um elo entre os quatro pontos vistos em
conjunto, jamais isoladamente. Esse elo é a capacidade humana de fazer escolhas.

Em linhas gerais, a Escola Neoclássica define a Economia como o estudo do homem na condução
das questões referentes à sua riqueza e a seu bem-estar.

2.3 Marxismo
Karl Marx (1818-1883) foi o principal crítico dos métodos clássicos, fundando uma escola
de pensamento que leva o seu nome. Em especial, criticava o tom “a-histórico” das teorias
econômicas. Ao desenvolver a Teoria do Valor-Trabalho, contudo, apropriou-se de alguns
conceitos da corrente clássica, particularmente, de David Ricardo.

Para o marxismo, o proletariado, uma classe social que centraliza a força de trabalho, é obrigado
a vender seu principal recurso de produção (mão de obra) para a burguesia, uma classe social
que se apropria da produção e aufere vantagens com essa apropriação. O valor dessa força de
trabalho, por sua vez, deveria ser determinado pelo tempo dedicado à produção. A discrepância
entre o tempo socialmente dedicado à criação de valor e o valor efetivamente recebido por um
trabalhador fundamentou o conceito chamado “mais-valia”.

As condições da produção do sistema capitalista, entretanto, obrigam o trabalhador a


vender mais tempo de trabalho do que o necessário para produzir valores equivalentes
às suas necessidades de subsistência. Os trabalhadores são obrigados a aceitar as
condições impostas pelos empregadores porque não dispõem de fontes alternativas de

26 Laureate- International Universities


renda. Assim, seu dia de trabalho compreende o tempo “necessário” à produção de
valores iguais às exigências de manutenção, e um tempo de trabalho “excedente”. O
valor criado pelo tempo de trabalho excedente é apropriado pelos detentores dos meios
de produção – os capitalistas –, ao que denominou mais-valia. (PINHO, 2011, p. 43).

A mais-valia, portanto, é o valor que excede o valor pago à força de trabalho que é apropriada
pelo capitalista, fazendo com que este acumule riquezas às custas do trabalho proletário.

Ademais, através da separação de classes sociais, o capitalismo firma suas bases de evolução,
tendo como principal motor o progresso técnico. O desenvolvimento tecnológico tem um papel
fundamental na reprodução desse tipo de exploração: na medida em que a máquina substitui o
homem nos processos de produção, ela é a principal responsável pela formação do exército de
reserva dos desempregados.

Por sua vez, essa massa desempregada é, na visão da escola marxista, a principal fonte de
rigidez dos salários: capitalistas, para aumentar a produção empregando mais trabalhadores,
não precisam elevar salários, basta contratar aqueles que estão desempregados.

VOCÊ O CONHECE?
Você já ouviu falar de Friedrich Engels? Filósofo alemão, trabalhou lado a lado com Karl
Marx, sendo também responsável pela formação da escola marxista. Escrevera junto a
Marx O Manifesto Comunista e O Capital.

2.4 Keynesianismo
Para entender a obra de John Maynard Keynes e a sua Teoria Geral do Emprego, dos Juros e
da Moeda, vamos fazer uma viagem no tempo e voltar aos anos 1930, quando o mundo vivia a
Grande Depressão, que teve início com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929.

Nessa época, o desemprego nos países industrializados da Europa e nos Estados Unidos assumia
índices elevadíssimos. Os economistas acreditavam ser um problema temporário, apesar de
a crise persistir alguns anos. A Teoria Geral de Keynes conseguiu mostrar por que as políticas
econômicas adotadas não estavam funcionando e apontou soluções para que os países deixassem
a recessão e voltassem ao caminho do crescimento econômico.

Segundo Keynes, o principal fator gerador de empregos é o nível de demanda agregada de uma
economia, invertendo a Lei de Say, segundo a qual a oferta cria sua própria procura. Nesse caso,
as forças de autoajustamento da economia deixam de atuar, impulsionando a economia para
uma recessão.

Assim, em momentos em que a atividade econômica começa a se enfraquecer, é vital a interferência


do Estado, impondo uma política de gastos públicos e investimentos em infraestrutura para
inverter a espiral recessiva e devolver a economia ao caminho do crescimento.

Esse conjunto de argumentos se revelara efetivo não somente por tirar diversos países da recessão
econômica, mas especialmente no período pós-Segunda Guerra Mundial, em que se tornou
necessária a reconstrução da economia dos países europeus.

Nos dias atuais, os preceitos de Keynes ainda são bastante debatidos, especialmente por

27
Visão Geral das Questões Econômicas Fundamentais

seguidores de três correntes distintas:

• Os monetaristas: defendem um baixo grau de interferência do Estado na economia e um forte


controle da moeda;

• Os fiscalistas: são partidários de um grau acentuado de interferência do Estado na economia


e o uso de políticas fiscais mais contundentes;

• Os pós-keynesianos: defendem a interferência do Estado na economia via controle das


especulações financeiras.

Como você pode observar, existem diferenças entre as várias correntes, porém todas são baseadas
na Teoria Geral de Keynes e concordam quanto aos seus pontos fundamentais.

3 A relação entre Economia e outras áre-


as do conhecimento
Pela própria formulação do pensamento econômico, é necessário que a Economia não seja
vista como um campo do conhecimento humano isolado, pois, se assim fosse, estaria sujeita a
equívocos de toda sorte, pois certamente deixaria de levar em consideração fatores importantes
que influem nas questões econômicas básicas.

Negligenciar a relação da Economia com outras áreas do conhecimento é simplesmente como


negligenciar a capacidade de realização do ser humano.

Assim, um estudo inicial sobre Economia e seus conceitos passa necessariamente por um capítulo
sobre a relação com outras áreas do conhecimento humano. São elas:

• A Economia e a Política

Existe uma secular relação de interdependência entre a Política e a Economia. À medida que
compete à Política a organização do Estado, as relações entre as classes sociais e a definição das
instituições para o desenvolvimento das atividades econômicas, as ações econômicas passam a
ser diretamente subordinadas à estrutura política da sociedade.

Essa interdependência tornou-se mais acentuada a partir do keynesianismo e suas soluções


para a recessão econômica mundial dos anos 1930. A partir de então, houve uma grande
transformação na estrutura econômica, baseada até então na livre iniciativa, e o Estado passou
a ter uma função intervencionista que modificou as bases do sistema capitalista. Nesse período, a
Política buscou na Economia soluções que pudessem dar continuidade às formas de organização
política vigentes nos países ocidentais que reconheciam a livre iniciativa como vital para o
desenvolvimento econômico.

Nos países socialistas, a justaposição das ações políticas e econômicas funciona como pilar
das instituições mantidas pelo Estado. Nos países socialistas, compete ao Estado as funções de
direcionamento econômico, uma vez que este controla todo o sistema de gestão e direção das
empresas.

Assim, qualquer que seja a orientação do Estado, Política e Economia estão inter-relacionadas a
tal ponto que perde o sentido estudá-las isoladamente, assim como ações isoladas de qualquer
uma das partes não surtem o efeito desejado.

Se você observar atentamente, a instabilidade econômica afeta diretamente as instituições

28 Laureate- International Universities


políticas, ao passo que o bom desempenho da Economia direciona um cenário político de
absoluta estabilidade.

• A Economia e a Sociologia

Os estudos ligados à Economia e a Sociologia também são bastante próximos, afinal ambas as
áreas de pensamento visam estudar organizações sociais.

Atualmente, existe um interesse crescente dos economistas pelas questões da realidade social e
como essas questões podem influenciar no desempenho da Economia, desde ações localizadas
atribuídas a problemas microeconômicos, isto é, relativos ao comportamento e processo decisório
dos agentes econômicos, até questões de macroeconomia, que se referem ao comportamento da
Economia como um todo.

Segundo Rossetti (1994), a interação social, o comportamento dos grupos, a mobilidade, a


estratificação, as mudanças sociais, a investigação das condições de vida das comunidades e
o exame dos diferentes níveis de organização e da cultura da sociedade são alguns dos setores
que caíram no campo de gravitação da Sociologia. Tais setores também interessam diretamente
às questões da análise econômica, pois podem explicar muitos dos fenômenos que afetam a
Economia das nações.

Os economistas contemporâneos entendem que os fatores condicionantes da atividade econômica


são frutos das relações sociais, cuja análise é de interesse da Economia, muito embora sejam
resultado da Sociologia.

Os avanços da Teoria Neoclássica e seus desdobramentos políticos, como a agenda neoliberal,


começaram a trazer explicações para problemáticas tradicionalmente atribuídas a sociólogos.
Assim, economistas começaram a explicar, através de abordagens como o individualismo
metodológico, e modelos, como a teoria dos jogos, questões relativas a escolhas nos casamentos,
mudanças nas taxas de natalidade, entre outras.

A resposta dos sociólogos diante desse movimento de apropriação dos fenômenos sociais
culminou na consolidação da Nova Sociologia Econômica.

• A Economia e a História

É inegável que os principais fatos que marcaram a história da humanidade tiveram motivação
econômica, ou você é daqueles que acreditam que os portugueses lançaram-se no Oceano
Atlântico rumo aos grandes descobrimentos simplesmente pela grandeza do fato? Foram questões
econômicas que motivaram portugueses, espanhóis, holandeses, franceses e ingleses a partirem
rumo à colonização da América.

Também foram questões econômicas que motivaram as grandes guerras mundiais, assim como
foram questões econômicas que impulsionaram Napoleão Bonaparte à expansão de seu império.
A pesquisa sobre os acontecimentos que marcaram a história mundial é de incontestável valor
para o economista, abastecendo-o de informações sobre as atividades humanas localizadas no
tempo e no espaço, fornecendo farto material sobre a evolução das tendências e promovendo a
inter-relação entre os acontecimentos.

Em algumas ocasiões, o fato histórico acaba por impulsionar a economia de uma determinada
região, como foi o caso da participação do Japão na Segunda Guerra Mundial, quando ao país
derrotado não restava outra alternativa senão desenvolver um esforço supremo de reconstrução,
sob pena de se submeter a uma catástrofe ainda maior. Esse esforço provocou enormes avanços
na economia japonesa, que em pouco mais de 30 anos alcançou o status de uma das maiores
economias do mundo.

29
Visão Geral das Questões Econômicas Fundamentais

Assim, a inter-relação História-Economia é fundamental para o entendimento das rápidas


mudanças que sacodem as estruturas da sociedade contemporânea, fornecendo elementos para
que o homem possa superar os desafios de construir condições de equilíbrio social, mesmo
diante das turbulências típicas da vida contemporânea.

• A Economia e a Geografia

A criação de um campo de estudo denominado “Geografia Econômica” é a prova mais


contundente do inter-relacionamento entre as duas áreas do conhecimento, que são consideradas
complementares.

A Geografia Econômica fornece subsídios sobre os recursos humanos e naturais disponíveis


em determinada região, além de análises climatológicas, hidrográficas etc. que servem como
indicadores para as políticas econômicas de distribuição de recursos financeiros com mais
eficiência.

A interação entre a Economia e a Geografia permite que a última deixe de ser uma mera
mapeadora de acidentes geográficos e dos indicadores climáticos e se transforme em uma
fornecedora de dados que permitem a avaliação das condições econômicas do mercado, da
concentração de recursos produtivos nas regiões e da composição de setores da atividade
econômica.

A inter-relação entre essas duas áreas do conhecimento permite ao mercado tomar decisões sobre
investimentos utilizando como critério de decisão as tendências de desenvolvimento econômico
e perspectivas de crescimento.

Estudos de variáveis demográficas estão inseridos nessa inter-relação.

NÓS QUEREMOS SABER!


Faça uma pesquisa sobre os subsídios fiscais para a Região Nordeste do Brasil. Será que
os subsídios fiscais oferecidos pelo Governo Federal às empresas que procuram instalar-
se na Região Nordeste têm alguma relação com a Economia?

• A Economia e a Matemática

Muito embora a Economia seja uma ciência social, ela é limitada pela escassez de recursos,
ocupando-se de cálculos de quantidades físicas dos recursos e da distribuição equilibrada destes,
como o estabelecimento das quantidades de bens e serviços a serem produzidos e as quantidades
de recursos de produção a serem utilizados no processo produtivo.

A Matemática, por sua vez, nos permite demonstrar através de gráficos e fórmulas importantes
princípios e conceitos das relações econômicas. A Matemática permite também detalhadas
análises sobre modelos econômicos teóricos e práticos, utilizando para tanto recursos de
simulação e simplificando situações complexas a um pequeno grupo de variáveis.

A interação entre Economia e Matemática é tão forte que existe uma área de estudos em que
os modelos são quantificados, denominada “Econometria”, uma combinação de Estatística,
Matemática e Economia.

30 Laureate- International Universities


A Economia não possui tantas relações de exatidão quanto a Matemática, pois se assim fosse
seria plenamente previsível. Na Economia, os números aprendem, pensam, reagem, projetam,
fingem e são substituídos pelo ser humano com todos as suas qualidades e defeitos.

Mas, ainda assim, a Economia apresenta situações matemáticas com algumas relações que
podem ser consideradas invioláveis, tais como:

• O consumo nacional é diretamente proporcional à renda nacional;

• As quantidades de bens e serviços demandadas são inversamente proporcionais aos seus


preços;

• A taxa de câmbio influi diretamente no volume de importações e exportações de bens e serviços.

Na relação entre a Matemática e a Economia, você precisa estar ciente de que a Matemática é
um instrumento a serviço da Economia. É uma ferramenta que permite provar as hipóteses da
Economia, sendo apenas um meio, e não um fim em si mesma.

Quando você estiver tratando de fatos econômicos, utilize a Matemática para auxiliá-lo na
tomada de decisão, mas jamais faça com que ela seja predominante, pois você precisará levar
sempre em consideração as relações humanas.

NÓS QUEREMOS SABER!


Faça uma pesquisa sobre “consumo nacional“ e “renda nacional“. Você seria capaz de
estabelecer uma relação matemática entre esses dois componentes econômicos.

• A Economia e o Direito

Segundo Rossetti (1994), nenhuma ordem econômica é possível sem que o Direito limite as
liberdades em função das responsabilidades recíprocas, solucionando claramente os conflitos
potenciais observados.

Tal afirmação resume a forte interação entre a Economia e o Direito. Todas as ações econômicas
envolvem as pessoas, as empresas e o governo. Como esses protagonistas possuem interesses
diferentes, surgem as áreas de conflitos potenciais.

A própria liberdade de concorrência entre as empresas, a autorregulação do mercado,


as liberdades de escolhas individuais, o consumo e a acumulação de riquezas devem ser
regulamentados pela ordem jurídica que opera para conciliar os interesses, coibir abusos e
delimitar as responsabilidades.

Compete à legislação situar o homem, a atividade empresarial e a sociedade no bojo da política


e do meio ambiente, indicando os direitos e responsabilidades das partes e impondo os limites
dentro dos quais a liberdade de ação pode ser praticada sem que a outra parte seja prejudicada.

Historicamente, pode-se afirmar que as relações entre a Economia e o Direito ganharam um


novo status a partir da Segunda Guerra Mundial. Na França instituiu-se a disciplina de estudos
Direito Econômico na Universidade de Paris, e tal fato acabou por gerar ações semelhantes na
Itália e na Alemanha.

31
Visão Geral das Questões Econômicas Fundamentais

Mas foi somente com o fim do liberalismo e o início da ordem econômica dirigida pelas áreas
governamentais que se ampliou a legislação sobre atividades econômicas. Tal fato foi decisivo
para a aproximação dos conceitos do Direito e da Economia, superando barreiras que os
mantinham afastados e aumentando as relações de interdependência.

NÓS QUEREMOS SABER!


O CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) é o órgão responsável por
zelar pela livre concorrência na economia brasileira. Nesse contexto, uma de suas
funções práticas é julgar os processos relativos a operações de fusões e aquisições. Você
saberia dizer o porquê?

32 Laureate- International Universities


Síntese Síntese
Neste Capítulo, você aprendeu os conceitos da Economia e como funciona a Curva
das Possibilidades de Produção.

Você também conheceu os problemas econômicos fundamentais, resumidos por: “O


que produzir?”; “Quanto produzir?”; “Como produzir?” e “Para quem produzir?”.

Ao estudar os grandes pensadores da Economia e conhecer um pouco sobre as


teorias econômicas desenvolvidas ao longo da história da humanidade, você tomou
contato com questões como a influência da Economia nas atividades humanas,
bem como as questões como a escassez de recursos.

Um ponto importante é a decisão entre a livre iniciativa ou a interferência do


Estado na Economia, entendendo os conceitos do keynesianismo, que propõe a
interferência governamental para recolocar a economia de uma nação no rumo
do desenvolvimento em períodos recessivos provocados pelo esgotamento da livre
iniciativa.

Finalmente, estudou o relacionamento da Economia com outras áreas do


conhecimento e qual a influência de cada uma dessas áreas nas decisões de cunho
econômico.
É importante que você faça algumas reflexões sobre o material estudado,
principalmente nos assuntos destacados nos “boxes de conteúdo”.

Aconselho a releitura especialmente das dicas, pois isso facilitará seu desempenho
nos demais temas do curso e nas demais unidades de ensino.

Sucesso!

33
Visão Geral das Questões Econômicas Fundamentais

34 Laureate- International Universities


Capítulo 2 Microeconomia

Introdução
Neste Capítulo, você terá contato com os conceitos de microeconomia e com a Teoria dos
Preços. Você vai aprender os fatores que influenciam a composição do preço de venda dos
produtos do ponto de vista da economia e da contabilidade. Também vai estudar as principais
teorias econômicas que formam os preços no mercado e a importância da demanda, da oferta
e da elasticidade. Você ainda terá contato com o funcionamento de mecanismos de interferência
no mercado por parte do governo e com a questão das estruturas do mercado. O principal
objetivo deste texto é lhe propiciar conhecimentos suficientes para que você tome decisões
quando estiver diante de conjecturas mercadológicas ou financeiras, especialmente quanto a
questões de variação de oferta e demanda.

35
Microeconomia

1 Conceito de microeconomia
No primeiro Capítulo, você aprendeu que a economia é a ciência que visa compreender o
processo de alocação dos recursos escassos, de modo a satisfazer as necessidades humanas.
Também constatou, por meio do fluxo circular da renda, que esse processo ocorre de maneira
ininterrupta e por meio do estabelecimento de relações entre dois agentes econômicos (firmas e
famílias) nos mercados de fatores de produção e de bens e serviços.

No entanto, como já discutimos, essas relações ocorrem estabelecendo um fluxo monetário. Esse,
por sua vez, se dá mediante o estabelecimento de preços: quando nos referimos ao mercado
de fatores, o preço do trabalho, por exemplo, é o salário; quando nos aludimos ao mercado de
bens, temos os preços dos produtos em si.

Agora você se pergunta: como se estabelecem preços nos mercados através dessas relações?

Trazendo para uma visão mais prática, por que mão de obra qualificada e rara tende a receber
salários mais elevados? Por que a água, um bem tão essencial à vida, é barata quando comparada
a outros bens supérfluos? Por que produtos diferenciados tendem a ter preços mais elevados?

Todos esses questionamentos que envolvem a formação de preços buscam na microeconomia


seus fundamentos e respostas. Mas, para respondê-los, precisamos nos voltar às relações entre
os agentes, entendendo como cada um toma suas decisões. Daí estendemos à problemática
microeconômica o processo decisório de cada agente econômico.

No mercado de bens e serviços, as famílias assumem o papel de consumidoras, enquanto as


firmas são as ofertantes/produtoras. Logo, a microeconomia busca compreender a maneira
como esses agentes se relacionam em diferentes estruturas de mercado1, de modo a formar
preços. Por exemplo, não parece razoável supor que um monopólio tende a ter preços mais
elevados do que os mercados concorrenciais?

Imagine, por exemplo, se você for comprar um cachorro-quente em um show fechado, onde há
apenas uma barraca de comida. Natural que o preço que você irá pagar seja mais elevado do
que na saída do show, onde haverá diversas barracas concorrendo entre si.

Por fim, quando fizermos a análise da eficiência desse processo, observaremos que naqueles
mercados com preços mais elevados há menor acesso dos consumidores às mercadorias, o que
significa que menos necessidades estão sendo satisfeitas. Em outras palavras, será que podemos
considerar a alocação dos recursos produtivos mais eficiente em estruturas de mercado mais
concentradas? Quais são as formas de intervenção do governo nesse processo de alocação?
Quando a intervenção resultará em maior eficiência?

Portanto, segue um breve resumo das principais vertentes de estudo da microeconomia:

36 Laureate- International Universities


Como os consumidores escolhem gastar sua renda em
cestas de bens?

Processo decisório Como as empresas escolhem produzir uma certa


quantidade de bens que maximizem seu lucro?
dos agentes
econômicos

Como se formam os preços nas diferentes estruturas de


mercado?
Interação dos
agentes -
Mercados
As tomadas de decisão levaram a uma alocação
eficiente dos recursos produtivos?
Quais os impactos da ação do Estado no mecanismo
Análise de de mercado?
eficiência

Figura 1 – De que trata a microeconomia? Fonte: Autor.

Como o objetivo de qualquer ciência, seja ela pura ou social, é prever o comportamento dos
fenômenos avaliados, o intuito da teoria microeconômica está em fornecer um instrumental capaz
de prever o comportamento dos agentes econômicos, bem como os movimentos dos preços.

Para realizar esse processo, os autores do chamado mainstream econômico se valem de


teorias e modelos, os quais são simplificações de uma realidade bastante complexa e utilizam
um instrumental matemático para sua representação. Você já deve ter notado isso através da
construção da CPP.

Todo modelo exige que você molde as condições nas quais ele será testado, ou seja, os
pressupostos nos quais irá se fundamentar a teoria apresentada. Seguem, portanto, alguns dos
pressupostos da análise microeconômica que utilizaremos ao longo da exposição do conteúdo
deste Capítulo:

1.1 Pressupostos básicos da análise microeco-


nômica
1.1.1 Coeteris paribus – e tudo o mais constante

Imagine que você é um sorveteiro que atua na Praia da Enseada, no Guarujá, e precisa prever
a quantidade de sorvetes de cada sabor que levará em seu carrinho. Seu processo de previsão
deverá levar em consideração diversos fatores que influenciam a demanda de sorvete: quanto
custa o meu sorvete? Quanto custa o queijo coalho e o chá mate? A praia estará cheia? Está
quente? Está chovendo? As pessoas preferem sorvetes de frutas ou de chocolate nessa região?
Enfim, uma série de questionamentos lhe ajudará a prever a quantidade necessária para um dia

37
Microeconomia

de trabalho. No entanto, em termos científicos, é absolutamente importante que você consiga


detectar de maneira isolada quanto cada um desses eventos impactam sua demanda.

Por exemplo, se estiver quente, quanto mais sorvete eu vendo, mantenho todos os outros fatores
que afetam a minha demanda constantes? Esse processo de isolar fenômenos para que se
descubra a verdadeira relação de causa-consequência das variáveis é cientificamente chamado
de coeteris paribus (todo o restante permanecendo constante).

1.1.2 Preços relativos

Quando você precisa decidir se irá comprar suco ou refrigerante em uma refeição que esteja
realizando fora de casa, por exemplo, você normalmente compara os preços e analisa suas
preferências. Por exemplo, se você prefere refrigerante, mas o suco está mais barato, talvez
escolha o suco. Dessa forma, suas decisões de compra em relação a um bem não dependem
somente do preço dele, e sim do preço de bens relacionados à sua escolha.

Nesse sentido, o preço relativo, que nada mais é do que o preço de um bem em relação a outro,
tem um papel muito mais importante para análise microeconômica do que o preço absoluto dos
bens (preço de uma mercadoria).

Outro exemplo prático desse tipo de análise se dá na seguinte situação: se o preço da gasolina
cair 15% e a queda for acompanhada também pelo preço do etanol, ou seja, o preço do etanol
também cair 15%, nada deverá acontecer no mercado. Porém, se apenas o preço da gasolina
cair, haverá uma redução automática na demanda do etanol e um consequente aumento na
demanda da gasolina. Nesse caso, apesar de o preço do etanol se manter estável, seu preço
absoluto não aumentou e seu preço em relação à gasolina teve um aumento de 15%, o que
provocou a queda na demanda do produto.

1.1.3 Princípio da racionalidade

Agora que já compreendemos alguns pressupostos do processo analítico da microeconomia, é de


fundamental importância que fique estabelecido o que norteia o processo decisório dos agentes.
Nos exemplos abordados, o que norteia a decisão de quantos sorvetes de cada sabor levar no
carrinho? O que faz com que você escolha suco no lugar de refrigerante?

Na medida em que o mainstream econômico fundamenta-se nos princípios filosóficos utilitaristas,


estabeleceremos que toda e qualquer decisão de um agente econômico sempre visará maximizar
sua satisfação e minimizar o sofrimento. Assim, estaremos supondo que esse agente econômico
é racional em suas escolhas.

Quando nos atemos à escolha do consumidor, toda decisão visará maximizar sua satisfação
com o consumo da mercadoria. Esse processo de escolha que maximiza a satisfação, por sua
vez, deverá ser moldado pelas preferências que este tem pelos bens, bem como pela restrição
orçamentária com que ele se defronta.

Quando aplicamos o princípio da racionalidade às firmas, o processo decisório passa a visar à


maximização dos lucros, ou seja, a definição de uma quantidade a ser produzida que torne o
hiato entre receita e custo o maior possível.

Na prática, observamos que muitas das decisões de curto prazo das firmas não maximizam o
lucro. Por exemplo, você pode optar por reduzir lucros para conquistar uma parcela de mercado
maior. Ou, ainda, elevar custos no curto prazo para reformular o negócio e, com isso, elevar a
lucratividade esperada no futuro. De qualquer forma, esse pressuposto parece bastante razoável
para um cenário de longo prazo.

38 Laureate- International Universities


2 Demanda, oferta e equilíbrio de
mercado
Você já parou para pensar como caracterizar um mercado? De acordo com Pindyck e Rubinfeld
(2006, p. 7), o mercado é o “grupo de compradores e vendedores que, por meio de suas
interações efetivas ou potenciais, determinam o preço de um produto ou de um conjunto de
produtos”.

Nesse sentido, a oferta e a demanda são os principais fatores de influência do mercado. Talvez
existam poucas coisas que influenciem mais o nosso dia a dia do que a oferta e a demanda.
Elas influenciam desde o nível dos preços dos alimentos até os nossos salários ou o lucro das
empresas, bem como o volume da produção das empresas, o volume das vendas e a velocidade
de geração de empregos.

Mas o que significa demanda? Demanda nada mais é do que a uma representação do quanto os
consumidores desejam demandar de um bem para cada nível de preço específico. A representação
gráfica desse conceito é dada pela curva de demanda. Trabalharemos melhor esses conceitos a
seguir.

E o que significa oferta? Se demanda é desejo de aquisição, oferta é a disposição do produtor


em produzir os bens para o mercado. Naturalmente, essa disposição em ofertar também tem uma
relação direta com o preço do bem. Nesse sentido, sua representação gráfica é estabelecida por
meio da curva de oferta.

Se as definições de oferta e demanda relacionam quantidades (a serem demandadas e/ou


ofertadas) com os possíveis preços que o bem em questão pode ter, a representação gráfica do
mercado levará em conta essas duas variáveis para a sua composição. Veremos a seguir com
maior detalhe esses pontos.

2.1 Demanda
Agora que você já sabe ao menos superficialmente o que significam oferta e demanda, e
como esses elementos influenciam os estudos do mercado e nossa vida particularmente, vamos
aprofundá-los mais e estabelecer a relação entre ambos.

Vamos iniciar pela demanda, fator que está mais ligado a você enquanto consumidor. Você age
como consumidor toda vez que se dirige ao mercado para adquirir bens e serviços que deseja ou
necessita. Essa ação é corriqueira na nossa vida, não é mesmo?

Você já viu anteriormente a definição de demanda, mas é sempre bom reforçar. A demanda é
também chamada de procura, porém é preciso levar em consideração que essa igualdade dos
termos é válida quando encaramos a demanda como desejo de consumo, e não como aquilo que
é efetivamente demandado, pois existe a procura apenas para consulta, ou seja, o consumidor
manifesta o desejo de obter um determinado bem, consulta as condições de aquisição e, por
uma série de razões, não confirma a compra.

Todo consumidor tem a sua própria curva de demanda individual. Por sua vez, como um mercado
é composto de um grupo de consumidores, se somarmos as curvas de demanda individuais de
todos eles, chegaremos à curva de demanda do mercado.

Vamos compreender esses conceitos através de um exemplo prático. Imagine que Maria tem o
seguinte desejo de consumo de sorvete de casquinha para cada preço possível:

39
Microeconomia

Tabela 1 – Escala de demanda de sorvetes de casquinha de Maria

Fonte: MANKIW, 2009, p. 66.

Figura 2 – Curva de demanda de Maria. Fonte: MANKIW, 2009, p. 66.

40 Laureate- International Universities


Conforme podemos observar, existe uma relação inversa entre a procura e o preço do bem,
denominada Lei Geral da Demanda.

É evidente que a demanda de Maria por sorvete (assim como de qualquer consumidor por
qualquer bem) não é influenciada somente pelo preço. Seu desejo por adquirir sorvete muda
com as estações do ano (o que caracteriza a sazonalidade), pelo local onde está (talvez queira
consumir mais sorvete na praia), pelas suas preferências, pela sua renda etc.

Dessa forma, diversos estudos apontam que a demanda individual e de mercado de um bem é
determinada da seguinte forma:

qdA = ƒ(PA, PS, PC, R, G), onde:

qdA = Quantidade procurada (demandada) do bem A em determinado período de tempo

PA = Preço do bem no período

PS = Preço do bem substituto no período

PC = Preço do bem complementar no período

R = Renda do consumidor no período

G = Gostos e preferências no período

Para entender a demanda individual e suas variáveis, vamos expor um outro exemplo: imagine o
caso de um colecionador de discos de vinil chamado Paulo. Isso mesmo, aqueles discos pretos
que seus pais, ou você mesmo, dependendo da sua idade, utilizavam para ouvir música. Quais
fatores influenciam a decisão de compra do colecionador?

• Preço: se o preço do disco aumentar por unidade, provavelmente Paulo comprará menos
discos. Essa relação é dada pela Lei Geral da Demanda e é bastante intuitiva: quanto mais
barato o bem, mais se demanda dele, e vice-versa.

• Preço dos bens substitutos: imagine que o preço do vinil não se alterou, mas houve queda
no preço do CD; ou, ainda, houve uma flexibilização das leis de direito autoral, de modo que
está mais fácil e mais barato baixar música pela internet. É natural que Paulo agora migre
parte de sua renda que antes era destinada à aquisição de vinis para esses tipos de bens. A
magnitude dessa queda tem uma relação direta com a existência dos chamados bens subtitutos
e a análise dos preços relativos. Assim, mesmo mantendo o preço do vinil constante, o fato de
um bem substituto estar mais barato pressiona para baixo a demanda desses. Mas se a curva
de demanda representa a procura para diferentes níveis de preços, e, nesse caso, não tivemos
alteração do preço do bem que estamos analisando, a saber, vinil, como representamos esse
evento graficamente?

41
Microeconomia

Figura 3 – Efeito da queda do preço do bem substituto. Fonte: Autor.

• Preço dos bens complementares: e se o preço das vitrolas diminuísse? Provavelmente Paulo,
que é aficionado por vinis, compraria mais vitrolas, com diferentes características, e ficaria mais
ansioso por demandar mais vinis. Nesse sentido, quando houver uma queda no preço de um bem
complementar (bens que são consumidos conjuntamente), ocorrerá uma elevação da demanda do
bem analisado. Assim como no caso do bem substituto, graficamente ocorrerá um deslocamento
da curva de demanda, mas agora é preciso mostrar que houve elevação da demanda de vinil.
Isso significa que o sentido do deslocamento será “para cima e para a direita”.

• Renda: o que acontecerá com a demanda por discos de vinil se o colecionador perder o
emprego? Não precisa pensar muito. Desempregado, certamente deixará de comprar discos de
vinil. Se tiver sua renda diminuída por alguma razão, a demanda pelos chamados “bens normais”
também diminuirá. Agora, existem bens que terão sua demanda aumentada com a redução
da renda dos consumidores. São os chamados “bens inferiores”. Imagine o uso do serviço de
transporte coletivo. Se as pessoas ficam desempregadas, elas deixam de utilizar o carro particular
ou táxi e passam a adotar o ônibus.

• Gostos e preferências: imagine que a paixão de Paulo por vinis veio antes de ele descobrir que
esse tipo de bem é altamente poluidor2. Depois de ler o estudo que chegou a tais conclusões,
Paulo diminui seu desejo de compra; tal evento também será representado por um deslocamento
da curva de demanda. Você saberia em qual sentido? Vale lembrar que a economia não tenta
explicar os gostos dos consumidores, uma vez que isso pertence ao campo de estudo da psicologia
e do marketing. Mas é importante entender o que acontece no mercado, em especial com a
demanda, quando os gostos mudam.

2
Essa é uma suposição para trabalhar o exemplo; não há indícios reais dessa afirmação.

42 Laureate- International Universities


NÓS QUEREMOS SABER!
1. Por que quando o preço dos computadores cai, a demanda por softwares aumenta?

2. Por que quando o preço do café aumenta, a demanda por chá também aumenta?

Agora que você já sabe como a demanda se comporta em relação ao comportamento do


consumidor, já está em condições de responder à seguinte propositura:

• Qual a diferença entre o aumento da demanda e o aumento da quantidade demandada?


A demanda individual estabelece o quanto um único consumidor deseja demandar de um bem
para cada possível preço. Isso significa que a efetivação depende do estabelecimento de um nível
de preços, ou seja, a quantidade demandada só ocorre depois de se estabelecer um preço para
esse bem.

No exemplo apresentado de Maria, vemos que quando o preço da casquinha chega a $3,00,
Maria não está mais disposta a adquirir aquele bem. Ou seja, quando o preço é $3,00, a
quantidade que Maria irá consumir é igual a zero. Em compensação, quando o preço for $1,50,
Maria demandará 6 sorvetes.

No entanto, será que podemos afirmar que essa relação entre desejo e efetivação de consumo
deverá ser igual para todos os consumidores desse mercado? Aqui entra em questão a distinção
entre demanda individual e de mercado. Conforme vemos na tabela 2, o João ainda demanda,
mesmo que apenas 1 unidade, sorvete quando o preço é $3,00.

Tabela 2 – Demandas individuais e do mercado de sorvetes de casquinha

Fonte: Adaptado de MANKIW, 2009, p. 67.

43
Microeconomia

Demanda de Maria Demanda de João Demanda de Mercado

Figura 4 – Curvas de demanda individual e de mercado. Fonte: Adaptado de MANKIW, 2009, p. 67.

2.2 Oferta
Mas existe também outro fator de influência do mercado tanto quanto a demanda: a oferta.
A demanda trata dos consumidores, e a oferta cuida dos fabricantes e vendedores. Conforme
discutimos inicialmente, toda tomada de decisão do ofertante vem no sentido de maximizar o seu
lucro. O lucro (π), por sua vez, é a diferença entre Receita Total (R) e Custo Total (C).

π = R – C, onde:

R = P x Q, onde Receita Total é o montante de unidades monetárias que decorre da venda do


bem, ou seja, a quantidade vendida (Q) multiplicada pelo Preço (P).

Se quanto maior o lucro, maior a disposição em ofertar mercadorias, temos que toda vez que
o preço se eleva, coeteris paribus, há uma maior disposição em ofertar bens, pois o lucro por
unidade de produto aumenta. A partir dessa lógica, surge a Lei Geral da Oferta, que estabelece
uma relação direta entre preço e quantidade ofertada: quando o preço de um bem aumenta, a
quantidade ofertada desse mesmo bem também aumenta, e vice-versa.

Assim, graficamente teremos uma curva que relaciona preço e quantidade ofertada, mas cujo
formato é positivamente inclinado, refletindo essa relação positiva entre as variáveis:

Tabela 3 – Escala de oferta de sorvetes de casquinha

Fonte: MANKIW, 2009, p. 72.

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Preço do
Sorvete de
Casquinha

1. Um
aumento
no preço...

Quantidade
de Sorvetes de Casquinha
2. ... aumenta a quantidade ofertada
de sorvetes de casquinhas.

Figura 5 – Curva de oferta de sorvetes de casquinha. Fonte: MANKIW, 2009, p. 72.

Assim como a demanda, a oferta tem seus determinantes:

qOA = ƒ(PA, Pi, T, E), onde:

qOA = Quantidade ofertada do bem A em determinado período de tempo

PA = Preço do bem no período

Pi = Preço do insumos/fatores de produção

T = Tecnologia

E = Expectativa futura

Para que você entenda melhor, imagine que é o diretor geral da Discos Copacabana, um
fabricante de discos de vinil. O que iria determinar a quantidade de discos de vinil que você fosse
produzir ou vender? Você somente teria condições de responder a essa pergunta após analisar
os determinantes citados da oferta:

• Preço: imagine que o preço do disco de vinil está elevado e proporcionando excelentes ganhos
sob a forma de lucros. Isso o incentivará a adquirir mais máquinas, contratar mais operários e
trabalhar initerruptamente no sentido de produzir mais e poder ofertar mais discos. Mas, se por
alguma razão, o preço do disco de vinil diminuir e o produto deixar de ser lucrativo, isso fará com
que você fique desestimulado a produzir e o levará a produzir cada vez menos até que o negócio
se encerre. Basicamente, esta é a “Lei da oferta”.

45
Microeconomia

• Preço dos insumos: é claro que, para produzir discos, você utiliza vários tipos de insumos: vinil,
papel, prensas, prédio onde funciona a fábrica, mão de obra dos funcionários etc. Quando o
preço de um desses insumos aumenta e a empresa não consegue repassar o aumento para o
consumidor, a operação se torna menos lucrativa e você menos motivado a produzir, diminuindo
assim a oferta. Como representar isso graficamente? Deslocando a curva de oferta!

• Tecnologia: o uso de equipamentos mais sofisticados aumenta a produtividade das empresas


através da redução da dependência do homem nas etapas produtivas. Esse aumento de
produtividade se dá por meio da redução de custos e, nesse caso, vem acompanhado de um
aumento da lucratividade. Isso vai motivar a produzir mais, aumentando a oferta dos discos.

• Expectativas: imagine que você, de alguma forma, identificou a possibilidade de aumento nos
preços futuros do disco de vinil. O que faria? Poderia investir em melhorias da produtividade (em
capital) para que possa reduzir ainda mais seus custos de produção, de modo a ter um lucro
futuro ainda melhor. No entanto, se você acreditar que esse mercado está fadado à estagnação,
talvez decida reduzir suas operações, de modo a investir esses recursos em outra atividade mais
promissora. No caso exposto, a diferença entre tecnologia e expectativa se dá em relação ao
horizonte temporal. A mudança tecnológica traz alterações no curto prazo; no entanto, uma
decisão de investimento em tecnologia se refere a um horizonte temporal de longo prazo.

Assim como na demanda, a oferta pode ser representada individualmente, isto é, por firmas,
ou pelo somatório das firmas, compondo a oferta de mercado. Imaginemos que, no caso dos
sorvetes, uma determinada região seja abastecida pelas firmas Ben e Jerry. Assim, teremos:

Tabela 6 – Escalas de oferta de Ben, Jerry e mercado

Fonte: MANKIW, 2009, p. 73.

46 Laureate- International Universities


Figura 6 – Curvas de oferta individuais e de mercado.Fonte: MANKIW, 2009, p. 73.

Até aqui, você já aprendeu sobre oferta e demanda e tem plenas condições de entender como
uma funciona em relação à outra, bastando para tanto estabelecer um comparativo entre os
fatores de influência de uma e de outra.

Mas, em todos os casos estudados, utilizamos o raciocínio da coeteris paribus, ou seja, fixamos
todas as variáveis e analisamos apenas uma isoladamente. Porém, o mercado não se comporta
dessa forma, e todas as variáveis, tanto da demanda quanto da oferta, agem ao mesmo tempo.
Assim, vale o conceito de oferta de mercado e demanda de mercado.

NÓS QUEREMOS SABER!


1. Você acha que as mudanças na oferta e as mudanças na quantidade ofertada são a
mesma coisa?

2. Você acha que o aumento da demanda e o aumento da quantidade demandada são


a mesma coisa?

2.3 Equilíbrio de mercado


Sob um olhar mais superficial, oferta e demanda parecem estar em lados opostos, divergindo
sempre. Se o consumidor sempre estiver à procura do menor preço e o produtor sempre desejar
o maior lucro, como chegar a um meio-termo entre situações tão diferentes?

Se você colocar em um gráfico as curvas de demanda e de oferta, o cruzamento das duas é


o ponto de equilíbrio do mercado. Observe que o ponto de cruzamento das duas curvas, o
ponto de equilíbrio, reflete que os consumidores desejam adquirir exatamente as quantidades
que os produtores estão dispostos a vender. Nesse ponto não existe excesso ou escassez, e sim
convergência de desejos.

47
Microeconomia

Figura 7 – Equilíbrio de mercado de sorvetes de casquinha. Fonte: MANKIW, 2009, p. 76.

Os preços são os responsáveis por carregar a economia ao ponto de equilíbrio de forma natural.
Quando existe excesso de oferta, os vendedores com maiores volumes de estoques serão forçados
a diminuir os preços para aumentar a concorrência pelos consumidores. Por outro lado, quando
há excesso de demanda, ou seja, muitos consumidores procurando produtos escassos, eles são
obrigados a pagar mais para obtê-los.

Preço do
Sorvete de
Oferta
Casquinha
Preço acima do
preço de equilíbrio:
Oferta > Demanda,
Preço de Equilíbrio Equilíbrio isto é, excesso de
$2,00 oferta

Preço acima do
preço de equilíbrio:
Oferta > Demanda,
Quantidade Demanda isto é, excesso de
de Equilíbro oferta

Quantidade de Sorvetes de Casquinha

Figura 8 – Desequilíbrios de mercado. Fonte: Adaptado de MANKIW, 2009, p. 77.

48 Laureate- International Universities


Temos, aqui, uma representação do conceito da “mão invisível” de Adam Smith, que parece
“empurrar” o mercado, sem qualquer interferência do governo, rumo ao ponto de equilíbrio, não
é mesmo? Pois é, essa “mão invisível” atende pelo nome de mecanismo de preços.

Mas nem tudo no mercado é festa. Você precisa entender que o equilíbrio é muito volátil, e
qualquer detalhe pode tirar o mercado do equilíbrio. Imagine se os consumidores tiverem um
aumento de renda. Isso será suficiente para desequilibrar o mercado.

NÓS QUEREMOS SABER!


Você consegue representar graficamente o impacto para o equilbrio de mercado, a
saber, preço e quantidade, de uma alteração de cada um dos determinantes da oferta e
da demanda, estabelecendo a hipótese coeteris paribus?

3 Interferência do governo
Os governos, são capazes de afetar a economia através da formulação de políticas que afetam
tanto a esfera microeconômica, ou seja, a decisão dos agentes e os mercados, bem como a
macroeconomia.

Com a missão de evitar o uso abusivo do poderio econômico de algumas empresas sobre o
mercado, o governo adota algumas ações que influem diretamente no equilíbrio da oferta e da
demanda.

Naturalmente, a demanda de mercado em baixa desmotiva o investimento, diminuindo a


oferta de mercado e gerando desemprego, que, por sua vez, diminui ainda mais a demanda,
impulsionando a economia como um todo para uma espiral descendente.

Nessa situação, o governo adota medidas de incentivo à demanda de mercado, por exemplo, a
ampliação do crédito. Esse fator, por sua vez, altera a renda disponível para consumo. Ou seja,
reflete no deslocamento da curva de demanda. No outro extremo do mercado, o governo pode
agir oferecendo subsídios para que o produtor se motive a investir, aumentando, assim, a oferta.

Vamos abordar a seguir algumas formas de intervenção, com foco no entendimento dessas ações
no equilíbrio de mercado. A partir dessa análise, vamos compreender por que o mainstream
econômico é a favor da intervenção mínima do Estado nos mercados competitivos (mercados
onde não há concentração).

3.1 Políticas de controle de preços


Visando atender aos anseios de um agente econômico, firmas ou consumidores, o governo pode
estabelecer artificialmente o preço de um mercado por meio de medida provisória. Dessa forma,
vamos avaliar os impactos do estabelecimento de preços máximos e mínimos.

3.1.1 Preços mínimos

Quando o governo estabelece a obrigatoriedade de um preço mínimo, ele quer forçar o mercado
a comprar uma determinada mercadoria a partir de um preço. Na medida em que os preços
flutuam quando há desequilíbrio entre oferta e demanda, o estabelecimento de preços mínimos

49
Microeconomia

só fará sentido quando estes estiverem acima do preço de equilíbrio.

Para que você entenda o porquê, imagine que o governo estabeleça um preço mínimo abaixo do
preço de equilíbrio. Nesse caso, haverá excesso de demanda, o que fará com que os produtores
encontrem margem para elevar os preços. Nesse sentido, o preço tenderia naturalmente ao preço
de equilíbrio. No entanto, se o governo estabelecer o preço mínimo acima do preço de equilíbrio,
haverá um excesso de oferta, que não poderá ser resolvido pela queda dos preços. Ou seja, a
imposição de um preço mínimo, apesar de ajudar o lado do produtor, tende a reduzir o acesso
dos consumidores a esse bem, gerando inclusive estoques que não conseguem ser escoados.

Vejamos este exemplo através de uma medida prática: imposição de um salário mínimo. Na
medida em que salário é o preço da mão de obra, vamos transpor o mercado de bens e serviços
para o mercado de trabalho. No mercado de trabalho, os responsáveis pela oferta são os
trabalhadores, ao passo que a demanda é representada pelas firmas.

Imaginando que o salário de equilíbrio da nossa economia fictícia seja igual a $ 700,00. Com
esse salário, o nível de emprego corresponde a 1.500 postos de trabalho. Visando melhorar as
condições da classe trabalhadora, o governo impõe um salário mínimo de $ 965,00.

Oferta de Oferta de
mão de obra Excedente de mão de obra
mão de obra
(desemprego)
Salário
mínimo

700,00
Demanda de Demanda de
mão de obra mão de obra

Quantidade Quantidade Quantidade de


1.500 Quantidade de
mão de obra demandada ofertada mão de obra

Figura 9 – Efeitos da imposição de salário mínimo no mercado de trabalho.


Fonte: Adaptado de MANKIW, 2009, p. 121.

Note que, mesmo que a intenção fosse melhorar as condições da classe trabalhadora, na
realidade, tal medida repercutiu em uma redução dos postos de trabalho, pois agora as empresas
estão empregando menos. Para entendermos melhor, vamos quebrar os impactos desse evento
em dois:

No lado da oferta de trabalho, temos uma elevação da disposição em trabalhar; isso ocorreu,
pois uma parcela da população, que antes optava, por exemplo, por estudar apenas, agora quer
trabalhar em função dos salários mais atrativos. Concomitante a isso, a elevação dos salários
aumenta os custos de produção das firmas, o que tende a diminuir a disposição em empregar.
Nesse sentido, o número de postos de trabalho disponíveis se reduz.

Logo, chega-se à conclusão que a medida gerou, na prática, desemprego, representado pela
diferença entre oferta e demanda de trabalho.

50 Laureate- International Universities


3.1.2 Preços máximos

Conforme o raciocínio aplicado para o preço mínimo, só faz sentido o governo estabelecer
artificialmente um preço máximo se este se situar abaixo do preço de equilíbrio.

Imagine que o governo acredita que a escalada no preço dos aluguéis tem pressionado os
custos de produção em diversos segmentos, bem como o custo de vida da população, o que tem
pressionado a inflação dessa economia. Visando controlar esse movimento, o governo estabelece
um preço máximo a ser cobrado pelos aluguéis.

Em um cenário de curto prazo, como podemos observar na Figura 10, a oferta de imóveis não
responde às alterações do preço. Isso significa que o excesso de demanda de imóveis para
alugar mediante a imposição do preço máximo é menor do que em um cenário de longo prazo.
Nesse horizonte temporal, as pessoas podem se desfazer dos imóveis, ou mesmo optar por não
realizar novos lançamentos, aplicando o capital em outras fontes de renda. Isso significa que a
manutenção desse tipo de medida tende a ser bastante desastrosa no longo prazo.

Figura 10 – Impacto do preço máximo no mercado de imóveis para locação.


Fonte: MANKIW, 2009, p. 118.

NÓS QUEREMOS SABER!

Ao longo da década de 1980 e início da década de 1990, o Brasil enfrentou uma grave
espiral inflacionária. O governo, na ânsia de resolver o problema, lançou uma série de
planos econômicos. Alguns desses planos, como o Plano Cruzado, estabelecia como
medida de controle o congelamento de preços.

O resultado foi bastante desastroso, com escassez de diversos produtos essenciais, como
a carne bovina.

Com base no instrumental teórico apresentado, você consegue explicar por que isso
aconteceu?

51
Microeconomia

4 Conceito de elasticidade
Quando os preços de um determinado produto sobem, a demanda cai naturalmente e a oferta
aumenta, mas será que todos os produtos estão sujeitos a essas leis? E a quantidade demandada
cai com o aumento dos preços proporcionalmente para todos os produtos?

Vamos explicar melhor: lembra-se do colecionador de discos? Você já sabe que um aumento
no preço dos CDs diminui a quantidade demandada desse produto pelo colecionador. Suponha
que um aumento de preço nos CDs reduziu a quantidade demandada em 25%. Agora, suponha
ainda que o colecionador de discos goste muito de pizza. Será que um aumento no preço da
pizza também causará uma redução da quantidade demandada de 25%?

Certamente, você irá concluir que tanto a pizza quanto os CDs serão menos consumidos, porém
o impacto do aumento dos preços nos dois produtos causará efeitos diferentes nas quantidades
demandadas.

Assim, elasticidade é a medida da intensidade da reação dos consumidores e dos vendedores


e produtores às alterações na oferta e na demanda. É possível medir as respostas tanto dos
consumidores quanto dos produtores para as variações de preços, para a mudança da renda dos
consumidores, para as mudanças tecnológicas etc.

Em razão de existirem vários fatores que afetam a demanda e a oferta, você vai encontrar
diversas formas de calcular a elasticidade do mercado:

4.1 Elasticidade – Preço da demanda


Através da Elasticidade – Preço da demanda, você conseguirá calcular a intensidade da mudança
da quantidade demandada para cada alteração de preço dos produtos. Você estará buscando
a resposta para a questão: se o preço da pizza e o preço do CD aumentarem 20%, qual será a
redução da quantidade demandada de cada produto individualmente?

O comportamento dos consumidores varia de um produto para outro, isto é, a Lei da Demanda
não obedece ao mesmo perfil para todos os bens e serviços oferecidos pelo mercado, existindo
uma Elasticidade – Preço da demanda para cada produto individualmente.

Determinar a elasticidade para um produto específico é uma tarefa relativamente fácil. Basta
você dividir o percentual da queda da quantidade demandada pela percentagem do aumento
de preço.

Elasticidade – Preço da demanda (Epd) = ∆%Qd/∆%P, onde ∆%Qd = variação percentual


da quantidade demandada e ∆%P = variação percentual do preço.

Se você considerar que o preço da pizza subiu de R$ 40,00 para R$ 48,00 e que os consumidores
diminuíram suas compras de 10.000 para 7.000 unidades por mês, então basta fazer os seguintes
cálculos para encontrar a Elasticidade – Preço da demanda para a pizza:

∆%P = 30%

∆%Q = –20%

Epd = 30%/–20% = – 1,5  I Epd I = 1,5

Portanto, o valor da Elasticidade – Preço da demanda para a pizza é –1,5. Observe que esse

52 Laureate- International Universities


é um número puro, pois não comporta unidade. Mais do que isso, na medida em que a Lei
da Demanda estabelece um movimento inverso entre preço e quantidade, o resultado final da
Elasticidade – Preço da demanda será sempre negativo, razão pela qual sua análise deverá ser
realizada em módulo.

Outra observação interessante é que o número da Elasticidade – Preço da demanda é maior


que 1, o que indica que a pizza é um produto elástico. Se o número da Elasticidade – Preço da
demanda fosse menor que 1, indicaria que a pizza é um produto inelástico.

Como interpretamos esses números?

• Toda vez que a variação percentual da quantidade for maior do que a variação percentual do
preço, o valor da elasticidade será maior do que 1:

o I Epd I > 1: minha demanda responde mais do que proporcionalmente às


alterações no preço.

o Interpretação do valor: Epd = 1,5  a cada 10% de variação do meu preço, a minha
quantidade varia 15%.

• Toda vez que variação percentual da quantidade for menor do que a variação percentual do
preço, o valor da elasticidade será menor do que 1:

o 0 < I Epd I < 1: minha demanda responde menos do que proporcionalmente


às alterações no preço.

o Interpretação do valor: Epd = 0,5  a cada 10% de variação do meu preço, a minha
quantidade varia apenas 5%.

• Toda vez que variação percentual da quantidade for exatamente igual à variação percentual do
preço, o valor da elasticidade será igual a 1:

o I Epd I = 1: minha demanda responde proporcionalmente às alterações no


preço.

o Interpretação do valor: Epd = 1  a cada 10% de variação do meu preço, a minha
quantidade varia apenas 10%.

• Toda vez que a minha demanda não responder às variações no preço, o valor da elasticidade
será igual a 0:

o I Epd I = 0: minha demanda não responde às alterações nos preços.

o Interpretação do valor: Epd = 1  a cada 10% de variação do meu preço, a minha


quantidade varia apenas 0%.

• Toda vez que a variação percentual da quantidade for infinitamente maior do que a variação
percentual do preço, o valor da elasticidade tenderá ao ∞:

o I Epd I = ∞ : minha demanda responde muito intensamente aos preços.

o Interpretação do valor: Epd = ∞ a cada 10% de variação do meu preço, a minha


quantidade varia infinitamente.

53
Microeconomia

NÃO DEIXE DE VER...


Não deixe de pesquisar na bibliografia recomendada desta disciplina a representação
gráfica dos diferentes tipos de elasticidade.

É interessante notar que cada uma delas traz uma implicação para o formato das curvas
de demanda, mais especificamente para a sua inclinação.

Como regra geral, quanto mais elástica for a demanda, mais próxima da horizontal
estará a curva; e quanto mais inelástica for a curva, mais próxima da vertical estará a
curva.

4.1.1 Determinantes da Elasticidade – Preço da demanda

A magnitude da resposta da demanda em relação às alterações no preço, ou seja, a Elasticidade


– Preço da demanda, depende de três fatores:

• Disponibilidade de bens substitutos: quando o bem é facilmente substituído por outro,


qualquer alteração nos preços faz com que os consumidores reduzam drasticamente as
quantidade demandadas do bem. Aqui, cabe uma reflexão acerca da importância das estratégias
de diferenciação: quanto mais você torna o seu bem único, menos sensível ao preço se torna a
sua demanda. Você consegue perceber?

• Essencialidade do bem: quanto mais essencial for o bem, menores serão as respostas às
variações nos preços. Imagine, por exemplo, se o preço do sapato sobe. É natural que haja uma
redução da demanda. No entanto, se o preço da insulina subir, os portadores de diabetes não
poderão deixar de demandá-la. Logo, mesmo sem calcular a Elasticidade – Preço da demanda
de cada um dos mercados, podemos afirmar com segurança que a insulina tem uma demanda
mais inelástica do que os sapatos.

• Importância do bem no orçamento do consumidor: quanto maior o peso do bem no


orçamento do consumidor, maior tende a ser a elasticidade. Vamos refletir sobre a Elasticidade –
Preço da demanda de automóveis. Na medida em que o financiamento de um veículo automotor
tende a comprometer uma parcela relativamente grande do salário de um consumidor, a decisão
de compra é mais facilmente influenciada pelo seu preço. Se houver elevação, talvez esse
consumidor resolva aguardar os próximos meses para tomar a decisão de compra, aguardando
melhores condições. Assim, na medida em que bens duráveis costumam ser mais caros do que
bens de consumo, é possível inferir que eles são mais elásticos.

4.2 Elasticidade – Preço da oferta


Por meio da Elasticidade – Preço da oferta, você conseguirá calcular a intensidade da mudança
da quantidade ofertada para cada alteração de preço dos produtos. Como você já sabe, preços
mais altos incentivam o produtor a aumentar a oferta, mas será que o fornecedor de pizza reage
da mesma forma que o fabricante de CDs com a alta dos preços?

O cálculo da Elasticidade – Preço da oferta é semelhante ao cálculo da Elasticidade – Preço da


demanda, porém, segundo a Lei da Oferta, o preço e a quantidade têm uma relação direta, ou
seja, seu sinal será sempre positivo, não havendo necessidade de análise em módulo.

54 Laureate- International Universities


Considere que o preço do CD aumentou de R$ 40,00 para R$ 50,00, e isso motivou os fabricantes
a elevarem a oferta de 100.000 para 130.000 unidades por mês. Agora, basta você fazer os
cálculos a seguir para obter o número da Elasticidade – Preço da oferta:

∆%P = 25%
∆%Q = 30%
Eps = 1,2

Você pode concluir que a produção de CDs é elástica em relação ao preço, uma vez que
apresenta um resultado ligeiramente superior a 1.

As interpretações da Elasticidade – Preço da oferta são iguais às da demanda, lembrando que


agora a perspectiva está no impacto na quantidade ofertada:

Oferta Oferta Oferta de Oferta elástica Oferta


perfeitamente Inelástica elasticidade perfeitamente
inelástica unitária elástica

Figura 11 – Elasticidade – Preço da oferta. Fonte: Adaptado de CARVALHO, 2015.

4.3 Elasticidade – Renda da demanda


Também é comum medir a intensidade da variação da demanda a partir das mudanças na renda
do consumidor. A esse tipo de medida se dá o nome de Elasticidade – Renda da demanda. Esse
tipo de medida serve para você identificar se um bem é normal, inferior ou de consumo saciado.

• Bem normal: demanda acompanha movimento da renda  Se renda aumenta, quantidade


demandada também aumenta; se renda diminui, quantidade demandada também diminui;

• Bem inferior: demanda estabelece movimento contrário ao da renda  Se renda aumenta,


quantidade demandada diminui; se renda diminui, quantidade demandada aumenta;

• Bem de consumo saciado: alterações na renda não alteram a demanda pelo bem. Exemplo:
sal, papel higiênico etc.

O processo de cálculo é o mesmo das elasticidades já apresentadas, sendo sua base de cálculo:
Er = ∆%R/∆%Q, onde ∆%R = variação percentual da renda.

Logo, teremos:

55
Microeconomia

Quadro 1 – Classificação dos bens de acordo com a elasticidade-renda da demanda

Fonte: Adaptado de CARVALHO, 2015.

4.4 Elasticidade – Cruzada da demanda


A Elasticidade – Cruzada da demanda serve para verificar o impacto na demanda de um bem
em função das alterações no preço de um outro bem. Portanto, serve para identificar se um bem
será substituto ou complementar em relação a outro.

Você se lembra da relação entre o CD e o disco de vinil? Eles são produtos substitutos, pois o
consumidor pode optar por um ou outro quando resolve adquirir arquivos musicais. Sendo assim,
passa a ser lógico que as variações no preço de um dos produto afetem também a demanda do
outro produto. E, mais do que isso, se a queda no preço do CD faz com que o preço do vinil fique
relativamente mais caro, o movimento da demanda de vinil acompanhará o sentido da alteração
no preço do CD. Isso sempre ocorrerá quando tivermos bens substitutos.

Vamos compreender essa relação através do cálculo da Elasticidade – Cruzada da demanda.

EpAB = ∆%Qa / ∆%Pb , onde EpAB = Elasticidade – Cruzada da demanda do bem A; ∆%Qa =
variação percentual na quantidade demandada do bem A e ∆%Pb = variação percentual no
preço do bem B.
Conforme discutimos anteriormente, uma redução dos preços do CD implicou uma queda na
demanda de vinil. Isso significa que as duas variações percentuais que entrarão na fórmula são
negativas. Quando se divide um número negativo por outro negativo, o resultado final tende a
ser positivo.

Como uma alteração no preço de um bem substituto gera o mesmo movimento na demanda
do outro, chega-se à conclusão de que sempre que a Elasticidade – Cruzada da demanda for
positiva, os bens em questão são substitutos.

EpAB > 0  bens substitutos.

No entanto, quando os bens são complementares, como o caso da vitrola e do vinil, o sentido
do movimento do preço de um impacta de maneira inversa a quantidade demandada do outro.
Considerando que o preço da vitrola caiu, a demanda por essa aumenta; se há mais vitrolas
em circulação, há mais demanda por vinil. Ou seja, a redução no preço da vitrola aumentou a

56 Laureate- International Universities


demanda por vinis.

Portanto, quando o sinal de um termo da divisão é negativo, o outro será necessariamente


positivo, implicando uma Elasticidade – Cruzada da demanda menor do que zero (negativa).

EpAB < 0  bens complementares.

Assim, o resultado da Elasticidade – Cruzada da demanda nos auxilia identificar o tipo de relação
que dois bens podem ter entre si.

5 Produção e custos
A chamada Teoria da Oferta da Firma Individual é dividida em Teoria da Produção e Teoria dos
Custos de Produção. Essas teorias são fundamentais para a formação e a análise dos preços e
para a alocação dos fatores de produção.

A Teoria da Produção estuda a relação técnica entre as quantidades produzidas e os fatores de


produção, enquanto a Teoria dos Custos de Produção foca o relacionamento entre as quantidades
produzidas e os preços dos fatores de produção.

5.1 Teoria da Produção


Se você aprofundar uma pesquisa para entender melhor o que significa produção, vai descobrir
que todos os especialistas concordam em um ponto: o conceito de produção é amplo e atinge
todas as atividades humanas, não se restringindo apenas às atividades industriais, como pode
parecer no primeiro instante. Assim, as atividades de serviços, atividades financeiras, atividades
comerciais, atividades agrícolas e outras atividades também são consideradas atividades de
produção.

A produção de bens perpassa combinar insumos de produção em estruturas produtivas, de modo


a transformar insumos primários em bens finais. A forma como os insumos são combinados
constituem os métodos de produção, que podem ser de mão de obra intensiva, tecnologia
intensiva, capital intensivo etc.

O método de produção mais adequado é escolhido pela eficiência, podendo ser esta com
ênfase tecnológica ou econômica. Um método é considerado tecnologicamente eficiente quando
utiliza menos insumos que outros métodos para produzir quantidades de produtos ou serviços
equivalentes. Já um método é considerado economicamente eficiente quando produz as mesmas
quantidades de produtos ou serviços e é mais barato que outros métodos, ou seja, os custos de
produção são menores.

Ao produtor cabe decidir “o que, como e quando produzir”, tomando por base as necessidades
manifestadas do mercado consumidor. Assim, poderá variar a quantidade de inputs e provocar a
variação das quantidades de outputs obtidas.

Nesse momento, entra em cena a “Função de produção”, tida como a relação técnica entre a
quantidade inputs (fatores de produção) e a quantidade de outputs (produtos e serviços) em um
determinado período de tempo.

57
Microeconomia

q = ƒ(L,K,T)

Onde: q = quantidade produzida por período de tempo

L = mão de obra utilizada por período de tempo

K = capital físico utilizado por período de tempo

T = área utilizada por período de tempo

Para fins de simplificação, adotaremos que a quantidade a ser produzida dependerá de


combinações possíveis entre capital e trabalho, somente.

5.1.1 Horizonte temporal

A definição de curto prazo e longo prazo não se dá de maneira linear entre os distintos mercados.
Por exemplo, o que será um cenário de curto prazo para a Embraer e para a AmBev? Você vende
com a mesma facilidade bebidas e aeronaves? O prazo para a entrega do produto final desses
dois tipos de bens a partir da assinatura de um contrato é o mesmo?

Como já era de imaginar, não podemos equalizar esses horizontes temporais simplesmente
contando o tempo. Por isso, definiremos como curto prazo aquele cenário em que o tomador de
decisão não consegue variar a quantidade de todos os insumos de produção dentro da função
de produção, sendo obrigado a manter ao menos uma constante.

Por exemplo, dentro da perspectiva do horizonte temporal de cada organização, nem AmBev, nem
Embraer conseguem construir uma fábrica nova no curto prazo, portanto, estaríamos supondo
que, em ambas, o capital é mantido constante dentro da função de produção. No entanto,
para elevar a produção, é possível que se estabeleça um terceiro turno de trabalho nas suas
fábricas. Nesse sentido, a produção se elevaria no curto prazo por meio da contratação de mais
trabalhadores.

Vale ressaltar que o insumo que é fixo em um cenário de curto prazo não precisa ser, necessariamente,
o capital, conforme o exemplo exposto. Peguemos como exemplo uma consultoria. Se encararmos
que uma unidade de capital físico de uma consultoria seja um notebook, por exemplo, você
consegue elevar a quantidade de capital quase que instantaneamente. No entanto, o componente
da função que exige um prazo maior para elevação é justamente o trabalho: achar a mão de
obra qualificada é mais difícil e demorado do que comprar o computador.

Em um cenário de longo prazo, contudo, as decisões preveem a possibilidade de alteração da


quantidade de todos os insumos dentro da função de produção. Ou seja, podemos alterar a
nossa capacidade de produção.

Tenha esses conceitos bem sedimentados, pois eles dizem respeito tanto à Lei dos Rendimentos
Decrescentes quanto à definição de Economia de Escala.

5.1.2 Lei dos Rendimentos Decrescentes

Antes que você mergulhe fundo na Lei dos Rendimentos Decrescentes, é bom que três conceitos
sejam analisados: Produto Total, Produtividade Média do Fator de Produção e Produtividade
Marginal do Fator de Produção:

• Produto Total: quantidade a ser produzida em um cenário de curto prazo;

• Produtividade Média do Fator de Produção (PMe): quanto cada unidade do insumo

58 Laureate- International Universities


variável produz. Se considerarmos o trabalho como insumo variável, essa medida me diz o
quanto cada unidade de trabalho3 gera de produto no processo produtivo. Assim, temos a
produtividade expressa da seguinte forma: PMeL = q/L, onde PMeL = produtividade média do
trabalho; q = quantidade produzida; L = quantidade de trabalho; e PMeK = q/K, onde PMeK
= produtividade média do capital; q = quantidade produzida; K = quantidade de capital;

• Produtividade Marginal do Fator: medida que diz quanto a adição de uma unidade de
insumo variável agrega no meu produto total. Ou seja, se eu quiser saber quanto elevarei minha
produção ao contratar um funcionário a mais, por exemplo, terei de compreender a produtividade
marginal desse trabalhador.

Algebricamente temos: PMgL = ∆q/∆L, onde PMgL = produtividade marginal do trabalho;


∆q = variação da quantidade produzida; ∆L = variação da quantidade de trabalho; e PMgK
= ∆q/∆K, onde PMgK = produtividade marginal do capital; ∆q = variação da quantidade
produzida; ∆K = variação da quantidade de capital.

Imaginando que nosso cenário de curto prazo é caracterizado pela quantidade fixa de máquinas,
ou seja, capital, ao passo que o insumo trabalho é variável, você será confrontado com um dos
principais conceitos da Teoria da Produção: a Lei dos Rendimentos Decrescentes. Por essa lei,
você não poderá aumentar indefinidamente um determinado fator de produção, mantendo-se
os demais fixos, com o objetivo de aumentar cada vez mais os rendimentos. Se você agir dessa
forma, perceberá que, depois de algum tempo, a situação se inverte e você terá rendimentos
decrescentes com a curva dos rendimentos apontando para zero.

Ou seja, não adianta você elevar indefinidamente a quantidade de trabalhadores: a produtividade


deles está associada diretamente à estrutura física do seu negócio. Chega um dado momento
que eles não têm mais condições de trabalho. Imagine que você tem um quiosque de café
expresso: o capital representará a quantidade de máquinas de café expresso, e o trabalho, o
número de atendentes.

Quando você contrata o primeiro atendente, tem um ganho bastante expressivo de produção:
tanto o produto médio do trabalho quanto o marginal foram bastante positivos. Essa contratação
fez com que você passasse a vender 60 cafés por hora. Empolgado, resolveu contratar um
segundo atendente. Para sua surpresa, esse segundo atendente “adicionou” 80 cafés por hora,
e agora você consegue servir, em uma hora, 140 cafés. Isso significa que o produto marginal foi
de 80 cafés, e que, na média, cada atendente está servindo 70 cafés.

Você poderia pensar que essa elevação da produtividade marginal decorre de um recurso
produtivo melhor, ou seja, de um trabalhador mais capacitado para executar sua função. Vale
ressaltar que a Teoria da Produção não prevê diferença na qualidade dos trabalhadores. Esse
resultado acima da média anterior decorreu da melhor especialização dos recursos produtivos:
enquanto você tinha somente um atendente, ele precisava tirar o pedido e servir o café. Com a
contratação do segundo, os recursos puderam se especializar, de modo que agora um atendente
somente retira pedidos (e fica cada vez melhor nessa função), ao passo que outro apenas serve,
conferindo ganhos de produtividade.

No entanto, dada a limitação do espaço físico e das quantidades de máquinas de café disponíveis
para operação, é possível que a adição de um terceiro trabalhador implicasse uma desaceleração

3
É importante distinguir que eu posso mensurar o trabalho aqui de diferentes formas: hora de trabalho, quantidade de
trabalhador alocado em um dia etc. A forma pela qual eu mensuro a unidade do insumo variável determinará a métrica do
produto e produtividade: se mensuro por trabalhador/dia, meu produto total é dado por quantidade/dia; se mensuro por hora
trabalhada, meu produto total será dado por quantidade/hora.

59
Microeconomia

da produção (ou seja, continua crescendo, mas a taxas cada vez menores). Quando o produto
marginal de um trabalhador começa a apresentar valores cada vez menores é que observamos a
incidência da Lei dos Rendimentos Decrescentes.

Esse fenômeno ocorre do esgotamento do fator de produção variável em produzir rendimentos.


Você não pode contratar uma quantidade de pessoas indefinidamente, com o propósito de
aumentar a produção, se não aumentar também os demais recursos.

Quando o produto marginal do insumo variável se tornar negativo, teremos alcançado o valor
máximo de produção da sua estrutura produtiva, de modo que a adição de insumos variáveis
gera queda no produto total.

É óbvio pressupor que em uma pequena, ou até mesmo média empresa, os diretores ou gerentes
gerais jamais permitirão que a situação caminhe para o produto marginal negativo. Investir em
instalações e em equipamentos é uma excelente alternativa para recolocar os rendimentos em
ascendência novamente. Assim, basta transformar mais um dos fatores de produção em fator
variável.

5.1.3 Rendimentos de escala

Os rendimentos são calculados a partir das variações na quantidade produzida pela variação
da quantidade utilizada de todos os fatores de produção disponíveis. Nesse sentido, a empresa
consegue inferir a melhor estratégia de crescimento em função de sua tecnologia de produção.

Mas quais são as razões que determinam a geração dos rendimentos crescentes em escala? Se
você aprofundar uma pesquisa sobre o assunto, irá identificar pelo menos dois bons motivos que
geram rendimentos crescentes em escala:

a) Com o crescimento da empresa e consequente aumento dos volumes de produção, torna-se


necessária maior especialização no trabalho;

b) Alguns fatores de produção são indivisíveis, e, quando a empresa adquire um novo equipamento,
ocorre um grande aumento da produção.

Assim, impulsionadas pela tecnologia ou pelo próprio mercado, as empresas procuram ganhar
escala de produção, auferindo rendimentos de escala, que são classificados como determinado
na Figura 12.

60 Laureate- International Universities


Figura 12 – Definição dos rendimentos. Fonte: VASCONCELLOS; GARCIA, 1998.

6 Custos de produção
Conforme já discutimos anteriormente, a maior parte dos dirigentes das empresas, grandes ou
pequenas, toma suas decisões visando à maximização de lucros.

Se o lucro é a diferença entre Receita e Custos, também podemos enxergar esse processo de
maximização dos lucros através da minimização dos custos.

Se você conhecer os preços dos fatores de produção, determinará com relativa facilidade o custo
total de produção considerado ótimo para cada nível ou volume de produção. Assim, o custo
total de produção é definido como o total dos gastos realizados pela empresa para utilizar uma
combinação de fatores de produção e obter uma certa quantidade de produtos.

Assim, os custos totais de produção podem ser subdivididos em duas classificações:

a) Custos fixos totais: são todos aqueles que correspondem a parte dos custos totais que não
dependem ou não variam em relação às quantidades produzidas ou vendidas;

b) Custos variáveis totais: são todos aqueles que correspondem a parte dos custos totais que
dependem ou variam em relação às quantidades produzidas ou vendidas.

Na Teoria da Produção, os custos também são divididos em:

a) Custos totais de curto prazo: são os custos incorridos pelo uso de fatores fixos e fatores
variáveis na produção de uma quantidade de produtos;

b) Custos totais de longo prazo: são os custos incorridos pelo uso unicamente de fatores variáveis

61
Microeconomia

na produção de uma quantidade de produtos.

Agora, você saberia responder por que existe tanta classificação e reclassificação dos custos
dessa forma? O dinheiro sai da empresa sob a forma de pagamentos de fatores de produção
sempre?

Essas respostas não são triviais; os custos são divididos e subdivididos de várias formas para
facilitar o empresário na tomada de decisão. A isso tudo juntam-se ainda os diversos pontos
de vista que formam o conjunto de técnicas de gestão empresarial, como a contabilidade, a
economia, as finanças etc.

As principais diferenças entre os diversos tipos de visão dos custos de produção são:

a) Custos de oportunidade versus custos contábeis

Os custos contábeis são os chamados custos explícitos, ou seja, aqueles que envolvem um
desembolso monetário e representam um gasto efetivo da empresa no esforço produtivo, desde
a aquisição de insumos e matérias-primas até o aluguel de imóveis para a produção.

Já os custos de oportunidade representam os valores dos insumos e matérias-primas usados no


processo produtivo que não envolvem desembolso, pois pertencem à empresa. São os chamados
custos implícitos e somente podem ser estimados para avaliar o que a empresa poderia ganhar
se fizesse uso alternativo dos fatores de produção.

Os custos de oportunidade não podem ser contabilizados no balanço da empresa, por exemplo,
o capital que fica parado no caixa da empresa deixando de render como se fosse aplicado no
mercado financeiro.

Somente se você considerar os custos de oportunidade somados aos custos contábeis, poderá ter
ideia de quanto custa efetivamente para a sociedade o uso do recurso utilizado para a produção
de bens e serviços.

b) Externalidades

As externalidades são os custos e benefícios impostos à sociedade como resultado da produção


de bens e serviços pelas empresas, ou alterações nos custos e despesas da empresa devido a
fatores externos.

Quando uma empresa gera benefícios para as demais sem receber nada em troca, atribui-
se o nome de externalidade positiva. Imagine o que acontece quando uma grande loja de
departamentos se instala em um local de comércio de bairro. Toda a região acaba sendo
valorizada, não é mesmo? A loja de departamentos trouxe um benefício para as demais lojas
instaladas na região, porém não recebeu nada em troca.

Mas existe também a externalidade negativa, ou seja, quando uma empresa cria custos para
outras sem pagar um centavo por isso. Por exemplo, uma empresa que polui as águas de um rio
e impõe custos à sociedade no tratamento daquela água para fins de consumo doméstico.

Essas externalidades são reequilibradas com a aplicação de políticas fiscais adequadas, impondo
multas ou subsídios sobre as fontes geradoras, subsídios para as empresas geradoras de
externalidades positivas e multas para as empresas geradoras de externalidades negativas.

c) Custos versus despesas

Apenas do ponto de vista contábil é que existe uma distinção rigorosa entre custos e despesas.

62 Laureate- International Universities


Para a contabilidade, custos são gastos relativos a um bem ou serviço utilizado na produção
de outros bens e serviços, e despesas são gastos relativos a um bem ou serviço consumido
direta ou indiretamente para a obtenção de receitas. Os custos têm uma conotação totalmente
identificada com a produção, ao passo que as despesas estão mais associadas ao exercício
social da empresa.

É possível classificar os custos em diretos e indiretos, fixos e variáveis, e as despesas em fixas


e variáveis. Você poderá verificar que alguns custos podem ser diretamente apropriados aos
produtos, bastando haver uma medida de consumo, sendo estes classificados como custos
diretos com relação aos produtos.

Outros realmente não oferecem condição de uma medida objetiva, e qualquer tentativa de
alocação deve ser feita de maneira estimada e muitas vezes arbitrária, por exemplo: o aluguel, a
supervisão, as chefias etc. São os custos indiretos com relação aos produtos.

Observe que na Teoria Econômica não existem distinções tão acentuadas, uma vez que para a
economia o conceito de custo fixo envolve as despesas financeiras, comerciais e administrativas.

7 Maximização dos lucros


A Teoria Neoclássica propõe que as empresas tenham como objetivo maior a maximização do
lucro, entendendo-se por lucro a diferença entre os valores apurados com a venda dos produtos
(receita) e os custos de produção (gastos).

Com o objetivo de maximizar seus lucros, a empresa escolhe o nível de produção mais adequado,
de tal forma que a diferença entre a receita total de vendas e o custo total de produção seja
positiva e a maior possível.

Aqui cabe também o conceito de receita marginal, que é definido como o acréscimo na receita
total, quando a empresa vende uma unidade adicional de produto. O custo marginal segue a
mesma lógica, ou seja, é o acréscimo no custo total de produção quando a empresa produz uma
unidade adicional de seu produto.

Acompanhe o raciocínio da maximização dos lucros. Imagine uma empresa com a produção
posicionada, de tal forma que a receita marginal seja maior que o custo marginal. Nos casos em
que isso acontece, o empreendedor tem interesse em aumentar a produção, pois um aumento de
unidades produzidas representa um aumento nos seus lucros, uma vez que a receita marginal é
maior que o custo marginal.

De forma análoga, o empreendedor irá diminuir a produção sempre que a receita marginal
for menor que o custo marginal, o que significa que cada unidade que deixa de ser produzida
aumenta seu lucro, uma vez que o custo marginal é maior que a receita marginal.

Consequentemente, a melhor escolha, ou seja, a escolha que proporciona a operação da


empresa com lucro máximo, é aquela cuja receita marginal é igual ao custo marginal.

8 Estruturas de mercado
Você deve estar preocupado com nosso estudo, pois, até o momento, todas as suas conclusões
foram tiradas dentro do mercado ideal, porém isso nem sempre espelha a realidade. Na verdade,
existem vários tipos de mercado e, dentro deles, as coisas acontecem de forma diferente,
especialmente as questões que influem no equilíbrio do mercado.

63
Microeconomia

Entre os mercados mais conhecidos, destacam-se:

• Concorrência perfeita: trata-se do modelo ideal, o qual estamos estudando até aqui. A
formação do mercado de concorrência perfeita exige algumas premissas:

a) Grande número de produtores e consumidores: essa premissa impossibilita que qualquer


parte imponha preços ao mercado. Os produtores não podem elevar os preços dos produtos
impunemente, pois, se assim o fizerem, estarão arriscando perder o cliente para a concorrência.
O consumidor perde a capacidade de “pechinchar” os preços, pois existem muitos outros
consumidores interessados no mesmo produto;

b) Os produtos são homogêneos: não existem grandes diferenças entre os produtos ofertados
por um ou outro produtor, o que faz com que o preço seja o único diferencial de atração do
consumidor;

c) Nível de informações disseminadas: tanto o consumidor quanto o produtor possuem as mesmas


informações sobre o produto e o mercado, não sendo possível uma das partes levar vantagem
sobre a outra pelo uso de informações privilegiadas.

• Monopólio: trata-se de uma situação de mercado oposta à concorrência perfeita. Nessa situação,
existe apenas um único produtor que controla e abastece todo o mercado. Os consumidores
somente decidem se compram ou renunciam ao produto. Assim, o produtor consegue se impor
no mercado, estabelecendo os preços, fixando quantidades e buscando lucro máximo, a despeito
de satisfazer ou não às necessidades do consumidor. A qualidade do produto também pode ficar
prejudicada.

Na ocorrência de uma redução da demanda, o produtor prefere reduzir a produção e manter os


preços, uma vez que o consumidor não tem alternativa por outros produtos.

Vários fatores permitem a criação de mercados monopolizados:

a) Monopólio natural: a produção de alguns bens ou serviços requerem uso de capital intensivo,
ou seja, grandes investimentos em infraestrutura e, em contrapartida, a característica social do
bem ou serviço não permite a cobrança de preços elevados. Assim, somente uma escala muito
elevada de produção e venda irá compensar os altos custos do capital investido. Portanto, se
não houver garantia de mercado, não aparecerão empreendedores dispostos a ofertar o bem
ou serviço. Essa é uma situação típica da distribuição de energia elétrica ou das companhias de
saneamento básico;

b) Monopólio social ou político: a sociedade, por razões políticas, estratégicas ou sociais,


outorga, através de legislação, a concessão de um monopólio para alguma empresa. Um caso
típico do Brasil é a Petrobras e o monopólio do setor petrolífero;

c) Monopólio de poder financeiro: nesse caso, empresas mais fortes montam um poderoso
esquema de controle do mercado, afastando os concorrentes e não incentivando novos entrantes,
pois ninguém se arrisca a penetrar nesse mercado. Esse poder financeiro é tão forte que permite
a uma empresa operar com preços inferiores aos custos de produção até afastar um concorrente,
quando o preço passa a ser estabelecido pela empresa monopolista.

Apesar de o monopólio causar danos para o consumidor, sua existência é usada para justificar as
regulamentações governamentais que envolvem desde políticas de preços até tarifas, quantidades
e qualidade.

No Brasil, existem as agências reguladoras governamentais, que têm a incumbência de fiscalizar


as atividades das empresas prestadoras de serviços públicos privatizados. O CADE, por sua vez,

64 Laureate- International Universities


tem a missão de fiscalizar e impedir o exercício do poderio financeiro de algumas empresas,
evitando a monopolização do mercado.

Agora, o monopólio pode se manifestar também na ponta do consumo. Pode existir apenas
um grande comprador que impõe sua política de compras aos seus fornecedores (produtores e
vendedores). Esse mercado é denominado monopsonio, com danos parecidos ao monopólio. O
comprador impõe preços desfavoráveis aos produtores, exigências de qualidade impossíveis de
serem atendidas pelos preços negociados, prazos de entrega irreais, quantidades que sufocam
o produtor e ameaças de incorporação do produtor pelo comprador. Isso também requer ação
governamental no sentido de coibir os abusos de poderio econômico.

VOCÊ O CONHECE?
Você já ouviu falar em John D. Rockefeller? Ele teve o monopólio do setor de petróleo nos
Estados Unidos, por meio da Standard Oil, se estabelecendo como um dos empresários
mais ricos de todo o mundo. O poder econômico da Standard Oil foi tão elevado que
motivou a criação da lei federal dos monopólios.

• Oligopólio: esta é uma situação intermediária entre o monopólio e a concorrência perfeita.


Aqui, em vez de uma empresa dominar o mercado, algumas poucas empresas o fazem, definindo
as políticas de preços praticadas por todas, estabelecendo as mesmas quantidades ofertadas e a
mesma qualidade. As empresas participantes do oligopólio chegam mesmo a dividir o mercado
entre si. A indústria automobilística brasileira é um exemplo de mercado oligopolizado.

No caso do oligopólio, para que as empresas estabeleçam o controle do mercado, duas


estratégias são seguidas:

a) Cartel: as empresas entram em uma espécie de acordo, dividindo o mercado, evitando


concorrência entre si e estabelecendo preço, qualidades e quotas de produção para manter
a oferta sob controle. Esse tipo de ação oligopolista é expressamente proibido no Brasil e em
muitos países;

b) Liderança de preços: a empresa mais eficiente do oligopólio estabelece o preço que lhe
proporcione a maior lucratividade e as demais empresas a seguem, embora contabilizando taxas
de lucro menores.

NÓS QUEREMOS SABER!


Existe concorrência entre empresas oligopolistas?

65
Síntese
Microeconomia

Síntese
Neste Capítulo, você estudou microeconomia envolvendo desde os conceitos de
demanda, oferta e equilíbrio de mercado. Você viu como funciona o mercado em
termos de elasticidade e a influência da demanda e da oferta sobre a economia,
entendendo o comportamento dos consumidores e dos produtores.

Você verificou também o processo de formação dos preços e deve ter percebido que
eles não são formados apenas a partir dos custos de produção, mas também com
base nas necessidades e desejos dos consumidores, ou seja, nos fatores geradores
de demanda e, ainda, na capacidade produtiva das empresas e na adequação dos
fatores de produção ao mercado, o que interfere na oferta.

Você pôde perceber também que o equilíbrio é uma tendência do mercado


onde vigora a concorrência plena, muito embora o governo precise lançar mão
de mecanismos de ajuste e fiscalização para coibir abusos por parte do poderio
econômico concentrado.

Por fim, você viu as questões relativas aos custos e à maximização dos lucros por
parte das empresas, que formam a base para a tomada de decisão quanto aos
novos investimentos em infraestrutura e ao aumento da produção ou à redução dos
investimentos em fatores de produção e consequente diminuição das quantidades
produzidas.

É importante que você faça algumas reflexões sobre o material estudado,


principalmente nos assuntos destacados nos boxes de conteúdo.

Aconselho a releitura, especialmente das dicas, pois isso facilitará seu desempenho
nos demais temas do curso e nos demais capítulos.

Sucesso!

66 Laureate- International Universities


Capítulo 3 Macroeconomia

Introdução
Neste Capítulo, você vai compreender as principais medidas de avaliação do comportamento de
uma economia como um todo, sendo capaz de distinguir os fenômenos da macroeconomia e da
microeconomia. Você será introduzido aos principais instrumentos da política macroeconômica,
o que lhe permitirá realizar análises práticas a partir desses. Também deverá ser apresentado
às medidas de mensuração da atividade econômica de um país, entendendo os agregados
que descrevem a economia através da produção e da circulação de bens, assim como o fluxo
monetário necessário para sua efetivação. Por fim, você será capaz de relacionar os efeitos da
atividade econômica e das expectativas dos agentes sobre o nível geral de preços da economia,
compreendendo as principais causas e consequências da inflação. Dessa forma, ao final deste
Capítulo, você entenderá como o contexto econômico no qual está inserido pode influenciar
tomadas de decisão no nível da organização, bem como de decisões pessoais.

67
Macroeconomia

1. Introdução à macroeconomia
Você já deve ter percebido que, em determinados momentos, é muito fácil encontrar um emprego,
enquanto em outros, a oferta de vagas é reduzida. Também já deve ter notado que o seu salário,
que em um ano lhe permitia adquirir uma certa quantidade de produtos, em outro ano pode
não lhe dar a mesma capacidade de compra. Tais fenômenos moldam como você se insere nos
mercados de trabalho e de consumo de bens, ou seja, definem o contexto no qual você se insere
em um sistema econômico. E é justamente este o objetivo da macroeconomia: compreender e
descrever as condições econômicas que determinarão o comportamento dos agentes do mercado
(consumidores, investidores e firmas).

Essa breve contextualização provavelmente fez você refletir sobre as principais diferenças entre
a microeconomia e a macroeconomia. Conforme visto anteriormente, a microeconomia tem
o intuito de aprofundar as questões relativas ao comportamento dos agentes econômicos, de
modo a permitir a compreensão de como eles interagem nos mercados formando preços. Nesse
sentido, são objetos da microeconomia questões relativas às decisões de compra por parte do
consumidor, à alocação dos insumos produtivos para se ofertar uma quantidade que maximize
o lucro por parte da firma e à realização de investimentos para elevação de capacidade de
produção.

A macroeconomia tem como principal objetivo realizar uma análise ampla das condições
econômicas que moldam a tomada de decisão desses agentes do mercado. Ou seja, apresenta
os determinantes do desempenho econômico geral de uma economia.

1.1 Estrutura de análise macroeconômica


A análise macroeconômica contempla alguns temas essenciais: atividade econômica, desemprego,
inflação e flutuações de curto prazo relativas aos ciclos de negócios. Partiremos, portanto, para
a elucidação de cada uma dessas variáveis. Logo após, desdobraremos o escopo de atuação
do governo por meio das políticas macroeconômicas, apresentando as principais formas de
intervenção governamental nas variáveis vistas.

1.1.1 Atividade econômica

Você já deve ter ouvido falar a respeito do Produto Interno Bruto (PIB). O PIB é a variável
comumente adotada para mensurar o crescimento econômico de um país. Mas você já parou
para refletir sobre o que essa taxa de crescimento quer dizer?

O PIB de um país mede o valor de mercado de todas as transações de bens e serviços finais de
uma economia em um determinado período do ano. Usualmente, o PIB pode ser medido por
meio de diferentes óticas:

• Ótica da produção: somatório da


receita gerada aos produtores de bens
finais localizados no país pela venda NÓS QUEREMOS SABER!
de produtos finais na economia. Nessa
Além da categorização a respeito dos bens,
ótica, desconsidera-se o valor gerado
existe outra forma de classificá-los, mas
pelo consumo intermediário;
de acordo com a proximidade do mercado
consumidor final. Pesquise e reflita a respeito
• Ótica da despesa: somatório dos
dessa categorização de bens.
gastos dos agentes econômicos com
a aquisição de bens na economia.
Portanto, é a soma do consumo das

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famílias (despesas da sociedade civil com bens e serviços finais), dos gastos do governo, dos
gastos com investimentos por parte das empresas e, por fim, do saldo da balança comercial, que
nada mais é do que a diferença entre o valor gerado pelas exportações nacionais e o valor gasto
com as importações;

• Ótica da renda: somatório da renda gerada pelos fatores de produção dentro do sistema
econômico, ou seja, salários, aluguéis e lucros.

NÃO DEIXE DE LER...


• No Brasil, o PIB é divulgado trimestralmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE). Entre no Sistema das Contas Trimestrais Nacionais (SCTN), disponível
no site: <http://www.sidra.ibge.gov.br/> e faça uma análise das séries estatísticas do
PIB nacional nas três óticas descritas.

Mas, afinal, se o PIB pode ser mensurado por meio dessas três óticas, estaríamos assumindo que
os valores apresentados por cada uma deveria ser equivalente? Isso seria possível? A resposta
é sim!

Para que possamos entender esse raciocínio, é importante voltarmos ao Fluxo Circular da Renda.
Conforme visto, toda a produção de bens finais é vendida no mercado de bens finais. Nesse
sentido, podemos inferir que o valor da produção de bens finais (ótica da produção) deverá ter
como contrapartida um gasto com essa produção (ótica da despesa). Ao mesmo tempo, essa
despesa só é possível de ser realizada na medida em que esses agentes receberam uma renda,
representada pela remuneração dos fatores de produção (ótica da renda) no Fluxo Circular da
Renda.

Mas qual a importância do PIB para a descrição e a análise do contexto econômico de um país?
De maneira geral, o PIB serve como uma medida de evolução do processo de satisfação das
necessidades de um país, ou seja, quando o PIB apresenta uma taxa de crescimento, isso pode
ser resultado de um maior volume de necessidades sendo satisfeitas; nesse contexto, podemos
afirmar que mais riqueza está sendo gerada nesse país. Mas para que possamos chegar a essa
conclusão, é muito importante distinguir o PIB Nominal e o PIB Real:

• PIB Nominal: medido a preços correntes. Isso significa que sua mensuração se dá por meio da
contabilização dos preços no ano corrente de análise;

• PIB Real: PIB Nominal corrigido pela inflação, sendo calculado a preços constantes. Para tanto,
deve-se fixar um ano e deflacionar os demais.
Imagine uma economia que produz apenas batatas, roupas e carros, conforme apresentado na
tabela a seguir:

69
Macroeconomia

Tabela 1 – PIB Nominal vs. PIB Real

Fonte: Adaptado de GIANNETTI DA FONSECA, 2011, p. 247.

Note que o PIB Nominal saltou de $ 23,2 milhões em 2013 para $ 26,46 milhões em 2014, uma
taxa de crescimento de aproximadamente 14,05%. No entanto, será que a população sentiria
essa suposta elevação da riqueza gerada?

Como já discutido, a renda gerada para as empresas por meio das vendas de bens e serviços
servirá para o pagamento dos fatores de produção (salário, aluguel e lucros), os quais retornarão
à economia por meio do consumo dos bens e serviços. As empresas que comercializam os bens
dessa economia obtiveram ganhos de receita que foram, na realidade, resultado do aumento
dos preços (observe que as quantidades produzidas nos dois anos foram iguais). Nesse sentido,
a população irá gastar mais com sua cesta de consumo. Portanto, para saber se houve algum
ganho real de bem-estar, é preciso analisar o comportamento do PIB Real, cujo ano-base será
2013. Assim, vamos calcular o PIB Real de 2014, considerando os preços estabelecidos no ano-
base.

Quando calculamos o PIB dos dois anos com os preços fixados em 2013, observamos um
resultado diferente: o crescimento do PIB no período foi nulo (0%), o que nos remete à ideia de
que a atividade econômica desse país está estagnada. Por que isso aconteceu?

A riqueza gerada por uma economia refere-se ao número de necessidades humanas que são
satisfeitas por um determinado período de tempo, dada uma certa quantidade de fatores de
produção disponíveis. A tabela mostra que, de 2013 para 2014, as quantidades produzidas
de todos os bens não sofreram alteração. Isso significa que, ao longo de um ano inteiro, essa
economia foi incapaz de elevar sua capacidade de satisfação de necessidades. Portanto, o
resultado real foi um crescimento de 0%. Assim, aquele crescimento de 14,05% deveu-se à
elevação dos preços (ler tópico 1.1.3) de 14,05%, na medida em que o PIB Real não apresentou
variação de um ano para outro.

Segue, portanto, que o PIB Real é calculado da seguinte forma:

PIB Real = [PIB Nominal/Deflator]*100, onde o deflator é o número índice de inflação (você

70 Laureate- International Universities


pode utilizar o IPCA para deflacionar o PIB Nominal brasileiro). Não se esqueça de que o ano-
base do indicador de inflação tem de ser o mesmo do PIB Real.

NÓS QUEREMOS SABER!


Com base na fórmula do PIB Real apresentada, você saberia calcular qual foi a taxa de
inflação de 2014 em relação a 2013?

1.1.2 Desemprego

A taxa de desemprego de uma economia é dada pela divisão do número de desempregados pelo
total da população disponível no mercado de trabalho. De maneira geral, a Teoria Econômica
distingue o desemprego por meio de três categorias: friccional, cíclico e estrutural.

O desemprego friccional é aquele que decorre de um processo natural de busca por emprego.
Imagine que você esteja empregado em um setor comercial, mas seu sonho é trabalhar na
área financeira. Depois de finalizar o processo de qualificação na área financeira, você resolve
largar seu atual emprego para perseguir seu sonho. Enquanto não encontra um novo emprego,
sua condição é de desempregado, mas note que essa situação foi perseguida por você mesmo,
de modo que podemos classificá-la como “desemprego voluntário”. Naturalmente, esse tipo
de desemprego não tende a ser preocupante, na medida em que reflete um desejo do próprio
agente que oferta trabalho no mercado de trabalho.

O desemprego cíclico é caracterizado pela evolução do desemprego em cada fase do ciclo


econômico, sendo o tipo de desemprego que mais preocupa os economistas. Em momentos de
crescimento do PIB, as empresas tendem a contratar maior número de funcionários para que
consigam efetivar seus planos de crescimento. Em momentos de crise, no entanto, as empresas
costumam iniciar processos de demissão, visando adequar sua estrutura produtiva a um cenário
de vendas reduzidas. Existe, portanto, uma parcela do desemprego que é resultado direto da
atividade econômica; em momentos de crescimento, as taxas de desemprego cíclico tendem a
cair, ao passo que, em momentos de retração, começam a apresentar indicadores cada vez mais
elevados.

Por fim, temos o desemprego estrutural, que é resultado do desenvolvimento tecnológico. Esse tipo
de desemprego surge quando uma tecnologia torna obsoleto um determinado tipo de trabalho.
Foi justamente essa a razão da redução dos empregos gerados por dois setores econômicos ao
longo das últimas décadas: automobilístico e bancário. O processo de automação em ambos os
segmentos substituiu parte expressiva da mão de obra por máquinas. No setor automobilístico, a
automação inseriu robôs na linha de montagem, causando demissões em massa nas montadoras.
Já o setor bancário reduziu a demanda por serviços na agência, o que ocasionou demissões ao
instalar caixas eletrônicos, bem como os serviços feitos via internet.

1.1.3 Inflação

A inflação se refere ao movimento de elevação dos níveis de preços gerais de uma economia.
Sua mensuração se dá através de números-índices, que lhes permitirão calcular uma variação
percentual para cada período de análise. Usualmente, os indicadores de inflação são divididos
de acordo com a cesta de bens que os constitui:

71
Macroeconomia

• Índice de Preços ao Consumidor: calculados a partir de uma cesta de bens consumida pela
população. Como exemplo, é possível citar o índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do
IBGE;

• Índices de Preços ao Produtor: calculados a partir de cestas compostas por matérias- primas.
Como exemplo, é possível citar o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), da FGV.

Mas, ao analisar de uma maneira prática, como a elevação de preços tende a afetar as decisões
econômicas dos agentes de mercado?

 Situação 1: Como a inflação afeta a decisão do consumidor?

Você está em um estágio cuja remuneração mensal é de R$ 800,00. Como você é estudioso,
mas também gosta de se divertir nas horas vagas, gasta seu salário integralmente na aquisição
de livros e com atividades de lazer, como cinema e shows. Neste primeiro ano em que esteve
empregado, a média de preço do livro era de R$ 50,00 e dos gastos relativos a cada hora de
lazer era, na média, de R$ 35,00. Dadas as suas preferências, ao final do mês você costumava
gastar seu salário comprando 9 livros (R$ 450,00) e 10 horas de lazer (R$ 350,00). Ao completar
um ano no trabalho, seu chefe lhe chamou para uma reunião e anunciou um reajuste salarial
de 5%, de modo que seu rendimento agora é de R$ 840,00. Será que você aumentou sua
capacidade de compra? Para responder a essa pergunta, não basta olhar para a forma como
seu rendimento evoluiu no ano. Você também deverá questionar a maneira como os preços dos
bens que você adquire evoluiu.

Se, por exemplo, o preço do livro foi para R$ 60,00 e o da hora de lazer foi para R$ 42,00,
note que agora você deverá adquirir menores quantidades dos dois bens: a aquisição de 9 livros
lhe custaria agora R$ 540,00, enquanto a mesma quantidade de horas de lazer lhe exigiria um
montante de R$ 420,00. Nesse sentido, para manter a mesma capacidade de compra, você
deveria estar ganhando R$ 960,00, e não R$ 840,00.

Por que isso aconteceu? Perceba que os preços das mercadorias que costuma adquirir evoluíram
em 10%, ao passo que seu rendimento cresceu apenas 5%. Essa relação entre preços e renda
determina o poder de compra do consumidor. Em processos inflacionários, os rendimentos podem
crescer em menor velocidade quando comparados à evolução dos preços, de modo que, na
prática, se observa uma menor capacidade de compra. Portanto, um dos principais resultados de
processos inflacionários pode ser a corrosão do poder de compra dos indivíduos, o que resulta
em uma redução do bem-estar.

 Situação 2: Como a inflação afeta a decisão das firmas?

Imagine que você atue na área de compras de insumos de uma empresa. Antes de realizar os
contratos de compra com seus principais fornecedores, é absolutamente relevante que você
avalie a proposta realizada de pagamento de acordo com a sua expectativa quanto à inflação.
Por quê?

Se você acredita que o preço do insumo que está negociando vá sofrer uma elevação de preço
de cerca de 15% em 12 meses, e o seu fornecedor está disposto a fechar o contrato a preços
presentes para pagamento em duas parcelas, uma à vista e outra ao final de 12 meses, você
tende a aceitar a proposta. Isso porque, mesmo exigindo 50% do pagamento no ato da assinatura
do contrato, ao final do período você deveria pagar 15% a mais pelo restante da compra. Logo,
as expectativas quanto à inflação são muito importantes para diversos tipos de decisões no nível
da firma.

72 Laureate- International Universities


1.1.4 Flutuações de curto prazo relativas aos ciclos de negócios

Os ciclos que os negócios encontram têm relação direta com as fases do crescimento econômico,
ou seja, estão ligados ao comportamento do PIB Real. Mais do que isso, a fase na qual se
encontra a economia tende a “puxar e ser puxada” pelo comportamento das demais variáveis
macroeconômicas, como desemprego e inflação. Por isso, mensurar e prever de maneira correta
os ciclos econômicos nos quais as empresas se inserem é de extrema importância para a tomada
de decisão.

VEJA O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS


DORNBUSCH, R.; FISCHER, S. (1991): “O ciclo de negócios é um padrão mais ou menos
regular de expansão (recuperação) e de contração (recessão) da atividade econômica
em torno de uma trajetória tendencial de crescimento”.

MANKIW, G. (2009): “Flutuações da atividade econômica, medidas pelo número de


pessoas empregadas ou pela produção de bens e serviços”.

O comportamento do PIB Real não segue uma tendência linear de crescimento, apresentando
flutuações ao longo do tempo, o que caracteriza períodos de crescimento econômico seguidos
de estagnação e/ou recessão. Apesar das flutuações, as economias tendem a apresentar uma
tendência de crescimento entre um ciclo e outro, que representa os avanços econômicos que
temos ao longo do tempo. Dessa forma, se formos representar o fenômeno dos ciclos dos
negócios, encontraremos algo conforme se segue:

Figura 1 – Ciclos econômicos. Fonte: DORNBUSCH, R.; FISCHER, S., 1991, p. 17.

Dessa forma, saber identificar a fase do ciclo na qual se encontra o negócio é extremamente
importante tanto para os decisores quanto para os formuladores de política econômica. Em
relação a estes últimos, o diagnóstico correto permite a formulação e a implementação de
políticas macroeconômicas adequadas como forma de acentuar os resultados da economia em
fases de crescimento, bem como atenuar e combater as implicações das recessões.

73
Macroeconomia

1.2 Instrumentos de política macroeconômica


Conforme já discutido, o Estado pode tomar uma série de medidas visando ajustar o desempenho
da economia a seus objetivos de curto e longo prazo através da formulação e da implementação
de políticas econômicas, as quais se dividem de acordo com seu escopo de atuação: fiscal,
monetária, externa e de renda. Discutiremos, a seguir, os principais instrumentos de cada uma
delas, pontuando seus objetivos quanto à correção das flutuações econômicas.

1.2.1 Política fiscal

Você deve lembrar que alguns anos atrás o governo federal concedeu uma série de benefícios
fiscais, como a redução do IPI (Imposto Sobre os Produtos Industrializados) em setores que
vendiam bens de consumo duráveis, como automóveis, geladeiras e fogões. É possível que você
também já tenha percebido que, em algumas fases, o governo inicia uma série de obras de
infraestrutura.

Mas, afinal de contas, qual a relação dessas medidas com os objetivos de política econômica?

Quando o governo pretende estimular a atividade econômica por meio dos instrumentos fiscais,
tende a elevar seus gastos e reduzir os impostos, caracterizando uma política fiscal expansionista.

Voltando aos exemplos apresentados, quando o governo reduziu o IPI, permitiu que os produtos
beneficiados fossem vendidos a preços mais baixos. A redução de preço, por sua vez, eleva a
demanda por esses bens. Essa elevação da demanda dos bens exige, em contrapartida, uma
maior disponibilidade de renda para o consumo. Nesse sentido, esse tipo de medida tem maior
efeito quando conjugada a uma maior massa salarial. É justamente nesse ponto que inserimos
na análise a segunda medida apresentada: elevação dos gastos públicos. Quando o governo
executa obras de infraestrutura, gera empregos diretos e indiretos. Ao gerar emprego, eleva a
renda disponível na economia, que será gasta em bens e serviços. Dessa forma, a maneira pela
qual o governo executa seus gastos e estrutura sua forma de arrecadação determina o tipo de
política fiscal, a qual está submissa aos objetivos de desempenho econômico.

Assim, os dois principais instrumentos de Política Fiscal são a Política de Gastos e a Política
Tributária, os quais apresentam diferentes tendências para cada objetivo fiscal: expansão ou
contração da atividade econômica.

Tabela 2 – Expansão econômica X Contração econômica

Política de
Gastos

Política Tributária

Fonte: Autor.

74 Laureate- International Universities


Quando a economia se encontra em um ciclo recessivo, a atividade econômica pode ser
estimulada pelo governo com uma política fiscal expansionista. Até então, esse tipo de ação
parece até óbvia. Mas se observarmos a política fiscal contracionista, nos perguntamos: por
que reduzir os gastos do governo e elevar impostos se isso tende a desestimular o crescimento
econômico? Quando e por que o governo deve perseguir a desaceleração econômica?

Para tanto, devemos nos ater aos possíveis efeitos de uma política fiscal expansionista nos cofres
públicos e na inflação.

Ao estimular a demanda em uma economia, há uma tendência natural de elevação de preços,


ainda mais quando os investimentos privados não acompanham esse movimento. Quando a
inflação começa a se acelerar, uma das formas de frear esse processo é desestimular o consumo
dos bens para que não se tenha mais pressão por parte do mercado consumidor. Nesse sentido,
uma política fiscal contracionista pode visar controlar algum processo inflacionário que tenha se
instalado na economia.

Por outro lado, a política fiscal expansionista, ao mesmo tempo em que eleva os gastos do governo,
reduz sua arrecadação, ocasionando um déficit público. O déficit público é resultado de uma
situação em que o governo gasta mais do que arrecada. Assim como você pode eventualmente
gastar mais do que a renda que tem disponível, o governo também pode. Mas essa situação não
se sustenta no longo prazo. Nesse sentido, uma política fiscal contracionista tem como um dos
seus objetivos o ajuste das contas públicas.

1.2.2 Política monetária

Já vimos no fluxo circular da renda que toda compra de bens e serviços exige como contrapartida
um pagamento. Na medida em que temos a moeda como meio de troca, toda transação exige um
estoque de moeda para ser efetivado. É justamente nesse sentido que surge a política monetária,
que estabelece a forma de atuação do governo sobre a quantidade de moeda disponível na
economia.

O Banco Central (BACEN) é a instituição responsável pelo controle da oferta de moeda na


economia. Nesse sentido, é ele quem formula e executa as ações das políticas monetárias por meio
dos seguintes instrumentos: recolhimento dos compulsórios (depósitos que os bancos comerciais
são obrigados a realizar junto ao BACEN), operações de open market (compra e venda de títulos
públicos) e políticas de redesconto (empréstimos do BACEN aos bancos comerciais).

Para que os agentes econômicos respondam de maneira desejada em cada um desses instrumentos
apresentados, o BACEN utiliza a taxa de juros como sinalizador. Por exemplo, quando há elevação
da taxa, o retorno dos títulos públicos fica mais atrativo. Os agentes econômicos compram esses
títulos, entregando ao BACEN (vendedor do título) a moeda que estava em circulação. Dessa
forma, o BACEN consegue reduzir a quantidade de moeda em circulação, o que tende a frear os
processos inflacionários.

Assim como a política fiscal, a política monetária pode ser dividida de acordo com o seu fim:

• Política monetária contracionista: elevação da taxa de juros com redução da quantidade de


moeda circulante na economia;

• Política monetária expansionista: redução da taxa de juros com elevação da moeda circulante
na economia.

1.2.3 Política externa

A política externa estabelece a forma como o governo controla as variáveis relativas ao setor

75
Macroeconomia

externo da economia, e é dividida em dois escopos: cambial e comercial.

1.2.3.1 Política cambial

A política cambial refere-se a como o governo administra o valor da sua moeda em comparação
a outras, ou seja, sua taxa de câmbio. O valor da taxa de câmbio tem uma relação direta com
os fundamentos do mercado de câmbio, ou, em outras palavras, com a oferta e demanda por
moeda estrangeira.

A forma como é realizado esse controle depende do regime de câmbio existente:

• Regime de Câmbio Fixo: nesse tipo de regime, o BACEN se compromete a manter fixa a taxa de
câmbio. Para tanto, deverá utilizar as reservas internacionais para manter fixo o preço da moeda;

• Regime de Câmbio Flutuante: nesse caso, o BACEN não atua no mercado de câmbio, assim a
taxa flutua de acordo com a interação entre oferta e demanda de moeda estrangeira.

De maneira geral, a vantagem de um Regime de Câmbio Fixo se assenta no fato de haver


redução das incertezas e dos movimentos especulativos no mercado de câmbio. Por sua vez, um
Regime de Câmbio Fixo pode levar as reservas internacionais a níveis preocupantes, resultando
em desequilíbrios ao balanço de pagamentos. Já o Regime de Câmbio Flutuante tem como
vantagem o equilíbrio do balanço de pagamentos, ao passo que traz maiores incertezas quanto
aos contratos firmados em moeda estrangeira e à possibilidade de especulação.

1.2.3.2 Política comercial

O governo também pode atuar nas relações externas por meio de políticas que visem alterar os
fluxos de mercadorias entre o seu país e os demais, ou seja, pode estabelecer instrumentos que
estimulem e/ou desincentivem importações e exportações.

As exportações referem-se ao fluxo de mercadorias produzidas internamente e que são vendidas


para países estrangeiros. Portanto, quando deseja estimular a venda de produtos ao exterior,
costuma estabelecer incentivos fiscais (como redução dos impostos que incidem sobre as
mercadorias a serem exportadas) e creditícios (como as taxas de juros subsidiadas).

Já as importações são os bens comprados por um país que foram produzidos em outro. As
políticas que visam incentivar a entrada de produtos importados em um país podem ter como
objetivo, por exemplo, a modernização de um parque fabril. Nesses casos, o governo tende
a reduzir impostos sobre os produtos importados que pretende beneficiar. No entanto, muitas
vezes a intenção do governo está no estímulo à indústria local, fazendo-lhe tomar medidas que
coíbam a entrada de importados. Como exemplo, temos a imposição de barreiras que podem ter
natureza tarifária (impostos) e quantitativas (cotas de importação).

1.2.4 Políticas de renda

As políticas de renda constituem-se por meio da atuação direta do governo sobre as rendas
(em especial, salários e aluguéis). O instrumento de atuação se dá através do controle e do
congelamento desses rendimentos.

Dessa forma, o estabelecimento de um salário mínimo a ser praticado em uma economia está no
âmbito da política nacional de renda. Também temos as políticas de congelamento de preços,
comumente empregadas nos planos econômicos anti-inflacionários.

76 Laureate- International Universities


2. Contabilidade social
No primeiro item deste Capítulo, discutimos os agregados macroeconômicos e a forma como
o governo atua sobre eles. Abordamos as principais variáveis da Teoria Macroeconômica e os
instrumentos de política econômica. Esses agregados, por sua vez, são medidas que resultam de
um sistema de mensuração criado no âmbito da Contabilidade Social. Detalharemos, a seguir,
esse processo de mensuração da atividade econômica.

2.1 Medida do Produto e da Renda Nacional


A atividade econômica de um país pode ser mensurada de diversas formas. Por exemplo, o
número de falências e concordatas em um determinado período pode servir de termômetro
do desempenho da economia. Em fases de crescimento econômico, as firmas costumam ter
maior facilidade de operação, uma vez que encontram mais facilmente demanda, diminuindo
o número de pedidos de falência. Quando a economia está em recessão, ocorre o oposto: as
empresas de economia tendem a enfrentar demanda retraída, o que eleva essa taxa. Outro
instrumento auxiliar seria o consumo de energia: em momentos de expansão econômica, as
fábricas costumam operar com maior utilização de sua capacidade produtiva, ao passo que em
momentos de retração, elas tendem a deixar mais máquinas ociosas, utilizando, portanto, menos
energia.

Todas essas medidas, contudo, são apenas instrumentos auxiliares que dão “dicas” a respeito do
comportamento da atividade econômica. Na prática, conforme já vimos inicialmente, precisamos
entender o processo de mensuração do Produto Nacional e da Renda Nacional. Para tanto,
imaginemos uma economia que produza apenas dois tipos de bens: alimentos e vestuário, tendo
os seus resultados apresentados na tabela a seguir:

Tabela 3 – Valor total da produção e total de renda gerada

Fonte: Adaptado de GIANNETTI DA FONSECA, 2011, p. 237.

77
Macroeconomia

Observe que a tabela apresentada não contempla a mensuração dos insumos intermediários.
Por exemplo, para fabricar alimentos, foi necessário utilizar sementes, defensivos, entre outros
insumos. Da mesma forma, para produzir vestuário, é necessário utilizar fibras, tecidos etc. Por
que, ao expor o processo de Mensuração do Produto e da Renda Nacional, não contabilizamos
as transações intermediárias, ou seja, as transações que se referem à compra de insumos e
que ocorrem entre empresas? A resposta para essa pergunta é muito mais simples do que se
imagina, pois o valor dessas transações já está “embutido” no preço final dos produtos vendidos
ao mercado consumidor. Nesse sentido, se contabilizássemos esse tipo de transação no produto
nacional, enfrentaríamos um problema de “dupla contagem”.

Isso quer dizer que as transações intermediárias nunca deverão ser contabilizadas? Não. Para
fazermos isso, precisamos nos ater ao processo de mensuração do Valor Adicionado, ou seja, a
discriminação do quanto cada insumo adiciona valor ao produto final.

2.1.1 Valor adicionado

Para compreender o processo de mensuração do Valor adicionado, vamos abordar um exemplo


ainda mais simplificado. Imaginemos que nossa economia produza apenas um bem final: livro.

Seu processo de fabricação envolve a combinação de tinta e papel, os quais originam-se de


corantes e madeira, respectivamente. Vamos supor que a madeira é extraída diretamente da
natureza, ao passo que o corante estava acumulado em estoques, ou seja, havia sido produzido
em um momento anterior ao período no qual queremos mensurar a atividade.

Tabela 4 – Valor adicionado

Fonte: GIANNETTI DA FONSECA, 2011, p. 239.

Nessa tabela, temos discriminado o valor das vendas de cada estágio da produção (1), com os
custos inerentes a cada um (2). Como estabelecemos que a madeira é extraída diretamente da
natureza, não atribuímos custo a essa etapa. Como o corante estava estocado, também não
foi atribuído custo algum. As tintas, por sua vez, apresentam os custos de produção relativos à
compra do corante para sua fabricação, e o papel, da madeira. Assim, temos que o somatório
do valor da produção de bens é de $ 490 mil; desse valor, $ 290 mil referiram-se à aquisição de
matérias-primas, de modo que o Valor adicionado à produção totalizou $ 200 mil.

Ao considerarmos, portanto, a produção de intermediários no cálculo do produto e renda dessa


economia, teremos:

78 Laureate- International Universities


Tabela 5 – Contas de Produto e Renda

Fonte: GIANNETTI DA FONSECA, 2011, p. 239 e 240.


79
Macroeconomia

A contabilização da produção leva em consideração o valor gerado pela venda dos livros
e dos bens intermediários, os quais devem ser subtraídos. A descrição da renda estabelece
o detalhamento da remuneração em todas as atividades, as quais devem bater com o Valor
adicionado à produção de livros.

2.1.2 Despesa nacional

Todavia, conforme apresentado no início deste Capítulo, a identidade entre Produto Nacional
e Renda Nacional também é válida para a despesa nacional. Quando o sistema econômico é
composto de famílias, empresas, governo e também realiza transações comerciais com o cenário
externo, vamos caracterizar a despesa nacional através da soma dos gastos de cada um desses
agentes com o produto nacional:

DN = C + I + G + (X-M), onde:

C = despesas das famílias com bens de consumo; I = Despesas das empresas com investimentos;
G = gastos do governo; X = exportações e M = importações.

2.1.3 Poupança e investimento

Até então, supomos que as famílias gastam sua renda disponível na aquisição de bens de
consumo. Mas e se elas decidirem poupar parte de sua renda para cobrir emergências que
possam surgir em algum momento futuro?

Também estabelecemos que as empresas produziam somente bens de consumo. Excluímos da


análise a fabricação de máquinas e equipamentos, indispensáveis para a produção desses tipos
de bens. Como devemos tratar esses eventos na mensuração da atividade econômica? Bom, é
justamente através deles que surgem os conceitos Poupança e Investimento.

A poupança é a parcela da renda que não é gasta em consumo no período analisado, ou seja,
refere-se ao montante gerado pelo pagamento dos fatores de produção (salários, juros, aluguéis
e lucros) às famílias que não foi destinado ao consumo de bens.

S = RN – C, onde:

S = poupança; RN = renda nacional; C = consumo agregado.

O investimento refere-se a toda alocação de recurso que visa aumentar a capacidade de produção
das empresas inseridas no sistema econômico. Nesse sentido, envolve a aquisição de máquinas e
equipamentos (bens de capital) e a variação de estoques de produtos não consumidos.

I = Investimento em bens de capital + Variação de estoques

É importante lembrar que essa definição não contempla investimentos em aplicações financeiras,
pois esses não aumentam a capacidade física de produção das empresas. Da mesma forma, a
aquisição de maquinários usados também não deve entrar na contabilização, pois se de um lado
está elevando a capacidade de produção de quem compra, de outro, alguém está se desfazendo
desta, ou seja, alguém realizou um “desinvestimento”. Nesse caso, incorreríamos no mesmo erro
de dupla contagem discutido anteriormente.

Como todo equipamento tem uma vida útil, chega um dado momento que a empresa que o
utiliza precisa substituí-lo. Toda reposição de um maquinário já obsoleto não eleva a capacidade
de produção, mas a mantém. Nesse sentido, ao inserirmos na análise o conceito de depreciação,
cria-se uma nova medida do Produto Nacional, o Produto Nacional Líquido (PNL):

80 Laureate- International Universities


PNL = PNB – Depreciação, onde PNB é o Produto Nacional Bruto.

2.1.4 Produto Nacional e Produto Interno

A globalização dos mercados acentuou o processo de internacionalização das empresas, ao


mesmo tempo que permitiu uma maior rede de interações entre os agentes econômicos que não
se situam nas mesmas fronteiras. Portanto, é absolutamente importante distinguir a origem dos
fatores de produção no processo de geração do produto da economia.

Por exemplo, imagine uma empresa brasileira que tenha uma filial localizada na França. Nesse
caso, temos um capital nacional sendo empregado em outro país, mas que pode remeter lucros
para cá. Ao mesmo tempo, temos muitas empresas estrangeiras operando em território nacional;
para fabricar os produtos, utilizam mão de obra e matéria-prima daqui, mas remetem seus lucros
para as matrizes. Por meio desses dois exemplos, podemos desenhar um fluxo de capital que
não respeita fronteiras: rendas geradas em outros países são constantemente remetidas para cá,
assim como empresas de capital estrangeiro remetem rendas geradas internamente. Delimitamos
que a diferença entre esses dois movimentos (entrada e saída de capital), que decorrem de
transferências externas, caracteriza a Renda Líquida dos Fatores Externos (RLFE):

RLFE = Renda recebida do exterior – Renda enviada ao exterior

Se considerarmos esses movimentos no Processo de Mensuração do Produto, temos o Produto


Nacional Bruto, mas se desconsiderarmos esse fluxo da análise, chegamos ao Produto Interno
Bruto (PIB):

PIB = PNB – RLFE

VEJA O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS


MANKIW, N.G. (2009): “Produto Nacional Bruto (PNB) é a renda total dos residentes
permanentes de um país. Difere do PIB por incluir a renda que nossos cidadãos ganham
no exterior e por excluir a renda que os estrangeiros ganham aqui. Por exemplo, quando
um cidadão do Canadá trabalha temporariamente nos Estados Unidos, sua produção é
parte do PIB americano, mas não é parte do PNB americano (sua produção é parte do
PNB canadense). Para a maioria dos países, incluindo os Estados Unidos, os residentes
domésticos são responsáveis pela maior parte da produção interna, de modo que o PIB
e o PNB são muito próximos.”

VASCONCELLOS, M. A. S; GARCIA, M. E (1998, p. 104): “O Produto Interno Bruto (PIB)


é o somatório de todos os bens e serviços finais produzidos dentro do território nacional
num dado período, valorizados a preço de mercado, sem levar em consideração se os
fatores de produção são de propriedade de residentes ou não residentes.”

2.2 Teoria da Determinação da Renda


Na discussão a respeito dos ciclos econômicos, vimos que os agregados macroeconômicos
apresentam comportamentos distintos em cada uma de suas fases. Assim, apesar de o produto
nacional apresentar uma tendência e crescimento ao longo dos anos, no curto prazo desvios
ocorrem: há fases em que o produto nacional tende a elevar-se acima da média, e outras em
que podemos observar queda do produto real.

81
Macroeconomia

Vimos também que a política fiscal atua diretamente sobre esses movimentos. John Maynard
Keynes foi o principal responsável por mostrar o papel da política fiscal na condução da economia
ao pleno emprego, ou seja, a importância da política fiscal na correção das flutuações de curto
prazo do produto nacional.

Mas para que possamos entender de fato as implicações dessas medidas sobre a inflação, vamos
discorrer sobre a Teoria de Determinação da Renda tendo como ponto de partida o modelo
keynesiano básico.

2.2.1 Oferta agregada, demanda agregada e equilíbrio

Antes de detalharmos o modelo, faz-se necessário estabelecer algumas hipóteses que moldarão
as nossas variáveis de análise.

Keynes acreditava que a economia vive flutuações de curto prazo, ou seja, o nível do produto
nacional é dado em uma situação em que há desemprego e outros recursos produtivos ociosos.
Nesse sentido, discutiremos a seguir o impacto dessa suposição para o formato da curva de
oferta agregada.

2.2.1.1 Oferta agregada

A principal implicação dessa suposição refere-se ao fato de que os produtores (ofertantes) nessa
economia, ao produzirem sempre com capacidade ociosa e em um cenário de desemprego,
quando há um choque positivo de demanda, podem elevar sua produção sem haver qualquer
necessidade de elevação de preços.

Para entender o que isso quer dizer, imagine que você é um fabricante de ventiladores e que o
verão tem apresentado temperaturas muito elevadas, o que impulsiona a demanda acima da sua
expectativa. Tendo em vista que possui algumas máquinas ociosas no processo produtivo, e que
há desemprego na economia, você consegue elevar sua produção sem ter que elevar os preços
dos ventiladores.

No entanto, se essa economia alcança o pleno emprego dos recursos, torna-se impossível
aumentar a produção, mesmo com elevações no nível de preços, pois todos os insumos disponíveis
para a produção já estão devidamente alocados em estruturas produtivas.

Se formos representar a oferta agregada dessa economia, considerando os dois cenários expostos,
teremos a seguinte situação:

Figura 2 – Curva de oferta agregada. Fonte: Adaptado de LANZANA; VASCONCELLOS, 2011, p. 256.

82 Laureate- International Universities


Isso significa que a economia, ao esgotar a utilização dos seus recursos disponíveis, alcançou a
sua capacidade máxima de produção para sempre? Ou seja, toda a economia tem um limite de
possibilidades de crescimento?

Em um cenário de curto prazo, é bastante razoável imaginar que haja tal limite. Contudo,
quando expandimos o horizonte temporal da análise, percebemos que esse limite é possível de
ser alterado. Para que possamos compreender tal processo, voltemos ao conceito da Curva de
Possibilidades de Produção (CPP).

Cada ponto ao longo da CPP representava diferentes combinações de alocações de insumos


para a produção de bens em uma economia. Fazendo um paralelo com os conceitos vistos
agora, a CPP representa o nível de oferta agregada da economia mediante a utilização plena de
todos os recursos produtivos. Isso significa que cada um dos eventos que podem deslocar a CPP
deslocam também a Curva de Oferta Agregada.

Por exemplo, uma elevação da produtividade em uma economia significa que, para um mesmo
nível de emprego de recursos, tem-se uma maior quantidade de bens sendo gerados. Um dos
eventos mais comuns capazes de elevar a produtividade é o progresso tecnológico.

2.2.1.2 Demanda agregada

A curva de demanda agregada representa o quanto o total de consumidores dessa economia


demandarão para cada nível de preços possível, ou seja, a curva de demanda agregada reflete o
nível de despesa que essa economia alcança para diferentes níveis de preços. Como já havíamos
caracterizado anteriormente, a despesa dos agentes em um sistema econômico é dada por:

DA = C + I + G + (X – M), onde:

DA = demanda agregada; C = consumo das famílias; I = investimento realizado pelas empresas;


G = gastos do governo; (X – M) = demanda líquida do setor externo.

Na medida em que elevações de preços reduzem o poder de compra dos agentes do sistema
econômico, dizemos que a curva de demanda agregada é negativamente inclinada:

Figura 3 – Demanda agregada.


Fonte: LANZANA, A.E. T; VASCONCELLOS, M.A.S., 2011, p. 257.

83
Macroeconomia

2.2.1.3 Equilíbrio

Como já havíamos determinado que Despesas são exatamente iguais ao Produto em uma
economia, o equilíbrio macroeconômico de curto prazo se dá no ponto em que a Demanda
Agregada se iguala à Oferta Agregada (DA = OA).

Figura 4 – Equilíbrio macroeconômico

Figura 4 – Equilíbio macroecoômico. Fonte: LANZANA, A. E. T; VASCONCELLOS, M. A. S., 2011, p. 257.

Ao observar esse gráfico, quando se enfrenta um cenário de desemprego (segmento horizontal


da curva de oferta agregada), uma política fiscal expansionista que eleve os gastos do governo
desloca a curva de demanda agregada para a direita (DA0  DA1). Esse deslocamento gera um
novo ponto de equilíbrio, que permite a elevação da renda nacional sem qualquer alteração do
nível de preços.

Assim, chega-se à conclusão de que, mediante cenários de desemprego, é possível elevar a renda
de equilíbrio dessa economia sem haver qualquer tipo de pressão inflacionária. Dessa forma,
conforme já discutido, para se elevar o produto sem pressões inflacionárias no longo prazo, é
imprescindível elevar a produtividade do trabalho por meio do desenvolvimento tecnológico.

NÓS QUEREMOS SABER!


Keynes foi um grande defensor da política fiscal como instrumento de correção dos ciclos
econômicos. Discuta o significado de sua famosa frase, que resume suas conclusões a
respeito do debate com os economistas clássicos: “No longo prazo estaremos todos
mortos”.

2.2.1.4 Determinantes dos agregados macroeconômicos

O consumo agregado de um país no mercado de bens e serviços é influenciado por diversos


fatores, como disponibilidade de crédito, expectativas quanto à renda futura etc. No entanto,
existe um fator que diversos estudos apontaram como sendo absolutamente fundamental no
processo de determinação do nível de consumo em uma economia: renda disponível para
aquisição de bens.

Na medida em que existe governo em um sistema econômico, supomos que a renda disponível se
caracterizará como a renda livre de impostos que poderá ser destinada para aquisição de bens.
Nesse sentido:

84 Laureate- International Universities


C = ƒ(Yd), onde

C = consumo agregado; Yd = renda nacional disponível.

Yd = Y – T, onde

Y = renda nacional; T = tributos.

Dado que existe um nível de consumo de sobrevivência, supõe-se que há uma parcela do
consumo que será independente do nível de renda disponível, a qual chamaremos de “consumo
autônomo”. Por outro lado, ao assumir a existência de poupança na economia, supomos que
nem todo acréscimo de renda é gasto integralmente em consumo. Surge então o conceito de
Propensão Marginal a Consumir, o que nos permite chegar à seguinte função de consumo
agregado:

C = a + bYd, onde:

C = consumo agregado, a = consumo autônomo, b = propensão marginal a consumir e Y d =


renda disponível.

Como estabelecemos a existência de poupança por parte dos agentes econômicos, vamos
precisar conceituar a poupança agregada: montante da renda nacional disponível que não foi
gasto em consumo. Reflete, portanto, o consumo abdicado no presente para poder ser efetivado
no futuro.

S = Yd - C, onde

S = poupança agregada; Yd = renda disponível; C = consumo agregado.

Da mesma forma que para montar a função de consumo tivemos que estabelecer um coeficiente
no qual cada renda gerada se traduzia em consumo (propensão marginal a consumir), precisamos
adotar o mesmo procedimento para a poupança. Como a renda disponível ou é gasta em
consumo ou é poupada para consumo futuro, temos que a propensão marginal a poupar é:

S = Yd – (a + bYd)

S = Yd – a - bYd

S = – a + (1-b) Yd, onde

(1 – b) = propensão marginal a poupar.

Vamos entender essa relação entre propensão marginal a poupar e consumir através de um
exemplo prático. Diversos estudos apontam que países menos desenvolvidos tendem a apresentar
menores níveis de propensão marginal a poupar. Isso ocorre, pois a renda gerada neles é menor
do que em países desenvolvidos. Nesse sentido, as pessoas não têm um hábito de formação de
poupança.

Imaginemos que no Brasil, em média, a cada R$ 100 de renda gerada, R$ 15 são poupados e o
restante, R$ 85,00, são gastos. Nesse sentido, 15% da renda gerada se transforma em poupança,
ao passo que 85% é gasta no consumo de bens. Logo, a propensão marginal a consumir é igual
a 0,85, ao passo que a propensão marginal a poupar é igual a 0,15.

Por fim, vamos discorrer sobre o investimento agregado, caracterizado por um estoque
de capital que é revertido na aquisição de bens que sejam capazes de elevar a capacidade

85
Macroeconomia

de produção das firmas. Como o investimento agregado é resultado da decisão das firmas,
independe do nível de renda disponível. Seus determinantes referem-se à rentabilidade esperada
com a aquisição do ativo e à taxa de juros do mercado.

Para saber se vale a pena investir em um determinado maquinário, o decisor compara a


rentabilidade esperada com a taxa de juros:

• Se a taxa de juros superar a rentabilidade, significa que o custo será maior do que o retorno,
logo, não investe;

• Se a taxa de juros foi inferior à rentabilidade, significa que o custo é menor do que o retorno,
compensando investir.

2.3 Introdução à Teoria Monetária


Todo sistema econômico está ancorado em relações de trocas. Adam Smith já anunciava essa
característica quando creditou ao homem uma tendência à realização de trocas e barganhas.
Essa tendência aos processos de negociação é apontada por Heilbroner (1980):

[...] As comunidades têm negociado entre si desde, pelo menos, a última Idade Glacial.
Temos provas de que caçadores de mamutes das estepes russas obtiveram em troca
conchas mediterrâneas, o mesmo acontecendo com os caçadores do Cro-Magnon dos
vales centrais da França. De fato, nas charnecas da Pomerânia, no Nordeste da Alemanha,
arqueólogos encontraram uma caixa de carvalho repleta com os restos de suas alças de
couro originais, na qual havia uma adaga, uma cabeça de foice e uma agulha, tudo
de fabricação da Idade do Bronze. De acordo com as conjecturas dos especialistas, era
muito provável que isso fosse o mostruário de um protótipo de vendedor ambulante, um
representante itinerante que recolhia encomendas para a produção especializada de sua
comunidade. (HEILBRONER, 1980, p. 39).

Quando a sociedade se organiza de maneira rudimentar, tendo a produção uma característica


de subsistência, as trocas ocorrem apenas em função do excedente gerado. Quando se tem esse
tipo de relação de troca, há a necessidade de coincidir desejos; se você deseja adquirir batatas,
mas só tem um excedente de milho, precisará encontrar alguém que esteja disposto a trocar
batatas por milho.

Quando as sociedades vão aumentando seus desejos de consumo através da descoberta/


desenvolvimento de novos bens, foi se intensificando a necessidade de criar algum intermediário
para as trocas. Foi nesse contexto que surgiu a moeda.
No decorrer da história, a moeda evoluiu bastante:

86 Laureate- International Universities


Fonte: Adaptado de TROSTER, 2011, p. 277-278.

Por meio desse processo de evolução, define-se que a moeda deve cumprir três funções básicas:

1. Meio de troca: permite que as trocas ocorram de maneira ágil dentro de um sistema econômico.
Foi justamente o desenvolvimento dessa função da moeda que permitiu a especialização e a
divisão do trabalho.

2. Unidade de conta: permite que se comparem os valores das mercadorias, tendo uma base
monetária comum. O desenvolvimento dessa função permite que a moeda seja utilizada para
fins puramente contábeis.

3. Reserva de valor: assegura a possibilidade de abdicar do consumo presente para realizá-lo


futuramente. Ou seja, permite que o seu detentor mantenha o seu poder de compra quando a
estoca.

A unidade monetária de cada país é definida por lei. No Brasil, temos o Real, representado
simbolicamente por “R$”; nos Estados Unidos, o dólar (US$); na Inglaterra, a Libra Esterlina (£)
etc.

87
Macroeconomia

NÃO DEIXE DE VER...


Assista ao filme A ascenção do dinheiro, baseado no livro do professor Ferguson, de
Harvard. Produzido em 2008, conta de maneira muito interessante os impactos do
dinheiro na nossa sociedade. Foi vencedor do prêmio Emmy de melhor documentário
de 2009.

2.3.1 Agregados monetários no Brasil

• Quando analisamos a moeda na Teoria Macroeconômica, privilegiaremos sua função de meio


de troca. Nesse sentido, vamos caracterizar os meios de pagamento da economia brasileira.

O Papel Moeda em Poder do Público (PMPP) é definido como o montante de dinheiro que
está disponível ao setor privado não bancário e que pode ser convertido imediatamente em
transações (mais elevado grau de liquidez¹). Se somá-los ao dinheiro que está no caixa dos
bancos, chegamos ao montante de Papel Moeda Emitido (PME).

PME = PMPP + caixa dos bancos

O Banco Central (BACEN) obriga os bancos comerciais a manterem uma reserva de moeda no
próprio Banco Central, dando origem à nossa Base Monetária:

Base Monetária = PME + reservas dos bancos junto ao BACEN

Você deve estar se perguntando onde entra na contabilização do estoque de moeda o dinheiro
que não está no caixa dos bancos, ou que não está em circulação na economia. Seria esse o
caso do dinheiro aplicado em títulos financeiros? Dado que aplicações financeiras não têm o
mesmo grau de liquidez do papel moeda, criam-se diferentes agregados monetários, ordenados
de acordo com o grau de liquidez (onde M1 tem o maior grau de liquidez, e M4 o menor):

M1 = papel moeda em poder do público + depósitos à vista nos bancos

M2 = M1 + depósitos de poupança + títulos privados (depósitos a


prazo, letras de câmbio e letras hipotecárias)

M3 = M2 + quotas de fundos de renda fixa + operações


compromissadas com títulos federais

M4 = M3 + títulos federais, estaduais e municipais em poder do público

Fonte: Adaptado de TROSTER, 2011, p. 282.

¹ Entende-se por liquidez a capacidade de conversão de um ativo em seu sentido mais comum: papel moeda e moeda escritural. Quanto maior o grau
de liquidez, mais facilmente se converte o ativo em dinheiro. Quanto menor o grau de liquidez, mais difícil será realizar a conversão.

88 Laureate- International Universities


2.3.2 Oferta de moeda na economia

No Brasil cabe exclusivamente ao BACEN a condução da política monetária. Como vimos


anteriormente, a política monetária atua diretamente no controle da oferta de moeda na
economia. Ou seja, o BACEN tem a função de manter a liquidez da economia, de modo a
permitir que o fluxo real de trocas dentro do sistema econômico encontre a sua contrapartida
monetária.

Apesar do monopólio na emissão de moeda por parte do BACEN, os bancos comerciais atuam
ativamente na criação de moeda em um sistema econômico. Para que possamos compreender
como isso ocorre, é importante entender alguns mecanismos de atuação dos bancos.

Quando você realiza um depósito em conta corrente, o dinheiro depositado não fica parado,
pois o banco sabe que as pessoas não costumam resgatá-lo integralmente em poucas horas ou
dias. Nesse sentido, o banco pega o seu depósito e o transforma em crédito para outra pessoa,
por meio de linhas de empréstimo. Mas essa conversão não se dá em seu valor integral, pois o
banco sabe que, apesar de não resgatar integralmente o dinheiro, os saques ocorrem ao longo
de um determinado período. Nesse sentido, eles mantêm uma parcela do depósito em cofres.
Esse valor guardado deverá ser revertido para as operações de caixa dos bancos comerciais, e
é definido como o somatório das reservas técnicas, compulsórias e voluntárias junto ao BACEN.

Para ilustrar esse efeito de criação de moeda, imaginemos um depósito inicial de $ 100,00 em
uma economia cuja porcentagem de reserva dos bancos comerciais sobre os depósitos à vista é
de 20%. Isso significa que desse depósito inicial de $ 100,00, $ 20,00 ficam em poder do banco
e os $ 80,00 restantes viram empréstimo. Quem tomou esses $ 80,00 emprestados realiza algum
pagamento que tende a virar um novo depósito, o que, por sua vez, gera um novo empréstimo,
conforme apresentado na tabela a seguir:

Fonte: Adaptado de VASCONCELLOS; GARCIA, 1998, p. 139.

Pelos dados apresentados, observa-se que, com uma necessidade de reserva de 20%, a cada $
100,00 depositados, geram-se $ 500,00 em circulação. Assim, é possível descrever esse efeito
multiplicador da moeda como:

m = 1/r, onde:

89
Macroeconomia

m = efeito multiplicador bancário; r = porcentagem de reserva dos bancos comerciais sobre os


depósitos à vista.

Esse multiplicador não leva em consideração a possibilidade de o público reter moeda e


não realizar integralmente os depósitos. Se considerarmos o total emitido de moeda em uma
economia, nem tudo se converte em depósitos, ou seja, uma parcela se mantém em poder do
público, outra nos cofres das firmas. Assim, são agregadas na análise algumas variáveis, de
modo a se chegar em um multiplicador da base monetária:

m = M/B, onde:

M = saldo dos meios de pagamentos (moeda em poder do público + saldo dos depósitos à
vista).

B = saldo da base monetária (saldo da moeda em poder público + total das reservas bancárias).

Resta-nos, portanto, entender, o que leva as pessoas a reterem moeda, ou seja, manter a moeda
em mãos sem aplicá-la em algum título financeiro que lhe renda alguma remuneração (juros).

Como os compulsórios foram utilizados para fazer face aos efeitos no Brasil,
da crise internacional de 2008 (Crise do Subprime)?

Ao contrário de outras economias, como os EUA e a maioria dos países europeus, o


sistema bancário brasileiro encontrava-se bem capitalizado por ocasião da eclosão da
crise internacional de 2008, e sem exposição aos papéis lastreados em hipotecas subprime
do mercado imobiliário norte-americano. Naqueles países, a rápida deterioração dos
indicadores de solvência dos bancos motivou a adoção de medidas emergenciais de
contenção da crise, mediante o uso, em grande escala, de recursos fiscais. Já no caso do
Brasil, as medidas adotadas pelo Governo e pelo Banco Central do Brasil para mitigar os
efeitos da crise sobre o sistema bancário doméstico visaram, principalmente, compensar
a expressiva diminuição da liquidez nos mercados financeiros, tanto no país, como no
exterior, e não envolveram recursos fiscais. Nesse sentido, a existência de confortável
volume de depósitos compulsórios – recursos que, vale lembrar, pertencem aos próprios
bancos – permitiu ao BCB injetar liquidez rapidamente no sistema bancário brasileiro,
contribuindo para a normalização das condições de crédito na economia. Inicialmente,
foram liberados recursos recolhidos relativamente à Exigibilidade Adicional, ao que
se seguiu a liberação de valores do Compulsório sobre Recursos a Prazo. Contudo,
verificou-se que tais recursos ficaram “empoçados” nos grandes bancos. A estratégia
então adotada foi a de liberação seletiva de recursos, que deveriam ser direcionados
à aquisição de ativos ou à realização de depósitos de/em bancos pequenos e médios.

Os recursos, a serem recolhidos em espécie e sem remuneração, foram liberados para


aplicação em instituições com Patrimônio de Referência de até R$ 7 bilhões e que não
fizessem parte dos conglomerados dos aplicadores. Para evitar a concentração, cada
banco poderia aplicar somente 20% de tais recursos em uma mesma instituição.

O conjunto de medidas relacionadas aos compulsórios ocasionou a redução do montante


agregado recolhido, de pouco mais de R$ 250 bilhões para cerca de R$ 180 bilhões.

90 Laureate- International Universities


Fonte: BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2015, p. 5-6.

2.3.3 Demanda por moeda

A demanda por moeda se constitui como o estoque de moeda que não está em poder das
instituições financeiras, ou seja, o que está nas mãos do público ou nos depósitos à vista em
bancos.

Diversos estudos apontam três principais determinantes da demanda por moeda:

a) Necessidade de realizar transações: as transações do dia a dia, como gastos com alimentação,
locomoção, lazer etc. Quanto maior a renda, maior tende a ser o volume retido de moeda;

b) Precaução: muitas pessoas e empresas retêm uma certa quantia de dinheiro para cobrir
despesas imprevistas que podem vir a surgir, como um pneu furado, atraso no recebimento de
algum valor devido etc. A demanda por moeda por precaução também tem relação positiva com
o nível de renda;

c) Especulação: a necessidade de aproveitar alguma oportunidade de aplicação financeira faz


com que os investidores costumem deixar disponível um montante de moeda que tenha liquidez
imediata. Nesse caso, a demanda por moeda responde mais à taxa de juros: quanto maior
a taxa, mais onerosa é a retenção, uma vez que as aplicações tendem a trazer retornos mais
elevados.

2.3.4 Taxa de juros nominal e real

Assim como já vimos que a inflação pode corroer o poder de compra da população, ela tem
um papel relevante nas decisões relativas a investimentos. Nesse caso, é de suma importância
distinguir a taxa de juros nominal da taxa de juros real.

• Taxa de juros nominal: “[...] mede o preço pago ao poupador por suas decisões de poupar,
ou seja, de transferir o consumo presente para o consumo futuro.” (VASCONCELLOS; GARCIA,
1998, p. 143).

91
Macroeconomia

• Taxa de juros real: “[...] mede o retorno de uma aplicação em termos de quantidades de bens,
isto é, já descontada a taxa de inflação.” (VASCONCELLOS; GARCIA, 1998, p. 143).

Para entender de maneira clara os dois conceitos, imaginemos um mês que apresentou uma
inflação de 1,2%. Nesse mesmo mês, a taxa de juros nominal foi de 10%. Qual deverá ser a taxa
real de inflação?

Para realizar esse cálculo, precisamos estabelecer a fórmula da taxa de juros real:
r = [(1+i)/(1+π)] – 1, onde:

r = taxa de juros real; i = taxa de juros nominal; π = taxa de inflação.

No exemplo apresentado, temos:

i = 0,1; π = 0,012

Aplicando a fórmula:

r = [(1+0,1)/(1+0,012)] – 1

r = (1,1/1,012) – 1

r = 0,087

Portanto, a taxa de juros real do período foi de 8,7%.

2.3.5 Interligando o lado real da economia com o lado monetário

Na medida em que toda transação que compõe o lado real da economia exige uma contrapartida
monetária, chega-se à conclusão de que o produto nacional precisa ter uma correspondência
com o total de meios de pagamento da economia. Por que não afirmamos de uma vez que eles
precisam se igualar?

Porque a moeda não fica parada. Uma mesma unidade monetária pode ser a base de mais de
uma transação. Imagine que você saque uma parcela do seu salário e vá realizar compras. O
dinheiro que você utiliza servirá como troco de alguma outra venda. Esse troco será utilizado em
outra transação, e assim por diante. Então, para que se possa estabelecer essa correspondência,
faz-se necessária a elucidação de mais um termo: velocidade-renda da moeda.

“A velocidade-renda da moeda é o número de vezes em que o estoque de moeda passa de mão


em mão, criando renda.” (VASCONCELLOS; GARCIA, 1998, p. 144).

Seu cálculo é dado por meio da divisão do PIB nominal pelo saldo dos meios de pagamento (M):
V = PIB nominal/M

Agora, sim, é possível realizar a ligação entre os lados real e monetário de uma economia,
equação construída no âmbito da Teoria Quantitativa da Moeda:

MV = Py, onde

M = saldo dos meios de pagamento; V = velocidade-renda da moeda; P = nível geral de


preços; y = PIB real.

92 Laureate- International Universities


2.3.6 Efeitos reais das políticas monetárias

Finalmente estamos aptos a entender como a alteração da oferta de moeda pode impactar a
atividade econômica e a inflação em uma economia. Para tanto, vamos entender o impacto de
uma política monetária mediante dois cenários: pleno emprego e desemprego.

Cenário de pleno emprego: quando há pleno emprego, expansões da demanda agregada não
são acompanhadas pela elevação da oferta no curto prazo, o que se traduz em inflação. Nesse
sentido, quando há inflação, em termos de política monetária, o desejo do Banco Central se
traduz no combate da inflação. Para tanto, ele deverá reduzir o estoque de moeda disponível
como forma de desacelerar o processo inflacionário.

M V P y
=
(queda) (constante) (queda) (constante)
Fonte: VASCONCELLOS; GARCIA (1998).

Cenário de desemprego: quando há desemprego, é possível expandir o produto nacional sem


gerar pressões inflacionárias. Nesse sentido, a autoridade monetária pode agir de modo a
estimular o crescimento do PIB real elevando a quantidade de moeda na economia.

M V P y
=
(aumenta 10%) (constante) (constante) (aumenta 10%)
Fonte: VASCONCELLOS; GARCIA (1998).

2.4 Inflação
A inflação é a elevação generalizada dos preços dos bens em uma economia. Quando existente
em níveis elevados e por longos períodos de tempo, constitui-se numa ameaça ao valor real da
moeda. Mas seus efeitos vão muito além do que foi discutido até aqui. E o diagnóstico correto de
suas causas é a base para a condução de políticas fiscais e monetárias assertivas. Este Capítulo,
portanto, tem o intuito de aprofundar as causas e os efeitos de processos inflacionários na
economia.

2.4.1 Causas da inflação

Em linhas gerais, a literatura econômica aponta para três principais causas de processos
inflacionários: excesso de demanda, elevação de custos e tendência inercial de elevação de
preços.

Como a demanda pode exercer influência sobre os preços?

Segundo o fundamento de mercado para que haja elevações nos preços dos bens, qualquer nível
de preço que estabeleça uma procura maior que a oferta, ou seja, qualquer nível de preço que
esteja abaixo do preço de equilíbrio, tende a puxar os preços para cima. Mas esse evento se

93
Macroeconomia

refere a um mercado específico, e não à economia como um todo.

Quando a economia está aquecida, o consumo costuma ser a variável que responde mais
facilmente a esse cenário. Nesse sentido, a demanda agregada tende a deslocar-se positivamente
em uma velocidade mais rápida do que a oferta agregada. Isso ocorre, pois a elevação da
oferta agregada exige a realização de investimentos, que costumam ter um prazo maior para
efetivação. O raciocínio é simples: para comprar, basta ter o rendimento à disposição. Para se
realizar o investimento, mesmo com o recurso financeiro em mãos, é necessário um período de
tempo para que a decisão se transforme em uma maior capacidade de produção.

Isso posto, em cenários de crescimento econômico, quando o consumo cresce a taxas mais
aceleradas do que os investimentos, há uma tendência natural para processos inflacionários.
Nesses casos, a forma mais prudente de controle são desestímulos à demanda agregada, os
quais ocorrem por meio de políticas monetária e/ou fiscal restritivas.

Como os custos exercem influência sobre os preços?

As empresas tendem a repassar elevações de seus custos de produção ao preço que praticam
nos mercados. Nesse sentido, qualquer elevação de custo pode se traduzir em inflação. E quanto
mais essencial for o insumo para diferentes cadeias produtivas, maior tende a ser a pressão
inflacionária.

Por exemplo, qual dos choques apresentados a seguir tende a causar maior pressão inflacionária?
Imaginemos que as plantações de laranja na Flórida sejam afetadas severamente pelos furacões
em uma determinada safra, o que fará com que o preço da laranja no mercado internacional
sofra pressões positivas. Essa elevação do preço da laranja irá alterar os custos de produção
da indústria de suco de laranja. No entanto, na economia como um todo, na medida em que o
extrato/suco de laranja não é um insumo essencial, a maioria das cadeias produtivas não sofre
impactos diretos desse aumento.

Contudo, quando os países da OPEP decidem elevar os preços do petróleo de maneira artificial,
o impacto inflacionário é muito maior. Isso ocorre, pois o petróleo é matéria-prima essencial
para uma grande quantidade de cadeias produtivas. Mas, sobretudo, o principal impacto para a
economia ocorre por alterar os preços dos combustíveis. Como a distribuição de bens depende
do deslocamento dos produtos, qualquer aumento no preço do petróleo tende a reverberar como
pressão nos custos relativos à logística, gerando pressões inflacionárias significativas.

Mas um dos exemplos mais discutidos a respeito da inflação de custos refere-se aos impactos de
elevações do salário mínimo. Quando as elevações do salário mínimo superam os ganhos de
produtividade da mão de obra, há uma tendência para instauração de processos inflacionários.
Naturalmente, na medida em que grande parte dos fenômenos causadores de inflação de custos
não é tipicamente econômica, seu combate por meio de política econômica é mais complicado.
Como remediar os efeitos de desastres naturais? Como lidar com decisões que foram tomadas
em um âmbito político?

Nessas situações, o governo costuma atuar por meio das políticas de renda, fixando/congelando
os preços. Mas essas medidas não se sustentam no longo prazo, podendo, inclusive, acentuar
a inflação quando retiradas. Foi o que aconteceu em alguns planos econômicos de combate à
inflação.

Como a inércia pode exercer influência na inflação?

Em economias caracterizadas historicamente por indicadores elevados de inflação, ocorre o que


alguns autores chamam de “memória inflacionária”. Com o processo persistente de inflação, os
ofertantes acabam por elevar seus preços mesmo quando não há fundamento para tanto (seja

94 Laureate- International Universities


por pressão de demanda ou de custos).

O combate a esse tipo de inflação também é bastante complicado, na medida em que deve
atacar as expectativas dos agentes econômicos. Enquanto os agentes não tiverem segurança de
que o poder de compra estará assegurado, haverá repasses contínuos das expectativas elevadas
de inflação para o preço do bem.

VOCÊ O CONHECE?

Você já deve ter ouvido falar a respeito do processo inflacionário que foi resolvido com
a implementação do Plano Real. Mas quais foram as razões de tamanho sucesso?

Muitos autores argumentam que o sucesso do plano estava no diagnóstico correto das
causas da inflação, o que permitiu a configuração de um rol de medidas certeiras.
Segue uma análise de Luque e Vasconcellos (2011) a respeito do sucesso do Plano Real:

Em 1994, no governo Itamar Franco, tendo como ministro da Fazenda


Fernando Henrique Cardoso, implementou-se o Plano Real. Este, por sua
vez, representou um avanço em relação aos planos anteriores, reconhecendo
que as principais causas da inflação brasileira estavam no desequilíbrio do
setor público e nos mecanismos de indexação [...]. Após a reforma monetária
inicial, a política anti-inflacionária concentrou-se nas chamadas âncoras
monetária e cambial. A âncora monetária consistiu no estabelecimento da
taxa de juros e da taxa do compulsório sobre os depósitos à vista relativamente
elevadas, para controlar a demanda agregada. A âncora cambial consistiu na
valorização do real associada ao regime de câmbio fixo. Ao tornar o real
relativamente valorizado em relação às moedas estrangeiras, em particular ao
dólar, as importações tornaram-se mais baratas, aumentou-se a concorrência
com produtos produzidos brasileiros, ancorando-se os preços internos. Nesse
aspecto, deve-se considerar que contribuiu para esse resultado a abertura
comercial iniciada timidamente no governo Sarney, e incrementada no
governo Collor de Mello, através de redução das tarifas de importação e de
barreiras alfandegárias. (LUQUE; VASCONCELLOS, 2011, p. 325-326).

Alguns autores questionam o sucesso do Plano na medida em que o regime de câmbio


ocasionou uma crise no Balanço de Pagamentos brasileiro em 1999. A partir dessa crise,
passou-se a se adotar um regime de câmbio flutuante atrelado a um regime de metas de
inflação. No entanto, não há como negar o sucesso do Plano na resolução do problema
crônico de inflação brasileira.

95
Síntese
Macroeconomia

Síntese
Neste Capítulo, você entrou em contato com as principais variáveis e problemas da macroeconomia.
Ao aprofundar os tópicos, entendeu como o governo costuma combater os efeitos danosos de cada
etapa dos ciclos econômicos.

Nesse sentido, compreendeu os atores envolvidos, os instrumentos e resultados esperados de cada


tipo de política econômica, seja ela fiscal, monetária, externa ou de renda.

Percebeu que nem sempre se deve procurar estimular a economia, principalmente quando esta
enfrenta um processo inflacionário. Por isso, enfrentamos tantas dificuldades no nosso atual cenário
econômico: como conjugar o combate à inflação com a atividade econômica desaquecida, na
medida em que políticas anti-inflacionárias tendem a desaquecer a atividade econômica?

Apesar de algumas dúvidas perdurarem, você com certeza está mais preparado para analisar o
cenário da tomada de decisões, podendo diminuir o risco inerente a cada uma delas.

96 Laureate- International Universities


Capítulo 4 O Setor Público e o
Desenvolvimento Econômico
Introdução
Neste Capítulo, você terá contato com os princípios de atuação do Estado na economia,
compreendendo os principais aspectos que moldam as avaliações a respeito da efetividade do
setor público. Dessa forma, conseguirá descrever as funções econômicas do Estado, a estrutura
tributária necessária para a execução de seus objetivos, a forma pela qual se estabelece o
orçamento público, bem como os resultados da diferença entre arrecadação e gasto, ou seja, o
déficit público.

Também terá contato com as principais teorias de crescimento e desenvolvimento econômico, o


que lhe permitirá entender quais são as fontes de geração de riqueza nas economias, bem como
as estratégias de financiamento do desenvolvimento econômico.

97
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

1 O setor público
Ao longo deste curso, você teve contato com diversas formas de atuação do Estado na economia.
Em um primeiro momento, aprendeu como as diferentes escolas de pensamento econômico
encaram o papel econômico do Estado; depois, compreendeu como as políticas governamentais
são capazes de afetar o equilíbrio dos mercados competitivos; por fim, verificou como a adoção
de políticas macroeconômicas interferem no ciclo econômico.

Essa visão inicial é muito rica para a compreensão das formas como o Estado pode intervir no
curso econômico. No entanto, a discussão ainda carece de aprofundamento dos mecanismos
de atuação do Estado. Nesse sentido, a seguir será apresentada uma breve conceituação das
funções econômicas do setor público, com posterior elucidação dos princípios norteadores da
execução tributária, o que lhe permitirá obter a receita necessária para a execução de seus
gastos. Por fim, você terá contato com questões relativas ao resultado financeiro da ação do setor
público, expresso por meio de déficits e superávits fiscais.

Mas, antes de iniciarmos a discussão a respeito do papel econômico do setor público, segue
um exercício a respeito da necessidade de nos organizarmos em torno de um aparato estatal
(Quadro 1).

Quadro 1 – Para que serve o governo?

Muitos leitores já devem ter se feito essa pergunta. Ou, colocando as coisas de
outra forma, seria possível não ter governo? Um exercício intelectual interessante
é imaginar o que aconteceria se, por exemplo, um transatlântico com 2.000
passageiros naufragasse e todas as pessoas conseguissem se salvar, sem que o
resto do mundo saiba do seu destino, indo parar em uma ilha deserta. O pequeno
anarquista que vive dentro de cada pessoa, no início, provavelmente levaria cada
um a tentar sobreviver de forma independente dos outros. Com o passar do tempo,
porém, algumas perguntas começariam a surgir, tais como:

• Como a comunidade fará para se proteger da ação dos animais selvagens?


• Se houver um litígio entre duas pessoas, quem arbitrará para decidir quem está
com a razão?
• Quem tomará conta dos eventuais infratores que, por exemplo, forem pegos
roubando o sustento dos outros?
• Quem tomará conta dos doentes?

e tantas outras que poderão surgir. O leitor já terá percebido que o “exercício”
proposto nada mais é do que uma parábola para explicar – e justificar – a existência
dos governos. De fato, a primeira questão está associada ao que seria o conceito de
“defesa”; a segunda, ao de “justiça” etc. O governo surge como forma de organizar
e disciplinar melhor as relações entre as pessoas. A partir dessa necessidade inicial,
porém, é claro que há uma série de vícios e imperfeições, como a má escolha de
prioridades, o desperdício de recursos etc., que constituem o “fermento” que alimenta
as críticas, as quais, em maior ou menor medida, são dirigidas aos governos de
todos os países do mundo. Pode-se – e deve-se – tentar minorar essas imperfeições,
sem perder de vista que a alternativa à existência de um governo é o “cada um por
si”, o que é obviamente incompatível com qualquer forma de convivência civilizada
entre pessoas ou grupos sociais.

Fonte: GIAMBIAGI, F.; ALÉM, A. C., 2008, p. 9.

98 Laureate- International Universities


1.1 Funções econômicas do setor público
Você já parou para pensar que, quando vai comprar um refrigerante, suas opções de compra
restringem-se a marcas de apenas duas empresas? De acordo com a Associação dos Fabricantes
de Refrigerantes do Brasil (Afrebras), cerca de 90% desse tipo bebida é fabricado pela Coca-Cola
e pela AmBev, excetuando-se algumas marcas regionais pequenas.

No início do século XX, a maioria dos setores econômicos era pouco concentrada, de modo
que o papel do Estado centrava-se na justiça e na segurança. Contudo, o decorrer da história
mostrou a necessidade de expansão do papel do Estado. Serão apresentados a seguir alguns
eventos históricos que contribuíram para a reformulação das funções econômicas do Estado.

O desenvolvimento dos modos de produção, em especial, o advento da produção em massa
fordista e a consequente concentração dos mercados mostraram a real necessidade do Estado
em fiscalizar e manter as práticas concorrenciais de modo a garantir o bem-estar social.

A crise de 1929, por sua vez, mostrou a importância do Estado na geração de empregos por meio
de obras de infraestrutura. Por fim, com o término das duas grandes guerras mundiais, observou-
se um avanço significativo dos ideais social-democratas, selando a abertura de estratégias de
desenvolvimento cada vez mais dependentes do Estado.

No final da década de 1970, contudo, as crises fiscais ocasionadas pela adoção das políticas
fiscais expansionistas que embasaram o “Estado de Bem Estar Social”, aliadas ao desenvolvimento
tecnológico e do sistema financeiro, fez ressurgir o ideal liberal de baixa intervenção do Estado
na economia.
Antes de prosseguir com a descrição das funções econômicas do Estado, faz-se necessária uma
breve discussão sobre eficiência do mercado na alocação de recursos produtivos, de modo a
deixar mais claro o embate de ideias liberais e keynesianas que moldaram essa evolução.

Para que possamos entender esse ponto, voltemos à descrição da mão invisível do mercado,
de Adam Smith. Para esse autor, o problema de alocação de recursos produtivos se resolve da
maneira mais eficiente possível por meio do mercado. Como isso acontece?

Imagine que uma determinada sociedade esteja enfrentando problemas de escassez de alimentos,
ao mesmo que tempo que tem excesso de sapatos, os quais estão se acumulando nos estoques
das lojas. Podemos enxergar essa problemática por meio de duas óticas: desejos da sociedade e
alocação de recursos. Essa visão nos permitirá entender o conceito de eficiência.

Implicitamente, o desejo dessa sociedade é que ocorra uma realocação dos recursos produtivos,
os quais deixem de ser empregados em tal escala na produção de sapatos para serem utilizados
nos processos de produção de alimentos. Diz-se implicitamente, pois não há ninguém pensando
diretamente nessa situação, mas sim um desejo de que haja mais alimentos sendo produzidos e
menos sapatos. Mas como realocar os recursos produtivos?

De acordo com Smith, a forma mais eficiente de resolver esse problema encontra-se no
mercado concorrencial, por meio de um sistema de preços flexível e da livre de intervenção
governamental.

Se os fabricantes de sapatos estão acumulando estoques, deverão iniciar um processo de redução


de preços para conseguir vendê-los. A queda de preços reduz o lucro por unidade de produto, o
que torna a atividade menos atrativa, fazendo com alguns produtores enxerguem maior potencial
em outras atividades mais lucrativas, como a produção de alimentos.

Por outro lado, os fabricantes de alimentos encontram margem para elevação de preços na
medida em que a oferta existente é insuficiente para cobrir toda a demanda. O aumento do preço

99
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

permitirá que estes obtenham um lucro maior por unidade de produto. A maior lucratividade,
por sua vez, estimulará os investimentos produtivos, os quais exigirão que uma maior quantidade
de recursos produtivos seja alocada nessa atividade. Partindo do nosso exemplo simplista, esses
recursos viriam daqueles que produziam sapato e agora têm interesse na produção de alimentos.

Assim, se entendermos a eficiência de um mercado a partir da maximização dos ganhos do


comércio entre vendedores e compradores, toda vez que houver algum desequilíbrio de mercado
(excesso ou escassez de oferta), os resultados sugerem que uma melhor alocação dos recursos
produtivos poderia estar sendo feita; nesse sentido, ainda não se alcançou a situação mais
eficiente possível.

Assim, qualquer ação do Estado que tire do mercado essa capacidade de se “autorregular”
tenderia a trazer menor eficiência no processo de alocação dos recursos produtivos. No entanto,
essa visão é bastante rebatida por outras vertentes teóricas. Conforme vimos, Keynes acreditava
que é irreal essa premissa de que a economia tenderia, por meio da mão invisível do mercado,
ao equilíbrio de longo prazo. Nesse sentido, ele acreditava que a ação do Estado por si só não
é ineficiente; pelo contrário, ela serve para corrigir as flutuações de curto prazo, uma vez que a
“mão invisível” é passível de falhas.

NÃO DEIXE DE VER...


Um vídeo foi encomendado pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos em meados
da década de 1950 ao cartunista John Sutherland, com o intuito de exaltar às forças
armadas americanas as glórias do sistema de livre mercado. De maneira muito didática,
ele explica a eficiência decorrente de um sistema de livre mercado, pontuando o escopo
de atuação do Estado, bem como as consequências de uma intervenção desastrosa.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=uXiwS4xK8cw>. Acesso em: 20
jun. 2015.

Observa-se, portanto, que a abrangência do intervencionismo estatal anda no bojo do


desenvolvimento das teorias econômicas, as quais estão enraizadas em ideologias:

[...] em parte, a existência de um governo pode refletir a presença de ideologias sociais


e políticas, que divirjam das premissas adotadas quanto à soberania do consumidor e
quanto à preferência por um sistema de decisões descentralizadas. Mas este é apenas
um aspecto secundário do problema. Tem maior importância o fato de que o mecanismo
de mercado não pode desempenhar sozinho todas as funções econômicas. A atuação
governamental é necessária para guiar, corrigir e suplementar este mecanismo em alguns
aspectos. (MUSGRAVE; MUSGRAVE, 1980, p. 42)

Ainda assim, apesar de não haver consenso sobre a eficiência da ação do Estado na economia,
vamos discorrer sobre algumas de suas funções básicas:

1. Função alocativa: prover bens e serviços que não são de interesse da iniciativa privada, e
cujo consumo por um não afeta o acesso de outro. Esses tipos de bens são chamados “bens
públicos”, e podem se dividir em tangíveis (ruas, iluminação pública etc.) e intangíveis (defesa
nacional, justiça e segurança pública). A função alocativa também prevê a correção das falhas
de mercado, como as externalidades e a criação de monopólios.

100 Laureate- International Universities


NÓS QUEREMOS SABER!
A distinção entre bens privados e públicos se dá por meio de dois aspectos: não exclusão
e não rivalidade. Pesquise ambos e caracterize as diferenças entre esses dois tipos de
bens.

2. Função distributiva: realização de políticas de redistribuição de rendas. Nesse caso, o Estado


utiliza parte da sua arrecadação de impostos para minimizar os efeitos das falhas no processo
distributivo do mecanismo de mercado. Os principais instrumentos dessa função são as políticas
de transferência de renda, como o Bolsa Família, bem como os subsídios e concessões de crédito
que visam estimular o acesso de famílias de baixa renda ao consumo de bens, como o “Minha
Casa Minha Vida”.

3. Função reguladora: a função estabilizadora refere-se ao papel do Estado na condução dos


interesses de política macroeconômica em relação aos preços da economia (inflação) e emprego.
Nesse sentido, qualquer tomada de decisão aplicada no âmbito das políticas monetária e fiscal
está satisfazendo essa função do Estado.

1.2 Estrutura tributária


O cumprimento de cada uma das funções do Estado exige que este desembolse recursos
financeiros. Esses recursos financeiros, por sua vez, são obtidos principalmente por meio da
arrecadação tributária.
Para garantir o bem-estar social, um sistema tributário deve ser guiado por proposições
elementares e essenciais que permitam a minimização da interferência do governo nas decisões
dos agentes econômicos, assim como a distribuição justa dos ônus entre esses. Essas proposições
serão detalhadas no quadro a seguir:

Quadro 2 – Sistema Tributário “Ideal”

Princípio da
“Perdas” devem ser compartilhadas
equalidade

Contribuição com a receita do Estado de cada agente Princípio do


econômico deve ser considerada socialmente “justa”
benefício

Contribuem mais com a receita do Estado aqueles com Princípio da


maior capacidade de pagamento
capacidade de pagamento

Imposição dos tributos precisa interferir o mínimo possível no Princípio da


processo de alocação de recursos
neutralidade

O processo de cobrança dos tributos deve ser facilmente Conceito de


operacionalizado simplicidade
Fonte: Autor.

101
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

1.2.1 Princípio da equidade

O princípio da equidade é concebido em uma perspectiva normativa, estabelecendo que o


ônus da implementação de impostos deve ser repartido entre os agentes econômicos. Em outras
palavras, visa estabelecer a relação entre cobrança do tributo e capacidade de pagamento e
divide-se entre princípio do benefício e capacidade de pagamento

1.2.2 Princípio do benefício

Na medida em que uma parcela dos tributos é destinada ao provimento de bens públicos,
argumenta-se que a utilização deles deveria estar equiparada com o pagamento dos tributos.
A aplicação desse princípio, na prática, é bastante complexa. Como determinar quanto você
ou seu vizinho utilizam da iluminação pública da sua rua, por exemplo? Quem trabalha à noite
deveria pagar um tributo mais elevado por utilizar mais esse tipo de bem do que aqueles que
saem somente à luz do dia? Apesar da dificuldade, alguns tipos de serviços públicos utilizam-se
de taxas específicas para seu financiamento, como o transporte público e a energia.

Nesse sentido, conclui-se que esse princípio é aplicável a alguns tipos específicos de serviços
públicos, contribuindo exclusivamente, portanto, para a função alocativa.

1.2.3 Princípio da capacidade de pagamento

Nesse caso, a tributação deveria ser estabelecida de acordo com a capacidade de pagamento
do agente econômico. Em torno do que é considerado socialmente justo, é possível estabelecer
uma regra geral de tributação: tratar igualmente aqueles com mesma capacidade de pagamento
(equidade horizontal) e de maneira diferente os que possuem capacidades de pagamento distintas
(equidade vertical).

A aplicação desse princípio convive com o seguinte dilema: quem tem maior capacidade de
pagamento? Quem tem a maior renda, ou o maior patrimônio ou quem consome mais?
Os que defendem a renda como melhor critério assim o fazem porque acreditam que seja a
forma mais ampla da compreensão de capacidade de pagamento, tendo em vista que, quanto
maior a renda, maior a capacidade de consumo e de construção de patrimônio. Cabe, neste
ponto, apresentar-lhe mais um importante conceito: progressividade. Um imposto é considerado
progressivo quando sua alíquota¹ eleva à medida que a renda também aumenta. No Brasil, o
Imposto de Renda é progressivo.

Os que acreditam que o consumo é o melhor critério defendem que o ato de consumir é voltado
para a satisfação de uma necessidade individual e deveria, portanto, ser devidamente onerado.
Ademais, a imposição do Imposto de Renda acaba por diminuir a capacidade de poupança e
investimento dos agentes econômicos, variáveis tão importantes para o crescimento econômico.
Nesse tipo de tributação, não há espaço para a progressividade, de modo que todos os indivíduos
pagam a mesma alíquota ao consumir um bem. Em termos práticos, se você ou Warren Buffett2
comprarem um guaraná na padaria, estarão pagando exatamente o mesmo valor ao Estado.

Por fim, os impostos sobre a riqueza também geram muitas polêmicas quanto à sua necessidade
e efetividade. O patrimônio de qualquer indivíduo do sistema econômico é resultado de uma
renda que foi gerada em um momento anterior e não foi gasta em consumo, ou seja, nada mais
é do que poupanças geradas no passado. Na medida em que são resultado de rendas passadas,
muitos acreditam que já foram devidamente tributadas.

¹ Alíquota é o termo empregado para designar a porcentagem ou valor fixo que deverá ser aplicado à base de cálculo do
tributo.
2
Warren Buffett é um dos maiores e mais influentes investidores do mundo. Em 2008, foi classificado como o homem mais
rico do mundo, de acordo com o ranking da Forbes.

102 Laureate- International Universities


1.2.4 Princípio da neutralidade

O princípio da neutralidade prevê que a imposição de tributos não deve afetar a eficiência do
mercado na alocação dos recursos. À medida que a imposição de um tributo altera artificialmente
o preço do bem, este é capaz de gerar uma distorção nesse sistema de preços, levando a
economia a uma situação menos eficiente.

Isso posto, o princípio da neutralidade estabelece uma visão normativa da tributação:


hipoteticamente, a imposição de um tributo não pode afetar as decisões dos agentes. Em termos
práticos, significa que a neutralidade prevê que um sistema tributário deva gerar a menor distorção
possível na alocação dos recursos produtivos e, consequentemente, no sistema de preços.

O Imposto de Renda é considerado, em certa medida, neutro. Isso ocorre, pois a imposição da
alíquota diminui da mesma maneira a renda disponível para consumo e poupança daqueles
indivíduos enquadrados na mesma faixa de rendimento. No entanto, ao avaliarmos os impostos
seletivos que incidem sobre a produção e o consumo, quebra-se esse princípio. Isso não significa,
contudo, que tal imposição necessariamente irá trazer ineficiência. Por exemplo, o fato de a
produção e o consumo de cigarro arcarem com uma carga tributária mais elevada do que a
média está minimizando o impacto de externalidades negativas decorrentes de seu consumo, a
saber, a elevação dos gastos com saúde pública.

1.2.5 Conceito de simplicidade

Um sistema tributário deve ser idealizado de modo que os seus geradores de receita (contribuintes)
o entendam facilmente. Ademais, os custos com o processo de cobrança e arrecadação não
devem ser elevados.

1.3 Tipos de tributos


Quando o imposto incide diretamente sobre o indivíduo, mais especificamente sobre sua renda
(salários, lucros, juros, dividendos e aluguéis) ou patrimônio, diz-se que a tributação é direta.
Quando, por sua vez, incidir sobre as transações pertinentes às atividades econômicas ou
produtos e serviços, diz-se que a tributação é indireta.

1.3.1 Imposto de Renda

O Imposto de Renda é um tributo direto, o qual pode ser aplicado tanto às Pessoas Físicas
(IRPF) quanto às Pessoas Jurídicas (IRPJ). Suas alíquotas são fixadas com base em faixas de
renda, respeitando o critério de progressividade. Sua base de cálculo incide em torno da renda
tributável, que contempla alguns abatimentos do rendimento total do indivíduo, como gastos
com planos de saúde.

O Imposto de Renda da Pessoa Física fica retido diretamente na fonte pagadora. Portanto, os
trabalhadores formais, ao receberem seu salário, já têm descontado o imposto, de modo a se
minimizarem as práticas de sonegação no caso dos contratos em CLT.

O Imposto de Renda da Pessoa Jurídica incidirá sobre o lucro tributável das organizações, sendo
sua base de cálculo feita a partir de três métodos:

1. Lucro real: é a diferença entre receitas e custos. O cálculo do IRPJ a partir desse método exige
registros contábeis em conformidade com a legislação. Sua forma de apuração pode se dar
anualmente, com contribuições mensais baseadas em estimativas, ou trimestralmente.

2. Lucro presumido: alíquota que incide sobre a receita bruta. Esse tipo de método se aplica

103
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

melhor a empresas cuja receita bruta não é grande o suficiente para que se tenha a necessidade
de organização de um sistema contábil adequado à legislação tributária.

3. Lucro arbitrado: o governo estabelece arbitrariamente qual deverá ser a base do imposto; sua
implementação se dá nas empresas que não apresentam registros contábeis precisos.
Na medida em que o IRPJ incide sobre o lucro tributável, questiona-se o fato de que ele incida
inteiramente sobre o produtor, pois podem ocorrer repasses aos preços que os consumidores
deverão pagar.

1.3.2 Imposto sobre o Patrimônio

Imposto que incide sobre a posse de ativos em um determinado período. No Brasil, os maiores
exemplos desse tipo de imposto são o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e o Imposto
sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).

1.3.3 Imposto sobre as Vendas

Impostos indiretos que incidem sobre o consumo, podendo ser classificados de acordo com:

1. Amplitude da base incidência: incidência que se dá rotineiramente sobre transações – compra


de produtos industriais ou de bens de consumo, com alíquotas uniformes (únicas) ou seletivas
(diferenciadas segundo a natureza do bem). Também podem incidir sobre as transações de
compra e venda de mercadorias específicas. Nesse caso, as alíquotas são sempre seletivas.
Exemplo: Imposto sobre consumo de bebidas alcoólicas.

2. Estágio do processo de produção e comercialização: imposto pode ser cobrado do produtor,


do comércio atacadista, do comércio varejista ou em todas as etapas.

3. Forma de apuração: incidência se dá no valor total da transação (Imposto em cascata ou


cumulativo) ou apenas no valor adicionado pelo contribuinte (Imposto sobre valor adicionado).
O imposto em cascata fere o princípio da neutralidade, em especial naqueles setores cuja cadeia
produtiva é muito extensa. Na medida em que cada etapa é tributada sobre o valor geral da
transações, os setores com maiores quantidades de etapas produtivas tendem a arcar com uma
carga tributária mais intensa, prejudicando sua competitividade e atratividade.

1.4 Orçamento público


O conceito de orçamento público surge quando se percebe que, em um Estado de Direito, para
que se evite a ação imprópria de governantes, se estabelece que os gastos do governo deverão
ser submetidos à autorização antes de sua execução.

O comportamento dos gastos públicos está bastante atrelado com o contexto histórico, conforme
podemos observar na tabela a seguir:

104 Laureate- International Universities


Final Período Período Período
século XX, prévio à I pós I prévio à II
em torno Guerra Guerra Guerra
de 1870 Mundial, Mundial, Mundial, em 1960 1980 1990 1996
(b) em torno em torno torno de
de 1913 de 1920 1937 (b)
(b) (b)
Alemanha 10,0 14,8 25,0 34,1 32,4 47,9 45,1 49,0
Austrália 18,3 16,5 19,3 14,8 21,2 34,1 34,9 36,6
Áustria 14,7 20,6 35,7 48,1 38,6 51,7
Bélgica (c) 13,8 22,1 21,8 30,3 57,8 54,3 54,3
an a á 16,7 25,0 28,6 38,8 46,0 44,7
s anha (c) 11,0 8,3 13,2 18,8 32,2 42,0 43,3
sta s 7,3 7,5 12,1 19,7 27,0 31,4 32,8 33,3
ni s
ran a 12,6 17,0 27,6 29,0 34,6 46,1 49,8 54,5
lan a (c) 9,1 9,0 13,5 19,0 33,7 55,8 54,1 49,9
rlan a 18,8 25,5 28,0 48,9 41,2 42,0
tália (c) 11,9 11,1 22,5 24,5 30,1 42,1 53,4 52,9
a 8,8 8,3 14,8 25,4 17,5 32,0 31,3 36,2
ruega 5,9 9,3 16,0 11,8 29,9 43,8 54,9 49,2
a 24,6 25,3 26,9 38,1 41,3 34,7
el n ia
ein 9,4 12,7 26,2 30,0 32,2 43,0 39,9 41,9
ni
uécia 5,7 10,4 10,9 16,5 31,0 60,1 59,1 64,7
u a 16,5 14,0 17,0 24,1 17,2 32,8 33,5 39,4

Média
10,5 12,0 18,2 22,4 27,9 43,1 44,2 45,8
Simples

(a) Governo geral.


(b) Valor referente ao ano mais próximo para o qual se dispõe de dados depois de 1870, antes de 1913, depois
de 1920 e antes de 1937.
(c) Até 1937, dados referentes apenas ao governo central.

Fonte: GIAMBIAGI, F.; ALÉM, C. A., 2008, p. 11.

No decorrer do século XX, observa-se uma participação cada vez mais expressiva dos gastos
públicos no PIB dos países. Especialmente quando enfrentam períodos de guerra, a elevação dos
gastos públicos é acentuada.

Independentemente da existência de algum esforço de guerra, nota-se que o gasto público


traçou uma trajetória de crescimento, impulsionada por dois principais fatores: envelhecimento
populacional e urbanização. O primeiro deles pressiona os gastos públicos, pois aumenta as
despesas com saúde e, sobretudo, com a previdência. O segundo faz com que a sociedade
pressione por serviços públicos cada vez melhores.

Em termos políticos e econômicos, o estabelecimento do orçamento público reflete a execução


de gastos, os quais devem estabelecer áreas prioritárias. Entre os principais centros de custo do
governo, temos: a) saúde; b) educação; c) defesa nacional; d) policiamento; e) regulação; f)
justiça; g) assistencialismo.

105
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

NÃO DEIXE DE LER...


Você tem ideia de como o governo está distribuindo seus gastos entre os ministérios e
secretarias?

Entre na página do Orçamento no site do Ministério do Planejamento e descubra!

No Brasil, a Constituição de 1988, em seu artigo 1653, prevê que o orçamento do setor público
seja realizado obedecendo cumulativamente a três requisitos: a) Plano Plurianual (PPA)4; b) Lei de
Diretrizes Orçamentárias (LDO)5; e c) Lei Orçamentária Anual (LOA)6.

1.5 Déficit público


Você já deve ter presenciado situações nas quais uma pessoa perde o controle de seus gastos e
acaba comprometendo uma parcela maior do que seu rendimento. Na medida em que o governo
tem uma receita e uma perspectiva de gasto, ele também está sujeito a tal situação. Ao final de
um exercício, se a arrecadação for maior do que as despesas, diz-se que há um superávit nas
contas públicas. Quando o governo gasta mais do que arrecada, por sua vez, cria-se um déficit
público.

No Brasil, historicamente, o setor público é deficitário. Toda vez que as despesas superarem a
receita gerada, o governo deverá encontrar formas de financiar sua dívida. Se recorrer a recursos
extras fiscais, poderá emitir moeda, por exemplo. Para tanto, o Tesouro Nacional (União) deverá
pedir o montante emprestado ao Banco Central. A principal vantagem desse recurso está em
não aumentar o endividamento público junto ao setor privado. Contudo, esse tipo de ação gera
pressões inflacionárias.

O governo também pode optar por vender títulos da dívida pública ao setor privado. Nesse caso,
ao obter receita com a venda do título, tira moeda de circulação, que deverá ser destinada ao
financiamento de sua dívida. Nesse caso, não há pressão inflacionária; contudo, o endividamento
público aumenta, pois o título é vendido mediante o pagamento de juros.

Se recorrer aos recursos fiscais, o governo poderá estabelecer um aumento dos impostos
conjugado a uma maior restrição dos seus gastos (política fiscal contracionista).
Assim, percebemos que a manutenção da saúde financeira do Estado enfrenta dilemas em relação
ao controle da inflação e da dívida pública.
3
Art. 165. Leis de iniciativa do Poder Executivo estabelecerão:
I - o plano plurianual;
II - as diretrizes orçamentárias;
III - os orçamentos anuais.
4
“§ 1º A lei que instituir o plano plurianual estabelecerá, de forma regionalizada, as diretrizes, objetivos e metas da administração pú-
blica federal para as despesas de capital e outras delas decorrentes e para as relativas aos programas de duração continuada” (BRASIL,
1988, n.p.).
5
“§ 2º A lei de diretrizes orçamentárias compreenderá as metas e prioridades da administração pública federal, incluindo as despesas
de capital para o exercício financeiro subseqüente, orientará a elaboração da lei orçamentária anual, disporá sobre as alterações na
legislação tributária e estabelecerá a política de aplicação das agências financeiras oficiais de fomento.” (BRASIL, 1988, n.p.).
6
“§ 5º A lei orçamentária anual compreenderá:
I - o orçamento fiscal referente aos Poderes da União, seus fundos, órgãos e entidades da administração direta e indireta, inclusive
fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público;
II - o orçamento de investimento das empresas em que a União, direta ou indiretamente, detenha a maioria do capital social com direito
a voto;
III - o orçamento da seguridade social, abrangendo todas as entidades e órgãos a ela vinculados, da administração direta ou indireta,
bem como os fundos e fundações instituídos e mantidos pelo Poder Público.” (BRASIL, 1988, n.p.).

106 Laureate- International Universities


1.5.1 Tipos de déficit público

Quando observamos a diferença entre o que foi arrecadado e gasto em um determinado período,
chegamos ao conceito de déficit primário. Observe que, nesse caso, não se está levando em
consideração os juros reais de dívida contraída em um momento anterior. No entanto, como o
governo se endivida para cobrir o déficit primário, todo exercício exige o pagamento de juros
e amortização da dívida criada. Surgem, então, dois novos conceitos de déficit: a) déficit
nominal, que soma ao déficit primário os gastos com juros e amortização da dívida; b) déficit
operacional, que é o déficit nominal, excluindo a correção monetária e cambial7.

1.5.2 Debate: Déficit público vs. Crescimento econômico

Na última década, estudos importantes apontaram que, quanto maior a participação do déficit
público no PIB, menor tenderia a ser o crescimento que tal país enfrentaria:

Tabela 2 – Média anual de crescimento do PIB Real para diferentes razões de


participação do déficit público no PIB de 20 economias avançadas (1946-2009)

Taxa de crescimento do PIB


4,1%
30-60% 2,8%
60-90% 2,8%
> 90% -0,1%
Fonte: REINHART; ROGOFF (2010a, 2010b) 11 apud HERNDON; ASH; POLLIN (2013).

Conforme a tabela aponta, quanto maior o déficit público, menor tenderia a ser a taxa média
de crescimento do PIB Real. Se o déficit público é gerado ao se gastar mais do que se arrecada,
o que esses resultados nos mostram é que a prática de políticas fiscais expansionistas é muito
“perigosa” no longo prazo.

Desde a publicação deste estudo em 2010, o debate em torno da adoção de políticas


macroeconômicas privilegiou a austeridade, com rígido controle dos gastos públicos. Esse fato é
bastante curioso, pois nesse mesmo período o mundo enfrentava os efeitos da crise econômica
deflagrada nos Estados Unidos no final de 2007.

Contudo, em 2013, um novo estudo reacendeu o debate. Utilizando a mesma base de dados,
estudantes do MIT encontraram novos resultados:

8
REINHART, C.; ROGOFF, K. 2010a. ‘Growth in a Time of Debt’, Working Paper, n. 15639, National Bureau of Economic
Research. Disponível em: <http://www.nber.org/papers/w15639>. Acesso em: 20 jun. 2015 e REINHART, C.; ROGOFF, K.
2010b. Growth in a Time of Debt, American Economic Review, v. 100, n. 2, p. 573–578.

107
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

Tabela 3 – Média anual de crescimento do PIB Real para diferentes razões de


participação do déficit público no PIB de 20 economias avançadas segundo Herdon,
Ash e Pollin

Taxa de crescimento do PIB


4,2%
30-60% 3,1%
60-90% 3,2%
>90% 2,2%
Fonte: Adaptado de HERDON; ASH; POLLIN (2013).

Comparado ao estudo anterior, observa-se uma forte discrepância de dados em relação à


taxa média de crescimento do PIB Real em países em que o déficit público supera os 90%.
As considerações dos autores sobre os dados gerados repercutiu na esfera de formulação de
políticas econômicas. Em especial, eles mostraram que os formuladores de política não podem
defender que as medidas de austeridade se fundamentam na evidência de que, nos níveis em
que o déficit público for superior a 90% do PIB, haverá uma queda acentuada no crescimento
econômico.

Percebe-se, portanto, que ainda não se chegou a um consenso a respeito da relação entre déficit
público e crescimento econômico. As diferenças metodológicas na condução das pesquisas que
cruzam tais dados dão margem à continuidade do debate.

2 Teorias de crescimento e desenvolvi-


mento econômico
Apesar de já ter entendido parte da forma na qual o Estado atua sobre a economia, ainda
é necessário discutir como esses tipos de intervenção moldam estratégias de desenvolvimento
econômico. Mas, antes disso, precisamos estabelecer a diferença existente entre os conceitos
de crescimento econômico e desenvolvimento econômico e de que maneira estão relacionados.

O crescimento econômico é comumente mensurado pela taxa de variação do PIB Real. Esse
conceito está embasado em uma abordagem utilitarista de crescimento, a qual está relacionada
com a expansão da capacidade de satisfazer necessidades em uma determinada sociedade. Nesse
sentido, a investigação dos meios que levam ao crescimento econômico perpassa a expansão da
capacidade de produção dessa economia, os quais deverão ser apresentados no próximo tópico.

O desenvolvimento, por sua vez, precisa ser encarado em uma perspectiva mais ampla. Alguns
autores defendem que a ocorrência de crescimento econômico tende a levar, no longo prazo, ao
desenvolvimento. Foi partindo desse princípio que Delfim Netto, ministro da Fazenda no período
do “Milagre Econômico” que ocorreu durante os governos militares, afirmou que “é preciso
esperar o bolo crescer para, depois, reparti-lo”. Essa frase foi pronunciada mediante forte crítica
ao modelo de crescimento econômico que concentrava cada vez mais a renda e não se traduzia
em desenvolvimento econômico.

Outros autores acreditam que esse não é um fenômeno puramente econômico, na medida em
que engloba a melhoria da qualidade de vida, e não simplesmente das condições econômicas. É
o caso de Amartya Sen, economista indiano, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1998.

108 Laureate- International Universities


VOCÊ O CONHECE?
Amartya Sen ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1998 em virtude de suas
contribuições à Economia do Bem-Estar Social.

Ele enxerga o fenômeno de desenvolvimento econômico como um processo de expansão


das liberdades individuais. Os principais fatores que geram a privação da liberdade
são: a) pobreza e tirania; b) carência de oportunidades econômicas e destituição
social sistemática; c) negligência dos serviços públicos; d) intolerância ou interferência
excessiva de Estados repressivos.

Assim, se a liberdade é resultado de um processo de desenvolvimento, para que este


ocorra, é necessário que a sociedade combata e elimine todos esses fatores restritores
da liberdade.

O exercício de reflexão proposto pelo autor para se pensar o fenômeno do desenvolvimento


ancora-se na seguinte pergunta: “Riqueza traz felicidade?”, a qual podemos estender
para: “A riqueza nos permite fazer tudo o que queremos?”.

O autor chega à conclusão de que a riqueza é um meio, mas nunca um fim. Os indivíduos
querem viver uma vida longa e boa, ou seja, não se quer morrer jovem tampouco se
quer viver a miséria e a privação de liberdade. Assim, o autor afirma que “A utilidade da
riqueza está nas coisas que ela nos permite fazer – as liberdades substantivas que ela
nos ajuda a obter”, negando o princípio de que a maximização da renda e da riqueza é
determinante da ação individual.

Um dos principais resultados de seus estudos foi a criação de um indicador de


desenvolvimento conhecido como Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), adotado
pela ONU para balizar as Metas do Milênio.

Para que você entenda melhor esse debate, proponho uma reflexão: de acordo com estimativas
do FMI, em 2015, o Brasil deve ser a oitava maior economia do mundo. Você acredita que,
apesar de não ser um dos países mais ricos do mundo, podemos nos considerar desenvolvidos?
O gráfico abaixo apresenta as 20 maiores economias do mundo; destas, quantas podem ser
consideradas desenvolvidas?

109
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

Gráfico 1 – As maiores economias do mundo (em US$ milhões


correntes) – Previsões para o PIB (2015)

Fonte: FMI.

2.1 Fontes de crescimento


Apesar de termos percebido que crescimento não necessariamente se traduz em crescimento,
vamos partir do princípio de que este é condição necessária, mas não suficiente para o fenômeno
do desenvolvimento.

Inicialmente, vamos entender como as diferentes constituições da chamada “Função de produção


agregada” afetam o crescimento e a renda dos países. Vimos que as empresas devem combinar
insumos produtivos, em especial, capital e trabalho, para produzir bens e serviços. Se pensarmos
numa perspectiva agregada, veremos que a capacidade de geração de riqueza de um país está
diretamente relacionada a esses dois fatores.

Dessa forma, vamos conceituar que as principais fontes do crescimento econômico são:

1. Crescimento demográfico e imigração: na medida em que se eleva a quantidade de mão


de obra disponível na economia, há uma elevação na quantidade de trabalho na função de
produção agregada, o que tende a puxar o crescimento econômico.

2. Estoque de capital: reflete a capacidade de produção da economia dada a quantidade de


capital disponível na economia.

3. Educação: essa variável irá fundamentar o conceito de capital humano.

110 Laureate- International Universities


4. Desenvolvimento tecnológico: capaz de melhorar a eficiência na utilização dos estoques de
capital, tanto físico quanto humanos.

5. Eficiência organizacional: capacidade de combinar de maneira eficiente os insumos nos


processos produtivos.

Através desses determinantes do crescimento, é possível observar que tal fenômeno é resultado
ou da maior disponibilidade de recursos ou da melhoria na qualidade desses. Ademais, vamos
prosseguir com uma breve discussão a respeito da distinção entre capital físico e humano, que
talvez não seja tão trivial quanto parece.

2.1.1 Capital humano

No final da década de 1950 e início da de 1960, diversos autores começam a perceber a


importância da qualidade da mão de obra para o crescimento econômico. Em especial Theodore
Schultz, em 1961, afirma que a qualificação profissional também deveria ser enquadrada
como uma categoria de capital, na medida em que era capaz de elevar a produtividade de um
trabalhador, assim como uma máquina. Dessa forma, o autor define que qualquer gasto que uma
empresa realize para melhorar a qualidade de sua mão de obra, por exemplo, em treinamento e
saúde, é, na realidade, um investimento em capital humano.

Gary Becker amplia a ideia de Schultz ao considerar que os investimentos que o indivíduo (e não
somente a empresa) realiza ao longo de sua vida em treinamento e qualificação também têm uma
participação importante no crescimento econômico. Mincer também enxergava a importância do
elemento humano do capital para o desenvolvimento tecnológico e, consequentemente, para o
crescimento econômico.

Independentemente do enfoque dado, o capital humano foi incorporado como importante fonte
do crescimento. Ao avaliar o crescimento pela ótica da produção, o capital humano é capaz de
elevar a produtividade do trabalhador; ao avaliar a ótica da renda, permite que o trabalhador
tenha um potencial ganho de renda.

Mas como será que o capital humano influencia o desenvolvimento econômico e social dos
países? Há evidências de que os trabalhadores de nações desenvolvidas têm maior produtividade
do que aqueles residentes em países em desenvolvimento. Isso ocorre, pois nesses países a
necessidade de garantir a subsistência faz com que muitas famílias tenham que tirar seus filhos
da escola, alocando-os no mercado de trabalho.

2.1.2 Capital físico

O capital físico, representado nas máquinas e equipamentos, é a principal fonte de crescimento


econômico encontrada na literatura econômica. A principal medida utilizada para representar a
sua importância no crescimento é a relação produto-capital, dada por:

V = ∆Y/∆K, onde V = relação produto-capital; ∆Y = variação do produto nacional; ∆K =


variação da capacidade produtiva.

Essa relação mostra o quanto o capital físico é capaz de adicionar ao produto, sendo, portanto,
uma importante forma de medir a produtividade de um país. A elevação do produto nacional
depende, dessa forma, de investimento produtivo em capital físico, e, normalmente, esses
investimentos tendem a ser alocados em setores com maior valor dessa relação.

111
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

2.2 Financiamento de desenvolvimento


Para realizar um investimento, é necessário alocar recursos financeiros. Esses recursos podem
ser gerados dentro da economia ou externamente. Nesse sentido, diz-se que o investimento
produtivo prevê a utilização de poupança interna ou externa, ou seja, um país pode adotar dois
tipos de estratégia: endividamento externo e autofinanciamento.

Para conseguir financiar com recursos próprios, o país precisa adotar políticas que estimulem a
formação da poupança interna. Algumas economias, em especial as economias socialistas, como
a China, adotaram a obrigatoriedade de poupança por longos períodos de tempo como forma
de acelerar o processo de formação de estoques de capital.

Outra estratégia de formação de poupança interna se dá por meio dos resultados do setor
público: quando se arrecada mais do que se gasta, o governo gera superávits, os quais poderão
ser alocados no mercado por meio de crédito via bancos de desenvolvimento ou de fomento.

Para atrair poupança externa, por sua vez, os países precisam criar condições atrativas para o
Investimento Estrangeiro Direto (IED)9. De acordo com os dados divulgados pela UNCTAD, o
Brasil foi o quinto país que mais atraiu IED em todo o mundo em 2013, como mostra o gráfico
abaixo:

Gráfico 2 – Fluxos de IED – 20 maiores países de destino

Fonte: UNCTAD (2014).

Outra fonte de financiamento externo é encontrada nas instituições financeiras multilaterais,


como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Internacional para Reconstrução e
Desenvolvimento (BIRD), que atualmente integra o Banco Mundial, e o Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID).

9
O IED se caracteriza como recursos financeiros vindos do exterior para a consolidação de um investimento produtivo no país receptor.
Sua efetivação exige uma transferência de capital de uma matriz para uma filial.

112 Laureate- International Universities


Historicamente, o Brasil se utiliza de poupança externa para financiar a sua estratégia de
desenvolvimento. Independentemente da origem do recurso que moldará a estratégia de
financiamento do desenvolvimento, os países precisam criar condições para os investimentos em
capacidade de produção, de modo a permitir o desenvolvimento econômico.

2.3 Modelos de crescimento econômico


Neste tópico, vamos abordar brevemente dois modelos de crescimento de longo prazo: um
ancorado em uma perspectiva keynesiana, a saber, Harrod-Domar, e outro baseado na escola
de pensamento neoclássica, o modelo de Solow.

2.3.1 Harrod-Domar

O modelo de Harrod-Domar coloca que os determinantes do crescimento econômico são: a)


taxa de poupança; b) taxa de investimento; c) relação produto-capital. Dessa forma, tem-se que
a taxa de crescimento do produto (Y’) é determinada da seguinte forma:

Y’ = s*V, onde s = taxa de poupança e V = relação marginal produto-capital.

A taxa de poupança, por sua vez, é expressa pela razão entre poupança e produto, chamada de
propensão a poupar:

s = S/V, onde S = poupança agregada e V = renda nacional.

A relação marginal produto-capital é dada da seguinte forma:

v = ∆Y/∆K, onde ∆Y = variação da renda nacional; ∆K = variação no estoque de capital.

Como a taxa de investimento agregado (I) pode ser considerada como a variação no estoque de
capital, podemos reescrever a equação anterior da seguinte forma:

v = ∆Y/I

Vamos trabalhar com um exemplo numérico. Imagine um país que tem uma taxa de poupança de
15% e uma relação produto-capital de 0,38. Qual deverá ser sua taxa de crescimento?

Se s = 0,15 e v = 0,38, temos que:

Y’ = 0,15*0,36 = 0,057.

Assim, concluímos que, dadas essas características da economia, a taxa de crescimento deveria
ser de 5,7%.

Esse modelo, como qualquer outro, apresenta algumas limitações importantes de serem
abordadas.

Em primeiro lugar, ele estabelece uma relação bastante simplificada entre poupança, investimento
e crescimento. Isso porque não está fazendo qualquer distinção a respeito da qualidade do
investimento, que na prática varia muito.

Por exemplo, os investimentos são destinações de recursos financeiros para aquisição de


ativos, os quais podem ter diferentes níveis de produtividade. Ao estabelecer apenas uma taxa
de produtividade do capital, supõe-se que essa diferença não seja impactante, o que é uma
inverdade.

113
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

Ao mesmo tempo, o retorno dos investimentos em termos de produto nacional também é bastante
diferente: investimentos em educação e saúde costumam reverberar no produto após um longo
período de tempo; um investimento em maquinário, por sua vez, tende a elevar imediatamente a
capacidade de produção dessa economia.

Nesse sentido, esse modelo prevê que o Estado pode ter um papel importante na condução dos
objetivos econômicos de crescimento, na medida em que pode direcionar as políticas econômicas
de modo a alterar a taxa de investimento e poupança da economia.

2.3.2 Solow

O modelo de Solow é considerado um dos mais importantes modelos de crescimento. Para que
possamos compreendê-lo, vamos estabelecer algumas premissas importantes:

Imagine uma economia que produza somente um bem, por exemplo, alimento. A produção
de alimento é resultado de uma certa combinação de fatores de produção, a saber: estoque
de capital (k) e oferta trabalho (L). Imaginemos que o estoque de capital é representado pelo
maquinário destinado à produção de alimentos e que a oferta de trabalho se refere às pessoas
disponíveis para emprego na lavoura. Temos portanto que:

Y = ƒ(K,L)

Vamos também supor que a oferta de trabalho varia à medida que varia a população, ou seja,
é uma função da taxa de crescimento natural da população e que o mercado de trabalho entra
em equilíbrio quando a oferta de trabalho se iguala à demanda de trabalho, situação alcançada
no Pleno Emprego.

Por fim, há o condicionante de que o Produto Nacional tenha de ser exatamente igual à Despesa
Nacional. Se Y = C + S e D = C + I, temos:

Y = D, portanto: S = I

Sendo a taxa de poupança dada nesse modelo, assume-se que a propensão marginal a poupar
em uma economia é constante. Dessa forma, no modelo de Solow, o crescimento econômico
depende diretamente do estoque de capital. Como a poupança é igual ao investimento.

Na medida em que os neoclássicos acreditam que a intervenção do Estado na economia tende a


trazer distorções na alocação dos recursos, o modelo de Solow prevê uma situação de equilíbrio
de longo prazo, com taxas constantes de crescimento. Assim, a adoção de políticas econômicas
é considerada pouco efetiva nesse modelo.

2.4 Estágios de desenvolvimento


Agora que já discutimos as principais fontes de crescimento econômico e como elas se
relacionam através de modelos, estamos aptos a entender quais são os elementos essenciais ao
desenvolvimento econômico, ou seja, sem esses condicionantes, Rostow afirmou que não existe
desenvolvimento:

114 Laureate- International Universities


Quadro 3 – Condicionantes do Desenvolvimento Econômico por Rostow

Elevação da taxa de investimento produtivo

Desenvolvimento de setores industriais

Ambiente político e social propício a investimentos

Elevação da taxa de crescimento do PIB per capita

Fonte: Autor.

Através desses condicionantes, o autor propõe a formulação dos estágios de desenvolvimento


dos países por meio de uma abordagem histórica.

Em uma sociedade tradicional, num primeiro estágio, a economia organiza-se em uma base
predominantemente agrária, onde a tecnologia empregada é bastante arcaica e a renda per
capita muito baixa.

Em um segundo estágio, estabelecem-se os pré-requisitos para a arrancada desenvolvimentista.


Assim, ocorre um aumento da taxa de acumulação do capital e o crescimento demográfico, bem
como melhorias na qualidade da mão de obra em função da maior qualificação e especialização.
Esse tipo de evolução é bastante típico em processos de urbanização acentuada e exige uma
melhoria expressiva da produtividade agrícola como forma de se financiar a expansão industrial.
Concomitantemente, países que passam por esse estágio de desenvolvimento costumam realizar
investimentos pesados em infraestrutura básica.

A terceira etapa de desenvolvimento refere-se ao processo conhecido como take-off, alusão à


decolagem de aviões. Nesse sentido, nesse estágio estabelecem-se as bases de um desenvolvimento
sustentado devido à institucionalização do crescimento. É nessa etapa que os condicionantes
apontados na Figura 2 firmam-se na economia.

O próximo estágio se caracteriza pela consolidação de um processo de crescimento sustentado,


o qual é guiado pelo amadurecimento dos instrumentos e instituições que asseguram o
desenvolvimento tecnológico.

115
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

Por fim, a última etapa de desenvolvimento apontada por Rostow é a “Era do alto consumo
de massa”, caracterizada pela sofisticação das necessidades sociais, que se traduz em uma
economia mais complexa, com produtos de alta intensidade tecnológica.

Vale ressaltar que a discussão a respeito dos estágios de desenvolvimento a partir de uma
perspectiva histórica é bastante controversa. Essa visão implica compreender os instrumentos
e as políticas econômicas adotadas em cada uma das etapas. Dessa forma, diversos autores,
como o coreano Ha-Joon Chang, acreditam que as práticas recomendadas para os países em
desenvolvimento no Consenso de Washington, por exemplo, estariam em linha com estágios
mais avançados de desenvolvimento, sendo uma injustiça cobrar-lhes ações ligadas a condições
mais desenvolvidas. Por exemplo, como ter um governo menos atuante quando grande parte da
população mal tem acesso aos bens públicos?

2.4.1 Importância da industrialização para o desenvolvimento

A industrialização é considerada por muitos a principal força propulsora do desenvolvimento.


Quando observamos como se deu o processo de industrialização das nações mais ricas,
percebemos que foi resultado de uma elevação expressiva da produtividade agrícola. O
desenvolvimento tecnológico da agricultura teve, portanto, um papel importante no êxodo rural,
que permitiu a transferência de trabalhadores das lavouras às indústrias localizadas em centros
urbanos.

As nações em desenvolvimento iniciaram o seu processo de industrialização tardiamente, o que


lhes conferiu menor capacidade de competição. Nesse sentido, nos anos 1950 e início dos 1960,
adotou-se em diversos países subdesenvolvidos a estratégia de substituição de importações, que
se fundamentava em práticas protecionistas, como a proibição de importação de determinados
bens tidos como essenciais à consolidação do parque industrial dos países.

Os efeitos dessa política no longo prazo não foram os esperados. A proteção à nascente indústria
local fez com que muitos produtores se acostumassem à falta de concorrência, o que tornou o
desenvolvimento tecnológico mais vagaroso.

A abertura comercial e a redução das barreiras fundamentaram as estratégias de desenvolvimento


do final dos anos 1980 e início dos anos 1990, trazendo alguns resultados bastante frutíferos,
outros nem tanto. No período, os chamados Tigres Asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Hong
Kong e Cingapura) experimentaram um vertiginoso crescimento econômico que se traduziu em
desenvolvimento.

116 Laureate- International Universities


Síntese Síntese
Neste Capítulo, você compreendeu como o Estado estabelece as diretrizes de eficiência necessárias
para a execução de suas funções econômicas através da ótica da Teoria da Tributação e do
Orçamento. Também viu que, assim como um indivíduo qualquer, o Estado pode se endividar, tendo
que recorrer a fontes de financiamento da dívida.

Também entendeu que o crescimento e o desenvolvimento econômico têm relação direta com
a expansão dos condicionantes técnicos da economia, em especial, com o investimento. Dessa
forma, no longo prazo, só se cresce economicamente estimulando o investimento. Talvez aqui você
tenha começado a perceber por que o último debate eleitoral brasileiro focou tanto a discussão
no esgotamento do modelo de crescimento baseado no consumo, havendo a necessidade de se
estimular os investimentos. Por fim, discutimos algumas estratégias de desenvolvimento.

O debate a respeito da necessidade de um Estado interventor, apesar de muito antigo, é bastante


atual. Espero que, ao final deste Capítulo, seus argumentos estejam mais afiados e você consiga
se posicionar criticamente, independentemente de suas crenças ideológicas, entendendo os pontos
positivos e negativos de cada uma das possibilidades.

117
Didática: pressupostos e características

Referências Bibliográficas
BRAGA, M. B; VASCONCELLOS, M. A S. Introdução à economia. In: PINHO, D. B.;
VASCONCELLOS, M. A. S.; TONETO JÚNIOR, R. (Org.). Introdução à Economia. São Paulo:
Saraiva, 2011.

HOFFMAN, K. D.; BATESON, J. E. G.; IKEDA, A. A.; CAMPOMAR, M. C. Introdução a serviços.


In: ________. (Org.) Princípio de marketing de serviços: conceitos, estratégias e casos. São
Paulo: Cengage Learning, 2010.

PINHO, D. B. A ciência econômica do século XXI às suas origens. In: PINHO, D. B.; VASCONCELLOS,
M. A. S.; TONETO JR, R. (Org.). Introdução à Economia. São Paulo: Saraiva, 2011.

ROSSETTI, J. P. Introdução à economia. 16. ed. São Paulo: Atlas, 1994.

SLACK, N; CHAMBERS, S.; JOHNSTON, R. Administração da Produção. In: _______.


Administração da Produção. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2007.

VASCONCELLOS, M. A. S.; GARCIA, M. E. (Org.). Fundamentos de Economia. São Paulo:


Saraiva, 1998.

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Referências Bibliográficas
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MANKIW, N.G. Introdução à Economia. 3. ed., São Paulo: Cengage Learning, 2009.

PINDYCK, R.S; RUBINFELD, D.L. Microeconomia. 6. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2006.

VASCONCELLOS, M. A. S.; GARCIA, M. E. (Org.). Fundamentos de Economia. São Paulo:


Saraiva, 1998.

119
Didática: pressupostos e características

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de 2015, 2015. Disponível em: <http://www4.bcb.gov.br/pec/gci/port/focus/FAQ%20
12-Dep%C3%B3sitos%20Compuls%C3%B3rios.pdf>. Acesso em: 2 jul. 2015.

DORNBUSCH, R.; FISCHER, S. Macroeconomia. 2. ed. São Paulo: Makron; McGraw-Hill,


1991.

GIANNETTI DA FONSECA, M. Agregados macroeconômicos: introdução à contabilidade social.


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