Você está na página 1de 8

2016

- 12 - 16

Revista Brasileira de Ciências Criminais


2015
RBCCrim vol. 114 (Maio-Junho 2015)
Crime e sociedade

Crime e sociedade

1. Nomear feminicídio: conhecer, simbolizar e punir

Naming feminicide: knowing, representing, and punishing


SINARA GUMIERI

Mestranda em Direito pela Universidade de Brasília. Pesquisadora da Anis - Instituto de Bioética, Direitos
Humanos e Gênero.

BRUNA SANTOS COSTA

Mestranda em Direito pela Universidade de Brasília. Pesquisadora da Anis - Instituto de Bioética, Direitos
Humanos e Gênero.

DEBORA DINIZ

Doutora em Antropologia pela Universidade de Brasília. Professora da Faculdade de Direito da Universidade de


Brasília. Pesquisadora da Anis - Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero.

Sumário:

1. Feminicídio
2. Cadáveres e arquivos
3. Nomear para punir
4. Nomear para quê?

Área do Direito: Penal

Resumo:

Feminicídio é um neologismo que descreve a matança de mulheres pelo regime do gênero. A tipificação
penal do feminicídio teria por finalidade alterar práticas investigativas e mecanismos de justiça do Estado.
A revisão da literatura demonstrou três efeitos esperados da nomeação: tipificar para conhecer, para
simbolizar e para punir. Este artigo problematiza esses efeitos com base em dados sobre homicídios de
mulheres por violência doméstica e familiar no Distrito Federal entre 2006 e 2011. A pesquisa foi realizada
em arquivos do Instituto de Medicina Legal, da polícia civil, do Ministério Público e do Judiciário. No
Distrito Federal, uma em cada três mulheres foi morta por homens de suas relações afetivas ou familiares,
e em 97% dos casos houve condenação do matador. Como conclusão, o artigo propõe que nomear para
apreender é diferente de nomear para punir.
Abstract:

Feminicide is a neologism that describes the killing of women by the gender regime. The criminal
classification of feminicide aims to change investigative practices and State justice mechanisms. Literature
review showed three expected effects of naming: typify to know, to represent, and to punish. This article
discusses these effects through the analysis of data on female homicides by domestic and family violence
in the Federal District of Brazil between 2006 and 2011. The survey was conducted with files obtained
from the morgue, the police, the Prosecution, and the Judiciary. In the Federal District, one in three women
was killed by men of their affective or family relationships, and the killer was convicted in 97% of the
cases. In conclusion, the article proposes that naming in order to apprehend is different from naming in
order to punish.

Palavra Chave: Feminicídio - Homicídio de mulheres - Tipificação penal.


Keywords: Feminicide - Female homicide - Criminal classification.

1. Feminicídio

Nomear é um gesto político, uma forma inicial de apreensão de experiências ou fenômenos escondidos.
Esta pode ser a história política do conceito de feminicídio – nomear para fazer existir a morte evitável de
mulheres. O termo “femicídio” (femicide) é atribuído a Diana Russel, pesquisadora feminista sul-africana
que o teria criado na década de 1970 para falar do extremo letal do “continuum de terror antifeminino”. 1 A
geografia do termo remete ao Tribunal Internacional de Crimes Contra Mulheres, um tribunal popular
organizado por militantes feministas em Bruxelas, em 1976, que queria tornar pública a variedade de
crimes cometidos contra mulheres em diferentes países e culturas, fosse na forma de agressões diretas,
fosse na de discriminações letais. Nesse marco, femicídio não se reduziria a homicídio: é qualquer morte
que decorra do gênero, seja na violência doméstica, seja na violência sexual anônima, no aborto
clandestino, na mutilação genital, na mortalidade materna, no tráfico de mulheres.

Na década de 1990, o termo foi apropriado para descrever o que se passa em Ciudad Juarez, no México,
onde centenas de mulheres jovens e trabalhadoras têm desaparecido, sido violentadas, torturadas e
assassinadas sem que as autoridades respondam ao terror – nem protegendo, nem punindo. A antropóloga
e deputada mexicana Marcela Lagarde considerou que femicídio, homólogo de homicídio, seria
insuficiente; apenas arranhava a neutralidade da vitimação para a lei penal. 2 Preferiu “feminicídio”, que
poderia perturbar o regime da nomenclatura: designaria o conjunto de violações a direitos humanos das
mulheres e denunciaria o Estado desprotetor, omisso, negligente ou cúmplice. A disputa quanto à
sinonímia entre feminicídio e femicídio segue atual.

Como categoria analítica e política, o feminicídio encontrou terreno fértil na intelectualidade e militância
latino-americanas: múltiplas conceituações e subtipos – feminicídio íntimo, não íntimo, sexual, por
conexão – foram desenvolvidos e incorporados ao vocabulário das demandas punitivas. 3 Na última
década, a região tornou-se palco de um movimento de tipificação do feminicídio como crime diferenciado
do homicídio: cerca de uma dezena de países o tipificaram. Não há acordo nas legislações: em algumas,
trata-se de um tipo penal próprio, em outras de uma qualificadora ou agravante; algumas tratam apenas
das mortes em contexto de violência doméstica, outras propõem formatos mais amplos; em alguns países,
o esforço para visibilizar a negligência estatal que contribui para essas mortes levou ainda à tipificação da
conduta de agentes públicos que dificultam o acesso de mulheres vítimas de violência à justiça. 4

O conceito mostrou-se vigoroso e sua potência depende do marco analítico que o movimenta. Por que o
tipo penal genérico não seria suficiente para descrever e tutelar as mulheres vítimas de violência? Porque
não basta descrever a morte de mulheres, é preciso nomear o marco político da matança – não é um
marco neutro sexualmente, ao contrário. O patriarcado é o poder de subalternização das mulheres a
diferentes regimes de governo da vida, e o gênero é um deles. 5 Ao nomear a sexagem da vítima e do
agressor e as precarizações de corpos sexados como femininos, denuncia-se o patriarcado como poder.
Gênero é um regime de governo da vida abrangente e opressor, e ainda mais grave: é sempre violento. 6 O
patriarcado tem no gênero um regime político e, na matança de mulheres, um dos indícios do horror.
Assim, nomeia-se para resistir ao marco, mas também para denunciar a brutalidade da violência.

Se patriarcado e gênero são conceitos que movimentam a nomeação do feminicídio como matança de
mulheres, a tensão conceitual anima resistências ou mesmo diferenças entre compreensões analíticas. A
principal crítica é que patriarcado seria um conceito estático e pouco sensível às diferenças entre as
culturas, portanto, pouco produtivo como marco analítico para compreender as razões da matança de
mulheres. 7 Essa nos parece uma crítica sensível à diversidade, mas que reduziria o patriarcado a um de
seus regimes políticos, o gênero. Patriarcado e gênero não são sinônimos, apesar de se confundirem. O
patriarcado é um marco de poder, com diferentes regimes de governo pela subalternização, pela vigilância
e pelo castigo. O gênero é só um deles; a colonialidade, a classe ou a cor são outros. 8 Esse cruzamento
entre regimes recebeu o título de interseccionalidade, uma multiplicidade de classificações e controles dos
corpos que problematizam tentativas genealógicas e absolutizantes das formas de opressão. Neste ensaio,
reconhecemos a existência de múltiplas configurações que atualizam e particularizam o patriarcado como
poder, e o gênero, como regime político de governo da vida.

O feminicídio seria, assim, a matança de corpos sexados como mulheres pelo regime político do gênero em
um marco patriarcal de poder. Esse verbete é já um gesto político audacioso, um neologismo que, ao ser
enunciado, provocaria a opressão do gênero escondida sob a neutralidade do tipo penal homicídio. No
entanto, o debate brasileiro, apesar de disperso e pouco veiculado por publicações acadêmicas, pois ainda
se dá majoritariamente por folhetos, campanhas educativas, textos de notícias, decisões judiciais ou
projetos de lei, considera que é preciso nomear para agir, seja para proteger as mulheres, seja para punir
os matadores. Nomear para descrever não seria suficiente: declinar o sexo de um tipo penal, sem
alterações derivadas do poder performativo do direito penal, teria efeito nulo para a garantia de direitos. 9
É nessa compreensão que nomear para punir é tema de intensa proposição legislativa no Brasil. 10

Tipificar o feminicídio teria por finalidade alterar práticas investigativas e mecanismos de justiça do
Estado. Nesse universo fluido e variado em que o conceito de feminicídio circula, localizamos três efeitos
como justificativas para a nomeação: nomear para conhecer; nomear para simbolizar; e nomear para
punir. Ao nomear a matança de mulheres por um tipo penal específico – feminicídio –, o fenômeno seria
mais bem conhecido: o tipo penal neutro de homicídio não mais esconderia o que permanece asilado na
casa, nas cifras ocultas, ou no universo abstrato das taxas de homicídio. 11 Além disso, as mulheres mortas
seriam contadas e conhecidas. A hipótese de que nominar pode ampliar as formas de inteligibilidade nos
parece convincente. A dúvida recai sobre a quem caberia a legitimidade de reconhecer o neologismo como
uma categoria para as estatísticas do Estado. Se a preocupação são as classificações e as pesquisas,
alterações nos registros administrativos dos peritos, da polícia e do Judiciário poderiam incorporar o
neologismo como classificação e precisar o fenômeno.

A hipótese de nomear para simbolizar é da ordem moral e aposta nos efeitos performativos das
enunciações, em particular das punitivas: ao passar do silêncio do tipo penal genérico ao texto punitivo
específico, a matança de mulheres seria desnaturalizada. Feminicídio, em vez de homicídio, permitiria que
o horror da matança ganhasse texto, envergonhasse os matadores e alterasse o regime político que o
sustenta. Não há evidências de como esse jogo performativo entre enunciação e simbolização se efetuaria
para alterar o regime do gênero – na verdade, há críticas amplas à tese dos efeitos simbólicos do uso do
direito penal para a promoção do justo por descrença quanto a sua efetividade. 12

Nossa principal inquietação é a hipótese penal para a nomeação política, pois é a que mais intensamente
movimenta os argumentos favoráveis à incorporação do feminicídio no léxico punitivo e político
brasileiro. Além disso, é possível entender os outros efeitos (conhecer e simbolizar) como derivados da
hipótese de um novo tipo penal inscrito na ordem punitiva. Nomear para punir é o efeito com maior
adesão de interlocutoras feministas 13 e o que mais provoca os usos do direito penal para a igualdade no
gênero. Por sua delicadeza, problematizaremos seus sentidos a partir de uma pesquisa empírica
longitudinal realizada no Instituto de Medicina Legal (IML) e no Judiciário do Distrito Federal sobre o
feminicídio.

2. Cadáveres e arquivos

A Lei Maria da Penha foi um marco de disputa no regime do gênero violentador. O Estado assumiu texto e
força para punir agressores de mulheres. A lei não esticou seus domínios para a matança de mulheres,
talvez por isso a tipificação do feminicídio seja um desdobramento da reconfiguração punitiva em curso.
Isso significa que, nesse quadro interpretativo, não bastaria a sexagem da vítima para a matança de
mulheres ser entendida como feminicídio, sendo necessário também o contexto do crime de ódio às
mulheres. As relações de afeto, dependência e sexualidade são as que movimentam a compreensão do
feminicídio no Brasil como um tipo penal específico para descrever as mortes evitáveis se o gênero não
fosse um governo violento da vida.

No Distrito Federal, há um único Instituto de Medicina Legal – ali chegam todas as mulheres vítimas de
“mortes violentas”. Entre setembro de 2006 e setembro de 2011, foram 301 mulheres mortas pelo que se
classifica como “morte violenta” pelas autoridades policiais ou judiciárias no Distrito Federal. O registro foi
contado pelos laudos cadavéricos e, se feminicídio representa a proposta de tipo penal pela sexagem da
vítima, foram 301 vítimas de feminicídio no Distrito Federal. No entanto, para fins de exercício
argumentativo, assumiremos que feminicídio não se resume à declinação sexual do tipo penal genérico de
homicídio. É preciso uma análise das circunstâncias do crime – importa a figura do matador, o contexto da
matança e a relação prévia com a vítima.

Saímos à procura de processos judiciais (inquéritos e ações penais) de todas as vítimas, isto é, pistas que
nos mostrassem as razões da morte. Do total dos casos, 9% (26) envolviam acusados menores, e foram
afastados da pesquisa por razões de sigilo e segredo dos documentos. O universo foi de 275 mulheres. Para
44% (121) delas, não houve matança por violência doméstica ou familiar, mas crimes que seriam cobertos
pelo tipo penal genérico de homicídio. Em 21% (58), não há resolução investigativa, ou por ausência de
provas de autoria, ou por inexistência de investigação policial (a distribuição é a seguinte: 2006, 3% (2);
2007, 12% (7); 2008, 14% (8); 2009, 34% (20); 2010, 16% (9); 2011, 21% (12)). 14 Ou seja, para uma em cada
cinco mulheres, há completo desconhecimento sobre as razões da matança – é possível que nessa cifra
oculta esteja um cenário ainda mais perverso da morte de mulheres pelo regime do gênero.

Feminicídio seria um tipo penal em 35% (96) dos casos, ou seja, uma em cada três mulheres foi morta pelo
feminicídio. Elas morreram de tiros, facadas, queimadas; algumas na cena da agressão, outras em
hospitais por onde peregrinaram. Mais da metade delas morreu na casa e sem testemunhas. Elas eram
mulheres de todas as idades, entre 15 e 68 anos, 44% (42) delas com filhos em comum com os matadores,
80% (77) negras e 20% (19) brancas. O agressor foi essa figura típica do homem das famílias: 48% (46) de
maridos ou companheiros, 29% (28) de ex-maridos ou ex-companheiros, 3% (3) de filhos. Se há horror na
matança, não há surpresa sobre como compreender a transformação das mulheres em cadáveres: elas
foram mortas pelo gênero.

A busca dos inquéritos ou processos judiciais foi repleta de barreiras. Os documentos estão dispersos, e
não há clareza das razões da morte nos registros burocráticos senão pela leitura integral dos arquivos. Foi
preciso uma extensa varredura de três anos de pesquisa em diferentes fundos de arquivo para a
composição do mapa da matança das mulheres e seus contextos: IML, polícia, Ministério Público e
Judiciário. 15 Nomear para conhecer alteraria as práticas de indexação oficiais e, talvez, facilitasse a
organização dos documentos. A principal dificuldade seria como classificar feminicídio no universo geral
de matança de mulheres tendo o IML como porta de entrada: quase a metade delas não morreu por
violência do gênero. 16 Esse contexto, porém, somente foi descortinado em etapas posteriores da
investigação, em muitos casos já com o processo judicial instaurado. A despeito dessa dificuldade sobre o
que nomear como feminicídio e a quem caberia a análise, alterações de classificação na chegada do corpo
morto ao IML, na abertura dos inquéritos policiais ou na instauração do processo judicial poderiam dar
maior visibilidade ao fenômeno e mesmo lançar luzes sobre a cifra oculta de uma em cada cinco mulheres
mortas. 17

Uma hipótese para a cifra oculta poderia ser a morosidade da burocracia investigativa e punitiva, ou seja,
é preciso tempo para que o laudo cadavérico se transforme em arquivo de investigação policial ou
judiciária. Em 2011, estão 21% (12) de casos ocultados, havendo uma distribuição irregular entre os anos
da pesquisa. Como os julgamentos seguem um padrão, foi possível delimitar fluxos esperados para a
burocracia investigativa: o Ministério Público oferece denúncia por homicídio qualificado, o acusado é
pronunciado pelo juiz presidente do Tribunal do Júri e condenado pelo Conselho de Sentença. O tempo
médio de tramitação dos processos entre a morte e a denúncia é de 119 dias; entre a denúncia e a sentença
do júri, de 449 dias; e entre a morte e o trânsito em julgado, de 793 dias. Ou seja, entre a morte da mulher e
o fim do processo, levam-se, em média, 2 anos e 63 dias. O caso mais breve foi de 203 dias entre o laudo
cadavérico e o trânsito em julgado, e o mais lento, de aproximadamente 7 anos. Sendo assim, pela
tramitação média ou pela mais longa, a magnitude da cifra oculta não se explicaria pela lentidão da
burocracia.

Os laudos cadavéricos agregam provas materiais ao processo investigativo, havendo quesitos sobre formas
da violência, uso de crueldade, resistência da vítima ou mesmo indícios mais técnicos, tais como teste de
DNA ou definição se houve consumo de entorpecentes e álcool. A confissão dos matadores ganha
proeminência na cena judiciária – 63% (53) deles, dois em cada três, confessam o crime. 18 Ao assumir-se
assassino, o sujeito responde a uma pergunta-chave à lógica penal para a produção das verdades
judiciárias: quem é você?. 19 Confessando-se, o matador se assume feminicida, e a cena judiciária se acalma
quanto aos testes de produção de verdades. Reconhecido o matador, o passo seguinte é puni-lo.

3. Nomear para punir

Nomear para punir é a principal hipótese que move a incorporação do feminicídio no léxico punitivo. 20
Há duas correntes em disputa sobre feminicídio como novo tipo penal: a que sustenta ser o regime do
gênero um modulador para o tipo genérico do homicídio, o que exigiria aumento de pena; e a que
pressupõe ser o homicídio um tipo genérico neutro que encobre a matança de mulheres. Na primeira
compreensão, nomear é punir mais; na segunda, nomear é punir efetivamente. Entendemos que as
hipóteses de punir mais e efetivamente são dependentes de conhecer se há punição para os matadores de
mulheres – para algumas autoras, a suspeição é de que a engrenagem punitiva seja leniente com os
homens. 21

A frequência dos feminicídios por ano foi a seguinte: 4% (4) em 2006; 20% (19) em 2007; 24% (23) em 2008;
16% (15) em 2009; 20% (19) em 2010; e 17% (16) em 2011. 22 Cada laudo movimenta a engrenagem
judiciária de uma maneira particular, por isso mantivemos a pesquisa de campo nos fundos de arquivo
durante três anos após a consulta aos laudos cadavéricos no IML em setembro de 2011. Se considerarmos
o tempo médio de tramitação de um processo judicial até o trânsito em julgado (793 dias), todos os casos já
deveriam estar encerrados. Nem todo laudo de morte violenta movimentou uma investigação, mas
praticamente todos os casos com processo judicial resultaram na punição do matador.

Em 57 (97%) dos 59 processos de feminicídio que chegaram ao julgamento, o desfecho foi a condenação do
matador por homicídio doloso. Em um único caso, o crime foi desclassificado para homicídio culposo após
a votação dos jurados. 23 Em dois processos, houve impronúncia do acusado, pois o juiz concluiu que não
havia provas suficientes de autoria. Em outro, houve absolvição sumária do acusado, porque ele teria
agido para se defender legitimamente. 24 O regime de pena aplicado é um segundo indicador do modo
interpretativo de punição ao feminicídio: 95% (54) foram sentenciados a cumprir pena em regime fechado,
4% (2) em regime semiaberto e 2% (1) em regime aberto. Em 77% (65) dos casos de feminicídio, houve
prisão provisória.

Se o feminicídio é a morte violenta de mulheres pelo gênero, a análise da extensão das penas lançou novo
desafio à classificação. O que seria o feminicídio para a punição: o homicídio ou o complexo de violências,
tais como estupro e ocultação ou destruição de cadáver? A depender de como a classificação se movimenta
para a análise da punição aos crimes do gênero, encontramos diferentes extensões de pena. 25 Para o
homicídio, os julgamentos resultaram em pena média de 15 anos, em um intervalo mínimo de 4 anos (1
processo) e máximo de 24 anos e 2 meses (1 processo). 5% (3) dos casos sentenciados receberam pena igual
ou superior a 20 anos, 86% (49) entre 11 e 19 anos, e 9% (5) igual ou inferior a 10 anos. 26 Se considerarmos
o complexo de violências, as penas média e máxima sobem para 15 anos e 6 meses e 26 anos e 10 meses,
respectivamente.

Em 12% (12) dos feminicídios, a matança da vítima foi seguida pelo suicídio do agressor. 27 O cenário
comum é o da não aceitação do fim do relacionamento amoroso por parte do matador. Se, no universo
geral dos feminicídios, para cada mulher branca morta há quatro mulheres negras, a relação se inverte no
duplo crime de feminicídio-suicídio dos homens: há uma distribuição igual de brancas e negras nesse
enredo trágico, no entanto, as chances de sua efetivação são quatro vezes maiores entre brancas que entre
negras. Essa configuração violenta nos mostra o patriarcado em movimento por outros marcadores de
subalternização e vigilância, como a cor ou a geografia. 28

As mulheres negras vítimas do feminicídio nesse enredo trágico dos matadores são oriundas de regiões
administrativas menos pobres do Distrito Federal, como Sobradinho, Taguatinga ou Águas Claras – a
concentração do feminicídio-suicídio em regiões administrativas de maior renda média per capita merece
ser investigada com cautela, pois sugere padrões particulares de violência a depender dos indicadores
sociais utilizados, como renda, cor ou espaço. 29 Os dados constantes nos arquivos analisados são precários
para avançarmos em conclusões sobre esse achado, além de o universo de casos ser reduzido para
permitir afirmações definitivas.

As chances de uma mulher negra ser morta pelo feminicídio são três vezes maiores do que as de uma
mulher branca, isso já corrigido pelos diferenciais da composição por cor da população do Distrito Federal
segundo a Pnad 2011. 30 A proporção da cifra oculta é seis vezes maior entre cadáveres negras que
brancas, e mais da metade do total está concentrada em cinco circunscrições (Planaltina, Taguatinga,
Ceilândia, Santa Maria e Samambaia). 31 Há particularidades na geografia da matança, não só para o
instante da morte, mas para o quadro de precarização da violência. A casa é um lugar de perigo para
todas, mas as mulheres negras são mortas seis vezes mais em bares e ruas que as mulheres brancas. Ao ser
incorporado pela engrenagem investigativa, o crime segue um curso punitivo reto: prisão preventiva e
penas altas para os matadores.

4. Nomear para quê?

Nomeamos as mortes violentas das mulheres pelo regime do gênero como feminicídio. Assumimos uma
classificação em disputa como descritor das razões pelas quais as mulheres são mortas violentamente. Elas
são mulheres comuns – de todas as idades, com filhos, asiladas na casa por matadores das relações de
afeto, sexualidade ou dependência. As mulheres mais precarizadas pelo patriarcado têm cor e geografia:
são negras e oriundas de regiões administrativas mais pobres. Aquelas esquecidas como cadáveres pela
engrenagem punitiva e judiciária também são negras e pobres: são os corpos da cifra oculta da polícia. Os
matadores são homens comuns, companheiros ou ex-maridos, pais dos filhos das mulheres que mataram.
Alguns, como senhores de um enredo soberano, matam as mulheres e se matam. As personagens dessa
tragédia também têm cor e geografia particulares: são brancas e de regiões administrativas menos pobres.

Esse mapa retrata uma realidade escondida e particular. Não sabemos o que se passa em outros estados
com diferentes regimes investigativos e punitivos. Nosso exercício de pesquisa foi duplo: por um lado,
descortinar a realidade do feminicídio na capital do país, mas, por outro, problematizar efeitos requeridos
pela nomeação de feminicídio para a morte violenta de mulheres pelo poder patriarcal e seus regimes de
governo da vida, tais como o gênero, a cor ou a classe. A realidade do feminicídio é perversa, e para nós
ainda mais cruel do que a imaginada pela retórica dos argumentos sobre a opressão imposta pelo
patriarcado na sociedade brasileira: são mulheres pobres, negras, cuja matança é resultado de uma longa
e permanente precarização da existência.

O mapa da matança nos provocou o espanto do horror, e nomear o cenário como feminicídio é resistir: as
mortes violentas são evitáveis, os homens são os culpados, o gênero é o contexto da violência. Nomear
para apreender foi o movimento que assumimos neste ensaio: o feminicídio é a matança de mulheres por
homens no patriarcado. No entanto, mesmo sem a nomeação particular, a matança é já punida pelo tipo
genérico do homicídio, e penas altas são a regra do castigo. Não há como saber se essa realidade do tipo
genérico movimenta a engrenagem punitiva da mesma maneira no país, por isso nossos resultados devem
ser assumidos com a cautela de um retrato localizado. Com essa ressalva sobre as limitações de nosso
estudo, arriscamos uma tese para o debate sobre feminicídio: nomear para apreender é diferente de
nomear para punir. É preciso organizar a morte violenta de mulheres por suas formas de opressão, e o
feminicídio é uma categoria que denuncia o patriarcado e seus regimes de governo da vida. Mas nomear
para apreender pode ser dissociado de demandas por ampliação dos castigos ou novas tipificações penais.

O feminicídio é uma expressão perversa do patriarcado, e a leniência do sistema no Distrito Federal parece
não estar na punição, mas na investigação: uma em cada cinco mulheres vítimas de morte violenta tem
suas histórias de violência ignoradas. Não sabemos nome ou rosto, endereço ou vínculos de muitas. Elas
chegam como um cadáver, cuja cor e sexagem denunciam formas anteriores de precarização da vida.
Passados três anos da morte, o corpo se mantém um cadáver para os mecanismos de justiça. É nesse
encontro entre cadáveres esquecidos e matadores punidos que os sentidos do conceito de feminicídio tal
como proposto por Diana Russel nos anos 1970 se atualizam para nós. Se nomear é apreender, e se
feminicídio é a matança de mulheres pelo regime político do gênero em um marco patriarcal de poder,
feminicídio não descreve apenas a violência homicida dos homens da casa ou dos vínculos, mas toda
morte violenta evitável de mulheres pelo regime do gênero. É assim que as mortes de mulheres pelo
aborto ilegal são, também, feminicídio.

Se nomear é uma forma de apreender ou tornar inteligível a matança de mulheres como uma violência do
gênero, a controvérsia é sobre as formas de reconhecer e proteger as mulheres segundo o novo registro
classificatório. Apreensão, inteligibilidade e reconhecimento são operações diferentes do poder patriarcal.
A mulher morta é algo dentro e fora do marco hegemônico de reconhecimento: ao morrer, é um laudo
cadavérico, parte de uma estatística da violência matadora, por isso parte do marco; mas o reclame do
feminicídio é pelo reconhecimento além do número – demanda o reconhecimento da matança pela ordem
do gênero. O feminicídio qualifica a morte: é um corpo sexado como mulher e morto pela ordem do
gênero.

Pesquisas do Editorial

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES E LEGISLAÇÃO ESPECIAL, TER OU NÃO TER? EIS UMA
QUESTÃO, de Wânia Pasinato Izumino - RBCCrim 70/2008/321

DA PRIVAÇÃO DOS SENTIDOS À LEGÍTIMA DEFESA DA HONRA: CONSIDERAÇÕES SOBRE O


DIREITO E A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES, de Andrea Borelli - RBCCrim 54/2005/9

A SOBERANIA PATRIARCAL: O SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL NO TRATAMENTO DA


VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA A MULHER, de Vera Regina Pereira de Andrade - RBCCrim
48/2004/260

DESLOCAMENTOS SEMÂNTICOS E HIBRIDISMOS: SOBRE OS USOS DA NOÇÃO DE VIOLÊNCIA


CONTRA MULHER, de Maria Filomena Gregori - RBCCrim 48/2004/246
JUSTIÇA CRIMINAL E VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: O PAPEL DA JUSTIÇA NA SOLUÇÃO
DOS CONFLITOS DE GÊNEROS, de Wânia Pasinato Izumino - RBCCrim 18/1997/147

© edição e distribuição da EDITORA REVISTA DOS TRIBUNAIS LTDA.