Você está na página 1de 2

A ética entre a urgência social e a realização pessoal1

A sociedade contemporânea vive uma crise de valores: perda da identidade familiar,


inversão de papéis, enfraquecimento da autoridade, ausência de limites etc. Já
estamos acostumados a este discurso, presente na análise de muitos eruditos e, mais
ainda, visível a luzes claras até demais nas principais manchetes de cada dia, na
mídia televisiva, sobretudo na teledramaturgia, insistente, cada vez mais, em destacar
figuras de antivalor.

No quadro educacional o drama que se arrasta vem mostrando um Brasil com


resultados pífios, difamatórios, em pesquisas nacionais e internacionais. Vivemos um
terrível paradoxo, entre o tempo de escolarização formal e a real capacidade
intelectiva desenvolvida. Ou seja, grande parte dos indivíduos alfabetizados e
daqueles com permanência de quinze anos na escola, não conseguem realizar
operações básicas de matemática, tampouco interpretar um texto. Em contrapartida,
exacerbam-se traços de incivilidade no meio escolar, com a prática do bullying, e no
meio social como um todo, caracterizado por relações humanas deterioradas, quando
não totalmente desrespeitosas. A percepção da inquietação, a necessidade de
renovação de nossos princípios éticos é por si só evidente. No entanto, ainda se
confunde o campo da ética e dos valores com o campo da normatividade, das leis. De
certo modo, estamos saturados de leis. No mundo antigo, diziam os sábios, um dos
indícios de uma sociedade decadente era exatamente seu excessivo número de leis.
Enfim, a força coercitiva da lei vigora onde as comunidades perdem a necessária
capacidade de convívio, quando o outro se torna invisível e o bom senso naufraga na
informalidade.

Valores e princípios são aqueles traços fundamentais das sociedades, embasados nos
costumes e na sustentação do sentido da vida. Para muitas sociedades são os
mandamentos de sua religião, para outras, as experiências artísticas, para outras
ainda são as garantias econômicas. As práticas educativas inserem-se no âmbito e no
contexto em questão e, de modo geral, toda educação equaciona a visão de mundo
vigente em cada cultura. Mas em todas elas é importante destacar seu vislumbre de
universalidade em princípios como liberdade, respeito, dignidade e justiça. Um grande
erro na formação do cidadão é pensar a escola como separada das demais
instituições, tendo descompensada a figura de seus educadores. Outro erro é pensar a
formação humana centrada no hiperinvestimento curricular, desinvestida das noções
de alteridade e de cuidado.

Então, o que fazer perante os quase trinta milhões de analfabetos funcionais do país?
Trata-se de um desafio da alçada do poder público, certamente, mas não apenas dele.
A demanda deve começar com minha, nossa indignação, assim como a
implementação de mudanças. A escola e as instituições públicas não podem inverter a
lógica, transformando a educação em um problema.

A ética nos lembra dum importante detalhe para reflexão: criamos vínculos
verdadeiros a partir de nossa experiência profunda, o que de fato somos, muito mais
do que a partir da profissão de ensinar. Aprendemos a “ser” e a “conviver” graças aos
laços afetivos que queremos fluir no mundo. Não há educação sem emoção. Se
realmente somos educadores, então somos por inteiro, somos originais. O trabalho
essencial começa sempre com cada um de nós, portanto, diante dos desafios diários,
tenhamos bom ânimo, sempre.

1
Artigo publicado na revista Linha Direta, n 191, fevereiro de 2014, pp. 96-97.
Angelo P. Campos. Filósofo (UFMG) e psicanalista (GREP), especialista em
Abordagem Transdisciplinar (FACISA). Consultor educacional. Autor de Sociologia da
coleção de livros didáticos A Vida é Mais.