Revelação Geral e Teologia Natural
Revelação Geral e Teologia Natural
Considerações iniciais
O homem é um ser religioso e como tal, busca ao longo de sua vida dirimir questões
que lhe são naturalmente obscuras e que transcendem o raciocínio lógico. Destarte,
aventura-se a tentar compreender o metafisico e espiritual, a partir do limitado
conhecimento adquirido em suas experiências pessoais.
Em sua leitura do ser humano, João Calvino compreendeu e ensinou que todo
homem traz consigo, desde o nascimento, a “sêmen religionis” (CALVINO, 2008, pág. 51),
ou seja, a semente da religião, que está arraigada em seu coração. Isto implica em dizer
que por mais que o homem queira, jamais poderá negar que existe dentro de si uma forte
inclinação para as questões espirituais. Entretanto, devido à corrupção causada pelo
pecado, o homem não pode voltar-se para Deus e ser por Ele salvo, mediante a revelação
que a natureza faz dos atributos Divinos.
Em contraste com o ensino da Teologia Natural, que afirma que “nas energias do
seu Espírito, Deus está em todas as coisas, e todas as coisas estão em Deus”1 e ainda que
o Espírito de Deus age como um campo de forças, que dá energia a todas as coisas. E
ainda contrariando o Panteísmo que tributa divindade à natureza, ao afirmar que o universo,
a natureza, os animais, os homens, enfim, toda a criação é Deus e Deus é tudo o que foi
criado, a Confissão de Fé de Westminster afirma categórica e corretamente que as
revelações de Deus na natureza, não podem conduzir o homem à salvação 2.
1
http://ecclesia.com.br/news/2012/?p=9222
2
Vide Confissão de Fé de Westminster, cap.1, § 1º.
3
Uma expressão do latim que significa que Deus está oculto.
4
Uma expressão do latim que significa que Deus se revela.
1. REVELAÇÃO
Revelar quer dizer descobrir o que está escondido. É abrir a mente e o coração e
expressar o que está neles. Esse conteúdo expressado é revelação quando não
era conhecido antes que a abertura ou atividade reveladora acontecesse.
Para resumir, poderia dizer que a revelação se refere ao que é novo ou
desconhecido. Não era conhecido, nem percebido, nem considerado antes que
fosse revelado (GRONINGEN, 2006, pag. 13).
Por revelação geral, entende-se aquela manifestação, onde Deus torna conhecida
de todos os homens sua existência, poder, atributos e divindade. Isso Ele faz sem distinção
de raça, credo, cor ou nacionalidade, isto é, sem fazer acepção de pessoas. Este conceito
é apresentado claramente nas Escrituras (Salmo 19.1-5; Atos 14.15-17; 17.22-31).
O teólogo holandês, Louis Berkhof (2012, pág. 26) diz que “figuradamente, a
natureza pode ser considerada um grande livro que Deus escreveu, com letras grandes e
pequenas, no qual o homem pode aprender a respeito de sua bondade e sabedoria”.
5
Este termo designa o conceito de que algo ou alguém pode ser conhecido
1
Seguindo na mesma linha de pensamento e partindo do princípio de que Deus
revelou a si mesmo por intermédio de sua criação e ainda que tal revelação é extremamente
clara, João Calvino (2008, pág. 51) afirmou que não podemos “abrir os olhos sem que
sejamos obrigados a contemplá-lo”. Isto porque Deus se manifesta, a princípio, por meio
da revelação geral, a qual espelha a glória do próprio Criador e dele dá testemunho
constante na própria consciência humana, onde sua lei está gravada (Romanos 2.14-16).
Ao longo do tempo, diversos conceitos têm sido elaborados para explicar a maneira
como Deus revela a si mesmo. De maneira a facilitar o entendimento de algumas das
principais proposições apresentadas o Dr. Wayne House (2000, pág. 29), após conceituar
a revelação geral, apresenta um quadro comparativo, onde expõe as disparidades
existentes entre tais correntes teológicas, como exposto a seguir:
2
Segundo Nível: Uma teologia revelada é construída com blocos de
revelação especial cimentados pela fé. Inclui a expiação vicária, a
trindade etc. Neste nível a pessoa chega à salvação.
3
Encontramos no reformador francês, João Calvino, a melhor e mais coerente
exposição do que vem a ser a “Revelação geral. Destarte, entendemos que os meios
usados por Deus para tal revelação são a natureza e seus fenômenos naturais e a própria
consciência humana, pois todos em algum momento de sua vida reconhecem haver um Ser
Superior, que sustenta todas as coisas. Este meio de revelação é obtido por meios
cognitivos, isto é, pela razão humana, porém não é suficiente para salvar os pecadores da
condenação eterna (Romanos 1.18-25). Na verdade, a revelação geral se torna testemunha
de acusação contra todos os que se negam a dar ao Senhor a glória que lhe é devida.
Neste sentido, João Calvino (2006, pág. 68), ressalta que o expresso pelo apóstolo Paulo
em Romanos 1.18-25 “não faz mais que nos tornar inescusáveis”. Ademais disto, deixou
claro que somos entorpecidos e cegados pelas vaidades do nosso coração a tal ponto que
não podemos enxergar de forma plena a glória Divina manifesta na criação.
Diante do exposto, faz-se necessário reafirmar o fato de que a revelação que Deus
faz de si mesmo na criação não é suficiente para redimir o ser humano de seu estado de
queda, pois a mensagem de Deus manifestada na revelação geral, foi obscurecida pelo
pecado (Romanos 8.18-23). No entanto, este obscurecimento não chega a impedir que os
homens percebam a existência e os atributos do Criador. Conforme ensina o apóstolo Paulo
em Romanos 1.20-23, os homens claramente podem perceber os atributos Divinos nas
coisas criadas, mas preferem seguir as imaginações de seus corações corrompidos e
assim, se tornam indesculpáveis. Logo, como diz o rev. Ronald Hanko:
[...] a revelação geral não fornece outro caminho de salvação. A ideia que os ímpios
podem ser salvos por uma resposta moral a essa revelação geral é totalmente sem
fundamento na Escritura, e é apenas outra forma de salvação pelas obras e de
humanismo religioso (HANKO).6
6
http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/revelacao-geral_dag_r-hanko.pdf
4
Destarte, para que o homem seja salvo, Deus se vale de outro meio de revelação: a
Revelação Especial. Todavia, não devemos entender isso, como uma necessidade do Ser
Divino, senão como uma escolha livre e soberana de sua vontade.
Deus nem sempre se revelou do mesmo modo. Às vezes falou em voz audível.
Certa vez, escreveu algo com o próprio dedo. Às vezes usou visões. O mais usual
era que seu Espírito viesse sobre um homem de tal forma que esse humano
conseguiria expressar seus pensamentos em palavras exatamente como Deus
queria. Uma revelação seguiu a outra, mas todas elas foram incompletas.
Tais modos de Deus revelar a si mesmo e a sua vontade eram incompletas porque
todas elas somente apontavam para Cristo, mas não eram a revelação final. Como afirma
F.F. Bruce (apud. KISTEMAKER, 2003, pág. 44), “A história da revelação divina é uma
história de progressão até Cristo, mas não há progressão além dele”. Ou seja, Cristo é a
revelação final da parte de Deus (Hebreus 1.1-2), e sua obra redentora, bem como seus
ensinamentos foram registrados naquela que é a própria Palavra de Deus: a Sagrada
Escritura. Dessa forma, a própria Escritura pode ser considerada como a revelação especial
de Deus. Por conseguinte, a revelação especial, serve, como observa Louis Berkhof (2012,
págs. 30, 31), a um “propósito quadruplo: (a) corrigir e interpretar as verdades que agora
são colhidas da revelação geral; (b) iluminar o homem para que possa outra vez ler o escrito
de Deus na natureza; (c) fornecer ao homem uma revelação do amor redentor de Deus;
(d) mudar toda a sua condição espiritual, redimindo-o do poder do pecado e levando-o de
volta para uma vida de comunhão com Deus”.
O que fica evidente é que a revelação especial tem um caráter soteriológico7. Mas
não apenas isso, ela também serve para manifestar a vontade de Deus ao longo dos
7
Redentor, salvífico
5
séculos. Vejamos, portanto, quais eram esses meios, outrora, usados por Deus na sua
comunicação com os homens, a fim de que estes conhecessem sua vontade.
Sonhos – embora o sonho seja uma experiência bastante comum a todos; por
vezes, era usado por Deus na sua comunicação com os homens,
especialmente com o povo escolhido (Gênesis 20.1-7, 31.11-13; I Reis 3.5).
Visões – algumas vezes Deus se revelava aos seus servos por meio de
visões (Gênesis 15.1; Números 12.5-6; Isaías 1.1, 6.1; Atos 11.1-14).
Profetas – a forma mais comum pela qual Deus falava ao seu povo, eram os
profetas. Estes eram porta-vozes oficiais, sua mensagem provinha
diretamente de Deus e tinha um caráter exortativo e denunciador, pois
delatavam os pecados do povo e falavam de situações correntes em seus
8
Para uma melhor compreensão do uso e significado do Urim e Tumim, consultar a “Enciclopédia da Bíblia”, organizada
por Merryll C. Tenney, referenciado na bibliografia deste pequeno esboço.
6
dias (Esdras 5.1-2; II Crônicas 18.1-7; Jeremias 2.1-9; Oséias 4.1-3). Não
obstante, os profetas também anunciavam mensagens de paz e consolo,
sobretudo, aos arrependidos (Isaías 44.21-28, 54.1-8). Em outros momentos
sua mensagem abrangia a predições do futuro (Deuteronômio 18.15,
cf. Atos 3.17-26; Isaías 61.1-3, cf. Lucas 4.18-21).
Contudo, com o passar do tempo, tais oráculos foram registrados no que ficou
conhecido como Cânon do Antigo Testamento. Com a chegada da plenitude dos
tempos (Gálatas 4.4-5), tal comunicação se deu especialmente por intermédio de Cristo e
posteriormente, mediante os escritos dos apóstolos e outros servos de Deus, formando o
Cânon do Novo Testamento (Efésios 1.1-14). Assim, a revelação especial de Deus para o
homem hodierno é a própria Bíblia. Neste sentido, Louis Berkhof (2012, pág. 30), diz que
“a Bíblia é, por excelência, o livro da revelação especial, uma revelação em que as palavras
e os fatos caminham de mãos dadas”. E essa revelação especial, é assimilada somente
pela fé, de modo a assegurar a salvação aos eleitos de Deus, sendo o meio ordinário, usado
por Deus para chamar os pecadores ao arrependimento e consequentemente à salvação
em Cristo (Romanos 10.8-17). Semelhantemente, como já afirmamos, é ela o instrumento
Divino para revelar sua vontade (João 7.16-24).
É certo que a Escritura não contempla de forma direta e peculiar, todas as situações
que vivemos hodiernamente, pois ela foi escrita para um público específico, num contexto
e época distinta da nossa e trata de questões relacionadas a esse público em particular.
Não obstante, todo seu conteúdo serve para reger, orientar, disciplinar e edificar os crentes
de todas as épocas. Em contraste, o conceito hodierno, inclusive para muitos que se dizem
cristãos, é que a Bíblia é um livro ultrapassado. Todavia, uma rápida análise em seus
registros, nos mostra que ela é tão atual quanto o jornal desta manhã; e porque não dizer
que é mais atualizada do que as notícias que sairão amanhã?
7
ensinando a verdade da Sagrada Escritura e cuidando do povo, que predizendo o futuro. E
mesmo, muitas das mensagens de cunho escatológico, apresentadas no Novo Testamento,
tinham como base o que já havia sido registrado no Antigo Testamento, ou seja, seu
fundamento era a própria Escritura Sagrada, a Palavra de Deus (Salmo 118.22-23,
cf. I Pedro 2.4-10; Isaías 65.17 e 66.22, cf. Apocalipse 21.1; I Tessalonicenses 4.9-18;
II Pedro 3, cf. Salmo 102.26 e Isaías 51.6; II Pedro 1.16-21). Portanto,
Ademais disto, a prova cabal de que alguém falava da parte de Deus, era o
cumprimento absoluto daquilo que estava sendo predito (cf. Deuteronômio 18.15-22). O
que disso se infere é que cabe ao suposto “profeta”, provar que está sendo usado por Deus
para trazer uma mensagem dele ao seu povo. Diante disso, entendemos que as Sagradas
Escrituras não deixam lugar para supostas novas revelações. É o que claramente expressa
a Confissão de Fé de Westminster (WESTMINSTER, 2001, cap. 1, § 6º):
9
https://pt.scribd.com/document/35324556/A-Declaracao-de-Cambridge
8
Ao comentar o texto supra, o Dr. Heber Campos Jr. (2013, pág. 69), esclarece que:
De acordo com esse parágrafo, as questões diáforas 10 precisam ser avaliadas “pela
luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da Palavra”. Isto
é, a partir das diretrizes gerais da Escritura, os cristãos tomam decisões pesando
as circunstancias e conforme a sabedoria do alto.
Assim, devemos levar em conta que questões que não são claramente reveladas
nas Sagradas Escrituras, devem ser analisadas à luz de todo o escopo de seus
ensinamentos de forma entendermos adequadamente a vontade de Deus para nós.
10
Diáfora diz respeito a algo que é moralmente neutro. Ex.: a faculdade onde devo estudar, qual carro devo comprar,
onde devo morar, etc. Estas coisas não são certas ou erradas em si mesmas, havendo a necessidade, portanto, do uso
do bom senso.
9
BIBLIOGRAFIA
ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura – A Doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo:
Editora Os Puritanos, 1998.
BERKHOF, Louis. Manual de doutrina cristã. 2ª Edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
CALVINO, João. As institutas. Volume 2. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985.
CAMPOS JÚNIOR, Heber Carlos de. Tomando decisões segundo a vontade de Deus. São
Paulo: Editora Fiel, 2013.
HOUSE, H. Wayne. Teologia Cristã em Quadros. São Paulo: Editora Vida, 2000.
OLYOTT, Stuart. A carta aos Hebreus bem explicadinha. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
PACKER, J.I. Teologia Concisa. 2ª Edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
Sendo a Sagrada Escritura o instrumento pelo qual podemos conhecer a Deus e, por
conseguinte a expressão máxima de sua vontade; sendo ainda, o meio pelo qual ele,
ordinariamente, chama pecadores ao arrependimento, podemos dizer que este Livro
Sagrado, ao qual damos o nome de Bíblia, é incomparável, pois por seu intermédio temos
nossas vidas transformadas. Assim sendo, o Dr. Norman Geisler (1997, pág. 6), afirma
acertadamente que a “Bíblia é um livro singular. Trata-se de um dos livros mais antigos do
mundo e, no entanto, ainda é o best-seller mundial por excelência”. Essa afirmação feita
pelo Dr. Geisler é uma verdade que ultrapassa os limites do tempo e do espaço, pois
nenhum livro na história da humanidade foi tão lido e de forma efetiva, mudou tantas vidas
como a Bíblia. Todavia, como diz o Ms. Pedro Cordeiro (CORDEIRO, 2008, pág. 1):
“A nomenclatura ‘Bíblia’ não se encontra na Bíblia. Este termo vem de uma palavra grega
que, no singular é Biblion (livro), e no plural é Bíblia, que vem a ser uma biblioteca, uma
coleção de livros”. Na mesma linha, segue o Dr. J.I. Packer (1994, pág. 28) quando afirma
que “Bíblia não é um vocábulo bíblico. O Novo Testamento (ao referir-se, obviamente, ao
Antigo Testamento) faz alusão à Escritura ou às Escrituras. O termo grego é graph𝑒̅ ,11 que
significa escrita”. O Dr. Packer observa ainda que...
11
Esta é a forma transliterada da expressão grega γραφή, utilizada no Novo Testamento
12
Ibidem
13
Um termo latino que significa: único; que não se parece com nenhum outro
14
Somente a Escritura
11
2.1 A IMPORTÂNCIA DAS ESCRITURAS
Devemos levar em conta ainda, que ninguém menos que o próprio Senhor Jesus
Cristo corroborou os ensinamentos e preceitos do Antigo Testamento, reconhecendo sua
autoridade (Mateus 4.4/Deuteronômio 8.3, Mateus 4.7/Deuteronômio 6.16, Mateus 22.29;
Lucas 24.25-32; João 5.39). Igualmente, os escritores do Novo Testamento usaram
os Escritos Sagrados do Antigo Testamento, reconhecendo sua autoridade e
considerando-os provenientes do próprio Deus (Hebreus 4.4/Gênesis 2.2/Êxodo 20.8-11;
Tiago 2.11/Êxodo 20.14; II Timóteo 3.14-17; II Pedro 1.20-21).
O Novo Testamento traz consigo a mesma autoridade que o Antigo, pois sua fonte
é a mesma: Deus (Atos 15.22-32; I Coríntios 2.4-13, 14.37; Gálatas 3.8-9; Efésios 2.19-22;
II Pedro 3.14-16; I Tessalonicenses 2.13). Por essa razão, os crentes da igreja cristã
nascente foram exortados a lerem e estudarem os escritos apostólicos publicamente, como
12
costumeiramente faziam com os escritos do Antigo Testamento (Colossenses 4.16;
I Tessalonicenses 5.27; I Timóteo 4.13; Apocalipse 1.3).
2.1.1 Inspiração
Não é raro ouvirmos as pessoas afirmarem que a Bíblia é um livro feito por homens
e não merece atenção. Infelizmente, tal conceituação é crescente e cada dia mais cristãos
aderem a essa teoria. Portanto, devemos considerar em nossa análise sobre a importância
da Sagrada Escritura sua inspiração; porque sem esta, ela perde completamente seu valor,
tornando-se um livro comum, como outro qualquer. Mas, antes de prosseguirmos numa
definição do que é inspiração, precisamos saber o que ela não é. Vejamos, portanto, alguns
conceitos errôneos acerca da inspiração:
Teoria da inspiração mecânica – de acordo com tal teoria, Deus teria ditado
palavra por palavra aos escritores bíblicos, usando-os de forma mecânica,
anulando suas personalidades.
Esta teoria vai de encontro às Escrituras, que nos mostram que seus escritores
redigiram conforme o conhecimento que tinham das coisas (II Pedro 3.14-16); acerca disto,
trataremos adiante, quando falarmos sobre a instrumentalidade humana.
13
de revelação por parte de Deus, apenas uma intensificação das verdades já captadas pelo
próprio ser humano ao longo de sua vida.
A. A autoria Divina
Do lado divino as Escrituras são a Palavra de Deus no sentido de que tem nele sua
origem, sendo expressão exata e inequívoca de sua mente e vontade. Neste sentido, o
Catecismo Maior de Westminster, na pergunta nº 4, “como se demonstra que as Escrituras
são a Palavra de Deus?”, assevera:
14
enviavam a outros lugares (Jr 29.1; 36.1-8; 51.60,61; 2 Cr 21.12). Mas, na
maioria das vezes, era para preservá-la para o futuro, como um memorial (Êx 17.14)
ou uma testemunha (Dt 31.24-26), a fim de que ficasse escrita para o
tempo vindouro (Is 30.8).
B. A instrumentalidade humana
Do lado humano, certos homens foram escolhidos por Deus para receber sua
Palavra e passá-la à forma escrita. Em II Pedro 1.21, encontramos a referência aos
homens: “Homens santos de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo” (φέρω – movidos
ou conduzidos). A referência aqui é ao escritor e não ao escrito. Contudo, o ser humano foi
apenas instrumento nas mãos do seu Criador. Deus não só é o autor supremo das
Sagradas Escrituras, mas também é Aquele que inspira homens para escrevê-las com
exatidão. Neste sentido, o Dr. Hermisten Maia (2008, pág. 66), pondera que,
15
Isso significa que Deus soprou a sua Palavra para dentro de homens, por ele escolhidos, e ao recebê-la em seu coração
e transcrevendo-a, eles registraram o caráter, os pensamentos, sentimentos, a vontade de Deus; bem como seu
soberano plano da salvação, arquitetado desde os tempos eternos.
15
Podemos definir a inspiração como sendo a influência sobrenatural do Espírito de
Deus sobre os homens separados por ele mesmo, a fim de registrarem de forma
inerrante e suficiente toda a vontade de Deus, constituindo esse registro na única
fonte e norma de todo conhecimento cristão.
Expomos ainda a opinião do Dr. Gerard Van Groningen, que foi um dos grandes
defensores da Teologia Reformada nos séculos XX e XXI:
Contudo, é preciso lembrar que, como diz William Lasor (1999, pág. 648):
16
apenas de forma exata, mas também, de maneira inteligível aos homens, transmitindo-lhes
todo o preceito Divino (II Timóteo 3.16; II Pedro 1.20,21). Destarte, João Calvino (2009,
pág. 263), observa que “o mesmo Espírito que deu certeza a Moisés e aos profetas de sua
vocação, também agora testifica aos nossos corações de que ele tem feito uso deles como
ministros através de quem somos instruídos”. Diz ele ainda que “a Escritura é a escola do
Espírito Santo, na qual nem se deixou de colocar coisa alguma necessária e útil de
conhecer, tampouco se ensina mais do que é preciso saber” (apud. Costa, 2008, pág. 75).
b) Dinâmica – não obstante ser Deus o Supremo Autor das Escrituras, ele se serviu da
instrumentalidade humana para a realização de seus propósitos. Contudo, Deus não
nulificou a personalidade dos que para este fim foram reservados, antes os usou
como organismos vivos no registro de Sua vontade. Isto fica evidente nos registros
de vários escritores bíblicos. Vejamos alguns:
Davi – este servo de Deus era um guerreiro nato, homem valente e temente
a Deus, mas era também um musico talentoso (I Samuel 16.18, 22-23). Dessa
forma, quando compõe seus Salmos, Davi está expressando o talento pessoal
dado por Deus, ao passo que também manifesta, em seus escritos, a
revelação Divina; a exemplo dos Salmos 22 e 145.
17
Paulo – nos escritos do apóstolo Paulo, especialmente em Romanos e
Gálatas, destaca-se seu conhecimento da Lei e isto não é por acaso. Paulo
foi, antes de sua conversão ao cristianismo, um proeminente doutor da Lei,
um fariseu preparado aos pés de um dos mais conceituados mestres
farisaicos de Israel (Atos 5.34; Atos 22.23; Filipenses 3.4-7). Isto, afora seu
conhecimento da filosofia grega e da cultura geral (cf. Atos 17.28).
c) Verbal – entendemos que a inspiração também foi verbal, pois foi por meio de
palavras que Deus revelou sua vontade e tornou claro o plano da salvação (II Samuel
23.2; Jeremias 1.9; Mateus 5.18; I Coríntios 2.13), assim como sua vontade nas mais
diversas circunstâncias (Gênesis 12.1-3; Êxodo 3.7-10; I Samuel 16.7).
d) Sobrenatural – Ao passo que ela foi verbal, foi também sobrenatural, pois não
aconteceu, como acontecem as supostas inspirações musicais e poéticas dos mais
diversos artistas; não faz parte da mera sensibilidade humana acerca das coisas
desta vida. Sua origem está em Deus (João 17.17; Romanos 10.17, I Pedro 1.23).
Diante do exposto, como diz João Calvino (2009, pág. 263): “devemos à Escritura a
mesma reverência devida a Deus, já que ela tem n’Ele sua única fonte, e não existe
nenhuma origem humana misturada nela”. Somente por serem inspirados os Escritos
Sagrados são considerados ou recebidos como canônicos, ou seja, da sua inspiração
depende, de forma absoluta, sua canonicidade.
2.1.1.2 Canonicidade
Por canonicidade das Escrituras queremos dizer que, de acordo com padrões
determinados e invariáveis, os livros incluídos nas Escrituras são considerados parte
integrante de uma revelação Divina completa, sendo, portanto, determinantes no que se
refere à fé e à prática cristã.
O termo canonicidade deriva do vocábulo cânon, que por sua vez procede do grego
Kanõn (κανών) e traz consigo a ideia de uma regra ou norma que deve ser seguida e
obedecida (cf. Gálatas 6.16). Não obstante, sua origem é semítica, provinda do hebraico
Qâneh ( )קָ נֶהe apontava inicialmente para uma vara de medição (Ezequiel 40.3). Isto porque
ao longo do tempo, tal expressão tomou outros sentidos, como por exemplo: regra, na
gramática; tabelas, listas, datas e números quando o assunto era a matemática; pauta, em
18
se tratando de arte; haste, na arquitetura; ou ainda, uma lista de obras escritas, quando o
assunto em pauta era literatura16. Dessa forma, quando falamos no Cânon das Escrituras,
fazemos alusão a um conjunto de livros inspirados por Deus e que são regra ou norma de
conduta e fé, autoritativa em todas as áreas da vida cristã. Ainda sobre este assunto, dois
aspectos que precisamos levar em conta e que estão interligados são o ativo e o passivo.
Por aspecto ativo, fazemos menção ao fato de que as Escrituras são o cânon (regra,
norma, padrão) pelo qual todas as coisas são julgadas e consideradas boas ou más;
inclusive nossas obras, pensamentos e intenções. Por outro lado, no que tange ao aspecto
passivo, fazemos referência ao padrão pelo qual, os escritos dos profetas e dos demais
escritores bíblicos deveriam ser julgados. Até porquê havia em Israel uma já extensa
publicação de literatura que era utilizada pelo povo. Alguns exemplos pertinentes são:
Números 21.14; Josué 10.13; I Reis 11.41; I Crônicas 29.29; II Crônicas 13.22. Outros
casos relacionados nas Escrituras, são: Isaías 30.8; Jeremias 30.2, 36.1-4. Tais escritos
eram lidos e estudados pelo povo de Deus e muitos deles foram reconhecidos como
inspirados e passaram a fazer parte do cânon Veterotestamentário17.
A. Antigo Testamento
Não foi Moisés, nem mesmo os profetas e ainda menos os líderes religiosos de
Israel (fariseus, escribas, saduceus, etc.) que determinaram quais livros deveriam fazer
parte do cânon do Antigo Testamento. Eles foram reconhecidos pelo próprio povo como
tendo autoridade Divina em seus escritos. Neste sentido, uma narrativa de extraordinária
beleza está registrada em II Crônicas 34, quando o rei Josias toma conhecimento de que o
“Livro da Lei do Senhor” (vers. 14) havia sido encontrado e com base em seus registros e
preceitos, ele promove uma grande reforma espiritual no seu reino (cf. II Crônicas 34 e 35).
Por outro lado, o famoso historiador judeu, Flávio Josefo, ressalta que,
16
Conceituação feita pelo Dr. Hermisten Maia em seu livro: A Inspiração e Inerrância das Escrituras, pag. 18.
17
Relativo ao Antigo Testamento.
19
Moisés” (Esdras 7.6), e “o escriba das palavras e mandamentos e dos estatutos
do Senhor sobre Israel” (Esdras 7.11); a natureza da época de Esdras era tal que
a seleção dos livros sagrados pode ter sido apropriadamente feita no seu
decorrer. Após o Exílio, o povo estava fundando de novo as instituições religiosas
da nação. O que poderia ser mais natural do que reunir os volumes da
biblioteca sacra? (apud. THIESSEN, 1989, pag.63).
O que se infere das palavras de Josefo é que já havia uma coleção de livros
considerados sagrados pelo povo de Deus, quando de seu retorno do exilio babilônico.
Nesta linha de pensamento F.F. Bruce (1998, pág. 81) expressa que,
18
Ibidem
19
Trataremos deste assunto adiante
20
O único verdadeiro teste de canonicidade que permanece de pé é o testemunho de
Deus, o Espírito Santo, à autoridade da sua própria Palavra. Esse testemunho
provoca uma resposta de reconhecimento, fé e submissão no coração do povo de
Deus que andava com ele na comunhão da aliança.
A pergunta que talvez, alguém possa fazer é: porque os judeus que estabeleceram
o cânon do Antigo Testamento e não outros povos? A resposta a esta indagação é que os
judeus não estabeleceram o cânon, antes reconheceram como sagrados, livros, profecias
e outros escritos dados por Deus ao seu povo. Ademais disto, os judeus foram o povo com
quem Deus fez sua aliança e a quem ele revelou de forma verbal e escrita sua vontade.
Assim, o apóstolo Paulo, com propriedade afirma que aos “judeus foram confiados os
oráculos de Deus” (Romanos 3.2).
B. Novo Testamento
a) Ter sido escrito por um dos doze apóstolos, ou alguém que tivesse convivido com
eles (p. ex. Lucas e Marcos);
b) A aceitação de sua autoridade, bem como sua utilização pela igreja como preceitos
normativos (cf. I Tessalonicenses 2.13);
c) Coerência doutrinária. Tais escritos deveriam estar de acordo com revelações dadas
por Deus em tempos anteriores (cf. Efésios 1.22, Salmo 8.6);
d) Inspiração.
A essa altura faz-se necessário destacar que os escritos bíblicos não passaram a
fazer parte do cânon, mediante o consenso de uma igreja institucionalizada, senão que sua
inspiração e autoridade foram reconhecidas naturalmente pela da igreja cristã ao longo dos
séculos. Assim, após uma análise e aprovação criteriosa, tornaram-se regra de fé e prática
para os servos de Deus, conforme expressa Merryl C. Tenney (apud. COSTA, 2008,
pág. 27): “O cânon, portanto, não é produto do critério arbitrário de qualquer pessoa, nem
21
foi determinado por voto conciliar. Resultou do emprego dos vários escritos que provavam
seu mérito e a sua unidade pelo seu dinamismo interno”. Outrossim, como afirma F.F. Bruce
(apud. COSTA, 2008, págs. 26, 27):
Não temos, pois, receio de ver entre nós um grande número de livros que se
contradizem. Temos somente vinte e dois que compreendem tudo o que se passou,
e que se referem a nós, desde o começo do mundo até agora, e aos quais somos
obrigados a prestar fé. Cinco são de Moisés, que refere tudo o que aconteceu até
sua morte, durante perto de três mil anos e a sequência dos descendentes de Adão.
Os profetas que sucederam a esse admirável legislador escreveram, em treze
outros livros, tudo o que se passou depois de sua morte até o reinado de
Artaxerxes, filho de Xerxes, rei dos persas, e os quatro outros livros contêm hinos e
cânticos feitos em louvor de Deus e preceitos para os costumes. Escreveu-se
também tudo o que se passou desde Artaxerxes até os nossos dias, mas como não
se teve, como antes, uma sequência de profetas não se lhes dá o mesmo crédito,
que aos outros livros, de que acabo de falar e pelos quais temos tal respeito, que
ninguém jamais foi tão atrevido para tentar tirar ou acrescentar, ou mesmo
modificar-lhes a mínima coisa. Nós os consideramos como divinos, chamamo-los
22
assim; fazemos profissão de observá-los inviolavelmente e morrer com alegria, se
for necessário, para prová-lo.
O que devemos levar em conta nas palavras de Josefo é o fato de que os judeus
não reconhecem os escritos do Novo Testamento como inspirados, pois não veem Jesus
como o Messias prometido. Destarte, os únicos escritos que consideram sagrados são os
livros que compõem o Antigo Testamento. Mesmo assim, ainda permanece certa
discrepância no número de livros apresentados nos cânones supracitados, visto que como
afirma o historiador judeu, os livros do cânon judaico (Antigo Testamento) são vinte e dois
e os adotados no cânon cristão protestante somam trinta e nove, tratando-se apenas do
Antigo Testamento.
A questão que disto surge é: como pode haver contraste entre ambos os cânones
apresentados se o cânon cristão procede do cânon judeu? A resposta para essa indagação
é encontrada na forma como os livros que compõem tais cânones foram catalogados.
O Dr. Paulo Anglada (1998, pág. 35) aponta para divisão geral do cânon hebraico:
Os Profetas (Neviim):
Rolos ou Megilloth (lidos no ano litúrgico): Cantares (na páscoa), Rute (no
pentecostes), Lamentações (no quinto mês), Eclesiastes (na festa dos
tabernáculos) e Ester (na festa de purim).
Distintamente, o cânon protestante faz separação destes livros sem, contudo, tocar
em seu conteúdo. Ou seja, divide Samuel em dois livros: I e II Samuel. O mesmo acontece
com o livro dos Reis e o livro das Crônicas; separa ainda os livros de Esdras e Neemias;
Juízes e Rute; Jeremias e Lamentações como sendo distintos. Seguindo dessa forma o
23
padrão estabelecido na Septuaginta20. Não obstante, o conteúdo destes livros permanece
inalterado e intocável, pois são recebidos com Palavra de Deus e esta não pode ser
manipulada pelo homem.
20
Versão grega do Antigo Testamento
21
Trataremos sobre este assunto no próximo capítulo
24
BIBLIOGRAFIA
ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura – A Doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo:
Editora Os Puritanos, 1998.
ARCHER JR., Gleason L. Panorama do Antigo Testamento. 4ª Edição. São Paulo: Editora
Vida Nova, 2012.
BRUCE, F.F. et al. A origem da Bíblia. 1ª Edição. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.
COSTA, Hermisten Maia Pereira da. A Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo:
Cultura Cristã, 2008.
GEILSER, Norman L.; NIX, William E. Introdução Bíblica - Como a Bíblia chegou até nós.
São Paulo: Editora Vida, 1997.
JOSEFO, Flávio. História dos hebreus – De Abraão à queda de Jerusalém. 8ª Edição. Rio
de Janeiro: CPAD, 2004.
LASOR, William. Introdução ao Antigo Testamento. 1ª Edição. São Paulo: Vida Nova, 1999.
PACKER, J.I. Vocábulos de Deus. 1ª Edição. São Paulo: Editora Fiel, 1994.
Apalavra “apócrifa” foi usada originalmente como um termo literário referindo-se aos
livros que não eram apropriados para leitura pública por causa de seu conteúdo
esotérico. Sentia-se que as doutrinas secretas contidas nesses livros poderiam
perder sua autoridade se fossem profanadas pelo olhar atento por parte das
pessoas comuns, numa atitude particularmente adotada entre os gnósticos gregos.
Depois do ano 70 d.C., as obras apocalípticas caíram em desagrado dentro do
Judaísmo, e o termo “apócrifa” tornou-se igualmente depreciado (TENNEY, 2008,
pág. 372).
A Confissão de Fé de Westminster (2011, Capítulo 1, §3º), por sua vez, ressalta que:
O termo apócrifo significa: oculto. Assim, os livros apócrifos sugerem trazer à luz
verdades que estavam ocultas. Assim, por livros apócrifos nos referimos a uma coleção de
livros que foram incluídos na Bíblia Católica-romana e na Bíblia da Igreja Ortodoxa, além
de outro tanto que foi rejeitado, tanto pelos cristãos protestantes, como pelos católicos
romanos e os ortodoxos. Os escritos apócrifos são inúmeros e formam um total de cerca
de 250 livros. Os mais conhecidos são os que constam no cânon católico e no cânon
ortodoxo, conforme se segue: Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruc,
A Epístola de Jeremias, I e II Macabeus e acréscimos feitos a Ester e a Daniel.
O inciso da Confissão de fé de Westminster, supracitado, nos diz que tais livros não
são de inspiração Divina; as razões são simples:
Não constam no cânon hebraico, isto é, não fazem parte das Escrituras que
os judeus consideravam como inspiradas por Deus. Os católicos os chamam
de deuterocanônicos;
25
Somente foram incluídos, oficialmente, no cânon católico em meados de
1500, não tendo sido usados pelos apóstolos como literatura inspirada;
Estas razões, por si, já são suficientes para serem rejeitados como Escrito Divino,
mas existe uma razão de peso, sobremodo elevado, que nos faz vê-los como meros
escritos humanos: são seus erros, contradições e histórias fantasiosas. Veja abaixo:
As Escrituras nos ensinam que somos salvos pela graça e não por obras, sejam
esmolas, cuidado com os pobres ou qualquer coisa do gênero (Efésios 2.8) e ainda que a
vida é dom gratuito (Romanos 6.23).
22
Bíblia Católica Ave Maria
23
Idem.
26
mágicas para libertar alguém que estivesse possesso, ao contrário, valeu-se apenas de sua
autoridade e concedeu a mesma aos seus discípulos quando os enviou em sua missão
evangelística (Mateus 8.28-32; Lucas 4.33-36, 10.17-20). A autoridade de Jesus para
libertar pessoas possessas foi dada apenas ao seus (Atos 19.11-17).
É intrigante este erro no livro de Judite, pois Daniel deixa muito claro que
Nabucodonosor era rei da Babilônia (Daniel 1.1) e não apenas isto, historiadores apontam
a destruição de Nínive em 612 a.C., pelo pai de Nabucodonosor.
Se estes escritos foram inspirados, por que o escritor pede desculpas e chama sua
obra de medíocre? Compare suas palavras com o que diz Hebreus 4.12.
24
Idem
25
Idem.
26
Idem.
27
Os acréscimos feitos a Ester e Daniel são:
Daniel – no cânon que adotamos, Daniel termina no capítulo 12, mas nos
apócrifos segue até o capítulo 14.
No caso de Daniel, os acréscimos falam de uma defesa que Daniel teria feito de uma
suposta juíza de Israel, de nome Suzana. Porém, fala que Daniel era ainda adolescente
quando isto “aconteceu”, mas no capítulo 12, ele já estava com uma idade bem avançada.
Outra questão, digna de nota, é o confronto de Daniel com um suposto dragão, o qual
Daniel faz explodir.
Não obstante as informações acima, devemos levar em conta que alguns desses
livros são de grande valor histórico. Os livros escritos pelos Macabeus, por exemplo, falam
de guerras e outros fatos ocorridos no período intertestamentário (400 anos de silêncio) e
que são atestados pela história. Mas, nem todos os livros apócrifos surgiram nesse período.
Alguns foram escritos nos primeiros séculos da igreja cristã, reivindicando autoridade
Divina, porém, não foram reconhecidos como possuidores de tal autoridade. Seguem
alguns exemplos:
Apocalipse de Tiago
28
A não aceitação destes se deu, especialmente, por trazerem consigo contradições
absurdas, além de vários conceitos provindos do gnosticismo como pode se ver. Alguns
erros que podemos destacar aqui são:
29
"Quem participa da dança, não sabe o que vai acontecer." - Amém.
Em suma, os livros apócrifos têm sido rejeitados pela tradição cristã protestante por
não passarem nos testes de canonicidade abordados no capítulo anterior. Assim, conforme
explica Paul House, “embora alusões aos livros apócrifos apareçam no NT (e.g., Jd 9), não
há nenhuma referência indiscutível sobre os apócrifos na qual um autor declare sua
autoridade bíblica” (HOUSE, 2005, pág. 688).
30
BIBLIOGRAFIA
HOUSE, Paul R. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2005.
31
4. AUTORIDADE E INERRÂNCIA DAS ESCRITURAS
Todo verdadeiro cristão, aceita e submete sua vida à autoridade bíblica, acreditando
piamente em sua inerrância. Não obstante, se realizássemos uma rápida pesquisa, nos
depararíamos com a triste realidade de que muitos, não sabem ou mesmo nunca ouviram
falar sobre o significado de autoridade e inerrância das Sagradas Escrituras. Vejamos,
portanto, ainda que de forma sucinta o que significam tais termos.
2.2 Autoridade
Em contraste com este tipo de pensamento, Paulo afirma em II Timóteo 3.16 e 17,
que a Escritura é inspirada por Deus, sendo útil e objetiva:
32
regra, distancia o homem de Deus, afastando-o consequentemente da
salvação em Cristo.
Ao afirmar que “o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda
boa obra” (ver verso 17), Paulo não está afirmando que haverá ausência de erros e falhas
ou ainda que o pecado deixará de existir na vida do cristão e somente depois disto ele
estará apto para toda boa obra. Na verdade, o termo grego traduzido por perfeito, expressa
a ideia de algo completo, provido de determinada aptidão para um serviço especifico. Ao
aplicar na administração pessoal e na Igreja o ensino, a repreensão, a correção e a
educação na justiça, Timóteo estaria equipando a igreja para toda boa obra.
A Igreja Católica Romana afirma ser a detentora da revelação divina e que suas
tradições tem a mesma autoridade que a Sagrada Escritura. Assim, afim de
compreendermos a relação entre a autoridade das Escrituras e a autoridade da Igreja,
inicialmente, precisamos ter em mente algo de extrema importância aqui: o contexto
histórico. Se não levarmos em conta o contexto histórico, não poderemos fazer uma análise
correta e adequada deste impasse.
33
Na idade média, a Igreja Católica Romana determinava em toda sua extensão, os
rumos da fé. Por outro lado, a Reforma Protestante declarava que somente a Escritura
Sagrada poderia fazê-lo. Assim, vejamos inicialmente o que a Igreja de Roma define em
seu Catecismo (CATÓLICA, 2000, art. 2º) quanto à autoridade das Escrituras. Transcrevo,
portanto, ipsis litteris, suas declarações:
§ 79 - Assim, a comunicação que o Pai fez de si mesmo por seu Verbo no Espírito
Santo permanece presente e atuante na Igreja: O Deus que outrora falou mantém um
permanente diálogo com a esposa de seu dileto Filho, e o Espírito Santo, pelo qual a voz
viva do Evangelho ressoa na Igreja e através dela no mundo, leva os crentes à verdade
toda e faz habitar neles abundantemente a palavra de Cristo.
34
Sagrada Escritura. Por isso, ambas devem ser aceitas e veneradas com igual sentimento
de piedade e reverência.
Como vimos anteriormente, Deus é o Supremo autor das Escrituras e por essa razão
a autoridade das mesmas não depende do reconhecimento da Igreja ou qualquer Concílio.
Assim, não podemos aceitar a proposição católico-romana, de que a Escritura não tem
consistência sem a Tradição ou mesmo o Magistério eclesial. Muito menos podemos aceitar
sua tese de que a “igreja” seja a transmissora de verdades autoritativas, fruto de
interpretação do que supostamente é a vontade de Deus para os homens.
As tradições têm seu valor, desde que, não sejam equiparadas às Escrituras. Jesus
falou duramente àqueles que punham suas tradições no mesmo nível das Escrituras e até
mesmo acima delas (Marcos 7.1-13). Paulo alertou contra a aceitação de outros ensinos
que vão além das Escrituras (Gálatas 1.6-9).
2.3.1 Ortodoxia
35
Referente à história da humanidade, a ortodoxia assevera que a revelação é
trans-histórica, ou seja, ela é contígua, próxima, aos acontecimentos do mundo dos
homens.
2.3.2 Liberalismo
Para os advogados de tal posição a Bíblia está repleta de erros e mitos, por isso, a
necessidade da aplicação das ferramentas da Baixa e Alta Crítica. Logo, a Bíblia contém a
Palavra de Deus. Essa Palavra, por sua vez, só pode ser apreendida via intuição humana.
2.3.3 Neo-Ortodoxia
Iniciado por Karl Barth com a intenção de transcender tanto o liberalismo como a
ortodoxia, depois de sua frustração com o liberalismo29, a neo-ortodoxia é uma importante
vertente teológica do século XX, cujo objetivo é resgatar a Palavra de Deus.
27
A Baixa Crítica era o estudo do texto da Escritura e suas variações textuais.
28
A Alta Crítica busca meticulosa pela autenticidade, exatidão e fatos.
29
A Frustração de Barth deveu-se ao apoio dos liberais, que acreditavam na evolução do homem para melhor, à
primeira guerra mundial.
36
Com a intenção de resgatar o verdadeiro conceito de “Palavra de Deus”, a neo-
ortodoxia conseguiu provocar transformações tanto na teologia liberal quanto na teologia
conservadora. Na teologia liberal, 1. levar mais a sério o pecado e o mal; 2. levar mais a
sério a transcendência de Deus; 3. críticas ao antropocentrismo, mostrando que isso não
tinha nada do cristianismo histórico; 4. arrastaram muitos liberais a neo-ortodoxia.
Portanto, o conceito barthiano sobre Jesus Cristo é que ele é o Filho de Deus e a
auto expressão perfeita e completa de Deus. Todas as outras revelações, sejam quais
forem, redundam em Cristo como promessa, esperança e lembrança.
Karl Barth não aceitava a ideia de uma revelação proposicional30, pois ninguém pode
falar sobre Deus, ele é o totalmente “O Outro”31. Não aceitava a inspiração e nem a
inerrância, pois para ele a Bíblia é totalmente humana e está repleta de erros. No entanto,
mesmo sendo humana, é incomparável, pelo fato de Deus fazer uso dela. Não obstante,
com esse posicionamento acerca das Escrituras, Barth não intencionava desprezar a Bíblia,
senão, exaltar a Jesus Cristo, pois em seu entendimento, ele é o Senhor, não a Bíblia. Para
Barth, ela apenas testemunha a Cristo, instrumento da verdadeira revelação.
A doutrina da inerrância bíblica foi arquitetada e exposta no início do século XX, por
ocasião das controvérsias entre liberais e fundamentalistas.
30
Afirmação, conceito, declaração verdadeira sobre Deus.
31
Ênfase demasiada na Transcendência de Deus.
37
É importante que tenhamos em mente que as Escrituras não defendem sua
inerrância, pois essa é uma premissa básica (João 10.35), uma vez que seu autor é o
próprio Deus. Assim, quando afirmamos que as Escrituras são inerrantes, estamos
ressaltando que os “escritos originais”, também conhecidos como “autógrafos originais”,
não contém qualquer erro, contradição ou falsidade; que as Escrituras foram preservadas,
mediante a ação do Espírito Santo, de qualquer engano ou equívoco por parte daqueles
que a registraram. Neste sentido, o Dr. Augustus Nicodemus, salienta que:
[...] a Bíblia foi escrita por autores sobrenaturalmente inspirados por Deus a ponto
de ser verdadeira em tudo o que afirma, e isto não somente em matérias de fé e
história da salvação. Ela é livre de erros, fraude e enganos. A Escritura não pode
errar por ser em sua inteireza a revelação do Deus verdadeiro. Ela não é somente
uma testemunha da revelação e nem se torna revelação num encontro existencial.
Ela permanece a inerrante Palavra de Deus independentemente da resposta
humana.32
a) Embora os registros bíblicos tenham sido feitos por homens comuns, estes foram
impedidos pelo Espírito Santo, de acrescentarem ou omitirem qualquer coisa, além
da vontade de Deus.
b) Conforme tratamos anteriormente, apenas os escritos originais são inerrantes. As
traduções e versões bíblicas hodiernas não o são. Entretanto, quando comparadas
aos manuscritos mais antigos, demonstram grande fidelidade em seu conteúdo.
c) É possível que alguns termos ou experiências dos escritores difiram da realidade
cientifica de nossos dias, porém não comprometem o ensino geral e/ou a verdade
das Escrituras.
32
http://tempora-mores.blogspot.com.br/2006/02/sobre-inerrncia-da-bblia.html
38
2.3.4 Escritos de Qumram
Tais achados são de especial importância para nós, pois dizem respeito a uma série
de manuscritos que após datação criteriosa, mediante a utilização de carbono 14,
demonstram haverem sido produzidos entre o final do terceiro século e o ano 70 d.C. Dentre
tais documentos, sobressai-se uma cópia completa do livro do profeta Isaías, escrita cerca
de 100 a.C.
Há pessoas que negam a autoridade das Sagradas Escrituras, por entenderem que
a mesma está repleta de erros. Assim, negam a inerrância bíblica apontando “erros” em
sua estrutura literária, histórica e/ou científica. Contudo, devemos ter em mente que a Bíblia
não é um livro de ciências, antropologia, filosofia, biologia, etc. Ela não se presta a
esclarecer os mistérios do universo ou a responder as indagações humanas sobre os males
da vida ou ainda, dar respostas plausíveis à filosofia ou qualquer outra ciência. Seu principal
objetivo é revelar a Deus e seu plano redentor, mediante Cristo Jesus.
39
Contesta-se Jó 20.16, ao dizer que o texto afirma que a víbora mata com a
língua, quando a mesma mata com as presas.33
É certo que existem textos de difícil elucidação, contudo, não podemos simples e
levianamente declarar que se tratam de incongruências. Certamente, não somos capazes
de entendê-los, devido nossas limitações interpretativas e falta de conhecimento.
33
Analisar este texto na Nova Versão Internacional (NVI)
40
3 INTERPRETAÇÃO DAS ESCRITURAS
Navegando outro dia pela internet encontrei o seguinte diálogo (ipsis litteris):
- “Se a Bíblia se explica pela própria Bíblia, por que então, existem tantas Igrejas
evangélicas? Ou a suposta clareza das Escrituras não fala por si só?”
a. Literal
Este método entende que os textos bíblicos devem ser interpretados literalmente. O
escritor bíblico intencionava dizer exatamente o que está escrito. Este método rejeita
qualquer explicação que não esteja claramente evidente no Texto Sagrado.
34
https://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20120225154250AAPr3Zl
41
b. Alegórico
c. Histórico-gramatical
42
4 ILUMINAÇÃO
O livro dos Salmos traz diversos textos que ilustram o que estamos propondo, veja
por exemplo Salmo 119, versos 18 e 130. Por outro lado, o Salmo 73, fala da indignação
do salmista contra os malfeitores e como percebe o fim que estes terão, após entrar no
santuário de Deus.
O apóstolo Paulo afirma em I Coríntios 2.14: “Ora, o homem natural não aceita as
coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas
se discernem espiritualmente”. Eis a razão porque muitos leem as Escrituras, mas a
percebem apenas como um livro de lições morais e éticas e não alcançam salvação;
precisam ser iluminados pelo Espírito de Deus.
A simples declaração de que temos a Palavra deveria ser suficiente para gerar em
nós a fé, se a nossa cegueira e a nossa obstinação não no-lo impedissem. Como,
porém, o nosso espírito é propenso à vaidade, ele não pode apegar-se à verdade
de Deus. Jamais! E como é espiritualmente bronco e cego, não consegue ver a luz
de Deus. Por isso, sem a iluminação do Espírito Santo, só a Palavra não nos dá real
proveito (CALVINO, 1985, pag.21).
43
Nos dias atuais, não poucas pessoas, arrogam serem inspiradas por Deus para
trazer à luz as verdades de Sua Palavra. Entretanto, deveriam atentar para o fato de que
não podem ser inspiradas, porque não trazem consigo nova revelação da parte de Deus.
Quando muito, tais pessoas são iluminadas pelo Espírito Santo, que as conduz à
compreensão das verdades já reveladas. Veja o que diz o apóstolo Paulo em Efésios 1.18:
“iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu
chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos”. A iluminação é uma
aptidão concedida por Deus aos homens, mediante a ação do Espírito Santo, de interpretar
Seu registro revelacional.
A bíblia é um livro Divino. Dessa forma, somente com o auxílio de alguém que faça
parte da Divindade, seremos capazes de interpretá-lo.
CONCLUSÃO
44
Muitas novidades têm surgido na igreja contemporânea e tomado lugar no culto a
Deus. Em muitos lugares, a “revelação” imediata tem mais valor que a Revelação escrita.
Para muitos, as Sagradas Escrituras devem ser conformadas com suas experiências
pessoais e dessa forma, a Palavra de Deus perde seu valor e influência na vida da igreja.
Não obstante os cristãos de confissão reformada, a Palavra de Deus está acima de
qualquer experiência religiosa, é superior a todo conceito de revelação, ela é a consumação
do que Deus exige do homem. É por meio da Sagrada Escritura, que Deus se revela ao
homem. Portanto, os conceitos humanos devem ser balizados pela Escritura, caso contrário
perderão seu valor.
Somente a Escritura Sagrada tem poder para determinar a vida do cristão e isto,
porque somente ela traz a revelação de Deus e de sua vontade, é inspirada, autoritativa e
inerrante.
45
BIBLIOGRAFIA
ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura – A Doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo:
Editora Os Puritanos, 1998.
ARCHER JR., Gleason L. Panorama do Antigo Testamento. 4ª Edição. São Paulo: Editora
Vida Nova, 2012.
BERKHOF, Louis. Manual de doutrina cristã. 2ª Edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
BRUCE, F.F. et al. A origem da Bíblia. 1ª Edição. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.
CALVINO, João. As institutas. Volume 2. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985.
CAMPOS Júnior, Heber Carlos de. Tomando decisões segundo a vontade de Deus. São
Paulo: Editora Fiel, 2013.
CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. São Paulo: Editora
Hagnos, 2002.
COSTA, Hermisten Maia Pereira da. A Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo:
Cultura Cristã, 2008.
ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997.
GEILSER, Norman L.; NIX, William E. Introdução Bíblica - Como a Bíblia chegou até nós.
São Paulo: Editora Vida, 1997.
HOUSE, H. Wayne. Teologia Cristã em Quadros. São Paulo: Editora Vida, 2000.
JOSEFO, Flávio. História dos hebreus – De Abraão à queda de Jerusalém. 8ª Edição. Rio
de Janeiro: CPAD, 2004.
LASOR, William. Introdução ao Antigo Testamento. 1ª Edição. São Paulo: Vida Nova, 1999.
OLYOTT, Stuart. A carta aos Hebreus bem explicadinha. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
PACKER, J.I. Teologia Concisa. 2ª Edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
PACKER, J.I. Vocábulos de Deus. 1ª Edição. São Paulo: Editora Fiel, 1994.
SALUM, Oadi. Teologia Sistemática Reformada. 1ª Edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2017.