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Revelação Geral e Teologia Natural

O documento discute a revelação geral de Deus ao homem através da natureza. Afirma que Deus revela sua existência, poder e atributos a todos os homens por meio da criação, mas que o homem pecador não consegue reconhecer plenamente esta revelação sem a revelação especial em Cristo. Também compara perspectivas como a teologia natural, a católica romana e as visões de Calvino e Barth sobre a capacidade do homem conhecer a Deus pela revelação geral.

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Revelação Geral e Teologia Natural

O documento discute a revelação geral de Deus ao homem através da natureza. Afirma que Deus revela sua existência, poder e atributos a todos os homens por meio da criação, mas que o homem pecador não consegue reconhecer plenamente esta revelação sem a revelação especial em Cristo. Também compara perspectivas como a teologia natural, a católica romana e as visões de Calvino e Barth sobre a capacidade do homem conhecer a Deus pela revelação geral.

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INTRODUÇÃO

Considerações iniciais

O homem é um ser religioso e como tal, busca ao longo de sua vida dirimir questões
que lhe são naturalmente obscuras e que transcendem o raciocínio lógico. Destarte,
aventura-se a tentar compreender o metafisico e espiritual, a partir do limitado
conhecimento adquirido em suas experiências pessoais.

Em sua leitura do ser humano, João Calvino compreendeu e ensinou que todo
homem traz consigo, desde o nascimento, a “sêmen religionis” (CALVINO, 2008, pág. 51),
ou seja, a semente da religião, que está arraigada em seu coração. Isto implica em dizer
que por mais que o homem queira, jamais poderá negar que existe dentro de si uma forte
inclinação para as questões espirituais. Entretanto, devido à corrupção causada pelo
pecado, o homem não pode voltar-se para Deus e ser por Ele salvo, mediante a revelação
que a natureza faz dos atributos Divinos.

Em contraste com o ensino da Teologia Natural, que afirma que “nas energias do
seu Espírito, Deus está em todas as coisas, e todas as coisas estão em Deus”1 e ainda que
o Espírito de Deus age como um campo de forças, que dá energia a todas as coisas. E
ainda contrariando o Panteísmo que tributa divindade à natureza, ao afirmar que o universo,
a natureza, os animais, os homens, enfim, toda a criação é Deus e Deus é tudo o que foi
criado, a Confissão de Fé de Westminster afirma categórica e corretamente que as
revelações de Deus na natureza, não podem conduzir o homem à salvação 2.

Os conceitos supracitados, revelam apenas uma coisa: a ignorância e cegueira dos


homens, pois como afirma o apóstolo Paulo em Romanos 1.22-23, eles se tornaram loucos
e adoraram a criatura em lugar do Criador.

Visto o homem ser naturalmente religioso e ao mesmo tempo incapaz de adorar


corretamente o Criador, Deus dignou-se revelar-se à criatura. Doutra maneira ele seria
eternamente o Deus absconditus3 em contraste com o Deus revelatus4.

1
http://ecclesia.com.br/news/2012/?p=9222
2
Vide Confissão de Fé de Westminster, cap.1, § 1º.
3
Uma expressão do latim que significa que Deus está oculto.
4
Uma expressão do latim que significa que Deus se revela.
1. REVELAÇÃO

Revelar quer dizer descobrir o que está escondido. É abrir a mente e o coração e
expressar o que está neles. Esse conteúdo expressado é revelação quando não
era conhecido antes que a abertura ou atividade reveladora acontecesse.
Para resumir, poderia dizer que a revelação se refere ao que é novo ou
desconhecido. Não era conhecido, nem percebido, nem considerado antes que
fosse revelado (GRONINGEN, 2006, pag. 13).

Um dos argumentos apresentados hodiernamente pelos defensores da tolerância


religiosa é que cada religião tem a sua própria verdade. Não obstante, o cristianismo não
cria sua própria verdade, ele a recebe e isso, mediante revelação. Neste sentido,
acertadamente o Dr. J.I. Packer (2004, pág. 15) esclarece que “o cristianismo é a verdadeira
adoração e serviço do verdadeiro Deus, Criador e Redentor da humanidade. É uma religião
firmada na revelação [...]”. Revelação que Deus faz de si mesmo. E quando falamos sobre
a revelação de Deus, partimos da premissa de que Ele existe e que é cognoscível5, ou seja,
que podemos conhecê-lo. Mas, como vimos, o homem jamais conheceria a Deus se este
não se manifestasse. Se Ele mesmo não tomasse a iniciativa ainda estaríamos na
escuridão da ignorância. Mas, como Deus se manifestou aos homens? Que meios usou Ele
para termos ciência de sua existência?

As Sagradas Escrituras nos mostram que Deus se revelou de duas maneiras


bastante especificas, as quais denominamos de Revelação Geral e Revelação Especial.

1.1 REVELAÇÃO GERAL

Por revelação geral, entende-se aquela manifestação, onde Deus torna conhecida
de todos os homens sua existência, poder, atributos e divindade. Isso Ele faz sem distinção
de raça, credo, cor ou nacionalidade, isto é, sem fazer acepção de pessoas. Este conceito
é apresentado claramente nas Escrituras (Salmo 19.1-5; Atos 14.15-17; 17.22-31).

O teólogo holandês, Louis Berkhof (2012, pág. 26) diz que “figuradamente, a
natureza pode ser considerada um grande livro que Deus escreveu, com letras grandes e
pequenas, no qual o homem pode aprender a respeito de sua bondade e sabedoria”.

5
Este termo designa o conceito de que algo ou alguém pode ser conhecido

1
Seguindo na mesma linha de pensamento e partindo do princípio de que Deus
revelou a si mesmo por intermédio de sua criação e ainda que tal revelação é extremamente
clara, João Calvino (2008, pág. 51) afirmou que não podemos “abrir os olhos sem que
sejamos obrigados a contemplá-lo”. Isto porque Deus se manifesta, a princípio, por meio
da revelação geral, a qual espelha a glória do próprio Criador e dele dá testemunho
constante na própria consciência humana, onde sua lei está gravada (Romanos 2.14-16).

Ao longo do tempo, diversos conceitos têm sido elaborados para explicar a maneira
como Deus revela a si mesmo. De maneira a facilitar o entendimento de algumas das
principais proposições apresentadas o Dr. Wayne House (2000, pág. 29), após conceituar
a revelação geral, apresenta um quadro comparativo, onde expõe as disparidades
existentes entre tais correntes teológicas, como exposto a seguir:

Revelação geral é a comunicação de Deus acerca de si mesmo a todas


as pessoas, em todos os tempos e lugares. Ela refere-se à
Definição
automanifestação de Deus por meio da natureza, da história e do ser
interior (consciência) da pessoa humana.

Aquino é um defensor da teologia natural, que afirma ser possível obter


um conhecimento verdadeiro de Deus a partir da natureza, da história
e da personalidade humana, à parte da Bíblia.
Tomás de Toda verdade pertence aos dois reinos. O reino inferior é o reino da
Aquino natureza e é conhecido por meio da razão; O reino superior é o reino
da graça e é aceito com base na autoridade, pela fé. Aquino insistiu
que podia demonstrar pela razão a existência de Deus e a imortalidade
da alma.

A revelação geral fornece o fundamento para a formulação da teologia


natural. A teologia católica romana tem dois níveis:
Teologia Primeiro Nível: A teologia natural é construída com blocos de revelação
Católica geral cimentados pela razão. Inclui as evidências da existência de
Romana Deus e da imortalidade da alma. E insuficiente para um conhecimento
salvador de Deus. A maior parte das pessoas não atinge este primeiro
nível pela razão, mas pela fé.

2
Segundo Nível: Uma teologia revelada é construída com blocos de
revelação especial cimentados pela fé. Inclui a expiação vicária, a
trindade etc. Neste nível a pessoa chega à salvação.

Deus oferece uma revelação objetiva, válida e racional acerca de si


mesmo na natureza, na história e na personalidade humana. Ela pode
ser observada por qualquer pessoa. Calvino tira essa conclusão de
Salmos 19.1-2 e de Romanos 1.19-20. O pecado deturpou as
evidências da revelação geral e o testemunho de Deus ficou
obscurecido. A revelação geral não capacita o descrente a obter um
conhecimento verdadeiro de Deus. Existe a necessidade dos óculos da
fé. Quando alguém é exposto e regenerado por meio da revelação
João Calvino
especial, ele é capacitado a ver claramente o que está na revelação
geral. Mas o que se vê sempre esteve lá de maneira genuína e objetiva.

Seria possível encontrar uma teologia natural em Romanos 1.20, mas


Paulo passa a demonstrar que o ser humano caído empenha-se na
supressão e substituição da verdade. A menção da natureza no Salmo
19 foi feita por um homem piedoso que via essa natureza da
perspectiva da revelação especial.

Barth rejeita a teologia natural e a revelação geral. A revelação é


redentora por natureza. Conhecer a Deus e ter informações correntes
sobre ele é estar relacionado com ele na experiência salvífica.

Os seres humanos são incapazes de conhecer a Deus à parte da


revelação em Cristo. Se as pessoas pudessem obter algum
conhecimento de Deus fora da sua revelação em Jesus Cristo, elas
Karl Barth teriam contribuído de algum modo para a sua salvação. Não existe
revelação fora da Encarnação. Romanos 1.18-32 indica que as
pessoas de fato encontram a Deus no cosmos, mas somente porque
já o conhecem por meio da revelação especial comunicada pelo
Espírito Santo quando se lê a Palavra de Deus.

A Bíblia é apenas um registro da revelação, um indicador da revelação,


dotado de autoridade.

3
Encontramos no reformador francês, João Calvino, a melhor e mais coerente
exposição do que vem a ser a “Revelação geral. Destarte, entendemos que os meios
usados por Deus para tal revelação são a natureza e seus fenômenos naturais e a própria
consciência humana, pois todos em algum momento de sua vida reconhecem haver um Ser
Superior, que sustenta todas as coisas. Este meio de revelação é obtido por meios
cognitivos, isto é, pela razão humana, porém não é suficiente para salvar os pecadores da
condenação eterna (Romanos 1.18-25). Na verdade, a revelação geral se torna testemunha
de acusação contra todos os que se negam a dar ao Senhor a glória que lhe é devida.
Neste sentido, João Calvino (2006, pág. 68), ressalta que o expresso pelo apóstolo Paulo
em Romanos 1.18-25 “não faz mais que nos tornar inescusáveis”. Ademais disto, deixou
claro que somos entorpecidos e cegados pelas vaidades do nosso coração a tal ponto que
não podemos enxergar de forma plena a glória Divina manifesta na criação.

Era esta, indubitavelmente, a ordem genuína: que a estrutura cósmica nos


fosse escola para aprender-se a piedade, donde se fizesse conduto à vida
eterna e à perfeita felicidade. Mas, após a queda, para onde quer que voltemos
os olhos, ocorre por toda parte a maldição de Deus que, enquanto atinge e envolve
com nossa culpa a criaturas inocentes, necessariamente a alma nos esmaga
de desespero (CALVINO, 1985, pág. 105).

Diante do exposto, faz-se necessário reafirmar o fato de que a revelação que Deus
faz de si mesmo na criação não é suficiente para redimir o ser humano de seu estado de
queda, pois a mensagem de Deus manifestada na revelação geral, foi obscurecida pelo
pecado (Romanos 8.18-23). No entanto, este obscurecimento não chega a impedir que os
homens percebam a existência e os atributos do Criador. Conforme ensina o apóstolo Paulo
em Romanos 1.20-23, os homens claramente podem perceber os atributos Divinos nas
coisas criadas, mas preferem seguir as imaginações de seus corações corrompidos e
assim, se tornam indesculpáveis. Logo, como diz o rev. Ronald Hanko:

[...] a revelação geral não fornece outro caminho de salvação. A ideia que os ímpios
podem ser salvos por uma resposta moral a essa revelação geral é totalmente sem
fundamento na Escritura, e é apenas outra forma de salvação pelas obras e de
humanismo religioso (HANKO).6

6
http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/revelacao-geral_dag_r-hanko.pdf

4
Destarte, para que o homem seja salvo, Deus se vale de outro meio de revelação: a
Revelação Especial. Todavia, não devemos entender isso, como uma necessidade do Ser
Divino, senão como uma escolha livre e soberana de sua vontade.

1.2 REVELAÇÃO ESPECIAL

A revelação especial diz respeito à manifestação Divina por meios sobrenaturais,


bem como, mediante mensagens que em tempos passados eram comunicadas através dos
profetas que transmitiam os oráculos Divinos. Não obstante, a revelação de Deus ao
homem se deu de forma progressiva e diversificada. Neste sentido, Stuart Olyott (2012,
pág. 15), afirma que,

Deus nem sempre se revelou do mesmo modo. Às vezes falou em voz audível.
Certa vez, escreveu algo com o próprio dedo. Às vezes usou visões. O mais usual
era que seu Espírito viesse sobre um homem de tal forma que esse humano
conseguiria expressar seus pensamentos em palavras exatamente como Deus
queria. Uma revelação seguiu a outra, mas todas elas foram incompletas.

Tais modos de Deus revelar a si mesmo e a sua vontade eram incompletas porque
todas elas somente apontavam para Cristo, mas não eram a revelação final. Como afirma
F.F. Bruce (apud. KISTEMAKER, 2003, pág. 44), “A história da revelação divina é uma
história de progressão até Cristo, mas não há progressão além dele”. Ou seja, Cristo é a
revelação final da parte de Deus (Hebreus 1.1-2), e sua obra redentora, bem como seus
ensinamentos foram registrados naquela que é a própria Palavra de Deus: a Sagrada
Escritura. Dessa forma, a própria Escritura pode ser considerada como a revelação especial
de Deus. Por conseguinte, a revelação especial, serve, como observa Louis Berkhof (2012,
págs. 30, 31), a um “propósito quadruplo: (a) corrigir e interpretar as verdades que agora
são colhidas da revelação geral; (b) iluminar o homem para que possa outra vez ler o escrito
de Deus na natureza; (c) fornecer ao homem uma revelação do amor redentor de Deus;
(d) mudar toda a sua condição espiritual, redimindo-o do poder do pecado e levando-o de
volta para uma vida de comunhão com Deus”.

O que fica evidente é que a revelação especial tem um caráter soteriológico7. Mas
não apenas isso, ela também serve para manifestar a vontade de Deus ao longo dos

7
Redentor, salvífico

5
séculos. Vejamos, portanto, quais eram esses meios, outrora, usados por Deus na sua
comunicação com os homens, a fim de que estes conhecessem sua vontade.

De modo direto e sobrenatural, por meio do seu Espírito, através de revelação


direta, teofanias, anjos, sonhos, visões, pela inspiração de pessoas escolhidas e
pelo seu próprio Filho, Deus comunicou progressivamente à igreja, no curso dos
séculos, as verdades necessárias à salvação, as quais, de outro modo, seriam
inacessíveis ao homem (ANGLADA, 1998, pág. 29).

Seguem-se algumas definições dos meios de revelação supracitados:

 Urim e Tumim - o sacerdote trazia um peitoral adornado com 12 pedras


preciosas (Êxodo 28.15-28). Tal peitoral tinha um formato de bolsa e dentro
estavam o Urim e o Tumim. Não se sabe ao certo, o que eram o Urim e o
Tumim, embora, acredite-se que eram duas pedras preciosas, mediante as
quais, a vontade de Deus era revelava ao povo escolhido (Números 27.21;
I Samuel 28.6; Esdras 2.63).8

 Sonhos – embora o sonho seja uma experiência bastante comum a todos; por
vezes, era usado por Deus na sua comunicação com os homens,
especialmente com o povo escolhido (Gênesis 20.1-7, 31.11-13; I Reis 3.5).

 Visões – algumas vezes Deus se revelava aos seus servos por meio de
visões (Gênesis 15.1; Números 12.5-6; Isaías 1.1, 6.1; Atos 11.1-14).

 Teofanias – um meio também usado por Deus para comunicar-se com o


homem era a teofania, isto é, uma manifestação visível de Deus. Essas
manifestações eram mormente associadas com a aparição do “Anjo do
Senhor” (Gênesis 16.7-13; Êxodo 3.1-6; Juízes 6.11-16).

 Anjos – em outras oportunidades, Deus enviou anjos para revelarem sua


vontade e/ou transmitir sua mensagem (Daniel 9.20-21; Lucas 2.8-15).

 Profetas – a forma mais comum pela qual Deus falava ao seu povo, eram os
profetas. Estes eram porta-vozes oficiais, sua mensagem provinha
diretamente de Deus e tinha um caráter exortativo e denunciador, pois
delatavam os pecados do povo e falavam de situações correntes em seus

8
Para uma melhor compreensão do uso e significado do Urim e Tumim, consultar a “Enciclopédia da Bíblia”, organizada
por Merryll C. Tenney, referenciado na bibliografia deste pequeno esboço.

6
dias (Esdras 5.1-2; II Crônicas 18.1-7; Jeremias 2.1-9; Oséias 4.1-3). Não
obstante, os profetas também anunciavam mensagens de paz e consolo,
sobretudo, aos arrependidos (Isaías 44.21-28, 54.1-8). Em outros momentos
sua mensagem abrangia a predições do futuro (Deuteronômio 18.15,
cf. Atos 3.17-26; Isaías 61.1-3, cf. Lucas 4.18-21).

Contudo, com o passar do tempo, tais oráculos foram registrados no que ficou
conhecido como Cânon do Antigo Testamento. Com a chegada da plenitude dos
tempos (Gálatas 4.4-5), tal comunicação se deu especialmente por intermédio de Cristo e
posteriormente, mediante os escritos dos apóstolos e outros servos de Deus, formando o
Cânon do Novo Testamento (Efésios 1.1-14). Assim, a revelação especial de Deus para o
homem hodierno é a própria Bíblia. Neste sentido, Louis Berkhof (2012, pág. 30), diz que
“a Bíblia é, por excelência, o livro da revelação especial, uma revelação em que as palavras
e os fatos caminham de mãos dadas”. E essa revelação especial, é assimilada somente
pela fé, de modo a assegurar a salvação aos eleitos de Deus, sendo o meio ordinário, usado
por Deus para chamar os pecadores ao arrependimento e consequentemente à salvação
em Cristo (Romanos 10.8-17). Semelhantemente, como já afirmamos, é ela o instrumento
Divino para revelar sua vontade (João 7.16-24).

É certo que a Escritura não contempla de forma direta e peculiar, todas as situações
que vivemos hodiernamente, pois ela foi escrita para um público específico, num contexto
e época distinta da nossa e trata de questões relacionadas a esse público em particular.
Não obstante, todo seu conteúdo serve para reger, orientar, disciplinar e edificar os crentes
de todas as épocas. Em contraste, o conceito hodierno, inclusive para muitos que se dizem
cristãos, é que a Bíblia é um livro ultrapassado. Todavia, uma rápida análise em seus
registros, nos mostra que ela é tão atual quanto o jornal desta manhã; e porque não dizer
que é mais atualizada do que as notícias que sairão amanhã?

O que se percebe é que as pessoas na verdade, querem viver conforme os conceitos


de seus corações corrompidos e por essa razão não aceitam a revelação que Deus faz de
sua pessoa e de sua vontade. Neste sentido, vivemos dias em que supostas revelações
são apresentadas com o intuito de “manifestar” a vontade de Deus. Pessoas, por vezes
bem-intencionadas e que procuram colaborar com o ensino bíblico por meio de predições
acerca do futuro ou ainda de questões pessoais do povo de Deus, sendo consideradas
como “profetas”. Todavia, ao vislumbrarmos a vida de Jesus, o grande profeta predito por
Moisés (Deuteronômio 18.18; Atos 3.22), percebemos que ele gastou mais tempo

7
ensinando a verdade da Sagrada Escritura e cuidando do povo, que predizendo o futuro. E
mesmo, muitas das mensagens de cunho escatológico, apresentadas no Novo Testamento,
tinham como base o que já havia sido registrado no Antigo Testamento, ou seja, seu
fundamento era a própria Escritura Sagrada, a Palavra de Deus (Salmo 118.22-23,
cf. I Pedro 2.4-10; Isaías 65.17 e 66.22, cf. Apocalipse 21.1; I Tessalonicenses 4.9-18;
II Pedro 3, cf. Salmo 102.26 e Isaías 51.6; II Pedro 1.16-21). Portanto,

A obra do Espírito Santo na experiência pessoal não pode ser desvinculada da


Escritura. O Espírito não fala em formas que independem da Escritura. À parte da
Escritura nunca teríamos conhecido a graça de Deus em Cristo. A Palavra bíblica,
e não a experiência espiritual, é o teste da verdade. Reafirmamos a Escritura
inerrante como fonte única de revelação divina escrita, única para constranger a
consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação
do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado.
Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a
consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou
contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser
veículo de revelação.9

Ademais disto, a prova cabal de que alguém falava da parte de Deus, era o
cumprimento absoluto daquilo que estava sendo predito (cf. Deuteronômio 18.15-22). O
que disso se infere é que cabe ao suposto “profeta”, provar que está sendo usado por Deus
para trazer uma mensagem dele ao seu povo. Diante disso, entendemos que as Sagradas
Escrituras não deixam lugar para supostas novas revelações. É o que claramente expressa
a Confissão de Fé de Westminster (WESTMINSTER, 2001, cap. 1, § 6º):

Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória


dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na
Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se
acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por
tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima
iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas
na Palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo
da Igreja, comum às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas
pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da Palavra,
que sempre devem ser observadas.

9
https://pt.scribd.com/document/35324556/A-Declaracao-de-Cambridge

8
Ao comentar o texto supra, o Dr. Heber Campos Jr. (2013, pág. 69), esclarece que:

De acordo com esse parágrafo, as questões diáforas 10 precisam ser avaliadas “pela
luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da Palavra”. Isto
é, a partir das diretrizes gerais da Escritura, os cristãos tomam decisões pesando
as circunstancias e conforme a sabedoria do alto.

Assim, devemos levar em conta que questões que não são claramente reveladas
nas Sagradas Escrituras, devem ser analisadas à luz de todo o escopo de seus
ensinamentos de forma entendermos adequadamente a vontade de Deus para nós.

Trataremos da questão da inspiração no próximo capítulo. Todavia, é preciso


registrar uma diferença crucial entre “revelação” e “inspiração”, de maneira que não
corramos o risco de confundir ambas. Na opinião daquele que seguramente, foi um dos
maiores teólogos de que se tem conhecimento, o Dr. Charles Hodge (2001, pág. 116),

Elas diferem, primeiramente, quanto a seu objetivo. O objetivo da revelação é a


comunicação do conhecimento. O objetivo ou desígnio da inspiração é assegurar
infalibilidade ao ensino. Por consequência, elas diferem, em segundo lugar, em seus
efeitos. O efeito da revelação era tornar seu receptor sábio. O efeito da inspiração
era preservá-lo de erro na ministração do ensino. Esses dois dons eram amiúde
desfrutados pela mesma pessoa ao mesmo tempo. Ou seja, o Espírito amiúde
comunicava conhecimento e controlava sua comunicação a outros, oralmente ou
por escrito. Isso sem dúvida foi o que ocorreu com os salmistas e amiúde com os
profetas e apóstolos. Entretanto, as revelações em geral eram feitas de uma só vez,
e, subsequentemente, sob a diretriz do Espírito, comunicadas de tempos em tempos
em seus discursos e epístolas. Em muitos casos, esses dons eram separados.
Muitos dos escritores sacros, embora inspirados, não recebiam revelações. Esse foi
provavelmente o caso dos autores dos livros históricos do Antigo Testamento.

10
Diáfora diz respeito a algo que é moralmente neutro. Ex.: a faculdade onde devo estudar, qual carro devo comprar,
onde devo morar, etc. Estas coisas não são certas ou erradas em si mesmas, havendo a necessidade, portanto, do uso
do bom senso.

9
BIBLIOGRAFIA

ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura – A Doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo:
Editora Os Puritanos, 1998.

BERKHOF, Louis. Manual de doutrina cristã. 2ª Edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

BOICE, James M. et al. A Declaração de Cambridge – Os Cinco Solas da Reforma.


Disponível https://pt.scribd.com/document/35324556/A-Declaracao-de-Cambridge. Acesso
em: 13 de novembro de 2018.

CALVINO, João. As institutas. Tomo 1. São Paulo: Editora UNESP, 2008.

CALVINO, João. As institutas. Volume 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.

CALVINO, João. As institutas. Volume 2. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985.

CAMPOS JÚNIOR, Heber Carlos de. Tomando decisões segundo a vontade de Deus. São
Paulo: Editora Fiel, 2013.

GRONINGEN, Gerard Van. O progresso da revelação no Antigo Testamento. São Paulo:


Cultura Cristã, 2006.

HANKO, Ronald. Revelação Geral. Disponível em:


http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/revelacao-geral_dag_r-hanko.pdf. Acesso
em 13 de novembro de 2018.

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. 1ª Edição. São Paulo: Hagnos, 2001.

HOUSE, H. Wayne. Teologia Cristã em Quadros. São Paulo: Editora Vida, 2000.

KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento – Exposição de Hebreus.


1ª Edição São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

MOLTMANN, Jürgen. A terra redimida pela ecoteologia. Disponível em:


http://ecclesia.com.br/news/2012/?p=9222. Acesso em 02 de novembro de 2018.

OLYOTT, Stuart. A carta aos Hebreus bem explicadinha. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

PACKER, J.I. Teologia Concisa. 2ª Edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

TENNEY, MERRILL C. Enciclopédia da Bíblia. 1ª Edição. Volume 5. São Paulo: Cultura


Cristã, 2008.
2. A SAGRADA ESCRITURA

Sendo a Sagrada Escritura o instrumento pelo qual podemos conhecer a Deus e, por
conseguinte a expressão máxima de sua vontade; sendo ainda, o meio pelo qual ele,
ordinariamente, chama pecadores ao arrependimento, podemos dizer que este Livro
Sagrado, ao qual damos o nome de Bíblia, é incomparável, pois por seu intermédio temos
nossas vidas transformadas. Assim sendo, o Dr. Norman Geisler (1997, pág. 6), afirma
acertadamente que a “Bíblia é um livro singular. Trata-se de um dos livros mais antigos do
mundo e, no entanto, ainda é o best-seller mundial por excelência”. Essa afirmação feita
pelo Dr. Geisler é uma verdade que ultrapassa os limites do tempo e do espaço, pois
nenhum livro na história da humanidade foi tão lido e de forma efetiva, mudou tantas vidas
como a Bíblia. Todavia, como diz o Ms. Pedro Cordeiro (CORDEIRO, 2008, pág. 1):
“A nomenclatura ‘Bíblia’ não se encontra na Bíblia. Este termo vem de uma palavra grega
que, no singular é Biblion (livro), e no plural é Bíblia, que vem a ser uma biblioteca, uma
coleção de livros”. Na mesma linha, segue o Dr. J.I. Packer (1994, pág. 28) quando afirma
que “Bíblia não é um vocábulo bíblico. O Novo Testamento (ao referir-se, obviamente, ao
Antigo Testamento) faz alusão à Escritura ou às Escrituras. O termo grego é graph𝑒̅ ,11 que
significa escrita”. O Dr. Packer observa ainda que...

[...] “o conceito de Escritura que Cristo, os apóstolos, os profetas e os salmistas


ensinavam era o de escritos que continham instruções autoritativas, aos quais
podemos apropriadamente nos referir como palavra, palavras, estatutos, preceitos,
testemunhos e mandamentos de Deus, conforme se verifica no Salmo 119. 12

Mas, o que realmente importa é que independente da nomenclatura adotada, a


Sagrada Escritura continuará sendo sempre a Palavra de Deus, única regra de fé e prática
para todo aquele que ama ao Senhor. É ela, fonte de alimento espiritual para o povo de
Deus. Suas páginas estão repletas de lições que fazem dela um livro ímpar, inigualável, um
livro sui generis13. Por isso, no século XVI, o primeiro e basilar lema da Reforma foi o Sola
Scriptura14.

11
Esta é a forma transliterada da expressão grega γραφή, utilizada no Novo Testamento
12
Ibidem
13
Um termo latino que significa: único; que não se parece com nenhum outro
14
Somente a Escritura

11
2.1 A IMPORTÂNCIA DAS ESCRITURAS

Um grave problema percebido na igreja contemporânea é a forma como as


Escrituras são vistas, pois para muitos, suas experiências místicas e/ou religiosas são quem
dão o tom do que deve ser considerado preceptivo ou normativo e do que deve ser recebido
como texto histórico, poético, narrativo, etc. Diante destas proposições, surge a questão:
Por que a Bíblia é tão importante?

A Confissão de Fé de Westminster (WESTMINSTER, 2001, cap. 1, § 2º) nos dá a


resposta, ao afirmar que “sob o nome de Escritura Sagrada, ou Palavra de Deus escrita,
incluem-se agora todos os livros do Antigo e do Novo Testamentos, todos dados por
inspiração de Deus para serem regra de fé e prática”. Ou seja, seu valor emana de sua
fonte, o próprio Deus.

Note que a Confissão de Fé de Westminster inicia sua proposição com a afirmação


de que os livros do Antigo e do Novo Testamento são a Palavra de Deus; e de fato o são.
No entanto, o são, não por uma mera convenção humana, que em algum momento da
história definiu que assim o seria, mas porquê foi, como indica a própria Confissão de Fé,
inspirada por Deus. Ou seja, as Sagradas Escrituras não foram escritas por iniciativa
humana, mas como afirmou Benjamin Warfield (apud. BERKHOF, 2013, pag. 34), seus
escritores foram: “movidos pela iniciativa Divina e conduzidos pelo poder irresistível do
Espírito de Deus pelos meios por ele escolhidos para os propósitos por ele estabelecidos”.
Isto implica em dizer que ela pode e deve reger, não apenas a nossa fé, mas igualmente
nosso estilo de vida.

Devemos levar em conta ainda, que ninguém menos que o próprio Senhor Jesus
Cristo corroborou os ensinamentos e preceitos do Antigo Testamento, reconhecendo sua
autoridade (Mateus 4.4/Deuteronômio 8.3, Mateus 4.7/Deuteronômio 6.16, Mateus 22.29;
Lucas 24.25-32; João 5.39). Igualmente, os escritores do Novo Testamento usaram
os Escritos Sagrados do Antigo Testamento, reconhecendo sua autoridade e
considerando-os provenientes do próprio Deus (Hebreus 4.4/Gênesis 2.2/Êxodo 20.8-11;
Tiago 2.11/Êxodo 20.14; II Timóteo 3.14-17; II Pedro 1.20-21).

O Novo Testamento traz consigo a mesma autoridade que o Antigo, pois sua fonte
é a mesma: Deus (Atos 15.22-32; I Coríntios 2.4-13, 14.37; Gálatas 3.8-9; Efésios 2.19-22;
II Pedro 3.14-16; I Tessalonicenses 2.13). Por essa razão, os crentes da igreja cristã
nascente foram exortados a lerem e estudarem os escritos apostólicos publicamente, como

12
costumeiramente faziam com os escritos do Antigo Testamento (Colossenses 4.16;
I Tessalonicenses 5.27; I Timóteo 4.13; Apocalipse 1.3).

Diante do exposto e para melhor aproveitamento das informações supracitadas,


analisemos duas questões de crucial importância para nossa aceitação e submissão às
Escrituras Sagradas e que são apresentadas no primeiro capítulo da Confissão de Fé de
Westminster: Inspiração e Canonicidade (regra de fé e prática).

2.1.1 Inspiração

Não é raro ouvirmos as pessoas afirmarem que a Bíblia é um livro feito por homens
e não merece atenção. Infelizmente, tal conceituação é crescente e cada dia mais cristãos
aderem a essa teoria. Portanto, devemos considerar em nossa análise sobre a importância
da Sagrada Escritura sua inspiração; porque sem esta, ela perde completamente seu valor,
tornando-se um livro comum, como outro qualquer. Mas, antes de prosseguirmos numa
definição do que é inspiração, precisamos saber o que ela não é. Vejamos, portanto, alguns
conceitos errôneos acerca da inspiração:

 Teoria da inspiração mecânica – de acordo com tal teoria, Deus teria ditado
palavra por palavra aos escritores bíblicos, usando-os de forma mecânica,
anulando suas personalidades.

Analisemos, portanto, a questão. Se realmente Deus houvesse ditado as palavras a


serem registradas, anulando a personalidade dos escritores, porque então, Lucas entendeu
ser necessário fazer uma investigação acurada dos fatos, antes de escrever seu Evangelho,
que aliás, era endereçado a alguém específico? (Lucas 1.1-4), e ainda, porque Salomão
precisou considerar e investigar antes de compor seus provérbios? (Eclesiastes 12.9-10).

Esta teoria vai de encontro às Escrituras, que nos mostram que seus escritores
redigiram conforme o conhecimento que tinham das coisas (II Pedro 3.14-16); acerca disto,
trataremos adiante, quando falarmos sobre a instrumentalidade humana.

 Teoria da iluminação – esta teoria foca na suposta habilidade humana de


conhecer a Deus e suas verdades de forma natural.

Segundo este conceito o homem recebe uma aptidão especial ou mesmo um


estímulo sobrenatural por parte do Espírito Santo sobre sua capacidade natural
tornando-o apto a escrever acerca das verdades Divinas, isto é, não ocorre nenhuma forma

13
de revelação por parte de Deus, apenas uma intensificação das verdades já captadas pelo
próprio ser humano ao longo de sua vida.

 Teoria da Intuição – para os adeptos deste pensamento, os escritores bíblicos


apreenderam verdades espirituais e decidiram registrá-las.

Para a teoria da intuição, os profetas, apóstolos e demais escritores bíblicos apenas


tinham talentos mais apurados que outras pessoas, assim como acontece na música, dança
e demais artes. Para eles a inspiração bíblica não é sobrenatural, sendo os escritos bíblicos
obras literárias comparáveis às de Shakespeare, Agatha Christie, Paulo Coelho, etc.
Destarte, para que possamos entender o que é inspiração, temos que a princípio atentar
para o fato de que Deus é o supremo autor das Escrituras. Não obstante, ele se valeu de
homens comuns para o registro de sua vontade, suas obras e seus decretos. Assim temos:

A. A autoria Divina

Do lado divino as Escrituras são a Palavra de Deus no sentido de que tem nele sua
origem, sendo expressão exata e inequívoca de sua mente e vontade. Neste sentido, o
Catecismo Maior de Westminster, na pergunta nº 4, “como se demonstra que as Escrituras
são a Palavra de Deus?”, assevera:

Demonstra-se que as Escrituras são a Palavra de Deus - pela majestade e pureza


do seu conteúdo, pela harmonia de todas as suas partes, e pelo propósito do seu
conjunto, que é dar toda a glória a Deus; pela sua luz e pelo poder que possuem
para convencer e converter os pecadores e para edificar e confortar os crentes para
a salvação. O Espírito de Deus, porém, dando testemunho, pelas Escrituras e
juntamente com elas no coração do homem, é o único capaz de completamente
persuadi-lo de que elas são realmente a Palavra de Deus.

A própria Escritura dá testemunho de sua procedência Divina. Em II Samuel 23.1-3,


encontramos indícios da inspiração dos Salmos compostos por Davi. Nos Escritos dos
profetas, percebemos que por diversas vezes, eles falam requerendo a autoridade Divina
para seus oráculos (Isaías 28.16; Joel 2.12; Miquéias 3.5, etc.). Tais mensagens proféticas,
foram posteriormente registradas para ser um memorial e testemunho ao povo como expõe
o Dr. F.F. Bruce (1998, pág. 82):

A razão de Moisés e os profetas registrarem por escrito a mensagem de Deus,


não se contentando apenas em entregá-la oralmente, era que às vezes a

14
enviavam a outros lugares (Jr 29.1; 36.1-8; 51.60,61; 2 Cr 21.12). Mas, na
maioria das vezes, era para preservá-la para o futuro, como um memorial (Êx 17.14)
ou uma testemunha (Dt 31.24-26), a fim de que ficasse escrita para o
tempo vindouro (Is 30.8).

Quando voltamos nossa atenção para o Novo testamento, percebemos que em


II Timóteo 3.16, encontramos de forma mais clara a referência da autoria Divina: “Toda
Escritura é divinamente inspirada" (θεόπνευστος – soprada ou expirada por Deus)15. A
referência aqui é ao que foi registrado, ou seja, ao escrito. Contudo, conforme afirma o
Dr. Hermisten Maia (2008, pág. 76),

A bíblia fornece argumentos racionais que demonstram a sua inspiração


e inerrância, todavia, os homens só poderão ter essa convicção mediante
o testemunho interno do Espírito Santo (Salmo 119.18). Os discípulos de
Cristo só entenderam as Escrituras quando o próprio Jesus lhes abriu o
entendimento (Lucas 24.45). A Escritura autentica-se a si mesma e nós a
recebemos pelo Espírito.

Sem a iluminação do Espírito Santo, o homem jamais aceitará a inspiração e


autoridade das Escrituras, pois seu entendimento para as coisas de Deus é nulo. O apóstolo
Paulo escrevendo aos Coríntios, afirma que “o homem natural não aceita as coisas do
Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se
discernem espiritualmente” (I Coríntios 2.14).

B. A instrumentalidade humana

Do lado humano, certos homens foram escolhidos por Deus para receber sua
Palavra e passá-la à forma escrita. Em II Pedro 1.21, encontramos a referência aos
homens: “Homens santos de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo” (φέρω – movidos
ou conduzidos). A referência aqui é ao escritor e não ao escrito. Contudo, o ser humano foi
apenas instrumento nas mãos do seu Criador. Deus não só é o autor supremo das
Sagradas Escrituras, mas também é Aquele que inspira homens para escrevê-las com
exatidão. Neste sentido, o Dr. Hermisten Maia (2008, pág. 66), pondera que,

15
Isso significa que Deus soprou a sua Palavra para dentro de homens, por ele escolhidos, e ao recebê-la em seu coração
e transcrevendo-a, eles registraram o caráter, os pensamentos, sentimentos, a vontade de Deus; bem como seu
soberano plano da salvação, arquitetado desde os tempos eternos.

15
Podemos definir a inspiração como sendo a influência sobrenatural do Espírito de
Deus sobre os homens separados por ele mesmo, a fim de registrarem de forma
inerrante e suficiente toda a vontade de Deus, constituindo esse registro na única
fonte e norma de todo conhecimento cristão.

Expomos ainda a opinião do Dr. Gerard Van Groningen, que foi um dos grandes
defensores da Teologia Reformada nos séculos XX e XXI:

O Espírito Santo habitou em certos homens, inspirou-os, e assim dirigiu-os, que


eles, em plena consciência, expressam-se na sua singular maneira pessoal. O
Espírito capacitou homens a conhecer e expressar a verdade de Deus. Ele
impediu-os de incluir qualquer coisa que fosse contrária a essa verdade de Deus.
Ele também impediu-os de escrever coisas verdadeiras que não eram necessárias.
Assim, homens escreveram como homens, mas, ao mesmo tempo, comunicaram a
mensagem de Deus, não a do homem (apud. COSTA, 2008, págs. 66-67).

Contudo, é preciso lembrar que, como diz William Lasor (1999, pág. 648):

O conceito é emprestado do próprio Antigo Testamento, em que a profecia


pré-exílica é descrita da seguinte maneira: “ ... as palavras que o Senhor
dos Exércitos enviara pelo seu Espírito, mediante os profetas que nos
precederam” (Zc 7.12); em outro trecho, Deus é designado em oração como
aquele que testemunhou contra eles [Israel] pelo seu Espírito, por intermédio
dos seus profetas (Ne 9.30). Às vezes, os próprios profetas pré-exílicos
descreveram seu ministério desse modo. Essa inspiração é a operação do Espírito
pela qual os profetas eram capacitados para proferir a palavra de Deus. A palavra
era o conteúdo de suas mensagens, enquanto o Espírito de Deus era o poder
transcendente que os capacitava a apreendê-la e proclamá-la. Este é sem dúvida
um modelo profético de inspiração. Os profetas tinham consciência bem clara de
que estavam transmitindo mensagens emanadas de Deus.

Assim, quando falamos em inspiração queremos dizer que: Inspiração é a


intervenção Divina na vida de homens comuns, dentre os quais encontramos pastores de
ovelhas, eruditos, reis, pescadores, um médico, um publicano, um zelote e até um fariseu,
sem qualquer prerrogativa a seu favor, capacitando-os a receber e registrar a mensagem
Divina, com absoluta exatidão. Sendo impedidos pelo próprio Autor de cometerem erros e
omissões. Por conseguinte, seus escritos levam consigo a autoridade Daquele que os
inspirou. Tal influência Divina ocorreu de tal modo que a verdade fosse transmitida não

16
apenas de forma exata, mas também, de maneira inteligível aos homens, transmitindo-lhes
todo o preceito Divino (II Timóteo 3.16; II Pedro 1.20,21). Destarte, João Calvino (2009,
pág. 263), observa que “o mesmo Espírito que deu certeza a Moisés e aos profetas de sua
vocação, também agora testifica aos nossos corações de que ele tem feito uso deles como
ministros através de quem somos instruídos”. Diz ele ainda que “a Escritura é a escola do
Espírito Santo, na qual nem se deixou de colocar coisa alguma necessária e útil de
conhecer, tampouco se ensina mais do que é preciso saber” (apud. Costa, 2008, pág. 75).

2.1.1.1 Elementos característicos da inspiração

Qual a razão de entendermos a inspiração conforme conceituada acima? A razão é


simples: entendemos que ela foi plenária, dinâmica, verbal e sobrenatural.

a) Plenária – como afirmamos anteriormente, Deus é o Supremo Autor das Escrituras.


Assim sendo, tudo o que foi registrado, o foi por sua soberana vontade. Atestam tal
verdade os textos de II Timóteo 3.16 e II Pedro 1.20-21. Logo, entendemos que as
Escrituras foram plenamente inspiradas por Deus e não apenas algumas partes.

b) Dinâmica – não obstante ser Deus o Supremo Autor das Escrituras, ele se serviu da
instrumentalidade humana para a realização de seus propósitos. Contudo, Deus não
nulificou a personalidade dos que para este fim foram reservados, antes os usou
como organismos vivos no registro de Sua vontade. Isto fica evidente nos registros
de vários escritores bíblicos. Vejamos alguns:

 Davi – este servo de Deus era um guerreiro nato, homem valente e temente
a Deus, mas era também um musico talentoso (I Samuel 16.18, 22-23). Dessa
forma, quando compõe seus Salmos, Davi está expressando o talento pessoal
dado por Deus, ao passo que também manifesta, em seus escritos, a
revelação Divina; a exemplo dos Salmos 22 e 145.

 Isaías – conforme a tradição judaica, Isaías pertencia à nobreza de seus dias.


Especula-se que seria primo do rei Uzias. E em seus escritos transparece
uma forma poética e erudita de escrever. Basta analisarmos como ele expõe
seu chamado (Isaías 6.1-8), bem como sua profecia acerca do Messias
vindouro (Isaías 9.1-2,6) para que isso fique claro.

17
 Paulo – nos escritos do apóstolo Paulo, especialmente em Romanos e
Gálatas, destaca-se seu conhecimento da Lei e isto não é por acaso. Paulo
foi, antes de sua conversão ao cristianismo, um proeminente doutor da Lei,
um fariseu preparado aos pés de um dos mais conceituados mestres
farisaicos de Israel (Atos 5.34; Atos 22.23; Filipenses 3.4-7). Isto, afora seu
conhecimento da filosofia grega e da cultura geral (cf. Atos 17.28).

c) Verbal – entendemos que a inspiração também foi verbal, pois foi por meio de
palavras que Deus revelou sua vontade e tornou claro o plano da salvação (II Samuel
23.2; Jeremias 1.9; Mateus 5.18; I Coríntios 2.13), assim como sua vontade nas mais
diversas circunstâncias (Gênesis 12.1-3; Êxodo 3.7-10; I Samuel 16.7).

d) Sobrenatural – Ao passo que ela foi verbal, foi também sobrenatural, pois não
aconteceu, como acontecem as supostas inspirações musicais e poéticas dos mais
diversos artistas; não faz parte da mera sensibilidade humana acerca das coisas
desta vida. Sua origem está em Deus (João 17.17; Romanos 10.17, I Pedro 1.23).

Diante do exposto, como diz João Calvino (2009, pág. 263): “devemos à Escritura a
mesma reverência devida a Deus, já que ela tem n’Ele sua única fonte, e não existe
nenhuma origem humana misturada nela”. Somente por serem inspirados os Escritos
Sagrados são considerados ou recebidos como canônicos, ou seja, da sua inspiração
depende, de forma absoluta, sua canonicidade.

2.1.1.2 Canonicidade

Por canonicidade das Escrituras queremos dizer que, de acordo com padrões
determinados e invariáveis, os livros incluídos nas Escrituras são considerados parte
integrante de uma revelação Divina completa, sendo, portanto, determinantes no que se
refere à fé e à prática cristã.

O termo canonicidade deriva do vocábulo cânon, que por sua vez procede do grego
Kanõn (κανών) e traz consigo a ideia de uma regra ou norma que deve ser seguida e
obedecida (cf. Gálatas 6.16). Não obstante, sua origem é semítica, provinda do hebraico
Qâneh (‫ )קָ נֶה‬e apontava inicialmente para uma vara de medição (Ezequiel 40.3). Isto porque
ao longo do tempo, tal expressão tomou outros sentidos, como por exemplo: regra, na
gramática; tabelas, listas, datas e números quando o assunto era a matemática; pauta, em
18
se tratando de arte; haste, na arquitetura; ou ainda, uma lista de obras escritas, quando o
assunto em pauta era literatura16. Dessa forma, quando falamos no Cânon das Escrituras,
fazemos alusão a um conjunto de livros inspirados por Deus e que são regra ou norma de
conduta e fé, autoritativa em todas as áreas da vida cristã. Ainda sobre este assunto, dois
aspectos que precisamos levar em conta e que estão interligados são o ativo e o passivo.

Por aspecto ativo, fazemos menção ao fato de que as Escrituras são o cânon (regra,
norma, padrão) pelo qual todas as coisas são julgadas e consideradas boas ou más;
inclusive nossas obras, pensamentos e intenções. Por outro lado, no que tange ao aspecto
passivo, fazemos referência ao padrão pelo qual, os escritos dos profetas e dos demais
escritores bíblicos deveriam ser julgados. Até porquê havia em Israel uma já extensa
publicação de literatura que era utilizada pelo povo. Alguns exemplos pertinentes são:
Números 21.14; Josué 10.13; I Reis 11.41; I Crônicas 29.29; II Crônicas 13.22. Outros
casos relacionados nas Escrituras, são: Isaías 30.8; Jeremias 30.2, 36.1-4. Tais escritos
eram lidos e estudados pelo povo de Deus e muitos deles foram reconhecidos como
inspirados e passaram a fazer parte do cânon Veterotestamentário17.

Mormente, quando falamos em cânon Bíblico, tratamos de duas coleções de livros


que compõem o Antigo e o Novo Testamento.

A. Antigo Testamento

Não foi Moisés, nem mesmo os profetas e ainda menos os líderes religiosos de
Israel (fariseus, escribas, saduceus, etc.) que determinaram quais livros deveriam fazer
parte do cânon do Antigo Testamento. Eles foram reconhecidos pelo próprio povo como
tendo autoridade Divina em seus escritos. Neste sentido, uma narrativa de extraordinária
beleza está registrada em II Crônicas 34, quando o rei Josias toma conhecimento de que o
“Livro da Lei do Senhor” (vers. 14) havia sido encontrado e com base em seus registros e
preceitos, ele promove uma grande reforma espiritual no seu reino (cf. II Crônicas 34 e 35).

Por outro lado, o famoso historiador judeu, Flávio Josefo, ressalta que,

Esdras se preocupava de modo particular com os livros sagrados. Ele é


chamado de “o escriba” (Ne. 8.1,4,9,13; 12.26,36), “escriba versado na lei de

16
Conceituação feita pelo Dr. Hermisten Maia em seu livro: A Inspiração e Inerrância das Escrituras, pag. 18.
17
Relativo ao Antigo Testamento.

19
Moisés” (Esdras 7.6), e “o escriba das palavras e mandamentos e dos estatutos
do Senhor sobre Israel” (Esdras 7.11); a natureza da época de Esdras era tal que
a seleção dos livros sagrados pode ter sido apropriadamente feita no seu
decorrer. Após o Exílio, o povo estava fundando de novo as instituições religiosas
da nação. O que poderia ser mais natural do que reunir os volumes da
biblioteca sacra? (apud. THIESSEN, 1989, pag.63).

O que se infere das palavras de Josefo é que já havia uma coleção de livros
considerados sagrados pelo povo de Deus, quando de seu retorno do exilio babilônico.
Nesta linha de pensamento F.F. Bruce (1998, pág. 81) expressa que,

Encontramos na história de Israel certos escritos reconhecidos como autoridade


divina e como regra escrita de fé e conduta para o povo de Deus. Identificamos isso
na resposta do povo, quando Moisés leu para eles o livro do concerto (Êx 24.7), ou
quando o Livro da Lei, achado por Hilquias, foi lido primeiro para o rei e depois para
a congregação (2 Rs 22—23; 2 Cr 34), ou ainda quando Esdras leu o Livro da Lei
para o povo (Ne 8.9,14-17; 10.28-39; 13.1-3).

Bruce destaca ainda, conforme citado anteriormente, que:

A razão de Moisés e os profetas registrarem por escrito a mensagem de Deus,


não se contentando apenas em entregá-la oralmente, era que às vezes a
enviavam a outros lugares (Jr 29.1; 36.1-8; 51.60,61; 2 Cr 21.12). Mas, na
maioria das vezes, era para preservá-la para o futuro, como um memorial (Êx 17.14)
ou uma testemunha (Dt 31.24-26), a fim de que ficasse escrita para o
tempo vindouro (Is 30.8).18

Não sabemos exatamente quais os critérios utilizados pelos judeus na formação do


cânon do Antigo Testamento. Todavia, entendemos que o processo de canonização de tais
livros se deu pela iluminação19 e orientação do Espírito Santo, levando não apenas o povo,
mas especialmente seus líderes religiosos a aceitarem a inspiração, autenticidade e
autoridade dos mesmos. Ademais disto, aceitamos, e não poderia ser diferente, a opinião
expressa por Jesus e pelos apóstolos acerca dos livros que compõem o Cânon
Veterotestamentário (cf. Mateus 22.29; Lucas 24.25-32; João 5.39; II Timóteo 3.16-17 e
II Pedro 1.20-21). Assim, como diz Gleason L. Archer Jr. (2012, pág. 85),

18
Ibidem
19
Trataremos deste assunto adiante

20
O único verdadeiro teste de canonicidade que permanece de pé é o testemunho de
Deus, o Espírito Santo, à autoridade da sua própria Palavra. Esse testemunho
provoca uma resposta de reconhecimento, fé e submissão no coração do povo de
Deus que andava com ele na comunhão da aliança.

A pergunta que talvez, alguém possa fazer é: porque os judeus que estabeleceram
o cânon do Antigo Testamento e não outros povos? A resposta a esta indagação é que os
judeus não estabeleceram o cânon, antes reconheceram como sagrados, livros, profecias
e outros escritos dados por Deus ao seu povo. Ademais disto, os judeus foram o povo com
quem Deus fez sua aliança e a quem ele revelou de forma verbal e escrita sua vontade.
Assim, o apóstolo Paulo, com propriedade afirma que aos “judeus foram confiados os
oráculos de Deus” (Romanos 3.2).

B. Novo Testamento

Conquanto não tenhamos muitas informações acerca do cânon do Antigo


Testamento; na formação canônica do Novo Testamento os padrões eram claros e
objetivos, visto que para que um livro ou escrito fosse recebido como canônico, deveria
apresentar algumas características bastante distintas:

a) Ter sido escrito por um dos doze apóstolos, ou alguém que tivesse convivido com
eles (p. ex. Lucas e Marcos);

b) A aceitação de sua autoridade, bem como sua utilização pela igreja como preceitos
normativos (cf. I Tessalonicenses 2.13);

c) Coerência doutrinária. Tais escritos deveriam estar de acordo com revelações dadas
por Deus em tempos anteriores (cf. Efésios 1.22, Salmo 8.6);

d) Inspiração.

A essa altura faz-se necessário destacar que os escritos bíblicos não passaram a
fazer parte do cânon, mediante o consenso de uma igreja institucionalizada, senão que sua
inspiração e autoridade foram reconhecidas naturalmente pela da igreja cristã ao longo dos
séculos. Assim, após uma análise e aprovação criteriosa, tornaram-se regra de fé e prática
para os servos de Deus, conforme expressa Merryl C. Tenney (apud. COSTA, 2008,
pág. 27): “O cânon, portanto, não é produto do critério arbitrário de qualquer pessoa, nem

21
foi determinado por voto conciliar. Resultou do emprego dos vários escritos que provavam
seu mérito e a sua unidade pelo seu dinamismo interno”. Outrossim, como afirma F.F. Bruce
(apud. COSTA, 2008, págs. 26, 27):

Os livros do Novo Testamento não se fizeram possuídos de autoridade para a Igreja


pelo fato de virem a ser formalmente incluídos em uma lista canônica; pelo contrário,
a Igreja incluiu-os no cânon porque já os havia por divinamente inspirados,
reconhecendo-lhes o valor inato e a autoridade apostólica, direta ou indireta

Devemos considerar, ainda, o fato de que a inspiração é de onde advém a autoridade


das Escrituras e a canonização é o meio pelo qual ela é aceita pelo povo de Deus.

2.1.1.3 Cânon hebraico x cânon cristão

Um ponto de fundamental importância, é a disparidade existente entre o cânon


hebraico e o cânon cristão. Diferença essa que não está relacionada ao conteúdo dos
mesmos, senão na quantidade de livros que foram inseridos nos cânones referenciados.
Mas, antes de fazermos juízo de valor, devemos tentar compreender tais disparidades,
sabendo antecipadamente, que tais diferenças não influem na relevância e legitimidade de
qualquer dos cânones.

Ao falar sobre os livros considerados Divinos e que compõem o cânon hebraico,


Flávio Josefo (2004), assevera:

Não temos, pois, receio de ver entre nós um grande número de livros que se
contradizem. Temos somente vinte e dois que compreendem tudo o que se passou,
e que se referem a nós, desde o começo do mundo até agora, e aos quais somos
obrigados a prestar fé. Cinco são de Moisés, que refere tudo o que aconteceu até
sua morte, durante perto de três mil anos e a sequência dos descendentes de Adão.
Os profetas que sucederam a esse admirável legislador escreveram, em treze
outros livros, tudo o que se passou depois de sua morte até o reinado de
Artaxerxes, filho de Xerxes, rei dos persas, e os quatro outros livros contêm hinos e
cânticos feitos em louvor de Deus e preceitos para os costumes. Escreveu-se
também tudo o que se passou desde Artaxerxes até os nossos dias, mas como não
se teve, como antes, uma sequência de profetas não se lhes dá o mesmo crédito,
que aos outros livros, de que acabo de falar e pelos quais temos tal respeito, que
ninguém jamais foi tão atrevido para tentar tirar ou acrescentar, ou mesmo
modificar-lhes a mínima coisa. Nós os consideramos como divinos, chamamo-los

22
assim; fazemos profissão de observá-los inviolavelmente e morrer com alegria, se
for necessário, para prová-lo.

O que devemos levar em conta nas palavras de Josefo é o fato de que os judeus
não reconhecem os escritos do Novo Testamento como inspirados, pois não veem Jesus
como o Messias prometido. Destarte, os únicos escritos que consideram sagrados são os
livros que compõem o Antigo Testamento. Mesmo assim, ainda permanece certa
discrepância no número de livros apresentados nos cânones supracitados, visto que como
afirma o historiador judeu, os livros do cânon judaico (Antigo Testamento) são vinte e dois
e os adotados no cânon cristão protestante somam trinta e nove, tratando-se apenas do
Antigo Testamento.

A questão que disto surge é: como pode haver contraste entre ambos os cânones
apresentados se o cânon cristão procede do cânon judeu? A resposta para essa indagação
é encontrada na forma como os livros que compõem tais cânones foram catalogados.

No cânon hebraico I e II Samuel formam apenas um livro; o mesmo ocorre com I e


II Reis; I e II Crônicas; Juízes e Rute; Jeremias e Lamentações; Esdras e Neemias. De
modo semelhante, os profetas menores, formam apenas um livro.

O Dr. Paulo Anglada (1998, pág. 35) aponta para divisão geral do cânon hebraico:

 O Pentateuco (Torá): Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio.

 Os Profetas (Neviim):

 Anteriores: Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis.

 Posteriores: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Profetas Menores.

 Os Escritos (Kêtuvim): Poesia e Sabedoria: Salmos, Provérbios e Jó.

 Rolos ou Megilloth (lidos no ano litúrgico): Cantares (na páscoa), Rute (no
pentecostes), Lamentações (no quinto mês), Eclesiastes (na festa dos
tabernáculos) e Ester (na festa de purim).

 Históricos: Daniel, Esdras, Neemias e 1 e 2 Crônicas.

Distintamente, o cânon protestante faz separação destes livros sem, contudo, tocar
em seu conteúdo. Ou seja, divide Samuel em dois livros: I e II Samuel. O mesmo acontece
com o livro dos Reis e o livro das Crônicas; separa ainda os livros de Esdras e Neemias;
Juízes e Rute; Jeremias e Lamentações como sendo distintos. Seguindo dessa forma o

23
padrão estabelecido na Septuaginta20. Não obstante, o conteúdo destes livros permanece
inalterado e intocável, pois são recebidos com Palavra de Deus e esta não pode ser
manipulada pelo homem.

Em contraste, o cânon católico-romano traz em seu arcabouço os mesmos livros


adotados nos cânones apresentados, acrescentando outros sete, além de adições feitas a
Ester e Daniel. Tais acréscimos são considerados apócrifos21.

20
Versão grega do Antigo Testamento
21
Trataremos sobre este assunto no próximo capítulo

24
BIBLIOGRAFIA

__________________ A Confissão de Fé de Westminster. 17ª Edição. São Paulo: Cultura


Cristã, 2001.

__________________ O Catecismo Maior de Westminster. 15ª Edição. São Paulo: Cultura


Cristã, 2013.

ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura – A Doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo:
Editora Os Puritanos, 1998.

ARCHER JR., Gleason L. Panorama do Antigo Testamento. 4ª Edição. São Paulo: Editora
Vida Nova, 2012.

BERKHOF, Louis. Princípios de interpretação Bíblica. 4ª Edição. São Paulo: Cultura


Cristã, 2013.

BRUCE, F.F. et al. A origem da Bíblia. 1ª Edição. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.

CALVINO, João. Pastorais. São Paulo: Editora Fiel, 2009.

CORDEIRO, Pedro. Apostila de Bibliologia. João Pessoa, 2009.

COSTA, Hermisten Maia Pereira da. A Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo:
Cultura Cristã, 2008.

GEILSER, Norman L.; NIX, William E. Introdução Bíblica - Como a Bíblia chegou até nós.
São Paulo: Editora Vida, 1997.

JOSEFO, Flávio. História dos hebreus – De Abraão à queda de Jerusalém. 8ª Edição. Rio
de Janeiro: CPAD, 2004.

LASOR, William. Introdução ao Antigo Testamento. 1ª Edição. São Paulo: Vida Nova, 1999.

PACKER, J.I. Vocábulos de Deus. 1ª Edição. São Paulo: Editora Fiel, 1994.

THIESSEN, Henry Clarence. Palestras Introdutórias à Teologia Sistemática. São Paulo:


Imprensa Batista Regular do Brasil, 1989.
3. LIVROS APÓCRIFOS

Alguns livros constantes no cânon católico-romano, não constam no cânon judaico


adotado pelas igrejas protestantes, pois são considerados apócrifos.

Apalavra “apócrifa” foi usada originalmente como um termo literário referindo-se aos
livros que não eram apropriados para leitura pública por causa de seu conteúdo
esotérico. Sentia-se que as doutrinas secretas contidas nesses livros poderiam
perder sua autoridade se fossem profanadas pelo olhar atento por parte das
pessoas comuns, numa atitude particularmente adotada entre os gnósticos gregos.
Depois do ano 70 d.C., as obras apocalípticas caíram em desagrado dentro do
Judaísmo, e o termo “apócrifa” tornou-se igualmente depreciado (TENNEY, 2008,
pág. 372).

A Confissão de Fé de Westminster (2011, Capítulo 1, §3º), por sua vez, ressalta que:

Os livros geralmente chamados apócrifos, não sendo de inspiração divina, não


fazem parte do cânon da Escritura; não são, portanto, de autoridade na Igreja de
Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como
escritos humanos.

O termo apócrifo significa: oculto. Assim, os livros apócrifos sugerem trazer à luz
verdades que estavam ocultas. Assim, por livros apócrifos nos referimos a uma coleção de
livros que foram incluídos na Bíblia Católica-romana e na Bíblia da Igreja Ortodoxa, além
de outro tanto que foi rejeitado, tanto pelos cristãos protestantes, como pelos católicos
romanos e os ortodoxos. Os escritos apócrifos são inúmeros e formam um total de cerca
de 250 livros. Os mais conhecidos são os que constam no cânon católico e no cânon
ortodoxo, conforme se segue: Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruc,
A Epístola de Jeremias, I e II Macabeus e acréscimos feitos a Ester e a Daniel.

O inciso da Confissão de fé de Westminster, supracitado, nos diz que tais livros não
são de inspiração Divina; as razões são simples:

 Não constam no cânon hebraico, isto é, não fazem parte das Escrituras que
os judeus consideravam como inspiradas por Deus. Os católicos os chamam
de deuterocanônicos;

25
 Somente foram incluídos, oficialmente, no cânon católico em meados de
1500, não tendo sido usados pelos apóstolos como literatura inspirada;

 Foram escritos nos cerca de 400 anos de silêncio (período intertestamentário.

Estas razões, por si, já são suficientes para serem rejeitados como Escrito Divino,
mas existe uma razão de peso, sobremodo elevado, que nos faz vê-los como meros
escritos humanos: são seus erros, contradições e histórias fantasiosas. Veja abaixo:

 Tobias 4.11 - porque a esmola livra do pecado e da morte, e preserva a alma


de cair nas trevas22.

As Escrituras nos ensinam que somos salvos pela graça e não por obras, sejam
esmolas, cuidado com os pobres ou qualquer coisa do gênero (Efésios 2.8) e ainda que a
vida é dom gratuito (Romanos 6.23).

 Tobias 6.2-9 - Partiu, pois, Tobias em companhia do anjo, e o cão os seguia.


Caminharam juntos e aconteceu que, numa noite, acamparam à margem do
rio Tigre. Tobias desceu ao rio para lavar os pés, quando saltou da água um
grande peixe, que queria devorar-lhe o pé. Ele gritou e o anjo lhe disse: Agarra
o peixe e segura-o firme! Tobias dominou o peixe e o arrastou para a terra. E
o anjo acrescentou: Abre o peixe, tira-lhe o fel, o coração e o fígado e
guarda-os; joga fora os intestinos, pois o fel, o coração e o fígado são
remédios úteis. O jovem abriu o peixe, tirou-lhe o fel, o coração e o fígado.
Assou uma parte do peixe e comeu-a, e salgou o resto. Depois continuaram
juntos a caminhada, até chegarem perto da Média. Então Tobias perguntou
ao anjo: Azarias, meu irmão, que remédio há no coração, no fígado e no fel
do peixe? Respondeu ele: Se se queima o coração ou o fígado do peixe diante
de um homem ou de uma mulher atormentados por um demônio ou por um
espírito mau, a fumaça afugenta todo o mal e o faz desaparecer para sempre.
Quanto ao fel, untando com ele os olhos de um homem que tem manchas
brancas, e soprando sobre as manchas, ele fica curado.23

O que está sendo ensinado aqui é a prática de feitiçaria, o que é claramente


combatido nas Escrituras (Miqueias 5.12; Gálatas 5.19-21). Na igreja primitiva os que se
convertiam abandonavam as artes mágicas (Atos 19.18-20). Jesus jamais usou práticas

22
Bíblia Católica Ave Maria
23
Idem.

26
mágicas para libertar alguém que estivesse possesso, ao contrário, valeu-se apenas de sua
autoridade e concedeu a mesma aos seus discípulos quando os enviou em sua missão
evangelística (Mateus 8.28-32; Lucas 4.33-36, 10.17-20). A autoridade de Jesus para
libertar pessoas possessas foi dada apenas ao seus (Atos 19.11-17).

 II Macabeus 12.43-44 - Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém


cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos
pecados: belo e santo modo e agir, decorrente de sua crença na ressurreição,
porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e
supérfluo rezar por eles.24

Se haviam outras formas de serem expurgados dos pecados, então os rituais de


sacrifício do Antigo Testamento não têm sentido e muito menos o sacrifício de Jesus.
Entretanto, sabemos que somente com derramamento de sangue é que há remissão de
pecados (Levítico 5.6-10), por isso, Cristo se ofereceu uma vez por todas como sacrifício
pelos pecados dos eleitos (Hebreus 9.11-15, 28). Por outro lado, é inútil orar pelos mortos
(Romanos 3.2-11; Hebreus 9.27-28).

 Judite 1.5 - Ora, no décimo segundo ano de seu reinado, Nabucodonosor,


que reinava sobre os assírios em Nínive, a grande cidade, fez guerra a
Arfaxad, e venceu-os.25

É intrigante este erro no livro de Judite, pois Daniel deixa muito claro que
Nabucodonosor era rei da Babilônia (Daniel 1.1) e não apenas isto, historiadores apontam
a destruição de Nínive em 612 a.C., pelo pai de Nabucodonosor.

 I Macabeus 15.37-38 - Assim se desenrolaram os acontecimentos relativos a


Nicanor, e já que a partir dessa época Jerusalém permaneceu em poder dos
hebreus, finalizarei aqui minha narração. Se ela está felizmente concebida e
ordenada, era este o meu desejo; se ela está imperfeita e medíocre, é que
não pude fazer melhor26.

Se estes escritos foram inspirados, por que o escritor pede desculpas e chama sua
obra de medíocre? Compare suas palavras com o que diz Hebreus 4.12.

24
Idem
25
Idem.
26
Idem.

27
Os acréscimos feitos a Ester e Daniel são:

 Ester – No cânon judaico que adotamos, Ester termina no verso 3, do


capítulo 10. Mas nos apócrifos, o texto segue até o capítulo 16, verso 24.

Os acréscimos feitos a Ester, falam de questões enigmáticas, como um suposto


sonho de Mordecai, onde Deus teria revelado à sua pessoa os acontecimentos
relacionados aos judeus. Além disso, há uma resumida repetição do que já fora dito antes.

 Daniel – no cânon que adotamos, Daniel termina no capítulo 12, mas nos
apócrifos segue até o capítulo 14.

No caso de Daniel, os acréscimos falam de uma defesa que Daniel teria feito de uma
suposta juíza de Israel, de nome Suzana. Porém, fala que Daniel era ainda adolescente
quando isto “aconteceu”, mas no capítulo 12, ele já estava com uma idade bem avançada.
Outra questão, digna de nota, é o confronto de Daniel com um suposto dragão, o qual
Daniel faz explodir.

Não obstante as informações acima, devemos levar em conta que alguns desses
livros são de grande valor histórico. Os livros escritos pelos Macabeus, por exemplo, falam
de guerras e outros fatos ocorridos no período intertestamentário (400 anos de silêncio) e
que são atestados pela história. Mas, nem todos os livros apócrifos surgiram nesse período.
Alguns foram escritos nos primeiros séculos da igreja cristã, reivindicando autoridade
Divina, porém, não foram reconhecidos como possuidores de tal autoridade. Seguem
alguns exemplos:

Evangelho de Tomé Evangelho de Filipe

Epístola de Pedro a Filipe Evangelho da Infância de Jesus

Epístola de Tiago Evangelho de Judas

Epístola de Barnabé Apocalipse de Adão

Evangelho de Maria Madalena Apocalipse de Pedro

Evangelho de Eva Apocalipse de Paulo

Apocalipse de Tiago

28
A não aceitação destes se deu, especialmente, por trazerem consigo contradições
absurdas, além de vários conceitos provindos do gnosticismo como pode se ver. Alguns
erros que podemos destacar aqui são:

 Evangelho de Judas - Judas falou: Mestre, como tu escutaste a todos eles,


agora também escuta-me, pois eu tive uma grande visão. Quando Jesus ouviu
isto, ele riu e disse-lhe: você décimo terceiro espírito, por que tenta tão
esforçadamente? Mas fala, e eu serei tolerante contigo. Judas lhe disse: na
visão eu me vi sendo apedrejado pelos doze discípulos, e que estavam
perseguindo-me severamente.

 Evangelho de Nicodemus - E por isso mesmo também enviou-me a vós para


anunciar-vos a chegada do Filho de Deus unigênito a este lugar, a fim de que
aquele que acreditar nele seja salvo, e quem não acreditar, seja condenado.
Por isto recomendo a todos que, enquanto o virdes, adoreis somente a ele,
porque esta é a única oportunidade de que dispondes para fazer penitência
pelo culto que rendestes aos ídolos enquanto vivíeis no mundo vil de antes e
pelos pecados que cometestes; isto já não poderá ser feito em outra ocasião.
Ao ouvir o primeiro a ser criado e pai de todos a instrução que João estava
dando aos que se encontravam no inferno, disse Adão ao seu filho Seth: "Meu
filho, quero que digas aos pais do gênero humano e aos profetas para onde
eu o enviei quando caí no transe da morte". Seth disse: "Profetas e patriarcas,
escutai: meu pai Adão, a primeira das criaturas, caiu uma vez em perigo de
morte e enviou-me para fazer orações a Deus muito próximo da porta do
paraíso, para que me fizesse chegar por meio de um anjo até a árvore da
misericórdia, de onde haveria de tomar do óleo, para com ele ungir meu pai
para que assim ele pudesse recuperar-se de sua doença.

 Evangelho Gnóstico De João (complemento de Mateus 26, versículos 29 e


30) - Antes que fosse preso pelo julgamento dos judeus, o Mestre nos reuniu
a todos e disse: "Antes que eu seja entregue a eles, cantaremos um hino ao
Pai e, em seguida, iremos ao encontro daquilo que nos espera Ele pediu
que nos déssemos as mãos em roda e colocando-se no meio, disse:
"Respondei-me Amém."

"Ao universo pertence àquele que participa da dança." - Amém.

29
"Quem participa da dança, não sabe o que vai acontecer." - Amém.

"Devo ir mas vou ficar." - Amém.

"Devo honrar e devo ser honrado." - Amém.

"Não tenho morada, mas estou em todos os lugares." - Amém.

 O Evangelho da Infância – Palavras de Jesus no berço: Encontramos no


livro do grande sacerdote Josefo que viveu no tempo de Jesus Cristo, e que
alguns chamam de Caifás, que Jesus falou quando estava no berço e que
disse a sua mãe Maria: — Eu, que nasci de ti, sou Jesus, o filho de Deus, o
Verbo, como te anunciou o anjo Gabriel, e meu Pai me enviou para a salvação
do mundo.

Em suma, os livros apócrifos têm sido rejeitados pela tradição cristã protestante por
não passarem nos testes de canonicidade abordados no capítulo anterior. Assim, conforme
explica Paul House, “embora alusões aos livros apócrifos apareçam no NT (e.g., Jd 9), não
há nenhuma referência indiscutível sobre os apócrifos na qual um autor declare sua
autoridade bíblica” (HOUSE, 2005, pág. 688).

30
BIBLIOGRAFIA

__________________ A Confissão de Fé de Westminster. 17ª Edição. São Paulo: Cultura


Cristã, 2001.

TENNEY, MERRILL C. Enciclopédia da Bíblia. 1ª Edição. Volume 1. São Paulo: Cultura


Cristã, 2008.

MERRILL, Eugene H. Teologia do Antigo Testamento. 1ª Edição. São Paulo: Shedd


Publicações, 2009.

HOUSE, Paul R. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2005.

31
4. AUTORIDADE E INERRÂNCIA DAS ESCRITURAS

A Bíblia é um livro ímpar, inigualável. A razão dessa disparidade está na autoridade


que ela traz consigo. Mas não apenas isto, ela é inerrante e infalível. Eis a razão porque
pode ser a “regra de fé e prática” de todo servo de Deus.

Todo verdadeiro cristão, aceita e submete sua vida à autoridade bíblica, acreditando
piamente em sua inerrância. Não obstante, se realizássemos uma rápida pesquisa, nos
depararíamos com a triste realidade de que muitos, não sabem ou mesmo nunca ouviram
falar sobre o significado de autoridade e inerrância das Sagradas Escrituras. Vejamos,
portanto, ainda que de forma sucinta o que significam tais termos.

2.2 Autoridade

A autoridade das Sagradas Escrituras está vinculada diretamente à sua Fonte, ou


seja, o próprio Deus. Ele é o supremo autor das Escrituras e por isso, elas não dependem
do testemunho humano ou da aprovação de qualquer igreja ou concílio. É a Escritura
Sagrada a única regra, infalível de fé e prática para o povo eleito. Não obstante, nunca, em
toda história, a Palavra de Deus esteve tão disponível e ao mesmo tempo foi tão
desprezada e distorcida quanto tem sido no presente século. As pessoas buscam nas
Escrituras apenas o que lhes é proveitoso, unicamente o que lhe apraz, somente o que
satisfaz seu coração egoísta. Quando o real significado das Escrituras é exposto, não há
interesse dos ouvintes e isso acontece porque vivemos em uma sociedade egocêntrica e
antropocêntrica, que acredita que até mesmo o texto bíblico tem que satisfazer suas
necessidades.

Em contraste com este tipo de pensamento, Paulo afirma em II Timóteo 3.16 e 17,
que a Escritura é inspirada por Deus, sendo útil e objetiva:

 Ensinar – o ensino expresso aqui, diz respeito à instrução na verdadeira


doutrina bíblica; buscando apresentar o que de fato ela diz e seu real
significado. A ideia é de um ensinamento que vem da parte de Deus.

 Repreender – o que está implícito aqui, é a refutação de erros doutrinários, é


o combater uma falsa doutrina ou ainda um ensino distorcido, o que via de

32
regra, distancia o homem de Deus, afastando-o consequentemente da
salvação em Cristo.

 Corrigir – o termo grego utilizado aqui, dá a ideia de endireitamento, reparação


e ainda de reforma. Enquanto a repreensão visa castigar ou expor o erro, a
correção intenta guiar pelo caminho certo, direcionando o transgressor à
restauração, um aprimoramento na vida e no caráter.

 Educação na justiça – A ideia no grego é de um “treino e educação infantil


(que diz respeito ao cultivo de mente e moralidade, e emprega para este
propósito ora ordens e admoestações, ora repreensão e punição). Também
inclui o treino e cuidado do corpo” Isto significa dizer que a Escritura é o único
manual aceitável para que o homem seja aprovado por Deus.

Ao afirmar que “o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda
boa obra” (ver verso 17), Paulo não está afirmando que haverá ausência de erros e falhas
ou ainda que o pecado deixará de existir na vida do cristão e somente depois disto ele
estará apto para toda boa obra. Na verdade, o termo grego traduzido por perfeito, expressa
a ideia de algo completo, provido de determinada aptidão para um serviço especifico. Ao
aplicar na administração pessoal e na Igreja o ensino, a repreensão, a correção e a
educação na justiça, Timóteo estaria equipando a igreja para toda boa obra.

Diante do exposto, as Escrituras trazem em si a autoridade do próprio Deus pois ele


a cumprirá (Isaías 55.11; Jeremias 1.11-12). Portanto, devem ser respeitadas e obedecidas
por todo aquele que professa fé no Senhor Jesus. Destarte, uma pergunta feita por Cristo
aos que o ouviam, se faz bastante pertinente a todos os cristãos hodiernos: “Por que me
chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando?” (Lucas 6.46).

2.2.1 Autoridade da Escritura x autoridade da Igreja

A Igreja Católica Romana afirma ser a detentora da revelação divina e que suas
tradições tem a mesma autoridade que a Sagrada Escritura. Assim, afim de
compreendermos a relação entre a autoridade das Escrituras e a autoridade da Igreja,
inicialmente, precisamos ter em mente algo de extrema importância aqui: o contexto
histórico. Se não levarmos em conta o contexto histórico, não poderemos fazer uma análise
correta e adequada deste impasse.

33
Na idade média, a Igreja Católica Romana determinava em toda sua extensão, os
rumos da fé. Por outro lado, a Reforma Protestante declarava que somente a Escritura
Sagrada poderia fazê-lo. Assim, vejamos inicialmente o que a Igreja de Roma define em
seu Catecismo (CATÓLICA, 2000, art. 2º) quanto à autoridade das Escrituras. Transcrevo,
portanto, ipsis litteris, suas declarações:

§ 77 - Para que o Evangelho sempre se conservasse inalterado e vivo na Igreja, os


apóstolos deixaram como sucessores os bispos, a eles 'transmitindo seu próprio encargo
de Magistério." Com efeito, "a pregação apostólica, que é expressa de modo especial nos
livros inspirados, devia conservar-se por uma sucessão contínua até a consumação dos
tempos.

§ 78 - Esta transmissão viva, realizada no Espírito Santo, é chamada de Tradição


enquanto distinta da Sagrada Escritura, embora intimamente ligada a ela. Por meio da
Tradição, a Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações
tudo o que ela é, tudo o que crê. O ensinamento dos Santos Padres testemunha a presença
vivificante desta Tradição, cujas riquezas se transfundem na praxe e na vida da Igreja
crente e orante.

§ 79 - Assim, a comunicação que o Pai fez de si mesmo por seu Verbo no Espírito
Santo permanece presente e atuante na Igreja: O Deus que outrora falou mantém um
permanente diálogo com a esposa de seu dileto Filho, e o Espírito Santo, pelo qual a voz
viva do Evangelho ressoa na Igreja e através dela no mundo, leva os crentes à verdade
toda e faz habitar neles abundantemente a palavra de Cristo.

§ 80 - Elas estão entre si estreitamente unidas e comunicantes. Pois, promanando


ambas da mesma fonte divina, formam de certo modo um só todo e tendem para o mesmo
fim. Tanto uma como outra tornam presente e fecundo na Igreja o mistério de Cristo, que
prometeu permanecer com os seus todos os dias, até a consumação dos séculos (Mt
28,20).

§ 81 - Quanto à Sagrada Tradição, ela transmite integralmente aos sucessores dos


apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstolos
para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles, por sua pregação, fielmente a conservem,
exponham e difundam.

§ 82 - Daí resulta que a Igreja, à qual estão confiadas a transmissão e a interpretação


da Revelação, não deriva a sua certeza a respeito de tudo o que foi revelado somente da

34
Sagrada Escritura. Por isso, ambas devem ser aceitas e veneradas com igual sentimento
de piedade e reverência.

Como vimos anteriormente, Deus é o Supremo autor das Escrituras e por essa razão
a autoridade das mesmas não depende do reconhecimento da Igreja ou qualquer Concílio.
Assim, não podemos aceitar a proposição católico-romana, de que a Escritura não tem
consistência sem a Tradição ou mesmo o Magistério eclesial. Muito menos podemos aceitar
sua tese de que a “igreja” seja a transmissora de verdades autoritativas, fruto de
interpretação do que supostamente é a vontade de Deus para os homens.

As tradições têm seu valor, desde que, não sejam equiparadas às Escrituras. Jesus
falou duramente àqueles que punham suas tradições no mesmo nível das Escrituras e até
mesmo acima delas (Marcos 7.1-13). Paulo alertou contra a aceitação de outros ensinos
que vão além das Escrituras (Gálatas 1.6-9).

Diante do exposto, devemos rejeitar de pronto a todo e qualquer ensino que


reivindique autoridade semelhante ou superior à das Escrituras, pois somente estas são
inspiradas por Deus e trazem consigo a autoridade Divina.

2.3 Inerrância das Escrituras

Antes de analisarmos qualquer conceito de inerrância das Escrituras, devemos


observar os principais conceitos, elaborados na história acerca das Escrituras. Portanto,
segue-se trecho (ipsis litteris) da abordagem feita pelo Rev. Pedro Cordeiro (2008, pag.25),
sobre as três principais considerações acerca da Bíblia:

2.3.1 Ortodoxia

A ortodoxia vê nas Escrituras a Palavra de Deus. Portanto, a Bíblia, tanto na forma


como no conteúdo, é a Palavra de Deus. Nela, são encontradas proposições, conjunto de
enunciados de doutrinas, que constituem a fonte de toda a teologia cristã. Isto é, como são
informações sobre Deus e sua natureza, obras e propósitos, podem ser considerados como
alicerce para o labor teológico.

A mente humana só pode apreender a Palavra de Deus com o auxílio o Espírito


Santo. É ele quem ilumina a mente e o coração do homem para que esse entenda e creia
na Bíblia.

35
Referente à história da humanidade, a ortodoxia assevera que a revelação é
trans-histórica, ou seja, ela é contígua, próxima, aos acontecimentos do mundo dos
homens.

2.3.2 Liberalismo

Mesclando o uso de ferramentas cientificas como a Baixa Crítica 27 e Alta Crítica28,


um pouco de evolucionismo e materialismo e apoiado no uso da razão, o Liberalismo
teológico do século XIX foi um movimento responsável por lançar a Bíblia ao descrédito.

Para os advogados de tal posição a Bíblia está repleta de erros e mitos, por isso, a
necessidade da aplicação das ferramentas da Baixa e Alta Crítica. Logo, a Bíblia contém a
Palavra de Deus. Essa Palavra, por sua vez, só pode ser apreendida via intuição humana.

O sentimento religioso, a experiência deve dizer ou não o que é Palavra de Deus. O


que determina a Palavra de Deus é a consciência do indivíduo, o sentimento religioso
humano. Nesse segmento teológico, a devoção cristã do homem é a base para a teologia
cristã. Não é mais a Bíblia.

A devoção mencionada no liberalismo não é moral ou racional, mas sentimental. É


o sentimento de total dependência em Deus o ponto de partida para o labor teológico. Nesse
sentido, a Bíblia é psico-histórica, ela se relaciona com a mentalidade humana, com uma
continuidade mental do homem.

Os principais nomes dessa abordagem às Escrituras são: F. D. E. Scheleiermacher


e Albrecht B. Ritschl.

2.3.3 Neo-Ortodoxia

Iniciado por Karl Barth com a intenção de transcender tanto o liberalismo como a
ortodoxia, depois de sua frustração com o liberalismo29, a neo-ortodoxia é uma importante
vertente teológica do século XX, cujo objetivo é resgatar a Palavra de Deus.

27
A Baixa Crítica era o estudo do texto da Escritura e suas variações textuais.
28
A Alta Crítica busca meticulosa pela autenticidade, exatidão e fatos.
29
A Frustração de Barth deveu-se ao apoio dos liberais, que acreditavam na evolução do homem para melhor, à
primeira guerra mundial.

36
Com a intenção de resgatar o verdadeiro conceito de “Palavra de Deus”, a neo-
ortodoxia conseguiu provocar transformações tanto na teologia liberal quanto na teologia
conservadora. Na teologia liberal, 1. levar mais a sério o pecado e o mal; 2. levar mais a
sério a transcendência de Deus; 3. críticas ao antropocentrismo, mostrando que isso não
tinha nada do cristianismo histórico; 4. arrastaram muitos liberais a neo-ortodoxia.

Em meio conservador, todavia, os ortodoxos encontraram na neo-ortodoxia uma


espécie de refúgio e porto seguro contra o proposicionalismo extremo e o literalismo bíblico
exagerado. Nesse segmento a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas torna-se a Palavra de
Deus. Para Barth, a verdadeira palavra de Deus é Jesus Cristo. Para Barth a revelação é
“particularista”. Ela acontece num evento, quando Cristo se encontra com o homem, pois a
revelação é uma pessoa. A Bíblia é um mero veículo, instrumento de Deus para tocar o
homem em sua existência. Além do próprio Jesus Cristo e da Bíblia, a Palavra de Deus,
segundo Barth, confronta o homem via proclamação da Igreja. Assim sendo, o momento
em que ela, a Bíblia, é usada por Cristo para se revelar ao homem é difícil precisar como
isso acontece.

Portanto, o conceito barthiano sobre Jesus Cristo é que ele é o Filho de Deus e a
auto expressão perfeita e completa de Deus. Todas as outras revelações, sejam quais
forem, redundam em Cristo como promessa, esperança e lembrança.

Karl Barth não aceitava a ideia de uma revelação proposicional30, pois ninguém pode
falar sobre Deus, ele é o totalmente “O Outro”31. Não aceitava a inspiração e nem a
inerrância, pois para ele a Bíblia é totalmente humana e está repleta de erros. No entanto,
mesmo sendo humana, é incomparável, pelo fato de Deus fazer uso dela. Não obstante,
com esse posicionamento acerca das Escrituras, Barth não intencionava desprezar a Bíblia,
senão, exaltar a Jesus Cristo, pois em seu entendimento, ele é o Senhor, não a Bíblia. Para
Barth, ela apenas testemunha a Cristo, instrumento da verdadeira revelação.

A importância de estudarmos tais conceitos antecipadamente, dá-se pelo fato de


que, dependendo da visão que temos das Escrituras, seremos levados a aceitar ou negar
sua infalibilidade.

A doutrina da inerrância bíblica foi arquitetada e exposta no início do século XX, por
ocasião das controvérsias entre liberais e fundamentalistas.

30
Afirmação, conceito, declaração verdadeira sobre Deus.
31
Ênfase demasiada na Transcendência de Deus.

37
É importante que tenhamos em mente que as Escrituras não defendem sua
inerrância, pois essa é uma premissa básica (João 10.35), uma vez que seu autor é o
próprio Deus. Assim, quando afirmamos que as Escrituras são inerrantes, estamos
ressaltando que os “escritos originais”, também conhecidos como “autógrafos originais”,
não contém qualquer erro, contradição ou falsidade; que as Escrituras foram preservadas,
mediante a ação do Espírito Santo, de qualquer engano ou equívoco por parte daqueles
que a registraram. Neste sentido, o Dr. Augustus Nicodemus, salienta que:

[...] a Bíblia foi escrita por autores sobrenaturalmente inspirados por Deus a ponto
de ser verdadeira em tudo o que afirma, e isto não somente em matérias de fé e
história da salvação. Ela é livre de erros, fraude e enganos. A Escritura não pode
errar por ser em sua inteireza a revelação do Deus verdadeiro. Ela não é somente
uma testemunha da revelação e nem se torna revelação num encontro existencial.
Ela permanece a inerrante Palavra de Deus independentemente da resposta
humana.32

Não obstante as afirmações acima, ao ressaltarmos a inerrância das Sagradas


Escrituras, fazem-se necessários alguns esclarecimentos:

a) Embora os registros bíblicos tenham sido feitos por homens comuns, estes foram
impedidos pelo Espírito Santo, de acrescentarem ou omitirem qualquer coisa, além
da vontade de Deus.
b) Conforme tratamos anteriormente, apenas os escritos originais são inerrantes. As
traduções e versões bíblicas hodiernas não o são. Entretanto, quando comparadas
aos manuscritos mais antigos, demonstram grande fidelidade em seu conteúdo.
c) É possível que alguns termos ou experiências dos escritores difiram da realidade
cientifica de nossos dias, porém não comprometem o ensino geral e/ou a verdade
das Escrituras.

Precisamos reafirmar que as cópias e as traduções também são Palavra de Deus,


à medida que conservam a mensagem original. Quando dizemos que são Palavra
de Deus, não temos em mente, é claro, o processo original de inspiração do escritor
bíblico. Antes, são Palavras de Deus no sentido secundário que se relaciona com o
produto. Assim, Paulo podia escrever a Timóteo que toda a Escritura é inspirada,
embora a Escritura a que estivesse se referindo fosse uma cópia e, provavelmente,
também vima tradução (a Septuaginta). (ERICKSON, 1997, pag.87).

32
http://tempora-mores.blogspot.com.br/2006/02/sobre-inerrncia-da-bblia.html

38
2.3.4 Escritos de Qumram

Conforme afirmamos na alínea “b”, do ponto anterior, as traduções hodiernas das


Escrituras trazem consigo grande fidelidade aos textos originais. Prova disto, são os
achados arqueológicos do Mar Morto (1947 e 1960), mais conhecidos como os “Escritos do
Qumram”.

Tais achados são de especial importância para nós, pois dizem respeito a uma série
de manuscritos que após datação criteriosa, mediante a utilização de carbono 14,
demonstram haverem sido produzidos entre o final do terceiro século e o ano 70 d.C. Dentre
tais documentos, sobressai-se uma cópia completa do livro do profeta Isaías, escrita cerca
de 100 a.C.

Os manuscritos do Qumram, foram organizados por uma ordem monástica judaica,


formada no II século a.C. e desapareceu por volta do ano 70 a.C. e era conhecida como
“Os Essênios”. Conforme Champlin (2002, pag.522), “eles eram exemplos de uma incomum
grandeza moral e pureza espiritual”.

Os essênios viviam isolados em cavernas na região do Mar Morto e dedicavam-se à


oração, leitura e estudo das Sagradas Escrituras.

2.4 Contestações à autoridade e inerrância bíblica

Há pessoas que negam a autoridade das Sagradas Escrituras, por entenderem que
a mesma está repleta de erros. Assim, negam a inerrância bíblica apontando “erros” em
sua estrutura literária, histórica e/ou científica. Contudo, devemos ter em mente que a Bíblia
não é um livro de ciências, antropologia, filosofia, biologia, etc. Ela não se presta a
esclarecer os mistérios do universo ou a responder as indagações humanas sobre os males
da vida ou ainda, dar respostas plausíveis à filosofia ou qualquer outra ciência. Seu principal
objetivo é revelar a Deus e seu plano redentor, mediante Cristo Jesus.

Seguem algumas objeções quanto à inerrância:

 Em Levítico 11.6 e Deuteronômio 14.7, a lebre é apontada como animal


ruminante, quando a mesma é catalogada entre os roedores.

39
 Contesta-se Jó 20.16, ao dizer que o texto afirma que a víbora mata com a
língua, quando a mesma mata com as presas.33

 Fala-se de incongruência entre os textos de II Samuel 24.1 e I Crônicas 21.1.


Existe realmente inconsistência? Veja I Reis 22.20-23.

É certo que existem textos de difícil elucidação, contudo, não podemos simples e
levianamente declarar que se tratam de incongruências. Certamente, não somos capazes
de entendê-los, devido nossas limitações interpretativas e falta de conhecimento.

33
Analisar este texto na Nova Versão Internacional (NVI)

40
3 INTERPRETAÇÃO DAS ESCRITURAS

Navegando outro dia pela internet encontrei o seguinte diálogo (ipsis litteris):

- “Se a Bíblia se explica pela própria Bíblia, por que então, existem tantas Igrejas
evangélicas? Ou a suposta clareza das Escrituras não fala por si só?”

- “Porque cada denominação evangélica interpreta a bíblia de um jeito. Uma igreja


contemporânea que aceita o homossexualismo entre evangélicos se fundamenta no
seguinte trecho da bíblia: porque no amor não há lei. E daí nasceu mais uma igreja
evangélica, totalmente errada. Os evangélicos acreditam no casamento entre pastores e
suas esposas. Porque diz a bíblia que o homem não nasceu para ser só, os católicos não
aceitam o casamento de padres. Cada um interpreta a bíblia a luz de sua teoria, a meu ver
pessoalmente. E ninguém chega a um consenso. Mais tudo se baseia na interpretação da
bíblia, tanto para se fundir, como para se expandir, propagar. Outro motivo pode ser por
que a bíblia ser um livro de difícil interpretação, o livro mais complexo do mundo”.34

A primeira frase responde a indagação feita. Na verdade, ela expõe a dureza do


coração humano, que decide por si o que as Escrituras estão dizendo e qual é a revelação
Divina no texto bíblico. Contudo, penso que há ao menos duas razões, subordinadas à
dureza do coração, que geram dificuldades na interpretação das Escrituras: a) o método
interpretativo; b) encontrar doutrina onde ela não existe.

3.1 Método interpretativo

Por método interpretativo nos referimos às técnicas de interpretação utilizadas para


compreensão do texto bíblico (hermenêutica). Os três principais métodos de interpretação
são:

a. Literal

Este método entende que os textos bíblicos devem ser interpretados literalmente. O
escritor bíblico intencionava dizer exatamente o que está escrito. Este método rejeita
qualquer explicação que não esteja claramente evidente no Texto Sagrado.

34
https://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20120225154250AAPr3Zl

41
b. Alegórico

Procura encontrar os sentidos ocultos no texto. Uma alegoria bastante conhecida e


atribuída à Orígenes, um teólogo do século III, conhecido como o pai da alegoria é a do
Bom Samaritano (Lucas 10.25-37): O homem que descia de Jerusalém a Jericó é o pobre
pecador, que no caminho foi atacado pelos ladrões (pecado) que o deixaram quase morto
(queda no pecado); o sacerdote e o levita que passam sem dar atenção, são a lei que não
pode salvar o homem de seus pecados; o bom samaritano é Jesus que derrama seu sangue
nas feridas, levanta o pecador (novo nascimento), põe-no sobre o jumento (evangelista) e
o leva para a hospedaria (igreja) e entrega ao dono da hospedaria (pastor), duas moedas
(batismo e santa ceia), recomendando que cuide do pobre homem até que ele volte
(segunda vinda).

c. Histórico-gramatical

Este é o método utilizado pelos reformados e leva em conta diversos fatores:


a) comparar os textos bíblicos; b) compreender o contexto histórico, cultural, político,
religioso, etc.; c) procurar entender a intenção do autor; compreender para quem o autor
estava escrevendo; etc.

3.2 Doutrina inexistente

Hodiernamente tem-se valorizado em demasia o material humano e sua capacidade


intelectual de compreender as Escrituras. Mas, não apenas isto, há também a necessidade
cada vez mais crescente de conformar o texto bíblico às necessidades pessoais de cada
um. Dessa forma, subtraem-se textos de seus contextos, ignorando a intenção do autor
bíblico, a cultura e a época em que o texto foi escrito, formalizando doutrinas e dogmas
para a igreja, que a própria Escritura Sagrada não autoriza. Vejamos alguns exemplos:

 Podemos falar a língua dos anjos (I Coríntios 13.1);

 Se a criança aprender a servir a Deus, jamais o deixará (Provérbios 22.6);

 As palavras têm poder (Provérbios 18.21; ver Lamentações 3.37);

 Se eu crer serei salvo e comigo toda minha casa (Atos 16.31).

42
4 ILUMINAÇÃO

A Confissão de Fé de Westminster (WESTMINSTER, 2011), traz em seu escopo a


seguinte afirmação: “reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do
Espírito de Deus para a salvadora compreensão das cousas reveladas na palavra”.

As Escrituras são a Palavra de Deus, sendo a completa revelação de sua vontade e


da redenção em Cristo. Contudo, o homem, ainda que seja capaz de compreender
determinadas verdades da Escritura, não poderá vivenciá-las sem que o Espírito Santo,
ilumine seu entendimento. Foi este o caso dos dois discípulos que seguiam para Emaús;
eles conheciam as verdades das Escrituras, sabiam o que estava escrito acerca de Jesus,
mas não compreenderam tais verdades até o momento em que o Senhor “lhes abriu o
entendimento” (Lucas 24.45). A isto chamamos de iluminação, ou seja, o esclarecimento
por parte do Espírito Santo das verdades da Palavra de Deus.

O livro dos Salmos traz diversos textos que ilustram o que estamos propondo, veja
por exemplo Salmo 119, versos 18 e 130. Por outro lado, o Salmo 73, fala da indignação
do salmista contra os malfeitores e como percebe o fim que estes terão, após entrar no
santuário de Deus.

O apóstolo Paulo afirma em I Coríntios 2.14: “Ora, o homem natural não aceita as
coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas
se discernem espiritualmente”. Eis a razão porque muitos leem as Escrituras, mas a
percebem apenas como um livro de lições morais e éticas e não alcançam salvação;
precisam ser iluminados pelo Espírito de Deus.

Falando acerca da iluminação do Espírito, João Calvino afirma:

A simples declaração de que temos a Palavra deveria ser suficiente para gerar em
nós a fé, se a nossa cegueira e a nossa obstinação não no-lo impedissem. Como,
porém, o nosso espírito é propenso à vaidade, ele não pode apegar-se à verdade
de Deus. Jamais! E como é espiritualmente bronco e cego, não consegue ver a luz
de Deus. Por isso, sem a iluminação do Espírito Santo, só a Palavra não nos dá real
proveito (CALVINO, 1985, pag.21).

A Sagrada Escritura é a revelação final de Deus e de sua vontade. Contudo,


conforme aponta Calvino, não somos capazes de ver a luz que emana da Divina revelação.

43
Nos dias atuais, não poucas pessoas, arrogam serem inspiradas por Deus para
trazer à luz as verdades de Sua Palavra. Entretanto, deveriam atentar para o fato de que
não podem ser inspiradas, porque não trazem consigo nova revelação da parte de Deus.
Quando muito, tais pessoas são iluminadas pelo Espírito Santo, que as conduz à
compreensão das verdades já reveladas. Veja o que diz o apóstolo Paulo em Efésios 1.18:
“iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu
chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos”. A iluminação é uma
aptidão concedida por Deus aos homens, mediante a ação do Espírito Santo, de interpretar
Seu registro revelacional.

A bíblia é um livro Divino. Dessa forma, somente com o auxílio de alguém que faça
parte da Divindade, seremos capazes de interpretá-lo.

CONCLUSÃO

44
Muitas novidades têm surgido na igreja contemporânea e tomado lugar no culto a
Deus. Em muitos lugares, a “revelação” imediata tem mais valor que a Revelação escrita.
Para muitos, as Sagradas Escrituras devem ser conformadas com suas experiências
pessoais e dessa forma, a Palavra de Deus perde seu valor e influência na vida da igreja.
Não obstante os cristãos de confissão reformada, a Palavra de Deus está acima de
qualquer experiência religiosa, é superior a todo conceito de revelação, ela é a consumação
do que Deus exige do homem. É por meio da Sagrada Escritura, que Deus se revela ao
homem. Portanto, os conceitos humanos devem ser balizados pela Escritura, caso contrário
perderão seu valor.

Somente a Escritura Sagrada tem poder para determinar a vida do cristão e isto,
porque somente ela traz a revelação de Deus e de sua vontade, é inspirada, autoritativa e
inerrante.

45
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