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136 é ferida que dói, e não se sente;

A fermosura fresca serra, é um contentamento descontente,


e a sombra dos verdes castanheiros, é dor que desatina sem doer.
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra; É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
o rouco som do mar, a estranha terra, é nunca contentar se de contente;
o esconder do sol pelos outeiros, é um cuidar que ganha em se perder.
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra; É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
enfim, tudo o que a rara natureza é ter com quem nos mata, lealdade.
com tanta variedade nos ofrece,
me está (se não te vejo) magoando. Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
Sem ti, tudo me enoja e me aborrece; se tão contrário a si é o mesmo Amor?
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias, mor tristeza. 003
Busque Amor novas artes, novo engenho,
101 para matar me, e novas esquivanças;
Ah! minha Dinamene! Assi deixaste que não pode tirar me as esperanças,
quem não deixara nunca de querer-te? que mal me tirará o que eu não tenho.
Ah! Ninfa minha! Já não posso ver-te,
tão asinha esta vida desprezaste! Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Como já para sempre te apartaste Que não temo contrastes nem mudanças, andando em
de quem tão longe estava de perder-te? bravo mar, perdido o lenho.
Puderam estas ondas defender-te,
que não visses quem tanto magoaste? Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Nem falar-te somente a dura morte Amor um mal, que mata e não se vê.
me deixou, que tão cedo o negro manto
em teus olhos deitado consentiste! Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte! vem não sei como, e dói não sei porquê.
Que pena sentirei, que valha tanto,
que inda tenho por pouco o viver triste? 043
Como quando do mar tempestuoso
o marinheiro, lasso e trabalhado,
080 d'um naufrágio cruel já salvo a nado,
Alma minha gentil, que te partiste só ouvir falar nele o faz medroso;
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente, e jura que em que veja bonançoso
e viva eu cá na terra sempre triste. o violento mar, e sossegado
não entre nele mais, mas vai, forçado
Se lá no assento etéreo, onde subiste, pelo muito interesse cobiçoso;
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente Assi, Senhora eu, que da tormenta,
que já nos olhos meus tão puro viste. de vossa vista fujo, por salvar me,
jurando de não mais em outra ver me;
E se vires que pode merecer te
algüa causa a dor que me ficou minh'alma que de vós nunca se ausenta,
da mágoa, sem remédio, de perder te, dá me por preço ver vos, faz tornar me
donde fugi tão perto de perder me.
roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver te, 092
quão cedo de meus olhos te levou. Mudam se os tempos, mudam se as vontades,
muda se o ser, muda se a confiança;
005 todo o mundo é composto de mudança,
Amor é um fogo que arde sem se ver, tomando sempre novas qualidades.
diferentes em tudo da esperança;
Continuamente vemos novidades, do mal ficam as mágoas na lembrança,
diferentes em tudo da esperança; e do bem (se algum houve), as saudades.
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria, e, enfim,
O tempo cobre o chão de verde manto, converte em choro o doce canto.
que já coberto foi de neve fria, e, enfim,
converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
E, afora este mudar se cada dia, que não se muda já como soía*.
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía. Luís Vaz de Camões

030 1. Assinale a alternativa em que se analisa corretamente o


Sete anos de pastor Jacob servia sentido dos versos de Camões.
Labão, pai de Raquel, serrana bela; a) O foco temático do soneto está relacionado à
mas não servia ao pai, servia a ela, instabilidade do ser humano, eternamente insatisfeito
e a ela só por prémio pretendia. com as suas condições de vida e com a inevitabilidade da
morte.
Os dias, na esperança de um só dia, b) Pode-se inferir, a partir da leitura dos dois tercetos,
passava, contentando se com vê la; que, com o passar do tempo, a recusa da instabilidade se
porém o pai, usando de cautela, torna maior, graças à sabedoria e à experiência
em lugar de Raquel lhe dava Lia. adquiridas.
c) Ao tratar de mudanças e da passagem do tempo, o
Vendo o triste pastor que com enganos soneto expressa a ideia de circularidade, já que ele se
lhe fora assi negada a sua pastora, baseia no postulado da imutabilidade.
como se a não tivera merecida; d) Na segunda estrofe, o eu lírico vê com pessimismo as
mudanças que se operam no mundo, porque constata que
começa de servir outros sete anos, elas são geradoras de um mal cuja dor não pode ser
dizendo: —Mais servira, se não fora superada.
para tão longo amor tão curta a vida. e) As duas últimas estrofes autorizam concluir que a ideia
de que nada é permanente não passa de uma ilusão.
020 2. (Unicamp)
Transforma se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar; Leia o seguinte soneto de Camões:
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada. Oh! Como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha.
Se nela está minha alma transformada, Como se encurta, e como ao fim caminha
que mais deseja o corpo de alcançar? este meu breve e vão discurso humano.
Em si sòmente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada. Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha.
Mas esta linda e pura semideia, Se por experiência se adivinha,
que, como um acidente em seu sujeito, qualquer grande esperança é grande engano.
assi co a alma minha se conforma,
Corro após este bem que não se alcança;
está no pensamento como ideia: no meio do caminho me falece,
[e] o vivo e puro amor de que sou feito, mil vezes caio, e perco a confiança.
como a matéria simples busca a forma.
Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
QUESTÕES VESTIBULAR: se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperança.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança; a) Na primeira estrofe, há uma contraposição expressa
todo o mundo é composto de mudança, pelos verbos alongar e encurtar. A qual deles está
tomando sempre novas qualidades. associado o cansaço da vida e qual deles se associa à
proximidade da morte?
Continuamente vemos novidades,
b) Por que se pode afirmar que existe também uma às portas da cobiça e da vileza;
contraposição no interior do primeiro verso da segunda
estrofe? cá neste escuro caos de confusão,
cumprindo o curso estou da natureza.
c) A que termo se refere o pronome “ele” da última Vê se me esquecerei de ti, Sião!
estrofe?

3. (Unicamp)
a) a) Uma oposição espacial configura o tema e o
Leia o soneto abaixo de Luis de Camões. significado desse poema de Camões. Identifique essa
oposição, indicando o seu significado para o conjunto dos
versos.
Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento, b) b) Identifique nos tercetos duas expressões que
o gosto de um suave pensamento contemplam a noção de desconcerto, fundamental para a
me fez que seus efeitos escrevesse. compreensão do tema do soneto e da lírica camoniana.

Porém, temendo Amor que aviso desse 5. Na Lírica de Camões:


minha escritura a algum juízo isento, a) o metro usado para a composição dos sonetos é a
escureceu-me o engenho com tormento, redondilha.
para que seus enganos não dissesse. b) a mulher é vista em seus aspectos físicos, despojada de
espiritualidade.
Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos c) cantar a pátria é o centro das preocupações.
a diversas vontades! Quando lerdes d) encontra-se fonte de inspiração de muitos poetas
num breve livro casos tão diversos, brasileiros do século XX.
e) encontram-se sonetos, odes, sátiras e autos.
verdades puras são, e não defeitos...
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos! 5. ENEM

a) Nos dois quartetos do soneto acima, duas divindades Texto I


são contrapostas por exercerem um poder sobre o eu
lírico. Identifique as duas divindades e explique o poder XLI
que elas exercem sobre a experiência amorosa do eu
lírico. Ouvia:
Que não podia odiar
b) Um soneto é uma composição poética composta de 14 E nem temer
versos. Sua forma é fixa e seus últimos versos encerram o Porque tu eras eu.
núcleo temático ou a ideia principal do poema. Qual é a E como seria
ideia formulada nos dois últimos versos desse soneto de Odiar a mim mesma
Camões, levando-se em consideração o conjunto do
poema? E a mim mesma temer.

4. (Unicamp) HILST, H. Cantares.


São Paulo: Globo, 2004 (fragmento).
Leia o soneto abaixo, Luís Camões: Texto II

Cá nesta Babilônia, donde mana Transforma-se o amador na cousa amada,


matéria a quanto mal o mundo cria; Por virtude do muito imaginar;
cá donde o puro Amor não tem valia, Não tenho, logo, mais que desejar,
que a Mãe, que manda mais, tudo profana; Pois em mim tenho a parte desejada.

cá, onde o mal se afina e o bem se dana, Nesses fragmentos de poemas de Hilda Hilst e de
e pode mais que a honra a tirania; Camões, a temática comum é:
cá, onde a errada e cega Monarquia
cuida que um nome vão a desengana; a) O “outro” transformado no próprio eu lírico, o que se
realiza por meio de uma espécie de fusão em um só.
cá, neste labirinto, onde a nobreza,
com esforço e saber pedindo vão
b) A fusão do “outro” com o eu lírico, havendo, nos b) valorizarem o excesso de enfeites na apresentação
veros de Hilda Hilst, a afirmação do eu lírico de que pessoal e na variação de atitudes da mulher, evidenciadas
odeia a si mesmo. pelos adjetivos do poema.
c) O “outro” que se confunde com o eu lírico, c) apresentarem um retrato ideal de mulher marcado pela
verificando-se, porém, nos versos de Camões, certa sobriedade e o equilíbrio, evidenciados pela postura,
resistência do ser amado. expressão e vestimenta da moça e os adjetivos usados no
d) A dissociação entre o “outro” e o eu lírico, porque o poema.
ódio ou o amor se produzem no imaginário, sem a d) desprezarem o conceito medieval da idealização da
realização concreta. mulher como base da produção artística, evidenciado
e) O “outro” que se associa ao eu lírico, sendo tratados, pelos adjetivos usados no poema.
nos textos I e II, respectivamente, o ódio e o amor. e) apresentarem um retrato ideal de mulher marcado pela
emotividade e o conflito interior, evidenciados pela
expressão da moça e pelos adjetivos do poema.
6.
7. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Leda serenidade deleitosa, Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Que representa em terra um paraíso; Todo o Mundo é composto de mudança,
Entre rubis e perlas doce riso; Tomando sempre novas qualidades.
Debaixo de ouro e neve cor-de-rosa;
Continuamente vemos novidades,
Presença moderada e graciosa, Diferentes em tudo da esperança;
Onde ensinando estão despejo e siso Do mal ficam as mágoas na lembrança,
Que se pode por arte e por aviso, E do bem (se algum houve...) as saüdades.
Como por natureza, ser fermosa;
O tempo cobre o chão de verde manto,
Fala de quem a morte e a vida pende, Que já coberto foi de neve fria,
Rara, suave; enfim, Senhora, vossa; E em mi[m] converte em choro o doce canto,
Repouso nela alegre e comedido:
E, afora este mudar-se cada dia,
Estas as armas são com que me rende Outra mudança faz de mor espanto:
E me cativa Amor; mas não que possa Que não se muda já, como soía*.
Despojar-me da glória de rendido. CAMÕES, Luís de. Rimas (1ª parte). Obra completa. Rio
CAMÕES, L. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova de Janeiro: Aguilar, 1963. p. 284.
Aguilar, 2008. * “soía” (v. 14) - Imperfeito do indicativo do verbo soer,
que significa costumar, ser de costume.

A leitura dos dois tercetos permite inferir:


(01) Há ritmos diferentes de mudança, a depender do
momento da vida do indivíduo.
(02) A rejeição da instabilidade se torna maior, com o
passar do tempo, em decorrência da sabedoria e da
experiência adquiridas.
(04) Há diferenças entre os processos de mudança na
natureza e aqueles que ocorrem com o ser humano.
(08) O processo de mudança na vida dos indivíduos cessa
com o decorrer do tempo, atingindo-se a estabilidade.
SANZIO, R. (1483-1520) A mulher com o unicórnio. (16) A ilusão de que nada é permanente acompanha o ser
humano em todos os momentos de sua existência.
Roma, Galleria Borghese. Disponível em:
www.arquipelagos.pt. Acesso em: 29 fev. 2012. (Foto: (32) Cada vez que algo muda no universo mudam-se
também as concepções mais arraigadas dos indivíduos.
Reprodução/Enem)
(64) O processo de mudança exterior ao indivíduo é
A pintura e o poema, embora sendo produtos de duas sempre constante, embora haja uma modificação na
forma de percepção dessa mudança.
linguagens artísticas diferentes, participaram do
mesmo contexto social e cultural de produção pelo fato
de ambos

a) apresentarem um retrato realista, evidenciado pelo


unicórnio presente na pintura e pelos adjetivos usados no
poema.