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Maria Firmino dos Reis, Brasil, 1850, Ursula, Escravidão no Brasil, como

nos vemos, o que fomos, o que somos?


Jacqueline Arantes

NOTAS DE APRESENTAÇÃO traçado as suas informações mais


importantes.
"O que escrevemos é um Assim como em qualquer obra, é
caminho que se mostra, a escrita
é uma trilha pra dentro de nós. desafiador falar sobre algo que alguém já
Escrever é oferecer uma rota, tenha sintetizado ou escrito como
uma estrada possível: uma
importante, e aqui nada será diferente,
viagem ao interior. Toda escrita é
um convite...se não for porque farei sínteses e apontamentos que
diretamente pra dentro, pra já foram palco de discussão de leituras e
algum lado, inevitavelmente,
vai."(Gessé Paixão, professor, releituras que discorreram sobre o não
músico e artista capixaba) principal da obra Ursula.
Logo, partiremos do pressuposto
É espantoso de alguma forma que há sempre mais um que se sente
iniciar pelas notas, pelo menos para mim. inco​modado sobre uma determinada ação e
Parece que esse espaço é tomado pela a fala sobre o ato de duas pessoas
busca de explicar a síntese do que já foi convergentes terá algo em consonância
escrito. Mas se foi pedido criatividade e para discorrer sobre suas posições
audácia para escrever esse trabalho, talvez próximas. A isso denominaremos grupos
um espaço audacioso seja iniciar pelo que de consenso, espaços esses que culminam
de fato me anima escrever: falar daquilo na construção de paradigmas e quem sabe
que nunca é principal. Por isso decidi outras teorias de conhecimento.
iniciar pensando aqui o texto e como será
Como foi mencionado, esse ensaio rede pública na cidade de Guimarães no
não terá a preocupação de apresentar uma Estado do Maranhão.
síntese da obra completa de Ursula, o que Para iniciar essa discussão
importa para mim é o como a primeira antiescravista é importante o porquê de
mulher, negra, maranhense romancista do utilizar essa romancista como também uma
Brasil descreveu e interpretou as ações dos porta voz da história de Brasis. Chamo de
negros e das negras e para com eles em seu Brasis e não de Brasil para respeitar sua
romance. O que ela evidenciou como imensidão, seus povos que aqui habitam.
aspectos importantes e simbólicos dessas Chamo de Brasis para compreender suas
pessoas que foram retiradas de sua terra diversas culturas e sentimentos que nesse
para trabalhar forçadamente no Brasil. território continental é impossível
Pois bem, a partir daqui me atenho normatizar culturas e pessoas diversas
às necessidades do texto principal do colocando em um entendimento único de
ensaio. Espero que se deliciem como eu nação.
nessa empreitada de vislumbrar o que A partir dessa concepção que não
Maria Firmino dos Reis quis nos passar somos um e sim múltiplos que convergem
sobre esse momento histórico chamado de alguma maneira para escrever a história
Escravidão no Brasil e procurem conhecer deste país, começamos pelo percurso de
mais sobre essa romancista. saber o que acontecia no Maranhão no
Peço aqui também licença para momento que a autora Reis lançou o seu
escrever em alternância da primeira pessoa romance.
do singular e a primeira pessoa do plural, Entre 1800-1850 o debate mais
pois compreendo que se estou falando acalorado nessa terra era sobre as
sobre o Brasil e sua história isso me diferenças entre brasileiros nativos e
compõe e eu também o componho quando brasileiros naturalizados. Em São Luís,
o analiso por meio de uma intérprete, que com maioria da sua população oriunda do
no caso aqui é Maria Firmino dos Reis, contato do branco com a indígena e
uma mulher como eu. trabalhadores de serviços pesados, os
negros.
INÍCIO O Movimento da Balaiada
(1838-1841) travou uma guerra em favor
Maria Firmino dos Reis dos que já estavam na terra contra aqueles
(1822-1917), quanta grandiosidade há em recém chegados que infelizmente, mesmo
escrever o nome completo dessa mulher em poucos, dominaram a maior parte da
negra e pensar sobre a façanha de ter terra e dos mandos do território com ajuda
conseguido ser importante em 1850, ano da metrópole.
da publicação do seu romance Ursula, e Essas coisas fazem pensar como
por um ensurdecimento cultural apenas ser dentro do Brasil alguns de seus espaços
redescoberta em 1962 em um sebo pelo estão perdidos em sebo literários. Logo,
historiador Horácio de Almeida. falar de Reis é tornar viva várias vozes.
Reis, aos 22 anos foi selecionada Outro fator que possa ser
em um concurso público para lecionar na referenciado nesse artigo e que demonstra
também desacordo e importância da contexto de vida, pois escreve nos bons e
presença de Reis na história e que próximo áureos tempo de escravidão no Brasil.
ali na região do Recife, há três séculos Alguns movimentos críticos que
anteriores iniciou-se uma das maiores lideram politicamente a pauta em defesa
revoltas das pessoas escravizadas e a dos e das descendentes das pessoas
construção da maior quantidade de africanas que vieram para o Brasil para ser
quilombos que o Brasil que já possuiu em escravizadas, colaboram em embate e
suas terras- A Revolta de Zumbi dos formação da consciência. Esses
Palmares. movimentos, que nem sempre são os
Depois de 33 anos da sua obra, a movimentos específicos negros, quando se
Princesa Isabel veio ao Brasil assinar a fala em lutas travadas em prol da
carta de abolição da escravidão sem conservação identitária de um grupo há
mediar nada em favor dos recentes sempre ressalvas acaloradas sobre a
libertos. importância ou não em discorrer sobre elas
Por isso, a obra de Reis é tida como e se isso não retornaria em uma espécie de
avassaladora e integrante. Mesmo tendo apartheid do que é central para todas as
sua mãe branca e sendo registrada por pessoas. E é nessa inconstância de colocar
outro homem que não era o seu pai, ela a alteridade (respeitar o outro que é
condena a escravidão dando 4 capítulos diferente de mim) existem os sub
inteiros de sua obra em favorecimento a julgamentos, julgamentos e até
descrição de como era a escravidão de acirramentos de disputas sem voltas sem
fato, ou seja, nasce com ela a literatura analisar fatores substâncias, ou seja, como
antiescravista. negar a representação do sexo, da raça e do
Os personagens Túlio e Susana gênero na personalidade de uma pessoa
mesmo que ao final do romance morram inserida em uma comunidade fazem e
de maneira injusta e pela mão do corroboram de alguma maneira para
Comendador Fernando, tio de Ursula, invisibilizar a construção de uma
Reis os dota de companheirismo, identidade por meio das pessoas.
compaixão e ações conscientes voltadas E é nesse caminho que Reis abre
para a sua liberdade com dignidade. um caminho genioso, por meio da escola
Alguns críticos, fáceis de ser mista e confortável para as mulheres
encontrados na internet, pois trabalhos negras na literatura do Brasil, tão
científicos ainda são tímidos, dizem que confortável que até Conceição Evaristo
seu texto ainda teve um protagonismo de não exitou de fazer a sua própria
brancos e dos senhores, donos de pessoas candidatura à academia brasileira de letras
escravizadas, mas como foi falado acima, para ocupar a cadeira que foi de Castro
ter tamanha ousadia na vida e na escrita Alves.
em reconstruir fatores históricos que antes Por fim, é com toda essa liberdade
eram tidos como normatizados e colocados que inicio o ensaio sobre Maria Firmino
como um ato de crueldade e violência, já dos Reis, liberdade essa que repercutiu em
deve ser dada a estima merecida sobre o toda a sua trajetória de vida.
empoderamento de seu tempo e seu
A OBRA URSULA, O QUE TEM modo pode nos parecer um tanto
SOBRE ESCRAVIDÃO DENTRO contraditório a exaltação de Deus de
DELA maneira católica por Túlio, uma vez que
essa religiosidade não é própria da cultura
Escutar a fala de uma pessoa em negra , mas é preciso ir além e perceber
situação de escravidão é perceber o quanto que o pano de fundo apontado pela autora
é grave a ação de retirar a liberdade de traz a reflexão não só da divindade
uma pessoa. É como se fosse possível reconhecida pelo catolicismo e sim um
escutar o relato da obstrução da própria ponto comum entre as religiosidades que é
subjetividade que move de alguma o amor ao próximo. O respeito como
maneira todas as suas estruturas que Tancredo trata Túlio demonstra a empatia
objetivam suas ações. Penso muito sobre pela condição desumana e uma não
isso, uma vez que por ser mulher também aceitação a esse processo que desqualifica
me envolva em situações que imobiliza a e submete um ser humano em relação ao
igualdade e o direito a liberdade dentro das outro.
relações sociais. E partes do romance de Com a frase "porque a alma está
Maria Firmino dos Reis vêm a esse encerrada nas prisões do corpo!"(p.40) é
encontro, ao encontro de expor de maneira possível considerar ainda mais essa prisão
racional e consciente a dor, a submissão da que atormenta a escravidão. As
pessoa escravizada diante da vida que lembranças da liberdade de Susana em sua
possui e não foi escolhida por ela, ou seja, terra natal tornam-se longínquas a tal
viver uma vida que não tenha capacidade ponto de não serem mais imaginadas e a
alguma de caracterizar de fato o que é o busca de um tutor ou senhor menos
ser humano o qual encontra-se nesse truculento torna-se o objetivo de vida. No
processo. caso de Túlio, Tancredo representa a
E por isso e por tantos outros possibilidade de um caminho com um
motivos que não consigo racionalizar amigo e por isso queria curá-lo para viver
sobre eles, que tecerei algumas esse sentimento grandioso em meio a sua
considerações sobre os espaços dedicados condição de vida.
às pessoas em situação de escravidão no Na página 43 a alforria de Túlio
romance Ursula. Peço licença aos e às torna-se um ato consumado provocando e
leitoras deste ensaio, mas vou ser bastante mencionado como a liberdade de um
descritiva nesse percurso, uma vez que determinado ser humano consegue a
para entendermos essa grandiosa obra é liberdade novamente, essa que é parte
importante não fazermos vistas grossas integrante de sua vida desde o seu
sobre as relações sociais que são nascimento.
colocadas. Uma das partes mais cativantes está
No intervalo das páginas 24 a 28 entre as páginas 131 a 139, pois registra o
Reis elabora um conexão entre relato de Susana de como foi a sua vinda
sentimentos religiosos e a ação de Túlio para o Brasil. E mais uma vez contrariando
(uma pessoa escravizada) no momento que as certezas que subvertem o senso comum
encontra Fernando enfermo. A grosso de interpretar os negros como seres que
tomaram nossas terras ou que por ordem velha que conheceu a sua mãe e partilhou
de Deus deveriam ser escravizados a a sua dor na infância. Essa relação de
benefício do povo escolhido de Allá, essa solidariedade repercutirá depois em teses e
personagem se coloca para dizer o quanto mais teses sobre irmandades e identitária
ela não queria ter vindo ao Brasil e que a entre os povos negros que vieram para o
dor que acompanha só passará depois de Brasil.
sua morte. Essas noves páginas foram
dissertadas por Reis descrevendo como PAPEL DE MARIA FIRMINO REIS E
ocorriam a captura dos e das africanas em CRÍTICAS AO ROMANCE
seu país de origem e como foram tantas
travessias até chegar ao Brasil. Travessias Mesmo que dentro da esfera
essas que repercutem a violência e maus universitária a crítica, palavra, sentido e
tratos entre iguais. Semelhança essa que sentimento, seja expressa como um ápice
foi retirada de negros e negras por tempos de qualquer pessoa estudante para o seu
percorridos até hoje. triunfo, peço licença para alicerçar minha
Se não bastasse crucificar as escrita em outra vontade. Alicerço a minha
memórias e a liberdade, os corpos das interpretação em pontos que somam
pessoas escravizadas eram utilizadas como positividade a evolução do entendimento
pagamentos de dívidas e vinganças sob os de que a escravidão nunca foi e nunca
brancos ou brancas que possuíam afeição poderá ser um espaço necessário a
sobre eles. Túlio ao remontar a narrativa qualquer desenvolvimento humano. E isso
da história de sua mãe e do porque fora não está nem perto de ser uma crítica, por
retirado dos seus braços relata bem o uso que falo de um fato.
de seus corpos para os anseios vingativos Maria Firmino dos Reis nasce e
da casa grande. Essa contação de história vive em um local que foi o quarto a
feita nas páginas 200 a 204 ajudam na receber o maior número de pessoas
compreensão de que sentimentos como traficadas para o Brasil, por isso nos dias
resiliência, paciência eram os que atuais é o segundo com maior número de
acalentava os corações e não deixavam autodeclarantes negros e isso também pode
que loucura pudessem fazer parte de suas ser percebido alongado a interpretação
vidas. Assim se confirma na p.217 esse pelas tradições culturais: musicais,
fato que mesmo que o senhor de escravos religiosas e costumes.
os chicoteava não havia nenhuma forma de A maioria das pessoas vieram da
indignação perante a ele. região norte da África. Com nenhuma
Os capítulos intitulados Túlio e responsabilidade e respeito dos que
Dedicação retratam relações sociais entre atravessam esses povos e sem a devida
as pessoas escravizadas, sem importasse autorização em seu embarque, os retiram
muito com o Fernando, aquele que dos navios e os batizam em uma religião
guardava sua posse, tinham relações de que não era a deles. Com essa ação
envolvimento e respeito em si. Ao escapar sangrenta o amor ainda prevalece e nunca
da prisão Túlio preocupasse como não abandonam suas próprias tradições. Por
atribuir dor a pessoa escravizada mais isso damos graças tanto culturais como
legais a tanta influência desses povos em o que acreditam. O sangue pode
nosso cotidiano. interceptar e fortalecer muitos laços, mas
Essa diversidade cultural travada quando reconhecemos o outro isso pode
da resistência de não esquecer o que foi e o criar uniões nunca mais desfeitas e a
que é a liberdade faz compreendermos de grande resposta e comprovação disso é a
fato a história que os e as próprias negras própria evolução do ser humano que o
escrevem. Nós, que não sofremos com as tornar o que é.
violências e desdobramentos da escravidão
tendenciosamente acreditamos que as SOBRE A AUTORA DO ENSAIO
escritas detalhadas do período são apenas
de ódio, pode ser, mas é um ódio que Jacqueline Arantes é educadora
culmina na busca da libertação a qual deve popular, promotora legal popular e
ser respeitada em todas as nossas ações, graduanda em Ciências Sociais pela
mesmo que não entendamos o quanto Universidade Estadual Paulista '’Júlio de
aquilo é importante para uma outra pessoa. Mesquita Filho".
Outro fator é a educação que
sempre foi um ponto crucial a qualquer REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
nação, o problema está em quem pode
acessá-la e Reis transpõe em 1822 a REIS​, Maria Firmino. Ursula. primeira
barreira da escola em um cidadela dando edição digital, disponível em:
aulas para meninos e meninas https://drive.google.com/file/d/12ihh1OHn
conjuntamente em uma sala, dando o N5h7f7L-hyOMVUDjfTrjnJXo/view?usp
direito a todas as crianças a educação. =sharing​, 15 de junho de 2019.
A luta pelo racismo sempre foi
percebida no chão maranhense e a Revolta
da Balaiada é o seu símbolo. Uma revolta
que veio do povo pobre junto com negros
fugidos e libertos. O líder, Cosme, tinha
uma preocupação enorme com a educação,
pois acredita que era o caminho para
atingir a liberdade, pois as pessoas
precisavam libertar as suas mentes daquilo
que havia acontecido com elas. O legado
até hoje conquistado é ter a história da
África dentro do currículo comum das
escolas públicas.
Por essas coisas e outras que
referenciar essa autora e perder um tempo
para saber quem é ela, demonstra empatia
da nossa parte em perceber porque as
pessoas falam da maneira como falam e se
articulam na vida como podem para fazer