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VOX DEI AMERICAN UNIVERSITY

CENTRO DE ESTUDOS E APERFEIÇOAMENTO DE PSICANÁLISE


TELS.: BR: 11.99911-1896 • 19.3329-0013 • US: 305.906-8122

PROGRAMA DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL


E LICENCIAMENTO CLÍNICO
Curso: Psicanálise
Disciplina: 1 – Da Psicologia à Psicanálise
Coordenação: Dr. José A. Peraçoli Moreno, Analista Didata

Supervisão:
Dr. Sharles Ribeiro da Cruz, Psicanalista
Dr. Walter Euler Martins, Psicanalista
Dr. Roque Noli Bakof, Psicanalista

LIÇÃO 1 – AVALIAÇÃO

* Consultar adicionalmente o livro Fundamentos Psicanalíticos, de David E. Zimerman, Editora


Artes Médicas, São Paulo: 1999. Primeira Parte: Aspectos Gerais, págs. 19 a 74.

* Responder o questionário e enviar para o CEAP datado, rubricado em cada página e assinado no
final.
Texto Básico
DA PSICOLOGIA À PSICANÁLISE

Certamente você sabe muito bem, através da psicologia corrente, que não se tinha, até bem
pouco tempo, nenhuma noção, a não ser metafísica, dos fatos inconscientes propriamente ditos.
Falava-se, por outro lado, de fatos subconscientes e conscientes. Tudo isto, porém, era
estudado em conjunto, na vida psíquica, conhecendo-se apenas tais fenômenos pelos seus efeitos,
mais ou menos imediatos, mas sem análise detida quanto à elaboração desses processos mentais.
Os fenômenos subconscientes eram aqueles que ficavam na fímbria da consciência,
enquanto um deles ocupava o centro da vida consciente, focalizado pela atenção.
Exemplo:
Um indivíduo concentra a sua consciência numa determinada leitura. Todos os fatos
subconscientes, que vivem em torno da consciência, são, no momento, afastados pela centralização
da atenção no assunto em apreço. Se uma pessoa qualquer, entretanto, diz, por esta ocasião, uma
frase que interessa o indivíduo que está lendo, ele poderá apreciá-la, de pronto, de maneira
imediata; o que prova que a “frase proferida” pelo outro estava sendo ouvida de modo
subconsciente.
Outras vezes estamos lendo um trecho literário com toda atenção. De repente, alguém nos
faz uma pergunta. Damos, muitas vezes, a resposta sem desviarmos a atenção do “trecho literário”.
Quer dizer: respondemos à pergunta automaticamente. Ou melhor, a resposta é, neste caso,
essencialmente subconsciente.
Assim explica a Psicologia os fatos subconscientes.
A consciência é, para os psicólogos da escola tradicionalista, uma “variação que vai desde os
processos que avizinham com a subconsciência até a perfeita e intensa representação dos estados
de Atenção”.
O inconsciente, ou melhor, os fatos inconscientes, não podem, para eles, ser objeto de um
estudo direto, embora não neguem a sua existência pela apreciação de seus resultados no todo
psíquico.
Concluímos, portanto, que até então a Psicologia estudava os fenômenos do psiquismo
humano em síntese, não podendo separá-los; fenômenos estes que, em última análise, eram
apreciados pelos diferentes graus e espécies da ATENÇÃO. O esquema abaixo esclarece o que foi
dito acima.

Esquema 1

É como se os fatos subconscientes se achassem em torno da consciência, como as libélulas


quando giram em redor de um foco luminoso.
Tais fatos não passam, afinal de contas, de processos inconscientes. Pois se encontram na
órbita da consciência. Apenas são considerados subconscientes enquanto o centro da consciência
não pode deter, num dado momento, a representação psíquica subconsciente. Por isso, é preferível
chamá-los de semiconscientes.
Assim, eles são atualizados, cada qual de per si, quando centralizados na consciência através
dos diversos graus e espécies de atenção. (*)
Mas, como e por que ficam essas ideias soltas, semiconscientes, à espera de se tornarem
conscientes num dado instante?
Se, muitas vezes, respondemos imediatamente à pergunta que se nos fazem, quando estamos
com a atenção voltada para um determinado assunto; outras vezes, isto não nos é possível? Por quê?
Será por que não tenhamos consciência de que sabemos a resposta?
Absolutamente. Já vimos que podemos responder, sem dificuldade, de maneira imediata, a
qualquer pergunta que nos é feita quando estamos com a atenção voltada para um determinado
objeto. Isto é, com a consciência centralizada.
Ora, se em outras ocasiões já não é possível respondermos, nem por isso deixamos de

( *) A consciência tem como característica especial, se não determinante, a atenção. Esta

concentra todas as energias psíquicas na representação de um objeto. Há duas formas gerais de atenção, em

diferentes graus: a atenção espontânea e a atenção refletida ou voluntária. No primeiro caso, a consciência é
concentrada espontaneamente. No segundo, a atenção surge pelo desejo de conhecer, etc. Quando, por

exemplo, lemos um romance, com interesse, o fazemos por intermédio da atenção voluntária. Ao contrário,
quando ouvimos, de súbito, um forte estampido, somos despertados pela atenção espontânea.
“sentir” que sabemos solucionar à interrogação. Logo, temos “consciência” de que procurando bem,
dando “tratos à bola”, digamos assim, havemos de encontrar a resposta solicitada.
Mas por que da primeira vez respondemos tão facilmente e já agora encontramos sérias
dificuldades de memória? Tudo isto será objeto de mais um detido exame. E para maior clareza
havemos de nos utilizar dos exemplos. Tomemos assim o segundo caso referido.
Um indivíduo lê uma página literária atentamente. Responde, de súbito, com a maior
facilidade, à pergunta feita, etc. Suponhamos que, dias depois, ocorra o mesmo episódio, a mesma
cena, o mesmo fato. E o indivíduo é impossibilitado de responder.
Esquece-se, embora momentaneamente, da resposta. Suspende a leitura. Concentra a
consciência. Procura a palavra, ou a frase, desejada para explicar ao interlocutor a pergunta que este
lhe fizera. Mas é impossível. Não se lembra, apesar de ter a certeza de que a sabe.
Ainda mais: a resposta está na “ponta da língua”. Continua, entretanto, “presa”, “insolúvel”!
O indivíduo desiste. Retoma a leitura, despreocupadamente. Às páginas tantas, subitamente,
a frase, a palavra, a resposta procurada, enfim, aflora à consciência!
Que se passou no mecanismo psíquico? Quem escondeu a frase tantas vezes solicitada? Por
que não veio ela à luz da percepção no instante oportuno? Não era a “resposta” em apreço um fato
subconsciente e que, portanto, ali estava, no limite da consciência, para se tornar objeto da nossa
atenção voluntária desde que fosse preciso? Ou, ainda: ali tão perto para ser percebida de maneira
“automática” ou, propriamente, de forma subconsciente?
Conclui-se daí, então, que os fatos subconscientes vão e voltam à consciência, centralizados
às vezes pela “atenção” e outras vezes estão tão próximos que não é necessário o concurso desta
para eles se exteriorizarem, porque o indivíduo pode ler ou responder a perguntas de modo
“automático”, ou subconsciente. Porém, tudo isto em certas e determinadas circunstâncias.
Dir-se-ia que os fatos subconscientes ficam, pois, à mão da nossa percepção interna para
serem utilizados quando desejamos (este verbo é empregado aqui no sentido corrrente). Mas nem
sempre eles nos são submissos. De um momento para outro, se escondem, agindo, assim, como
pequeninos traidores da nossa vida psíquica consciente.
Certamente, esses fatos subconscientes encontram algum obstáculo. Há “qualquer coisa”
que impede os seus reaparecimentos na consciência, de que não nos dá nenhuma explicação a
Psicologia tradicionalista.
Assim é. A psicologia só estuda o todo psíquico. Os fatos subconscientes vivem, por assim
dizer, em plena consciência. Apenas um deles é centralizado pela “atenção”. Enquanto isto se passa,
outros circundam o “centro” – que os psicólogos chamam de consciência propriamente dita.
Concluiremos, portanto, que um indivíduo é capaz de responder a uma pergunta qualquer, de
maneira subconsciente, o que faz “automaticamente”, porque o centro da consciência acha-se
ocupado por uma determinada representação e para o qual convergem todas as energias psíquicas,
movidas pela “atenção”.
Em síntese: a Psicologia estuda a vida psíquica consciente, não tendo senão uma ideia
vaga do inconsciente. Há, por assim dizer, uma consciência em conjunto, cujas ideias entram
em foco, centralizadas pela atenção. Nada mais.
Ao contrário, para Sigmund Freud, os fenômenos mentais são estudados de modo diverso e
o inconsciente que, para a antiga escola, não pode ser objeto direto de análise é, segundo os
ensinamentos da Psicanálise, a única razão de ser de sua doutrina.
Assim, quando observamos que uma ideia tinha livre curso na consciência e que depois
custa a se apresentar, concluímos que essa ideia foi atraída para longe, para outra região do espírito.
Em uma palavra: para o inconsciente.
A fuga dessa mesma ideia há de estar forçosamente ligada a algum motivo. Deve haver
alguma razão plausível para que ela já se apresente com dificuldade. Há “qualquer coisa” que
resiste à sua exteriorização.
Do contrário, o inconsciente não a atraía. Mas ainda precisamos insistir no mesmo exemplo
da explicação anterior.
Suponhamos que a “resposta” vem mais uma vez, embora com enorme dificuldade, à tona
do consciente. Passa-se o tempo. Muito tempo, muito tempo mesmo. Um belo dia, a mesma
pergunta é feita ao indivíduo em questão. E a pessoa “esqueceu” completamente de dar a solução
solicitada à pergunta exigida. E diz, excitado:
– Eu sabia muito bem “isso”. Mas não há meio de me lembrar.
Se é, por exemplo, um fato histórico que não lembra, terá o indivíduo que procurar, de novo,
a explicação do episódio num livro da sua estante. Se é a simples deslembrança do número de um
telefone, terá a pessoa que recorrer ao catálogo telefônico, etc.
Estes exemplos superficiais servem para o seguinte esclarecimento:
Uma ideia aparece e reaparece na consciência, sem nenhuma dificuldade. É uma ideia
capaz de se tornar consciente.
Depois, ela aparece e reaparece na consciência com alguma dificuldade.
A mesma ideia, finalmente, não mais reaparece na consciência.
Ora, se eu tenho entrada livre na casa de um amigo, onde os membros da família me acatam
e, de uma hora para outra, começo a notar uma certa má vontade deles em me receber, para depois
de eu insistir nas visitas o meu amigo não mais me receber, é óbvio que eu, fazendo um balanço dos
meus atos, das minhas atitudes de comportamento, etc., venha a descobrir o motivo, ou os motivos
dessa ruptura de relações amistosas.
Da mesma maneira, pesquisando o “porquê” de uma ideia aparecer ou fugir inteiramente da
consciência levou Freud a encontrar uma explicação para isto.
Certamente, tais ideias hão de ser atraídas “para dentro” por alguma força, encontram certa
“barreira”; ou melhor, “resistência” no momento do novo acesso à nossa consciência.
Essa “resistência” se torna tanto mais violenta quando deixam esses elementos psíquicos de
comparecer definitivamente ao serviço de nossa memória.
Havemos, por isso, de considerá-los latentes em nosso espírito. Isto é, teremos que admitir
que, durante a fuga da consciência, essas ideias hão de ficar escondidas em algum lugar da nossa
vida psíquica.
Já com esta conclusão, aliás sumária, não nos é mais possível conceber o psiquismo
englobadamente em um só dinamismo consciente. E encontramos, portanto, outros fatores
inibitórios na simples manifestação das representações psíquicas, apenas solicitadas pela atenção.
A atenção voluntária já não é desse modo suficiente para centralizar uma determinada ideia
na consciência. Se o fosse, estaríamos sempre prontos a responder a uma pergunta que nos é
conhecida, à qual, várias vezes, damos solução imediata e até mesmo de maneira automática.
Entretanto, isto nem sempre acontece. Não raro, esquecemos. E, apesar de estarmos com a
atenção voltada para o assunto a ser respondido, não o encontramos de maneira alguma.
Se é uma palavra, nos vem mil e uma parecidas, idênticas, alusivas e que substituem a
procurada; mas a verdadeira fugiu... Pode-se dizer que as outras correm atrás dela brincando de
esconder e às vezes (quantas vezes!) não a encontram.
Pois bem, é aí precisamente que começa a Psicanálise, com a descoberta de uma outra região
do espírito e que se chama INCONSCIENTE.

Leitura complementar:

Vocabulário da Psicanálise, de J. Laplanche e J. B. Pontalis, Editora Martins Fontes, Santos: 1970.


Verbetes: Aparelho psíquico, Consciência, Inconsciente, Inconsciente (ramificação ou derivado do),
Psicanálise, Subconsciente, Traço ou vestígio mnésico.
A Árvore da Cura, de Roger F. Hurding, Edições Vida Nova, São Paulo: 1995. Primeira Parte: Ca-
pítulo 5, págs. 91 a 124.
Cuidando do Ser, de Alberto Friesen, Editora Evangélica Esperança, Curitiba: 2000. Capítulo 9 –
Psicopatologia: A Doença Mental e a Igreja, págs. 209 a 258.

Questionário
Sublinhe a resposta correta

(1) Como a psicologia explica os fatos subconscientes?


a. São aqueles fatos que ficam na fímbria da consciência
b. São aqueles fatos que ficam na consciência
c. São aqueles fatos que ficam longe da consciência

(2) Para os psicólogos da escola tradicionalista, a consciência é:


a. A síntese de todos os fatos vivenciados
b. Os processos entre a subconsciência e a atenção
c. Uma voz que orienta os nossos comportamentos

(3) Os fatos representados no esquema 1 devem ser chamados de:


a. Paraconscientes
b. Semiconscientes
c. Intraconscientes

(4) A psicologia estuda:


a. Os fatos psicossociais
b. A vida intrauterina
c. A vida psíquica consciente

(5) Qual foi a descoberta de Freud que deu início à psicanálise?


a. O psiquismo
b. Os hormônios
c. O inconsciente

(6) Redija um texto de 4 ou 5 páginas [Times New Roman - corpo 12] tendo como base o capítulo 1
de Fundamentos Psicanalíticos, de David E. Zimerman, págs. 21 a 29.