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Aletheia 31, p.66-81, jan./abr.

2010

Conjugalidade em contexto de depressão da esposa no final do


primeiro ano de vida do bebê
Giana Bitencourt Frizzo
Ivani Brys
Rita de Cássia Sobreira Lopes
Cesar Augusto Piccinini

Resumo: O presente estudo investigou o relacionamento conjugal no contexto da depressão


materna, no final do primeiro ano de vida do bebê. Participaram do estudo 22 casais, divididos em
dois grupos, um em que a esposa apresentava indicadores de depressão (10), e outro em que não os
apresentava (12), segundo o Inventário Beck de Depressão. Os bebês tinham em torno de 12 meses
de idade, sendo 8 meninas e 14 meninos. O teste Mann-Whitney indicou diferença significativa entre
os dois grupos quanto à depressão, mas não em relação às diversas variáveis sociodemográficas
investigadas. Análise de conteúdo qualitativa das entrevistas indicou que, comparado ao grupo
sem depressão, as esposas com indicadores de depressão relataram mais dificuldades com relação
ao companheirismo e o tempo para o casal, à comunicação e resolução de conflitos e à avaliação
global da qualidade do relacionamento conjugal e sexual. Esses resultados corroboram outros
estudos que têm destacado que a presença de indicadores de depressão na esposa pode trazer
dificuldades para a conjugalidade.
Palavras-chave: relacionamento conjugal; conjugalidade; depressão materna; parentalidade.

Conjugality in context of wife’s depression by the end of the infant’s


first year of life
Abstract: The present study investigated marital relationship in the context of maternal depression,
at the end of the baby’s first year of life. Twenty-two couples, divided into two groups, took part in
the study. In one of them the wife presented depression indicators (10), and in the other there were
no depression indicators (12), according to Beck’s Depression Inventory. The babies were around
12 months, 8 girls and 14 boys. Mann-Whitney test indicated significant differences between the
two groups as far as depression is concerned, but not regarding the several investigated
socio-demographic variables. Qualitative content analysis of the interviews indicated that, compared
to the group without depression, the wives with depression indicators reported more difficulties
regarding partnership and time for the couple, to the communication and resolution of conflicts
and to the global evaluation of the quality of the marital and sexual relationship. Those results
corroborate other studies which have highlighted that the presence of depression indicators in the
wife can bring difficulties for marital relationship.
Keywords: marital relationship; conjugality; maternal depression; parenthood.

Introdução

Devido a algumas condições especíÞcas ao encontro mãe-bebê e pai-bebê, é possível


que a mãe sinta diÞculdades em lidar com as mudanças que sucedem após o nascimento
de um Þlho. Com frequência, durante a transição para a parentalidade, algumas pessoas

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não conseguem preservar seus interesses pessoais e, principalmente, suas relações de casal
(Cramer & Palácio-Espasa, 1993). Waldemar (1998) aÞrma que não é incomum que, em
famílias com Þlhos pequenos, os casais acabem dedicando muito tempo aos cuidados
com os Þlhos, relegando a conjugalidade para um segundo plano. Algumas vezes, esse
pouco investimento na conjugalidade é sentido como um sentimento de insuÞciência, de
fracasso e de esgotamento (Cramer & Palácio-Espasa, 1993).
A qualidade do relacionamento conjugal estabelecido ainda antes do nascimento
do primeiro Þlho pode ser um importante fator de ajustamento nesse período, podendo
inclusive predizer alguns desfechos possíveis. Menezes e Lopes (2007) sugerem que a
estrutura da relação conjugal possui forte inßuência no desenrolar da transição para a
parentalidade, já que esse momento pode potencializar um distanciamento já existente
no casal.
Nesse contexto, a depressão pode ser um fator que traz complicações para o
ajustamento do casal às novas demandas. Uma das formas que a depressão pode afetar
a família é através de um possível aumento de problemas no relacionamento conjugal
(Cummings, Keller & Davies, 2005). Ainda sobre a associação entre depressão materna e
qualidade do relacionamento conjugal, Mayor (2004), em um estudo longitudinal realizado
com participantes de Porto Alegre, sugere que parecem existir diferenças nas famílias com
e sem depressão materna. Nas primeiras, houve maior relato de existência de conßitos,
menor apoio do marido e maior insatisfação conjugal. Interessante notar que, durante
a gestação, as famílias não apresentavam maiores diferenças entre si nesses aspectos.
Foi após o nascimento do bebê que as diferenças entre essas famílias apareceram, sendo
que as famílias com mães deprimidas apresentaram maiores diÞculdades durante essa
transição para a parentalidade, especialmente quanto à satisfação conjugal.
A satisfação conjugal aumenta quando há proximidade, estratégias adequadas de
resolução de problemas, coesão, boa habilidade de comunicação, se os cônjuges estiverem
satisfeitos com seu status econômico e forem praticantes de sua crença religiosa (Norgren,
Souza, Kaslow, Hammerschmidt, & Shlomo, 2004). Mas é possível que esses sejam
alguns fatores também afetados pela presença de depressão e que poderiam, então, levar
a uma maior insatisfação conjugal.
A depressão pode, inclusive, afetar a percepção da mãe quanto ao apoio recebido.
No estudo de Schwengber e Piccinini (2005), as mães deprimidas de Porto Alegre
referiram sentimentos ambivalentes em relação ao apoio social recebido por parte dos
familiares e amigos, além de sentimentos muito ambivalentes em relação ao apoio
recebido do companheiro e a seu papel como pai. Já o estudo de Fritsch e cols. (2005)
mostrou que as mulheres deprimidas tiveram uma avaliação mais negativa da qualidade
de vida familiar e da relação conjugal, posição corroborada por seus parceiros. Beach e
O´Leary (1993) também encontraram que pessoas deprimidas podem avaliar de modo
mais negativo a qualidade do relacionamento conjugal, como uma consequência de seus
sintomas depressivos.
Além disso, conviver com uma pessoa deprimida pode ser sentido como fonte
importante de tensão e angústia emocional para os cônjuges. Benazon e Coyne
(2000) sugerem que o impacto da depressão não se restringe ao indivíduo, pois os
cônjuges de pacientes deprimidos relataram diminuição em suas atividades sociais e

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de lazer, queda na renda familiar e aumento de tensão na relação conjugal. Segundo
Papp (2000), essa sobrecarga sobre o cônjuge sem depressão pode ser ainda maior,
pois se sentir emocionalmente vinculado a uma pessoa, como o cônjuge, pode ser
essencial no alívio da depressão. Para essa autora, o relacionamento conjugal é muito
importante para a mulher após o nascimento do bebê, posição também corroborada
por Trad (1997). Segundo esse ponto de vista, a insatisfação conjugal pode até
mesmo ser um fator de risco para o desenvolvimento de depressão nesse momento
(Alvarado e cols., 2000).
A literatura revisada acima aponta que, quando um membro do casal tem
depressão, pode haver interferências na qualidade das relações familiares, tanto
diretamente, através das interações com a criança, como indiretamente, inßuenciando
as condições do relacionamento conjugal (Braz, Dessen & Silva, 2005). Além disso,
a depressão parental pode alterar o desenvolvimento da criança, ao modiÞcar o
comportamento dos genitores, o que pode acarretar risco, predispondo-a a problemas
emocionais e de comportamento (Jacob & Johnson, 1997). O exercício da parentalidade
requer uma reorganização familiar, em que o bebê é incluído e o casal precisa de uma
nova acomodação para desempenhar as tarefas de cuidado e educação dos Þlhos, sem
esvaziar sua conjugalidade (Minuchin, 1982). Dessa forma, é importante investigar a
qualidade das relações conjugais e seu impacto no desenvolvimento da criança, no seu
ajustamento social (Dessen & Braz, 2000) e na família. Vários estudos têm investigado
particularmente a depressão pós-parto (Field, 1995; Frizzo, 2008) e outros, a depressão
e a maternidade no primeiro ano de vida do bebê (Schwengber, 2007; Schwengber
& Piccinini, 2005), mas poucos têm examinado a conjugalidade neste contexto. De
forma geral, os estudos que investigaram a conjugalidade e a depressão indicaram uma
associação entre estes dois fatores com o surgimento de problemas conjugais (Cramer
& Palácio-Espasa, 1993; Cummings, Keller & Davies, 2005; Frizzo, 2008; Linares &
Campo, 2000; Mayor, 2004; Prado, 1996; Trad, 1997). Nesse sentido, o objetivo desse
estudo foi investigar o impacto da depressão da esposa na conjugalidade em casais com
bebês no Þnal do seu primeiro ano de vida.

Método

Participaram do estudo 22 casais, divididos em dois grupos, um em que a esposa


apresentava indicadores de depressão (10 participantes), e outro em que a esposa não
os apresentava (12), conforme o resultado do Inventário Beck de Depressão (Beck &
Steer, 1993; Cunha, 2001). No grupo de esposas com indicadores de depressão, sete
apresentavam indicadores de intensidade leve e três de intensidade moderada. Os bebês
tinham em torno de 12 meses de idade, sendo 8 meninas e 14 meninos. Todas as esposas

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de ambos os grupos moravam com o marido1, que era o pai do bebê. As Tabelas 1 e 2
apresentam as características sociodemográÞcas dos casais. O teste Mann-Whitney não
indicou diferenças sociodemográÞcas entre os dois grupos quanto à idade, escolaridade,
nível socioeconômico do casal e sexo do bebê. O nível socioeconômico dos casais foi
avaliado de acordo com critérios baseados em Hollingshead (1975), adaptados para o
presente estudo por Tudge e Frizzo (2002).

Tabela 1 – Dados sociodemográficos dos casais com esposa deprimida

Família Depressão BDI Idade Escolaridade Ocupação Sexo Idade NSE


Materna mãe bebê Bebê Fam

1 Leve 15 E=23 E=1° G inc. E=dona de casa/doceira M 12m 1


M=29 M=1° G M=auxiliar de matizador

2 Leve 15 E=19 E=2º G E=dona de casa M 12m 2


M=27 M=2º G M=comerciante

3 Leve 15 E=19 E=2º G E=dona de casa M 12m 2


M=22 M=2º G M=segurança

4 Moderado 31 E=18 E=2º G E=dona de casa M 12m 1


M=19 M=1º G inc M=marcenaria

5 Leve 12 E=33 E=3º G E=psicóloga M 12m 5


M=29 M=3º G M=advogado

6 Leve 16 E=26 E=3ºG inc E=estudante F 12m 5


M=40 M=3º G M=escrivão judicial

7 Leve 16 E=17 E=2ºG inc E=estudante F 12m 1


M=17 M=2º G inc M=desempregado

8 Leve 12 E=24 E=2ºG inc E=garçonete F 12m 3


M=25 M=2ºG M=pintor

9 Moderado 20 E=23 E=1ºG inc E=dona de casa F 12m 1


M=38 M=1ºG inc M=caseiro

10 Moderado 25 E=20 E=2ºG E=auxiliar administrativo M 12m 3


M=20 M=2ºG M=bancário

1
Embora alguns casais coabitassem e outros fossem casados legalmente, no presente estudo optou-se por
falar em maridos e esposas para simpliÞcar o texto, por considerar essa distinção não importante para os Þns
dessa investigação.

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Tabela 2 – Dados sociodemográficos dos casais com esposa sem depressão

Família Depressão BDI Idade Escolaridade Ocupação Sexo Idade NSE


Materna mãe bebê bebê Fam

11 Ausente 6 E=26 E= 1ºG inc E= dona de casa M 12m 1


M=30 M= 1ºG inc M= zelador de igreja

12 Ausente 9 E=27 E= 2ºG E= serviços gerais M 12m 1


M=21 M= 1ºG M= auxiliar de padaria

13 Ausente 4 E=23 E= 2º G E= recepcionista M 12m 2


M=24 M= 2º G M=auxiliar de serigraÞa

14 Ausente 6 E=33 E= 3ºG E= fonoaudióloga F 12m 5


M=33 M= 3ºG M= designer gráÞco

15 Ausente 8 E=18 E= 1ºG inc E= dona de casa M 12m 1


M=18 M= 1ºG inc M= pedreiro

16 Ausente 6 E=30 E= 3ºG E= programadora F 12m 5


M=35 M= pós grad. M= administrador

17 Ausente 6 E=25 E= 3ºG inc E= dona de casa M 12m 2


M=32 M= 3ºG inc M= servidor público

18 Ausente 11 E=14 E= 1º G E= dona de casa M 12m 1


M=16 M= 1ºG inc M= jardineiro

19 Ausente 11 E=27 E= 3ºG inc E= vendedora de carros M 12m 4


M=26 M= 3ºG inc M= corretor de seguros

20 Ausente 6 E=31 E= 3ºG E= empresária M 12m 5


M=30 M= 3ºG inc M= Empresário

21 Ausente 5 E=28 E= 2ºG E= chefe de setor F 12m 3


M=41 M= 1ºG inc M= modelista

22 Ausente 10 E=35 E= 3ºG E= dona de casa F 12m 5


M=41 M= 3ºG M= empresário

Delineamento, procedimentos e instrumentos


Foi utilizado um delineamento de grupos contrastantes (Nachmias & Nachmias,
1996), a Þm de comparar eventuais diferenças entre os casais cujas esposas apresentavam
ou não indicadores de depressão. A amostra foi selecionada dentre os participantes do
“Estudo Longitudinal de Porto Alegre: Da Gestação à Escola- ELPA” (Piccinini, Lopes,
Sperb & Tudge, 1998), que teve por objetivo investigar tanto os aspectos subjetivos e
comportamentais das interações iniciais pai-mãe-bebê, como o impacto de fatores iniciais
do desenvolvimento nas interações familiares, no comportamento social de crianças
pré-escolares e na transição para a escola de ensino fundamental. Esse estudo iniciou
acompanhando 81 gestantes, que não apresentavam intercorrências clínicas, seja com elas
mesmas ou com o bebê, que era seu primeiro Þlho. Os maridos também foram convidados
a participar do estudo, caso residissem juntos em situação matrimonial. Os participantes
representavam várias conÞgurações familiares (nucleares, monoparentais ou re-casados),
de diferentes idades (adultos e adolescentes) e com escolaridade e níveis socioeconômicos

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variados. Foram realizadas várias coletas de dados desde a gestação até os oito anos das
crianças (gestação, 3º, 8º, 12º, 18º, 24º, 36º meses e 6º,7º e 8º ano de vida da criança).
O convite inicial para participar do estudo ocorreu quando a gestante fazia pré-natal
em hospitais da rede pública da cidade de Porto Alegre (41%), nas unidades sanitárias
de saúde do mesmo município (4%), através de anúncio em veículos de comunicação
(14%) e por indicação (41%). Naquela ocasião, foi preenchida a Ficha de contato inicial
(GIDEP, 1998), visando obter dados sociodemográÞcos dos participantes. O estudo foi
aprovado pelo Comitê de Ética da UFRGS (Resolução n° 2006596).
Para Þns desse estudo, foram utilizados os dados relativos à coleta de dados
realizada aos 12 meses de idade do bebê. Nesse momento, seguindo o plano de coleta
de dados do projeto ELPA, o casal foi convidado a comparecer a um novo encontro no
Instituto de Psicologia para realizar as entrevistas referentes a essa etapa. A esposa e o
marido responderam separadamente à Entrevista sobre o desenvolvimento do bebê e a
experiência da maternidade (GIDEP, 1999a) e à Entrevista sobre o desenvolvimento do
bebê e a experiência da paternidade (GIDEP, 1999b), respectivamente. Essas entrevistas
tinham por objetivo investigar as impressões maternas e paternas a respeito do crescimento,
desenvolvimento, habilidades e características emocionais do bebê, os sentimentos sobre
ser mãe/pai, as impressões sobre o marido como pai e da esposa como mãe, a rede de
apoio em relação aos cuidados com o bebê e a ocorrência de eventos estressantes. Após,
o casal respondia conjuntamente à Entrevista com o casal com bebê de doze meses
(GIDEP, 2000), cujo objetivo era investigar como estava a vida do casal no momento,
sua rotina e o relacionamento conjugal. O Inventário Beck de Depressão (Beck & Steer,
1993; Cunha, 2001) foi preenchido apenas pela esposa. As entrevistas foram conduzidas
por outros pesquisadores que não os autores do presente estudo.
Dos 47 casos do ELPA2 avaliados pelo BDI aos 12 meses de vida do bebê, 26
esposas (34%) apresentaram indicadores de depressão, sendo que 5 (11%) foram
classiÞcadas como apresentando depressão moderada e 11 (23%) depressão leve.
31 esposas (66%) não apresentaram depressão. Para Þns do presente estudo, foram
inicialmente selecionados todos os casais cuja esposa apresentava indicadores de
depressão, morasse com o marido, que era o pai do bebê, e que tinham os dados
completos, o que permitiu a inclusão de dez casais. Foram então selecionadas as esposas
que não apresentavam indicadores de depressão, que tinham dados completos e que
apresentavam características sociodemográÞcas semelhantes ao grupo com indicadores
de depressão, o que permitiu a inclusão de doze casais.

Resultados e discussão

As entrevistas foram examinadas através de análise de conteúdo qualitativa (Bardin,


1977; Laville & Dionne, 1999), com base em três categorias: companheirismo, atração

2
Um artigo que contemplou parte da mesma amostra, mas apenas com os relatos das mães sobre sua
experiência da maternidade, foi publicado por Schwengber, D. D. S., & Piccinini, C. A. (2005). A experiência
da maternidade no contexto da depressão materna no Þnal do primeiro ano de vida do bebê. Estudos de
Psicologia, 22, 143-46.

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física e paixão romântica (Waldemar, 1998) e comunicação, que foi também incluída
por ser bastante referida nos estudos sobre conjugalidade (Braz, Dessen & Silva, 2005;
Garcia & Tassara, 2003; Norgren & cols., 2004). Para cada uma dessas categorias, foram
incluídas subcategorias, que permitiram explicitar detalhes dos resultados, conforme
exposto a seguir. Tomando-se por base esta estrutura de categorias, inicialmente foram
feitas repetidas leituras de todas as entrevistas das esposas e dos maridos, buscando-se
identiÞcar todos os relatos que caracterizassem cada uma das categorias e subcategorias
acima. As análises foram realizadas de forma independente por duas das autoras deste
artigo, sendo que as eventuais diferenças foram revisadas e discutidas até haver um
consenso. Caracteriza-se, a seguir, cada uma das categorias e subcategorias, ilustrando-
as com os relatos dos participantes, destacando inicialmente as semelhanças e depois as
particularidades nos relatos dos casais nos dois grupos.

Companheirismo
Essa categoria refere-se à dedicação dos membros do casal no relacionamento
conjugal. Para Þns de análise, foi subdividida em três subcategorias: tempo para o casal,
cuidar um do outro e divergências e conflitos.
Uma importante semelhança que ocorreu entre os grupos foram os relatos de que
conseguiam organizar o tempo do casal, independente do tempo dedicado ao bebê (cd:E4/
E9/E10/M8/M2/M4/M5; sd:E12/E17/E20/E22/M12/M22) 3,4, como exempliÞcado na
fala a seguir: “A gente procura assim ter um final de semana que a gente sai nós dois, nós
deixamos [Þlho] com a mãe ou a gente liga pra babá, pra ela ficar” (E20/sd). No entanto,
algumas diferenças apareceram quando essa questão foi mais bem explorada ao longo da
entrevista. No grupo de esposas deprimidas5, os casais pareciam ter maior diÞculdade na
organização do tempo do casal, quando o bebê não estivesse presente, restando para o casal
apenas os momentos em que o bebê estivesse dormindo (cd:E9/M6/M8): “O tempo que
a gente tem junto a gente não tá.... não tá junto, a gente tá no ambiente de serviço, então
não tá disponível. E depois em casa a gente dá maior atenção para ela, até ela dormir
né, depois a gente tem um tempo para ficar só nós dois... (M8/cd)”. Embora isso também
tenha sido relatado pelo grupo com esposas deprimidas (sd:E11/E13/E14/E16/E17/E20/
M13/M17/M16), parecia que nesse a divisão do tempo se dava com mais tranquilidade:
“As coisas pessoais sempre se revezando até que ela durma, quando ela dorme, a gente
pode olhar filme junto... tem mais tempo né” (M16/sd). Alguns casais, em ambos os grupos,
relataram que o tempo em que estão juntos, o bebê sempre está presente (cd:E1/E2/E3/
E14/E6/E7/E8/E9/M5/M14/M8; sd:E11/E14/E20/E22/M14/M19/M21). Isso foi relatado
como queixa por algumas esposas deprimidas (cd:E1/E2/E9) “Eu tenho que estar junto.
Então de noite, o quê que se faz? Que ele possa ir junto. Jantar. Então é o que a gente faz,
a gente vai comer pizza...” (E2/cd). Houve também um relato de diÞculdade em se separar
do bebê: “Eu, aonde eu for, eu gosto de levar ele [bebê] comigo. Eu não gosto de deixar

3
A letra ‘E’ refere-se à esposa, e ‘M’, ao marido; o número indica o participante, conforme a tabela 1 e 2.
4
As letras ‘cd’ referem-se aos casais com esposas com indicadores de depressão, e ‘sd’ aos casais com esposas
sem indicadores de depressão.
5
Embora o termo correto seja esposas com indicadores de depressão, para tornar o texto mais claro, optou-se
por falar a partir desse momento em esposas deprimidas e esposas sem depressão.

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ele com ninguém.” (E2/cd). Outra esposa deprimida relatou que passou a incluir o bebê
nos passeios do casal para poderem retomar à vida normal: “É que a gente tá percebendo
que se a gente incluir a [bebê] no nosso programa, a gente faz coisas normais. A gente
vai passear, sempre, e leva ela junto.” (E6/cd). Mas vários casais, em ambos os grupos,
relataram que incluíam o bebê para poder aproveitar melhor o tempo em que estavam juntos:
“Mas de noite a gente aproveita, de noite a gente janta e a primeira coisa que a gente faz
é ir pro quarto, os três, ficar ali junto, ficar olhando TV, mas geralmente a gente procura
sempre ir os três juntos, descansar, olhar TV, ficar juntos, pelo menos esse tempo. A gente
faz coisas junto, a gente, domingo, a gente não faz muita coisa diferente, mas a gente fica
mais tempo junto” (E7/cd). Da mesma forma, isso aconteceu nos casais com esposa sem
depressão, que consideravam essa inclusão do bebê como já esperada, como pôde ser visto
nesse diálogo do casal: “E: –É que já era tão previsto assim que os nossos planos eram estar
com ela, a gente adaptou muita coisa, as saídas... M: – Tudo gira em função dela [bebê].
E: – É. Nossa vida gira muito em função dela, então, ah, a praia ou sair... M: – Quer ir
para a praia, ‘Ah, mas e daí?’, tudo em função dela. É, a maior parte é sair assim durante
o dia para parque, que ela gosta e é isso” (E14/M14/sd). Finalmente, poucos casais, em
ambos os grupos, relataram explicitamente que não tinham mais tempo juntos (cd:E7/M2;
sd:E12/M12): “A gente não tem aquele tempo pra nós, né.” (E7/cd)”.
Juntos estes relatos mostram que, quando se tem Þlhos pequenos, pode Þcar difícil
organizar um tempo somente para o casal, mesmo na ausência de depressão (Cramer &
Palácio-Espasa, 1993; Waldemar, 1998). Esse ajustamento entre o subsistema conjugal
e parental é uma importante tarefa dessa etapa do ciclo vital (Carter & McGoldrick,
1995), por ser necessário criar um espaço para inclusão do bebê sem perder o apoio
e companheirismo no relacionamento do casal. Esse desaÞo pode ser sentido como
algo já esperado, como citado pelos casais sem depressão, ou suscitar sentimentos de
insuÞciência, de fracasso e de esgotamento (Cramer & Palácio-Espasa, 1993), como
apareceu particularmente nos relatos dos casais com esposas com indicadores de depressão
do presente estudo. A depressão pode, então, ser considerada um fator estressor que
diÞculta a adaptação nesse momento de transição na vida da família.
Na subcategoria cuidar um do outro, apareceram poucas semelhanças e várias
diferenças entre os casais com e sem esposa deprimida. No que diz respeito às semelhanças,
nos dois grupos apareceu, com pouca frequência e somente na fala dos maridos, a questão
de o marido ajudar a esposa nas tarefas de casa como uma forma de ajudar o outro (cd:
M1/M5/M6/M9/M10; sd: M11/M19/M21/M22): “Aí, fica, quando eu tô em casa, sempre
eu tô ajudando ela, limpando, coisa assim” (M1/cd); “Ela chega em casa, hoje tem um
monte de roupa, ela chega em casa e vai estar passada” (M21/sd). Essa subcategoria teve
maior incidência nos casais com esposas deprimidas, (cd: E2/E5/E6/E8/E9/E10/M2/M5/
M6/M9/M10), com grande convergência no relato de ambos membros do casal. Houve
relatos de o marido cuidar do bebê para a esposa descansar: “Eu fico com ela [bebê] para
minha esposa tomar um banho, fazer uma sauna, e depois ela [bebê] fica com a mãe
e eu faço. A gente se adapta dessa forma, porque nem sempre tem alguém pra cuidar
dela...” (M6/cd) ou para terem mais tempo juntos “Meu marido faz tudo, até o serviço
da casa, ele me ajuda dia de semana, pra gente poder terminar rápido” (E9/cd). As
falas das esposas com depressão também se referiram ao apoio do marido para que elas

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se sentissem melhores, o que envolveu possíveis sintomas de depressão, por exemplo,
quando a esposa chorava sem motivo e o marido Þcava preocupado com isso: “O [marido]
me ajudava um monte. Ele chegava em casa e nós duas chorando... e ele não sabia se
acudia a ela ou acudia a mim...” (E8/cd). Cabe ressaltar que, nos casais sem depressão,
houve apenas relatos dos maridos se sentirem cuidados pelas esposas, especialmente
quando ela não trabalhava fora de casa “No dia-a-dia da casa, nessa história de ela não
trabalhar, ela termina então dando uma dedicação adicional. Contribuição adicional, até
me poupando de demandas que certamente se ela trabalhasse fora, eu teria que auxiliar”
(M22/sd). Não houve nenhum relato das esposas nessa subcategoria como apareceu nos
casais com esposas deprimidas.
Estas falas ilustram como a esposa e o marido precisam um do outro como um
refúgio para as exigências múltiplas da vida (Minuchin, 1982). EspeciÞcamente em
situação de depressão materna, o pai pode amenizar possíveis efeitos negativos da
depressão para seus Þlhos ao apoiar a esposa deprimida, o que acaba contribuindo para
uma melhor parentagem (Frizzo & Piccinini, 2005). Ao mesmo tempo, isso contribui
para a satisfação conjugal, se a mulher perceber isso como um cuidado com ela, como
um indicador desse “refúgio” proposto por Minuchin (1982).
Quanto à subcategoria divergências e conflitos, houve mais diferenças nos relatos
entre os dois grupos, com maior relato de conßitos nos casais com esposa deprimida (cd:
E5/E7/E8/M2/M8; sd: M19/M21). Em sua maioria, nos casais com esposas deprimidas,
os conßitos foram relacionados às diferenças de temperamento: “Ele tem saído com os
amigos dele, eu não gosto de sair, aí ele vai com os amigos dele” (E7/cd); à falta de
apoio numa situação em que a esposa se sentiu mal: “Ele achou que eu estivesse fingindo
a indisposição e disse que ia levar [Þlho] lá pra mãe. Dá uma olhada nele, eu só quero
dar uma descansada. Eu não sei o que eu tenho, eu tô um pouco indisposta, eu tô com
dor de cabeça, uma situação estranha pra mim, sintomas que eu não tinha sentido. Aí
ele simplesmente disse pra mim, então tu trata de ficar boa” (E5/cd) e ao pouco tempo
para Þcar junto: “Mas ela [esposa] é muito dorminhoca... ela não assiste a um filme
comigo....” (M8/cd).
Nos casais sem depressão, houve apenas dois relatos que referiram divergências e
conßitos (M19/M21), sendo que ambos diziam respeito às tarefas domésticas e isto só
apareceu nas falas dos maridos: “Ah, do ponto de vista dela, eu sempre poderia fazer um
pouquinho mais. Mas não em relação a ele [Þlho], mas em relação à casa.” (M19/sd).
Apareceu também divergência nas tarefas domésticas em um casal com esposa deprimida,
mas com maior intensidade: “Acho que ela não gosta de ficar junto, então ela sai lá e
depois ela vem... aí na hora de voltar para casa aí tem que tomar banho, tem que fazer a
refeição... aí quando eu acho que a gente vai descansar, ela vai passar roupa... aí em vez
de nós ficarmos descansando e curtindo ficar com ela [bebê], ela tem que ficar passando
roupa... então fica tudo complicado” (M8/cd). Especialmente em relação a essa última
vinheta, podemos pensar que, conforme preconizado pela literatura, a pessoa deprimida
parece ter uma tendência a priorizar os deveres e responsabilidades, negligenciando
os momentos de prazer e descanso (Linares & Campo, 2000). Além disso, devemos
lembrar que essa subcategoria se refere a divergências e conflitos no companheirismo do
casal e não a questões mais globais de conßito. Ainda assim, estes relatos corroboram a

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associação entre depressão e conßito conjugal existente na literatura (Alvarado e cols.,
2000; Cummings e cols., 2005; Mayor & Piccinini, 2005). Embora divergências e conßitos
tenham aparecido nos dois grupos, nos casais com esposas deprimidas, os relatos foram
mais frequentes e intensos, tanto na fala dos maridos como das esposas.

Comunicação
Essa categoria se refere à qualidade da comunicação entre o casal. Para Þns de
análise, foi subdividida em duas subcategorias: resolução de conflitos e divergências
e conflitos. Quanto à primeira subcategoria, a resolução de conflitos, nos casais com
esposas deprimidas, aparentemente, havia conßitos que não eram solucionados de forma
adequada para ambos, pois um deles acabava cedendo sempre (cd: E2/E6/M2/M5): “É,
eu já decidi que não fico mais brava. Não vou mais me estressar à toa” (E2/cd). Um casal
desse grupo relatou uma divergência, pois a esposa referiu que o marido conversava com
ela: “Eu acho que a gente conversa bastante, ele procura ser carinhoso, se ele tiver que
falar alguma coisa... ou eu tiver com alguma coisa, mau humor por exemplo... ele deixa
eu me acalmar, depois ele vem e conversa: ‘O que que tu tem?... porque tu tá assim?’”
(E8/cd) e o marido relatou que não costumava conversar: “Então, quanto a isso, não
tem muita ajuda... e quando a gente briga ou coisa assim, não tem... eu não costumo
conversar muito” (M8/cd).
Já nos casais sem depressão, o diálogo apareceu como forma de resolução de
conßitos (sd: E11/E22/ M20/M22): “Às vezes, a gente tem um desentendimento, ela
[esposa] quer resolver logo e, às vezes, ela tá junto, então, não vale a pena, eu não insisto
em falar enquanto a nenê tá junto, até porque ela vai sentir que tem uma... então, não
precisa saber disso, não é que não precisa saber, mas que ela não precisa passar por
isso, até porque isso não é dela, não é assunto dela, não é dela, não é problema dela,
uma coisa nossa, de nós resolver, aí, depois a gente fala.” (M22/sd).
Quanto à subcategoria divergências e conflitos, apenas um casal, do grupo das
esposas deprimidas, fez um relato incluído nessa subcategoria, tanto pelo marido como
pela esposa: “E eu quero conversar, sabe? Eu passei o dia inteiro sozinha. Eu quero
conversar, eu quero que ele me conte como é que foi... E ele não presta atenção no que
eu falo, porque ele fica na televisão, sabe?” (E2/cd). “Daí eu não falo com ela também,
porque eu tô vendo o jogo!” (M2/cd).
De acordo com Cummings e Davies (1994), mulheres deprimidas podem ter
diÞculdade em explicar as causas e consequências de suas brigas, aproximando-se então
de uma característica de casais disfuncionais que, muitas vezes, têm diÞculdades na
identiÞcação do problema, pois a pouca clareza na comunicação bloqueia a sua deÞnição
(Walsh, 2002). Em geral, esses casais têm diÞculdade de exprimir as diferenças por um
grande medo de que o conßito aumente e ocasione violência ou ruptura do casamento.
Linares e Campo (2000) corroboram essa asserção ao descreverem algumas características
de casais com esposas deprimidas, onde a evitação de conßito parece ser bastante
comum, exatamente pelo receio de ruptura na relação. Porém, essas estratégias só fazem
aumentar a possibilidade de que os problemas não sejam enfrentados de modo eÞcaz,
com consequências negativas para o relacionamento (Walsh, 2002). Em uma revisão
teórica realizada por Mayor e Piccinini (2005), os autores apontaram que, quanto mais

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o casal puder escutar um ao outro, respeitar e aceitar o ponto de vista do outro, mais
chances têm de encontrar uma solução para seus conßitos que satisfaça a ambos. Garcia e
Tassara (2003) também apontaram que a falta de diálogo constitui-se num dos principais
problemas nos casamentos de modo em geral. No caso de casais cuja esposa apresenta
depressão, esse parece ser um desaÞo particularmente importante.

Atração física e paixão romântica


Essa categoria refere-se à qualidade do relacionamento conjugal relatada pela
esposa e marido. Para Þns de análise, foi subdivida em qualidade do relacionamento
conjugal, percepção em relação ao outro e divergências e conflitos. Quanto à primeira
subcategoria, casais de ambos os grupos avaliaram de forma positiva seu relacionamento
conjugal (cd:E2/E3/E6/E7/P2/P4/P9; sd:E11/E12/E14/E13/E17/M11/M12/M13), como
no relato desse marido: “Mudou pra melhor, né, tem pessoas que reclamam, mas eu,
da minha parte melhorou mais, assim.” (M11/sd). Por outro lado, houve uma pequena
diferença entre os grupos, pois nos casais com esposas deprimidas, não foram referidas
melhoras no relacionamento conjugal após o nascimento do bebê: “Não, eu acho tá, assim,
normal. Tá bom” (E3/cd), ao contrário do que foi relatado nos casais sem depressão,
onde apareceram mais avaliações de que o relacionamento melhorou, principalmente
em comparação com os primeiros meses após a chegada do bebê (sd:E14/E17;M11/
M12/M14): “Então, acho que isso facilita um pouco e aí isso faz com que o casal
também fique melhor, né, comece a ter mais momentos.” (E14/sd). Devemos lembrar
que o casal contemporâneo é confrontado o tempo todo com forças paradoxais: por um
lado, deve sustentar o crescimento e o desenvolvimento de cada um e, por outro, surge
a necessidade de vivenciar a conjugalidade e os desejos e projetos comuns do casal
(Féres-Carneiro, 1998). Conciliar essas demandas pode ser especialmente difícil para as
famílias principalmente em alguns momentos de crise no ciclo vital, como na ocasião
do nascimento dos Þlhos. No entanto, quando existe um bom relacionamento conjugal,
a tendência é que, passado o momento inicial de crise, a reorganização estabelecida
de certa forma tende a restaurar os sentimentos de satisfação familiar e conjugal. Não
devemos esquecer, entretanto, que a depressão nesse período do ciclo vital é um fator
estressor imprevisível que se sobrepõe à crise normativa, característica principalmente
do nascimento do primeiro Þlho do casal (Carter & McGoldrick, 1995). E com essa
sobreposição, pode ser mais difícil avaliar os aspectos positivos das mudanças.
Alguns casais, em ambos os grupos, avaliaram de forma negativa seu relacionamento
(cd:E2/E6/M4/M8; sd:M13/M19). Nos casais com esposa deprimida, houve maior
incidência desses relatos e pareceu que essa percepção foi relatada com mais intensidade:
“Eu tinha um cansaço, uma angústia, uma coisa assim. Primeiro porque eu fiquei muito
insatisfeita com o meu corpo, pra começar. Porque eu acho que, no meu inconsciente,
estava assim, ‘Aquela que me estragou’, tá, ‘que me deixou, assim, mal, porque eu tô mal
comigo’, se eu estava mal, se estava mal com meu corpo, eu estou mal. Até com o meu
marido, a minha relação com ele” (E6/cd). Já nos casais sem depressão, houve apenas
dois relatos nessa subcategoria e de pouca intensidade: “Tá faltando um pouco de tempo,
mas...” (M13/sd). Estes relatos apoiam o que a literatura indica, já que era esperado que
o relacionamento conjugal fosse avaliado de forma mais negativa nos casais com esposas

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deprimidas, na medida em que elas parecem ter uma percepção mais negativa de seu
relacionamento familiar e conjugal (Beach & O´Leary, 1993; Fritsch e cols., 2005).
Por Þm, alguns poucos casais, em ambos os grupos, se mostraram ambivalentes na sua
avaliação sobre a qualidade do relacionamento conjugal (cd:E5/M5; sd:E19/M19): “Não
vai mal, mas nós estamos tentando conciliar, e aí que vai... Às vezes, é muito estressante, e
principalmente pra mim.” (M5/cd); ou ainda relataram que não havia ocorrido mudanças
(cd:E1/E2/E8/E10; sd:E18/M15/M21), o que foi referido principalmente pelos casais com
esposas deprimidas: “Acho que não mudou” (E10/cd).
Quanto à percepção em relação ao outro, casais de ambos os grupos (cd:E8/E9/M2/
M3/M4/M6/M10; sd:E20/E21/M11/M14/M16/M20/M21/M22) avaliaram seu cônjuge de
forma positiva: “Sendo filha da mãe dela, eu sempre achei que ela tinha esse jeito [carinhosa
e meiga], essa personalidade, assim” (M6/cd). Mas houve também relatos negativos em
relação ao cônjuge. Nos casais com esposas deprimidas, a maioria dos relatos são queixas
dos maridos sobre suas esposas serem bravas (cd:M4/M1): “A mãe dele, quando fica brava,
é brava mesmo” (M1/cd); apáticas (M7/cd): “Eu acho que ela é muito preguiçosa, porque
ela poderia ir, ela poderia largar a [Þlha] no chão, ela não vai muito de preguiça mesmo,
porque a [Þlha] vai atrás, ela não é daquelas que tem que ficar sempre no colo, que a [Þlha]
é muito mais fácil de lidar com ela” (M7/cd); ou impacientes: “Ela perde a paciência
muito rápido” (M10/cd). Nos casais sem depressão, os principais aspectos relatados foram
relacionados com características da esposa como ser ciumenta (M19): “a [nome da esposa]
é mais ciumenta” (M19/sd); mandona (M18): “Ela é muito mandona”; ou brava (M20),
como pôde ser visto no exemplo a seguir: “O jeito assim de bravo [da Þlha] tudo é da mãe”
(M20/sd). Em ambas os grupos (cd:E4/E6; sd:E17/E22), houve poucos relatos negativos
da percepção das esposas sobre seus maridos e não houve diferenças entre os grupos nesse
aspecto, pois, em ambos, eles foram descritos como teimosos/geniosos (cd:E4; sd:E22) e
como bravos/estourados (cd: E6; sd: E17).
Além disso, somente os maridos relataram certa ambivalência com relação às suas
esposas (cd:M1/M5/M7; sd:M13), especialmente nos casais com esposas deprimidas:
“Mas quando ela tá assim, calma, ninguém xingou, brigou com ela, ela tá, é normal,
assim, calma, tudo assim.” (M1/cd). Esse aspecto de inconstância das emoções precisa
de atenção especial no contexto da depressão, pois as emoções tendem a se alterar com
frequência (Phares. Duhig & Watkins, 2000). Essa característica das esposas pode ter
inßuenciado a avaliação desses maridos sobre elas no presente estudo.
Quanto às divergências e conßitos no relacionamento conjugal, houve uma incidência
maior de conßitos relacionados à impulsividade da esposa nos casais com esposas deprimidas:
“Até tivemos algumas brigas assim, porque a [nome da esposa] é bem impulsiva” (M8/
cd); à quantidade de tempo para Þcarem juntos: “Eu encho o saco, ah, vem deitar comigo,
vamos dormir, porque ele é muito amarrado, entendeu, ele tem a mania de chegar e ficar
se amarrando, se amarrando e demora pra tomar banho, eu já estou até deitada e quero
que ele venha deitar junto com a gente assim, sabe e ele fica se amarrando” (E7/cd); brigas
por morar com a sogra e não ter casa própria: “Passa dois, três dias, eu já tô agoniado, mas
se a gente fica muito tempo junto, parece que, que qualquer coisa a gente briga, sabe, eu
acho que é porque também a gente não mora sozinho, a gente não tem uma casa nossa”
(E4/cd); e quanto à sexualidade: “Porque esses dias... foi o caso de novo da coisinha

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[sexo], que eu não queria, e queria dormir, tava cansada. Aí pegou, ‘Ai... então, pega e
vai dormir!’ Sabe? Já ficou bravo, já não me deu boa-noite... ‘Tu não vai deitar?’ ‘Não!’
Já ficou furioso comigo. Daí fui eu me deitar lá, toda cheia de culpa, sabe? Toda furiosa.
Aí acabei dormindo. Daqui a pouco, ele veio se deitar, me abraçou...” (E2/cd). Apenas um
casal sem depressão relatou conßito, mas sem explicitar detalhes: “Certas coisas a gente
briga, mas só...” (E21/sd). Novamente, pôde-se perceber a associação entre qualidade
do relacionamento conjugal e presença de depressão (Beach & O’Leary, 1993; Fritsch e
cols., 2005; Mayor & Piccinini, 2005), além de certa diÞculdade das esposas deprimidas
de lidarem com eventos estressantes (Schwengber & Piccinini, 2005).

Considerações finais

O presente estudo teve como objetivo investigar diferenças na conjugalidade de


casais em que a esposa apresentava ou não indicadores de depressão, quando o bebê estava
no Þnal do primeiro ano de vida. Os resultados encontrados corroboraram a expectativa
inicial de que a presença de depressão na esposa pode trazer diÞculdades nos diferentes
aspectos investigados do relacionamento conjugal, com destaque para o companheirismo
e o tempo para o casal, a comunicação e resolução de conßitos, a avaliação global da
qualidade do relacionamento conjugal e sexual.
A fase do ciclo vital do nascimento dos Þlhos por si só tende a ser estressante para
a maioria dos casais pelas diversas readaptações que necessitam ser feitas. Na ocorrência
de mais um estressor, como a depressão materna, pode ser ainda mais difícil realizá-las,
como pôde ser visto nos relatos dos casais do presente estudo. Obviamente, muitas vezes,
as diÞculdades são sutis e podem surgir tanto em casais em que a esposa tem ou não
depressão. No presente estudo, puderam-se observar sofrimentos e diÞculdades adicionais
especialmente no primeiro grupo, seja na forma de avaliar o relacionamento conjugal
ou no cuidado com o outro, como na reorganização do tempo do casal, quando o bebê
não está presente. A comunicação talvez tenha sido a categoria que melhor explicitou as
diferenças entre os dois grupos, especialmente quanto à forma de resolução de conßitos,
mais difícil nos casais com esposas deprimidas. De acordo com Walsh (2002), a diferença
entre casais ditos “saudáveis” e àqueles que apresentam diÞculdades não está na presença
ou ausência de problemas, mas na maneira como eles são resolvidos. Por exemplo, o
acúmulo de fatores estressantes (no caso, nascimento do bebê mais sintomas depressivos)
pode colocar em perigo qualquer casal, mesmo os que não apresentam diÞculdades,
embora no presente estudo isto pareça ter sido mais comum entre os casais em que a
esposa apresentava indicadores de depressão no Þnal do primeiro ano de vida do bebê.
Além disso, a estrutura prévia da relação conjugal, que não foi investigada aqui, pode
também atuar como um fator que explica a conjugalidade em momentos de crise e merece
ser investigada em futuros estudos.
A importância de se investigar a conjugalidade e a depressão pós-parto, também
merece ser ressaltada devido a um possível efeito de contaminação de afetos entre
os diferentes subsistemas familiares. Quando a mulher encontra-se deprimida, com
sentimentos de desvalia e diÞculdades no relacionamento conjugal, isto pode também
afetar a qualidade da relação que poderá estabelecer com seu bebê. Ainda que, muitas
vezes, apareça no relato materno a satisfação em cuidar do bebê, mesmo em situações de

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depressão pós parto da mãe (Frizzo, 2008), devemos lembrar que isso também pode ser
sentido como sobrecarga em alguns momentos. E, embora essa sobrecarga seja relatada
também por mulheres sem depressão, novos estudos devem investigar melhor este aspecto
e sua relação com depressão pós-parto.
É importante ressaltar que nenhuma das participantes deste estudo havia sido
diagnosticada com depressão anteriormente, embora algumas estivessem com sintomas
intensos de irritabilidade, fadiga e diÞculdades no cuidado com o bebê, além de
diÞculdades no relacionamento conjugal. Esses não são casos isolados, pois, muitas
vezes, os sintomas depressivos podem ser confundidos com o desgaste natural do
puerpério, tanto pelo cuidado com o bebê e as noites mal dormidas, como pelo acúmulo
de tarefas domésticas (Cruz, Simões & Faisal-Cury, 2005). Assim, é comum que a mulher
deprimida e as pessoas que a cercam nem sempre reconheçam que seus sintomas podem
ser considerados depressão. Tendo em vista que, mesmo a presença moderada e leve de
indicadores de depressão – como o que ocorreu nos casos do presente estudo – já pode
trazer importantes diÞculdades nos relacionamentos da mulher, ressalta-se a importância
da família e dos proÞssionais da saúde em reconhecer esses sintomas e em ajudar a mulher
a buscar ajuda quando ela não se sente bem, especialmente ao longo do primeiro e segundo
ano de vida do bebê, quando as demandas sobre a mulher são particularmente elevadas.
Avaliações sistemáticas associadas à prevenção e intervenções psicológicas neste contexto
terão importante papel não só para o relacionamento conjugal, mas particularmente para
o desenvolvimento da criança.

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_____________________________
Recebido em novembro de 2008 Aprovado em dezembro de 2009

Giana Bitencourt Frizzo: Psicóloga; Especialista em Psicoterapia de Casal e Família (INFAPA); Doutora e
pós-doutora em Psicologia (UFRGS); Professora do curso de Psicologia (UFRGS)
Ivani Brys: Psicóloga; Mestranda em Psicologia (UFRGS); Bolsista de Iniciação CientíÞca do CNPq.
Rita de Cássia Sobreira Lopes: Psicóloga; Doutora em Psicologia (University College London/Inglaterra);
Professora do PPG-Psicologia (UFRGS); Pesquisadora do CNPq.
Cesar Augusto Piccinini: Psicólogo; Doutor e Pós-doutor em Psicologia (University College London/
Inglaterra); Professor do PPG-Psicologia (UFRGS); Pesquisador do CNPq.
Endereço eletrônico para contato: gifrizzo@terra.com.br

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