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Universidade Estadual de Santa Cruz

Programa de Pós-Graduação em Letras: Linguagens e Representações


Departamento de Letras e Artes

QUANDO O PRESENTE REVISITA O PASSADO: DESLOCAMENTOS EM


UM DEFEITO DE COR, DE ANA MARIA GONÇALVES

Zidelmar Alves Santos

Ilhéus – BA
2019
Zidelmar Alves Santos

QUANDO O PRESENTE REVISITA O PASSADO: DESLOCAMENTOS EM


UM DEFEITO DE COR, DE ANA MARIA GONÇALVES

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


graduação em Letras: Linguagens e Representações,
da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC,
como requisito parcial para obtenção do título de Mestre
em Linguagens e Representações.

Linha de pesquisa: Literatura e cultura: representações


em perspectiva interdisciplinar.

Orientadora: Prof. Dra. Inara de Oliveira Rodrigues

Ilhéus – BA
2019
S237 Santos, Zidelmar Alves.
Quando o presente revisita o passado: deslocamen-
tos em Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves /
Zidelmar Alves Santos. – Ilhéus, BA: UESC, 2019.
87 f.

Orientadora: Inara de Oliveira Rodrigues.


Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual
de Santa Cruz. Programa de Pós-Graduação em
Letras: Linguagens e Representações.
Referências: f. 80-87.

1. Literatura brasileira – História e crítica. 2. Litera-


tura afro-brasileira. 3. Diáspora africana. 4. Escrita.
I. Título.

CDD 869.09
ZIDELMAR ALVES SANTOS

Defesa de Mestrado de Zidelmar Alves Santos, intitulada “Quando o


presente revista o passado: deslocamentos em Um defeito de cor, de Ana
Maria Gonçalves”, orientada pela Profa. Dra. Inara de Oliveira Rodrigues,
apresentada à banca examinadora designada pelo Colegiado do Programa
de Pós-graduação em Letras: Linguagens e Representações da UESC, em
março de 2019.

Os membros da Banca Examinadora consideram o candidato _____________.

Banca Examinadora:

Profª Inara de Oliveira Rodrigues – Doutora


UESC
(Orientadora)

Profº Ricardo Postal – Doutor


UFPE

Profº Paulo Roberto Alves dos Santos – Doutor


PNPD/UESC
... a todos que vieram da África e lutaram pela liberdade...
AGRADECIMENTOS

À Universidade Estadual de Santa Cruz e ao Programa de Pós-


Graduação em Letras: Linguagens e Representações - PPGLLR, pela
oportunidade de entrar no universo dos estudos literários.
À minha orientadora Inara de Oliveira Rodrigues, pela atenção, dedicação à
pesquisa, seriedade e por compartilhar uma fração de seu conhecimento durante
as aulas do mestrado, orientações e encontros do GPAfro.
Ao professor Cláudio do Carmo Gonçalves por me propor o desafio de
trabalhar com o romance Um defeito de cor.
À minha família pelo apoio e compreensão ao longo do curso, em
especial a minha esposa Kayala, pessoa que me apoiou e me deu forças em
todo o percurso dessa pesquisa, minha mãe Luzia, minha irmã Zilá, meu
cunhado Érico e minha sogra Sara.
Aos professores Isaías Francisco de Carvalho, Paulo Roberto Alves dos
Santos e Ricardo Postal por aceitarem o convite para compor as bancas de
qualificação (os dois primeiros) e defesa da dissertação (os dois últimos). Suas
sugestões e conselhos foram muito importantes para o desenvolvimento e
conclusão desse trabalho.
Aos professores do PPGLLR pela dedicação à pesquisa acadêmica e
pelos ensinamentos (em especial a André Mitidieri, Inara Rodrigues, Zelina
Beato, Carla Damião, Sandra Sacramento, Paulo Roberto Santos, Cristiano
Silva, Paula Siega e Isaías Carvalho).
À Viviane, Suzeli, Fabrício, Donato, Yuri, e demais colegas da turma
2017-2019 do Mestrado em Letras, pessoas que compartilharam suas
experiências, dificuldades e se mostraram sempre dispostas a ouvir, discutir e
ajudar.
Aos membros do grupo de pesquisa GPAfro - Literatura, História e
Cultura: encruzilhadas epistemológicas, pelas discussões, leituras e
principalmente pela resistência em tempos tão difíceis.
À equipe do Colegiado do PPGLLR: Cristiano Balla, Jaine.
À equipe do CEDOC-UESC: Stella Dalva e Mônica.
À equipe do DFCH-UESC: Cristiano, Berenaldo e Érick.
À equipe de funcionários e professores do Colegiado de Ed. Física da
UESC, principalmente a Ilana Sampaio, Thiago Cardoso, Nayara Severo e Luís
“Kiki” Henrique da Silva.
A toda equipe de funcionários e professores do Colégio Estadual Félix
Mendonça, em especial as tias Rose, Helena e Nélia, pelo apoio durante o
período em que desenvolvia as atividades do mestrado.
A toda equipe da Escola Novo Horizonte, em especial a diretora Alda
Maria Bispo Araújo.
Aos meus alunos, atuais e antigos, jovens com quem compartilhei a
experiência de ensinar e aprender.
À professora Maria Cristina Rangel (curso de Geografia da UESC).
Aos professores, amigos e colegas do curso de História da UESC,
principalmente ao professor Marcelo Henrique Dias, Leandro Dias, Gennyson
Rosa, Madson Mendes, Victor Gonçalves, Rafael Barros, Robson Rodrigues. O
sucesso de hoje, não tenho dúvidas, também é fruto de muitas discussões com
esses e outros colegas, bem como de uma boa base na pesquisa ao longo da
graduação.
“Enquanto muitos ainda indagam se a literatura afro-
brasileira realmente existe, a cada dia a pesquisa nos
aponta para o vigor dessa escrita”.

[Eduardo de Assis Duarte,


Por um conceito de literatura afro-brasileira]
QUANDO O PRESENTE REVISITA O PASSADO: DESLOCAMENTOS EM
UM DEFEITO DE COR, DE ANA MARIA GONÇALVES

RESUMO

Neste trabalho, analisa-se o fenômeno do deslocamento no romance Um defeito de


cor (2017), de Ana Maria Gonçalves. Discutem-se as aproximações entre o texto pós-
colonial e o afro-brasileiro, bem como questões teórico-críticas que envolvem a
literatura produzida pelos brasileiros afrodescendentes. Os vários deslocamentos
presentes na obra são analisados considerando a relação existente entre a história e a
ficção. O romance, dessa maneira, ao revisitar o passado a partir da trajetória da
personagem Kehinde, denuncia as mazelas individuais e coletivas vividas pelos
negros no Brasil. A partir do arcabouço teórico sobre diáspora, identidade, literatura
afro-brasileira, bem como a relação entre a história e a ficção, notadamente em Gilroy
(2001); Hall (2003; 2005), Duarte (2008; 2014) e Pesavento (2003; 2004), empenhou-
se esta investigação, de caráter eminentemente bibliográfico. Pode-se assim concluir
que os deslocamentos compõem elemento importante de resistência e enfrentamento
das desigualdades no Brasil escravista, bem como se afirma a pertinência dessa obra
literária em meio ao atual cenário político-social brasileiro, pois a saga da protagonista
representa, metaforicamente, a vida de muitas mulheres negras do nosso país, sendo
os escravizados de antes os que hoje continuam exaustivamente lutando pelo pão de
cada dia.

Palavras-chave: Diáspora e resistência; Literatura afro-brasileira; História e a ficção;


Escrita afrodescendente.
WHEN THE PRESENT REVIEW THE PAST: MOVEMENTS IN UM DEFEITO
DE COR, ANA MARIA GONÇALVES

ABSTRACT

In this work, the phenomenon of displacement is analyzed in the novel Um defeito de


cor (2017), by Ana Maria Gonçalves. It discusses the approximations between the
postcolonial and Afro-Brazilian texts, as well as theoretical-critical issues that involve
the literature produced by Afro-descendant Brazilians. The various displacements
present in the work are analyzed considering the relationship between history and
fiction. The novel, in this way, when revisiting the past from the trajectory of the
character Kehinde, denounces the individual and collective misfortunes experienced by
the blacks in Brazil. From the theoretical framework on diaspora, identity, Afro-Brazilian
literature, as well as the relation between history and fiction, notably Gilroy (2001); Hall
(2003; 2005), Duarte (2008; 2014) and Pesavento (2003; 2004), this investigation was
undertaken, of an eminently bibliographic nature. It can be concluded that the
displacements constitute an important element of resistance and confrontation of the
inequalities in slave Brazil, as well as affirming the pertinence of this literary work in the
midst of the current Brazilian political-social scenario, since the saga of the protagonist
represents, metaphorically, the lives of many black women of our country, being the
former enslaved those who today continue to struggle for their daily bread.

Keywords: Diaspora and resistance; Afro-Brazilian literature; History and fiction;


Afrodescendant writing.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .................................................................................................... 11

1 DESLOCAMENTOS NO ROMANCE AFRO-BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO ... .15

1.1 Deslocamentos: sentidos de diáspora e resistência ............................... .19

1.2 Literatura afro-brasileira: questões teórico-críticas ................................ .26

2 DESLOCAMENTO E SUAS IMPLICAÇÕES EM UM DEFEITO DE COR ....... .38

2.1 Trajetórias críticas: deslocamentos e resistência .................................... .41

2.2 Entre a história e a ficção: os deslocamentos de Kehinde ...................... .46

CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 76

REFERÊNCIAS ................................................................................................... .80


INTRODUÇÃO

A produção literária dos negros e afrodescendentes, no Brasil, tem se


reafirmado por meio da resistência aos valores canônicos e etnocêntricos ao
longo dos anos. Entretanto, a reunião desses textos enquanto uma ramificação
dentro da literatura brasileira, considerada de forma ampla, tem sido mote para
diversas discussões nas últimas décadas. As questões teórico-críticas
acabaram movimentando a produção de pesquisadores que apresentaram
visões distintas sobre o assunto, bem como diferentes nomenclaturas, a
exemplo de literatura negra (BERND, 1988), negro-brasileira (CUTI, 2010), ou
afro-brasileira (DUARTE, 2008; 2014), abordagem escolhida para o
desenvolvimento deste trabalho, dentre outras1.
Essa discussão evidencia a existência de vasta produção literária dos
afrodescendentes no Brasil, desde o período colonial. Contudo, o cenário
editorial desfavorável aos autores negros acabou limitando seu alcance em
relação ao público leitor. Segundo Duarte (2018), a produção dos afro-
brasileiros sofreu diversos impedimentos, a exemplo da desvinculação autoral
da etnicidade africana, o que dificultou a publicação em livro.
Esse e outros condicionamentos seriam a causa da lacuna de uma
história e de um “um corpus estabelecido e consolidado para a literatura afro-
brasileira, tanto no passado quanto no presente, em virtude do número ainda
insuficiente de estudos e pesquisas a respeito, apesar do crescente esforço
nesta direção” (DUARTE, 2018). Nas últimas décadas, entretanto, a
historiografia literária brasileira tem passado por uma revisão teórico-
metodológica proporcionada pela “emergência de novos sujeitos sociais, que
reivindicam a incorporação de territórios discursivos antes relegados ao silêncio
ou, quando muito, às bordas do cânone cultural hegemônico” (DUARTE, 2018).
A luta dos movimentos sociais e sua busca por inclusão destacam-se
como meios de resistência que colaboraram para o fortalecimento de uma
literatura escrita por negros/afrodescendentes. A produção literária de
escritoras que estavam esquecidas do grande público, como Maria Firmina dos
Reis (2017), que não obteve reconhecimento desde meados do século XIX, e

1
Discutem-se essas e outras abordagens acerca do texto literário de autoria brasileira
afrodescendente a partir do Capítulo 1, item 1.2, página 25.

11
Carolina Maria de Jesus (2007), que fez muito sucesso nos anos 1960, mas
que passou por um posterior período de esquecimento, ganhou mais
visibilidade nas últimas décadas, o que ratifica a importância desses
movimentos.
Nesse cenário surge Ana Maria Gonçalves (2017): a escritora é natural
de Ibiá, Minas Gerais, e, após anos morando em São Paulo, decidiu “mudar de
ares” e visitar a Bahia. Já residindo em Itaparica, publicou, em 2002, seu
primeiro romance: Ao lado e a margem do que sentes por mim (GONÇALVES,
2017b). Em 2006, lançou, por uma grande editora, sua segunda obra: Um
defeito de cor, romance que teve muita aceitação por parte do público e pela
crítica, tornando-a conhecida em todo o país.
Um defeito de cor, dessa maneira, contrasta com a imensa maioria dos
romances escritos por autores negros, já que foi publicado por uma editora
consagrada (Record). Importa salientar que se trata de uma obra de autoria
feminina negra, na qual o protagonismo é exercido por uma mulher africana, o
que por si só já demonstra sua importância em meio ao atual cenário político-
social brasileiro.
Esta narrativa pode ser considerada um romance histórico sobre a trajetória
de Kehinde, personagem que, após ser escravizada no Daomé, África, acaba
sendo transportada para o Brasil no início do século XIX, tendo que enfrentar
todos os problemas relacionados à sociedade escravista. A violência, as
dificuldades na luta pela sobrevivência e o racismo foram as barreiras enfrentadas
na sua busca pela liberdade. A representação dos acontecimentos históricos, bem
como o trânsito entre personagens reais e fictícias constroem uma atmosfera que
envolve o leitor pelas 952 páginas da obra.
Deve-se salientar que essa obra literária de Gonçalves dá voz a uma
mulher negra que enfrenta enormes obstáculos na luta pela sobrevivência e
pela criação de seus filhos. Inspirado nas trajetórias de Luiza Mahin,
personagem que teria sido uma das líderes da revolta dos escravos malês,
ocorrida em Salvador no ano de 1835, e do poeta e advogado abolicionista Luiz
Gama, seu filho, Um defeito de cor parece representar diversos problemas da
sociedade brasileira atual, como a intolerância religiosa, o preconceito com as
minorias e a violência contra a mulher.

12
Isto posto, a escolha do romance de Gonçalves como corpus desta
pesquisa justifica-se, tendo como objetivo analisar o fenômeno do deslocamento,
partindo do pressuposto de que ele está na raiz da problemática racial no Brasil.
Observa-se que Um defeito de cor é marcado pela forte relação existente entre a
história e a ficção, visto que se trata de uma narrativa baseada em acontecimentos
importantes da história brasileira e da diáspora africana.
Assim, compreende-se a necessidade teórica da utilização de textos
escritos por autores que refletem sobre a problemática diaspórica. Pensadores
relacionados aos estudos culturais e pós-coloniais, como Stuart Hall (2003;
2006), Paul Gilroy (2001) e Hommi Bhabha (1998), dentre outros, fornecem
subsídios para se pensar o hibridismo e a questão da identidade no mundo
pós-colonial. Considerando a literatura produzida nos países marcados pela
colonização como uma resposta aos valores etnocêntricos e da classe
dominante, fica nítida sua aproximação do texto de autoria negra ou afro-
brasileira.
Dessa maneira, no Capítulo 1, “Deslocamentos no romance afro-
brasileiro contemporâneo”, discute-se, de início, em que ponto a escrita pós-
colonial se aproxima do texto afro-brasileiro, considerando-se Um defeito de
cor como parâmetro para essa observação. Consequentemente, as
características da escrita pós-colonial são abordadas, bem como a questão da
percepção dos deslocamentos enquanto sentidos de diáspora e resistência.
Posteriormente, realiza-se uma discussão acerca das implicações
teórico-críticas do romance afro-brasileiro. São apresentadas diversas visões
sobre o que seria a produção literária de autoria negra ou afro-brasileira, sendo
esta última a concepção adotada neste trabalho, como dito anteriormente.
Destacam-se as já mencionadas abordagens de Bernd, Cuti e Duarte. Salienta-
se também a questão do cânone, visto que, conforme Roberto Reis (1992), ele
não pode ser desassociado do exercício do poder. Muitas instâncias
legitimadoras, afinal, continuam excluindo as minorias, como pode-se perceber
na recente polêmica na eleição da Academia Brasileira de Letras – ABL. A
tentativa de minar a representatividade das classes subalternas é evidenciada
quando uma das mais importantes escritoras do país na atualidade recebe
apenas um de trinta e cinco votos possíveis, caso de Conceição Evaristo.

13
No Capítulo 2, “Deslocamento e suas implicações em Um defeito de
cor”, problematizam-se os deslocamentos na obra de Ana Maria Gonçalves,
considerando os pressupostos teóricos de Stuart Hall (2006) acerca da
existência de uma “crise de identidade” nos sujeitos que habitam o mundo
moderno. A ideia de “contemporaneidade” proposta por Agamben (2009)
também dá orientação para compreender os deslocamentos promovidos pela
autora do corpus analisado.
Como aspecto importante e subsequente da pesquisa, a relação
existente entre a história e a ficção é analisada considerando as
características referentes ao romance histórico, na obra em questão.
Pesavento (2003), por exemplo, fornece as bases para compreensão dessa
relação, bem como Stuart Hall (2006) para a questão dos deslocamentos
identitários existentes no romance.
Após apresentar uma breve revisão da fortuna crítica da obra, tem início
a análise dos deslocamentos da personagem Kehinde, levando-se em conta
sua trajetória desde a infância no reino do Daomé, no início do século XIX, sua
estada no Brasil como escrava e liberta, bem como seu retorno ao continente
africano em meados do mesmo século.
Pretende-se assim, contribuir para o debate acerca da literatura afro-
brasileira, sublinhando-se, entre outros aspectos, o forte caráter de denúncia
do texto de Ana Maria Gonçalves em relação ao passado escravagista de
nosso país. Além disso, destaca-se, sobretudo, na leitura de Um defeito de cor,
a dimensão emancipatória da arte literária, ao apontar que, para a conquista da
liberdade, assim como Kehinde, é preciso lutar, resistir em meio a
deslocamentos vários e desafiadores: pois, no âmago do termo deslocar, está
implicado, de variados modos, o incontornável sentido de mudança.

14
1 DESLOCAMENTOS NO ROMANCE AFRO-BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO

A literatura brasileira é repleta de escritores afro-


brasileiros que, no entanto, por vários motivos,
permanecem desconhecidos, inclusive nos com-
pêndios escolares. Muitos pesquisadores e críticos
literários negam ou ignoram a existência de uma
literatura afro-brasileira.

[Conceição Evaristo, “Literatura negra: uma


poética de nossa afro-brasilidade”]

A trajetória da personagem Kehinde, protagonista do romance Um


defeito de cor (2017), da escritora Ana Maria Gonçalves, compõe-se de
deslocamentos diversos, seja no continente africano, motivados por
perseguições de caráter religioso, antes de sua captura e escravização, bem
como após sua chegada ao Brasil, principalmente para buscar um filho perdido,
Omotunde. Kehinde locomoveu-se como mulher livre, depois na condição de
escravizada e, posteriormente, como liberta, por diversos lugares, tanto na
África quanto no Brasil, o que permite considerar o deslocamento como um dos
alicerces da narrativa construída pela autora da obra em questão.
Outro elemento estruturante do romance: ao se apropriar de
acontecimentos e personagens baseados em personalidades históricas, o texto
de Gonçalves (2017) assume um caráter metaficcional, no qual os
acontecimentos históricos estão submetidos à vontade da autora, o que torna
mais fluidas as fronteiras entre a história e a ficção. Entretanto, devemos
considerar que a obra também se constitui enquanto produção de autoria
feminina negra, cuja narrativa resgata e reconstrói sentidos da cultura africana,
bem como suas relações com práticas religiosas relativas aos povos árabes.
Além disso, apresenta traços de oralidade e enfatiza a importância da memória,
já que Kehinde conta sua história a partir das lembranças de toda uma vida. As
feridas da escravidão são demonstradas a partir dessa perspectiva
memorialista.
Destarte, a obra em questão enquadra-se como uma produção literária
marcada pela resistência e luta contra os valores etnocêntricos do cânone
literário nacional, inserindo-se na literatura afro-brasileira. Eduardo de Assis
Duarte, em 2008 (p. 11), considerava que, no ambiente acadêmico, o conceito
de literatura afro-brasileira ainda se encontrava em construção. Para esse

15
pesquisador, na produção literária nacional, tal conceito “não só existe como se
faz presente nos tempos e espaços históricos de nossa constituição enquanto
povo; não só existe como é múltipla e diversa”. Desse modo, essa literatura
possui um papel reivindicatório a partir de suas denúncias, que demonstram a
falta de representatividade das populações marcadas pela diáspora negra na
“história oficial” do Brasil.
A literatura afro-brasileira afirma-se, assim, através da conjunção de
elementos que lhe são próprios: a autoria, a temática, o ponto de vista, a
linguagem e o público, conforme Duarte (2008). Não se trata apenas de uma
produção escrita por afrodescendentes. A junção desses pontos de
convergência, ao mesmo tempo em que “constitui uma vertente da literatura
brasileira, chega para abalar a inteireza do todo, da unicidade antes existente”
(DUARTE, 2013, p. 149).
Em sentido lato, tal concepção coloca a literatura afro-brasileira no bojo
da escrita pós-colonial, visto que essa se manifestou enquanto uma resposta
aos valores dominantes de países europeus que subjugaram diversas
populações ao redor do mundo. Trata-se da reescrita da história dos povos
marcados pela dominação colonial, bem como a valorização das culturas e dos
sujeitos que foram subalternizados, como populações autóctones, negros,
mulheres, homossexuais, dentre outras minorias.
Em O local da cultura, Hommi Bhabha (1998) reforça que o caráter de
testemunho dos países subdesenvolvidos e de suas minorias foi decisivo para
a emergência dos estudos pós-coloniais. Segundo Bhabha (1998, p. 239), as
perspectivas pós-coloniais:

Intervêm naqueles discursos ideológicos da modernidade que tentam


dar uma ‘normalidade’ hegemônica ao desenvolvimento irregular e as
histórias diferenciadas de nações, raças, comunidades, povos. Elas
formulam suas revisões críticas em torno de questões de diferença
cultural, autoridade social e discriminação política a fim de revelar os
momentos antagônicos e ambivalentes no interior das ‘racionalizações’
da modernidade.

A “normalidade” da situação colonial põe em evidência o caráter


eurocêntrico e ocidentalizante das potências imperialistas que buscaram
estigmatizar as populações colonizadas, considerando as culturas dos povos
“locais” como desimportantes e inferiores. Albert Memmi (2007), ao discorrer

16
sobre as figuras do colonizador e do colonizado, no final da década de 1950,
revela que o racismo sustenta e amplia as diferenças entre ambos, valoriza
essas diferenças em benefício do primeiro e prejuízo do outro e busca afirmar
que tais diferenças são definitivas.
Antes de se destacar como um importante crítico do colonialismo,
Memmi viveu décadas em uma Tunísia marcada pela dominação francesa, o
que o caracteriza como sujeito que vivenciou as relações de poder entre
colônia e metrópole. Tal vivência permitiu-lhe desenvolver forte crítica ao
colonialismo. De modo semelhante, a experiência colonial foi refletida nos
trabalhos de muitos estudiosos, em diferentes tempos e contextos, como Frantz
Fanon (1968; 2008) e Stuart Hall (2003), por exemplo. Segundo Bonnici (2009, p.
267), a cultura e a literatura constituem o campo de estudos da crítica pós-colonial
e é seu papel examiná-las “durante e após a dominação imperial europeia, de
modo a desnudar seus efeitos sobre as literaturas contemporâneas”. A escrita
pós-colonial, mais precisamente a literatura, vai assumir esse viés contestatório
que busca equilibrar a balança das relações de poder.
A publicação de Orientalismo no ano de 1978, por Edward Said (1990), é
apontada por muitos como um dos marcos iniciais desse campo de estudos, que se
distancia/diferencia dos estudos culturais pela sua ênfase na análise das literaturas
dos países marcados pelo colonialismo e imperialismo europeu. Entretanto, embora
o termo “pós-colonial” tenha surgido nos anos 1970, ele se solidifica, enquanto
conceito, a partir da publicação, em 1989, do livro The empire writes back: theory
and practice in post-colonial literatures, de autoria de Bill Ashcroft, Gareth Griffiths e
Helen Tiffin (2004). Os autores consideram como pós-colonial

[...] all the culture affected by the imperial process from the moment of
colonization to the present day. This is because there is a continuity of
preoccupations throughout the historical process initiated by
European imperial aggression (ASHCROFT; GRIFFITHS; TIFFIN,
2
2004, p. 2) .

Ainda que essa obra tenha se preocupado com o mundo anglo-saxão,


os autores esclarecem que é de interesse e relevância para os países
dominados pelas outras potências imperialistas europeias. Tal conceito,

2
[...] toda a cultura afetada pelo processo imperial desde o momento da colonização até os
dias atuais. Isso porque existe uma continuidade das preocupações em todo processo
histórico iniciado pela agressão imperial europeia (tradução nossa).

17
destarte, ultrapassa a noção simplista do que vem depois ou após a
colonização, assumindo o termo “pós” um viés contestatório, por meio do qual
se problematizam as agressões históricas causadas pelos processos de
dominação colonial europeia.
Assim, as literaturas dos países que foram colônias da França, Espanha
e Portugal, bem como as demais “produções literárias dos povos colonizados
pelas potências europeias entre os séculos XV e XX” (BONNICI, 1998, p. 9)
também se enquadram na perspectiva pós-colonial. Thomas Bonnici (1998, p.
11-12) afirma que o desenvolvimento das literaturas pós-coloniais, em geral,
passou por três etapas:

A primeira etapa envolve textos literários que foram produzidos por


representantes do poder colonizador (viajantes, administradores,
soldados e esposas de administradores coloniais) [...] A segunda
etapa envolve textos literários escritos sob supervisão imperial por
nativos que receberam sua educação na metrópole e que se sentiam
gratificados em poder escrever na língua do europeu (não há
consciência de ela ser também do colonizador). [...] A terceira etapa
envolve uma gama de textos, a partir de certo grau de diferenciação
até uma total ruptura com os padrões emanados pela metrópole.

Considerando esse painel, percebemos que a literatura pós-colonial


assume o papel de reescrever as histórias desses países, histórias essas que
foram silenciadas ou negligenciadas pelas classes dominantes. Segundo
Marcelle Castro (2007, p. 76),

Os autores pós-coloniais, em termos gerais, se propõem a ‘preencher


lacunas’ que foram deixadas durante os diferentes regimes
colonizadores. Se durante o período colonial os nativos não puderam
se expressar, contar a história a partir de sua perspectiva, em suas
próprias línguas, e tiveram de se submeter ao domínio das
metrópoles, agora, num período pós-colonial – e como dito acima, um
‘pós’ que não se refere apenas a um momento histórico, mas,
sobretudo, a um posicionamento crítico em relação ao passado –, é o
momento de se fazerem ouvir.

Dessa maneira, a obra de Ana Maria Gonçalves, caracterizada como


romance afro-brasileiro, também pode ser situado na categoria de romance pós-
colonial por conta de características que fogem à estrutura hegemônica
predominante na literatura brasileira. A autoria feminina e negra entra em conflito
com o cânone nacional, principalmente por causa da repercussão obtida pela
obra. Bonnici (2009, p. 269) aponta que os textos de muitas escritoras brasileiras

18
do século XIX e início do século XX foram suprimidos e relegados ao
esquecimento. O recente interesse acadêmico por essa produção é uma
conquista histórica de diversos movimentos negros que lutaram, ao longo das
últimas décadas, pela publicação e circulação da produção literária dos
afrodescendentes, bem como pela representatividade das populações negras em
espaços reconhecidamente excludentes, como a televisão, só para citarmos mais
um exemplo.
No romance em estudo, a protagonista feminina narra sua própria
história, as culturas dos povos subalternizados são valorizadas e os
personagens negros são dotados de complexidade. Por meio da literatura, o
cânone historiográfico é questionado, pois é confrontada a concepção de que
no país existe uma democracia racial, tema debatido e questionado há décadas
na academia.
Um defeito de cor promove, assim, muitos deslocamentos em relação ao
centro hegemônico. A discussão de temáticas polêmicas em uma narrativa que
se passa ao longo de quase todo o século XIX ratifica essa posição. A obra de
Ana Maria Gonçalves é carregada, assim, de sentidos diversos que evidenciam
as histórias de luta e resistência das populações subalternizadas.

1.1 Deslocamentos: sentidos de diáspora e resistência

Como referido, os estudos pós-coloniais desenvolveram-se a partir da


década de 1970, com as contribuições de vários intelectuais que saíram de
suas pátrias de origem para desenvolverem estudos em suas ex-metrópoles. A
experiência de vida na colônia e o consequente exílio contribuíram para que os
trabalhos desses pensadores fossem escritos a partir de uma perspectiva
diaspórica, visto que, no mundo pós-colonial, as tensões geradas pelos
deslocamentos comprometem a rigidez das fronteiras nacionais.
Uma concepção de diáspora não marcada pelo binarismo se destaca
dentre as contribuições de Hall. O sociólogo salienta que o conceito fechado de
diáspora “está fundado sobre a construção de uma fronteira de exclusão e
depende da construção de um ‘Outro’ e de uma oposição rígida entre o dentro
e o fora” (HALL, 2003, p. 33). Hall considera que uma ideia de diáspora

19
baseada no binarismo não é adequada para a compreensão de uma identidade
cultural marcada pelo sincretismo, como a caribenha, por exemplo.
Seguindo essa tendência, Paul Gilroy (2001) analisa a diáspora africana
comparando-a com a judaica, apresentando traços que vinculam esses “povos
diferentemente dispersados”. O autor ressalta que os estudiosos africanistas se
apropriaram do conceito de diáspora a partir dos anos 1950 para designar a
dispersão de diversas populações africanas no mundo pós-colonial: “Os temas
de fuga e sofrimento, tradição, temporalidade e organização social da memória
possuem um significado especial na história das respostas judaicas à
modernidade” (GILROY, 2001, p. 382). Esses temas são associados às ideias
de dispersão, exílio e escravidão e passaram a representar a diáspora africana.
Importa salientar que diversos povos do continente africano já
praticavam a mobilidade antes da travessia do Atlântico. No entanto, embora a
diáspora de tais populações não tenha se restringido à travessia para o Novo
Mundo, foi nas Américas que atingiu seu ápice. Segundo Knight, Talib e Curtin
(2010, p. 888), “a diáspora africana foi muito mais importante nas Américas que
na Europa e na Ásia. No início do século XIX, a população afro-americana total,
livre e assujeitada, correspondia a cerca de 8,5 milhões de pessoas”, dentre as
quais, em 1810, 2,5 milhões se encontravam no Brasil. Os autores citados
apontam que:

Em todo o continente americano, os africanos − escravos ou libertos


− que viviam e trabalhavam nas cidades, aparentemente,
beneficiavam-se de mais amplos contatos e tinham maiores
oportunidades de ascensão social e maiores possibilidades de
alcançarem a liberdade, comparativamente aqueles cujos indivíduos
compunham grandes grupos de trabalho, nas plantações, fazendas e
usinas de cana-de-açúcar (KNIGHT; TALIB; CURTIN, 2010, p. 889).

De acordo com Rodrigues (2011, p. 217),

Para os libertos, o exercício da liberdade tinha, como um de seus


requisitos, a mobilidade espacial. Cada vez mais, as cidades
tornaram-se atrativas àqueles que não tiveram acesso à própria
lavoura de subsistência. Essa mobilidade permitia, muitas vezes,
escapar dos estigmas que eles poderiam sofrer ao permanecer na
mesma região ou propriedade onde haviam sido escravos.

20
Nesse contexto, para um negro africano ou afrodescendente, estar numa
grande cidade colonial, como a Salvador do século XIX, possibilitava que
tivesse mais chances de sobrevivência em meio à dura realidade imposta. A
mobilidade, se não adquiria sentido de liberdade, dava ao indivíduo certa
autonomia nos deslocamentos diários nas ruas e praças da cidade, além do
contato com pessoas de diversos grupos sociais, em comparação ao
escravizado que trabalhava na plantation.
Um defeito de cor representa essa situação, ao demonstrar o
deslocamento da personagem Kehinde entre as duas realidades do trabalho
servil na colônia brasileira: a do campo e a da cidade. A vida na cidade grande,
com seu caráter mais cosmopolita, fez Kehinde ter contato e
aprender/apreender aspectos de diversas culturas, sejam elas subalternizadas,
como as etnias iorubá e hauçá, ou representantes da classe dominante, como
portugueses e ingleses. A Salvador do século XIX era, portanto, uma cidade
diaspórica, onde os trânsitos culturais não respeitavam as fronteiras étnicas.
A noção de diáspora, percebida por Gilroy sob o conceito de “Atlântico
Negro”, considera a cultura e os deslocamentos como elementos fundamentais
para a compreensão da fluidez das fronteiras culturais nas sociedades
marcadas pela diáspora. Os constantes fluxos culturais apontam para a
construção de sociedades hibridas, nas quais o entrelaçamento das diversas
culturas evidencia a fluidez das fronteiras étnicas e nacionais. A região das
Antilhas, com a intensificação do fluxo migratório e das trocas culturais com a
Grã-Bretanha ao longo do século XX, é outro exemplo nítido. No entanto, as
identificações com os lugares de origem permanecem.
Stuart Hall, ao discorrer sobre o livro Narratives of Exile and Return, de
Mary Chamberlain (1998), revela a permanência dos elos após deslocamentos
de barbadianos para a Grã-Bretanha. Considerando que numa realidade
marcada pela diáspora as identidades se tornam múltiplas, o sociólogo indica
que a associação com as culturas de origem permanece forte após algumas
gerações, mesmo em um mundo onde os locais de pertencimento de
determinadas populações já não podem ser considerados as únicas fontes de
identificação.
A situação de retorno cria um problema para o sujeito diaspórico, já que
acarreta uma dificuldade natural em se religar à sua terra de origem:

21
Muitos sentem falta dos ritmos de vida cosmopolita com os quais tinham
se aclimatado. Muitos sentem que a ‘terra’ se tornou irreconhecível. Em
contrapartida, são vistos como se os elos naturais e espontâneos que
antes possuíam tivessem sido interrompidos por suas experiências
diaspóricas. Sentem-se felizes por estar em casa. Mas a história, de
alguma forma, interveio irrevogavelmente (HALL, 2003, p. 27).

Isso evidencia que as experiências de vida no desterro transformam os


seres humanos, principalmente por conta do hibridismo provocado pelo contato
com outras culturas, sendo elas tanto das classes dominantes quanto das
classes subalternizadas. A experiência histórica advinda da luta pela
sobrevivência modifica a identidade cultural dos indivíduos, tanto mais quando
o deslocamento atua como agente das fusões culturais.
Soares (2016, p. 42-43) aponta:

Mesmo tendo suas tradições, suas crenças e sua bagagem cultural


formada, o sujeito diaspórico vai construindo uma identidade
multicultural, mas sem deixar que a sua cultura seja negada pelo
outro. Como forma de manutenção da sua identidade cultural este
utiliza da língua, dos costumes, da dança e da escrita para propagar
e hibridizar a cultura do Outro.

Hall aponta que esses intercâmbios colaboram para as transformações


culturais nas mais variadas sociedades. Adverte, contudo, que, de modo geral, as
relações estabelecidas não são de igualdade, já que estão submetidas às
relações de poder, principalmente de dependência e subordinação.
Segundo Hall (2005, p. 34): “Os momentos de independência e pós-
colonial, nos quais essas histórias imperiais continuam a ser vivamente
retrabalhadas, são necessariamente, [...] momentos de luta cultural, de revisão
e de reapropriação”. O hibridismo característico dos lugares marcados pelo
trânsito diaspórico fundamenta a ideia de intercâmbio cultural.
A fase da globalização que se acentuou após o sucesso de movimentos
que buscaram emancipação das antigas colônias europeias nos anos de 1970,
intensificou o descentramento dos Estados-nação, pois “essa nova fase
‘transnacional’ do sistema tem seu ‘centro’ cultural em todo lugar e em lugar
nenhum” (HALL, 2005, p. 36). Dessa maneira, “é importante ver essa
perspectiva diaspórica da cultura como uma subversão dos modelos culturais
tradicionais orientados para a nação. Como outros processos globalizantes, a
globalização cultural é desterritorializante em seus efeitos” (HALL, 2005, p. 36),

22
pois ainda que as culturas tenham seus locais, não podemos mais dizer com
facilidade de onde se originam.
Segundo Maria Nazareth Fonseca (2011, p. 20):

Por tal processo, é possível compreender os modos como a África


vem sendo reinventada fora do continente e no seu interior, pois as
misturas também ocorrem com as constantes releituras de
significantes das culturas externas ao continente e das variantes
locais, que se tornam também impuras, por que são constantemente
visitadas por processos de ‘transplante, sincretização e
diasporização’, cujos sentidos são submetidos à reciclagem e à
reinstalação em novos arranjos.

A ideia de “estética diaspórica” permite “pensar em um processo de


escrita literária que conecta recursos e saberes vários, gêneros textuais
diversos, em uma produção ‘impura’, porque desestabiliza a ordem da escrita
convencional” (FONSECA, 2011, p. 21). Essa desestabilização aponta sinais
de resistência: no mundo pós-colonial, a literatura assume um protagonismo no
que diz respeito a processos de resistência, pois, como dito anteriormente,
oportuniza à classe subalternizada contar sua história, desestabilizando os
discursos cristalizados na história oficial.
Desse modo, o deslocamento e a resistência são características
intrínsecas das sociedades marcadas pela dominação colonial. Primeiro,
porque o colonizador, com sua ânsia dominadora e imperialista, força o
deslocamento das populações autóctones, impondo sua cultura e sua língua
em detrimento das populações nativas. Segundo, porque toda ação dá origem
a uma reação, ainda que o revide não tenha a mesma intensidade.
Fanon, em Os condenados da terra (1968, p. 65), revela que o colono
sempre mostrou o caminho da emancipação para o colonizado, afinal,
aquele “de quem sempre se disse que só compreendia a linguagem da
força, resolveu exprimir-se” por meio dela. Para o autor martinicano, a luta
armada seria o meio libertador, “já que o homem colonizado se liberta na e
pela violência” (FANON, 1968, p. 65). A compreensão de tal afirmativa deve
levar em consideração o envolvimento do psiquiatra com a militância e a luta
armada anticolonial. Contudo, ele não nega a existência de outros meios de
resistência, ainda que pareça demonstrar certo descontentamento com
determinadas situações.

23
Sobre a literatura do colonizado, descreve três estágios: no primeiro, “o
intelectual colonizado prova que assimilou a cultura do ocupante”, produzindo
narrativas que compartilham os mesmos valores dos metropolitanos. Em um
segundo momento, o colonizado “sofre um abalo e resolve recordar”, período
em que ele se sensibiliza com seus pares, mas por ter conexões com a
metrópole, se utiliza “de uma estética de empréstimos e de uma concepção de
mundo descoberta sob outros céus” (FANON, 1968, p. 184-185). E no terceiro,
chamado de combate:

o colonizado, depois de ter tentado perder-se no povo, perder-se com


o povo, vai, ao contrário, sacudir o povo. Em vez de privilegiar a
letargia do povo, transformar-se em despertador do povo. Literatura
de combate, literatura revolucionária, literatura nacional. No curso
dessa fase, um grande número de homens e mulheres que até então
jamais haviam pensado em fazer obra literária, agora que se veem
colocados em situações excepcionais, na prisão, nas matas ou
aguardando a execução, sentem a necessidade de falar de sua
nação, de compor a frase que exprime o povo, de se fazer porta-voz
de uma nova realidade em atos (FANON, 1968, p. 185).

Esses estágios são semelhantes ao quadro proposto por Bonnici (1998)


acerca da produção pós-colonial. Talvez por estar dentro da situação de luta
anticolonialista, o pensador martinicano tenha escrito, logo a seguir, a respeito
da literatura do colonizado, que “não se dá testemunho da nação através da
cultura” (FANON, 1968, p. 185), o que demonstra o radicalismo na sua forma
de perceber a relação colonizador-colonizado, cuja dominação seria extinta por
meio quase que exclusivamente da luta armada. O protagonismo do conflito
armado, contudo, não indica que a literatura seja desimportante enquanto
forma de resistência.
Em O ser e o tempo da poesia, publicado originalmente na década de
1970, Alfredo Bosi (1977, p. 143-144) já discorria sobre as faces da resistência,
ressaltando que ela ora propõe “a recuperação do sentido comunitário perdido,
ora a melodia dos afetos em plena defensiva, ora a crítica direta ou velada da
ordem estabelecida”. A recuperação do sentido comunitário está
intrinsecamente ligada à ideia de identidade; a ‘melodia dos afetos’, entendida
pelo autor como um lirismo de confissão, revela um tom autobiográfico; e a
crítica da ordem estabelecida demonstra a resistência à manutenção do status
quo. No que diz respeito à narrativa, Alfredo Bosi (2002, p. 134) salienta que:

24
a resistência é um movimento interno ao foco narrativo, uma luz que
ilumina o nó inextricável que ata o sujeito ao seu contexto existencial
e histórico. Momento negativo de um processo dialético no qual o
sujeito, em vez de reproduzir mecanicamente o esquema das
interações onde se insere, dá um salto para uma posição de distância
e, deste ângulo, se vê a si mesmo e reconhece e põe em crise os
laços apertados que o prendem à teia das instituições.

A literatura, nessa ótica, dá o seu testemunho sobre a nação ao


reconhecer as amarras que prejudicam seu desenvolvimento. Ângela
Gonçalves e Tomas Bonnici (2005, p. 151) afirmam que o tema da resistência
revela, na maioria dos textos pós-coloniais, “não somente o revide do sujeito
colonizado, mas também a ambiguidade e a fragmentação do colonizador”.
Isso demonstra que a escrita pós-colonial se utiliza de diversos artifícios, como
a ironia e a paródia, por exemplo, “para usurpar a autoridade e desestabilizar o
centrismo do colonizador” (GONÇALVES; BONNICI, 2005, p. 151).
A composição de narrativas descentradas, inclusive, tem sido
característica da literatura brasileira contemporânea. Jaime Ginzburg (2012, p.
201) salienta que o centro

é entendido como um conjunto de campos dominantes na história


social – a política conservadora, a cultura patriarcal, o autoritarismo
de Estado, a repressão continuada, a defesa de ideologias voltadas
para o machismo, o racismo, a pureza étnica, a heteronormatividade,
a desigualdade econômica, entre outros. O descentramento seria
compreendido como um conjunto de forças voltadas contra a
exclusão social, política e econômica.

O descentramento, dessa maneira, é intrínseco às narrativas pós-


coloniais, já que tais narrativas vão de encontro à ordem dominante,
questionando os valores consolidados ao longo de décadas ou até séculos de
colonização, como no caso brasileiro. No Brasil, país onde muitas vezes o
racismo se esconde atrás de discursos como o da democracia racial, a
literatura pós-colonial, em sua vertente afro-brasileira, vai assumir a
responsabilidade na busca de espaço para as minorias, cujas vozes foram
silenciadas durante (e após) a colonização.

25
1.2 Literatura afro-brasileira: questões teórico-críticas

Um dos principais problemas com que se depara o pesquisador da


literatura afro-brasileira diz respeito à polêmica conceitual com a denominada
literatura negra. Essa discussão ganhou intensidade a partir das últimas
décadas do século XX e divide a crítica literária em campos distintos, já que
separa aqueles que possuem um posicionamento conciliador de outros
pensadores que consideram uma postura mais radical como fundamento para
a composição do texto negro/afro-brasileiro.
A publicação de A poesia afro-brasileira, no ano de 1943, pelo
sociólogo francês Roger Bastide (1973), inaugura o debate sobre o uso do
termo “afro-brasileiro” como categoria para análise das literaturas
produzidas pelos afrodescendentes. Assim como Bastide, pesquisadores
estrangeiros, a exemplo de Sayers (1958), Rabassa (1965) e Brookshaw
(1983), constituíram o campo da reflexão acadêmica voltada para o estudo
da produção literária dos afrodescendentes brasileiros de forma quase que
exclusiva (DUARTE, 2014, p. 260).
A mudança no comportamento da crítica, no que diz respeito à
predominância dos chamados pesquisadores brasilianistas, iniciou-se a partir
da publicação da série Cadernos Negros, no ano de 1978. Organizado pelo
grupo Quilombhoje, os Cadernos... são lançados, de forma anual e ininterrupta,
alternando volumes dedicados à publicação de trabalhos em prosa (contos) e
poesia. A publicação do livro Reflexões sobre a literatura afro-brasileira, no ano
de 1985, reafirma o compromisso do grupo em não apenas divulgar a produção
literária de afrodescendentes, mas atuar politicamente, discutindo o conceito e
o lugar dos textos e autores afro-brasileiros (QUILOMBHOJE, 1985).
De acordo com Duarte (2014, p. 260):

a ampliação da chamada classe média negra, com um número


crescente de profissionais com formação superior buscando lugar no
mercado de trabalho e no universo do consumo; e, por outro, a
instituição de mecanismos como a lei 10.639/2003 ou as ações
afirmativas, vêm contribuindo para a construção de um ambiente
favorável a uma presença mais significativa das artes marcadas pelo
pertencimento étnico afrodescendente.

26
Os crescimentos do público e da demanda justificam, para esse
pesquisador, “as responsabilidades dos agentes que atuam nos espaços
voltados para a pesquisa e produção do conhecimento, em especial nas
instituições de ensino superior” (DUARTE, 2014, p. 260). Daí a necessidade de
se discutir os conceitos de literatura negra e literatura afro-brasileira, ampliando
o debate, inclusive, para além dos muros da academia.
Nos textos “Literatura afro-brasileira: um conceito em construção” e “Por
um conceito de literatura afro-brasileira”3, Duarte (2008; 2014) analisa várias
proposições acerca da acepção de literatura negra, construindo um quadro
elucidativo sobre as divergências entre as diversas perspectivas teóricas sobre
o tema. Se por um lado, os autores vinculados aos Cadernos Negros,
possuíam um viés de militância, percebido pela identificação com a concepção
proposta por Ironildes Rodrigues, que compreende a literatura negra pelo
pertencimento étnico e pela discussão dos problemas enfrentados pela raça
negra, por outro, alguns escritores, como Muniz Sodré, Nei Lopes e Joel Rufino
dos Santos, pertencem a uma linha “menos empenhada em termos de
militância” (DUARTE, 2014, p. 261).
Concepções marcadas pelo reducionismo temático, como a de Benedita
Gouveia Damasceno, incluiriam no campo da literatura negra autores brancos,
como Jorge de Lima, visto que o pertencimento étnico não seria tão relevante
para a pesquisadora (DUARTE, 2014, p. 261). Duarte aponta que Domício
Proença Filho contribui com uma visão conciliadora, que abarca tanto o
pertencimento étnico quanto o viés temático:

Em sentido restrito, considera-se negra uma literatura feita por negros


ou por descendentes assumidos de negros e, como tal, reveladora de
visões de mundo, de ideologias e de modos de realização que, por
força de condições atávicas, sociais, e históricas condicionadoras,
caracteriza-se por uma certa especificidade, ligada a um intuito claro
de singularidade cultural. Lato sensu, será negra a arte literária feita
por quem quer que seja, desde que centrada em dimensões
peculiares aos negros ou aos descendentes de negros (PROENÇA
FILHO, 2004, p. 185).

Proença Filho (2004, p. 161) demonstra que a presença do negro na


literatura brasileira é marcada por dois posicionamentos distintos: “a condição
negra como objeto, numa visão distanciada, e o negro como sujeito, numa

3
Esse texto constitui-se em uma versão ampliada do texto anterior.

27
atitude compromissada” (grifo do autor). Isso ratifica a existência de uma
literatura sobre o negro e de uma literatura do negro. Segundo Duarte (2014, p.
262), entretanto, uma concepção de literatura negra que abarca essas duas
perspectivas:

compromete a operacionalidade do conceito, uma vez que o faz


abrigar tanto o texto empenhado em resgatar a dignidade social e
cultural dos afrodescendentes quanto o seu oposto – a produção
descompromissada, para ficarmos nos termos de Proença, voltada
muitas vezes para o exotismo e a reprodução de estereótipos
atrelados à semântica do preconceito.

A visão de Proença Filho faz ressalvas à constituição de um campo


literário para os afrodescendentes, pois o pesquisador compreende que a
constituição de um campo distinto da literatura nacional compromete a
qualidade da arte literária pois pode:

Converter-se em instrumento mantenedor de discriminação:


equivaleria a considerar que a literatura produzida pelos negros é
literatura negra e como tal deve ser tratada, em função dessa
especificidade e das circunstâncias sócio-históricas em que é
produzida, como se não tivesse nada a ver com a arte literária que se
realiza no país e que é dimensionada à luz dos conceitos norteadores
da teoria da literatura e que, mesmo em tempos pós-modernos,
seguem orientando os estudos da arte literária no Brasil e nos demais
centros ocidentais (PROENÇA FILHO, 2004, p. 187).

O crítico, assim, esquiva-se de uma postura engajada ao preferir um


posicionamento que, considerando os graves problemas sociais decorrentes de
mais de três séculos de escravidão no Brasil, propõe como caminho uma
integração harmoniosa entre as múltiplas identidades que compõem a literatura
brasileira. Esse posicionamento parece desconsiderar a existência de um
cânone literário e demais mecanismos de poder que excluíram as populações
subalternizadas dos estudos da arte literária no Brasil.
A recente polêmica na eleição para uma cadeira na Academia
Brasileira de Letras – ABL demonstra o contraste entre as forças
hegemônicas e subalternizadas, o que evidencia quão desarmoniosa é a
sociedade brasileira, principalmente quando se trata da inserção de minorias
nos espaços reconhecidamente canônicos e/ou elitistas. A candidatura de
Conceição Evaristo para a cadeira número sete da ABL recebeu um de trinta
e cinco votos possíveis, revelando que, ainda que tenha se tornado uma das

28
mais importantes escritoras brasileiras da atualidade, o fato de ser uma
mulher negra de origem humilde pode ter tido peso na recusa dos votantes
em integrá-la ao quadro de imortais de uma instituição majoritariamente
branca e masculina.
Roberto Reis (1992, p. 70), ao discorrer sobre o cânone, ressalta que
esse conceito não pode ser desassociado da questão do poder, pois “os que
selecionam (e excluem) estão investidos da autoridade para fazê-lo e o farão
de acordo com os seus interesses (isto é: de sua classe, de sua cultura, etc.)”.
Dessa maneira, os escritores negros, ao se articularem em espaços para
divulgação de suas obras, como no caso do grupo Quilombhoje, não estão se
isolando da produção considerada nacional, como entende Proença Filho.
Estão, sim, buscando um espaço para reinvindicação das demandas de
pessoas que foram silenciadas e excluídas ao longo de séculos.
A escrita, dessa maneira, com seu caráter reivindicatório e denunciador
das condições de vida das populações subalternizadas, constitui uma
ferramenta de resistência para essas pessoas. Conceição Evaristo (2009, p.
18), considerando a violência física e restrições sofridas pelos
afrodescendentes durante o período escravocrata e pelas relações raciais na
sociedade brasileira, ressalta que “coube aos brasileiros, descendentes de
africanos, inventarem formas de resistência que marcaram profundamente a
nação brasileira”. Uma literatura que se afasta dos valores canônicos seria
uma dessas formas, já que vai de encontro à escrita “veiculada pelas classes
detentoras do poder político-econômico” (EVARISTO, 2009, p. 18).
A visão da escritora acerca da literatura afro-brasileira indica que os
processos de escrita são contaminados pela subjetividade ou vivência dos
autores. Evaristo (2017), dessa forma, utiliza o termo “escrevivência” para
caracterizar a sua escrita enquanto mulher negra, acreditando que:

seria escrever a escrita dessa vivência de mulher negra na sociedade


brasileira. Eu acho muito difícil a subjetividade de qualquer escritor ou
escritora não contaminar a sua escrita. De certa forma, todos fazem
uma escrevivência, a partir da escolha temática, do vocabulário que
se usa, do enredo a partir de suas vivências e opções. A minha
escrevivência e a escrevivência de autoria de mulheres negras se dá
contaminada pela nossa condição de mulher negra na sociedade
brasileira. Toda minha escrita é contaminada por essa condição. É
isso que formata e sustenta o que estou chamando de escrevivência.

29
Assim, a autora revela que sua intenção, enquanto mulher negra que
escreve a partir de suas vivências, é “acordar os da Casa Grande, incomodá-
los em seus sonos injustos” (EVARISTO, 2017). A literatura afro-brasileira,
nessa perspectiva, assume um papel que reivindica espaço não apenas para o
a escrita afrodescendente, mas para o texto de autoria da mulher negra, com
ela se representando.
Esse posicionamento demonstra que Evaristo é uma escritora engajada
e dedicada à reflexão sobre a produção literária dos afrodescendentes. Assim
como Cuti, dentre outros, ela transita entre vários gêneros literários, além de
ter experiência acadêmica, produzindo ensaios e artigos científicos. Essa
atividade diversificada permite que ambos tenham visão distinta da literatura
afro-brasileira ou negro-brasileira, como prefere Cuti, já que seu campo de
estudos é mais amplo. Isso permite a esses autores, além de escreverem
obras literárias, refletirem sobre sua área de atuação, o que os diferem de
pesquisadores que ficam restritos à crítica literária ou à literatura
propriamente dita.
Zilá Bernd (1988), em Introdução à literatura negra, aponta a existência de
um elemento específico, o “eu enunciador”, como fundamental para a composição
do texto negro. Para a pesquisadora, não basta que o escritor tenha a cor da pele
negra, tampouco que se utilize da temática, como no caso dos autores
mencionados:

[a escrita negra] emerge da própria evidência textual cuja


consistência é dada pelo surgimento de um eu enunciador que se
quer negro. Assumir a condição negra e enunciar o discurso em
primeira pessoa parece ser o aporte maior trazido por essa literatura,
constituindo-se em um de seus marcadores estilísticos mais
expressivos (BERND, 1988, p. 22).

Essa característica discursiva é, para a pesquisadora, o único critério


possível para definição da literatura negra. Bernd, inclusive, ressalta a
existência do “eu enunciador” como divisor de águas entre o discurso sobre o
negro e o discurso do negro. No entanto, ao afirmar que “não é preciso ser
negro para fazer poesia negra” (BERND, 1992, p. 274), acaba aumentando a
polêmica, pois a poesia possui nuances distintas da prosa. A pesquisadora
ressalta que basta “situar-se como negro” para que a poesia possa revelar uma
intenção negra. Tal consideração, ao invés de ajudar na criação de um campo

30
conceitual, acaba relativizando-o, indicando que quaisquer pessoas sem
descendência afro-brasileira podem integrar esse campo literário.
Duarte expõe a existência de outras vertentes conceituais, como a que
relaciona o romance negro à narrativa policial, a exemplo do proposto por
Ruben Fonseca (1992). Essa multiplicidade de concepções acerca da literatura
negra acaba enfraquecendo e limitando “a eficácia do conceito enquanto
operador teórico e crítico.” (DUARTE, 2014, p. 264).
Por sua vez, o escritor e pesquisador Luís Silva, o já mencionado Cuti
(2010), utiliza o termo “negro-brasileiro” para definir o campo, pois considera
que o termo “negro” possui um viés político, contestatório e reivindicatório. O
pesquisador, que foi um dos principais articulistas do grupo Quilombhoje e
idealizador, com Hugo Ferreira, dos Cadernos Negros, afirma:

A literatura negro-brasileira nasce na e da população negra que se


formou fora da África, e de sua experiência no Brasil. A singularidade
é negra e, ao mesmo tempo, brasileira, pois a palavra ‘negro’ aponta
para um processo de luta participativa nos destinos da nação e não
se presta ao reducionismo contribucionista a uma pretensa brancura
que a englobaria como um todo a receber, daqui e dali, elementos
negros e indígenas para se fortalecer. Por se tratar de participação na
vida nacional, o realce a essa vertente literária deve estar
referenciado à sua gênese social ativa. O que há de manifestação
reivindicatória apoia-se na palavra ‘negro’ (CUTI, 2010, p. 44-45).

A esse respeito, Cuti desconsidera a influência da tradição oral africana


na produção literária dos afrodescendentes brasileiros. A tradição escrita a
ratifica como “vertente da literatura brasileira e não africana” (CUTI, 2010, p.
45), embora a inclusão de brancos brasileiros no seio da literatura negro-
brasileira seja considerada pelo escritor uma incoerência.
Não obstante, a utilização do termo “afro-brasileiro” como categoria de
análise, parece mais adequada, pois, “por sua própria configuração semântica,
remete ao tenso processo de mescla cultural em curso no Brasil desde a
chegada dos primeiros africanos. Processo de hibridação étnica e linguística,
religiosa e cultural” (DUARTE, 2014, p. 264). O afro-brasileiro, nessa
perspectiva, confunde-se com o sujeito pós-colonial, pois ambos são indivíduos
marcados pela condição diaspórica.
A necessidade de se utilizar um critério pluralista para a literatura afro-
brasileira é salientada por Edmilson Pereira (2018, p. 1): “a identidade da

31
Literatura Brasileira está ligada a uma tradição fraturada, característica das
áreas que passaram pelo processo de colonização”. A ideia de tradição
fraturada demonstra que as culturas dos países que foram marcados pela
dominação colonial não conseguem romper de vez com os valores tradicionais
ao mesmo tempo em que buscam assumir ou construir novos valores. Segundo
Pereira (2018, p. 2), “a marca de nossa identidade literária pode estar no
reconhecimento dessa fratura, que nos coloca no intervalo entre a aproximação
e o distanciamento das heranças da colonização”.
A concepção “negro-brasileira”, proposta por Cuti, parece menos
abrangente e pode levar a interpretações que desconsideram a experiência e
os reflexos da diáspora dos povos africanos nas populações afrodescendentes
no Brasil, já que as vivências em África e na travessia do Atlântico,
aparentemente, não exercem influência na escrita negro-brasileira. Essa, por
sua vez, não descenderia da literatura africana:

Os negro-africanos que no Brasil chegaram escravizados não


trouxeram em sua bagagem nenhum romance, livro de contos ou de
poesia que pudessem ter servido de base para a continuidade de uma
literatura afro no Brasil. Veio, sim, a literatura oral. Entretanto, os textos
escritos têm sua gênese fundamental em outros textos escritos, apesar
de outras influências secundárias. Quando se transpõe um conto oral
para o papel tem-se a exata dimensão de seu deslocamento e
inconsistência para a leitura. Não foi feito para ser lido. É como beber
algo sólido ou mastigar algo líquido (CUTI, 2010, p. 45).

Transpor a oralidade para a escrita literária, contudo, constitui uma


importante forma de resistência e luta contra os valores canônicos, pois
envolve a transmissão de uma ancestralidade africana armazenada,
culturalmente, pela memória. Isso pode ser percebido, por exemplo, nos contos
de Mãe Beata de Yemonjá (2002) que foram reunidos na obra Caroço de
dendê: a sabedoria dos terreiros, no qual a autora deixa transparecer as
marcas da oralidade sem comprometer a literariedade dos textos.
Dessa maneira, o caminho proposto por Duarte (2008; 2014), seguindo a
tradição iniciada por Bastide nos anos 1940, além de reivindicar um espaço
para a literatura afro-brasileira, apresenta alicerces que demonstram uma
postura mais abrangente pelas quais essa escrita se sustentaria, o que
aparenta ser mais coerente com a diversidade das expressões literárias dos
afrodescendentes. Um conceito que abarca tanto a produção de escritores de

32
épocas mais distantes como Domingos Caldas Barbosa, Luís Gama e Maria
Firmina dos Reis, quanto à de escritores contemporâneos, como Nei Lopes,
Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves.
Constitui o campo da literatura afro-brasileira a produção literária de
escritores que assumem sua etnicidade afrodescendente, privilegiam temáticas
relacionadas à cultura afro-brasileira, identificam-se com a linguagem e as
formas de expressão dessa comunidade, bem como posicionam os
negros/afrodescendentes como sujeitos de suas próprias histórias, buscando
subverter “imagens e sentidos cristalizados pelo imaginário social oriundo dos
valores brancos dominantes”. (DUARTE, 2013, p. 149). Duarte, como citado
anteriormente, aponta os cinco elementos que sustentam o texto afro-brasileiro,
a saber: a autoria, a temática, o ponto de vista, a linguagem e o público.
Deve-se ressaltar que, desde o período imperial brasileiro, muitas obras
de autoria negra foram invisibilizadas pelas instâncias sociais e canônicas. Um
exemplo é o romance Úrsula, de Maria Firmina dos Reis (2017), publicado
originalmente no ano de 1859:

O homem que assim falava era um pobre rapaz, que ao muito parecia
contar vinte e cinco anos, e que ria franca expressão de sua
fisionomia: deixava adivinhar toda a nobreza de um coração bem
formado. O sangue africano fervia-lhe nas veias; o mísero ligava-se à
odiosa cadeia da escravidão; e embalde o sangue ardente que
herdara de seus pais, e que o nosso clima e a servidão não puderam
resfriar, embalde — dissemos — se revoltava, porque se lhe erguia
como barreira o poder do forte contra o fraco (REIS, 2017, p. 7).

Considerando a fala do narrador, acima, pode-se perceber que o


romance compõe uma narrativa sobre a escravidão, além do fato, não
perceptível nesse trecho, mas sabido pela crítica, de que se trata de uma obra
escrita por uma mulher negra no período escravocrata. A autora claramente se
posiciona a partir de um ponto de vista favorável aos escravizados. Para
muitos, é um dos marcos inaugurais da literatura afro-brasileira, ainda que
tenha sido preterida pelo cânone. Ratifica essa posição o fato de Úrsula
englobar os diversos aspectos relacionados por Duarte, como a temática, a
autoria, o ponto de vista, a linguagem e o público.
Sobre a “temática”, Eduardo de Assis Duarte (2014, p. 267-268) destaca
a ampla diversidade, que pode compreender desde a diáspora negra à
glorificação dos heróis, o resgate da história, as tradições culturais e religiosas,

33
a denúncia da escravidão, bem como “os dramas vividos na modernidade
brasileira, com suas ilhas de modernidade cercadas de miséria e exclusão”. No
gênero romanesco, essas temáticas aparecem em obras de Machado de Assis,
Lima Barreto e Paulo Lins, em obras como Memórias póstumas de Brás Cubas,
Triste fim de Policarpo Quaresma e Cidade de Deus, respectivamente.
Não obstante, Duarte atenta para o fato de que a temática afro-brasileira
não deve ser compreendida isoladamente, já que nada impede que autores
brancos escrevam sobre assuntos relativos aos negros e sua cultura. O tema
deve ser considerado a partir de sua interação com a autoria e o ponto de vista,
mas o reducionismo temático deve ser evitado.
A “autoria” é um elemento que gera controvérsias por implicar “a
consideração de fatores biográficos ou fenotípicos, com todas as dificuldades
daí decorrentes e, ainda, a defesa feita por alguns estudiosos de uma literatura
afro-brasileira de autoria branca” (DUARTE, 2014, p. 268). Duarte aponta que
alguns autores, apesar de afrodescendentes, não reivindicam essa condição,
alertando também para o perigo do reducionismo sociológico:

A instância da autoria como fundamento para a existência da


literatura afro-brasileira decorre da relevância dada à interação entre
escritura e experiência, que inúmeros autores fazem questão de
destacar, seja enquanto compromisso identitário e comunitário, seja
no tocante à sua própria formação de artistas da palavra (DUARTE,
2014, p. 270).

A interação com a experiência pode ser percebida nos trabalhos de


Carolina Maia de Jesus, Lima Barreto, dentre outros, ganhando destaque, na
atualidade, a ficção de Conceição Evaristo, que escreve, assumidamente, a
partir do processo aqui já mencionado como “escrevivência”.
Sobre o “ponto de vista”, Duarte aponta que é fundamental na
composição do texto afro-brasileiro, já que a temática e a autoria, isoladamente,
são insuficientes. O ponto de vista “indica a visão de mundo autoral e o universo
axiológico vigente no texto, ou seja, o conjunto de valores que fundamentam as
opções até mesmo vocabulares presentes na representação” (DUARTE, 2014, p.
271). O pesquisador considera que o escritor afro-brasileiro precisa se identificar
com a realidade dos indivíduos representados. Além do citado romance de Maria
Firmina dos Reis, os poemas de Luiz Gama, bem como as obras de Machado de

34
Assis, dentre outros, são destacadas como exemplos de textos que demonstram
o ponto de vista dos autores.
No que diz respeito à “linguagem”, Duarte (2014, p. 273-274) revela que
um vocabulário marcado por expressões linguísticas oriundas da África, bem
como práticas discursivas que busquem contrariar os “sentidos hegemônicos
da língua” denunciam o texto afro-brasileiro. A ressignificação de estereótipos
cristalizados pela sociedade racista, que atribui sentidos pejorativos para
palavras como “crioulo” ou “mulata”, assim como para características físicas do
negro, pois o cabelo “duro”, por exemplo, é reconhecido sinônimo de
inferioridade. Seria configurada, assim, uma nova ordem simbólica, na qual a
literatura, conforme Bernd (1988, p. 89), “se torna o espaço da destruição de
uma simbologia estereotipada, onde, por exemplo, a noite, o preto, o escuro,
enfim, tudo o que se relacione à cor negra, é associado ao mundo das trevas,
do mal ou do pecado”.
A formação de um “público” leitor seria o último alicerce que caracteriza
o texto afro-brasileiro. Ao direcionar sua escrita para um determinado segmento
da população, o escritor parte das demandas desse público, atuando como
“porta-voz da comunidade” (DUARTE, 2014, p. 276). Os trabalhos do coletivo
de autores negros Quilombhoje, por exemplo, com a publicação da série
Cadernos Negros, demonstram que essa busca pelo público ultrapassa as
instâncias do meio editorial tradicional, pois:

[o] impulso à ação e ao gesto político leva à criação de outros


espaços mediadores entre texto e receptor: os saraus literários na
periferia, os lançamentos festivos, a encenação teatral, as rodas de
poesia e rap, as manifestações políticas alusivas ao 13 de maio ou ao
20 de novembro, entre outros (DUARTE, 2014, p. 276),

Considera-se que a conjunção desses cinco elementos indica o caminho


para identificação de um campo literário específico dentro da literatura
brasileira: a literatura afro-brasileira, que, nas últimas décadas, tem se
enriquecido e ganhado força com a publicação de obras que atentam para o
resgate da identidade negra.
Considerando o recorte utilizado por Jaime Ginzburg (2012), que utiliza
como marco inicial para a literatura brasileira contemporânea o ano de 1960,
percebe-se que a força da literatura afro-brasileira tem crescido ao ponto de

35
adentrar em alguns espaços reconhecidamente canônicos4. Esse fato pode ser
observado pela inclusão de obras de autoria afro-brasileira como referências
obrigatórias em vestibulares e/ou editais de programas de pós-graduação,
como é o caso dos romances Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo (2003) e
Mandingas da mulata velha na cidade nova, de Nei Lopes (2009). A obra de
Carolina Maria de Jesus (2007), Quarto de despejo: diário de uma favelada,
tem ressurgido nesse cenário após grande sucesso editorial nos anos 1960 e
1970 e posterior esquecimento nas décadas seguintes, o que indica que o
retorno dessa autora aos espaços canônicos está relacionado às conquistas
dos movimentos sociais, bem como à aceitação de escritores negros a partir
das lutas de tais movimentos. A publicação de Um defeito de cor, de Ana Maria
Gonçalves (2006), por uma grande editora, e sua vitória no tradicional prêmio
Casa de las Américas também são indicativos do vigor do texto afro-brasileiro.
A citada obra de Ana Maria Gonçalves, aliás, tem ganhado, ao longo dos
anos, elogios da crítica especializada e rendido diversos trabalhos acadêmicos.
Um defeito de cor reúne, com maestria, as cinco características apontadas por
Duarte para a composição do texto afro-brasileiro: a temática, nesse caso, a
escravidão; a autoria feminina negra; um ponto de vista favorável às
populações negras, que coloca a protagonista Kehinde e demais personagens
negras como sujeitas de sua própria história; uma linguagem que valoriza os
negros física e intelectualmente; e a capacidade de discutir temas tão caros à
comunidade negra, como a violência contra as mulheres, levando essa e outras
questões para o grande público.
Segundo Duarte (2014, p. 277), “da interação dinâmica desses cinco
grandes fatores – temática, autoria, ponto de vista, linguagem e público – pode-
se constatar a existência da literatura afro-brasileira em sua plenitude”. Isso
demonstra não apenas a qualidade, mas a pertinência do texto de Gonçalves
em meio ao cenário político e social brasileiro na atualidade.
O debate sobre a literatura afro-brasileira e as demais vertentes
mencionadas foi benéfico, deste modo, para a produção literária dos
afrodescendentes. A opção por uma vertente não impõe a recusa de outra,

4
É importante salientar que Machado de Assis e Lima Barreto destacam-se na historiografia
literária nacional, sendo considerados autores canônicos.

36
mas aponta caminhos e possibilidades para os escritores, além de um
horizonte de expectativas para o público leitor do texto afro-brasileiro.

37
2 DESLOCAMENTO E SUAS IMPLICAÇÕES EM UM DEFEITO DE COR

Em uma sociedade e em um tempo nos quais a busca por ascensão


social do negro era dificílima, a personagem Kehinde consegue conquistar sua
liberdade, trabalhando nas ruas de Salvador. Os seus deslocamentos, sejam
eles forçados/provocados pelo sistema escravagista, pela situação política e
social do Brasil, pela sua religiosidade e pelo desaparecimento de seu filho,
apontam para a difícil situação do negro no país durante e após o fim do
regime escravocrata.
A autora do romance, Ana Maria Gonçalves, considerando-se sua
condição enquanto mulher negra vivendo em um país marcado por
desigualdades sociais, principalmente de raça e gênero, também promove um
deslocamento: vivendo na contemporaneidade (século XXI), compõe uma
narrativa que se confunde com um relato de época, mais precisamente
memórias que trazem à tona, não apenas uma trajetória de vida ao longo de
quase todo o século XIX, mas acontecimentos históricos representados pela
ótica do oprimido, do excluído. Isso a torna, numa acepção proposta por
Agamben (2009), contemporânea do tempo narrado5.
Giorgio Agamben (2009, p. 58-59), fundamentado pela ideia de
intempestividade na obra de Nietzsche, ressalta que:

Pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente


contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com este,
nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido,
inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse
deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os
outros, de perceber e apreender o seu tempo.

Para este filósofo, as pessoas que coincidem “muito plenamente com a


época, que em todos os aspectos a esta aderem perfeitamente, não são
contemporâneos porque, exatamente por isso, não conseguem vê-la, não
podem manter fixo o olhar sobre ela” (AGAMBEN, 2009, p. 59). As questões
levantadas por Ana Maria Gonçalves em Um defeito de cor demonstram seu
desprendimento do tempo atual. Esse deslocamento permitiu-lhe abordar
aspectos da história do Brasil sob uma perspectiva que difere do cânone
5
A noção contemporânea de deslocamento está associada ao trânsito, instabilidade e
inadequação, seja do ponto de vista temporal ou territorial. Para uma melhor compreensão
dessa noção teórica, ver Agamben (2009); Schwarz (2012); A. Oliveira et. al. (2011).

38
historiográfico clássico, já que, ao questionar o status quo vigente,
confrontando estereótipos racistas e demonstrando que diversas populações
negras, ainda que assujeitadas ao sistema escravista, lutavam pelo controle de
suas próprias histórias, a autora, por meio da literatura, questiona a “história
oficial” da sociedade brasileira.
De acordo com Jaime Ginzburg (2012, p. 200), Gonçalves faz parte de
um grupo de escritores que “se afastam de uma tradição brasileira, no interior
da qual é necessária uma presença (como personagem ou narrador) que
corresponde, no todo ou em parte, aos valores da cultura patriarcal”. O que o
leitor encontra em Um defeito de cor é justamente o contrário: a exaltação dos
valores das sociedades africanas, de diversas populações que foram
subjugadas pelas mãos opressoras do colonizador.
Gonçalves se distancia de um modelo que “prioriza homens brancos, de
classe média ou alta, adeptos de uma religião legitimada socialmente,
heterossexuais, adultos e aptos a dar ordens e sustentar regras.” (GINZBURG,
2012, p. 200). A autora deu protagonismo a uma mulher negra que foi
escravizada, que cultua os voduns e orixás e luta para conquistar objetivos
difíceis de serem alcançados pelas mulheres negras em uma sociedade
marcada pelo sistema patriarcal: a educação/alfabetização, a liberdade, a
sobrevivência, por exemplo.
Levando em conta o recorte proposto por Ginzburg, que considera como
contemporânea a literatura brasileira produzida a partir do ano de 1960 até os
dias atuais, a constituição de uma narrativa descentrada ratifica a importância
da obra analisada para a citada produção literária, pois o descentramento pode
ser compreendido “como um conjunto de forças voltadas contra a exclusão
social, política e econômica” (GINZBURG, 2012, p. 201). O centro,

nesse caso, é entendido como um conjunto de campos dominantes


na história social – a política conservadora, a cultura patriarcal, o
autoritarismo de Estado, a repressão continuada, a defesa de
ideologias voltadas para o machismo, o racismo, a pureza étnica, a
heteronormatividade, a desigualdade econômica, entre outros
(GINZBURG, 2012, p. 201).

De acordo com Paulo Thomáz (2015, p. 23-24), a possibilidade de


diálogo com a contemporaneidade, conforme conceito discutido por Agamben

39
(2009), assinala a relevância do romance de Ana Maria Gonçalves no campo
simbólico-cultural, pois

ao ‘citar’ e figurar discursivamente de modo ‘inédito’ a história da


escravidão negra e colocá-la em relação com outros tempos, formula
e negocia um sentido para as culturas mistas e diaspóricas que
constituem a sociedade brasileira do presente, com especial atenção
à questão de gênero.

A sociedade brasileira, entretanto, enfrenta uma crise que parece ter


sido motivada pelas questões advindas dos trânsitos diaspóricos. As questões
raciais e de gênero têm sido mote de discussões constantes, tanto dentro
quanto fora da academia.
Stuart Hall (2006), ao discutir a existência de uma “crise de identidade” no
mundo moderno, revela que o deslocamento dos sujeitos está na raiz dessa crise.
Sobre o colapso das identidades modernas, Hall (2006, p. 9) aponta que uma
mudança estrutural passou a fragmentar as “paisagens culturais de classe,
gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham
fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais”. Para o sociólogo,

Estas transformações estão também mudando nossas identidades


pessoais, abalando a ideia que temos de nós próprios como sujeitos
integrados. Esta perda de um ‘sentido de si’ estável é chamada,
algumas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse
duplo deslocamento-descentração dos indivíduos tanto de seu lugar
no mundo social e cultural quanto de si mesmos - constitui uma ‘crise
de identidade’ para o indivíduo (HALL, 2006, p. 9).

Ana Maria Gonçalves, bem como sua personagem Kehinde, atuam,


dessa maneira, como agentes dos deslocamentos e/ou descentramentos.
Gonçalves, por meio da literatura, entrega a seu leitor um texto que possui um
forte caráter de revisão crítica sobre o escravismo no Brasil. Kehinde, por outro
lado, narra sua trajetória ao longo de quase todo o século XIX, propiciando ao
leitor reflexões acerca de muitas questões de nosso tempo: o racismo tão
presente na nossa sociedade, a intolerância religiosa, a violência contra a
mulher, as dificuldades encontradas pelos afrodescendentes na busca pela
sobrevivência e a persistência de uma mentalidade patriarcalista em pleno
século XXI.

40
2.1 Trajetórias críticas: deslocamentos e resistência

O texto literário é uma das mais tradicionais e importantes formas de


representação da realidade. Desde a Antiguidade, as manifestações literárias vêm
sendo, muitas vezes, confundidas com outra forma de narrativa, tão antiga e tão
importante: a histórica. Segundo Sandra Pesavento (2003, p. 32 – grifos da
autora), “narrativas que respondem às perguntas, expectativas, desejos e temores
sobre a realidade, a História e a Literatura oferecem [ao leitor] o mundo como
texto”. Esse pensamento permite a reflexão acerca da relevância das duas formas
de narrar, principalmente no que diz respeito ao compromisso com a
representação da realidade, já que “são formas distintas, porém próximas, de dizer
a realidade e de lhe atribuir/desvelar sentidos” (PESAVENTO, 2003, p. 32).
O romance histórico de Ana Maria Gonçalves (2017), Um defeito de cor,
segue essa tendência ao mesclar história e ficção. A personagem principal,
Kehinde, nasceu em 1810, em uma comunidade de tradição predominantemente
oral, mais precisamente em Savalu, que à época integrava o reino do Daomé.
Adota o nome cristão Luísa após ser vendida no mercado de escravos de
Salvador. Aprendeu a ler e escrever, ainda escrava, por intermédio do cativo
muçulmano Fatumbi. Conquistou sua carta de alforria após ser escravizada no
engenho, em Itaparica, e como escrava de ganho nas ruas de Salvador. Teve dois
filhos, o primeiro, Banjokô, fruto de um estupro praticado pelo seu antigo senhor,
faleceu ainda criança. O segundo, Omotunde, nasceu de um relacionamento com
um homem branco, Alberto, foi vendido ilegalmente como escravo pelo próprio pai
para saldar uma dívida de jogo.
Após anos procurando seu filho nas ruas de Salvador, Rio de Janeiro,
Santos e São Paulo, Kehinde acaba desistindo e fazendo a viagem de retorno para
o continente africano. Enriquece trabalhando no ramo da construção civil em Uidá,
mesma cidade em que havia sido aprisionada e escravizada quando criança.
Décadas depois, já idosa e cega, consegue nova pista sobre o destino de seu
filho perdido ao descobrir cartas que haviam sido enviadas anos antes, por
amigos que o procuravam no Brasil. Assim, decide fazer uma nova viagem
transatlântica, na companhia de Geninha, personagem que cresceu no seu
seio familiar e que conhecera, junto a sua mãe Jacinta, na viagem de retorno a

41
Daomé. É ela quem tem a missão de redigir suas memórias, na esperança de
que estes escritos cheguem às mãos de seu filho. Segundo Le Goff (1990, p.
423), a memória “remete-nos a um conjunto de funções psíquicas, graças às
quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que
ele representa como passadas”. A lembrança do passado, desse modo,
atualiza-o, fazendo um deslocamento para o presente vivido pela narradora.
Gonçalves constrói uma personagem que, ao registrar as suas
memórias por meio da escrita, rompe a barreira do esquecimento,
esquecimento este que foi, durante séculos, imposto às populações africanas
e/ou afro-brasileiras, numa tentativa explícita de silenciá-las. Afinal, conforme
Le Goff (1990, p. 426):

Tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das


grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que
dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e
os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de
manipulação da memória coletiva.

Um defeito de cor, assim, vai de encontro a premissas consolidadas


sobre a formação do povo brasileiro, como a pacífica miscigenação cultural
entre branco, índio e negro. Corrobora com esta posição a representação da
violência sexual e psicológica sofrida pelos escravizados, atrocidades que
desmistificam e contestam quaisquer resquícios da “democracia racial”.
A autora do romance, no prólogo, afirma que a história narrada nasce de
um conjunto de manuscritos compostos pela “Kehinde real”, e que teriam sido
encontrados na casa de uma pessoa que conhecera no período em que morou
na ilha de Itaparica, buscando inspiração para a composição de um livro.
Gonçalves (2017, p.15) teria se deparado com os textos na casa de Dona
Clara. Esta teria lhe contado

que tinha pegado os papéis, junto com algumas revistas, na Igreja do


Sacramento, na vila de Itaparica, onde também fazia limpeza. Uma
troca de padres levou o padre antigo a pedir que ela se desfizesse de
tudo que estava guardado em um quartinho nos fundos da casa
paroquial, e com dó de jogar fora, principalmente as revistas cheias
de figuras, ela pediu permissão para levar para casa. Quase tinha
posto fogo nos papéis, mas se lembrou de que o Gérson [seu filho]
vivia procurando papel para desenhar e que, quando não encontrava,
desenhava até nas paredes.

42
Gonçalves (2017, p.16-17) também sugere que o filho perdido de
Kehinde seria o poeta e advogado abolicionista Luiz Gama, embora a autora
não cite explicitamente o seu nome. Anote-se que Sud Mennucci (1938)
publicou, em O precursor do abolicionismo no Brasil, a transcrição de uma
carta que Luiz Gama escrevera, em tom autobiográfico, a Lúcio de Mendonça.
Nessa carta, Gama fala sobre sua mãe, Luíza Mahin, descrevendo suas
características físicas, bem como seu envolvimento em revoltas ocorridas em
Salvador na primeira metade do século XIX (MENUCCI, 1938, p. 19-26).
A narrativa composta por Gonçalves, ao transitar entre a história e a
ficção, chega a seu narratário com ares de “história real”. A autora utilizou um
artificio literário que visa transmitir ao leitor certa credibilidade e “atestar” a
veracidade da história narrada. Isso pode ser observado pela suposta leitura e
transcrição, pela autora, das memórias de Kehinde, respaldada em bibliografia
diversificada, indicada ao final do livro. Ana Maria Gonçalves, dessa maneira,
entrega uma história que pode ser lida como depoimento (da personagem
Kehinde), como uma longa carta endereçada a um filho, tornando-se mais
fluídas as barreiras entre realidade e ficção.
Outra estratégia narrativa da autora está no fato de a protagonista
escrever textos na esperança de que estes sejam entregues a seu filho. Ela
acaba, de certa forma, dialogando diretamente com o leitor, pois a partir do
nascimento de Omotunde, a referida personagem passa a utilizar o pronome
de tratamento “você” para se referir a seu narratário. Fica nítido, dessa
maneira, um deslocamento que possibilita ao receptor duas visões sobre a
narrativa, uma de dentro e outra de fora da história.
Essas e outras questões colaboraram com a estrutura e organização do
romance e propiciaram a ampliação do debate intelectual sobre a referida obra,
considerando o pouco tempo desde sua publicação original. Em doze anos, Um
defeito de cor já ultrapassa 15 edições e tem inspirado estudos tanto de
pesquisadores experientes, como Zilá Bernd (2012; 2014), quanto o trabalho
de novos pesquisadores. A boa receptividade da obra, premiada com o prêmio
Casa de las américas, em 2007, colaborou para o surgimento de diversos
estudos, sejam eles monografias, dissertações, teses, ensaios e artigos
científicos, principalmente no âmbito dos estudos literários, conforme síntese
apresentada a seguir.

43
Segundo Bernd (2012, p. 30), Um defeito de cor inaugura, na literatura
negra brasileira ou afro-brasileira, o gênero “romance rio” ou “romance saga”6,
sendo sua autora a pioneira no que diz respeito aos romances que tratam da
história sofrida de africanos que buscaram superar “as iniquidades do sistema
escravista”. E, principalmente, porque foi “a primeira a narrar esses episódios
do ponto de vista de quem mais sofreu nesse cruel processo: as mulheres, por
serem mais fracas e vítimas constantes de violação”.
A temática de gênero e da família tem se destacado entre os estudos
sobre a obra de Ana Maria Gonçalves, destacando-se a tese Maternidade
negra em Um defeito de cor: história, corpo e nacionalismo como questões
literárias, de Fabiana Carneiro da Silva (2017). Já o artigo de Clara Pimentel de
Souza (2013, p. 277) aborda a questão da sexualidade e constituição do
feminino, salientando que a visão positiva que Kehinde tinha de si mesma, a
fez se destacar, pois “aproximou-se ao máximo daquela que desejava ser [...] e
possibilitou que seus descendentes tivessem a liberdade de escreverem suas
próprias histórias”.
As questões da raça e da diáspora africana também ganharam espaço,
como podemos observar na dissertação Kehinde, símbolo da raça negra, de
Anderson Silveira de França, que discute “as formas de resistência do negro
para burlar os esforços do dominador para aniquilar seus valores étnicos”
(FRANÇA, 2012, p. 7). Em Viver na fronteira: a consciência da intelectual
diaspórica em Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, Cristiane Côrtes
(2010, p. 9) busca evidenciar a relevância do intelectual diaspórico no que diz
respeito à “relativização de conceitos ditos hegemônicos e de discursos
utilizados para subjugar culturas”. Para França (2012, p. 73), Ana Maria
Gonçalves “toma como representação desta realidade [da escravidão no
Brasil], uma mulher, Kehinde, que encarna a raça negra em busca de liberdade
e melhores condições de vida”.
Relacionando a memória presente no relato de Kehinde com a
temporalidade, a dissertação de Lange (2008) faz uma reflexão sobre a relação
6
Bernd aponta, citando Moisés (1982, p. 461), que o romance rio compreende narrativas
caracterizadas “pelo grande número de personagens e de ações que se sucedem e se
imbricam”, indicando como exemplos as obras de Tolstói, Guerra e Paz, e Érico Veríssimo, O
Tempo e o Vento. Já os romances do tipo saga são narrativas épicas que mesclam “fatos
verídicos, folclóricos e imaginários, relatam a história de reis ou de famílias” (MOISÉS, 1982, p.
469 apud BERND, 2012, p. 30).

44
entre memória e escrita alicerçada por parâmetros da teoria psicanalítica. Já
Marilene Weinhardt, no artigo intitulado “Um defeito de cor e muitas virtudes
narrativas”, aborda a obra de Gonçalves enquanto ficção histórica, destacando as
suas “virtudes narrativas”. De acordo com Weinhardt (2009, p. 111):

As escolhas de recursos narrativos não denunciam a condição de


novata de Ana Maria Gonçalves na prática ficcional. A eleição do
discurso memorialista é decisiva na construção da personagem
narradora. Sua dicção tem a experiência do vivido e a precisão de
quem resgata o passado com um objetivo definido, coerente com as
ações que resultaram das iniciativas que tomou durante seu longo
trajeto [...] O esforço de Kehinde para assegurar a atenção de seu
narratário e o jogo da autora com seus leitores espelham-se e
refletem-se. O enredo é linear. Entretanto, como é apresentado em
retrospectiva, o relato investe no anúncio de antecipações na medida
certa para manter o suspense e seleciona o que merece ser
detalhado em vista das consequências.

A dissertação da historiadora Dulcilei Lima discute o processo de


mitificação da figura de Luíza Mahin, que, supostamente, foi uma das líderes
da revolta dos Malês. Como já apontado, Ana Maria Gonçalves a representa no
romance na figura de Kehinde/Luisa Gama, numa clara alusão à mãe do poeta
e advogado abolicionista Luís Gama. Lima (2011a, p. 7) parte do pressuposto
de que o Feminismo Negro “foi o principal responsável” pelo desenvolvimento
da imagem de Luíza Mahin enquanto mito.
A abordagem acerca da mitificação da figura de Luíza Mahin também é
mote para os estudos de Aline Najara da Silva Gonçalves (2010; 2011). Em
Luiza Mahin entre ficção e história e Luiza Mahin: uma rainha africana no
Brasil, a autora analisa as representações de Mahin na literatura. São
destacados os romances históricos de Pedro Calmon (2002), publicado
originalmente nos anos 1930, bem como o de Ana Maria Gonçalves (2017),
lançado em 2006.
Já os trabalhos de Daiana Santos (2015; 2016) chamam a atenção por
compreenderem o romance de Gonçalves como uma metáfora do Brasil
contemporâneo. A autora assinala que Um defeito de cor

sinaliza, num panorama atual em que as novas conjunturas sociais,


políticas e econômicas, os intensos processos migratórios inter/
transcontinentais, os movimentos sociais de diversas índoles, a luta
pelos direitos das minorias, os debates relacionados ao universo
negro – como as ações afirmativas, estreitamento de laços com os
países africanos, intercâmbio de discentes e docentes africanos e

45
brasileiros, entre outros –, instigam a repensar/reconfigurar o
imaginário da identidade brasileira. (SANTOS, 2016, p. 167).

Isso posto, Daiana Santos indica que tais fatores comprometem as


falácias da “democracia racial, cordialidade e integração harmônica”,
desestabilizando o discurso dominante sobre a identidade brasileira.
A lista dos estudos que têm analisado a obra de Ana Maria Gonçalves
sob diferentes perspectivas é muito maior; aqui, apenas indicamos um
panorama sintético dessas diversas abordagens7. Entretanto, o fenômeno do
deslocamento carece de mais atenção, visto que se constitui enquanto
elemento fundamental para a compreensão da problemática racial na obra
em questão.

2.2 Entre a história e a ficção: os deslocamentos de Kehinde

O romance histórico de Ana Maria Gonçalves, Um defeito de cor, tem


entre suas principais marcas o diálogo entre a história e a ficção. Gonçalves,
ao afirmar, no prólogo da obra, que se trata da transcrição de manuscritos de
autoria da personagem, protagonista e narradora Kehinde, se esquiva de
possíveis “erros” na pesquisa histórica para a composição do livro. Ela
preencheria apenas “lacunas”, espaços que estariam “ilegíveis”, irrecuperáveis.
Entretanto, ao sentir algo (ou alguém) “soprando palavras no seu
ouvido”, a autora deixa transparecer sua veia criativa, revelando que faz largo
uso da imaginação para compor sua narrativa histórica. Apresentando o relato
autobiográfico de uma personagem que vivenciou quase todo o século XIX,
Gonçalves permite conjecturas acerca dos motivos pelos quais indica uma lista
com obras essencialmente historiográficas ao final do livro. Afinal, em que
medida a ficção encontrará a história? Os acontecimentos narrados podem ser
confirmados na bibliografia indicada? Evidentemente, essas obras não são
citadas ao acaso, levando o leitor a compreender o grande respeito da autora

7
Considera-se, à propósito, os trabalhos de Figueiredo (2009); Gonçalves e Pimentel (2009); Rossini
(2014); Jackel (2015); Arruda (2010); Lima (2009; 2011b); França (2011); Duarte (2009); Dalcom Júnior
(2013); Neves (2012); Silva (2012); S. Santos (2014); Sales e Ribeiro (2016).

46
pela historiografia, ainda que a representação dos acontecimentos históricos
narrados tenha surgido pela ótica ficcional8.
Esses e outros questionamentos também emergem ao considerarmos
Um defeito de cor enquanto romance histórico que narra acontecimentos
importantes da história brasileira a partir da perspectiva de uma mulher negra
que fora escravizada e buscou sua liberdade ganhando a vida nas ruas de
Salvador. A representação da realidade, dessa forma, é feita a partir da
perspectiva do oprimido, da minoria. Segundo Fernando Aínsa (1994, p. 29), ao
reler criticamente a história, “la literatura es capaz de plantear con franqueza y
sentido crîtico lo que no quiere o no puede hacer la historia que se pretende
cientifica”9. Dessa forma, o romance histórico dá voz “a lo que la historia ha
negado, silenciado o perseguido”10 (AÍNSA, 1994, p. 29).
O romance de Ana Maria Gonçalves traz à tona, então, uma versão
alternativa de acontecimentos narrados pela historiografia. Rodrigo Lopes e
Gilmei Fleck (2017, p. 93), ao discutirem o conceito de romance histórico,
salientam:
o que o define é seu intuito de reconstruir épocas, espaços,
personagens e acontecimentos passados, cuja realidade empírica
possa ser comprovada por meio de documentos oficiais de uma dada
comunidade. Tal narrativa acaba funcionando como uma versão
alternativa do fato ocorrido no passado, construída sob outra
perspectiva.

Os autores enfatizam o caráter hibrido do romance histórico,


considerando que mistura história e ficção, e ressaltam que nesse tipo de
narrativa “são as personagens históricas já imortalizadas pelo discurso oficial,
juntamente ao contexto histórico no qual existiram, que fornecem a atmosfera,

8
Dentre os principais acontecimentos históricos abordados no romance Um defeito de cor,
destacam-se a revolta dos escravos malês, ocorrida em 1835, em Salvador, bem como a
diáspora de diversas populações africanas, com deslocamentos em direção a América ou
fazendo a viagem de retorno ao continente africano. Destacam-se entre as principais
referências acerca desses acontecimentos os trabalhos clássicos de João José Reis (2003),
“Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835”, e Pierre Verger (2002),
“Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos:
dos séculos XVII a XIX”, incluídas junto a outras obras na bibliografia indicada pela autora após
o fim da narrativa.
9
“[...] a literatura é capaz de projetar com franqueza e sentido crítico o que não quer ou não
pode fazer a história que se pretende científica”. Tradução nossa.
10
“[...] a quem a história tem negado, silenciado ou perseguido”. Tradução nossa.

47
o espaço, o tempo e muitos dos argumentos para que o romance seja
construído”11 (LOPES; FLECK, 2017, p. 93).
O romance histórico:

vale-se de acontecimentos anteriormente registrados pela


historiografia, do seu conteúdo para criar a diegese da obra, ou seja,
a ficção opera uma releitura do passado, apresentando uma intriga
fictícia, mas que se torna verossímil pelo seu enquadramento na
história. Nessa versão se descrevem acontecimentos que poderiam
ter acontecido da forma como a arte literária os revela, mostrando
causas e consequências da ação passada, renarrativizada pela voz
enunciadora do discurso romanesco. (LOPES; FLECK, 2017, p. 94).

Em Um defeito de cor, os acontecimentos históricos são narrados na


perspectiva de uma personagem que está no imaginário e na memória que
cercam as revoltas negras da Bahia oitocentista. Ao discorrer sobre a trajetória
de Luiza Mahin, ficcionalizada na pele de Kehinde/Luiza Gama, a narrativa
desloca-se, dessa forma, entre a história e a ficção.
As representações dos acontecimentos históricos contextualizam e
relacionam o tempo do romance ao tempo histórico. No trecho abaixo, por
exemplo, Kehinde conta o que ouviu da conversa entre José Carlos e alguns
amigos que o visitara na fazenda:

Falavam de política, um assunto que eu já tinha ouvido comentarem


na senzala grande, sobre o Brasil se tornar independente de Portugal
e os escravos se tornarem independentes dos seus donos. Claro que
não falavam dessa segunda parte, isso era de interesse nosso,
assunto de senzala, pois achávamos que se o Brasil se libertasse de
Portugal, do qual era quase escravo, nós também poderíamos pedir a
nossa liberdade, ou pelo menos seria um passo nesse sentido.
(GONÇALVES, 2017, p. 156).

Percebe-se, no trecho, a citação ao movimento de independência do


Brasil. É interessante a reflexão da escravizada acerca desse acontecimento,
pois ela compara da situação do cativo com a relação de subordinação
existente entre colônia e metrópole. Isso demonstra que os negros não
estavam alheios às mudanças políticas que logo aconteceriam.

11
Cabem ressalvas, contudo, às palavras de Lopes e Fleck, principalmente se for considerada
a perspectiva eurocêntrica, masculina e branca que prevaleceu na produção historiográfica. As
questões socioeconômicas, étnicas e de gênero também estão relacionadas aos
distanciamentos entre o “discurso oficial” e as minorias, o que incidiu, por exemplo, no
tratamento desigual dado a acontecimentos importantes da história e cultura afro-brasileira ao
longo dos tempos.

48
Com a independência confirmada, havia medo da reação dos escravos,
motivo pelo qual foi comemorada pela família patriarcal sem alarde na casa-
grande, pois, na senzala, os negros “não entendendo direito o acontecimento e
atendo-se à palavra ‘liberdade’, queriam saber como é que ia ficar a situação
deles” (GONÇALVES, 2017, p. 164). Restava ao senhor escravocrata mandar
o capataz explicar a sua escravaria “que nada tinha mudado para os
escravos, que os pretos não eram um país, que não pertenciam de fato a
nenhum país e, quando muito, alguns poucos poderiam ser considerados
gente, quanto mais falar em liberdade” (GONÇALVES, 2017, p. 164). A
euforia da senzala foi contida.
É com a problematização do passado, como indica a passagem acima,
que acontecem os deslocamentos entre a história e a ficção. A obra de
Gonçalves permite ao leitor o questionamento da história dita oficial, o que
aproxima a narrativa do gênero de romance meta-ficcional. Segundo Jacomel e
Silva (2009, p. 740), “o que diferencia a meta-ficção historiográfica de um
romance histórico é a autorreflexão causada pelo questionamento das
‘verdades históricas’”.
De acordo com Jacomel e Silva (2009, p. 740):

O resgate de um acontecimento feito através da obra de arte sempre


gera polêmica, pois nessa ‘visita’ ao passado podem-se descobrir
‘verdades’ até então não reveladas, devido às relações de interesse e
poder de ‘grupos’ conservadores.

Sandra Pesavento (2003, p. 37), ao discutir as aproximações e os


distanciamentos entre a história e a literatura, expõe que ambos “obtêm o
mesmo efeito: a verossimilhança, com a diferença de que o historiador tem
uma pretensão de veracidade”. O ficcionalista, ao representar o mundo sem a
obrigatoriedade do compromisso com a verdade, acaba tendo uma liberdade
não disponível ao historiador, podendo usar de forma ilimitada sua imaginação.
Essa postura, contudo, não significa um descompromisso com a
realidade, principalmente tratando-se da escrita do romance histórico, como no
caso da obra de Ana Maria Gonçalves. O texto literário, dessa maneira, adquire
vida própria. Pesavento (2003, p. 38) ressalta que “no mundo do leitor, este
texto adquire novos sentidos, imprevistos na sua feitura, para além da própria

49
linguagem metafórica da literatura que aponta para dizer outras coisas para
além do que é dito”.
Sobre Um defeito de cor, Daiana Santos (2015, p. 172) afirma seu forte
caráter metafórico em relação ao Brasil contemporâneo, pois a obra

se enmarca en un panorama actual en que las nuevas coyunturas


sociales, políticas y económicas, sumadas a los intensos procesos
migratorios inter/transcontinentales, los movimientos sociales de
diversa índole, la lucha por los derechos de las minorías, los debates
en torno al universo negro con las acciones afirmativas, entre otros,
instigan a repensar/reconfigurar el imaginario de la identidad
12
brasileña .

A pesquisadora ressalta a tendência contemporânea do romance, já que


ele aborda

una temática actual mediante la ficcionalización del pasado de la


esclavitud/esclavización de hombres y mujeres negros, usándolo
además como un pretexo para cuestionar el contexto actual en que
se discute el proyecto de acciones afirmativas, pero mostrando el rol
protagónico de esos hombres y mujeres más allá de la ficcion
13
literária (SANTOS, 2015, p. 173).

Assim, conforme aponta essa pesquisadora, a obra de Gonçalves


representa e problematiza os inúmeros percalços enfrentados pela população
negra no Brasil oitocentista e na diáspora atlântica, proporcionando ao leitor,
principalmente o afrodescendente, uma reflexão acerca das mazelas da
sociedade em que vive. Esse é mais um indício de que a ficção vai ao encontro
da história. A temática da escravidão e a representação dos acontecimentos
históricos dão o tom da atmosfera social, em que diversos personagens reais,
como Manoel Calafate, que participou da Revolta dos Malês, Francisco Sabino,
um dos líderes da Sabinada e Francisco Félix de Souza, traficante de escravos
que conseguiu ascender ao posto de chachá (vice rei) de Uidá, são
representados na narrativa.
12
“Se enquadra em um panorama atual, em que as novas conjunturas sociais, políticas e
econômicas, somadas aos intensos processos migratórios inter/transcontinentais, os
movimentos sociais de diversas índoles, a luta pelos direitos das minorias, os debates em torno
do universo negro com as ações afirmativas, entre outros, instigam a repensar/reconfigurar o
imaginário da identidade brasileira.” Tradução nossa.
13
“[...] uma temática atual através da ficcionalização do passado de escravidão/escravização
de homens e mulheres negros, utilizando-o também como pretexto para questionar o contexto
atual em que se discute o projeto de ações afirmativas, mas mostrando o protagonismo desses
homens e mulheres mais além da ficção literária”. Tradução nossa.

50
A interação entre essas e outras personagens reais e as fictícias
contextualiza e ratifica o caráter histórico do romance em questão. Segundo
Cosson e Schwantes (2005, p. 31-32):

o que enseja o uso do adjetivo histórico em um romance é a presença


da história como parte constitutiva da obra, isto é, a certeza de que
sem a presença daqueles personagens que são pessoas e sem os
episódios conhecidos como históricos o romance seria outro.

Esses pesquisadores destacam a existência de três modalidades do


romance histórico: o primeiro é o modelo “tradicional”, que “faz da história um
cenário para o exercício da ficção”. Nessa categoria a relação de
complementaridade entre história e romance torna-se característica
fundamental, já que o historiador ficaria incumbido da vida política enquanto o
romancista ficaria responsável pela representação da vida privada (COSSON;
SCHWANTES, 2005, p. 31-32).
Já o romance histórico do tipo “revisionista”, é aquele “que reescreve a
história através da ficção” (COSSON; SCHWANTES, 2005, p. 32). Nessa
modalidade, o texto possui um caráter político bem definido, onde “as
personagens que são pessoas saem do papel de meros acessórios históricos
para ocupar, lado a lado com as personagens inventadas, o centro da
narrativa” (COSSON; SCHWANTES, 2005, p. 34).
Por fim, a modalidade denominada “metaficção historiográfica”, que
“recusa os pactos de vizinhança” existentes entre os discursos ficcionais e
historiográficos, desvelando, assim, o caráter narrativo da história (COSSON;
SCHWANTES, 2005, p. 35). Essa modalidade de romance histórico faz largo
uso da reflexividade, o que, para os autores, permite “o cruzamento dos
gêneros e o rompimento de fronteiras” (COSSON; SCHWANTES, 2005, p. 35).
Outra característica da metaficção historiográfica reside em colocar “em
primeiro plano a autoconsciência de que a história e a literatura são
construções discursivas, motivo pelo qual é possível reescrever o passado
como ficção e a ficção como passado” (COSSON; SCHWANTES, 2005, p. 35).
A obra de Ana Maria Gonçalves flerta com essas três modalidades.
Entretanto, Cosson e Schwantes (2005, p. 34) apontam a existência de uma
variante do romance histórico que se alterna entre o modelo revisionista e o
tradicional. Essa variação:

51
é aquela que olha a história da perspectiva daqueles que usualmente
não frequentam os manuais de história, ou, se o fazem, servem
apenas para denominar o coletivo. Trata-se de tomar o anônimo ou o
povo personificado como agentes da história, fazendo com que os
episódios sejam relatados a partir desse olhar que não determina o
rumo dos acontecimentos por não ter poder, mas os vivencia e pode
dar a eles um sentido outro, diverso daquele que se encontra escrito
e inscrito no registro oficial.

Considerando o lugar ocupado por Um defeito de cor dentro da literatura


afro-brasileira; e que esse romance faz uma importante revisão crítica acerca
do escravismo no Brasil, dando voz e espaço a minorias que foram excluídas
pelas instâncias canônicas ao longo dos tempos, essa variação parece ser a
que melhor abriga o texto de Ana Maria Gonçalves. Desse modo, ao revisitar o
passado brasileiro por meio do romance histórico, Gonçalves lança um olhar
para uma sociedade racista, cujo diferencial em relação a outras abordagens
ficcionais é a perspectiva adotada pela escritora: a visão da mulher negra. Esse
testemunho possibilita a reescrita da história em um cenário literário que
majoritariamente representou a mulher e o homem negros como objeto.
Considerando que Um defeito de cor é um romance histórico e que
representa um ambiente social que contempla a temática da escravidão e a
intensa mobilidade de uma mulher negra, Kehinde, na diáspora africana, fica
nítida a importância do deslocamento para a narrativa em questão. Dessa
maneira, a análise dos deslocamentos dessa personagem, como também dos
que ocorrem na relação entre a história e a ficção, torna-se fundamental para a
compreensão da revisão crítica, proposta pela obra, acerca da representação
do negro na história brasileira.
A trajetória da personagem Kehinde é composta por deslocamentos
diversos, seja no continente africano, bem como após sua chegada ao Brasil.
Dentre os motivos que impulsionam seus deslocamentos, destaca-se,
principalmente, a busca por um filho perdido, Omotunde, como já referido.
Os deslocamentos de Kehinde têm início após uma tragédia familiar. Em
Savalu, antigo Reino do Daomé, quando guerreiros do rei Adandozan
identificaram símbolos de um culto rival entre os pertences de sua avó, a
sacerdotisa Dúrójaiyé, que fora acusada de feitiçaria. Os guerreiros cometem
atrocidades: matam seu irmão Kokumo com um golpe de lança, estupram
Dúróoríìke, sua mãe, que também não resiste às agressões, e violentam a

52
pequena Kehinde e sua irmã gêmea Taiwo. Tudo isso, obrigando a sacerdotisa
a ver tais atos.
Pessoas que passavam por perto viram a triste cena, mas não
interferiram. Essa tragédia motivou a mudança das sobreviventes para a cidade
litorânea de Uidá, Reino do Daomé, atual Benin, o que selaria o destino
daquela família. As irmãs foram capturadas e, assim como sua avó, levadas
como escravas em um navio negreiro. Contudo, apenas Kehinde conseguiu
sobreviver e completar a travessia do Atlântico, pois sua avó e irmã
sucumbiram diante da dura jornada marcada por sede, fome e as precárias
condições de salubridade no navio negreiro.
Entre deslocamentos forçados ou voluntários, primeiro como mulher
livre, depois na condição de escravizada e, posteriormente, como liberta, a
protagonista de Um defeito de cor locomoveu-se por diversos lugares, tanto
africanos quanto brasileiros, como ela mesma rememora ao se aproximar do
final de sua narrativa de vida:

Savalu, Uidá, Ilha dos Frades, São Salvador, Itaparica, São Luís,
Cachoeira, São Sebastião, Santos, São Paulo, Campinas, Uidá, Lagos.
Era lá, em África, que eu deveria morrer, onde tinha nascido. Mas aqui
estou, indo morrer no Brasil [...] (GONÇALVES, 2017, p. 917).

Os deslocamentos territoriais dessa personagem despertam a atenção,


principalmente, por conta da difícil realidade social imposta aos escravizados,
libertos e negros livres no Brasil oitocentista. Para a maioria desses indivíduos,
sobreviver na cidade grande exigia a elaboração de estratégias que diminuísse
a rejeição do chamado “defeito de cor”, principalmente quando não se tinha o
auxílio de pessoas influentes, detentoras de algum prestígio social, que as
ajudassem a contornar, com maior facilidade, as regras sociais vigentes. Em
determinado momento, Kehinde reflete sobre a criação de seu primeiro filho,
Banjokô, por sinhá Ana Felipa, quando esta estava considerando se mudar
para o Rio de Janeiro. Banjokô teria uma vida confortável, com uma boa casa,
brinquedos, comida e estudo. Mas:

Por outro lado, eu era a mãe dele, não ela. Ela sempre seria a dona,
impondo sua vontade, fazendo dele o que bem quisesse e não o que
ele pudesse vir a querer de fato. Eu não me espantaria se, na corte,
ela o mandasse estudar para ser padre, apoiada pelo padre Notório,
achando que o Banjokô deveria ficar agradecido por seguir tão nobre
carreira. Com a influência do padre Notório, ela logo conseguiria para

53
ele uma dispensa do defeito de cor, que não permitia que os pretos,
pardos e mulatos exercessem qualquer cargo importante na religião,
no governo ou na política. (GONÇALVES, 2017, p. 337).

A trajetória de Kehinde, bem como a de diversas populações africanas


espalhadas mundo afora pelas engrenagens do sistema escravista, foi
construída e marcada pela resistência diante das adversidades e pela
negociação dos problemas impostos pelas diversas realidades e paisagens
sociais em que viveu/interagiu. Poucos conseguiam ser “adotados” por seus
senhores, como Banjokô, o que revela o fato de que muito menos pessoas
conseguiram diminuir ou esquivar-se dos efeitos do preconceito causados pelo
“defeito de cor”.
Considerando o pensamento de Alexandre Oliveira (2011), a partir
desses deslocamentos pode se reconhecer um mapa das experiências, tanto
individuais quanto coletivas, de Kehinde e das pessoas que se relacionaram
com ela. No que diz respeito aos mapas, Oliveira (2011, p. 21) salienta que
não os pensa apenas como:

a representação gráfica de uma área territorial. O mapa que aqui


interessa é o demarcado pela pessoa em suas experiências diárias,
de travessia dos lugares, de recriação dos caminhos, abrindo
possibilidades para novas narrativas do corpo em movimento, em
deslocamento, abrindo espaço para a inscrição de novas paisagens
que surgem às sensações.

Em cada paisagem visitada, situações específicas foram representadas.


Pode-se identificar, por exemplo, locais marcados pela religiosidade, visto que
este foi um dos estopins que desencadearam deslocamentos. Kehinde se
deslocou de Salvador para São Luís, por exemplo, para se encontrar com
Agontimé, viúva do rei Agongolo do Daomé, que havia fundado uma casa de
culto aos deuses daometanos no Maranhão. Lá, iniciou seu treinamento como
vodunsi. Sabe-se que membros da família real daometana, dentre eles Na
Agontimé, foram vendidos como escravos pelo rei Adandozan, sucessor de
Agongolo. Pierre Verger (1990, p. 153) aponta que “a hipótese de que Na
Agontimé teria trazido o culto dos voduns reais de Daomé a São Luís, foi
reconhecida como verossímil”.
Para a cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano, Kehinde deslocou-se
também impelida pela sua ligação com o culto aos voduns, dando continuidade

54
ao seu aprendizado. De igual modo, dirigiu-se novamente para a Ilha de
Itaparica, onde teve contato com cultos Gelédés. Nesses casos, a necessidade
de sair de Salvador, por conta de sua participação em revoltas naquela cidade,
impulsionou seu aprendizado sobre os cultos aos voduns e orixás.
O contexto social conturbado em decorrência das revoltas impunha
enormes dificuldades para a sobrevivência dos negros em Salvador e do
Recôncavo. Um defeito de cor denuncia o clima de insegurança que interferia na
vida de todos os segmentos não brancos da população. Africanos e
afrodescendentes sofriam, como apresentado na narrativa de Gonçalves (2017, p.
266), além das mazelas da escravidão, com o racismo e a repressão policial que
os proibiam de andarem nas ruas da cidade durante a noite, pois “[...] preto na rua
à noite era sempre suspeito de estar fazendo coisa errada ou de ser fujão, e por
isso ninguém se arriscava, a não ser que tivesse uma carta do dono”.
Edmar Ferreira Santos, em O poder dos candomblés: perseguição e
resistência no recôncavo da Bahia (2009), analisa a repressão sofrida pelas
religiões de matriz africana naquela região. O historiador salienta a proibição
dos batuques, após a proclamação da independência, como uma postura que
visava “disciplinar a circulação de negros nos espaços públicos” (SANTOS,
2009, p. 47). A perseguição praticada pelos setores destinados a “manter a
ordem”, como a polícia e imprensa, atravessaram o século XIX. Os batuques,
sambas e demais manifestações relacionadas com a cultura africana,
continuaram resistindo na medida em que:

preservavam e reconfiguravam saberes de matriz africana, ao tempo


em que ajudavam seus participantes na elaboração de balizas de
outras identidades, que reinterpretavam heranças africanas na
diáspora, insubordinando-se muitas vezes contra discriminações de
classe, raça e de caráter religioso (SANTOS, 2009, p. 54).

Nesse cenário, os escravizados que trabalhavam nas ruas, os libertos e


negros nascidos livres lutavam para sobreviver com poucas possibilidades de
ascensão social. Não possuíam o domínio do próprio corpo durante o dia, pois
eram obrigados a trabalhar, nem durante sua folga pela noite, já que corriam o
risco de serem presos pela polícia.
Ainda que a discriminação e o preconceito dos brancos para com os
negros desse o tom da atmosfera social, Kehinde conseguiu transitar entre vários

55
segmentos da sociedade baiana, tendo trabalhado na cidade como escrava
doméstica, de aluguel e de ganho no período que antecede a conquista de sua
alforria. As mulheres que, como Kehinde, trabalhavam na rua:

dispunham de maior liberdade para participar de batuques, sambas e


lavagens, para cumprir suas obrigações religiosas e celebrar com os
voduns e orixás nas cercanias da cidade. Isso, por sua vez, rendia para
elas a má fama de mulheres promíscuas, desordeiras e selvagens
(SANTOS, 2009, p. 57).

Essa maior autonomia pode ser percebida pelas articulações e contatos


estabelecidos por Kehinde. A personagem Nega Florinda, por exemplo, é quem lhe
apresenta a Agontime em uma de suas passagens por Salvador (GONÇALVES,
2017, p. 130). É por meio da mesma Florinda que, posteriormente, conhece Adeola,
quituteira que lhe entrega um mapa para encontrar o terreiro do Baba Ogumfiditimi,
com o objetivo de fazer a importante cerimônia de escolha do nome para seu filho,
Banjokô, antes do “batismo de branco” que sua sinhá faria para apresentá-lo aos
santos católicos (GONÇALVES, 2017, p. 201).
Esses encontros foram importantes porque permitiram a Kehinde deslocar-
se diversas vezes em Salvador. Do solar de propriedade de sua sinhá Ana Felipa,
localizado no Corredor da Vitória, ia até o terreiro do Baba Ogumfiditimi, que ficava
na freguesia do Rio Vermelho. Na casa do padre Heinz, próximo a Santo Antônio
Além do Carmo, Kehinde fabricava produtos típicos da culinária inglesa para ganhar
as ruas, vendendo-os. Após ser liberta, investiu no comércio, abrindo uma padaria,
e também no ramo da fabricação de charutos, relacionando-se com homens e
mulheres brancas, negros que cultuavam voduns e orixás, e com aqueles que eram
islamizados, como a família do alufá Ali.
Essa mobilidade demonstra a inadequação de Kehinde à realidade
social imposta, indicando que estar sempre em trânsito era uma forma de
resistência. Corrobora com essa posição o fato de a protagonista aproveitar as
oportunidades que apareciam para transformar a sua condição, como pode-se
perceber pelo seu interesse pela leitura e escrita:

começaram as aulas para a sinhazinha Maria Clara aprender pelo


menos as letras e os números, nos livros e cadernos que foram
buscados às pressas na capital. Compraram também tinta, pena e
outros apetrechos para a sinhazinha, e um quadro-negro onde o
Fatumbi ia escrevendo o que ela precisava copiar. [...] tratei de
aproveitar muito bem a oportunidade [...] Enquanto a sinhazinha
Maria Clara copiava as letras e os números que o Fatumbi desenhava

56
no quadro-negro, eu fazia a mesma coisa com o dedo, usando o chão
como caderno. (GONÇALVES, 2017, p. 92).

Aprender a ler, contar e escrever foi fundamental em sua trajetória, pois


permitiu que ela adentrasse no ramo do comércio, abrindo portas quando a
situação ficou desesperadora. Segundo Bergamini (2017, p. 119), “é um lugar
comum sobre o século XIX brasileiro afirmar-se que somente as elites liam,
ainda que pouco e mal. O povo, os trabalhadores, os pobres, os escravos não
liam, não escreviam, não pensavam”. As atitudes de Kehinde indicam que ela
vai na contramão desse pensamento, pois seus modos de agir e pensar
demonstram a resistência de uma população que lutava constantemente contra
as forças hegemônicas da sociedade escravista.
A capacidade de aprender rapidamente o que observava em silêncio e
sua dedicação chamaram a atenção de Fatumbi, escravo islamizado que
passou a ser uma espécie de mentor para Kehinde durante sua estada em
Salvador, até a eclosão da insurreição dos escravos no ano de 1835. Sua força
de vontade era notável, pois, na cidade grande, o negro que não se adaptasse,
dificilmente conseguiria sobreviver às regras e imposições da sociedade
racista. A vontade de aprender coisas novas manifestou-se outras vezes
durante o período em que foi escrava nessa cidade, como quando foi alugada
pela sinhá Ana Felipa para uma família inglesa, “aprendendo a fazer alguns
pratos diferentes, como diversos tipos de puddings e cookies.” (GONÇALVES,
2017, p. 219).
Nas ruas da capital baiana, Kehinde passou a vender um produto que
poucas pessoas sabiam fazer. A venda dos cookies, biscoitos típicos da
culinária inglesa, além de garantir sua sobrevivência, permitiu que transitasse
entre pessoas de diversas classes sociais. Além do mais,

os cookies eram gostosos, fáceis de fazer, e eu não estaria tirando a


freguesia de ninguém, já que ninguém vendia cookies pelas ruas, e
nem eram muitas as pessoas que sabiam fazê-los, o que aumentava
a possibilidade de ter mais fregueses. (GONÇALVES, 2017, p. 247).

Experiências, como a vivida na casa dos ingleses, no contato com


negros e libertos muçulmanos, bem como em outras cidades, como o Rio de
Janeiro, colocaram Kehinde diante de culturas e etnias distintas, o que
colaborou no seu aprendizado acerca dos negócios. Isso indica que os negros

57
que conseguiam reduzir as amarras sociais ou interagir com os diversos grupos
étnicos que uma cidade diaspórica, como a Salvador oitocentista, podia
oferecer, tinham mais possibilidades de tomar iniciativa e obter sucesso na
realidade multifacetada da escravidão brasileira.
Um exemplo dessa iniciativa pode ser percebido quando Kehinde, com
intenção de expandir seus negócios, oferece os cookies em uma loja de
produtos estrangeiros, “a melhor, a mais cara e famosa” da cidade:

De início tentaram me enxotar enquanto eu dava uma olhada nas


prateleiras, dizendo que os produtos que estavam ali não eram para o
meu paladar e muito menos para o meu bolso. Mas eu disse que tinha
ido a mando da minha sinhá e perguntei se eles vendiam English
cookies, caprichando na pronúncia. O homem que me pareceu ser o
responsável disse que não, que era para eu me desculpar com a minha
sinhá, pois tais iguarias não chegavam ao Brasil frescas para o consumo
depois de uma viagem desde a Inglaterra. Eu então falei que nós, e
salientei o ‘nós’ para que ele pensasse que havia mesmo alguma sinhá
por trás daquela minha atitude, que nós na verdade não estávamos
procurando cookies para comprar, mas sim quem aceitasse vendê-los
(GONÇALVES, 2017, p. 273).

Kehinde, dessa maneira, demonstra ser deslocada da realidade


sociocultural imposta. Sua grande capacidade de articulação e conhecimentos
sobre o mundo em que estava inserida permitiu-lhe essa mobilidade,
fundamentada, principalmente, na busca pela liberdade. Esses deslocamentos
também podem ser percebidos pelo fato de a personagem não aceitar as
situações de imposição cultural e/ou religiosa. Ainda criança, ela critica a
imposição do batismo e a escolha de um nome cristão, situação que era
obrigatória para os recém-chegados na condição de cativos:

Nós não víamos a hora de desembarcar também, mas, disseram que


antes teríamos que esperar um padre que viria nos batizar, para que
não pisássemos em terras do Brasil com a alma pagã. Eu não sabia o
que era alma pagã, mas já tinha sido batizada em África, já tinha
recebido um nome e não queria trocá-lo, como tinham feito com os
homens. Em terras do Brasil, eles tanto deveriam usar os nomes
novos, de brancos, como louvar os deuses dos brancos, o que eu me
negava a aceitar, pois tinha ouvido os conselhos da minha avó. Ela
tinha dito que seria através do meu nome que meus voduns iam me
proteger. (GONÇALVES, 2017, p. 63).

A fuga do batismo demonstra sinais de inconformidade com a


situação, já que seria uma grande afronta a sua ancestralidade e a sua
conexão com os voduns:

58
O escaler que carregava o padre já estava se aproximando do navio
[...] Antes que algum deles conseguisse me deter, pulei no mar. [...]
me lembrei de Iemanjá e pedi que ela me protegesse, que me
levasse até a terra. Um dos guardas deu um tiro, mas logo ouvi
gritarem com ele, provavelmente para não perderem uma peça, já
que eu não tinha como fugir a não ser para a ilha, onde outros já me
esperavam. Ir para a ilha e fugir do padre era exatamente o que eu
queria, desembarcar usando o meu nome, o nome que a minha avó e
a minha mãe tinham me dado e com o qual me apresentaram aos
orixás e aos voduns. (GONÇALVES, 2017, p. 63).

Após ser transportada, junto a seus companheiros de viagem, para o


mercado de escravos em Salvador, encontra outros negros em situação
degradante, todos esperando serem vendidos/comprados. Em seu segundo dia
no armazém do mercado, é vendida para José Carlos de Almeida Carvalho
Gama e vai trabalhar, inicialmente, como escrava de companhia de sua filha
Maria Clara, em um engenho na Ilha de Itaparica, de sua propriedade. Sua
objetificação na relação com Maria Clara, contudo, demonstram que Kehinde
era um brinquedo da sinhazinha.
No momento da sua venda, foi obrigada a escolher um nome cristão,
não tendo escapatória dessa vez. Escolheu o nome Luísa, o mesmo “nome de
branco” de uma companheira na viagem transatlântica, a Tanisha. A escolha
de um nome cristão, nesse momento, não significou aceitação, mas a
oportunidade de se estabelecer em algum lugar menos degradante e em
situação menos desumana:

Para os brancos fiquei sendo Luísa, Luísa Gama, mas sempre me


considerei Kehinde. O nome que a minha mãe e a minha avó me deram
e que era reconhecido pelos voduns, por Nana, por Xangô, por Oxum,
pelos Ibêjis e principalmente pela Taiwo. Mesmo quando adotei o nome
de Luísa por ser conveniente, era como Kehinde que eu me apresentava
ao sagrado e ao secreto (GONÇALVES, 2017, p. 73).

O casamento com um homem branco também pode ser considerado um


dos pontos centrais na trajetória de Kehinde. Seus relacionamentos anteriores
não haviam dado certo. Seu primeiro filho foi gerado por meio de um estupro
praticado pelo seu antigo senhor, José Carlos, ainda na fazenda em Itaparica.
Lourenço, seu companheiro nessa época, além de estuprado, foi castrado pelo
seu dono, conforme trecho abaixo:

59
Foi então que tirou o membro ainda duro de dentro de mim, mesmo já
tendo acabado, chegou perto do Lourenço e foi virando o corpo dele
até que ficasse de costas, em uma posição bastante incômoda por
causa do colar de ferro. Passou cuspe no membro e possuiu o
Lourenço também, sem que ele conseguisse esboçar qualquer
reação ou mesmo gritar de dor, pois tinha a garganta apertada pelo
colar. [...] O monstro se acabou novamente dentro do Lourenço,
uivando e dizendo que aquilo era para terminar com a macheza dele,
e que o remédio para a rebeldia ainda seria dado [...] pediu que dois
homens do [capataz] Cipriano o segurassem e cortou fora o membro
dele. (GONÇALVES, 2017, p. 172).

Essa representação do estupro escancara o teor violento por trás da


mestiçagem na história brasileira e o texto de Gonçalves demonstra que esse
processo foi mais complexo e cruel de que se imagina.
Com Francisco, já na cidade, Kehinde não consolidou um
relacionamento, ainda que gostasse muito dele. Sua sinhá, Ana Felipa,
também disputava sua atenção. É com Alberto, português que possuía uma
loja de ferragens em Salvador, que Kehinde vai construir uma convivência mais
duradoura.
Construir um relacionamento afetivo dentro das engrenagens do sistema
escravista não era uma tarefa fácil, principalmente quando os interesses
amorosos dos escravizados conflitavam com os dos seus senhores. Alberto,
dessa forma, não se vê no meio da disputa entre escrava e senhor/sinhá, como
Lourenço e Francisco ficaram. Entretanto, construir família com uma mulher
negra, ainda que ela tenha conquistado sua alforria, coloca-o ainda mais no
âmago da sociedade racista, já que ele seria visto com desprezo pelas pessoas
que o conheciam.
Não é por acaso que, ao invés de conduzir Kehinde, Banjokô e Esméria,
todos recém alforriados, para a casa que mantinha alugada na cidade, Alberto
leva-os para morar em um sítio bem afastado, uma clara intenção de escondê-
los da sociedade:

Mesmo sendo vizinho do mercado, o Alberto disse que não entregaria


[os cookies] pessoalmente para que minha farsa de ter uma sinhá
não fosse descoberta. Fingi acreditar, mas sabia que, no fundo, ele
tinha vergonha de assumir que estávamos morando juntos. Afinal de
contas, as pretas serviam para que os brancos satisfizessem os
desejos carnais, como a Claudina e a Adeola tinham dito, e
raramente eram boas o bastante para chegarem a esposas. Podia até
ser que ele não pensasse assim, mas estava claro que não queria
enfrentar quem pensava, e para isso foi providencial morar naquele
sítio afastado, sem vizinhos especulando a nossa vida ou fazendo
comentários maldosos. (GONÇALVES, 2017, p. 356).

60
A personagem, porém, compreende a situação, pois ela também tinha
percebido que, assim como Alberto em relação a seus amigos, igualmente
adotara “uma atitude parecida, não querendo contar a Claudina que estava
morando de portas adentro com um branco” (GONÇALVES, 2017, p. 356).
Alberto, com o passar do tempo, entretanto, sucumbe às pressões sociais e
políticas, e separa-se de Kehinde para casar com uma brasileira branca,
sacrificando a felicidade de ambos para não ser deportado para Portugal.
Segundo Juliana Serzedello Crespim Lopes (2008, p. 40), nos anos que
se seguiram à Independência do Brasil, cresceu um forte sentimento de
lusofobia na população de Salvador, principalmente “nos setores urbanos
médios e baixos da população”. Daniel Afonso da Silva (2012, p. 278), ao
analisar processos de afirmação da identidade nacional brasileira na Bahia,
apresenta um abaixo-assinado enviado, em 1831, pelos “cidadãos da Bahia ao
presidente da província”, com diversas reivindicações, dentre elas, a
“deportação de todos os portugueses que não tiverem famílias, nem capitais
[...] para a tranquilidade, e segurança da província”.
O personagem Alberto, dessa maneira, torna-se refém dos conflitos e
tensões sociais envolvendo brasileiros e portugueses nas primeiras décadas
após a Independência do Brasil. Essa rivalidade tomou proporções absurdas na
Bahia, província envolvida em diversas lutas e revoltas na primeira metade do
século XIX, como a Revolta dos Malês e a Sabinada.
Entregue ao vício do jogo e da bebida, Alberto vende Omotunde na
condição de escravo para saldar uma dívida. Nascido livre, o jovem é entregue
a esse destino cruel. A turbulência política e social e o envolvimento de
Kehinde nas revoltas acontecidas em Salvador fizeram-na afastar-se da cidade
e, consequentemente, de seu filho, o que, de certa forma, acaba permitindo
essa tragédia familiar. Esses acontecimentos também são demonstrativos das
perversidades, deformações e complexidade da escravidão no Brasil, o que
evidencia a forte relação entre a história e a literatura e permite ao leitor refletir
sobre a história do país.
A partir daí, a busca por Omotunde torna-se o ponto central dos
deslocamentos de Kehinde, já que ela embarca para o Rio de Janeiro seguindo
os rastros deixados quando da venda de seu filho. Dado curioso é que antes de

61
embarcar para a corte, ela precisou ser “reescravizada” para poder viajar, já
que existia uma lei que proibia o tráfico de escravos e o desembarque de
libertos no país. Trata-se da Lei de 7 de novembro de 1831, também conhecida
como “Lei Feijó”.
Segundo o historiador Luís Gustavo Santos Cota (2011, p. 69), “a lei de
1831 foi, assim como outras tantas leis criadas em solo brasileiro, uma
promessa feita sem a intenção de ser cumprida”. Daí a origem da expressão de
cunho popular: foi uma lei “para inglês ver”, pois a importação de escravos para
o Brasil continuou acontecendo.
O doutor José Manoel, marido da sinhazinha Maria Clara, providenciou a
documentação que afirmava ser Kehinde sua escrava e que estava indo para a
corte trabalhar no ganho, servindo a uma irmã sua:

Ele estava bastante constrangido quando, três dias depois, me


entregou alguns papéis necessários para o embarque, entre os quais
havia um passe igual ao que a sinhá Ana Felipa tinha me dado
quando virei escrava de ganho, dizendo que eu estava autorizada a
trabalhar na rua e morar fora de casa, só que em nome dele. O
doutor José Manoel tinha amigos que faziam aquele serviço e,
portanto, não foi difícil conseguir um passe dizendo que era meu
dono e tinha pedido autorização aos governos da Bahia e do Rio de
Janeiro para que eu fosse morar e trabalhar a ganho na corte,
servindo a uma viúva, irmã dele, que na verdade nem existia. Tudo
isso porque o governo do Rio de Janeiro tinha proibido a entrada de
pretos livres naquela província, sobretudo os procedentes da Bahia
(GONÇALVES, 2017, p. 635).

Ao deslocar-se para o Rio de Janeiro, Kehinde entrou em contato com


uma nova realidade social, na qual a origem dos pretos diferia dos que
desembarcavam em Salvador. Para a Bahia, os traficantes levavam
principalmente negros das etnias fon, eve e iorubá, embarcados na Costa da
Mina. Para o Rio de Janeiro, a prioridade era “os angolas, os moçambiques, os
monjolos, benguelas e mais alguns” (GONÇALVES, 2017, p. 648).
Os escravos e libertos provindos da Bahia não eram bem vistos pela
fama adquirida nas revoltas ocorridas naquela região. Kehinde, por exemplo,
esteve, de alguma forma, envolvida em várias, como a dos Malês, a
Cemiterada e a Sabinada, ainda que de forma involuntária.
Sobre a Revolta dos Malês, por exemplo, sabe-se, por meio da
historiografia, que Manoel Calafate, Aprígio, mestre Dandara, Belchior, dentre
outros personagens históricos citados na narrativa composta por Gonçalves,

62
atuaram naquela insurreição (REIS, 1986), mas não há nenhuma
documentação primária comprobatória da participação de Luiza Mahin,
tampouco em outros levantes. O exemplo de Belchior é interessante, pois no
romance, ele era cativo no mesmo engenho que Kehinde. Após a venda da
fazenda e a consequente mudança da então viúva sinhá Ana Felipa para
Salvador, levando consigo apenas alguns escravos domésticos, o personagem
desaparecera da narrativa. Kehinde o reencontra muitos anos depois em meio
aos acontecimentos que levariam à Revolta Malês, em 1835:

Com os três também vivia um nagô, Ignácio, escravo de um irmão do


Domingos que morava no Recôncavo. O Domingos era responsável
perante o senhorio e tinha alugado o porão para o Manuel Calafate e
o Aprígio, que por sua vez alugaram o quarto dos fundos para o
escravo Belchior, também nagô. E para provar que o mundo era
mesmo pequeno, dias depois descobri que esse Belchior era o
mesmo da fazenda de Itaparica, o namorado da Felicidade. Ainda na
fazenda ele tinha falado em se converter, mas eu achava que era só
para ficar com ela. (GONÇALVES, 2017, p. 387-388).

O personagem, da mesma forma que Kehinde, desloca-se entre


acontecimentos e situações fictícias e históricas. Sobre a comprovação da
participação de sua contraparte histórica, Luiza Mahin, naquela insurreição, a
fonte mais próxima, disponível ao pesquisador, é a carta que Luiz Gama enviou
ao jornalista Lúcio de Mendonça. No documento, o poeta e advogado
abolicionista rememora sua origem, contando dados de sua infância em
Salvador, além de descrever as características de sua mãe, como se observa
no seguinte trecho da carta:

Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina, (Nagô
de Nação) de nome Luíza Mahin, pagã, que sempre recusou o
batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa de estatura, magra,
bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes
alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e
vingativa. Dava-se ao comércio - era quitandeira, muito laboriosa, e
mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se
em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito.
(GAMA, apud FERREIRA, 2008, p. 304-305).

Esse documento, contudo, não comprova a participação de Luiza Mahin


na revolta escrava ocorrida em Salvador no ano de 1835. O historiador João
José Reis (2003, p. 301), após analisar vasta documentação primária sobre a
insurreição malê, afirma que

63
nenhuma Luiza, aliás, foi incluída em quaisquer das listas de presos
por envolvimento no levante. A única mulher com este nome que
encontrei em 1835 foi uma liberta, presa provavelmente em novembro
para ser deportada por crime não especificado, mas de forma alguma
por insurreição.

Pare esse pesquisador,

O personagem Luiza Mahin resulta, então, de um misto de realidade


possível, ficção abusiva e mito libertário. A rigor, o que dela se
conhece tem pouca fundamentação histórica. O que mais se
aproxima da história é o pouco que sobre ela escreveu o filho Luiz
Gama. Do que este revelou, o envolvimento da mãe em 1835 é até
possível, embora os documentos sobre a revolta não o confirmem e
indiquem como altamente improvável seu papel de liderança. (REIS,
2003, p. 303).

De acordo com Ferreira (2008, p. 305-306), a carta de Luiz Gama


apresenta uma riqueza de detalhes que

concorre para a criação de ‘efeitos de real’ raramente questionados e,


na prática, ainda hoje difíceis de averiguar. Gama construiu uma aura
mítica em torno de sua mãe, personagem que ganharia uma espécie
de destino próprio, ficcional ou não.

Esse destino, compreendido como uma incógnita tanto na carta de Luiz


Gama quanto na produção historiográfica, é que toma forma na narrativa de
Ana Maria Gonçalves, pois a romancista abraça o relato autobiográfico do
poeta, preenchendo as lacunas existentes. Se a carta enviada a Lúcio de
Mendonça colaborou para a construção da figura mítica de Luíza Mahin
enquanto mulher guerreira e destemida, que teve importante papel no levante
dos escravos malês, ainda que “o escritor baiano jamais o tenha afirmado em
sua carta” (FERREIRA, 2008, p. 306), Um defeito de cor acaba ressignificando
essa personagem na medida em que contribui para a sua humanização.
Ao humanizar a trajetória de sua contraparte ficcional, Kehinde/Luiza
Gama, Ana Maria Gonçalves dá esse passo para a afirmação de uma
historicidade negada pala falta de documentação sobre Mahin. Prova disso é
que, em Um defeito de cor, a participação ativa de uma mulher negra em um
movimento majoritariamente masculino, como a Revolta dos Malês, pode ser
representativo de que ela possuía alguma liderança, ainda que Kehinde não
estivesse entre os mentores do levante. Essa postura acaba, de certa forma,

64
confrontando e relativizando a historiografia consagrada sobre o tema,
deslocando a referida Mahin para o espaço da história enquanto possibilidade.
No texto ficcional, Kehinde estava dentro do grupo de revoltosos durante
a rebelião dos malês nas ruas de Salvador. Esses, em menor número e com
menos armas, acabam tombando aos poucos, perante a repressão policial,
conforme se segue:

Olhei ao redor e já não havia mais quase ninguém de pé. Os pretos


apanhados vivos eram fuzilados na hora contra o muro do quartel, e
tive a impressão de que os que ainda restavam ilesos, como eu, só
esperavam chegar a sua vez. De fato, essa era a idéia de alguns
deles, que gritavam que não iam se entregar, que iam morrer lutando,
como tinha morrido o Pai Calafate. Estavam falando do Manoel
Calafate, que tinham visto cair bem no início, ainda na Ladeira da
Praça. (GONÇALVES, 2017, p. 529).

Não apenas os líderes do movimento haviam morrido ou sido presos,


como também aquele que seria seu mentor desde os tempos em que
trabalhava no engenho em Itaparica, Fatumbi:

O Eslebão tentava me puxar pelo braço na direção da praia, e eu


disse que não iria sem o Fatumbi, que encontrei ajoelhado junto com
quatro ou cinco pretos, orando. Corri até ele e disse que
precisávamos sair dali, mas antes que ele pudesse responder o que
eu já imaginava, que dali só saía morto, uma bala bem no meio da
testa o dispensou de falar. Não sei se saí correndo de susto ou para
não ver meu amigo morrer, ou para não ter o mesmo fim que ele.
(GONÇALVES, 2017, p. 529).

Com a morte de Fatumbi, Kehinde perde uma referência de amigo e


conselheiro. Além do mais, estava decepcionada com o fracasso da rebelião
escrava, algo que também ilustra o processo de humanização da personagem,
pois ela questiona a rapidez com que a revolta aconteceu, apesar de anos de
planejamento das ações do movimento:

Então tinha sido só aquilo? Tantos anos de trabalho e espera para


acabar naquilo? Foi muito triste aceitar que sim. Nada parecia real, e
quando acordei algumas horas depois, ainda antes de abrir os olhos,
torci para que fosse um pesadelo. (GONÇALVES, 2017, p. 530-531).

Com os líderes presos ou mortos, inicia-se um período de forte


repressão contra os escravos muçulmanos e os suspeitos de participarem de
agitações. A prática do islamismo pela população negra de Salvador acaba
entrando em declínio após 1835, principalmente porque a importação de

65
escravizados muçulmanos diminuiu em consequência dos desdobramentos das
guerras em território iorubá (REIS, 2003).
Outro evento histórico que teve a participação de Kehinde foi o que ficou
conhecido como a “Cemiterada”, quando a população de Salvador ficara
revoltada com a proibição dos enterros dentro das igrejas. Essa proibição
surgiu com o intuito de:

higienizar a cidade, [pois] nossos médicos convenceram legisladores


e parte da sociedade de que os ‘miasmas mefíticos’ produzidos pela
decomposição cadavérica atacava a saúde dos vivos. Era então
necessário expulsar os mortos de entre os vivos como parte de um
amplo projeto civilizatório. (REIS, 2014, p. 31).

Os mortos deveriam ser enterrados nos cemitérios, o que os afastavam


dos locais considerados sagrados. Segundo João José Reis (2014, p. 31), a
Cemiterada “evidencia um tipo de religiosidade e de cultura funerária em que o
local do enterro desempenhava um papel central no projeto de salvação da
alma”. Daí a necessidade de enterrar-se os mortos dentro das dependências
de uma Igreja e, por isso, o cemitério do Campo Santo foi destruído apenas
três dias após sua inauguração. Gonçalves (2017, p. 562) representa esse
acontecimento em sua narrativa histórica:

Os manifestantes derrubaram paredes, muros e portões, quebraram


janelas e portas, arrancaram os mármores de algumas sepulturas,
destelharam a capela e roubaram os paramentos, queimaram os
panos fúnebres e os carros funerários e levaram os destroços como
troféus até a Praça do Palácio, onde, enfim, foram dispersados pela
polícia. Tudo isso sem que ocorresse qualquer outra prisão, somente
a minha e a dos dois homens, que nada tivemos com aquilo.

A participação de Kehinde, nesse caso, não foi efetiva, mas ela estava
pulando o muro do cemitério quando estourou o movimento. A mesma coisa
aconteceu na revolta liderada pelo doutor Sabino: foi presa por ajudar um
“preto velho” que havia sido espancado por três policiais. Os policiais acharam
que ela era uma baderneira e levaram-na para a Cadeia Pública
(GONÇALVES, 2017, p. 566).
Essa atmosfera de tensão, em que o recomendado, principalmente para
a comunidade negra, era permanecer em suas casas ou em reclusão para
evitar a repressão policial, promove o deslocamento de Kehinde de Salvador
para Itaparica. Isso porque Kehinde poderia ser deportada para a África por

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conta de seu envolvimento com essas revoltas. Fugir sozinha, entretanto, foi
motivo de arrependimento, pois sentiu-se culpada pelos tristes acontecimentos
referentes ao desaparecimento de seu filho. Sem a família ao seu lado,
restava-lhe apegar-se à sua religiosidade.
Itaparica, São Luís e Cachoeira constituem-se em lugares de
aprendizado acerca dos cultos aos voduns e orixás. Ao mesmo tempo em que
Kehinde se dedicava ao seu treinamento como vodunsi, as coisas iam
acontecendo em Salvador, movimentando as vidas de todos que se
relacionavam com ela. Alberto, como já referido, entrega-se aos vícios e
desaparece após a venda de Omotunde. Os negócios de Tico e Hilário, amigos
que tanto a ajudaram, prosperavam, enquanto Esméria, figura materna que
ocupa o espaço deixado pela morte de sua avó, vai envelhecendo, tendo
consciência de que sua morte se aproximava.
No Rio de Janeiro, em meio a sua busca por Omotunde, Kehinde faz
novos amigos, como a dona Balbiana e o Piripiri, além de presenciar situações
que revelam aspectos da sociedade local. Ao discorrer sobre a festa de Kianda,
revela a diferença entre os deuses nagôs e angolas. Kianda para os angolas é
o equivalente a Iemanjá para os nagôs. Kituta era “bem parecida com minha
Oxum” (GONÇALVES, 2017, p. 677).
A realidade dos capoeiristas também se faz presente na narrativa e, por
meio do personagem Piripiri, Kehinde descobre as rixas entre os pretos minas
e os angolas. Ele a recomenda a dizer, quando perguntada, que é crioula
“nascida na Bahia” e não africana do Daomé, para, assim, não sofrer possíveis
retaliações por conta de sua origem étnica. A proibição dos elementos
relacionados ao universo da capoeira, como a luta, o batismo e a música, é
destacada por Gonçalves, bem como sua importância em época de eleição, já
que políticos contratavam as maltas para criarem confusões, ajudando a
mascarar fraudes nas urnas. Os capoeiristas, dessa maneira, embora fossem
vítimas da perseguição policial, possuíam importância dentro do contexto
político e social do Rio de Janeiro no século XIX, além de ser um forte
elemento de resistência da comunidade negra.
No Rio de Janeiro, Kehinde trabalhou como quituteira e no comércio de
tecidos africanos. Quando descobria alguma pista sobre o filho desaparecido,
trabalhava apenas pela tarde. Os negócios estavam prosperando, visto que

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ninguém nas redondezas vendia “panos-da-costa legítimos e tecidos da África”,
o que atraia clientes de todas as partes da cidade, possibilitando que ficasse
“sabendo notícias das redondezas, aproveitando para falar sobre você
[Omotunde]” (GONÇALVES, 2017, p. 682).
Os contatos com os amigos que havia deixado na Bahia continuavam
por meio de cartas, mas carregavam “mais desabafos do que notícias, e
principalmente as minhas descrições sobre São Sebastião, que a sinhazinha
adorava ler” (GONÇALVES, 2017, p. 703). Entretanto, o surgimento de uma
pista, com a confirmação de que Alberto havia levado “um mulatinho” para um
batizado na Ilha de Itaparica, reacendeu a esperança. Maria Clara e José
Manoel foram responsáveis por esse momento de alegria, pois:

finalmente recebi não uma simples carta, mas uma caixinha de


presente com a sua certidão de nascimento, o nome e a morada do
negociante que tinha comprado você das mãos do seu pai, o nome
do navio em que você tinha embarcado para São Sebastião e a data,
mais o nome e a morada de três comerciantes que poderiam ter
recebido você (GONÇALVES, 2017, p. 705).

Esse momento representa um deslocamento na concepção que Kehinde


tinha acerca do significado do batismo, visto que o registro, escrito em papel,
foi o que lhe deu a esperança de encontrar seu filho. Mesmo batizado na
religião católica, entretanto, seu filho, para ela, “sempre será Omotunde
Adeleke Danbiran, o nome com o qual eu te apresentei aos seus parentes no
sítio do Baba Ogumfiditimi” (GONÇALVES, 2017, p. 705).
O resultado dessa busca não foi satisfatório, já que seu filho não foi
encontrado. Embora houvesse se deslocado do Rio de Janeiro para Santos,
São Paulo e Campinas, estava sempre atrasada, pois quando chegava a algum
lugar por meio das pistas descobertas, Omotunde já havia partido. Descobrira,
inclusive, que ele aprendera a ler e tinha encontrado documentos com seu
senhor, numa hospedaria em São Paulo, atestando que havia nascido livre, o
que motivou sua fuga e o consequente fim das buscas de Kehinde, pois não
havia mais um lugar fixo para procurá-lo.
Chegar perto demais e não conseguir por pouco alcançar o seu intento
era decepcionante e intensificava a sua culpa:

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[Era] uma derrota muito grande, e não cansei de me amaldiçoar, muitas
vezes e por muitos motivos, mas principalmente por ter permanecido
em São Sebastião quando já tinha a morada do mercador de Santos.
Aqueles dias poderiam ter feito diferença, nunca saberemos. Se tudo
tivesse acontecido mais depressa, se eu não tivesse perdido tempo
quando não era necessário, se eu tivesse perguntado ao mercador de
Santos se haveria alguma possibilidade de você estar em São Paulo,
teríamos nos encontrado, e sabe-se lá o que mais teria acontecido nas
nossas vidas. (GONÇALVES, 2017, p. 721).

De volta a Salvador, a expectativa de encontrar o filho deu lugar ao


desejo de retornar à África, motivada pelos constantes sonhos com antigos
familiares e amigos que havia deixado no continente africano e na travessia do
oceano. O deslocamento era inevitável, já que sua personalidade não aceitava
a imobilidade. Kehinde saiu de Salvador “a vinte e sete de outubro de um mil
oitocentos e quarenta e sete e [desembarcou] em Uidá a vinte e dois de
novembro, no mesmo local de onde tinha partido trinta anos antes”.
(GONÇALVES, 2017, p. 731).
Contudo, nesse seu retorno, Kehinde já não era a mesma que havia
saído em um navio negreiro no porto de Uidá. Muitos aspectos socioculturais do
Brasil oitocentista foram internalizados por ela, que até então resistia em utilizar
o nome Luísa diante de outros negros, e passou a incorporar essa identidade
enquanto brasileira retornada. Dentro da relação existente entre a história e a
ficção, a narrativa apresenta também intrigantes deslocamentos identitários.
Esses deslocamentos corroboram a ideia de que o mito de Luiza Mahin
está sendo relativizado pela escrita ficcional, reafirmando, como citado
anteriormente, a humanização das ações e do caráter psicológico da
personagem em questão. Um exemplo que pode ser citado é a associação de
Kehinde ao negócio de armas, já em território africano. Ela tinha consciência de
que a venda de armamentos estimularia o tráfico negreiro, reduzindo a vida de
inúmeras pessoas livres à condição de escravizadas, tendo destino tão cruel ou
até pior que o seu. Mas não questiona o seu companheiro, responsável pela
sua entrada nessa atividade mercantil:

[John] Conseguiu vender minhas mercadorias em Freetown sem


nenhuma dificuldade, e se tivesse mais também teria vendido, e usou
o dinheiro para comprar pólvora e armas dos ingleses, principalmente
as famosas espingardas de Birmingham, que estava negociando em
Uidá com representantes do rei Guezo, com os quais se encontraria
no dia seguinte. Tinha usado dinheiro dele também para adquirir uma
boa quantidade, e teríamos um excelente lucro, mas estava com

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medo de que eu não concordasse com aquele tipo de comércio.
Comentei que provavelmente eu não teria coragem de comprar
armas e pólvora, mas se ele garantia que era um bom negócio e que
a venda estava garantida, por mim estava tudo bem. (GONÇALVES,
2017, p. 759).

Apesar de constranger-se, sua fala não deixa dúvidas quanto ao seu


objetivo: lucrar e estabelecer-se como negociante de sucesso, ainda que vidas de
africanos fossem ceifadas no denominado “comércio de carne humana”:

Às vezes eu ficava um pouco constrangida por me relacionar com


mercadores de escravos, mas logo esquecia, já que aquele não era
problema meu. Eu não conseguiria resolvê-lo mesmo se quisesse, e
também não poderia ficar com muitos escrúpulos depois de fornecer
armas para o rei Guezo, sabendo que seriam usadas em guerras que
fariam escravos, quase todos mandados para o Brasil. Muitas vezes
vi passar os exércitos tribais ou os reais, indo para as guerras ou
voltando delas. (GONÇALVES, 2017, p. 771).

Posteriormente, Kehinde abandona essa atividade, dedicando-se ao


ramo da construção civil, o que não minimiza o fato de ter lucrado com a
desgraça alheia. Essa dicotomia salta aos olhos do leitor, pois revela que ela
tem muitas virtudes, mas também tem seus defeitos. Destaca-se a seguinte
passagem na qual a personagem reflete sobre sua condição enquanto
negociante de armas:

Como bem dizia o Fatumbi, infelizmente a vida era assim mesmo e


cada um que cuidasse de si, já que diretamente eu não estava
fazendo mal a ninguém. Se eu não vendesse as armas, outras
pessoas venderiam e as guerras iam continuar existindo, como
sempre tinham existido. Eu só não tinha coragem de comprar e
vender gente, porque já tinha sentido na pele como era passar por tal
situação, embora muitos retornados fizessem isso sem remorso
algum. Mas o comércio com armas, que só era menos lucrativo que o
de escravos, eu e o John fizemos por um bom tempo, enquanto
buscávamos outros tipos de negócio. (GONÇALVES, 2017, p. 771).

Os deslocamentos identitários também são percebidos em relação aos


africanos que fizeram a viagem de retorno ao continente africano. Eles não se
identificavam com as pessoas que ali permaneceram,

faziam questão de se afastar ainda mais dos selvagens conversando


sempre em português e dizendo que não cultuavam mais os deuses
dos africanos, que professavam a fé dos brancos, o catolicismo.
Gente que, no Brasil, provavelmente tinha orgulho de não se
submeter à religião católica e fazia questão de conversar em línguas
de África, como forma de dizer que não tinha se submetido aos

70
brancos, mas que, de volta à terra, negava esses costumes.
(GONÇALVES, 2017, p. 757).

Stuart Hall (2006, p. 13), ao discutir o conceito de identidade, salienta que:

O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos,


identidades que não são unificadas ao redor de um 'eu’ coerente.
Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em
diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão
sendo continuamente deslocadas.

Os negros retornados à região da Costa da Mina não eram considerados


africanos, mas “brasileiros”. Qualquer pessoa que chegasse em Uidá vinda
deste lado do Atlântico e falasse uma ou outra palavra do idioma português era
considerada brasileira:

Comerciantes portugueses, de escravos ou não, também eram


considerados brasileiros, junto com suas mulheres africanas ou
retornadas e seus filhos mulatos, legítimos ou não. Alguns capitães
de navios de qualquer nacionalidade, desde que falassem português,
também eram considerados brasileiros, assim como os escravos
africanos que pertenciam a essas pessoas e aprendiam os hábitos
dos brancos, todos eram considerados brasileiros. (GONÇALVES,
2017, p. 773).

Segundo Law (2002, p. 42), a origem de uma comunidade “brasileira”


em Uidá é associada ao traficante de escravos Francisco Felix de Souza:

[ele] fundou um novo bairro no sudoeste da cidade, depois chamado


de ‘Brasil [Blézin]’, habitado por sua numerosa família, escravos e
clientes livres. O bairro ‘brasileiro’ em Uidá foi também reforçado pelo
estabelecimento de libertos de origem africana (principalmente
iorubá), que retornaram do Brasil para se fixarem em Uidá a partir de
1835, criando, sob a patronagem de Souza, o bairro chamado Maro,
adjacente, a oeste, ao bairro ‘Brasil’ (LAW, 2002, p. 42).

De acordo com o historiador Flávio Gonçalves dos Santos (2013 p. 23):

o intenso comércio, a possibilidade de fazer fortuna e a conjuntura


desfavorável na Bahia para escravos e libertos, principalmente após a
Revolta dos Malês, em 1835, são elementos que explicam o
movimento de retorno e de constituição de uma comunidade de
‘brasileiros’ no Golfo do Benin.

Muitas tradições culturais e religiosas, inclusive, foram levadas para a África


pelos retornados. Kehinde, dessa forma, continuou deslocando-se entre

71
personagens e contextos fictícios e reais após seu retorno à África, participando
da vida social dessas novas e antigas comunidades. Após trabalhar como
negociante de armas, investiu no ramo da construção civil, construindo, em Uidá,
casas que lembravam os sobrados típicos de Salvador, assim como muitas festas
de louvor aos santos católicos foram levadas para o Daomé pelos “brasileiros”.
Tal iniciativa demonstrou o estranhamento dos africanos que
atravessaram o Atlântico à cultura dos que permaneceram na África. Os
Daometanos também não consideravam os retornados como seus iguais, o
que causa surpresa em Kehinde quando ela percebe que a quantidade de
brasileiros em Uidá era maior do que imaginava. Muitas festas religiosas foram
levadas para Daomé, o que colaborou para o processo de hibridização que
fundiu aspectos de diversas culturas africanas aos festejos que homenageiam
os santos católicos:

Os brasileiros de Uidá faziam questão de preservar as festas


de santos do Brasil, mesmo não tendo participado delas
quando estavam lá. Os que tinham participado contavam como
era, e assim muitas coisas eram preservadas. [...] Sob os
olhares curiosos e mesmo irados dos africanos, os brasileiros
se reuniam e liam juntos as cartas recebidas de amigos e
parentes dando notícias dos conhecidos e dos acontecimentos,
cantavam músicas brasileiras, principalmente modinhas e
lundus, e arrumavam casamentos para os filhos. De vez em
quando, alguns aceitavam a provocação de um grupo de
africanos e logo se formava uma grande confusão, acabando
com a festa. (GONÇALVES, 2017, p. 773-774).

Ainda hoje, as festas católicas são praticadas nas comunidades


remanescentes dos Agudás, como eram chamados os africanos retornados do
Brasil e seus descendentes, tanto no Benin, quanto na Nigéria (GURAN,
2000a; 2000b). Não obstante, as tradições dessas comunidades parecem ter
se enfraquecido ao longo dos tempos, como pode ser observado na matéria
publicada no Nexo Jornal, sublinhando a situação do bairro “brasileiro” de
Lagos, na Nigéria, que “sofre com a especulação imobiliária e o descaso com o
patrimônio histórico da cidade” (IANDOLI, 2016).
A personagem Kehinde, ao deslocar-se entre pessoas que ficaram na
África e as que retornaram após a experiência diaspórica nas Américas,
estabeleceu-se, assim, como mediadora dos contatos e conflitos socioculturais
entre esses segmentos das populações, principalmente de Uidá e de Lagos.

72
Considerando a experiência de Kehinde na diáspora africana, fica nítida a ideia de
seus deslocamentos não pararam, mesmo quando de seu retorno à África. Ela
casou-se, mas não com um daometano. John, seu novo companheiro, era natural
de Freetown, Serra Leoa, e trabalhava para um inglês, praticando comércio nos
dois lados do Atlântico. Com ele, teve dois ibêjis14, Maria Clara e João, filhos que,
quando crescidos, foram estudar na França.
Sujeita, como visto, essencialmente hibridizada, Kehinde não se
adequava ao ambiente social em que estava inserida, mesmo com o sucesso
de seus empreendimentos na África. Seu êxito contrastava com a precariedade
da vida de seus amigos africanos, pois os retornados normalmente conseguiam
mais sucesso devido ao aprendizado adquirido no exílio forçado.
Os deslocamentos em Um defeito de cor também confrontam a
concepção de existência de uma “mãe África”, uma terra que aguardava de
braços abertos o retorno de seus filhos aprisionados e levados como cativos
para o outro lado do oceano. Tanto Kehinde quanto outros libertos, afinal,
decepcionaram-se com o que viram ao voltarem para o continente africano:

Eu não me lembrava muito bem da África que tinha deixado, portanto,


não tinha muitas expectativas em relação ao que encontraria. Ou
talvez, na época, tenha pensado isso apenas para me conformar,
porque não gostei nada do que vi. Nem eu nem os companheiros de
viagem que estavam retornando, como o Acelino e o Fortunato, que
se lembravam de um paraíso, imagem bem distante da que tínhamos
diante de nós. (GONÇALVES, 2017, p. 731).

Esse desapontamento pode ser representativo de outros africanos


retornados, já que muitos não encontraram seus familiares e antigos lares,
visto que estes também eram vítimas dos desdobramentos das guerras e
conflitos étnicos patrocinados pela empresa escravista.
A trajetória de Kehinde, dessa maneira, vai ao encontro dos
deslocamentos existentes entre a história e a ficção. Esses deslocamentos
fizeram emergir vozes que foram silenciadas, cujos testemunhos dizem
respeito não apenas à luta dos negros no passado, mas também sobre seus
desdobramentos no tempo presente, o que demonstra a existência de um
diálogo da obra de Gonçalves com as demandas sociais da atualidade. De
igual modo, propuseram a reescrita da história pelo ponto de vista dessas

14
Filhos gêmeos.

73
pessoas, fundamentada pela experiência e memória de quem sobreviveu e
sentiu na pele a escravidão, bem como questionaram os registros e discursos
ditos oficiais acerca da formação do povo brasileiro.
O trecho a seguir, por exemplo, demonstra o espanto de Kehinde ao
perceber que até na África os negros também teriam que pedir dispensa do
“defeito de cor” para serem aceitos pela Igreja:

eles tinham dúvida se nós éramos humanos e se podíamos ser


admitidos como católicos, se conseguiríamos pensar o suficiente para
entender o que significava tal privilégio. Eu achava que era só no
Brasil que os pretos tinham que pedir dispensa do defeito de cor para
serem padres, mas vi que não, que em África também era assim.
Aliás, em África, defeituosos deviam ser os brancos, já que aquela
era a nossa terra e éramos em maior número. O que pensei naquela
hora, mas não disse, foi que me sentia muito mais gente, muito mais
perfeita e vencedora que o padre. (GONÇALVES, 2017, p. 893).

Nessa passagem, por meio da reflexão da protagonista, a autora do


romance promove o questionamento acerca do lugar do branco e do negro na
África e no Brasil. Reside aí um deslocamento que problematiza uma premissa
racista e demonstra que o africano não é pior, menor ou menos inteligente que
o europeu branco.
No que diz respeito aos deslocamentos físicos e identitários de Kehinde,
esses são representativos da resistência, da luta pela liberdade e busca por
ascensão social em um mundo onde as barreiras impostas pelo “defeito de cor”
fazem-se intransponíveis. A inquietude que a acompanhava, contudo, a fez
encontrar seu destino cruzando o Atlântico novamente, em direção ao Brasil,
após encontrar uma pista acerca do paradeiro de seu filho. A travessia, porém,
não se completou.
Compreende-se também que os deslocamentos na obra de Ana Maria
Gonçalves colaboram para a revisão crítica acerca do escravismo no Brasil e
para o entendimento dos processos de hibridização na diáspora africana. O
romance Um defeito de cor, desse modo, revisita o passado sem medo de
questioná-lo. Essa relação, entretanto, não acontece por meio da negação da
história, mas pela escolha de uma abordagem que privilegia características
próprias da literatura afro-brasileira: a temática escolhida (escravidão/diáspora
africana), a autoria (feminina negra), o ponto de vista (o olhar da mulher negra

74
acerca da história), e uma linguagem que não deprecia, menospreza ou ignora
a população brasileira afrodescendente.

75
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta dissertação discutiu-se o fenômeno do deslocamento no romance


Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves (2017), analisando-se desde a
mobilidade física da personagem Kehinde, aos deslocamentos existentes na
relação entre a história e a ficção. A autora do romance, ao escrever sobre a
escravidão brasileira, coloca uma personagem negra no centro da narrativa,
conferindo-lhe um protagonismo poucas vezes visto na história literária
brasileira.
A escravidão é representada em vários aspectos na trajetória da
protagonista: o aprisionamento na África, a viagem no navio negreiro, o
desembarque em terras brasileiras, a venda no mercado, a dura realidade no
engenho e a vida na cidade grande em meio a centenas de outros cativos
trabalhando nas ruas. As lutas pela sobrevivência e pela liberdade ganham
espaço nesse contexto, considerando-se as enormes dificuldades impostas
pelo sistema escravista.
Observa-se, assim, um forte diálogo da obra com as demandas
sociais da atualidade, principalmente por conta de o romance em questão
representar, no plano ficcional, a luta de uma mulher negra pela
sobrevivência, liberdade, educação e criação de seus filhos. Na obra de
Gonçalves, as personagens negras são dotadas de beleza, inteligência,
força de vontade, criatividade, bem como outras características que lhe
foram negadas pelo cânone literário brasileiro.
Um exemplo a ser considerado é o grande amor que Kehinde demonstra
por seus filhos, já que até a maternidade foi praticamente negada à mulher
negra pela literatura consagrada. Conceição Evaristo (2009, p. 23), no artigo
“Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade”, salienta a recorrente
associação da mulher negra à força de trabalho, demonstrando que resquícios
da escravidão ainda lhe negavam a imagem de mulher-mãe.
Passados dez anos da publicação desse texto de Evaristo, percebe-se a
importância de uma obra que coloca em destaque a busca de uma mãe por um
filho que fora vendido como escravo pelo próprio pai, homem branco. Esse
romance, assim, ao revisitar o passado, acaba confrontando não apenas
paradigmas literários consagrados, como também historiográficos.

76
Gilberto Freyre, em Casa-grande e senzala, por exemplo, indica a forte
marca do negro na sociedade brasileira em praticamente todos os aspectos.
Mas chama a atenção à vinculação exacerbada do negro à sexualidade: “Da
[mulata] que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama-de-
vento, a primeira sensação completa de homem. Do moleque que foi nosso
primeiro companheiro de brinquedo [...]” (FREYRE, 2003, p. 367).
Considerado um dos maiores clássicos da historiografia brasileira, Casa-
grande e senzala não perdeu o seu vigor, ainda que tenha sido publicado nos
anos 1930, já que o debate acerca da obra acabou reverberando fora do ambiente
acadêmico. O denominado mito da “democracia racial”, surgido nos anos que se
seguiram a sua publicação, transmite a ideia de que a escravidão brasileira foi
mais branda que em outros lugares mundo afora, colaborando para a formação do
povo brasileiro pela miscigenação dos elementos indígena, europeu e africano,
construindo, assim, um país “livre” de racismo.
No entanto, mesmo compreendendo a miscigenação de maneira positiva
para a constituição do povo brasileiro, a análise de Freyre parece não
considerar os impactos nefastos da escravidão na formação da família
escrava/negra e na sua descendência. É aí que a literatura cumpre um papel
importante ao demonstrar a escravidão do ponto de vista de quem mais sofreu
com o colonialismo português: a mulher negra.
Na colônia brasileira, elas foram vítimas de todas as formas de violência,
principalmente as de cunho sexual. O romance de Ana Maria Gonçalves
consegue representar esses aspectos sombrios do processo miscigenador, em
uma narrativa que questiona não apenas o passado, mas também o tempo
presente, expondo diversos problemas enfrentados pela população
afrodescendente na história brasileira, como o racismo e a falta de
representatividade dos negros em diversas instâncias políticas e socioculturais.
Observa-se que a característica de testemunho é típica da escrita pós-
colonial, bem como dos escritores de um campo literário bem específico: a
literatura afro-brasileira. O romance de Ana Maria Gonçalves, dessa forma, por
tratar-se de uma obra com características de resistência, que vai de encontro
às instâncias canônicas ao propor uma reflexão crítica acerca da história dita
“oficial”, pode ser incluído nessas categorias.

77
No que diz respeito à literatura afro-brasileira, mote desta dissertação, o
romance de Ana Maria Gonçalves consegue apresentar as cinco
características propostas por Eduardo de Assis Duarte para a composição
desse específico ramo da literatura brasileira: a autoria, a temática, o ponto de
vista, a linguagem e o público. Salienta-se que isso não retira Gonçalves das
outras perspectivas acerca da composição de um campo específico para
escritores negros, mas a abordagem de Duarte (2008) parece ser a mais
completa e abrangente acerca dessa questão, motivo pelo qual se optou por
essa proposta teórico-metodológica.
No que diz respeito à relação entre a história e a ficção, percebe-se
que a abordagem de Gonçalves buscou humanizar a personagem histórico-
mitológica Luiza Mahin ao fazer de Kehinde sua contraparte ficcional, uma
personagem cheia de virtudes e defeitos. Prova disso é que o mito de
heroína libertária, atribuído a Mahin, não condiz com uma pessoa que
investe no comércio de armas, colaborando, ainda que indiretamente, para
escravização de irmãos de cor.
Os deslocamentos de Kehinde ratificam a ideia de que a mobilidade era
essencial para a mulher e o homem negro sobrevivessem no Brasil oitocentista,
constituindo-se como forte elemento de resistência que ajudava na diminuição ou
enfraquecimento do “defeito de cor” que carregavam. Esse “defeito”, contudo, não
poderia ser superado na sociedade racista, pois mesmo adentrando nos espaços
frequentados hegemonicamente pelos brancos, os negros e/ou afrodescendentes
sofriam (e sofrem) com as marcas deixadas pela escravidão.
Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, dessa maneira, apresenta
nuances que ainda precisam ser exploradas pelos estudos literários. Ao
contemplar a temática dos deslocamentos, sejam eles físicos ou identitários,
espera-se ter contribuído para o debate acerca da literatura afro-brasileira, bem
como para a fortuna crítica do corpus em análise.
A pertinência da obra de Gonçalves em meio ao atual cenário político-
social brasileiro demonstra que a saga de Kehinde representa,
metaforicamente, a vida de muitas mulheres negras do nosso país. Os
escravizados de antes são os que hoje continuam exaustivamente lutando pelo
pão de cada dia. A segregação racial continua refletindo-se na falta de
representatividade dos negros em lugares e instituições dominados pela

78
presença branca, mais de 130 anos após a abolição da escravidão. O exemplo
de Um defeito de cor é demonstrativo do papel da literatura afro-brasileira:
denunciar as injustiças sociais. A presença das mulheres negras e dos homens
negros não pode ser mais ignorada, seus direitos não lhe podem ser negados,
sua escrita merece ser lida e sua voz deve ecoar cada vez mais.

Brasil, meu nego


Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra
[...]
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês.

[Versos do samba-enredo da Mangueira 2019:


“História para ninar gente grande”]

Autores: Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mamá,


Márcio Bola, Ronie Oliveira, Danilo Firmino

Intérprete: Marquinhos Art’Samba

79
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