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PARA ALÉM DO CONCEITO: O PARADOXO DA DEMOCRACIA E A

ANESTESIA DA MENTIRA

Beatriz Rodrigues Soares¹

¹Artista visual, graduanda em Ciências Sociais, UFRPE, Recife-PE, beabiasoares@gmail.com

RESUMO: Este artigo discorre sobre o paradoxo da democracia, anunciado por


muitos, mas especificamente trata da crítica de Karl Marx à resolução
encontrada em Hegel. Avalia o que significa o termo nas sociedades modernas
e contemporâneas e a sua inviabilidade conceitual premeditada, trazendo à
tona alguns pensamentos de Benjamin Franklin, Robert A. Dahl, e do povo
Yanomami.

PALAVRAS-CHAVE: DEMOCRACIA. PARADOXO. POLÍTICA. FILOSOFIA.


COMUNIDADE.

ABSTRACT: This article discusses the paradox of democracy, announced by


many, but specifically deals with Karl Marx's critique on the resolution found in
Hegel. It assesses what the term means for modern and contemporary societies
and its premeditated conceptual unfeasibility, bringing to light some Benjamin
Constant, Robert A. Dahl and Yanomami people’s thinkings.

KEY WORDS: DEMOCRACY. PARADOX. POLITICS. PHILOSOPHY.


COMUNIDADE.

INTRODUÇÃO

Como sabemos, uma tradição europeia e (infortunadamente chamada


de) Ocidental descobriu seus pilares conceituais como “herdados” do que se
convencionou chamar Grécia Antiga e sua produção filosófica. À época, tal
“redescoberta” se configurou num movimento posteriormente chamado de
Renascimento. Historicamente, temos, nessa tradição e, seguido desse
movimento, o “Iluminismo” e a Revolução Francesa, constituídos como o auge
teórico e revolucionário da Liberdade, Igualdade e Fraternidade: figuras
centrais da nova cultura política, quase sempre personificadas na própria figura
da Democracia.
Nasce daí um princípio básico para todo Estado que “preza pela
liberdade”. Ele será utilizado quase inquestionavelmente pela grande maioria
das Nações a partir de então.

Todo esse arsenal ideológico foi baseado e influenciado, inicialmente,


por aqueles antigos escritos. Mas o que fica de um termo destituído de seu
conceito inicial? Ou ainda, o que fica de um termo cujo conceito inicial nunca foi
reaplicável em nenhum outro contexto, seja por questões culturais, políticas ou
históricas, mas que ainda assim é utilizado como modelo padrão a se seguir e
defender?

Seguir e defender o quê, exatamente?

DA IMPLICABILIDADE

Já em 1819 alertava para sua comunidade o franco-suíço Benjamin


Constant que a Liberdade para os antigos gregos não podia ser a mesma
Liberdade aclamada pelos europeus modernos. Disse ele que

(...) a confusão destas duas espécies de liberdade foi, entre nós,


durante épocas por demais conhecidas de nossa revolução, a causa de
muitos males. (...) esse governo (o representativo), o único sob o qual
podemos hoje encontrar alguma liberdade e tranquilidade, foi
inteiramente desconhecido para as nações livres da antiguidade.
(CONSTANT, B. 1985 [1819])

O autor e ativista político se deteve então a explicar em quê consistiam


essas diferenças político-culturais. Diferenças que, segundo ele, durante muito
tempo foram alvo de “confusão”.

Podemos dizer que temos aí um início de uma percepção de


incompatibilidade, ou de uma necessidade de recontextualização dos conceitos
encontrados nos escritos antigos para uma realidade atual. Apesar dessa
compreensão poder ser estendida ao conceito da Democracia, o autor se
conteve neste caso em diferenciar dois conceitos de Liberdade, ilustrando um
amadurecimento filosófico de um “Estado moderno” do qual fazia
historicamente parte.

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Posteriormente, em 1844, Karl Marx, na sua Crítica da filosofia do direito
de Hegel, debruça-se diretamente sobre o problema da Democracia, quando
confronta a dialética idealista, na qual o seu mestre teria que: a solução da
dicotomia entre sociedade civil e Estado é a mediação (POGREBINSCHI,
2006).

Essas duas entidades ou personagens capitais se constituem na


dicotomia base dos Estados modernos, erguida em viés de, por um lado,
superar os absolutismos (essa antiga ameaça que assombra as sociedades
como um fantasma vivo do passado feudal, monárquico ou ditatorial) e, por
outro, como aquilo que conciliará este novo e central personagem político: o
sujeito. Não mais apenas o “cidadão” que vive na cidade e tem direito sobre
ela, mas o sujeito fruto da subjetividade e da individualidade próprias da
modernidade “ocidental”.

A solução geral encontrada então, e também defendida por Hegel, para


unir politicamente essas distintas instituições (a sociedade civil e o Estado), e
que se tornou algo como uma resposta definitiva, foi a mediação, ou seja, a
representação.

DO PARADOXO (APONTADO POR MARX)

Marx aponta, porém, ao criticar tal solução à essa dicotomia, que

Extremos reais não podem ser mediados precisamente porque são


extremos reais. Nem precisam eles de mediação, porque são
totalmente opostos. Eles não têm nada em comum um com o outro,
não têm necessidade um do outro, não se complementam um ao outro.
(MARX apud POGREBINSCHI, 2006; grifo meu.)

A constatação da sociedade civil e do Estado como “extremos reais” os


colocaria então numa posição impossível de mediação, uma vez que, como
disse Pogrebinschi, em O enigma da democracia em Marx, “extremos reais não
são mediáveis. Em suas essências opostas, os extremos reais não podem
existir um pelo outro, não podem se completar”.

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Ora, se a utilização da democracia como o sistema de mediação que
solucionaria um problema o qual ele mesmo não pode solucionar é o que se
tem como convenção inquestionável, então temos uma solução paradoxal.

(...) todas as formas de Estado têm a democracia como sua verdade e


por esta razão elas são falsas, na medida em que não são a
democracia. (Idem)

Por um lado, existe um problema conceitual: a Democracia tal qual o


Renascimento e Iluminismo europeus trouxeram à tona, e que posteriormente
foi associada aos conceitos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, não
condiz nem com 1) a realidade da qual ela inicialmente surgiu 2) as realidades
às quais ela foi aplicada nem 3) as realidades que até hoje a sustentam.

Como é sabido, a democracia encontrada durante certo período em


Athenas, que é a origem do conceito e que até hoje habita o imaginário do
senso comum como grande referência, era extremamente restrita e elitista.
Tal cenário não reflete ou não condiz com os ideais defendidos pela Revolução
Francesa (da Igualdade) e a democratização ocidental/ocidentalizada que a ela
adere. São os países que adotaram e até hoje adotam um sistema político-
eleitoral democrático como o próprio sinônimo de uma participação de “todos”.

ADENTRANDO AO PROBLEMA TERMO VERSUS CONCEITO


VERSUS APLICABILIDADE

A introdução e elaboração teórica do termo Poliarquia por Robert A. Dahl


ilustra um escape a essa armadilha conceitual. Segundo o autor, em Poliarquia:
participação e oposição,

O problema terminológico é formidável pois parece impossível


encontrar termos já em uso que não tragam consigo uma grande carga
de ambiguidade e de significado suplementar. (...) é importante manter
a distinção entre democracia como um sistema ideal e os arranjos
institucionais que devem ser considerados como uma espécie de
aproximação imperfeita de um ideal, e a experiência mostra, acredito,
que, quando o mesmo termo é usado para ambos, intrometem-se, na
análise, uma confusão desnecessária e discussões semânticas
essencialmente irrelevantes. (DAHL, Robert A. 1972)

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Seria essa “confusão” a qual Dahl se refere a mesma sentida por
Benjamin Constant, um século e meio antes?

Dahl traz uma importante constatação semântica ao evocar “o problema


terminológico” sofrido pela Democracia. Ao assumir que o termo faz referência
a um ideal, ou seja, uma ideia que a rigor e efetivamente não existe na
realidade sócio-política, ele nos traz mais uma vez um ponto de vista que é
sistematicamente ignorado pelo senso comum, parecendo confirmar o que,
segundo Pogrebinschi, Marx já defendia: que a democracia não pode se
realizar verdadeiramente no Estado moderno (POGREBINSCHI, 2006).

DA MENTIRA COMO REALIDADE (O SEGUNDO PARADOXO)

Podemos dizer que uma percepção geral das sociedades


contemporâneas democratizadas é de que a Democracia é uma conquista e,
como tal, deve ser preservada.

Mas conquista de quem? E preservada contra quem?

Nos últimos anos, no Brasil, temos vivenciado ataques ao sistema


político estabelecido. Ataques, golpes, escândalos e corrupções, porém,
sempre existiram, abafados pela mídia ou não, mas sempre sob as asas de um
sistema tido como democrático.

O que aconteceu, porém, dessa vez, foi algo que alterou um status
definido no campo das eleições diretas, e só então viu-se surgir uma
percepção generalizada (ao menos para uma boa parte da população) de que
a Democracia estaria ameaçada.

O início de A democracia na encruzilhada, texto de Luis Felipe Miguel


que integra a coletânea Por que gritamos golpe?, publicação que tem como
viés ideológico a defesa a essa democracia ameaçada, parece um bom
exemplo dessa percepção:

O golpe de 2016 marca uma fratura irremediável no experimento


democrático iniciado no Brasil em 1985. Ainda que com limitações e
contradições, a ordem balizada pela Constituição de 1988 garantia a
vigência das instituições mínimas da democracia liberal: o voto popular

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como meio necessário para a obtenção do poder político e o império da
lei. (JINKINGS, I; DORIA, K; CLETO, M [orgs.] 2016, pg 31; grifo meu.)

No mesmo livro, porém, essa visão (de que a democracia no Brasil é uma
conquista a ser recuperada) divide espaço, páginas seguintes, com outra. A de
que, na verdade,

Se observarmos a história mundial nos últimos dois séculos, o que


predomina é o Estado de exceção. A democracia é que foi excepcional.
De uma forma ou de outra, fica claro que ela é um peso grande para o
Estado, para as classes dominantes e para o capital financeiro. A
democracia atrapalha, ela não facilita o trabalho da política capitalista.
(Michael Löwy, Coleção Tinta Vermelha. 2016, pg 61)

Ora, por um lado temos uma instituição que deve ser defendida por servir
ao “império da lei”. Por outro, temos que, na verdade, mesmo estando
legalmente instituída, a democracia é alvo de tantas arbitrariedades que sua
integridade só existe mesmo em raros momentos.

Vemos de volta à tona a problematização já apontada por Marx. Se para


ele Estado e Democracia não coexistem, logo “Democracia liberal” e “Estado
democrático” não passariam de falsos conceitos; expressões inválidas.

Essa contradição, presente no senso comum que defende a Democracia


como o sistema político ideal, sinônimo de igualdade e de liberdade, e pré-
requisito de qualquer Estado que se diga “justo”, parece indicar algo que
funciona como uma anestesia.

Ao simplificar a forma de pensar o todo político, reduzir o sistema da


representação ao sistema de voto, e acreditar que assim o povo é soberano e
representado, ainda que conscientemente se saiba que não o é, parece que se
está tapando o sol com uma peneira de conceitos que na prática só tendem a
servir à própria manutenção do poder.

POSSÍVEIS SAÍDAS E CONSIDERAÇÕES FINAIS

Praticamente toda a teoria de Estado trabalhada até agora pela ciência


política, e cujo os autores aqui mencionados são frutos diretos, tem como
objeto o Estado Moderno e suas peças básicas: distinção entre a classe (elite)

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política e a sociedade civil, capital privado e público, o conceito de soberania
nacional, o sistema de representação, o sistema de eleição, o capital privado e
o capital público, os três poderes, etc.

Novas formas de pensar todos esses elementos e suas funções, cada


vez mais ofuscadas por fatores como a política internacional, as multinacionais,
os territórios virtuais, e tantos outros que fazem acreditar que a única soberania
real é a do capital globalizado, se veem cada vez mais necessárias.

Falar em capital globalizado como aquilo que efetivamente regula as


políticas internas dos países acarreta uma mudança de paradigma que já
transformou e transforma essas economias e políticas, mas que ainda não
atingiu a percepção coletiva a ponto de se buscar novas formas de vê-las,
entende-las e regulá-las.

Seria a formulação de um novo pensamento acerca de um Estado pós-


moderno, ou, ainda, de um pós-Estado, uma possível saída a essas já
insuficientes encruzilhadas teóricas?

Karl Marx, em Crítica da filosofia do direito de Hegel, sugere que a


comunidade é a resolução da contradição do problema da mediação.

Apenas o sentimento próprio dos homens, sua liberdade, pode fazer a


sociedade novamente um dia tornar-se uma comunidade na qual os
homens possam realizar seus objetivos mais elevados (...) (MARX
apud POGREBINSCHI, 2006)

Que comunidade pode ser pensada a partir de uma perspectiva do


Brasil? Difícil é não responder a essa pergunta com comunidades indígenas.

Ao meu ver, são estas que, como numa metonímia do ser e estar fora do
sistema hegemônico, trazem percepções que podem tirar o pensamento
político ocidental(izado) do abismo conceitual e das entranhas processuais que
mantêm o status-quo sob a máscara da Liberdade e Igualdade, ingenuamente
“asseguradas” por tais sistemas de mediação “democráticos”.

(...) O xamã yanomami (...) não dissocia a sina de seu povo da do


restante da humanidade. Não são apenas os índios, mas também os
brancos, que estão ameaçados pela cobiça de ouro e pelas epidemias

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introduzidas por estes últimos. Todos serão arrastados pela mesma
catástrofe, a não ser que se compreenda que o respeito pelo outro é a
condição de sobrevivência de cada um. (LÉVI-STRAUSS apud
KOPENAWA, D; BRUCE, A. 2010)

REFERÊNCIAS

POGREBINSCHI, Thamy. O enigma da democracia em Marx. RBCS Vol. 22


no. 63, 2007.

CONSTANT, Benjamin. Da liberdade dos antigos comparada à dos modernos.


Revista Filosofia Política no. 2, 1985.

DAHL, Robert A. Poliarquia – participação e oposição. São Paulo: Edusp, 2005.

JINKINGS, I; DORIA, K; CLETO, M [orgs.]. Por que gritamos golpe? São Paulo:
Boitempo Editorial, 2016.

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu. São Paulo: Companhia


das Letras, 2010.