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Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Leia a lei: arts. 1.009 a 1.044 do novo CPC.

1. APELAÇÃO

Da sentença cabe apelação (art. 1.009, caput). Não importa o conteúdo da sentença, não
importa se a extinção da causa se dá sem mérito (art. 485) ou com mérito (art. 487), em qualquer
hipótese o recurso cabível será a apelação. Frise-se: ainda quando questões impugnáveis por agravo
de instrumento (rol do art. 1.015) sejam decididas na sentença, o recurso cabível será a apelação
(art. 1.009, §3°). Todo o conteúdo da sentença deverá ser atacado por apelação.

Todavia, o novo CPC ampliou o objeto da apelação, que passa a caber também contra as
decisões interlocutórias não agraváveis proferidas na fase de conhecimento. Em outros termos, é na
apelação que o recorrente impugnará as decisões interlocutórias que lhe foram prejudiciais ao longo
da fase de conhecimento, mas que não puderam ser objeto de agravo de instrumento por estarem
fora do rol do art. 1.015 do CPC. Assim, as decisões interlocutórias não agraváveis serão impugnadas
em preliminar (=questão prévia) de apelação. Conforme dispõe o art. 1.009, §1°:

§ 1o As questões resolvidas na fase de conhecimento, se a decisão a seu respeito não comportar


agravo de instrumento, não são cobertas pela preclusão e devem ser suscitadas em preliminar de
apelação, eventualmente interposta contra a decisão final, ou nas contrarrazões. 1

A apelação, portanto, passa a ter dois possíveis objetos: i) atacar a sentença; ii) atacar as
decisões interlocutórias proferidas ao longo da fase de conhecimento cujo objeto não esteja previsto
no rol do art. 1.015 do CPC.

Perceba-se desde logo uma nuance: não há preclusão para impugnação de decisão
interlocutória não agravável enquanto não for possível o manejo da apelação. É que
independentemente do seu objeto, a apelação será interposta sempre depois de proferida a
sentença. Somente haverá preclusão quanto a este tipo de decisão (=fora do rol do art. 1.015) se
não for atacada em sede de apelação.

Toda decisão de primeiro grau é recorrível. Se não for por agravo de instrumento, será por
apelação.

Assim, a apelação pode abarcar capítulos diversos, um impugnando as decisões


interlocutórias não agraváveis, apresentado como questão prévia; outro impugnando a sentença,
apresentado como questão principal. Será possível que haja cumulação de demandas recursais
(contra as interlocutórias e a sentença) ou que o recurso ataque somente um ou outro tipo de decisão
(contra as interlocutórias ou a sentença, apenas).
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1.1. O RECURSO SUBORDINADO OU DEPENDENTE

O novo CPC inaugurou uma espécie recursal subordinada ou dependente. Trata-se de um


instituto novo, e que merece cuidados. Como dissemos, as decisões interlocutórias não agraváveis
serão impugnadas em sede preliminar de apelação. Todavia, é possível que a parte sofra uma
decisão interlocutória contra si e, ao fim, reste vencedora na demanda.

Imagine-se a situação em que o autor requer a produção de determinada prova. O magistrado


rejeita o pedido. Estamos diante, pois, de uma decisão interlocutória proferida na fase de
conhecimento e não abarcada como hipótese de agravo de instrumento (fora do rol do art. 1.015),
devendo ser impugnada em sede de apelação. Nada obstante, mesmo sem a prova requerida, o
pedido é julgado procedente, restando vitorioso o autor. Nesse caso, não haverá interesse recursal
para a apelação.

O réu, derrotado, poderá apelar. Manejado o recurso, o autor será intimado para apresentar
contrarrazões em 15 dias (art. 1.010, §1°). O novo CPC permite que o autor (=vencedor) em suas
contrarrazões: i) combata o recurso da parte contrária e, cumulativamente, ii) recorra da decisão
interlocutória que lhe foi desfavorável. É o que se extrai da parte final do art. 1.009, §1°.
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Esta previsão se fundamenta no seguinte: se o tribunal der provimento à apelação do
derrotado, é preciso dar ao vencedor a chance de discutir e reverter a decisão interlocutória a si
desfavorável. Não houvesse a previsão deste recurso em contrarrazões, o vencedor estaria
totalmente desprotegido em face da decisão anterior que lhe foi desfavorável: não poderia ter
agravado e não poderia ter apelado, pois sagrou-se vencedor na sentença.

Por isso o vencedor, nas contrarrazões, deve recorrer da decisão interlocutória desfavorável.
No nosso exemplo, o autor deverá recorrer da decisão que rejeitou a produção de provas. Se as
decisões interlocutórias não agraváveis forem suscitadas em contrarrazões, o recorrente será
intimado para, em 15 (quinze) dias, manifestar-se a respeito delas (§ 2º do art. 1.009).

Isso tudo quer dizer que o novo CPC permite veicular uma demanda recursal em sede de
contrarrazões para atacar uma decisão interlocutória não agravável. Esse recurso será
subordinado ou dependente e condicionado.

É recurso subordinado ou dependente porque a sua sorte depende de como for julgado o
recurso principal. O regime é bastante semelhante ao do recurso adesivo, conforme estudado no
capítulo anterior, incidindo aqui o art. 997. Assim, se o recorrente desistir da apelação, o recurso
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contido nas contrarrazões não será conhecido; se a própria apelação não for conhecida, o recurso
contido nas contrarrazões terá o mesmo fim.

O conhecimento do recurso veiculado nas contrarrazões depende ou se subordina ao próprio


conhecimento e provimento do recurso principal. A inversão da sucumbência é uma condição
necessária. Perceba-se: quando o vencedor recorre em contrarrazões, o seu interesse recursal não
existe. Por isso, o seu pleito surge válido e ineficaz. A sua demanda recursal depende, para ser
conhecida, que haja interesse, ou seja, que a sentença tenha sido reformada em razão do provimento
da apelação interposta pela parte derrotada.

1.2. EFEITOS DA APELAÇÃO

A apelação possui, em regra, efeito suspensivo e devolutivo. Os arts. 1.012 e 1.013


regulam o tema. Vejamos.

1.2.1. Efeito suspensivo

A regra, como se disse, é que a apelação seja recebida com efeito suspensivo, ou seja,
que a sentença não comece a produzir efeitos imediatamente após sua prolação. Apesar disso, o
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§1° do art. 1.012 traz um rol de exceções, hipóteses em que o cumprimento provisório da sentença
poderá ser iniciado desde logo. Vejamos:

§ 1o Além de outras hipóteses previstas em lei, começa a produzir efeitos imediatamente após a sua
publicação a sentença que:

I - homologa divisão ou demarcação de terras;

II - condena a pagar alimentos;

III - extingue sem resolução do mérito ou julga improcedentes os embargos do executado;

IV - julga procedente o pedido de instituição de arbitragem;

V - confirma, concede ou revoga tutela provisória;

VI - decreta a interdição.

Em todas estas hipóteses, e também naquelas previstas em lei esparsa, a apelação não terá
efeito suspensivo. O apelado poderá, então, promover o pedido de cumprimento provisório depois
de publicada a sentença (§2°).

É preciso atentar ao inciso V do §1°. O novo CPC fala em confirmar, conceder ou revogar
tutela provisória. O legislador quer dizer o seguinte: naquilo que refere às tutelas provisórias, a
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sentença produzirá efeitos desde logo. Não importa se a tutela provisória (cautelar ou antecipada; de
urgência ou evidência) já havia sido concedida e foi apenas confirmada, se foi concedida no bojo
mesmo da sentença, ou se houve revogação, este capítulo específico não terá sua eficácia
suspensa pelo manejo da apelação. As tutelas concedidas ou confirmadas podem ser executadas
desde logo; a tutela revogada perde os efeitos.

Assim, o capítulo de sentença que confirma, concede ou revoga a tutela provisória é


impugnável na apelação (art. 1.013, §5°), conquanto não dotada de efeito suspensivo.

Por outro lado, em quaisquer das hipóteses previstas no art. 1.012, §1°, admite-se a
concessão de efeito suspensivo pelo Relator da causa no tribunal. Veja-se o §4° do mesmo
artigo:

§ 4o Nas hipóteses do § 1o, a eficácia da sentença poderá ser suspensa pelo relator se o apelante
demonstrar a probabilidade de provimento do recurso ou se, sendo relevante a fundamentação, houver
risco de dano grave ou de difícil reparação.

Assim, caso o apelante demonstre (i) a probabilidade de provimento do recurso ou (ii)


relevância da fundamentação e risco de dano grave ou de difícil reparação, a eficácia da sentença
poderá ser suspensa pelo Relator. Há, pois, possibilidade de concessão de tutela provisória de 4
evidência (i) ou de urgência (ii) em sede de recurso. O pedido de concessão de efeito suspensivo à
apelação é exatamente isso: pedido de concessão de tutela provisória recursal.

Este requerimento será sempre feito diretamente ao tribunal em petição simples, jamais
ao juiz que sentenciou. É que o juízo de admissibilidade da apelação é feito pelo próprio tribunal,
enquanto o juiz a quo somente processa o recurso e as contrarrazões, remetendo-os ao órgão ad
quem. Por isso, a competência para apreciar o pedido de suspensão é do próprio Relator, no tribunal.

Conforme dispõe o §3° do art. 1.012, o pedido de concessão de efeito suspensivo poderá ser
formulado por requerimento dirigido ao: i) tribunal, no período compreendido entre a interposição da
apelação e sua distribuição, ficando o relator designado para seu exame prevento para julgá-la; ii)
relator, se já distribuída a apelação.

1.2.2. Efeito devolutivo

A apelação devolverá ao tribunal o conhecimento da matéria impugnada (art. 1.013, caput).


Noutras palavras, caberá ao tribunal rever a sentença, para mantê-la ou altera-la, dentro dos limites
da matéria impugnada na apelação. O efeito devolutivo pode ser visto em duas dimensões:
horizontal e vertical.
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A dimensão horizontal do efeito devolutivo, também conhecida como extensão do efeito


devolutivo, reflete quais matérias o recurso apresenta ao tribunal para novo julgamento. É a
apelação que determinará quais os capítulos da sentença poderão ser revistos. O Tribunal só poderá
atuar naquilo que tiver sido provocado, ou seja, no objeto da impugnação, nem mais, nem menos.
Quem determina a extensão do efeito devolutivo é o recorrente.

A dimensão vertical do efeito devolutivo, também conhecida como profundidade do efeito


devolutivo ou mesmo efeito translativo, se refere aos fundamentos que poderão ser debatidos e
construídos pelo tribunal no exame do capítulo impugnado. Não é o recorrente quem o delimita.
Remete-se ao juízo ad quem o conhecimento a respeito de todas as razões e fundamentos relevantes
relativos aos capítulos da decisão que forem impugnados.

O órgão competente para julgar o recurso poderá conhecer: i) de todas as questões


suscitadas no processo relativas ao capítulo impugnado; ii) de todas as questões de ordem pública
relativas ao capítulo impugnado.

As dimensões do efeito devolutivo, quanto à apelação, são extraídas dos §§1° e 2° do art.
1.013:
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§ 1o Serão, porém, objeto de apreciação e julgamento pelo tribunal todas as questões suscitadas e
discutidas no processo, ainda que não tenham sido solucionadas, desde que relativas ao capítulo
impugnado.

§ 2o Quando o pedido ou a defesa tiver mais de um fundamento e o juiz acolher apenas um deles, a
apelação devolverá ao tribunal o conhecimento dos demais.

Relativamente aos capítulos não impugnados haverá trânsito em julgado. Os dispositivos


acima colacionados confirmam a lição de que a extensão limita a profundidade, ou seja, a cognição
vertical na apelação é máxima posto que limitada dentre as matérias impugnadas no recurso.

1.2.3. Efeito regressivo

Há alguns recursos que permitem retratação do juiz que proferiu a decisão. Essa possibilidade
de retratação é o que se chama de efeito regressivo. A apelação, em regra, não possui esse efeito.

Há, excepcionalmente, duas hipóteses de apelação no novo CPC com efeito regressivo.
Tratam-se das apelações interpostas (i) contra a decisão que indefere a petição inicial (art. 331,
caput) e (ii) contra a decisão que julga liminarmente improcedente o pedido (art. 332, §3°).

1.3. PROCEDIMENTO
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O processamento da apelação no tribunal é relativamente simples. A petição de interposição,


dirigida ao juiz se primeiro grau, deverá conter os elementos da demanda recursal: partes, causa de
pedir e pedido. As partes do processo devem ser qualificadas. Esta qualificação é importante,
mormente porque ao longo do procedimento é possível que haja ocorrido alteração subjetiva na
demanda, com a exclusão ou acréscimo de sujeitos no processo.

Exemplo

Como ocorre com as intervenções de terceiro ou mesmo com a exclusão de parte por
ilegitimidade.

Além disso, o recorrente deve afirmar os fatos e os fundamentos de sua demanda recursal,
apontando a necessidade de reforma do entendimento consignado na sentença ou a decretação de
invalidade da decisão impugnada. Ao fim, deverá apresentar pedido de novo julgamento.

Conforme o art. 1.010, caput do CPC, a apelação, interposta por petição dirigida ao juízo de
primeiro grau, conterá: i) os nomes e a qualificação das partes; ii) a exposição do fato e do direito; iii)
as razões do pedido de reforma ou de decretação de nulidade; iv) o pedido de nova decisão.

Ao receber a petição inicial, o juiz de piso não exercerá qualquer juízo a respeito. O juízo
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prévio de admissibilidade foi expressamente excluído do novo CPC. Assim, caberá ao magistrado
somente intimar o apelado para apresentar contrarrazões no prazo de 15 (quinze) dias (§1°).

POSIÇÃO DO FPPC

Enunciado n° 99 do FPPC: “O órgão a quo não fará juízo de admissibilidade da apelação.”

Enunciado n° 207 do FPPC: “Cabe reclamação, por usurpação da competência do tribunal de justiça
ou tribunal regional federal, contra a decisão de juiz de 1º grau que inadmitir recurso de apelação.”

Caso, além das contrarrazões, o apelado interpuser apelação adesiva, o juiz intimará o
apelante para apresentar contrarrazões (§2°). Após, os autos serão remetidos ao tribunal pelo juiz,
independentemente de juízo de admissibilidade (§3°).

Recebido o recurso de apelação no tribunal, será imediatamente distribuído a um Relator (art.


1.011). O Relator, então, poderá decidir monocraticamente apenas nas hipóteses do art. 932,
incisos III a V. A remissão é ao juízo de admissibilidade do recurso (III) e ao julgamento unipessoal
caso se adeque aos precedentes mencionados nas alíneas dos incisos IV e V do art. 932. Não sendo
o caso de decisão monocrática, o Relator elaborará seu voto para julgamento do recurso pelo órgão
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colegiado. Segue-se, daqui em diante, o procedimento estudado no capítulo referente à ordem dos
processos no tribunal.

No julgamento da apelação, a decisão será tomada, no órgão colegiado, pelo voto de 3 (três)
juízes (art. 941, §2°) componentes da turma ou câmara do tribunal.

1.3.1. Julgamento da causa madura

O CPC consagra a aplicação da teoria da causa madura como técnica de julgamento. Em


certas situações, a apelação não visa reformar a sentença, mas sim meramente desconstituí-la. Não
houvesse a previsão em comento, ao prover a apelação o tribunal deveria remeter o processo de
volta ao primeiro grau, para que o magistrado proferisse nova sentença. Esta prática, todavia,
demandaria uma dilação temporal excessiva no processo.

Por isso, o legislador prevê hipóteses em que o tribunal deverá julgar a causa desde logo,
quando conhecer e prover a apelação. Se a causa estiver madura, o tribunal pode julgá-la nas
hipóteses descritas nos §§3° e 4° do art. 1.013. A causa madura, explique-se, é aquela em condições
de imediato julgamento, ou seja, onde não há mais necessidade de se tomar outras providências ou
promover atos instrutórios além dos que já constam nos autos. É, em termos simples, a causa que 7
está pronta. Vejamos esquematicamente:

§ 3o Se o processo estiver em condições de imediato julgamento, o tribunal


deve decidir desde logo o mérito quando:

O art. 485 consagra as hipóteses de extinção da causa


sem resolução de mérito. Nesse caso, o magistrado não
I - reformar
se debruçou sobre o mérito da causa. Mesmo assim,
sentença fundada
uma vez provida a apelação para reformar a sentença,
no art. 485;
se a causa estiver pronta para o julgamento, o tribunal
poderá avançar e decidir o mérito.

II - decretar a O princípio da congruência impõe que o magistrado se


nulidade da atenha aos limites do pedido e da causa de pedir, ou
sentença por não seja, não pode proferir decisões extra ou ultra petita.
ser ela congruente Sendo o caso, a sentença será nula.
com os limites do Também aqui, dado provimento ao recurso para
pedido ou da causa decretar a invalidade da sentença incongruente, o
de pedir; tribunal deverá avançar ao julgamento.

III - constatar a A decisão citra petita também fere o princípio da


omissão no exame congruência. Dá-se exatamente quando o magistrado
de um dos pedidos, deixa de apreciar um ou mais pedidos.
hipótese em que Apesar do vício, estando a causa pronta para
poderá julgá-lo; julgamento, o tribunal poderá avançar na questão.

IV - decretar a O CPC reforça o dever de fundamentação das decisões


nulidade de judiciais previsto no art. 93, IX da CF. No código, temos
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sentença por falta o art. 489, §1°, que elenca todos os critérios para que
de fundamentação. uma decisão seja considerada fundamentada.
A sentença sem fundamentação adequada e suficiente
é inválida. Mesmo que a sentença não esteja
devidamente fundamentada, o tribunal poderá, após
decretar-lhe a invalidade, passar à apreciação do
mérito. Tudo se a causa estiver madura. Perceba-se,
nessa situação, que o provimento da apelação não
levará necessariamente à alteração da sucumbência
originária. O acórdão pode se limitar a complementar
os fundamentos da sentença, concordando com a
conclusão.

§ 4o Quando reformar sentença que reconheça a decadência ou a


prescrição, o tribunal, se possível, julgará o mérito, examinando as demais
questões, sem determinar o retorno do processo ao juízo de primeiro grau.

Decadência e prescrição são questões prévias prejudiciais. Assim, uma vez


reconhecidas pela sentença, o pedido é julgado improcedente com resolução de
mérito (art. 487, II), ainda que o magistrado não trate, na sentença, do objeto da
causa. Sendo o caso de dar provimento à apelação para reconhecer não ter
havido a decadência ou a prescrição e estando a causa madura, o tribunal deverá
julgar o mérito, examinando as demais questões.
Também aqui o provimento da apelação não levará necessariamente à inversão
da sucumbência. É possível que, mesmo superada a questão prévia, o tribunal
entenda por julgar improcedente o pedido do autor recorrente.

Perceba-se que mesmo nas situações acima analisadas, se a causa não estiver madura, 8
impõe-se o retorno dos autos ao juiz de primeiro grau, que tomará as providências necessárias e
proferirá nova sentença. O tribunal somente poderá avançar ao julgamento da causa que lhe
chegue pronta para julgamento.

1.3.2. Arguição de fatos novos em sede de apelação

Em regra, a apelação não é instância adequada à arguição de questões de fato que poderiam
ter sido debatidas na instância inferior. Todavia, as questões de fato não propostas no juízo inferior
poderão ser suscitadas na apelação, se a parte provar que deixou de fazê-lo por motivo de força
maior (art. 1.014).

Atente-se que o dispositivo apenas autoriza a alegação de questão de fato. Não é possível
ao apelante alterar ou acrescentar nova causa de pedir não abarcada pela demanda originária.

Os fatos novos aqui previstos não são fatos supervenientes. Estes podem ser trazidos em
sede de apelação, por autorização expressa do art. 933 (estudado no capítulo 9). Fatos novos,
abarcados pelo art. 1.014, são aqueles ainda não apreciados pelo Judiciário, no caso, por motivo
de força maior que impediu o recorrente de argui-los anteriormente.

1.4. TÉCNICA DE AMPLIAÇÃO DO COLEGIADO


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A técnica de ampliação do colegiado não está prevista no capítulo dedicado à apelação. Sua
regulação está no art. 942, dentro da ordem dos processos no tribunal. Todavia, a íntima relação do
tema com o recurso de apelação impõe que seja tratado aqui.

Desde já, o leitor deve ficar atento à complexidade do tema, que vem gerando muitos debates
na doutrina e enormes dúvidas na praxe forense. Por isso, nos ocuparemos aqui dos contornos
básicos e induvidosos desta novidade legislativa.

Trata-se de uma técnica de julgamento fundada na necessidade de ampliação do diálogo


processual quando o resultado da apelação for não unânime. Como anotamos há pouco, a apelação
será julgada no tribunal por um órgão fracionário composto de três julgadores (art. 941, §2°). Assim,
o resultado do julgamento pode ser unânime (“3x0”) ou por maioria (“2x1”). O resultado unânime da
apelação afasta sempre a incidência do art. 942; o resultado não unânime da apelação impõe
sempre a incidência do dispositivo.

Art. 942. Quando o resultado da apelação for não unânime, o julgamento terá prosseguimento em
sessão a ser designada com a presença de outros julgadores, que serão convocados nos termos
previamente definidos no regimento interno, em número suficiente para garantir a possibilidade de
inversão do resultado inicial, assegurado às partes e a eventuais terceiros o direito de sustentar
oralmente suas razões perante os novos julgadores. 9
Uma vez verificado o resultado não unânime da apelação, seja pelo provimento ou pelo
desprovimento do recurso, o julgamento deverá ser interrompido para a ampliação do colegiado de
julgamento. Somente após esta ampliação o julgamento prosseguirá em sessão a ser designada com
a presença dos novos julgadores.

Trata-se de técnica impositiva, ato complexo não necessário do procedimento. Diz-se “não
necessário” porque não haverá sempre, mas apenas nas hipóteses previstas no art. 942.

O CPC delega expressamente ao regimento interno dos tribunais regular previamente a forma
como se dará a convocação dos demais magistrados para comporem a formação ampliada do órgão
colegiado. Impõe-se que a convocação seja nos termos previamente definidos no regimento em
respeito ao princípio do juiz natural. A convocação deve se dar em número suficiente para a inversão
do resultado inicial, ou seja, devem ser convocados ao menos dois novos julgadores. A apelação
não unânime é aquela onde se dá um resultado “2x1”; a convocação de mais dois julgadores é que
garante a possibilidade de inversão do julgamento para “2x3”.

A ampliação do colegiado de julgamento permite um reforço no diálogo processual, ampliando


a legitimidade das decisões judiciais ao valorizar a divergência entre os julgadores.
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Apesar de a regra geral ser o prosseguimento do julgamento em nova sessão, o §1° do art.
942 dispõe que, sendo possível, o prosseguimento do julgamento dar-se-á na mesma sessão,
colhendo-se os votos de outros julgadores que porventura componham o órgão colegiado. Esta
possibilidade dependerá da forma como regimento interno regule a convocação de novos julgadores.

Esta previsão deve ser lida em consonância com a parte final do caput, onde se assegura às
partes e a eventuais terceiros o direito de sustentar oralmente suas razões perante os novos
julgadores. Ora, garante-se a sustentação oral não somente em nova sessão de julgamento, mas
também se a ampliação do colegiado se der e o julgamento prosseguir na mesma sessão. Deve ser
garantido ao advogado sustentar suas razões, mesmo que se habilite após o resultado parcial e
antes da ampliação do colegiado, na mesma sessão.

Tendo em vista que o julgamento não se encerra enquanto não houver unanimidade, os
julgadores que já tiverem votado poderão rever seus votos por ocasião do prosseguimento
do julgamento (§2°). Obviamente, os julgadores que de alguma forma se afastarem não poderão
ter os seus votos revistos pelos seus substitutos (art. 941, §1°).

Há ainda destacar outros pontos:


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 A doutrina nega, com tranquilidade, a natureza recursal ao procedimento previsto no
dispositivo em comento. Há diversas razões para tanto, em suma: i) falta-lhe
voluntariedade, pois a técnica é impositiva; ii) não é previsto no rol de recursos do
CPC (princípio da taxatividade); iii) não há sequer uma decisão para se recorrer, pois
verificada a falta de unanimidade o julgamento é interrompido sem que seja lavrado
acórdão.

 Aplica-se a técnica de julgamento ampliado ao Mandado de Segurança, pois o art. 25


da lei 12.106/09 fala em inadmissibilidade dos embargos infringentes, ou seja, um
recurso não mais previsto pelo CPC. Como o art. 942 não prevê um novo recurso,
incide normalmente face ao julgamento da apelação no writ.

1.4.1. Outros casos de aplicação da técnica do colegiado ampliado

O §3° do art. 942 prevê mais dois casos de ampliação do colegiado. Vejamos:

§ 3o A técnica de julgamento prevista neste artigo aplica-se, igualmente, ao julgamento não unânime
proferido em:

I - ação rescisória, quando o resultado for a rescisão da sentença, devendo, nesse caso, seu
prosseguimento ocorrer em órgão de maior composição previsto no regimento interno;
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II - agravo de instrumento, quando houver reforma da decisão que julgar parcialmente o mérito.

Quanto à ação rescisória, só haverá ampliação do colegiado quando o resultado não


unânime for pela rescisão da sentença, ou seja, o resultado parcial da votação deve estar “2x1”
pelo julgamento procedente da demanda rescisória. O julgamento unânime e o julgamento parcial
pela improcedência da ação afastam a incidência do art. 942.

Ainda, a ampliação do colegiado na ação rescisória não se limitará a apenas o número de


julgadores suficientes à inversão do julgamento. O CPC impõe que o julgamento prossiga no órgão
de maior composição previsto no regimento interno, ou seja, perante o órgão especial ou o órgão
plenário. O regimento interno, aqui, não poderá regular de maneira diversa.

No que refere ao agravo de instrumento, somente haverá a ampliação do colegiado quando


o recurso impugnar decisão parcial de mérito, proferida nos termos do art. 356 e, cumulativamente,
o resultado parcial for pela reforma da decisão. Não preenchidos tais requisitos, não se aplica o art.
942. Por exemplo, em sede agravo de instrumento que impugne decisão de desconsideração da
personalidade jurídica (art. 1.015, IV), não haverá ampliação do colegiado; se o agravo de
instrumento interposto contra decisão parcial de mérito tiver resultado não unânime pela manutenção
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da decisão recorrida, também não se aplica o art. 942.

Decisões de inadmissibilidade do recurso ou da rescisória, em ambos os casos, também não


causam a ampliação do colegiado.

1.4.2. Outros casos de não aplicação da técnica do colegiado ampliado

O §4° do art. 942 prevê expressamente que não haverá a aplicação da técnica de ampliação
do colegiado ao julgamento: i) do incidente de assunção de competência e ao de resolução de
demandas repetitivas; ii) da remessa necessária; iii) não unânime proferido, nos tribunais, pelo
plenário ou pela corte especial.

Nas hipóteses consagradas nos incisos I e III, o julgamento já será proferido por um órgão
colegiado de maior composição, como o órgão especial ou o órgão plenário. Logicamente, pois, não
se justifica uma ampliação de um colegiado já bastante amplo.

A hipótese do inciso II segue uma tendência dotada no CPC, especialmente em seu art. 496,
de reduzir as hipóteses de remessa necessária.

2. AGRAVO DE INSTRUMENTO
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O agravo de instrumento é recurso tipicamente vocacionado a impugnar decisões


interlocutórias. Trata-se de um dos recursos que mais sofreu alteração se comparado ao regime
anterior.

Aqueles que estudaram o recurso sob a égide do CPC/73, viram que o agravo de instrumento
seria cabível em face de decisões interlocutórias suscetíveis de causar à parte lesão grave e de difícil
reparação, enquanto o agravo retido caberia contra decisões interlocutórias onde não houvesse o
risco de dano. O agravo retido não encontra previsão no novo CPC. Além disso, a interposição do
agravo de instrumento não mais exige que a decisão impugnada seja apta a causar dano grave
e de difícil reparação. Esta alteração é de suma relevância, pois altera sobremaneira o regime do
agravo de instrumento conforme regulado pelo novo CPC.

Agora, o agravo de instrumento é simplesmente o recurso cabível contra decisões


interlocutórias que versem sobre as matérias previstas no rol do art. 1.015. Sua interposição
independe de qualquer risco de dano grave e de difícil reparação.

Como já pudemos tratar ao estudar o recurso de apelação, o novo CPC prevê decisões
interlocutórias em dois tipos: agraváveis e não agraváveis. As decisões interlocutórias agraváveis
são aquelas constantes do rol do art. 1.015. Contra elas o recurso cabível será o agravo de 12
instrumento. As decisões interlocutórias não agraváveis são todas as demais não incluídas no
rol do art. 1.015. Contra elas o recurso cabível será a apelação.

Se estivermos diante de uma decisão interlocutória agravável, haverá preclusão se o agravo


de instrumento não for interposto, ou seja, a decisão não poderá mais ser revista.

2.1. HIPÓTESES DE CABIMENTO

Uma das grandes novidades promovidas pelo novo CPC no que refere ao agravo de
instrumento foi a previsão de um rol taxativo de hipóteses que admitem a sua interposição. Deve-se
atentar desde logo ao inciso XII, objeto de veto presidencial e por isso não trabalhado abaixo.
Vejamos o rol:

Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias


que versarem sobre:

Havendo decisão interlocutória sobre tutela


provisória, será cabível o agravo. Não importa se a
I - tutelas provisórias; decisão impugnada concede ou nega o pedido; se a
tutela é de urgência ou evidência; cautelar ou
antecipada; antecedente ou incidental.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Qualquer decisão interlocutória de mérito é


impugnável por agravo de instrumento. O novo
II - mérito do processo; CPC previu as decisões parciais de mérito no art.
356 que, em seu §5°, prevê expressamente o
cabimento do agravo de instrumento nesse caso.

É possível trazer em sede preliminar de


contestação a alegação de convenção de
III - rejeição da alegação arbitragem (art. 337, X). Se o magistrado acolhe a
de convenção de alegação, o processo é extinto e a sentença é
arbitragem; atacável por apelação. Por outro lado, a decisão
que rejeita a alegação é interlocutória e agravável,
nos termos previstos no dispositivo em comento.

O incidente de desconsideração da personalidade


jurídica é previsto nos arts. 133 a 137 do CPC como
espécie de intervenção de terceiros. A decisão
IV - incidente de
proferida neste incidente é impugnável por agravo
desconsideração da
de instrumento. Por obvio, se a decisão for
personalidade jurídica;
proferida pelo Relator no tribunal, caberá agravo
interno; se a questão for decidida pelo juiz na
sentença, caberá apelação.

V - rejeição do pedido É agravável a decisão que nega o benefício da


de gratuidade da justiça justiça gratuita, seja para rejeitar o pedido ou para
ou acolhimento do revogar o benefício. A decisão que concede ou
pedido de sua mantém a gratuidade somente poderá ser
revogação; impugnada em sede de apelação.
13
A exibição ou posse de documento ou coisa é uma
VI - exibição ou posse de ação incidental. As decisões proferidas ao longo do
documento ou coisa; procedimento são impugnáveis por agravo de
instrumento.

Esta previsão é importante para superar a dúvida


VII - exclusão de que existia sobre qual o recurso cabível face à
litisconsorte; exclusão do litisconsorte. Com a decisão o processo
não se extingue, sendo hipótese de agravo.

A limitação do litisconsórcio se dá em face dos


chamados litisconsórcios multitudinários. Havendo
VIII - rejeição do pedido
dificuldade no processamento da causa em virtude
de limitação do
do grande número de partes, é possível requerer o
litisconsórcio;
seu desmembramento. Contra a decisão que
rejeita esse pedido caberá agravo de instrumento.

IX - admissão ou O conteúdo do inciso IX complementa o inciso VII.


inadmissão de É que a admissão ou inadmissão de intervenção de
intervenção de terceiros respeita à alteração subjetiva da
terceiros; demanda, assim como a exclusão do litisconsorte.

X - concessão, Este dispositivo é desnecessário. Explique-se: a


modificação ou concessão, modificação ou revogação de efeito
revogação do efeito suspensivo aos embargos à execução nada mais é
suspensivo aos que uma decisão sobre tutela provisória. Ora, o seu
embargos à execução; conteúdo está abarcado no inciso I.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

O art. 373, §1°, versa sobre a dinamização do ônus


XI - redistribuição do
da prova. Uma vez redistribuído, em decisão
ônus da prova nos
interlocutória, o ônus de provar, caberá agravo de
termos do art. 373, § 1o;
instrumento.

O legislador entendeu por bem tornar o rol do art.


XIII - outros casos
1.015 inclusivo. Assim, a lei esparsa poderá definir,
expressamente
expressamente, outros casos de cabimento do
referidos em lei.
agravo de instrumento.

Apesar de encerrar cognição, a decisão que julga


a liquidação finaliza uma fase no procedimento,
Parágrafo adquirindo natureza de decisão interlocutória.
único. Também caberá Além dela, as decisões interlocutórias
agravo de instrumento proferidas na fase de cumprimento de sentença,
contra decisões no processo de execução e no processo de
interlocutórias inventário também são impugnáveis por
proferidas na fase de agravo. Estamos falando, aqui, de quaisquer
liquidação de sentença decisões interlocutórias, independentemente
ou de cumprimento de de seu conteúdo. Não sendo o caso de decisão
sentença, no processo interlocutória proferida nesses procedimentos,
de execução e no não será hipótese de agravo. Atente-se que
processo de inventário. qualquer decisão terminativa, que extinga o
processo, terá natureza de sentença e, por isso,
impugnável por apelação.

14
POSIÇÃO DO FPPC

Enunciado n° 29 do FPPC: “É agravável o pronunciamento judicial que postergar a análise do pedido


de tutela provisória ou condicionar sua apreciação ao pagamento de custas ou a qualquer outra
exigência.”

Enunciado n° 154 do FPPC: “É cabível agravo de instrumento contra ato decisório que indefere
parcialmente a petição inicial ou a reconvenção.”

Enunciado n° 351 do FPPC: “O regime da recorribilidade das interlocutórias do CPC aplica-se ao


procedimento do mandado de segurança.”

Prevalece a compreensão de que o rol acima comentado é taxativo, ainda que haja forte
polêmica doutrinária e jurisprudencial a respeito. A demanda pela relativização do rol das hipóteses
de agravo decorre da constatação prática de que a situação em que não se pode aguardar a sentença
e posterior apelação para impugnar uma decisão interlocutória, sob pena de grave dano à parte. Há
diversos exemplos de situações que podem causar este problema: i) suspensão indevida da causa;
ii) condenação por litigância de má-fé; iii) indeferimento de produção de prova, etc.

Porém, a situação mais grave não prevista no rol do art. 1.015 diz respeito à decisão
interlocutória que acolha ou rejeite a preliminar de incompetência do juízo (art. 337, II). Ora, imagine-
se a situação em que proposta a ação em Recife, o réu seja domiciliado em Macapá. Caso argua a
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

incompetência desde logo, nos termos do art. 340, caberá ao magistrado definir se o juízo
competente para o processamento da causa é o de Recife ou o de Macapá. Em qualquer hipótese,
sendo procedente ou não a arguição, um dos sujeitos terá que verter vultosos valores para
acompanhar o processo em local tão distante de seu domicílio. Não há previsão no rol do art. 1.015
para impugnar esta decisão através de agravo de instrumento.

Esse e diversos outros problemas podem surgir caso não se admita a interposição do agravo
de instrumento contra a decisão interlocutória que defina a competência para processar e julgar a
causa. O caso chegou rapidamente aos tribunais superiores.

Em recente julgado, o Superior Tribunal de Justiça admitiu a interposição de agravo de


instrumento em face de decisão que julga arguição de incompetência. O entendimento foi
consignado no Resp. n° 1.679.909/RS, da relatoria do Ministro Luis Felipe Salomão da Quarta Turma
do STJ. Até o fechamento desta edição o acórdão ainda não havia sido publicado.

2.2. PROCEDIMENTO

O agravo de instrumento, como o próprio nome já diz, forma um instrumento novo, ou seja, é
processado em autos apartados aos da causa onde foi proferida a decisão recorrida. 15
O recurso será dirigido diretamente ao tribunal, por meio de petição autônoma, preenchendo
os requisitos do art. 1.016:

Art. 1.016. O agravo de instrumento será dirigido diretamente ao tribunal competente, por meio de
petição com os seguintes requisitos:

I - os nomes das partes;

II - a exposição do fato e do direito;

III - as razões do pedido de reforma ou de invalidação da decisão e o próprio pedido;

IV - o nome e o endereço completo dos advogados constantes do processo.

Perceba-se que os incisos I a III refletem os elementos da demanda recursal: as partes, a


causa de pedir e o pedido. O inciso IV, todavia, tem uma importante razão de ser: é que o nome e
endereço dos advogados que representam as partes no processo é o que possibilitará a
comunicação dos atos processuais praticados no agravo.

A interposição do recurso poderá ser feita por qualquer forma prevista em lei, exigindo o
pagamento de custas e porte de retorno, conforme tabela publicada pelos tribunais (art. 1.017,
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

§1°). O legislador promove o acesso à justiça, prevendo protocolo tradicional, protocolo integrado ou
por carta, além da interposição por fax.

Nos termos do §2° do art. 1.017 do CPC, no prazo do recurso, o agravo será interposto por:
i) protocolo realizado diretamente no tribunal competente para julgá-lo; ii) protocolo realizado na
própria comarca, seção ou subseção judiciárias; iii) postagem, sob registro, com aviso de
recebimento; iv) transmissão de dados tipo fac-símile, nos termos da lei; v) outra forma prevista em
lei.

O art. 1.017 traz as peças obrigatórias e facultativas que devem instruir a petição do agravo.
Vejamos o caput (onde grifamos):

Art. 1.017. A petição de agravo de instrumento será instruída:

I - obrigatoriamente, com cópias da petição inicial, da contestação, da petição que ensejou a


decisão agravada, da própria decisão agravada, da certidão da respectiva intimação ou outro
documento oficial que comprove a tempestividade e das procurações outorgadas aos
advogados do agravante e do agravado;

II - com declaração de inexistência de qualquer dos documentos referidos no inciso I, feita pelo
advogado do agravante, sob pena de sua responsabilidade pessoal;
16
III - facultativamente, com outras peças que o agravante reputar úteis.

As peças obrigatórias são aquelas que o legislador entendeu indispensáveis à compreensão


da controvérsia pelo tribunal. Em outros termos, sua ausência implica a impossibilidade de adentrar
no mérito recursal em todos os seus termos e, portanto, decidir. As peças facultativas são aquelas
que além das obrigatórias facilitarão o conhecimento da causa pelo órgão julgador no tribunal. Na
prática é muito comum que os advogados, ao interporem o agravo de instrumento juntem uma cópia
integral dos autos.

Recebido o agravo no tribunal, será distribuído imediatamente a um Relator. Recebendo os


articulados, caso o Relator observe a ausência de quaisquer das peças obrigatórias ou no caso de
algum outro vício que comprometa a admissibilidade do agravo de instrumento, deverá conceder
prazo de 5 (cinco) dias ao recorrente para que seja sanado o vício ou complementada a
documentação (art. 1.017, §3° c/c art. 1.019, caput). Somente se o recorrente se quedar inerte é que
o recurso será inadmitido. Trata-se de mais uma regra com base no princípio da primazia do
julgamento de mérito.

A respeito das peças que devem instruir o agravo, duas notas:


Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Se o recurso for interposto por sistema de transmissão de dados tipo fac-símile ou similar, ou
seja, por fax, as peças devem ser juntadas no momento de protocolo da petição original (art. 1.017,
§4°). No momento do envio do fax será necessário somente o envio das razões do recurso.

Utilizado o protocolo por fax, a lei exige que a petição original seja apresentada, junto com
todos os documentos, em até 5 (cinco) dias após o término do prazo (art. 2° da lei n° 9.800/99). Nesta
oportunidade, a parte deverá apresentadar todas as peças obrigatórias e facultativas.

O novo CPC consagra alguns casos de regime procedimental diferenciado para o processo
eletrônico. O Agravo de Instrumento interposto em autos eletrônicos é um exemplo disso,
dispensando-se na hipótese a juntada das peças obrigatórias. Nos termos do art. 1.017, §5°,
sendo eletrônicos os autos do processo (=processo onde a decisão recorrida foi proferida),
dispensam-se as peças referidas nos incisos I e II do caput, facultando-se ao agravante anexar outros
documentos que entender úteis para a compreensão da controvérsia.

Se os autos onde a decisão recorrida foi proferida são eletrônicos, todas as peças são
acessíveis, tornando-se prescindível que sejam novamente juntadas.

Estando em ordem o recurso, o Relator julgará monocraticamente se for caso de aplicação 17


do art. 932, IV, ou seja, poderá proferir julgamento unipessoal para negar provimento ao recurso
caso se adeque aos precedentes ali mencionados.

Não sendo o caso de decisão monocrática, o Relator, no prazo de 5 (cinco) dias (art. 1.019,
capu):

Art. 1.019. Recebido o agravo de instrumento no tribunal e distribuído


imediatamente, se não for o caso de aplicação do art. 932, incisos III e IV, o
relator, no prazo de 5 (cinco) dias:

No agravo de instrumento a tutela provisória


pode servir a dois propósitos:
I - poderá atribuir efeito
i) suspender a eficácia da decisão recorrida,
suspensivo ao recurso ou
quando o agravo se insurgir contra uma
deferir, em antecipação de
decisão concessiva do pedido;
tutela, total ou parcialmente,
ii) conceder o pedido negado pelo juiz
a pretensão recursal,
singular. Tem-se aqui o chamado efeito
comunicando ao juiz sua
suspensivo ativo, que nada mais é do que a
decisão;
concessão de uma medida negada pelo juiz a
quo.

II - ordenará a intimação do A comunicação do agravado se dá,


agravado pessoalmente, por regularmente através do seu advogado
carta com aviso de constituídos nos autos principais, por
recebimento, quando não publicação no diário oficial. Todavia, o inciso
tiver procurador constituído, II do art. 1.019 regula também a hipótese em
ou pelo Diário da Justiça ou que o agravado não tem procurador nos
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

por carta com aviso de autos, caso em que será intimado


recebimento dirigida ao seu pessoalmente.
advogado, para que responda O agravado terá o prazo de 15 dias (mesmo
no prazo de 15 (quinze) dias, prazo de interposição do recurso) para
facultando-lhe juntar a oferecer contrarrazões, instruindo seus
documentação que entender articulados com as provas documentadas
necessária ao julgamento do que entender necessárias ao julgamento da
recurso; demanda.

III - determinará a intimação O Ministério Público somente atuará nas


do Ministério Público, causas previstas no art. 178 do CPC. A
preferencialmente por meio manifestação se dá através de parecer nos
eletrônico, quando for o caso autos. Uma vez intimado, caso deixe
de sua intervenção, para que transcorrer in albis o prazo, o agravo poderá
se manifeste no prazo de 15 ser julgado, não havendo causa de nulidade
(quinze) dias. se a comunicação se deu regularmente.

Regularmente intimado o agravado, o relator solicitará dia para julgamento em prazo não
superior a 1 (um) mês da comunicação (art. 1.020).

O agravo de instrumento será julgado por órgão fracionário do tribunal composto por 3
membros (art. 941, §2°). O relator e a turma ou câmara fica preventa para o julgamento da apelação
eventualmente interposta no mesmo processo.

O agravo de instrumento será julgado antes da apelação interposta no mesmo processo. Se 18


ambos os recursos forem submetidos a julgamento na mesma sessão, terá precedência o agravo de
instrumento (art. 946). Perceba-se, nesse sentido, que se a decisão impugnada no agravo de
instrumento houver sido substituída pela sentença, o agravo perderá o seu objeto. Não sendo o caso,
ou seja, se as decisões (interlocutória e sentença) possuírem objetos distintos, o agravo sempre
deverá ser julgado antes da apelação.

Do julgamento do agravo de instrumento caberá a interposição de recurso especial e/ou


extraordinário, a depender da matéria.

2.2.1. Informação ao juízo a quo da interposição do recurso

É necessário informar ao magistrado a quo a irresignação face à decisão recorrida. Isso


deve ser feito em até 3 (três) dias após a interposição do recurso, através de simples petição nos
autos originários, quando o recorrente deverá requerer a juntada de cópia da petição do agravo, do
comprovante de sua interposição e da relação de documentos que instruíram o recurso.

Apesar de o caput do art. 1.018 mencionar que o “agravante poderá requerer a juntada” da
petição, trata-se de ato impositivo para processos físicos, sob pena de inadmissão do agravo de
instrumento. Veja-se os §§2° e 3° do dispositivo em comento:
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

§ 2o Não sendo eletrônicos os autos, o agravante tomará a providência prevista no caput, no prazo de
3 (três) dias a contar da interposição do agravo de instrumento.

§ 3o O descumprimento da exigência de que trata o § 2o, desde que arguido e provado pelo agravado,
importa inadmissibilidade do agravo de instrumento.

Assim, ultrapassado o prazo de 3 dias sem a informação, nos autos originários, da


interposição do agravo, caberá ao recorrido informar o tribunal a respeito do descumprimento da
exigência, requerendo o não conhecimento do recurso. A prova poderá ser feita através de certidão
fornecida pelo cartório.

Em se tratando de processo eletrônico, essa petição é dispensada, não havendo qualquer


consequência em sua ausência. Da mesma forma, a razão desta dispensa é simples: se os autos
são eletrônicos, todas as peças são acessíveis.

Há outra função na juntada da petição prevista no art. 1.018: permitir o juízo de retratação do
magistrado. O agravo de instrumento possui efeito regressivo pois, sendo informado da
interposição e tomando conhecimento de suas razões através da cópia juntada nos autos originários,
o magistrado poderá rever a sua decisão. Caso mantenha, o processamento e julgamento do agravo
de instrumento segue normalmente no tribunal; se, por outro lado, reformar inteiramente a decisão, 19
o Relator considerará prejudicado o agravo de instrumento, nos termos do art. 1.018, §1°.

3. AGRAVO INTERNO

O Agravo Interno é o recurso cabível contra as decisões proferidas pelo Relator do processo
no tribunal. Tratando-se de recurso, remessa necessária ou processo originário, as decisões
monocráticas proferidas pelo Relator são impugnáveis por este recurso.

A sua regulação está no art. 1.021, do CPC. O Código busca aproximar as figuras do “agravo
interno” e do “agravo regimental” ao mencionar que o processamento do recurso se dará nos termos
do regimento. Tais figuras sempre foram bastante semelhantes sob a égide do CPC anterior. A
diferença era a fonte normativa onde se situava sua previsão. Enquanto um era previsto em lei o
outro era previsto em norma regimental. Houve a uniformização da terminologia, havendo somente
um recurso típico contra decisão do Relator: o agravo interno. Veja-se o caput do art. 1.021:

Art. 1.021. Contra decisão proferida pelo relator caberá agravo interno para o respectivo órgão
colegiado, observadas, quanto ao processamento, as regras do regimento interno do tribunal.

O prazo para o seu manejo é de 15 dias, conforme regra geral do art. 1.003, §5°. Norma
regimental em sentido diverso resta revogada, prevalecendo o prazo do código (art. 1.070).
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Por “decisão proferida pelo relator” deve-se compreender, de forma ampla, as decisões
monocráticas proferidas no tribunal. Além das decisões do Relator da causa, como membro do
órgão fracionário, também cabe agravo interno nos casos de decisão unipessoal, como as decisões
do Presidente nos casos de sua competência como, por exemplo, no pedido de suspensão de
segurança.

Da mesma forma, o conteúdo da decisão é irrelevante, abarcando as decisões de


inadmissibilidade do recurso, as tutelas provisórias e os julgamentos unipessoais (art. 932, IV e V).

POSIÇÃO DO FPPC

Enunciado n° 142 do FPPC: “Da decisão monocrática do relator que concede ou nega o efeito
suspensivo ao agravo de instrumento ou que concede, nega, modifica ou revoga, no todo ou em parte,
a tutela provisória nos casos de competência originária ou recursal, cabe agravo interno nos termos do
art. 1.021 do CPC”. Grupo: Tutela Antecipada; redação revista no IX FPPC-Recife)

3.1. PROCEDIMENTO

Devem-se observar as normas do Regimento Interno do tribunal respectivo para o


processamento do agravo interno. Todavia, há a imposição de algumas regras pelo próprio CPC.
20
Há um requisito específico de regularidade formal: na petição de agravo interno, o recorrente
impugnará especificamente os fundamentos da decisão agravada (art. 1.021, §1°). Não é
possível o manejo do agravo com alegações genéricas, meramente repetindo as razões anteriores.
Impõe-se ao recorrente impugnar os pontos específicos da decisão, sob pena de inadmissibilidade.
A exigência reflete o princípio da dialeticidade.

A competência para o processamento do agravo interno é do próprio magistrado que proferiu


a decisão impugnada, ao qual o recurso será dirigido. Uma vez admitido, o Relator intimará o
agravado para manifestar-se sobre o recurso no prazo de 15 (quinze) dias, ao final do qual, não
havendo retratação, o relator levá-lo-á a julgamento pelo órgão colegiado, com inclusão em pauta
(§2°).

Esta previsão exige algumas notas. Primeiro, impõe-se a intimação do recorrido para
apresentação de contrarrazões. Não importa se a decisão impugnada foi proferida inaudita altera
pars ou depois da apresentação de resposta. Segundo, o agravo possui efeito regressivo. Trata-se
de permitir ao prolator da decisão recorrida reconsiderá-la. Perceba-se: ele não julga
monocraticamente o recurso, pois a competência é do órgão colegiado; ele revê a sua decisão
anterior, fazendo com que o agravo perca seu objeto.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Não havendo retratação, a causa será incluída em pauta para julgamento do recurso. Na
confecção do relatório, o código impõe uma limitação: é vedado ao relator limitar-se à reprodução
dos fundamentos da decisão agravada para julgar improcedente o agravo interno (art. 1.021, §3°).

Se o legislador exige ao recorrente impugnar especificamente a decisão, exige também ao


órgão julgador que enfrente especificamente os argumentos trazidos na petição. A regra reflete e
concretiza, especificamente no julgamento do agravo interno, o dever de fundamentação das
decisões judiciais (art. 489, §1° do CPC).

O órgão colegiado exerce tanto o juízo de admissibilidade quanto o juízo de mérito do agravo
interno. A este respeito, há uma previsão interessante:

§ 4o Quando o agravo interno for declarado manifestamente inadmissível ou improcedente em votação


unânime, o órgão colegiado, em decisão fundamentada, condenará o agravante a pagar ao agravado
multa fixada entre um e cinco por cento do valor atualizado da causa.

A “manifesta” inadmissibilidade ou improcedência, em votação unânime do agravo interno,


é o suporte fático de incidência de multa. A previsão da multa, revertida em favor do recorrido, visa
evitar o manejo de recursos meramente protelatórios e incabíveis.
21
POSIÇÃO DO FPPC

Enunciado n° 359: “A aplicação da multa prevista no art. 1.021, § 4º, exige que a manifesta
inadmissibilidade seja declarada por unanimidade.”

O temor de sofrer a sanção faz com que o prejudicado pela decisão avalie a possibilidade de
êxito do seu recurso antes de maneja-lo, evitando-se assim a mera prolongação da litispendência.

Uma vez incidindo a sanção, a interposição de qualquer outro recurso está condicionada ao
depósito prévio do valor da multa. A exceção fica por conta da Fazenda Pública e do beneficiário de
gratuidade da justiça, que farão o pagamento somente ao final (§5°). A gratuidade da justiça ou as
prerrogativas da Fazenda Pública em juízo não isentam da multa, apenas diferindo o seu
pagamento.

POSIÇÃO DO STJ

Neste ponto específico o legislador foi de encontro à jurisprudência. Sob a égide do CPC/73 firmou-se
entendimento no sentido de que era aplicável à Fazenda Pública a necessidade de depósito prévio da
multa, como condição para a interposição de qualquer outro recurso. No STJ, veja-se o AgRg no
EAREsp n° 22.230-PA. No STF, veja-se o RE n° 521.424 AgR-ED-AgR-RN. O novo CPC consagra
regra oposta, superando o entendimento jurisprudencial, dispensando o depósito prévio da multa como
requisito para a interposição de outros recursos.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

4. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO

O recurso de embargos de declaração está regulado nos arts. 1.022 a 1.026. Trata-se de
recurso vocacionado à integração ou complementação da decisão impugnada, ou seja, suas
hipóteses de cabimento refletem uma decisão judicial incompleta ou fundada em erro de fato. O CPC
revogado permitia a oposição dos embargos face à omissão, contradição e obscuridade. O novo
CPC acrescenta ainda uma outra hipótese, já admitida pela jurisprudência: correção de erro material.
Conforme dispõe o caput do art. 1.022:

Art. 1.022. Cabem embargos de declaração contra qualquer decisão judicial para:

I - esclarecer obscuridade ou eliminar contradição;

II - suprir omissão de ponto ou questão sobre o qual devia se pronunciar o juiz de ofício ou a
requerimento;

III - corrigir erro material.

Assim, são quatro os fundamentos que justificam a oposição dos embargos de declaração:

Omissão – há omissão quando o magistrado deixa de se manifestar a respeito de questão 22


levantada pelas partes ao longo do processo ou cognoscível de ofício. Haverá omissão quando
restar pedido sem julgamento e também quando restar não rejeitado expressamente fundamento
apto a alterar o resultado do julgamento. Assim, a omissão apontada pode se dar tanto quando ao
pedido quanto aos fundamentos da demanda; sobre matéria cognoscível de ofício ou a requerimento.

O legislador consagra, ainda, duas hipóteses legais de omissão. Dispõe o art. 1022, p.ú., que
se considera omissa a decisão que: i) deixe de se manifestar sobre tese firmada em julgamento de
casos repetitivos ou em incidente de assunção de competência (=precedentes vinculantes) aplicável
ao caso sob julgamento; ii) incorra em qualquer das condutas descritas no art. 489, § 1°
(=insuficiência de fundamentação).

Há uma importante nota: os embargos de declaração servem de instrumento à observância


do dever de autorreferência. Juízes e tribunais têm o dever de dialogar com seus próprios
precedentes, seja para aplica-los ou afastá-los no caso concreto, ou até mesmo para superá-los. Se
não o fizerem, a decisão restará omissa, pois não se pode simplesmente ignorar o precedente.

POSIÇÃO DO FPPC

Enunciado n° 394 do FPPC: “As partes podem opor embargos de declaração para corrigir vício da
decisão relativo aos argumentos trazidos pelo amicus curiae.”
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Contradição – É contraditória a decisão judicial quando os seus fundamentos determinantes


não justificam a decisão final. Em outros termos, quando há dissonância entre a fundamentação e o
dispositivo. Será contraditória também a decisão que julgar procedente dois pedidos incompatíveis
entre si.

 Exemplo
Julgar procedente tanto o pedido de revisão da cláusula quanto o pedido de anulação do
contrato.

Obscuridade – considera-se obscura uma decisão judicial quando parte dela não é
compreensível. A obscuridade pode se dar na fundamentação, quando as próprias razões de decidir
precisarem de esclarecimento, ou no dispositivo, quando não for possível cumprir ou compreender o
comando. A oposição dos embargos de declaração na hipótese de obscuridade tem íntima relação
com o dever de esclarecimento, elemento do princípio da cooperação processual (art. 6°).

Correção de erro material – o erro material é uma incorreção simples, cognoscível de ofício,
na decisão judicial. É o erro cuja correção não altera o fundamento jurídico em si, mas apenas
aperfeiçoa a decisão como forma de evitar eventuais dúvidas ou dificuldades em seu cumprimento.
É o caso, por exemplo, da decisão que condena o réu a pagar mil reais, mas que por erro de digitação
foi proferida com “um zero a mais”. O erro material pode ser corrigido a qualquer tempo, por iniciativa 23
do juiz ou das partes, que o farão neste caso através de embargos.

POSIÇÃO DO FPPC

Enunciado n° 360 do FPPC: “A não oposição de embargos de declaração em caso de erro material na
decisão não impede sua correção a qualquer tempo.”

4.1. PROCEDIMENTO

Os embargos de declaração devem ser opostos em 5 (cinco) dias. Trata-se de exceção


à regra geral dos prazos recursais. Os articulados não exigem maiores formalidades, devendo a
petição ser dirigida ao juiz, com indicação do erro material, obscuridade, contradição ou omissão (art.
1.023, caput). Não se exige preparo.

Aplica-se o prazo em dobro para os litisconsortes com procuradores diferentes, conforme


regulado no art. 229 (art. 1.023, §1°).

Face à oposição dos embargos de declaração nem sempre será imprescindível a oitiva da
parte contrária antes do seu julgamento. Muitas vezes o julgamento procedente dos embargos não
causa prejuízo à parte recorrida. É o que se dá, por exemplo, com a correção de simples erro material
ou meros esclarecimentos.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Em atenção ao contraditório útil, nesse sentido, o § 2º do art. 1.023 dispõe que o juiz intimará
o embargado para, querendo, manifestar-se, no prazo de 5 (cinco) dias, sobre os embargos opostos,
caso seu eventual acolhimento implique a modificação da decisão embargada. Trata-se dos
chamados embargos de declaração com efeitos infringentes ou modificativos.

Assim, somente haverá intimação da parte contrária para contrarrazões se o julgamento dos
embargos puder alterar o entendimento originalmente consignado na decisão, gerando prejuízo ao
recorrido. Em outras palavras, só os embargos com efeitos infringentes demandam que seja dada a
oportunidade de responde-los.

Admitidos os embargos e após a eventual apresentação de contrarrazões, o juiz julgará os


embargos em 5 (cinco) dias (art. 1.024, caput). Por óbvio, não se trata de prazo próprio, normalmente
superado pelos magistrados.

Os parágrafos do art. 1.024 cuidam do processamento e julgamento dos embargos de


declaração quando opostos em face de decisão proferida nos tribunais. Nesse caso, quando a
decisão embargada for colegiada, o Relator apresentará os embargos em mesa na sessão
subsequente, proferindo voto, e, não havendo julgamento nessa sessão, será o recurso incluído em
pauta automaticamente (§1°) para a formação do entendimento colegiado. Em outros termos, 24
somente serão incluídos em pauta de julgamento os embargos que não forem julgados desde logo
na sessão subsequente.

Quando os embargos de declaração forem opostos contra decisão de relator ou outra


decisão unipessoal proferida em tribunal (hipótese diversa da consagrada no §1°), o órgão prolator
da decisão embargada decidi-los-á monocraticamente (2°).

As regras acima tratadas (§§1° e 2°), atente-se, dispõem sobre competência funcional para
julgar os embargos de declaração.

Nos §§ 3º a 5º, por sua vez, o legislador cuidou de codificar entendimentos


jurisprudenciais formados sob a égide do CPC/73, seja para mantê-los ou rejeita-los expressamente.

O órgão julgador conhecerá dos embargos de declaração como agravo interno se entender
ser este o recurso cabível, desde que determine previamente a intimação do recorrente para, no
prazo de 5 (cinco) dias, complementar as razões recursais, de modo a ajustá-las às exigências do art.
1.021, § 1o (§3°).

A razão de ser desta previsão é pragmática. Tornou-se muito comum que as partes
manejassem embargos de declaração não com o fito de integrar a decisão, mas sim de modifica-la,
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

numa tentativa de conseguir uma instância revisora a mais para a decisão impugnada. Diante de tais
situações, os Relatores passaram a converter os embargos em agravo interno, levando a questão
ao conhecimento do colegiado. Esta possibilidade passa a ser expressamente permitida. Consagra-
se, no ponto, o princípio da fungibilidade recursal.

Caso o acolhimento dos embargos de declaração implique modificação da decisão


embargada, o embargado que já tiver interposto outro recurso contra a decisão originária tem o direito
de complementar ou alterar suas razões, nos exatos limites da modificação, no prazo de 15 (quinze)
dias, contado da intimação da decisão dos embargos de declaração (§4°).

Só será possível a complementação ou alteração das razões recursais em caso de


provimento parcial ou total dos embargos de declaração que efetivamente altere o conteúdo
da decisão recorrida. Consagra-se o chamado princípio da complementariedade. Entende-se que
ao recorrente deve ser dada a oportunidade de complementar as razões do seu recurso na parte (e
somente nela) alterada pela decisão que acolheu os embargos de declaração.

O §5° do art. 1.024 vem, em boa hora, alterar uma prática injustificável que prevaleceu por
bastante tempo na prática forense: a necessidade de ratificar o recurso interposto antes da
publicação do julgamento dos embargos, sob pena de inadmissão. Assim, se os embargos de 25
declaração forem rejeitados ou não alterarem a conclusão do julgamento anterior, o recurso
interposto pela outra parte antes da publicação do julgamento dos embargos de declaração será
processado e julgado independentemente de ratificação.

4.1.1. Efeitos dos embargos de declaração

Os embargos de declaração não possuem efeito suspensivo, permitindo a execução


provisória da decisão impugnada desde logo. Por outro lado, possuem efeito interruptivo, ou seja,
interrompem o prazo para a interposição de quaisquer outros recursos. É o que consagra o art. 1.026,
caput, do CPC.

Nos parece, todavia, que o legislador verteu olhos ao procedimento dos embargos em face
das decisões proferidas pelos tribunais, impugnáveis naturalmente por recursos sem efeito
suspensivo. Ocorre, todavia, que no caso da sentença, o recurso apto a impugná-la é a apelação,
cujos efeitos naturais são o suspensivo e o devolutivo. Assim, em regra, a apelação suspende a
eficácia do julgado até que o tribunal julgue a questão.

Por isso, nesse caso, como a apelação possui efeito suspensivo, deve-se estende-lo também
aos embargos de declaração. Não em virtude deste recurso em si, mas daquele. Assim, apesar da
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

redação do caput do art. 1.026, não possuirá eficácia (=não será possível executar provisoriamente)
a decisão embargada se o recurso principal possuir efeito suspensivo.

POSIÇÃO DO FPPC

Enunciado n° 218 do FPPC: “A inexistência de efeito suspensivo dos embargos de declaração não
autoriza o cumprimento provisório da sentença nos casos em que a apelação tenha efeito suspensivo.”

A possibilidade de concessão de efeito suspensivo aos embargos de declaração não é


estranha ao nosso sistema. Há previsão expressa no art. 1.026, §1°, onde é previsto que a eficácia
da decisão monocrática ou colegiada poderá ser suspensa pelo respectivo juiz ou relator se
demonstrada a probabilidade de provimento do recurso ou, sendo relevante a fundamentação, se
houver risco de dano grave ou de difícil reparação. Trata-se de concessão de tutela provisória
recursal.

4.2. EMBARGOS MANIFESTAMENTE PROTELATÓRIOS

O legislador não se descuidou da prática perniciosa de oposição de embargos de declaração


somente para evitar o trânsito em julgado das decisões ou dilatar o processo. Assim, os embargos
manifestamente protelatórios geram a possibilidade de condenação em multa, da mesma forma 26
como fazia o CPC/73.

O destaque fica por conta da alteração do percentual da multa, que passa a ser de 2% sobre
o valor atualizado da causa. Exige-se, para incidência da multa, o manifesto propósito
protelatório, nos termos do art. 1.026, §2°:

§ 2o Quando manifestamente protelatórios os embargos de declaração, o juiz ou o tribunal, em decisão


fundamentada, condenará o embargante a pagar ao embargado multa não excedente a dois por cento
sobre o valor atualizado da causa.

Caso haja reiteração de embargos de declaração manifestamente protelatórios, a multa


será elevada a até dez por cento sobre o valor atualizado da causa, e a interposição de qualquer
recurso ficará condicionada ao depósito prévio do valor da multa, à exceção da Fazenda Pública e
do beneficiário de gratuidade da justiça, que a recolherão ao final (§3°).

Ainda, não serão admitidos novos embargos de declaração se os 2 (dois) anteriores


houverem sido considerados protelatórios (§4°). Assim, se a incidência da multa não for suficiente,
haverá o aumento até o patamar de 10%. Se mesmo assim o recorrente insistir nos embargos
manifestamente protelatórios (os terceiros), perderá a faculdade de embargar daquela decisão.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Perceba-se, não há perda da faculdade de embargar de uma maneira geral, mas apenas da decisão
reiteradamente atacada de maneira protelatória.

Inadmitidos os (terceiros) embargos, não produzirão o efeito interruptivo quanto ao prazo de


interposição de outros recursos. Trata-se de uma consequência imposta pela lei em razão da conduta
abusiva e reiterada do recorrente.

4.3. EMBARGOS COM FUNÇÃO DE PREQUESTIONAMENTO

Mais uma questão tormentosa na jurisprudência foi resolvida pelo legislador, ao prever
expressamente o chamado prequestionamento ficto. Os embargos de declaração passam a servir
como importante instrumento para o prequestionamento.

POSIÇÃO DO STJ

Enunciado n° 98 da Súmula do STJ: “Embargos de declaração manifestados com notório propósito de


prequestionamento não têm caráter protelatório.”

Como se verá adiante, a interposição dos recursos excepcionais exige o requisito do


prequestionamento, ou seja, que a matéria haja sido discutida previamente na causa. Não se admite,
27
em sede de recurso especial ou recurso extraordinário, que o recorrente inaugure a instância, ou
seja, que trate de questão antes não suscitada. Visando abordar questão não enfrentada pelo
acórdão recorrido, é comum que o manejo dos embargos de declaração sirva para suscitar o
prequestionamento de matérias relevantes para a causa.

Tem-se, pois, mais uma função dos embargos: permitir o prequestionamento. Conforme
dispõe o art. 1.025 do CPC:

Art. 1.025. Consideram-se incluídos no acórdão os elementos que o embargante suscitou, para fins
de pré-questionamento, ainda que os embargos de declaração sejam inadmitidos ou rejeitados, caso
o tribunal superior considere existentes erro, omissão, contradição ou obscuridade.

Uma vez opostos os embargos, se acolhidos, restará prequestionada desde logo a matéria,
pois o acórdão passará a tratar delas expressamente. Caso os embargos não sejam admitidos ou
restem improvidos, o tribunal superior (STJ ou STF), quando receber o recurso especial ou o recurso
extraordinário, poderá considerar presquestionadas as matérias se entender, quanto ao acórdão
recorrido, que de fato havia erro, omissão, contradição ou obscuridade.

O próprio tribunal superior poderá superar o vício e admitir o recurso excepcional a


julgamento. Esta técnica consagrada no art. 1.025 é chamada de prequestionamento ficto.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

POSIÇÃO DO STJ

Merece revisão, com advento do novo CPC, em especial quanto ao art. 1.025, o Enunciado n° 211 da
Súmula do STJ: “Inadmissível recurso especial quanto à questão que, a despeito da oposição de
embargos declaratórios, não foi apreciada pelo Tribunal a quo.”

5. RECURSO ORDINÁRIO

O recurso ordinário inaugura o capítulo dedicado aos recursos para o Supremo Tribunal
Federal e para o Superior Tribunal de Justiça. A partir daí já é fácil compreender que somente têm
competência para processar e julgar o recurso tais cortes superiores. Não há que se falar em recurso
ordinário para os Tribunais de Justiça e Tribunais Regionais Federais.

O recurso ordinário faz as vezes de uma apelação dirigida aos tribunais superiores. Nele, STJ
e STF funcionarão como segunda instância. O recurso serve à discussão sobre matéria de fato
perante as cortes. Eis um ponto de afastamento entre o recurso ordinário e os recursos excepcionais,
na medida em que estes últimos servem somente para discutir temas de direito.

POSIÇÃO DO FPPC
28
Enunciado n° 357 do FPPC: “Aplicam-se ao recurso ordinário os arts. 1.013 e 1.014.”

Há um detalhe que merece ser atentado: o recurso ordinário não possui efeito suspensivo,
o que representa um ponto dissonante em relação ao recurso de apelação.

5.1. HIPÓTESES DE CABIMENTO

As hipóteses de cabimento do recurso ordinário estão no art. 1.027, caput, em paráfrase direta
do texto constitucional. Vejamos:

Código de Processo Civil Constituição da República

Art. 102. Compete ao Supremo


Art. 1.027. Serão julgados em Tribunal Federal, precipuamente, a
recurso ordinário: guarda da Constituição, cabendo-
I - pelo Supremo Tribunal Federal, os lhe:
mandados de segurança, os habeas II - julgar, em recurso ordinário:
data e os mandados de injunção a) o habeas corpus, o mandado de
decididos em única instância pelos segurança, o habeas data e o
tribunais superiores, quando mandado de injunção decididos em
denegatória a decisão; única instância pelos Tribunais
Superiores, se denegatória a
decisão;

Art. 1.027. Serão julgados em Art. 105. Compete ao Superior Tribunal


recurso ordinário: (...) de Justiça: (...)
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

II - pelo Superior Tribunal de Justiça: II - julgar, em recurso ordinário: (...)


a) os mandados de segurança b) os mandados de segurança
decididos em única instância pelos decididos em única instância pelos
tribunais regionais federais ou pelos Tribunais Regionais Federais ou
tribunais de justiça dos Estados e do pelos tribunais dos Estados, do
Distrito Federal e Territórios, Distrito Federal e Territórios, quando
quando denegatória a decisão; denegatória a decisão;
b) os processos em que forem c) as causas em que forem partes
partes, de um lado, Estado Estado estrangeiro ou organismo
estrangeiro ou organismo internacional, de um lado, e, do
internacional e, de outro, Município outro, Município ou pessoa
ou pessoa residente ou domiciliada residente ou domiciliada no País;
no País.

É preciso ter bastante cuidado com o cabimento do recurso ordinário, pois o seu
processamento e o regime recursal das decisões varia de acordo com a procedência ou
improcedência pedido.

(art. 1.027, I) Mandado de segurança, habeas data e mandado de injunção decididos em


única instância pelos tribunais superiores – caberá recurso ordinário para o STF se a decisão
for denegatória; caberá recurso extraordinário para o STF se a decisão for concessiva.

Se tais demandas forem propostas perante o juízo de primeiro grau ou perante os TJs e TRFs,
29
não terão acesso ao STF através de recurso ordinário.

O recurso ordinário deve ser interposto perante o tribunal de origem, cabendo ao seu
presidente ou vice-presidente determinar a intimação do recorrido para, em 15 (quinze) dias,
apresentar as contrarrazões (art. 1.028, §2°).

Findo o prazo de contrarrazões, os autos serão remetidos ao STF imediatamente (art. 1.028,
§3°). Não haverá juízo de admissibilidade provisório na origem.

(art. 1.027, II, a) Mandados de segurança decididos em única instância pelos TRFs ou pelos
TJs – caberá recurso ordinário para o STJ se a decisão for denegatória; caberá recurso especial
para o STJ e/ou recurso extraordinário para o STF se a decisão for concessiva.

Se tais demandas forem propostas perante o juízo de primeiro grau, não terão acesso ao STJ
através de recurso ordinário.

O recurso ordinário deve ser interposto perante o tribunal de origem, cabendo ao seu
presidente ou vice-presidente determinar a intimação do recorrido para, em 15 (quinze) dias,
apresentar as contrarrazões (art. 1.028, §2°).
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Findo o prazo de contrarrazões, os autos serão remetidos ao STJ imediatamente (art. 1.028,
§3°). Não haverá juízo de admissibilidade provisório na origem.

(art. 1.027, II, b) processos em que forem partes, de um lado, Estado estrangeiro ou
organismo internacional e, de outro, Município ou pessoa residente ou domiciliada no País – caberá
recurso ordinário para o STJ, independentemente de a sentença ser denegatória ou concessiva
do pedido.

As chamadas causas internacionais, correm perante o juízo de primeiro grau da Justiça


Federal (art. 109, II, CF) e contra a sentença caberá sempre o recurso ordinário. Não há que se falar
no manejo de apelação. O STJ funcionará como segunda instância, acessível diretamente quando
da impugnação da sentença.

Ao recurso ordinário, aqui, aplicam-se, quanto aos requisitos de admissibilidade e ao


procedimento, as disposições relativas à apelação e o Regimento Interno do STJ (art. 1.028, caput).
Não haverá, juízo provisório de admissibilidade na origem.

Especificamente nessas causas, contra as decisões interlocutórias que se adequem às


hipóteses do art. 1.015, caberá agravo de instrumento dirigido ao STJ (art. 1.027, §1°). 30
A este agravo aplicam-se as disposições relativas ao agravo de instrumento e o Regimento
Interno do STJ (art. 1.028, §1°).

Por fim, o art. 1.027, §2°, prevê que se aplica ao recurso ordinário: i) a teoria da causa
madura (estudada com mais detalhes no tópico relativo ao recurso de apelação) e ii) a possibilidade
de requerimento de concessão de efeito suspensivo.

Apesar de o dispositivo acima colacionado apenas tratar do pedido perante tribunais, quando
o recurso ordinário for interposto nas causas internacionais, o pedido de efeito suspensivo poderá
ser formulado perante o juiz singular enquanto processa o recurso.

6. RECURSO EXTRAORDINÁRIO E RECURSO ESPECIAL

O CPC cuida dos recursos especial e extraordinário em seção única. Em verdade, ocupa-se
dos aspectos procedimentais dos recursos excepcionais. É que suas hipóteses de cabimento estão
previstas na Constituição, não restando ao legislador versar sobre elas.

O recurso especial é vocacionado a levar ao conhecimento do Superior Tribunal de Justiça


questões infraconstitucionais. Caberá à corte dar a última palavra nessas matérias, servindo como
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

última instância recursal quanto aos temas de ordem legal. Nos termos do art. 105, III da CF, em rol
taxativo:

Art. 105. Compete ao Superior Tribunal de Justiça:

III - julgar, em recurso especial, as causas decididas, em única ou última instância, pelos Tribunais
Regionais Federais ou pelos tribunais dos Estados, do Distrito Federal e Territórios, quando a decisão
recorrida:

a) contrariar tratado ou lei federal, ou negar-lhes vigência;

b) julgar válido ato de governo local contestado em face de lei federal;

c) der a lei federal interpretação divergente da que lhe haja atribuído outro tribunal.

O recurso extraordinário é vocacionado a levar ao conhecimento do Supremo Tribunal


Federal questões constitucionais. Caberá à suprema corte dar a última palavra nessas matérias,
servindo como última instância recursal quanto aos temas de ordem constitucional. Nos termos do
art. 102, III da CF, em rol taxativo:

Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição, cabendo-
lhe: 31
III - julgar, mediante recurso extraordinário, as causas decididas em única ou última instância, quando
a decisão recorrida:

a) contrariar dispositivo desta Constituição;

b) declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal;

c) julgar válida lei ou ato de governo local contestado em face desta Constituição.

d) julgar válida lei local contestada em face de lei federal.

Os arts. 1.029 a 1.035 abordam as disposições gerais aplicáveis tanto ao recurso especial
quanto ao recurso extraordinário. Do art. 1.036 ao 1.041 estão regulados os recursos repetitivos.

É preciso atentar a uma importante questão: os recursos excepcionais (=especial e


extraordinário) são uma exceção ao princípio da unirrecorribilidade das decisões. As decisões que
se submetem à revisão pelo STJ e pelo STF podem ser desafiadas tanto pelo recurso especial quanto
pelo extraordinário. Cada um deles terá por objeto debater matérias distintas. Assim, se um mesmo
acórdão versa sobre matérias legal e matéria constitucional, poderá ser desafiado por ambos os
recursos excepcionais. Obviamente, é o caso concreto que demonstrará a necessidade ou não de
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

interposição de ambos os recursos. Caso a decisão trate somente de matéria legal, cabível será o
recurso especial; se tratar somente de matéria constitucional, cabível será o recurso extraordinário.

Em verdade, se o acórdão se fundamentar em questões legais e constitucionais, ambas


autônomas e suficientes à manutenção do julgado, impõe-se ao recorrente manejar ambos os
recursos. Caso interponha apenas um, restará inadmitido, pois incapaz de, por si só, alterar o
julgamento recorrido.

POSIÇÃO DO STJ

Enunciado n° 126 da Súmula do STJ: “É inadmissível recurso especial, quando o acórdão recorrido
assenta em fundamentos constitucional e infraconstitucional, qualquer deles sufi ciente, por si só, para
mantê-lo, e a parte vencida não manifesta recurso extraordinário.”

6.1. PROCEDIMENTO DO RECURSO ESPECIAL

O recurso especial, nos casos previstos no art. 105, III, da CF, será interposto perante o
presidente ou o vice-presidente do tribunal recorrido (TJ ou TRF), em petição que deverá conter
os requisitos listados no caput do art. 1.029 do CPC, quais sejam: i) a exposição do fato e do direito;
ii) a demonstração do cabimento do recurso interposto; iii) as razões do pedido de reforma ou de
32
invalidação da decisão recorrida.

O recurso especial exige fundamentação vinculada, ou seja, somente será admitida sua
interposição nas hipóteses constitucionalmente e taxativamente admitidas. Por isso, no ato de
interposição do recurso, é imprescindível demonstrar o seu cabimento, ou seja, o enquadramento a
uma das situações no art. 105, III, da CF. Não se verificando quaisquer daquelas situações, o recurso
especial será inadmitido.

Quando o recurso especial fundar-se em dissídio jurisprudencial (art. 105, III, “c”, da CF), o
recorrente fará a prova da divergência com a certidão, cópia ou citação do repositório de
jurisprudência, oficial ou credenciado, inclusive em mídia eletrônica, em que houver sido publicado o
acórdão divergente, ou ainda com a reprodução de julgado disponível na rede mundial de
computadores, com indicação da respectiva fonte, devendo-se, em qualquer caso, mencionar as
circunstâncias que identifiquem ou assemelhem os casos confrontados (art. 1.029, §1°).

É este o procedimento necessário e suficiente ao cotejo entre o acórdão recorrido e o acórdão


paradigma. Não basta apenas reproduzir as ementas ou citar os julgados, impõe-se ao recorrente,
quando fundamentar seus articulados na divergência, apontar justificada e fundamentadamente
a semelhança dos casos, a exigência de solução comum a ambos e os pontos divergentes
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

entre as soluções dadas a um e a outro. É o que a jurisprudência vem chamando de confronto


analítico.

POSIÇÃO DO STJ

Não se conhece de recurso especial fundado em dissídio jurisprudencial quando a parte não realiza o
devido cotejo analítico a fim de demonstrar a similitude fática e jurídica entre os julgados. Este é o
posicionamento firmado em diversos julgados do STJ, dentre eles: REsp n° 618063-MG; AgRg no
AREsp n° 534770-SP; AgRg no AREsp n° 458948-SP.

O cabimento do recurso pela alínea “c” do inciso III do art. 105 permite ao STJ uniformizar a
jurisprudência em âmbito nacional, proferindo entendimento a respeito de matérias que recebeu
soluções divergentes por tribunais diversos. Trata-se de importante instrumento no sistema de
precedentes.

Há, ainda, mais um requisito de destaque do recurso especial: o prequestionamento. A


interposição dos recursos excepcionais exige que a matéria objeto da impugnação haja sido discutida
previamente na causa. Não se admite, em sede de recurso especial, que o recorrente inaugure a
instância, ou seja, trate de questão antes não suscitada. A exigência de prequestionamento decorre
da interpretação do art. 105, III, ao mencionar “causas decididas”, ou seja, impõe-se a efetiva
33
discussão e manifestação sobre a questão nas instâncias inferiores.

O prequestionamento pode ser de três espécies: i) expresso, quando houver menção direta
na decisão a dispositivo que fundamenta o recurso especial; ii) implícito, quando apesar de não haver
menção ao dispositivo, a norma nele inscrita foi objeto da decisão; iii) ficto, aquele fundamentado na
oposição de embargos de declaração, conforme estudado em tópico acima.

Recebida a petição do recurso pela secretaria do tribunal a quo, o recorrido será intimado
para apresentar contrarrazões no prazo de 15 (quinze) dias (mesmo prazo da interposição do
recurso), findo o qual os autos serão conclusos ao presidente ou ao vice-presidente do tribunal
recorrido (a depender da competência definida no Regimento Interno), que deverá, a depender da
situação, tomar uma das seguintes atitudes, nos termos do art. 1.030:

(art. 1.030, I, b) Negar seguimento ao recurso especial interposto contra acórdão que esteja
em conformidade com entendimento do STJ exarado no regime de julgamento de recurso especial
repetitivo.

(art. 1.030, II) Encaminhar o processo ao órgão julgador (turma ou câmara) para
realização do juízo de retratação, se o acórdão recorrido divergir do entendimento do STJ exarado
no regime de recurso repetitivo.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Atente-se a um detalhe: nesse caso específico, o recurso especial terá efeito regressivo,
permitindo o juízo de retratação do órgão julgador, adequando-se o entendimento ao precedente
obrigatório em questão e evitando o envio do processo à corte superior.

(art. 1.030, III) Sobrestar o recurso especial que versar sobre controvérsia de caráter
repetitivo ainda não decidida pelo STJ em matéria infraconstitucional.

No exame dos recursos repetitivos veremos que uma vez submetido determinado tema a este
procedimento, impõe-se o sobrestamento das demais causas enquanto não há formação de
entendimento vinculante a respeito. Quando o presidente ou vice-presidente do tribunal receber o
recurso especial e perceber que o tema está afetado ao regime dos recursos repetitivos, deverá
sobrestá-lo enquanto aguarda a definição da tese.

(art. 1.030, IV) Selecionar o recurso especial como representativo de controvérsia


infraconstitucional, nos termos do § 6º do art. 1.036.

Caso se trate de causa repetitiva ainda não submeta à sistemática dos recursos repetitivos,
cabe ao presidente ou vice-presidente do tribunal recorrido selecionar e encaminhar dois recursos
representativos da controvérsia ao STJ para fins de afetação da matéria. Ato contínuo, ordenará a 34
suspensão do trâmite de todos os demais processos pendentes, individuais ou coletivos, que
tramitem no Estado ou região.

(art. 1.030, V) Realizar o juízo de admissibilidade e, se positivo, remeter o feito ao


Superior Tribunal de Justiça, desde que, alternativamente: i) o recurso ainda não tenha sido
submetido ao regime de julgamento de recursos repetitivos; ii) o recurso tenha sido selecionado como
representativo da controvérsia (hipótese tratada acima); iii) o tribunal recorrido tenha refutado o juízo
de retratação (na hipótese também tratada acima).

O juízo de admissibilidade positivo do recurso especial depende do preenchimento dos seus


requisitos (art. 1.029, caput) e de sua adequação a uma das hipóteses constitucionais de interposição.
Após as modificações promovidas pela lei n° 13.256, alterando o art. 1.030, voltou a existir o juízo de
admissibilidade provisório exercido pelo tribunal recorrido (conforme a última situação analisada acima).

Assim, é possível que o recurso especial seja inadmitido na origem. Nesse caso, da decisão de
inadmissibilidade caberá o agravo em recurso especial ao STJ, nos termos do art. 1.042 (art. 1.030,
§1°). Este agravo será estudado em tópico adiante. Por outro lado, das decisões que negam seguimento
ao recurso com base em entendimento firmado na sistemática dos recursos repetitivos (art. 1.030, I, b)
ou que sobrestem a sua tramitação por se tratar de causa repetitiva ainda não decidida no STJ (art.
1.030, III), caberá a interposição de agravo interno, nos termos do art. 1.021 (art. 1.030, §2°).
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Até esta altura, todo o processamento do recurso se dá perante o tribunal recorrido. Daí então o
recurso especial é remetido ao STJ.

Na interposição conjunta de recurso extraordinário e recurso especial, os autos serão


remetidos ao Superior Tribunal de Justiça em primeiro lugar (art. 1.031, caput). Somente quando
concluído o julgamento do recurso especial (ou no caso de restar inadmitido), os autos serão
remetidos ao STF para apreciação do recurso extraordinário, se este não estiver prejudicado (art.
1.031, §1°). Se a reforma de entendimento no julgamento proferido pelo STJ for suficiente para
reverter a decisão sem necessidade de apreciação da questão constitucional, o recurso
extraordinário perderá seu objeto.

Recebido o processo no STJ, o presidente ou vice-presidente procederá ao juízo de


admissibilidade definitivo do recurso. É possível, com espeque no princípio da primazia do
julgamento de mérito e no §3° do art. 1.029, que o STJ desconsidere vício formal ou ordene sua
correção, desde que o recurso seja tempestivo e que o defeito não seja grave. Por defeito grave
deve-se compreender aquele que impeça o próprio conhecimento da demanda recursal como, por
exemplo, o defeito não corrigido, mesmo quando a parte haja sido intimada para tal.

POSIÇÃO DO FPPC
35

Enunciado n° 219 do FPPC: O §3º do art. 1.029 do CPC pode ser aplicado pelo relator ou pelo órgão
colegiado. (Grupo: Recursos Extraordinários; redação revista no IX FPPC Recife)”

Em verdade, conforme a teoria moderna das invalidades, o único defeito que não admite
correção é a intempestividade (=vício insanável).

A admissibilidade positiva do recurso especial devolve ao tribunal o conhecimento de todas


as questões relativas ao capítulo impugnado. Trata-se de recurso com efeito devolutivo e sem
efeito suspensivo. Ainda que o recurso especial haja sido admitido por um fundamento, devolve-se
ao STJ o conhecimento dos demais fundamentos para a solução do capítulo impugnado (art. 1.034,
p.ú.). Noutras palavras, caberá ao tribunal rever acórdão, para mantê-lo ou altera-lo, dentro dos
limites da matéria impugnada no recurso.

Como dissemos anteriormente ao tratar da apelação, o efeito devolutivo pode ser visto em
duas dimensões: horizontal e vertical. Aquelas lições se aplicam aqui, sem tirar nem por.

Admitido o recurso, será distribuído regularmente a um Relator. Daqui em diante, aplicam-se


as regras previstas pelo CPC no capítulo da ordem dos processos no tribunal, além do Regimento
Interno do STJ. O Relator da causa no STJ poderá:
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Caso entenda que o recurso especial versa sobre questão constitucional, deverá conceder
prazo de 15 (quinze) dias para que o recorrente demonstre a existência de repercussão geral
(requisito específico do recurso extraordinário) e se manifeste sobre a questão constitucional (art.
1.032, caput).

Não mais haverá juízo de inadmissibilidade do recurso especial, pois será convertido em
recurso extraordinário. A oportunidade de a parte adequar seus articulados aos requisitos
específicos do recurso extraordinário permite que o STF possa conhecer da questão.

Cumprida a diligência e adequada a petição, o relator remeterá o recurso ao STF, que, em


juízo de admissibilidade, poderá devolvê-lo ao STJ (art. 1.032, p.ú). Aqui o STF terá última palavra
sobre o objeto do recurso (se matéria legal ou constitucional). Caso o Supremo entenda que se trata
de questão infraconstitucional a causa retornará ao STJ para processamento e julgamento do recurso
especial.

Por outro lado, é possível que o Relator da causa no STJ considere que a questão
constitucional discuta matéria prévia e prejudicial ao julgamento do recurso especial. Nesse caso, o
Relator, em decisão irrecorrível, sobrestará o julgamento e remeterá os autos ao STF (art. 1.031,
§2°). 36

No STF, os autos serão distribuídos ao Relator do recurso extraordinário, que apreciará a


questão da prejudicialidade. Resolvendo-a em decisão irrecorrível, se rejeitar a prejudicialidade,
devolverá os autos ao STJ para o julgamento do recurso especial (art. 1.031, §3°). Sendo o caso,
não cabe ao STJ qualquer atuação senão o julgamento da matéria infraconstitucional.

Superadas as questões discutidas acima, o STJ julgará o processo, aplicando o direito (art.
1.034, caput).

É preciso compreender o que significa aplicar o direito. É que os recursos excepcionais não
admitem discutir questões de fato. Servem, assim, em termos arcaicos, para aplicar o direito ao
caso concreto. Os fatos estão postos e as eventuais controvérsias foram discutidas e definidas pelo
tribunal a quo em seu acórdão. O recurso especial, pois, somente poderá discutir se os fundamentos
jurídicos (=o direito) incide sobre aqueles fatos outrora delimitados.

POSIÇÃO DO STJ

Enunciado n° 7 da Súmula do STJ: “A pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso
especial.”

6.2. PROCEDIMENTO DO RECURSO EXTRAORDINÁRIO


Direito Processual Civil - Recursos em espécie

O recurso extraordinário, nos casos previstos no art. 102, III, da CF, será interposto perante
o presidente ou o vice-presidente do tribunal recorrido (TJ, TRF e demais tribunais superiores,
inclusive STJ), em petição que deverá conter os requisitos listados no caput do art. 1.029 do CPC,
quais sejam: i) a exposição do fato e do direito; ii) a demonstração do cabimento do recurso
interposto; iii) as razões do pedido de reforma ou de invalidação da decisão recorrida.

O recurso extraordinário exige fundamentação vinculada, ou seja, somente será admitida


sua interposição nas hipóteses constitucionalmente e taxativamente admitidas. Por isso, no ato de
interposição do recurso, imprescindível que o recorrente demonstre o seu cabimento, ou seja, o
enquadramento a uma das situações constitucionalmente previstas no art. 102, III, da Carta.

Há, ainda, mais um requisito de destaque do recurso extraordinário: o pré-questionamento.


A interposição dos recursos excepcionais exige que a matéria objeto da impugnação haja sido
discutida previamente na causa. Não se admite, em sede de recurso extraordinário, que o recorrente
inaugure a instância, ou seja, trate de questão antes não suscitada. A exigência de pré-
questionamento decorre da interpretação do art. 102, III, ao mencionar “causas decididas”, ou seja,
impõe-se a efetiva discussão e manifestação sobre a questão nas instâncias inferiores.

O prequestionamento pode ser de três espécies: i) expresso, quando houver menção direta 37
na decisão a dispositivo que fundamenta o recurso especial; ii) implícito, quando apesar de não haver
menção ao dispositivo, a norma nele inscrita foi objeto da decisão; iii) ficto, aquele fundamentado na
oposição de embargos de declaração, conforme estudado em tópico acima.

Recebida a petição do recurso pela secretaria do tribunal, o recorrido será intimado para
apresentar contrarrazões no prazo de 15 (quinze) dias (mesmo prazo da interposição do recurso),
findo o qual os autos serão conclusos ao presidente ou ao vice-presidente do tribunal recorrido (a
depender da competência definida no Regimento Interno), que deverá, a depender da situação,
tomar uma das seguintes atitudes, nos termos do art. 1.030:

(art. 1.030, I, a) Negar seguimento ao recurso extraordinário que discuta questão


constitucional à qual o STF não tenha reconhecido a existência de repercussão geral ou a recurso
extraordinário interposto contra acórdão que esteja em conformidade com entendimento do STF
exarado no regime de repercussão geral.

A repercussão geral é um requisito indispensável ao manejo do recurso extraordinário,


conforme será tratado adiante.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

(art. 1.030, I, b) Negar seguimento ao recurso extraordinário interposto contra acórdão que
esteja em conformidade com entendimento do STF exarado no regime de julgamento de recursos
repetitivos.

(art. 1.030, II) Encaminhar o processo ao órgão julgador (turma ou câmara) para
realização do juízo de retratação, se o acórdão recorrido divergir do entendimento do STF nos
regimes de repercussão geral ou de recurso repetitivo.

Nesse caso específico, o recurso extraordinário terá efeito regressivo, permitindo o juízo
de retratação do órgão julgador, adequando-se o entendimento ao precedente obrigatório em
questão e evitando o envio do processo à corte suprema.

(art. 1.030, III) Sobrestar o recurso extraordinário que versar sobre controvérsia de caráter
repetitivo ainda não decidida pelo STF em matéria constitucional.

Veremos que uma vez submetido determinado tema ao procedimento dos recursos
repetitivos, impõe-se o sobrestamento das demais causas enquanto não há formação de
entendimento vinculante. Assim, quando o presidente ou vice-presidente do tribunal receber o
recurso extraordinário e perceber que o tema está afetado a este regime, deverá sobrestá-lo 38
enquanto aguarda a definição da tese.

(art. 1.030, IV) Selecionar o recurso extraordinário como representativo de controvérsia


constitucional, nos termos do § 6º do art. 1.036.

Caso se trate de causa repetitiva ainda que não submeta à sistemática dos recursos
repetitivos, cabe ao presidente ou vice-presidente do tribunal recorrido selecionar e encaminhar dois
recursos representativos da controvérsia ao STF para fins de afetação da matéria. Ato contínuo,
ordenará a suspensão do trâmite de todos os demais processos pendentes, individuais ou coletivos,
que tramitem no Estado ou região.

(art. 1.030, V) Realizar o juízo de admissibilidade e, se positivo, remeter o feito ao


Supremo Tribunal Federal, desde que, alternativamente: i) o recurso ainda não tenha sido
submetido ao regime de repercussão geral ou de julgamento de recursos repetitivos; ii) o recurso
tenha sido selecionado como representativo da controvérsia (hipótese tratada acima); iii) o tribunal
recorrido tenha refutado o juízo de retratação (na hipótese também tratada acima).

A admissão do recurso extraordinário depende do preenchimento dos seus requisitos (art. 1.029,
caput) e de sua adequação a uma das hipóteses constitucionais de interposição. Após as alterações
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

promovidas pela lei n° 13.256, o CPC voltou a prever o juízo de admissibilidade provisório pelo tribunal a
quo.

POSIÇÃO DO STF

Enunciado n° 528 da Súmula do STF: “Se a decisão contiver partes autônomas, a admissão parcial,
pelo presidente do tribunal a quo, de recurso extraordinário que, sobre qualquer delas se manifestar,
não limitará a apreciação de todas pelo Supremo Tribunal Federal, independentemente de interposição
de agravo de instrumento.”

Assim, é possível que o recurso extraordinário seja inadmitido na origem. Nesse caso, da
decisão de inadmissibilidade caberá o agravo em recurso extraordinário ao STF, nos termos
do art. 1.042 (art. 1.030, §1°). Por outro lado, das decisões que negam seguimento ao recurso com
base em entendimento firmado em repercussão geral ou na sistemática dos recursos repetitivos (art.
1.030, I) ou que sobrestem a sua tramitação por se tratar de causa repetitiva ainda não decidida no
STF (art. 1.030, III), caberá a interposição de agravo interno, nos termos do art. 1.021 (art. 1.030,
§2°).

Até esta altura, todo o processamento do recurso se dá perante o tribunal recorrido. Daí então,
sendo o caso de interposição conjunta e concomitante de recurso especial e extraordinário, os autos
39
serão remetidos primeiro ao STJ para depois seguir ao STF. Caso interposto somente o recurso
extraordinário, seguirá ao STF diretamente.

Recebido o processo no STF, o presidente ou vice-presidente procederá ao juízo de


admissibilidade definitivo do recurso. É possível, com espeque no princípio da primazia do
julgamento de mérito e no §3° do art. 1.029, que o STF desconsidere vício formal ou ordene sua
correção, desde que o recurso seja tempestivo e que o defeito não seja grave. Por defeito grave
deve-se compreender aquele que impeça o próprio conhecimento da demanda recursal como, por
exemplo, a ausência dos pressupostos recursais.

Em verdade, conforme a teoria moderna das invalidades, o único defeito que não admite
correção é a intempestividade (=vício insanável).

Admitido o recurso, será distribuído a um Relator. A admissibilidade positiva devolve ao


tribunal o conhecimento de todas as questões relativas ao capítulo impugnado. Trata-se de recurso
com efeito devolutivo e sem efeito suspensivo.

Ainda que o recurso extraordinário haja sido admitido por um fundamento, devolve-se ao STF
o conhecimento dos demais fundamentos para a solução do capítulo impugnado (art. 1.034, p.ú.).
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Caberá ao tribunal rever o acórdão, para mantê-lo ou altera-lo, dentro dos limites da matéria
impugnada no recurso.

Como dissemos anteriormente ao tratar da apelação, o efeito devolutivo pode ser visto em
duas dimensões: horizontal e vertical. Aplica-se aqui o mesmo que foi dito naquela oportunidade.

Daqui em diante, aplicam-se as regras previstas pelo CPC no capítulo da ordem dos
processos no tribunal, além do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal.

É possível que o STF considere como reflexa a ofensa à Constituição afirmada no recurso
extraordinário, por pressupor a revisão da interpretação de lei federal ou de tratado. Nesse caso,
deverá remeter o recurso ao STJ para julgamento como recurso especial (art. 1.033). A regra em
comento supera antigo posicionamento no sentido de inadmitir o recurso em face de ofensa reflexa
à Constituição. O novo CPC deixa claro, agora, não se tratar de hipótese de inadmissão, mas sim
de conversão em recurso especial.

POSIÇÃO DO STF

Enunciado n° 636 da Súmula do STF: “Não cabe recurso extraordinário por contrariedade ao princípio
constitucional da legalidade, quando a sua verificação pressuponha rever a interpretação dada a 40
normas infraconstitucionais pela decisão recorrida.”

Aqui, da mesma forma, será necessário intimar a parte para que adeque os seus articulados
à forma do recurso especial, permitindo assim o seu conhecimento pelo STJ.

POSIÇÃO DO FPPC

Enunciado n° 565 do FPPC: “Na hipótese de conversão de recurso extraordinário em recurso especial
ou vice-versa, após a manifestação do recorrente, o recorrido será intimado para, no prazo do caput
do art. 1.032, complementar suas contrarrazões.”

Enunciado n° 566 do FPPC: “Na hipótese de conversão do recurso extraordinário em recurso especial,
nos termos do art. 1.033, cabe ao relator conceder o prazo do caput do art. 1.032 para que o recorrente
adapte seu recurso e se manifeste sobre a questão infraconstitucional.”

Superadas as questões discutidas acima, o Supremo Tribunal Federal julgará o processo,


aplicando o direito (art. 1.034, caput).

É preciso compreender o que significa aplicar o direito. É que os recursos excepcionais não
admitem discutir questões de fato. Servem, assim, em termos arcaicos, para aplicar o direito ao
caso concreto. Os fatos estão postos e as eventuais controvérsias foram discutidas e definidas pelo
tribunal a quo em seu acórdão. O recurso extraordinário, pois, somente poderá discutir se os
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

fundamentos jurídicos (=o direito) incidem ou não sobre aqueles fatos outrora delimitados. Não será
possível rediscuti-los.

POSIÇÃO DO STF

Enunciado n° 279 da Súmula do STF: “Para simples reexame de prova não cabe recurso
extraordinário.”

Enunciado n° 456 da Súmula do STF: “O Supremo Tribunal Federal, conhecendo do recurso


extraordinário, julgará a causa, aplicando o direito à espécie.”

6.2.1. Repercussão geral

Exige-se do recorrente, em sede de recurso extraordinário, a demonstração da repercussão


geral da matéria discutida. Significa que os interesses debatidos no caso concreto devem superar o
âmbito subjetivo dos litigantes. É necessário que a solução fixada para a causa reverbere para outros
casos semelhantes, sobre os quais incidirá o precedente firmado em sede de repercussão geral.

Isso se dará em duas situações:

Quando se tratar de questão relevante do ponto de vista econômico, político, social ou


41
jurídico. Esta é a noção tradicional de repercussão geral prevista no art. 1.035, §1°:

§ 1o Para efeito de repercussão geral, será considerada a existência ou não de questões relevantes do
ponto de vista econômico, político, social ou jurídico que ultrapassem os interesses subjetivos do
processo.

A ideia de relevante questão econômica, política, social ou jurídica é redigida em forma de


conceito jurídico indeterminado. Não há um rol de matérias que se enquadram no dispositivo. A
construção dependerá da fundamentação da decisão que reconheça ou rejeite a repercussão geral.

De toda sorte, cumulativamente, a questão relevante deve superar os interesses


subjetivos do processo.

Quando o acórdão recorrido contrariar a súmula ou jurisprudência dominante do STF


ou haja reconhecido a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal. Aqui estamos diante de
hipóteses legais de repercussão geral, que o legislador entendeu por bem permitir a admissão do
recurso extraordinário. Há uma razão fundamental: a proteção do sistema de precedentes e da
competência do STF como guardião da constituição. Através do rol presente no §3° do art. 1.035, o
legislador permite o acesso do recurso extraordinário à corte suprema e, consequentemente, a
prevalência de sua posição.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Assim, haverá repercussão geral sempre que o recurso impugnar acórdão que: i) contrarie
súmula ou jurisprudência dominante do Supremo Tribunal Federal; ii) tenha reconhecido a
inconstitucionalidade de tratado ou de lei federal, nos termos do art. 97 da Constituição Federal.

Aqui, há presunção absoluta de repercussão geral, devendo-se necessariamente admitir


o recurso extraordinário.

A maior dificuldade que tal previsão pode trazer respeita à compreensão do que é
jurisprudência dominante. Nos parece, nesse sentido, que poder-se-ia considerar dominante a
jurisprudência firmada em sede de recursos repetitivos ou mesmo fixada em repercussão geral
anteriormente. Os próprios precedentes vinculantes do STF (dentre os listados no art. 927) poderiam
ser compreendidos dentro desse conceito.

Sob a vigência do código anterior, a jurisprudência se firmou no sentido de exigir do recorrente


a abertura de um tópico, em preliminar, específico para a demonstração da repercussão geral. Nesse
sentido: RE n° 816499-GO; Ag.Rg no ARext n° 764381-PE; AgRg no ARext n° 756156-RJ; AgRg no
Arext n° 731695-SP. A inexistência do tópico, conforme este entendimento, leva o recurso
extraordinário à inadmissão desde o juízo provisório de admissibilidade no tribunal recorrido.
Havendo o tópico, a análise do conteúdo caberia ao próprio STF, decidindo ou não pela existência 42
da repercussão geral.

ATENÇÃO

A doutrina contrária ao entendimento jurisprudencial, entende que a ausência de um tópico específico


relativo à repercussão geral não leva à admissibilidade do recurso. Nos termos do Enunciado n° 224
do FPPC: “A existência de repercussão geral terá de ser demonstrada de forma fundamentada, sendo
dispensável sua alegação em preliminar ou em tópico específico.”

Sobre a alegação de repercussão geral constituir requisito de admissibilidade do recurso


extraordinário, há norma constitucional:

Art. 102, § 3º No recurso extraordinário o recorrente deverá demonstrar a repercussão geral das
questões constitucionais discutidas no caso, nos termos da lei, a fim de que o Tribunal examine a
admissão do recurso, somente podendo recusá-lo pela manifestação de dois terços de seus
membros.

Perceba-se, como forma de permitir o acesso à corte suprema, que o juízo do STF exige
manifestação pela inexistência de repercussão geral. Assim, caso dois terços dos membros não
rejeite a repercussão geral da matéria, impõe-se o juízo positivo de admissibilidade.

No mesmo sentido, o §2° do art. 1.035 prevê que o recorrente deverá demonstrar a existência
de repercussão geral para apreciação exclusiva pelo Supremo Tribunal Federal.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Na apreciação da questão e levando em conta a repercussão para além dos interesses


subjetivos, o Relator poderá admitir, na análise da repercussão geral, a manifestação de terceiros,
subscrita por procurador habilitado, nos termos do Regimento Interno do STF (§4°). Admite-se, pois,
a participação de amicus curiae no julgamento da repercussão geral da controvérsia.

Reconhecida a repercussão geral da matéria, o Relator da causa no STF determinará a


suspensão do processamento de todos os processos pendentes, individuais ou coletivos, que versem
sobre a questão e tramitem no território nacional (§5°).

Apesar de o §5° do art. 1.035 mencionar, ipsis literis, “reconhecida a repercussão geral”, na
verdade se trata de um juízo prévio sobre a questão. É que quem reconhece a repercussão geral
não é apenas o Relator, mas sim a composição completa do órgão julgador. Deve-se compreender,
pois, que o Relator apenas admite o debate sobre a questão, submetendo-a aos demais julgadores.

As consequências desse “reconhecimento da repercussão geral” reverberam para todas as


causas que tratem do tema, pois ficarão suspensas enquanto aguardam a solução do STF.

O código regula de maneira diversa uma situação excepcional: o recurso intempestivo


sobrestado. Veja-se o art. 1.035, §6°: 43
§ 6o O interessado pode requerer, ao presidente ou ao vice-presidente do tribunal de origem, que
exclua da decisão de sobrestamento e inadmita o recurso extraordinário que tenha sido interposto
intempestivamente, tendo o recorrente o prazo de 5 (cinco) dias para manifestar-se sobre esse
requerimento.

A ideia é que o recurso intempestivo não fique paralisado, aguardando o julgamento da


repercussão geral, quando seu fim é único e irremediável: a inadmissibilidade. Assim, uma vez
excluído do sobrestamento e inadmitido o recurso, haverá o trânsito em julgado da decisão, que
poderá ser desde logo executada. Caso o requerimento de exclusão do sobrestamento seja rejeitado,
caberá agravo interno (§7°) para impugnar a decisão.

Posta a solução ao órgão colegiado competente, nos termos do art. 102, §3° da CF, poderá
ser declarada ou rejeitada a existência de repercussão geral da questão. Em todo o caso, a súmula
da decisão sobre a repercussão geral constará de ata, que será publicada no diário oficial e valerá
como acórdão (§11).

Uma vez rejeitada a repercussão geral da matéria, em decisão irrecorrível, o recurso não
será conhecido.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Art. 1.035. O Supremo Tribunal Federal, em decisão irrecorrível, não conhecerá do recurso
extraordinário quando a questão constitucional nele versada não tiver repercussão geral, nos termos
deste artigo.

No mesmo sentido, quaisquer outros recursos que versem sobre a mesma questão terão
seguimento negado no próprio tribunal de origem, sequer sendo remetidos ao STF. É este o fim que
terão os recursos sobrestados, como dispõe o art. 1.035, §8°:

§ 8o Negada a repercussão geral, o presidente ou o vice-presidente do tribunal de origem negará


seguimento aos recursos extraordinários sobrestados na origem que versem sobre matéria idêntica.

Tanto os recursos sobrestados, quanto os recursos futuros que cheguem aos tribunais
versando sobre a matéria sem repercussão geral, conforme decidido pelo STF, terão seguimento
negado. Apesar de o tribunal recorrido somente verificar, em juízo prévio de admissibilidade, a
existência de alegação sobre a repercussão geral¸ em se tratando de matéria a respeito da qual já
decidiu o STF, caberá a negativa de seguimento do recurso.

Por outro lado, quando definitivamente reconhecida a repercussão geral e publicado o


acórdão desta decisão, o recurso afetado deverá ser julgado no prazo de 1 (um) ano e terá
preferência sobre os demais feitos, ressalvados os que envolvam réu preso e os pedidos de habeas 44
corpus.

Quanto aos demais recursos sobrestados, se consonantes com o tema de repercussão geral
reconhecida, aguardarão o julgamento final da questão pelo STF e a fixação da tese vencedora.

6.3. CONCESSÃO DE EFEITO SUSPENSIVO AOS RECURSOS EXCEPCIONAIS

Os recursos excepcionais possuem somente efeito devolutivo. Não possuem, em regra, efeito
suspensivo. Assim, uma vez proferido o acórdão, mesmo atacado pelo recurso especial e/ou
extraordinário, admitir-se-á o cumprimento provisório da decisão. Todavia, é possível que o
requerente requeira ao Relator do recurso a concessão de efeito suspensivo.

Trata-se da concessão de uma tutela provisória recursal. Em outros termos, para que o
tribunal a quo ou ad quem receba os recursos excepcionais com efeito suspensivo, cabe ao
recorrente demonstrar os requisitos para concessão das tutelas provisórias de urgência ou de
evidência.

A competência para receber e decidir sobre o pedido dependerá da fase em que o recurso
excepcional se encontra em processamento. Trata-se do art. 1.029, §5°, que delimita
detalhadamente:
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

§ 5o O pedido de concessão de efeito suspensivo a recurso extraordinário ou a recurso especial poderá


ser formulado por requerimento dirigido:

I – ao tribunal superior respectivo, no período compreendido entre a publicação da decisão de admissão


do recurso e sua distribuição, ficando o relator designado para seu exame prevento para julgá-lo;

II - ao relator, se já distribuído o recurso;

III – ao presidente ou ao vice-presidente do tribunal recorrido, no período compreendido entre a


interposição do recurso e a publicação da decisão de admissão do recurso, assim como no caso de o
recurso ter sido sobrestado, nos termos do art. 1.037.

O requerimento a que se refere o dispositivo acima colacionado pode ser feito por simples
petição ou mesmo no corpo do recurso. Obviamente, no último caso, a hipótese de competência será
do inciso III, ou seja, do presidente ou vice-presidente do tribunal recorrido. Por exclusão, o tribunal
superior somente conhecerá do pedido através de petição simples, que sempre deverá fazer
referência ao recurso interposto.

Caso o recurso reste sobrestado na origem por aplicação da sistemática dos recursos
repetitivos, a competência para conhecer do pedido de concessão de efeito suspensivo (parte final
do inciso III) será também do tribunal local.
45
6.4. RECURSOS REPETITIVOS

Os recursos extraordinário e especial repetitivos fazem parte do microssistema de julgamento


de causas repetitivas, nos termos do art. 928, II, caput, do CPC. Há duas principais funções do
microssistema: i) gerir de forma eficiente causas repetitivas, evitando decisões conflitantes; ii)
formar precedentes vinculantes.

O art. 927, III, do CPC prevê que o acórdão proferido em sede de incidente de assunção de
competência ou de resolução de demandas repetitivas possui eficácia obrigatória. Trata-se, pois, de
precedente vinculante.

O tratamento do tema como microssistema significa que as normas reguladoras de cada um


dos seus institutos se comunicam, conformando um arcabouço normativo. Assim, em regra, as
normas aplicáveis ao IRDR podem incidir sobre recursos repetitivos e vice-versa, especialmente
como forma de superar lacunas.

O IRDR já foi discutido anteriormente. Nos cabe tratar, agora, do recurso especial e do recurso
extraordinário repetitivos, regulados de forma geral nos arts. 1.036 a 1.041 do CPC, não obstante o
código se refira expressamente ao tratamento do tema pelos Regimentos Internos de STF e STJ.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Tais recursos estão vocacionados a solucionar causas repetitivas exclusivamente de


direito (material ou processual). Não há que se falar em solução de questões de fato em sede de
recurso especial e extraordinário repetitivos. Veja-se o caput do art. 1.036:

Art. 1.036. Sempre que houver multiplicidade de recursos extraordinários ou especiais com
fundamento em idêntica questão de direito, haverá afetação para julgamento de acordo com as
disposições desta Subseção, observado o disposto no Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal
e no do Superior Tribunal de Justiça.

A afetação de um recurso é a sua escolha para funcionar como causa-piloto no


julgamento da questão de direito pelo STJ ou STF. Diz-se, pois, que um recurso é efetado quando
é selecionado e destacado (nos termos dos arts. 1.030, IV e 1.036, §1°) para funcionar como
representativo da controvérsia, submetendo-se a julgamento e servindo à fixação da tese
vinculante.

Há duas formas de seleção dos recursos a serem afetados.

A primeira e regra geral se dá através do presidente ou vice-presidente do tribunal recorrido


(TJ ou TRF), que seleciona 2 (dois) ou mais recursos representativos da controvérsia para serem
encaminhados ao STF ou STJ com fins de afetação. Ao fazê-lo, determinará também a suspensão 46
(=sobrestamento) do trâmite de todos os processos pendentes, individuais ou coletivos, que
tramitem no Estado ou região.

À exceção dos recursos afetados, todos os demais ficarão sobrestados aguardando o


julgamento do recurso representativo da controvérsia. Impõe-se a suspensão do trâmite de todos os
processos pendentes, individuais ou coletivos, que tramitem no TJ ou TRF responsável pela afetação
do recurso representativo da controvérsia. Suspendem-se todos os processos, em qualquer fase,
enquanto se aguarda o julgamento do STF ou STJ sobre a matéria.

É possível, doutra via, que o próprio Relator no tribunal superior também selecione 2 (dois)
ou mais recursos representativos da controvérsia para julgamento da questão de direito
independentemente da iniciativa do presidente ou do vice-presidente do tribunal de origem (§5°).

A seleção de dois ou mais recursos visa dar ao STF ou STJ uma visão completa da questão
de direito repetitiva. Os casos escolhidos devem, cumulativamente, ser admissíveis e refletir a
controvérsia em todos os seus termos, favorecendo a ampliação do debate e proporcionando uma
decisão de melhor qualidade. O presidente ou vice-presidente do tribunal local, na afetação do
recurso representativo da controvérsia, somente poderá selecionar recursos admissíveis que
contenham abrangente argumentação e discussão a respeito da questão a ser decidida (art. 1.036,
§6°).
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

O Relator da causa no tribunal superior não está vinculado a escolha dos recursos a serem
afetados procedida no TJ ou TRF. Em verdade, quando tiver conhecimento da questão, o Ministro
poderá selecionar outros recursos representativos da controvérsia (§4°). Trata-se de mais um
instrumento de melhoria na qualidade da decisão que formará o precedente vinculante.

Toda a atuação acima destacada constará da chamada decisão de afetação proferida no


tribunal superior. Nos termos do art. 1.037, caput, selecionados os recursos, o Relator, no tribunal
superior, constatando a presença do pressuposto do caput do art. 1.036, proferirá decisão de
afetação, na qual: i) identificará com precisão a questão a ser submetida a julgamento; ii) determinará
a suspensão do processamento de todos os processos pendentes, individuais ou coletivos, que
versem sobre a questão e tramitem no território nacional; iii) poderá requisitar aos presidentes ou
aos vice-presidentes dos tribunais de justiça ou dos tribunais regionais federais a remessa de um
recurso representativo da controvérsia.

Quanto à suspensão em âmbito nacional, a ressalva fica por conta dos recursos
intempestivos. O art. 1.036, §2° repete a regra inscrita no art. 1.035, §6°, ao autorizar que o recurso
intempestivo seja excluído da decisão de sobrestamento. Incide aqui o mesmo que fora dito
anteriormente. 47
Os §1° a 7° do art. 1.037, regulam aspectos procedimentais relativos ao processamento dos
recursos repetitivos.

Se, após receber os recursos selecionados pelo presidente ou pelo vice-presidente de tribunal
de justiça ou de tribunal regional federal, não se proceder à afetação, o Relator, no tribunal superior,
comunicará o fato ao presidente ou ao vice-presidente que os houver enviado, para que seja
revogada a decisão de suspensão das demais causas não selecionadas (art. 1.036, § 1o, segunda
parte).

Tendo em conta que os recursos podem ser selecionados pelos TJs e TRFs, é possível que
o mesmo tema seja remetido à corte superior por mais de um tribunal. No caso, será prevento o
Relator que primeiro tiver proferido a decisão onde se identifica com precisão a questão a ser
submetida a julgamento. Perceba-se, o Relator prevento não é aquele que primeiro teve recursos
repetitivos a si distribuídos, mas o primeiro que define precisamente os limites da questão que
será posta a julgamento pela corte superior.

O código institui ainda um prazo para julgamento do recurso: 1 ano. Assim, os recursos
afetados deverão ser julgados no prazo de 1 (um) ano e terão preferência sobre os demais feitos,
ressalvados os que envolvam réu preso e os pedidos de habeas corpus.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Na redação original, o CPC dispunha, no §5° do art. 1.037, sobre uma consequência direta
do desrespeito do prazo de um ano para julgamento: cessava a afetação e as causas sobrestadas
voltariam a correr. Por isso, fazia sentido a previsão (ainda vigente) do §6°, ao autorizar, na hipótese
de cessar a afetação e suspensão, que outro Relator do respectivo tribunal superior afete 2 (dois) ou
mais recursos representativos da controvérsia. Com a revogação do §5° pela lei n° 13.256/2016, o
esquecido §6°, ficou sem sentido algum.

Atente-se, ainda, à possibilidade de o Relator da causa na corte superior requisitar aos


presidentes ou aos vice-presidentes dos tribunais de justiça ou dos tribunais regionais federais a
remessa de um recurso representativo da controvérsia (art. 1.036, §5° c/c art. 1.037, caput, III). Nesse
caso, quando tais recursos contiverem outras questões além daquela que é objeto da afetação,
caberá ao tribunal decidir a temática afetada em primeiro lugar e depois as demais, em acórdão
específico para cada processo.

É possível que um recurso contendo diversos objetos seja afetado para decisão de somente
um deles. Na hipótese, os pontos nele constantes que não tenham sido afetados para submissão ao
sistema de formação do precedente obrigatório, serão decididos em acórdão específico, depois da
solução dada à questão repetitiva. 48
Após a afetação dos recursos e a solução de eventuais questões incidentais, mormente
relacionadas à ampliação do diálogo processual (tratadas em tópico adiante), será remetida cópia do
relatório aos demais ministros, incluindo-se em pauta. O julgamento ocorrerá com preferência sobre
os demais feitos, ressalvados os que envolvam réu preso e os pedidos de habeas corpus (art. 1.038,
§2°).

Em respeito ao dever de fundamentação (art. 93, IX da CF c/c art. 489, §1°, do CPC) o
conteúdo do acórdão abrangerá a análise dos fundamentos relevantes da tese jurídica
discutida.

POSIÇÃO DO FPPC

Enunciado n° 305 do FPPC: “No julgamento de casos repetitivos, o tribunal deverá enfrentar todos os
argumentos contrários e favoráveis à tese jurídica discutida, inclusive os suscitados pelos interessados”

Encerrado o julgamento, restará formado o precedente obrigatório, a ser aplicado a todos


os casos sobrestados na origem, como ocorre também no IRDR. Todos os desdobramentos da
formação dos precedentes vinculantes se aplicarão ao caso, sem tirar nem por.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Uma vez decididos os recursos afetados e publicado o acórdão paradigma, há consequências


diversas para as demais causas que versem a respeito da mesma matéria. Vejamos:

Os processos suspensos em primeiro e segundo graus de jurisdição retomarão o curso para


julgamento e aplicação da tese firmada pelo tribunal superior (art. 1.040, III);

Eventuais novos recursos posteriormente interpostos nos tribunais a quo restarão julgados
por decisão unipessoal na origem, pelo próprio Relator, conforme autorização expressa do art. 932,
incisos IV e V.

Os recursos que hajam sido distribuídos aos órgãos colegiados e posteriormente sobrestados
serão declarados prejudicados caso a decisão recorrida tenha decidido a questão no mesmo
sentido do precedente vinculante formado no âmbito do STF/STJ (art. 1.039, caput, primeira parte).

Os recursos que hajam sido distribuídos aos órgãos colegiados e posteriormente sobrestados
serão julgados com a aplicação da tese firmada caso a decisão recorrida tenha decidido a questão
em sentido oposto ao precedente vinculante formado no âmbito do STF/STJ (art. 1.039, caput,
primeira parte).

Os recursos especiais e extraordinários eventualmente sobrestados na origem terão seu


49
seguimento negado pelo presidente ou vice-presidente do tribunal de origem, se o acórdão
recorrido coincidir com a orientação do tribunal superior (art. 1.040, caput, I).

O órgão que proferiu o acórdão recorrido, na origem, reexaminará (=rejulgará) o processo


de competência originária, a remessa necessária ou o recurso anteriormente julgado, se o acórdão
recorrido contrariar a orientação do tribunal superior (art. 1.040, caput, II). Nesse caso, o novo
julgamento deverá seguir o entendimento da corte superior sobre a matéria.

Mantido o acórdão divergente pelo tribunal de origem, o recurso especial ou extraordinário


será remetido ao respectivo tribunal superior (art. 1.041, caput). Lá, admitido o recurso, a tese firmada
será aplicada ao caso.

Promovido o rejulgamento e tendo o tribunal a quo realizado o juízo de retratação, com


alteração do acórdão divergente, o tribunal de origem, se for o caso, decidirá as demais questões
ainda não decididas cujo enfrentamento se tornou necessário em decorrência da alteração do
julgamento original para adequá-lo à tese fixada pela corte superior (art. 1.041, §1°).

Quando o caso reapreciado versar sobre outras questões e estas forem objeto do
recurso especial e/ou extraordinário, caberá ao presidente ou vice-presidente do tribunal recorrido,
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

depois do reexame pelo órgão de origem e independentemente de ratificação do recurso, sendo


positivo o juízo de admissibilidade, determinar a remessa do recurso ao tribunal superior para
julgamento das demais questões (art. 1.041, §2°).

No caso do recurso extraordinário afetado para julgamento, há ainda uma situação


específica: caso negada a existência de repercussão geral da matéria, serão considerados
automaticamente inadmitidos os recursos extraordinários cujo processamento tenha sido
sobrestado (art. 1.039, p.ú.). Trata-se da consequência regular da inexistência de repercussão geral.

Ainda, se os recursos versarem sobre questão relativa a prestação de serviço público


objeto de concessão, permissão ou autorização, o resultado do julgamento será comunicado ao
órgão, ao ente ou à agência reguladora competente para fiscalização da efetiva aplicação, por parte
dos entes sujeitos a regulação, da tese adotada (art. 1.040, p. ú.). O mesmo ocorre no IRDR,
aplicando-se aqui o mesmo dito naquela oportunidade.

Ademais, os parágrafos do art. 1.040 consagram um estímulo aos litigantes, como forma de
tentar reduzir as demandas propostas em sentido diverso do entendimento firmado pelas cortes
superiores no julgamento dos recursos repetitivos. Fixada a tese no recurso repetitivo, a parte que
teve sua causa sobrestada no primeiro grau de jurisdição (somente), poderá dela desistir antes de 50
proferida a sentença, se a questão nela discutida for idêntica à resolvida pelo recurso representativo
da controvérsia (§1°).

A desistência, nesse caso, independe de consentimento do réu, ainda que apresentada


contestação (§3°). Se a desistência ocorrer antes de oferecida contestação, a parte ficará isenta do
pagamento de custas e de honorários de sucumbência (§2°).

Trata-se evidentemente de uma sanção premial, com o objetivo de diminuir o número de


demandas e o respeito aos precedentes obrigatórios. Essa é uma regra geral do microssistema de
solução de causas repetitivas, aplicando-se também ao IRDR.

6.4.1. Distinção entre as questões afetada e sobrestada

A afetação de uma questão para ser decidida na sistemática dos recursos repetitivos faz com
que as demais causas que versem sobre a mesma matéria sejam suspensas. Ocorre, todavia, que
dentre as causas atingidas pela suspensão, pode ser que esteja um caso que não se assemelha a
questão a ser decidida pelo STJ/STF.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Visando proteger as partes da causa sobrestada em situações como esta, o CPC prevê a
possibilidade de se proceder ao distinguishing entre a questão afetada e a causa sobrestada,
permitindo assim o seu prosseguimento. O tema é regulado no art. 1.037, §§ 8° a 13 do CPC.

Ao serem noticiados da decisão de afetação da questão, caberá aos tribunais selecionarem


as causas e decidir por sobrestá-las. As partes deverão ser intimadas da decisão de suspensão de
seu processo, a ser proferida pelo respectivo juiz ou relator quando informado da decisão de
afetação.

Comunicadas da decisão, as partes poderão requerer o prosseguimento do seu processo,


demonstrando distinção entre a questão a ser decidida no processo e aquela a ser julgada no recurso
repetitivo.

O requerimento, formulado em petição simples, será dirigido: i) ao juiz, se o processo


sobrestado estiver em primeiro grau; ii) ao Relator, se o processo sobrestado estiver no tribunal de
origem; iii) ao Relator do acórdão recorrido, se for sobrestado recurso especial ou recurso
extraordinário no tribunal de origem; iv) ao Relator, no tribunal superior, de recurso especial ou de
recurso extraordinário cujo processamento houver sido sobrestado.
51
POSIÇÃO DO FPPC

Enunciado n° 348 do FPPC: “Os interessados serão intimados da suspensão de seus processos individuais,
podendo requerer o prosseguimento ao juiz ou tribunal onde tramitarem, demonstrando a distinção entre a
questão a ser decidida e aquela a ser julgada no incidente de resolução de demandas repetitivas, ou nos
recursos repetitivos.”

Enunciado n° 364 do FPPC: “O sobrestamento da causa em primeira instância não ocorrerá caso se mostre
necessária a produção de provas para efeito de distinção de precedentes.”

Recebido o requerimento, o magistrado intimará a parte adversa, que será ouvida a respeito
em 5 (cinco) dias. Após, o magistrado decidirá a respeito. Se negada a distinção, mantem-se o
sobrestamento. Todavia, reconhecida a distinção, o próprio juiz ou Relator dará prosseguimento à
causa.

Sendo hipótese de o recurso especial ou extraordinário restar sobrestado no tribunal de


origem, o Relator (pois é ele que decidirá o requerimento de distinção) comunicará a decisão ao
presidente ou ao vice-presidente que houver determinado o sobrestamento, para que o recurso seja
encaminhado ao respectivo tribunal superior.

Da decisão que resolver o requerimento de distinguishing caberá: i) agravo de instrumento,


se o processo estiver em primeiro grau; ii) agravo interno, se a decisão for de Relator.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

6.4.2. Ampliação do diálogo democrático na construção do precedente

Os recursos repetitivos, instrumentos aptos à uniformização de jurisprudência, reforçam e


protegem a isonomia e a segurança jurídica. Forma-se um precedente que será aplicado em todos
os casos semelhantes. Por isso, impõe-se a ampliação do diálogo democrático em sua construção.
Há dois instrumentos que se destacam: a intervenção do amicus curiae e a realização de audiências
públicas.

Caberá a participação do amicus curiae, terceiro interveniente cuja função é contribuir com
o debate, trazendo elementos que agreguem e ajudem no raciocínio e na reflexão dos julgadores,
permitindo uma decisão de melhor conteúdo, mais racional e adequada.

Assim, no tribunal superior, o relator poderá solicitar ou admitir manifestação de pessoas,


órgãos ou entidades com interesse na controvérsia, considerando a relevância da matéria e
consoante dispuser o regimento interno (art. 1.038, §1°). A disciplina geral sobre o “amigo da corte”
está no art. 138 do CPC, aplicando-se aqui tudo que comentamos a respeito no volume anterior desta
coleção.

Destaque-se a previsão constante do §3º do art. 138, que permite ao amicus curiae recorrer 52
da decisão proferida em IRDR. Como os recursos repetitivos conformam uma técnica de solução de
causas repetitivas, fazendo parte do microssistema respectivo, se o amicus curiae pode recorrer de
acórdão em IRDR, pode recorrer também de acórdão proferido em recurso especial ou extraordinário
repetitivo, opondo embargos de declaração ou interpondo recurso extraordinário contra acórdão
proferido em recurso especial.

POSIÇÃO DO STF

O pedido de intervenção, na qualidade de amicus curiae, em recurso especial submetido à sistemática


dos recursos repetitivos pode ser realizado até a inclusão do processo na pauta de julgamento,
conforme decidido pelo STF na ADIn n° 4071.

Além da intervenção do amicus curiae, é possível a promoção de audiências públicas. Nos


termos do art. 1.038, caput, II, o Relator poderá fixar data para, em audiência pública, ouvir
depoimentos de pessoas com experiência e conhecimento na matéria, com a finalidade de instruir o
procedimento.

É possível, ainda, a troca de informações entre o Relator da causa no STF ou STJ e as demais
instâncias inferiores. Conforme dispõe o art. 1.038, caput, III, o Relator poderá requisitar informações aos
tribunais inferiores a respeito da controvérsia e, cumprida a diligência, intimará o Ministério Público para
manifestar-se.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

A participação dos tribunais inferiores, aqui, será de suma importância, pois estando mais
próximos das partes e do conflito, podem corroborar com a delimitação do contexto fático no qual
surgiu o conflito de direito. Ainda que somente possa ser resolvida questão de direito, muitas vezes
para se chegar a uma solução é importante conhecer a situação fática que inspirou a controvérsia.

Havendo a requisição de informações aos tribunais inferiores, o Ministério Público também


será ouvido. O parquet, da mesma forma, poderá corroborar com aspectos fáticos e jurídicos. A
manifestação dos tribunais inferiores e do MP deverá ocorrer no prazo de 15 (quinze) dias, e os atos
serão praticados, sempre que possível, por meio eletrônico (§1°).

Transcorrido o prazo para o Ministério Público e remetida cópia do relatório aos demais
ministros, o julgamento terá prosseguimento (§2°, primeira parte).

6.4.3. Outras regras aplicáveis aos recursos repetitivos

Espalhadas pelo novo CPC, há diversas menções aos recursos repetitivos que merecem
nota. Vejamos as principais:

Demandar contra entendimento fixado em recurso repetitivo leva à improcedência liminar


do pedido (art. 332, II) .
53

Demandar no mesmo sentido do entendimento firmado em julgamento de caso repetitivo


permite a concessão de tutela provisória de evidência (art. 311, II) quando as alegações de fato
puderem ser comprovadas apenas documentalmente.

Dispensa-se a remessa necessária quando o julgamento contrário à Fazenda Pública se


basear em precedente firmado em recurso especial ou extraordinário repetitivo (art. 496, §4°, II).

Em sede de execução provisória não será necessário oferecer caução para levantar
valores penhorados ou transferir domínio de coisa se o título exequendo for decisão baseada em
precedente vinculado formado em IRDR (art. 521, IV).

O Relator poderá julgar monocraticamente o recurso que tenha por objeto tese firmada
em recursos repetitivos (art. 932, IV e V).

O julgamento dos casos sobrestados, após a fixação definitiva da tese em recursos


repetitivos, não precisa respeitar a ordem preferencial de julgamento instituída no art. 12 do CPC.

7. AGRAVO EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO E RECURSO ESPECIAL


Direito Processual Civil - Recursos em espécie

O Agravo em Recurso Especial e em Recurso Extraordinário é um instrumento destinado a


rever as decisões de inadmissibilidade proferidas pelos tribunais recorridos. O juízo de
admissibilidade positivo é irrecorrível, mas o juízo de admissibilidade negativo será objeto de recurso
de agravo, conforme previsto no art. 1.042.

Tem-se, pois, um instrumento destinado a destrancar o processamento dos recursos


excepcionais que restaram inadmitidos nas instâncias inferiores. Veja-se, o caput do art. 1.042:

Art. 1.042. Cabe agravo contra decisão do presidente ou do vice-presidente do tribunal recorrido que
inadmitir recurso extraordinário ou recurso especial, salvo quando fundada na aplicação de
entendimento firmado em regime de repercussão geral ou em julgamento de recursos repetitivos.

Há uma importante ressalva na parte final do dispositivo colacionado: não caberá o agravo
do art. 1.042 quando a inadmissibilidade do recurso especial ou extraordinário estiver baseada em
repercussão geral ou julgamento de recursos repetitivos.

O recurso cabível, nas duas hipóteses específicas, será o “agravo interno, para o próprio
plenário ou para o órgão especial do próprio tribunal de origem, a fim de que se faça a distinção para
deixar de aplicar o precedente ao caso” (DIDIER Jr., et al. 2016-b. p. 380). Dessa forma, é de suma
importância ao recorrente, quando a decisão de inadmissibilidade houver se justificado nestes 54
precedentes, que proceda ao distinguishing através do manejo de agravo interno, justificando as
razões pelas quais o seu caso concreto não se adequa aos que fundamentaram a decisão pela
inadmissibilidade.

Esta compreensão tem uma razão de ser: a aplicação dos precedentes vinculantes pelos
tribunais tem como um dos seus objetivos racionalizar a atuação do Poder Judiciário, evitando que
questões já resolvidas cheguem às instâncias superiores. Assim, de nada adiantaria, face à decisão
de inadmissibilidade em razão de repercussão geral ou julgamento de caso repetitivo, a interposição
do agravo previsto no art. 1.042, pois a questão já julgada chegaria novamente ao conhecimento do
tribunal superior por uma via transversa. Por isso, nas hipóteses específicas da parte final do caput,
o recurso cabível é o agravo interno, cuja competência para julgamento é do próprio tribunal a quo.

Existem, todavia, diversas outras questões que justificam o juízo de admissibilidade negativo
dos recursos excepcionais como, por exemplo, a pretensão de rediscutir questões de fato (Enunciado
n° 7 da Súmula do STJ) ou a ausência de prequestionamento da matéria. Em tais situações, o recurso
cabível será o agravo em recurso especial e extraordinário.

É preciso compreender uma nuance: o mérito do agravo previsto no art. 1.042 é diverso do
mérito do recurso especial ou extraordinário inadmitido. Enquanto o recurso inadmitido tem por objeto
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

rediscutir o acórdão impugnado, o agravo para destrancá-lo tem por objeto rever as razões que
levaram ao juízo de inadmissibilidade. Ou seja, as matérias discutidas em um e em outro não se
confundem, em absoluto.

7.1. PROCEDIMENTO

O procedimento do agravo em recurso especial e extraordinário é regulado pelos parágrafos


do art. 1.042 do CPC. Seus articulados serão dirigidos ao Presidente ou ao Vice-presidente do
tribunal de origem e independe do pagamento de custas e despesas postais (§2°, primeira parte).
Aplica-se o prazo geral de 15 dias.

O recurso deve ser dirigido ao julgador responsável pela inadmissão do recurso especial ou
extraordinário. Ainda, não há necessidade de recolher novo preparo.

A parte final do §2° deixa claro que se aplica ao agravo o regime de repercussão geral e de
recursos repetitivos, inclusive quanto à possibilidade de sobrestamento e do juízo de retratação.
Assim:

O agravo para destrancar recurso excepcional possui efeito regressivo, permitindo o juízo
de retratação.
55

É possível que os agravos em recurso excepcional sejam repetitivos ou a questão neles


debatida se submeta ao regime da repercussão geral. Aplicar-se-á o mesmo regime de julgamento
dos recursos principais. Possível, pois, que haja julgamento de agravo em recurso especial e
extraordinário repetitivo.

Recebido o recurso, o agravado será intimado, de imediato, para oferecer resposta no prazo
de 15 (quinze) dias (§3°).

Diante das razões do recurso e das contrarrazões, será possível o exercício do juízo de
retratação. Sendo o caso, o agravo será resolvido e o processo remetido ao tribunal superior para
apreciação e conhecimento do recurso especial e/ou extraordinário.

Não havendo retratação, todavia, o agravo será remetido ao tribunal superior competente
(STJ/STF). Assim, não há juízo de admissibilidade do agravo perante o tribunal recorrido. Este
juízo é de competência privativa do tribunal superior.

A remessa do agravo se faz nos próprios autos do processo principal, ou seja, seguem à
instância superior não somente o agravo, mas sim todo o processo. É importante esta constatação
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

pelo seguinte: o agravo do art. 1.042 não é de instrumento. Não há processamento em apartado,
pois interposto nos próprios autos.

POSIÇÃO DO FPPC

Enunciado n° 225 do FPPC: “O agravo em recurso especial ou extraordinário será interposto nos
próprios autos.”

Ainda, sob a redação original do CPC/73, este agravo era de instrumento. Hoje não é mais e, por isso,
foram superados os enunciados n° 288 e 639 da Súmula do STJ, incompatíveis com o agravo nos
próprios autos.

Esta remessa de todo processo permite que o agravo seja julgado e, uma vez provido, que o
tribunal superior avance ao exame do recurso excepcional sem necessidade de os autos voltarem à
instância inferior. Conforme dispõe o §5°, o agravo poderá ser julgado, conforme o caso,
conjuntamente com o recurso especial ou extraordinário, assegurada, neste caso, sustentação oral,
observando-se, ainda, o disposto no regimento interno do tribunal respectivo.

Os Regimentos Internos dos tribunais superiores dão aos respectivos Relatores a


competência para apreciar o agravo. Somado a isso, incide aqui o art. 932, analisado em capítulo
anterior. 56
Do julgamento do agravo caberá o manejo de agravo interno para o órgão colegiado, salvo
se julgado conjuntamente com o recurso especial ou extraordinário, pois ambos serão julgados na
mesma sessão. Esta parece ser a recepção, pelo CPC, da hipótese de “conversão” do agravo no
recurso principal, já prevista nos regimentos internos das cortes superiores.

Conhecido e provido o agravo, caberá à turma conhecer do recurso excepcional


“destrancado”. Conhecido e desprovido o agravo, o recurso excepcional não será conhecido.

Ainda, os §§6° e 7° do art. 1.042 dispõem a respeito das regras de interposição do agravo
quando tiver havido, concomitantemente, a interposição de recurso especial e recurso extraordinário.

Na de interposição conjunta de recursos extraordinário e especial, o agravante deverá


interpor um agravo para cada recurso não admitido (§6°). Sendo inadmitido somente um dos
recursos excepcionais, deverá ser interposto somente um agravo. Aqui, como a causa exigiu a
interposição de ambos os recursos excepcionais, a inadmissão de um deles prejudicará o
conhecimento do outro e, por isso, a decisão de inadmissibilidade deverá ser combatida por agravo
caso a parte deseje que o outro recurso seja conhecido.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Havendo apenas um agravo, o recurso será remetido ao tribunal competente, e, havendo


interposição conjunta, os autos serão remetidos ao Superior Tribunal de Justiça (§7°). Tais regras,
pois, tornam o processamento do agravo semelhante ao dos recursos excepcionais que visa
destrancar.

Concluído o julgamento do agravo pelo STJ e, se for o caso, do recurso especial,


independentemente de pedido, os autos serão remetidos ao STF para apreciação do agravo a ele
dirigido, salvo se estiver prejudicado (§8°).

A remessa dos autos ao STF dependerá da utilidade do recurso extraordinário após o exame
do agravo. Vejamos as situações:

Agravo provido, recurso especial provido, matéria infraconstitucional suficiente para a


reforma do acórdão – somente haverá remessa ao STF se o recurso extraordinário versar sobre
capítulo diverso e independente. Se o provimento do recurso especial for suficiente à satisfação da
pretensão do recorrente, o recurso especial perderá o objeto.

Agravo provido, recurso especial desprovido, matéria infraconstitucional mantida na


forma do acórdão – somente haverá remessa ao STF se o recurso extraordinário versar sobre 57
capítulo diverso e independente. Caso os fundamentos infraconstitucionais sejam suficientes à
manutenção do decisium, da mesma forma não haverá interesse no conhecimento do recurso
extraordinário.

Agravo desprovido, recurso especial não conhecido, matéria infraconstitucional


mantida na forma do acórdão – nesse caso, impõe-se a remessa ao STF, caso haja agravo para
destrancar o recurso extraordinário apto a alterar, por seus próprios fundamentos, o acórdão
recorrido. É que o STJ, ao desprover o agravo, encerra sua atuação na causa. Pendente de
julgamento o agravo para destrancar o recurso extraordinário, somente o Supremo poderá dele
conhecer e julgar.

7.1.1. Interesse recursal

Somente haverá interesse na interposição do agravo caso a inadmissibilidade do recurso


excepcional seja total.

Explique-se: há recursos excepcionais interpostos com base em mais de uma das hipóteses
de cabimento. O recurso especial pode ser interposto com base em qualquer das alíneas do art. 105,
III, da CF. Caso seja inadmitido somente por um de seus fundamentos, “subirá” ao tribunal superior
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

por força de outro fundamento. Lá estando, em juízo de admissibilidade definitivo, o recurso poderá
ser conhecido. Não haverá, pois, interesse no agravo.

Em suma, a admissão/inadmissão parcial do recurso excepcional não permite a interposição


do agravo.

8. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA

Os embargos de divergência são um recurso de competência somente do STJ e do STF. Sua


interposição se dá internamente, com o objetivo de uniformizar a jurisprudência desses tribunais.

As hipóteses de manejo do recurso se dão quando houver divergência entre órgãos


fracionários dentro do próprio tribunal, sobre questão de mérito, processual ou material. Veja-se o
art. 1.043, caput (alteradas pela lei n° 13.256/2016):

Art. 1.043. É embargável o acórdão de órgão fracionário que:

I - em recurso extraordinário ou em recurso especial, divergir do julgamento de qualquer outro órgão


do mesmo tribunal, sendo os acórdãos, embargado e paradigma, de mérito; (...)

III - em recurso extraordinário ou em recurso especial, divergir do julgamento de qualquer outro órgão 58
do mesmo tribunal, sendo um acórdão de mérito e outro que não tenha conhecido do recurso, embora
tenha apreciado a controvérsia; (...)

É o caso de um acórdão de turma do STF no julgamento de recurso extraordinário que divirja


de julgamento da outra turma ou do próprio plenário sobre a mesma matéria. Perceba-se o seguinte:
só caberá o manejo dos embargos de divergência em face de acórdão proferido em
julgamento de recurso extraordinário ou especial por órgão fracionário, incluindo-se aí o
acórdão proferido em sede de agravo interno ou agravo em recurso especial ou extraordinário que
leve ao julgamento do recurso excepcional.

POSIÇÃO DO FPPC

Enunciado n° 230 do FPPC: “Cabem embargos de divergência contra acórdão que, em agravo interno
ou agravo em recurso especial ou extraordinário, decide recurso especial ou extraordinário.”

Assim, não caberá a interposição do recurso diante de acórdão proferido pelo plenário ou
órgão especial.

O acórdão recorrido será aquele proferido em sede de recurso especial (STJ) ou recurso
extraordinário (STF). Todavia, o acórdão paradigma utilizado para demonstrar a divergência interna
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

através do confronto das teses jurídicas, pode ter sido proferido tanto em julgamentos de recursos
quanto de ações de competência originária (§1°).

O inciso III do caput supera antiga peleja jurisprudencial. É que muitas vezes os votos
proferidos pelos juízes componentes do órgão fracionário eram no sentido de não conhecer do
recurso embora adentrassem no mérito. Muitas vezes, pois, acórdãos que entendiam pelo não
conhecimento do recurso apreciavam toda a questão de mérito (=a controvérsia). O novo CPC
permite expressamente que um dos acórdãos (o embargado ou o paradigma) seja de não
conhecimento do recurso, quando apreciada a controvérsia.

Outra questão de suma importância está no §2° do art. 1.043, ao prever que a divergência
que autoriza a interposição de embargos de divergência pode verificar-se na aplicação do direito
material ou do direito processual.

O fundamento do recurso pode ser tanto uma questão de direito processual (por exemplo, a
existência de preclusão ou não para o conhecimento de uma certa alegação) quanto uma questão
de direito material (por exemplo, se a parte tem direito ou não a determinado benefício
previdenciário). Caberá o manejo dos embargos de divergência em qualquer destas situações.
59
É possível, excepcionalmente, que acórdão recorrido e acórdão paradigma sejam
originários do mesmo órgão fracionário, desde que sua composição tenha sofrido alteração em
mais da metade de seus membros (§3°). A exceção é plenamente justificada. Ora, se a composição
de um órgão fracionário é alterada em mais da metade de seus membros, apesar de sua posição
dentro da estrutura do tribunal não se alterar, na prática estaremos diante de um “grupo de
julgadores” bem diferente, apto a proferir entendimento divergente sobre a mesma matéria
anteriormente decidida.

POSIÇÃO DO STJ

Em diversos entendimento sumulados o STJ dispõe a respeito de hipóteses de não cabimento dos
embargos de divergência. Vejamos alguns dos enunciados, todos construídos antes da vigência do
novo CPC:

Enunciado n° 158 da Súmula: “Não se presta a justificar embargos de divergência o dissídio com
acórdão de Turma ou Seção que não mais tenha competência para a matéria neles versada.”

Enunciado n° 168 da Súmula: “Não cabem embargos de divergência, quando a jurisprudência do


Tribunal se firmou no mesmo sentido do acórdão embargado.”

Enunciado n° 315 da Súmula: “Não cabem embargos de divergência no âmbito do agravo de


instrumento [hoje agravo em recurso especial e em recurso extraordinário] que não admite recurso
especial.”
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

Ainda, tratando do cabimento dos embargos de divergência, há o Enunciado n° 316 da Súmula:


“Cabem embargos de divergência contra acórdão que, em agravo regimental, decide recurso especial.”

8.1. PROCEDIMENTO

O CPC, seguindo uma tendência verificada em diversos institutos, dá ao Regimento Interno


dos tribunais a incumbência de regular o procedimento a ser seguido para processamento e
julgamento dos embargos de divergência (art. 1.044, caput). Há, todavia, três regras de procedimento
estabelecidas pelo CPC:

Ao instruir a petição de interposição, o recorrente provará a divergência com certidão, cópia


ou citação de repositório oficial ou credenciado de jurisprudência, inclusive em mídia eletrônica, onde
foi publicado o acórdão divergente, ou com a reprodução de julgado disponível na rede mundial de
computadores, indicando a respectiva fonte, e mencionará as circunstâncias que identificam ou
assemelham os casos confrontados (art. 1.043, §4°).

A ausência da prova da divergência levará à inadmissão, cabendo ao Relator, antes de fazê-


lo, oportunizar a correção do vício.

A interposição dos embargos de divergência no STJ interrompe o prazo para interposição de 60


recurso extraordinário por qualquer das partes no STF (art. 1.044, §1°);

Se os embargos de divergência forem desprovidos ou não alterarem a conclusão do


julgamento anterior, o recurso extraordinário interposto pela outra parte antes da publicação do
julgamento dos embargos de divergência será processado e julgado independentemente de
ratificação (§2°).

A exigência de ratificação do recurso “prematuro” foi eliminada pelo novo CPC, reverberando
para os embargos de divergência.

Tópico-Síntese: Recursos em espécie

A apelação tem dois possíveis objetos: i) atacar a sentença;


ii) atacar as decisões interlocutórias proferidas ao longo da
Apelação fase de conhecimento cujo objeto não esteja previsto no
rol do art. 1.015 do CPC.
É recebida, em regra, nos efeitos suspensivo e devolutivo.

É o recurso tipicamente vocacionado a impugnar decisões


Agravo de
interlocutórias. É cabível contra decisões interlocutórias
Instrumento
previstas no rol do art. 1.015.
Direito Processual Civil - Recursos em espécie

É o recurso cabível contra as decisões proferidas pelo


Agravo Interno Relator do processo no tribunal em sede de recurso,
remessa necessária ou processo originário.

É recurso vocacionado à integração ou complementação


Embargos de
da decisão impugnada, cabível em face de omissão,
Declaração
contradição, obscuridade e erro material.

Faz as vezes de uma apelação dirigida aos tribunais


Recurso Ordinário superiores (STJ e STF), ou seja, serve à discussão de matéria
de fato perante as cortes nas suas hipóteses de cabimento.

Leva ao conhecimento do STJ questões


infraconstitucionais. Caberá à corte dar a última palavra
nessas matérias, servindo como última instância recursal
Recurso Especial
quanto aos temas de ordem legal, nos termos do art. 105,
III da CF.
Sua interposição exige o prequestionamento da matéria.

Leva ao conhecimento do STF questões constitucionais.


Caberá à suprema corte dar a última palavra nessas
Recurso matérias, servindo como última instância recursal quando
Extraordinário aos temas de ordem constitucional, nos termos do art.
102, III da CF. Exige-se o prequestionamento da matéria e
a existência de repercussão geral.

Serve à revisão de decisões de inadmissibilidade


Agravo em
recurso
proferidas pelos tribunais recorridos. O juízo de
admissibilidade positivo é irrecorrível, mas o juízo de
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extraordinário e
admissibilidade negativo será objeto de agravo, conforme
recurso especial
o art. 1.042.

São um recurso de competência somente do STJ e do STF.


Embargos de
Sua interposição se dá internamente, com o objetivo de
Divergência
uniformizar a jurisprudência desses tribunais.