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Centro Apologético Cristão de Pesquisas -

CACP

O QUE JESUS DISSE? O QUE JESUS NÃO DISSE?


Refutando a Revista Galileu e o escritor Bart D. Ehrman...
Por João Flávio Martinez
Introdução
Todo fim de ano é o mesmo apelo mercadológico com o
nome e a pessoa de Jesus Cristo. Este ano, uma das
primeiras revistas de grande circulação que resolveu
destilar suas conjecturas sobre Jesus foi a Galileu. Com a
pergunta: “Jesus foi mal interpretado?”, o articulista da
matéria comenta as “mais novas descobertas” do escritor
estadunidense Bart Ehrman. Segundo a revista, o escritor
em lide escreveu um livro sobre toda a problemática – O que
Jesus Disse? O que Jesus não Disse? No conteúdo da matéria
temos cosmovisão agnóstica do autor do livro supracitado
mais entrevistas feitas a teólogos liberais. Sinceramente,
achei o escopo fraco e de uma pobreza franciscana na
questão de argumentação! Apesar de todas as supostas
revelações serem caducas e redundantes e algumas delas
conhecidas até pelos pais da Igreja, entendi que seria
importante uma palavra de esclarecimento aos mais leigos.
Lembro-me que alguns anos atrás a questão não era “o
que Jesus disse ou não disse”, mas se Ele realmente havia
existido como indivíduo histórico. Hoje, com tantas
descobertas históricas, arqueológicas, geográficas,
filológicas, entre outras, fica difícil argumentarem que o
Cristo não existiu. Agora, então a questão seria outra – Já
que Ele existiu, então, arvoram, deve ter sido apenas um
homem notável e nada mais. E mais uma vez os escritos
neotestamentários são devastados (e isso é bom, pois não
tememos os fatos).
A verdade é que se aplicássemos as muitas outras
fontes históricas os mesmos rigores de que a crítica
racionalista e até mesmo a cristã usou no estudo dos
evangelhos, um bom número de acontecimentos do passado
sobre cuja autenticidade não se levanta dúvida, passaria
para o terreno das lendas. No entusiasmo de suas
descobertas a alta crítica submeteu o Novo Testamento a
provas de autenticidade tão severas, que, se as aceitarmos
em outros campos, um cento de verdades históricas, como o
Código de Hamurabi, Homero e sua Ilíada, Sócrates e Platão
com suas belas conjecturas filosóficas, tudo não passaria do
campo da lenda.
Encontramos, é verdade, algumas aparentes
divergências em certas narrações contidas nos Evangelhos.
Tais divergências, porém, são apenas detalhes e para as
mesmas sobram explicações dos exegetas. No caso das
conjecturas da Revista Galileu, todas as supostas revelações
já foram desnudadas e explicitadas em vários compêndios
teológicos que podem ser encontrados em várias livrarias,
inclusive livrarias seculares. Ou seja, a argumentação do
articulista da revista prova que o mesmo não tem o mínimo
de conhecimento teológico da área em que resolveu
pesquisar. E isso foi o problemático do conteúdo da matéria,
sendo que perguntas bem elaboradas teriam deitado por
terra todas as supostas descobertas do autor do referido
livro.

Antes das minhas considerações, vem-me a mente as


palavras do conhecido historiador francês Joseph Calmette,
citado pelo escritor Mario Curtis Giordani: “O historiador
(pesquisador) digno deste nome, não pode, com efeito, pense o que
pensar em seu fórum íntimo, nem adotar a linguagem do orador
de panegírico pronunciando seu elogio do alto da cátedra sagrada,
nem o ceticismo do ateu ou do materialista que afasta a priori do
seu campo de visão toda a noção de espiritual”.

REFUTANDO AS ACUSAÇÕES DA REVISTA

1ª ACUSAÇÃO: “Copistas distorceram o Novo Testamento


para justificar dogmas da Igreja Católica”.
Até parece que a dogmática católica precisa adulterar a
Bíblia para defender ou promover uma doutrina exótica e
antibíblica. A concepção católica da Bíblia é que a mesma é
subjugada pela Igreja e como tal a cátedra Papal possui
poderes superiores aos escritos apostólicos. O pensamento
católico é o seguinte: “A Igreja canonizou a Bíblia e por isso tem
autoridade superior aos escritos sagrados”.
Vejam algumas doutrinas Católicas que não possuem
respaldo teológico bíblico:

a) Assunção de Maria; b) Infalibilidade do papa; c) Dogma


da Imaculada Conceição; d) Transubstanciação;
e) A "confissão auricular"; f) O celibato sacerdotal; g)
Idolatria; h) Água benta e ramos bentos; i) Mariolatria; j)
Velas nas Igrejas; k) Reza pelos mortos; l) Canonização
de santos...

Para nenhuma dessas doutrinas antibíblica o


catolicismo lançou mão de adulterar a Bíblia. Na verdade a
leitura da Bíblia foi proibida aos leigos no concílio de Tolosa
em 1222. Ou seja, a primeira acusação não procede às
conjunturas fidedignas documentais e históricas.

2ª ACUSAÇÃO: “Só Deus sabe o quanto o verbo foi


modificado na Bíblia ao longo dos séculos”.
Atualmente sabe-se da existência de mais de
5.300 manuscritos gregos do Novo Testamento.
Acrescente-se a esse número mais de 10.000
manuscritos da Vulgata Latina e, pelo menos, 9.300
de outras antigas versões, e teremos hoje mais de
24.000 cópias de porções do Novo Testamento (02).
Nenhum outro documento da história se compara a
isso. Temos subsídios suficientes para acreditarmos
na confiabilidade da Bíblia como um dos
documentos históricos mais importantes da
historiografia humana.
Agora, as grandes questões: De que maneira os copistas do
mundo todo, de diversas culturas atingidas pela bíblia, em tempos
históricos diferentes, teriam orquestrado uma manipulação
programada? Como a Igreja Romana teria domínio em todas as
Igrejas do mundo para solicitar assim a tal adulteração? (Sem
contar a histórica rivalidade com a Igreja Patriarcal do
Oriente). Como aceitarmos uma afirmativa de que não se pode
saber a fidedignidade dos textos do Novo Testamento, se os
manuscritos do século I ao século XV estão disponíveis ao mundo?
Já se sabe que a variação textual existente é de 5% e que
tal variação não compromete a ortodoxia da Igreja, ou seja, o
arvorado pela revista foi de uma leviandade sem tamanho!
Se tal conjectura partiu do escritor norte-americano, então o
seu livro é sem dúvida uma “obra-prima”.

3ª ACUSAÇÃO: “Textos foram inseridos na Bíblia”.


a) Cláusula Joanina - o texto de I Jo. 5:7 – “Porque
três são os que testificam no céu: o Pai, a palavra, e o
Espírito Santo; e estes três são um” (ARA).
É verdade que poucos são os manuscritos gregos até
agora encontrados que contêm a Cláusula Joanina. Mas isto
não provaria a sua inexistência. O fato de já terem sido
encontrados alguns manuscritos gregos que citam o texto
em estudo prova sua existência e nos dá a esperança certa
de que outros também existiram, e, quem sabe, poderão até
ser encontrados.
Para fortalecer seu argumento, os que omitem o
referido texto costumam citar o fato de que Erasmo não a
incluiu na 1ª edição de seu Novo Testamento Grego, porque
não conhecia nenhum manuscrito grego que a contivesse.
Mas, quando isto aconteceu, foi grande a reação dos que já
conheciam a existência da Cláusula Joanina, mesmo em
outras línguas. Para acalmar os ânimos, Erasmo prometeu
que a incluiria nas próximas edições do Novo Testamento
Grego, se viesse a conhecer algum manuscrito que a
contivesse. Essa promessa foi cumprida na 3ª edição do
Novo Testamento de Erasmo, por lhe haver sido
apresentado o Manuscrito 61. A relutância de Erasmo para
incluir a Cláusula Joanina na 1ª edição do seu Novo
Testamento será um argumento a favor da sua inexistência?
Ou, ao contrário, é mais uma razão ou prova de sua
existência?
Um ponto importante que precisamos salientar é –
“seria necessário acrescer este texto para que a doutrina da
Trindade fosse corroborada?” É óbvio que não. A Bíblia é
muito rica nessa questão e com ou sem esse texto não
haveria nenhuma mudança. Tertuliano, no século II, já havia
definido bem essa questão e para provarmos isso temos os
escritos patrísticos.
Concluindo esse item, podemos ter a certeza que a
problemática envolvendo o texto de I Jo. 5:7 nada tem a ver
com manipulação do cristianismo.

b) O texto de Mc. 16: 9-20:


O trecho em análise é citado por escritores dos séculos
II e II, como Taciano e Irineu, e teve guarida na imensa
maioria dos manuscritos gregos e outros. Sem dúvida, isso é
uma prova contundente de que a Igreja aceitou esse texto
desde o princípio como fidedigno (03 e 04).
Agora, e se o texto em foco não estivesse nos originais
ou não fosse parte do evangelho de Marcos? Com certeza
não iria me tornar ateu por causa disso. Também a doutrina
cristã não seria alterada em um único milímetro. Eu gostaria
de ter aqui espaço para mostrar ao leitor o trabalho que os
críticos tiveram para arvorar a mutilação do evangelho de
Marcos – é de dar dó! Bem, pra mim não há dúvidas de que
o texto de Marcos é fiel aos originais.

c) O Texto de Jo. 8:1-11


A narrativa tem todos os sinais de ser historicamente
veraz. Obviamente é uma peça da tradição oral que
circulava em certas porções da Igreja Ocidental, e que,
subsequentemente, foi incorporada em vários manuscritos,
em diversos lugares (04). Apesar disso, sua canonicidade,
seu caráter inspirado e seu valor histórico, no entanto, não
sofrem contestação – é fidedigno e bíblico. Tal passagem
apenas corrobora com a natureza bendita de Jesus e mostra
o ódio em que viviam os doutores da Lei.
Não consigo ver qual o impacto teológico sobre essa
problemática, que é conhecida desde o século II. O que
alguém ganharia acrescendo o tal texto? Em que isso muda
os piedosos ensinamentos de Cristo? O que mais me chama
a atenção em toda essa antiga celeuma é que o escritor Bart
foi abalado por isso – Por quê? Afinal de contas todo
seminarista quando estuda o evangelho de João aprende
sobre isso. Há revistas dominicais, feitas pra leigos, que os
autores comentam sobre o caso da mulher adultera. Então,
em que essa “grande” revelação afetaria o cristianismo?
Bem da verdade, o Sr. Bart não escreveu tal livro para
esclarecer, mas com uma índole mercadológica – apenas
isso e nada mais, pois não acrescentou nada, mas nada
mesmo!
d) O Texto de Mc 1:41:
Diz a revista: “Outro exemplo de modificação intencional
apontado por Bart Ehrman... Ali é relatado que Jesus cura um
leproso... Alguns manuscritos Jesus aparece irado e, em outros,
sentindo compaixão... é claro que os escribas cristãos preferiram
esta última versão... A Bíblia de Jerusalém... também apresenta a
ira... Muitas pessoas se sentem ameaçadas pelas conclusões que
apresento... Com isso, as pessoas compreenderam que a fé em Deus
não se baseia nas palavras em um livro...”.
Realmente o texto no original indica que há uma
incerteza filológica a respeito do texto de Marcos 1:41 – irado
ou cheio de compaixão. Provavelmente a confusão tenha
surgido devido às palavras similares (cf. siríaco, etbraham,
“ele teve dó”, com ethra`em, “ele se enraiveceu” (05)). O
contexto nos mostra Jesus dispensando um milagre para um
pobre leproso, um indivíduo que não tinha nenhum valor
para sua sociedade, mas que recebeu atenção do carpinteiro
de Nazaré - a tradução não poderia ser outra – “movido de
compaixão” e não “irado”.
A revista diz que no verso 41, na Bíblia de Jerusalém, o
texto diz que Jesus estava irado, mas não é verdade –
“Movido de compaixão, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: Eu
quero, sê purificado” (texto extraído na íntegra da Bíblia de
Jerusalém em português). Talvez haja uma nova tradução da
Bíblia de Jerusalém ou houve uma breve confusão dos
editores da Revista. Mas o fato é que os tradutores da Bíblia
não foram manipuladores ao escolher, entre duas palavras
parecidas, a que mais se aproximava do contexto. Não vejo
nada de anormal aqui. A acusação do Sr. Bart mais uma vez
é fantasiosa e falsa. Também não veja nada de libertador
nisso ou de significativo a ponto de fazer desmoronar a fé
de alguém.

4ª ACUSAÇÃO: “Houve supressões intencionais de


textos Bíblicos”
A Revista cita alguns textos bíblicos em quadrados
coloridos (Mt. 6:9-13; Rm. 16:7; Lc. 2:33 e Lc. 23:33-34), onde
é exposto o texto no original e abaixo uma suposta tradução
suprimida de alguma “verdade comprometedora”. Em meu
entendimento, o único texto que merece mais atenção é o de
Romanos. Os demais são redundantes e qualquer pessoa
virá que o defendido pela matéria não faz muito sentido.

– O texto de Rm. 16:7


Diz a revista: texto original – “Saudai Andrônico e Júnia,
meus parentes e companheiros de prisão, eminentes apóstolos”.
Texto modificado – “Saudai a Andrônico e a Júnia, meus
parentes; também companheiros de prisão, apóstolos eminentes”.
Com essa leve alteração, os copistas livram os cristãos do
constrangimento de ter Júnia, uma mulher, no meio de um grupo
apostólico. É pueril esse argumento! Explico:

1º) – Júnia é nome de mulher?


Parece evidente que Júnia era nome tanto de homem
quanto de mulher no período neotestamentário. O problema
é que não sabemos que gênero Paulo o usou em Romanos.
Epifânio, o bispo de Salamina em Chipre, menciona Júnia de
Romanos 16.7 como sendo um homem que veio a ocupar o
bispado de Apaméia da Síria. Concorda com isto o
testemunho de Orígenes (morto em 252 D.C.), que num
comentário em latim à carta aos Romanos se refere a Júnia
no masculino. Então, temos uma saudação a dois apóstolos
e não a uma apóstola e um apóstolo. Diante do pressuposto
perguntamos – pra que mudar o texto, se o grego pede o
contexto no caso do nome em questão? E o que dizer dos
testemunhos que apontam Júnia como um homem?
2º) – As traduções protestantes corroboram que Júnia
era apóstolo – “Saudai a Andrônico e a Júnias, meus parentes e
meus companheiros de prisão, os quais são bem conceituados entre
os apóstolos, e que estavam em Cristo antes de mim” (ARA).
3º) – Até mesmo traduções católicas corroboram que
Júnia era apóstolo – “Saudai Andrônico e Júnia, meus parentes
e companheiros de prisão, apóstolos exímios que precederam na fé
em Cristo” (Bíblia de Jerusalém). – “Saudai Andrônico e Júnia,
meus parentes e companheiros de cativeiro. Eles são apóstolos
eminentes e pertenceram a Cristo mesmo antes de mim”. (Bíblia
Edições Loyola). Mais uma vez a acusação da revista e do
Sr. Bart é sem fundamentação, aleivosa e risível.
Bart – Um agnóstico
Diz a revista: “A história registra o caso de pelo menos um
cristão que abandonou suas idéias sobre religião e Jesus ao tomar
contato com essas questões bíblicas. O nome dele é Bart Ehrman –
minhas convicções mudaram... nos mais de 30 anos que passei
estudando... Logo me tornei um cristão mais liberal. Hoje... sou
agnóstico...”.
Em resposta a essa argumentação de Bart, a revista cita
um outro estudioso, mais moderado, que afirma que os
argumentos de Bart não alteram a fé de ninguém – “de forma
geral, a maioria dessas modificações (supostas e questionáveis)
ficam apenas na parte externa dos textos, como se fosse uma
maquiagem. O importante é que a essência é a mesma. Portanto os
cristãos podem continuar acreditando no que lêem... O texto que
conhecemos hoje é o mais próximo possível do original”
(parênteses meu). Bart deveria dar ouvidos ao seu colega e
pesquisador. E mesmo que a maioria das suas conjecturas
estivessem certas (e já provamos que não estão), não
justificaria seu abandono da fé. Outro ponto importante de
salientarmos é que nenhuma das “descobertas” desse
escritor são novas ou que não foram escrutinadas
devidamente por outros exegetas. O que posso concluir é
que esse escritor não se tornou agnóstico por causa das suas
pesquisas, mas por falta de uma experiência intrínseca e
subjetiva com Deus.

Conclusão
O Novo Testamento é tão bem documentado que se não
tivéssemos nenhum manuscrito grego, ainda assim seria
possível reproduzir o seu conteúdo com base na
multiplicidade de citações e comentários, sermões, cartas
etc. dos antigos pais da Igreja. O volume de material do
Novo Testamento é quase constrangedor em relação a
outras obras da Antiguidade. Por isso, não resta agora mais
nenhuma dúvida de que as Escrituras, principalmente as
histórias a respeito de Jesus, chegaram até nós praticamente
com o mesmo conteúdo dos escritos originais.
Fico feliz pela provocação feita por matérias desse tipo,
pois só assim a oportunidade de falar sobre o assunto aflora.
Quando constato o milagre que Deus fez para que todo esse
material (manuscritos e pergaminhos) chegasse até nós, a
estrutura da minha fé pessoal torna-se ainda mais robusta e
saudável. Sabemos que esse não será o último ataque, mas
na adversidade Deus move homens para descobrir a
verdade.
Bibliografia Recomendável:
(01) - Mario Curtis Giordani. “História de Roma”, Ed.
Vozes, 1º Edição de 1968;
(02) – J. Macdowel, “Evidências que Exigem um
Veredicto”, Ed. Candeia, 2º Edição de 1992;
(03) – S.E. Mcnair, “A Bíblia Explicada”, Ed. CPAD, 10º
Edição de 1992;
(04) – “A Bíblia de Jerusalém”, Edições Paulinas, 1985;
(05) – R. N. Champlin, “O Novo Testamento
Interpretado”, Ed. Hagnos, Edição de 1998;
06 – Lee Strobel, “Em Defesa de Cristo”, Ed. Vida, 1º
Edição de 2000.

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