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LETRAMENTOS SOCIAIS: ABORDAGENS CRÍTICAS


DO LETRAMENTO NO DESENVOLVIMENTO, NA
ETNOGRAFIA E NA EDUCAÇÃO
Nádia Ferreira de Faria Braga*

STREET, Brian. Letramentos sociais: abordagens críticas do letramento no desenvolvimento, na etnografia e


na educação. Tradução: Marcos Bagno. 1. ed. São Paulo: Parábola, 2014.

Nos últimos anos, o estudo da cultura escrita tem sido objeto de interesse de várias pesquisas; entretanto,
não há um direcionamento acerca das discussões sobre o tema, fato que Clécio Bunzen, na apresentação desta obra,
classifica como “terra de ninguém”. Esses estudos realizados no contexto brasileiro, assim como em outros países,
permitiram interessantes reflexões sobre a compreensão das práticas de letramento.
Escrito originalmente no ano de 1995 e traduzido para a Língua Portuguesa em 2014 por Marcos Bagno,
o livro “Letramentos sociais: abordagens críticas do letramento no desenvolvimento, na etnografia e na educação”
mostra-se bastante atual, diante do debate educacional brasileiro acerca do letramento. Brian Street se apoia nos
“novos estudos de letramento”, a fim de explicitar a tese central que defende no livro, que visa compreender o
letramento como prática social e cultural.
Brian Vincent Street é professor emérito do King’s College London e professor visitante da University of
Pennsylvania. Atualmente, desenvolve atividades no Brasil, ministrando algumas disciplinas na Universidade
Federal de Minas Gerais. Street é um dos principais teóricos com foco nas perspectivas etnográfica e acadêmica do
letramento. Autor de vários livros, Letramentos sociais é sua primeira obra publicada no Brasil. Entretanto, há alguns
trabalhos1 do autor publicados em língua portuguesa que vêm contribuindo bastante com o desenvolvimento de
pesquisas em letramento.
A obra se divide em cinco seções, compostas por nove capítulos. A versão brasileira se distingue da original,
pois contém a quinta seção composta pelo nono capítulo. Na primeira seção, intitulada “Letramento, política e
mudança social”, composta pelo primeiro e segundo capítulos, o autor busca manifestar sua insatisfação com as
representações de letramento veiculadas durante o Ano internacional da alfabetização (1990). Nesse momento,
Street critica as campanhas pró-alfabetização que desprezam os letramentos locais e afirma a necessidade de mais
análise qualitativa do que quantitativa. O autor se refere a iletrados que precisam se tornar letrados, diferenciando-
os, porém, dos analfabetos. Para ele, pessoas alfabetizadas são muito letradas em uma área e pouco letradas em
outra e sofrem o estigma de serem consideradas analfabetas, em função disso. Segundo Street, a tarefa política
é desenvolver estratégias que lidem com a variedade de tipos de letramentos na sociedade. Nessa primeira seção,
Street (2014, p. 44) expõe os modelos autônomo e ideológico de letramento. O primeiro “pressupõe uma única
direção em que o desenvolvimento do letramento pode ser traçado e associa-o a progresso, isolando o letramento

*
Professora doutora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB). E-mail: lidia_f@uol.com.br

Instrumento: R. Est. Pesq. Educ., Juiz de Fora, v. 18, n. 1, jan./jun. 2016


Letramentos sociais:
Abordagens críticas do letramento do desenvolvimento, na etnografia e na educação

como uma variedade independente capaz de estudar Street afirma, ainda, que a concepção de letramento,
suas consequências”. O segundo “ressalta a importância associada à escolarização, está transformando a rica
do processo de socialização na construção do significado variedade de práticas letradas em uma prática única,
do letramento para os participantes e se preocupa com já que a escola, estando separada de outros tempos e
as instituições sociais gerais por meio das quais esse outros lugares, acaba por criar o que ele denominou de
processo se dá, e não somente com as instituições voz pedagógica. O autor argumenta que letrar-se não
pedagógicas”. Segundo o autor, as políticas públicas de é simplesmente adquirir conteúdo, mas aprender um
letramento não obtêm sucesso, pois se apoiam na ideia processo. Nessa seção, o autor trata, ainda, da grande
do letramento autônomo. Dessa forma, o autor se opõe divisão entre oralidade e letramento, conceito que irá
ao modelo autônomo e defende o modelo ideológico de abordar mais detidamente na seção seguinte.
letramento. Na quarta seção, intitulada “Para um quadro
Na segunda seção, intitulada “A etnografia do teórico crítico”, composta pelo sétimo e oitavo
letramento”, composta pelo terceiro e quarto capítulos, capítulos, Street retoma alguns conceitos já discutidos
Street relata um trabalho de campo antropológico anteriormente e propõe um quadro teórico crítico,
desenvolvido por ele mesmo no Irã, na década de 1970. baseado no modelo ideológico de letramento. O autor
Com esse trabalho, o autor objetivava compreender os analisa, ainda, a concepção de Walter Ong a respeito
letramentos locais, para o qual valeu-se da etnografia. dos estudos de letramento e sua influência ao sustentar
Street destaca que a perspectiva transcultural de a grande divisão entre oralidade e letramento. Street
estudo traz a necessidade de discutir a variedade e resume os argumentos de Ong, analisa-os em três
a complexidade das práticas letradas e cita algumas níveis (metodológico, empírico e teórico) e afirma
abordagens falhas nesse processo. Um procedimento que, embora exerça grande influência nos estudos de
clássico da Antropologia do século XIX, conhecido letramento, “a tese de Ong parece ser de pouco valor na
como “se eu fosse um cavalo”, é uma dessas, uma vez que investigação da relação entre oralidade e letramento”
a tentativa de alcançar o modo de percepção de outras (Street, 2014, p. 169). Nesse sentido, Street opõe-se,
pessoas e de outras culturas nem sempre é exitosa. O claramente, à teoria da grande divisão, reafirmando,
autor finaliza essa seção destacando a necessidade de um assim, sua defesa de que letramento envolve questões
quadro teórico metodológico para o estudo de oralidade sociais e culturais, para além do desenvolvimento de
e letramento em contextos sociais. habilidades neutras.
Na terceira seção, denominada “O letramento A quinta e última seção, chamada “Relações entre
na educação”, composta pelo quinto e sexto capítulos, políticas, teoria e pesquisa no campo do letramento”, está
Street trata da pedagogização do letramento, associando apenas nesta edição brasileira. Tal seção é composta pelo
letramento às noções educacionais e destacando a nono capítulo, em que o autor defende uma perspectiva
pedagogia como força ideológica que controla as social do letramento que integre política, pesquisa e
relações sociais em geral. O autor destaca que existem teoria, além de defender abordagens políticas qualitativas
outros letramentos ao lado das versões dominantes que considerem o letramento como um ato social. O
escolarizadas e coloca a necessidade de se evitar juízo autor apresenta os relatórios do Education for All Global
de valor acerca da suposta superioridade do letramento Monitoring Report (EFA) e do Programa Internacional
escolarizado, em detrimento de outros letramentos. de Avaliação de Alunos (PISA) e faz duras críticas aos

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sistemas de avaliação educacional, argumentando que “o STREET, B. Dimensões “escondidas” na escrita de artigos
acadêmicos. Revista Perspectiva, Florianópolis, v. 28, n. 2, p.
resultado desse processo de padronização de avaliações
541-567, jul./dez. 2010b.
educacionais é a perda da diversidade de cultura, de
tradições, de crenças e práticas e, com ela, a perda da STREET, B. Eventos de letramento e práticas de letramento:
teoria e prática nos novos estudos de letramento. In:
aprendizagem intercultural (Street, 2014, p. 198). Street MAGALHÃES, I. (Org). Discursos e práticas de letramento:
reafirma que o modo como as pessoas se apropriam do pesquisa etnográfica e formação de professores. Campinas,
letramento não é resultado somente de fatores pedagógicos SP: Mercado de Letras, 2012.

e cognitivos, mas também de aspectos culturais e sociais. STREET, B. Políticas e práticas de letramento na Inglaterra:
Para ilustrar essa afirmativa, utiliza a imagem do iceberg, uma perspectiva de letramentos sociais como base para uma
comparação com o Brasil. Cadernos CEDES, Campinas, v.
a fim de demonstrar que a maior parte da aprendizagem
33, n. 89, jan./abr. 2013.
humana não ocorre em contextos formais. Dessa forma,
o autor argumenta em favor de mudança nas políticas,
Enviado em 5 de dezembro de 2015.
de um modelo autônomo para abordagens culturais de
Aprovado em 20 de dezembro de 2015.
letramento e aprendizagem.
O livro Letramentos sociais: abordagens críticas
do letramento no desenvolvimento, na etnografia e na
educação, recém lançado no Brasil, traz um debate atual
acerca dos modelos de letramento, apesar de ter sido
escrito originalmente há cerca de vinte anos. Nosso país
vive um momento no qual várias questões abordadas no
livro estão sendo trazidas ao debate educacional. Dessa
forma, é leitura altamente recomendável a todos aqueles
que estão comprometidos com a educação brasileira
e buscam um conhecimento reflexivo sobre questões
pertinentes à relação entre linguagem e ensino.

Notas
1
Cf. alguns dos artigos de Brian Street em português (2007, 2010a,
2010b, 2012, 2013).

R eferências

STREET, B. Perspectivas interculturais sobre o letramento.


Revista Filologia e Linguística Portuguesa, São Paulo, v. 8,
2007.

STREET, B. Os novos estudos sobre letramento: histórico


e perspectivas. In: MARILDES, M.; CARVALHO, G. T.
Cultura escrita e letramento. Belo Horizonte: Editora da
UFMG, 2010a.

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