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Chapter 2

Equações diferenciais ordinárias


de segunda ordem
Inicia-se o estudo de EDOs de segunda ordem, pondo-se em destaque a
equação mais importante da Fı́sica Clássica Newtoniana, qual seja, a Segunda
Lei de Newton. Esta lei para o movimento de um corpo estabelece que sua
posição x(t), no tempo t, satisfaz à equação diferencial

mx00 (t) = F, (1)

onde a constante m denota a massa do corpo e F = F (t, x(t), x0 (t)) a resul-


tante das forças que agem sobre ele.

É tarefa difı́cil precisar quão importante a EDO de segunda ordem dada


por (1) foi e é essencial às sociedades modernas. Entre suas variadas aplicações
estão inclusas: Queda livre, queda com resistência do ar, movimento de
projéteis, movimento em planos inclinados, velocidade de escape, osciladores
harmônicos, et cetera. A tı́tulo de exemplo, considere o modelo matemático
para a queda livre, ou seja, a queda de um corpo sujeito apenas à gravidade.
Neste caso, a resultante de forças resume-se a F = P = mg, o peso do corpo
(g ≈ −9, 81 m/s2 nas proximidades da superfı́cie terrestre). Pela Segunda
Lei de Newton
mx00 (t) = mg,
isto é,
x00 (t) = g.
Deste modo, caso x(0) = h e x0 (0) = 0, integrando a equação acima duas
vezes seguidas, obtemos
g
x(t) = t2 + h.
2
No caso mais geral, isto é, sendo x(0) = x0 e x0 (0) = v0 , obtém-se
g
x(t) = t2 + v0 t + x0 .
2
1
Em havendo-se resistência do ar durante a queda, a força oriunda da
mesma opõe-se à queda e é suposta ser uma função somente da velocidade.
No caso em que tal força resistiva depende linearmente de x0 (t), obtém-se
que a resultante das forças que agem sobre o corpo é F = mg − kx0 (t), para
algum k > 01 . Logo, pela Segunda Lei de Newton,

mx00 (t) = mg − kx0 (t).

Ou seja,
k 0
x00 (t) + x (t) = g.
m

Uma outra aplicação importante das EDOs de segunda ordem é o estudo


dos circuitos elétricos do tipo RLC, ou seja, circuitos que contém, além da
fonte de energia, um resistor, um indutor e um capacitor. Neste caso,
1
LQ00 + RQ0 + Q = E(t),
C
onde E = E(t) é a voltagem no tempo t, e R, L e C são constantes positivas
que denotam a resistência, indutância e a capacitância respectivamente, de-
screve o modelo matemático para a carga Q = Q(t) no capacitor. O modelo
dQ
correspondente para a corrente I = é então
dt
1
LI 00 + RI 0 + I = E 0 (t).
C

2.1. EDOs de segunda ordem lineares


De um modo geral, uma EDO é dita de segunda ordem caso possa ser
reduzida à forma
d2 y
y 00 = 2 = f (t, y, y 0 ), (2)
dt
para alguma função f , digamos, contı́nua em um domı́nio D ⊂ R3 .
1
Explique a necessidade do sinal negativo em k.

2
Uma EDO de segunda ordem é denominada linear se puder ser expressa
na forma
y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = r(t), (3)
para funções p, q, r : (a, b) → R contı́nuas. Ou seja, em (2), tem-se

f (t, y, y 0 ) = −p(t)y 0 − q(t)y + r(t),

para as funções p, q e r da frase anterior. Tais funções são denominadas os


coeficientes da EDO (3). Ela é dita homogênea se r = 0. No outro caso, é
dita não-homogênea

Exemplos:
1. t2 y 00 + ty 0 + (t2 − ν 2 )y = 0 é linear de segunda ordem, homogênea, com
p(t) = 1/t, q(t) = (t2 − ν 2 )/t2 e r(t) = 0.
d2 y dy
2. 2
+ 3t + (sin t)y = et é linear de segunda ordem, não-homogênea,
dt dt
com p(t) = 3t, q(t) = sin t e r(t) = et .
3. y 00 +et y 0 = 1 é linear de segunda ordem, não-homogênea, com p(t) = et ,
q(t) = 0 e r(t) = 1.
d2 y dy
4. (1 − t2 ) 2
− 2t + α(α + 1)y = 0 é linear de segunda ordem, ho-
dt dt
2t α(α + 1)
mogênea, com p(t) = − 2
, q(t) = e r(t) = 0.
1−t 1 − t2

Uma solução para (3) é um função y : (a, b) → R duas vezes diferenciável,


que a satisfaz em todos os pontos t ∈ (a, b).

EDOs lineares homogêneas 2 possuem a seguinte importante propriedade.

Proposição 0.0.1 (Princı́pio da Linearidade) Se y1 = y1 (t) e y2 = y2 (t)


são soluções em (a, b) da EDO linear homogênea

y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = 0, (4)

então toda combinação linear c1 y1 + c2 y2 , c1 , c2 ∈ R, também é solução em


(a, b) desta EDO.
2
Qualquer que seja a ordem da EDO.

3
Observações:

1. O resultado acima é equivalente a afirmar que o conjunto das soluções


em (a, b) da equação (4) é um subespaço vetorial do espaço vetorial de
todas as funções definidas em (a, b).

2. Pode-se mostrar que o subespaço acima é bidimensional. Logo, todo


conjunto com duas soluções y1 e y2 em (a, b) que seja linearmente inde-
pendente, ou seja, um conjunto fundamental de soluções, é uma base
deste subespaço. A solução geral de (4) é então dada por

y = c1 y1 + c2 y2 , onde c1 , c2 ∈ R são arbitrárias.

3. Permitindo-se soluções complexas para a equação (4), as constantes c1


e c2 no resultado acima devem ser tomadas em C.

4. O resultado acima não é válido para EDOs lineares não-homogêneas.

3
Uma outra importante propriedade das EDOs lineares é dada pelo re-
sultado abaixo.

Teorema 0.0.1 (Solução geral de EDOs lineares não-homogêneas) Con-


sidere a EDO
y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = r(t),
e a EDO homogênea a ela associada, isto é,

y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = 0.

Então, se denotamos por yh a solução geral desta e por yp uma solução par-
ticular daquela, então
y = yp + yh
é a solução geral daquela.

Em consequência, a resolução das EDOs lineares não-homogêneas passa,


necessariamente, por saber resolver as EDOs homogêneas correspondentes.
Inicia-se com o caso mais simples, a saber, as EDOs lineares homogêneas
com coeficientes constantes.
3
Qualquer que seja a ordem da EDO.

4
2.1.1 EDOs lineares homogêneas com coeficientes con-
stantes - O método da equação caracterı́stica
A EDO de primeira ordem, linear e homogênea

y 0 + λy = 0, λ ∈ R,

tem y = e−λt como uma solução em R. Naturalmente, indaga-se se soluções


do tipo exponencial também ocorrem quando se passa para a ordem seguinte.
Considere então uma equação do tipo

y 00 + αy 0 + βy = 0, (5)

onde α, β ∈ R. Observe que, existe uma solução em R para (5) na forma


y = eλt se, e somente se,

λ2 eλt + αλeλt + βeλt = 0

e, como eλt 6= 0, ∀t ∈ R, segue que

λ2 + αλ + β = 0. (6)

A equação acima é denominada a equação caracterı́stica associada à EDO

5
(5). Sendo ∆ = α2 − 4β o seu discriminante, tem-se


 (i) ∆ > 0 =⇒ (6) possui duas raı́zes reais distintas





 r  r 

 α α 2 α α 2
λ1 = − + − β e λ2 = − − −β


2 2 2 2









=⇒ y1 = eλ1 t e y2 = eλ2 t são soluções em R de (5).









 α
(ii) ∆ = 0 =⇒ (6) possui uma única raı́z real λ = − 2


 α
=⇒ y1 = e− 2 t é uma solução em R de (5).










(iii) ∆ < 0 =⇒ (6) possui duas raı́zes complexas conjugadas









 r r

 α  α 2 α  α 2

 λ1 = − + i β − e λ2 = − − i β −
2 2 2 2









=⇒ y1 = eλ1 t e y2 = eλ2 t são soluções (complexas) em R de (5).

Exemplos:

1. Resolva a EDO y 00 + 5y 0 + 6y = 0.
Solução: A equação caracterı́stica associada a EDO dada é

λ2 + 5λ + 6 = 0.

Seu discriminante ∆ = 1 > 0, logo há duas raı́zes reais distintas, quais
sejam, λ1 = −2 e λ2 = −3. Portanto,

y1 = e−2t e y2 = e−3t ,

são soluções da EDO dada.

2. Resolva a EDO y 00 + 2y 0 + y = 0.

6
Solução: A equação caracterı́stica associada a EDO dada é

λ2 + 2λ + 1 = 0.

Seu discriminante ∆ = 0, logo há uma única raı́z real, a saber, λ = −1.
Portanto,
y = e−t ,
é uma solução da EDO dada.

3. Resolva a EDO y 00 + y = 0.
Solução: A equação caracterı́stica associada a EDO dada é

λ2 + 1 = 0.

Seu discriminante ∆ < 0. Suas raı́zes são λ1 = −i e λ2 = i. Portanto,

y1 = e−it e y2 = eit ,

são soluções complexas da EDO dada.

Devido à Proposição 0.0.1, é importante saber como determinar a solução


geral de uma EDO de segunda ordem, linear, homogênea e com coeficientes
constantes. Dada a EDO (5) e a equação caracterı́stica (6) associada a ela,
como antes, denota-se por ∆ o discriminante desta. Vê-se acima que:

Caso 1: ∆ > 0 =⇒ (6) possui duas raı́zes reais distintas λ1 e λ2 .

Sabe-se então que y1 = eλ1 t e y2 = eλ2 t são soluções de (5). E afirma-se
ainda mais, o conjunto eλ1 t , eλ2 t é fundamental. Para isto, escreva

0 = Aeλ1 t + Beλ2 t .

Então, em t = 0, obtém-se

0 = Aeλ1 ·0 + Beλ2 ·0 = A + B,
0 = λ1 Aeλ1 ·0 + λ2 Beλ2 ·0 = λ1 A + λ2 B.

Mas então
0 = λ1 A + λ2 B = (λ1 − λ2 )A.

7
 λλ1t −λλt2 6= 0, segue que A = 0 e, portanto, B = −A = 0, mostrando
Como
que e 1 , e 2 é fundamental. Portanto, neste caso, a solução geral de (5) é

y = c1 eλ1 t + c2 eλ2 t ,

onde c1 , c2 ∈ R.

Caso 2: ∆ < 0 =⇒ (6) possui duas raı́zes complexas conjugadas λ1 =


α + iβ e λ2 = α − iβ.

Sabe-se então que y1 = e(A+iB)t (A−iB)t


 eAty2 = e At são soluções
complexas
de (5). Além disso, o conjunto e cos(Bt), e sin(Bt) é um conjunto
fundamental de soluções. Portanto, neste caso, a solução geral de (5) é

y = eAt (c1 cos(Bt) + c2 sin(Bt)) ,

onde c1 , c2 ∈ R. Observe que


1 1
eAt cos(Bt) = (y1 + y2 ) e eAt sin(Bt) = (y1 − y2 ) .
2 2i
Caso 3: ∆ = 0 =⇒ (6) possui uma única raı́z real λ.

Sabe-se então que y1 = eλt é uma solução de (5). Utilizando o método


de
 λtredução
da ordem (vide exercı́cio 4 abaixo), concluı́mos que o conjunto
e , teλt é um conjunto fundamental de soluções. Portanto, neste caso, a
solução geral de (5) é
y = c1 eλt + c2 teλt ,
onde c1 , c2 ∈ R.

Exercı́cios resolvidos

1. Determine a solução geral de

y 00 − y = 0.

Conclua que sinh t e cosh t são suas soluções particulares.

8
Solução: A equação caracterı́stica associada a EDO dada é

λ2 − 1 = 0.

Há duas raı́zes reais distintas, quais sejam, λ1 = −1 e λ2 = 1. Portanto,

y = c1 e−t + c2 et , c1 , c2 ∈ R,

é a solução geral da EDO dada. Como

et + e−t 1 1
cosh t = = et + e−t
2 2 2
e
et − e−t 1 1
sinh t = = et − e−t
2 2 2
segue que são suas soluções particulares.

y = cosh t

y = sinh t

2. Determine a solução geral de y 00 + 3y 0 + 3y = 0. Conclua que toda


solução tende a zero no infinito.

9
Solução: A equação caracterı́stica associada a equação dada é

λ2 + 3λ + 3 = 0.

3
Há duas raı́zes

complexas conjugadas, quais sejam, λ1 = − 23 − i 2
e
λ2 = − 23 + i 23 . Portanto,
√ ! √ !!
3 3 3
y = e− 2 t c1 cos t + c2 sin t , c1 , c2 ∈ R,
2 2

é a solução geral da equação dada. Como


3
e− 2 t → 0, t → ∞,

e, para toda escolha de c1 e c2 , a função


√ ! √ !
3 3
c1 cos t + c2 sin t
2 2

é limitada, concluı́mos que toda solução tende a zero no infinito.

3. Determine a solução geral de y 00 + 4y 0 + 4y = 0 e o comportamento no


infinito de cada solução.
Solução: A equação caracterı́stica associada a equação dada é

λ2 + 4λ + 4 = 0.

Sua única raiz é λ = −2. Portanto,

y = c1 e−2t + c2 te−2t , c1 , c2 ∈ R,

é a solução geral da equação dada. Como a funcão te−2t → 0, t → ∞,


concluı́mos que toda solução tende a zero no infinito.

Exercı́cios propostos

10
1. Dada a EDO y 00 + 4y = 0, determine sua solução geral. As soluções são
periódicas?

2. Determine a solução geral de y 00 + 3y 0 + 2y = 0 e, caso possı́vel, o


comportamento das soluções nas infinitudes ±∞.

3. Mostre que a EDO

t2 y 00 + ty 0 + (t2 − 1/4)y = 0, t > 0,

pode ser transformada em

z 00 + z = 0,

mediante a substituição y = t−1/2 z, onde z = z(t). Determine então a


solução geral da EDO original.

4. (Método de redução da ordem) Considere a EDO

y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = 0,

com p, q : (a, b) → R contı́nuas. Suponha que se conheça uma solução


y1 = y1 (t) desta com y1 (t) 6= 0, ∀t ∈ (a, b). O método de redução da
ordem busca determinar uma segunda solução y2 = y2 (t) na forma

y2 = u(t)y1 ,

onde u : (a, b) → R é uma função a ser determinada.

(a) Escreva v(t) = u0 . Verifique que v satisfaz a EDO

y10
 
0
v + p(t) + 2 v = 0.
y1

(b) Conclua que as soluções da EDO em v acima são do tipo


c − R p(t) dt
v(t) = e ,
y12

onde c ∈ R.

11
(c) Conclua que Z
1 − R p(t) dt
y2 = y1 e dt
y12
é uma outra solução de

y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = 0.

(d) Utilizando o método da redução da ordem, determine uma solução


da EDO
d2 y dy
t2 2 + 3t + y = 0, t > 0,
dt dt
sabendo que y1 = 1/t é uma solução da mesma.
(e) Sabendo-se que y1 = t3 é uma solução de

t2 y 00 − 5ty + 9y = 0, t > 0,

determine sua solução geral.

2.1.2 EDOs lineares não-homogêneas com coeficientes


constantes - Métodos para determinar uma solução par-
ticular

O método dos coeficientes a determinar


Este método fornece uma solução particular yp = yp (t) da EDO linear
não-homogênea (3) quando os coeficientes p e q são constantes e a não-
homogeneidade r tem uma das seguintes formas:

• r(t) = eλt , λ ∈ R;

• r(t) = tn , n ∈ N;

• r(t) = cos(θt), θ ∈ R;

• r(t) = sin(θt), θ ∈ R;

• r é uma combinação linear ou um produto das formas anteriores.

12
Essencialmente, o método tenta determinar, se possı́vel, uma solução par-
ticular da EDO, na mesma forma da não-homogeneidade. Para entender sua
aplicação, inicia-se com os exercı́cios seguintes:

Exercı́cios propostos

1. Determine uma solução particular da EDO

y 00 − 3y 0 − 4y = 4t2 − 1.

Solução: Neste exercı́cio, tem-se r(t) = 4t2 − 1. Observando o primeiro


membro da EDO dada, induz-se a existência de uma solução particular
para tal EDO na forma

yp = At2 + Bt + C, onde A, B, C ∈ R.

Os coeficientes A, B e C acima devem ser determinados e, para isto,


utiliza-se a EDO. De fato, como

yp0 = 2At + B, yp00 = 2A,

segue que

yp é sol. part. ⇐⇒ 2A − 3(2At + B) − 4(At2 + Bt + C) = 4t2 − 1.

Ou seja,

yp é sol. part. ⇐⇒ −4At2 + (−6A − 4B)t + (2A − 3B − 4C) = 4t2 − 1.

Portanto, 
−4A = 4

−6A − 4B = 0

2A − 3B − 4C = −1

3 11
Isto é, A = −1, B = , C = − e, por conseguinte,
2 8
3 11
yp = −t2 + t − .
2 8
13
2. Determine uma solução particular da EDO

y 00 − 3y 0 = 4t2 − 1.

Solução: Embora r(t) = 4t2 − 1, não é correto induzir a existência de


uma solução particular do tipo

yp = At2 + Bt + C, onde A, B, C ∈ R.

De fato, observando o primeiro membro da EDO dada, para esta escolha


teria-se
yp00 − 3yp0 = polinômio de grau no máximo 1.
Assim, jamais se poderia ter

yp00 − 3yp0 = 4t2 − 1.

Em verdade, devido à ausência do termo em y no primeiro membro,


induz-se a existência de uma solução particular do tipo

yp = At3 + Bt2 + Ct + D, onde A, B, C, D ∈ R.

Neste caso,

yp0 = 3At2 + 2Bt + C, yp00 = 6At + 2B.

Logo,
(6At + 2B) − 3(3At2 + 2Bt + C) = 4t2 − 1.
Ou seja,
−9At2 + (6A − 6B)t + (2B + 3C) = 4t2 − 1,
donde, 
−9A = 4

6A − 6B = 0

2B + 3C = −1

4 4 1
Portanto, A = − , B = − , C = − e
9 9 27
4 4 1
yp = − t3 − t2 − t + D, D ∈ R qualquer.
9 9 27
14
3. Determine a solução geral da EDO

y 00 − 2y 0 − 3y = e2t .

Solução: O Teorema 0.0.1 diz que a solução geral da EDO dada é


obtida como a soma de uma solução particular yp dela com a solução
geral yh da EDO homogênea associada a ela, qual seja,

y 00 − 2y 0 − 3y = 0.

Tomando em conta que a equação caracterı́stica correspondente a EDO


homogênea acima é
λ2 − 2λ − 3 = 0,
ou seja, λ = −1 ou λ = 3, segue que sua solução geral é

yh = c1 e−t + c2 e3t , c1 , c2 ∈ R.

Para determinar uma solução particular yp de

y 00 − 2y 0 − 3y = e2t ,

observe que sendo r(t) = e2t , é natural supor

yp = Ae2t , onde A ∈ R.

Neste caso,
yp0 = 2Ae2t , yp00 = 4Ae2t .
Logo,
4Ae2t − 2(2Ae2t ) − 3Ae2t = e2t ,
isto é,
−3Ae2t = e2t .
1
Assim, A = − e
3
1
yp = − e2t .
3
A solução geral da EDO dada é então
1
y = c1 e−t + c2 e3t − e2t , c1 , c2 ∈ R.
3
15
4. Determine a solução geral da EDO
2
y 00 − 2y 0 − 3y = e3t .
5

Solução: Como visto no exercı́cio anterior

yh = c1 e−t + c2 e3t , c1 , c2 ∈ R.

é a solução geral da EDO homogênea associada a EDO dada. Sendo


2
r(t) = e3t , poderia-se imaginar a existência de uma solução na forma
5
yp = Ae3t , onde A ∈ R.
2
Porém, e3t (e portanto e3t ) já é uma solução da EDO homogênea
5
associada. Deste modo, jamais haverá uma solução particular na forma
acima. Todavia, a função te3t não é solução da EDO homogênea e,
então, supõe-se a existência de uma solução particular do tipo 4 5

yp = Ate3t , onde A ∈ R.

Neste caso,

yp0 = Ae3t + 3Ate3t , yp00 = 3Ae3t + 3Ae3t + 9Ate3t = 6Ae3t + 9Ate3t .

Logo,
2
6Ae3t + 9Ate3t − 2(Ae3t + 3Ate3t ) − 3Ate3t = e3t .
5
Ou seja,
2
4Ae3t = e3t ,
5
donde,
1
A= .
10
4
Embora uma escolha deste tipo não seja tão intuitiva como as realizadas nos exercı́cios
anteriores, pode-se mostrar que sempre funcionará.
5
Caso a função te3t também fosse uma solução da EDO dada, se suporia então yp =
2 3t
At e , onde A ∈ R.

16
Portanto,
1 3t
yp = te
10
e a solução geral procurada é
1 3t
y = c1 e−t + c2 e3t + te , c1 , c2 ∈ R.
10

5. Determine uma solução particular da EDO

y 00 + y 0 + 4y = cos t.

Solução: Como r(t) = cos t, induz-se a existência de uma solução par-


ticular do tipo

yp = A cos t + B sin t, onde A, B ∈ R.6

Assim,

yp0 = −A sin t + B cos t, yp00 = −A cos t − B sin t.

Logo,

−A cos t − B sin t − A sin t + B cos t + 4(A cos t + B sin t) = cos t,

isto é,
(3A + B) cos t + (−A + 3B) sin t = cos t.
Portanto, (
3A + B = 1
−A + 3B = 0,
donde
3 1
A= e B= .
10 10
Em consequência,
3 1
yp = cos t + sin t.
10 10
6
Tente yp = A cos t e verifique o que acontece!

17
6. Determine a solução geral da EDO

y 00 − 2y 0 − 3y = te2t .

Solução: Já sabe-se que

yh = c1 e−t + c2 e3t , c1 , c2 ∈ R.

é a solução geral da EDO homogênea associada a EDO dada. Como


r(t) = te2t é o produto de t por e2t , neste caso, supõe-se

yp = (At + B)e2t , A, B ∈ R.

Logo,
yp0 = Ae2t + 2(At + B)e2t = (A + 2B)e2t + 2Ate2t
e

yp00 = 2(A + 2B)e2t + 2Ae2t + 4Ate2t = 4(A + B)e2t + 4Ate2t .

Assim,

4(A + B)e2t + 4Ate2t − 2 (A + 2B)e2t + 2Ate2t − 3(At + B)e2t = te2t ,




isto é,
(2A − 3B)e2t − 3Ate2t = te2t .
Daı́, (
2A − 3B = 0
−3A = 1,
donde,
1 2
A=− , B=− .
3 9
Por conseguinte,  
1 2 2t
yp = − t+ e
3 3
e  
−t 3t 1 2 2t
y = c1 e + c2 e − t+ e , c1 , c2 ∈ R,
3 3
é a solução geral procurada.

18
7. Determine uma solução particular de

y 00 + y 0 + 4y = t + cos t.

Solução: Como r(t) = t + cos t é a soma de t com cos t, supõe-se uma


solução particular do tipo

yp = (At + B) + C cos t + D sin t.

Então,

yp0 = A − C sin t + D cos t, yp00 = −C cos t − D sin t.

Logo,

−C cos t − D sin t + A − C sin t + D cos t


+ 4 ((At + B) + C cos t + D sin t) = t + cos t.

Ou seja,

4At + (A + 4B) + (3C + D) cos t + (−C + 3D) sin t = t + cos t.

Daı́, 

 4A = 1

 A + 4B = 0


 3C + D = 1
− C + 3D = 0,

donde
1 1 3 1
A= , B=− , C= , D= .
4 16 10 10
Portanto,
t 1 3 1
yp = − + cos t + sin t.
4 16 10 10
8. Determine a solução geral de

y 00 + 4y = 3 cos(2t).

19
Solução: Como
λ2 + 4 = 0
é a equação caracterı́stica correspondente a EDO homogênea associada à
EDO dada, obtem-se que λ = ±2i são suas raı́zes. Daı́, segue que

cos(2t) e sin(2t)

são soluções da EDO homogênea. Não existe portanto solução particular da


EDO não-homogênea na forma

A cos(2t) + B sin(2t), com A, B ∈ R.

Neste caso, supõe-se a existência de uma solução particular na forma

yp = t (A cos(2t) + B sin(2t)) , com A, B ∈ R.

Então,

yp0 = A cos(2t) + B sin(2t) + t (−2A sin(2t) + 2B cos(2t))

yp00 = −2A sin(2t) + 2B cos(2t) − 2A sin(2t) + 2B cos(2t)


+ t (−4A cos(2t) − 4B sin(2t))
= −4A sin(2t) + 4B cos(2t) − 4t (A cos(2t) + B sin(2t)) .

Logo, substituindo yp00 e yp0 na EDO dada, tem-se

−4A sin(2t) + 4B cos(2t) − 4t (A cos(2t) + B sin(2t))


+ 4t (A cos(2t) + B sin(2t)) = 3 cos(2t),

donde
−4A sin(2t) + 4B cos(2t) = 3 cos(2t)
e, em consequência,
3
A = 0, B= .
4
Assim,
3
yp = t sin(2t).
4

20
O método da variação de parâmetros
Este método fornece uma solução particular yp = yp (t) da EDO (3) quando
são conhecidas duas soluções independentes y1 = y1 (t) e y2 = y2 (t) da EDO
homogênea a ela associada. Portanto, é sempre aplicável quando a EDO (3)
tem os coeficientes p e q constantes 7 .
Escreve-se
yp = g1 y1 + g2 y2 ,
onde g1 , g2 : (a, b) → R são funções diferenciáveis não-constantes e tenta-se
determinar g1 e g2 de modo que yp seja efetivamente uma solução de (3).
Observe que
yp0 = g10 y1 + g1 y10 + g20 y2 + g2 y20 .
Impondo que
g10 y1 + g20 y2 = 0,
obtém-se
yp0 = g1 y10 + g2 y20 .
Então,
yp00 = g10 y10 + g1 y100 + g20 y20 + g2 y200 .
Ora,
yp00 + p(t)yp0 + q(t)yp = r(t)
se, e somente se,

g10 y10 + g1 y100 + g20 y20 + g2 y200 + p(t)(g1 y10 + g2 y20 ) + q(t)(g1 y1 + g2 y2 ) = r(t).

Ou seja,
g10 y10 + g20 y20 = r(t),
haja vista ser

y100 + p(t)y10 + q(t)y1 = 0 e y200 + p(t)y20 + q(t)y2 = 0.

Em resumo, se existem g1 e g2 tais que


(
y1 g10 + y2 g20 = 0,
y10 g10 + y20 g20 = r(t),
7
Se p ou q são variáveis e conhece-se uma solução de (3), o método da redução da
ordem pode ser utilizado para determinar uma outra solução independente.

21
então yp = g1 y1 + g2 y2 é uma solução de (3). De fato, por ser {y1 , y2 } um
conjunto fundamental
 
y1 (t) y2 (t)
W (y1 , y2 )(t) = det 0 6= 0, ∀t ∈ (a, b), 8
y1 (t) y20 (t)

logo, pela Regra de Cramer, chega-se a


 
0 y2 (t)
det
0
r(t) y20 (t) −y2 (t)r(t)
g1 = =
W (y1 , y2 )(t) W (y1 , y2 )(t)
e  
y1 (t) 0
det 0
0
y1 (t) r(t) y1 (t)r(t)
g2 = =
W (y1 , y2 )(t) W (y1 , y2 )(t)
Portanto,
Z Z
y2 (t)r(t) y1 (t)r(t)
g1 = − dt + c1 e g2 = dt + c2 ,
W (y1 , y2 )(t) W (y1 , y2 )(t)

para constantes c1 e c2 em R e, assim,


Z  Z 
y2 (t)r(t) y1 (t)r(t)
yp = −y1 dt + c1 + y2 dt + c2
W (y1 , y2 )(t) W (y1 , y2 )(t)
Z Z
y2 (t)r(t) y1 (t)r(t)
= −y1 dt + y2 dt,
W (y1 , y2 )(t) W (y1 , y2 )(t)
pois −c1 y1 + c2 y2 = 0.
A função W (y1 , y2 ) na discussão acima é denominada o Wronskiano de
y1 e y2 .

Exercı́cios propostos

8
Veja o exercı́cio 5 abaixo.

22
1. Determine a solução geral de

et
y 00 − 2y 0 + y = , t > 0.
t

Solução: Como
λ2 − 2λ + 1 = (λ − 1)2 = 0
é a equação caracterı́stica correspondente a EDO homogênea associada
à EDO dada, obtem-se que λ = 1 é a sua raı́z. Daı́, segue-se que

yh = c1 et + c2 tet , c1 , c2 ∈ R,

é a solução geral da EDO homogênea. Observe que


 t 
t t e tet
W (e , te ) = t = (t + 1)e2t − te2t = e2t .
e (t + 1)et

Assim, sendo r(t) = et /t, pelo método da variação de paramêtros, uma


solução particular da EDO dada é

tet et
Z Z t t
t t e e
yp = −e 2t
dt + te dt
e t e2t t
Z Z
1
= −et dt + tet dt = −tet + tet ln t = tet (ln t − 1).
t
A solução geral procurada é então

y = c1 et + c2 tet + tet (ln t − 1), c1 , c2 ∈ R.

2. Determine uma solução particular da EDO


1
y 00 + 3y 0 + 2y = .
1 + et

Solução: Como
λ2 + 3λ + 2 = 0
é a equação caracterı́stica correspondente a EDO homogênea associada
à EDO dada, obtem-se que λ = −1 ou λ = −2 são as suas raı́zes. Daı́,

23
segue-se que e−t e e−2t são soluções independentes da EDO homogênea
e  −t
e−2t

−t −2t e
W (e , e ) = = −2e−3t + e−3t = −e−3t .
−e−t −2e−2t
Assim, sendo r(t) = 1/(1+et ), pelo método da variação de paramêtros,
uma solução particular da EDO dada é
Z −2t Z −t
−t e 1 −2t e 1
yp = −e −3t t
dt + e −3t
dt
e 1+e e 1 + et
et e2t
Z Z
−t −2t
= −e dt + e dt
1 + et 1 + et
= −e−t ln(1 + et ) + e−2t (1 + et ) − ln(1 + et ) .


Exercı́cios propostos

1. Utilize o método dos coeficientes a determinar para determinar uma


solução particular da EDO:

(a) y 00 + 2y 0 + y = 2e−t .

(b) y 00 − 2y 0 + y = tet + 4.

d2 y dy
(c) 2
+ 4 + 4y = te−2t .
dt dt

(d) y 00 + 3y 0 + 2y = 2t2 − 3t + 6.

d2 y dy
(e) 2
− 2 − 3y = −3te−t .
dt dt

(f) y 00 − 9y = t2 e3t + 6.

(g) y 00 + y 0 + 4y = t + cos t.

2. Determine a solução geral de cada uma das EDOs do exercı́cio anterior.

24
3. Utilize o método da variação dos parâmetros para determinar uma
solução particular da EDO:
π
(a) y 00 + y = tan t, 0 < t < .
2
π
(b) y 00 + 9y = sec2 (3t), 0 < t < .
6

d2 y dy e−2t
(c) + 4 + 4y = , t > 0.
dt2 dt t2
4. Determine a solução geral de cada uma das EDOs do exercı́cio anterior.

5. Sejam y1 , y2 : (a, b) → R funções diferenciáveis. Mostre que {y1 , y2 }


é L.D. se, e somente se, W (y1 , y2 )(t0 ) = 0, para algum t0 ∈ (a, b).
Conclua que {y1 , y2 } é um conjunto fundamental de soluções da EDO
homogênea associada a (3) se, e somente se, W (y1 , y2 )(t) 6= 0, ∀t ∈
(a, b).

2.1.3 Problemas de Valor Inicial para EDOs lineares


de segunda ordem
Diferentemente das EDOs de primeira ordem, não há um teorema de
existência e unicidade razoavelmente geral para EDOs de segunda ordem.
Todavia, para EDOs lineares, temos

Teorema 0.0.2 (Existência e unicidade) O PVI



00 0
y + p(t)y + q(t)y = r(t),

y(t0 ) = y0 ,

 0
y (t0 ) = y1 ,

onde p, q, r : (a, b) → R contı́nuas, possui uma única solução y = y(t), t ∈


(a, b).

Geometricamente, se está interessado somente em soluções cujas curvas


integrais correspondentes passam pelo ponto (t0 , y0 ) com inclinação igual a
y1 neste ponto.

25
Exercı́cios propostos

1. Resolva cada um dos PVIs abaixo.


et

 00
y − 2y 0 + y = , t < 0,
(a) t
y(−1) = y 0 (−1) = 0.

(
y 00 + 2y 0 + y = 2e−t ,
(b)
y(−1) = y 0 (−1) = 0.

y 00 + 3y 0 + 2y = 1 ,
(c) 1 + et
y(1) = y 0 (1) = 0.

 2
d y
− 9y = t2 e3t + 6,
(d) dt2
y(0) = 1, y 0 (0) = 0.

(
y 00 + y 0 + 6y = 2t + 6,
(e)
y(0) = 0, y 0 (0) = 1.

(
y 00 + 4y = 3 sin t,
(f)
y(0) = 2, y 0 (0) = 1.

2. Determine o valor de y1 ∈ R de modo que a solução de


(
y 00 − y 0 − 2y = 0,
y(0) = 1 , y 0 (0) = y1 ,

seja limitada no intervalo [0, ∞).

26