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UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO - UFMA

CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS


DISCIPLINA: Introdução à Metodologia das Ciências Sociais
PROFESSOR: Marilande Martins Abreu
ALUNO: Ciro Leonardo Campos Pinheiro
DATA: 24 de agosto de 2016

RESENHA – NIETZSCHE, FREUD E MARX: THEATRUM


PHILOSOFICUM
(Michel Foucault)

Foucault, quando da participação de uma mesa redonda de onde


surgiu esse ensaio, se propôs a analisar as técnicas de interpretação de
Nietzsche, Marx e Freud. Isso porque, na verdade, segundo diz, tinha o
sonho de criar uma espécie de enciclopédia que abarcasse todas as técnicas
de interpretação surgidas até o momento em que participara da dita mesa.

Ele diz que, se fizesse essa tal história das técnicas de


interpretação, diria, como introdução, que a linguagem produziria dois
tipos de suspeita: por um lado, que essa linguagem não diz exatamente o
que diz; e a segunda é que, em certo nível, a linguagem rebaixa a forma
propriamente verbal, e que há muitas coisas que se fala e que não são
propriamente linguagem.

Isso quer dizer, então, que, por exemplo, os gestos mudos, as


enfermidades e todos os tumultos que nos rodeiam também podem nos
falar algo. Em cada forma cultural da civilização ocidental, o que se viu,
portanto, foram sistemas de interpretação e métodos para resolver as
suspeições sobre o que a linguagem quer, realmente, dizer. Fazer um
apanhado das técnicas de interpretação seria, então, fazer um apanhado de
todos esses sistemas ocidentais de interpretação.

No passado, em meados do século XVI, o que dava subsídios à


interpretação era a mera semelhança. Essa semelhança importava para a
cosmologia, a botânica, a filosofia. Na modernidade, toda essa rede de
semelhanças se torna um tanto quanto confusa. Naquela época, porém, essa
rede de símbolos e semelhanças estava perfeitamente clara e organizada e
fundamentavam todos os tipos de conhecimento possível.
Essas técnicas, no entanto, ficaram suspensas a partir dos séculos
XVII e XVIII, com o advento das críticas baconianas e cartesianas e, já no
século XX, com as novas possibilidades de interpretação construídas por
Marx. Nietzsche e Freud.

Essas três últimas técnicas abriram feridas no pensamento


ocidental, pois, o que antes servia para interpretar o mundo ao redor, nos
obriga, agora, a interpretar a nós mesmos. Eles, no entanto, não trouxeram
novos símbolos a serem interpretados, mas sim, trouxeram e mudaram a
própria formar de interpretar esses símbolos.

Para eles, principalmente em Nietzsche, o aprofundamento das


interpretações leva-nos a um caminho quase que inicial porque retorna
sempre ao reflexo do próprio mundo. Marx fala que não há monstros na
investigação sobre a estrutura burguesa, o significado do valor, da moeda
etc., porque estes estão cobertos de banalidade. O consciente, em Freud, foi
apreendido como, em verdade, um reflexo do inconsciente. Isso abriu
precedentes para algo terrível, quase como loucura, pois a verdade que
existe é as interpretações são infinitas. Tão infinitas ao ponto de terem a
chance de apagar até mesmo o intérprete delas.

Isso quer dizer que, no fundo, nada mais é do que simplesmente


interpretar. Cada símbolo não é algo a se interpretar, pois a própria
interpretação é resultado de outro símbolo já interpretado. A ideia de
interpretação, então, precede o símbolo. Na hermenêutica, como não há
finitude quando da interpretação, ela acaba voltando a si mesmo em um
processo cíclico.

De fato, parece-nos que a interpretação, nos termos propostos por


Foucault, é o próprio ato de viver. Tudo o que se faz é sempre um processo
de significação feito intensa e constantemente. Talvez, então, o que chegue
mais próximo de um ato de interpretação plena seja a morte, onde a vida,
fato gerador da cadeia de significações, já não perpetua o constante quadro
de designações.