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Seremos bons pais? O meu filho é feliz? Se faz estas perguntas,


é porque se preocupa… e está no bom caminho????
10
Seremos
bons

A
PAIS?
pesar das dificuldades próprias do momento em que vivemos, como a falta de tempo para os filhos
ou a imensidade de informações sobre amar e educar uma criança, por vezes contraditórias, o ba-
lanço é positivo. Estamos hoje muito mais conscientes do que é benéfico para um bom desenvolvimento
infantil o que nos ajuda a amar melhor os nossos filhos.

O
s pais de hoje preocu-
pam-se com a forma
como amam, educam,
cuidam e apoiam os fi-
A angústia da perfeição
lhos. Provavelmente, os É sabido que pais perfeitos não existem… e ainda bem. Essa
nossos pais também desejaram ser fantasia jamais será alcançada, o que prova que somos psico-
“bons pais”, mas não da maneira logicamente saudáveis e temos os pés na terra. O mundo real
sistemática e consciente como es- é totalmente imperfeito o que é, afinal, o motor da nossa bus-
tes o fazem. Esta nova atitude tem ca constante por soluções adequadas, pelo nosso aperfeiçoa-
a ver com a quantidade de infor- mento, pela vontade de sermos pais melhores. Por outro lado,
mação de que dispomos sobre o é bom que se saiba que aqueles pais que agem como se fossem
nosso funcionamento psicológico perfeitos, que dão a imagem aos filhos de que nunca erram,
desde a mais tenra idade, assim co- zangam, estão cansados, irritados e tristes, criam nos filhos
mo da importância enorme de uma uma ansiedade enorme porque sentem que jamais chegarão
boa relação entre pais e filhos co- àquele patamar de “perfeição”. Saber que os pais erram tam-
mo forma de garantir o bem-estar bém é reconfortante para as crianças, permite-lhe saber que
e desenvolvimento equilibrado das podem errar. Podemos dizer-lhes: “desculpa, irritei-me sem ra-
crianças e, assim, torná-las poten- zão, não sou perfeito mas para a próxima vou tentar fazer me-
cialmente adultos felizes. Esta no- lhor”. É claro que não se desculpabiliza o descontrole emocio-
ção mais apurada sobre os benefí- nal gratuito, é evidente que devemos evitar discussões, gritos
cios do afecto, da atenção, do ca- e acusações, mas somos feitos de carne e osso. Há momentos
rinho e da disciplina, entre muitos difíceis, seja de cansaço, de desânimo ou de impotência que
outros aspectos, leva a que os pais nos descontrolam e, muitas vezes, tudo isso recai injustamen-
se ponham em causa, que tenham te sobre as crianças. Outras vezes, são elas que se portam mal
medo de errar e que hesitem no porque estão mal dispostas, cansadas, irritadas e frustradas ou
que devem fazer. Mas o facto de pura e simplesmente malcriadas, e a nossa paciência tem li-
se lhes colocarem tantas dúvidas e mites. Importante é que hoje já não se aposta tanto no casti-
inquietações sobre o seu desempe- go e nas palmadas para obrigar à obediência inquestionável.
nho tem um lado positivo. Leva-os Todos os profissionais nestas áreas encorajam a comunicação
a querer fazer melhor e a procurar entre pais e filhos.
lidar de maneira mais criativa com 

as dificuldades e os contratempos.
Bebé d’hoje 11
Seremos bons pais?
 

Fotos: Ojofoto
Lidar com as birras Inventar
Muitos pais interrogam-se sobre a melhor forma de lidarem com
bons momentos
Com três filhos com idades
as birras dos mais pequenos. Não sabem que fazer: “fingimos
entre os 13 e os 7 anos, Ri-
que não damos por isso? arrastamo-los para a cama sem jantar?
cardo e Teresa trabalham o
Tentamos trazê-los à razão?”. Francisco Soure, psicólogo clínico,
dia inteiro, ela numa em-
é de opinião de que “quando uma criança faz birra, está a medir
presa de design gráfico, ele,
forças com os pais, é o teste de quem manda lá em casa”. Para
como arquitecto num ate-
isso, aconselha a “nunca ceder”, caso contrário a criança “apren-
lier. Regressam a casa ao
de que a birra é recompensada, e fá-la-á sempre que quiser forçar
anoitecer, cansados e cul-
uma vontade sua”. É útil, diz Francisco Soure, que se apliquem
pados de que “já não vão a
medidas como o time-out, ou seja, mandar a criança fazer “birras
tempo”. Não acompanha-
para o seu quarto ou, quando na rua, para o carro”.
ram os trabalhos de casa
Para Catarina Mexia, terapeuta familiar, “as birras são quase
dos filhos, não lhes deram
sempre uma forma de chamada de atenção pela criança, e uma
o lanche nem o jantar, não
forma de tentar obter a satisfação imediata do seu desejo”. Em
foram a tempo de pegarem
idades como os três e os quatro anos “as explicações não têm
nas bicicletas e darem com
muito efeito já que a sua capacidade de diferir no tempo a satis-
eles uma volta pelo jardim
fação do desejo ainda não existe”. Por outro lado, as birras “são
mais próximo, não conver-
manifestações de independência, movimento natural e desejado
saram com eles uns minutos
nestas idades e que pode ser mais “colorido” pela personalida-
antes de se deitarem. A em-
de da criança”.
pregada e as avós revezam-
Por tudo isto, Catarina Mexia defende que a mãe ou o pai deve
se para ir buscar os mais no-
“resistir e controlar a sua própria raiva, recordando-nos que esta
vos à escola. Quando a Rita
ira não nos é dirigida mas a uma situação normal e decorrente
e o Ricardo chegam final-
do crescimento da criança”. Se as birras acontecem em público,
mente a casa, a maioria das
“deve-se procurar levá-la para um local sossegado e esperar que
vezes as crianças já estão
se acalme”. Há que evitar “fazer longas jornadas de compras ou
deitadas e limitam-se a dar-
outras actividades que vão frustrar e cansar as crianças”, o que
lhes o último beijo da noite.
obviamente, é um convite aberto às temidas birras em público,
Os miúdos viram-se na cama
embora as privadas também mereçam uma atenção especial.
com ar ensonado e adorme-
cem de seguida. A melhor
forma que encontraram pa-
ra amenizar a culpa e apa-
ziguar o desejo de estarem
mais com os filhos foi de-
cidir levantarem-se todos
uma hora mais cedo que
o habitual. A hora perdida
da noite passou a ser a ho-
ra ganha no “dia”. Fizeram
dos pequenos-almoços bons
momentos de conversa e
partilha, de projectos para
o dia e brincadeiras descon-
traídas. Simples trocas de
amor que alimentam para a
vida. E, mesmo na ausência
dos pais, as crianças apelam
à lembrança detes bons mo-
mentos, o que é um factor
de protecção para as ausên-
cias paternas e maternas.

12 Junho 2011
Seremos bons pais?
 

Liberdade e disciplina
Para os pais de hoje, é fundamental saber fazer esta diferença.
Deixar as crianças explorarem o mundo que as rodeia, em segu-
rança, é uma atitude essencial para que se tornem autónomos e
confiantes, sabendo que podem ir e voltar, porque estaremos lá
para os apoiar. Também há liberdade para perguntar, falar, ques-
tionar as ordens, refilar, contradizer e dizer de sua justiça.
À medida que crescem, as crianças vão amadurecendo e têm as
suas próprias ideias sobre si e sobre o mundo, o que não deixa de
ser positivo. Hoje em dia tornou-se raro ouvir uma mãe dizer ao
seu filho: “é assim, porque sou eu que o digo”, ou “cá em casa
mando eu”, ou ainda “quando chegar o teu pai conto-lhe tudo e
vais ter que te haver com ele”. Não se usa porque não se preten-
de que a criança obedeça por medo.
No entanto, a liberdade não se vive sem disciplina, evitando a
permissividade e as respostas ambíguas, tão comuns hoje em
dia. Francisco Soure diz-nos “que o ponto certo da disciplina es-
tá em mostrar à criança onde está o limite, sem que isso se tor-
ne excessivo”, sublinhando que “se não deixarmos margem para
que a criança explore o mundo e interaja com ele tornamo-nos
opressivos e limitamos o seu desenvolvimento”.
Contudo, é “extremamente importante sermos firmes naquilo
que consideramos fundamental e ser consistentes na aplicação
desses limites”, defende. A permissividade anda muito perto da
inconsistência. Um dia deixa-se a criança ter um determinado É um cidadão ner-vo-so, essa criatu-
comportamento ou actividade, no outro não se deixa porque… ra dia 5 de M 50 aio de 1989 senta-
estamos cansados, distraídos ou não nos apetece ouvir gritos e da à sua secretária na baixa 100 lis-
brigas. Depois de ponderar a decisão do que será mais benéfico boeta. Tem 31 anos, um emprego
para a criança, não se deve voltar com a palavra atrás só porque há dezassete, habita um apartamen-
ela insiste até à exaustão. to de quatro assoalhadas nos 200
arredores da cidade, um dia casou,
oioioioio teve uma filha, depois separou–se,
viveu outras vidas, como 300 toda a
gente. Até mesmo o ardor que nes-
sa manhã sente no braço não é no-
vidade, já deu por ele vá 400 rias ve-
zes. Embora hoje e, no acto mesmo
de coçar–se, pouse mecanicamente
Por mais exaustos que estejamos, “abrir excepções, é o pior que a esferográfica, arrega 500 a cami-
podemos fazer”. Mais importante que tudo, segundo Francisco sa, se ponha a olhar. O que vê? Na-
Soure, “é recompensar a criança e mostrar que valorizamos o da de especial, a princípio. Mas de
facto de se portar bem”. O tema dos limites, diz, “é vital, para a facto, que serão e 600 sa espécie de
criança crescer em segurança”. minúsculas manchas castanhas es-
Catarina Mexia insiste que “a existência de limites, respeito pelo palhadas na pele? Olha melhor. Não
espaço do outro e a aprendizagem dos valores básicos da convi- se trata exacta 700 mente de man-
vência em sociedade são aprendizagens fundamentais que se con- chas, antes de uma rede de caroços
seguem com disciplina e constância nos nossos comportamentos duros, como cabeças de alfinete.
e naqueles que queremos transmitir aos nossos filhos”. Sarna? Talvez sar 800 na.

O médico de clínica geral do Cen-


tro de Saúde enviá–lo–á a um der-
matologista, que lhe rece 900 ta
uma pomada. Põe–na durante três
dias, sem resultado. Pelo contrário,
14 Junho 2011
Os bons pais são...
Ouvintes

Fotos: Ojofoto
Saber ouvir é fundamental.
Crianças e adolescentes preci-
sam de ser escutados pelos pais,
o que significa serem observa-
dos e olhados com “olhos de
ver”. Vale a pena aprenderem
uma técnica muito simples de
“meter conversa” com os filhos.
Trata-se da escuta activa, mé-
todo desenvolvido por ???… e
que ensina os pais a entrarem
em contacto com os filhos.

Optimistas
Não há melhor que um pai ou
uma mãe optimista, que tem
confiança na vida e acha que,
na maioria das vezes, tudo ou
quase tudo tem solução. E que
na pior das hipóteses, uma cri-
se pode abrir portas para um
mundo mais rico e sábio. Cres-
cer impregnado desta fé po-
de mover montanhas. E é das
melhores heranças que um pai
pode deixar a um filho: evitar
os dramas e os medos, confiar,
Educação emocional procurar e construir.

Confirma-se um pouco por todo o lado que os pais de hoje levam Flexíveis
muito mais a sério a educação emocional dos seus filhos, ou seja, Disciplina é indispensável, faz
são sensíveis e empáticos com o que a criança sente. Com duas parte integrante de uma estru-
filhas pequenas, Isabel não hesita em “pôr-se na pele delas quan- tura da personalidade forte e
do sente que estão assustadas, nervosas, inquietas”. Basta ouvi- saudável. O caos desintegra e as
las com atenção e carinho, e valorizar as suas emoções para que crianças que crescem sem regras
elas se acalmem quase instantaneamente. “É vital que as crianças nem limites correm riscos sérios.
tenham voz”, diz Francisco Soure, “e que os pais estejam atentos Mas é aconselhada uma certa
às suas emoções”. Também é bom que percebam quando “uma flexibilidade e maleabilidade na
zanga é uma expressão de tristeza e quando um choro é uma ten- avaliação das circunstâncias. Ser
tativa de manipular”. A empatia que sentirmos por elas “vai servir flexível, ensina-lhes que a vida
de modelo à que eles irão dar aos outros”. E acrescenta: “quan- não é rígida mas dinâmica.
do nos mostramos atentos às suas emoções, ensinamos-lhes a re-
agir de forma adequada ao que o mundo lhes traga, damos-lhes Imperfeitos
ferramentas para antecipar e compreender o comportamento dos Os pais erram porque são seres
outros”. Nunca é demais destacar em todos os processos da rela- humanos imperfeitos. Saber is-
ção entre pais e filhos a importância enorme da comunicação, de so é um conforto para os nos-
uma forma adequada à idade, bem entendido. A forma de comu- sos filhos. Sobretudo, é preciso
nicar com um bebé é necessariamente diferente da que usamos bom senso e sentido de justiça.
para comunicar com uma criança de dois ou três anos. Muito de- Quando nos excedemos porque
penda da sua etapa de desenvolvimento, embora a essência des- estamos exaustos ou zangados
sa comunicação seja sempre a mesma, que é o impulso de amor com a vida, é bom que se saiba
em relação aos nossos filhos. É essencial é nunca perder essa co- que as crianças recuperam com
municação amorosa, atenta, empática, que é feita de mil formas, facilidade. Basta que sintam
sendo o contacto físico, como o colo, o abraço e os beijos gestos que as amamos e que as
que cimentam a sua segurança e conforto emocionais. apoiaremos sempre.

Bebé d’hoje 15