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29/11/2019 A natureza do marxismo – SAPIENTIAM AUTEM NON VINCIT MALITIA

A natureza do marxismo
Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, 18 de dezembro de 2003

Investigando durante décadas a natureza do marxismo, acabei concluindo que ele não é só uma teoria, uma
“ideologia” ou um movimento político. É uma “cultura”, no sentido antropológico, um universo inteiro de
crenças, símbolos, valores, instituições, poderes formais e informais, regras de conduta, padrões de discurso,
hábitos conscientes e inconscientes, etc. Por isso é autofundante e auto-referente, nada podendo compreender
exceto nos seus próprios termos, não admitindo uma realidade para além do seu próprio horizonte nem um
critério de veracidade acima dos seus próprios fins autoproclamados. Como toda cultura, ele tem na sua
própria subsistência um valor que deve ser defendido a todo preço, muito acima das exigências da verdade ou
da moralidade, pois ele constitui a totalidade da qual verdade e moralidade são elementos parciais, motivo
pelo qual a pretensão de fazer-lhe cobranças em nome delas soa aos seus ouvidos como uma intolerável e
absurda revolta das partes contra o todo, uma violação insensata da hierarquia ontológica.

A constituição da sua identidade inclui dispositivos de autodefesa que impõem severos limites à crítica
racional, apelando, quando ameaçada real ou imaginariamente, a desculpas mitológicas, ao auto-engano
coletivo, à mentira pura e simples, a mecanismos de exclusão e liquidação dos inconvenientes e ao rito
sacrificial do bode expiatório.

Iludem-se os que acham possível “contestar” o marxismo por um ataque bem fundamentado aos seus
“princípios”. A unidade e a preservação da sua cultura estão para o marxista acima de todas as considerações
de ordem intelectual e cognitiva, e por isso os “princípios” expressos da teoria não são propriamente “o”
fundamento da cultura marxista: são apenas a tradução verbal, imperfeita e provisória, de um fundamento
muito mais profundo que não é de ordem cognitiva e sim existencial, e que se identifica com a própria
sacralidade da cultura que deve permanecer intocável. Esse fundamento pode ser “sentido” e “vivenciado”
pelos membros da cultura por meio da participação na atmosfera coletiva, nos empreendimentos comuns, na
memória das glórias passadas e na esperança da vitória futura, mas não pode ser reduzido a nenhuma
formulação verbal em particular, por mais elaborada e prestigiosa que seja. Por isso é possível ser marxista
sem aceitar nenhuma das formulações anteriores do marxismo, incluindo a do próprio Marx. Por isso é
possível participar do movimento marxista sem nada conhecer da sua teoria, assim como é possível rejeitar
criticamente a teoria sem cessar de colaborar com o movimento na prática. A investida crítica contra as
formulações teóricas deixa intacto o fundamento existencial, que atacado reflui para o abrigo inexpugnável
das certezas mudas ou simplesmente produz novas formulações substitutivas que, se forem incoerentes com
as primeiras, não provarão, para o marxista, senão a infinita riqueza do fundamento indizível, capaz de
conservar sua identidade e sua força sob uma variedade de formulações contraditórias que ele transcende
infinitamente. O marxismo não tem “princípios”, apenas impressões indizíveis em constante metamorfose.
Como a realidade da vida humana não pode ser vivenciada senão como um nó de tensões que se modificam
no tempo sem jamais poder ser resolvidas, as contradições entre as várias formulações do marxismo farão
dele uma perfeita imitação microcósmica da existência real, dentro da qual o marxista pode passar uma vida
inteira imune às tensões de fora do sistema, com a vantagem adicional de que as de dentro estão de algum
modo “sob controle”, atenuadas pela solidariedade interna do movimento e pelas esperanças compartilhadas.
Se o marxismo é uma “Segunda Realidade”, na acepção de Robert Musil e Eric Voegelin, ele o é não
somente no sentido cognitivo das representações ideais postiças, mas no sentido existencial da falsificação
ativa, prática, da experiência da vida. Por isso qualquer povo submetido à influência dominante do marxismo
passa a viver num espaço mental fechado, alheio à realidade do mundo externo.

Detalharei mais no próximo artigo estas explicações, resumo das que ofereci no meu recente debate com um
professor da Faculdade de Direito da USP, às quais meu interlocutor respondeu que eu pensava assim por ter
“problemas emocionais graves” — sem perceber que, com isso, dava a melhor exemplificação da minha
teoria.

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