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Barra do

e s p e c i a l

Pojuca
r e v i s t a

ponto
movel
cidade do
saber
1

30
GENTE QUE
Sumário FAZ

LÁ VEM
HISTÓRIA 34

PERSONAGENS
HISTÓRICOS 36

SABERES E 14 DICAS
FAZERES CULTURAIS
38

QUEM CONTA
UM CONTO
18 PAINEL
40
CRIATIVO

MOVIMENTO
ARTÍSTICO 20

AÇÃO
GOVERNAMENTAL 24

BARRA DO 06
POJUCA 26 ESPAÇO
VERDE

NOSSA
12 SABOR DA TERRA 28 LAZER 42
GENTE

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e s p e c i a l

Barra
do
Pojuca Editorial

Consolidada em Camaçari como um adaptado e chamado de Ponto Móvel registrar, preservar e divulgar a cultura local.
celeiro de saberes e de oportunidades, Cidade do Saber, percorre o litoral,
a Cidade do Saber – Instituto Professor pulverizando informação e fortalecendo os Esse material é uma contribuição da Cidade
Raimundo Pinheiro – conta com uma nova saberes e tradições de cada localidade, além do Saber para disseminar fragmentos da
estrutura itinerante, para levar ainda mais de revelar talentos artísticos, num show de riqueza da cultura e da história dessas
conhecimento aos moradores que vivem calouros denominado Palco da Cidade. comunidades, tão bem narradas pelos
fora do centro do município, onde fica a personagens que colecionam “causos” para
sede da instituição. Como via de aproximação e trocas mais contar e encantar as novas gerações e os
intensas com as comunidades da orla de visitantes.
O projeto, que une cultura, esporte e Camaçari, esta revista – seguida das edições
educação para a inclusão social, adquiriu que contemplam sete outras localidades Mergulhe também no universo cultural
mobilidade e, em um caminhão-baú – conta um pouco da origem, da cultura, de Monte Gordo, Barra do Jacuípe, Jauá,
do cotidiano e das tradições de Barra do Arembepe, Areias, Vila de Abrantes e o
Pojuca. A publicação integra as diretrizes povoado de Cordoaria (remanescente
da Cidade do Saber, que busca também quilombola).

Boa leitura!

Essa publicação segue as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em 1990, em vigor desde janeiro de 2009.

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Distrito de
Monte Gordo
Sejamdos
bem vin

1 Barra do Pojuca
Camaçari
2 Monte Gordo

3 Barra do Jacuípe

Cidade do Saber
Sede Camaçari

4 Arembepe

8 5 Areias
Cordoaria
Distrito de
6 Jauá
Abrantes
7 Vila de Abrantes

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Barra
do
Pojuca

Um lugar para viver e sentir


Principal anfitriã de Barra do Pojuca, é A presença marcante da atividade ternos, folias e reisados) que foram
a natureza quem se encarrega de dar as pesqueira é evidenciada na culinária, preservadas.
boas vindas aos visitantes dessa localidade que apresenta pratos com influências
de Camaçari, que também já foi chamada portuguesa, indígena e africana. As Manifestações socioculturais como os
de Ipojuquinha e Pojuquinha. Além das receitas à base de farinha e da folha da reisados, semelhantes ao bumba-meu-boi,
riquezas naturais, Barra do Pojuca é mandioca, o uso do azeite de dendê e fazem parte da tradição local. Reis do Boi
conhecida pelo povo simples e acolhedor. o preparo de doces e licores com frutas é o nome dado pelos moradores de Barra
diversas são exemplos do legado cultural do Pojuca a uma de suas manifestações
O Rio Pojuca, com destacada importância deixado por esses povos. culturais. Até o ano de 1940, após o Reis
para os moradores, está situado entre do Boi, era comum prosseguir os festejos
a reserva de Sapiranga e o subdistrito Legado cultural com o Terno da Mangaba.
de Barra do Pojuca, na comunidade da
Cachoeirinha, onde mora grande parte É por essas e outras características que Tanta história contada e cantada remonta
dos pescadores da região. há muito o que se descobrir em Barra do a uma época de forte valorização das
Pojuca. Os antepassados, dos que hoje expressões culturais, presentes hoje nos
A pesca e a mariscagem feita com jererés habitam o lugar, deixaram uma herança ternos do Espermacete e o da Mangaba.
e covos (armadilhas) estão entre as de ricas manifestações. E muitas dessas Na Cachoeirinha ainda resistem o
principais atividades, sendo a base da tradições sobrevivem para valorizar e Terno do Bumba-Meu-Boi, liderado por
alimentação e sustento das famílias. reproduzir a identidade cultural, como Manoel Bochecha, e o Reisado do Guará,
as tradicionais brincadeiras (folguedos, comandado por Dona Joaninha.

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Nos reisados dos bois
existem duas figuras: o boi e o
caboclo, que é encarregado de “dividir”
e “vender” o boi. A brincadeira começa
quando o pandeiro anuncia o canto:

“Deus lhe dê uma boa noite, boa noite


venho dar” .

Se os donos da casa demoram a


atender, eles insistem:

“Abre a porta senão eu morro, abre a


porta que eu já morri”.

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Barra
do
Pojuca

Conforme conta Manoel Bochecha, em Espermacete, liderado por mestra Nildes, já


Cachoeirinha havia duas famílias: a do realizou apresentações até fora do estado,
senhor José Marques Teixeira e a família mantendo viva e divulgando a tradição.
Dias, que muito contribuíram com a
cultura local. A família Dias era dona da Todas essas manifestações fazem parte de
maior parte das terras do povoado e uma vivência, de um conto ou da recriação
divulgadora das folias na região. Há outros de algum morador que ajudou a fundar
representantes das manifestações de Barra do Pojuca. Assim aconteceu com
Barra do Pojuca, como os mestres Nildes o Terno do Zé do Vale, por exemplo, que
Pereira da Conceição, Manoel Conceição foi difundido, na localidade, por volta
Filho e Luis de Jesus, que ajudou a fundar de 1940, sendo mantido por mais duas
o reisado do Guará Mirim. décadas.

Formado por alunos da Escola Ambiental, O folguedo mostra o esforço da família de Manoel
o Guará Mirim da Tiririca é uma esperança Zé do Vale para convencer o presidente Bochecha
para a comunidade de que os reisados a soltá-lo. Ele foi preso porque seu cavalo
não se extinguirão e que os ternos comia em pastos alheios e por ter matado
continuarão a alegrar o povoado. O grupo muita gente no sertão. Nesse folguedo,
faz apresentações em diversas localidades a família conta os sofrimentos que o
e até já gravou um CD. Por sua vez, o acusado passou.

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NÃO DEIXE DE VISITAR:

Localizada na Cachoeirinha,
a Cascatinha dos Prazeres é
ideal para o lazer de crianças
e adultos. As corredeiras
do Rio Punhai também
favorecem a pesca do pitu.

Itacimirim também é
Barra do Pojuca
Igreja da Uma das mais belas praias do Litoral Norte da Bahia,
Cachoeirinha Itacimirim é um balneário revelado pelos seus rios, mangues,
piscinas naturais de águas mornas e ondas de até três metros.
Seu nome, que já foi Tacimirim, significa “formiga pequena”
em tupi-guarani. Um paraíso tropical formado a partir de
uma vila de pescadores. Esse recanto de Barra do Pojuca
fica a apenas 48km da capital baiana. É a última praia da
Estrada do Coco, que corta a região conhecida como Costa
dos Coqueiros e fica a 6km da Praia do Forte, onde começa a
Linha Verde.

Com rio de água clara e morna e paisagens naturais, de


clima seco e sub-húmido, a localidade de Itacimirim é
praticamente formada pelas casas dos moradores, pousadas
e hotéis, além das casas de veraneio.

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Barra
do
Pojuca

As cinco praias de Itacimirim são o maior Entre os meses de dezembro e fevereiro, recheado de frutos do mar.
atrativo turístico e se destacam por belas a Praia da Espera assiste à desova das
paisagens: tartarugas marinhas e, entre agosto e Praia das Ondas
setembro, ao espetáculo das baleias
Praia do Porto Jubarte. O nome, segundo pescadores, O nome revela a principal característica:
deve-se ao fato de a praia ser o único ondas propícias ao surf. A areia macia faz
Suas águas são tranquilas e resguardadas “porto certo” de toda a região, por causa um irrecusável convite para caminhadas à
por uma barreira de corais que formam das virações das demais barras. Foi nessa beira-mar.
uma piscina natural. De lá, dá para ver as praia que o navegador Amyr Klink aportou
outras três primeiras praias e os visitantes em 1984, após viagem solitária de cem Praia da Barra
têm a oportunidade de tomar banho de dias, em um barco a remo, entre a África
mar ao lado das tartarugas marinhas que do Sul e o Brasil. Formada pela foz do Rio Pojuca, rodeada
se alimentam no local. por areias, coqueirais e manguezais.
Praia do Peru Sua água doce é morna e rica em pitus,
Praia da Espera ingrediente de um dos pratos típicos mais
É considerada uma das melhores praias procurados pelos visitantes. Através de
Está entre as mais visitadas. A para a prática do surf em toda a Costa passeios de barco, é possível vislumbrar as
movimentação de barcos de passeio e dos Coqueiros e frequentemente corredeiras.
de pesca compõe o cenário de um porto sedia campeonatos. Abriga, inclusive,
peculiar. Suas piscinas naturais são formadas uma escola para treinar novos atletas. A exuberância da natureza, a
por arrecifes de corais e delicadamente Além de ser um ponto privilegiado hospitalidade dos moradores e a riqueza
coloridas por diversas espécies de peixes. A para se contemplar o pôr-do-sol, seus das manifestações culturais fazem de
prática de mergulho, surf, kitesurf, windsurf, restaurantes e barracas são um atrativo Barra do Pojuca um lugar singular aos
canoagem, futebol, frescobol, vôlei e pesca à parte para quem aprecia boas iguarias olhos dos visitantes e motivo de orgulho
com anzol são muito comuns. gastronômicas, a partir de um cardápio para o seu povo.

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As cinco praias de
Itacimirim são um
atrativo à parte para
visitantes de Barra do
Pojuca

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Nossa
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Barra
do
Pojuca Gente Entrevista:
Ramiro
Marques

“E, assim, minha vida foi fui fazendo a minha freguesia com os

trabalhar” próprios vendedores de peixe que eram os


fornecedores de meu pai. Tomei uns calotes
e quase perdi tudo. Passei a vender apenas
Ele foi subdelegado e juiz de paz de Barra do Pojuca. Por lá, é conhecido como seu Ramiro coco, de 15 em 15 dias, em Pojuca de Cima,
da Cachoeirinha, apelido carinhosamente atribuído pelos moradores do povoado que Camaçari (sede) e até em Candeias.
sua família ajudou a fundar e onde ele nasceu. Sua esposa, Dona Marina, filhos e netos
são importantes referências e inspiração de sua vida, cuja trajetória de 84 anos é contada RPM: E como o senhor transportava os
durante esta entrevista à Revista Ponto Móvel da Cidade do Saber. Conheça Ramiro cocos?
Marques, esse personagem-símbolo da comunidade de Barra do Pojuca.
Sr. Ramiro: Eu ia com os animais. Tinha
pasto por lá. Eu saía daqui e ia para a sede de
Camaçari. Passava a noite e ia para Candeias.
Revista Ponto Móvel - A família Marques irmãos. Acabei criando todas as minhas seis Nisso eu dei umas 30 viagens. Depois, passei
foi uma das fundadoras de Cachoeirinha. irmãs. Naquele tempo era difícil fazer feira, a ir a Feira de Santana, época em que eu já
O senhor pode contar um pouco dessa porque por aqui não tinha nada para vender. tinha carro. Passei uns 25 anos em Feira de
história? Tínhamos que ir para Mata de São João. Santana. E, assim, minha vida foi trabalhar.
Toda semana eu ia às compras e também Eu botava roça de cinco ou seis tarefas. Era
Sr. Ramiro: Minha família e eu nascemos vendia coco e peixe. Meu pai era freguês um mundo de roça, daqui até a Cascata,
e nos criamos aqui. Éramos oito irmãos - dos pescadores de Itacimirim e eu ia com tudo era roça minha. Continuo trabalhando
dois homens e seis mulheres. Quando eu ele desde os meus dois anos. Quando ele até hoje. Todo dia de manhã vou para a roça,
completei 15 anos, meu pai ficou paralítico adoeceu, tinha comprado uma carga grande faço a minha caminhada e depois tomo um
por causa de um derrame e morreu 24 anos e precisava conservar com sal grosso batido banho na Juerama.
depois. Eu cursava o quarto ano primário no pilão. Minhas mãos ficavam cheias de
e tive que sair da escola para cuidar do calo. Assim que meu pai ficou doente, eu RPM: Então o senhor criou seus irmãos e
meu pai, por que eu era o mais velho dos assumi as compras da casa. Nas viagens, depois os seus filhos?

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Sr. Ramiro: Meus irmãos, filhos e sobrinhos, RPM: Além de trabalhar, qual era a sua
pois tive uma irmã que morreu jovem. distração?
Carlinhos, o vereador Carlos Marques,
eu criei até os 12 anos. Além dos meus Sr. Ramiro: Eu era muito festeiro e aqui
sobrinhos, criei também outras crianças, tinha muita festa. Eu tinha um cavalo. Ia até
uma delas foi um menino de uma senhora Mata de São João para a Festa do Bonfim.
no Areial. Peguei outro menino depois. Tive No dia 1º de janeiro tinha Jordão, em Monte
dez filhos legítimos. Tenho tantos netos Gordo. Ia pra Torre, pra Malhadas e até
que nem sei o total. Tem hora que Marina Pedra do Salgado. Aqui, quando era tempo
[esposa] se apavora. de rezar, meu pai rezava São José, ou quando
rezava pra outro santo o pessoal fazia aquele
RPM: Quantos anos de casado o Sr. e D. samba. Em tempo de Reis faziam o boi, a
Marina têm? gente abria as casas, tinha aquela bebida pra
servir, dava um dinheirinho pra eles levarem,
Sr. Ramiro: Temos 56 anos juntos. Eu vou e tinha essa distração de casa em casa.
fazer 84 anos e ela 74.

Seu Ramiro e
Dona Marina
com filhos e
netos

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Saberes
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Barra
do
Pojuca e Fazeres

Mestra Nildes e o Espermacete Japonês


“Espermacete japonês, eu tia, que foi o Espermacete, que era como também, a “Mangaba”.
eles chamavam”, relembra Nildes.
nunca vi por aqui, o temporal Na liderança dos grupos Espermacete e
foi muito forte, deu na costa Em 1994, as duas resolveram dar vida à Mangaba, Nildes conta com a colaboração
brincadeira. Elas saíam de chapéu de palha, da sua mãe, Dona Arlinda, 85 anos,
do brasi...” com um espelhinho do lado e fitinhas que tem passado os saberes de uma
amarradas. A bandeira tinha um sol e uma chegança (outro tipo de terno) para
Barra do Pojuca já abrigou diversos lua. que ela desenvolva um trabalho com os
Ternos de Reis. Na década de 70, era jovens do lugar. Durante a brincadeira da
muito comum ver um deles pelas ruas Mestra Nildes trouxe para Barra do Mangaba, as mulheres seguem pelas ruas
no mês de janeiro. No entanto, o Terno Pojuca essa manifestação que se originou cantando: “Apanhar mangaba no oiteiro
do Espermacete Japonês é hoje um dos na Vila de Santo Antonio, em Porto do liso, eu só tenho medo do nego fugido.
mais atuantes na região. É comandado Sauípe. Antes, em 1991, ela e a prima Apanhar a mangaba no galho de dentro,
por mestra Nildes Pereira Bonfim, uma Dominguinhas já haviam reavivado o vamos moquear pra ver o presidente”.
apaixonada pelos ternos e por samba “Silivera”, outro tipo de terno, um samba Atualmente, o terno da Mangaba é
também. “Conversando com minha também. Eram umas meninas vestidas de revivido por mulheres de três gerações
prima Dominguinhas ela disse que tinha baiana e um rapaz vestido de espantalho. que trabalham para preservar a cultura
um terno que ela ainda não tinha me Cantavam o reisado na porta e depois local: Dona Arlinda, mestra Nildes e Mila
ensinado, que já veio de vovô, de minha vinha o samba. Em 1992, elas reativaram, (filha da mestra).

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Três gerações:
D. Arlinda,
mestra Nildes e
Mila
Espermacete Japonês?
Mas... o que é isso?
“A história do Espermacete é a história de um
navio vindo do Japão que naufragou aqui e
isso juntou os nativos, que começaram a achar
especiarias. Além disso, começou a aparecer
na praia uma substância como uma borra de
vela, que era o espermacete, uma substância da
baleia, que tava (sic) na carga do navio. E daí,
quando os nativos se juntavam para fazer as
tranças (de palhas), juntavam aqueles mutirões
de mulheres para fazer os trançados. E começa-
ram a cantar as músicas, que, resumindo, deu Contatos para
apresentação do
no Espermacete”. Espermacete:
Mestra Nildes:
Mestra Nildes Pereira Bonfim (71) 9633-3327
(71) 8147-4844

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Saberes
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Barra
do
Pojuca e Fazeres

A arte em taliscas de Seu Lula


“Deus foi meu professor, eu diz Seu Lula, que já fez trabalhos para apenas um pedido por vez e conta que,
não aprendi com ninguém”. muitas pousadas, restaurantes e cafés em aos poucos, foi aperfeiçoando e o próprio
toda a Linha Verde. trabalho lhe trouxe novas ideias.

O artesão Luis de Jesus cria móveis, Mas o artesão não quer apenas continuar Além do artesanato, Seu Lula também
objetos de decoração e os mais variados fazendo arte. O que deseja mesmo é vive a arte de outro jeito. Durante muito
utensílios tendo como matéria-prima a ensinar a técnica a novas gerações. tempo, foi o caboclo do Terno do Guará
talisca (parte mais fina do caule) do dendê. Pensando nisso, já tentou montar uma da Cachoeirinha e depois ajudou a
A coleta do material é feita mata adentro, unidade para aumentar a produção e fundar o Terno do Guará Mirim na Escola
com o cuidado de não causar danos às transmitir o que aprendeu, mas ainda não Ambiental de Barra do Pojuca.
palmeiras. Para tanto, Seu Lula conta com conseguiu levar a ideia adiante. “Eu nem
a ajuda de alguns colaboradores. posso expor na internet porque não tenho São essas figuras populares que
gente qualificada pra abraçar um pedido contribuem para a manutenção
Conhecido na Cachoeirinha como Seu grande”, admite. “Meus meninos ajudam da cultura local e principalmente
Lula, ele desenvolveu uma técnica de quando têm uma folga, mas esse trabalho para deixar um legado de saberes e
amarração das taliscas do dendê que é meu, foi trocado pela cachaça quando fazeres que possa se estender aos
resulta em arte. “Faço luminárias de tudo eu deixei de beber”, revela. discípulos, familiares e todos aqueles
quanto é tipo, abajur, jogo americano, que entendam a arte e a cultura como
cestinha de petisco, porta-guardanapo, Para adquirir uma peça de Lula Arte é elementos de preservação da identidade
bandejas. Também faço esteiras de portas”, preciso fazer uma encomenda. Ele faz de um povo.

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Seu Lula
quer ensinar Contato para
e perpetuar encomendas:
sua arte Seu Lula
(71) 9924-2846

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Quem Conta
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Barra
do
Pojuca um Conto?

A Lagoa Encantada
Por Manoel Conceição Filho

“No tempo em que a minha avó era


menina, uma época muito antiga, ela
contava que existia uma lagoa no caminho
da praia. Era o único caminho para se
chegar à beira da lagoa chamada Lagoa da
Ave da Pomba. Ali, se batia o pé na beira
do riacho e uma ilhazinha de capim levava
o visitante ao outro lado. Quem subia não
podia cair nem para um lado nem para o
outro, para não ser comido pela gigante
sucuri. No retorno da praia, à tarde, depois
de pescar, novamente se batia o pezinho
na beira da lagoa e a ilhota vinha pegar
do lado de cá e levava para outra direção.
Misteriosamente, não se sabe quem
conduzia essa ilhota. Se é um causo, lenda,
verdade ou mentira, não se sabe. Eram os
mais velhos que assim contavam”.

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A viagem do curuca
Por José Domingos Barbosa dos Santos

“Contam que os africanos trouxeram o curuca, um tipo de camarão, pra jogar no Rio
Pojuca. Ele veio parar aqui através dos escravos que o trouxeram porque era um camarão
rico em proteínas. Contam também que era muito utilizado pelas mulheres africanas
recém-paridas, que o acrescentavam ao leite para dar de mamar aos filhos e para terem
saúde para trabalhar. Os escravos perceberam que o rio era perene, muito forte, de
correntezas, de boa adaptação para o camarão. Trouxeram as matrizes, soltaram no rio
e elas desapareceram porque eram poucas. Não deu para povoar. Com o tempo, deu
uma cheia muito grande e esses camarões, que já tinham se reproduzido, povoaram o
Rio Pojuca. Hoje, no Brasil, nós só temos quatro rios com esse camarão curuca, todos são
matrizes levadas daqui. É possível encontrá-los também em alguns trechos do Rio São
Francisco. Foram camarões que seguiram através do Rio Salitre, da nascente subterrânea
paralela ao Rio Pojuca. Hoje, o Rio Salitre é um dos transmissores de curuca para o Rio São
Francisco”.

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Barra Movimento
do
Pojuca Artístico

Palco da Cidade
Criado pelo Núcleo de Produção do Teatro Mailson Pereira foi selecionado com a
Cidade do Saber para revelar talentos poesia “Armário”. Estudante de Psicologia
locais através de pequenos concursos, o e assistente administrativo em Barra
Projeto Palco da Cidade apresenta uma do Pojuca, Mailson diz que começou a
programação diversificada, levando escrever aos 14 anos, no ensino médio,
cultura e entretenimento às comunidades por influência da professora de Filosofia e
mais distantes da sede de Camaçari. dos sentimentos vivenciados à época.

São apresentações de variadas linguagens Segundo o jovem escritor, ele conheceu


artísticas (música, dança, teatro, literatura, a Cidade do Saber na sua inauguração.
poesia, arte circense, humor, entre outras) Primeiro como um empreendimento e
realizadas por candidatos que participam investimento da Prefeitura de Camaçari
de seletivas (nas localidades da orla) e e depois por estar ligado à área de
finais no Teatro Cidade do Saber. educação desde 2006. Ele conta que
via as notícias no site e ficava inquieto
São de Barra do Pojuca dois dos 18 pelo fato de os moradores da orla não
Dança de rua
finalistas do Palco da Cidade: Mailson participarem por causa da distância. Ao
na primeira
Santos Pereira, 24 anos, e Carlito ser inaugurado o Ponto Móvel, procurou
seletiva do
Figueiredo, 35 anos, que participaram nas o Núcleo de Produção para se inscrever
Palco da Cidade
categorias de poesia e música. no Palco da Cidade.

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O Poeta do Armário
(Mailson Pereira)

Armário aberto, armário / Armário aberto, aberto


/ Quantas coisas você tem no armário? / Uma?
Nenhuma? / Algumas? Armário fechado, armário
/ Armário fechado, fechado / Você se mostrou no
armário, / Você se perdeu trancado /

Ah!, meu armário, minha vida / Espaço interno de


mim mesmo / Espaço oculto a mim mesmo / Armário
aberto, desespero / Armário fechado, desespero /
Queria mostrar meu armário para o mundo / Queria
um armário perfeito
Mailson
Pereira: poesia Mas meu armário é um lixo / Armário com cara de
selecionada desespero / Tenho medo e vergonha de mostrar meu
armário / Mas me pego deixando a porta aberta do
mesmo / O que os outros vão dizer de mim, se virem
meu armário? / Quem serei se descobrirem a face
oculta de mim mesmo?

Armário, desespero / Queria apenas arejar o meu


armário / Queria apenas deixar um raio de sol invadir a
minha vida / Meu armário, meu espelho / Onde me vejo
e me perco / Onde sou (não sou) eu mesmo.

Por que tanto medo?

Por que o desespero?

Ser armário aberto eis o meu desejo / Preciso sair do


armário de minha vida e encarar a verdadeira alegria
de ser eu mesmo / Meu armário, meu segredo.

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Barra Movimento
do
Pojuca Artístico Carlito
Figueiredo:
entre os
finalistas

Música na praça
O outro finalista do Palco da Cidade em com uma música de autoria própria,
Barra do Pojuca foi Carlito Figueiredo. Ao três anos após começar a tocar violão.
passar pela praça, ele viu um caminhão Satisfeito, conta que muita coisa mudou
que lhe chamou a atenção. Foi assim que depois da sua participação no Palco da
conheceu o Ponto Móvel e o Palco da Cidade: Carlito chegou a dar entrevistas
Cidade, inscrevendo-se no concurso na para a TV, internet e rádio.
categoria música.
Ao descrever o que sentia, Carlito disse que
Surpreso, Carlito afirmou que custou a estava feliz duas vezes: por saber que sua
acreditar que um menino do subúrbio de obra o levou ao palco e pelo fato de ter
Simões Filho estaria entre os finalistas levado a mãe a um teatro pela primeira vez.

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Mandacaru
Carlito Figueiredo

Como mandacaru você feriu meu coração

Me deixou na solidão sem razão para viver

Você partiu de mala e cuia desse sertão

De longe acenou com a mão nem quis


saber

O que eu sentia por você.

Lararundé derundé lararundé

Mesmo com seu desprezo o meu apego

É muito grande por ti

Ai, eu peço ao meu bom Jesus que a


conduza para mim.

Lararundé derundé lararundé ééééééé´.

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Barra Ação
do
Pojuca Governamental

Gente que cuida da gente


Valorizar as potencialidades culturais distantes, como Tiririca, Lodo, Lagoa Atividades econômicas
e econômicas das localidades da orla Seca e Baratas. A iniciativa dinamiza o
de Camaçari, para cumprir o papel transporte urbano, favorece a coleta de O incentivo à agricultura familiar,
do Estado no que diz respeito ao lixo, a circulação de ambulância e outros meliponicultura, atividades de pescadores,
desenvolvimento social, mas também veículos, beneficiando cerca de 3.000 marisqueiros e agroextrativistas também
para reforçar a pertença destes lugares pessoas. estão entre as prioridades do governo, nas
à esfera do Município e integrar a localidades onde estas atividades podem
população do centro e do litoral. Com Ainda entre as obras realizadas representar uma ferramenta para inclusão
esses objetivos, a administração pública pela Prefeitura de Camaçari estão social e geração de renda. Além disso, essas
municipal vem ampliando as políticas a ampliação do posto do Programa práticas têm um forte valor cultural e histórico
governamentais, para garantir a sua de Saúde da Família (PSF), a e podem ser realizadas de forma integrada à
acessibilidade aos diversos grupos disponibilização de uma ambulância preservação ambiental. Cadastramento dos
populacionais, independentemente da 24 horas para atender aos moradores produtores e programas criados pelo próprio
área que habitem. Desde 2005, o foco é da região, além da implantação do município, como o Peixe Bom e Barato e o
cuidar das pessoas. atendimento odontológico e Centro de Pronaf (do governo federal), têm contribuído
Referência de Assistência Social (Cras). para a capacitação dos trabalhadores e
Em Barra do Pojuca as ações também inserção das mercadorias de Barra do Pojuca
seguem esse propósito. A Escola Casas populares foram construídas e o em feiras livres e bairros da cidade.
Municipal Américo Ferreira, por executivo municipal apoiou a construção
exemplo, foi equipada com refeitório, de novo posto policial, reformou o Centro O trabalho integrado entre as esferas
biblioteca e laboratório de informática. Comercial (Mercado de Barra do Pojuca), públicas e ONGs, junto com as ações de
Também foram realizadas melhorias dotou de sistema de encanamento de empreendedorismo social da iniciativa privada,
nas estradas que ligam a área central água o povoado de Tiririca e recuperou a revelam a consolidação de bases sólidas para
de Barra do Pojuca aos povoados mais Casa de Farinha de Lodo. um futuro de desenvolvimento sustentável nas
comunidades da orla de Camaçari.

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Barra Espaço
do
Pojuca Verde

As abelhas de Seu Damasceno


Edenilson da Silva, mais conhecido como de abelhas nativas estiveram ameaçadas. A (também conhecidas como africanizadas)
Seu Damasceno, é morador de Barra do extração predatória causou destruição, por por causa da produtividade. “Enquanto
Pojuca há 25 anos. Já formou muitos alunos causa do tipo de colheita do mel, a partir da elas produzem entre 45 e 50 litros, as
na atividade que desenvolve na região. queima dos enxames. “O pessoal queimava nativas produzem apenas quatro litros”. A
para tirar o mel e destruía os enxames. Eles diferença, no entanto, está nas propriedades
Nascido em Teodoro Sampaio, foi pensavam que eram abelhas com ferrão”, diz. terapêuticas do mel nativo, que chega a
para Barra do Pojuca fazer um curso custar R$100 por litro.
profissionalizante. Por lá ficou. “Hoje dou À frente de uma associação na comunidade
aulas, coordeno grupos de trabalho na área de Jóia de Rio II, ele resolveu pesquisar, Seu Damasceno, que já chegou a ter 100
de meliponicultura, dou consultorias no ministrar cursos e conscientizar as pessoas enxames, hoje mantém cerca de 40. Parte
Baixo Sul, em Valença, Nilo Peçanha, Cairu sobre a coleta, implantando os meliponários. da sua renda vem da meliponicultura e
e Grapiúna”, conta. O seu principal objetivo “Toda a Bahia hoje está avançando na da apicultura. “Monto meliponários. Meu
é ver a meliponicultura se desenvolver, meliponicultura, que é o resgate do mel trabalho é reproduzir essas [abelhas]
fazendo com que todos saibam o que é uma orgânico, que cura várias doenças, da abelha rainhas pra evitar uma devastação no
abelha sem ferrão. sem ferrão. É uma herança dos índios”. meio ambiente. Há 10 anos, a gente não
encontrava esses enxames de abelha no
Segundo Seu Damasceno, durante muito Ele explica que a maioria dos apicultores mato, nas matas, e hoje, com o trabalho de
tempo, por falta de informação, espécies tem preferência pelas abelhas com ferrão conscientização, nós encontramos”.

26
Palestras, cursos
e implantação de
meliponários:
E meliponicultura, o que é?
Trata-se da criação racional de abelhas sem Seu Damasceno
ferrão (meliponíneos). Embora existam cente- (71) 9901-5812
nas de espécies no Brasil, as principais abelhas (71) 8605-2007
indígenas (sem ferrão) são a uruçu verdadeira,
uruçu amarela, jataí, mandaçaia e tiúba ama-
rela. O mel das abelhas sem ferrão é saboroso,
diferenciado e reconhecido por suas impor-
tantes propriedades medicinais.

Saiba mais:
www.meliponicultura.com.br
www.cpatu.embrapa.br/meliponicultura

27
Sabor
e s p e c i a l

Barra
do
Pojuca da Terra

No cardápio, o pitu e o curuca


A pesca artesanal é uma das atividades extrativistas mais quituteiras de Barra do Pojuca (receita ao lado).
importantes em Barra do Pojuca. O pitu – uma espécie
de camarão de alto valor comercial – está entre as maiores Por viverem quase que exclusivamente da pesca, as
riquezas da região e pode ser encontrado no Rio Pojuca. No famílias enfrentam uma queda na sua produção durante
seu entorno está quase a totalidade dos ribeirinhos, que o inverno pelo aumento da frequência das chuvas.
vivem basicamente da pesca. Por se tratar de um rio com muitas pedras e fortes
correntezas, as cascatinhas que se formam prejudicam a
Além do pitu, o curuca é um outro tipo de camarão atividade na época das cheias, quando são arrastadas as
encontrado no lugar. As duas espécies, juntamente com armadilhas (covos) colocadas pelos pescadores.
peixes que descem o rio, são fonte de renda para as
inúmeras famílias que vivem no local. Diante da importância do Rio Pojuca para a sobrevivência
das famílias, a manutenção da pesca artesanal, com a
Vendido a restaurantes locais, o pescado é transformado em preservação do período do defeso, está entre as maiores
saborosos pratos preparados também de forma artesanal. preocupações dos ribeirinhos, uma vez que a pesca
O toque especial fica por conta das mãos cuidadosas das predatória representa uma ameaça às espécies.

28
Moqueca de curuca
Por Noemia Pereira da Conceição

1/2 kg de curuca (camarão) Limpe o camarão (curuca) e


Suco de 1 limão tempere com sal e suco de limão.
1/2 xíc. de café de azeite de dendê Reserve. Refogue os temperos por
2 cebolas médias em rodelas 15 minutos no azeite de dendê.
1/2 xíc. de chá de coentro Acrescente os camarões e cozinhe
1/2 xíc. de chá de salsa picada por 5 minutos com a panela
2 cebolinhas verdes cortadas tampada. Por último, o leite de
3 tomates em rodelas coco.
1 vidro de leite de coco e sal

29
Gente
e s p e c i a l

Barra
do
Pojuca que Faz

Fundação Ecoeducativa Fred Dantas


Criada pelo maestro Fred Dantas em 1997, primeiro fornece professores, merenda O maestro pensou numa escola para 30
a Fundação Ecoeducativa é uma escola escolar e material pedagógico. O crianças, mas no primeiro dia já eram 60.
ambiental que une a preservação do segundo, os recursos mensais que Na segunda semana, 120 crianças. Ele diz
ecossistema e ação social. Voltada para permitem tocar as atividades nas áreas de que recorreu ao Projeto Ágata Esmeralda
crianças e adolescentes, fica num trecho assistência social e arte. (atual Conexão Vida) e pediu ajuda ao
da restinga e da Mata Atlântica, a 10km padre Giane Bôscoli.
da foz do Rio Pojuca, na estrada da Tiririca. Fred Dantas diz que o começo foi
Segundo definição do próprio maestro, bastante difícil, mas o sonho de Foi à Secretaria da Educação de Camaçari
“é uma Arca de Noé em meio à ocupação assegurar educação de qualidade a e conseguiu três professores, o que ainda
humana, à expansão imobiliária e a crianças e adolescentes foi realizado. não era suficiente, pois não contemplava
interesses vários”. “Quando eu criei a escola, queria que a pré-escola. Ele próprio criou um pré-
tivesse arroz, feijão e carne para o escolar e o custeou por dois anos, até que
Além de manter intacto todo o cenário aluno comer todo dia, que ensinasse a a Prefeitura de Camaçari assumiu.
natural do entorno, a fundação ler e escrever de verdade e que tivesse
oferece alimentação, educação formal música, por conta da minha profissão”, A partir daí, Fred Dantas pôde investir
e a música como ferramenta para o relembra. Nessa época, as escolas da também na Filarmônica e no Terno
desenvolvimento dos alunos. A fundação região estavam paradas, com exceção de Guarazinho, que é uma tradição
conta com dois grandes e decisivos uma que funcionava em Cachoeirinha, recuperada. Houve a necessidade de se
parceiros: a Prefeitura Municipal de na sede da associação, mas a parede criar uma fundação, que hoje leva o nome
Camaçari e o Projeto Conexão Vida. O havia desabado. de Fundação Ecoeducativa Fred Dantas.

30
Fundação
Ecoeducativa
Fred Dantas:
(71) 3626-0651

31
e s p e c i a l

Barra Gente
do
Pojuca que Faz

Projeto Manguezal
Idealizado por Werther Farias, natural Sabiá, montou um projeto de reforço fruto de doações dos parceiros. Durante
de Vitoria da Conquista, o Projeto escolar e educação ambiental para buscar dois anos, o projeto recebeu milhares de
Manguezal assiste atualmente 80 crianças apoiadores. Até então, mantinha tudo com alunos das escolas públicas, que assistiam
e 17 adultos em Barra do Pojuca. O recursos próprios. “Consegui uma pousada a uma palestra sobre ecossistema de
empresário, que viveu em Israel, chegou em Itacimirim que me prometeu ajudar manguezal e também tinham uma aula
ao local em 2003 para se instalar e abrir em uma parte do projeto. Assim, tudo prática. Através de uma parceria com
um restaurante. começou”, lembra. a Secretaria de Educação de Camaçari,
entre 40 e 50 alunos chegavam lá toda
Começou a observar as crianças do Investigando o rendimento das segunda-feira.
povoado próximo ao restaurante e viu crianças no ensino formal e depois de
que a meninada chegava ao ensino uma conversa com a diretora de uma Em 2008, alunos de ecoturismo do
fundamental sem saber ler nem escrever. escola pública, Farias constatou que os município de Camaçari foram recebidos
“Uma vez, peguei uma menina da 5ª série alunos do Projeto Manguezal tinham para fazer estágio. Alguns acabaram
e fiz uma lista de supermercado. Queria boa aprovação e média. A partir daí, ministrando as palestras de educação
ter certeza se ela entendia minha caligrafia estendeu as atividades e foi procurado por ambiental e tornaram-se agentes
e ela não sabia ler. Disso veio a minha adultos, entre 40 e 82 anos, em busca de multiplicadores.
iniciativa”, conta. alfabetização.
Nos finais de semana, alguns artesãos da
Ele resolveu oferecer ajuda através de O Projeto Manguezal mantém reforço região expõem seus produtos (em coco,
um reforço escolar, o que tomou uma escolar para alunos do maternal à palha, crochê, tricô e bordado) na sede
proporção inesperada. Começou com 5ª série. Também oferece aula de do projeto. Isso faz do Manguezal uma
20, passou para 30 e depois para 40 informática, com computadores ligados referência cultural e também de lazer para
alunos. Em 2005, com a projetista Carla à internet, e dispõe de uma biblioteca, a comunidade ribeirinha.

32
Projeto
Manguezal
Werther Farias
(71) 9944-5730
(71) 3626-1035

33
e s p e c i a l

Barra Lá vem
do
Pojuca História

Tudo começou nas margens do Joanes


Batizado com o nome de uma árvore da onde ergueram a primeira versão em taipa O cultivo da terra pelos jesuítas, com a
Mata Atlântica, o município de Camaçari tem da atual igreja de Vila de Abrantes. utilização da mão-de-obra tupinambá,
origem nos primeiros anos da colonização a economia da cana-de-açúcar movida
do Brasil. Uma história com primeiro registro O aldeamento desempenhou papel pelos escravos, a pesca artesanal e a
na fundação da Aldeia do Divino Espírito estratégico como refúgio na resistência às agricultura de subsistência deixaram como
Santo pelos jesuítas, em 1558. tropas holandesas, que tomaram Salvador herança elementos das culturas indígena
em 1624. Em 200 anos de presença dos e negra, presentes no artesanato, na
Nove anos antes, o governador Tomé jesuítas, o povoado esteve inserido na comida e na religião, principalmente em
de Souza havia desembarcado com a economia colonial, no cultivo de terras sob localidades remanescentes de quilombos,
incumbência de fundar a primeira capital o domínio dos herdeiros das sesmarias. a exemplo de Cordoaria.
do Brasil e ocupar definitivamente a
colônia. Os jesuítas, que tinham como Com a expulsão dos jesuítas, em 1758, o Até o final dos anos 60, a economia de
missão principal catequizar os índios povoado foi elevado à categoria de vila, Camaçari baseava-se na pecuária e na
tupinambás, se estabelecem nas margens denominada “Vila do Espírito Santo de agricultura de subsistência A mudança
do Joanes, a cerca de 40 km ao norte de Nova Abrantes”. Daí em diante, passou por radical aconteceu na década de 70, com o
Salvador. algumas trocas de nome e teve também início da implantação do maior complexo
como sede o arraial de Parafuso, depois da industrial integrado do Hemisfério Sul.
Não se sabe a localização exata do construção da ferrovia no final do século XIX. Desde então, não só Camaçari, mas
primeiro aldeamento em Camaçari, mas Foi chamado de Montenegro, por influência a Bahia, passam a ter um novo perfil
uma epidemia, que vitimou também um política de um dos herdeiros de suas terras, econômico, quando a indústria assume
dos seus fundadores, motivou os jesuítas a mas, em 1938, passou definitivamente a ser a ponta como setor mais importante da
buscarem um novo lugar, próximo ao mar, denominado Camaçari. economia.

34
Para saber mais sobre a
história de Camaçari, consulte
Camaçari, Sua História, Sua
Gente, de Sandra Parente; e
Abrantes, Berço da Civilização
Brasileira, de Eduardo
Cavalcanti.

Praça
Desembargador
Montenegro

35
Personagens
e s p e c i a l

Barra
do
Pojuca Históricos

Garcia D’ávila Conde da Castanheira


Chegou à Bahia em 1549, na caravela de Tomé de Souza, o Primo de Tomé de Souza, dom Antonio de Athaíde foi o
primeiro governador geral do Brasil. Recebeu de D. João III uma primeiro Conde da Castanheira. Dono de vastas terras
grande sesmaria (cerca de 60 léguas quadradas), onde está que faziam limite com os domínios da Casa da Torre, em
situado o município de Camaçari. Edificou a Casa da Torre, que Tatuapara, dom Antonio recebeu do governador geral
teve uma importante função na defesa das terras ocupadas, algumas sesmarias. Uma delas tinha a área que correspondia
sendo o quartel general do Conde Bagnuolo, comandante ao tamanho da Ilha de Itaparica (Itamarandiva). O grande
das tropas luso-espanholas, na época da invasão holandesa patrimônio da Casa da Castanheira foi passado até a
em 1630. Trouxe de Portugal as pedras e o óleo de baleia para sexta geração de condes desta família, que nunca veio ao
construir uma torre que reproduzisse o castelo onde viveu em Brasil. Mantinham suas propriedades administradas por
Santa Isabel, Portugal. Garcia D’Ávila trouxe também o gado e a procuradores. Por meio dos casamentos e heranças, essas
cana-de-açúcar. Próximo à casa, construiu uma olaria, um curral glebas passaram ao domínio do Marquês de Cascais e foram
e uma igreja dedicada a Nossa Senhora do Monte Serrat. transferidas no começo do século XIX para o Marquês de Niza.

36
Marquesa de Niza
Esposa e herdeira do Marquês de Niza,
dona Eugênia Maria José Xavier Teles
de Castro Gama Athaíde Noronha
Silveira e Souza era uma nobre ociosa
que vivia entre Paris e Lisboa. Suas
propriedades eram administradas pelo
português Tomaz da Silva Paranhos.
Até hoje, em alguns lugares da orla da
Camaçari, algumas pessoas ainda usam
a expressão “terras da Marquesa de
Niza” em referência às terras que vão de
Arembepe a Abrantes.

37
Dicas
e s p e c i a l

Barra
do
Pojuca Culturais

Conheça as festas dos padroeiros


Barra do Pojuca
São Francisco de Assis
São Francisco de Assis é o padroeiro de A festa, que acontece há mais de 100 anos, em que protegia os animais e plantas,
Barra do Pojuca e cultuado como o santo reúne caboclos, cavaleiros, grupos de chamando-os carinhosamente de irmãos.
dos pescadores. Sua festa é celebrada no capoeira e moradores. As comemorações
segundo ou terceiro final de semana do atraem turistas e aquecem a economia Para ele, a chuva, o vento e o fogo
mês de janeiro. No primeiro dia, as baianas local. O número de barracas e ambulantes deveriam ser reverenciados como irmãos.
puxam o cortejo da tradicional procissão aumenta significativamente nesses dias São Francisco é respeitado por várias
da Lavagem de Barra do Pojuca, abrindo para atender à demanda. religiões pela sua mensagem de paz. Ficou
os festejos da orla de Camaçari. famosa uma oração atribuída a ele que
História começa com os dizeres: “Senhor, fazei-me
As comemorações religiosas começam instrumento de Vossa paz...”. Embora não
no sábado, com missas e batizados. No Após renunciar à riqueza em 1206, haja confirmação de sua autoria, a oração
domingo, uma celebração homenageia Francisco fez penitência durante dois reflete os ensinamentos e a vida desse
o padroeiro e, na segunda-feira, tem anos e lançou-se a pregar em linguagem homem, reconhecido como santo no
procissão marítima, quando os pescadores simples e ardorosa. Ele amava e respeitava mundo todo e adotado como patrono da
levam a imagem até a Praia da Espera. todas as pessoas, ao mesmo tempo ecologia e da paz.

38
Cachoeirinha

São Sebastião
A festa do São Sebastião é comemorada mártir e santo cristão, morto durante a e Maximiliano, que o queriam sempre
no primeiro final de semana do mês de perseguição levada a cabo pelo imperador próximo, ignorando tratar-se de um
janeiro, na localidade da Cachoeirinha, romano Diocleciano. O seu nome deriva cristão e, por isso, o designaram capitão
em Barra do Pojuca. De sexta a domingo, do grego sebastós, que significa divino, da sua guarda pessoal - a Guarda
a comunidade canta e dança ao som de venerável (que seguia a beatitude da Pretoriana.
vários ritmos musicais em homenagem ao cidade suprema e da glória altíssima).
padroeiro. Durante os três dias de festa, Por volta de 286, a sua conduta branda
milhares de pessoas lotam o Largo de São De acordo com Actos apócrifos, para com os prisioneiros cristãos levou o
Miguel. atribuídos a Santo Ambrósio de Milão, imperador a julgá-lo sumariamente como
Sebastião era um soldado que teria se traidor, tendo ordenado a sua execução
História alistado no exército romano por volta por meio de flechas. Foi dado como morto
de 283 (depois da Era Comum) com a e atirado no rio. Encontrado e socorrido
São Sebastião nasceu na França, em 256, única intenção de afirmar o coração dos por Irene (Santa Irene), foi depois levado
e morreu com apenas 30 anos. Originário cristãos, enfraquecido diante das torturas. novamente diante de Diocleciano, que
de Narbonne e cidadão de Milão, foi um Era querido dos imperadores Diocleciano ordenou então a sua a morte.

Nossa Senhora Sant’Ana


A festa de Nossa Senhor Sant’ Ana, contra- um casal sem herdeiros era considerado contando o sonho, amarrou na perna de um
padroeira da Cachoeirinha, acontece no digno de castigo e motivo de grande pombo-correio e enviou à esposa.
segundo ou terceiro final de semana do desprezo por parte dos parentes.
mês de setembro. Em casa, Ana também sonhara com o
Um dia, Joaquim se levantou, fez suas nascimento de uma filha. Rabiscou um
História orações com Ana e os dois pediram bilhete para o marido, também o amarrou
novamente um filho a Deus. No trabalho, ao pé de um pombo-correio. As duas
Além de ser avó do Menino Jesus, Joaquim sentou-se à sombra de um cipreste aves cruzaram-se no meio do caminho.
Sant’Ana foi mãe quando já estava com e comeu a comida preparada pela esposa. Alguns meses depois, nascia aquela que
idade para ser avó. Todos os dias, o casal Depois, inclinou a cabeça, dormiu e sonhou o anjo chamou de Maria, bendita entre
Ana e Joaquim (padroeiros dos avós) que Ana dera à luz uma linda menina. todas as mulheres. Por isso, São Joaquim e
pedia um filho a Deus. Para os hebreus, Acordou feliz, rascunhou um bilhete, Sant’Ana são padroeiros dos avós.

39
Painel
e s p e c i a l

Barra
do
Pojuca Criativo

Alunos de Barra
do Pojuca em
Mostra Coletiva
no Teatro Cidade
do Saber

Ponto Móvel
Além de garantir a pulverização das atividades de foram realizadas oficinas de música, brinquedos, teatro,
inclusão social promovidas pela Cidade do Saber, o dança, criação literária, percussão, patchwork, técnica
Projeto Ponto Móvel leva cultura, diversão e descobre de pintura em tecido, palestras, campeonatos de
talentos nas localidades visitadas, promovendo futebol e futsal.
cidadania.
Voltadas para crianças, jovens e adultos, as atividades
A cada três meses, o caminhão-baú totalmente funcionam como um instrumento de promoção de
adaptado muda seu roteiro, contemplando arte, educação e esporte. Os trabalhos desenvolvidos
comunidades mais distantes da sede de Camaçari, nas oficinas ajudam a despertar habilidades até
onde funciona a Cidade do Saber. Em sua estrutura, então desconhecidas ou adormecidas, promovendo a
o caminhão do Ponto Móvel dispõe de acervo valorização pessoal.
bibliográfico, computadores com acesso à internet,
TV LCD, DVD e uma brinquedoteca. Na parte externa, E assim, levando cultura, arte e promovendo inclusão
um palco para realização de diversas atividades, a social, o Ponto Móvel segue seu roteiro e seu propósito
exemplo do Palco da Cidade. de fortalecer a cidadania e educar através da arte
e esporte, contribuindo para formar cidadãos em
Os primeiros lugares visitados, entre julho e outubro bases democráticas e de respeito aos valores sociais e
de 2009, foram Barra do Pojuca, Monte Gordo, Barra coletivos.
de Jacuípe e Areias, com um total de 1.213 alunos
matriculados. Lá, nos turnos matutino e vespertino, De malas prontas, vamos aos próximos destinos!

40
Daiane, aluna
da oficina de
Criação Literária

41
Expediente
e s p e c i a l

Barra
do
Pojuca Lazer Cidade do Saber
Diretora geral: Ana Lúcia Silveira
Diretor de infraestrutura: Utilan Coroa
Diretor do saber: Arnoldo Valente
Diretora do teatro: Osvalda Moura

Caça-palavras
Coordenação do Projeto
Revista Ponto Móvel Cidade do Saber
Alguns verbetes em Tupi-guarani: Assessoria de Comunicação da
Cidade do Saber (ASCOM)
Responsável: Carolina Dantas
Pesquisa: Bárbara Falcón
Fotos Ascom: Daniel Quirino e Clemente Junior

POJUCA (lugar alagado); 3 - ITACIMIRIM (formiga pequena); 4 - PIASSAVA (planta Fibrosa)


Equipe Ascom: Bárbara Falcón, Carolina Dantas, Clemente

Dicas: São quatro palavras e seus significados: 1 - CAMASSARY (árvore que sangra); 2 -
Junior, Daniel Quirino, Elba Coelho, Tediarlen Silva
Fotos da orla: Nelinho Oliveira
Fotos de arquivo: Arquivo Público Municipal de Camaçari

Realização

AG Editora
Diretora executiva: Ana Lúcia Martins
Executiva de projetos: Júlia Spínola
Textos: Joana Lopo
Edição: Ana Cristina Barreto
Fotos: Paulo Macedo
Revisão: José Egídio
Colaborou: Marcus Gusmão
Endereço: Rua Coronel Almerindo Rehem, 82, sala 1207.
Ed. Bahia Executive Center, Caminho das Árvores.
CEP: 41.820-768 - Salvador-BA
Tel: (71) 3014-4999

Projeto gráfico: Metta Comunicação


Editoração: Jean Ribeiro e João Soares
Ilustrações e arte: Jean Ribeiro

Tiragem: 2.000 exemplares - distribuição gratuita

Agradecimentos: Noemia da Conceição (Noca) e Ana Cláudia


Oliveira Almeida ( Arquivo Público de Camaçari)

42
Barra do
e s p e c i a l

Pojuca

Executor do Projeto

Parceiros Cidade do Saber: Mantenedor: