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PRIORIDADES PASTORAIS 1

PRIORIDADES PASTORAIS
Thomas K. Ascol

Um dos maiores desafios que cumpridos, sem que o melhor do pas-


enfrento em minha vida pastoral é tor seja sacrificado no altar daquilo
manter um equilíbrio adequado em que é bom? Mesmo nas melhores cir-
minhas prioridades. Todo pastor pre- cunstâncias, esse é um desafio que
cisa desempenhar vários papéis, a fim nos causa temor.
de permanecer fiel à sua chamada. Uma das perguntas que sempre
Ele tem de ser um estudante da Pala- faço aos meus aconselhados é esta:
vra de Deus e um homem de oração; “Em ordem de prioridades, para o
ele tem de liderar sua igreja, traba- que Deus chamou você?” Essa é uma
lhar muito para pregar e ensinar a pergunta esclarecedora, porque for-
Palavra, de modo que suas ovelhas ça a pessoa a avaliar sua vida com
estejam continuamente sendo trans- base naquilo que é mais importante.
formadas por ela na imagem de Ocasionalmente, faço essa pergunta
Cristo. O pastor tem de realizar a a mim mesmo e descubro que ela me
obra de evangelista e dedicar-se à ajuda a lutar por equilíbrio em mi-
obra de lidar individualmente com os nha vida.
membros da igreja. Tudo isso e mui-
to mais está incluído na obra de servir
UM CRENTE
a Cristo como um pastor de almas.
Todo pastor é mais do que um Para o que Deus me chamou?
pastor. Ele é primeiramente (e antes Primeiramente, Ele me chamou para
de tudo) um discípulo. Ele também ser um sincero e dedicado seguidor
é um esposo e, provavelmente, um de Cristo. Isso é tão elementar, que
pai. Além disso, o pastor pode assu- facilmente podemos esquecê-lo. O
mir outros deveres relacionados ao seu profissionalismo é um dos grandes
ministério. De que maneira todos es- perigos do ministério. Um pastor
ses importantes papéis podem ser pode se tornar competente na reali-

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zação do seu trabalho. Assim como que os grandes talentos. Um pastor


todas as demais profissões, certas ha- que vive em santidade é uma arma
bilidades podem ser desenvolvidas e poderosa nas mãos de Deus”.
aprimoradas no ministério do evan- O apóstolo Paulo advertiu aos
gelho. Ele pode se tornar tão profi- presbíteros de Éfeso: “Atendei por
ciente em seu ministério público, que vós”. Quando ele repetiu essa adver-
os outros o considerarão bem-suce- tência a Timóteo, acrescentou que
dido. fazer isso é um ingrediente essencial
Mas, quando a mentalidade do para salvar “tanto a ti mesmo como
“profissionalismo” conquista um pas- aos teus ouvintes” (1 Tm 4.16). Os
tor, seu coração inevitavelmente co- pastores têm de transformar em um
meçará a ser negligenciado. E o co- assunto de prioridade e disciplina o
ração é a primeira ferramenta de todo ler, o meditar e o memorizar as Es-
pastor. Se você não está amando a crituras. Eles precisam também orar
Deus com todo o seu coração, por- pela obra do Espírito Santo em suas
que tem negligenciado as responsa- próprias vidas. Qualquer outro pro-
bilidades básicas do discipulado, não cedimento pastoral, que corresponda
importa o quanto você pode se tor- a menos do que isso, será uma práti-
nar bem-sucedido profissionalmente. ca espiritual incorreta.
Na realidade, isso é uma vergonha.
Spurgeon nos fala sobre um
UM ESPOSO
pastor que “pregava tão bem e vivia
tão mal, que, ao subir ele ao púlpito, Depois de ser um crente, Deus
todos diziam que ele nunca deveria me chamou para ser um esposo. As-
sair dali; e, quando ele saía do púlpi- sim como muitos outros pastores,
to, todos declaravam que tal pastor desfruto da bênção de ter uma esposa
nunca mais deveria retornar ao púl- crente e leal. Minha esposa, Donna,
pito”. Essa divisão da vida em áreas e eu entendemos com muita serieda-
distintas pode ser aceitável em outras de nossos votos de casamento; isso
profissões; no entanto, dificilmente significa que eu tenho de colocá-la e
ela pode ser harmonizada com o cris- preservá-la acima de todas as demais
tianismo vital e, menos ainda, com a pessoas. Depois do Senhor Jesus, ela
fidelidade no ministério pastoral. é a minha maior prioridade.
Muitos homens bons têm tro- Ser um esposo é uma responsa-
peçado nesse primeiro nível da vida bilidade extraordinária. Jesus Cristo,
pastoral. Portanto, guarde o seu pró- em seu relacionamento com a igreja,
prio coração. Leia a Palavra de Deus, tem de ser nosso modelo. Ser o cabe-
antes e acima de tudo, como um cren- ça de um lar é um grande desafio.
te. Um pastor precisa das mesmas Uma esposa piedosa tanto deseja
coisas que ele declara que os outros quanto necessita da liderança piedo-
necessitam. Ele deve seguir a sabe- sa de seu esposo. A chamada para ser
doria de Robert Murray M’Cheyne, um bom esposo inclui providenciar
o qual afirmou: “Deus abençoa mui- tal liderança. Cristo chama um ho-
to mais a semelhança com Jesus do mem para lutar contra os erros mor-

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PRIORIDADES PASTORAIS 3

tais da passividade autoprotetora e do temos seis filhos. Portanto, adquiri


autoritarismo autopreservador na muita experiência na prática da pa-
maneira como ele se relaciona com ternidade. Se as esposas dos pasto-
sua esposa. res estão constantemente sendo ob-
A esposa do pastor pode ter o servadas, muito mais os filhos deles
papel mais difícil a desempenhar em se tornam passíveis de críticas. Com
toda a igreja. Ela vê todos os erros e freqüência, eles são sacrificados “por
falhas de seu marido e, apesar disso, amor ao ministério”. Quando eu era
a cada semana, ela tem de receber, um jovem pastor, lembro-me de es-
por intermédio dele, instrução da parte tar sentado em meu escritório, en-
de Deus. A esposa do pastor vive em quanto ouvia um pastor aposentado
uma vitrine. Expectativas irreais dos cujo ministério bem-sucedido era
crentes podem freqüentemente trazer aclamado por todos. Ele me falou
estresse à vida da esposa do pastor. sobre muitas coisas maravilhosas
Comentários irrefletidos, que podem que havia experimentado nas igre-
ou não ter o propósito de magoar, jas em que servira ao Senhor. Final-
podem ferir profundamente a esposa mente, ele acrescentou: “Eu paguei
do pastor. Se, além dessas e de ou- um preço elevado por meu ministé-
tras pressões, ela sentir que seu espo- rio. Meus filhos não aprenderam o
so está negligenciando-a, o fardo que deveriam ter aprendido de seu
pode se tornar muito pesado para ser pai, e hoje eles abandonaram o Se-
suportado. O pastor, na função de nhor e a igreja”.
esposo, tem a responsabilidade e o Enquanto ele chorava, eu pen-
privilégio de assegurar à sua esposa sava em suas palavras. Naquela épo-
que ela é mais importante do que qual- ca, meu único filho era simplesmente
quer outro dos seus relacionamentos uma criança que estava aprendendo
ou das suas responsabilidades. O pas- a andar. A atração de necessidades
tor é chamado para fortalecer, esti- que nunca se acabam e de oportuni-
mular e ajudar sua esposa a cumprir dades para ministrar estava me ten-
sua vocação como uma mulher de tando a negligenciar minha família
Deus. por amor ao “meu ministério”.
Minha esposa, Donna, precisa Deus, porém, me fez lembrar que,
saber que ela é mais importante do em termos de prioridade, Ele me
que meu ministério como pastor. chama para ser um pai, antes de me
Quando esta mensagem é clara e re- chamar para ser um pastor. Meus
gularmente transmitida, aqueles pe- filhos precisam saber que, juntamen-
ríodos inevitáveis de elevadas exigên- te com minha esposa, eles são as
cias da parte da igreja são mais facil- pessoas mais importantes de minha
mente atravessados. vida. Minha igreja também precisa
saber disso.
Um pastor pode negligenciar
UM PAI
seus filhos facilmente, ainda que sem
Em terceiro lugar, Deus nos intenção e motivado por um concei-
chamou para ser pais. Donna e eu to errôneo de que ele tem de estar

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sempre pronto para ministrar a ou- rigorosamente. Quando os planos que


tras pessoas. Mesmo nos melhores afetam nossos filhos tiverem de ser
momentos, haverá algumas separa- mudados, por causa de emergências
ções na vida familiar de um pastor. do pastorado, precisamos ser diligen-
A sua chamada envolve as 24 horas tes em compensá-los.
diárias. Se acontecer a morte ou um
acidente trágico com um dos mem-
UM PASTOR
bros da igreja, antes do pastor sair
para levar seu filho a uma pescaria, Deus me chamou também para
seus planos têm de ser necessariamen- ser um pastor. Esta é a minha cha-
te mudados. Ele deve estar pronto mada vocacional e ocupa a maior
para esperar tais exigências. parte do meu tempo. Constantemen-
Por causa disso, todo pastor te, eu me admiro do fato de que Deus
sempre enfrentará duas tentações. A me deu o privilégio de servi-Lo des-
primeira tentação é a de esperar que ta maneira. O ministério pastoral é a
seus filhos simplesmente entendam as chamada vocacional mais sublime do
mudanças dos planos, da mesma ma- mundo. Minhas responsabilidades
neira como seu pai a entende. Um pastorais têm precedência sobre quais-
pastor sabe que, às vezes, é necessá- quer atividades que envolvam recre-
rio interromper certos planos, a fim ação ou não façam parte do ministé-
de ministrar o evangelho a pessoas rio. Tudo o que está envolvido no
entristecidas. No entanto, dependen- pastorear o rebanho de Deus (e a Bí-
do da idade, tudo o que seu filho pode blia o descreve de maneira bastante
saber é que ele não precisava deixar compreensiva) constitui o meu dever.
de pescar, porque outra pessoa ne- Neste ministério, a minha tarefa mais
cessitava e recebeu o tempo e a aten- importante é trabalhar fielmente na
ção de seu pai. Quando surgirem tais pregação da Palavra e na oração.
ocasiões, o pastor precisa conversar Todavia, essas duas atividades não
com seu filho, mostrando-lhe simpa- devem ser realizadas simplesmente
tia e procurando compensá-lo de em um nível de profissionalismo.
maneira intencional e razoável. Pelo contrário, elas devem ser prati-
A outra tentação é a de tornar- cadas em meio à minha busca por
se tão dominado pelo sentimento de santidade.
culpa, por ter mudado seus planos, Existe uma solidão inevitável
que o pastor chega a permitir que seu que acompanha o pastorado. A mai-
filho o manipule, levando a ações e or parte do trabalho no ministério
decisões que, de outro modo, ele não pastoral pode ser feita somente quan-
seguiria propositadamente. Exercer a do um homem está sozinho com seu
paternidade motivado por sentimen- Deus. Sem esse tempo de intimidade
to de culpa se tornou muito comum com Deus, o tempo gasto com as pes-
em nossa cultura, e infelizmente os soas não terá muito valor. Em nos-
pastores não estão imunes a isso. Os sos dias, existem milhares de “recur-
pastores têm de separar, em sua agen- sos” disponíveis aos pastores, para
da, tempo para os filhos e cumpri-lo capacitá-los a deixar de lado a árdua

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PRIORIDADES PASTORAIS 5

tarefa de estudar as Escrituras e orar. fazermos os devidos ajustes. Cada


Sermões “poderosos” e programas prioridade se fundamenta sobre a que
“garantidos” são constantemente ofe- a precede.
recidos aos pastores com intrépida Quero ser fiel em meu trabalho
fanfarrice. Um homem com um pou- no Founders Ministries. Mas eu não
co de esperteza, com pouca integri- o poderei ser, se realizar aquele mi-
dade e muitos recursos financeiros nistério à custa de minhas res-
pode se manter bem suprido com uma ponsabilidades pastorais na Igreja
fonte inesgotável de tais recursos. Batista da Graça. Além disso, eu pos-
Mas ele nega a sua chamada por vi- so ser um pastor fiel sem estar envol-
ver à custa do trabalho de outros, ao vido em outros ministérios. No en-
invés de fazer a obra de seu próprio tanto, não posso ser um ministro fiel,
ministério. se negligenciar as prioridades de mi-
nha esposa e meus filhos. Na verda-
de, de acordo com 1 Timóteo 3.4-5,
UM AUXILIADOR
estou desqualificado para o ministé-
Além dessas quatro chamadas, rio, se tal negligência qualificar mi-
em minha vida, também estou envol- nha vida. Também não poderei ser
vido em ajudar com outros esforços um pai fiel, se falho em relação à mi-
proveitosos. Meu trabalho no Foun- nha esposa. Pelo contrário, uma das
ders Ministries (editando a revista melhores coisas que posso fazer por
Founders Journal, publicando livros, meus filhos é amar a mãe deles. E
etc.) e meu envolvimento na associ- não posso ser um esposo fiel, se ne-
ação de pastores de minha cidade são gligenciar meu relacionamento com
importantes. Mas, em termos de pri- Cristo.
oridade, todas essas coisas ficam em Todas as prioridades de minha
um nível inferior às quatro coisas que vida podem funcionar com importân-
já mencionei. Guardando isso em meu cia apropriada, à medida que eu me
coração, posso poupar-me de muitas mantenho no lugar certo. Mas, quan-
dores e confusão. do uma prioridade inferior toma o
lugar de uma mais importante, estou
me predispondo a uma queda. É es-
MANTENDO O EQUILÍBRIO
piritualmente desastroso colocar a
Como essas prioridades funcio- minha esposa acima do Senhor; ou
nam? Bem, aqueles que nos conhe- meus filhos acima de minha esposa;
cem sabem que não praticamos sem- ou meus deveres pastorais acima de
pre aquilo que escrevemos. Embora qualquer dos outros três. Não é
meu desejo e intenção sejam nunca menosprezível para a igreja que, em
me desviar dessas prioridades, mui- minhas prioridades, o lugar dela vem
tas vezes já tive de corrigir minhas depois de minha dedicação a Cristo e
atitudes no transcorrer dos anos. En- à minha família. Pelo contrário, a
tretanto, esse é o valor de ter as prio- igreja recebe mais do que ela neces-
ridades definidas com clareza. Elas sita de mim, quando eu ministro
nos fornecem um mapa confiável para motivado por um compromisso cons-

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6 Fé para Hoje

ciente com essas prioridades. haverá mais a ser feito. Algumas coi-
Recordando freqüentemente es- sas boas que tentam exigir a atenção
sas prioridades de minha vida, serei do pastor têm de ser deixadas sem
mais capaz de estabelecer e manter fazer, de modo que ele possa fazer
um equilíbrio em minhas obrigações. aquilo que é melhor e mais excelen-
Talvez a atitude de disciplina que fa- te. Quando o pastor tem de fazer es-
cilita este equilíbrio é aprender a di- tas escolhas difíceis, deve fazê-lo
zer não. Spurgeon declarou que, para baseado nas prioridades do seu cha-
um pastor, aprender a dizer não é mado. Então, ele pode descansar seu
muito mais importante do que apren- coração sabendo que agiu com fé,
der o latim! Não importa quantas fundamentado nas exigências que
coisas o pastor tente fazer, sempre Deus tem feito para a sua vida.

UM COMPROMISSO COM A FAMÍLIA


A sociedade moderna lançou um ataque sem prece-
dentes contra a família. A maioria das questões contro-
vertidas nos noticiários da atualidade – tais como homos-
sexualismo, aborto, feminismo, divórcio, gangues de jovens,
etc. – são ataques diretos à família. Os mais fortes laços de
lealdade não se encontram mais na família. Poucas famílias
funcionam como uma unidade. Essa fragmentação da famí-
lia acabou por minar a moralidade e a estabilidade em toda
a sociedade.
A igreja não pode tolerar ou se acomodar a essa
devastação. Ela precisa confrontar, corrigir e treinar suas
famílias. Famílias fortes são a espinha dorsal da igreja. E
famílias fortes produzem indivíduos fortes. Pagaremos um
alto preço se não fizermos da família uma prioridade. Isto
significa que temos de ajudar nosso povo a desenvolver
relacionamentos conjugais sólidos e famílias consisten-
tes, ensinando os maridos a amarem e liderarem suas espo-
sas (Ef 5.25), as esposas a se submeterem a seus maridos
(Ef 5.22), os filhos a obedecerem seus pais (Ef 6.1), e os
pais a não irritarem seus filhos, e sim a criá-los no Senhor
(Ef 6.4).
John F. MacArthur

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PUREZA PASTORAL 7

PUREZA PASTORAL
Conrad Mbewe

T
odos conhecem bem o fato passando por um desenvolvimento
de que o futuro ministério pastoral e positivo que envolve toda a sua vida.
a pregação de alguém depende da ma- No entanto, afeições descon-
neira como ele mesmo se desenvolve troladas, ou seja, um coração detur-
nos anos posteriores. Isso explica a pado é um dos maiores inimigos des-
advertência de Paulo a Timóteo: se desenvolvimento completo. Se um
“Tem cuidado de ti mesmo e da dou- pastor deseja exercer um ministério
trina. Continua nestes deveres; por- eficiente e próspero, ele terá de lidar
que, fazendo assim, salvarás tanto a regularmente com o assunto de sua
ti mesmo como aos teus ouvintes” (1 própria santificação. Ele tem de se-
Tm 4.16). Esse cuidado deveria du- guir a pureza pastoral, em uma me-
rar por toda a vida; deveria assegu- dida sempre crescente. Essa é a ra-
rar um desenvolvimento adequado, zão por que este assunto é tão vital.
ao invés de um desenvolvimento cor- Temos de abordá-lo volvendo
rompido; deveria envolver todos os nossa atenção à incumbência que o
aspectos da vida, isto é, a vida espi- apóstolo Paulo deu a Timóteo: “Exor-
ritual, física, emocional, intelectual to-te, perante Deus, que preserva a
e doméstica. Um pregador não é um vida de todas as coisas, e perante
espírito destituído de seu corpo. Uma Cristo Jesus, que diante de Pôncio
vez que o pregador seja afetado em Pilatos, fez a boa confissão, que guar-
suas faculdades físicas, todo o seu ser, des o mandato imaculado, irrepre-
inclusive o seu espírito, será também ensível, até à manifestação de nosso
afetado. Portanto, é responsabilida- Senhor Jesus Cristo; a qual, em suas
de de todo pastor assegurar-se de que épocas determinadas, há de ser reve-
toda a sua humanidade redimida está lada pelo bendito e único Soberano,

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o Rei dos reis e Senhor dos Senho- templo, a fim de assegurarem que os
res; o único que possui a imortalida- padrões bíblicos fossem mantidos na
de, que habita em luz inacessível, a adoração divina. Essa foi a razão por
quem homem algum jamais viu, nem que, no livro de Malaquias, Deus pôs
é capaz de ver. A ele honra e poder sobre os sacerdotes a culpa pelo
eterno. Amém!” (1 Tm 6.13-16) declínio da espiritualidade. Essa era
Nossa primeira tarefa consiste também uma responsabilidade dos
em determinar o mandato que Timó- pastores do Novo Testamento e a ra-
teo foi encarregado de guardar zão por que 1 Timóteo foi escrita por
“imaculado, irrepreensível, até à ma- Paulo ao seu filho na fé. Paulo disse:
nifestação de nosso Senhor Jesus Cris- “Escrevo-te estas coisas, esperando
to”. Uma das normas elementares da ir ver-te em breve; para que, se eu
interpretação bíblica deveria ser su- tardar, fiques ciente de como se deve
ficiente para nos ajudar nisso, ou seja, proceder na casa de Deus, que é a
a norma do contexto. No contexto igreja do Deus vivo, coluna e balu-
desses versículos, a preocupação do arte da verdade” (1 Tm 3.14-15). É
apóstolo Paulo se concentrava no fato responsabilidade dos pastores garan-
de que Timóteo, como homem de tir que a adoração esteja sendo reali-
Deus, tinha de ser notavelmente di- zada de uma maneira que honre a
ferente dos outros por meio de uma Deus.
piedade caracterizada por contenta- Por que estou estabelecendo
mento. Enquanto outras pessoas esse paralelo? Simplesmente porque,
diligenciavam por obter ganhos finan- assim como os sacerdotes do Antigo
ceiros, tendo-o como um objetivo de Testamento eram chamados à santi-
vida (1 Tm 6.9-10), Timóteo deve- dade, isso também é verdade no que
ria seguir a piedade com um coração se refere aos pastores do Novo Tes-
sincero (1 Tm 6.11-12). Paulo dei- tamento. No Antigo Testamento, os
xou claro que isso não era um aviso sacerdotes vestiam uma coroa sagra-
opcional, que Timóteo poderia acei- da feita de ouro puro, e nela havia
tar ou rejeitar, e sim uma ordem que uma inscrição que dizia: “Santidade
ele deveria obedecer até ao fim. Fa- ao SENHOR” (ver Êx 39.30). Além
zia parte de seus deveres como “ho- disso, Deus se mostrava tão preocu-
mem de Deus”. Por conseguinte, o pado com a santidade, que não per-
mandato é que Timóteo deveria se- mitiu aos levitas que caíram na ido-
guir a piedade com um coração sin- latria voltarem a servi-Lo, conforme
cero. faziam antes de servirem os ídolos.
Embora os pastores do Novo Através de Ezequiel, Deus afirmou:
Testamento não sejam sacerdotes de “Os levitas, porém, que se apartaram
maneira tão exclusiva como os sacer- para longe de mim, quando Israel
dotes do Antigo Testamento, o papel andava errado, que andavam trans-
deles na igreja lhes outorga respon- viados, desviados de mim, para irem
sabilidades igualmente privilegiadas. atrás dos seus ídolos, bem levarão
Por exemplo, os sacerdotes do Anti- sobre si a sua iniqüidade. Contudo,
go Testamento tinham o encargo do eles servirão no meu santuário como

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PUREZA PASTORAL 9

guardas nas portas do templo e mi- do que as outras pessoas, eram con-
nistros dele; eles imolarão o holo- vidados ao mais íntimo contato pos-
causto e o sacrifício para o povo e sível com o Deus de Israel.
estarão perante este para lhe servir. Com certeza, se Deus era tão
Porque lhe ministraram diante dos zeloso a respeito da santidade nos
seus ídolos e serviram à casa de Israel dias em que, em sua maior parte, a
de tropeço de maldade; por isso, le- adoração consistia de símbolos, e não
vantando a mão, das próprias re-
jurei a respeito g alidades, ele
deles, diz o SE- tem de ser ain-
NHOR Deus, que É responsabilidade da mais zeloso
eles levarão so- dos pastores garantir a respeito da
bre si a sua ini- santidade em
qüidade. Não se
que a adoração esteja nossos dias.
chegarão a mim, sendo realizada de Portanto, os
para me servi- uma maneira que pastores têm de
rem no sacerdó- ser homens de
cio, nem se che-
honre a Deus. piedade pessoal
garão a nenhu- g elevada. Em 1
ma de todas as Timóteo 4.7,
minhas coisas sagradas, que são san- Paulo exortou um jovem pastor a
tíssimas, mas levarão sobre si a sua exercitar-se na piedade. De maneira
vergonha e as suas abominações que semelhante, em 2 Timóteo 2.20-22,
cometeram. Contudo, eu os encarre- ele disse: “Numa grande casa não
garei da guarda do templo, e de todo há somente utensílios de ouro e de
o serviço, e de tudo o que se fizer prata; há também de madeira e de
nele. Mas os sacerdotes levitas, os barro. Alguns, para honra; outros,
filhos de Zadoque, que cumpriram as porém, para desonra. Assim, pois,
prescrições do meu santuário, quan- se alguém a si mesmo se purificar
do os filhos de Israel se extraviaram destes erros, será utensílio para hon-
de mim, eles se chegarão a mim, para ra, santificado e útil ao seu possui-
me servirem, e estarão diante de dor, estando preparado para toda
mim, para me oferecerem a gordura boa obra. Foge, outrossim, das pai-
e o sangue, diz o SENHOR Deus. Eles xões da mocidade. Segue a justiça,
entrarão no meu santuário, e se che- a fé, o amor e a paz com os que, de
garão à minha mesa, para me servi- coração puro, invocam o Senhor”.
rem, e cumprirão as minhas prescri- Qualquer pessoa que lê essas pala-
ções” (Ez 44.10-16). Os sacerdotes vras logo perceberá que o ofício do
também eram chamados à inteireza pastor é principalmente uma chama-
de saúde; o que é simbolizado pelo da à santidade. Isso não acontece
fato de que seriam excluídos do ser- apenas para ser aceito diante de
viço no altar se tivessem qualquer de- Deus, mas também porque o minis-
feito físico (Lv 21.17). Tudo isso era tério pastoral possui tal natureza, ou
necessário porque os sacerdotes, mais seja, nosso poder espiritual está vin-

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10 Fé para Hoje

culado ao nosso andar com Deus. espetáculos egocêntricos que não têm
Atanásio disse com muita exatidão: absolutamente nada relacionado com
“Você não pode corrigir nos outros a glória de Deus? Quantos homens
aquilo que em você mesmo se encon- com ministérios antes poderosos fo-
tra errado”. Falar com um tom de ram destruídos, porque invejaram os
urgência e de unção que não pode ser ministérios de outros? Quantos pas-
falsificado exige que cultivemos con- tores bons foram levados, pela inve-
tinuamente a nossa vida interior. ja, a praticar aquilo que os chineses
chamam de “matar uma mosca na
testa de um amigo utilizando uma
A NECESSIDADE DE GUARDAR
machadinha”? E o que podemos di-
O CORAÇÃO
zer a respeito daqueles olhos que não
A primeira responsabilidade no conseguem olhar uma pessoa do sexo
seguir com diligência a piedade é oposto, sem pensar na cama? Quantos
guardar o nosso coração. O homem pastores estão agora trabalhando fora
sábio falou muito bem, quando dis- da vontade de Deus, porque almeja-
se: “Sobre tudo o que se deve guar- ram um ministério mais lucrativo? A
dar, guarda o teu coração, porque dele lista é interminável. Irmãos, esses são
procedem as fontes da vida” (Pv os pecados que matam a espi-
4.23). O coração do pastor é o âma- ritualidade e o poder de nosso minis-
go do seu ministério. Estejam certos tério, antes mesmo de quaisquer pe-
disto: “A boca fala do que está cheio cados se tornarem visíveis ao nosso
o coração”. Manter puros os olhos, povo. Não há dúvida de que, para
o coração, o espírito e a consciência manter seu ministério vivo e estimu-
é o futuro do ministério de um servo lado, ano após ano, você tem de trei-
de Cristo. Portanto, acautelem-se dos nar a si mesmo em uma vida de pie-
pecados do coração — orgulho, in- dade.
veja, ciúme, cobiça, ira, lascívia e
preguiça. Não nos admiremos de que
ALCANÇANDO E MANTENDO
a História os tenha apelidado de “os
A DEVOÇÃO
sete pecados mortais”! Muito tempo
antes de uma pessoa arruinar de ma- Uma pergunta importante pre-
neira visível a sua vida, ela permitiu cisa ser feita: como podemos seguir
que seu coração se tornasse uma ha- essa devoção sincera? Devemos nos
bitação para o pecado. Novamente, lembrar que a verdadeira piedade
dizemos: “Guarda o teu coração, nunca resulta simplesmente da reso-
porque dele procedem as fontes da lução. Também precisa haver ação.
vida”. Ora, enquanto os meios públicos da
Essa é a grande batalha que você graça (tais como os cultos na igreja)
estará sempre enfrentando em sua podem trazer muitos benefícios para
vida e seu ministério. Todos nós po- os outros crentes, os pastores têm de
demos fugir do adultério e do roubo. depender muito mais dos meios par-
Mas quantos ministros do evangelho ticulares da graça. Isso acontece por-
têm reduzido os seus ministérios a que, com freqüência, nós, os pasto-

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PUREZA PASTORAL 11

res, ficamos tão preocupados com os to. A razão por que muitos de nós
detalhes dos cultos em nossas igre- falhamos em manter exercícios par-
jas, que perdemos de vista o benefí- ticulares disciplinados, para a nossa
cio da exortação: “Aquietai-vos e alma, não é o ignorarmos sua impor-
sabei que eu sou Deus”. Por conse- tância, e sim a falta de perseverar-
guinte, para nós, a devoção sincera mos neles. Qualquer pessoa pode par-
terá de ser o fruto de uma alma que ticipar de uma corrida de cem me-
se retira para tros, porque
leitura bíbli- g é uma dis-
ca, oração, Com certeza, se Deus era tão tância curta;
meditação e
utiliza outros
zeloso a respeito da santidade tudo o que
precisa é dar
meios parti- nos dias em que, em sua maior o melhor de
culares da parte, a adoração consistia de si e, antes
graça. Sem- que perceba,
pre racionali-
símbolos, e não das próprias já alcançou a
zamos nossa realidades, ele tem de ser ainda faixa de che-
ausência nes- mais zeloso a respeito da gada. A ma-
ses exercícios ratona, po-
que purifi-
santidade em nossos dias. rém, é bem
cam a alma, g diferente.
utilizando Ela exige
nossos deveres como desculpas. E, perseverança porque o percurso é
com certeza, às vezes isso será inevi- muito longo. É na perseverança que
tável. Mas, quando isso estiver acon- se encontra a dificuldade no ministé-
tecendo semana após semana, você rio pastoral. Muitos pastores come-
estará em declínio, matando a vida çam bem, mas falham no meio do
interior de seu ministério. Deus nun- caminho, porque o percurso é lon-
ca tencionou que fosse assim. Se o go. Essa era a preocupação de Paulo
seu lugar de intimidade com Deus em relação a Timóteo. Ele desejava
tem estado vazio por algum tempo, que Timóteo persistisse, continuas-
então, retorne o mais rápido possível se, permanecesse na fé e na conduta
aos seus exercícios devocionais! É no cristã. Por isso, Paulo lhe disse:
lugar de oração secreta que as verda- “Combate o bom combate da fé.
des do homem de Deus se entretecem Toma posse da vida eterna, para a
nas fibras de seu próprio ser. Ali, os qual foste chamado e de que fizeste a
assuntos concernentes à graça divina boa confissão perante muitas testemu-
são mantidos em frescor. É para a nhas. Exorto-te, perante Deus, que
sua própria ruína que você abandona preserva a vida de todas as coisas, e
o lugar secreto de oração. perante Cristo Jesus, que, diante de
Pôncio Pilatos, fez a boa confissão,
que guardes o mandato imaculado,
OS INIMIGOS DA DEVOÇÃO
irrepreensível, até à manifestação de
Sejamos honestos neste assun- nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tm

fé 16 - 2 - Pureza Pastoral.p65 11 10/12/04, 4:21 PM


12 Fé para Hoje

6.12-14). Não basta dar alguns bons sobedientes aos pais, ingratos,
golpes no início do combate; você tem irreverentes, desafeiçoados, implacá-
de permanecer na luta até ao fim. O veis, caluniadores, sem domínio de
mandato tem de ser guardado sem si, cruéis, inimigos do bem, traido-
mácula e isento de coisas dignas de res, atrevidos, enfatuados, mais ami-
repreensão, “até à manifestação de gos dos prazeres que amigos de Deus,
nosso Senhor Jesus Cristo”. Em ou- tendo a forma de piedade, negando-
tras palavras, até ao fim! No minis- lhe, entretanto, o poder. Foge tam-
tério pastoral, a tendência peculiar é bém destes” (2 Tm 3.1-5). No mi-
a de nos tornarmos cansados e fati- nistério pastoral, existem homens que
gados da devoção particular e dos pa- se enquadram nessas descrições. Sem-
drões para a piedade pessoal, no meio pre que estamos na companhia deles,
do percurso. Pouco a pouco, come- nos retiramos com o sentimento de
çamos a andar por lugares que os an- frieza na alma, por causa da conver-
jos temem pisar. Você está manten- sa e do comportamento deles. Fuja
do a aparência exterior de seu minis- de tais homens. Faça isso, antes que
tério, mas há muito tempo perdeu, o câncer deles afete você e se espalhe
em seu íntimo, o poder e o amor que amplamente em sua alma!
você tinha no início. Irmãos, isso não
deve acontecer!
CONCLUSÃO
Excluindo a fadiga causada pela
luta contra a carne (ou seja, a nature- Muitos pastores têm permane-
za caída que ainda habita em nós), cido pouco tempo no ministério, por-
outra fonte de fadiga é a má influên- que não colocaram a devida ênfase
cia daqueles para os quais olhamos neste dever pessoal. Guarde o seu co-
na obra de Deus. Por isso, se você ração, porque ele é a fonte da vida.
tem de seguir uma devoção sincera a O apóstolo Paulo certamente perce-
Deus, no ministério, acautele-se das beu a seriedade dessa advertência,
companhias que mantém em sua vida pois a transformou em um mandato
ministerial. A advertência do após- a ser cumprido “perante Deus, que
tolo Paulo se aplica tanto aos mem- preserva a vida de todas as coisas, e
bros quanto aos líderes da igreja: perante Cristo Jesus”. Todos nós de-
“Não vos enganeis: as más conversa- vemos utilizar os meios disponíveis
ções corrompem os bons costumes”. para realizar este mandato. Falhar em
O conselho de Paulo a Timóteo a res- cumpri-lo equivale a falhar em todos
peito desta questão é vital — “Sabe, os outros aspectos do ministério. Que
porém, isto: nos últimos dias, sobre- Deus nos conceda graça para comba-
virão tempos difíceis, pois os homens termos vitoriosamente o bom com-
serão egoístas, avarentos, jactancio- bate, desde agora até o dia de nossa
sos, arrogantes, blasfemadores, de- morte. Amém!

I I I I I I

fé 16 - 2 - Pureza Pastoral.p65 12 10/12/04, 4:21 PM


O MUNDO PASSA 13

O MUNDO PASSA
Horatius Bonar

A s coisas que vemos são tem- moinho e arrojou-a para dentro do


porais. O nosso mundo está perecen- mar, dizendo: Assim, com ímpeto,
do, e não temos aqui qualquer mora- será arrojada Babilônia, a grande ci-
da permanente. Em poucos anos (e dade, e nunca jamais será achada. E
talvez sejam muito poucos), todas as a voz de harpistas, de músicos, de
coisas deste mundo serão mudadas. tocadores de flautas e de clarins ja-
Em poucos anos (e talvez sejam mui- mais em ti se ouvirá, nem artífice
to poucos), o Senhor retornará, a úl- algum de qualquer arte jamais em ti
tima trombeta ressoará, e a grande se acharᔠ(Ap 18.21,22).
sentença será pronunciada sobre cada Esse é o dia que está por vir
um dos filhos dos homens. sobre o mundo, e essa é a condena-
Existe um mundo que não pas- ção que paira sobre a terra — uma
sa. É sobremodo glorioso; chama-se condenação prevista nos desastres fi-
a “herança dos santos na luz”. Ela nanceiros, que com freqüência pro-
resplandece com o amor de Deus e duzem tristezas em muitos corações
com o gozo dos céus. “O Cordeiro é e desolação em muitos lares.
a sua lâmpada.” Suas portas são cons- Sabemos a respeito de um mi-
tituídas de pérolas e estão sempre nistro do evangelho que faleceu há
abertas. E, à medida que contamos mais de duzentos anos. Ele viveu até
aos homens sobre esta maravilhosa quase aos oitenta anos. Viajou diver-
cidade, nós os convidamos a entra- sas vezes da América para a Inglaterra
rem nela. e vice-versa. Esse ministro faleceu em
O livro de Apocalipse nos fala Boston, cheio de amor e de fé. Na
sobre a história das vaidades da ter- noite anterior à sua morte, enquanto
ra: “Então, um anjo forte levantou se encontrava silencioso na cama, sua
uma pedra como grande pedra de filha lhe perguntou como ele estava.

fé 16 - 3 - O mundo passa.p65 13 10/12/04, 4:22 PM


14 Fé para Hoje

Ele levantou as suas mãos e, com seus mem, você fará de uma onda o seu
lábios moribundos, disse: “Coisas que quinhão? Você não possui um traves-
perecem, coisas que perecem!” Ele seiro melhor do que esse, onde possa
repetiu estas solenes palavras e, refe- deitar a sua cabeça fatigada? Esse é
rindo-se ao mundo com todas as suas um mundo infeliz para o coração do
vaidades, nas quais os homens põem homem amar, para uma alma imor-
seus corações, afirmou: “Coisas que tal com ele se encher!
perecem!” Assim como o arco-íris. O sol
“O mundo passa” — esta é a reflete as suas cores através de uma
nossa mensagem. nuvem, e, por alguns minutos, tudo
é lindíssimo. Mas, a nuvem se reti-
Assim como o sonho de uma ra, e toda a beleza desaparece. Assim
noite. Deitamos na cama, para repou- é o mundo. Com toda a sua beleza e
sar, adormecemos e sonhamos. sua glória; com todas as suas honras
Acordamos pela manhã. E, vejam, e seus prazeres; com toda a sua ale-
desaparece tudo que em nosso sonho gria e sua loucura; com toda a sua
parecia tão agradável e tão permanen- pompa e sua luxúria; com todas as
te! Assim também o mundo passa suas orgias e suas desordens; com to-
rapidamente. Ó filho da mortalida- das as suas esperanças e suas ba-
de, você não tem um mundo mais julações; com todo o seu amor e seus
glorioso do que este? sorrisos; com todas as suas canções e
Assim como a névoa da ma- seu esplendor; com todas as suas jói-
nhã. A noite traz a névoa sobre os as e seu ouro, o mundo passa. E a
montes; o vapor cobre os vales; o sol nuvem que refletia o arco-íris não o
aparece, e tudo se vai — os vales e os reflete mais, de maneira alguma. Ó
montes estão visíveis novamente. As- homem, é um mundo que passa como
sim também o mundo passa, e não este que você tem por sua herança?
pode ser mais visto. Ó homem, você Assim como uma flor. Bonitas,
abraçará um mundo como este? Você muito bonitas; cheirosas, muito chei-
se deitará sobre uma névoa e dirá: rosas são as flores de verão. Mas elas
“Este é o meu lar”? murcham. Assim também desapare-
Assim como uma sombra. Não ce o mundo de diante dos nossos
existe nada mais irreal do que uma olhos. Enquanto estamos contemplan-
sombra. Ela não possui substância, do-o e admirando-o, ele desaparece!
essência. Ela é escura, é uma figura, Nenhum resquício permanece de todo
possui mobilidade — isto é tudo! o encanto; resta apenas um pequeno
Assim também é o mundo. Ó ho- grão de poeira! Ó homem, você pode
mem, você correrá ansiosamente nutrir-se de flores? Você pode estar
atrás de uma sombra? O que uma morrendo de amores por aquilo que
sombra pode fazer por você? dura apenas por uma hora? Você foi
Assim como uma onda do mar. criado para a eternidade; somente as
Ela se levanta, cai e nunca mais apa- coisas eternas podem ser a sua heran-
rece. Essa é a história de uma onda. ça ou o seu lugar de descanso. As
Essa é a história do mundo. Ó ho- coisas que desaparecem com o seu uso

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O MUNDO PASSA 15

tão-somente zombam de suas aspira- Quando a manhã desponta, a tenda


ções e não podem satisfazê-lo; e, desaparece. A tenda e o seu habi-
ainda que pudessem fazer isso, elas tante vão embora. O deserto
não permanecem. A mortalidade ca- continua tão solitário quanto antes.
racteriza tudo neste mundo; a imor- Assim é o mundo. Hoje ele se mos-
talidade é inerente às coisas do mun- tra; amanhã, ele desaparece. Ó
do por vir — os novos céus e a nova homem, nascido de mulher, este é o
terra, nos quais habita a justiça. seu lugar de permanência e o seu lar?
Assim como um barco. Com Você dirá a respeito dele: “Este é o
todas as suas velas levantadas, e a brisa meu descanso”, quando lhe falamos
refrescante soprando, o barco se apro- que existe um descanso, um descan-
xima e se coloca ao alcance de nossos so eterno, para o povo de Deus?
olhos, passa diante deles e, em se- O MUNDO PASSA — esta é uma
guida, desaparece. Assim também mensagem do céu. Toda a carne é
surge, passa e desaparece este mundo erva; e toda a bondade, como a flor
e tudo o que ele contém. Permanece da erva.
somente algumas horas diante de nos- O MUNDO PASSA. Mas Deus
sos olhos; depois, vai embora! O vive para sempre. Ele existe de eter-
imenso oceano sobre o qual o barco nidade a eternidade. Ele é o Rei
navegou com tanta calma ou com tan- eterno e imortal.
tas intempéries, não deixa nenhum O MUNDO PASSA. Mas o ho-
resquício de toda a vida, ou movi- mem é imortal. A eternidade se
mento, ou beleza que passavam sobre encontra diante de cada filho de Adão
ele! Ó homem, este mundo que desa- durante todos os dias de sua vida. O
parece é o seu único lugar de ha- homem estará na luz ou nas trevas
bitação? Todos os seus tesouros, suas para sempre! Em gozo ou em triste-
esperanças, suas alegrias se encontram za para sempre!
neste mundo? Onde estarão essas coi- O MUNDO PASSA. E depois?
sas quando você descer à sepultura? Esta é uma pergunta que deve cau-
Ou onde estará você quando essas sar profundo interesse no homem.
coisas forem deixadas aqui e você não Se o mundo tem de passar, e o ho-
entrar no gozo de toda a herança que mem, viver para sempre, é muito
poderia ter durante toda a eternida- importante que saibamos onde esta-
de? Por melhor que seja, esta é uma remos e o que seremos para sempre!
herança infeliz, e a sua curta duração Um médico famoso, procurando
torna-a ainda mais infeliz. Ó homem, consolar um paciente desanimado,
escolha a melhor parte, que não lhe disse-lhe: “Trate a vida como um
será tirada! jogo”. Este foi um conselho ímpio,
Assim como uma tenda no de- pois a vida não é um jogo, assim
serto! Aqueles que já viajaram pelas como o tempo não é um brinquedo
terras da Arábia sabem o que isto sig- de criança, para ser jogado fora. A
nifica. No pôr-do-sol, uma pequena vida neste mundo é o começo da vida
mancha branca parece surgir da terra que não termina; e o tempo é a por-
árida. É a tenda de um viajante. ta da eternidade.

fé 16 - 3 - O mundo passa.p65 15 10/12/04, 4:22 PM


16 Fé para Hoje

E depois? Ó homem, você tem obra você pode realizar? Que obra
de assegurar-se de que possui um lar excelente é capaz de conseguir o per-
naquele mundo para o qual em breve dão e tornar você pronto para rece-
você irá. Você não deve sair de sua ber o favor divino? Que obra Deus
tenda sem ter certeza da habitação na ordenou que você realize, a fim de
cidade que tem fundamentos, cujo ar- obter a salvação? Nenhuma. A Pala-
quiteto e construtor é Deus. Quando vra de Deus é muitíssimo clara e fá-
você tiver feito isso, poderá descan- cil de ser entendida: “Ao que não tra-
sar em paz no seu leito de morte. Até balha, porém crê naquele que justifi-
que você tenha feito isso, não poderá ca o ímpio, a sua fé lhe é atribuída
viver nem morrer em paz. Uma pes- como justiça” (Rm 4.5).
soa que teve uma vida mundana Existe apenas uma obra por
finalmente terá de morrer e, quando meio da qual um homem pode ser
ele tiver que deixar este mundo, pro- salvo. Essa obra não é uma realiza-
nunciará estas palavras terríveis: ção humana, e sim a obra do Filho
“Estou morrendo, e não sei para onde de Deus. É uma obra completa — da
estou indo”. Outra pessoa, em cir- qual nada pode ser retirado ou acres-
cunstância semelhante, clama: “Es- centado —, apresentada por Ele
tou a apenas uma hora da eternidade, mesmo a você, a fim de que você
e tudo é trevas”. Ó homem, é tempo possa beneficiar-se dela e ser salvo.
de acordar! “Posso me beneficiar dessa obra
tal como eu sou?” Sim. Deus a colo-
“Como eu posso ter certeza?” cou diante de você. E recebê-la para
— você pergunta. Há muito tempo si mesmo, como único fundamento
Deus respondeu esta pergunta. E sua de sua esperança eterna, é a única ma-
resposta está gravada para todas as neira de você honrá-la. Nós honramos
épocas — “Crê no Senhor Jesus e se- ao Pai quando concordamos em ser
rás salvo”. salvos por intermédio da obra com-
“Crê no Senhor Jesus! Eu sem- pleta realizada por seu Filho. E
pre fiz isto” — você afirma. Se isto honramos o Filho quando concorda-
fosse realmente verdade, então, as- mos em apropriar-nos de sua obra
sim como o Senhor Jesus vive, assim completa no lugar de nossas próprias
também você seria um homem sal- obras. E honramos o Espírito Santo,
vo. Mas a sua afirmação é realmente cujo ofício consiste em glorificar a
verdadeira? A sua vida tem sido a de Cristo, quando ouvimos o que Ele
uma pessoa salva? É certo que não. nos diz sobre aquela obra consumada
Tem sido uma vida completamente “de uma vez por todas” na cruz.
dedicada ao efêmero. Portanto, as- O perdão vem por meio de Je-
sim como o Senhor Deus de Israel sus Cristo, homem, que é Filho de
vive, e assim como vive a sua alma, Deus e Filho do Homem! Essa é a
você ainda não creu e não está salvo. nossa mensagem. O perdão por meio
“Eu não tenho de fazer qual- da única obra que remove os peca-
quer obra neste grande assunto de dos, a qual o Senhor Jesus realizou
receber meu perdão?” Nenhuma. Que em favor dos pecadores, na terra. O

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O MUNDO PASSA 17

perdão para os piores, os mais ímpios demonstrar mais plenamente seu ar-
e os mais distantes do Pai que se en- dente desejo de que você não perca a
contram neste mundo. O perdão do sua alma e de que seja salvo — de
tipo mais amplo, mais profundo e que você não pereça, e sim de que
mais completo; sem qualquer limite, viva?
exceção, possibilidade ou condição Na cruz, há salvação — em ne-
de ser revogado! O perdão gratuito e nhum outro lugar. Nenhum falhar das
imerecido — tão gratuito quanto o esperanças deste mundo pode apagar
amor de Deus, quanto o dom de seu a esperança que a cruz nos revela. Ela
Filho amado. O perdão espontâneo e brilha mais intensamente no dia mau.
irrestrito — oferecido com sincerida- No dia de perspectivas que nos aba-
de e regozijo, assim como o perdão tem, de aflições intensas, de fardos
do pai que se lançou ao pescoço do pesados e de inquietações que nos
filho pródigo! O perdão simplesmente oprimem — quando nossos amigos se
por meio do crer em Jesus, pois atra- retiram; quando as riquezas se desfa-
vés dEle “todo o que crê é justificado zem, quando as enfermidades nos
de todas as coisas” (At 13.39). afligem, quando a pobreza nos bate
A salvação poderia ser ainda à porta — então, a cruz resplandece e
mais gratuita? O perdão poderia es- fala sobre uma luz que ultrapassa as
tar ainda mais perto de nós? Deus trevas deste mundo, a luz dAquele
poderia, de alguma outra maneira, que é a Luz do Mundo.

DEUS É SOBERANO
O verdadeiro reconhecimento da soberania de Deus ad-
mitirá o perfeito direito que Deus tem de fazer conosco o que
Ele bem quiser. Quem se curva perante o beneplácito do
Deus onipotente reconhece que Ele tem o direito absoluto de
fazer conosco conforme bem Lhe parecer. Se Deus resolve
enviar a pobreza, a enfermidade, o luto, então, até mesmo
quando o coração está sangrando por todos os poros, ainda
assim tal pessoa dirá: “Não fará justiça o Juiz de toda a ter-
ra?” Freqüentemente há luta, porque a mente carnal perma-
nece no crente até o fim de sua peregrinação na terra. Mas,
embora lhe haja um conflito no peito, aquele que realmente
aceitou essa bendita verdade logo passará a ouvir aquela Voz
falando, como no passado falou às turbulentas águas do lago
de Genesaré: “Acalma-te, emudece!” E a tempestade que ruge
em seu interior se aquietará, e a alma submissa elevará aos
céus os olhos, lacrimosos mas confiantes, e dirá: “Seja feita a
tua vontade”. A. W. Pink

fé 16 - 3 - O mundo passa.p65 17 10/12/04, 4:22 PM


18
DIVERSIDADE DONS
Fé para Hoje
DE
J. C. Ryle

Meditação em João 21.1-14

D
evemos observar nesses versículos o diferente caráter dos
discípulos de Cristo. Nesta ocasião profundamente interessante, ve-
mos Pedro e João lado a lado no mesmo barco. E, uma vez mais,
assim como no sepulcro, nós os observamos comportando-se de
maneira diferente. Estando Jesus na praia, durante o ofuscado ama-
nhecer do dia, João foi o primeiro a reconhecê-Lo, dizendo: “É o
Senhor!”; mas Pedro foi o primeiro a lançar-se ao mar, esforçan-
do-se para chegar perto do Senhor. Em resumo, João foi o primeiro
a ver; Pedro, o primeiro a agir. O espírito gentil e amável de João
foi mais rápido para discernir; porém, a natureza impulsiva de Pedro
foi mais rápida para levá-lo à ação. Os dois eram verdadeiros discí-
pulos, amavam o Senhor em suas vidas e mostraram-se fiéis a Ele
até à morte; mas o temperamento natural deles não era o mesmo.
Jamais esqueçamos esta lição prática. Enquanto vivermos, de-
vemos utilizá-la com diligência ao formular opiniões a respeito de
outros crentes. Não devemos condenar os outros como pessoas in-
crédulas e destituídas da graça divina, somente porque não têm as
mesmas opiniões que nós temos no que se refere aos deveres cris-
tãos e não expressam sentimentos iguais aos nossos. “Ora, os dons
são diversos, mas o Espírito é o mesmo” (1 Co 12.4). Os dons dos
filhos de Deus não são outorgados exatamente na mesma proporção
e medida. Alguns possuem maior medida de um dom; outros têm
mais de outro dom. Alguns dons brilham com mais intensidade,
quando utilizados em público; outros, em particular. Alguns cren-
tes brilham mais em sua vida de passividade; outros, em uma vida
de atividade; mas todos os membros da família de Deus, de acordo
com seu dom e no devido tempo, glorificam a Deus. Marta era uma
mulher agitada que se preocupava com muitos afazeres, enquanto
sua irmã, Maria, assentava-se aos pés do Senhor, para ouvir sua
Palavra (Lc 10.39-40). Todavia, chegou o dia em que Maria ficou
abatida e prostrada por causa de muita tristeza, enquanto a fé exercida
por Marta resplandeceu mais do que a de sua irmã (Jo 11.20-28).
Ambas eram amadas por nosso Senhor. A única coisa realmente
necessária é ter a graça do Espírito e amar a Cristo. Amemos a todos
aqueles que possuem esta graça e amam o Senhor, embora não ve-
jam as coisas com os nossos olhos. A igreja de Cristo precisa de
todos os tipos de servos e instrumentos — facas e espadas, machados
e martelos, formões e serrotes, Marta e Maria, Pedro e João. A
nossa regra áurea deve ser: “A graça seja com todos os que amam
sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 6.24).

fé 16 - 4 - Diversidade de Dons.p65 18 10/12/04, 4:22 PM


ERROS DA IDADE MÉDIA 19

ERROS DA IDADE MÉDIA


Sinclair Ferguson

E
mbora tenha sido provocada escreveria para Staupitz a respeito
pelas indulgências vendidas por desta brilhante descoberta: “Eu me
Johannes Tetzel, a primeira proposi- arrisco a dizer que estão errados aque-
ção que Lutero ofereceu para debate les indivíduos que tornam mais im-
público, em suas Noventa e Nove portante a ação proposta pelo latim
Teses, pôs o machado à raiz da árvo- do que a mudança de coração trans-
re teológica da Idade Média. A pri- mitida pelo grego”.
meira proposição afirmava: “Quan- Não é verdade que temos per-
do nosso Senhor e Mestre, Jesus Cris- dido de vista esta nota que era tão
to, disse: ‘Arrependei-vos’, Ele pre- proeminente na teologia reformada?
tendia dizer que toda a vida do cren- Faremos muito bem se resgatarmos
te deve ser caracterizada por arrepen- o conceito teológico de Lutero. Por
dimento”. Fundamentado no Novo muitas razões importantes, os evan-
Testamento Grego editado por gélicos precisam reconsiderar a
Erasmo, Lutero chegou à compreen- centralidade do arrependimento em
são de que a tradução penitentiam nossa maneira de pensar a respeito do
agite (“fazei penitência”), da Vulgata evangelho, da igreja e da vida cristã.
Latina, em Mateus 4.17, interpreta- Uma de nossas grandes neces-
va de maneira completamente errada sidades é a habilidade de perceber al-
o significado das palavras de Jesus. gumas das direções às quais o
O evangelho não exige penitência, e evangelicalismo está se encaminhan-
sim uma mudança radical na manei- do ou talvez, mais exatamente, se
ra de pensar e uma profunda trans- desintegrando. Precisamos desespe-
formação de vida. Mais tarde, Lutero radamente da perspectiva que a His-

fé 16 - 5 - Erros da Idade Média.p65 19 10/12/04, 4:23 PM


20 Fé para Hoje

tória da Igreja nos proporciona. da vida cristã, tem sido um dos prin-
Mesmo no período de minha cípios mais importantes do evange-
própria vida crist㠗 no espaço de licalismo moderno. Infelizmente, os
tempo entre a minha adolescência, na crentes têm desprezado a teologia das
década de 1960, e os meus quarenta igrejas que possuem uma confissão
anos, na década de 1990 —, houve de fé histórica. Essa atitude tem pro-
uma ampla mudança no evange- duzido uma geração que olha para
licalismo. Muitas “posições doutri- trás e vê a base da sua salvação em
nárias” que constituíam o ensino um ato único, separado de suas con-
evangélico padrão, depois de somente seqüências. Assim, hoje, a chamada
três décadas, são consideradas como para “vir à frente” assumiu o lugar
reacionárias ou mesmo antiquadas. do antigo sacramento da penitência.
Se levarmos em conta a pers- Deste modo, o arrependimento tem
pectiva da História, encaramos a pos- sido divorciado da regeneração ver-
sibilidade alarmante de que trevas dadeira, e a santificação está separa-
medievais podem estar se avultando da da justificação.
no evangelicalismo. Seremos capazes
de detectar, pelo menos como uma
2. MISTICISMO
tendência, atividades no meio do
evangelicalismo que se assemelham O cânon da vida cristã tem sido
à vida da igreja medieval? A possibi- procurado, de maneira crescente, em
lidade de uma Nova Babilônia ou uma voz viva “inspirada pelo Espíri-
(mais exatamente, nas palavras de to Santo”, na igreja, ao invés de ser
Lutero) do Cativeiro Pagão da Igre- buscado na voz do Espírito ouvida
ja se mostra mais perto do que pode- nas Escrituras. O que antes era ape-
mos crer. nas uma tendência mística se tornou
Considere estas cinco caracte- um dilúvio. Mas qual a relação disso
rísticas da igreja medieval que, em com a igreja da Idade Média? Ape-
vários graus, estão evidentes no nas esta: toda a igreja medieval agia
evangelicalismo contemporâneo. com base nesse mesmo princípio,
embora eles o expressassem de ma-
neira diferente — o Espírito Santo fala
1. ARREPENDIMENTO
além das Escrituras; o crente não pode
O arrependimento tem sido con- conhecer a orientação detalhada da
siderado, de maneira cada vez mais parte de Deus, se tentar depender
crescente, como um ato único, divor- exclusivamente de sua própria Bíblia.
ciado de uma restauração da piedade E isso não é tudo. Uma vez que
que se estende por toda a vida do crente. a doutrina da “voz viva” do Espírito
Existem razões complexas para Santo é introduzida, ela é seguida
isso — nem todas desta época — que inevitavelmente como sendo o cânon
não podem ser exploradas neste bre- da vida cristã.
ve artigo. Entretanto, isto é eviden- Este ponto de vista (a Palavra
te: considerar o arrependimento como inspirada + uma voz viva = revela-
um ato isolado e completo, no início ção divina) se encontrava no âmago

fé 16 - 5 - Erros da Idade Média.p65 20 10/12/04, 4:23 PM


ERROS DA IDADE MÉDIA 21

do tatear na escuridão da igreja me- das principais acusações feitas con-


dieval em busca do poder do evange- tra os reformadores pela Igreja Ca-
lho. Ora, no final do segundo tólica Romana era que eles não ti-
milênio, estamos à beira — e talvez nham realmente o evangelho, pois
mais do que à beira — de sermos do- lhes faltava os milagres físicos.
minados por um fenômeno semelhan-
te. Naquela época, o resultado foi uma
4. ESPECTADORES
fome por ouvir e entender a Palavra
de Deus; e tudo foi realizado sob o A adoração a Deus é apresen-
pretexto de buscar aquilo que o Espí- tada, cada vez mais, como um evento
rito Santo estava realmente dizendo à das capacidades sensoriais e visuais,
igreja. E o que podemos dizer sobre e não como um acontecimento ca-
os nossos dias? racterizado por palavras, através do
qual nos envolvemos em um profun-
do diálogo da alma com o Deus
3. PODERES SAGRADOS
triúno.
A presença divina era trazida à A atitude predominante do
igreja através de um indivíduo com evangelicalismo contemporâneo con-
poderes sagrados, depositados em sua siste em focalizar a centralidade da-
pessoa e transmitidos por meios físi- quilo que “acontece” no espetáculo
cos. de adoração, ao invés de focalizar
Hoje, o correspondente de tal aquilo que se escuta na adoração. A
indivíduo pode ser visto em todos os estética, quer seja musical, quer seja
lugares onde as pessoas assistem tele- artística, recebe prioridade acima da
visão. Temos de reconhecer que não santidade. Mais e mais é visto, me-
é Jesus que está sendo oferecido por nos e menos é ouvido. Acontece uma
meio das mãos de um sacerdote; é o festa dos sentidos, mas existe uma
Espírito Santo quem está sendo ou- fome do ouvir. O profissionalismo
torgado por meios físicos (aparente- na adoração se tornou um substituto
mente, à vontade), pela instrumen- barato e cheio de falhas para o ge-
talidade de um novo sacerdote evan- nuíno acesso ao céu. A drama-
gélico. A santidade não é mais con- tização, ao invés da pregação da
firmada pela beleza do fruto do Es- Palavra, se tornou o “Didaquê” da
pírito, e sim pelos sinais que são pre- escolha.
dominantemente físicos. Houve um tempo em que ape-
O que deveríamos achar alar- nas quatro palavras causariam arre-
mante a respeito do evangelicalismo pios em nossos avós: “Vamos ado-
contemporâneo é a amplitude com rar a Deus”. Isto não pode ser dito a
que somos impressionados pelo bom respeito dos evangélicos contempo-
desempenho de tais sacerdotes, ao râneos. Agora, tem de haver cores,
invés de sermos impressionados por movimento, efeitos áudio-visuais,
sua piedade. Os reformadores esta- etc., pois, de modo contrário, Deus
vam familiarizados com fenômenos não pode ser conhecido, amado,
semelhantes a este. Na verdade, uma adorado e crido.

fé 16 - 5 - Erros da Idade Média.p65 21 10/12/04, 4:23 PM


22 Fé para Hoje

5. MAIOR SIGNIFICA MELHOR? tes. Essa não é realmente a principal


preocupação neste artigo. Pelo con-
O sucesso do ministério é me- trário, nossa principal preocupação é
dido pelas multidões e pelos templos a tendência quase endêmica do
enormes, ao invés de ser avaliado por evangelicalismo contemporâneo em
meio da pregação da cruz e da quali- utilizar tamanho e números como um
dade da vida dos crentes. indicativo de sucesso do “meu minis-
Foram os líderes da Igreja Me- tério” — uma expressão que pode ser
dieval — bispos, arcebispos, carde- admiravelmente contraditória. Temos
ais e papas — que construíram as de suscitar a questão da realidade, da
grandes igrejas, ostentando o lema profundidade e da integridade na
Soli Deo Gloria. Tudo isso foi reali- vida da igreja e do ministério cris-
zado em detrimento da proclamação tão. O intenso desejo por “coisas mai-
do evangelho, da vida do corpo de ores” nos torna vulneráveis na área
Cristo como um todo, das necessida- material e financeira; e o que é pior:
des dos pobres e da evangelização do nos torna espiritualmente vulneráveis.
mundo. Por conseguinte, as mega- Pois dificilmente poderemos decla-
igrejas não constituem um fenômeno rar àqueles dos quais dependemos
moderno, e sim um fenômeno da Ida- materialmente: “Quando o Senhor
de Média. Jesus disse: ‘Arrependei-vos’, isto
Felizmente, o tamanho ideal de significava que toda a vida cristã é
uma igreja e a arquitetura eclesiásti- uma vida de arrependimento”.
ca específica são questões irrelevan-

A ESCOLHA DE TRÊS JOVENS


Qualquer que se não prostar e não a adorar [a estátua de ouro] será,
no mesmo instante, lançado na fornalha de fogo ardente. Daniel 3.6

O mundo de hoje tem sua própria fornalha ardente à espera


daqueles que não se conformam em adorar seus ídolos. É a
fornalha de ser desprezado, ridicularizado, escarnecido, repu-
diado e ignorado. Aqueles que temem a Deus e mantêm vidas
puras são considerados “quadrados” e indiferentes, que não par-
ticipam da vida e dos interesses dos outros ao seu redor.
Para muitos jovens crentes, a pressão parace irresistível.
Sentem-se forçados a uma escolha. Ou se identificam e vivem
como os demais; ou assumem uma postura firme e perdem tudo.
Esta foi a escolha apresentada a Sadraque, Mesaque e Abde-
Nego. Eles escolheram agradar a Deus, deixando as conse-
qüências nas mãos daquele que é todo sábio.
(Do livro “Ouse Ser Firme”, Stuart Olyott, pág. 42 - Ed. Fiel)

fé 16 - 5 - Erros da Idade Média.p65 22 10/12/04, 4:23 PM


BATALHANDO PELA FÉ 23

BATALHANDO PELA FÉ
John Piper

“Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, aos chamados,


amados em Deus Pai e guardados em Jesus Cristo, a misericórdia, a
paz e o amor vos sejam multiplicados. Amados, quando empregava
toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação,
foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos
a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entre-
gue aos santos. Pois certos indivíduos se introduziram com dissimula-
ção, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para
esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a
graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus
Cristo.”
Judas 1-4

Aepístola de Judas começa e No final da epístola, versículo


termina com palavras muito con- 24, Judas afirmou: “Ora, àquele que
fortadoras para os crentes. No é poderoso para vos guardar de tro-
versículo 1, Judas nos descreve como peços e para vos apresentar com
aqueles que são “chamados, amados exultação, imaculados diante de sua
em Deus Pai e guardados em Jesus glória, ao único Deus... glória”.
Cristo”. Os três verbos estão na voz Observe, no versículo 1, somos guar-
passiva. Enfatizam a ação de Deus. dados por Deus em Jesus Cristo; e,
Ele chama, ama e guarda. Somos no versículo 24, Deus é poderoso
chamados, amados e guardados. Judas para guardar-nos de tropeços. Judas
se mostrou bastante zeloso em come- começou e terminou sua epístola as-
çar enfatizando a segurança do cren- segurando os crentes de que Deus
te na eleição e no amor preservador exercita sua onipotência em guardá-
da parte de Deus. los de desviarem-se da fé.

fé 16 - 6 - Batalhando pela Fé.p65 23 10/12/04, 4:23 PM


24 Fé para Hoje

O que devemos responder quan- Quando Deus promete que sua igreja
do alguém nos perguntar por que será protegida de derrotas, o propó-
estamos tão certos de que permane- sito dEle não é que mantenhamos nos-
ceremos firmes na fé até ao fim e de sa espada na bainha, e sim que lance-
que seremos salvos no Dia do Juízo? mos mão da espada do Espírito e
Devemos responder o seguinte: olhemos confiantes para Ele, a fim
“Deus me chamou da incredulidade. de recebermos forças para vencer a
Portanto, eu sei que Ele me ama com batalha. Sempre que a promessa de
amor especial e eletivo. Por isso, sei segurança da parte de Deus é utiliza-
que Ele me guardará de cair. Deus da para justificar a nossa ausência no
realizará em mim aquilo que é agra- campo na batalha, podemos suspei-
dável diante dEle mesmo (Hb 13.21) tar que há um traidor entre os nossos
e me apresentará com exultação di- soldados.
ante do trono de sua glória”. Conforme podemos observar na
Essa é a maneira como Judas epístola de Judas, o procedimento de
começa e termina sua epístola. No Deus é proporcionar confiança ao seu
entanto, no meio da epístola, Judas povo, a confiança de que a sua fé será
demonstra outra preocupação. A sua vitoriosa ao fim (vv. 1, 24), e, de-
preocupação não é ajudar os crentes pois, enviá-los para lutar pela fé.
a sentirem-se contentes, e sim a se- O assunto central do pequeno
rem vigilantes. Depois de lhes haver livro de Judas é o versículo 3. Por
mostrado o amor eletivo de Deus, isso, desejamos torná-lo o assunto de
bem como o incomparável poder de nossa mensagem: é dever de todo
Deus em preservar os crentes em se- crente genuíno batalhar pela fé que
gurança, Judas passa a mostrar-lhes uma vez por todas foi entregue aos
o perigo que os cerca, exortando-os santos. Procurarei desenvolver o sig-
a batalhar pela fé. nificado desta doutrina utilizando
Versículo 3: “Amados, quan- quatro sentenças.
do empregava toda a diligência em
escrever-vos acerca da nossa comum 1. Existe uma fé que de uma
salvação, foi que me senti obrigado vez por todas foi entregue aos san-
a corresponder-me convosco, exor- tos.
tando-vos a batalhardes, diligente- 2. Esta fé é digna de que bata-
mente, pela fé que uma vez por to- lhemos por ela.
das foi entregue aos santos”. Em ou- 3. Esta fé está sendo constan-
tras palavras, a vitória certa da igreja temente ameaçada por elementos
não significa que não temos de lutar de dentro da igreja.
para vencer. 4.Todo crente genuíno deve
O simples fato de que nosso batalhar por esta fé.
excelente General nos promete vitó-
ria nas praias do inimigo não signifi- 1. Existe uma fé que de uma vez
ca que as tropas podem guardar suas por todas foi entregue aos santos. Às
armas no navio. A promessa de vitó- vezes, a palavra “fé” é utilizada sig-
ria pressupõe coragem na batalha. nificando o sentimento de confiança

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BATALHANDO PELA FÉ 25

em Cristo. Em outras vezes, como versículo 3 é a declaração de Judas


acontece nesta passagem, ela foi uti- no sentido de que a fé “uma vez por
lizada significando as verdades em todas foi entregue aos santos”. Isto
que cremos a respeito dAquele em significa que ela se propagou a par-
quem confiamos. tir dos apóstolos. A fé não foi in-
Por um lado, é necessário ventada pela igreja. Foi revelada por
enfatizar que o cristianismo é basica- Deus aos seus apóstolos e a seus com-
mente um relacionamento com Jesus, panheiros mais achegados; em segui-
e não um da, ela foi
g
conjunto de ensinada às
idéias sobre a O simples fato de que nosso igrejas co-
pessoa de Je- excelente General nos promete mo “todo o
sus. A razão
por que faze-
vitória nas praias do inimigo não desígnio Deus” (At
de

mos isso é es- significa que as tropas podem 20.27).


ta: ninguém guardar suas armas no navio. Para nós,
será salvo uma das ex-
por crer em g pressões ma-
um conjunto de idéias. O diabo crê is importantes é “uma vez por to-
na maior parte das verdades do cris- das” (v. 3). Agora estamos há qua-
tianismo. Precisamos enfatizar que, se dois mil anos depois que a fé foi
se uma pessoa não tiver uma confi- inicialmente entregue à igreja e
ança viva em Jesus, como Salvador e estamos cercados por milhares de
Senhor, toda a ortodoxia do mundo pessoas e seitas que reivindicam ter
não introduzirá tal pessoa no céu. uma nova palavra de revelação que
Mas, se nossa ênfase no relaci- completa a Palavra de Deus para a
onamento pessoal com Jesus nos leva humanidade. Maomé ofereceu aos
a negar que existe um grupo de ver- seguidores o Alcorão; Joseph Smith,
dades essenciais no cristianismo, co- o seu Livro de Mórmom; Sun Moon,
metemos um grave erro. Existem o seu Princípio Divino. E todos os
verdades sobre Deus, o Senhor Jesus, dias vocês encontram pessoas que
o homem, a igreja e o mundo que consideram as tendências intelectu-
são essenciais à vida do cristianismo. ais contemporâneas como um subs-
Se tais verdades são corrompidas e tituto adequado para a Bíblia.
distorcidas, o resultado não será ape- Mas observe com bastante cui-
nas idéias erradas e verdades mal apli- dado. Judas ensinou que a fé “uma
cadas. A vida íntima de fé não é in- vez por todas foi entregue aos san-
dependente das afirmações doutriná- tos”. A revelação de Deus concer-
rias da fé. Quando as doutrinas estão nente ao conteúdo doutrinário de
corrompidas, o coração se encontra nossa fé está completo. A igreja está
na mesma condição. Existe um cor- edificada sobre o fundamento dos
po de doutrinas que tem de ser pre- apóstolos e profetas (Ef 2.20). Qual-
servado. quer pessoa que surge e reivindica
A maior evidência disso no ter uma nova revelação da parte de

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26 Fé para Hoje

Deus, para acrescentá-la à fé que retirar nada desse corpo de doutrinas.


“uma vez por todas foi entregue aos Ele foi uma vez por todas entregue
santos”, está agindo contra as Escri- aos santos.
turas.
A razão por que temos a Bíblia 2. Esta fé é digna de que bata-
é que a igreja do terceiro e do quarto lhemos por ela. Lemos em Romanos
século reconheceu que Deus falou 14 que um crente considera um dia
“uma vez por todas” nesses escritos. superior aos demais e que outro crente
O cânon foi concluído, e todas as rei- considera iguais todos os dias. Cada
vindicações a respeito da verdade têm crente deve estar convicto em sua
de ser avaliadas pelo padrão da fé que própria mente e não menosprezar nem
“uma vez por todas foi entregue aos condenar seu irmão. Mas na epístola
santos”. de Judas somos ensinados a batalhar
Quando afirmamos a existência por aquilo em que cremos.
de uma fé que “uma vez por todas O que eu posso deduzir é que
foi entregue aos santos”, queremos existe um conjunto de doutrinas dig-
dizer fé e não “fés”. Em nossos dias, no de que batalhemos por ele, bem
é comum alguém falar sobre diver- como aplicações secundárias dessas
sas teologias no Novo Testamento. doutrinas; e por causa dessas aplica-
Os eruditos gos- ções não deve-
tam de enfatizar g mos contender
a diversidade de A fé que hoje nutrimos uns com os ou-
opiniões entre os tros.
autores do Novo foi preservada para Mas grave
Testamento e a nós à custa do sangue isto em sua men-
dificuldade para de centenas de te: existe uma
trazê-los todos a verdade digna
um entendimen- reformadores. de que batalhe-
to coerente da g mos por ela.
realidade. Existe uma ver-
Ora, certamente existe alguma dade digna de morrermos por ela.
diversidade entre um escritor inspi- Isso é muito difícil para a nossa cul-
rado e outro do Novo Testamento. tura relativista entender. Talvez se-
Mas eu rogo à nova geração de estu- jamos capazes de imaginar uma pes-
diosos que pensem mais e melhor a soa morrendo por outra; todavia,
respeito das implicações de Judas 3: muitos em nossos dias não conside-
“A fé que uma vez por todas foi en- ram qualquer verdade tão preciosa,
tregue aos santos”. Embora possa que eles lutarão ou mesmo morrerão
haver diversidade na maneira como por ela.
entendemos esta fé, a ênfase recai Não foi sempre assim. A fé que
sobre a unidade. Existe uma fé apos- hoje nutrimos foi preservada para nós
tólica. Existe um corpo de doutrinas à custa do sangue de centenas de
que sustentam uma à outra, chamado reformadores. De 1555 a 1558, a ra-
“fé”. Não devemos acrescentar ou inha Maria, a católica que reinou na

fé 16 - 6 - Batalhando pela Fé.p65 26 10/12/04, 4:23 PM


BATALHANDO PELA FÉ 27

Inglaterra, queimou na fogueira 288 3. Esta fé está sendo constan-


reformadores protestantes — homens temente ameaçada por elementos de
como John Rogers, John Hooper, dentro da igreja. Maria, a sanguiná-
Rowland Taylor, Robert Ferrar, John ria, confessava ser cristã; ela não era
Bradford, Nicholas Ridley, Hugh bárbara. Os piores inimigos da dou-
Latimer e Thomas Cranmer. E por trina cristã são aqueles que se decla-
que eles foram queimados? Porque ram cristãos e não se apegam à fé que
permaneceram firmes em favor de “uma vez por todas foi entregue aos
uma verdade — a verdade de que a santos”.
presença real do corpo de Jesus não Em sua última mensagem aos
está na eucaristia, e sim no céu, à pastores da igreja de Éfeso, o após-
direita do Pai. Por essa verdade, eles tolo Paulo os advertiu dizendo: “De-
suportaram o agonizante sofrimento pois da minha partida, entre vós pe-
de serem queimados vivos. netrarão lobos vorazes, que não pou-
O sangue dos mártires é um parão o rebanho. E que, dentre vós
poderoso testemunho de que a fé mesmos, se levantarão homens falan-
“uma vez por todas” entregue aos do coisas pervertidas, para arrastar os
santos é digna de batalharmos por ela. discípulos atrás deles” (At 20.29-30).
Existe evidência disso no versículo Os lobos que pervertem a fé são pes-
3. Judas disse que desejava realmen- soas que se declaram crentes. São
te escrever acerca da nossa comum pastores, líderes de igreja, professo-
salvação. “Quando empregava toda res de seminários e missionários.
a diligência em escrever-vos acerca Em sua epístola, Judas apresen-
da nossa comum salvação, foi que me ta no versículo 4 a razão por que a
senti obrigado a corresponder-me igreja precisava preparar-se para ba-
convosco, exortando-vos a bata- talhar pela fé: “Certos indivíduos se
lhardes, diligentemente, pela fé.” introduziram com dissimulação, os
Quando a fé está em jogo, nossa sal- quais, desde muito, foram antecipa-
vação também está em jogo. Se a damente pronunciados para esta con-
verdade está corrompida, a nossa sal- denação, homens ímpios, que trans-
vação também está corrompida. Os formam em libertinagem a graça de
apóstolos e reformadores se mostra- nosso Deus e negam o nosso único
ram dispostos a morrer por causa da Soberano e Senhor, Jesus Cristo”.
fé, porque se preocuparam com a pre- Assim, a ameaça à fé está vin-
servação da mensagem de salvação — do de indivíduos que agora se encon-
eles se preocuparam com pessoas e tram no meio da igreja. Provavel-
com a glória de Deus. mente, eles estão dizendo o seguin-
Precisamos obter um sentimen- te: “Se nós somos salvos pela graça,
to completamente novo da preciosi- não importa o que somos em nossa
dade da doutrina bíblica. Como igre- vida moral. Na verdade, quando um
ja, precisamos conhecer a profundi- crente peca, isto serve tão-somente
dade, a beleza e o valor da verdade para magnificar a graça de Deus”.
doutrinária. Existe uma fé digna de Deste modo, eles colocam a graça de
contendermos por ela. Deus em oposição aos mandamentos

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28 Fé para Hoje

de Cristo e, na prática, negam o se- para aqueles que são “chamados,


nhorio de Jesus. amados em Deus Pai e guardados em
Eles têm agido dessa maneira Jesus Cristo” (v. 1). Por conseguin-
desde o primeiro século. Paulo disse te, o dever de batalhar pela fé não
que isso iria acontecer. Judas o viu pertence exclusivamente aos pastores
se realizando, como um cumprimen- consagrados ao ministério da Palavra,
to das predições de Paulo. Nos embora eles tenham uma responsabi-
versículos 17 e 19, Judas afirmou: lidade especial. Batalhar pela fé é o
“Lembrai-vos das palavras anterior- dever de todo crente verdadeiro.
mente proferidas pelos apóstolos de Os versículos 21 e 22 nos di-
nosso Senhor Jesus Cristo, os quais zem algo sobre as coisas que nos de-
vos diziam: No último tempo, have- veriam preparar para batalharmos
rá escarnecedores, andando segundo pela fé — “Vós, porém, amados,
as suas ímpias paixões. São estes os edificando-vos na vossa fé santíssima,
que promovem divisões, sensuais, orando no Espírito Santo, guardai-
que não têm o Espírito”. vos no amor de Deus, esperando a
Embora as cartas de Paulo te- misericórdia de nosso Senhor Jesus
nham-no feito derramar muitas lágri- Cristo, para a vida eterna”. E os
mas (Fp 3.18), quase todas as cartas versículos 22 e 23 nos falam a res-
abordam assuntos relacionados a lu- peito de maneiras pelas quais pode-
tas que estava mos envolver-
g
travando com nos nessa bata-
pessoas que de- Precisamos obter um lha.
claravam ser sentimento completamente A melhor
crentes. Portan- coisa que pode-
to, não devemos novo da preciosidade da mos fazer para
ficar surpresos doutrina bíblica. que sejamos uma
com o fato de igreja eficaz em
g
que hoje muitas batalhar pela fé
de nossas lutas em favor da fé se rea- é nos tornarmos uma igreja bem fun-
lizam com crentes que ensinam e es- damentada na fé — “Edificando-vos
crevem coisas que (pelo menos do na vossa fé santíssima”. Estudem!
nosso ponto de vista) são contrárias à Meditem! Edifiquem! Cresçam! Há
“fé que uma vez por todas foi entre- muitas verdades maravilhosas a
gue aos santos”. aprendermos sobre Deus. E a melhor
O Novo Testamento ensina com defesa da fé é conhecer tais verdades
muita clareza que a fé será, por repe- e amá-las.
tidas vezes, ameaçada por pessoas de A oração é uma parte indispen-
dentro da igreja. sável do batalhar pela fé — “Orando
no Espírito Santo”. A menos que pro-
4. Isso nos leva à admoestação curemos ter a mentalidade do Espíri-
final: todo crente genuíno deve ba- to Santo, através da oração, não cres-
talhar por esta fé. A epístola de Judas ceremos em nossa assimilação da fé
não foi escrita para um pastor, e sim e seremos soldados fracos.

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BATALHANDO PELA FÉ 29

No que se refere à batalha pro- exorta a crescer, orar, permanecer no


priamente dita, Judas instruiu: “E amor de Deus e depender de sua mi-
compadecei-vos de alguns que estão sericórdia, antes de afirmar qualquer
na dúvida; salvai-os, arrebatando-os coisa sobre a maneira como devemos
do fogo; quanto a outros, sede tam- batalhar pela fé. Viver a fé é o me-
bém compassivos em temor, detes- lhor argumento que os crentes têm
tando até a roupa contaminada pela em favor da fé. Por essa razão, o
carne”. apóstolo Pedro disse: “Santificai a
Pelo menos duas coisas são evi- Cristo, como Senhor, em vosso co-
dentes nessa instrução: 1) batalhar às ração, estando sempre preparados
vezes envolve um esforço intelectual para responder a todo aquele que vos
para que seja mudada a maneira de pedir razão da esperança que há em
pensar da outra pessoa — “Com- vós” (1 Pe 3.15). A maneira como
padecei-vos de alguns que estão na você luta é tão importante quanto o
dúvida”; 2) batalhar às vezes envol- conteúdo de seus argumentos. Você
ve repreensão moral — “Procurem pode vencer com sua lógica e perder
aqueles que estão atolados no lama- com sua vida.
çal onde foram apanhados por idéias
perversas e resgatem-nos ao lugar de Em resumo,
segurança, mesmo que odeiem o que 1. Existe uma fé que uma vez
eles estão fazendo”. por todas foi entregue aos san-
Na realidade, essas coisas an- tos.
dam sempre juntas: um esforço para 2. Esta fé é digna de que ba-
mudar a maneira de pensar e um talhemos por ela.
empenho para mudar a moralidade. 3. A fé está, por repetidas
Batalhar pela fé nunca é simplesmente vezes, sofrendo ameaças vindas
um exercício acadêmico, assim como da própria igreja, por meio de
nunca é apenas um exercício mental; crentes que professam apenas ver-
visto que a fonte de todas as falsas balmente a fé.
doutrinas é o orgulho do coração hu- 4. É dever de todo crente ba-
mano e não a fraqueza de sua mente. talhar pela fé que uma vez por
Essa é a razão por que Judas nos todas foi entregue aos santos.

É a doutrina da eleição que mais me impele a ser abun-


dante nas boas obras. Ela me faz disposto a sofrer todas as
coisas por amor aos eleitos. Ela me faz pregar com consolo,
porque eu sei que a salvação não depende do livre arbítrio do
homem, mas do Senhor que os torna dispostos no dia do Seu
poder, e Ele pode me usar para trazer alguns dos eleitos ao
lar, quando e onde Lhe aprouver.
George Whitefield

fé 16 - 6 - Batalhando pela Fé.p65 29 10/12/04, 4:23 PM


30 Fé para Hoje

COMO OS HOMENS VÊM A CRISTO


C. H. Spurgeon

“Ninguém pode vir a mim se o Pai,


que me enviou, não o trouxer”
João 6.44

C omo Deus traz homens a Ora, se a pregação do próprio


Cristo? Os pregadores arminianos ge- Cristo não foi proveitosa para tornar
ralmente dizem que Deus traz homens esses homens capazes de vir a Ele
a Cristo por meio da pregação do mesmo, não é possível que a prega-
evangelho. É verdade; a pregação do ção do evangelho fosse a única coisa
evangelho é o instrumento para tra- idealizada por Deus para trazer os
zer homens a Cristo, mas precisa ha- homens a Jesus. Não, queridos ir-
ver algo mais que isso. A quem Cristo mãos, vocês têm de observar no-
dirigiu essas palavras? Ora, às pesso- vamente: o Senhor Jesus não disse que
as de Cafarnaum, onde Ele pregava o homem não virá a Ele, se o minis-
com freqüência, onde Ele proferiu, tro do evangelho não o trouxer; e sim
com lamentação e tristeza, as maldi- que se o Pai não o trouxer. Ora, exis-
ções da lei, bem como os convites do te o ser trazido pelo evangelho e pelo
evangelho. Naquela cidade, o Senhor pregador, sem ser trazido por Deus.
Jesus havia realizado muitos sinais É claro que Jesus estava falando de
poderosos e diversos milagres. Na ser trazido por Deus, o Altíssimo —
verdade, Ele ministrou aos morado- a primeira Pessoa da gloriosa Trin-
res de Cafarnaum tantos ensinos e dade —, enviando a terceira Pessoa,
operou tantas confirmações miracu- o Espírito Santo, para induzir ho-
losas, a ponto de declarar que, se Tiro mens a virem a Ele, Jesus.
e Sidom houvessem sido abençoadas Alguém pode se levantar e di-
com tais privilégios, há muito teri- zer com escárnio: “Então, você acha
am se arrependido em pano de saco e que Cristo traz os homens a Ele mes-
cinzas. mo, vendo que os homens não têm

fé 16 - 7 - Como os homens vem a Cristo.p65 30 10/12/04, 4:24 PM


COMO OS HOMENS VÊM A CRISTO 31

disposição para fazer isso?” Lembro- pessoa irá ao céu esperneando e gri-
me de haver conhecido um homem tando, em todo o caminho, contra a
que disse: “Senhor, você pregou que mão que o traz a Cristo. Não imagi-
Cristo apanha os homens pelos seus nem que alguma pessoa será mergu-
cabelos e os traz a Si mesmo”. Per- lhada no banho do sangue de Cristo,
guntei-lhe se podia lembrar o dia em enquanto se esforça para fugir de seu
que preguei um sermão contendo essa Salvador. Oh! Não. É verdade que,
extraordinária doutrina. Se ele pudes- antes de tudo, o homem não tem dis-
se lembrar, eu ficaria grato. Mas posição de ser salvo. Quando o Espí-
aquele homem não pôde lembrar tal rito Santo coloca a sua influência so-
dia. Eu lhe disse que, embora Cristo bre o coração, o teste se cumpre:
não traga ninguém a Ele mesmo, “Leva-me após ti” (Ct 1.4). Segui-
puxando-o pelos cabelos, creio que mos, enquanto Ele nos atrai, felizes
Ele traz pessoas por meio do cora- por obedecer à voz que antes despre-
ção, fazendo-o de maneira quase tão zamos.
poderosa quanto aquela ilustração po- Mas o âmago deste assunto se
deria sugerir. encontra na transformação da vonta-
Observem que no trazer do Pai de. Como isso acontece, ninguém
não há qualquer compulsão. Cristo sabe. Esse é um daqueles mistérios
nunca obriga qualquer pessoa a vir a que é percebido de maneira mais evi-
Ele contra a vontade dela mesma. Se dente através dos fatos; contudo,
alguém não quer ser salvo, Cristo não ninguém pode descrevê-lo, nenhum
o salva contra a vontade dele mes- coração pode imaginá-lo. A maneira
mo. Então, de que maneira o Espírito aparente em que o Espírito Santo age,
Santo traz o homem a Cristo? Ora, nós podemos dizer-lhe. A primeira
Ele o faz tornando o homem dispos- coisa que Ele faz, quando vem ao
to. É verdade que o Espírito Santo coração de uma pessoa, é esta: Ele a
não usa a “persuasão moral”. Ele encontra nutrindo uma excelente opi-
conhece um método mais fácil de al- nião a respeito de si mesma. Ora, o
cançar o coração do homem. O homem diz: “Eu não quero vir a Cris-
Espírito Santo vai às fontes secretas to. Tenho uma justiça pessoal tão boa,
do coração e, sabendo exatamente que qualquer pessoa pode desejá-la.
como, por meio de uma realização Sinto que eu posso chegar ao céu con-
misteriosa, muda a direção da vonta- fiando em meus próprios direitos”.
de humana, de modo que, assim como O Espírito Santo desnuda tal coração,
Ralph Erskine o apresentou de modo fazendo-o ver o câncer repugnante
paradoxo, o homem é salvo “com que está devorando sua vida; desco-
pleno consentimento, contra a sua bre à pessoa todas as trevas e
própria vontade”; ou seja, ele é sal- corrupção daquele recinto infernal,
vo contra a sua velha vontade. Mas o coração humano; assim, a pessoa
ele é salvo com pleno consentimen- fica horrorizada. “Nunca pensei que
to, pois Deus o tornou disposto no eu fosse assim. Aqueles pecados que
dia do seu poder. julgava insignificantes se acumularam
Não imaginem que qualquer e atingiram uma proporção imensa.

fé 16 - 7 - Como os homens vem a Cristo.p65 31 10/12/04, 4:24 PM


32 Fé para Hoje

Aquilo que eu julgava ser um momento, o Espírito Santo se apro-


montículo cresceu e se tornou uma xima e mostra ao pecador a cruz de
montanha elevada; era apenas um ar- Cristo, outorgando-lhe olhos ungi-
busto, agora é um cedro do Líbano. dos com colírio celestial e
Oh!”, diz a pessoa a si mesma, “ten- declarando: “Olhe para aquela cruz,
tarei reformar a minha vida; farei o Homem que ali morreu salva pe-
boas obras suficientes para limpar cadores. Você sente que é um
completamente estas obras mortas”. pecador; Ele morreu para salvá-lo”.
Então, o Espírito Santo lhe mostra Assim, o Espírito Santo capacita o
que ela não pode fazer isso e remove coração a crer e a vir a Cristo. E,
todo o poder e a capacidade ilusória quando o homem vem a Cristo, pelo
da pessoa, de modo que ela se pros- amável trazer do Espírito, encontra
tra, em seus joelhos, clamando em a “paz de Deus, que excede todo o
agonia: “Oh! Pensei que poderia sal- entendimento” e guarda sua mente
var a mim mesmo por meio de minhas e seu coração em Cristo Jesus (Fp
boas obras, mas percebo que, 4.7).
Agora você percebe claramente
Se minhas lágrimas jorrassem que tudo isso pode ser feito sem qual-
eternamente, quer compulsão. O homem é trazido
Se meu zelo não conhecesse com tanta voluntariedade como se
nenhum limite, não tivesse sido atraído. Ele vem a
Tudo que fizesse pelo pecado Cristo com todo o seu consentimen-
não o expiaria. to, como se nenhuma influência
Tu, Senhor, e somente Tu, secreta houvesse agido em seu cora-
podes salvar-me”. ção. Mas essa influência tem de ser
exercida, pois, do contrário, nunca
Depois que o coração afunda, o haveria (nem haverá) qualquer pes-
homem está pronto para entrar em soa que poderia ou desejaria vir ao
desespero. E diz: “Nunca posso ser Senhor Jesus Cristo.
salvo. Nada me pode salvar”. Neste

Esforcemo-nos para saber algo a respeito do amor


de Cristo. É um amor que, de fato, ultrapassa todo
entendimento; é insondável e indescritível. É o amor
no qual precisamos descansar completamente nossa alma,
se desejamos ter paz no presente e glória na eternida-
de. Se achamos consolação em nosso amor para com
Cristo, estamos edificando sobre um alicerce arenoso.
Mas, se confiamos no amor de Cristo para conosco,
estamos sobre uma rocha firme.
J. C. Ryle

fé 16 - 7 - Como os homens vem a Cristo.p65 32 10/12/04, 4:24 PM