Você está na página 1de 245

KLS

Homem, cultura e
sociedade

Sonelise Auxiliadora Cizoto


Carla Regina Mota Alonso Diéguez
Rosângela de Oliveira Pinto

Homem, cultura
e sociedade
Homem, cultura e
sociedade

Sonelise Auxiliadora Cizoto


Carla Regina Mota Alonso Diéguez
Rosângela de Oliveira Pinto
© 2016 por Editora e Distribuidora Educacional S.A.
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer
modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo
de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e
Distribuidora Educacional S.A.

Presidente
Rodrigo Galindo

Vice-Presidente Acadêmico de Graduação


Mário Ghio Júnior

Conselho Acadêmico
Dieter S. S. Paiva
Camila Cardoso Rotella
Emanuel Santana
Alberto S. Santana
Regina Cláudia da Silva Fiorin
Cristiane Lisandra Danna
Danielly Nunes Andrade Noé

Parecerista
Reinaldo Barros Cicone
Juliana Daros Carneiro

Editoração
Emanuel Santana
Cristiane Lisandra Danna
André Augusto de Andrade Ramos
Daniel Roggeri Rosa
Adilson Braga Fontes
Diogo Ribeiro Garcia
eGTB Editora

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Cizoto, Sonelise Auxiliadora


C565h Homem, cultura e sociedade / Sonelise Auxiliadora
Cizoto, Carla Regina Mota Afonso Diégues, Rosângela de
Oliveira Pinto. – Londrina : Editora e Distribuidora
Educacional S.A., 2016.
244 p.

ISBN 978-85-8482-407-6

1. Sociologia. 2. Cultura. 3. Ciências sociais. 4.


Civilização moderna. 5. Capitalismo. I. Diégues, Carla
Regina Mota Afonso. II. Pinto, Rosângela de Oliveira. III.
Título.

CDD 301

2016
Editora e Distribuidora Educacional S.A.
Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza
CEP: 86041-100 — Londrina — PR
e-mail: editora.educacional@kroton.com.br
Homepage: http://www.kroton.com.br/
Sumário

Unidade 1 | O capitalismo: o surgimento de um novo mundo 7

Seção 1.1 - Construção da sociedade moderna: transição do


feudalismo para o capitalismo 9
Seção 1.2 - Revolução Francesa: um novo modelo político 21
Seção 1.3 - Revolução industrial e a consolidação do capitalismo 31
Seção 1.4 - O surgimento das ciências sociais como tentativa de
Explicar a sociedade moderna 41

Unidade 2 | As ciências sociais: formas de compreender o mundo 55

Seção 2.1 - As diferentes interpretações da realidade social 59


Seção 2.2 - Classes sociais, exploração e alienação 73
Seção 2.3 - A desigualdade social como fato social 87
Seção 2.4 - Capitalismo, desigualdade e dominação em Max Weber 103

Unidade 3 | A Consolidação da sociedade global 121

Seção 3.1 - Como chegamos à globalização 125


Seção 3.2 - Aspectos gerais da globalização 139
Seção 3.3 - Efeitos da globalização 151
Seção 3.4 - Globalização e meio ambiente 165

Unidade 4 | Sociedade, exclusão e direitos humanos 181

Seção 4.1 - Antropologia, cultura e identidade nacional 185


Seção 4.2 - O papel das populações negra e indígena na construção da
identidade nacional 197
Seção 4.3 - Preconceito e discriminação da população negra e indígena
e outros segmentos marginalizados 211
Seção 4.4 - As políticas afirmativas no brasil no século xxi: uma tentativa
de garantir os direitos humanos dos povos negros, indígenas e em
vulnerabilidade social 225
Palavras do autor

Hoje somos bombardeados o tempo todo por uma infinidade de informações e


estímulos proporcionados pelos avanços tecnológicos e, muitas vezes, não paramos em
nosso ritmo frenético para questionar nossas relações em sociedade porque precisamos
tomar decisões rápidas. É justamente nesse sentido que a disciplina “Homem, Cultura e
Sociedade” proporcionará elementos para que nossa percepção crítica do mundo esteja
sempre presente em nossas reflexões, ações e no convívio em diferentes grupos aos quais
pertencemos, seja no campo profissional, seja pessoal.

Espera-se que, com este convite, você saia do papel de espectador e compreenda
como também é ator desta nossa história tão complexa e, ao mesmo tempo, fascinante.
E, para ajudar nesse processo, o livro foi organizado em quatro unidades de ensino. Na
primeira unidade discute-se todo o processo de transformações históricas, sociais e políticas
decorrentes da emergência da sociedade moderna e a consolidação do capitalismo. Por
isso mesmo, a Unidade 1 serve como um contexto à segunda unidade, que apresenta a
Sociologia como uma área do conhecimento surgida da necessidade de se compreender
a evolução da sociedade, segundo esses elementos. Como uma continuidade, a terceira
unidade tem como foco a construção da sociedade global e a maneira como o processo
de globalização prossegue na atualidade. Por fim, na quarta unidade são apresentados
temas como a sociedade relacionada a conceitos como a cultura, a antropologia como
ciência e suas principais referências, a questão da discriminação e do preconceito (étnicos,
sociais, de gênero etc.). Além disso, nesta última unidade aborda-se também a função
dos direitos humanos e das políticas afirmativas para a valorização da diversidade étnica
(mais especificamente, a população afrodescendente e indígena no Brasil), da diversidade
sexual, da defesa da igualdade de direitos (de gênero, por exemplo), da resistência social e,
por fim, para o combate à desigualdade em suas mais diversas esferas.

O livro permitirá uma viagem às principais escolas do pensamento acerca das


transformações na sociedade, com dicas, exemplos e correlação com eventos cotidianos
para aprimorar ainda mais nossa visão crítica acerca da realidade.

Convite realizado, uma ótima jornada! 


Unidade 1

O CAPITALISMO: O
SURGIMENTO DE UM NOVO
MUNDO

Convite ao estudo

Olá! Nesta unidade de ensino vamos dialogar sobre o homem e a sociedade,


iniciando com a crise do feudalismo e a construção da sociedade moderna, a
Revolução Francesa, a Revolução Industrial e a consolidação do capitalismo, e
finalizando com o surgimento das ciências sociais.

Iniciaremos os nossos estudos nos séculos XI a XIV e caminharemos até


o século XX. Trataremos de muitos acontecimentos históricos importantes,
mas focaremos nos pontos principais para a compreensão da construção da
sociedade moderna, a consolidação do capitalismo e, claro, toda a relação do
homem e da sociedade neste contexto histórico, político e social. Compreender
essas relações nos possibilita visualizar com mais clareza a relação entre o
homem e a sociedade nos dias atuais e nos torna cidadãos mais críticos e livres
para pensar, opinar, decidir. É na busca desse aprendizado que iniciamos a nossa
unidade de ensino.

Segundo Karl Marx, é necessário compreender a realidade histórica em suas


contradições, para tentar superá-las dialeticamente: em que tudo se relaciona;
tudo se transforma; as mudanças qualitativas são consequências de mudanças
quantitativas; a luta dos contrários é o motor do pensamento e da realidade; e a
vida espiritual da sociedade é um reflexo da vida material.

Portanto, você já parou para pensar em como o sistema capitalista se


consolidou? Qual a base filosófica desse sistema? Quais as relações do sistema
capitalista que surge no século XV na Europa com o capitalismo que vivenciamos
atualmente? Quais os impactos desse sistema em nossa vida como um todo?
Haveria outro sistema de organização política e econômica mais adequado?
U1

Enfim, essas e muitas outras reflexões são necessárias para a nossa vida em
sociedade.

Vamos utilizar, no decorrer da unidade de ensino, situações-problema que


nos ajudarão a pensar sobre essas questões e muitas outras que possam surgir.

Veja a competência e os objetivos desta unidade de ensino:

Competência Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam o homem,


de fundamento a vida em sociedade e as diversas formas de explicação da
de área a ser realidade social.
desenvolvida:
Objetivo geral: Proporcionar a compreensão da construção da sociedade
moderna, do capitalismo, as relações que se estabeleceram
entre o homem e a sociedade durante todo o processo, até o
capitalismo mais moderno.
Objetivos • Apresentar o processo de transição do feudalismo para o
específicos: capitalismo, com os principais acontecimentos e características.
• Apresentar como surgiram as ciências sociais no contexto da
sociedade moderna.
• Contextualizar e apresentar a Revolução Francesa.
• Contextualizar e apresentar a Revolução Industrial.
• Proporcionar a reflexão sobre a sociedade capitalista e suas
relações.
• Proporcionar a reflexão sobre os avanços, as lutas, as relações
de poder, as relações de dominação, entre outras, na sociedade
capitalista.

Para realizar nossos estudos, esta unidade de ensino se divide em quatro


seções, sendo elas:

1. Construção da sociedade moderna: transição do feudalismo para o


capitalismo.

2. Revolução Francesa: um novo modelo político.

3. A Revolução Industrial e a consolidação do capitalismo.

4. O surgimento das ciências sociais como tentativa de explicar a sociedade


moderna.

Bons estudos!

8 Homem, Cultura e Sociedade


U1

Seção 1.1

Construção da sociedade moderna: transição do


feudalismo para o capitalismo
Diálogo aberto

Olá! Estamos iniciando mais uma unidade de ensino, na qual vamos dialogar sobre
o homem e a sociedade, iniciando com a crise do feudalismo e a construção da
sociedade moderna, a Revolução Francesa, a Revolução Industrial e a consolidação
do capitalismo e finalizando com o surgimento das ciências sociais. A compreensão
do papel do homem na sociedade e no meio em que vive e as transformações
decorrentes ao longo do processo histórico são fundamentais para entender o nosso
presente.

Esta seção tem como objetivo dialogar e estudar sobre a construção da sociedade
moderna: transição do feudalismo para o capitalismo. Iniciaremos nossos estudos no
período entre os séculos XI e XIV, quando o feudalismo passa por sua crise.

O feudalismo foi um modelo de organização social e política predominante durante


a Idade Média e teve início na Europa. As relações desse modelo estavam baseadas
nas relações servo-contratuais, ou seja, servis.

Vamos fazer uma leitura que, a princípio, pode causar estranheza com o assunto
que vamos estudar nesta seção. No entanto, a reportagem vai nos proporcionar uma
reflexão do passado. Aceita o desafio? Vamos lá! Leia a entrevista "Mujica: ‘Aplicamos
um princípio simples, reconhecer os fatos", por Helena Celestino, atualizada em
10/03/2014. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/mundo/mujica-aplicamos-
um-principio-simples-reconhecer-os-fatos-11827657#ixzz3jvarB9aA>. Acesso em: 22
ago. 2015.

Veja algumas questões da reportagem para iniciar o nosso estudo:

1. A importância do motivo econômico, sempre.

2. Os governantes precisam representar a maioria do povo e não deixar os


resquícios de feudalismo e monarquia dentro da república.

3. “Aplicamos um princípio muito simples: reconhecer os fatos. Aborto é velho


como o mundo, (...) o casamento homossexual, por favor, é mais velho que o mundo

Homem, Cultura e Sociedade 9


U1

(...). Nosso critério é fazer só uma organização dos fatos já existentes. Aqui enxergamos
a hipocrisia (...)”.

4. “Temos que lutar para que todos trabalhem, mas trabalhem menos, todos
devemos ter tempo livre. Para quê? Para viver, para fazer o que gostam. Isto é a
liberdade. Agora, se temos de consumir tanta coisa, não temos tempo porque
precisamos ganhar dinheiro para pagar todas essas coisas. Aí vamos até que pluff,
apagamos.”

5. “O poder é uma coisa muito esquiva e muito fragmentada (...). Uma sociedade
é muito mais complexa e o poder muitíssimo mais complexo”.

Não pode faltar!

O feudalismo tem suas origens na decadência do Império Romano e predominou


na Europa durante a Idade Média. O feudalismo foi um modelo de organização social
e política.

Esse modelo de organização social e política possui algumas características


predominantes, como: a agricultura como principal fonte de renda para subsistência
e com ênfase nas trocas naturais (produto por produto); sociedade estamental e
trabalho servil.

A sociedade estamental era dividida da seguinte forma:

Figura 1.1 - Sociedade europeia estamental durante a Idade Moderna

Clero ...os que oram

Nobreza ...os que guerreiam

Camponeses e Servos ...os que trabalham

Fonte: <http://www.jurassico.com.br/wp-content/uploads/2013/04/Sociedade-1.jpg>. Acesso em: 22 ago. 2015.

Vamos compreender a pirâmide da sociedade feudal:

1º Clero – os religiosos: exerciam grande poder político sobre uma sociedade


bastante religiosa, onde o conceito de separação entre a religião e a política era
desconhecido.

10 Homem, Cultura e Sociedade


U1

2º Nobreza – os senhores feudais: O rei lhes cedia terras e aqueles lhe juravam
ajuda militar.

3º Plebe – os trabalhadores: Era a maioria da população. Cuidavam da agropecuária


dos feudos e, em troca, recebiam uma parte do que produziam. Estavam presos à
terra, sofriam intensa exploração (talha), eram obrigados a prestar serviços à nobreza
(corveia) e a pagar-lhes diversos tributos em troca da permissão de uso da terra
(banalidades) e de proteção militar.

A crise do sistema feudal iniciou com o desenvolvimento comercial e, como


consequência, o desenvolvimento urbano. Três foram as razões principais: as
inovações técnicas, as Cruzadas e a reabertura do Mar Mediterrâneo. Vamos entender
cada uma delas.

Inovações técnicas: inovações que contribuíram na agricultura, como: máquina de


revolver a terra, o peitoril para melhor aproveitamento da força do cavalo no arado e
o uso de ferraduras e o moinho d'água. Estas inovações promoveram uma expansão
da agricultura.

As Cruzadas: expedições militares patrocinadas pela Igreja Católica e organizadas


pela cristandade medieval, com o objetivo oficial de libertar a Terra Santa (Jerusalém)
do domínio muçulmano. Porém, os fatores principais estavam ligados a interesses
econômicos em algumas regiões do Oriente e à necessidade de exportar a miséria, em
virtude do crescimento populacional. (Educacao.uol.com.br, 28/09/2005, disponível
em: <http://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia/renascimento-comercial-fim-
do-feudalismo-e-o-capitalismo-comercial.htm>. Acesso em: 6 nov. 2015)

A reabertura do Mar Mediterrâneo: as Cruzadas promoveram o Renascimento


Comercial e o Renascimento Urbano. As principais rotas de comércio eram feitas
pelo Mar Mediterrâneo. O intenso desenvolvimento comercial colaborou para o
desenvolvimento das cidades medievais e de uma nova classe social, a burguesia.
(Educacao.uol.com.br, 28/09/2005, disponível em: <http://educacao.uol.com.br/
disciplinas/historia/renascimento-comercial-fim-do-feudalismo-e-o-capitalismo-
comercial.htm>. Acesso em: 6 nov. 2015)

Essa nova classe social, denominada burguesia, passou a ansiar pelo poder político.
No final da baixa Idade Média uma aliança é realizada entre a burguesia comercial e
o rei. O interesse da burguesia era econômico e, o do rei, a centralização do poder
político, sendo os senhores feudais obstáculos para ambos. Essa aliança entre rei e
burguesia, na unificação econômica, gerou a padronização de pesos, medidas e a
monetária - incentivando as trocas comerciais.

O final da Idade Média é marcado por uma séria crise social, econômica e política,
que foi denominada de tríade composta pela Guerra dos Cem Anos, pela Peste Negra
e pela fome. No século XIV, a Europa entra em crise de uma forma cíclica, ou seja,

Homem, Cultura e Sociedade 11


U3

as mudanças climáticas que afetam diretamente o abastecimento agrícola fazem


com que a Europa passe a conviver com o problema da fome. Para piorar a crise, as
péssimas condições de higiene na Europa, naquele período, provocam uma epidemia
da bactéria Yersinia pestis, que dá origem à chamada Peste Negra. E, por fim, a Guerra
dos Cem Anos, iniciada pelos conflitos entre a nobreza da França e Inglaterra, provoca
um grande número de mortos em ambos os países. Todos esses problemas levaram
também às chamadas revoltas camponesas.

Essa longa guerra prejudicou a economia dos dois reinos e contribuiu para o
empobrecimento da nobreza feudal e, consequentemente, o seu enfraquecimento
político.

A ascensão da burguesia, a expansão do comércio, o


aparecimento da mão de obra assalariada, aliados ao
fortalecimento do poder real - e a consequente formação
dos Estados nacionais -, foram fatores que abalaram de vez a
estrutura feudal da Europa e provocaram o fim desse sistema
no continente. No século 15, os europeus já viviam sob uma
nova ordem socioeconômica: o capitalismo comercial (UOL
EDUCAÇÃO, 2005).

Assimile

Crise do sistema feudal: "(...) o desenvolvimento do comércio intensificou


as forças produtivas e promoveu uma organização racional da sociedade
e o aprimoramento da divisão do trabalho. Decorreu daí uma maior
produtividade que minou as relações servis de produção (os servos
abandonaram suas terras procurando melhores condições de trabalho) e,
gradualmente, as formas de trabalho livre e assalariado se estabeleceram"
(LAZAGNA, 2004, p. 184).

Essas transformações políticas, sociais, econômicas e religiosas marcaram a


passagem da Idade Média para a Idade Moderna. Todo esse processo de renovação e
revigoramento, que também influenciou a cultura, recebe o nome de Renascimento.
O pensamento filosófico, que até aproximadamente o século XV estava subordinado
à Igreja Católica, passa para a Filosofia moderna, que tem início com o Renascimento,
quando apenas as explicações religiosas não são mais suficientes e predomina a ideia
da conquista do pensamento científico.

12 A Consolidação da sociedade global


U1

Com a expansão comercial tornou-se necessário encontrar


pessoas que entendessem de direito e comércio. A difusão
do conhecimento deixou de ser algo exclusivo da Igreja
Católica - voltada para assuntos teológicos ou religiosos -, e
o ensino tornou-se laico, voltado cada vez mais para questões
mundanas. Até então hegemônico, o pensamento da Igreja
passou a ser questionado por religiosos e filósofos leigos (UOL
EDUCAÇÃO, 2005).

A sociedade moderna passa a existir com a "substituição do modo de produção


feudal pelo modo de produção capitalista".

Reflita

(...) o comércio e a emergência das cidades não foram os fatores


decisivos no declínio do feudalismo, pois estão restritos aos limites
do modo de produção feudal; o comércio ocorre enquanto troca
de excedente, e não como ocorre no modo de produção capitalista,
enquanto realização da mais-valia. O dinheiro, na economia feudal,
configura-se apenas como intermediário da troca, não se transformando
em capital (LAZAGNA, 2004, p. 183).

O modo de produção capitalista intensifica a diferenciação social: camponeses


prósperos (pequenos e médios produtores), semiproletários (camponeses pobres) e
grandes mercadores; e promove a transformação da apropriação dos excedentes
(produtores imediatos separados dos meios de produção, transformando-se em
trabalhadores livres para venderem sua força de trabalho).

Pesquise mais
A autora da resenha, a seguir, faz uma reflexão, utilizando alguns autores
como referência, da transição do feudalismo ao capitalismo, utilizando
categorias marxistas:

LAZAGNA, Ângela. Balanço do debate: a transição do feudalismo para o


capitalismo. Revista Crítica Marxista, n. 20, p. 182-185, 2004. Disponível
em: <https://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/
resenha92resenha4.pdf>. Acesso em: 28 out. 2015.

Homem, Cultura e Sociedade 13


U1

A sociedade moderna, desde o seu início, passou por profundas transformações


que impactaram o modo de vida e as relações sociais. Vários pensadores na época se
dedicaram a compreender essas transformações. Nesta seção vamos fazer algumas
reflexões à luz dos estudos de Karl Marx, considerado um dos maiores pensadores
sobre o capitalismo. O materialismo histórico definido por Marx e Engels possui como
premissa de história humana a existência de indivíduos humanos viventes, ou seja,
inseridos em um contexto histórico e social.

No Manifesto do Partido Comunista, publicado em 1848, a afirmação é taxativa: a


história sempre foi a história da luta de classes, remontada às lutas entre homens livres
e escravos, na Antiguidade, e abrangente das lutas entre as categorias estamentais da
sociedade feudal (MARX; ENGELS, 2007, p. 27).

Ainda para os autores, a partir da divisão de classes que se intensifica no sistema


capitalista, separa-se o interesse particular do interesse comum. O Estado se impõe
como condição de comunidade dos homens e, sob aparências ideológicas, está
sempre vinculado à classe dominante e constitui o seu órgão de dominação.

(...) as ideias dominantes são as ideias dominantes de cada


época. (...) As ideias dominantes parecem ter validade para
toda a sociedade, isto é, também para as classes submetidas
e dominadas. Forja-se a ilusão histórica de que cada época da
vida social resulta não de determinados interesses materiais de
uma classe, mas de ideias abstratas como as de honra e lealdade
(na sociedade aristocrática) e as de liberdade e igualdade (na
sociedade burguesa) (MARX; ENGELS, 2007, p. 32)

Marx e Engels discutem em suas obras alguns conceitos importantes para compreender
a construção da sociedade moderna, dentre os quais vamos falar de três: “forças produtivas”,
“relações de poder” e “luta de classes”. Por “forças produtivas” entende-se a força física, as
habilidades e os conhecimentos técnicos que os trabalhadores possuem para produzir. Na
sociedade capitalista, os trabalhadores utilizam suas forças produtivas para adquirir o que for
necessário para viver.

As “relações de poder” denotam o poder econômico que os capitalistas detêm sobre


os meios de produção. Marx entendeu que essa relação resulta na exploração da classe
trabalhadora e promove a desigualdade social, a divisão de classes sociais e acumulação de
capital. Em outras palavras, temos o trabalhador vendendo sua força produtiva para obter
o que a sociedade capitalista lhe “sugere” como necessário, e, não tendo o conhecimento
intelectual, que seria seu poder transformador, a possibilidade de emancipação do indivíduo
no sistema capitalista torna-se quase impossível.

E, por fim, a “luta de classes” é o confronto entre a burguesia e o proletariado, ou seja,

14 Homem, Cultura e Sociedade


U1

entre dominantes e dominados. As relações de produção e distribuição, marcadas pela


exploração e alienação no sistema capitalista, promovem interesses contraditórios entre as
diversas e diferentes classes sociais, por meio das lutas de classes.

Um pensador mais contemporâneo, que também realizou estudos importantes


sobre as relações de poder, é Michel Foucault. Para a compreensão da construção da
sociedade moderna, é essencial também fazer algumas reflexões à luz dos seus estudos.
Foucault, em suas obras, estudou o saber, o poder e as formas de controle sobre o
homem. De acordo com o pensador, as relações de poder e controle não vêm de uma
única fonte, ou seja, de uma única instituição (escola, igreja, prisão, sanatório etc.), mas
estão presentes em nosso cotidiano. De acordo com essa lógica, o homem seria um
objeto, passível de ser moldado.

Dessa forma, Foucault compreendeu que as instituições produzem mecanismos


de controle por meio de vigilância e punição, os quais seriam exercidos pelo poder
constituído, para manter a ordem social vigente. Esse controle, essa vigilância e punição
não são realizados, na maioria dos casos, por meio de força física, e são visíveis. Eles
são executados a partir de estratégias que estão sob ideologias contraditórias, formas
de manipulação, entre outros.

Sintetizando o início da sociedade moderna, ela foi marcada pelas mudanças nas
relações de produção; as novas formas de organização da vida social; o trabalho
assalariado; o crescimento das cidades de forma desordenada e, portanto, acrescido
de vários problemas sociais e urbanos; a renúncia das explicações sobre o mundo,
somente por fontes sobrenaturais; e a busca por um conhecimento sobre o mundo
por meio da razão.

Exemplificando

Michel Foucault estudou algumas instituições, como a escola, a prisão e os


hospícios, identificando e compreendendo que essas instituições, assim como
outras, produzem mecanismos de controle por meio de vigilância e punição, os
quais seriam exercidos pelo poder constituído, para manter a ordem social vigente.
Ou seja, estudos que contribuíram muito para a compreensão das relações de
poder existentes em nossa sociedade, desde que o mundo é mundo.

Hoje em dia quais exemplos podemos citar sobre o controle para manter o
poder?

Nos dias atuais, podemos citar ainda as religiões, que se diversificaram e se


transformaram durante a história, mas continuam exercendo uma manipulação
diante da fragilidade de muitos fiéis; um outro exemplo é a baixa qualidade do
ensino, que se agrava cada dia mais. O discurso de mais acesso não garante
uma educação de qualidade, para preparar cidadãos críticos e livres.

Homem, Cultura e Sociedade 15


U1

Faça você mesmo

Agora é com você! Utilizando o mesmo exemplo acima, com base nos
estudos de Foucault, identifique outros exemplos de controle do poder,
vistos nesta seção, na transição do feudalismo para o capitalismo.

Vocabulário

Corveia: obrigação do servo de trabalhar nas terras do senhor. Toda


produção de seu trabalho era do proprietário.

Banalidades: pagamento feito pelo servo em razão do uso de instrumentos


e instalações do feudo.

Talha: obrigação do servo de entregar parte de sua produção na gleba


para o senhor feudal.

Sem medo de errar


No início desta seção lemos a entrevista com o ex-presidente do Uruguai, Mujica, e
algumas questões foram colocadas para reflexão: a importância do motivo econômico,
sempre; a necessidade de os governantes representarem a maioria do povo e não deixar
os resquícios de feudalismo e monarquia dentro da república; trechos como “Aplicamos
um princípio muito simples: reconhecer os fatos. Aborto é velho como o mundo (...) o
casamento homossexual, por favor, é mais velho que o mundo (...). Nosso critério é fazer
só uma organização dos fatos já existentes. Aqui enxergamos a hipocrisia (...)”; “Temos
que lutar para que todos trabalhem, mas trabalhem menos, todos devemos ter tempo
livre. Para quê? Para viver, para fazer o que gostam. Isto é a liberdade. Agora, se temos de
consumir tanta coisa, não temos tempo porque precisamos ganhar dinheiro para pagar
todas essas coisas. Aí vamos até que pluff, apagamos.”; “O poder é uma coisa muito
esquiva e muito fragmentada (...). Uma sociedade é muito mais complexa e o poder
muitíssimo mais complexo”.

Essas questões foram retiradas da própria entrevista, inclusive com algumas falas do
ex-presidente Mujica. Portanto, vamos realizar uma breve reflexão e análise da transição
do feudalismo para o capitalismo, a partir desses questionamentos.

Diante do que estudamos até o momento, é possível identificar que o motivo


econômico e as relações de poder sempre estiveram presentes na política e nas
relações sociais, sempre existiram e foram, na grande maioria, os motivos das lutas entre
os homens. Os governantes e/ou classe dominante, na grande maioria, não governam
para o povo, para a maioria. Na verdade, existem os interesses particulares, os interesses

16 Homem, Cultura e Sociedade


U1

de poder. A classe que é dominada, controlada, vigiada, é manipulada por meio de falsas
e contraditórias ideologias para a produção, o consumo, o acúmulo de capital, que não
fica em suas mãos e sim nas mãos da classe dominante.

Atenção!

De acordo com Foucault, o controle, a vigilância e a punição não são


realizados, na maioria dos casos, por meio de força física, e são visíveis.
Eles são executados a partir de estratégias que estão sob ideologias
contraditórias, formas de manipulação, entre outros.

Estudando a história e compreendendo o homem e a sociedade nas suas diversas


relações, identifica-se que as relações entre dominantes e dominados sempre existiram
na história da humanidade. Observando, os dominados nunca tiveram sua real liberdade.
Estão sempre presos por estratégias de controle criadas pelas classes dominantes, que
podem oscilar entre cada época, mas sempre houve um grupo em busca de poder,
que, me aventuro afirmar, sempre se relacionou com a questão econômica.

Lembre-se

No Manifesto do Partido Comunista, publicado em 1848, a afirmação é


taxativa: a história sempre foi a história da luta de classes, remontada às
lutas entre homens livres e escravos, na Antiguidade, e abrangente das
lutas entre as categorias estamentais da sociedade feudal (MARX; ENGELS,
2007, p. 27).

Avançando na prática

Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com as de
seus colegas.

“O poder da Igreja”
Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamentos
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
de área
explicação da realidade social.
Proporcionar ao aluno a compreensão do poder da Igreja,
independentemente da religião, na história do homem e da
2. Objetivos de aprendizagem
sociedade e todo o seu envolvimento político, econômico e
social.
3. Conteúdos relacionados Relações de poder, a participação da Igreja na sociedade.

Homem, Cultura e Sociedade 17


U1

Vamos ler o seguinte trecho da reportagem “Papa condena


lutas pelo poder dentro da Igreja Católica”, no cmais.com.br
em 05/03/2014. Disponível em: <https://noticias.bol.uol.com.
br/ultimas-noticias/internacional/2014/03/05/papa-condena-
lutas-pelo-poder-dentro-da-igreja-catolica.htm>. Acesso em:
26 ago. 2015.
Cidade do Vaticano (AFP) - O Papa Francisco condenou as
lutas pelo poder dentro da Igreja Católica durante a tradicional
liturgia de Quarta-feira de Cinzas, celebrada na igreja romana
de Santa Sabina, onde se inicia a Quaresma dos católicos, 40
4. Descrição da SP
dias antes da Semana Santa.
“Quando vejo em nosso ambiente diário as lutas pelo poder,
pelo espaço, penso que essas pessoas que brincam de ser
Deus criador não se deram conta de que não sou Deus”,
afirmou o papa, em tom severo, durante a homilia.
A palavra do Papa Francisco contra as lutas pelo poder dentro
da Igreja Católica nos dias atuais nos faz pensar no poder da
Igreja, independentemente da religião na história do homem
e sociedade. No período da transição do feudalismo para o
capitalismo, como foi a participação da Igreja?
Apresentar como foi a participação da Igreja na manutenção
da ordem, da classe dominante, no controle da sociedade e,
5. Resolução da SP
se possível, realizar uma reflexão sobre essa participação e
atuação.

Lembre-se

Clero – os religiosos. Exerciam grande poder político sobre uma sociedade


bastante religiosa, onde o conceito de separação entre a religião e a
política era desconhecido.

Faça você mesmo

Pensando na Igreja Católica como uma instituição, de acordo com os


estudos de Michel Foucault, qual outra instituição você identifica, durante
a história do homem e da sociedade, com um grande poder nas relações
sociais?

Faça valer a pena!

1 – O que significou o Feudalismo?

a) O poder da Igreja sobre a sociedade da Idade Média.

b) A sociedade dividida em estamentos: clero, nobreza e camponeses.

c) A luta pelas terras, dos nobres com o rei e dos vassalos com os senhores feudais.

18 Homem, Cultura e Sociedade


U1

d) Um modelo de organização social e política predominante na Idade Média.

e) O período das inovações técnicas, das Cruzadas e da reabertura do Mar


Mediterrâneo.

2 – Quais foram os três principais motivos do início da crise do sistema feudal?

a) As inovações técnicas, as Cruzadas e a reabertura do Mar Mediterrâneo.

b) Os conflitos entre clero, nobreza e camponeses.

c) A talha, a corveia e as banalidades.

d) O interesse econômico em algumas regiões do Oriente, a necessidade de


exportar a miséria e o crescimento populacional.

e) O interesse econômico, do poder político e do comércio.

3 – Quem foi a burguesia na Idade Média?

a) A classe social que sempre esteve junto ao rei e passou a ter maior poder com a
crise do sistema feudal.

b) A classe social que surge com o intenso desenvolvimento comercial e


desenvolvimento das cidades e passa a buscar o poder.

c) A classe social que detinha as terras cedidas pelo rei.

d) A classe social conhecida como os guerrilheiros, que formavam exércitos para


garantir as terras.

e) A classe social denominada como nobreza feudal.

Homem, Cultura e Sociedade 19


U1

20 Homem, Cultura e Sociedade


U1

Seção 1.2

Revolução Francesa: um novo modelo político

Diálogo aberto

Olá! Na seção anterior dialogamos sobre o surgimento da sociedade moderna.


Nesta seção vamos conversar sobre a Revolução Francesa. Ou seja, iniciamos os
nossos estudos nos séculos XI e XIV e agora vamos para o século XVIII.

Por que estudar a Revolução Francesa no contexto da consolidação da sociedade


moderna?

Vale lembrar que a nossa realidade possui como base as seguintes questões: Como
o sistema capitalista se consolidou? Qual a base filosófica desse sistema? Quais as
relações do sistema capitalista que surgem no século XV na Europa com o capitalismo
que vivenciamos atualmente? Quais os impactos desse sistema na sua vida como um
todo? Haveria outro sistema de organização política e econômica mais adequado?

Para compreender a Revolução Francesa e suas implicações sobre a sociedade


moderna, vamos iniciar lendo uma reportagem. Porém, tal reportagem é um pouco
diferente das convencionais e nos transporta no tempo para o século XVIII.

Alunos do terceiro ano do Ensino Médio do Colégio Santa Clara, preocupados


com o vestibular e guiados pelas professoras de história e português, Elaine e Mazé,
são convidados a fazer uma viagem pelo tempo. O ponto de partida é o ano de 1789; o
local, a França iluminista; e a duração, dez anos. A descoberta da História se fará através
de jornais, os quais apresentarão diferentes posicionamentos políticos de acordo com
a fase da Revolução. São textos jornalísticos que relacionam acontecimentos, datas e
lugares que, de forma bem-humorada, utilizam-se do formato atual da imprensa.

O texto jornalístico que vamos ler para esta aula encontra-se em “O Estado das
Luzes”, disponível em: <http://fjh11.com/revfrancesa>. Acesso em: 09 set. 2015.

O título é: "Uma crise de 'mil' antecedentes".

Após a leitura, vamos pensar nas seguintes questões:

1. O que aconteceu com a França no período de transição do feudalismo para

Homem, Cultura e Sociedade 21


U1

o capitalismo?

2. Quem ou o que são cada um dos chamados Três Estados Gerais?

3. Qual o papel da burguesia no contexto da época? Quais seus interesses?

4. O terceiro Estado, composto por cerca de 98% da população, sustenta, com


o pagamento de impostos, o primeiro e o segundo Estados, e a notícia não lhes
agradou, causando muitas revoltas e manifestações.

Não pode faltar!

Os nossos estudos vão se iniciar no século XVIII. Nesse período, a França era um
Estado onde o modelo vigente era o absolutismo monárquico. O então rei francês,
Luís XVI, reunia em sua pessoa os poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário. Os
cidadãos eram súditos do rei.

Na estrutura do Estado Absolutista havia três diferentes Estados:

Primeiro Estado: representado pelo alto clero (bispos, abades e cônicos) e baixo
clero (sacerdotes pobres). Seus integrantes eram isentos de pagar os impostos.

Segundo Estado: representado pela nobreza ou aristocracia francesa. Desempenhava


funções militares (nobreza de espada) ou funções jurídicas (nobreza de toga). Seus
integrantes também não pagavam impostos e tinham acesso a cargos públicos.

Terceiro Estado: representado pela burguesia, que se dividia entre membros do


baixo clero – comerciantes, banqueiros, empresários, os sans-culottes (os que não
podiam vestir roupas nobres) – e trabalhadores urbanos e os camponeses, totalizando
a grande maioria da população. Eram obrigados a pagar impostos extremamente altos
para sustentar os luxos da nobreza. Entre eles estava a burguesia, que detinha o poder
econômico, por meio do comércio e da indústria porém não tinha direitos políticos,
ascensão social, nem liberdade econômica.

Ao longo da segunda metade do século XVIII e desde que Luís XVI assumiu o
reinado, a França encontrava-se com muitas dívidas em razão dos antigos reinados,
das guerras de conquista da monarquia (Guerra de Independência dos EUA e na
Guerra dos Sete Anos) e da manutenção da corte, que era bastante luxuosa.

No Estado monárquico absolutista, o povo não tinha voz, não podia votar, nem
sequer dar opinião sobre o governo, e os que se opunham ao Estado eram presos na
Bastilha ou condenados à guilhotina. A população vivia em condições precárias, sendo
objeto de extorsões diversas, da exorbitante exploração do trabalho e do pagamento
de múltiplos impostos.

22 Homem, Cultura e Sociedade


U1

Muitas revoltas no Terceiro Estado foram surgindo contra o rei e o Estado Absolutista.

Paralelamente, a sociedade passava por mudanças de pensamento também,


como vimos na aula anterior. Os iluministas influenciaram o Terceiro Estado, que
se levantou contra a opressão do absolutismo. Os iluministas eram compostos por
pensadores e intelectuais que passam a construir novas ideias sobre a sociedade da
época; a questionar as relações de poder, o estatuto de autoridade real, o pacto entre
o rei e os seus súditos. Colocavam à sociedade novas possibilidades, apontavam para
uma redefinição do ordenamento da sociedade.

Assimile

Principais pensadores iluministas:

John Locke (1632-1704); Montesquieu (1689-1755); Voltaire (1694-1778);


Jean-Jacques Rousseau (1712-1778); e Diderot (1713-1784).

Com a influência do Iluminismo e a participação ativa da burguesia na luta pelo


poder, a Revolução se inicia. No decorrer da Revolução, as movimentações ao redor
da questão religiosa ganharam força determinante, sobretudo no que se refere à
ruptura com o catolicismo romano como ponto determinante. A sociedade moderna
fez a experiência de uma separação radical entre o religioso e o político.

A Revolução se espalhou por toda a França. Os revolucionários faziam “sua justiça”,


combatendo os opressores. Durante a Revolução, a França fica sem autoridade. A
Revolução foi dividida por um grupo mais radical que espalhou muita violência por
toda a França e por outro grupo que temia uma guerra civil. Houve muita violência,
e muito sangue foi derramado através da guilhotina (instrumento aperfeiçoado pelo
médico Joseph Guillotin, para diminuir o sofrimento dos condenados, realizando uma
execução rápida e indireta). Porém, o radicalismo da Revolução distorceu o uso desse
instrumento e muitas cabeças rolaram, inclusive a do Rei Luís XVI.

Reflita

Qual o preço que a França pagou pelo radicalismo da Revolução Francesa?

O grupo de revolucionários, os chamados jacobinos, defendia uma


atuação radical. Durante o período em que esteve no poder, no
desenvolvimento da Revolução Francesa, esse grupo estabeleceu a fase
do terror, utilizando métodos extremos para promoção de suas reformas.
Na época, Paris ficou literalmente coberta de sangue.

Homem, Cultura e Sociedade 23


U1

Os ideais percorreram a Europa, atravessaram o oceano e chegaram à América


Latina, influenciando muitos movimentos, inclusive o da Inconfidência Mineira. A
Revolução Francesa (1789-1799) transformou profundamente as estruturas políticas,
econômicas e sociais da Europa e das Américas no final do século XVIII e início do XIX.

As principais consequências da Revolução Francesa foram: ascensão política da


burguesia e triunfo de seus ideais e aspirações; desenvolvimento capitalista da França;
queda do Antigo Regime Absolutista; extinção de resquícios do feudalismo; separação
entre a Igreja e o Estado; estímulo dos movimentos liberais e constitucionalistas
na Europa; influência nos movimentos de independência das colônias latino-
americanas; e origem das instituições político-ideológicas que caracterizam o mundo
contemporâneo.

Pesquise mais
Este artigo analisa e procura fomentar o debate acerca de proposta
expressa em 1792, pela Comissão de Educação da Assembleia Legislativa
Francesa – e apresentada por Condorcet. Proporciona-nos compreender
nossa educação hoje. Confira!

BOTO, C. Na Revolução Francesa, os princípios democráticos da escola


pública, laica e gratuita: o relatório de Condorcet. Educação & Sociedade,
Campinas, v. 24, n. 84, p. 735-762, set. 2003. Disponível em: <http://www.
scielo.br/pdf/es/v24n84/a02v2484.pdf>. Acesso em: 13 set. 2015.

A Revolução Francesa marcou o fim da Idade Média, abrindo o caminho para uma
sociedade moderna com a criação do Estado democrático. Os seus ideais foram
a “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” (Liberté, Egalité, Fraternité). Após o período e
processo revolucionário da França, instaura-se a República Francesa, que inspirou
todo o mundo.

Porém, é preciso ressaltar que a liberdade proclamada pela Revolução Francesa


acaba por ser de poucos. Livre é realmente uma sociedade de iguais.

Exemplificando

Trecho do texto “Violência, violências” por Roberto Amaral, publicado em


20/02/2014. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/sociedade/
violencia-violencias-125.html>. Acesso em: 12 set. 2015.

É evidente que a violência da guerra destruiu a violência do nazismo, mas


não só ele. Foi a violência que garantiu a abolição dos escravos nos EUA da

24 Homem, Cultura e Sociedade


U1

Guerra da Secessão, por exemplo, e foi a violência da Revolução Francesa


que doou ao mundo o “século das luzes”. Isso entre tantos exemplos
históricos.

Violência gera violência, isso é fato. Os casos de violência durante a


história e os dias atuais só produzem mais violência. Em alguns exemplos
de guerra durante a história, identificamos que tiveram um propósito bom,
de lutar pela igualdade, democracia, direitos humanos.

Porém, como vimos durante o texto da aula, no caso da Revolução


Francesa, a violência foi garantida por um grupo mais radical com relação
a alcançar as suas metas a qualquer custo, e muito sangue foi derramado,
em alguns casos, provavelmente, desnecessariamente

Desta forma, protestar sim, lutar pelos direitos sim, mas evitar a violência,
sempre será uma atitude mais sensata.

Faça você mesmo

Pegando um gancho no tema violência e guerra, estamos acompanhando


atualmente a guerra na Síria e a consequência para todo o mundo e
a população que vem se aventurando a fugir do país e migrando para
outros da Europa.

Qual sua opinião sobre a guerra na Síria e todo o seu desenrolar?

Vocabulário

O Iluminismo ou Era da Razão: foi um movimento que ocorreu no


século XVIII na Europa. Esse movimento defendeu o uso da razão (luz)
contra o antigo regime (trevas) e pregava maior liberdade econômica e
política. De forma geral, o Iluminismo defendeu a liberdade econômica,
sem intervenção do Estado; o avanço da ciência e da razão; e o predomínio
da burguesia e seus ideais.

Sem medo de errar


A situação-problema do nosso livro didático encontra-se em um link chamado “O
Estado das Luzes”. O que será que significa esse termo?

Como vimos no texto da nossa aula, paralelamente às crises que a França vivia,
pensadores e estudiosos, tentando compreender as mudanças sociais, políticas e

Homem, Cultura e Sociedade 25


U1

econômicas que aconteciam, influenciaram o Terceiro Estado a se rebelar contra o


primeiro/segundo Estados, ou seja, a Igreja e a nobreza, através de um conjunto de ideias
e ações, de livros, periódicos e outras publicações que denunciam as mazelas sociais
decorrentes do capitalismo e já esboçam propostas no sentido da construção de uma
sociedade alternativa, a partir de valores como: a liberdade, a igualdade, a fraternidade.

O Iluminismo foi um movimento intelectual que defendeu o uso da razão (luz) contra
o antigo regime (trevas) e pregava maior liberdade econômica e política. O Iluminismo
contou com o apoio da burguesia, pois os pensadores e os burgueses tinham interesses
comuns. Esses pensadores criticavam o mercantilismo, o Absolutismo monárquico, o
poder da Igreja e as verdades reveladas pela fé. E defendiam a liberdade econômica sem
a intervenção do Estado na economia, o avanço da ciência e da razão e o predomínio
da burguesia e seus ideais.

Atenção!

Nos séculos XVII e XVIII, enquanto as ideias iluministas se espalhavam


pela Europa, uma febre de novas descobertas e inventos tomou
conta do continente. O avanço científico dessa época colocou à
disposição do homem informações tão diferentes quanto a descrição
da órbita dos planetas e do relevo da Lua, a descoberta da existência da
pressão atmosférica e da circulação sanguínea e o conhecimento do
comportamento dos espermatozoides.

O Iluminismo. In: Mundo Vestibular. Disponível em: <http://www.


mundovestibular.com.br/articles/6144/1/Iluminismo/Paacutegina1.html>.
Acesso em: 28 out. 2015.

John Locke, considerado o “pai do Iluminismo”, defendia a razão e a liberdade dos


cidadãos.

Jean-Jacques Rousseau também se destacou entre os iluministas pela obra


O contrato social, na qual afirma que o soberano deveria dirigir o Estado conforme
a vontade do povo. Apenas um Estado com bases democráticas teria condições de
oferecer igualdade jurídica a todos os cidadãos. Foi também defensor da pequena
burguesia.

Mesmo com alguns problemas, o Iluminismo trouxe a todos os países novas ideias
com bases mais democráticas e proporcionou o desenvolvimento das ciências e a
quebra do absolutismo da Igreja e da monarquia. Ficou conhecido como o movimento
que trouxe “luzes às trevas”.

26 Homem, Cultura e Sociedade


U1

Lembre-se

Os iluministas eram compostos por pensadores e intelectuais, que


passam a construir novas ideias sobre a sociedade da época; a questionar
as relações de poder, o estatuto de autoridade real, o pacto entre o rei e
os seus súditos. Colocavam à sociedade novas possibilidades, apontavam
para uma redefinição do ordenamento da sociedade.

Avançando na prática

Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com as de
seus colegas.

“A Burguesia”
Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamento de
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
área
explicação da realidade social.
Por meio da SP, você deve conseguir compreender a origem
2. Objetivos de aprendizagem e evolução da burguesia até os dias atuais, construindo uma
visão crítica sobre essa classe social.
3. Conteúdos relacionados Relações de poder, a participação da Igreja na sociedade.
A burguesia surgiu na Idade Média na Europa. Na época,
representava-se por pobres era desprezada pela nobreza e
pelo clero.
Com o tempo, os burgos se transformaram em bancos e
começaram a adquirir lucros. Por meio de gerações foram
se infiltrando na aristocracia, obtendo poder, criando novos
4. Descrição da SP valores e, com o tempo, assumindo o controle da vida política
(Revolução Francesa).
Com a consolidação do capitalismo, a burguesia tornou-
se a classe dominante, detentora dos meios de produção e
promoveu a criação dos assalariados (os que ofereciam sua
força de trabalho para esses donos de propriedades privadas).
Nos dias atuais, quem é a burguesia?
Você deve conseguir identificar em nossa sociedade quem
seriam os burgueses hoje. Dessa forma, sua resposta deve
girar em torno dos profissionais que possuem renda familiar
mensal bruta entre cinco e cinquenta mil reais. Porém, você
deve perceber que não é somente a questão financeira
5. Resolução da SP
que faz um burguês, mas a questão de geração familiar
que detinha os meios de produção e, mesmo mais pobres
atualmente, conservam “status” social; e questões valorizadas
por uma nobreza, como comportamentos, vestimentas,
hábitos, etiquetas, entre outros.

Homem, Cultura e Sociedade 27


U1

Lembre-se

As principais consequências da Revolução Francesa foram: a ascensão


política da burguesia e o triunfo de seus ideais e aspirações.

Faça você mesmo

Refletindo sobre o texto do livro didático e a situação-problema acima,


como se avalia o papel da burguesia desde o seu surgimento até os dias
atuais?

Faça valer a pena!

1 - Na estrutura do Estado Absolutista havia três diferentes Estados. O que é correto


afirmar sobre esses estados?

a) O Primeiro Estado era representado pela burguesia e por trabalhadores urbanos


e camponeses, o Segundo Estado era representado pela nobreza ou aristocracia
francesa, e o Terceiro Estado era representado pelos religiosos.

b) O Primeiro Estado era representado pela nobreza ou aristocracia francesa, o


Segundo Estado era representado pelo alto clero e baixo clero, e o Terceiro Estado
era representado pela burguesia e por trabalhadores urbanos e camponeses.

c) O Primeiro Estado era representado pelo alto clero e baixo clero, o Segundo
Estado era representado pela nobreza ou aristocracia francesa, e o Terceiro Estado
era representado pela burguesia e por trabalhadores urbanos e camponeses.

d) O Primeiro Estado era representado pelos religiosos, o Segundo Estado era


representado pela nobreza, e o Terceiro Estado era representado pelos vassalos.

e) O Primeiro Estado era representado pelos bispos, o Segundo Estado era


representado pela burguesia, e o Terceiro Estado era representado pelos camponeses.

2 - Em meados do século XVIII, a população francesa vivia em condições precárias, era


objeto de extorsões diversas, da exorbitante exploração do trabalho e do pagamento
de múltiplos impostos. Muitas revoltas no Terceiro Estado foram surgindo contra
o rei e o Estado Absolutista. Paralelamente, a sociedade passava por mudanças de
pensamento também.

Sobre as mudanças de pensamento da sociedade na época, o que é correto afirmar?

28 Homem, Cultura e Sociedade


U1

a) Os iluministas influenciaram o Terceiro Estado com novas ideias sobre a sociedade


da época, questionando as relações de poder, o estatuto de autoridade real, o pacto
entre o rei e os seus súditos.

b) A burguesia influencia todo o Terceiro Estado pelos seus interesses de livre


comércio sem intervenção do Estado e separação da religião com a política.

c) A Igreja consegue retomar os conceitos do catolicismo romano.

d) Os iluministas influenciam o Terceiro Estado, levando-o a aceitar e concordar com


o Absolutismo da Monarquia.

e) A nobreza consegue influenciar o Terceiro Estado com ideias que têm como
princípio a separação radical entre o religioso e o político.

3 – Sobre o processo da Revolução Francesa, marque (V) para as afirmativas


verdadeiras e (F) para as falsas:

( ) A Revolução Francesa atingiu apenas alguns países da França, não houve muita
violência e logo a burguesia conquistou o poder.

( ) A Revolução foi dividida por um grupo mais radical que espalhou muita violência
por toda a França e por outro grupo que temia uma guerra civil.

( ) Muita violência e muito sangue foram derramados através da guilhotina. Muitas


cabeças rolaram, inclusive a do Rei Luís XVI.

( ) O grupo de revolucionários, os chamados jacobinos, defendia uma atuação radical.


Durante o período em que esteve no poder, no desenvolvimento da Revolução Francesa,
esse grupo estabeleceu a fase do terror, utilizando métodos extremos para promoção de
suas reformas.

( ) A Revolução Francesa (1789-1799) transformou profundamente as estruturas


políticas, econômicas e sociais da Europa e das Américas no final do século XVIII e
início do XIX.

Assinale a sequência correta:

a) V, V, V, F, V
b) V, V, V, V, F
c) V, F, V, V, V
d) F, V, V, V, V
e) V, V, F, V, V.

Homem, Cultura e Sociedade 29


U1

30 Homem, Cultura e Sociedade


U1

Seção 1.3

Revolução Industrial e a consolidação do capitalismo


Diálogo aberto

Olá! Vamos agora estudar a Revolução Industrial e compreender como o


capitalismo se consolida. Até o momento, tivemos a oportunidade de perceber como
vários acontecimentos históricos estão interligados e nos fazem compreender o nosso
presente. E as questões colocadas a seguir? Já consegue refletir de forma crítica sobre
elas?

1. Como o sistema capitalista se consolidou?

2. Qual a base filosófica desse sistema?

3. Quais as relações do sistema capitalista que surgem no século XV na Europa,


com o capitalismo que vivenciamos atualmente?

4. Quais os impactos desse sistema em nossa vida como um todo?

5. Haveria outro sistema de organização política e econômica mais adequado?

Para contribuir com a nossa reflexão e com os estudos desta aula, vamos iniciar
com a leitura da reportagem “Panóptico corporativo: empresas adotam arranjos
com espaços abertos em seus escritórios e alguns efeitos colaterais podem ser
infaustos”, por Thomaz Wood Jr., publicada em 21/05/2014, última modificação em
21/05/2014. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/revista/800/panoptico-
corporativo-580.html>. Acesso em: 13 set. 2015.

Primeiramente, vamos compreender o que é panóptico. O filósofo inglês Jeremy


Bentham projetou um edifício em forma de anel, no meio do qual havia um pátio em
cujo centro havia uma torre. O anel dividia-se em pequenas celas que davam tanto
para o interior quanto para o exterior. Em cada uma dessas pequenas celas havia,
segundo o objetivo da instituição, uma criança aprendendo a escrever, um operário
a trabalhar, um prisioneiro a ser corrigido, um louco tentando corrigir sua loucura,
e na torre havia um vigilante. O projeto era para ser uma prisão modelo, destinada
à reforma dos encarcerados. Mas, por vontade expressa do autor, foi também um
plano para todas as instituições educacionais, de assistência e de trabalho, o esboço

Homem, Cultura e Sociedade 31


U1

de uma sociedade racional. Um detalhe importante a ser considerado é que o


projeto era de 1789, o mesmo ano em que a burguesia tornava-se a classe social
dominante no mundo ocidental (Disponível em: <http://michelfoucault.hotglue.me/
Pan%C3%B3ptico>.Acesso em: 13 set. 2015).

Michel Foucault, ao estudar a sociedade disciplinar, constata esses mecanismos


de vigilância que são, muitas vezes, invisíveis, com o objetivo de vigiar, manipular e
controlar os indivíduos. Essa é a finalidade do panóptico. O autor da reportagem afirma
que a busca das empresas pelo panóptico ideal para controlar corpos e mentes ainda
não chegou ao capítulo final.

Vamos compreender o que o panóptico tem a ver com a Revolução Industrial?

Não pode faltar!

Logo após a Revolução Francesa houve não só queda de Napoleão Bonaparte,


mas também a Primavera dos Povos (movimentos revolucionários de cunho liberal
que ocorreram por toda a Europa durante o ano de 1848).

Até o final do século XVIII, a produção era predominantemente artesanal em países


como a França e a Inglaterra, embora possuíssem manufaturas. As manufaturas eram
grandes oficinas onde diversos artesãos realizavam as tarefas manualmente, os quais,
entretanto, eram subordinados ao proprietário da manufatura.

No final do século XVIII e durante todo o século XIX, aconteceu na Inglaterra a Revolução
Industrial. A primeira Revolução Industrial aconteceu na Grã-Bretanha, que, apesar de ser
um país pequeno, possuía condições estáveis de transporte e uma classe social que era
a nobreza, bem diferente dessa mesma classe na França. O nobre na Grã-Bretanha se
assemelhava ao burguês da França, enquanto perfil, e tinha dinheiro para investimentos.

Assimile

A Grã-Bretanha, naquele período, transformou-se na maior potência


mundial da época, conhecida como “oficina do mundo”, pois produzia
para todo o mundo, e como “senhora dos mares”, pela disposição
geográfica, passando a controlar o comércio marítimo mundial.

A Revolução Industrial iniciou com o algodão. A Revolução caracterizou-se pela


substituição do trabalho manual e artesanal, pela produção através das máquinas
e fábricas, melhorando a eficácia da produção, a rapidez e o custo da produção
dos produtos. Quando falo em primeira Revolução e, posteriormente, segunda e
assim sucessivamente, é devido ao fato de que a Revolução Industrial aconteceu
justamente numa sequência de invenções e descobertas de automatização dos

32 Homem, Cultura e Sociedade


U1

produtos, pensando não só na matéria-prima, como também em todos os recursos


de produção, transporte, entre outros, para a redução cada vez maior dos custos de
produção e maiores lucros.

A segunda etapa da Revolução Industrial se deu com inovações industriais com


relação ao emprego do aço, a utilização da energia elétrica e dos combustíveis
derivados do petróleo, a invenção do motor a explosão, da locomotiva a vapor e o
desenvolvimento de produtos químicos.

A terceira etapa da Revolução é considerada, por muitos estudiosos, como


os avanços tecnológicos dos séculos XX e XXI, tais como o computador, o fax, a
engenharia genética, o celular, entre tantos outros.

A Revolução Industrial promoveu profundas transformações econômicas e


invenções/inovações importantes para o processo de industrialização, que logo
expandiram-se para outras sociedades (como França, Bélgica, Holanda, Rússia,
Alemanha e Estados Unidos), que ingressaram nesse novo modelo de produção
industrial, atingindo, em pouco tempo, nível mundial.

A ciência também contribuiu com o processo de desenvolvimento de uma série de


novas tecnologias que transformaram, de forma rápida, a vida do homem, sobretudo
no modo de produzir mercadorias. Nesse último caso, serviu principalmente ao setor
industrial, acelerando o desenvolvimento do sistema capitalista.

Porém, causou muitas turbulências e sofrimentos para a população. Até o século


XIX, trabalhar ainda era, prioritariamente, cuidar das coisas da terra. Com a Revolução
Industrial, iniciada na Inglaterra, homens, mulheres e crianças saíram do campo e
foram para os galpões insalubres das fábricas. O século XX testemunhou outra grande
migração laboral, dessa vez das fábricas para os escritórios.

As fábricas necessitavam de pessoas para trabalhar. Essas pessoas, na grande


maioria, eram os artesãos, agricultores e demais pessoas que trabalhavam, até então,
de forma manual. Com a expansão das indústrias e a redução dos preços dos produtos,
esses profissionais começaram a ficar desempregados e foram obrigados a vender a
sua força de trabalho por um salário que não era o bastante, servindo somente para as
necessidades básicas. Essa população precisou migrar para as cidades e viver ao redor
das fábricas. Surgiam gradativamente mais proletariados.

Homem, Cultura e Sociedade 33


U1

Figura 1.2 – Revolução Industrial – Século XVIII

Fonte: <http://wikigeo.pbworks.com/f/1336054954/rev_3.jpg>. Acesso em: 13 set. 2015.

O proletariado é a classe operária que surgiu com o início do capitalismo, e se


caracterizou por ganhar baixos salários e por realizar jornadas de trabalho que chegavam
a 16 horas. Os operários, que antes eram donos dos teares e rocas, passaram a ser
submetidos aos capitalistas (donos dos meios de produção).

As inovações industriais eram grandes, mas as condições de trabalho eram precárias


e colocavam em risco a vida e a saúde do trabalhador. Além disso, o trabalhador perdeu
o conhecimento de toda a técnica de fabricação, passando a executar apenas uma
etapa.

Figura 1.3 – Carlitos sobre a máquina, em cena do filme Tempos Modernos (EUA. 1936. Dir.
Charles Chaplin. Produção: United Artists, P&B, Duração: 87 min).

Fonte: <http://www.planetaeducacao.com.br/portal/imagens/artigos/tempos_modernos_02.jpg>. Acesso em: 13 set. 2015.

34 Homem, Cultura e Sociedade


U1

Devido a essas questões, alguns trabalhadores se revoltaram e começaram a


sabotar as máquinas, ficando conhecidos como “os quebradores de máquinas”. Outros
movimentos também surgiram nessa época com o objetivo de defender o trabalhador.
O aumento das lutas operárias obrigou a criação de subsistência mínima para os
desempregados.

Reflita

Com as reações operárias contra os efeitos da Revolução Industrial,


surgiram críticos que propunham reformulações sociais para a criação
de um mundo mais justo, eram os teóricos socialistas. Entre os vários
revolucionários, o mais célebre teórico socialista foi o alemão Karl Marx, que
testemunhou as transformações sociais decorrentes da industrialização e,
em suas obras, fez duras críticas ao capitalismo.

O processo de industrialização espalhou-se por todo o mundo e chegou ao Brasil


no final do século XIX. Num primeiro momento, foram instaladas fábricas de tecidos,
calçados e outros produtos de fabricação mais simples, e a mão de obra usada nessas
fábricas era, na maioria, formada por imigrantes italianos.

Foi durante o primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945) que a indústria brasileira
ganhou um grande impulso. Porém, era ainda limitada à região Sudeste, provocando
grandes diferenças regionais.

O governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960) abriu a economia para o capital


internacional, atraindo indústrias multinacionais, como na instalação de montadoras
de veículos internacionais (Ford, General Motors, Volkswagen e Willys) em território
brasileiro.

Na época da ditadura militar, o processo de industrialização no Brasil continua a


crescer. Porém, na atualidade, a indústria do Brasil não vai bem.

Pesquise mais
A difusão de técnicas, o nascimento da grande indústria, a adaptação da
economia e da sociedade a um mundo industrializado são algumas das
discussões levantadas nesta obra imprescindível para a compreensão da
sociedade moderna. Confira o que aborda este tema:

CANEDO, L. B. A Revolução Industrial. 13. ed. São Paulo: Atual, 1994.

Homem, Cultura e Sociedade 35


U1

Atualmente, e como consequência de um processo que se iniciou com a Revolução


Industrial, a grande maioria da população encontra-se dentro das empresas e indústrias,
na operação dos produtos ou nos escritórios.

O autor da nossa situação-problema traz à tona a questão dos problemas causados por
um modelo cada vez mais aberto e impessoal, reduzindo custos e espaços, logicamente
visando lucros. Todos se encontram no mesmo espaço, salvo algumas exceções, pela
especificidade do trabalho. Apesar da importância de ter a sensação de pertença a
uma organização moderna e maior integração, estudos (citados na reportagem da SP)
apresentam os prejuízos, como: redução na capacidade de concentração, inibição da
criatividade e redução da satisfação no trabalho, provocando queda na produtividade e
uma maior quantidade de funcionários que tiram licença por motivos de saúde.

Enfim, o autor compara esses novos modelos com os panótipcos, promovendo


um maior controle para gerar maior produtividade e, portanto, maiores lucros. Ou seja,
é impulsivo afirmar que, com a Revolução Industrial, o homem, no decorrer de sua
história, vivencia cada vez mais o controle, a vigília por parte de quem detém os meios
de produção? Que precisa se submeter cada vez mais à agitação dos grandes centros,
ao pouco contato familiar, ao artificialismo da vida, perdendo o contato com a natureza
e sendo escravo da máquina e do tempo? Tudo se mecaniza, mercantiliza e artificializa,
cronometra, inclusive o trabalho.

Karl Marx estava correto quando afirmou que a emancipação dos indivíduos se torna
impossível em uma sociedade com os princípios do capitalismo?

Exemplificando

O clássico filme “Tempos Modernos” é de 1936, tendo sido produzido nos


Estados Unidos, pelo cineasta Charles Chaplin. O famoso personagem "O
Vagabundo" tenta sobreviver em meio ao mundo moderno e industrializado.

O filme teve como propósito passar uma mensagem social e fazer críticas
ao capitalismo. A máquina tomando o lugar dos homens e as facilidades
que levam à criminalidade e à escravidão.

Faça você mesmo

No filme “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, tudo se inicia com a


história de Charlie, que trabalha em uma fábrica, na qual tem um colapso
nervoso por trabalhar de forma escrava.

Explique a relação dessa forma escrava de trabalho com o processo da


industrialização.

36 Homem, Cultura e Sociedade


U1

Sem medo de errar


Vamos, então, dialogar sobre as questões propostas em nossa situação geradora
de aprendizagem: como o sistema capitalista se consolidou; a base filosófica desse
sistema; as relações do sistema capitalista que surgem no século XV na Europa, com
o capitalismo que vivenciamos atualmente; os impactos desse sistema na vida dos
indivíduos como um todo; e, por fim, a pergunta: haveria outro sistema de organização
política e econômica mais adequado?

Primeiramente, voltando a tudo o que estudamos nesta unidade curricular, o


capitalismo se consolida justamente com o processo de industrialização, com novas
formas de produção e de divisão social do trabalho.

A divisão social do trabalho gera a acumulação de capital pelo burguês, decorrente


da exploração da mais-valia produzida pelo trabalhador, que consistia no pagamento de
um valor pelo tempo de trabalho menor do que ele produziu durante toda sua jornada.
Essas análises foram realizadas nas obras de Marx e Engels.

Para os trabalhadores ou proletariados, as condições de trabalho eram péssimas,


atuavam e habitavam em locais insalubres e recebiam baixos salários.

Lembre-se

O proletariado é a classe operária que surgiu com o início do capitalismo


e se caracterizou por ganhar baixos salários e por realizar jornadas de
trabalho que chegavam a 16 horas. Os operários, que antes eram donos
dos teares e rocas, passaram a ser submetidos aos capitalistas (donos dos
meios de produção).

Muitos trabalhadores se revoltaram, greves foram feitas e lutas por melhores condições de
vida foram instauradas. Os burgueses foram obrigados a aceitar algumas reivindicações, mas
reprimiram, duramente, outras. É nesse confronto cotidiano entre burguesia e operariado que
a sociedade capitalista foi se desenvolvendo e continua até os dias atuais, de forma cíclica,
passando por momentos de enfraquecimento, mas se reinventando durante a história.

O sistema capitalista possui como base filosófica a produção de bens e riquezas, o


constante aumento e acumulação dessa produção, a detenção dos meios de produção,
o trabalho alienado e a exploração da força de trabalho do proletariado. Nunca houve e
não há uma preocupação com o desenvolvimento humano. Como já dizia Marx, não há
possibilidade de emancipação do ser humano no sistema capitalista.

Mas, haveria outro sistema de organização política e econômica mais adequado? A


proposta de Karl Marx era o socialismo, que, mesmo em meio a um mundo praticamente
capitalista, se desenvolveu em alguns países.

Homem, Cultura e Sociedade 37


U1

Atenção!

O socialismo, na teoria filosófica de Karl Marx, postula a regulação das


atividades econômicas e sociais por parte do Estado e a distribuição
dos bens. Essa corrente defende que o controle administrativo deve
recair sobre os mesmos produtores ou trabalhadores e sobre o controle
democrático das estruturas políticas civis por parte dos cidadãos.

História: socialismo e comunismo. In: Guia do Estudante Abril. s.d.


Disponível em: <http://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/historia-
comunismo-e-socialismo/>. Acesso em: 28 out. 2015.

Porém, é preciso destacar que o conceito de socialismo veio mudando durante a


história. Surgiram diferentes tipos de socialismo, muitos dos quais não tiveram sucesso.
Atualmente, os países que se autodenominam socialistas são: Cuba, China, Coreia do
Norte, Líbia e o Vietnam.

Avançando na prática

Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com as de
seus colegas.

“Socialismo na Coreia do Norte”


Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamento de
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
área
explicação da realidade social.
Levar os alunos a identificar os diferentes conceitos que o
2. Objetivos de aprendizagem
socialismo adquire no decorrer da história.
3. Conteúdos relacionados Monarquia Absolutista e Ditadura.
A Coreia do Norte se autodenomina como uma sociedade
que está organizada através do socialismo, porém, com todos
os mistérios de um dos países mais fechados do planeta,
4. Descrição da SP
presenciamos um isolamento do país me relação ao mundo
e uma ditadura social.
Como compreender esse socialismo?
O país possui um regime muito fechado, seus habitantes não
podem usar telefone celular e os turistas não podem tirar
5. Resolução da SP fotos de monumentos, por exemplo. Analistas dizem se tratar
de uma sociedade que possui uma filosofia socialista, utiliza
uma monarquia absolutista, se não for uma ditadura.

38 Homem, Cultura e Sociedade


U1

Lembre-se

O socialismo, na teoria filosófica de Karl Marx, postula a regulação das


atividades econômicas e sociais por parte do Estado e a distribuição
dos bens. Essa corrente defende que o controle administrativo deve
recair sobre os mesmos produtores ou trabalhadores e sobre o controle
democrático das estruturas políticas civis por parte dos cidadãos.

Faça você mesmo

Com base nessa discussão, responda: quais as principais diferenças em


relação ao capitalismo e ao socialismo?

Faça valer a pena!

1 - No final do século XVIII e durante todo o século XIX aconteceu na Inglaterra


a Revolução Industrial. Quais afirmativas são corretas com relação à Revolução
Industrial?

I. A primeira Revolução Industrial aconteceu na Grã-Bretanha, com o algodão.

II. A Revolução caracterizou-se pela substituição do trabalho manual e artesanal


pela produção feita mediante máquinas e fábricas, melhorando a eficácia da
produção, a rapidez e o custo da produção dos produtos.

III. A segunda etapa da Revolução Industrial se deu com inovações industriais


com relação ao emprego do aço, à utilização da energia elétrica e dos combustíveis
derivados do petróleo, à invenção do motor a explosão, da locomotiva a vapor e ao
desenvolvimento de produtos químicos.

IV. A terceira etapa da Revolução é considerada, por muitos estudiosos, como


os avanços tecnológicos dos séculos XX e XXI, tais como o computador, o fax, a
engenharia genética, o celular, entre tantos outros.

V. A Revolução Industrial promoveu profundas transformações econômicas e


invenções/inovações importantes para o processo de industrialização, que logo
expandiram-se para outras sociedades.

Está correto o que se afirma em:

a) I, II e V.

b) III, IV e V.

Homem, Cultura e Sociedade 39


U1

c) II, IV e V.

d) I, III e V.

e) I, II, III, IV e V.

2 - A Revolução Industrial, que começou na Inglaterra, promoveu um grande avanço


para o processo de industrialização, que se expandiu para todo o mundo. Porém,
causou também prejuízos. O que é correto afirmar sobre esses prejuízos?

a) A população foi obrigada a não frequentar mais a Igreja Católica.

b) As pessoas desejavam ir para os centros urbanos, mas eram impedidas pela


burguesia.

c) A classe trabalhadora migrou para os grandes centros e, em seguida, precisou


retornar para o campo, por falta de emprego nos centros urbanos.

d) Com a expansão das indústrias e a redução dos preços dos produtos, artesãos e
demais trabalhadores enfrentaram o desemprego e foram obrigados a vender a sua
força de trabalho por um salário bem baixo e ter condições precárias de vida nos
centros urbanos.

e) A população que migrou para as cidades para trabalhar nas fábricas recebia salários
dignos e passou a viver em boas condições de vida.

3 - Com as reações operárias contra os efeitos da Revolução Industrial, surgiram


críticos que propunham reformulações sociais para a criação de um mundo mais
justo: eram os teóricos socialistas. Entre os vários revolucionários, qual foi o mais
célebre teórico socialista, que testemunhou as transformações sociais decorrentes
da industrialização e, em suas obras, fez duras críticas ao capitalismo?

a) Augusto Comte.

b) Émile Durkheim.

c) Karl Marx.

d) Max Weber.

e) Theodor Adorno.

40 Homem, Cultura e Sociedade


U1

Seção 1.4

O surgimento das ciências sociais


como tentativa de explicar a sociedade moderna
Diálogo aberto

Olá! Chegamos à última aula da nossa unidade de ensino. Nesta seção nos dedicaremos
ao surgimento das ciências sociais no contexto da sociedade moderna, com foco na
contextualização histórica das ciências sociais, ou seja, da sociologia, e aos sociólogos
considerados os fundadores e pensadores dessa ciência.

A sociologia é considerada a ciência que estuda as relações sociais, os fatos sociais e o


ser social, que surge paralelamente à construção da sociedade moderna, no momento de
desagregação da sociedade feudal e da consolidação da civilização capitalista.

Para nos ajudar a pensar nessas questões, vamos ler o texto: "Conhecimentos e
interesses: “As recomendações dos economistas estão eivadas de pressupostos não
revelados”, por Luiz Gonzaga Belluzzo — publicado 11/10/2014, Carta Capital. Disponível
em: http://www.cartacapital.com.br/revista/820/conhecimentos-e-interesses-8044.html.
Acesso em: 30 ago. 2015.

Após a leitura do texto, vamos pensar em algumas questões para iniciar o nosso estudo:

1. "(...) Entre as lamentações, escolhi a que me pareceu mais sugestiva: “A


contraposição proposta entre inflação e crescimento sustentável, por exemplo, pertence
à retórica oportunista da política, não ao debate informado”. Em seguida disparam:
“Desqualifica-se a divergência de ideias, atribuindo-a a interesses contrariados”.

2. Como faz meu amigo Mino Carta, indaguei meus botões a respeito da separação
entre conhecimento e interesse.

3. É possível reivindicar uma complexidade ainda maior nos processos de


conhecimento das ditas Ciências Sociais. (...) A investigação deve compreender não apenas
as instituições e práticas sociais, mas também incluir as convicções que os agentes têm
sobre a sua própria sociedade – investigar não apenas a realidade social, mas os saberes
que se debruçam sobre ela. Uma teoria social é uma teoria a respeito das convicções
dos agentes sobre a sua sociedade, sendo ela mesma uma dessas convicções. Os
assim chamados cientistas sociais, sobretudo os economistas, costumam descuidar dos
fundamentos cognitivos implícitos em seus procedimentos.

Homem, Cultura e Sociedade 41


U1

Não pode faltar!

As ciências sociais possuem suas raízes na Revolução Francesa (França, 1789) e na


Revolução Industrial (Inglaterra, 1800) – assuntos que trataremos nas próximas seções.
Nesse período histórico, os europeus passavam por transformações em sua vida e
estrutura social, deixando os costumes e tradições de uma economia baseada na
manufatura (feudalismo) e adequando-se às demandas de uma economia capitalista.
Um período de muita mudança e de insatisfação que, consequentemente, levou à
origem de conflitos e tensões.

Quando falamos das ciências sociais, estamos falando da área de conhecimento


mais importante da área, denominada Sociologia. A Sociologia não foi obra de um,
mas de vários pensadores que sentiram a necessidade de compreender as novas
situações e transformações da sociedade em curso.

Juntamente com as transformações sociais e econômicas, as formas de


pensamento também se transformaram. Tal fenômeno ocorreu à medida que as
reações econômicas e sociais se modificaram e antigas estruturas de hierarquia
social deram lugar a novos paradigmas. Nesse período, portanto, interpretações
e abordagens a respeito da cultura, da natureza e do homem, enquanto ser social,
foram se solidificando.

No início do século XIX surgiu na França o positivismo, que foi uma corrente
filosófica. Os principais estudiosos e idealizadores dessa corrente filosófica foram:
Auguste Comte e John Stuart Mill. Desde o início até a atualidade, o sentido da palavra
passou por mudanças radicais, chegando ao ponto de influenciar outras áreas de
pensamento, nas quais o positivismo não possuía nenhuma relação com a obra inicial
de Comte. Porém, a proposta de Comte sobre o positivismo se refere à existência
humana com valores humanos, afastando a teologia e a metafísica. O positivismo
proposto por Comte considera a ciência como a única forma de conhecimento
verdadeiro, separando-o de conhecimentos ligados a crenças, superstições ou
outros que não pudessem ser comprovados por meio dos métodos científicos. O
conhecimento científico veio ganhando forças.

É importante ressaltar que o positivismo defendido por Comte procura a


estabilização da nova ordem, ou seja, procura, por meio de um pensamento mais
racional, proporcionar aos homens a aceitação da ordem capitalista existente. Ainda
não foi com a sociologia baseada no pensamento positivista que foram colocados em
questão os fundamentos da sociedade capitalista. A sociologia, muito jovem ainda,
aos poucos, se preocupava em repensar e compreender o problema da ordem social
vigente.

42 Homem, Cultura e Sociedade


U1

Assimile

Não foi por meio da sociologia baseada no pensamento positivista que o


proletariado teve direitos de expressão teórica e orientação para as lutas
práticas. A sociologia nasce da tentativa de vários pensadores e filósofos
de compreender e explicar as transformações pelas quais a sociedade da
época vinha passando, na religião, na cultura, política, economia, entre
outros setores sociais. Neste esforço de compreensão estão embutidas as
diversas e diferentes intenções presentes nas relações sociais (MARTINS,
1994).

Aos poucos, várias linhas de pensamento e compreensão dessas novas


realidades surgem nessa nova ciência social, tanto para manter como para alterar os
fundamentos da sociedade. Os primeiros sociólogos que surgem para pesquisar e
esclarecer as mudanças ocorridas no meio social são Montesquieu e Auguste Comte.
Esses pensadores, juntamente com Émile Durkheim, são considerados positivistas,
ou seja, defendem os interesses dominantes da sociedade capitalista e, através dos
conhecimentos da sociologia, dão uma nova roupagem às ideias conservadoras.

Émile Durkheim ocupou-se também de estabelecer o objeto de estudo da


sociologia, assim como indicar o seu método de investigação. É através dele que a
sociologia penetrou a universidade, conferindo a esta disciplina o reconhecimento
acadêmico. Durkheim também

(...) Discordava das teorias socialistas, principalmente quanto


à ênfase que elas atribuíam aos fatos econômicos para
diagnosticar a crise das sociedades europeias. Durkheim
acreditava que a raiz dos problemas de seu tempo não era de
natureza econômica, mas sim uma certa fragilidade da moral
da época em orientar adequadamente o comportamento dos
indivíduos (MARTINS, 1994, p. 25).

Para Durkheim, a divisão do trabalho deveria provocar uma relação de cooperação


e de solidariedade entre os homens. Porém, com a velocidade das transformações
políticas e econômicas, faltavam as ideias morais para proporcionar o bom
funcionamento da coletividade.

Segundo Martins (1994, p. 28), os estudos de Durkheim marcaram decisivamente


a sociologia contemporânea, principalmente a questão da manutenção da ordem
social. Sua influência no meio acadêmico francês foi quase imediata, formando vários
discípulos que continuaram a desenvolver as suas preocupações.

Homem, Cultura e Sociedade 43


U1

O conhecimento sociológico crítico da sociedade capitalista aparece nos estudos


de Marx (1818-1883) e Engels (1820-1903). Nos escritos desses autores encontra-se
uma interligação com as áreas da antropologia, ciência política, economia, entre
outras, sempre com foco em explicar a sociedade como um todo. Os trabalhos desses
pensadores não são elaborados nos bancos acadêmicos e sim através de militância.

As relações de exploração entre as classes sociais, que vão se consolidando


juntamente com a sociedade capitalista, levam alguns revolucionários a promoverem
movimentos opositores que surgem no início do século XIX na Europa Ocidental.

O encontro entre Marx e Engels se dá pela afinidade de pensamento e envolvimento


com os movimentos do proletariado na França. Desde o primeiro encontro, em 1844,
estabeleceu-se entre os dois uma parceria intensa. Suas obras são construídas a partir
dessa parceria e surgem de dentro dos movimentos dos proletariados da Europa
Ocidental. Dessa forma, não se trata apenas de escritos puramente intelectuais, mas
também de acontecimentos sociopolíticos com significado histórico e mundial
(MARX; ENGELS, 2007).

O caminho percorrido por Marx com relação à sua compreensão sobre a sociedade
capitalista possui dois momentos: o primeiro, em que, através da ideia hegeliana na
versão que lhe davam os jovens hegelianos (oposição), inicia seus estudos sobre a
sociedade e suas críticas ao modelo do capitalismo vigente; e o segundo momento,
mais amadurecido e em parceria com Engels, em que compreende a Política
Econômica como a limitação impiedosa entre os homens, consagrando a alienação
das forças sociais no poder do capital (MARX; ENGELS, 2007). Para Marx e Engels,
qualquer fenômeno social precisa ser investigado a partir da análise da base econômica
da sociedade em vigência.

Outro detalhe importante que deve ser considerado na teoria marxista é a


importância que coloca no conhecimento da realidade social para conversão
em instrumento político, o que promove a orientação das classes sociais para a
transformação da sociedade e a emancipação dos indivíduos.

A função da sociologia, nessa perspectiva, não era a de


solucionar os "problemas sociais", com o propósito de
restabelecer o "bom funcionamento da sociedade", como
pensaram os positivistas. Longe disso, ela deveria contribuir
para a realização de mudanças radicais na sociedade. Sem
dúvida, foi o socialismo, principalmente o marxista, que
despertou a vocação crítica da sociologia, unindo explicação
e alteração da sociedade, e ligando-a aos movimentos de
transformação da ordem existente (MARTINS, 1994, p. 31).

44 Homem, Cultura e Sociedade


U1

No final do século XIX e início do século XX, a Sociologia contou com a contribuição
do pensador Max Weber, quem também foi um marco de referência para os estudos
dessa ciência. Weber se dedicou a manter a distinção entre o conhecimento científico
e os julgamentos de valor sobre a sociedade. Weber foi influenciado pelo contexto
intelectual alemão da sua época, por algumas ideias de Kant, como a de que todo
indivíduo possui capacidade e vontade para assumir uma posição consciente diante
do mundo.

Weber recebeu também forte influência do pensamento marxista, porém não


concordava com o princípio de que a economia dominava as demais esferas da
realidade social e nem considerava o capitalismo um sistema injusto. Considerava o
capitalismo um sistema preciso e eficiente (MARTINS, 1994).

Weber sempre deu ênfase à necessidade do conhecimento sociológico científico,


porém, ao contrário do positivismo, atribuía-lhe um papel ativo na elaboração do
conhecimento. Martins (1994, p. 37) afirma que a obra de Weber, assim como a de
Marx, Durkheim, Comte, Tocqueville, Le Play, Toennies, Spencer, entre outros, constitui
um momento decisivo na formação da sociologia enquanto ciência, estruturando as
bases do pensamento sociológico.

A sociologia contemporânea, apesar de sofrer influências ainda, ora mais


conservadoras, ora mais transformadoras, teve grandes avanços enquanto ciência,
principalmente nas últimas décadas no século XX. A função do sociólogo hoje é aplicar
o conhecimento sociológico às transformações sociais, em busca de uma sociedade
mais justa e igualitária.

Pesquise mais

Este texto procura esclarecer o “compromisso” da sociologia com o mundo


moderno formado com o desenvolvimento do capitalismo.

IANNI, Octavio. A sociologia e o mundo moderno. Tempo Social; Rev.


Social. USP, S. Paulo, v. 1, n. 1, p. 7-27, 1º sem. 1989. Disponível em: <http://
ucbweb.castelobranco.br/webcaf/arquivos/12838/9270/Texto_Integra_A_
Sociologia_e_o_Mundo_Moderno.pdf>. Acesso em: 31 de ago. 2015.

No livro A educação para além do capital, Mészáros ensina que deve-se pensar a
sociedade tendo como parâmetro a superação da lógica desumanizadora do capital,
que tem no individualismo, no lucro e na competição seus fundamentos (MÉSZÁROS,
2008, p. 9).

Mészáros é um pensador com um embasamento no marxismo, razão pela qual


percebemos reflexões da sua parte que lembram bastante o que Karl Marx defendeu

Homem, Cultura e Sociedade 45


U1

em suas obras. Porém, independentemente de qual linha de pensamento aderir, é


importante perceber a grande contribuição que o marxismo deixa para a sociedade,
com relação à crítica e reflexão que devemos realizar constantemente com relação
aos fatos atuais e à históricos, em todas as áreas do conhecimento, para sermos
indivíduos mais conscientes e livres para pensar e decidir.

A Sociologia, então, se firma como ciência justamente quando o modelo


capitalista se consolida, graças às grandes transformações pelas quais a sociedade
passa em vários setores sociais e também na forma de pensar. A Sociologia ganha
forças para contribuir com a compreensão dessas transformações sociais e do
indivíduo social nesse contexto.

Em uma nação livre na qual não se permite a escravidão, a


riqueza mais segura consiste numa multidão de pobres
laboriosos. Assim, para fazer feliz a sociedade e manter
contentes as pessoas, ainda que nas circunstâncias mais
humildes, é indispensável que o maior número delas sejam ao
mesmo tempo pobres e totalmente ignorantes (MANDEVILLE,
1982, p. 190 apud LOMBARDI; SAVIANI, 2008).

Portanto, é o conhecimento crítico, consciente e formativo das ciências sociais,


humanas, entre outras, que vai proporcionar aos indivíduos a liberdade e a sua
emancipação. Como já dizia Karl Marx, em uma sociedade onde prevalecem a
exploração da classe dominante sobre a classe de dominados e as relações de poder,
torna-se impossível a emancipação da classe dominada.

De acordo com a situação-problema apresentada nesta seção, o conhecimento


sociológico é bastante complexo, pois envolve a compreensão de instituições, práticas
sociais, convicções, relações de poder, crenças, entre outros. Dessa forma, é somente
por meio do conhecimento que podemos desvelar e compreender essas relações.

Reflita

Vimos no texto da situação-problema o seguinte trecho: “Uma teoria


social é uma teoria a respeito das convicções dos agentes sobre a sua
sociedade, sendo ela mesma uma dessas convicções”.

Ou seja, pelo que estudamos até o momento, significa que as próprias


convicções de pensadores sobre o conhecimento social devem ser
estudadas, compreendidas e questionadas?

46 Homem, Cultura e Sociedade


U1

Exemplificando

Observe o trecho retirado do artigo: “Epidemiologia, Ciências Humanas e


Sociais e a integração das ciências”, de Czeresnia (2008, p. 1.113):

"Segundo Foucault, vida, assim como trabalho e linguagem, foram


categorias introduzidas a partir da virada do século XIX, quando ocorreu
a segunda descontinuidade na epistémê da cultura ocidental e que
marcou o limiar da modernidade. Para o autor, foi no contexto dessa
descontinuidade que o homem tornou-se uma figura do saber".

Quando Foucault cita que foi no momento da descontinuidade do


feudalismo e início da sociedade moderna que o homem torna-se uma
figura do saber, o que ele quer dizer?

Embora o conhecimento sempre tenha existido, é a partir do surgimento,


principalmente, das ciências humanas e sociais que o homem questiona
as explicações ligadas às questões religiosas e busca um conhecimento
mais racional, por meio da ciência. Inclusive, através dessas buscas é que
René Descartes desenvolve o famoso método cartesiano, que consiste
no Ceticismo Metodológico, ou seja, só se pode acreditar naquilo que
realmente não causa dúvida, que pode ser provado.

Faça você mesmo

Nesse mesmo trecho, Foucault afirma que, a partir do século XIX, ocorreu
a segunda descontinuidade na epistémê da cultura ocidental que marcou
o limiar da modernidade.

Você sabe qual foi a primeira descontinuidade na epistémê da cultura


ocidental, na passagem para o sistema feudal?

Vocabulário

Metafísica é uma palavra de origem grega, sendo a junção de meta =


depois de, além de; e física/Physis = natureza ou físico. Ocupa-se de
estudar a essência do mundo. Podemos considerar que é uma forma
de pensar a existência de algo da natureza ou físico, por inteiro, livre de
dogmas ou de qualquer outro tipo de influência.

Homem, Cultura e Sociedade 47


U1

Sem medo de errar


Vamos agora pensar nas questões referentes à situação-problema colocada no início
desta seção e os conteúdos que estamos estudando. Estudamos até o momento o
contexto do surgimento das ciências sociais, seu desenvolvimento e seus principais
pensadores. Compreendemos que Sociologia, pelos primeiros pensadores dessa
ciência, ainda em uma linha positivista, surge em meio às transformações e mudanças
sociais, aos interesses, conflitos, lutas, revoltas, mudanças na forma de pensar, entre
outros aspectos da época. Ou seja, em razão da necessidade de compreender e explicar
essas transformações.

Quando o autor do texto de nossa SP cita que lhe chamou a atenção uma manchete
no jornal: “A contraposição proposta entre inflação e crescimento sustentável, por
exemplo, pertence à retórica oportunista da política, não ao debate informado”. Em
seguida disparam: 'Desqualifica-se a divergência de ideias, atribuindo-a a interesses
contrariados'". Identificamos justamente esses conflitos e interesses reais e sociais,
próprios de uma sociedade capitalista e que a sociologia, desde o seu surgimento, tenta
explicar, ora defendendo, ora criticando.

O autor da SP também indaga sobre a separação entre conhecimento e interesse.


Essa questão é familiar aos nossos ouvidos? De acordo com os pensadores, com uma
linha mais crítica ao sistema capitalista, nas relações de poder e interesses da classe
dominante, não é interessante oferecer um conhecimento crítico, de qualidade
e democrático a todos, de forma justa. Isso porque precisam manipular, controlar e
dominar as classes que não detêm o acúmulo de capital, para manter o poder.

Lembre-se

São características clássicas do capitalismo: sistema produtivo vinculado à


propriedade individual; acumulação de capital; livre iniciativa da regulação
do mercado, sem ou pouca intervenção do Estado; divisão de classes,
em que uma minoria detém os meios de produção e de capitais e uma
maioria vende sua força de trabalho em troca de um salário que, na
maior parte dos casos, não garante as necessidades básicas da maioria
dos trabalhadores. Desse processo, o capitalista adquiriu a mais-valia, que
corresponde aos lucros oriundos do trabalho do proletário.

Assim, o grande desafio das ciências sociais, desde o seu surgimento, utilizando as
palavras do autor da SP, é a investigação, não apenas das instituições e práticas sociais,
mas também das convicções que os agentes têm sobre a sua própria sociedade –
investigar não apenas a realidade social, mas os saberes que se debruçam sobre ela. Uma
teoria social é uma teoria a respeito das convicções dos agentes sobre a sua sociedade,
sendo ela mesma uma dessas convicções.

48 Homem, Cultura e Sociedade


U1

Atenção!

As ciências sociais nem estiveram, nem estão, sempre ao lado das questões
mais justas para a sociedade como um todo. Por isso, é uma teoria social
a respeito das convicções dos agentes sobre a sua sociedade, sendo
ela mesma uma dessas convicções, e, portanto, precisa ser estudada e
compreendida.

Avançando na prática

Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com as de
seus colegas.

“Capitalismo: prós e contras”


Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamento de
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
área
explicação da realidade social.
Por meio da nova SP, espera-se que você compreenda a
2. Objetivos de aprendizagem
relação das ciências sociais e o sistema capitalista.
Igreja Católica, conservadores americanos, prós e contras
3. Conteúdos relacionados
sobre o capitalismo.
Leia o trecho retirado da notícia “Papa Francisco diz querer dialogar
com críticos de discurso anticapitalista”, publicado pela Folha de São
Paulo em 13/07/2015. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/
mundo/2015/07/1655070-papa-francisco-diz-querer-dialogar-com-
criticos-de-discurso-anticapitalista.shtml>. Acesso em: 31 ago. 2015.
O Papa Francisco disse nesta segunda-feira (13) que reconhece as
críticas feitas por conservadores americanos a seu discurso contrário ao
capitalis-mo e disse ter vontade de dialogar com eles. ‘Ouvi que houve
muita crítica vinda dos Estados Unidos. Não tive tempo de estudar
bem isto, mas todas as críticas devem ser recebidas, estudadas para
depois serem alvo de um diálogo’, disse Francisco, na volta a Roma. A
declaração foi feita em resposta ao pronunciamento na missa de Santa
Cruz de la Sierra, na Bolívia, na última sexta (9). Nele, o pontífice chamou
4. Descrição da SP
o capitalismo de ‘ditadura sutil’ e defendeu ‘uma mudança de estruturas’
mundial. Depois do discurso, conservadores americanos, alguns deles
altos dirigentes católicos, chamaram as críticas do papa sobre o uso de
combustíveis fósseis e o livre mercado de ‘falhas e irresponsáveis’. Para os
defensores do capitalismo, o desenvolvimento econômico no sistema
capitalista é o principal motivo para que milhares de pessoas tenham
deixado a pobreza no mundo”.
Desde que o capitalismo existe, há pessoas que defendem o sistema
e há aquelas que possuem muitas críticas. Os próprios pensadores
das ciências sociais possuem tanto defesas quanto críticas ao sistema
capitalista. Dê sua opinião sobre o sistema capitalista, utilizando um
pensador das ciências sociais, entre aqueles que estudamos, para justificar
a sua resposta.

Homem, Cultura e Sociedade 49


U1

Você deve dar sua opinião sobre o sistema capitalista de


forma coerente, utilizando um dos estudiosos das ciências
sociais, abordados durante o texto do livro didático, para
justificar a sua resposta.
5. Resolução da SP A intenção não é fazer que você seja contra ou a favor do
sistema capitalista, mas levá-lo a compreender o que é, como
surgiu e como as ciências sociais contribuíram e continuam
a contribuir para a compreensão de todas as relações sociais,
neste sistema econômico e político.

Lembre-se

Aos poucos, várias linhas de pensamento e compreensão dessas novas


realidades surgem nessa nova ciência social, tanto para manter como
para alterar os fundamentos da sociedade.

Faça você mesmo

Ainda sobre o texto da situação-problema, reflita sobre o seguinte trecho:


“(...) na missa de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, na última sexta (9).
Nele, o pontífice chamou o capitalismo de ‘ditadura sutil’ e defendeu
‘uma mudança de estruturas mundial’”.

Essa declaração e posição do Papa Francisco foi sempre assumida pela


Igreja Católica? Fale um pouco sobre o que identifica.

Faça valer a pena!

1 – O que é correto afirmar sobre o surgimento das Ciências Sociais?

a) Surgiu em meio à crise do sistema feudal.

b) A sociologia foi obra de um único pensador, chamado Karl Marx.

c) A ciência social surge com o objetivo de manter a ordem social.

d) A ciência social foi pensada e elaborada pela burguesia.

e) Surge da necessidade da sociedade e de vários pensadores de compreender as


transformações sociais que ocorriam com o fim do feudalismo e início da sociedade
capitalista.

50 Homem, Cultura e Sociedade


U1

2 – Juntamente com as transformações sociais e econômicas, as formas de


pensamento também se transformaram. Nesse sentido, o que é correto afirmar?

a) A Igreja passa a ter um domínio maior sobre a forma de pensar dos indivíduos.

b) Os indivíduos passam a pensar no coletivo e as classes sociais são extintas.

c) Surgem novos paradigmas de pensamento, com base nos quais as explicações


ligadas a crenças e superstições dão lugar ao pensamento mais racional e científico.

d) Surge o pensamento positivista, que perdura até os dias atuais, com a mesma
proposta inicial.

e) Os novos paradigmas de pensamento buscam a estabilização da nova ordem, o


capitalismo.

3 – Quais são os primeiros pensadores da Ciência Social?

a) Montesquieu, Saint-Simon e Auguste Comte.

b) Karl Marx e Friedrich Engels.

c) Max Weber e Émile Durkheim.

d) Michael Foucault e Saint-Simon.

e) Tocqueville, Le Play, Toennies.

Homem, Cultura e Sociedade 51


U1

52 Homem, Cultura e Sociedade


U1

Referências
ANGELO, M. D. A modernidade pelo olhar de Walter Benjamim. Revista Estudos
Avançados, n. 20. Ano 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ea/
v20n56/28637.pdf>. Acesso em: 01 set. 2015.
CARTA, Mino. Todos à la place. Por quê? Revista Carta Capital, jan. 2015. Disponível
em: <http://www.cartacapital.com.br/revista/833/todos-a-la-place-por-que-4996.
html>. Acesso em: 08 set. 2015.
CZERESNIA, D. Epidemiologia, ciências humanas e sociais e a integração dasciências.
Rev. Saúde Pública, v. 42,n. 6, p. 1.112-1.117, 2008. Disponível em: <http://www.revistas.
usp.br/rsp/article/view/32560>. Acessoem: 02 set. 2015.
FOLHA DE S.PAULO. Papa Francisco quer dialogar com críticos de discurso anticapitalista.
Jul. 2015. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/07/1655070-
papa-francisco-diz-querer-dialogar-com-criticos-de-discurso-anticapitalista.shtml>.
Acesso em: 31 ago. 2015.
FORMAN, S. Além da casa-grande e da senzala: um campesinato no Brasil. Rio de
Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2009. Disponível em: <http://books.
scielo.org/id/c26m8/pdf/forman-9788579820021-03.pdf>. Acesso em: 30 ago. 2015.
FRANCO JUNIOR, H. Georges Duby e o outro lado do feudalismo. Revista de
História, n. 113, 1983. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/
view/61799>. Acesso em: 27 ago. 2015.
GERMANO, M. G. Uma nova ciência para um novo senso comum. Campina Grande:
EDUEPB, 2011. Disponível em: <http://static.scielo.org/scielobooks/qdy2w/pdf/
germano-9788578791209.pdf>. Acesso em: 30 ago. 2015.
JORNAL DA CULTURA. “Brasil, ame-o ou deixe-o”: regime divide sociedade com
exílios e cassações. 2013. Disponível em: <http://cmais.com.br/jornalismo/politica/
brasil-ame-o-ou-deixe-o-regime-divide-sociedade-com-exilios-e-cassacoes>. Acesso
em: 01 set. 2015.
KECK, M. E. A lógica da diferença: o partido dos trabalhadores na construção da
democracia brasileira [on-line]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais,
2010. pp. 37-63. A transição brasileira para democracia. Disponível em: <http://books.
scielo.org/id/khwkr/pdf/keck-9788579820298-02.pdf>. Acesso em: 24 ago. 2015.
LAZAGNA, Ângela. Balanço do debate: a transição do feudalismo para o capitalismo.
Revista Crítica Marxista, n. 20, p. 182-185, 2004. Disponível em: <http://www.ifch.
unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/critica20-R-lazagna.pdf>. Acesso em:
28 out. 2015.
LOMBARDI, C.; SAVIANI, D. (orgs.). Marxismo e Educação: debates contemporâneos.
2ª ed. Campinas: Autores Associados – HISTEDBR, 2008.

Homem, Cultura e Sociedade 53


U1

LUZ, R. S. da. Trabalho alienado em Marx: a base do capitalismo. 2008. 101 f.


Dissertação (Mestrado em Filosofia)-Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008. Disponível em: <http://repositorio.
pucrs.br/dspace/handle/10923/3502>. Acesso em: 12 set. 2015.
MARIUTTI, E. B. Balanço do debate: a transição do feudalismo ao capitalismo.
Dissertação (Mestrado em Ciências Econômicas), UNICAMP, IE, 2000. Disponível em:
<http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000197596>.Acesso
em: 20 ago. 2015.
MARTINS, C. B. O que é sociologia. São Paulo: Brasiliense, 1994
MÉSZÁROS, I. A educação para além do capital. Trad. Isa Tavares. São Paulo: Boitempo,
2008.
NASCIMENTO, A. C. Na trama da revolução francesa com Jules Michelet. Saeculum,
n. 8-9, jan./dez. 2002-2003. Disponível em: <http://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/
srh/article/view/11282>. Acesso em: 27 ago. 2015.
OLIVEIRA, J. M. Estado e economia durante a Revolução Francesa: o conjunto
dasreivindicações econômicas e sociais de Hébert/Pére Duchesne. Dimensões, n. 10,
2000. Disponível em: <http://www.periodicos.ufes.br/dimensoes/article/view/2318>.
Acesso em: 27 ago. 2015.
REZENDE, C. C. Suicídio revolucionário: a luta armada e a herança da quimérica
revolução em etapas [on-line]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura
Acadêmica, 2010. 258p. ISBN 978-85-7983-082-2. Disponível em: <http://books.
scielo.org/id/9zhsp/pdf/rezende-9788579830822-05.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2015.
RODRIGUES, C. M. Críticos da Revolução Francesa: conservadores tradicionalistas e
contrarrevolucionários. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, n. 3, p. 343-367,
jan./jul. 2010.
SANTOS, R. Agraristas políticos brasileiros [on-line]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein
de Pesquisas Sociais, 2008, p. 116-128. Ivan Ribeiro: a agricultura e o capitalismo ao
brasil. ISBN: 978-85-99662-81-6. Disponível em: <http://books.scielo.org/id/59grm/
pdf/santos-9788599662816-07.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2015
UOL EDUCAÇÃO. História geral: renascimento comercial: fim do feudalismo e o
capitalismo comercial. 2005. Disponível em: <http://educacao.uol.com.br/disciplinas/
historia/renascimento-comercial-fim-do-feudalismo-e-o-capitalismo-comercial.htm>.
Acesso em: 6 nov. 2015.
WOOD JR., Thomaz. Panóptico corporativo: empresas adotam arranjos com
espaços abertos em seus escritórios e alguns efeitos colaterais podem ser infaustos.
Revista Carta Capital, maio 2014. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/
revista/800/panoptico-corporativo-580.html>. Acesso em: 16 set. 2015.

54 Homem, Cultura e Sociedade


Unidade 2

AS CIÊNCIAS SOCIAIS: FORMAS


DE COMPREENDER O MUNDO

Convite ao estudo

O tema a ser desenvolvido na Unidade 2 entra no universo da sociologia,


mais especificamente sobre a explicação sociológica da vida coletiva. A
sociologia, em sua definição mais básica, conforme nos apresenta Dias
(2014), é o estudo científico do comportamento humano que é construído
pela sociedade. Contando com essa ciência, vamos observar, analisar e
compreender várias marcas da intensa trama das interações humanas. E,
principalmente, refletir como atuamos a partir das nossas interações sociais,
possibilitando escolhas mais conscientes, cidadãs, éticas.

Veja as competências e os objetivos da disciplina:

Competência de Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam


fundamento de área: o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
explicação da realidade social.
Objetivo geral: Compreender o homem a partir de sua inserção em uma
sociedade, em uma cultura própria com as múltiplas
possibilidades de atuação nesse universo de interações
sociais.
Objetivos específicos: • Entender as bases da vida social humana e da
organização da sociedade usando a cientificidade da
Sociologia.
• Conhecer a constituição histórica das classes sociais e
como se revelam na sociedade atual.
• Relacionar a desigualdade social à compreensão de
fenômenos das relações sociais.
• Compreender o processo de racionalização no mundo
moderno.
• Identificar e reconhecer forças sociais na vida diária.
U2

Acompanhe a seguinte situação geradora de aprendizagem:

“Quando se lê que Maria, 35 anos, casada, dona de


casa, brasileira, votará em determinado candidato, não
tomamos conhecimento apenas da opinião de uma
pessoa isolada, mas do grupo de pessoas do qual Maria
passa a ser a representante: o das mulheres dessa idade,
donas de casa, casadas e brasileiras. Isso porque os
conhecimentos de sociologia hoje já não estão restritos
aos cientistas sociais. Eles se popularizaram e passaram
a fazer parte de um modo de perceber e interpretar
os acontecimentos, resultante da disseminação de
procedimentos e técnicas de pesquisa social nos mais
variados campos.” (COSTA, 2005, p. 20).

Costa (2005) nos apresenta um raciocínio usado para compreender


o comportamento eleitoral que decorre da aceitação generalizada dos
conhecimentos básicos da sociologia e dos métodos de pesquisa que essa
ciência utiliza. Você já acompanhou outras pesquisas que apontam índices
para a compreensão de algum fenômeno social? Quais? Por que confiamos
nessas pesquisas?

Há índices para medir, por exemplo: violência; frequência a aulas,


museus, espetáculos; porcentagens que medem apoio da população em
relação ao governo, marcas de produtos, fidelidade a marcas; previsões
acerca do comportamento eleitoral da população, da economia, dentre
outros. Damos crédito a essas pesquisas e amostragens ao reconhecer que a
vida social está determinada a regras e também à confiança dos mecanismos
e procedimentos de pesquisa para desvendar tais regras. Mesmo que
não conheça como se dão os procedimentos científicos para realizar as
pesquisas, o público nelas, atribui credibilidade, revelando a segurança da
investigação científica da realidade social. Frente a essas reflexões, o foco
desta Unidade 2 seguirá pela busca de respostas às seguintes questões:

- Como a sociologia explica as bases da vida social humana, a organização


da sociedade?

- De que forma a desigualdade social, a constituição das classes sociais e


o processo de racionalização moldam nossas relações sociais?

56 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

Para vencer esses desafios, acompanhe nesta unidade as quatro seções.


Na primeira, vamos entender as diferentes interpretações da realidade
social. Também vamos compreender a cientificidade da Sociologia, além
da ação social e seus tipos. Classes sociais, exploração e alienação serão o
tema da nossa segunda seção. A terceira seção vai tratar especificamente
sobre a desigualdade social, relacionando-a à compreensão de fenômenos
que se estabelecem nas relações sociais. A quarta seção tem como tema
capitalismo, desigualdade e dominação em Max Weber.

No transcorrer de sua aprendizagem, das análises, dos estudos de caso


e de suas leituras, você vai identificar e reconhecer forças sociais que atuam
na sua vida diária. Bons estudos!

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 57


U2

58 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

Seção 2.1

As diferentes interpretações da realidade social

Diálogo aberto

No processo de interação construímos nossa identidade social. É a identidade social


que marca quem somos, nossos planos de ação, permite estabelecer critérios para
avaliar nosso desempenho, ampliando o significado que damos à vida. A afirmação
da identidade social estabelece nosso parâmetro em relação a outros sujeitos da
sociedade. Uma roupa pode diferenciar, distinguir uma pessoa num grupo, assim como
ter uma certa aptidão para realizar algo, para tocar um instrumento, por exemplo,
também tem o mesmo efeito. Em qualquer situação as identidades sociais estão em
evidência. São os comentários dos demais à aceitação ou não – sobre qualquer peça
do vestuário, sobre a forma física ou sobre a habilidade com algum instrumento –
que vão posicionar o indivíduo e afirmar sua identidade social. O que temos aqui é a
reafirmação de que precisamos dos demais, do grupo, para nos vermos através desse
outro espelho. É o grupo social que oferece um parâmetro de quem somos dentro
da nossa sociedade.

Nesta seção vamos entender as bases da vida social humana e da organização


da sociedade usando a cientificidade da sociologia. Também vamos compreender a
ação social e seus tipos.

Acompanhe agora a situação-problema desta seção:

Victor, o “selvagem de Aveyron”

O "menino selvagem" Victor de Aveyron é um dos casos mais


conhecidos de seres humanos criados livres em ambiente
selvagem. Provavelmente abandonado numa floresta aos
quatro ou cinco anos, foi objeto de curiosidade e provocou
discussões acaloradas principalmente na França, onde o
caso ocorreu. Sua história oficial começa em 1797, quando
um menino inteiramente nu, que fugia do contato com as

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 59


U2

pessoas, foi visto pela primeira vez na floresta de Lacaune. Em 9 de


janeiro de 1800 foi registrado seu aparecimento num moinho em
Saint-Sernein, distrito de Aveyron. Tinha a cabeça, os braços e os
pés nus; farrapos de uma velha camisa cobriam o resto do corpo.
Era um menino de cerca de 12 anos de idade, media 1,36 m, tinha
a pele branca e fina, rosto redondo, olhos negros e fundos, cabelos
castanhos e nariz comprido e aquilino. Sua fisionomia foi descrita
como graciosa; sorria involuntariamente e seu corpo apresentava a
particularidade de estar coberto de cicatrizes. Victor não pronunciava
nenhuma palavra e parecia não entender nada do que falavam com
ele. Apesar do rigoroso inverno europeu, rejeitava roupas e também
o uso de cama, dormindo no chão sem colchão. Quando procurava
fugir, locomovia-se apoiado nas mãos e nos pés, correndo como os
animais quadrúpedes (LEONARDE, s.d.).

Note como essa história provoca interessantes questões. Dentre tantas que você já
deve estar se fazendo, vamos nos debruçar especialmente sobre estas três:

- Victor, por ter sido privado do contato com outras pessoas, não conseguia se
comunicar através da fala com outros humanos. O que nos marca como humanos?

- As características humanas dependem do convívio social? Responda e dê


exemplos.

- Quais as consequências da privação do convívio social e da ausência da


educação social humana para a inteligência de um adolescente que viveu assim,
separado de indivíduos de sua espécie?

Não pode faltar


Desde o início dos tempos há um estreito vínculo entre o homem e o meio natural.
Você pode notar que, mesmo com todos os inúmeros avanços tecnológicos, não
conseguimos nos tornar independentes dos recursos naturais. A história humana tem
muitos registros – desde as fases mais primitivas – da íntima relação que temos com a
natureza, uma vez que era tida primordialmente como fonte de alimento e, portanto,
como única possibilidade de sobrevivência da nossa espécie.

Numa primeira dimensão, o homem está frente ao mundo natural, mundo que
não foi construído por ele, regido por leis próprias, independentes de qualquer desejo
ou intervenção humana. Tentamos incessantemente compreender e atuar no mundo

60 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

que vai se humanizando ao longo da História por nossa ação intencional e direta. Essa
intervenção milenar do homem, geração após geração, de forma incessante, produz
a segunda dimensão na qual vivemos: a cultura.

Assimile
Para Aristóteles – filósofo da Grécia antiga – o homem, ser que tende
naturalmente para o saber, não se contenta apenas com tudo o que a
natureza lhe disponibiliza; quer ir mais além, quer conhecer o enredo da
própria natureza, da qual ele também é parte. É próprio do ser humano
questionar a cultura e o mundo na tentativa de dominar esse mundo e de
produzir cultura de forma intencional.

O homem não se encarrega apenas de habitar e usufruir do ambiente físico original.


Promove infindáveis alterações em consonância com sua cultura para, principalmente,
obter satisfação e conforto. É nesse ambiente físico que construímos nosso ambiente
social.

Assimile
Ambiente social é o conjunto de coisas, forças ou condições em relação
e em contato com os seres humanos, incluindo tanto a cultura material
concreta – como aparelhos tecnológicos, construções –, quanto
características culturais dos sistemas sociais que determinam e moldam
as formas como a vida social é exercida.

O ser humano, construído a partir de sua natureza – a natureza humana –, se


apropria e altera o ambiente com comportamentos, modos, valores e expressões
próprios da sua cultura e da sua história política, social e econômica. Revela-se então
uma intensa relação homem-ambiente-cultura, compondo o que chamamos de
universo social.

Perceba como isso amplia as diferenças entre o ser humano e o animal, diferenças
que não são apenas de grau: enquanto o animal permanece mergulhado na natureza
e determinado exclusivamente por ela, nós somos capazes de transformar a natureza
em cultura. Ao forjar o homem, ao proporcionar sua dimensão humanística, a cultura
enriquece a natureza, acrescentando assim algo à natureza. É através desse ininterrupto
processo que transitamos do estado natural ao estado cultural.

Em várias atividades humanas podemos constatar a criação cultural, tais como na


produção artística, nas formas de comunicação (formas de linguagens), na alimentação,
na agricultura, nos meios de transporte, nas construções, na criação da economia, da
sociologia, da filosofia, da cibernética, da matemática, da física, da medicina.

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 61


U2

Segundo Chaui (2012), a relação homem-natureza prevê que a ação humana deveria
garantir aperfeiçoamento à própria natureza do homem. Isso significa que as ações
do homem são a intervenção voluntária, intencional e deliberada sobre a natureza
para transformá-la conforme os valores de sua sociedade. Diante dessa perspectiva,
a cultura compunha a moral (quando se trata dos costumes da sociedade), a ética
(a conduta e o caráter das pessoas através da modelagem do seu ethos natural pela
educação) e a política (as instituições humanas, o poder, a participação do cidadão nas
decisões da cidade).

Pesquise mais
Você já sabe que o Brasil tem o Ministério da Cultura, mas sabia também
que disponibiliza um site especial? Vale a pena uma visita. Percorra a
grande variedade de informações ligadas à cultura brasileira, com temas
relacionados a museus, filmes, patrimônio, cultura afro, artes e tantos
outros interessantes assuntos. Tal como o tema “cultura” é muito amplo, o
site também é. (Disponível em: <http://www.cultura.gov.br>. Acesso em:
29 jun. 2015.)

Neste portal você tem acesso a vários textos sobre Sociologia. Escolhendo
o tema, a partir dos títulos indicados, você entrará num vasto e interessante
universo. (Disponível em: <http://educacao.uol.com.br/disciplinas/
sociologia/>. Acesso em: 11 jun. 2015.)

Para conhecer o ser humano é preciso considerá-lo inserido em uma sociedade,


em uma cultura, entender como se configuram os processos de relação com o meio
natural. Essas ações se dão em um momento histórico e em condições políticas e
econômicas particulares, próprias a cada momento.

Que instrumentos vamos usar para estudar e entender o mundo natural e social? Há
métodos sistematizados, científicos, padronizados? Vamos nos voltar à compreensão
das Ciências Sociais em contraposição às Ciências Naturais. Dias (2014) estabelece
uma clara distinção entre essas ciências:

As Ciências Naturais são as disciplinas que buscam a


compreensão do mundo natural – físico, biológico –
utilizando o método científico para encontrar padrões nas
relações de causa e efeito dos fenômenos naturais. Essas
disciplinas abrangem determinados aspectos da realidade
natural, dividindo-as em campos de estudo, por exemplo: a
química, a física, a biologia e assim por diante. (...)

62 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

As Ciências Sociais têm como objeto de estudo as interações


humanas, concentrando-se portanto no mundo social, e, assim
como as ciências naturais, buscam a objetividade através da
utilização rigorosa do método científico. E, da mesma forma
que as ciências naturais, também são divididas em campos
especializados, tais como: sociologia, psicologia, economia,
ciência política, administração, antropologia, e assim por diante
(DIAS, 2014, p. 15-16).

A sociologia apresenta-se então como uma divisão das Ciências Sociais e,


especificamente para Dias (2014), é o estudo sistemático dos grupos e sociedades
criados pelos seres humanos e de como estes, por outro lado, afetam a vida das
pessoas. De modo amplo, todas as Ciências Sociais se debruçam sobre os estudos
do comportamento humano. Mas, mesmo que se insiram num tema comum,
básico a todas, cada ciência se volta para um aspecto distinto do comportamento.
Especificamente, os sociólogos focalizam as áreas nas quais a estrutura social e a
cultura criam inter-relações, se interseccionam.

Para Costa (2005), foi necessário entender as bases da vida social humana e da
organização da sociedade usando um pensamento que permitisse a observação,
o controle e a formulação de explicações plausíveis. A busca pela cientificidade da
sociologia passa pela credibilidade que suas formas assumem frente a um mundo
marcado pelo racionalismo – pela crença no poder da razão humana em alcançar
a verdade – a fim de que fosse então possível prever e controlar os acontecimentos
sociais a partir do uso de eficientes mecanismos de intervenção.

A partir de então, o homem começou a experimentar métodos


e instrumentos de análise capazes de interpretar e explicar a
experiência social segundo os princípios do conhecimento
científico. Isso significou, como nas demais ciências, propor
conceitos, hipóteses e formas de averiguação sobre a
sociedade que pudessem guiar a ação humana, permitindo
previsões e intervenções com pelo menos o mínimo de
credibilidade e eficiência (COSTA, 2005, p. 19).

Sabemos o quanto a vida coletiva e as relações humanas são complexas. Com


o conhecimento que agora temos – graças à sociologia –, passamos a uma nova
instância, a outro patamar: temos formas diversas de observar, entender e enfrentar
a realidade social, além de possuir mecanismos para resolver esses problemas,

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 63


U2

respondendo assim às necessidades de intervenção e controle. Passamos então a


compreender a realidade social na qual vivemos, não mais como sorte ou acaso, mas
como resultado de forças próprias da vida coletiva.

Reflita
Com a sociologia, assim como ocorreu também com as demais ciências,
surge um jargão científico próprio com conceitos particulares para
designar aspectos importantes da sociedade. Ocorre que, segundo Costa
(2005), esse conhecimento não ficou restrito aos cientistas sociais. Acabou
sendo também apropriado pelo cidadão, por nós, passando a fazer parte
do cotidiano. Usamos então expressões e palavras, tais como contexto
social, movimentos e classes sociais, estratos, camadas e conflito social,
dentre tantas outras. Aparecem na publicidade, nos discursos políticos,
nos meios de comunicação de massa com referências, por exemplo, às
“elites”, às “classes dominantes”, às “pressões sociais”, como se todos que
as veiculam soubessem exatamente o que elas designam.

Veja só essas manchetes de jornais: “Negros ocupam só 18% dos cargos


de elite, aponta levantamento” (08/06/2015); “Mulheres sauditas tentam
suicídio para fugir de pressão social” (18/12/2007).

Pense: você já viu manchetes utilizando essas expressões? Já se deparou


com esse repertório, próprio da Sociologia, em situações cotidianas?

Um dos mais importantes teóricos da sociologia, o alemão Max Weber (1864 -1920),


desenvolveu a base de seu pensamento sociológico observando o indivíduo. Para
Weber, o indivíduo é responsável pela ação social. Mas o que é ação social? É a conduta
humana dotada de sentido: o indivíduo age conduzido por motivos que resultam da
influência da tradição, da emotividade e dos interesses racionais. O caráter social da
ação do indivíduo decorre, segundo Weber, da interdependência dos indivíduos: um
ator age sempre em função de sua motivação e da consciência de agir em relação
a demais atores. Como as normas, as regras e os costumes sociais não são externos
ao indivíduo, mas sim internalizado, ao agir, o indivíduo escolhe comportamentos,
condutas que variam conforme as diferentes situações.

Assimile
Ação social é um conceito que Weber estabelece para as sociedades
humanas. Indica que essa ação só existe quando o indivíduo estabelece
uma comunicação com os outros. Weber distingue a ação da relação
social. Para que se estabeleça uma relação social, é preciso que o sentido
seja compartilhado. Pela frequência com que certas ações sociais se

64 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

manifestam, o cientista pode conceber as tendências gerais que levam os


indivíduos, em dada sociedade, a agir de determinada forma.

Costa (2005) aponta que Weber revela a ação social como a conduta humana
dotada de sentido, isto é, de uma justificativa subjetivamente elaborada. Assim, o homem
passou a ter, enquanto indivíduo, na teoria weberiana, significado e especificidade. É o
homem que dá sentido à ação social, estabelece a conexão entre o motivo da ação,
a ação propriamente dita e seus efeitos, suas consequências. Para Weber, as normas
e regras sociais são o resultado do conjunto de ações individuais. Na teoria weberiana
não existe oposição entre indivíduo e sociedade: as normas sociais só se tornam
concretas quando se manifestam em cada indivíduo sob a forma de motivação.

Exemplificando
Veja, como exemplo, a ação social, no ato de escrever. Escrever uma
carta é uma ação social. Quando uma pessoa escreve uma carta, tem
a expectativa de que será lida por alguém. A ação só terá significado
se realmente envolver outra pessoa: o receptor, o leitor da carta. Mas,
nessa mesma visão, escrever uma poesia poderia não se configurar
como uma ação social. Se considerarmos que, ao escrever uma poesia,
as sensações do poeta, sua satisfação já estão asseguradas ao usar tal
forma de expressão, não envolverá então outra pessoa. Por outro lado, o
filósofo Jacques Rancière defende a ideia de que a literatura (o que inclui
a poesia) é uma forma de contribuir com o patrimônio sensível que é toda
a cultura de uma comunidade e que, por isso, o ato de escrever é um
exercício democrático, ou seja, também é um ato político, incluindo-se
aqui a poesia (RANCIÈRE, 1995, p. 20).

Nessa concepção, a função do sociólogo é compreender o sentido das ações


sociais, encontrar as conexões que determinam tais ações dentro daquela realidade
social específica. Perceba como o objeto da sociologia passa a se compor de uma
realidade infinita. Por isso recorre aos “tipos ideais” que servem como modelos e, a
partir deles, essa infinidade pode ser resumida em quatro ações fundamentais:

1. Ação social racional com relação a fins, na qual a ação é estritamente racional.
Toma-se um fim e este é, então, racionalmente buscado. Há a escolha dos melhores
meios para se realizar um fim. Neste tipo de ação, o indivíduo pensa antes de agir em
uma determinada situação: programa, mede, pesa e avalia as consequências.

2. Ação social racional com relação a valores, na qual não é o fim que orienta
a ação, mas o valor, seja ético, religioso, político, seja estético. Ação racional com
relação a valores está baseada em convicções como o dever, a sabedoria, a piedade,
a beleza, a dignidade ou a transcendência de uma causa. O indivíduo não considera

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 65


U2

as possíveis consequências. Age baseado nas suas convicções e acredita que tem
legitimidade para agir daquela forma. Não importa se as consequências sejam boas
ou ruins, prejudiciais ou não, o indivíduo age de acordo com aquilo em que acredita.

3. Ação social afetiva, em que a conduta é movida por sentimentos, tais como
orgulho, vingança, loucura, paixão, inveja, medo, etc., sentimentos de qualquer ordem.
Age efetivamente quem satisfaz suas necessidades, desejos, sejam de alegria, sejam de
ódio, de vingança.

4. Ação social tradicional, que tem como fonte motivadora os costumes ou hábitos
arraigados. É um tipo de ação que se adota de forma quase automática, reagindo a
estímulos aos quais o indivíduo está acostumado, habituado.

Para Costa (2005), os tipos ideais são uma construção teórica abstrata a partir
dos casos particulares analisados. O tipo ideal não se configura como um modelo
perfeito a ser buscado, mas é um instrumento de análise científica, uma construção
do pensamento que ajuda a conceituar fenômenos e formações sociais e identificar
na realidade observada suas manifestações.

O cientista constrói um modelo acentuando aquilo que lhe


pareça característico ou fundamento. Nenhum dos exemplos
representará de forma perfeita e acabada o tipo ideal, mas
manterá com ele uma grande semelhança e afinidade,
permitindo comparações e a percepção de semelhanças e
diferenças. Constitui-se em um trabalho teórico indutivo
que tem por objetivo sintetizar aquilo que é essencial na
diversidade das manifestações da vida social, permitindo a
identificação de exemplares em diferentes tempos e lugares
(COSTA, 2005, p. 98).

Weber elaborou os tipos de ação social que não podem ser encontrados em
estado puro, já que os indivíduos, ao agirem, misturam vários tipos de ação social.

Faça você mesmo


Weber (1991) defende que os costumes, as regras sociais, estão
internalizados no indivíduo, que ele carrega dentro de si. E, a partir dessas
normas, o sujeito escolhe comportamentos que se moldam dependendo
das situações. Esses “tipos ideais” foram agrupados por Max Weber em
quatro grandes categorias:

1- Ação tradicional: tem por base um costume arraigado, a tradição familiar

66 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

ou um hábito. Carrega expressões como, por exemplo: “Eu sempre fiz


assim” ou “Lá em casa sempre se faz desse jeito”.

2- Ação afetiva: tem por fundamento os sentimentos de qualquer ordem.


O sentido da ação está nela mesmo. O que importa é dar vazão às paixões
momentâneas. As expressões exemplares aqui são: “Tudo pelo prazer” ou
“O principal é viver o momento”.

3- Ação racional com relação a valores: baseia-se em convicções sem


levar em conta as consequências previsíveis. Age dessa forma o indivíduo
que diz: “Eu acredito que a minha missão aqui na Terra é fazer isso” ou “O
fundamental é que nossa causa seja vitoriosa”.

4- A ação racional com relação a fins: apoia-se numa avaliação da


relação entre meios e fins. É a ação do indivíduo que pesa e mede as
consequências, e afirma: “Se eu fizer isso ou aquilo, pode acontecer tal
coisa; então, vamos considerar qual é a melhor alternativa” ou “Acredito
que seja melhor conseguir tais coisas para atingir aquele alvo” ou ainda “Os
fins justificam os meios”.

Dê um exemplo que ilustre cada um dos quatro tipos ideais elaborados


por Weber. Elabore seu exemplo como um “caso”, uma pequena história
que represente cada tipo ideal.

Padrão de resposta: Veja se nos casos elaborados por você há consonância


com as frases que foram apresentadas como exemplos dentro do texto:

1- Ação tradicional: “Eu sempre fiz assim” ou “Lá em casa sempre se faz
desse jeito”.

2- Ação efetiva: “Tudo pelo prazer” ou “O principal é viver o momento”.

3- Ação racional com relação a valores: “O fundamental é que nossa


causa seja vitoriosa”.

4- A ação racional com relação a fins: “Se eu fizer isso ou aquilo, pode
acontecer tal coisa; então, vamos considerar qual é a melhor alternativa”
ou “Acredito que seja melhor conseguir tais coisas para atingir aquele alvo”
ou ainda “Os fins justificam os meios”.

Sem medo de errar

Agora vamos buscar juntos a resposta para a situação-problema apresentada no


início da seção considerando os conhecimentos trabalhados, elaborados, construídos

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 67


U2

e transformados ao longo do nosso percurso até aqui.

Lembre-se

A vida coletiva e as relações humanas são muito complexas. A sociologia


é uma das ciências que se debruçam sobre essas relações com um
foco especial sobre as formas diversas de observar, entender e enfrentar
a realidade social. Dispõe também de mecanismos para resolver os
problemas da vida em sociedade, respondendo assim às necessidades de
intervenção e controle.

Graças à sociologia, passamos então a compreender a realidade social


na qual vivemos, não mais como sorte ou acaso, mas como resultado de
forças próprias da vida coletiva.

Vamos retomar a situação-problema: O "menino selvagem" Victor de Aveyron


é um dos casos mais conhecidos de seres humanos criados livres em ambiente
selvagem. Provavelmente abandonado numa floresta aos quatro ou cinco anos, foi
objeto de curiosidade e provocou discussões acaloradas principalmente na França,
onde o caso ocorreu. Vejamos: Victor, o menino selvagem citado pela referência, por
ter sido privado do contato com outras pessoas, não conseguia se humanizar. O que
significa ser “humanizado”? O que nos marca como humanos? Note que esse fato
verídico nos remete à sociologia na busca por explicações para esse drama.

Considere como a sociologia trabalha, voltando-se o tempo todo para os


problemas que o homem enfrenta no cotidiano das relações em sua sociedade, seja
ela qual for. A sociologia busca uma análise sobre a realidade social com a lente do
conhecimento científico, estabelece teorias e as confronta com o mundo. Lança-nos
a olhar a vida social na sua totalidade com o reconhecimento de que há um sistema
de relações sociais no tempo e no espaço no qual as ações humanas se dão. Há
perguntas essenciais na sociologia que vão orientar você na busca pelas melhores
respostas a esta situação-problema. Veja: como nos forjamos enquanto indivíduos
com a ação do meio social? Como explicar a vida coletiva?

Lembre-se de que o homem é um “ser pensante” e se constrói na relação com


os pares. Trazemos conosco a necessidade essencial de sermos acolhidos num
ambiente social, de interagirmos e nos relacionarmos com outros para garantir nosso
desenvolvimento como seres humanos. Nessa intensa relação e interação com
outras pessoas, o filhote humano, desde o nascimento, vai se formando e sendo
gradativamente inserido na sociedade.

Analise a importância do lugar da interação, aquele grupo em que, ao ao nele


estarmos imersos, vamos sistematicamente recebendo informações sobre valores,
atitudes, regras, para então nos compormos como mais um indivíduo daquela

68 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

comunidade. O caminho para um homem ser um homem requer que ele conviva
e interaja em sociedade. Explique como somos seres de relações com nossos pares,
sociáveis, graças ao grupo que nos forjou.

Atenção!
Relacione o foco de seus estudos, descobertas e análises encaminhadas até
aqui com um cenário no qual esses fatores se conectam. Sua interpretação
a partir da análise do caso de Victor será ainda mais rica ao levar em conta
o referencial teórico trabalhado. A partir dessas informações, construa a
trama que poderá explicar como as características humanas dependem
do convívio, das relações sociais.

Avançando na prática

Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com as de
seus colegas.

“Ação social no mundo corporativo”


Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamento de
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
Área
explicação da realidade social.
Identificar diferentes ações sociais a partir de um caso
específico.
2. Objetivos de aprendizagem
Reconhecer que as ações sociais não são antagônicas, não se
opõem dentro de um mesmo cenário.
3. Conteúdos relacionados Ação social. Mundo corporativo.
Ricardo estava na empresa há pouco mais de seis meses
quando se deparou com um mecanismo de controle de
entrada para visitantes muito arcaico. Era o momento de
receber um importante investidor, sr. Lucas, que foi barrado
na portaria com uma longa exigência de informações que
tornou a espera desnecessariamente longa e enfadonha.
Ricardo ficou surpreso ao ver que, numa companhia tão
inovadora em alguns aspectos, ainda preservavam esse tipo
de procedimento. Ao questionar seu superior, ouviu alguns
4. Descrição da SP
argumentos, mas o que mais chamou a atenção de Ricardo foi
quando ele disse: “O controle de acesso às dependências da
nossa empresa sempre funcionou assim. Além disso, o chefe
da segurança, sr. Paulo, é funcionário antigo e de confiança.”
Logo no dia seguinte, ao caminhar com o investidor pela
companhia, ouviu elogios quando observaram o final do
almoço de alguns funcionários que recolhiam os lixos das
mesas e os descartavam corretamente nos recipientes
indicados.

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 69


U2

O sr. Lucas disse que reconhecia a importância da reciclagem,


mas ver pessoas numa empresa tão grande agindo juntas
com esse objetivo comum era muito animador.
Quais são as ações sociais classificadas por Weber que você
encontrou nesse caso? Explique-as. Por que, numa mesma
empresa, podemos encontrar diferentes ações sociais? Elas
são antagônicas? Justifique.
São duas ações sociais nos casos, conforme seguem:

a) Quanto à entrada de um visitante na empresa: ação social


tradicional, que tem como fonte motivadora os costumes ou
hábitos arraigados. É um tipo de ação que se adota de forma
quase automática reagindo a estímulos aos quais o indivíduo
está acostumado, habituado.

b) Quanto ao descarte do lixo: o cuidado com o planeta


também pode ser explicado como ação social racional com
relação a fins, na qual a ação é basicamente racional. O sujeito
ou o grupo pensam antes de agir, avaliam as consequências,
5. Resolução da SP escolhem os melhores meios para se realizar um objetivo que
é racionalmente buscado.
Essas ações sociais não são antagônicas, não há contradição
ao serem observadas num mesmo ambiente. Isso porque,
para Weber (1991), os tipos de ação social não existem em
estado puro, pois os indivíduos, quando agem no cotidiano,
mesclam alguns ou vários tipos de ação social. São os “tipos
ideais”, construções teóricas utilizadas pelo sociólogo para
analisar uma realidade. É o homem que dá sentido à ação
social, estabelece a conexão entre o motivo da ação, a ação
propriamente dita e seus efeitos, suas consequências. Para
Weber (1991), as normas e regras sociais são o resultado do
conjunto de ações individuais.

Lembre-se

As empresas são constituídas essencialmente de pessoas. E pessoas


estão sempre em uma relação social, estão em convívio com vínculos
complexos. Temos formas de observar, entender e enfrentar a realidade
social e possuímos também mecanismos para resolver problemas,
respondendo assim às necessidades de intervenção e controle. É dessa
maneira que podemos então compreender a realidade social na qual
vivemos como resultado de forças próprias da vida coletiva.

Faça você mesmo


As empresas divulgam os elementos do tripé “Missão - Visão - Valores” para
que o público interno e externo os conheça ainda com mais propriedade.
Esse tripé revela os princípios essenciais que regem uma empresa. Na
“Visão” temos o acumulado de convicções que direcionam a trajetória,
o caminho que se pretende percorrer, aquilo que a empresa busca ser a

70 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

médio e longo prazo, como ela deseja ser vista por todos. A “Visão” norteia
toda a organização com base nos princípios.

Como você pode relacionar a visão de uma empresa com os quatro tipos
de ação social elaborados por Weber? Explique.

Faça valer a pena

1. (UFU 2013 - Adaptado) “Ao contrário de outros pensadores sociológicos


anteriores, Weber acreditava que a sociologia deveria se concentrar na
ação social e não nas estruturas.” (GIDDENS, 2005. p. 33).
De acordo com essa assertiva, é correto afirmar que Weber considera que:

a) Ideias, valores e crenças podem gerar transformações nos grupos


sociais.
b) O fator mais relevante para a mudança social é o conflito de classes.
c) As estruturas existem de modo independente e externo aos indivíduos.
d) Os fatores econômicos são os mais importantes para as transformações
sociais.
e) A cultura é o mais relevante e decisivo elemento para garantir
transformação social.

2. O sociólogo alemão Max Weber define ação social como ação:


I – Racional, na qual o agente associa um sentido objetivo aos fatos sociais.
II – Desprovida de sentido subjetivo e sem motivação.
III – Dotada de sentido e orientada pela ação de outros indivíduos.
IV – Não orientada significativamente pela conduta do outro.
É correto o que se afirma apenas em:

a) I, II e III.
b) I e III.
c) III.
d) II.
e) I e IV.

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 71


U2

3. A sociologia proposta por Max Weber tem categorias básicas, que são a
ação social, a _______________ e o _______________.

A alternativa com a sequência de termos que completa corretamente as


duas lacunas é:

a) solidariedade mecânica, materialismo.


b) relação social, tipo ideal.
c) vontade de poder, julgamento de valor.
d) expropriação, fato patológico.
e) função social, idealismo.

72 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

Seção 2.2

Classes sociais, exploração e alienação

Diálogo aberto

Nesta seção vamos prosseguir com a resolução da problemática apresentada no


início da unidade. Temos uma “personagem”, Maria, com algumas características: 35
anos, casada, dona de casa, brasileira. Quando consideramos que Maria votará em
determinado candidato, não tomamos conhecimento apenas da opinião dela, mas do
grupo de pessoas do qual Maria é tida agora como representante: o das mulheres dessa
idade, donas de casa, casadas e brasileiras. Perceba como os conhecimentos que temos
de sociologia hoje não se restringem apenas aos cientistas sociais. Estão disseminados,
popularizaram-se, passaram a compor uma forma de observar e interpretar os
acontecimentos. Isso se deu graças à disseminação de procedimentos e técnicas de
pesquisa social nos mais variados campos (adaptado de COSTA, 2005, p. 20).

Vamos analisar, ao longo do nosso trabalho na Unidade 2, como a sociologia explica


as bases da vida social humana, a organização da sociedade e, também, de que forma
a desigualdade social, a constituição das classes sociais e o processo de racionalização
moldam nossas relações sociais. Na seção anterior entendemos as bases da vida
social humana e da organização da sociedade usando a cientificidade da sociologia.
Também compreendemos a ação social e seus tipos. Debruçamo-nos sobre como a
sociologia trabalha, voltando-se para os problemas que o homem enfrenta no cotidiano
das relações em sua sociedade. Analisamos e explicamos a importância do lugar da
interação, do grupo em que, ao estarmos nele imersos, vamos sistematicamente
recebendo informações sobre valores, atitudes, regras, para então nos compormos
como mais um indivíduo daquela comunidade. Vamos agora nos aprofundar sobre
esses conhecimentos considerando importantes bases do pensamento de Karl Marx,
que lançou a corrente de análise mais revolucionária tanto do ponto de vista teórico
como no da prática social. Karl Marx decifra o sistema capitalista e ainda mais: aponta
possibilidades de mudanças para transformar a realidade na política, na economia e
na própria sociedade.

Vejamos agora a situação-problema desta seção:

Joel é funcionário de uma fábrica de calçados. Ele e cada colega da linha de

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 73


U2

produção produzem um par de calçado a cada duas horas. E é nesse período – de


duas horas diárias –, que Joel produz o suficiente para pagar por todo seu trabalho. Mas
seu dia na fábrica compreende a jornada de oito horas, o que significa que produz, por
dia, quatro pares de calçados. O custo de produção de cada par de calçado continua
o mesmo, assim como o salário de Joel. Parece que Joel e cada colega da linha de
produção trabalham seis horas de graça, reduzindo assim o custo do produto.

- Quem lucra com a produção de Joel?

- Com base nesse caso, como explicar o conceito de mais-valia de Marx?

- Que é modo de produção? Como se revela no caso de Joel? Qual a importância


desse conceito para a análise que Marx faz das sociedades?

Não pode faltar

A sociologia, assim como é próprio das ciências, nos permite olhar a realidade
sob óticas variadas. Inclusive reside aí uma das maiores riquezas que as ciências nos
proporcionam: a possibilidade de levantar diferentes hipóteses, ter outras visões,
buscar e testar caminhos novos, questionar. Especificamente na sociologia, muitos
estudiosos, como Comte, Durkheim, Weber, Marx, dentre outros, nos apresentam
pressupostos teóricos que carregam diferentes níveis de abordagem. Resultam então
modelos teóricos particulares revelando peculiaridades da realidade, oferecendo
perspectivas diversas que se complementam. Você teve um ótimo exemplo da
amplitude desse leque de análises quando conheceu as ideias de Weber. Pôde notar
como esse sociólogo, com visão interpretativa e dinâmica, explicou os fatos à luz da
história e da subjetividade do agente social.

Vamos conhecer agora as bases do pensamento de Karl Marx, que lançou a


corrente de análise mais revolucionária, tanto do ponto de vista teórico como no da
prática social. Ele não escreveu de forma particular para acadêmicos, mas para todos
que desejassem assumir sua vocação revolucionária. Note que interessante: Karl Marx
não se limitou a tentar entender o sistema capitalista, mas também propôs mudanças
com a intenção de transformar a realidade no âmbito da política, da economia e da
sociedade.

Marx, acima de tudo, definia-se como um militante da causa


socialista, por isso suas ideias não se limitaram ao campo teórico
e científico, mas foram defendidas com luta como princípios

74 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

norteadores para o desenvolvimento de uma nova sociedade em


diferentes campos e batalhas, nos quais se confrontaram diversos
grupos sociais desde o século XIX, quando o marxismo se organiza
como corrente política (COSTA, 2005, p. 110).

Segundo Chaui (2014), a variação das condições materiais de uma sociedade constitui
a história dessa sociedade, e Marx as nomeou de modos de produção. A História é
a mudança, a transformação ou a passagem de um modo de produção para outro.
Mas essa mudança não ocorre por simples acaso ou por decisão e vontade livre dos
homens, ela ocorre, na verdade, conforme as condições econômicas, culturais e sociais
previamente estabelecidas. Observe que essas condições podem ser alteradas de uma
forma também determinada, graças à práxis humana frente às condições dadas.

Chaui (2014) cita Marx para ilustrar o fato de que a mudança de uma sociedade
ou a mudança histórica se faça em condições determinadas. Marx afirmou que: “Os
homens fazem a História, mas o fazem em condições determinadas”, isto é, que não
foram escolhidas por eles.

Exemplificando
Veja que interessante este exemplo: quando alguém diz que uma pessoa
é pobre porque quer, ou porque é preguiçosa, ou ainda ignorante, está
supondo que somos o que somos somente por nossa vontade. Não avalia
que a estrutura e a organização da economia, da sociedade, da política
tenham qualquer peso sobre nossas vidas.

Outro bom exemplo é quando uma pessoa diz ser pobre “por vontade de
Deus” e não dadas as causas das condições concretas em que vive. Ou,
ainda, como nos alerta Chaui (2014), quando faz uma afirmação racista,
segundo a qual “a Natureza fez alguns superiores e outros inferiores”.

Conforme aponta Chaui (2014), a alienação social é o desconhecimento das


condições histórico-sociais concretas em que vivemos, produzidas pela ação humana
também sob o peso de outras condições históricas anteriores e determinadas. Note
como a alienação é dupla: por um lado, os homens não se reconhecem como
autores e agentes da vida social e, por outro lado e ao mesmo tempo, se veem como
sujeitos livres, capazes de mudar suas vidas como e quando quiserem, a despeito das
condições históricas e das instituições sociais. No primeiro caso, não reconhecem
que instituem a sociedade e, no segundo, ignoram que a sociedade instituída molda e
determina seus pensamentos e atitudes.

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 75


U2

Assimile
Em sua origem, a palavra alienação, latim alienus, significa “de fora”,
“pertencente a outro”. Em razão disso, a princípio, um conteúdo jurídico
que designa a transferência ou venda de um bem ou direito. Mas, desde
Rousseau (1712-1778), passou a predominar como significado para o
termo a ideia de privação, de exclusão, de falta. Marx absorve o sentido
de injustiça, de desumanização e faz desse conceito peça-chave de sua
teoria para compreender a exploração econômica que o capitalismo
exerce sobre o trabalhador. Usa a palavra para descrever a falta de contato
e o estranhamento que o trabalhador tinha com aquilo que produzia.

A ideia de alienação na sociologia de Marx é também apontada como um


momento, no capitalismo, em que os homens perdem-se a si próprios e a seu trabalho.
O estranhamento, a alienação, é descrito por Marx sob quatro aspectos:

1. O trabalhador é estranho ao produto de sua atividade, que pertence a outro. A


consequência é que, quanto mais o trabalhador se esgota no trabalho, mais poderoso
fica esse estranho mundo que não lhe pertence. Ele cria, mas torna-se pobre e menos
o mundo interior lhe pertence.

2. A alienação do trabalhador relativa ao resultado, ao produto da sua atividade, é


vista como alienação da atividade produtiva. O trabalho passa a ser determinado pela
necessidade externa. Deixa de ser a satisfação de uma necessidade para se configurar
apenas como um meio para satisfazer necessidades externas ao trabalhador. O trabalho
não é mais uma confirmação de si, o desenvolvimento de suas potencialidades.O
trabalho agora, então, é tido como sacrifício, mortificação. A consequência é uma
profunda degeneração dos modos do comportamento humano.

3. Como consequência da alienação da atividade produtiva, o trabalhador aliena-


se também do gênero humano. É marca específica do humano a livre atividade
consciente. Mas na alienação a própria vida surge no trabalho alienado apenas como
“meio de vida”. A vantagem do homem sobre o animal, que é o fato do homem fazer
uso de toda natureza, transforma-se numa desvantagem porque agora escapa ao
homem.

4. O resultado imediato dessa alienação do trabalhador da vida, da humanidade, é


a alienação do homem pelo homem. Note: se o homem tornou-se um estranho ao
seu ser, também tornou-se estranho a um gênero, o gênero humano. Significa que
um homem permaneceu estranho a outro homem e que, cada um deles, igualmente,
não se reconhece como pertencente ao gênero humano. Essa alienação recíproca
dos homens tem a manifestação mais concreta na relação operário-capitalista.

76 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

Pesquise mais
“O conceito de alienação no jovem Marx” é um interessante artigo de José
D’Assunção Barros que examina um aspecto específico da obra de Karl
Marx com a temática da alienação. Para compreender suas complexas
relações, retome algumas características e influências na primeira fase da
produção de Marx.

BARROS, José D’Assunção. O conceito de alienação no jovem Marx. Tempo


Social, Revista de Sociologia da USP, v. 23, n. 1, jun. 2011. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/ts/v23n1/v23n1a11>. Acesso em: 11 mai. 2015.

A coisificação do mundo é promovida pela relação entre capital, trabalho e


alienação. Quer dizer que as regras desse sistema são seguidas passivamente por
todos os atores envolvidos. Segundo Marx, a tomada de consciência de classe e a
revolução se configuram como as únicas formas para a transformação social.

Scott (2006) aponta que, para Marx, o trabalho era a mais importante expressão
da natureza humana. Quando o homem perdia o controle sobre ele, entrava em um
processo que conduziria a sociedade a uma ordem social alienada: desigualdade
crescente, pobreza em meio à plenitude, antagonismo social e luta de classes.

Reflita

O filme Tempos Modernos (nome original Modern Times, 1936), de


Charles Chaplin, mostra Carlitos, personagem principal, como prisioneiro
do ritmo intenso da cadeia de produção que circula diante dele. O ritmo
alucinante do trabalho é imposto pelas máquinas e o operário é quem
tem que se adaptar. Como resultado, temos cenas inesquecíveis, cômicas
e tristes ao mesmo tempo. Carlitos tenta alterar o ritmo da máquina, mas
é inútil. Corre atrás das mercadorias que passam à sua frente em alta
velocidade, mas sem sucesso. Precisa cumprir, dia a dia, a mesma função
durante toda sua jornada de trabalho, todos os dias da semana, o mês
inteiro. É um trabalho insano: aperta as porcas de um pedaço de metal
que passa rapidamente, surgindo na esteira um atrás do outro. Carlitos
não tem a menor ideia sobre o que está produzindo.

Por que podemos afirmar que o tema central do filme é a alienação?

Tópico central na crítica ao capitalismo, a alienação se inicia no processo


produtivo, em que o trabalhador usa sua força de trabalho sem ter
consciência do que está produzindo, sem ser envolvido na produção, sem
ser consultado ou informado sobre o que sua capacidade de trabalho vai
produzir, sobre para quem será destinada sua produção, a que preço, etc.

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 77


U2

Carlitos é o modelo do “operário padrão” da industrialização maciça do


capitalismo que produziu imensas fábricas com dezenas ou centenas
de milhares de trabalhadores, anônimos, apartados do processo. A
complexa maquinaria é que comanda o processo produtivo e inclusive
os trabalhadores.

Costa (2005) aponta a importância de outro conceito básico da teoria marxista,


que é o de classes sociais, que desenvolve para denunciar as desigualdades sociais
contra a falsa ideia de igualdade jurídica e política.

Para ele, os inalienáveis direitos de liberdade e justiça,


considerados naturais pelo liberalismo, não resistem às
evidências das desigualdades sociais promovidas pelas
“relações de produção”, que dividem os homens em
proprietários e não proprietários dos modos de produção.
Dessa divisão se originam as classes sociais: os “proletários”
– trabalhadores despossuídos dos “meios de produção”, que
vendem sua força de trabalho em troca de salário – e os
“capitalistas”, que, possuindo meios de produção sob a forma
legal da propriedade privada, “apropriam-se” do produto do
trabalho de seus operários em troca do salário do qual eles
dependem para sobreviver (COSTA, 2005, p. 114).

Veja como as classes sociais – burgueses e operários – formadas no capitalismo


criam desigualdades intransponíveis que se estabelecem entre os homens e relações
que são essencialmente de exploração e antagonismo. As classes sociais têm interesses
impossíveis de serem conciliados: o capitalista deseja garantir seu direito à propriedade
dos meios de produção e a máxima exploração do operário. O trabalhador luta contra
a exploração, reivindica melhores condições de trabalho, melhores salários, direitos,
participação nos lucros gerados pelo que ele produz.

Mas, mesmo com oposições, as classes sociais são interdependentes e


complementares. Costa (2005) ressalta que uma só existe em função da outra. Observe
a relação: só há proprietários porque há uma imensa massa de despossuídos que só
contam com a própria força de trabalho e estão dispostos a vendê-la para garantir a
sobrevivência. Da mesma forma que só há os proletários porque existe quem lucre
com seu assalariamento.

Marx vê a história humana como a história da luta de classes, da constante disputa


por interesses que se opõem, mesmo que tal oposição nem sempre se revele
socialmente sob a forma de guerra declarada. De modo muito interessante, Costa

78 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

(2005) afirma que as divergências e antagonismos das classes estão em todas as


relações sociais, nos mais variados níveis da sociedade, em todos os tempos, desde o
surgimento da sociedade.

Faça você mesmo


O futebol no Brasil já foi visto como alienação. Principalmente durante a
Copa do Mundo de 1970. Explique esta relação: futebol-alienação.

Padrão de resposta: Em 1970 a ditadura que vigorava no Brasil usou a


conquista do tricampeonato Mundial de Futebol para desviar o foco sobre
o período mais duro da ditadura militar. Enquanto o povo acompanhava
os jogos e comemorava o título, várias pessoas eram presas, torturadas e
assassinadas.

O capitalismo considera a força de trabalho como mercadoria, como a única


capaz de criar valor. Marx foi adiante nesse conceito, indicando que o trabalho, quando
aplicado a determinados objetos, provoca neles um tipo de “ressurreição”. Para Marx,
tudo que é criado pelo homem contém um trabalho passado e, por isso, “morto”, e só
pode ser reanimado por outro trabalho.

Costa (2005) contribui para nossa compreensão com um exemplo:

Assim, por exemplo, um pedaço de couro animal curtido,


uma agulha de aço e fios de linha são, todos, produtos do
trabalho humano. Deixados em si mesmos, são coisas mortas;
utilizados para produzir um par de sapatos, renascem como
meios de produção e se incorporam num novo produto, uma
nova mercadoria, um novo valor (COSTA, 2005, p. 117).

Então, para obter lucro, o capitalista não pode vender esse sapato, tomado a partir
do exemplo, apenas pelo preço que investiu para produzi-lo. Como se dá o lucro
no sistema capitalista? Na análise de Marx, a forma mais eficaz e estável para o lucro
dos capitalistas é a valorização da mercadoria na esfera da sua produção. É fazer a
mercadoria baratear no processo produtivo pela exploração do trabalhador. Veja: o
salário pago representa uma pequena porcentagem do resultado final do trabalho
(que é um produto, uma mercadoria), então essa diferença compõe a chamada mais-
valia. Esse é o termo que Marx usa, na sua análise dialética, para designar a disparidade
entre o salário pago e o valor do trabalho produzido.

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 79


U2

Assimile
Temos duas forças distintas: uma coisa é o valor da força de trabalho – o
salário – e outra é quanto o trabalho rende ao capitalista. O valor excedente
produzido pelo operário é chamado por Marx de mais-valia.

Marx observou que cabe somente ao proletariado, na tomada de consciência


de classe, sair do papel de determinismo histórico e assumir a postura de agente
da transformação social. Temos um intenso contraste, uma contradição revelada
no aumento da massa de despossuídos, dos que sofrem com a pobreza e suas
consequências (desnutrição, doenças, fome, atraso cognitivo, falta de acesso às
tecnologias, etc.) com o acúmulo de riquezas e bens nas mãos de poucos. É só
por meio de um processo revolucionário que os proletários de todo o mundo, para
Marx, poderiam superar este modo de produção, o capitalista, e construir uma nova
sociedade sem essas contradições.

Sem medo de errar

Vamos agora retomar a situação-problema proposta no início da seção e resolvê-


la. Recorra também ao conteúdo teorizado não somente nesta seção, mas também
na seção anterior – a Seção 2.1. Vamos lá: a situação solicita que você pense e
analise quem lucra com a produção de Joel. E também como se revelam o modo de
produção e o conceito de mais-valia no caso dessa fábrica de calçados.

Lembre-se

Retome alguns importantes conceitos de Karl Marx:

- A ideia de alienação é apontada como um momento, no capitalismo, em


que os homens perdem-se a si próprios e a seu trabalho. Marx caracteriza as
relações de classe como alienantes: o trabalhador assalariado encontrava-
se em uma posição de barganha desigual perante seu empregador.

- A História é a transformação ou a passagem de um modo de produção


para outro. Mas essa mudança ocorre não por acaso ou por decisão e
vontade livre dos homens, mas conforme as condições econômicas,
culturais e sociais previamente estabelecidas. Essas condições podem ser
alteradas de uma forma também determinada, graças à práxis humana
frente às condições dadas.

80 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

Reflita como Joel está exposto e sujeito à formação das classes sociais – burgueses
e operários – formadas no capitalismo, criando desigualdades que são, essencialmente,
de exploração e antagonismo. As classes sociais têm interesses irreconciliáveis:
o capitalista busca garantir seu direito à propriedade dos meios de produção e à
máxima exploração do operário. Já o operário luta contra a exploração, por melhores
condições de trabalho e de salários, por direitos, pela participação nos lucros gerados
pelo que ele produziu. Lembre-se de considerar que só há proprietários porque há uma
imensa massa de despossuídos que contam apenas com a própria força de trabalho
para garantir a sobrevivência. Da mesma forma que só há os proletários porque existe
quem lucre com seu assalariamento.

Atenção!
A ideia de alienação na sociologia de Marx é também apontada como um
momento, no capitalismo, quando os homens perdem-se a si próprios
e a seu trabalho. O estranhamento, a alienação, é descrito por Marx sob
quatro aspectos:

1. O trabalhador é estranho ao produto de sua atividade, que pertence a


outro.

2. A alienação do trabalhador relativa ao resultado, ao produto da sua


atividade, é vista como alienação da atividade produtiva.

3. Como consequência da alienação da atividade produtiva, o trabalhador


aliena-se também do gênero humano.

4. O resultado imediato dessa alienação do trabalhador da vida, da


humanidade, é a alienação do homem pelo homem.

Avançando na prática

Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com as de
seus colegas.

“A constituição histórica das classes sociais”


Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamento de
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
área
explicação da realidade social.
Reconhecer que a luta das classes operárias tem marcas que
2. Objetivos de aprendizagem
Marx analisou a partir da concepção dialética.

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 81


U2

3. Conteúdos relacionados Alienação e classes sociais.


“Em 1980, compreendemos que não bastava pedir um reajuste
de 10%. Ficou evidente que não se tratava de conseguir 10% ou
20% a mais. Isto não vai resolver o problema dos trabalhadores.
De modo que reivindicamos melhorias que não eram
econômicas. Por exemplo, estabilidade no emprego, redução
da semana de trabalho. Queríamos controlar o processo de
escolha dos chefes de seção e garantir aos representantes
4. Descrição da SP sindicais o direito de livre acesso às fábricas.”
In: ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil
(1964-1984). Petrópolis: Vozes, 1984. p. 263.
a) Por que um reajuste salarial não resolveria o problema dos
trabalhadores?
b) A partir da ideia de alienação na sociologia de Marx, o
trabalhador está em uma situação de barganha igual perante
ao seu empregador neste exemplo?
a) Por que um reajuste salarial não resolveria o problema dos
trabalhadores?
As classes sociais – burgueses e operários – formadas
no capitalismo criam desigualdades intransponíveis que
se estabelecem entre os homens e relações que são,
essencialmente, de exploração e antagonismo. As classes sociais
têm interesses impossíveis de serem conciliados: o capitalista
deseja garantir seu direito à propriedade dos meios de produção
e à máxima exploração do operário. O trabalhador luta contra a
exploração, reivindica melhores condições de trabalho, melhores
salários, direitos, participação nos lucros gerados pelo que ele
5. Resolução da SP produz. O salário é uma parte dos direitos e de nada adianta ser
aumentado se a exploração persiste em outras frentes.
b) A partir da ideia de alienação na sociologia de Marx, o
trabalhador está em uma situação de barganha igual perante
ao seu empregador neste exemplo?
A alienação é também apontada como um momento, no
capitalismo, em que os homens perdem-se a si próprios e
a seu trabalho. Marx caracteriza as relações de classe como
alienantes: o trabalhador assalariado encontrava-se em uma
posição de barganha desigual perante seu empregador.
Consequentemente, o capitalista pode dominar tanto a
produção como o trabalhador.

Lembre-se

Como já dissemos, Marx observou que cabe somente ao proletariado,


na tomada de consciência de classe, sair do papel de determinismo
histórico e assumir a postura de agente da transformação social. Temos
um intenso contraste, uma contradição revelada no aumento da massa
de despossuídos, dos que sofrem com a pobreza e suas consequências
(desnutrição, doenças, fome, atraso cognitivo, falta de acesso às
tecnologias, etc.) com o acúmulo de riquezas e bens nas mãos de
poucos. É só por meio de um processo revolucionário que os proletários
de todo o mundo, para Marx, poderiam superar este modo de produção,
o capitalista, e construir uma nova sociedade sem essas contradições.

82 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

Faça você mesmo

Figura 2.1 | Conforme dados divulgados pela Organização das Nações Unidas
(ONU), aproximadamente 85 mil robôs são introduzidos anualmente nas
indústrias em todo o mundo. Há uma estimativa de que mais de 800 mil robôs
atuam no trabalho que poderia empregar cerca de dois milhões de pessoas.

Fonte: <http://www.istockphoto.com/photo/car-industry-19694790>. Acesso em: 13 set. 2015.

Quais são os fatores que motivam esse processo? O que pode acontecer
com uma quantidade imensa de produtos despejada num mercado no
qual as pessoas não têm emprego?

Padrão de resposta: Esse processo é motivado por diversos fatores. Um


deles é a maximização da produção: a utilização de robôs pode multiplicar
em muitas vezes a produção em certos segmentos industriais. Contribui
também para o barateamento do produto, já que os custos da produção
são significativamente diminuídos. Sem trabalho, as pessoas não possuem
recursos e não podem consumir, adquirir os produtos fabricados pelos robôs.

Faça valer a pena

1. A partir de nossas análises e estudos, preencha adequadamente as


lacunas da sentença abaixo, na respectiva ordem:
O desconhecimento das condições histórico-sociais concretas em
que vivemos, produzidas pela ação humana também sob o peso de
outras condições históricas anteriores e determinadas, compõe o que
chamamos de ______________ social. A despeito ______________ e
das instituições sociais, os homens não se reconhecem como autores e
agentes da vida social e, ao mesmo tempo, se veem como sujeitos livres,

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 83


U2

capazes de mudar suas vidas como e quando quiserem, o que compõe


uma ______________ dupla.

a) alienação – da mais-valia – condição histórica.


b) relação – da visão – possibilidade concreta.
c) cooperação – da luta – classe social.
d) exclusão – da alienação – classe social.
e) alienação – das condições históricas – alienação.

2. (UFU - 2000 - Adaptado) De acordo com a teoria de Marx, a desigualdade


social se explica:
a) Pela distribuição da riqueza de acordo com o esforço de cada um no
desempenho de seu trabalho.
b) Pela divisão da sociedade em classes sociais, decorrente da separação
entre proprietários e não proprietários dos meios de produção.
c) Pelas diferenças de inteligência e habilidades inatas dos indivíduos,
determinadas biologicamente.
d) Pela apropriação das condições de trabalho pelos homens mais capazes
em contextos históricos, marcados pela igualdade de oportunidades.
e) Pela alienação social, que é o conhecimento das condições histórico-
sociais concretas em que vivemos.

3. Como se dá o lucro no sistema capitalista? Na análise de Marx, a forma


mais eficaz e estável para o lucro dos capitalistas corresponde:
I – À valorização da mercadoria na esfera da sua produção.
II – A fazer a mercadoria baratear no processo produtivo pela exploração
do trabalhador.
III – À mais-valia: que é o termo usado por Marx, na sua análise dialética,
para designar a disparidade entre o salário pago e o valor do trabalho
produzido.
IV – A cobrar mais caro pelo produto do que o custo da sua produção
total.

A alternativa que indica apenas as afirmativas verdadeiras é:

84 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

a) III e IV.
b) I e II.
c) II, III e IV.
d) I, II e III.
e) II e III.

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 85


U2

86 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

Seção 2.3

A desigualdade social como fato social

Diálogo aberto

Com mais contribuições da sociologia, nesta nova seção que iniciamos agora,
vamos buscar resolver a situação que envolve Maria – nossa personagem – apresentada
no início da Unidade 2. Retomemos aqui o caso:

Quando se lê que Maria, 35 anos, casada, dona de casa,


brasileira, votará em determinado candidato, não tomamos
conhecimento apenas da opinião de uma pessoa isolada,
mas do grupo de pessoas do qual Maria passa a ser a
representante: o das mulheres dessa idade, donas de casa,
casadas e brasileiras. Isso porque os conhecimentos de
sociologia hoje já não estão restritos aos cientistas sociais.
Eles se popularizaram e passaram a fazer parte de um modo
de perceber e interpretar os acontecimentos, resultante da
disseminação de procedimentos e técnicas de pesquisa social
nos mais variados campos (COSTA, 2005, p. 20).

Nesta Unidade 2, buscamos as melhores respostas às seguintes questões:

• Como a sociologia explica as bases da vida social humana, a organização da


sociedade?

• De que forma a desigualdade social, a constituição das classes sociais e o processo


de racionalização moldam nossas relações sociais?

Já contamos com vários elementos trabalhados nas seções anteriores para


contribuir com a elaboração das respostas. Entendemos as bases da vida social
humana e da organização da sociedade usando a cientificidade da sociologia. Também
compreendemos a ação social e seus tipos. Estudamos como a sociologia trabalha,
voltando-se para os problemas que o homem enfrenta no cotidiano das relações em

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 87


U2

sua sociedade. Analisamos e explicamos a importância do grupo no qual, ao estarmos


nele imersos, vamos sistematicamente recebendo informações sobre valores, atitudes,
regras, para então nos compormos como mais um indivíduo daquela comunidade.
Aprofundamos esses conhecimentos considerando importantes bases do pensamento
de Karl Marx, que lançou a corrente de análise mais revolucionária tanto do ponto de
vista teórico como no da prática social. Karl Marx decifrou o sistema capitalista e ainda
mais: apontou possibilidades de mudanças para transformar a realidade na política, na
economia e na própria sociedade. Nesta nova seção contaremos com a ajuda da análise
e das reflexões de David Émile Durkheim sobre fato social; os tipos de sociedade e as
formas de solidariedade; a relação indivíduo-sociedade e a ordem social. Com esses
estudos entraremos no tema da desigualdade social que será explorado pela visão de
Karl Marx.

Vejamos agora a situação-problema desta seção:

Vira-casaca
Rodrigo Bertolotto
Seu apelido é "o berço dos bandeirantes", mas hoje bem
poderia se chamar "a cama super king size dos ricos e
famosos". Nos últimos anos, Santana de Parnaíba despertou
do sono colonial de seu casario dos séculos 17 e 18 para virar
uma cidade-dormitório de afortunados.
Com essa mudança, a cidade hoje acumula a maior renda per
capita do país, mas também lidera o ranking da desigualdade,
segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística).
A partir da década de 1980, a expansão de condomínios
de luxo sobre seu território quase rural criou um retrato de
profundo contraste. Dentro dos muros altos com cercas
elétricas e arames farpados, há uma utopia de gramados
perfeitos, piscinas cristalinas, colunas de mármore e fileiras
de palmeiras frondosas. Do lado de fora das portarias
monitoradas 24 horas, desfila a realidade de desmatamento
para novos empreendimentos, bairros sem água encanada e
casebres em ruas de terra.
Quando o Brasil era colônia portuguesa, de Parnaíba saíram
os bandeirantes Fernão Dias, Anhanguera e Domingos Jorge
Velho, que aprofundaram as fronteiras do país atrás de pedras
preciosas e de índios para serem escravizados.
Atualmente, quem agrega valor na região são magnatas
da mídia, executivos de indústria e herdeiros do comércio
varejista. E eles precisam de um exército de serviçais, que

88 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

moram em loteamentos populares do outro lado da cidade. A


piada local é que para cada Alphaville existe um Alfavela. Seria
engraçado se não fosse trágico e emblemático (TAB, s.d.).

A partir desse cenário, com certeza, você tem várias perguntas instigantes. Vamos
propor algumas dentre tantas que esse texto nos provoca:

- Como explicar esse intricado sistema de relações sob a ótica marxista de classes
sociais?

- Considerando as características dos fatos sociais, como eles podem auxiliar na


análise e reflexão da realidade de Santana do Parnaíba?

Não pode faltar

A língua que falamos. Fazer três refeições ao dia. Casar com apenas uma pessoa.
Seguir em frente no sinal verde. O que será que essas ações têm em comum?

Note como a sociologia é uma ciência interessante, que contribui com várias
ferramentas para você entender muito melhor o mundo e se inserir nele de forma
consciente. Todas essas ações são, segundo Durkheim, fatos sociais.

Mas o que são fatos sociais? Veja essa resposta nas palavras de Durkheim:

É fato social toda maneira de fazer, fixada ou não, suscetível


de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou
ainda, toda maneira de fazer que é geral na extensão de uma
sociedade dada e, ao mesmo tempo, possui uma existência
própria, independente de suas manifestações individuais
(DURKHEIM, 1999, p. 13).

Assimile
A sociologia é uma ciência recente. No final do século XIX ainda estava
se firmando como ciência e buscava pelo seu objeto de estudo de
forma clara e objetiva. É quando entra em cena David Émile Durkheim
– sociólogo, psicólogo social e filósofo francês –, empenhado em criar
regras para o método sociológico e atribuir status de saber científico à

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 89


U2

sociologia, assim como é comum às demais áreas do conhecimento.


Durkheim é considerado um dos fundadores da sociologia moderna. Com
suas contribuições, o campo sociológico se estabeleceu como uma nova
ciência e, juntamente com Karl Marx e Max Weber, é citado como o principal
arquiteto da ciência social moderna. Durkheim é um dos responsáveis pela
sistematização dessa nova área de conhecimento, delimitando o campo
de trabalho e as formas pelas quais a sociologia aborda seus objetos de
estudo. É Durkheim que traz para a sociologia esse objeto. Para ele, caberia
à sociologia estudar os “fatos sociais”.

As formas de sentir, pensar e agir carregam normas, regras, crenças, valores


morais. Por isso, os fatos sociais estão relacionados aos processos culturais, aos
costumes e hábitos coletivos de um grupo de indivíduos ou de uma sociedade. Esses
elementos associados dão uma identidade, conferem uma marca ao grupo, ao que
chamamos de “consciência coletiva”, e também atuam como limite às ações individuais.
O controle que os fatos sociais exercem sobre o sujeito tem como principal objetivo
manter a harmonia no corpo social, o equilíbrio na convivência que se dá nas relações
sociais. A manifestação dos fatos sociais é o que interessa à sociologia.

Assimile
Consciência coletiva é o conjunto de sentimentos, de crenças, que são
comuns à média dos membros de uma sociedade. Espalha-se por todo
o grupo social e não é apenas o produto das consciências individuais. É
algo para além disso, que se impõe aos indivíduos e perdura através das
gerações. Compõe-se de regras fortes e estabelecidas que delimitam o
valor atribuído aos atos individuais. É a consciência coletiva que regula o que
consideramos reprovável, imoral, errado ou criminoso. Durkheim aponta
que, mesmo existindo a "consciência individual", é possível perceber no
interior de qualquer grupo ou sociedade formas padronizadas de conduta
e pensamento que formam a consciência coletiva.

Com esse objeto de estudo definido para a sociologia, agora se desenha um


percurso mais claro, buscando respostas que expliquem nossa organização social que,
para Durkheim, estaria nos fatos sociais. Ora, para usar essa ferramenta é necessário
aplicarmos um método para assim compreendermos melhor o objeto sociológico. A
proposta de Durkheim é que os fatos sociais devem ser vistos como se fossem “coisas”,
como objetos passíveis de análise, tratados com a devida neutralidade científica. Para
ele, precisamos investigar os fatos buscando as verdadeiras leis naturais que regem o
funcionamento e a existência destes, pois possuem existência própria e são externos em
relação às consciências individuais.

Na obra “As regras do método sociológico”, de 1895, Durkheim (1999, p. 28) aponta que

90 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

espera ter definido exatamente o domínio da sociologia,


domínio esse que só compreende um determinado grupo de
fenômenos. Um fato social reconhece-se pelo seu poder de
coação externa que exerce ou é suscetível de exercer sobre
os indivíduos; e a presença desse poder reconhece-se, por
sua vez, pela existência de uma sanção determinada ou pela
resistência que o fato opõe a qualquer iniciativa individual que
tenda a violentá-lo [...].

Pesquise mais
Será que vivemos hoje uma nova prática socializadora distinta das demais
verificadas historicamente? Essa é uma das interessantes questões que
este artigo discute. Lança uma reflexão sobre como os processos de
socialização constroem mecanismos e estratégias formadoras. Amplia
a leitura sobre o alcance e o limite de cada uma das matrizes de cultura.

SETTON, Maria Graça Jacintho. Teorias da socialização: um estudo sobre


as relações entre indivíduo e sociedade. Educ. Pesquisa, São Paulo, v. 37,
n. 4, p. 711-724, dez. 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S1517-97022011000400003&lng=pt&nrm=i
so>. Acesso em: 19 jul. 2015.

Veja essas importantes marcas dos fatos sociais:

a) Regulam a vida social;

b) São construídos pela soma das consciências individuais de todos os indivíduos e,


ao mesmo tempo, influenciam cada uma delas;

c) São produtos da vida em sociedade;

d) Têm como característica a exterioridade em relação às consciências individuais e


exercem ação coercitiva sobre essas ações.

Exemplificando
Como se dá essa ação coercitiva? De onde ela vem? Acompanhe este
exemplo: você foi educado pelos seus pais e criado por uma sociedade
com a ideia de que não pode, em um restaurante, colocar o prato de
sopa na boca, virar e beber de uma só vez. Com certeza, as pessoas vão
achar isso muito estranho, talvez riam ou até mesmo censurem você. Não

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 91


U2

há leis que nos impeçam de segurar um prato, virar na boca e beber


tudo rapidamente. Mas, ainda assim, você sente-se proibido de fazer isso.
Viu como se dá a ação coercitiva? Somos vítimas daquilo que vem do
exterior, daquilo que nos foi ensinado, inculcado pelo convívio social.
Se alguém experimentar opor-se a uma manifestação coercitiva, os
sentimentos que nega (por exemplo, o repúdio das pessoas ao beber a
sopa daquela forma) vão se voltar contra ele.

Nem tudo o que uma pessoa faz pode ser considerado um fato social, pois,
para ser identificado como tal, tem que atender a três características: coercitividade,
exterioridade e generalidade. Uma delas, a coerção, você já acompanhou no exemplo.
Vamos retomar:

1. Coercitivo - permite uma coerção social: todo fato social deve limitar, controlar
a ação dos indivíduos no meio social. O fato social condiciona as pessoas a seguirem
as normas, as regras da sociedade independentemente da vontade ou da escolha
individual. São forças que impelem cada um a agir de forma adaptada ao grupo ao qual
pertence. Essas forças podem ser legais – apoiadas no sistema jurídico – ou não, já que
há forças espontâneas que são aquelas que coagem o indivíduo para que se adapte ao
grupo ao qual pertence.

2. Externo - exterior aos indivíduos: significa que todo fato social nasce da coletividade:
a vontade do grupo prevalece sobre a individual, independentemente do que um sujeito
quer, de forma isolada. Quando você nasceu, as normas e regras já existiam na sociedade
atuando de forma coercitiva e você as adquiriu através de várias relações sociais que,
de forma exterior, subordinaram você à aprendizagem dos costumes, regras e leis do
grupo. Esse conjunto de regras vem de geração em geração condicionando os valores,
os costumes, as formas de pensar e agir.

3. Geral - possui uma generalidade: os fatos sociais possuem uma generalidade, isto
é, se expressam de forma comum ou geral àquela sociedade. A generalidade de um fato
social, sua quase unanimidade, é garantia de normalidade, porque representa o consenso
social, a vontade coletiva, o acordo de um grupo a respeito de uma certa questão. Veja,
por exemplo, como isso se dá com o idioma (nossa forma de comunicação), com os
costumes que regem o casamento, dentre tantos outros exemplos. Temos generalidade
naqueles fatos sociais que se repetem e se manifestam na maioria dos indivíduos. Apenas
os fatos frequentes e comuns na vida diária podem ser analisados sociologicamente.

Reflita
Frente à coerção social, temos alguns comportamentos, reações. Dentre
esses, destacamos aqui duas posturas: a alienação e a transgressão.

92 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

A alienação acontece quando a pessoa segue de forma inconsciente as


determinações da sociedade, quando age sem nenhum questionamento,
apenas cumprindo as regras.

Já a transgressão acontece quando o indivíduo se nega a respeitar as


coerções sociais. Ao cometer uma transgressão, a pessoa está sujeita
a ser punida. As punições variam conforme a transgressão cometida,
dependendo dos acordos daquela sociedade.

Qual desses dois comportamentos se evidencia quando uma pessoa


recebe uma multa de trânsito?

Ao receber uma multa, a pessoa indica que cometeu uma transgressão e,


por isso, foi punida. Quer concorde, quer goste ou não, a pessoa infringiu
uma lei e sofre uma sanção em decorrência da sua transgressão.

Durkheim, ao estudar a sociedade, reconheceu a importância dos vínculos que


asseguram a vida em grupo, que compõem a ligação entre os homens. Para ele, os
laços que unem os indivíduos nas mais diversas sociedades seriam estabelecidos pela
solidariedade social. Solidariedade social é a situação em que um grupo social vive em
comunhão de sentimentos e ações compondo uma unidade sólida, firme, capaz de
suportar as forças exteriores e até mesmo de se tornar mais forte frente à oposição vinda
de fora. A solidariedade social, segundo Durkheim, se daria pela consciência coletiva, já
que é a responsável pela coesão entre as pessoas. A solidez dessa consciência coletiva
é que mede a ligação entre os indivíduos e varia conforme o modelo de organização
social de cada sociedade. Nas sociedades de organização mais simples predominaria
um tipo de solidariedade diferente daquela existente em sociedades mais complexas, já
que a consciência coletiva também se compõe de forma diferente em cada realidade.

A solidariedade social divide-se em duas: a solidariedade mecânica e a solidariedade


orgânica.

a) Solidariedade mecânica: prevalece nas sociedades arcaicas, "primitivas", como


agrupamentos tribais ou formado por clãs, por exemplo. Nesse tipo de solidariedade os
indivíduos aceitam sem questionamento as tradições, os costumes, os valores da tribo.
O grupo compartilha como um todo as mesmas crenças e princípios, o que assegura a
coesão social. Na solidariedade mecânica, o sujeito está ligado diretamente à sociedade,
e prevalece em seu comportamento aquilo que é mais aceito pela consciência coletiva
e não seu desejo individual: sua vontade é a vontade da coletividade do grupo, o que
proporciona maior coesão e harmonia social. Quanto mais forte é a consciência coletiva,
maior é a intensidade da solidariedade mecânica.

b) Solidariedade orgânica: prevalece nas sociedades modernas complexas onde há


diferenças de costumes, crenças e valores. Tem algumas marcas: comporta interesses
individuais distintos, é formada por uma consciência individual acentuada, carrega uma

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 93


U2

divisão econômica do trabalho social desenvolvida e complexa (há várias atividades


e profissões); compõe uma sociedade menos conservadora, mais cosmopolita. Na
solidariedade orgânica, há um processo de individualização dos membros da sociedade:
cada um assume funções específicas dentro da divisão social do trabalho. Cada pessoa é
apenas uma peça de uma grande engrenagem, com seu papel específico, o que marca
seu lugar na sociedade. Consequentemente, a consciência coletiva tem influência
reduzida, dando espaço para o desenvolvimento de personalidades. Na solidariedade
orgânica as pessoas se unem não pelos laços de pertencimento ou semelhanças, mas
porque são interdependentes naquela esfera social. É dado maior valor ao individualismo
propriamente dito, valor fundamental para o desenvolvimento do capitalismo. Vale
destacar que, ainda que o imperativo social dado pela consciência coletiva seja
enfraquecido numa sociedade de solidariedade orgânica, esse imperativo deve estar
assegurado para garantir o vínculo entre as pessoas, por mais individualistas que sejam.
Caso contrário, teríamos o fim da sociedade sem quaisquer laços de solidariedade.

Exemplificando
Os tipos de solidariedade podem ser exemplificados com uma
comparação simples entre esses dois cenários: imagine uma sociedade
indígena do interior do Brasil e uma da região metropolitana de uma
capital industrializada. O sentimento de semelhança e pertencimento que
une os índios ao realizarem uma atividade coletiva é muito maior do que
entre os transeuntes em uma avenida movimentada da grande cidade.

Mesmo com essas diferenças, tanto a solidariedade orgânica como a mecânica


possuem em comum a função de proporcionar uma coesão social, uma ligação entre
os indivíduos. Nos dois tipos de solidariedade social existem regras: nas sociedades mais
simples de solidariedade mecânica, prevalecem as regras não escritas, de aceitação
geral; nas sociedades mais complexas de solidariedade orgânica, as leis são escritas,
com suportes jurídicos complexos.

Como se estabelecem as desigualdades sociais?

Para Dias (2014), a expressão “desigualdade social” descreve uma condição na qual os
membros de uma sociedade possuem quantias diferentes de riqueza, poder ou prestígio.
De alguma forma, todas as sociedades comportam algum grau de desigualdade social,
e estudos da história humana revelam que a igualdade é uma impossibilidade social. As
sociedades são compostas de indivíduos diferentes, seja em idade, inteligência, sexo,
capacidade, seja em habilidade, resistência, velocidade, acuidade visual ou auditiva,
dentre tantos e tantos outros exemplos. Mas, ainda que não seja possível uma sociedade
com membros iguais para anular a desigualdade social, o que buscamos é, na verdade,
uma sociedade igualitária, que é a igualdade de oportunidades que deve ser assegurada
a todos os sujeitos, sem qualquer discriminação.

94 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

Na luta contra a desigualdade social, almejamos atingir a equidade social que


se compõe pelo direito dos indivíduos de serem incluídos na atividade econômica e
política, de contarem com meios de subsistência e por terem assegurado a garantia de
acesso aos serviços públicos.

A desigualdade social, no entanto, além de persistir, tem se acentuado, sendo


atualmente um dos grandes problemas decorrentes do processo de globalização, já
estudado por você. Veja: a alteração nas formas de produção, a intensificação do uso
da tecnologia, dentre outros fatores, têm causado desemprego e, consequentemente,
acentuam e agravam a desigualdade social.

Há dois importantes autores que discutem a estratificação social com diferentes


perspectivas: Karl Marx e Max Weber. Segundo Dias (2014), Marx tem uma visão
macrossociológica e dinâmica, enquanto Weber analisa mais o ponto de vista do
indivíduo.

Vamos nos debruçar agora, especificamente, sobre a teoria da desigualdade em


Marx, que foi o primeiro autor a usar com intensidade a expressão “classes sociais”.
Segundo Marx,

as classes são a expressão do modo de produzir na sociedade,


no sentido de que o próprio modo de produção se define
pelas relações que intermedeiam entre as classes sociais, e tais
relações dependem da relação das classes com instrumentos
de produção. Numa sociedade em que o modo de produção
capitalista domine, sem contrastes, em estado puro, as classes se
reduzirão fundamentalmente em duas: a burguesia, composta
pelos proprietários do modo de produção, e o proletariado,
composto por aqueles que, não dispondo dos meios de
produção, têm de vender ao mercado sua força de trabalho
(BOBBIO; MATEUCCI; PASQUINO apud DIAS, 2014, p. 171).

Da ótica marxista, as classes constituem um intrincado sistema de relações, cada


uma das quais pressupõe a outra, encontrando na coexistência condição essencial.

Mesmo indicando a permanente oposição entre opressores e oprimidos, Marx não


descarta que há outras classes. Mas, ao fazer a análise da desigualdade social, privilegia as
classes consideradas como fundamentais para determinar os caminhos que a sociedade
capitalista percorreria. Para Marx, as demais classes estavam num segundo plano sob o
ponto de vista político e social ou, ainda, orbitando em torno das classes fundamentais:

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 95


U2

As camadas inferiores da classe média de outrora, os


pequenos industriais, pequenos comerciantes e pessoas que
possuem rendas, artesãos e camponeses, caem nas fileiras
do proletariado; uns porque seus pequenos capitais, não
lhes permitindo empregar os processos da grande indústria,
sucumbem na concorrência com os grandes capitalistas;
outros porque sua habilidade profissional é depreciada
pelos novos métodos de produção. Assim, o proletariado é
recrutado em todas as classes da população (MARX; ENGELS,
v. 3, 1977, p. 27).

Veja como faz sentido o nome dado à “classe média”: segundo Marx, são as classes
intermediárias que se encontram entre a burguesia e o proletariado, sendo compostas
pelos pequenos comerciantes ou fabricantes, artesãos, camponeses. Para ele, são
conservadoras e só combatem a burguesia se forem ameaçadas, quando esta puder
comprometer sua existência como classe.

Dias (2014) aponta outra classe social identificada por Marx, o lumpen-proletariado,
identificado com as camadas mais baixas da sociedade, marginalizado do processo
produtivo. Com o aumento da complexidade da sociedade capitalista, ainda para
Dias (2014), a embrionária teoria marxista das classes sociais não abrange um número
significativo de camadas sociais, que se apresentam com certa autonomia em relação às
classes fundamentais, embora persista uma relação de dependência do capital.

Faça você mesmo


“A consciência coletiva constitui o "conjunto das crenças e dos sentimentos
comuns à média dos membros de uma mesma sociedade, formando um
sistema determinado com vida própria". A consciência coletiva é capaz
de coagir ou constranger os indivíduos a se comportarem de acordo
com as regras de conduta prevalecentes. A consciência coletiva habita
as mentes individuais e serve para orientar a conduta de cada um de nós.
Mas a consciência coletiva está acima dos indivíduos e é externa a eles.
Com base nesse pressuposto teórico, Durkheim chama atenção para o
fato de que os fenômenos individuais devem ser explicados a partir da
coletividade e não o contrário.” Disponível em: <http://educacao.uol.
com.br/disciplinas/sociologia/durkheim-2-a-consciencia-coletiva-e-fatos-
sociais.htm>. Acesso em: 07 jan. 2016.

Cite um exemplo de consciência coletiva que podemos identificar na vida


diária.

96 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

Padrão de Resposta: Frequentar uma escola, uma igreja, seguir suas


orientações, preceitos. Fazer parte de um clube, de uma associação, com
regras e normas que são seguidas por todos os componentes.

Sem medo de errar

Vejamos novamente a situação-problema proposta no início da seção e os caminhos


para resolvê-la. Recorra também ao conteúdo teorizado nas seções anteriores dessa
unidade.

A situação provoca você a pensar e analisar o problema sob dois pontos distintos:

1. A explicação do intricado sistema de relações de Santana do Parnaíba sob a ótica


marxista de classes sociais.

2. As características dos fatos sociais para contribuir na análise e reflexão da realidade


de Santana do Parnaíba.

Lembre-se

Na seção anterior, você viu como se dá a formação das classes sociais


no capitalismo. Reveja como as classes de burgueses e operários vivem
desigualdades que são, essencialmente, de exploração e antagonismo.
Essas classes sociais têm interesses irreconciliáveis: o capitalista busca
garantir seu direito à propriedade dos meios de produção e à máxima
exploração do operário. Já o operário luta contra a exploração, por
melhores condições de trabalho e de salários, por direitos, pela participação
nos lucros gerados pelo que ele produziu. Só há proprietários porque há
uma imensa massa de despossuídos que contam apenas com a própria
força de trabalho para garantir a sobrevivência. Da mesma forma que só
há os proletários porque existe quem lucre com seu assalariamento.

Retome as três importantes características dos fatos sociais: coercitividade,


exterioridade e generalidade. Veja também como a “consciência coletiva” pode atuar
justificando o cenário de Santana do Parnaíba. Também analise os tipos de solidariedade
social na análise de Durkheim: solidariedade mecânica e solidariedade orgânica.

Considere a estratificação social sob a perspectiva macrossociológica e dinâmica de


Karl Marx. Avalie também a ótica marxista na qual as classes constituem um intrincado
sistema de relações, cada uma das quais pressupõe a outra, encontrando na coexistência
condição essencial.

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 97


U2

Veja as consequências do aumento da complexidade da sociedade capitalista com a


persistência da relação de dependência do capital.

Atenção!
Marx, ao indicar a constante oposição entre opressores e oprimidos, não
descarta que há outras classes sociais. Ao analisar a desigualdade social,
ele privilegia as classes consideradas como fundamentais para determinar
os caminhos que a sociedade capitalista percorre. Segundo ele, as demais
classes estavam num segundo plano sob o ponto de vista político e social.

Avançando na prática

Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com as de
seus colegas.

“A desigualdade social”
Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamento de
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
área
explicação da realidade social.
Reconhecer como uma característica marcante dos fatos
2. Objetivos de aprendizagem
sociais pode se revelar no cenário corporativo.
3. Conteúdos relacionados Fatos sociais e coerção social.
Jurandir acaba de chegar à empresa e logo já vai se deparar
com a famosa “festa de encerramento do ano”. Recebe
o convite, extensivo a um acompanhante, solicitando
confirmação de presença e indicando apenas, além de data,
local e horário, que todos vão “curtir muito a festa”.
Está empolgado com a ideia de participar pela primeira vez da
festa que, segundo comentários, tem muitos comes e bebes
e até música ao vivo.
O colega Fábio chama Jurandir para almoçar fora da empresa
e vai logo avisando:
– Nós sempre combinamos quem será o responsável da vez
4. Descrição da SP
para avisar ao novo colega como funciona, de verdade, essa
tal festa. Eu fui o escolhido pela nossa turma para preparar
você. Vamos lá: não confirme a presença do acompanhante,
Jurandir, seja quem for, nós nunca levamos ninguém. O
convite é extensivo apenas para parecer gentil. Não vá vestido
de modo muito informal, de certa maneira todos estamos
“trabalhando” nessa festa. Apesar de parecer que você pode
recusar o convite, de verdade, não pode. Vá, confirme sua
presença logo. Esse é o único evento de que nosso presidente
participa e para o qual quem vai e como se comporta. Como
você pode ver, caro parceiro, de festa não tem quase nada...

98 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

1. Por que foi necessário que Fábio alertasse Jurandir sobre os


procedimentos de participação da festa?
2. Esse caso revela uma importante característica dos fatos
sociais. Qual é? Explique como se relaciona com a história de
Jurandir e Fábio.
1. Essas considerações são de conhecimento de todos da
empresa, mas não estão registradas em nenhum lugar, estão
disseminadas através da experiência que os funcionários
viveram ao longo de várias festas de encerramento do ano.
2. A característica da coercitividade dos fatos sociais pode ser
5. Resolução da SP
vista nesse caso. A coerção social limita, controla a ação dos
indivíduos no meio social, condiciona as pessoas a seguirem
as normas, as regras, independentemente da escolha
individual. São forças que impelem cada um a agir de forma
adaptada ao grupo ao qual pertence.

Lembre-se

Ao estudar a sociedade, Durkheim reconheceu a importância dos


vínculos que compõem a ligação entre os homens. Os laços que unem
os indivíduos nas mais diversas sociedades seriam estabelecidos pela
solidariedade social, que é a situação em que um grupo social vive em
comunhão de sentimentos e ações compondo uma unidade sólida,
firme, capaz de suportar as forças exteriores e até mesmo de se tornar
mais forte frente à oposição vinda de fora. A solidariedade social, segundo
Durkheim, se daria pela consciência coletiva, já que é a responsável pela
coesão entre as pessoas.

Faça você mesmo


Podem ocorrer mudanças na consciência coletiva? A moral evolui, provoca
lentamente alterações na consciência coletiva. O que era considerado
reprovável ou imoral anteriormente pode, hoje, ser aceito.

Pense em exemplos de mudanças na consciência coletiva e cite-os.

Padrão de resposta: O direito ao emprego para os PNE, os direitos de


acessibilidade, o casamento homossexual, o divórcio, o fim da perseguição
aos cultos de matriz africana, a luta contra a homofobia, a inclusão da
temática da sexualidade no currículo das escolas, etc.

Faça valer a pena

1. Relacione a segunda coluna de acordo com a primeira considerando as

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 99


U2

três características dos fatos sociais:

(1) Coercitividade
(2) Externalidade
(3) Generalidade

( ) A unanimidade é garantia de normalidade, porque representa o


consenso social.
( ) A vontade do grupo prevalece sobre a individual.
( ) Condiciona as pessoas a seguirem normas.
( ) Impele cada um a agir de forma adaptada ao grupo ao qual pertence.
( ) Repetem-se e se manifestam na maioria dos indivíduos.
( ) Adquirimos por meio de várias relações sociais que, de forma exterior,
nos subordinam às aprendizagens dos costumes, regras e leis do grupo.

A sequência correta da segunda coluna em relação à primeira é:


a) 2 - 2 - 1 - 3 - 3 - 2
b) 3 - 2 - 1 - 1 - 3 - 2
c) 1 - 3 - 2 - 3 - 3 - 3
d) 3 - 2 - 3 - 1 - 3 - 1
e) 2 - 2 - 1 - 1 - 3 – 2.

2. A partir de nossas análises e estudos, preencha adequadamente as


lacunas do texto na respectiva ordem:

De acordo com seus estudos sobre Durkheim (1999), para garantir


a objetividade do método científico sociológico, é necessário que o
pesquisador mantenha certa distância e neutralidade em relação aos
fatos sociais, os quais devem ser tratados como ______________.
Os fatos sociais estão relacionados aos processos culturais, hábitos e
costumes ______________ de um determinado grupo de indivíduos ou
sociedade. Esses elementos conferem uma identidade e uma consciência
______________ ao grupo social, servem de controle e limites às
atividades individuais que não devem causar desarmonia no corpo social,
na convivência produzida pelas relações individuais.

100 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

a) ciência - individuais - individual.


b) coisas - coletivos - individual.
c) princípios - coletivos - coletiva.
d) coisas - coletivos - coletiva.
e) princípios - individuais – coletiva.

3. Utilize SO para indicar “solidariedade orgânica” e SM para “solidariedade


mecânica” em cada afirmação seguinte:
I – Os indivíduos estão ligados diretamente à sociedade, e prevalece no
comportamento aquilo que é mais aceito à consciência coletiva e não ao
desejo individual.
II – Quanto mais forte é a consciência coletiva, maior é a intensidade
desse tipo de solidariedade.
III – Prevalece nas sociedades modernas complexas onde há diferenças
de costumes, crenças e valores.
IV – Os indivíduos aceitam sem questionamento as tradições, os costumes,
os valores da tribo.
V – As pessoas se unem não pelos laços de pertencimento ou semelhanças,
mas porque são interdependentes naquela esfera social.

Escolha a alternativa que contém a resposta correta, respectivamente:

a) SM - SM - SO - SM - SO.
b) SO - SM - SO - SM - SO.
c) SM - SM - SO - SM - SO.
d) SM - SO - SO - SM - SM.
e) SM - SM - SO - SM – SM.

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 101


U2

102 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

Seção 2.4

Capitalismo, desigualdade e dominação em Max


Weber
Diálogo aberto

Esta nova seção traz muitas contribuições para você resolver de modo ainda mais
amplo e reflexivo a situação apresentada no início da Unidade 2. A personagem Maria,
com várias características particulares, pode ser vista como uma representante de um
grupo que possui similaridade com essas mesmas marcas. Isso significa que, ao analisar
o caso de Maria, temos a possibilidade de pensar nas “várias Marias” do Brasil, das quais
é uma representante simbólica.

Retomemos então o foco da Unidade 2, na busca pelas melhores respostas para:

• Como a sociologia explica as bases da vida social humana, a organização da


sociedade?

• De que forma a desigualdade social, a constituição das classes sociais e o


processo de racionalização moldam nossas relações sociais?

Além dos elementos trabalhados nas seções anteriores, especialmente na última


seção, você pode ampliar a análise a partir das reflexões de David Émile Durkheim sobre
fato social; os tipos de sociedade e as formas de solidariedade; a relação indivíduo-
sociedade e a ordem social. A compreensão da concepção dialética da visão de Karl
Marx impregnada no conceito de classes sociais que ele utiliza para denunciar as
desigualdades sociais também compõe a amplitude de seus conhecimentos.

Especialmente nesta nova seção, vamos seguir com novos elementos com o
objetivo de compreender ainda melhor a explicação sociológica da vida coletiva.
Vamos revisitar Max Weber em tópicos essenciais para compor esse percurso: o
processo de racionalização no mundo moderno, o tipo ideal, o espírito capitalista e a
ética protestante, os tipos puros de dominação legítima e os tipos de desigualdade em
perspectiva weberiana.

Entre e seja muito bem-vindo!

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 103


U2

Vejamos agora a situação-problema desta seção:

Moradores de Higienópolis se mobilizam contra estação de metrô

Grupo iniciou movimento no bairro central para impedir a construção da estação


Angélica. Em abaixo-assinado, a associação alega que já há outras estações perto e que
a obra deveria ser na Praça Charles Miller

James Cimino de São Paulo – 13 de agosto de 2010. Disponível em: <http://www1.


folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1308201011.htm>. Acesso em: 23 jul. 2015.

Um grupo de moradores de Higienópolis (bairro nobre da região central de São


Paulo) iniciou um movimento com o objetivo de impedir a construção da estação
Angélica da futura Linha 6 - Laranja do metrô.

A nova estação deve ocupar o espaço onde hoje há o Supermercado Pão de Açúcar,
na esquina da avenida Angélica com a rua Sergipe. A obra prevê desapropriações.

Abaixo-assinado elaborado pela Associação Defenda Higienópolis e espalhado por


diversos condomínios da região contesta o projeto.

A principal alegação é a de que, num raio de 600 metros do local, já existem mais
quatro estações e que a construção deveria ser feita na Praça Charles Miller, para atender
aos estudantes da Faap e aos frequentadores do Etádio do Pacaembu.

No mesmo documento, os moradores manifestam a preocupação de que a obra


aumente o fluxo de pessoas na região "especialmente em dias de jogos e shows" e de
"ocorrências indesejáveis".

Outro receio, diz o documento, é que a estação vire um atrativo para camelôs. Para
o engenheiro civil Mario Carvalho, síndico do edifício Palmares e um dos criadores do
manifesto, a contrariedade à obra é de natureza técnica.

"Eu não sou contra o metrô passar pelo bairro. Mas essa estação fica a menos de
um quilômetro da estação Higienópolis. A proximidade inclusive aumenta custos de
manutenção dos trens devido ao arranque e à frenagem em curto espaço de tempo."

Carvalho critica ainda o slogan proposto pelo Metrô à nova linha. "Eles chamam essa
linha de 'universitária', mas ela passa pela PUC, pelo Mackenzie, mas não passa pela
Faap. A estação tinha que ser no Pacaembu."

"GENTE DIFERENCIADA"

Enquanto escolhe produtos na tradicional Bacco's Vinhos da rua Sergipe, cujo imóvel
pode ser desapropriado pelo Metrô, a psicóloga Guiomar Ferreira, 55, que trabalha e

104 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

mora no bairro há 25 anos, diz ser contrária à obra.

"Eu não uso metrô e não usaria. Isso vai acabar com a tradição do bairro. Você já viu
o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma
gente diferenciada..."

A engenheira civil Liana Fernandes, 55, cuja filha mora no bairro, retruca a psicóloga:
"Pois eu acho ótimo. Mais ônibus e mais metrô significam menos carros e valoriza os
imóveis."

Com um bilhete único na mão, a publicitária Isadora Abrantes, 24, diz que a região
precisa de transporte. "As pessoas contrárias à obra são antigas e conservadoras. As
torcidas já passam por aqui sem metrô. A única coisa que sou contra é desapropriar o
Pão de Açúcar. Tinha que desapropriar o McDonald's."

Para Cássia Fellet, ex-presidente da Associação de Moradores e Amigos do Pacaembu,


Perdizes e Higienópolis, as críticas à futura estação não são consenso no bairro.

"É um grupo pequeno de pessoas que podem ser desapropriadas. Elas não têm
representatividade", diz. E mesmo solidária aos vizinhos, Fellet diz que o interesse público
deve ser prioridade: "Higienópolis precisa do metrô e São Paulo precisa de transporte
público".

Veja as questões sobre as quais você vai trabalhar:

- Como descrever as desigualdades sociais apresentadas nessa reportagem a partir


de Weber?

- Como explicar a expressão “gente diferenciada” usando seus conhecimentos sobre


a visão weberiana?

Não pode faltar


Você já viu como se dá a ação social para Weber, que desenvolveu a base de seu
pensamento sociológico observando o indivíduo que, segundo ele, é responsável pela
ação social. Lembre-se: a ação social é a conduta humana com sentido: a pessoa age
levada por motivos que resultam da influência da tradição, da emotividade e dos interesses
racionais. Na teoria weberiana o homem passou a ter significado e especificidade. É o
homem que dá sentido à ação social, estabelece a conexão entre o motivo da ação,
a ação propriamente dita e seus efeitos, suas consequências. Costa (2005) diz que,
para a sociologia weberiana, os acontecimentos que integram o social têm origem no
indivíduo.

A interpretação de Weber sobre as ações individuais indica que a racionalidade é uma

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 105


U2

importante característica do mundo moderno. Como explicar racionalidade na visão


weberiana? A partir de vários estudos, Weber elabora uma concepção revelando que,
na modernidade, a pessoa tende a agir muito mais com relação a objetivos, de maneira
muito mais racional. Já nas sociedades pré-modernas, nas quais os dogmas religiosos
inundavam toda a vida social, os indivíduos tendiam a agir motivados pela tradição e
pelas emoções. Claro que isso não significava, para Weber, a inexistência da razão nas
sociedades antigas. O que ele fez foi estabelecer uma distinção básica entre razão e
racionalidade. Acompanhe: todo homem, como ser pensante, é dotado de razão, tem
a capacidade de raciocinar. Mas apenas isso não assegura que utilize essa capacidade
para calcular suas atitudes e condutas. Quer dizer que apenas ser dotado de razão não
garante que o homem racionalize todos os aspectos de sua vida.

Pesquise mais
Hoje não há mais a necessidade de recorrer a entidades metafísicas para
dominar a realidade. As concepções religiosas cedem lugar à concepção
mais racionalizada da vida. O espírito racional cria uma autonomia das
esferas da vida, de forma que os conjuntos das atividades sociais se
libertam do domínio das tradições ou daquilo que se entendia como
sagrado, transcendente, para se definirem em função de uma lógica
própria onde imperam a eficiência e o cálculo. Essa é a base do artigo
“Racionalização e Modernidade em Max Weber”. Disponível em <http://
www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/revistahumus/article/
viewFile/1907/84>. Acesso em: 22 jul. 2015.

Conforme aponta Costa (2005), Weber também não negou que as tradições e os
valores continuam a influenciar as ações do homem moderno, mesmo que em menor
proporção. Mas ressaltou que há uma diferença marcante na sociedade moderna
justamente nesse ponto: a supremacia de uma lógica voltada aos resultados, e não em
valores, emoções e tradições.

Veja que interessante o que Costa (2005) destaca: para Weber, a sociedade coloca
cada vez mais foco nas relações racionais, estratégicas, reflexivas. As ações sociais
se estabeleceriam sobre estratégias e cálculos voltados para a ação do outro, o que
podemos traduzir por “racional”. Calcular suas ações, planejar, estabelecer metas, buscar
meios eficientes para alcançá-las, são características imprescindíveis para quem deseja
estar em conformidade com o mundo moderno, marcado pela lógica capitalista.

Segundo Costa (2005), Weber consegue combinar duas perspectivas: a histórica (que
respeita as particularidades de cada sociedade) e a sociológica (que ressalta os elementos
mais gerais de cada fase do processo histórico). Ainda assim, Weber considerava que
não bastava se debruçar sobre uma sucessão de fatos históricos, porque eles não fazem
sentidos por si mesmos.

106 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

Para ele, todo historiador trabalha com dados esparsos e


fragmentários. Por isso, propunha para suas análises o método
compreensivo, isto é, um esforço interpretativo do passado
e de sua repercussão nas características peculiares das
sociedades contemporâneas. Essa atitude de compreensão é
que permite ao cientista atribuir aos fatos esparsos um sentido
social e histórico (COSTA, 2005, p. 97).

Costa (2005) ainda destaca que, para Weber, embora os acontecimentos


sociais possam ser quantificáveis, a análise social envolve qualidade, subjetividade,
compreensão e interpretação. Para compreender como a ética protestante interferia
no desenvolvimento do capitalismo, Weber analisou os livros sagrados e interpretou os
dogmas de fé do protestantismo. Foi a compreensão da relação entre valor e ação que
permitiu a Weber entender a relação entre religião e economia.

Reflita
Como podem coexistir diferentes visões dos cientistas sociais? Para
Costa (2005), qualquer perspectiva que um cientista adote será sempre
uma visão dentro de um leque de possibilidades. Isso significa que vai
resultar numa explicação parcial da realidade. Na sociologia, um mesmo
acontecimento pode ter causas religiosas, econômicas, políticas, culturais,
sem que nenhuma delas seja mais significativa, ou superior à outra. Essas
causas, associadas, compõem um conjunto de aspectos da realidade que
se manifesta nas ações individuais.

Para alcançar a explicação da realidade, Weber propôs o “tipo ideal”, que é um


instrumento de análise, uma construção teórica abstrata a partir de casos particulares
analisados por ele. O termo "ideal" significa que eles pertencem ao plano das ideias,
isto é, só existem em hipótese. O tipo ideal é um instrumento de análise em que se
conceituam fatos puros e com eles se comparam os fatos reais, particulares, por meio
de aproximações e abstrações. O cientista, através do estudo sistemático das múltiplas
manifestações particulares, elabora um modelo destacando aquilo que lhe pareça
mais fundamental, mais característico. Mesmo com um leque de exemplos, nenhum
representará de forma pronta e acabada o tipo ideal, mas estabelece com ele grande
afinidade, permitindo fazer comparações, estabelecer semelhanças e diferenças. Costa
(2005) destaca que o tipo ideal não é um modelo perfeito a ser buscado pelas formações
sociais nem em qualquer realidade que possa ser observada.

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 107


U2

Exemplificando
Como o cientista utiliza o tipo ideal? O conceito, o tipo ideal, é construído
previamente e testado. Depois é aplicado a diferentes situações nas quais
o fenômeno possa ter ocorrido. Conforme o fenômeno se afasta ou se
aproxima de sua manifestação típica, o sociólogo pode então identificar e
selecionar aspectos que tenham algum interesse à explicação, tais como
fenômenos típicos como o “feudalismo” ou o “capitalismo”.

Vamos ampliar esse exemplo a partir de uma das obras mais importantes e conhecidas
de Max Weber: A ética protestante e o espírito do capitalismo, de 1905. Nesse trabalho
ele relaciona o papel do protestantismo na formação do comportamento típico do
capitalismo ocidental moderno.

Weber parte de dados estatísticos que lhe mostraram a


proeminência de adeptos da Reforma Protestante entre os
grandes homens de negócios, empresários bem-sucedidos
e mão de obra qualificada. A partir daí, procura estabelecer
conexões entre a doutrina e a pregação protestante,
seus efeitos no comportamento dos indivíduos e sobre o
desenvolvimento capitalista (COSTA, 2005, p. 101).

Há valores do protestantismo, dentre eles a poupança, a vocação, a disciplina, a


austeridade, a propensão ao trabalho, o dever, que atuavam de forma decisiva sobre os
sujeitos. Um dos pontos mais relevantes dessa obra de Weber está em revelar as relações
entre sociedade e religião, desvendando particularidades próprias do capitalismo. Veja
quatro pontos principais dessa análise, segundo Costa (2005):

1. A relação entre religião e sociedade se dá pelos valores introjetados nas pessoas e


transformados em motivos da ação social. Para Weber, a motivação do protestante é o
trabalho enquanto vocação e dever, e não como fim em si mesmo, não como o ganho
obtido através dele.

2. O que mobiliza internamente as pessoas é algo consciente. Para sair-se bem na


profissão, para revelar assim sua vocação e virtude, o protestante renuncia aos prazeres
materiais e adapta-se facilmente ao mercado de trabalho. Consequentemente, acumula
capital e o reinveste de forma produtiva.

3. Weber analisa os valores do catolicismo e do protestantismo, indicando que no


protestantismo há tendência ao racionalismo econômico, base do capitalismo. Dessa
forma, estabeleceu conexões entre a motivação dos sujeitos e a ação no meio social.

108 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

4. Para construir o tipo ideal de capitalismo ocidental moderno, Weber analisou e


estudou as diversas características das atividades econômicas na história antes e depois
das atividades mercantis e industriais. A partir daí, diz ser o capitalismo, na sua forma
típica, uma organização econômica racional apoiada no trabalho livre e direcionada para
um mercado real. O capitalismo promove o uso técnico de conhecimentos científicos, o
surgimento de forma racionalizada da administração e do direito e também a separação
entre residência e empresa.

Outra análise fundamental de Weber está ligada às formas de legitimação do poder,


importante para a compreensão do problema da legitimidade e da legalidade.

Reflita
Qual o significado de poder e dominação? Como se relacionam? Poder e
dominação não são sinônimos. Poder é a capacidade de induzir, influenciar
o comportamento de alguém, seja pela manipulação, coerção, seja pelo
uso de normas estabelecidas. Já a dominação está ligada à autoridade.
É o direito adquirido de ser obedecido, de exercer influência dentro de
um grupo. A dominação que submete o outro pode se sustentar nas
tradições, nos costumes, em qualidades muito excepcionais de certas
pessoas, interesses, afeto ou nas regras estabelecidas e aceitas pelo grupo.

Ainda segundo Costa (2005), Weber indica a dominação como uma probabilidade
de exercer o poder. Numa relação entre dominador e dominado também é necessário
o apoio em bases jurídicas, em que surge a legitimação. Isso significa que os dominados
ficarão imersos na crença de que a dominação é legítima. Então, para Weber, autoridade
é o estado que permite o uso de certo poder, mas que está ligado a uma estrutura social
e a um meio administrativo diferente. Ele abstraiu três formas puras de dominação que
regem a relação entre dominantes e dominados: a legal, a tradicional e a carismática.
Cada tipo se legitima em bases diferentes:

1. Dominação legal: baseia-se na existência de um estatuto que pode criar e modificar


as normas. É uma relação desprovida de sentimentos, apoia-se unicamente na hierarquia,
no profissionalismo. A base do funcionamento é a disciplina. O dever da obediência se
revela na hierarquia de cargos com subordinação dos inferiores aos superiores. Como
exemplos de dominação legal temos o Estado, o município, uma empresa capitalista
privada, uma associação com fins utilitários ou qualquer união em que haja uma
hierarquia regulada por um estatuto. A burocracia constitui o tipo tecnicamente mais
puro da dominação legal. Toda a evolução do grande capitalismo moderno se identifica
com a burocratização crescente das empresas econômicas.

2. Dominação tradicional: é aquela que se dá em virtude da crença na “santidade”


das ordenações e dos poderes senhoriais. O tipo mais puro da dominação patriarcal é
aquele no qual o senhor ordena e os súditos obedecem. Seu quadro administrativo é

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 109


U2

formado por servidores. Obedece-se à pessoa em virtude de sua dignidade, santificada


pela tradição, por fidelidade. As ordens estão fixadas na tradição, sendo a violação uma
afronta à legitimidade do dominante.

3. Dominação carismática: caracteriza-se pela submissão de uma comunidade a uma


pessoa em razão de seus dotes sobrenaturais. É a devoção afetiva do grupo à pessoa
do senhor graças ao carisma, à vocação pessoal, à crença no profeta, à qualidade do
herói. Quem manda é um líder e quem obedece é o discípulo. O quadro administrativo
é formado segundo o carisma e as vocações pessoais. A autoridade carismática baseia-
se na crença no profeta e no reconhecimento de seu carisma.

Já vimos como Karl Marx analisa a desigualdade social. E como Weber explica esse
fenômeno social? A tese da estratificação de Weber deve ser entendida como uma
construção baseada em tipos ideais. Isso significa que a descrição de como a sociedade
capitalista moderna estaria organizada é apenas uma referência teórica para pensarmos
a realidade.

Assim como Marx, Weber percebia as classes como categorias


econômicas (WEBER, 1946 [1922], p. 180-95). Entretanto,
ele não achava que um critério único - posse ou falta de
propriedade - determinasse a posição de classe. A posição de
classe, escreveu, é determinada pela 'situação de mercado' da
pessoa, o que inclui a posse de bens, o nível de educação e o
grau de habilidade técnica. Nessa perspectiva, Weber definiu
quatro classes principais: grandes proprietários; pequenos
proprietários; empregados sem propriedade, mas altamente
educados e bem pagos; e trabalhadores manuais não
proprietários. Dessa forma, empregados de colarinho branco
e profissionais especializados surgem como uma grande
classe no esquema de Weber. Weber não apenas ampliou a
ideia de classe de Marx, como também reconheceu que dois
outros tipos de grupos, que não a classe, têm relação com a
maneira como a sociedade é estratificada: grupos de status e
partidos (BRYM et al., 2008. p. 192).

Dias (2014) aponta que Weber, diferentemente de Marx, insistiu que apenas uma
característica da realidade social – como classe social, fundamentada no sistema de
relações de produção – não explicaria totalmente a posição do sujeito inserido no
sistema de estratificação.

Usa então três dimensões da sociedade com a finalidade de identificar as


desigualdades: a econômica, a social e a política. Essas três dimensões, para Weber,

110 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

estão relacionadas com três componentes analiticamente distintos de estratificação:


classe (riqueza e renda), status (prestígio) e poder. Assim, a posição do indivíduo dentro
do sistema de estratificação se comporia pela combinação de sua classe, seu prestígio
e seu poder. Essas três dimensões também poderiam ocorrer de forma independente,
determinando a posição de uma pessoa no sistema de estratificação.

Para Weber, classe é:

todo grupo de pessoas que se encontra em igual situação de


classe, [sendo que a situação de classe é definida como:] a
oportunidade típica de 1) abastecimento de bens, 2) posição
de vida externa, 3) destino pessoal, que resulta, dentro de
determinada ordem econômica, da extensão e natureza do
poder de disposição (ou falta deste) sobre bens ou qualificação
de serviço e da natureza de sua aplicabilidade para a obtenção
de rendas ou outras receitas (WEBER, 1991, p. 199).

Em Weber, conforme Dias (2014), as classes constituem uma forma de estratificação


social: a diferenciação é estabelecida a partir do agrupamento de indivíduos que
apresentam características similares, como, por exemplo: ricos, pobres, negros, brancos,
protestantes, católicos, homem, mulher, etc.

Acompanhe como Dias (2014) explica as diferenças entre Marx e Weber quanto às
classes sociais:

Diferentemente de Marx, que conceituou classe social como


determinada pelas relações sociais de produção (como na
sociedade capitalista, onde os proprietários dos meios de
produção formam a classe social dominante – burguesia –;
e aqueles que não detêm o controle dos meios de produção,
possuindo somente sua força de trabalho, constituem a classe
social denominada proletariado), Max Weber afirmava que as
classes sociais se estratificam segundo o interesse econômico,
em função de suas relações de produção e aquisição de bens.
A diferenciação econômica, segundo Weber, é representada,
portanto, pelos rendimentos, bens e serviços que o indivíduo
possui ou de que dispõe. As classes sociais estão diretamente
relacionadas com o mercado e as possibilidades de acesso que
grupos na sociedade possuem a este (DIAS, 2014, p. 185-186).

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 111


U2

Outro importante conceito elaborado por Weber é o de estamento. Para ele, o


estamento é formado por quem compartilha uma situação estamental, um privilégio
típico, negativo ou positivo, apoiado sob três pilares: no modo de vida, no modo formal
de educação e no prestígio obtido de forma hereditária ou profissional.

Assimile
Estamentos são situações compartilhadas de privilegiamento, positivo ou
negativo, com base no modo de vida, de educação e no prestígio obtido
hereditariamente ou profissionalmente.

Estamento se relaciona à esfera social, já que é capaz de gerar comunidade. É


um grupo social que tem como principal característica a consciência do sentido de
pertencimento ao grupo. A luta por uma identidade social é o que marca um estamento.
Weber nos apresenta um conceito de estamento ampliado: não como um corpo
homogêneo, fixo, estratificado, mas uma teia de relacionamentos que compõe um
determinado poder e influi em determinado campo de atividade.

Faça você mesmo


A interpretação de Weber sobre as ações individuais indica que a
racionalidade é uma importante característica do mundo moderno. Como
a postura de um empreendedor, nos dias atuais, pode revelar a marca da
racionalidade para Weber?

Para Weber, na modernidade, a pessoa tende a agir muito mais com


relação a objetivos, de maneira muito mais racional. Um empreendedor
estabelece os objetivos que quer alcançar e luta estabelecendo metas e
procedimentos para alcançá-los.

Sem medo de errar


Vamos voltar à situação-problema proposta no início desta seção e também retomar
importantes conteúdos para resolvê-la. Lembre-se: você tem vários elementos para
ajudar a compor suas respostas nas seções anteriores desta unidade.

A situação provoca você a pensar e analisar o problema sob as seguintes perspectivas


da teoria weberiana:

1. Weber considera três dimensões da sociedade para identificar as desigualdades: a


econômica, a social e a política. Essas três dimensões, por sua vez, estão relacionadas
com três componentes analiticamente distintos de estratificação: classe (riqueza e
renda), status (prestígio) e poder.

112 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

2. A posição do indivíduo dentro do sistema de estratificação se comporia pela


combinação de sua classe, seu prestígio e seu poder. Essas três dimensões também
poderiam ocorrer de forma independente, determinando a posição de uma pessoa no
sistema de estratificação.

3. Classe é todo grupo de pessoas que se encontra em igual situação. A situação de


classe é definida como:

a) a oportunidade de abastecimento de bens;

b) posição de vida externa;

c) destino pessoal, que resulta da extensão e natureza do poder de disposição sobre


bens ou qualificação de serviço e da natureza de sua aplicabilidade para a obtenção
de rendas ou outras receitas. As classes constituem uma forma de estratificação social,
em que a diferenciação é feita a partir do agrupamento de indivíduos que apresentam
características similares.

4. As desigualdades sociais se originam de fatores mais complexos do que apenas


a posse ou não dos meios de produção. A posição de mercado, as qualificações, as
titulações, o grau de escolaridade, os diplomas e as habilidades adquiridas modificam
sensivelmente as oportunidades e as possibilidades de ascensão social dos indivíduos.

Lembre-se

A tese da estratificação de Weber se fundamenta na construção de


tipos ideais. A descrição de como a sociedade capitalista moderna
está organizada é apenas uma referência teórica para observarmos e
pensarmos a realidade.

O tipo ideal é um instrumento de análise em que se conceituam fatos


puros e com eles se comparam os fatos reais, particulares, por meio de
aproximações e abstrações. O cientista, através do estudo sistemático
das múltiplas manifestações particulares, elabora um modelo destacando
aquilo que lhe pareça mais fundamental, mais característico.

Atenção!
Considere também outro importante conceito elaborado por Weber:
o de estamento. Segundo Weber, estamento se forma no grupo que
compartilha uma situação estamental, um privilégio típico, negativo ou
positivo, apoiado sob três pilares: no modo de vida, no modo formal de
educação e no prestígio obtido de forma hereditária ou profissional.

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 113


U2

Avançando na prática

Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com as de
seus colegas.

“O processo de racionalização no mundo moderno”


Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamento de
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
área
explicação da realidade social.
Reconhecer as relações de produção criadas pela precarização
2. Objetivos de aprendizagem
do trabalho.
3. Conteúdos relacionados Precarização do trabalho.
José partiu sozinho de sua terra natal para tentar a sorte no
Sudeste do Brasil. A falta de trabalho na região onde morava e
a quase total ausência de recursos, o fizeram decidir que ir ao
encontro do irmão mais velho seria a melhor saída. Afastado
de sua comunidade e família, rapidamente José foi tomado
pelo sentimento de privação e frustração a tudo que tinha
imaginado. Ainda assim, por contar com algum recurso no
final do mês que enviava sistematicamente para casa, seguiu
em frente. Ele nunca sabe quanto vai receber no mês, seu
4. Descrição da SP rendimento não é fixo, não é seguro.

O trabalho desempenhado por José é de natureza informal,


muito instável, e é comum que ele recorra às agências de
emprego e aceite regularmente trabalho em regime de tempo
parcial. José trabalha-para-trabalhar.

1. Quais as marcas da precarização do trabalho?


2. O que diferencia o proletariado do precariado?
3. Como explicar a expressão “José trabalha-para-trabalhar”?
1. Quais as marcas da precarização do trabalho?
Instabilidade, informalidade, insegurança (não é trabalho
fixo). A precarização está associada à casualização, à
informalização, às agências de emprego, ao regime de tempo
parcial. O precariado caracteriza-se por uma insegurança no
que toca a direitos. É negado a esses trabalhadores “o direito a
ter direitos”, o que constitui a essência da cidadania.
2. O que diferencia o proletariado do precariado?
O precariado está numa posição intermediária entre “o capital”
5. Resolução da SP e “o trabalho”. Seu envolvimento com o trabalho inclusive
fora do expediente é visto como um capital potencial a ser
explorado. José é tão explorado fora do local de trabalho, do
período laboral remunerado, como quando está no emprego
dentro do horário normal. Esse é um fator que distingue o
precariado do proletariado.

O precariado tem também relações de distribuição definidas,


estando normalmente sujeito a flutuações e não dispondo
nunca de um rendimento seguro.

114 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

Ao contrário do que, também neste aspecto, se passava


com o proletariado do século XX para o qual a insegurança
no emprego podia ser assegurada por medidas de proteção
social, o precariado está exposto a uma incerteza, tanto pela
perspectiva de vida como em relação às inseguranças às
quais José se expõe.

3. Como explicar a expressão “José trabalha-para-trabalhar”?


As formas de trabalho flexíveis, a remuneração exígua são
marcas do processo de precariado, lançando o homem
a desempenhar o trabalho-para-trabalhar em relação ao
trabalho propriamente dito. O precariado vê o emprego como
instrumental, não como algo capaz de determinar toda uma
vida. A alienação em relação ao trabalho é um dado adquirido.
O desequilíbrio resultante gera na pessoa uma profunda
frustração no que diz respeito ao status: não sente que há
um futuro e que a vida e a sociedade hão de conduzir a um
estágio melhor do que aquele no qual se encontra hoje.

Faça você mesmo


Conforme o grau de distribuição de poder, se estabelecem estratos
sociais. Como o poder determina as desigualdades sociais?

O poder é distribuído de forma desigual entre os homens: uns o detêm,


outros o suportam e outros lutam por ele. Não há um equilíbrio do poder
para todos os cidadãos. As relações de classe são relações de poder. É
o poder que estrutura também as desigualdades sociais. Para Weber, o
julgamento de valor que as pessoas fazem umas das outras e como se
posicionam nas classes depende de três fatores: poder, riqueza e prestígio.
Esses elementos são fundamentais para constituir a desigualdade social.

Lembre-se

As desigualdades sociais, para Weber, conforme destaca Costa (2005),


têm origem em fatores mais complexos e não apenas em relação à posse
ou não dos meios de produção. Segundo ele, a posição de mercado,
as qualificações, as titulações, o grau de escolaridade, os diplomas e as
habilidades adquiridas modificam sensivelmente as oportunidades e as
possibilidades de ascensão social dos indivíduos.

Faça valer a pena

1. A partir de nossas análises e estudos, preencha adequadamente as


lacunas do texto na respectiva ordem:

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 115


U2

A ____________ condenava o envolvimento com a vida prática, a


cobrança de juros e o lucro. Isso limitava moralmente as pessoas a gerarem
riqueza, principalmente quanto à obtenção de ganhos financeiros. Já o
____________ não condenava essas práticas, pelo contrário: considerava
que o enriquecimento era uma graça de Deus como recompensa pelo
seu trabalho. Estamos na época dos primórdios do ____________ : o
comércio na Europa estava cada vez mais ativo, a variedade de especiarias
e de novos produtos intensificava o desejo de consumo. Esses fatores,
dentre outros, fizeram com que uma religião que tinha a riqueza como
graça de Deus tivesse uma aceitação muito rápida e disseminada.

A alternativa que preenche as lacunas do texto é, na ordem:


a) religião - capitalismo - capitalismo
b) sociologia - protestantismo - protestantismo
c) Igreja Católica - protestantismo - capitalismo
d) Igreja Católica - capitalismo - protestantismo
e) sociedade - protestantismo – capitalismo.

2. Instrumento de análise científica, construção do pensamento através


do qual se conceitua fenômenos e identifica, na realidade específica,
suas manifestações. Permite, inclusive, a comparação das diferentes
manifestações.
Essa definição se aplica:

a) Ao tipo ideal, instrumento de análise proposto por Weber para alcançar


a explicação dos fatos sociais.
b) Ao conceito de classes sociais similar em Durkheim e Weber.
c) A um dos tipos ideais de dominação proposto por Max Weber.
d) À explicação das desigualdades sociais a partir dos estudos de Karl Marx
e Max Weber.
e) Ao protestantismo como favorecedor dos preceitos do capitalismo
moderno.

3. (Adaptado UEL) Leia este trecho da Carta-Testamento de Getúlio Vargas:


“Sigo o destino que é imposto. Depois de decênios de domínio e
espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me
chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei

116 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos


braços do povo.”
(VARGAS, G. Carta-Testamento. Disponível em: <http://www0.rio.rj.gov.
br/memorialgetuliovargas/conteudo/expo8.html> Acesso em: 17 jul.
2015.)

Considere o texto, as características históricas e políticas do período e


seus conhecimentos sobre os tipos ideais de dominação na visão de
Weber. Assinale a alternativa que apresenta a configuração do tipo de
dominação exercida por Getúlio Vargas:

a) Dominação carismática e tradicional.


b) Dominação tradicional que se opõe à dominação carismática.
c) Dominação tradicional e legal.
d) Dominação legal e carismática.
e) Dominação legal que reforça a dominação tradicional.

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 117


U2

118 As ciências sociais: formas de compreender o mundo


U2

Referências

BOBBIO, Norberto; MATEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política.


Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1993.
BRYM, R. et al. Sociologia: sua bússola para um novo mundo. São Paulo: Cengage
Learning, 2008.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2012.
CLARET, Martin. Chaplin por ele mesmo. São Paulo: Martin Claret, 2004.
COSTA, Maria Cristina Castilho. Sociologia: introdução à ciência da sociedade. São
Paulo: Moderna, 2005.
DIAS, Reinaldo. Fundamentos de sociologia geral. Campinas: Alínea, 2014.
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. 2º. ed. São Paulo: Martins Fontes,
1999.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.
LEONARDE, Alexandre. Victor, o “selvagem de Aveyron”. Disponível em: <http://www.
leonarde.pro.br/victoroselvagem.pdf>. Acesso em: 11 set. 2015.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1983. v. 1,
tomo 1.
MARX, Karl; ENGELS, Friederich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Alfa-
Ômega, 1977. v. 3. (Textos).
RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita. Trad. Raquel Ramalhete. São Paulo: Editora 34,
1995. (Coleção Trans).
REBUGHINI, Paola. A comparação qualitativa de objetos complexos e o efeito da
reflexividade. In: MELLUCI, Alberto (Org.) Por uma sociologia reflexiva: pesquisa
qualitativa e cultura. Petrópolis: Vozes, 2005.
RODRIGUES, José Albertino (Org.). Durkheim. São Paulo: Ática, 1981.
SCOTT, John. Sociologia Conceitos-Chave. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
TAB. Desigualdade social: vira-casaca. Disponível em: em: <http://tab.uol.com.br/
desigualdade-social>. Acesso em: 09 jul. 2015.
WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1991.

As ciências sociais: formas de compreender o mundo 119


Unidade 3

A CONSOLIDAÇÃO DA
SOCIEDADE GLOBAL

Convite ao estudo

O tema a ser desenvolvido nesta unidade aborda a construção da sociedade


global analisando os antecedentes históricos, os aspectos gerais e os efeitos
da globalização. Vamos conhecer como a globalização se estabeleceu
historicamente e as marcas do processo de globalização que é disforme,
heterogêneo e inacabado.

Veja as competências e objetivos da disciplina:

Competência de fundamento de área Conhecer as diversas correntes teóri-


a ser desenvolvida cas que explicam o homem, a vida
em sociedade e as diversas formas de
explicação da realidade social.
Objetivo geral Compreender o percurso histórico da
sociedade globalizada com marcas
da construção política e ética con-
duzindo à possibilidade de atuação do
sujeito de forma efetiva, consciente e
transformadora.
Objetivos específicos •Conhecer o processo histórico da
globalização e seus efeitos.
•Relacionar os aspectos gerais da
globalização compondo um processo
dinâmico.
•Compreender as marcas da glo-
balização na atualidade gerando
implicações éticas e culturais.
•Reconhecer as implicações ambien-
tais da globalização.
U3

Acompanhe a seguinte situação geradora de aprendizagem:

A globalização é um fenômeno que atinge o mundo, mas de formas


diferenciadas conforme a região ou ainda conforme o aspecto que observamos.
Alcança nações e povos na sua economia, cultura, tecnologia e política. É um
processo que está em curso e pode ser observado também ao se considerar
sua amplitude histórica.

Especificamente no Brasil, podemos dizer que a globalização foi inaugurada


com a chegada dos europeus em 1500. Mas se intensificou adquirindo as
marcas que conhecemos hoje a partir da década de 1990, com grande impacto
na economia. Foi nos anos 1990 que o Brasil adotou um modelo econômico
que objetivava a mínima intervenção do Estado na economia – o neoliberalismo.
Como consequência, as privatizações das empresas estatais se intensificaram
com forte abertura para o capital externo. Agora, com o capital aberto, as
multinacionais se fixaram no Brasil buscando ampliar seu mercado consumidor,
ter mais facilidade de acesso a matérias-primas e também contratar mão de
obra barata.

A globalização primeiramente está ligada a uma rede de produção e troca de


mercadorias que se estabelece em nível mundial. É o fenômeno do intercâmbio
político, social e cultural entre as diversas nações e representa também uma
nova forma de organização das sociedades, capaz de superar as identidades
nacionais e os particularismos religiosos, étnicos e regionais. Os anos 1990,
especificamente, representaram uma época de crise, com concentração de
renda e precarização do trabalho. Com a abertura de capitais, houve maior
inserção das indústrias e companhias multinacionais no Brasil. Instalaram-se aqui
para ampliar o mercado consumidor e também para buscar mão de obra barata,
além de maior acesso às matérias-primas. Isso acarretou uma menor oferta de
emprego, no mundo todo e no Brasil, com condições de trabalho precarizadas.

Nos anos 2000, as inovações provocaram mudanças substanciais nos


sistemas produtivos, com considerável aumento de produtividade, mas o
crescimento econômico global entra em declínio com intenso e crescente
desnível entre as faixas de renda superiores e inferiores. Há então uma expansão
considerável do desemprego, da pobreza, da fome, das doenças endêmicas,
da deterioração ambiental, dentre outros problemas que degradam a vida em
sociedade. Por outro lado, no Brasil, houve uma sensível redução da desigualdade
e da pobreza no país, devido a circunstâncias políticas, econômicas e históricas
muito específicas.

A consolidação da sociedade global tem alterado significativamente o


cenário natural no qual estamos inseridos acarretando severas consequências
para o meio ambiente.

122 A Consolidação da sociedade global


U3

- Como a globalização atinge, molda e compõe nossa realidade


econômica, nossa cultura, nosso aparato tecnológico, os fluxos de
informações, de mercadorias, de capitais e de pessoas?

- Quais as implicações ambientais da globalização?

- De que forma a sociedade brasileira responde e se altera frente à


mundialização?

Para vencer esses desafios, acompanhe nesta unidade as quatro seções.


Na primeira, analisaremos os movimentos migratórios ao longo da história,
identificando conexões com a comunicação global. A segunda seção traz
aspectos marcantes da sociedade global relacionados com a economia e
a política, destacando como as trocas culturais se impregnam nesse cenário.
Na terceira seção trataremos da relação entre tecnologia da informação e
comunicação global, além disso, a importância do multiculturalismo e da
homogeneidade cultural também será incluída como componente da análise
do processo de globalização. Na quarta e última seção, as relações entre
globalização e meio ambiente serão analisadas, promovendo a reflexão sobre
os cenários alterados que nos rodeiam e as várias implicações de mudanças tão
drásticas.

A Consolidação da sociedade global 123


U3

124 A Consolidação da sociedade global


U3

Seção 3.1

Como chegamos à globalização


Diálogo aberto

Nesta seção, vamos discutir como chegamos à globalização. Para compreender


esse cenário é preciso considerar os antecedentes históricos e os pressupostos do
processo de globalização. Vamos abordar como esses fatores, relacionados, podem
nos ajudar a compor a trama de uma sociedade global. Note que não podemos
perder de vista que nosso objetivo é compreender todas essas relações frente à
situação geradora de aprendizagem apresentada no início da unidade. Para tal,
retomaremos a situação abordando como os movimentos migratórios ao longo da
história marcam a construção de uma sociedade globalizada com intensas trocas e
influências favorecidas pela comunicação que, agora, é global. Vamos analisar como
os movimentos migratórios ao longo da história se ligam à conexão e à comunicação
global. Também veremos quais as consequências de viver numa sociedade global,
conectada. Precisamos então compreender como chegamos à globalização
considerando os antecedentes históricos e os pressupostos desse processo.

Acompanhe a seguinte situação-problema:

Rodny e Antal deixaram seu país de origem, o Haiti, juntamente com um grupo de
muitos outros compatriotas em direção ao Brasil. O terremoto que assolou o país em
2010 trouxe severas consequências para o Haiti que já foi, no século XVII, a colônia
mais rica do mundo. Atualmente o Haiti é o país mais pobre do Hemisfério Ocidental,
com uma longa história de sofrimento que se arrasta por 200 anos, marcada por
violência, golpes militares, fome e catástrofes naturais como o terremoto de 2010, a
pior das tragédias de sua história. Arruinados pelo terremoto, os haitianos dependem
totalmente da assistência internacional para sobreviverem. Sem perspectiva de trabalho
no Haiti, Rodny e Antal deixaram para trás famílias, filhos e esposas em busca de uma
vida melhor no Brasil com o sonho de melhorar a vida também para seus parentes.
Aqui se depararam com dificuldades enormes, que não supunham ter de enfrentar:
milhares de haitianos já se encontravam em solo brasileiro sem trabalho, com a
situação migratória irregular, sem moradia, vivendo em condições bem precárias.

A Consolidação da sociedade global 125


U3

Agora, Rodny e Antal entraram também na imensa lista de haitianos que lutam por
trabalho e dignidade. De que forma esses haitianos poderão enfrentar e resolver tal
cenário na busca por dignidade e trabalho?

Não pode faltar

A situação requer uma resposta baseada em conhecimentos em um cenário


mundial e nacional que vem se compondo historicamente e, por isso mesmo, jamais
se finaliza. Requer que usemos pensamento científico, crítico, análise e interpretação
para que a construção do conhecimento se consolide.
Muitos estudiosos defendem que os principais problemas da atualidade são a
miséria, a exclusão e as desigualdades sociais. Note como há um contraste entre o
mundo tão evoluído, aparentemente rico dado o intenso desenvolvimento da ciência
e da tecnologia, e esse outro mundo miserável para alguns. Atualmente os conflitos
sociais adquirem uma nova amplitude atingindo todo o planeta, mesmo que em
proporções diferentes conforme a região.
Observe que estamos nos inserindo num universo muito rico, com variáveis e
componentes históricos que, pouco a pouco, vão nos conduzir ao entendimento da
nossa situação-problema. Vamos tratar os aspectos de forma pontual e específica,
para que você possa compreender os motivos que vão fundamentar suas reflexões,
análises e escolhas. Quando nos deparamos com um cenário no qual múltiplas
variáveis estão envolvidas, as respostas para os desafios nem sempre aparecem de
pronto e não são únicas. Requerem reflexão, interpretação e comparação com outras
situações e experiências. Isso vai exigir compreender conceitos e cenários históricos
além de reconhecer novas variáveis para que, efetivamente, possam emergir soluções
mais viáveis para o contexto. Juntos nos lançaremos na compreensão do caminho
que trilhamos rumo à globalização. Esse caminho passa pelos antecedentes históricos
e pressupostos da globalização.
Os povos da Terra viveram por muito e muito tempo isolados dos demais, já que
os continentes estavam separados por imensas e intransponíveis extensões de água e
terra. A consequência é que a maioria dos povos permanecia imersa em sua cultura
de forma autossuficiente. Isso quer dizer que nascia e morria no seu lugar de origem,
sem ter conhecimento da existência de outros grupos sociais.
Ainda assim, o processo de globalização não é recente. Os homens, ao se
aproximarem de outros grupos, interagiam, realizavam trocas e geravam transformações
em vários aspectos da cultura que foram se espalhando e se misturando. As sociedades
do mundo estão imersas no processo de globalização, e as mais fortes raízes desse
processo estão fincadas há pelo menos cinco séculos, época das grandes navegações.

126 A Consolidação da sociedade global


U3

Pesquise mais
Para compreender mais sobre a origem e a evolução da globalização,
recomenda-se a leitura do seguinte artigo:

SOUZA, Andréia Nádia Lima. Globalização: origem e evolução. Caderno de


Estudos Ciência e Empresa, Teresina, Ano 8, n. 1, jul. 2011. Disponível em:
<http://docplayer.com.br/4700934-Globalizacao-origem-e-evolucao.
html>. Acesso em: 29 maio 2015.

Há alguns fatores que propiciaram o rompimento do homem europeu com o


mundo medieval, lançando-se aos mares:

a) O primeiro deles foi que, no século XV, a produção agrícola não conseguia mais
atender à demanda dos centros urbanos. A produção feita de forma artesanal não
tinha mais mercados no campo. O comércio internacional escoava os poucos metais
preciosos da Europa para outras regiões. A solução encontrada era tentar ampliar a
Europa por meio da expansão marítima para alcançar novos comércios através de
produtos buscados e de alto valor, as especiarias. A produção deixara de ser artesanal,
no campo, e passava para as oficinas nas cidades, nos burgos.

b) Outro fator importante foi a aliança entre os reis e a burguesia: um empreendimento


do vulto das grandes navegações só se concretizaria com um Estado rico que contasse
com o capital da burguesia.

c) O terceiro fator foi o avanço técnico e científico que propiciou o desenvolvimento


da astronomia e cartografia e a construção de equipamentos e instrumentos, tais
como bússola, astrolábio, sextante, caravela, dentre outros.

Assimile

A era dos descobrimentos, disparada pelos portugueses que realizaram as


primeiras rotas marítimas entre o Ocidente e o Oriente, fundaram o início
da dependência entre os povos. A colonização europeia dos territórios
ocupados impôs a cultura dos dominadores. Os países então colonizados
passam a participar do comércio fornecendo mão de obra para o trabalho,
além de recursos naturais. Note como é possível reconhecer tal cenário a
partir da chegada dos portugueses no Brasil: de imediato os índios foram
escravizados e o pau-brasil rapidamente levado para Portugal.

A Consolidação da sociedade global 127


U3

O complexo fenômeno da globalização, iniciado na época das grandes navegações,


prosseguiu e se desenvolveu com a Revolução Industrial. A utilização de energias
provenientes do carvão, do vapor e, mais tarde, do petróleo acentua a melhoria do
nível de vida das populações ao propiciar máquinas, meios de transporte e meios de
comunicação muito mais eficientes. Acentua-se a interdependência entre as diversas
regiões do mundo estimulando trocas, produção em massa, divisão do trabalho e
a necessidade imperativa de buscar novos mercados para escoar os produtos. Isso
favoreceu o nascimento de empresas de grandes dimensões com filiais espalhadas
por todo o globo.

Mesmo considerando que a globalização remonta à origem do homem na


Terra, com características e marcas diferentes das que vemos hoje, o processo de
intercâmbio global de pessoas, ideias e bens vem se desenvolvendo e evoluindo
conforme as necessidades dos homens, já que as exigências mundiais estão sempre se
alterando. O processo histórico que denominamos como “globalização” propriamente
dito e usado atualmente é recente, tendo como marco histórico desse “mundo sem
fronteiras” a queda do muro de Berlim, em 1989. Esse marco simboliza a queda do
império soviético – com o fim do socialismo real e da Guerra Fria – e a expansão
do capitalismo, que se dava desde o final da Segunda Guerra Mundial. Esses fatores
impulsionaram como nunca o avanço da Comunidade Comum Europeia.

Reflita

Analisando o que tratamos até aqui, é possível traçar um vínculo entre a


implantação do capitalismo no mundo, intensificando o terceiro período
da globalização, com a formação de impérios? Se você respondeu que
sim, está correto. Segundo Costa (2005), a implantação do capitalismo
de forma ampla no mundo através de estreitas relações internacionais
de dependência econômica e política submete as nações a centros
hegemônicos, caracterizando o que conhecemos por imperialismo.
Quando o capitalismo se derrama por todo o mundo, invadindo os diversos
continentes, promove um forte e intenso processo de centralização,
com a consequente formação de impérios. A economia se torna muito
planificada e com produção ampliada. A tecnologia assume um papel
cada vez mais importante: na produção de mercadorias, na conquista
e manutenção de territórios (atividades bélicas). A cultura se globaliza
e passa a ser então muito homogeneizada com a criação da indústria
cultural. Intensifica-se drasticamente a mobilização populacional, levando
multidões a se instalarem em outros territórios.

128 A Consolidação da sociedade global


U3

Observe como agora, vencido o embate capitalismo versus comunismo, o


regime de livre mercado passou a ser praticado compondo uma economia “livre”.
A necessidade de expandir seus mercados levou os países, pouco a pouco, a se
abrirem para produtos de outras nações, configurando então um novo crescimento
da ideologia econômica do liberalismo, chamado de neoliberalismo.

A expressão “globalização” tem sido usada mais recentemente para se referir


principalmente a um processo de integração econômica que se caracteriza pelo
predomínio dos interesses financeiros. Esse é um dos principais motivos pelos quais
vários estudiosos a apontam como responsável por ampliar a exclusão social.

Veja como o fenômeno da globalização se caracteriza essencialmente pela


intensificação, pelo aprofundamento de relações entre países. Essas relações
abrangem esferas comerciais, econômicas e culturais. As constantes e rápidas
inovações tecnológicas – afetando diretamente as comunicações e os transportes –
são capazes de diminuir as distâncias e superar as fronteiras dos países. Rapidamente
a globalização tem consequências em áreas tais como as culturais, sociais e políticas.
Não há como se restringir apenas à análise das esferas econômica e comercial. A
quebra das fronteiras fomenta a expansão capitalista concretizando transações
financeiras, expandindo os negócios para mercados distantes e emergentes.

Note como essa última fase da globalização dentro do processo histórico carrega
uma forte característica, que é a instantaneidade das operações e das relações entre
os homens graças à revolução da informação.

Como a conexão e a comunicação global, feitas de forma instantânea, se


inserem no processo de globalização? Para Costa (2005), o desenvolvimento da
informática e das telecomunicações é fator decisivo na constituição da globalização.
A comunicação em rede concretiza formas inovadoras de cooperação e articulação
por todo o planeta. Afeta também a concepção dos processos produtivos, que
sofreram uma mudança radical: agora são muito mais centralizados, integrados e
planejados. Uma reengenharia industrial se estabelece com sistemas cada vez mais
automatizados, substituindo a mão de obra humana. Ainda segundo Costa (2005),
a consequência direta de alterações tão profundas repercute no desemprego além
de, claro, tornar obsoletas várias profissões que, da noite para o dia, passaram a ser
totalmente desnecessárias.

Imagine este cenário: a economia informal tenta se desenvolver, sobreviver


com legiões de pessoas em atividades temporárias ou insólitas. A exclusão social se
acentua severamente e o empobrecimento de regiões e países periféricos confirma
que o desenvolvimento econômico, tão almejado, não é para todos. Aqui, o conceito
“globalização”, não se aplica: o desenvolvimento não invade todas as nações, não
atinge todas as sociedades, não chega para todos os homens.

A Consolidação da sociedade global 129


U3

Exemplificando

Na madrugada de 16 de janeiro de 1991 começava a primeira guerra


televisionada da história. A rede norte-americana CNN transmitia ao vivo
imagens de mísseis cruzando o céu de Bagdá, capital do Iraque, no Golfo
Pérsico. Nunca uma guerra havia sido televisionada. O bombardeio era o
início da operação Tempestade no Deserto, encabeçada pelos Estados
Unidos, apoiados por mais de 30 nações, contando inclusive com o
aval da Organização das Nações Unidas (ONU), contra o Iraque. Nesse
contexto, como a globalização se insere?

Graças à globalização, até mesmo a guerra entrou “ao vivo” no cotidiano


das pessoas, ainda que estivessem muito distantes do conflito, algo
impensável até pouquíssimo tempo atrás. Com o avanço dos meios
de comunicação, com a possibilidade de conexões em rede, a guerra
está nas casas das pessoas, que podem acompanhar ao vivo pela TV o
conflito EUA versus Iraque. O processo de globalização esteve presente
nessa guerra, que foi apresentada na sua forma mais crua e real nas telas
das televisões, carregando uma grande carga ideológica negativa que a
guerra tem o poder de causar. A guerra não foi transmitida apenas para
a sociedade norte-americana, mas, diariamente, para o mundo inteiro,
conectado, bastando-se ligar a TV. Vemos uma rápida consequência na
esfera da formação da opinião pública: os EUA passam a ter dificuldade
para explicar o real motivo da Guerra do Iraque para uma sociedade
informada. Revelam-se para o mundo todo os interesses norte-americanos
em relação ao petróleo do Oriente Médio.

Para Costa (2005), a informática passou a fazer parte do cotidiano das pessoas,
da comunicação, dos sistemas de defesa, da engenharia genética, dentre outros e,
fundamentalmente, da produção e do mercado. A rapidez e a agilidade das trocas
comerciais, da produção, dos fluxos financeiros, trouxeram para a economia um ritmo
impensável.

A mercantilização das relações sociais que vivemos na globalização é chamada


por alguns autores de “mercado-rede”: uma entidade reguladora das ações políticas
e econômicas da sociedade que agora atua em nível internacional. Observe como
uma nova mercadoria se firma no mundo como a principal fonte de valor que circula
pelas redes de comunicação: a informação. De forma simples, podemos dizer que
informação é todo dado que carrega algum significado, que tem algum valor para
uma pessoa ou para um grupo de pessoas que se dispõem a pagar por ela.

130 A Consolidação da sociedade global


U3

O investimento em comunicação não parou de crescer, e, nos EUA, formou-se


um imenso mosaico de redes que penetram em todas as relações e também nos
processos produtivos. Para Costa (2005), a implosão das formas de regulamentação
que organizavam o trabalho, a produção e as relações entre as pessoas teve como
consequência uma desregulamentação, com a privatização dos serviços públicos
– especialmente das comunicações – e a distinção mais marcante entre trabalho
manual e informação. Ainda segundo Costa (2005), isso pode ser sentido em rotinas
elementares da nossa vida, como o correio, o controle de temperatura dos ambientes,
por exemplo.

A revolução técnico-científica, iniciada a partir dos anos 1970, alterou


significativamente a estrutura de produção e de comercialização. Tais transformações
possibilitaram invenções no modelo de telecomunicações. A microeletrônica,
os satélites, a robótica são algumas das invenções que contribuíram para o
desenvolvimento de produtos que temos em nossas mãos, tais como os tablets,
smartphones, microcomputadores. Esses equipamentos são responsáveis pelo acesso
às redes sociais e pela transmissão de informações em tempo real. Essas ferramentas
também determinaram a integração econômica pelo mundo permitindo um fluxo
dinâmico e constante de informações, mercadorias e capitais.

A ideia de uma sociedade estabelecida sob múltiplas redes que organizam áreas de
ação, trocas, relação, reforça nossa certeza de que vivemos uma forte interdependência
no mundo globalizado. Veja como nos remete à reciprocidade, à relação dialética que
se configura entre nós, os conectados pelas redes.

Faça você mesmo

“As cidades estão cheias de gente. As casas cheias de inquilinos. Os


hotéis cheios de hóspedes. Os trens, cheios de viajantes. Os cafés,
cheios de consumidores. As praias, cheias de banhistas. O que antes não
era problema, hoje começa a sê-lo: encontrar um lugar.” (ORTEGA Y
GASSET. A rebelião das massas. In: ORTIZ, Renato. Um outro território.
São Paulo: Olho d’água, s/d. p. 96.)

Analise a seguinte situação, proposta por Costa (2005): se dois jogadores


disputam uma partida de xadrez on-line, estando um de manhã no Japão
e outro à noite, do outro lado do mundo, em que dia se dá o jogo? A qual
calendário se refere a partida? Suponha que esses jogadores estivessem
estabelecendo um contrato, qual a data de tal documento? Qual
resposta você propõe? Fundamente sua resposta usando elementos,
características da globalização.

A Consolidação da sociedade global 131


U3

Vocabulário

Capitalismo: capitalismo é o sistema socioeconômico no qual os meios


de produção (terras, máquinas, prédios, fábricas) e o capital (dinheiro) são
de propriedade privada, ou seja, têm um dono e possuem essencialmente
fins lucrativos.

Liberalismo econômico: é a teoria segundo a qual o Estado não deve


intervir nas relações econômicas que existem entre indivíduos ou países/
nações. Defende o livre uso, da parte de cada indivíduo ou da sociedade,
de sua propriedade, sendo partidário da livre-empresa, em oposição ao
socialismo. O liberalismo começou a se fortalecer em meados do século
XIX, após as décadas de 1830-1840, e teve sua maior representação na
França.

Multiculturalismo: fenômeno que estabelece a coexistência de várias


culturas em um mesmo espaço territorial. Graças aos importantes avanços
tecnológicos, ao desenvolvimento das comunicações e da interligação
de diferentes partes do mundo, todas as sociedades podem receber
informação sobre outras. O crescimento das migrações e a travessia das
fronteiras colaboram com a mistura de culturas e sociedades.

Neoliberalismo: conjunto de ideias econômicas e políticas que defende


a não participação do Estado na economia para assegurar crescimento
econômico e desenvolvimento social. Tem como marcas a privatização
de empresas estatais, a pouca intervenção do governo no mercado de
trabalho, a abertura para o capital externo – favorecendo a fixação de
multinacionais – e a livre circulação de capitais internacionais, por exemplo.

Socialismo: doutrina política e econômica que surgiu no final do século


XVIII e se caracteriza pela ideia de transformação da sociedade através da
distribuição equilibrada de riquezas e propriedades, diminuindo assim a
distância entre ricos e pobres através da abolição da propriedade privada.

Sem medo de errar

Meu convite agora é para buscarmos juntos a resposta para a situação-problema


apresentada no início da seção, levando em conta os conhecimentos trabalhados,
elaborados, construídos e transformados ao longo do nosso percurso.

132 A Consolidação da sociedade global


U3

Lembre-se

A mercantilização das relações sociais, que alguns autores nomeiam


“mercado-rede”, é uma entidade reguladora das ações políticas e
econômicas da sociedade atuando em nível internacional. Veja como
uma nova mercadoria se firma no mundo como a principal fonte de valor
que circula pelas redes de comunicação: a informação. Informação é
todo dado que carrega algum significado, algum valor para uma pessoa
ou mesmo para um grupo de pessoas que está disposto a pagar por ela.
Ter informação é ter também certo poder.

Vamos retomar a situação-problema:

A globalização é um fenômeno que atinge o mundo, mas não de maneira


homogênea, uniforme, linear. Afeta diretamente os povos em áreas tais como
economia, cultura, tecnologia e política. É um processo que está em curso e precisa
ser visto na sua amplitude histórica.

No Brasil, podemos dizer que a globalização foi inaugurada com a chegada dos
europeus em 1500, mas se intensificou adquirindo as marcas que conhecemos hoje
a partir da década de 1990, com grande impacto na economia. Foi a partir daí que o
Brasil adotou um modelo econômico visando à mínima intervenção do Estado na
economia – o neoliberalismo. Abre-se o mercado para o capital externo com empresas
estatais sendo privatizadas. Pavimentou-se o caminho para as multinacionais se fixarem
no Brasil com o objetivo de ampliar seu mercado consumidor, ter mais facilidade de
acesso a matérias-primas e também contratar mão de obra barata. Vemos então uma
forte contradição trazida pela globalização no cenário do Brasil: apesar do aumento
da produção e do aumento considerável da venda de aparelhos tecnológicos, temos
em contraposição a acentuação da precarização do trabalho e da concentração de
renda, e a redução dos postos de trabalho. A consolidação da sociedade global tem
alterado significativamente o cenário natural no qual estamos inseridos, acarretando
severas consequências para o meio ambiente.

Considere o foco de seus estudos, descobertas e análises encaminhadas até aqui


com o cenário no qual esses fatores se relacionam. Sua interpretação a partir da
análise do caso de Rodny e Antal será ainda mais rica ao levar em conta o referencial
teórico trabalhado. A partir dessas informações, construa a trama que poderá explicar
a imigração haitiana para o Brasil, a necessidade de deixar a terra natal, abandonar a
família em busca de uma vida melhor, mais digna.

- Como a globalização atinge, molda e compõe nossa realidade econômica, nossa


cultura, nosso aparato tecnológico, os fluxos de informações, de mercadorias, de
capitais e de pessoas?

A Consolidação da sociedade global 133


U3

- Quais as implicações ambientais da globalização?

- De que forma a sociedade brasileira responde e se altera frente à mundialização?

- Quais as consequências de viver numa sociedade global, conectada?

- Como chegamos à globalização atual, considerando os antecedentes históricos


e os pressupostos desse processo?

Analise como os movimentos migratórios ao longo da história se ligam à conexão


e à comunicação global.

Atenção!

O fenômeno da globalização se caracteriza essencialmente pela


intensificação, pelo aprofundamento de relações entre países que
abrangem esferas comerciais, econômicas e culturais. As constantes e
rápidas inovações tecnológicas são capazes de diminuir as distâncias e
superar as fronteiras dos países. De forma rápida e intensa, a globalização
afeta áreas tais como as culturais, sociais e políticas. A quebra das fronteiras
fomenta a expansão capitalista concretizando transações financeiras,
expandindo os negócios para mercados distantes e emergentes. Essa
última fase da globalização dentro do processo histórico carrega uma
forte característica, que é a instantaneidade das operações e das relações
entre os homens graças à revolução da informação.

Avançando na prática
Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois as compare com as de
seus colegas.

“Como chegamos à globalização”


Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamento de
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
área
explicação da realidade social.
Reconhecer a relação entre conexão e comunicação global
2. Objetivos de aprendizagem
com o mercado de trabalho.
3. Conteúdos relacionados Conexão e comunicação global.

134 A Consolidação da sociedade global


U3

Débora e alguns colegas de trabalho se relacionam


constantemente usando ferramentas de interação na internet.
Um dos colegas de Débora postou um comentário depreciativo
em relação à empresa na qual trabalham. Débora, ao ler o que
o colega postou na rede de relacionamentos, rapidamente
respondeu, ampliando a crítica de forma severa. A empresa
teve acesso ao comentário pejorativo e a consequência do que
Débora escreveu e disseminou pela internet foi sua demissão
4. Descrição da SP
por justa causa. Agora ela tenta reverter esse quadro, pois está
difícil explicar nos exames de seleção aos quais se submete
porque foi demitida e, principalmente, convencer o próximo
empregador que sua postura mudou após o episódio.
Quais foram os fatores que Débora ignorou ao postar na internet
um comentário ruim contra a empresa na qual trabalhava?
Para buscar nova colocação no mercado de trabalho, como
Débora pode se valer da conexão e da comunicação global?
Até muito pouco tempo era impensável que as pessoas se
comunicassem em tempo real com rapidez intensa, vencendo
qualquer fronteira física, como o que temos hoje com o
advento da internet. Graças ao intenso e constante avanço
das tecnologias da informação, estamos num processo sem
volta. Esse cenário de um mundo conectado invade todas
as esferas, dentre elas, a profissional. Hoje não existe mais a
divisão entre o que somos como pessoas, como indivíduos
em nossas famílias, nos clubes, nas escolas, e aquiloque
somos como profissionais. Tudo se compõe numa trama
única, cheia de meandros, nos quais nos revelamos também
nas redes de relacionamentos. Foi isso que Débora ignorou
ao postar na internet um comentário ruim contra a empresa
5. Resolução da SP na qual trabalhava. Supôs que ali era um universo particular,
lugar onde se estendiam as conversas reais, feitas de forma
concreta, pessoalmente, que travava sempre com os colegas
de trabalho. Vivemos uma época na qual as relações virtuais
também se revestem de importância e atingem esferas que
nem sequer sonhamos. Um comentário, seja qual for, pode
romper barreiras de forma avassaladora. Para buscar nova
colocação no mercado de trabalho Débora pode se valer
da conexão e da comunicação global de algumas formas:
disseminando o currículo através de seus contatos, buscando
vagas de emprego pela internet, conhecendo as empresas
nas quais pretende se candidatar através de páginas nas
quais elas se mostram on-line, se preparando para etapas de
seleção a partir de conteúdos postados na rede, dentre outras.

Lembre-se

As empresas, corporações e pessoas podem se mostrar hoje numa vitrine


imensa, sem limites. A rede mundial de computadores, conhecida como
internet, nos insere no mundo globalizado. Agora fazemos parte de uma
sociedade conectada que não se curva mais às fronteiras dos países.

A Consolidação da sociedade global 135


U3

Faça você mesmo

Imagine que você faz parte da equipe que está desenvolvendo uma
página na internet para uma empresa. Quais pontos relevantes devem
ser incorporados nessa página? E se a página for para uma pessoa, um
candidato a um emprego?

Faça valer a pena!

1. O complexo fenômeno da globalização, iniciado na época das grandes


navegações, prosseguiu, se desenvolveu e se ampliou com a Revolução
Industrial. Sobre esse período, podemos afirmar que:

I. A utilização de energias provenientes do carvão, do vapor e, mais


tarde, do petróleo acentua a melhoria do nível de vida das populações
ao propiciar máquinas, meios de transporte e meios de comunicação
muito mais eficientes.
II. A interdependência entre as diversas regiões do mundo fica amenizada
sem foco nas trocas, na produção em massa.
III. Quase não há divisão do trabalho e necessidade de buscar novos
mercados para escoar os produtos.
IV. Tivemos o impulso essencial para o nascimento de empresas de
grandes dimensões, com filiais espalhadas por todo o globo.

É correto o que se afirma em:


a) I, II, III e IV.
b) I, III e IV, apenas.
c) III, apenas.
d) II, apenas.
e) I e IV, apenas.

2. A mercantilização das relações sociais que vivemos na globalização é


chamada por alguns autores de “mercado-rede”: uma entidade reguladora
das ações políticas e econômicas da sociedade que agora atua em nível
__________. Uma nova mercadoria se firma no mundo como a principal
fonte de valor que circula pelas redes de comunicação: a __________. De
forma simples, podemos dizer que __________ é todo dado que carrega
algum significado, que tem algum valor para uma pessoa ou para um
grupo de pessoas que está se dispõem a pagar por ela.

136 A Consolidação da sociedade global


U3

Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas, na


respectiva ordem:
a) econômico; tecnologia; informação.
b) global, informação; tecnologia.
c) internacional; informação; informação.
d) político; tecnologia, tecnologia.
e) nacional; informação, informação.

3. A globalização se viabiliza pela comunicação. Especialmente com o


desenvolvimento das tecnologias e com a conexão, temos um cenário
de intensas trocas.
Considere o contexto da globalização e avalie as afirmações a seguir:

I. O desenvolvimento da informática e das telecomunicações é fator


decisivo na constituição da globalização.
II. A comunicação em rede concretiza formas inovadoras de cooperação
e articulação por todo o planeta. Afeta também a concepção dos
processos produtivos, que sofreram uma mudança radical: agora são
muito mais centralizados, integrados e planejados.
III. A consequência direta de alterações tão profundas repercute no
desemprego, além de tornar obsoletas várias profissões que passaram a
ser totalmente desnecessárias.
IV. A exclusão social acentua-se severamente e o empobrecimento de
regiões e países periféricos confirma que o desenvolvimento econômico,
tão almejado, não é para todos.

Estão corretas as afirmativas:


a) I, II e IV, apenas.
b) I, II e III, apenas.
c) II e IV, apenas.
d) III e IV, apenas.
e) I, II, III e IV.

A Consolidação da sociedade global 137


U3

138 A Consolidação da sociedade global


U3

Seção 3.2

Aspectos gerais da globalização


Diálogo aberto

Nesta seção, vamos prosseguir com a resolução da problemática apresentada no


início da unidade. Vejamos:
A globalização é um fenômeno que atinge o mundo, mas de formas diferenciadas
conforme a região ou ainda conforme o aspecto que observamos. Alcança nações
e povos na sua economia, cultura, tecnologia e política. É um processo que está em
curso e pode ser observado também considerando sua amplitude histórica.
O processo de globalização tem assumido diferentes feições no decorrer da
história, por isso mesmo é chamado de “processo”. Mesmo com alterações, podemos
perceber que algumas características têm se acirrado durante o percurso. A partir dos
anos 1990, especificamente no Brasil, temos a adoção de um modelo econômico
chamado neoliberalismo. De forma bem objetiva, a principal marca do neoliberalismo
é a existência de práticas econômicas com a mínima intervenção do Estado. Note
como há um imenso incentivo para as privatizações das empresas estatais a partir da
forte abertura para o capital externo. Com o capital aberto, as multinacionais se fixaram
no Brasil, buscando ampliar seu mercado consumidor, ter mais facilidade de acesso
a matérias-primas e também contratar mão de obra barata. Veja como se estabelece
uma contradição que a globalização arrasta também para o Brasil: há o aumento do
emprego, da produção e grande venda de aparelhos tecnológicos, em contraposição
também há a acentuação da precarização do trabalho e da concentração de renda.
Como a globalização atinge, molda e compõe nossa realidade econômica, nossa
cultura, nosso aparato tecnológico, os fluxos de informações, de mercadorias, de
capitais e de pessoas? Quais as implicações ambientais da globalização? De que forma
a sociedade brasileira responde e se altera frente à mundialização?
Acompanhe agora a situação-problema desta seção:
Artur mora no interior de uma região do país. Sempre acompanhou o trabalho
de artesanato feito a partir do sisal. Essa atividade econômica quase não gerava
lucro para os artesãos, uma vez que o próprio centro produtor não é consumidor.
Outros fatores que dificultavam o negócio eram a desorganização do grupo e a falta
de conhecimento tecnológico. A população da comunidade Cuiuiú (a origem do
nome vem do Tupi, provavelmente, derivada do nome de um peixe do rio que corta

A Consolidação da sociedade global 139


U3

a comunidade, localizada a 7 km do centro urbano do município de Barra de Santa


Rosa) começou a se organizar para produzir e vender o artesanato, mas, ainda assim,
esbarrava em dificuldades por falta de conhecimento. Artur, que é aluno de uma
Universidade Federal, soube através de seu professor que há um Programa de Estudos
e Ações para a região. Com ajuda do professor, Artur se inseriu no grupo que trabalha
ativamente com as comunidades. Você deverá ajudar Artur e seu grupo a identificar
por que as dificuldades estão ocorrendo e quais ações podem contribuir para a busca
de uma solução.
Na seção anterior, deparamo-nos com questões que envolvem o processo de
globalização, como chegamos até o cenário que temos em nossos dias. Começamos
a compreender as marcas, as características do fenômeno da globalização. Vamos
agora aprofundar esses conhecimentos considerando os aspectos gerais da
globalização: econômicos, políticos, sociais e culturais. Vamos pensar como esses
fatores se entrelaçam criando a possibilidade de um “mundo global”, conectado,
uniforme em alguns aspectos e tão divergente em outros.
Para isso, vamos resolver a seguinte situação: como Artur e seu grupo podem
identificar as dificuldades que ocorrem a partir de aspectos da globalização? Quais
ações podem contribuir para a busca de uma solução?

Não pode faltar

Dê uma olhada nas etiquetas das roupas que você está vestindo. Leia onde foram
fabricadas. Veja as indicações de tamanho e de matéria-prima utilizada. Recorde-se
onde adquiriu a peça. Pode ser que as etiquetas de suas vestimentas tenham indicações
do tipo: “Made in Indonésia” e pode ser também que os tamanhos tenham registros
de diferentes países: “EUR - M, USA - M, MEX 28”, por exemplo. Por que será que em
um espaço tão pequeno, como em uma etiqueta, são anotados tamanhos para tantos
países diferentes? Onde foi que você comprou uma peça dessas: foi numa viagem à
Indonésia ou próximo de lá? De onde veio a matéria-prima para confeccionar essa
roupa? Você acaba de ter um exemplo concreto da globalização. Acompanhe:
a) O produtor faz a compra da matéria-prima em qualquer lugar do mundo
considerando qualidade e preço baixo.
b) O produtor, em seguida, instala uma fábrica no local onde a mão de obra for
mais barata. O local da fábrica não tem obrigatoriamente nenhuma relação com o
local onde os produtos serão vendidos depois de prontos.
c) Após a fabricação, o produtor distribui a mercadoria para onde desejar, para
qualquer lugar do mundo.
Como estamos imersos na globalização, você pode comprar na rua da sua
casa um produto que foi fabricado do outro lado do mundo – como na China, por
exemplo – e que usou matéria-prima adquirida em qualquer outro país. Veja como a

140 A Consolidação da sociedade global


U3

globalização é um fenômeno que nasce da necessidade do capitalismo de conquistar


novos mercados, rompendo barreiras físicas.
Você pode notar, com esse exemplo, como a globalização não é apenas um
processo de integração econômica, mas também de integração cultural, social e
política.

Assimile

Com a globalização da economia os mercados se expandem, as fronteiras


nacionais parecem ficar diluídas, aumenta a circulação de pessoas, bens e
serviços. O crescimento das economias se estabelece com a liberdade de
movimentação e a facilidade de circulação de capitais.

Os termos “economia global” e “globalização” têm sido usados para caracterizar


o processo atual de integração econômica, que agora se faz em escala planetária,
com a consequente perda de importância das economias nacionais. Perceba como
uma das decorrências desse processo é a forte divisão que se estabelece entre as
nações que pensam, idealizam, elaboram novos produtos daquelas que os produzem,
que entregam mão de obra barata na execução e que serão possíveis consumidores.
Analise também o valor decorrente de tais processos: tem muito mais valor quem
retém a ideia, o projeto, do que quem realiza a manufatura.

Exemplificando

No início da história da civilização as trocas eram a base do comércio entre


os homens. Por muitos séculos perdurou esse sistema de troca direta.
Algumas expressões deram origem a vocábulos que usamos até hoje,
tal como "salário": o pagamento era feito através de certa quantidade de
sal. Agora pense: como a globalização pode se estabelecer com moedas
diferentes? Temos uma moeda única no mundo globalizado?

A globalização não se estabelece com moedas diferentes. O que temos,


mesmo com várias moedas diferentes circulando pelo mundo, é a adoção
de uma referência monetária comum. O processo de globalização se
estabelece e se desenvolve ao se fixarem as regras pelas quais determinada
moeda é reconhecida como referência comum de valor.

A Consolidação da sociedade global 141


U3

Uma forte marca do processo de globalização é a diferença no estágio de


desenvolvimento tecnológico entre países emergentes e desenvolvidos. A economia
dos países em desenvolvimento revela que eles não conseguem acompanhar os
avanços da tecnologia. A consequência é facilmente percebida ao avaliarmos as
diferenças estabelecidas no tipo de produção entre países ricos e pobres: o primeiro é
exportador de tecnologia, enquanto o segundo é produtor primário.

O aumento da exclusão social de grande contingente humano que fica à margem


da dinâmica capitalista é uma grave decorrência desse processo. Cria-se um sistema
com severos antagonismos: é capaz de produzir e de conviver simultaneamente com
formas de trabalho muito modernas e formas de exploração arcaicas e desumanas,
tais como o trabalho infantil, o trabalho análogo à escravidão, por exemplo.

Pesquise mais
A diferença de estágio de desenvolvimento tecnológico de um país reflete
diretamente na inclusão ou na exclusão digital. Para saber mais sobre
as características da exclusão digital e como repercute na dimensão da
exclusão social, leia: "Exclusão digital no Brasil e em países emergentes:
um panorama da primeira década do século XXI". Disponível em: <http://
www.caminhosdabandalarga.org.br/2012/11/capitulo-7/> Acesso em: 28
maio 2015.

O artigo traz uma análise interessante ao abordar como a exclusão digital


ainda é um problema concreto e real mesmo no início do século XXI. As
desigualdades entre os contingentes de cidadãos com pleno acesso e
aqueles que enfrentam dificuldades em obter esse serviço ocorrem em
todos os países, em menor ou maior grau. Porém, essa assimetria é bem
mais acentuada em nações subdesenvolvidas ou emergentes, como o
Brasil, por exemplo.

Para Giddens (1991), a vida social sempre se organizou através do tempo e do


espaço. Porém, o que vemos na globalização é um afrouxamento do tempo-espaço
como nunca ocorreu antes. Vivenciamos atualmente relações entre formas sociais
e eventos locais e distantes que se tornam “alongadas”. A globalização se refere a
esse processo de alongamento uma vez que as conexões entre diferentes regiões e
contextos sociais se alastraram através da Terra como um todo.

Costa (2005) nos alerta para o desenraizamento que agora se aprofunda e se alarga.
Podemos nos sentir distantes de nossos vizinhos e, muitas vezes, mais próximos e
irmanados de pessoas que não conhecemos, mas com as quais temos relações de
dependência e troca.

142 A Consolidação da sociedade global


U3

Assimile

A transformação que se dá localmente é uma marca da globalização que


cria conexões sociais independentemente do tempo e do espaço. Com
o capital, pessoas, serviços e bens circulando ativamente, as relações
sociais também são intensificadas e agora se fazem em escala mundial.

Ampliamos assim nossa análise ao considerarmos, conforme Giddens (1991),


que a globalização pode ser definida como a intensificação das relações sociais em
escala mundial, ligando localidades distantes de forma que acontecimentos locais são
influenciados, alterados e modelados por eventos que ocorrem a grandes distâncias.

Vivendo nesse mundo “alongado” da globalização, nossas marcas culturais também


serão diretamente afetadas.

Reflita

O chamado “Índice Big Mac” é um indicador calculado sobre o preço


do Big Mac em mais de cem países, tendo como objetivo medir o poder
de paridade de compra. Uma vez existindo a paridade, o preço de um
produto, nesse caso um Big Mac, que é feito com os mesmos ingredientes
em quase todos os lugares pesquisados, deveria ser o mesmo em todo
o mundo.

Por que foi escolhido um sanduíche de uma grande rede dos EUA, o
“McDonald’s”, como referência para esse tipo de índice?

Há duas razões principais: a primeira é que o dólar é uma moeda da era da


globalização atual, serve como referência de valor para todas as demais.
Outro motivo é que as nações foram de tal forma invadidas por costumes
norte-americanos que todas conhecem e vendem um Big Mac.

Os aspectos culturais são fortemente alterados nesse processo: há mudança


de costumes dada a avalanche de novos padrões que chegam até nós através dos
programas de televisão, das propagandas, do acesso à internet, dentre outros fatores.

A descoberta de que a Terra se tornou mundo, de que o globo


não é mais apenas uma figura astronômica, e sim o território
no qual todos se encontram relacionados e atrelados,
diferenciados e antagônicos – essa descoberta surpreende,
encanta e atemoriza. Trata-se de uma ruptura drástica nos

A Consolidação da sociedade global 143


U3

modos de ser, sentir, agir, pensar e fabular. Um evento heurístico de


amplas proporções, abalando não só as convicções, mas também
as visões do mundo. (IANNI, 1995, p. 13)

Para Ianni (1995), o avanço das tecnologias da informação carrega de poderes


a mídia eletrônica que agora invade territórios, prevalecendo como poderoso
instrumento de informação, comunicação, explicação e imaginação sobre o que
transita mundo afora.

Dois fatores principais contribuíram fortemente para a integração mundial


decorrente do processo de globalização: o incremento nas relações comerciais
mundiais e as inovações tecnológicas. Você pode observar como as inovações
tecnológicas impulsionaram o processo de globalização, principalmente as inovações
na informática e nas telecomunicações. Graças à rede de telecomunicações foi
possível, com eficiência, ligar mercados do mundo inteiro, inclusive instituições
financeiras, e difundir informações entre as empresas.

Os meios de comunicação quebraram fronteiras culturais, políticas, religiosas,


econômicas, compondo uma “aldeia global”. Temos um novo cenário no qual
a aproximação entre culturas distintas origina o surgimento de “uma cultura”,
uniformizada, homogênea, na qual as marcas culturais da tradição são cada vez mais
raras.

Faça você mesmo

Observe o modo de falar das pessoas, a sua própria linguagem, analisando:


você utiliza palavras de outras línguas na linguagem oral do cotidiano? De
qual outra língua é a maioria das palavras? Que relação essa linguagem
pode ter com a globalização?

Uma análise do processo de globalização na esfera cultural é a americanização dos


territórios. Temos aqui a instalação de uma cultura global formada pela dominação
econômica e política dos Estados Unidos. Essa forma de cultura inunda as regiões do
mundo, contaminando com sua cultura hegemônica as demais culturas.

144 A Consolidação da sociedade global


U3

Vocabulário

Aldeia global: conceito criado por Marshall McLuhan, filósofo canadense,


que significa que o progresso tecnológico estava reduzindo todo o planeta
à mesma situação que ocorre em uma aldeia; um mundo em que todos
estariam, de certa forma, interligados.

Homogênea: igual, com elementos uniformes, uniformizada.

Sem medo de errar


Vamos agora retomar a situação-problema proposta no início da seção e resolvê-
la. Recorra também ao conteúdo teorizado não somente nesta seção, mas também
na seção anterior. Vamos lá: a situação solicita que você pense de que maneira Artur
e o grupo do Programa de Estudos e Ações para o Semiárido da Universidade Federal
de Campina Grande (PB) podem identificar as dificuldades que estão ocorrendo a
partir de aspectos da globalização e quais ações podem contribuir para a busca de
uma solução.

Lembre-se

Retome algumas das importantes marcas da globalização:


- A globalização cria uma cultura homogênea, igual, na qual as marcas
culturais da tradição são desvalorizadas; aspectos culturais são fortemente
alterados com mudança de costumes, dada a avalanche de novos padrões
que as propagandas e os programas de televisão veiculam.
- As relações de troca e dependência nos fazem, muitas vezes, nos sentir
distantes de nossos vizinhos e mais próximos e irmanados de pessoas que
não conhecemos.

Para que Artur e seu grupo do Programa de Estudos e Ações da Universidade Federal
ajudem efetivamente o grupo de artesãos da comunidade Cuiuiú, eles precisam
identificar aspectos da globalização que afetam a produção do artesanato com sisal.
Para agir cientificamente, terão de analisar aspectos pontuais da globalização avaliando
quais os que mais se aplicam na situação da comunidade. Também precisarão
apontar como atuar em aspectos da globalização para benefício dos artesãos. O
grupo da Universidade vai criar e utilizar instrumentos para obter informações, analisar
a realidade, identificar processos de produção com suas eventuais fragilidades e
reconhecer no que, pontualmente, poderão sugerir mudanças. Vai propor ações que
podem contribuir para a busca de uma solução.

A Consolidação da sociedade global 145


U3

Atenção!

Uma análise do processo de globalização na esfera cultural é a


americanização dos territórios. Temos aqui a instalação de uma cultura
global hegemônica formada pela dominação econômica e política dos
Estados Unidos. Essa forma de cultura inunda as regiões do mundo,
contaminando as demais culturas.

Avançando na prática
Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois as compare com as de
seus colegas.

“Aspectos econômicos da globalização”


Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamentos
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
de área
explicação da realidade social.
Reconhecer que o mundo globalizado não igualou todas as
2. Objetivos de aprendizagem
marcas culturais mesmo no cenário empresarial.
3. Conteúdos relacionados Cultura e globalização da economia.

Sua empresa é uma multinacional e vai receber, em breve, a


visita de um importante gestor vindo diretamente do Japão.
A empresa então decidiu preparar os funcionários que terão
contato direto com o gestor japonês. Para admiração de
Raul – funcionário da multinacional –, o preparo do grupo de
funcionários incluía alguns aspectos como:

a) Frente a decisões importantes os japoneses costumam ficar


em silêncio. A postura correta é “responder com mais silêncio”.
Esse silêncio é sinal de que estão pensando na situação e na
decisão a ser tomada.

4. Descrição da SP b) Como os japoneses valorizam o trabalho em equipe, os


elogios devem ser direcionados ao grupo, e não feitos para
uma única pessoa, individualmente.

c) Se for almoçar com o gestor, coma tudo. Deixar sobras é


sinal de falta de respeito para os japoneses.

Ao analisar a situação, responda: por que no mundo globalizado


ainda é preciso preparar os funcionários para receber um
japonês? A empresa é uma multinacional, isso significa que
está inserida na economia globalizada? Como explicar então a
necessidade de conhecer aspectos da cultura japonesa?

146 A Consolidação da sociedade global


U3

Ao analisar a situação, precisamos identificar como o


fenômeno da globalização se instaura e reconhecer que não
é um processo uniforme. Isso significa que, mesmo numa
multinacional imersa na globalização, as marcas culturais
não estão igualadas da mesma forma que as econômicas. O
5. Resolução da SP processo de globalização não altera de maneira equilibrada
as frentes culturais, econômicas, políticas e sociais. Ele pode
ser mais facilmente reconhecido em um cenário específico,
enquanto em outro estará mais fluido. A cultura japonesa
tem marcas e características próprias que não se diluem tão
facilmente frente à globalização.

Lembre-se

Retome algumas das importantes marcas da globalização:

- A globalização cria uma cultura homogênea, igual, na qual as marcas


culturais da tradição são desvalorizadas; aspectos culturais são fortemente
alterados com mudança de costumes, dada a avalanche de novos padrões
que as propagandas e programas de televisão veiculam.

- As relações de troca e dependência nos fazem, muitas vezes, nos sentir


distantes de nossos vizinhos e mais próximos e irmanados de pessoas que
não conhecemos.

Faça você mesmo

Os funcionários de uma multinacional precisam reconhecer as marcas


culturais do país no qual a empresa se insere. Elabore uma lista com
tópicos que justifiquem por que essa atitude é importante.

Faça valer a pena!

1. A partir de nossas análises e estudos sobre o fenômeno da globalização,


assinale a alternativa que preencha adequadamente as lacunas da
sentença a seguir, na respectiva ordem:

Os __________ quebraram fronteiras culturais, políticas, religiosas,


econômicas, compondo uma “aldeia global”. Temos um novo cenário
no qual a aproximação entre __________ distintas origina o surgimento
de “uma cultura” __________, homogênea, na qual as marcas culturais
da tradição são cada vez mais __________.

A Consolidação da sociedade global 147


U3

a) homens; pessoas; rica; presentes.


b) mercados; marcas; igualada; raras.
c) meios de comunicação; culturas; uniformizada; raras.
d) indivíduos; culturas; empobrecida; diluídas.
e) meios de comunicação; nações; nova; fortes.

2.(UEMA - 2013 - adaptada) Acompanhe este trecho da música de


Gilberto Gil "Pela internet". A letra aponta para a importância da rede
de comunicação existente no mundo no processo de inclusão digital a
partir do ponto de vista socioeconômico:

"Pela internet"
Criar meu website
Fazer minha home-page
Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje

[...]
Eu quero entrar na rede
Promover um debate
Juntar via Internet
Um grupo de tietes de Connecticut

De Connecticut acessar
O chefe da milícia de Milão
Um hacker mafioso acaba de soltar
Um vírus pra atacar programas no Japão

Eu quero entrar na rede pra contactar


Os lares do Nepal, os bares do Gabão
Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular
Que lá na praça Onze tem um videopôquer para se jogar
GILBERTO GIL. Disco Quanta. Warner Music, 1997.

Podemos reconhecer uma estreita relação entre exclusão digital e


exclusão socioeconômica. Tal relação se apresenta na seguinte assertiva:

148 A Consolidação da sociedade global


U3

a) A exclusão digital desencadeia a exclusão socioeconômica, já que o


acesso às tecnologias da informação e comunicação se dá de forma
estruturada nos países subdesenvolvidos.
b) A exclusão digital é responsável por desencadear a exclusão
socioeconômica. Isso se dá pela relação entre a existência de ampla
tecnologia da informação e comunicação e a realidade dos países
subdesenvolvidos.
c) A exclusão socioeconômica desencadeia a exclusão digital, graças ao
grande investimento dos países subdesenvolvidos no acesso à tecnologia
da informação e comunicação, gerando assim maior inclusão digital.
d) A exclusão socioeconômica desencadeia a exclusão digital, por existir
uma relação desfavorável quanto ao acesso dos países subdesenvolvidos
à tecnologia da informação e comunicação.
e) A exclusão socioeconômica desencadeia a digital, uma vez que
se estabelece uma relação igualitária e equilibrada entre países
subdesenvolvidos e desenvolvidos no que diz respeito ao acesso à
tecnologia da informação e comunicação.

3.(IFBA - 2014 - adaptada)

Sem Facebook
Das minhas relações mais próximas, só três comungam comigo não ter
facebook. Não pensem que tenho críticas, sou um entusiasta, apenas
não quero usar. Pouco dou conta dos meus amigos, onde vou arranjar
tempo para mais? Minha etiqueta me faz responder a tudo, teria que
largar o trabalho se entrasse na rede social. Só recentemente minhas
filhas me convenceram que se não respondesse um spam ninguém ficaria
ofendido. A cidade ganhou a parada. Acabou o pequeno mundo onde
todos se conheciam, onde não se podia esconder segredos e pecados.
Viver na urbe é cruzar com desconhecidos, sentir a frieza do anonimato.
Essa é a realidade da maioria. Meu apreço com as redes sociais é por
acreditar que elas são um antídoto para o isolamento urbano. São
uma novidade que imita o passado, uma nova versão, por vezes mais
rica, por vezes mais pobre, da antiga comunidade. Detalhe: não quero
retroceder, a simpatia é pelo resgate da nossa essência social. Vivemos
para o olhar dos outros, essa é a realidade simples, evidente. Quem
pensa o contrário vai à conversa da literatura de autoajuda, que idolatra a
autossuficiência e acredita que é possível ser feliz sozinho. É uma ilusão
tola. Nascemos para vitrine. Quando checamos insistentemente para
saber como reagiram às nossas postagens, somos desvelados no pedido
amoroso. O viciado em rede social é obcecado pela sociabilidade. Está
em busca de um olhar, de uma aprovação, precisa disso para existir. Ou
vamos acreditar que a carência, o desespero amoroso e a busca pelo
reconhecimento são novidades da internet? Sei que o Facebook é o

A Consolidação da sociedade global 149


U3

retrato da felicidade fingida, todos vestidos de ego de domingo, mas essa


é a demanda do nosso tempo. Critique nossos costumes, não o espelho.
Sei também que as redes são usadas basicamente para frivolidades, é
certo, mas isso somos nós. Se a vida miúda de uma cidadezinha fosse
transcrita, não seria diferente. Fofoca, sabedoria de almanaque, dicas de
produtos culturais, troca de impressões e às vezes até um bom conselho,
além de ser um amplificador veloz para mobilizações. Também apontam
que amigos virtuais não substituem os presenciais. Todos se dão conta,
e justamente usam a rede na esperança de escapar dela. O objetivo
final é ser visto e conhecido também fora. Usamos esse grande palco
para ensaiar e se aproximar dos outros, fazer o que sempre fizemos. O
Facebook é a nostalgia da aldeia e sua superação.

CORSO, Mário. Sem Facebook. 2013. Disponível em: <http://wp.clicrbs.


com.br/terradonunca/2013/06/18/sem-facebook-por-mario-corso-na-
zh-de-hoje/?topo=13,1,1,,18,13&status=encerrado>. Acesso em: 25 maio
2015. (adaptado)

De acordo com o texto, podemos afirmar que:


I. Dentro do conjunto de etiqueta social e para manter as relações sociais
devemos responder a todas as solicitações dos amigos na internet.
II. Na frase “O Facebook é a nostalgia da aldeia e sua superação”, pode-se
compreender que o Facebook é superior, está acima das cidades com
suas dinâmicas próprias.
III. Com a internet, as pessoas buscam demonstrar seus sentimentos
e emoções nas redes sociais, o que, na realidade, não é algo novo no
comportamento humano.

A alternativa que indica a(s) afirmativa(s) verdadeira(s) é:


a) III.
b) I e II.
c) II e III.
d) II.
e) I, II e III.

150 A Consolidação da sociedade global


U3

Seção 3.3

Efeitos da globalização
Diálogo aberto

Como você já observou anteriormente, a cada seção vamos resolver um aspecto


relacionado à situação geradora de aprendizagem apresentada no início da unidade.
Vale lembrar que estamos em busca da elaboração das melhores respostas para estas
questões fundamentais:
1. Como a globalização atinge, molda e compõe nossa realidade econômica,
nossa cultura, nosso aparato tecnológico, os fluxos de informações, de mercadorias,
de capitais e de pessoas?
2. Quais as implicações ambientais da globalização?
3. De que forma a sociedade brasileira responde e se altera frente à mundialização?

Você tem mais esta seção para avançar com novos conhecimentos, buscando
responder com maior amplitude e profundidade tais perguntas. Vamos abordar
outros aspectos que compõem o cenário, tratando especificamente da relação
entre tecnologia da informação e comunicação global. O multiculturalismo e a
homogeneidade cultural também serão incluídos como componentes da análise do
processo de globalização.
Neste início desta seção, é o momento de nos perguntarmos: como o acesso à
informação e à interconectividade global se relacionam com a globalização? De que
forma o multiculturalismo e a homogeneidade cultural atingem e alteram a sociedade?
Como você se insere na mundialização ao utilizar aparatos tecnológicos e ao fazer
parte dos fluxos de informações? Com nossos debates, análises e estudos, você terá
ainda mais elementos para responder essas questões.
Acompanhe agora a situação-problema desta seção:
Stasia acompanha na Rússia, seu país natal, uma telenovela brasileira: O Clone.
No Brasil, O Clone estreou pouco depois dos atentados terroristas de 11 de setembro
de 2001, em Nova York e Washington. Isso poderia prejudicar a boa aceitação da
trama entre os telespectadores, já que um dos núcleos principais era composto
por personagens islâmicos. No entanto, essa novela teve grande sucesso, inclusive
internacional.

A Consolidação da sociedade global 151


U3

Stasia ficou muito interessada e envolvida com a trama que conta uma história
que entrelaça a cultura de dois países: Brasil e Marrocos. Ao pesquisar na internet, ela
descobriu que a telenovela foi exibida em 91 países com grande audiência. Dentre
esses países estão, por exemplo: Moçambique, Albânia, Chile, Colômbia, El Salvador,
Romênia, Peru e Sérvia. Com o passar do tempo, Stasia percebeu que ela e os amigos
começaram a utilizar no vocabulário expressões e jargões dos personagens e até
mesmo algumas palavras em árabe. Também notou que o corte de cabelo de várias
colegas de trabalho mudou, copiando o estilo das personagens brasileiras da trama.
Vários pontos no comércio traziam agora propaganda que indicava alguns pratos
típicos brasileiros e vendas de bijuterias como as da telenovela.
A situação-problema nos remete a interessantes reflexões. Temos aqui algumas
questões essenciais:
- Podemos afirmar que uma telenovela tem o poder de alterar uma cultura?
Explique.
- A Rússia tem uma cultura própria, particular, com marcas únicas construídas
ao longo da história e que continuam se refazendo. É legítimo que uma telenovela
afete essa cultura? Por quê?
- Como a influência de uma telenovela pode ser explicada dentro do conceito
do multiculturalismo?
Para solucionar a situação-problema específica desta seção você vai precisar
resgatar conhecimentos trabalhados nas seções anteriores. Busque o conteúdo que
trata como a globalização atinge o mundo, mas de formas diferenciadas conforme
a região ou o aspecto que observamos. Verifique que o fenômeno da globalização
alcança nações e povos na sua economia, cultura, tecnologia e política. Retome a
amplitude histórica do processo de mundialização que segue em curso, razão pela
qual jamais se finaliza. Lembre-se de considerar, conforme já vimos em Giddens (1991),
que a globalização pode ser definida como a intensificação das relações sociais em
escala mundial, ligando localidades distantes de forma que acontecimentos locais são
influenciados, alterados e modelados por eventos que ocorrem a grandes distâncias.
Avalie como nossas marcas culturais são afetadas diretamente uma vez que vivemos
nesse mundo “alongado” da globalização.

Não pode faltar

Você já foi apresentado para alguém e a pessoa perguntou “você é o quê?”


querendo saber sobre a formação da sua família? O que você respondeu? Que é
uma parte índio, outra português e outra italiano? Raramente alguém responde que
é brasileiro. Por que será? Note como entre nós é comum compartilharmos histórias
dos nossos antepassados formados por diferentes povos. Se a seleção brasileira de
futebol não estiver indo tão bem numa Copa do Mundo, rapidamente escolhemos

152 A Consolidação da sociedade global


U3

outra para destinar nossa torcida. Nossos antepassados nos autorizam a torcer pela
Espanha, Itália, Alemanha, Japão, Portugal...

Veja como podemos explicar parte dessa teia: nós fomos colonizados tendo o
território invadido diversas vezes por outras nações. Além disso, ao longo da história,
recebemos também povos de vários locais com as mais diversas culturas: os
japoneses fugindo da Segunda Guerra, os espanhóis e italianos precisando escapar da
severa situação econômica de seus países no início do século XX, os judeus buscando
abrigo longe da perseguição do nazismo, por exemplo. O Brasil foi se compondo por
culturas distintas, formando um mosaico imenso. Fica fácil compreender que uma
marca importante, que identifica o brasileiro, é a multiculturalidade, resultando nesse
grande caleidoscópio cultural.

Exemplificando

Se você analisar manifestações culturais consideradas como brasileiras,


vai reconhecer que resultam de processos híbridos, o que significa que,
a partir de uma cultura – em muitos casos imposta – houve recriação no
nosso país. Veja esses exemplos:

Literatura de Cordel: por anos acreditamos ser um produto genuinamente


brasileiro. Historiadores já comprovaram que os folhetos com xilogravuras
e poemas expostos para venda dependurados em um varal nas feiras
nordestinas têm origem portuguesa.

Carnaval: com origem na Grécia e espalhado pelo mundo através de Paris,


chegou ao Brasil, foi assimilado, alterado, assumiu novas características e
compõe parte integrante da cultura brasileira, com marcas próprias vistas
somente aqui.

Não há área da nossa cultura que escape desse “caldeirão cultural” que
a globalização favoreceu e intensificou. Identificamos essas marcas na
música, na culinária, no vestuário, na linguagem, na literatura, na arquitetura
etc.

Pode ser que, mesmo antes do termo “globalização”, o brasileiro já


praticasse intensas trocas culturais resultando em um grande arsenal
cultural. Apreciamos, admiramos, incorporamos, incrementamos e
alteramos a cultura de outros povos nos compondo como brasileiros.

Mas o que é multiculturalidade? É uma palavra derivada de multiculturalismo – ou


pluralismo cultural –, o princípio que postula a necessidade de extrapolarmos, de irmos
além das atitudes de mera tolerância frente a culturas diferentes ao coexistirem dentro

A Consolidação da sociedade global 153


U3

de uma nação ou território. Quanto à terminologia, o conceito de multiculturalismo é


polissêmico e sujeito a diversos campos de força política.

Multicultural é um termo qualificativo. Descreve as


características sociais e os problemas de governabilidade
apresentados por qualquer sociedade na qual diferentes
comunidades culturais convivem e tentam construir uma
vida em comum, ao mesmo tempo em que retêm algo
de sua identidade “original”. Em contrapartida, o termo
“multiculturalismo” é substantivo. Refere-se às estratégias e
políticas adotadas para governar ou administrar problemas
de diversidade e multiplicidade gerados pelas sociedades
multiculturais (HALL, 2003, p. 52).

Especificamente, o pluralismo cultural descreve a existência de muitas culturas


numa região. Observe que o multiculturalismo carrega basicamente dois conceitos
mais utilizados:

• O primeiro define que todas as culturas dentro de uma mesma nação têm o
direito de existir, mesmo que não haja qualquer aspecto que as una, mesmo que não
possamos reconhecer um fio condutor comum entre elas.

• Outro conceito define o multiculturalismo como uma diversidade cultural que


coexiste na nação, sendo possível reconhecer um elo cultural comum que assegure a
união da sociedade, a convivência harmoniosa a partir desse ponto comum.

Assimile

Os defensores do multiculturalismo apontam que, para garantir


coexistência harmoniosa e enriquecimento cultural, as diferenças entre
culturas que habitam um mesmo território devem ser respeitadas e
estimuladas.

Perceba como o multiculturalismo parece reconhecer, favorecer, estimular


e respeitar as diferenças, a pluralidade cultural. Mas não é antagônico? Veja: se
lutamos por igualdade de direitos, propor o reconhecimento das diferenças não é
contraditório? A igualdade que se propõe é a igualdade perante a lei, relacionada a
direitos e deveres. Já as diferenças às quais o multiculturalismo se refere estão ligadas
a costumes, hábitos, crenças, valores etc. Considera que indivíduos de raças diferentes
se relacionam preservando suas diferenças, suas marcas, suas especificidades.

154 A Consolidação da sociedade global


U3

Reflita

É muito injusto tratar diferentes de forma igual. Por quê? Analise a


afirmação sob a ótica do multiculturalismo.

Pesquise mais
Este texto discute a problemática das relações entre escola e cultura,
inerente a todo processo educativo, pois não existe educação que não
esteja imersa na cultura da humanidade.

MORANTE, Adélia Cristina Tortoreli; GASPARIN, João Luiz. Multiculturalismo


e Educação: um desafio histórico para a escola. VII Seminário Nacional de
Estudos e Pesquisas História, Sociedade e Educação no Brasil. UNICAMP
– Campinas, SP – 10-13 jul. 2006. Disponível em: <http://www.histedbr.
fe.unicamp.br/acer_histedbr/seminario/seminario7/TRABALHOS/A/
Adelia%20Cristina%20T.%20Morante.pdf>. Acesso em: 02 fev. 2016.

Vocabulário

Polissêmico: palavra ou expressão que possui mais de um significado.


Como uma mesma palavra pode ter vários significados, da mesma forma,
usamos a expressão polissemia para indicar dinamismo, vários sentidos e/
ou neologismos.

É comum ouvirmos dizer que no Brasil não existe racismo, preconceito,


discriminação, que há respeito pela diversidade, que somos uma nação multicultural e
tolerante. O convívio cultural não deveria ser uma dificuldade para a sociedade brasileira
ao ter, na sua formação, uma intensa mistura de raças, cada uma carregando marcas
distintas e compondo uma “reciprocidade cultural”. Mas será que é assim mesmo na
vida diária, cotidiana? Somos filhos de um rico hibridismo, abrigamos culturas tão
diversas, possuímos pré-requisitos históricos para lidar bem com as diferenças. Mas não
é isso o que ocorre em pleno século XXI. Ainda temos um longo caminho a percorrer
na conquista por uma sociedade mais do que plural: uma sociedade realmente justa,
tolerante e acolhedora.

A Consolidação da sociedade global 155


U3

Faça você mesmo

Uma mulher, com cerca de 30 anos, negra, foi pela primeira vez visitar
sua amiga que reside num edifício. Chegou às 10h em ponto conforme
o combinado e, parada na frente do portão, viu o porteiro gesticular,
indicando com o braço uma entrada aos fundos. Ele não abriu o portão
principal para que ela pudesse entrar. Apenas quando já se encontrava
no interior do edifício foi que a mulher notou não se tratar de um acesso
normal, mas sim da entrada de serviço.

Você já presenciou situações como essa? Conhece pessoas que já foram


discriminadas em razão de cor ou gênero, por exemplo? Infelizmente
essas situações não são raras no Brasil. Como você pode atuar frente à
tal realidade?

As culturas estão sempre em transformação, mesmo que não notemos. Quando


uma determinada cultura é exposta a outra, há uma adaptação. Essa adaptação é
uma exigência das necessidades sociais, daquele cenário específico em questão.
Essa forma de adaptação das culturas é particular a cada momento, já que a própria
sociedade também não é sempre a mesma.

Compõe-se então o conflito de culturas, aspecto marcante das sociedades


contemporâneas. Frente às inúmeras possibilidades dadas pela globalização, o
conflito de culturas é inevitável. Na globalização, por propiciar o “mundo alargado”,
grupos de culturas diferentes se aproximam. A diversidade cultural passa a fazer parte
de questionamentos e debates intensos nas sociedades atuais. Um grande desafio
dessa realidade ampliada pela mundialização é que se pretende o igual, mas, sem
parar, se exige o diferente, os sujeitos lutam pela diferenciação com o objetivo de se
identificarem como membros de um determinado contexto social.

Assimile

Reconhecer a diferença é fundamental para o respeito à igualdade.


Mas não apenas a igualdade assegurada pelas leis. Trata-se sim de um
referencial mais amplo, considerando o convívio social, já que buscamos
“ser diferentes”, únicos. A diversidade – cultural, social, racial – é a base
na qual se estabelece o leque multicultural. Ações conscientes, justas e
democráticas nesse contexto culminarão no respeito ao outro, no diálogo
com valores diferentes dos nossos, alcançando convívio harmônico.

156 A Consolidação da sociedade global


U3

O embate multiculturalismo versus homogeneidade cultural está presente de


formas variadas em diversos grupos sociais. O multiculturalismo busca resistir à
homogeneidade cultural, principalmente quando a homogeneidade é tida como
legítima, única, configurando-se assim como superior, melhor. A diversidade étnica,
social e cultural muitas vezes é recebida como uma ameaça à identidade do país.

Faça você mesmo

Acompanhe este caso exemplar de um modelo de integração imigratória,


independentemente da tradição, da cultura e da religião. Um dos maiores
atores de Hollywood, Kirk Douglas – nome artístico de Issur Danielovitch
– é judeu. Seus pais eram imigrantes da hoje Bielorrússia, os quais
chegaram aos EUA no final do século XIX e início do XX. Issur Danielovitch
nasceu em 1916 e, ao chegar à escola pública, não falava inglês, pois
sua família tinha o iídiche como língua. Cresceu conhecido como "Izzy
Demsky", mas trocou legalmente de nome para "Kirk Douglas" antes de
ingressar na Marinha, durante a Segunda Guerra Mundial. Kirk se integrou
à cultura americana, tornou-se fluente no inglês e transformou-se num
dos maiores atores da história do cinema, representante da cultura
americana. Note como, sem a integração, Kirk teria vivido à margem.
Analise: se Issur Danielovitch tivesse lutado pelo seu “direito à diferença”,
teria se tornado Kirk Douglas?

Note como podemos analisar a integração de uma pessoa numa


sociedade de forma interessante: para Hegel, na obra Filosofia do Direito,
não importa que a pessoa seja judia ou católica, poderíamos acrescentar
inclusive muçulmana, contanto que seja “homem”, a partir de sua
integração em um Estado que expresse valores universais.

Hoje estamos frente a uma etapa especialmente marcada pelo acesso à informação,
graças à interconectividade global. Nas décadas de 1970 e 1980, grande parte do globo
começa a ter acesso a dispositivos como controle remoto, videocassete, walkman,
dando uma sensação de disponibilidade que jamais havíamos experimentado antes.
Para Santaella (2007), essa fase se caracteriza como um momento de transição entre
a cultura de massas e a cibercultura, esta entendida aqui como o processo de cultura
das mídias.

Agora temos a possibilidade ampliada daquela vivida nas décadas de 1970 e


1980: não é apenas a disponibilidade que alcançamos graças aos dispositivos, mas
a possibilidade concreta de obtermos toda a informação que quisermos, a hora que
quisermos, do lugar que quisermos.

A Consolidação da sociedade global 157


U3

Essa verdadeira revolução digital provoca constantes alterações. O fluxo de


informação e as formas como acessamos tais dados emergem das tecnologias e da
convergência das telecomunicações em redes mundiais. Não somos apenas os sujeitos
que começaram a usar walkman e controle remoto e agora estão com smartphones,
cartões inteligentes e tablets nas mãos. Mais do que isso: somos sujeitos inseridos na
cibercultura alterando a forma sociocultural, a forma como nos relacionamos e como
estabelecemos as bases de um novo arranjo social. Como bem destacou Giddens
(2000), passamos a estar “em contato regular com outros que pensam diferentemente
e vivem de forma distinta de nós”.

Está assegurada para nós a conexão que possibilita conversação mundial. As


palavras, ao transitarem em redes, criam interconexões planetárias, fazem emergir
uma opinião pública local e global. Essa nova organização da sociedade, alterada pela
tecnologia, está nos envolvendo de forma definitiva.

Pesquise mais
Temos que aprender a interagir pessoalmente? Em meio à explosão das
mídias digitais, parece que nossa inteligência social está adoecida. É a
inteligência emocional que nos permite entender o outro, reconhecer
expressões e interagir mais e melhor em sociedade. A necessidade de
recuperar essa interação é tão emergente que alguns cientistas afirmam
que empatia e reconhecimento de emoções deveriam ser ensinados hoje
na escola.

Você pode saber mais acessando o conteúdo apresentado a seguir,


intitulado Inteligência Social. Disponível em: <http://tab.uol.com.br/
inteligencia-social/>. Acesso em: 14 jun. 2015.

Sem medo de errar


Agora é o momento de retomarmos a situação-problema desta seção. Lembre-
se: esta situação-problema tem relação com a situação geradora de aprendizagem
apresentada no início desta unidade. Ao resolvê-la, você terá ainda mais elementos
que contribuirão para a elaboração das melhores respostas.

Especificamente nesta seção, na qual nosso foco é o acesso à informação, a


interconectividade global, o multiculturalismo e a homogeneidade cultural, refletimos
sobre as seguintes questões:

158 A Consolidação da sociedade global


U3

- Podemos afirmar que uma telenovela tem o poder de alterar uma cultura?
Explique.

- A Rússia tem uma cultura própria, particular, com marcas únicas construídas ao
longo da história, que continuam se refazendo. É legítimo que uma telenovela afete
essa cultura? Por quê?

- Como a influência de uma telenovela pode ser explicada dentro do conceito do


multiculturalismo?

Lembre-se

As culturas estão sempre em transformação. Quando uma cultura


é exposta a outra, há uma adaptação que pode resultar em uma nova
cultura, diferente, alterada. Essa forma de adaptação das culturas é
particular a cada momento, já que a própria sociedade também não é
sempre a mesma.

Considere a ótica do pluralismo cultural ao analisar como a telenovela brasileira


afeta a cultura do país de Stasia. Veja: o multiculturalismo é o termo que usamos
principalmente para descrever a existência de várias culturas numa região, mesmo
quando há, no mínimo, uma que predomina sobre as demais. É por isso que usamos
muitas vezes a metáfora “caldeirão de culturas” ao nos referirmos à pluralidade cultural:
quando diversas culturas misturadas e amalgamadas compõem uma cultura nova,
agora transformada. O multiculturalismo pode ser considerado como uma forma de
resistência à homogeneidade cultural, principalmente quando essa homogeneidade é
tida como única.

Ao analisar a influência de uma telenovela brasileira na Rússia, leve em conta


também que a própria trama da história carrega a visão pluricultural, uma vez que
apresenta a relação entre dois países distintos: Brasil e Marrocos.

A Rússia, assim como todos os países do mundo, teve notícia sobre o ataque
ocorrido em 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, quase simultaneamente.
Até mesmo esse dado só foi possível em tempo recorde graças às tecnologias da
informação tão marcantes no fenômeno da globalização. É importante levar em
conta tal informação, já que a telenovela estreou no Brasil logo após o 11 de setembro,
quando a mídia divulgava uma possível responsabilização da cultura muçulmana.

Observe como a influência de uma telenovela pode ser revelada no vocabulário,


nos costumes, no vestuário etc.

A Consolidação da sociedade global 159


U3

Atenção!
O movimento de respeito de uma cultura em relação a outras é um
importante meio de enriquecimento recíproco. A essa relação chamamos
de interculturalismo. O interculturalismo propõe que aprendamos a
conviver num mundo plural, respeitando e defendendo a humanidade
como um todo.

Avançando na prática
Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois as compare com as de
seus colegas.

“Empreendedorismo Social”
Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamentos
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
de área
explicação da realidade social.
Buscar soluções para problemas sociais dentro de uma ação
empreendedora. Planejar ações internas e externas a partir da
2. Objetivos de aprendizagem
missão de uma empresa e considerando as necessidades da
comunidade.
3. Conteúdos relacionados Situação de risco social. Empreendedorismo. Impacto social.

Cybele sempre trabalhou em escolas e cada vez mais se


empenhava para ajudar a melhorar a educação de seus alunos,
imersos na escola pública. Um dia, Cybele reconhece que, para
efetivamente conseguir melhores resultados, precisaria investir
em redes colaborativas. Trabalhar para uma educação pública
de qualidade não era uma motivação apenas dela e, sozinha,
pouco conseguiria. Então, Cybele parte em busca de parceiros.
Consegue reunir vários profissionais com o mesmo sonho.
Depois de muito trabalho em conjunto, decidem que o caminho
para concretizar o objetivo de melhoria da educação pública é
criarem uma empresa. Mas uma empresa diferenciada, dentro
do foco do empreendedorismo social. O que caracteriza o
4. Descrição da SP empreendedorismo social é que a missão, a visão e os valores
da empresa estão centrados nas necessidades da comunidade.
O grupo então funda o Instituto Chapada, organização que tem
como objetivo primordial melhorar a qualidade da educação
pública. A entidade faz isso oferecendo, principalmente, apoio
à formação continuada de professores e gestores de escolas.
Além disso, auxilia também a criação de redes colaborativas
voltadas a fortalecer o ensino formal e políticas públicas
de educação. Ao analisar essa situação, observa-se que o
primeiro foco do empreendedorismo social não é a obtenção
de lucro financeiro. Quais são as principais características do
empreendedorismo social? Como uma sociedade conectada
pode ser mais efetiva no cenário do empreendedorismo social?

160 A Consolidação da sociedade global


U3

As principais características do empreendedorismo social são:


a) Ser integrado e coletivo.
b) Produzir bens e serviços para a comunidade local e global.
c) Focalizar a busca de soluções para os problemas sociais e
para as necessidades da comunidade.
d) Ter como medida de desempenho o impacto e a
transformação social.
e) Visar resgatar pessoas da situação de risco social e
5. Resolução da SP
promovê-las.
f) Buscar gerar capital social, emancipação social e inclusão.
Uma sociedade conectada pode ser muito mais efetiva
no cenário do empreendedorismo social ao contar com
redes colaborativas voltadas ao foco, à missão primordial
estabelecida. O poder, a abrangência e a efetividade de redes
colaborativas são inquestionáveis dentro do cenário que
vivemos no século XXI.

Lembre-se

A revolução digital provoca constantes alterações com o fluxo de


informação e as formas como acessamos os dados, emergindo
das tecnologias e da convergência das telecomunicações em redes
mundiais. Nosso cenário está alterado, não somos apenas os sujeitos
que começaram a usar a tecnologia. Agora somos sujeitos inseridos
na cibercultura alterando a forma sociocultural, a forma como nos
relacionamos e como estabelecemos as bases de um novo arranjo social.

Faça você mesmo

Estruture a resolução da situação-problema exposta anteriormente em


forma de um texto, entre 15 e 30 linhas, que enfatize as ações e posturas
a serem adotadas pela empreendedora social Cybele.

Faça valer a pena!

1. A revolução digital tem provocado constantes alterações na sociedade.


Sobre isso, é correto afirmar que:
I. O fluxo de informação e as formas como acessamos os dados
emergem das tecnologias e da convergência das telecomunicações em
redes mundiais.
II. Agora nos compomos como sujeitos inseridos na cibercultura,
alterando a forma sociocultural, a forma como nos relacionamos e

A Consolidação da sociedade global 161


U3

como estabelecemos as bases de um novo arranjo social.


III. Essa nova organização da sociedade assegurada pela tecnologia não
nos envolve de forma a alterar as relações sociais.
A alternativa que indica a(s) afirmativa(s) verdadeira(s) é:
a) III.
b) I e II.
c) II e III.
d) II.
e) I, II e III.

2. Considere as asserções a seguir:


I. A globalização nos impõe um grande desafio: compreender as marcas e
as características da nova realidade social. Esse não é um desafio simples.
UMA VEZ QUE
II. A nova realidade social não pode ser definida apenas como um
processo de integração, de homogeneização. Exige ser pensada também
como uma sociedade de fragmentação e diferenciação.
As asserções indicadas se referem à nova realidade social marcada pelo
fenômeno da globalização. Considerando as duas asserções, assinale a
alternativa correta:
a) A asserção I é verdadeira e a asserção II é falsa.
b) As duas asserções são falsas.
c) A asserção I é verdadeira e a asserção II a complementa e justifica.
d) A asserção II se contrapõe à asserção I.
e) A asserção I é falsa e a asserção II é verdadeira.

3.O sociólogo Octávio Ianni afirma que a sociedade global está sendo
tecida por relações, processos e estruturas de dominação e apropriação,
integração e antagonismo, soberania e hegemonia. “Trata-se de uma
configuração histórica problemática, atravessada pelo desenvolvimento
desigual, combinado e contraditório. [...] Desde o princípio, pois, a
sociedade global traz no seu bojo as bases do seu movimento. Ela é
necessariamente plural, múltipla, caleidoscópica” (IANNI, 2000).
A partir dessa análise e de nossos estudos, é possível afirmar que:
I. Vivemos no Brasil, onde há multiculturalidade que resulta de um
grande caleidoscópio cultural enraizado nas bases da formação da nossa
sociedade.

162 A Consolidação da sociedade global


U3

II. A sociedade global trava disputas, sendo marcada por relações de


antagonismo e integração, mesmo que tais marcas sejam, aparentemente,
contraditórias.
III. A sociedade global é plural, múltipla, compõe-se como um imenso
mosaico.
É correto o que se afirma em:
a) I, II e III.
b) I e III, apenas.
c) III, apenas.
d) II, apenas.
e) I, apenas.

A Consolidação da sociedade global 163


U3

164 A Consolidação da sociedade global


U3

Seção 3.4

Globalização e meio ambiente


Diálogo aberto

Seguimos em frente com nossos estudos, descobertas e análises buscando


fundamentar e elaborar as melhores respostas para a situação geradora de
aprendizagem apresentada no início desta unidade. Temos três questões que estamos
prestes a solucionar de forma ampla, considerando vários aspectos importantes,
intimamente relacionados. Acompanhe:

1. Como a globalização atinge, molda e compõe nossa realidade econômica,


nossa cultura, nosso aparato tecnológico, os fluxos de informações, de mercadorias,
de capitais e de pessoas?

2. Quais as implicações ambientais da globalização?

3. De que forma a sociedade brasileira responde e se altera frente à


mundialização?

Esta nova seção trará reflexões sobre a globalização e o meio ambiente. Alguns
temas são imprescindíveis para pensar sobre as mudanças ambientais e como
podemos projetar nosso futuro. A consolidação da sociedade global requer que nossa
análise percorra as implicações ambientais da mundialização, o aquecimento global e
os cenários possíveis que precisaremos enfrentar.

Veja a situação-problema desta seção:

Uma empresa que constrói carros e os vende em escala mundial foi envolvida em
um escândalo de falsificação de resultados de emissões de poluentes. Vários modelos
de carros da tal empresa são vendidos em diversos países, dentre os quais estão os EUA
e na Europa, o que acarretava uma severa exigência para carros que apresentassem
a liberação de óxido de nitrogênio (NOx) – um dos principais poluentes resultantes
da combustão do óleo diesel – em níveis aceitáveis, segundo padrões internacionais.

A empresa relatava um nível tão baixo de emissões nos veículos da sua marca que
acabou despertando a atenção de um grupo – o Conselho Internacional de Transporte
Limpo –, que juntamente com a Universidade de West Virginia, nos Estados Unidos,
resolveu estudar o sistema para mostrar como o diesel poderia ser um combustível

A Consolidação da sociedade global 165


U3

limpo. A partir da análise de três modelos de carros da empresa, os estudiosos


constataram discrepâncias entre o nível de emissão observado e os números dos
testes oficiais desses modelos, divulgados pela própria empresa.

A conclusão dessas pesquisas é que o software instalado na central eletrônica dos


carros altera as emissões de poluentes nesses veículos apenas quando são submetidos
a vistorias. O dispositivo rastreia a posição do volante, a velocidade do veículo, o tempo
durante o qual está ligado e a pressão barométrica, baixando os poluentes emitidos.
Em condição normal de rodagem, os controles do escape são desligados e os carros
poluem mais do que o permitido.

A partir de tais constatações, o governo dos EUA acusa formalmente essa fabricante
de carros de burlar os dados de emissões de gases poluentes com o objetivo de
atender à regulamentação do país e abre um processo criminal.

A empresa admitiu que o dispositivo que altera resultados sobre emissões de


poluentes não foi usado apenas nos EUA, mas em 11 milhões de veículos a diesel em
todo o mundo, em modelos de várias marcas pertencentes ao grupo. No entanto,
não disse quais são os carros, nem em que países esses veículos estão. O presidente-
executivo renuncia ao cargo e pede demissão. Diz que não tem ciência de nenhum erro
de sua parte. O conselho da empresa também diz que ele "não tinha conhecimento
da manipulação de dados de emissões".

Adaptado de: <http://g1.globo.com/carros/noticia/2015/09/escandalo-da-


volkswagen-veja-o-passo-passo-do-caso.html> Acesso em: 22 set. 2015.

Essa situação-problema nos remete a interessantes reflexões. Temos aqui algumas


questões essenciais. Veja:

- Por que as implicações ambientais na era da globalização são mais avassaladoras


e intensas do que em qualquer outra época da história da humanidade?

- Como consolidar uma sociedade global sem afetar os cenários ambientais?

- Na globalização, o aquecimento global assumiu grandes proporções. Que


consequências o aquecimento global pode trazer? Como afeta o mundo?

- Qual a relação entre o aquecimento global e os níveis de poluentes que os


carros emitem?

Para solucionar a situação-problema que é nosso foco nesta nova seção, você vai
utilizar conhecimentos trabalhados nas três seções anteriores. Busque o conteúdo
que trata como a globalização promove o trânsito de informações de forma rápida
e intensa, como favorece a padronização nas formas de agir, como atinge o mundo,
considerando que o afeta não de forma uniforme, mas sim diferenciada conforme o
local ou até mesmo conforme aquele aspecto específico que observamos. Verifique

166 A Consolidação da sociedade global


U3

também que o fenômeno da globalização alcança nações e povos de forma intensa


em frentes política, cultural, econômica, tecnológica e, inclusive, ambiental.

Lembre-se também de considerar os impactos da revolução digital no processo


da mundialização, o fluxo de informação e as formas como acessamos os dados
que emergem das tecnologias e da convergência das telecomunicações em
redes mundiais. Somos agora sujeitos inseridos na cibercultura, alterando a forma
sociocultural, a forma como nos relacionamos e como estabelecemos as bases de
um novo arranjo social.

Observe, como destacou Giddens (2000), que passamos a estar “em contato
regular com outros que pensam diferentemente e vivem de forma distinta de nós”.
Graças à conexão acessamos informações e podemos estabelecer uma conversação
mundial. As palavras, ao transitarem em redes, criam interconexões planetárias, fazem
emergir uma opinião pública local e global. Essa nova organização da sociedade
alterada pela tecnologia nos envolve de forma definitiva no mundo globalizado.

Não pode faltar

O que queremos dizer exatamente quando usamos a palavra “globalização”? A


resposta, como você já viu até aqui, pode mudar conforme o período ao qual nos
referimos, o aspecto específico a ser analisado ou até mesmo como esse processo
invade diversos campos de maneiras tão distintas.

Podemos considerar que, quando falamos “globalização”, em termos diretos e


concretos, nos referimos à homogeneização da economia mundial, ao processo
que une mercados no modelo capitalista de desenvolvimento. Nessa ótica é correto,
portanto, afirmarmos que a globalização é, essencialmente, econômico-financeira.
Realiza-se no amplo poder do capital, implantado em âmbito mundial e apoiado no
avanço de poderosas tecnologias. A globalização é um fenômeno com características
basicamente econômicas.

Assimile

A globalização é essencialmente exclusivista e discriminadora: concentra


o máximo de capital, enriquece poucos com o trabalho de muitos.
Uma das consequências drásticas é que aprofunda o abismo entre ricos
e pobres, em esfera mundial. Provoca e acentua a marginalização e a
exclusão social para grande parte da humanidade.

A Consolidação da sociedade global 167


U3

Você já viu como os tentáculos desse fenômeno atingem áreas tais como social,
cultural, tecnológica, as redes de conhecimento, os fluxos de informações, de
mercadorias, de pessoas. Agora você poderá avaliar como o processo de globalização
gera intensas implicações ambientais.

Quando a globalização concentra toda a complexidade do desenvolvimento


em um só aspecto – o econômico –, passa a implantar esse desenvolvimento de
maneira linear: a necessidade ilimitada de crescimento, de expansão do mercado
mundial, reduz todos os demais aspectos – como a globalização ecológica, os meios
de comunicação social, a diversidade cultural, a identidade nacional, a tecnologia, a
informática e tantos outros – subordinando-os à globalização econômica. Tudo passa
a girar em torno do grande eixo voltado a um projeto de uma “sociedade global de
mercado”.

Enquanto vivemos radicais alterações nos padrões de produção e consumo,


nas relações de interdependência econômica e comercial, no contínuo avanço das
telecomunicações, também vivenciamos a privatização de recursos naturais e a vultuosa
alteração do cenário ambiental. Perceba como a globalização promove intensos
impactos sobre praticamente todos os domínios da nossa vida: há consequências nas
dimensões políticas, financeiras, culturais e, inclusive, ambientais do planeta, de forma
generalizada. Os processos de mudanças ambientais globais e da globalização estão
interligados de maneira profunda. Essas mudanças estão influenciando nosso destino,
gerando riscos e inúmeras incertezas sobre o futuro da humanidade. Note como
esses dois processos – mudanças ambientais globais e a própria globalização – se
reforçam mutuamente: ações pontuais em uma determinada região podem produzir
efeitos mais visíveis em outras regiões, muitas vezes com formas difíceis de se prever.

Para saciar a constante necessidade de produção, que alimenta o contínuo fluxo


dos mercados no modelo capitalista de desenvolvimento, você já pode imaginar a
imensa necessidade de matéria-prima e de mão de obra, que tal processo requer de
modo ininterrupto.

Reflita

Tome como exemplo o furacão Katrina, que em 2005 devastou New


Orleans – Estados Unidos –, e responda: como as mudanças ambientais
globais e a globalização afetam a capacidade de resposta em áreas
urbanas frente a eventos climáticos extremos e a desastres naturais?

Esse desastre não foi resultado apenas da localização geográfica da cidade


de New Orleans e do rompimento das barragens. É preciso considerar o
histórico de pobreza e desigualdade da cidade e também levar em conta

168 A Consolidação da sociedade global


U3

que as reformas neoliberais enfraquecerem a capacidade da Agência


Federal de Gestão de Emergências dos EUA, retirando recursos destinados
a manutenção das barragens.

A Agência Federal de Gestão de Emergências é uma agência do governo


dos Estados Unidos subordinada ao Departamento de Segurança interna
que tem como principal objetivo coordenar respostas a desastres que
ocorram nos EUA e que superem os recursos das autoridades locais e do
estado.

Conforme Santos (2007), as empresas, na busca do lucro desejado, valorizam


suas localizações de forma diferente. Não é qualquer lugar que interessa a essa ou
aquela firma. Veja o motivo: com a internacionalização do capitalismo, as funções
econômicas podem ser redistribuídas. Um determinado produto, quando está em
fase final de produção, agregou peças, componentes e materiais provenientes de
diferentes partes do mundo. Esses componentes foram produzidos em locais que
ofereceram um custo de produção inferior, já que isso conta muito para otimizar o
lucro da empresa. Considerando que o preço dessa produção deva ser o mais baixo
possível, há fatores que implicam a diminuição dos custos de produção, tais como
as características do país que oferece a matéria-prima, a facilidade de transporte para
escoar o produto, a mão de obra barata, a possibilidade de mercado consumidor
próximo e também as exigências ambientais reduzidas.

Note como se estabelece uma relação perversa: há uma certa tendência das
indústrias para se instalarem em países mais desenvolvidos, nos quais as atividades
na área de tecnologia, comunicação, engenharia e comércio são acentuadas e mais
promissoras. Porém, as atividades de produção, as de nível operacional, tendem a
concentrar-se em países menos desenvolvidos. Isso se dá porque o custo de mão de
obra e as exigências de proteção ao meio ambiente são menores nesses países. Nos
locais onde as legislações ambientais são pouco restritivas, é possível produzir sem a
preocupação de poluir.

Exemplificando

O que significa a concentração da riqueza em poucas mãos? Que


proporções a globalização pode assumir?

Veja alguns dados que o Programa das Nações Unidas para o


Desenvolvimento (PNUD, informes 2005 e 2006. Disponíveis em: <http://
www.pnud.org.br/hdr/Relatorios-Desenvolvimento-Humano-Globais.

A Consolidação da sociedade global 169


U3

aspx?indiceAccordion=2&li=li_RDHGlobais>. Acesso em: 02 dez. 2015)


traz em seus diversos relatórios, revelando como o binômio “riqueza-
pobreza” se alastra, se aprofunda e se agrava:

• Um por cento da população mundial mais rica possui uma renda


equivalente aos 57% mais pobres da população mundial. Isso quer dizer
que sessenta e três milhões de multimilionários possuem tantos bens
quanto dois bilhões e setecentos milhões de pessoas.

• As cem pessoas mais ricas do mundo acumulam riquezas equivalentes


a receitas totais dos países pobres do planeta.

• As 225 pessoas mais ricas do mundo possuem tanta riqueza quanto


47,8% da população mundial reunida.

• As três pessoas mais ricas do mundo possuem ativos maiores que o PIB
dos 48 países mais pobres do mundo.

• Na América Latina, os 10% mais ricos da população ficam com 60% da


riqueza, enquanto os 10% mais pobres alcançam somente 2%.

• Os países mais ricos necessitam dos pobres para lhes sugarem as


matérias-primas, venderem produtos, mas também para o fornecimento
de mão de obra. O sistema passou a ser gerido a uma escala e numa
lógica efetivamente global.

Agora pense nesse imenso “mundo globalizado”, na constante e progressiva


elevação dos níveis de consumo, nos bens descartáveis que cada um de nós se
encarrega de usufruir e de jogar fora alimentando esse fluxo sem fim. Não podemos
mais afirmar que apenas os países mais desenvolvidos têm essa ganância insaciável e o
imediatismo como marca. Agora também os países periféricos exigem a diversificação
e a produção de bens em volume cada vez maior. Como o planeta pode responder a
essa demanda desmesurada? Não há limites para a natureza? Os bens naturais são todos
renováveis? Será que consumimos apenas aquilo de que realmente necessitamos? E
mais: como descartamos nosso lixo, os produtos tidos como já superados?

Faça você mesmo

Em vários países, a fiscalização frente às exigências de proteção ao meio


ambiente é deficiente. Cite um exemplo que ilustre esse caso.

170 A Consolidação da sociedade global


U3

A sociedade globalizada assume outro desenho, transpondo os limites geográficos


dos países, interligando mercados financeiros numa rede global em que o capital circula
de forma livre, acelerada, e relegando a um segundo plano as políticas econômicas
dos Estados. Ora, o que temos como resultado é que o Estado perde sua autonomia
com a exigência de criar acordos de cooperação e integração para conseguir
maior poder e possibilidade de enfrentamento de dificuldades, especificamente as
decorrentes do processo de globalização. Tais dificuldades são de ampla abrangência,
com repercussão mundial, como os diversos problemas relacionados ao meio
ambiente, às epidemias, à fome mundial, ao tráfico de drogas, de armas e de pessoas,
aos refugiados, ao crime organizado, ao terrorismo etc.

Quando se trata da mundialização dos problemas ambientais, enfrentamos uma


discussão acalorada que segue sem consenso. Por um lado, há a necessidade urgente
de reduzir o impacto ambiental causado pela emissão na atmosfera de CO2 e outros
resíduos poluentes, gerando aquecimento global, e este, por sua vez, é uma ameaça
à biodiversidade e até mesmo à própria sobrevivência humana. Por outro, há uma
intensa extração de bens naturais e matérias-primas de diversas origens alimentando
as indústrias e gerando, como efeito da produção, níveis de poluição intensos. Os
problemas ambientais não têm fronteiras e como o fenômeno da globalização tem
se revelado um processo irreversível, a comunidade internacional vem se mobilizando
desde 1970 na análise, discussão e busca por soluções.

Em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) criou o Programa das


Nações Unidas para o Meio Ambiente, revelando pontualmente a tendência de uma
organização supranacional para propor a discussão de problemas globais, problemas
esses particularmente difíceis de serem abordados e solucionados na esfera de apenas
um Estado de forma isolada. Desde a década de 1960 há uma preocupação crescente
com os problemas ambientais, e em 1990 essa preocupação culmina com um debate
envolvendo diversos países acerca de um processo de conscientização pública com
foco específico nos graves problemas do meio ambiente.

Para Viola (1996), o resultado dessas décadas de preocupações com a degradação


ambiental emerge e desenvolve-se em alguns itens, que demonstram a constituição
de um movimento ambientalista global:

1. ONGs e grupos em escala internacional com o escopo de


lutar pela proteção do meio ambiente;
2. Agências estatais encarregadas de proteger o meio
ambiente;
3. Instituições e grupos científicos pesquisando sobre
problemas ambientais;
4. Setores da administração preocupando-se com o meio

A Consolidação da sociedade global 171


U3

ambiente e agindo de modo a diminuir o impacto de suas


atividades no mesmo;
5. “Consumidor-cidadão” preocupado com o meio ambiente e
buscando produtos “ecologicamente corretos”;
6. Processo de produção passa por transformações a fim de
tornar-se sustentável (“selos verdes” e ISO 14000);
7. Agências e tratados internacionais que equacionam e buscam
trazer solução aos problemas mediante uma série de medidas.

Cada vez mais, torna-se necessária a atuação desses organismos


supraestatais, dos Estados de maneira integrada e, até mesmo
da sociedade civil, na educação, conscientização e criação
de mecanismos hábeis ao bem cumprir do afã de preservação
ambiental, uma questão urgente que necessita de soluções
imediatas. (VIOLA, 1996, p. 27-28).

Quais cenários possíveis nos aguardam frente às intensas alterações que temos
imputado ao planeta? O futuro pode ser diferente do que temos produzido como
realidade até agora?

As atividades do modo de produção capitalista, com uma clara política voltada ao


crescimento econômico, têm se revelado prejudiciais dadas as consequências que
imputam, principalmente em duas esferas: ambiental e social. Poluição, problema da
absorção e descarte dos diversos tipos de rejeitos e resíduos, esgotamento das fontes
de energia, desemprego, miséria, fome, problemas de infraestrutura e tantos outros
problemas sociais são alguns exemplos.

Especialmente as gradativas mudanças climáticas observadas na Era Moderna, que


vêm chamando a atenção do mundo, com o paradigma climático-meteorológico-
ambiental exigindo ser inserido na pauta da geopolítica internacional tanto do presente
quanto do futuro. Há posições dissonantes, mas ainda assim há consenso internacional
sobre as previsões para a intensificação do aquecimento climático planetário no século
XXI. Teremos cenários muito comprometidos para o meio ambiente, a vida humana e
para os ecossistemas.

Há marcas naturais do fenômeno como também severas interferências


decorrentes das atividades humanas que o acentuam e intensificam. Vários reflexos
das mudanças climáticas globais são evidenciados em escala regional com alterações
térmicas (aquecimento sobretudo nas temperaturas mínimas) e elevação dos totais
pluviométricos (umidificação com tendência à concentração) nas últimas décadas.

172 A Consolidação da sociedade global


U3

Assumindo-se que a intensificação do efeito-estufa planetário


na Era Moderna é um fato consolidado e consensual admite-se
a concepção de que nenhum local do planeta está isento das
suas repercussões, pois os fenômenos ligados à natureza são
compreendidos à hora atual na escala global e sincronizados
com o processo de globalização (MENDONÇA, 2011).

Pesquise mais
O Instituto Brasil PNUMA (Comitê Brasileiro do Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente) é uma entidade privada sem fins lucrativos,
que tem como atividade principal a divulgação dos resultados do trabalho
do PNUMA e suas publicações, além da promoção e participação em
atividades de educação e conscientização ambiental.
Disponível em: <http://web.unep.org/pnuma-no-brasil>. Acesso em: 07
out. 2015.

Frente aos desafios que esses problemas carregam, estabelece-se o conceito de


desenvolvimento econômico com a inclusão do sentido de sustentabilidade. Cria-se
um novo cenário levando-se em conta, além do crescimento econômico, a ampliação
do bem-estar social, a melhoria nos padrões de vida para a população. Não se trata
apenas de assegurar melhores e mais saudáveis possibilidades de alteração da realidade,
mas também de atingir maior equilíbrio na distribuição de renda, de bens materiais e
até mesmo avaliar o aumento da capacidade de consumo. A consequência, segundo
Derani (2001), se reverteria em condições materiais ao bem-estar da sociedade
(manutenção da sanidade física e psíquica dos indivíduos): acesso à alimentação sadia,
qualidade da água que se consome, disponibilidade para o lazer, índice de salubridade
do ambiente de trabalho, por exemplo. Vários autores e estudiosos indicam a
necessidade de um ecodesenvolvimento. É uma teoria que precede e prepara o
caminho para um “desenvolvimento sustentável”, carregando como metas principais:
a preservação dos recursos naturais e do meio ambiente tanto no presente como para
as gerações futuras, a valorização das estruturas sociais, a satisfação das necessidades
básicas da população, a participação ativa da sociedade civil, a segurança social, o
investimento em políticas públicas relacionadas à infraestrutura, a elaboração de
sistemas sociais que assegurem emprego, respeito às culturas, e incluam programas
de educação.

A Consolidação da sociedade global 173


U3

Essas decisões traçam um novo caminho que culmina tanto na análise de uma
visão complexa das causas dos problemas socioeconômicos e ecológicos que
a sociedade globalizada implementa como também na necessidade inadiável de
assumirmos uma postura ética e responsável. Frente ao desenvolvimento sustentável
– que, para Brüseke (1996), é o desenvolvimento que satisfaz as necessidades do
presente sem arriscar que futuras gerações não possam satisfazer as necessidades
delas –, esse conceito apresenta um novo paradigma apoiado no tripé “eficiência
econômica – prudência ecológica – justiça social”. Para que esse tripé viabilize uma
trama possível de ser executada, é necessário que a sociedade internacional atue
de forma integrada e que, a partir de políticas econômicas, os países concretizem
os objetivos de sustentabilidade estabelecidos internacionalmente. Com certeza
trata-se de uma proposta ousada, que carrega um novo paradigma ao movimento
ambiental. O que temos historicamente é o uso dos recursos naturais sem nenhuma
contraprestação pecuniária. De modo particularmente especial, os Estados podem
fomentar benefícios fiscais e diversas ações positivas de proteção ambiental tanto na
esfera pública quanto na esfera da sociedade civil.

Sem medo de errar


Vamos agora retomar a situação-problema apresentada no início desta seção.
Vale destacar que essa situação tem estreita relação com a situação geradora de
aprendizagem apresentada no início da unidade. Ao resolvê-la, você terá ainda mais
elementos para compor a elaboração das respostas levando em conta um leque de
importantes aspectos que deverão ser considerados.

Particularmente nesta seção, na qual nosso foco é o entendimento ainda


mais ampliado da globalização com consequências ambientais, temos questões
importantes:

- Por que as implicações ambientais na era da globalização são mais avassaladoras


e intensas do que em qualquer outra época da história da humanidade?

- Como consolidar uma sociedade global sem afetar os cenários ambientais?

- Na globalização o aquecimento global assumiu grandes proporções. Que


consequências o aquecimento global pode trazer? Como afeta o mundo?

- Qual a relação entre o aquecimento global e os níveis de poluentes que os


carros emitem?

174 A Consolidação da sociedade global


U3

Considere também, conforme vimos na Seção 3.3, que estamos imersos, graças à
revolução digital, num fluxo de informações com convergência das telecomunicações
em redes mundiais. Temos acesso ao que acontece no mundo em tempo real, com
as informações disponíveis onde desejarmos, na hora em que desejarmos. Essa
possibilidade nos compõe como sujeitos inseridos na cibercultura, alterando a forma
sociocultural, a forma como nos relacionamos e como estabelecemos as bases de
um novo arranjo social. Como bem destacou Giddens (2000), passamos a estar “em
contato regular com outros que pensam diferentemente e vivem de forma distinta de
nós”.

Considere também o que aponta De Cicco (2011): a necessidade de um governo,


de uma autoridade que guie a sociedade, surge em função de possíveis desvios dos
objetivos de um ou de mais indivíduos de um grupo. A finalidade óbvia do governo é o
bem de todos, exercendo controle, ajustando o rumo do grupo a partir da autoridade
do governante. Dessa forma, o Estado passa a ser um instrumento para a realização
dos interesses da sociedade.

Lembre-se

A política intensa voltada ao objetivo de crescimento econômico


envolvendo as atividades do modo de produção capitalista, tem
se revelado prejudicial. Basta avaliarmos as consequências que o
crescimento econômico desenfreado tem imputado principalmente nas
áreas ambiental e social.

Atenção!

Vários autores e estudiosos indicam a necessidade de um


ecodesenvolvimento. É uma teoria que precede e prepara o caminho para
um “desenvolvimento sustentável”, carregando como metas principais:
a preservação dos recursos naturais e do meio ambiente tanto para o
presente como para as gerações futuras, a valorização das estruturas
sociais, a satisfação das necessidades básicas da população, a participação
ativa da sociedade civil, a segurança social, o investimento em políticas
públicas relacionadas à infraestrutura, a elaboração de sistemas sociais
que assegurem emprego, respeito às culturas e incluindo programas de
educação.

A Consolidação da sociedade global 175


U3

Avançando na prática
Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois as compare com as de
seus colegas.

“Globalização e meio ambiente”


Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamentos
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
de área
explicação da realidade social.
Compreender os impactos que a globalização arrastou para o
2. Objetivos de aprendizagem meio ambiente. Identificar ações voluntárias que podem ser
assumidas pelas pessoas.
3. Conteúdos relacionados Meio ambiente, mudar o mundo, voluntariado.

Eliana faz parte do grupo de voluntários da empresa na


qual trabalha para desenvolver ações aos sábados com a
comunidade, pertencente tanto à empresa como ao bairro ao
redor. O foco central dos voluntários é o de trabalhar com os “8
Jeitos de Mudar o Mundo”.
4. Descrição da SP
1. O que caracteriza o trabalho voluntário no qual Eliana está
envolvida?
2. De onde se originaram os “8 Jeitos de Mudar o Mundo”?
3. Por que, mesmo com o prazo de implantação até 2015, ainda
faz sentido trabalhar com os 8 Objetivos do Milênio?
1. Voluntário é o protagonista, o agente de transformação social
que presta serviços não remunerados, doando seu tempo, suas
habilidades e a sua energia. Movido pela solidariedade e pela
cidadania, e impulsionado por motivações pessoais, sociais,
políticas, culturais ou religiosas, dedica-se espontaneamente
a causas, projetos em benefício da comunidade. 2. No ano
de 2000, as Nações Unidas convidaram a sociedade civil e
os governos a olharem com atenção alguns desafios que o
5. Resolução da SP planeta enfrentava e convidou todos a se engajarem em prol
dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio: metas a serem
atingidas até o ano de 2015. Essas metas compuseram os “8
Jeitos de Mudar o Mundo”.
3. Ainda faz sentido. Muitas delas foram alcançadas, outras não,
e novamente a sociedade está sendo convidada a se mobilizar
para novos desafios a serem acompanhados nos próximos 15
anos. (Disponível em: <http://www.objetivosdomilenio.org.
br/>. Acesso em: 02 nov. 2015.)

Lembre-se

O Instituto Brasil PNUMA (Comitê Brasileiro do Programa das Nações


Unidas para o Meio Ambiente) é uma entidade privada sem fins lucrativos,
que tem como atividade principal a divulgação dos resultados do trabalho

176 A Consolidação da sociedade global


U3

do PNUMA e suas publicações, além da promoção e participação em


atividades de educação e conscientização ambiental.

Disponível em: <http://www.brasilpnuma.org.br/>. Acesso em: 07 out.


2015.

Faça você mesmo

Após conferir as respostas ao roteiro de questões, redija uma análise, em


forma de texto, entre 10 e 20 linhas, sobre os efeitos da globalização no
meio ambiente.

Faça valer a pena!

1. Também pode ser chamado de consumo responsável, é um conjunto


de práticas relacionadas à aquisição de produtos e serviços que visam
diminuir ou até mesmo eliminar os impactos ao meio ambiente. É um
comportamento que incorpora o fato de que os recursos são limitados
e que requer um engajamento ativo, visando à melhoria da qualidade de
vida para a pessoa e para a coletividade.
O texto se refere:
a) Ao consumo sustentável.
b) À pegada ecológica.
c) À autossustentabilidade.
d) À reciclagem e reutilização.
e) Ao equilíbrio ecológico.

2. (Enem, 2010) As cidades industrializadas produzem grandes


proporções de gases como o CO2, o principal gás causador do efeito
estufa. Isso ocorre por causa da quantidade de combustíveis fósseis
queimados, principalmente no transporte, mas também em caldeiras
industriais. Além disso, nessas cidades concentram-se as maiores áreas
com solos asfaltados e concretados, o que aumenta a retenção de calor,
formando o que se conhece por “ilhas de calor”. Tal fenômeno ocorre
porque esses materiais absorvem o calor e o devolvem para o ar sob a
forma de radiação térmica. Em áreas urbanas, devido à atuação conjunta
do efeito estufa e das “ilhas de calor”, espera-se que o consumo de
energia elétrica:

A Consolidação da sociedade global 177


U3

a) Diminua devido à utilização de caldeiras por indústrias metalúrgicas.


b) Aumente devido ao bloqueio da luz do sol pelos gases do efeito estufa.
c) Diminua devido à não necessidade de aquecer a água utilizada em
indústrias.
d) Aumente devido à necessidade de maior refrigeração de indústrias e
residências.
e) Diminua devido à grande quantidade de radiação térmica reutilizada.

3. Escolha V para verdadeiro ou F para falso considerando as causas e


consequências do aquecimento global:
I. A queima de combustíveis fósseis é responsável pela intensificação do
efeito estufa, agravando as alterações climáticas.
II. São consequências do aquecimento global: derretimento das geleiras,
aumento do nível dos oceanos, alterações de ecossistemas.
III. O aquecimento global é um fenômeno natural que está sendo
acelerado devido às atividades humanas.
IV. Os países desenvolvidos industrializados, principalmente Estados
Unidos e as nações da União Europeia, são os únicos responsáveis pelo
aquecimento global.
Escolha a alternativa que contém a resposta correta, respectivamente:
a) F – V – F – F.
b) V – F – V – V.
c) F – F – V – F.
d) V – V – V – F.
e) V – F – F – F.

178 A Consolidação da sociedade global


U3

Referências

ARISTÓTELES. A Política. São Paulo: Escala, col. 2008. (Coleção Os Pensadores).


BAUMAM, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
BRÜSEKE, Franz Josef. Desestruturação e desenvolvimento. FERREIRA, Leila da Costa;
VIOLA, Eduardo. Incertezas de sustentabilidade na globalização. 2. Tir. Campinas:
UNICAMP, 1996.
COSTA, Maria Cristina Castilho. Sociologia: introdução à ciência da sociedade. São
Paulo: Moderna, 2005.
DE CICCO, Cláudio; GONZAGA, Alvaro de Azevedo. Teoria geral do Estado e ciência
política. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011.
DERANI, Cristiane. Direito Ambiental Econômico. 2. ed. São Paulo: Max Limonad, 2001.
GIDDENS, Anthony. As Consequências da Modernidade. São Paulo: UNESP, 1991.
______. O mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. Rio de
Janeiro: Record, 2000.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais.Trad.Tomaz Adelaine La
Guardia Resende. 2. ed. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
IANNI, Octavio. Teorias da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995.
______. Globalização e nova ordem internacional. In: AARÃO, D. et al. (org.). O século
XX: o tempo das dúvidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
LEMOS, André; LEVY, Pierre. O futuro da internet: Em direção a uma ciberdemocracia
planetária. São Paulo: Paulus, 2010.
MENDONÇA, Francisco. Aquecimento global e suas manifestações regionais e locais:
alguns indicadores da região Sul do Brasil. Revista Brasileira de Climatologia, [S.l.], v.
2, maio 2011. ISSN 2237-8642. Disponível em: <http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs/index.php/
revistaabclima/article/view/25388/17013>. Acesso em: 04 nov. 2015.
MORANTE, Adélia Cristina Tortoreli; GASPARIN, João Luiz. Multiculturalismo e
Educação: um desafio histórico para a escola. VII Seminário Nacional de Estudos e
Pesquisas “História, Sociedade e Educação no Brasil”. UNICAMP – Campinas, SP – 10-13
jul. 2006. Disponível em: <http://www.histedbr.fe.unicamp.br/acer_histedbr/seminario/
seminario7/TRABALHOS/A/Adelia%20Cristina%20T.%20Morante.pdf>. Acesso em: 02
fev. 2016.

A Consolidação da sociedade global 179


U3

SANTAELLA, Lúcia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência
universal. 14. ed. Rio de Janeiro: Record, 2007.
SIQUEIRA, Holgonsi Soares Gonçalves. A globalização sob a ótica da acumulação flexível.
Revista Sociais e Humanas, 2009. Disponível em: <http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-
2.2.2/index.php/sociaisehumanas/article/view/856/592>. Acesso em: 20 maio 2015.
VIOLA, Eduardo. A multidimensionalidade da globalização, as novas forças sociais
transnacionais e seu impacto na política ambiental do Brasil, 1989-1995. In: FERREIRA,
Leila da Costa; VIOLA, Eduardo. Incertezas de sustentabilidade na globalização. 2. Tir.
Campinas: UNICAMP, 1996.

180 A Consolidação da sociedade global


Unidade 4

SOCIEDADE, EXCLUSÃO E
DIREITOS HUMANOS

Convite ao estudo

Bem-vindo à Unidade 4 da disciplina Homem, Cultura e Sociedade.


Esta unidade é um convite à discussão sobre o conhecimento construído
nas unidades anteriores na perspectiva da sociedade brasileira. Veja as
competências e os objetivos dessa unidade.

Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam


Competência de
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
fundamento de área
explicação da realidade social.
Discutir a importância da relação entre natureza e
Objetivo Geral cultura na constituição das sociedades e, em especial,
da sociedade brasileira.
• Discutir a importância da Antropologia para a definição
de cultura.
• Compreender a formação histórica do povo brasileiro.
• Elaborar reflexões sobre preconceito e discriminação
Objetivos específicos
racial, de gênero e social na sociedade brasileira.
• Refletir sobre a constituição de políticas de ação
afirmativa pelo Governo Federal e seus resultados na
efetivação dos Direitos Humanos.

Para atingirmos esses objetivos, propomos a situação geradora de


aprendizagem a seguir. Veja:

As sociedades humanas são compostas por diversas dimensões. Quando


falamos sobre elas, nos referimos, em grande parte, às dimensões políticas,
econômicas e sociais. Mas também fazem parte de uma sociedade a sua
cultura e as características biológicas que a formam. A sociedade brasileira
também é formada por essa diversidade de dimensões.
U4

Podemos dizer que o povo brasileiro é um povo sui generis. Já nasceu


miscigenado. Carrega em si os sangues europeu, indígena e negro, dos
primeiros povos que aqui habitaram e que construíram esta terra chamada
Brasil. Depois, tantos outros povos aqui chegaram e miscigenaram ainda
mais esse povo, fazendo com que o Brasil se constituísse como um país
multicultural.

Essa formação social e cultural diferenciada resulta em uma nação cujos


principais elementos de identidade são a comida (a feijoada), a música (o
samba) e a personalidade (o malandro). Esses três fatores, originados das
relações culturais aqui estabelecidas, constroem uma nação baseada no
“jeitinho brasileiro”, no patrimonialismo e na cordialidade. Essas características
acarretam a concepção da figura do brasileiro como gentil, cordial e alegre,
capaz de “dar jeito” nos problemas sem jamais esmorecer. Essa concepção
levou também ao imaginário de que o brasileiro é um povo não violento e
sem preconceitos. Será?

Os índices de violência, por exemplo, crescem a cada dia. E não apenas


índices referentes à violência que é resultado de crimes como sequestros
e roubos. Crescem os índices de violência contra negros e indígenas,
imigrantes, mulheres e público LGBT. É comum abrirmos os jornais e vermos
notícias de homens que espancaram ou mesmo assassinaram suas esposas
ou namoradas ou de índios que foram queimados, como o caso do índio
Galdino. Como fator comum a esses crimes está a intolerância, característica
comum aos povos sem cordialidade.

Mas, se somos um povo cordial, por que os crimes de intolerância têm


aumentado? Se somos cordiais, por que ainda não aceitamos a presença
de negros e índios em espaços como as universidades? Se somos cordiais,
por que ainda mantemos comportamentos discriminatórios em relação à
presença de pessoas de outras classes em ambientes antes destinados às
classes privilegiadas, como aeroportos e restaurantes sofisticados?

Para que possamos responder essas perguntas e entender a contradição


inerente ao povo brasileiro, esta unidade está dividida em quatro seções.
Na primeira delas, discutiremos a contribuição da Antropologia para a
compreensão da importância da cultura na vida social e na construção
do conceito de nação. Na segunda seção, você será convidado a ver e
debater como o povo brasileiro se constituiu a partir da conformação de
diversas populações e como essa conjunção de povos foi importante
para a construção desse povo sui generis. O debate da terceira seção
está centrado no modo como a constituição do povo brasileiro também

182 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

resultou na construção de preconceitos e discriminações em relação a essas


populações e também de outros tipos, como de gênero e classe. Por fim, a
quarta seção convida você a refletir sobre os resultados políticos das atitudes
e dos comportamentos preconceituosos e discriminatórios, expondo-os e
apresentando o processo de implantação de políticas afirmativas raciais, de
gênero e sociais, além de mostrar quais são os frutos dessas políticas na
garantia dos direitos humanos.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 183


U4

184 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

Seção 4.1

Antropologia, cultura e identidade nacional

Diálogo aberto

O Homem: produtor e produto da cultura

Olá! Vamos iniciar a primeira seção da Unidade 4 (Sociedade, Exclusão e Direitos


Humanos). Nesta seção, nós discutiremos a Antropologia como ciência, procurando
estabelecer a distinção entre as explicações deterministas e as explicações culturais.
Para isso, falaremos sobre o conceito de cultura e veremos como ele é importante
para a constituição do conceito de nação, estabelecendo, assim, a distinção entre
Estado, país e nação. Também se faz necessário discutir e entender o que é raça
e etnia e a forma como a cultura é fundamental para essa distinção, visto que esta
influencia questões como o etnocentrismo e o multiculturalismo.

Espera-se que, ao final desta seção, você possa discorrer sobre o conceito de
cultura e sua importância para o pensamento antropológico, assim como perceber
a influência desse conceito em nosso cotidiano, por meio do conhecimento de sua
presença na ideia de nação e na noção de etnocentrismo.

Para isso, você é convidado a embarcar na história de Ali, um imigrante sírio que
chegou ao Brasil há pouco tempo. Ele imigrou para o País em decorrência do conflito
armado na Síria. Ali tem tentado adaptar-se ao Brasil, mas para ele algumas coisas
ainda são muito estranhas. Por exemplo, Ali não entende por que no Brasil as pessoas
diferentes, seja pela raça seja pelo gênero e mesmo pela etnia, sofrem discriminações.
Para ele, é difícil entender isso, pois o Brasil é conhecido por sua miscigenação e seu
multiculturalismo. Pelo menos é o que ele sempre ouviu falar enquanto morava na
Síria.

No entanto, as atitudes encontradas por Ali em seu convívio cotidiano com os


brasileiros mostram a ele outra realidade. Em sua tentativa de adaptar-se a este país, Ali
tem levantado algumas questões: a cultura teria um papel importante na construção
dessas diferenças? Quanto a cultura influencia os sujeitos em suas ações cotidianas? E,
diante disso, é possível dizer que o Brasil é um país multicultural ou que se caracteriza
por posturas etnocêntricas? Para isso, Ali terá que mobilizar alguns importantes

Sociedade, exclusão e direitos humanos 185


U4

conceitos, como o de cultura, para poder entender o que acontece neste país e,
quem sabe, aqui fazer sua morada.

Não pode faltar

A situação-problema proposta precisa de diversos conceitos para ser resolvida. Para


começar, ela nos convida a refletir sobre a importância do pensamento antropológico
na compreensão do comportamento humano.

A Antropologia é uma ciência social. Ela se divide em diversos ramos, entre os quais
a antropologia biológica e a antropologia cultural. Há indícios de que os trabalhos feitos
pelos viajantes dos séculos XVIII e XIX podem ser considerados estudos antropológicos;
contudo, podemos dizer que, apenas no final do século XIX, a Antropologia, como
as demais ciências sociais, entre elas a Sociologia, adquire objeto e método. Os
estudos antropológicos são centrados no entendimento do homem enquanto ser
completo, formado pelas dimensões biológica, social e cultural, e do modo como
estas se interligam e influenciam a vida social seja das sociedades ditas primitivas, seja
das sociedades complexas.

A Antropologia é formada por diversas correntes, constituídas no desenvolvimento


da própria ciência. Elas marcam um dos princípios da Antropologia, a diferença entre
natureza e cultura. A relação natureza e cultura é uma das mais caras à Antropologia,
pois ela nos permite identificar a influência das questões biológicas e sociais na
constituição dos homens.

E o que é natureza e o que é cultura no debate antropológico? Como vimos


antes, a Antropologia surge como ciência com o objetivo de entender o homem em
suas diversas dimensões, incluindo as dimensões sociais e culturais. Nesse sentido,
a Antropologia busca mostrar que, para além das questões biológicas que podem
determinar ou condicionar comportamentos, existem aspectos sociais e/ou culturais
que também influenciam as atitudes e os comportamentos humanos. A Antropologia,
assim, procura entender a condição humana em toda a sua complexidade.

A Antropologia busca desnaturalizar algumas determinações de ordem social


travestidas de determinações biológicas. Algumas teorias consideravam aspectos
próprios da evolução biológica e genética do corpo humano como determinantes de
nossa forma de relacionarmos socialmente. Uma das teorias famosas é a de Cesare
Lombroso, que influenciou o pensamento de Nina Rodrigues – importante intelectual
brasileiro do final do século XIX. Lombroso, em publicação de 1893, acreditava que
o crime deveria ser considerado natural, em razão de ser hereditário. Contudo,
como mostravam as teses positivistas de Émile Durkheim ao final do século XIX, o
crime não era socialmente aceitável e, em razão disso, deveria ser punido. Todavia,
naturalizava-se o crime. Por mais que essa tese tenha sido superada, ela ainda

186 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

influencia a construção do pensamento do senso comum, naturalizando algumas


práticas, consideradas oriundas da natureza humana, e não resultados das relações
dos homens em sociedade.

Pesquise mais
Um texto clássico da Antropologia para entender a relação entre natureza
e cultura é “Raça e História”, de Claude Lévi-Strauss. Cristina Cavalcanti
Freire publicou uma resenha desse texto. Confira!

FREIRE, Cristina Cavalcanti. RESENHA: LÉVI-STRAUSS, C. “Raça e História”.


In: ________. Antropologia Estrutural II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,
1976, capítulo XVIII, pp 328- 366. Disponível em:

<http://revista.ufrr.br/index.php/textosedebates/article/
download/896/738>. Acesso em: 09 mar. 2016.

A Antropologia coloca essas questões nos termos da cultura, pois considera que
as relações entre os indivíduos, de diferentes raças, etnias e gêneros, são produzidas
socialmente, conforme o contexto econômico, político e social no qual as populações
estão inseridas. Ao colocar as questões nesses termos, a Antropologia historiciza as
diferenças existentes nas sociedades.

O conceito de cultura aqui empregado refere-se ao que foi chamado por Santos
(2006, p. 24) de “existência social de um povo ou nação”, expressa em suas maneiras
de ser, pensar, agir e de construir sua vida material e social. Essa existência social,
constituída a partir das relações dos indivíduos com a natureza e entre si, constrói
padrões sociais e culturais de relacionamento entre os indivíduos. Esses padrões
podem também ser chamados de costumes, tradições ou mesmo normas sociais.
Eles são produzidos nas relações cotidianas entre os homens e, em um primeiro
momento, não precisam de leis que as regrem. A própria sociedade cuida de que
essas normas sociais sejam obedecidas.

Assimile
O costume e a tradição têm origem nas relações sociais estabelecidas
pelos indivíduos. Elas são a cristalização de alguns hábitos sociais. Max
Weber, sociólogo alemão, mostra em sua obra Metodologia das Ciências
Sociais que o costume é algo que é realizado com certa regularidade e
que orienta determinadas ações. Assim, as pessoas baseiam-se nesses
costumes para refletir e orientar as ações que realizam cotidianamente.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 187


U4

Dada a proporção que o costume adquire, ou mesmo a necessidade de se


tornar algo mais forte no seio da sociedade, ele torna-se uma convenção
e poderá ser incorporado ao corpo de leis que regem aquela sociedade.

Assim, a cultura, que também se erige por questões biológicas e geográficas, é que
regulamenta a vida dos homens em sociedade. Por isso, é preciso observar quais são as
influências que a cultura possui nas relações cotidianas, de que forma ela se expressa
e quando as pessoas procuram construir discursos utilizando a natureza como forma
de justificar desigualdades e produzir hierarquizações, preconceitos e discriminações.

Por exemplo, a tese de Arthur de Gobineau, que também influenciou o pensamento


de Nina Rodrigues,

atribuiu as diferenças sociais entre negros e brancos à


inferioridade biológica do africano. Para superar esta
desigualdade, o negro precisaria ser civilizado nos moldes
organizacionais brancos, isto é, segundo o modelo europeu.
Era preciso que os negros africanos fossem branqueados e
assimilassem a cultura europeia, em especial, a religião cristã.
Desta forma, Gobineau justificou o neocolonialismo europeu
na África do século XIX (RODRIGUES, 2009, p. 85).

Como colocado anteriormente, por mais que essas teses, vigentes no final do
século XIX e início do século XX, tenham sido refutadas, elas criaram algum “caldo” no
pensamento do senso comum, levando à permanência de atitudes preconceituosas
e discriminatórias no Brasil, o que acarretou a caracterização da discriminação racial
como crime, estabelecido pela Lei n. 7716/1989. Tais atitudes produzem desigualdades,
seja em relação à raça, ao gênero, à etnia, seja em relação a qualquer diferença.

Exemplificando
Dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD) para o
ano de 2014 mostram que as mulheres brasileiras recebem o equivalente
a 74,5% do que recebem os homens brasileiros, têm menos espaço
no mercado de trabalho (67,4% de homens e 45,9% das mulheres
pertencentes à população economicamente ativa estavam ocupados
no 1º trimestre de 2015) e também se dedicam mais tempo aos afazeres
domésticos, configurando, em muitos casos, jornada dupla de trabalho.

188 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

Faça você mesmo


Pensando nas relações entre natureza e cultura e utilizando os dados
do item “Exemplificando”, como é possível explicar a manutenção da
desigualdade de gênero no Brasil em relação ao trabalho?

Em termos do trabalho, ainda é presente no Brasil a divisão entre


trabalho reprodutivo e trabalho produtivo. Conforme as características
biológicas de homens e mulheres, essa divisão do trabalho tornou-se
uma divisão sexual do trabalho. Às mulheres, cuidadosas e afetuosas
“por natureza", cabem os trabalhos da reprodução, os cuidados da casa,
dos filhos e dos idosos. Aos homens, fortes e viris, cabem o trabalho da
produção, o trabalho fora de casa e a manutenção da família. Contudo,
essas características ditas biológicas servem para reforçar e naturalizar o
discurso que socialmente segrega as mulheres dos espaços de trabalho e,
quando as insere, coloca-as em posições inferiores e em empregos nos
quais as ditas características “femininas” são fundamentais, como babás,
cuidadores de idosos, professores e enfermeiros.

Mas, antes de entrarmos na discussão sobre desigualdade, vamos discutir a


construção da nação e da identidade nacional no Brasil. Começaremos pela escravidão.
A escravidão no Brasil permitiu a imigração de um contingente populacional imenso de
negros que aqui aportaram e foram espalhados por todo território brasileiro, onde seus
braços foram utilizados para a produção das riquezas deste país. Ao mesmo tempo,
os portugueses não paravam de chegar, fossem os mais abastados aos quais foram
destinados quinhões de nossa terra para exploração de produtos primários, fossem os
desbravadores que vieram para avançar sobre a terra procurando novos locais para
produção e exploração, fossem os desterrados das terras portuguesas, mandados
para cá para não ficarem sob as vistas das nobres famílias portuguesas.

Em 1808, a invasão de Napoleão a Portugal fez com que a Família Real portuguesa
viesse às pressas para o Brasil, junto com uma frota composta por nobres, funcionários
reais e outros tantos portugueses que fugiram das atrocidades promovidas por
Napoleão Bonaparte na Europa. Assim, mais portugueses aqui chegaram, e a colônia
passou a ser capital da metrópole.

Junto de toda essa população que chegava, juntavam-se os indígenas que aqui
habitavam antes mesmo da chegada dos primeiros portugueses. Foram eles que
“recepcionaram” Pedro Álvares Cabral e sua frota; foram também eles que ensinaram
aos jesuítas os modos de vida indígena e foram, junto com os portugueses, responsáveis
pelo povoamento desta terra (e também foram quase exterminados pelos lusitanos).
Um dos casos mais conhecidos é o do índio Tibiriçá, que, em conjunto com os padres
da Companhia de Jesus, fundou a cidade de São Paulo. Os restos mortais de Tibiriçá
jazem junto aos dos padres portugueses na Catedral da Sé, a principal igreja paulistana.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 189


U4

E a eles juntaram-se tantos outros povos. No final do século XIX, após a abolição
da escravidão, europeus, em especial italianos e espanhóis, vieram para o Brasil para
trabalhar nas lavouras. Durante a 1ª Guerra Mundial, o Brasil recebeu outros fluxos
imigratórios, incluindo asiáticos. E, já no século XXI, povos vindos do Haiti, Bolívia e
Oriente Médio aportam diariamente no Brasil em busca de novas oportunidades de
vida.

Essa mistura de povos, raças e etnias deu origem a um povo diferente, composto
por uma mistura de culturas, o que não torna o país dividido. O país Brasil continua
a ser um só, com a presença desses diversos povos e culturas. O país é o território
delimitado geograficamente que possui certa organização político-administrativa que
o rege, ao qual chamamos de Estado. O país Brasil é organizado pelo Estado brasileiro,
máquina administrativa composta pelos corpos executivo, legislativo e judiciário, que
regulamentam as ações políticas, econômicas e sociais realizadas no país Brasil.

No entanto, esse país e esse Estado não funcionam se não houver um povo que se
sinta a ele integrado, que se denomine brasileiro por sentir-se representado em termos
políticos, econômicos, sociais e, além de tudo, culturais. Para que haja essa integração
é necessária a construção da Nação. O conceito de Nação refere-se a um grupo de
indivíduos que ocupam um mesmo território e, em razão disso, possuem vínculos
socioeconômicos e políticos e, principalmente, uma identidade comum.

Em um mesmo território pode haver mais que uma nação. Por exemplo, podemos
dizer que no Brasil há também a nação indígena, com suas diversas etnias. Contudo,
em nosso caso, há uma nação maior, que procura reunir o conjunto de culturas e
nações que vivem no território brasileiro.

Mas o que permite essa reunião e define a identidade comum? Podemos dizer que
a identidade de uma nação pode ser atribuída pela origem comum existente entre os
indivíduos. O fato de partilharem um mesmo território pode levá-los a construir uma
história comum, seja por essa origem, seja pelos fatos históricos que marcam suas vidas
e que os fazem construir um conjunto de sentimentos, ideias e costumes comuns. É
possível então falar que essa identidade comum é a conformação de uma unidade
moral incorporada pelos indivíduos que, mesmo diferentes, possuem costumes, ideais
e hábitos similares, construindo um passado, um presente e um futuro comuns.

A esse sentimento que advém dessa identidade, que faz o indivíduo sentir-se parte
de um grupo e de sua história, podemos chamar de identidade nacional. A identidade
nacional é constituída por um conjunto de símbolos e tradições que ligam os homens
à nação, entendida em relação não só a seus vínculos socioeconômicos e políticos,
mas também, e principalmente, à cultura e à identidade comum daqueles que dela
fazem parte.

No caso brasileiro, que trataremos melhor nas próximas seções, a identidade


nacional incorporaria os costumes e as tradições dos diversos povos e culturas que

190 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

formam o povo brasileiro. Sentir-se povo brasileiro seria sentir-se parte dessa mistura
e identificar-se com símbolos partilhados por todos. No entanto, no Brasil, como
o fim da escravidão foi tardio e a cultura indígena foi pouco incorporada à cultura
brasileira, a identidade nacional acabou sendo erigida sobre padrões europeus e
alguns símbolos tiveram de ser criados para unificar a nação brasileira. A bandeira
brasileira e o hino nacional são símbolos nacionais que têm por objetivo “produzir”
uma identidade nacional quase inexistente. Eles seguem a lógica apresentada por
Hobsbawm e Ranger (1984, p. 10) em A invenção das tradições. Para os autores, em
alguns momentos é preciso criar algumas tradições para “inculcar certos valores e
normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente,
uma continuidade em relação ao passado”.

Reflita
Uma característica bastante comum do povo brasileiro é o “jeitinho
brasileiro”. Podemos dizer que o “jeitinho brasileiro” faz parte da identidade
nacional? Se você respondeu que sim, está certo. O “jeitinho brasileiro”
não se refere apenas à forma como tratamos a coisa pública, utilizando
de nossos privilégios sociais para termos acesso a determinadas partes do
Estado. A isso podemos dar o nome também de patrimonialismo, cujo
principal fundamento está na apropriação da coisa pública para interesses
privados. O “jeitinho brasileiro” está relacionado à constante característica
do povo brasileiro de conseguir fazer seus arranjos, de conseguir
ultrapassar difíceis obstáculos para atingir suas metas. Em muitos casos, o
uso do QI, o famoso "quem indica", ou da “carteirada”, faz-se necessário
para alcançar os objetivos. Isso é muito comum para transpor obstáculos
com a burocracia, como na documentação de uma obra, por exemplo.
Dessa forma, o “jeitinho brasileiro” se “entranhou” nas ações do brasileiro
e passou a constituir-se como característica da identidade nacional. Essa
característica pode ser superada? De que forma?

Pesquise mais
Para saber mais sobre a construção da identidade nacional brasileira, leia:

SCHARWCZ, Lilia Katri Moritz. Complexo de Zé Carioca: notas sobre uma


identidade mestiça e malandra. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São
Paulo, v. 10, n. 29, out. 1995. Disponível em: <http://www.anpocs.org.br/
portal/publicacoes/rbcs_00_29/rbcs29_03>. Acesso em: 15 mar. 2016.

Dessa forma, é possível perceber que, no caso brasileiro, a presença massiva dos
portugueses, a quase inexistência da população indígena – que foi paulatinamente

Sociedade, exclusão e direitos humanos 191


U4

sendo exterminada pelos portugueses e ficou restrita a suas terras, cada vez menores
dada a expansão exploratória portuguesa –, e a baixa incorporação dos negros à
sociedade, que ficaram relegados aos postos inferiores na estrutura ocupacional e
na estrutura social brasileira, constituíram uma identidade nacional que precisou ser
inventada e que pouco, ou nada, incorporou das culturas que aqui se enraizaram.

Dessa forma, o Brasil construiu uma cultura centrada nos valores europeus, para
qual a célebre expressão de Roberto Schwartz, as ideias fora do lugar, é bastante
representativa. No Brasil, o que acontece na Europa é mais importante do que o que
acontece nos países vizinhos. E isso ocorre em todos os setores: seja na moda, seja
na economia, seja na ciência. Somos um país virado para o mar e de costas para a
América Latina, em todos os sentidos. Mesmo sendo um país à margem em termos
econômicos, somos etnocêntricos em termos culturais e sociais.

Esse etnocentrismo não é expresso apenas pela valorização dos padrões culturais
e sociais dos países ocidentais. Ele também é observado na afirmação das diferenças,
mas em caráter negativo. O etnocentrismo refere-se à afirmação da diferença entre
raças ou etnias, no sentido de considerar uma melhor do que a outra, razão pela qual
o comportamento, o hábito e o costume de outras etnias são vistos como inferiores
ou mesmo absurdos.

Esse tipo de comportamento ainda é bastante visto no Brasil, com a intolerância


racial e religiosa, e nos leva a questionar quanto o Brasil, que propaga em seu discurso
ser um país amistoso e multicultural, realmente o é.

Dessa forma, para entendermos o que é o Brasil, é preciso compreender a formação


da população brasileira, a construção dos valores por ela propagados e a influência da
cultura nas relações sociais e na constituição da nação brasileira e sua identidade.

Vocabulário
Etnia: etnia é um elemento cultural. Podemos dividir as raças em branca,
negra, indígena, amarela. Essa divisão pouco nos diz sobre a cultura de
cada uma delas. Por exemplo, vejamos a raça indígena. Dentro da raça
indígena existem inúmeros troncos étnicos, que definem as relações
entre homens e mulheres, as atribuições de trabalho e os cuidados da
casa, as hierarquias políticas e até mesmo a linguagem. No Brasil existem
atualmente 150 troncos linguísticos indígenas, sendo os dois principais o
tronco Tupi e o tronco Marco-Jê.

Raça: o conceito de raça refere-se a características biológicas, que


marcam os indivíduos, como a cor da pele, o tipo de cabelo, o formato do
corpo. A antropologia biológica caracteriza os povos antigos pela análise
de materiais biológicos, como formato do crânio, tamanho dos ossos,

192 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

entre outros. A antropologia cultural dirá que raça não é apenas definida
biologicamente, mas também socialmente, pelo lugar que lhe cabe na
sociedade e pelas diferenças estabelecidas socialmente em relação aos
fatores biológicos apresentados pela raça.

Sem medo de errar

Vamos agora retomar a nossa situação-problema: Ali, imigrante sírio que está há
pouco tempo no Brasil, está tentando adaptar-se ao País, procurando conhecer a
cultura brasileira e a forma como a sociedade brasileira funciona. No entanto, o curto
tempo em que Ali está no Brasil já o fez colocar algumas questões: a cultura teria um
papel importante na construção das diferenças existentes na sociedade brasileira? Em
que medida a cultura influencia os sujeitos em suas ações cotidianas? E, diante disso,
é possível dizer que o Brasil é um país multicultural ou caracteriza-se por posturas
etnocêntricas?

Atenção!
Não esqueça que o Brasil foi um país formado por diversas raças e
culturas e que essa mistura constituiu um povo diferenciado. Contudo,
a segregação da população negra e o quase extermínio da população
indígena acarretaram a constituição de uma identidade nacional pautada
fortemente nos valores europeus.

Para responder as perguntas de Ali, é preciso lembrar como as questões de natureza


e cultura são importantes para afirmar ideias e estabelecer diferenças. A interpretação
do mundo pelo fator da natureza pode acarretar a perpetuação de determinadas
desigualdades, as quais podem ter fundamento em fatores sociais ou econômicos.

Assim, é preciso pensar como natureza e cultura têm influência em alguns


comportamentos existentes no Brasil os quais sustentam e reforçam desigualdades
e segregações. Nesse sentido, é preciso verificar de que forma natureza e cultura
constroem o pensamento do senso comum e orientam as ações cotidianas das
pessoas. Conforme vimos, o etnocentrismo impede que as culturas se misturem
e ainda afirma as diferenças, propondo uma “hierarquização” das culturas. Partindo
dessa perspectiva, é possível pensar se o Brasil é mesmo um país multicultural e em
que medida natureza e cultura influenciam a compreensão que o brasileiro tem sobre
as culturas que aqui existem e a maneira como elas se relacionam.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 193


U4

Lembre-se

Lembre-se da diferença entre raça e etnia, conforme se expôs no


vocabulário da seção. Lembre-se também dos textos indicados, os quais
podem ajudar você a entender melhor as perguntas colocadas por Ali e
respondê-las.

Avançando na prática

Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que podem ser encontradas no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois as compare com
as de seus colegas.

“A tribo é o mundo”
Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamento de
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
área
explicação da realidade social.
Verificar a relação existente entre cultura e nação e o
2. Objetivos de aprendizagem reconhecimento desses elementos para a construção da
identidade nacional.
3. Conteúdos relacionados Cultura, nação e identidade nacional.
Daniel é um índio pertencente ao tronco Munduruku. Daniel
foi aprovado na universidade pública por meio das cotas para
negros e indígenas. Desde que ele entrou na universidade,
muitos colegas o tem questionado sobre a sua cultura, como
ela é e se ele se sente brasileiro ou se se considera apenas
indígena.
4. Descrição da SP
Essas questões levaram Daniel a pensar o que é ser índio no
Brasil. Ser índio no Brasil é fazer parte de uma nação diferente?
A nação indígena faz ou não parte da nação brasileira? Quais
elementos são necessários para que Daniel identifique-se
como brasileiro, ou seja, para que ele possa reconhecer-se
brasileiro?
Daniel faz parte de uma cultura específica: a cultura indígena.
Ele foi criado e socializado nessa cultura, apreendendo os
códigos, símbolos, tradições e costumes dessa cultura. A terra
na qual Daniel morava antes de ingressar na universidade
pertence ao seu grupo indígena. Contudo, mesmo tendo
sido os índios os primeiros habitantes dessa terra, as terras
5. Resolução da SP indígenas foram reconhecidas e regulamentadas pelo Estado
brasileiro por meio da Funai (Fundação Nacional do Índio).
Nesse sentido, as terras indígenas também fazem parte do
Brasil. Dessa forma, apesar de a cultura de Daniel ser diferente
da cultura brasileira como um todo, ela faz parte também
desta cultura. A cultura indígena é uma das várias culturas que
se misturam e constituem a nação brasileira.

194 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

A nação brasileira tem por fundamento a existência de um


grupo de indivíduos que vivem em um mesmo território e
possuem vínculos socioeconômicos e culturais, constituindo
uma mesma identidade.
Essa identidade é atribuída pela história comum de que todos
compartilham. Apesar de Daniel ter sido socializado em
códigos diferentes dos de seus colegas, que sempre viveram
no Brasil urbano, ele e seus colegas possuem uma história em
comum. Todos vivem no mesmo território, o Brasil, e partilham
da mesma história, a história do Brasil, e de suas condições
sociais, políticas e econômicas. Essas condições permitem a
Daniel e seus colegas construírem códigos comuns a partir da
união de suas culturas e do reconhecimento da presença dos
diferentes códigos culturais em uma história comum.

Lembre-se

País, Estado e Nação são conceitos diferentes. País é o território no qual


o Estado, a organização político-administrativa, exerce seu poder. Em um
país pode haver diferentes nações. Contudo, busca-se unificar um país
pela nação a partir da construção da identidade nacional.

Faça você mesmo


Convido você a refletir sobre a identidade nacional. Observe as suas ações
cotidianas e verifique de que forma a cultura nelas interfere e quanto elas
são recorrentes não apenas em sua vida, mas na vida de boa parte dos
brasileiros. Essas ações auxiliam na construção de uma história comum?
Essas ações permitem reconhecer-se como parte de um grupo maior?

Faça valer a pena

1. “O __________ é o território delimitado geograficamente que possui


certa __________ político-administrativa que o rege, a que chamamos
de __________.”

Escolha a alternativa que contém a sequência correta de termos que


preenchem as lacunas da sentença anterior:
a) Estado, organização, país.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 195


U4

b) País, organização, Estado.


c) País, cultura, Estado.
d) Estado, cultura, país.
e) País, cultura, nação.

2. Quais desses fatores fazem parte da definição de Nação?

I – Identidade comum.
II – Vínculos socioeconômicos.
III – Mesmo território.
IV – Mesma organização político-administrativa.

Assinale a alternativa que apresenta os itens corretos.

a) I e II, apenas.
b) II, III e IV, apenas.
c) I, II e III, apenas.
d) I e III, apenas.
e) I, II, III e IV.

3. Assinale a alternativa que contém um símbolo nacional brasileiro.


a) Bandeira Nacional.
b) Samba.
c) Feijoada.
d) Malandragem.
e) Exército.

196 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

Seção 4.2

O papel das populações negra e indígena na


construção da identidade nacional

Diálogo aberto

Olá! Na seção passada você viu a história de Ali, imigrante sírio, e sua tentativa de
adaptação ao Brasil. Para entender melhor o nosso país, Ali foi buscar compreender a
influência da cultura na construção da identidade nacional. Mas algumas coisas ainda
não ficaram claras para ele. Afinal, que povos são esses que formaram o Brasil e qual
contribuição eles tiveram para a formação da nação e da identidade nacional?

Para entendermos melhor a formação do povo brasileiro, convido você a


embarcar na história de Andreia. Ela tem 20 anos e é estudante de Ciências Sociais
na Universidade de São Paulo. Ela cursa o 1º ano da faculdade e entrou por meio das
cotas sociais. Ela é negra e é a primeira pessoa da sua família a cursar a universidade.
Sua mãe trabalha como empregada doméstica e seu pai como motorista de ônibus.
Ambos possuem apenas o ensino fundamental, mas sempre incentivaram seus filhos
a estudarem. Andreia mora em Guaianazes, um bairro localizado na Zona Leste da
cidade de São Paulo. Ela demora 2 horas para chegar à universidade e precisa pegar
dois trens e um ônibus. Mesmo com essas dificuldades, Andreia não desiste do seu
sonho de ter um diploma de ensino superior.

Andreia estudou em escolas públicas e sempre soube que possuía diferenças


em relação a tantas outras pessoas não apenas em sua vida material, mas em sua
vida social. Contudo, ela nunca entendeu muito de onde vinham essas diferenças.
Ela começou o curso de Ciências Sociais e logo na primeira semana foi apresentada
à formação do povo brasileiro e confrontada com algumas questões sobre a sua
origem e identidade, tais como: “o que forma o povo brasileiro?”, “qual é a influência
das diversas culturas que formam esse povo na identidade do brasileiro?”; “é possível,
a partir da mistura de raças que formam o povo brasileiro, existir democracia racial?”.

Para ajudá-la a responder essas questões, vamos falar sobre a formação do povo
brasileiro com base no encontro das três raças (branco, negro e indígena) e sobre
a contribuição de cada uma destas na construção da identidade nacional brasileira.
Para isso, vamos recuperar o debate sobre natureza e cultura e a sua importância na

Sociedade, exclusão e direitos humanos 197


U4

formação do sentimento de nação e na identidade nacional. A esse debate aliaremos


a discussão sobre o mito da democracia racial e sua colaboração no desenvolvimento
da imagem do Brasil como um “país sem preconceitos”.

O objetivo é que você chegue ao final desta seção entendendo a origem do povo
brasileiro e aquilo que faz você, Andreia e cada um dos cidadãos brasileiros sentirem-
se brasileiros e entenderem-se como um só povo.

Não pode faltar

O que é ser brasileiro? O que nos define enquanto povo? Essa é uma pergunta
que todos nós fazemos, uma vez que, ao olharmos uns para os outros, verificamos
quanto somos diferentes entre nós. Há pessoas loiras de olhos claros, há pessoas
negras de olhos claros, há pessoas caboclas, com seus cabelos escorridos e seus olhos
levemente puxados. Há gente com sotaque caipira, gente com sotaque “arretado” e
aqueles que falam um “orra, meu” ao final de cada frase. Somos um país imenso, de
dimensões continentais, povoado por pessoas que têm biótipos diferentes, que falam
de forma diferente, mas que se sentem parte de um único país.

Esse sentimento, como vimos na seção anterior, pode ser chamado de identidade
nacional. Ele é que dá o sentido a esse povo tão diverso. Mas de onde surgiu esse povo
ao qual podemos chamar de brasileiro? Qual é a sua origem? Como ele se formou?
Por que se representa por uma população diferente em termos de suas características
biológicas, mas, principalmente, culturais?

Lemos constantemente nos livros de história que o Brasil foi descoberto. Os livros
relatam que em 22 de abril de 1500 a esquadra de Pedro Álvares Cabral aportou
em terras brasileiras, tornando este local conhecido do mundo. Mas quando os
portugueses aqui chegaram já havia um povo habitando estas terras. Um povo bonito,
que Pero Vaz de Caminha, em sua carta escrita em 1º de maio de 1500, caracterizou
como “pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes” (SILVA, 2010,
p. 27). Assim, podemos dizer que, no lugar de falarmos em descobrimento, podemos
falar em “achamento”. O Brasil foi achado, uma vez que aqui já existia um povo
avermelhado, de cabelos escorridos e que povoava esta terra com sua caça e coleta.

Os indígenas ocupavam boa parte do território hoje chamado Brasil. As terras


mais adentro do país já estavam na mira dos portugueses e foram objeto de acordo
entre Portugal e Espanha no Tratado de Tordesilhas no tocante a seu domínio e
sua exploração. No entanto, o povoamento português, em um primeiro momento,
ficou restrito à costa, na qual os colonos portugueses foram se instalando e criando
as capitanias hereditárias. As capitanias foram a forma de administração encontrada
pelo governo português para colonizar o Brasil. As terras daqui, respeitado o Tratado
de Tordesilhas, foram divididas e destinadas a donatários, portugueses vindos para

198 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

cá que podiam transmitir as terras dadas a eles pelo rei de Portugal para seus filhos,
configurando assim a hereditariedade da terra. E foi assim que Portugal foi “tomando
conta” do Brasil.

Assimile
O Tratado de Tordesilhas foi um acordo realizado entre Portugal e
Espanha que limitou o domínio dos dois países nas terras americanas. Ele
foi assinado antes mesmo da descoberta do Brasil, em 1494, a fim de
dividir as terras já encontradas e aquelas que viriam a ser encontradas. O
Tratado de Tordesilhas tem origem na Bula Papal de Alexandre VI, assinada
em 1493.

Figura 4.1 | Mapa do Brasil feito em 1534 por Gaspar Viegas

Fonte: <http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart376284/cart376284.jpg>. Acesso em: 31 mar.


2016.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 199


U4

Essa convivência entre os dois povos não foi pacífica, uma vez que os portugueses
aqui chegaram para dominar esta terra, colonizá-la e torná-la território lusitano,
produtor de matérias-primas para a metrópole. A terra fértil, na qual plantando tudo
dá, foi logo descoberta. Depois do saqueio do pau-brasil, as terras brasileiras foram
tomadas pela cana de açúcar, que, para efetivamente render, deveria ser plantada em
larga escala, o que levou a um questionamento: quem trabalharia nessas terras? O
português chegava aqui para tornar-se explorador e não trabalhador. E aqueles que
chegavam aqui por outras razões, como os criminosos deportados, também não
queriam submeter-se à dura realidade do trabalho agrícola.

Restava, então, transformar em trabalhadores agrícolas os índios, que aqui já


residiam e trabalhavam em suas terras, cuidavam de suas caças e também faziam seus
artesanatos, cultuavam seus deuses e cuidavam de suas famílias.

Um dos grandes objetivos da Companhia de Jesus, missão católica comandada


por jesuítas que ficou conhecida pela atuação de José de Anchieta, foi catequizar
os índios, convertendo-os ao catolicismo e tornando-os partícipes dessa sociedade
portuguesa transplantada, de forma torta, para o Brasil. Contudo, a participação dos
índios restringia-se à sua atuação na plantação e nada mais.

Acostumados à vida livre, ao ordenamento social regido pela tribo, os índios não
se adaptaram à ideia do trabalho na lavoura, que vinha acompanhado de uma rígida
disciplina capitalista e do trabalho constante sem trocas econômicas, em regime de
escravidão. Dizimados em um primeiro momento pelas inúmeras doenças trazidas
pelos portugueses após meses no mar, eles foram paulatinamente sendo mortos por
sua resistência à escravidão.

Nesse sentido, era preciso pensar em como explorar efetivamente essa terra
fértil, tirando dela aquilo que ela tinha de melhor, até esgotá-la. A escravidão negra
entra então para suprir a “falta” de mão de obra nas lavouras brasileiras. Estimulados
pelo tráfico negreiro ativo desde antes do descobrimento do Brasil, os portugueses
introduziram um novo povo nessa terra, contribuindo para a formação do povo
brasileiro. “Surgimos da confluência, do entrechoque e do caldeamento do invasor
português com índios silvícolas e campineiros e com negros africanos, uns e outros
aliciados como escravos” (RIBEIRO, 1995, p. 19).

Essa é a origem do nosso povo. Formado pela intersecção desses três povos, o
povo brasileiro surge como um povo novo. “Novo porque surge como uma etnia
nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente
mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de
traços culturais delas oriundos”. (RIBEIRO, 1995, p. 19).

As três matrizes dão origem a algo diverso, nunca antes visto no mundo, e fazem
com que o povo que aqui habitará pela continuidade da história seja diverso e
heterogêneo, social e culturalmente. Essa diversidade vem do que cada um desses

200 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

povos nos legou, seja em nossos traços físicos, em nossos traços culturais, seja em
nossa organização social. Somos o que somos por conta dessa origem. Mas, afinal, o
que efetivamente somos?

Somos um povo surgido dessas três matrizes e carregamos em nossos corpos,


em nossos gestos, em nossos símbolos e em nossa maneira de se relacionar com o
mundo o legado deles. Por exemplo, você já pensou por que os brasileiros gostam
tanto do pôr do sol? Talvez sejamos o povo que mais gosta desse momento e que
até chega a cultuá-lo. Os indígenas sempre gostaram do pôr do sol, ou melhor, têm o
sol como um Deus. Na América espanhola, o Deus-Sol fazia parte da mitologia inca.
Até hoje é possível encontrar referências ao Deus-Sol nos países onde incas e astecas
viveram.

E na América portuguesa não foi diferente. Nós admiramos imensamente a força


da natureza: seja dos rios e dos mares, seja do sol e da lua. Somos guiados por ela,
com ela nos envolvemos, a ela erguemos nossos cultos. Iara, a mãe dos rios, era
uma índia forte e a ela nos remetemos sempre que pensamos na beleza das águas
dos rios e na força que estas têm para nos curar de tantos males. Quem nunca deu a
alguém a sugestão de tomar um banho de cachoeira para tirar o mau-olhado ou para
recarregar as energias? Essa é uma parte da cultura indígena que nos foi transmitida e
que compõe a cultura brasileira.

A cultura indígena também deixou a sua marca em nossa língua. Apesar de o


português ter se tornado a língua dominante, doravante por sua imposição por meio
da catequese e do extermínio indígena, temos em nosso vocabulário diversas palavras
dos troncos linguísticos indígenas. Além dos nomes próprios – crescem os Cauãs,
Cauês, as Iaras, Janaínas –, cidades como Araraquara – “morada do Sol” em tupi – ou
praias como a do Iporanga não nos deixam esquecer que somos herdeiros desse
povo que lutou para não ser escravizado e que deixou em nós o gosto pelo belo, pela
natureza e o respeito pela mãe terra.

Há também quem diga que herdamos a indolência dos indígenas. Há também


quem diga que a indolência é herança do negro. O que sabemos é que a indolência,
aquela preguiça, aquela vontade de preferir a ida à praia à ida ao trabalho, não é
característica do nosso povo. O povo brasileiro é trabalhador, ou como caracterizou
Jessé Souza (2010), um batalhador. E aí, tanto indígenas como negros, contribuíram
ferozmente para essa marca de nosso povo.

Os negros vieram para estas terras efetivamente para trabalhar. Nela aportaram na
condição de mão de obra escrava – modelo que durou mais de 300 anos. Trouxeram
consigo a sua religião, à qual se agarravam em momentos de sofrimento e dor, quando
perdiam seus filhos pela fome ou um ente querido pelo trabalho extenuado na lavoura.

As religiões africanas são um dos traços mais marcantes da cultura africana em


nosso povo. Apesar de em números sermos um país predominantemente católico

Sociedade, exclusão e direitos humanos 201


U4

e evangélico, muitos brasileiros agradecem a Oxalá pelo bom dia ou pedem força e
coragem a Ogum em uma tomada de decisão importante. O sincretismo religioso
brasileiro legou até um ditado popular: “o brasileiro vai à missa no domingo e bate
bumbo na gira de umbanda na sexta”.

Associam-se também à religião os cânticos e as lendas africanas, que se


traduziram em nossos diversos ritmos, em especial o samba, e num dos esportes mais
característicos do Brasil, a capoeira. Os africanos, assim, enraizaram-se fortemente
em nosso povo e deixaram uma herança importante para a construção dessa nova
população.

Esse novo povo, bonito, como sempre fala Darcy Ribeiro (1995), é forte pela
natureza de resistência das suas matrizes africanas e indígenas, mas também é dado
aos pequenos expedientes, à corrupção diária, ao famoso "jeitinho brasileiro", traço
herdado da cultura dos portugueses que para cá vieram. Boa parte deles era formada
de criminosos ou pessoas dadas a pequenas contravenções para a sobrevivência, cuja
missão era adentrar em terras brasileiras e expandir o domínio português por locais
ainda não povoados. O objetivo então era explorar e saquear. Dessa forma, aqueles
que aqui chegavam vinham não para colonizar efetivamente e criar um lugar para
viver, mas para retirar o máximo que pudessem destas terras e deixá-la ao léu.

Isso mudou com a necessidade de a Coroa Portuguesa ter uma nova sede diante
das invasões napoleônicas. Foi só a partir de 1808, com a chegada da família real ao
Brasil, que se desenvolveram efetivamente uma economia brasileira e um conjunto
de instituições, como bancos, hospitais e escolas, até então quase inexistentes. Os
portugueses assim também nos legaram a nossa formação administrativa, que já vinha
com os vícios da coroa, aqui perpetuados.

Dessa forma, esse povo brasileiro foi sendo formado com traços dessas diversas
culturas, que nos legaram uma língua conhecida porém com palavras distintas,
formas de culto religioso próximas às do colonizador, mas que foram adaptadas pelas
influências indígena e africana, além de uma maneira de lidar com aquilo que é público
e coletivo de forma privada.

Exemplificando
As comidas brasileiras sofreram também forte influência das diversas
matrizes culturais que formaram o nosso povo. Por exemplo: utilizamos
o milho e a mandioca, alimentos muito usados pelos índios, como parte
da nossa dieta, ingeridos in natura ou em forma de farinha, em bolos e
pães. O mesmo pode ser dito da comida portuguesa, que deixou seus
traços no uso intensivo de ovos, nos grandes cozidos, como a feijoada e a
dobradinha, e nos peixes saborosos que tanto gostamos de ingerir.

202 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

Você pode conhecer um pouco mais sobre essa marca tão característica
da culinária (e da cultura) brasileira ao conferir um artigo que discute a
origem da feijoada:

MACIEL, Maria Eunice. Uma cozinha à brasileira. Estudos Históricos,


Rio de Janeiro, n. 33, jan.-jun. 2004, p. 25-39. Disponível em: <http://
bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2217/1356>. Acesso
em: 8 dez. 2016.

Faça você mesmo


Como visto no item “Exemplificando”, há na nossa alimentação bastante
influência das heranças culturais deixadas pelos portugueses, indígenas e
africanos. Podemos dizer então que a comida é um elemento constituinte
da identidade nacional? Faça uma pequena pesquisa na internet e
identifique quais comidas e alimentos são característicos do Brasil.

A alimentação representa a síntese da cultura de um povo e mostra a suas


diversas raízes e a forma como elas foram incorporadas ao modo de vida
daquele povo, tornando-se símbolo de sua cultura. É o caso da feijoada,
conhecida internacionalmente como a comida brasileira. O mesmo
acontece com o arroz e o feijão e os deliciosos bolos de mandioca e fubá.

Tudo isso, associado à mestiçagem, característica do povo brasileiro em


decorrência da própria expansão da dominação portuguesa (FREYRE, 2003), nos fez
crer que somos um povo único, único em suas características e único em sua unidade.
Acreditamos não haver diferenças entre nós diante da mestiçagem e do sincretismo, o
que atribuiu a ideia de o Brasil ser um país no qual a democracia racial existe.

Reflita
Segundo o Censo Demográfico do IBGE para o ano de 2010, mais de
50% da população brasileira declarou-se negra ou parda. Esses dados
demonstram a forte influência dos povos africanos e indígenas na
formação do povo brasileiro. Contudo, mesmo no século XXI, essa
população ainda tem boa parte dos direitos negados. É o que acontece
em termos do acesso ao trabalho. Segundo o mesmo Censo, os negros
e pardos, apesar de serem em maior quantidade na população brasileira,
têm menor participação nos empregos com carteira assinada e na
condição de empregadores, sendo-lhes destinados os locais do mercado
de trabalho reservados à economia informal.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 203


U4

Inúmeros estudos realizados por sociólogos brasileiros e estrangeiros – com


destaque para Brancos e Pretos na Bahia, de Donald Pierson – ressaltam que no
Brasil não existe discriminação racial, vivendo brancos e negros “harmoniosamente”.
O preconceito aqui seria de classe, legando aos mais pobres a razão dos problemas
brasileiros. Contudo, estudos posteriores, em especial aqueles financiados pela
Unesco (Organização das Nações Unidas para a educação, a Ciência e a Cultura) na
década de 1950, desconstruíram o mito da democracia racial. Mostraram os traços das
culturas africana, indígena e portuguesa na cultura brasileira, mas evidenciaram que há
entre os brasileiros um desprezo àquilo que vem dos negros, em especial em razão
de sua cor. Contudo, ainda continuamos negando que sejamos preconceituosos
e discriminadores. Continuamos proclamando que somos um único povo, sem
diferenças, unidos sob o signo da unidade nacional!

Pesquise mais
Para saber mais sobre o mito da democracia racial, leia o seguinte artigo:

SILVA, Alexandre Rocha da; VALLE, Julio César Augusto do. O mérito
e o mito da democracia racial: Tópicos de uma discussão. Revista
Internacional de Educación para la Justicia Social, v. 3, n. 2, p. 235-250,
2014. Disponível em: <http://www.rinace.net/riejs/numeros/vol3-num2/
art12.pdf>. Acesso em: 1 dez. 2015.

Como diria Darcy Ribeiro (1995, p. 24):

A façanha que representou o processo de fusão racial e cultural


é negada, desse modo, no nível aparentemente mais fluido
das relações sociais, opondo à unidade de um denominador
cultural comum, com que se identifica um povo de 160
milhões de habitantes, a dilaceração desse mesmo povo por
uma estratificação classista de nítido colorido racial e do tipo
mais cruamente desigualitário que se possa conceber.
O espantoso é que os brasileiros, orgulhosos de sua tão
proclamada, como falsa, "democracia racial", raramente
percebem os profundos abismos que aqui separam os estratos
sociais.
[...] O povo-massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como
um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada
por Deus, à qual tudo é consentido e concedido. Inclusive
o dom de serem, às vezes, dadivosos, mas sempre frios e
perversos e, invariavelmente, imprevisíveis.

204 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

Nessa toada, há parte do povo brasileiro que acredita não haver preconceito de
nenhuma ordem no Brasil. Não há preconceito de cor e muito menos de classe. Para
essas pessoas todos são livres e têm as mesmas oportunidades de construir a sua vida,
basta querer. Para essa parte da população, se você estudar e trabalhar bastante, você
conseguirá atingir os lugares ocupados pelos ricos, pela elite econômica e pela elite
intelectual. A meritocracia é a base desse pensamento.

No entanto, essa parcela da sociedade brasileira esquece que, em decorrência da


existência das diferenças de cor e classe, existe desigualdade no acesso a recursos
como educação, que permitem aos membros das classes mais altas estudarem nas
melhores escolas e dedicarem todo seu tempo livre ao estudo e aprimoramento de
habilidades como falar um idioma estrangeiro, conseguindo então as melhores vagas
nas universidades e os melhores empregos. Os membros das classes baixas, por sua
vez, estudam nas escolas públicas, com qualidade inferior, e dividem seu tempo entre
o estudo e trabalho, muitas vezes trabalhando o dia inteiro para pagar a universidade,
cursada no período noturno, na qual eles batalham para prestar atenção nas aulas
diante do cansaço que toma conta de seu corpo.

E assim continuamos nossa caminhada, lutando para nos afirmar como únicos,
com parte da população lutando pela afirmação das diferenças, enquanto outra
nega a existência dessas diferenças. Ao mesmo tempo acirram-se preconceitos e
discriminações. Mas isso é assunto para outra aula...

Vocabulário
Mito da Democracia Racial: é a crença de que não há racismo. O mito
da democracia racial desenvolveu-se fortemente no Brasil, com a crença
de que o fator racial não gera diferença nas pessoas, não havendo
discriminação racial. Assim, acredita-se que raça não é fator de exclusão
social na educação e no trabalho, por exemplo, sendo a classe social o
fundamento da discriminação e das dificuldades de acesso a determinados
bens econômicos e culturais.

Sincretismo religioso: é a combinação de diversos elementos religiosos,


com o objetivo de criar maior identificação dos sujeitos a uma dada
religião. A Umbanda é uma das religiões mais sincréticas do Brasil.
Conhecida como religião afro-brasileira, ela cultua os orixás africanos,
porém suas representações físicas são feitas por santos da Igreja Católica.
Nesse sentido, Ogum, por exemplo, é São Jorge; Iansã, Santa Bárbara; e
Oxalá, Jesus Cristo.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 205


U4

Sem medo de errar

Vamos agora voltar à nossa situação-problema com a história de Andreia, estudante


de Ciências Sociais. Ela é negra e mora em uma região afastada do centro na cidade
de São Paulo. Ela sempre percebeu que era diferente de outras pessoas em termos
materiais, por ser filha de membros da classe trabalhadora, mas também em sua vida
social. Ao iniciar o curso, Andreia foi convidada a compreender suas origens, saber de
onde vinha e o que compunha a sua identidade racial e social.

Como vimos, a origem do povo brasileiro é heterogênea. Trata-se de um povo


formado por três principais matrizes raciais – o negro, o branco e o índio – que nos
legaram traços distintos no corpo, na cultura e na sociedade. Podemos, por isso, dizer
que a identidade racial brasileira é diversa, dadas essas matrizes e a forma como elas
foram sendo incorporadas à cultura brasileira. No entanto, devemos lembrar que a
relação entre as três raças não era harmoniosa, pois a incorporação do negro e do
índio à cultura brasileira foi feita de maneira subalterna, seja pela escravidão, seja pelo
genocídio.

Lembre-se

Não se esqueça de que o Brasil é conhecido por ser o país no qual a


“democracia racial” deu certo. Esse mito esconde boa parte de preconceito
e discriminação existentes em nosso país. Volte ao conteúdo do item
“Não pode faltar” para entender melhor a democracia racial e leia os textos
indicados anteriormente.

Andreia, como exposto anteriormente, reconhece-se como negra e sabe que essa
condição lhe lega acessos diferentes, seja à educação, seja ao emprego. Dessa forma,
ela começou a pensar sobre a sua identidade de brasileira e sobre a forma como a
herança africana lhe dá oportunidades diferentes em sua vida. Assim, Andreia procurou
entender a origem de sua família e qual é a participação da matriz africana em sua vida
e na sua identidade, discutindo a sua identidade racial a partir das seguintes questões:
“o que forma o povo brasileiro?”; “qual a influência das diversas culturas que formam
esse povo na identidade do brasileiro?”; “é possível, a partir da mistura de raças que
formam o povo brasileiro, existir democracia racial?”.

Dessa forma, cabe entender qual é a participação de cada uma das matrizes
na formação do povo brasileiro e da identidade nacional e como essa mistura de
raças e culturas resulta não em uma convivência harmoniosa, como quer o mito da
democracia racial, mas em preconceito e discriminação, como as práticas que legam
às pessoas de raças e classes acessos diferenciados à educação, por exemplo.

206 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

Atenção!
A matriz africana é extremamente forte em termos da cultura no Brasil.
Contudo, a sua condição anterior de escravos atribui aos negros uma
posição social diferenciada na estrutura social brasileira.

Lembre-se de que a identidade nacional brasileira foi construída como


uma tradição inventada, já na República, com a constituição dos símbolos
nacionais e, a partir da década de 1930, com a incorporação de elementos
culturais que seriam “característicos” da nossa identidade, como o samba,
os quais foram utilizados para criar uma unidade nacional.

Avançando na prática

Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que podem ser encontradas no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com
as de seus colegas.

“O mito da democracia racial: um olhar sobre o trabalho doméstico no Brasil”


Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamento de
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
área
explicação da realidade social.
1. Elaborar, de forma sintética, o que é o povo brasileiro.
2. Exemplificar a influência das diversas culturas na construção
2. Objetivos de aprendizagem da identidade nacional.
3. Discutir, a partir da noção de etnocentrismo, o mito da
democracia racial.
3. Conteúdos relacionados Formação do povo brasileiro, democracia racial.
Ana é empregada doméstica na casa da família Bueno. Ana é
negra e trabalha há 20 anos na casa da mencionada família,
que é branca e de classe média alta. Ela dorme no emprego
e tem folga uma vez na semana, quando visita os familiares
que moram na cidade. Ana não tem registro em carteira, mas
não liga, pois considera que os Bueno a tratam como gente
da família. Ela não pode fazer suas refeições à mesa com a
família, razão pela qual as faz na cozinha, embora receba
4. Descrição da SP
presentes dos membros da família. Ana também ajudou a
criar os filhos dos Bueno e considera-se alguém igual a eles,
embora com acesso menor a alguns bens.
Analise a condição de Ana e discorra sobre em quais pontos
da relação entre Ana e a família Bueno são evidenciados
problemas decorrentes de sua cor e condição socioeconômica
inferior e quais elementos ratificam a discriminação e a
existência de um mito da democracia racial.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 207


U4

A condição de trabalho de Ana é de empregada doméstica. Ela


não tem acesso aos direitos trabalhistas, pois a família Bueno
não “assinou a sua carteira”. Ela vive na casa dos patrões e só
tem folga uma vez por semana.
Parece que pouco mudou em relação à situação encontrada
mais de cem anos atrás nas senzalas do Brasil. Era comum
encontrar muitas mulheres negras que viviam na Casa-
Grande com os senhores, cuidavam dos filhos deles, faziam
destes quase seus filhos, mas que à noite voltavam para a
senzala para ficar entre os seus.
A situação de Ana é bem parecida com a de seus ancestrais.
Contudo, por conviver com a família, Ana sente-se parte
dessa família, pois se considera tratada como tal. É aqui que
5. Resolução da SP
se evidencia a o mito da democracia racial. O dominado
sente-se como parte da família e a família sente que não há
discriminação por essa convivência estreita com Ana, que
mora na casa, cuida dos filhos e é tratada como “alguém da
família”.
No entanto, o fato de Ana não poder fazer suas refeições
junto com a família e de terem lhe negado os seus direitos
básicos de trabalhadora evidencia as condições legadas a ela
por sua cor e seu status social, derivadas da incorporação do
negro em nossa sociedade.
Dessa forma, o mito da democracia racial se desconstrói,
mesmo havendo, pelos dois lados, um “consentimento” sobre
a inexistência da discriminação racial.

Lembre-se

Lembre-se de que o Brasil é um povo heterogêneo, mas que a participação


dos portugueses na formação do povo brasileiro foi feita a partir da
dominação de terras e dos corpos, por meio da mestiçagem. Isso leva a
um entendimento de um povo miscigenado, no qual não há diferenças
ou em que estas são vistas de forma similar entre todos e por isso há uma
convivência harmoniosa.

Para ver mais sobre como essa dominação afeta o povo negro, veja estudo
do Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos (Dieese), O
Emprego Doméstico no Brasil, que aponta que as mulheres negras são a
maioria das trabalhadores domésticas.

DEPARTAMENTO Intersindical de Estudos Socioeconômicos. O Emprego


Doméstico no Brasil. Estudos e Pesquisas. São Paulo, n. 68, ago.
2013. Disponível em: <http://www.dieese.org.br/estudosetorial/2013/
estPesq68empregoDomestico.pdf>. Acesso em: 1 dez. 2015.

Faça você mesmo


Com base na SP de Ana, faça uma reflexão sobre as diversas situações nas

208 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

quais você já se confrontou com o mito da democracia racial. Quantas


vezes você já percebeu situações de discriminação travestidas de relações
“cordiais”? Faça essa listagem e diga em quais pontos essas situações
podem ser consideradas próprias do mito da democracia racial.

Faça valer a pena

1. Para Darcy Ribeiro (1995), o povo brasileiro é novo por:


a) Ser composto de uma etnia.
b) Ter uma cultura sincrética e singularizada.
c) Ser composto de uma única matriz racial.
d) Ser composto pela sobreposição de culturas.
e) Ser marcado fortemente por uma cultura.

2. “O mito da democracia ________ desenvolveu-se fortemente no


Brasil, a partir da crença de que o fator racial não gera _________, não
havendo _________ racial.”

Assinale a alternativa cuja sequência de termos preenche corretamente as


lacunas da sentença anterior:
a) Social, hierarquias, discriminação.
b) Racial, hierarquias, preconceito.
c) Racial, diferenças, preconceito.
d) Social, diferenças, preconceito.
e) Racial, diferença, discriminação.

3. Leia os itens seguintes e verifique qual (ou quais) deles corresponde(m)


a fatores que reforçam o mito da democracia racial:

I. O sincretismo religioso.
II. A mistura da culinária.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 209


U4

III. O jeitinho brasileiro.


IV. A apropriação da língua.
V. A mestiçagem.

É correto o conteúdo:

a) do item III, somente.


b) dos itens II e IV, somente.
c) dos itens I, II e V, somente.
d) do item a V, somente.
e) dos itens IV e V, somente.

210 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

Seção 4.3

Preconceito e discriminação da população negra


e indígena e outros segmentos marginalizados

Diálogo aberto

Nas seções anteriores você acompanhou duas histórias, a de Ali e a de Andreia. Na


primeira, Ali procurou entender o papel da cultura na formação da identidade nacional,
a fim de compreender a relação dos brasileiros com outros povos. Na segunda seção,
com o entendimento da relação entre natureza e cultura, Andreia buscou saber qual
era a sua origem a partir do entendimento da formação do povo brasileiro. Para
auxiliar Andreia, vimos, na formação do povo brasileiro, a contribuição das três raças –
negra, branca e indígena – e também a influência das três culturas – negra, europeia e
indígena da América do Sul – na construção desse povo e de sua identidade. Ao final,
compreendemos que, apesar de construirmos um povo novo, de matrizes diversas
não sobrepostas mas conjugadas, o que nos levaria a uma comunhão de raças e
culturas, construímos uma identidade nacional atrelada a símbolos inventados, que
conforma preconceitos e discriminações em relação a raças, etnias e também a
gênero e gerações.

Para entender melhor como se operam o preconceito e a discriminação que


discutimos ao final da Seção 4.2, esta seção da unidade fará uma reflexão sobre tais
atitudes e comportamentos em relação a raça, gênero, classe, entre outros segmentos,
trabalhando o preconceito como negação dos direitos a esses sujeitos. Como forma
de combate a esses preconceitos e discriminações, também serão apresentados e
discutidos os movimentos de resistência empreendidos por tais grupos.

Para ajudá-lo nesse percurso, retomaremos a história de Andreia. Como vimos na


seção anterior, Andreia é mulher e negra. Nasceu em uma família de classe baixa e
mora em um bairro periférico da cidade de São Paulo. Aos 20 anos, Andreia está na
universidade, mas teve que batalhar muito para chegar lá, inclusive contra a morte.
Ela viu inúmeros colegas serem mortos ou presos em sua adolescência e início de
juventude. A grande maioria era negra e pobre, como ela. Agora, na universidade,
Andreia tem refletido sobre a sua vida e sobre os fatos que viveu, entre eles a morte e
a prisão de seus colegas. A partir dessas reflexões, Andreia levantou algumas questões:
“por quais razões o preconceito e a discriminação são maiores em relação a negros,

Sociedade, exclusão e direitos humanos 211


U4

mulheres, pobres e pessoas que, de alguma forma, diferenciam-se daquilo que pode
ser considerado um ‘padrão’?”; “seria o preconceito e a discriminação uma forma de
negação de direitos a esses sujeitos ‘diferentes’?”; e “como resistir a esse preconceito e
a essa discriminação?”; “existem grupos de apoio ou movimentos políticos e sociais?”.

A partir dessas questões, Andreia procurará entender melhor como preconceito e


discriminação se expressam e agem em nossa sociedade, com vistas a combatê-los
e ter acesso aos direitos cabíveis a todos os indivíduos, independentemente de cor,
sexo ou classe social.

Não pode faltar


Para ajudar Andreia a refletir sobre os pontos abordados na SP, precisamos começar
pela definição e diferenciação entre preconceito e discriminação. É comum que essas
palavras sejam utilizadas com o mesmo significado.

Preconceito refere-se a uma atitude dos indivíduos. Ele não expressa efetivamente
uma ação, mas um pensamento, uma valoração sobre algo. Émile Durkheim, sociólogo
francês, dizia que os pré-conceitos são as valorações que os sujeitos constroem sobre
a sociedade a partir de sua relação com ela. Um exemplo são os estereótipos. Eles
são construções sociais que nos permitem reduzir o esforço de reconhecimento dos
papéis sociais. Contudo, a constituição dos estereótipos é feita a partir dos valores
que imputamos a um papel social. Os estereótipos tornam-se assim valorações e
julgamentos dos diversos tipos sociais. Construímos, por exemplo, o papel social
da mulher como pessoa amável, feminina, frágil, cuidadora, reprodutora da família.
Esse papel é resultado da forma como a sociedade vê a mulher e constitui uma
preconcepção do papel da mulher na sociedade. Contudo, é sabido que as mulheres
possuem muitas outras características. Elas são fortes, trabalhadoras, guerreiras. Dessa
forma, essa preconcepção sobre a mulher, quando reproduzida socialmente, pode
ser entendida como preconceito.

Quando esse preconceito sai do plano da valoração, da forma de entender os papéis


sociais, e parte para o plano da ação, ele se torna discriminação. A discriminação é um
comportamento dos indivíduos baseado em preconceitos. Retomemos o exemplo da
mulher. De um lado temos essa preconcepção sobre o papel social da mulher, que a
coloca como frágil e dependente do homem para garantir seu sustento. Do outro lado
temos ações que reproduzem esse papel e impedem as mulheres de transpor essa
barreira colocada por esse seu papel social, mantendo-as em posições subalternas no
mercado de trabalho, em profissões consideradas femininas, as quais pagam menores
salários, estabelecendo-se como responsáveis pelo trabalho doméstico e de cuidado
com os membros da família. Às vezes tais ações extrapolam as barreiras sociais e
colocam em perigo a própria vida da mulher, como em atos de violência contra a

212 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

mulher capitaneados pela ideia de ela ser a cuidadora da família e o homem ser aquele
que trabalha e garante a sobrevivência da mulher e da família, razão pela qual ele, em
muitos casos, considera-se dono da mulher. Esse tipo de discriminação é chamado
de machismo.

Pesquise mais
Para entender mais sobre a violência contra a mulher veja os dados
presentes no Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil.

WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência 2015: Homicídio de


Mulheres no Brasil. Brasília, DF: ONU, OPAS/MS, SPM/PR, FLACSO,
2015. Disponível em: <http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/
MapaViolencia_2015_mulheres.pdf>. Acesso em: 6 jan. 2016.

Dessa forma, entendemos que preconceito está no plano do pensado e a


discriminação está no plano da prática. Ambos são construções que a sociedade
faz e são transmitidos nos diversos espaços de socialização nos quais convivemos
cotidianamente: na família, na escola, no trabalho, nos grupos de amigos, na igreja.
Eles resultam daquilo que a sociedade considera como padrão, como “normalidade”
para ela, e que faz com que, ao olharmos para sociedade, atuemos a partir dessa
concepção padrão. Ou seja, na perspectiva da relação natureza e cultura vista na
Seção 1 desta unidade, podemos dizer que preconceitos e discriminações fazem parte
da cultura da sociedade; contudo, há aqueles que são “naturalizados”, utilizando-se,
como vimos na referida seção, de discursos de origem “natural” para reforçar padrões
culturais. Os fatores geradores do preconceito e da discriminação podem ter origem
econômica – preconceito entre pessoas de classes diferentes – ou social – como no
caso da discriminação com as mulheres e pessoas de outras raças e etnias. Dessa
forma, é possível, na sociedade brasileira, identificar vários grupos sociais vítimas de
preconceito e discriminação. Vejamos.

Como o exemplo dado anteriormente, a mulher sofre preconceito em relação


ao papel social construído para ela, que a coloca em condição de submissão em
relação ao homem, à família e à própria sociedade. Durante séculos a mulher não
pôde participar de inúmeras atividades da sociedade, incluindo a vida política. No Brasil,
apenas em 1932 a mulher pôde votar com restrições. Somente em 1934 todas as
mulheres, independentemente de sua condição marital ou de renda, puderam exercer
o direito ao voto. Ações como essa demonstram a separação retratada por Roberto
DaMatta (1997) em seu texto sobre a casa e a rua. A rua, espaço público, destinado
ao trabalho e às discussões políticas, era o universo masculino, habitado por homens,
do qual apenas estes poderiam fazer parte. A casa, espaço privado, era o lugar do
cuidado, da família e, por isso, o lugar das mulheres que as chefiavam e cuidavam da
família, do marido e do trabalho doméstico. Essa divisão social colocou os homens

Sociedade, exclusão e direitos humanos 213


U4

em posição de destaque e relegou as mulheres a posições secundárias na sociedade.

O mesmo pode ser dito em relação às classes sociais. O preconceito de classe


é uma realidade no Brasil. Como vimos nas seções anteriores, o Brasil foi formado
pela colonização portuguesa, que buscou escravizar o indígena e trouxe, para
substituir essa mão de obra, o negro como força de trabalho compulsória. A abolição
da escravatura, em 1888, colocou um contingente grande de negros na nascente
sociedade de classes – segundo dados do Ministério da Agricultura da época, em 1887
havia 723.419 escravos no Brasil (MARINGONI, 2011) –, sem estabelecer formas de
integrá-lo ao trabalho e, muito menos, a essa sociedade. A classe dos abastados já
estava composta pela elite branca europeia que havia aportado aqui. Dessa forma, a
estrutura social brasileira foi sendo, após a abolição, paulatinamente transformada em
uma estrutura de classes com uma pequena classe abastada, predominantemente
branca e de origem europeia, e uma enorme quantidade de pessoas nas classes mais
baixas, formadas predominantemente por negros libertos ou filhos de negros libertos.

Essa composição da estrutura social deu origem a preconceitos e discriminações


em relação a essas classes mais baixas, compostas fortemente por negros e
mestiços, reforçando o mito da democracia racial. Se aquilo que motiva a atitude
ou o comportamento é a posição de classe e não as questões raciais, haveria um
preconceito de classe e não de cor. Esse foi um argumento muito usado por sociólogos
nos anos 1930 e 1940, como Donald Pierson em Brancos e Pretos na Bahia (1971), mas
que posteriormente foi refutado inclusive por orientandos de Pierson, como Virgínia
Leone Bicudo que, em sua tese de mestrado, Atitudes Raciais de Pretos e Mulatos
em São Paulo (2010), verificou que a cor da pele era um elemento discriminador,
independentemente da posição de classe dos indivíduos, sendo o preconceito então
de raça e não de classe. Contudo, dada essa combinação, é possível dizer que no
Brasil há tanto a discriminação de cor/raça como de classe.

Pesquise mais
Para entender mais as raízes do preconceito racial no Brasil e como ele
se expressa em nossa sociedade, leia o clássico artigo de Oracy Nogueira.

NOGUEIRA, Oracy. Preconceito racial de marca e preconceito racial de


origem: sugestão de um quadro de referência para a interpretação do
material sobre relações raciais no Brasil. Tempo social, São Paulo, v. 19,
n. 1, p. 287-308, jun. 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S0103-20702007000100015&lng=pt&nrm=i
so>. Acesso em: 06 jan. 2016.

Além desses grupos, há outros que sofrem com o preconceito e a discriminação na


sociedade brasileira. Entre eles podemos incluir as pessoas com deficiência e o público
LGBT. As pessoas com deficiência são historicamente segregadas nas sociedades

214 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

ocidentais. No Brasil não foi diferente. Elas foram excluídas das escolas e do mundo do
trabalho. Viveram décadas sob a sombra das famílias, muitas envergonhadas de mostrar
os filhos que nasciam fora da “normalidade”. Contudo, boa parte dessas pessoas que
portam em seu corpo ou em sua forma de entender o mundo algo de diferente possui
as mesmas capacidades de qualquer ser humano. E, assim, paulatinamente elas foram
inseridas nas escolas e no mundo do trabalho. Mas não sem luta.

Reflita
Segundo Censo Demográfico de 2010, das 86,4 milhões de pessoas
empregadas no Brasil na época, 23,6% tinham algum tipo de deficiência.
Pelo mesmo Censo, também é possível notar o aumento no nível de
escolaridade das pessoas com deficiência, o que as permite competir
no mercado de trabalho em termos de escolaridade e qualificação
profissional. Contudo, como mostram os dados, a participação desse
público no mercado de trabalho ainda é pequena.

Como vimos, durante décadas as pessoas com deficiência foram excluídas


da escola e do trabalho, em razão de não se encaixarem em um padrão
de “normalidade”.

Analise os números aqui apresentados e os argumentos que


fundamentaram durante décadas o preconceito e a discriminação em
relação às pessoas com deficiência e explique se há ou não correlação
entre esses dois assuntos e por quais motivos.

Para ajudá-lo, veja também notícias, vídeos e outras publicações no


Espaço da Cidadania. Disponível em: <http://www.ecidadania.org.br/>.
Acesso em: 6 jan. 2016.

O mesmo acontece com o público LGBT. Assumir uma orientação sexual diferente
do padrão de normalidade é assumir-se diferente em uma sociedade padronizada.
Durante décadas, a homossexualidade foi tratada como doença, chegando a figurar
na Classificação Internacional de Doenças (CID), com o título de homossexualismo.
Apenas em 1990 a Organização Mundial de Saúde retirou o homossexualismo da CID,
compreendendo a homossexualidade como uma orientação dos indivíduos e como
uma forma de gerir o seu próprio corpo.

No entanto, esses avanços obtidos pelo público LGBT, assim como pelas pessoas
com deficiência, negros e mulheres, não foram dados de “mão beijada”. Eles são
resultados das lutas empreendidas pelos movimentos sociais que representam esses
grupos. Esses movimentos lutam não para que sejam dados direitos a esses grupos,
mas para que eles possam ter acesso aos direitos que lhes são negados.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 215


U4

Afinal, o artigo 5º da Constituição Federal de 1988 garante a igualdade de direitos


a todos os brasileiros.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de


qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade,
nos termos seguintes:
I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações,
nos termos desta Constituição;
[....]
VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença
religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as
invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e
recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;
[...]
X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a
imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo
dano material ou moral decorrente de sua violação;
[...]
XLII - a prática do racismo constitui crime inafiançável e
imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei;

A Constituição Federal contou com a participação desses movimentos sociais,


que se organizaram não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, pelos direitos das
mulheres, dos negros, do público LGBT, das pessoas com deficiência, dos imigrantes,
entre outros.

Esses movimentos ressaltam o fundamento social e econômico, de origem cultural


e não natural, que boa parte dos preconceitos e discriminações em relação a esses
grupos possuía. Afinal de contas, ao reafirmar a posição de submissão e subalternidade
das mulheres, elas são mantidas fora do mercado de trabalho, e a concorrência entre
os homens nesse mercado é menor, permitindo-os alcançar postos de destaque. A
mesma coisa ocorre em relação aos negros. A presença desse grupo no mercado de
trabalho reduz a participação da população branca, ainda mais em um mercado de
trabalho como o brasileiro, no qual o emprego formal, em que são garantidos todos
os direitos do trabalho, é responsável apenas por pouco mais de 50% dos empregos
disponíveis.

216 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

Paulatinamente esses grupos ganharam força e conseguiram impor suas pautas,


possibilitando a quebra de algumas barreiras via legislação ou políticas de ação
afirmativa. Mas esse é assunto para outra seção. O que importa é que os movimentos
sociais são importantes agentes na luta pelos direitos dos grupos sociais marginalizados,
buscando garantir a eles um lugar de protagonismo nessa sociedade.

Pesquise mais
Para conhecer melhor o trabalho desses movimentos, acesse os links de
alguns grupos e veja o trabalho por eles realizado.

GELEDES – Instituto da Mulher Negra (site). Disponível em: <http://www.


geledes.org.br/>. Acesso em: 15 mar. 2016.

Marcha Mundial das Mulheres (site). Disponível em <http://www.


marchamundialdasmulheres.org.br/>. Acesso em: 15 mar. 2016.

Parada do Orgulho LGBT (site). Disponível em: <http://www.paradasp.org.


br/>. Acesso em: 15 mar. 2016.

Para finalizar, vale reforçar aqui que o preconceito e a discriminação são


mecanismos para manutenção de privilégios sociais para determinados grupos e
negação de direitos a tantos outros. Contudo, esses grupos marginalizados, quando
organizados politicamente, conseguem romper algumas barreiras sociais impostas
pelos grupos dominantes e avançar em sua participação na sociedade.

Assimile
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da
população ocupada em empregos formais em 2010, 58,2% era formada
por homens e 41,8%, por mulheres. Quando visto pelo recorte de raça,
55,3% era formada por brancos e 44,7%, por não brancos (pretos e pardos).
Tais dados demonstram que, mesmo com avanços dos movimentos
sociais, a manutenção das desigualdades de gênero e raça persiste na
sociedade brasileira.

Exemplificando
Na concorrência para uma vaga para o cargo de Gerente de Negócios de
uma empresa multinacional, há um homem branco, uma mulher branca
e um homem com deficiência motora – que se locomove por meio de

Sociedade, exclusão e direitos humanos 217


U4

cadeira de rodas. Todos têm a escolaridade exigida para a vaga – curso


superior completo em Administração de Empresas. Contudo, a mulher
branca possui um MBA em Gestão de Negócios e o rapaz com deficiência
motora possui inglês em nível avançado, com certificado emitido pelo
TOEFL. Todos possuem a média de idade de 30 anos. Todos passam pela
entrevista e a vaga de emprego fica para o homem branco. Por quais
razões essa vaga fica com o homem branco, sendo ele o que possuía
menos atributos para ocupar o cargo?

É importante lembrar que muitas empresas ainda mantêm a prática de


não contratarem mulheres em idade reprodutiva, o que é um fator de
discriminação, assim como de não contratarem deficientes além do que
impõe a Lei de Cotas, que geralmente não é nem cumprida. Nesse caso,
ainda se mantém a ideia de que a redução da motricidade, assim como
da audição ou da visão, por exemplo, impede a pessoa de exercer uma
atividade que independe de suas capacidades físicas. Dessa forma, é
possível dizer que o preconceito em relação a mulheres e pessoas com
deficiências foi marcante na decisão da vaga de emprego.

Faça você mesmo


Tomando o exemplo anterior, leia a história a seguir:

“Com gêmeos recém-nascidos e as mamadas programadas para cada três


horas, o cálculo era exato: Cláudia Zapparolli tinha 40 minutos de pausa
entre uma amamentação e outra. E era esse tempinho que a executiva
da Samsung aproveitava para ler os e-mails corporativos e receber
telefonemas profissionais. [....]”

A história de Cláudia é um exemplo da realidade de muitas executivas


diante da maternidade. Ocupantes de cargos estratégicos, essas mulheres
acabam não se ausentando do trabalho, mesmo que não estejam
fisicamente no escritório. Um cenário mais possível com as tecnologias,
as conferências telefônicas e as reuniões por Skype.

A legislação brasileira estabelece o afastamento mínimo e remunerado de


120 dias, conforme o artigo 392 da Consolidação das Leis do Trabalho,
tempo considerado pequeno por muitas mães, mas exagerado por boa
parte das empresas.

'Pode não parecer, mas a legislação brasileira é muito rígida. E isso, ao


mesmo tempo em que protege a mulher, pode também atrapalhar.
Especialmente quando se trata de cargos de alto escalão', afirma o
consultor Jeffrey Abrahams, que trabalha no recrutamento de executivos”.

218 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

BALMANT, Ocimara. Executivas flexibilizam licença-maternidade. O Estado


de São Paulo, 29. Jul. 2012. Disponível em: <http://www.estadao.com.
br/noticias/geral,executivas-flexibilizam-licenca-maternidade,907555>.
Acesso em: 06 jan. 2016.

Com base nos temas tratados nesta seção, analise a situação de executivas
como Claudia e explique quais são os motivos que as fazem retornar
antes ao trabalho ou mesmo conjugar a licença-maternidade, um direito
garantido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com o trabalho.

Vocabulário
Lei de Cotas: é assim chamada a Lei n. 8.213/1991. A referida lei, em
seu artigo 93, determina o preenchimento de 2% a 5% dos cargos das
empresas com pessoas com deficiência. A porcentagem se modifica
conforme o tamanho da empresa.

Machismo: é o comportamento de um indivíduo que supervaloriza as


características do sexo masculino, impondo a superioridade dos homens
em relação às mulheres e legando a estas posições de subalternidade e
submissão em relação ao sexo masculino.

Sem medo de errar


Como vimos antes, Andreia levantou algumas questões:

• Por quais razões o preconceito e a discriminação são maiores em relação a


negros, mulheres, pobres e pessoas que, de alguma forma, diferenciam-se daquilo
que pode ser considerado um “padrão”?

• Seriam o preconceito e a discriminação uma forma de negação de direitos a


esses sujeitos “diferentes”?

• E como resistir a esse preconceito e a essa discriminação?

• Existem grupos de apoio ou movimentos políticos e sociais?

Estudamos que preconceito e discriminação são diferentes e atuam sobre


determinados grupos sociais, aqueles que estão, de alguma forma, fora do “padrão”
estabelecido socialmente. No Brasil, diante da escravidão negra, que marcou para
sempre a trajetória social dos negros, e a posição de subalternidade atribuída à mulher,
esses grupos, junto com pessoas com deficiência e público LGBT, encontram inúmeras
barreiras para atingir escolaridade avançada, posições superiores no mercado de

Sociedade, exclusão e direitos humanos 219


U4

trabalho e até mesmo sofrem com a violência que é empreendida, seja ela física, seja
simbólica, contra eles.

Lembre-se

Lembre-se de que as mulheres puderam votar apenas a partir da década


de 1930 e ainda com algumas restrições. Retome essa parte do conteúdo
e busque mais informações sobre a posição da mulher na sociedade no
site com as Estatísticas de Gênero IBGE. Estatísticas de Gênero. Disponível
em: <http://www.ibge.gov.br/apps/snig/v1/?loc=0>. Acesso em: 15 mar.
2016.

Tendo esses elementos como ponto de partida, analise os motivos que fazem
com que pessoas com as características de Andreia tenham dificuldades de se
inserir na sociedade, seja na escola, seja no trabalho, seja em outros grupos sociais.
Lembre-se dos casos relatados por Andreia sobre a morte de seus colegas, em grande
maioria negros, e da dificuldade de eles encontrarem emprego. Retome também o
quanto o comportamento discriminador influencia na negação de direitos para esses
grupos sociais e quais são as formas encontradas por eles para resistir e combater o
preconceito e a discriminação e avançar no tocante à garantia de direitos atribuídos a
todos os brasileiros, independentemente de cor, sexo, classe ou religião.

Atenção!
Não se esqueça da formação heterogênea do povo brasileiro e do mito da
democracia racial, que fazem com que algumas dificuldades vividas por
Andreia não sejam entendidas como preconceito em relação à sua cor.
Se preciso, retome os conteúdos da Seção 2 desta unidade e insira essa
reflexão na resolução dessa situação-problema.

Avançando na prática

Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que podem ser encontradas no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com
as de seus colegas.

“Preconceito e Discriminação no Brasil Contemporâneo”


Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamento de
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
área
explicação da realidade social.

220 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

• Distinguir as noções de preconceito e discriminação


• Discutir a discriminação em relação a segmentos
marginalizados a partir das perspectivas racial, sexual, social,
entre outros.
2. Objetivos de aprendizagem
• Refletir e identificar o preconceito e a discriminação como
práticas de negação de direitos aos segmentos marginalizados.
• Discorrer sobre os movimentos sociais e políticos de
resistência e defesa dos direitos dos segmentos marginalizados
3. Conteúdos relacionados Preconceito, discriminação, direitos, democracia racial.
A SP aqui proposta é baseada em fatos reais.
Em março de 2012, Thor Batista, filho do empresário Eike
Batista, atropelou e matou o ajudante de caminhoneiro
Wanderson Pereira dos Santos. Sua pena por homicídio
culposo (quando não há intenção de matar) foi estipulada, em
primeira instância, em prestação de serviços comunitários,
multa de 1 milhão de reais e suspensão do direito de dirigir
por dois anos. Thor entrou com recurso e a pena estipulada
foi revertida em fevereiro de 2015, ficando o réu Thor Batista
absolvido das acusações. Em nenhum momento do processo,
Thor Batista ficou preso.
Em 20 de junho de 2013, Rafael Braga Vieira, morador de
rua, foi preso por portar desinfetante e água sanitária em
uma manifestação. Esses produtos podem ser usados para
a fabricação de bombas caseiras. Rafael Braga ficou privado
de liberdade desde então, com recursos indo ao Supremo
4. Descrição da SP Tribunal Federal e abaixo-assinados feitos por movimentos
sociais. Rafael Braga em nenhum momento respondeu ao
processo em liberdade.
Analise os dois casos e identifique os motivos pelos quais
houve tratamentos diferentes aos dois réus.
Para ajudá-lo, leia as notícias sobre os dois casos:
G1 RIO. Thor Batista é absolvido em caso de morte de
ciclista por atropelamento. G1. 19. Fev. 2015. Disponível em
<http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/02/thor-
batista-e-absolvido-em-caso-de-morte-de-ciclista-por-
atropelamento.html>. Acesso em: 15 mar. 2016.
PINTO, Marcus Vinícius. ‘Esquecido’ em prisão no Rio,
catador afirma estar condenado por engano. Terra. 27. fev.
2014. Disponível em: <http://noticias.terra.com.br/brasil/
policia/esquecido-em-prisao-no-rio-catador-afirma-estar-
condenado-por-engano,d9a9a6c78e274410VgnVCM200000
99cceb0aRCRD.html>. Acesso em: 15 mar. 2016.
Como vimos durante a seção, no Brasil, além do preconceito
de cor, há um forte preconceito de classe. Esse preconceito
nega inúmeros direitos às pessoas das classes mais baixas
e permite às classes mais altas terem acesso a privilégios
sociais. O caso exposto mostra esses privilégios em relação
à justiça, evidenciando a subjetividade da decisão judicial,
5. Resolução da SP
independentemente do crime cometido. Apesar de ter
cometido um crime bem menos grave, que em nenhum
momento resultou em dolo corporal, Rafael Braga foi mantido
preso, ao passo que Thor Batista, mesmo tendo matado
Wanderson ao atropelá-lo, não esteve preso em nenhum
momento do processo.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 221


U4

Lembre-se

Lembre-se de que o preconceito é também uma forma de negação


de direitos, neste caso os direitos básicos garantidos pela Constituição
Federal. Utilize a Constituição como fonte para debater o acesso de todos
os cidadãos aos direitos básicos.

Faça você mesmo


Dados do ano de 2012 publicados pela Unicef mostram que a probabilidade
de jovens negros serem assassinados é 2,96 vezes maior que a dos jovens
brancos, sendo esse risco entre os meninos 11,92 vezes superior ao das
meninas.

Identificando a presença de preconceito racial no Brasil, discuta o quanto


a democracia racial é um mito e dificulta a identificação do elemento
racial como um fator de discriminação na sociedade brasileira.

Faça valer a pena

1. As lutas empreendidas pelos movimentos sociais têm permitido maior


participação dos grupos sociais marginalizados na sociedade, entre os
quais está o das mulheres. Elas estão ocupando mais lugares no mercado
de trabalho. Contudo, a mulher trabalhadora não reduziu seu tempo
dedicado ao trabalho doméstico. Por quê?
I. Porque a mulher gosta de cuidar da casa.
II. Porque os homens também estão trabalhando e não têm tempo para
o trabalho doméstico.
III. Porque, mesmo com esses avanços, mantêm-se algumas estruturas
de desigualdade.

É correto o que se afirma apenas em:


a) I.
b) III.
c) I e II.
d) II e III.
e) a II.

222 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

2. “O artigo 5º da Constituição Federal considera todos ________ e


garante que “a prática do racismo constitui __________ inafiançável e
imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei”. A prática do
racismo pode ser considerada __________.”
Assinale a alternativa que contém a sequência correta de termos que
completam as lacunas da frase anterior:

a) Diferentes, crime, preconceito.


b) Iguais, delito, preconceito.
c) Iguais, crime, discriminação.
d) Diferentes, delito, discriminação.
e) Diferentes, crime, discriminação.

3. Em Atitudes Raciais de Pretos e Mulatos em São Paulo, Virgínia Leone


Bicudo argumenta que:

a) Não há preconceito racial no Brasil.


b) Não há preconceito de classe no Brasil.
c) Há preconceito de classe no Brasil.
d) Não há preconceito de qualquer tipo no Brasil.
e) Há preconceito racial no Brasil.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 223


U4

224 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

Seção 4.4

As políticas afirmativas no brasil no século XXI:


uma tentativa de garantir os direitos humanos
dos povos negros, indígenas e em vulnerabilidade
social

Diálogo aberto

Nas seções desta unidade, discutimos questões referentes à diferenciação dos


indivíduos em termos raciais, de gênero, de classe, de faixa etária, de orientação sexual,
entre outras. Essas diferenciações poderiam gerar diversidade e pluralidade, mas,
como vimos nas seções anteriores, elas têm acarretado desigualdades em relação
ao acesso a direitos e a bens materiais e imateriais. Dessa forma, percebemos que
parte das diferenças aqui listadas, apesar de sua origem natural, ganha aspectos que a
diferenciam e a segregam a partir de questões culturais. É o que vimos na Seção 4.1,
quando discutimos a distinção entre natureza e cultura e sua influência na sociedade,
e na Seção 4.3, quando debatemos preconceito e discriminação.

No entanto, ao final da Seção 4.3, observamos que existem movimentos que


lutam para que a diferença seja um fator não de desigualdade, mas de diversidade
e promoção da igualdade. Esses movimentos buscam, através da luta política, a
implantação de mecanismos que asseguram a inclusão desses grupos vulneráveis e a
caminhada para uma sociedade mais justa e igualitária.

Para entendermos melhor esse debate, vamos retomar a história de Andreia. Como
apresentado nas seções anteriores, Andreia é uma jovem mulher negra, que mora na
periferia e nasceu em uma família pobre. Seu ingresso na universidade foi realizado por
meio das cotas sociais, instrumento voltado para a inclusão de pessoas de baixa renda
nas universidades. Mas o que são as cotas? Elas podem ser consideradas políticas
de ações afirmativas? Que objetivo elas possuem? Como elas são constituídas? Os
movimentos sociais auxiliam na construção dessas políticas? A quais grupos elas se
destinam? Essas políticas podem ajudar no desenvolvimento de uma sociedade mais
justa e menos desigual?

Com base nessas perguntas, vamos discutir as diferentes políticas de ações

Sociedade, exclusão e direitos humanos 225


U4

afirmativas constituídas no Brasil com vistas a combater a discriminação, a segregação


e a desigualdade raciais, sexuais e sociais. O objetivo desta seção é compreender
que, para transpor determinadas barreiras sociais, é necessário criar políticas públicas
específicas, através da ação de movimentos sociais e dos poderes constitucionais.
A partir desse entendimento, você conseguirá entender a situação de Andreia e a
maneira como as cotas sociais – e as de outros tipos – são importantes elementos
para a emancipação de parcelas da população que vivem em situação de segregação
e exclusão social.

Não pode faltar

Como temos visto ao longo desta unidade, as pessoas são diferentes. A diferença
faz parte da natureza humana. Somos diferentes em termos sexuais, ou seja, existem
homens e mulheres; somos diferentes em nossos corpos, com os diferentes tipos
de cabelos, de olhos, de pele; às vezes carregamos em nossos corpos algum tipo
de deficiência, uma perna mais curta do que a outra ou uma dificuldade na visão.
Também somos diferentes socialmente, com ocupações, qualificações e rendas
distintas. A diferença faz parte de nossas vidas!

Toda essa diferença mostra o quanto o ser humano é diverso. No entanto, toda
essa diversidade, infelizmente, não se traduz em algo positivo. A diversidade, na maioria
das sociedades, resulta em situações de discriminação e segregação. Isso acontece
porque, como vimos na Seção 4.3, cria-se, a partir de fatores culturais, um padrão
de “normalidade” nas sociedades. As pessoas, em boa parte aquelas consideradas
autoridades em determinados assuntos, junto com os próprios membros de uma
dada sociedade, constituem o que é ser normal nessa sociedade, ou seja, aquilo que
está dentro da norma socialmente aceita.

Por exemplo, durante muito tempo a homossexualidade foi conhecida como


homossexualismo e foi considerada doença pela Organização Mundial de Saúde
(OMS), tendo sido, como já dissemos, retirada da Classificação Internacional de
Doenças (CID) apenas em 1990. Dessa forma, antes disso, ser homossexual era
considerado anormal, fora do padrão, o que acarretava exclusão desses indivíduos da
sociedade.

Como sabemos, a discriminação aos homossexuais acarretou segregação social


a esse público, que tem dificuldade no acesso ao emprego, sofre bullying na escola,
o que leva muitos homossexuais ao suicídio por não conseguirem conviver com a
repressão social à sua orientação sexual.

O mesmo padrão discriminatório aconteceu com os negros. No caso dos negros, a


discriminação e a segregação foram “justificadas” por pensamentos como o de Arthur

226 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

de Gobineau, como vimos na Seção 4.1, para quem as diferenças sociais entre negros
e brancos estava pautada na “inferioridade biológica do africano” e na necessidade
de civilização a partir do branqueamento e da assimilação da cultura europeia
(RODRIGUES, 2009). No entanto, o fator de exclusão era fundamentalmente social. O
fato de os negros terem chegado a sociedades como o Brasil e os Estados Unidos na
condição de mão de obra escrava legou-lhes uma posição de subalternidade nessas
sociedades e, em casos extremos, de completa segregação. Nos Estados Unidos,
durante décadas, os negros não puderam frequentar os mesmos lugares que os
brancos, havendo, inclusive, banheiros separados para negros e brancos. Apesar de
o negro fazer parte da sociedade de classes, a todo tempo lhe era lembrada a sua
posição nessa sociedade.

As políticas de ações afirmativas mudaram esse quadro, tanto nos Estados Unidos
como no Brasil. Essas políticas surgiram da luta de movimentos engajados na garantia
dos direitos aos públicos excluídos, como o movimento negro. Eles lutam e requerem,
junto às instituições cabíveis, a mudança de leis e a criação de políticas que permitam
a essas parcelas discriminadas da população terem acesso igual a direitos como
educação, saúde, emprego, entre outros.

As políticas afirmativas são consideradas políticas de discriminação positiva, pois


elas buscam afirmar a diferença para produção da igualdade, garantindo a essa parcela
da sociedade o acesso a esses bens materiais e imateriais. Um exemplo de política de
ação afirmativa são as cotas raciais nas universidades. Elas são voltadas para o acesso
das pessoas negras ou indígenas ao ensino superior. Para se beneficiar da política, é
necessário que a pessoa se afirme como negro ou indígena. Dessa forma, apenas
pessoas autoidentificadas como tal podem pleitear uma vaga nas universidades por
meio das cotas raciais. Ou seja, a política não é de acesso universal, mas focalizada em
um determinado público.

Pesquise mais
Para saber mais sobre as políticas de ação afirmativa no ensino superior e
a sua importância para o acesso dos negros a universidade, leia o artigo
indicado a seguir:

LIMA, Marcia. Ações afirmativas e juventude negra no Brasil. Cadernos


Adenauer, XVI (2015), n. 1, Juventudes no Brasil Rio de Janeiro: Fundação
Konrad Adenauer, julho 2015. Disponível em: <http://www.kas.de/wf/
doc/16489-1442-5-30.pdf>. Acesso em: 19 jan. 2016.

Há quem diga que esse tipo de política gera discriminação. E, como observado
anteriormente, gera mesmo, uma vez que ela é destinada apenas a uma parcela da
sociedade. No entanto, essa discriminação é considerada positiva e necessária para
permitir que essa parcela da sociedade, privada de tantos outros direitos, consiga ter

Sociedade, exclusão e direitos humanos 227


U4

o mesmo acesso que a outra parcela, para quem direitos básicos, como o acesso à
educação de qualidade e ao emprego, não foram negados.

Como vimos nas seções anteriores, no caso das questões raciais, os negros foram
privados de acesso aos estratos mais altos da estrutura social em decorrência da
posição que ocuparam no Brasil colonial. O fato de os negros terem trabalhado como
mão de obra escrava e de a abolição da escravidão, em 1888, não ter estabelecido
políticas que os incluíssem na sociedade que se constituía, legou-lhes posições
subalternas nessa sociedade, em decorrência da ausência de renda, de qualificação
profissional, de escolaridade, fatores que não os permitiam competir em igualdade
com o restante da população.

Essa condição foi reproduzida ao longo do tempo, pois o legado de pobreza


acarretou discriminação e a construção de um imaginário de que preto é pobre e pobre
é bandido. Expressões como “lista negra”, “fazer negrices”, entre outras, existentes no
palavreado cotidiano do brasileiro, demonstram a forma como o negro é visto pela
sociedade brasileira.

Assim, para que os negros pudessem ter condições de igualdade com os brancos
em busca de empregos ou mesmo de uma vaga na universidade, foram implantadas
políticas de ações afirmativas, como as cotas raciais nas universidades, as quais
foram consideradas constitucionais pelo Supremo Tribunal Federal brasileiro em
2012. Mas antes disso, em 2010, foi implantado o Estatuto da Igualdade Racial (Lei n.
12.288/2010), que reconhece as políticas de ações afirmativas como forma de garantir
acesso igualitário a educação, cultura, saúde, entre outros direitos básicos as pessoas
de raças diferentes.

Pesquise mais
Para saber mais sobre a constitucionalidade das políticas de ação afirmativa
nas universidades, leia o artigo indicado a seguir:

DUARTE, Allan Coelho. A Constitucionalidade das Políticas de Ações


Afirmativas. Brasília: Núcleo de Estudos e Pesquisas/CONLEG/Senado,
abril/2014 (Texto para Discussão nº 147). Disponível em: <www.senado.
leg.br/estudos>. Acesso em: 19 jan. 2016.

O Estatuto da Igualdade Racial também propugna o cumprimento da Lei n.


11.645/2008, que institui o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena em
todos os níveis de ensino brasileiro, tornando-se obrigatório nos ensinos fundamental
e médio. No entanto, não apenas os negros e indígenas sofrem preconceito e
discriminação no Brasil, como discutimos na Seção 4.3. Há também no Brasil outros
grupos em condição de vulnerabilidade social, em razão de suas diferenças. Entre

228 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

esses grupos estão as mulheres.

As mulheres ainda estão em menor número no mercado de trabalho, e, quando


ocupam postos de trabalhos, em boa parte estes não possuem cobertura previdenciária
e, consequentemente, direitos do trabalho. Segundo dados da Pesquisa Nacional
de Amostra por Domicílios (PNAD) para o ano de 2014, apenas, 31,3% das mulheres
negras com mais de 16 anos ocupadas estão empregadas com carteira assinada. Boa
parte está em empregos domésticos, considerados, junto com os demais serviços de
asseio e conservação, os de posição mais baixa no mercado de trabalho, em razão
de suas condições e do ciclo de reprodução da subserviência herdada do período
escravocrata.

Assimile
O patriarcalismo é um fenômeno ocorrido no Brasil Colônia que deixou
frutos no Brasil contemporâneo. Sua essência está na obediência da
família, agregados e trabalhadores à figura do patriarca, na época, o
senhor de terras. Essa obediência constituía a autoridade do senhor, visto
que era legitimada, correntemente, pela dependência econômica dos
demais grupos.

Com o fim do período colonial e, posteriormente, da escravidão e a


paulatina transformação do Brasil rural em Brasil urbano, o patriarcalismo
foi sendo incorporado às famílias, com a manutenção do homem como
o chefe da família, aquele que trabalha e provém a família, e da mulher
como quem se mantém em casa e cuida desta e dos filhos.

Esse tipo de prática resultou na dominação dos homens sobre as


mulheres, os quais se consideravam “donos” destas. No entanto, a luta
dos movimentos feministas por emancipação das mulheres acarretou
a ocupação do mercado de trabalho pelas mulheres, que, com sua
autonomia financeira, passaram a contestar o patriarcalismo.

No entanto, no Brasil, o patriarcalismo é ainda um fenômeno recorrente,


sendo possível observá-lo nos números referentes à violência contra a
mulher.

O movimento feminista, em suas diversas vertentes, luta para modificar essas


relações. Entre suas variadas pautas, aliada aos movimentos de trabalhadores,
estava a regulamentação do trabalho doméstico no Brasil, cuja mão de obra
é predominantemente feminina. A regulamentação foi aprovada pela Emenda
Constitucional 72, que estendeu direitos como férias, 13º salário e Fundo de Garantia
por Tempo de Serviços (FGTS) a essa categoria de trabalhadores.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 229


U4

Entre outras conquistas do movimento feminista estão a Lei n. 11.340/2006, ou Lei


Maria da Penha, e a Lei 13.104/2015, a Lei do Feminicídio, que classifica o homicídio
contra mulheres “como crime hediondo e com agravantes quando acontece em
situações específicas de vulnerabilidade (gravidez, menor de idade, na presença de
filhos etc.)”. (WAISELFISZ, 2015, p. 7). O objetivo dessas leis é garantir a integridade
física da mulher, reconhecendo a violência contra a mulher como prática recorrente
no Brasil. Segundo o Mapa da Violência 2015 (WAISELFISZ, 2015), em 2013, já com a
vigência da Lei Maria da Penha, foram assassinadas 4.762 mulheres, representando
uma taxa de 4,8 em uma população de 100 mil habitantes. Boa parte desses homicídios
ainda guarda resquícios com a cultura machista herdada do patriarcalismo brasileiro,
que considera a mulher “domínio” do homem.

Exemplificando
Segundo dados da publicação "Síntese de Indicadores Sociais 2015"
do IBGE, a quantidade de horas dedicadas pelas mulheres ao trabalho
doméstico semanalmente caiu de 22,3 para 21,2 horas semanais, no
entanto, em comparação aos homens, a jornada feminina de afazeres
domésticos é maior em 5,0 horas semanais.

Apesar dessa diferença, a publicação mostra que entre 2004 e 2014


aumentou em 5% a participação dos homens na realização de afazeres
domésticos e de cuidados com crianças e idosos.

Referência: IBGE. Síntese de indicadores sociais: uma análise das


condições de vida da população brasileira. Rio de Janeiro: IBGE, 2015.
Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv95011.
pdf>. Acesso em: 19 jan. 2016.

Faça você mesmo


Os dados do IBGE indicam uma ligeira mudança na postura dos homens
em relação à participação no trabalho doméstico e de cuidados com
crianças e idosos no Brasil do século XXI. Quais razões podem ser
elencadas para essa mudança de postura?

As questões de gênero e raça também devem ser pensadas em suas intersecções


com a classe. Classe é um fator de discriminação importante no Brasil. Como vimos
nas seções anteriores, o mito da democracia racial ratificou a permanência de um
imaginário no qual o preconceito de classe era predominante no Brasil. Sua presença
se faz bastante forte, no entanto vem acompanhada dos preconceitos de raça e
gênero.

230 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

O conceito de classe possui inúmeras definições dentro da Sociologia. Karl Marx


e Max Weber, por exemplo, definem-no pelo critério econômico. Para o primeiro,
a classe é definida pela posição do indivíduo nas relações de produção e, para o
segundo, pela sua posição positiva ou negativamente privilegiada no mercado. Autores
contemporâneos, como Pierre Bourdieu, acrescentam outros elementos à definição
de classe. Para Bourdieu, os indivíduos são dotados de capitais impessoais e pessoais,
sendo os primeiros, o capital econômico e o capital cultural, importantes definidores
da posição de classe dos indivíduos (BOURDIEU, 2007).

Pesquise mais
Para conhecer mais a teoria das classes sociais de Pierre Bourdieu, acesse
o artigo indicado.

BOURDIEU, Pierre. Capital simbólico e classes sociais. Novos estudos


- CEBRAP, São Paulo, n. 96, p. 105-115, jul. 2013. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-
33002013000200008&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 19 jan. 2016.

Podemos dizer que, no Brasil, a noção de capitais de Pierre Bourdieu, no qual


renda, ocupação e prestígio social são fatores de diferenciação e indicam a posição
ocupada pelo indivíduo na estrutura social, tornou-se predominante. No Brasil, ainda
guardamos os resquícios da cultura bacharelesca com a denominação de todos os
que ocupam posições de destaque, como diretores de empresas e políticos, além dos
tradicionais médicos e advogados, como doutores, ainda que estes não tenham tal
título. Tais denominações são parte do prestígio social que essas ocupações possuem,
atribuído pela sociedade.

Nesse sentido, vão se definindo as diferenciações sociais que também se tornam


formas de desigualdade. Boa parte desse prestígio é atribuída a pessoas que ocupam
posições que só podem ser atingidas por aqueles que estão em classes superiores,
que por isso tiveram acesso à educação de qualidade, estudaram em universidades de
ponta e puderam estabelecer um círculo de relações sociais (um dos capitais pessoais)
que os possibilita ter acesso aos cargos de destaque e, consequentemente, reproduzir
sua posição de classe.

Aos pobres cabe correr atrás e tentar alcançar tais posições. Alguns diriam que é
só querer que é possível, que um filho de família pobre pode chegar à universidade,
pode ser um doutor. Mas quantos são os filhos de famílias pobres que alcançaram
tais posições? Quantos são os negros vindos dos estratos mais baixos que ocupam
posições de destaque no judiciário, na política e até mesmo na universidade? Podemos
contar nos dedos de uma mão, uma vez que, para chegar a tais postos, lhes faltam os
capitais necessários, que são repassados pelas famílias e cuja ausência reproduz para

Sociedade, exclusão e direitos humanos 231


U4

esses filhos a posição de seus pais na nossa estrutura de classe.

Por isso, também são importantes as políticas de ações afirmativas que visam reduzir
a desigualdade de classes. Políticas como as de transferência de renda, com o objetivo
de criar condições de emancipação com a melhoria das condições de vida, ou as
cotas sociais, que permitem que pessoas de baixa renda possam ter acesso ao ensino
superior, por exemplo, auxiliam na redução dessa desigualdade e na construção de
condições igualitárias de acesso aos direitos e aos capitais impessoais.

Reflita
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/
IBGE), para o ano de 2014, apenas 3,75% das pessoas ocupadas por mais de
10 anos declaram-se empregadores; 60,99% declararam-se empregados.
Enquanto o valor de rendimento médio dos empregados é, segundo a
mesma fonte, de R$ 1.696,00, o dos empregadores chega a R$ 5.194.

Tais dados mostram que há uma pequena parcela da população brasileira


que recebe maior renda do que a maior parte da população, indicando
uma concentração de renda.

Por fim, vale lembrar das políticas afirmativas para pessoas com deficiência. Esse
grupo, cuja condição de vulnerabilidade decorre das diferenças físicas e da “crença” de
determinados grupos de que tais deficiências acarretam em incapacidades intelectuais,
tem dificuldade principalmente no acesso ao emprego. Cresce paulatinamente o
número de pessoas com deficiência que têm ensino superior completo e mesmo
assim não conseguem emprego. Para isso, os movimentos de luta pelos direitos das
pessoas com deficiência conseguiram a garantia da inclusão no mercado de trabalho
pela subseção II da Lei n. 8.213/1991. Segundo a lei, também conhecida como Lei de
Cotas, as empresas devem preencher um percentual de suas vagas com pessoas com
deficiência.

Dessa forma, é possível ver que as políticas de ações afirmativas, como as cotas,
são resultados da luta de movimentos sociais engajados na busca e na garantia dos
direitos de parcelas da população em condição de vulnerabilidade social. Elas também
são importantes instrumentos na garantia dos direitos básicos a esses grupos e na
promoção de uma sociedade mais justa e igualitária, fundamento de uma sociedade
que se pretende ser democrática.

Vocabulário
Cotas: é o nome dado às políticas de ações afirmativas que reservam
parte de vagas em universidades, em concursos públicos ou no mercado
de trabalho a determinados grupos sociais.

232 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

Sem medo de errar

Vamos retomar a situação-problema: falamos sobre a história de Andreia,


uma jovem mulher negra, que mora na periferia e nasceu em uma família pobre e
ingressou na universidade pelas cotas sociais. Mas o que são as cotas? Elas podem ser
consideradas políticas de ações afirmativas? Qual objetivo elas possuem? Como elas
são constituídas? Os movimentos sociais auxiliam na construção dessas políticas? A
quais grupos elas se destinam? Essas políticas podem ajudar no desenvolvimento de
uma sociedade mais justa e menos desigual?

Vimos que as cotas são políticas de ações afirmativas cujo objetivo é promover
a igualdade de condições na garantia de direitos aos públicos em condições de
vulnerabilidade, em razão de preconceito e discriminação. Além das cotas, existem
outras diversas políticas que objetivam a promoção da igualdade a partir da afirmação
das diferenças, assegurando a todos, independentemente de sua raça, cor, idade, sexo,
orientação sexual ou classe, o acesso a direitos básicos, como educação e emprego.

Lembre-se

Lembre-se de que as cotas raciais foram consideradas constitucionais


pelo STF e são propugnadas pelo Estatuto da Igualdade Racial. Consulte o
texto anterior e os textos indicados para saber mais sobre as cotas raciais.
Leia também o Estatuto da Igualdade Racial.

BRASIL. Lei n. 12.288, de 20 de julho de 2010. Disponível em: <http://


www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12288.htm>.
Acesso em: 19 jan. 2016.

Essas políticas, como foi exposto no decorrer da seção, são resultado das
lutas empreendidas por diversos movimentos, como o negro, o feminista e os de
trabalhadores. Dessa forma, percebemos que a igualdade é uma disputa política e,
para ser alcançada, deve contar com o apoio desses movimentos e ser conduzida
coletivamente. Afinal de contas, tais direitos são sociais e não individuais.

Para resolver essa situação-problema, você deve resgatar esses conteúdos


procurando verificar o que são as políticas de ações afirmativas, seus objetivos, a
participação dos movimentos sociais na construção dessas políticas e seus efeitos
nesse contexto de luta por direitos e promoção da igualdade.

Atenção!
Atente também para as cotas sociais, que têm por objetivo a redução da

Sociedade, exclusão e direitos humanos 233


U4

desigualdade de classes. Há universidades que adotam as cotas sociais


no lugar das cotas raciais, tendo como critério para acesso a essa política
a renda familiar.

Avançando na prática

Pratique mais
Instrução
Desafiamos você a praticar o que aprendeu transferindo seus conhecimentos para novas situações
que podem ser encontradas no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com
as de seus colegas.

“ As políticas afirmativas e a luta contra os preconceitos às pessoas com deficiência”


Conhecer as diversas correntes teóricas que explicam
1. Competência de fundamento de
o homem, a vida em sociedade e as diversas formas de
área
explicação da realidade social.
• Compreender o que são políticas de ações afirmativas e
seus objetivos.
• Analisar a importância dos movimentos sociais na luta
2. Objetivos de aprendizagem
política para defesa dos direitos dos grupos vulneráveis.
• Demonstrar como essas políticas auxiliam na promoção de
uma sociedade mais justa e igualitária.
3. Conteúdos relacionados Políticas de ações afirmativas, discriminação.
João tem 25 anos e é deficiente físico. Ele teve paralisia infantil,
doença que afetou suas pernas, dificultando sua locomoção.
Ele sempre precisou utilizar muletas para se locomover, mas,
a partir dos 20 anos, ficou mais difícil sua locomoção, o que
levou João a adotar a cadeira de rodas.
João formou-se em Direito pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro, estando sempre entre os melhores alunos da
turma. Desde a época da graduação, João procurou estágios,
4. Descrição da SP
sem sucesso. Agora, formado, ele procura por uma vaga de
emprego na área de Direito. João ficou em 3º lugar no exame
da Ordem dos Advogados do Brasil no estado do Rio de
Janeiro, mas mesmo assim ele não consegue emprego.
O que João pode fazer para conseguir emprego? Quais
recursos ele pode utilizar? E por quais motivos João, mesmo
tendo um excelente desempenho intelectual, não consegue
emprego?
João sofre com a “crença” dos outros de que as incapacidades
físicas acarretam incapacidades intelectuais, o que gera
discriminação. A isso acrescentam-se outros tipos de
discriminação a que estão sujeitas as pessoas com deficiência
5. Resolução da SP
física, como a falta de acessibilidade e a adaptação dos locais
de trabalho à realidade da pessoa com deficiência. Por isso,
mesmo com excelente desempenho acadêmico e no exame
da Ordem, João não consegue emprego.

234 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

Boa parte ainda advém dessa crença, da discriminação e da


falta de infraestrutura para receber pessoas com deficiência,
haja vista que parte razoável das empresas ainda não adaptou
suas áreas de trabalho para a ocupação de pessoas com
deficiência.
Para que João possa conseguir emprego, ele pode recorrer
aos movimentos de luta dos direitos das pessoas com
deficiência, que podem indicar empresas que empregam
pessoas com deficiência, auxiliando no contato com os
departamentos de recursos humanos. Esses movimentos
também podem verificar se a Lei de Cotas está sendo
cumprida pelas empresas, através de notificação ao Ministério
do Trabalho e Emprego ao Ministério Público do Trabalho e à
Justiça do Trabalho.

Lembre-se

Lembre-se de que a “Lei de Cotas” já existe há um bom tempo e que


existe um percentual de vagas que as empresas devem ocupar com
pessoas com deficiência. Para saber mais e ajudar João na sua busca por
emprego, leia a subseção II da Lei n. 8.213/1991 e o Estatuto da Pessoa
com Deficiência.

BRASIL. Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991. Disponível em <http://www.


planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8213cons.htm>. Acesso em: 19 jan. 2016.

BRASIL. Lei n. 13.146, de 6 de julho de 2015. Disponível em <http://www.


planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13146.htm>. Acesso
em: 10. fev. 2016.

Faça você mesmo


Veja os dados do Censo Demográfico IBGE no site da Secretaria de
Direitos Humanos da Presidência da República.

OLIVEIRA, Luiza Maria Borges; Secretaria de Direitos Humanos da


Presidência da República (SDH/PR). Cartilha do Censo 2010 – Pessoas
com Deficiência. Brasília: SDH-PR/SNPD, 2012. Disponível em: <http://
www.sdh.gov.br/assuntos/pessoa-com-deficiencia/dados-estatisticos/
pesquisas-demograficas>. Acesso em: 19 jan. 2016.

Busque os dados sobre o emprego e a escolaridade das pessoas com


deficiência e veja qual é a diferença entre as pessoas com deficiência e as
pessoas sem deficiência e quais são os tipos de deficiência que possuem
menor inserção no mercado de trabalho.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 235


U4

Faça valer a pena

1. As políticas de ações afirmativas são consideradas políticas de


discriminação positiva e têm por objetivo marcar as diferenças existentes
entre os indivíduos como forma de garantir a sua inserção em determinados
ambientes, como a universidade e o emprego.
Analisando o texto acima, assinale a alternativa que contém a sequência
de termos que completam corretamente as lacunas da frase a seguir:
“As __________ de ações afirmativas têm por objetivo promover a
________ pela afirmação da __________”.

a) Práticas, igualdade, diferença.


b) Políticas, justiça, diferença.
c) Políticas, justiça, igualdade.
d) Políticas, igualdade, diferença.
e) Práticas, justiça, igualdade.

2. Os movimentos sociais são reconhecidamente importantes agentes na


luta pelos direitos dos grupos vulneráveis. Quais outros agentes também
lutam pelas causas desses grupos?
I. Associações de bairro.
II. Partidos políticos.
III. Movimento estudantil.
IV. Comunidades religiosas.

É correto o que se cita em:

a) I, II e III, apenas.
b) III, apenas.
c) I, II e IV, apenas.
d) II, III e IV, apenas.
e) I, II, III, IV.

236 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

3. Existem cotas:
I. Raciais.
II. Para pessoas com deficiência.
III. Por faixa etária.
IV. Sociais.

É correto o que se cita apenas em:


a) I, II e IV.
b) III.
c) I e IV.
d) IV.
e) I e II.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 237


U4

238 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

Referências

BALMANT, Ocimara. Executivas flexibilizam licença-maternidade. O Estado de São Paulo,


29, jul. 2012. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/geral,executivas-
flexibilizam-licenca-maternidade,907555>. Acesso em: 06 jan. 2016
BICUDO, Virginia Leone; MAIO, Marcos Chor (org.). Atitudes raciais de pretos e mulatos
em São Paulo. São Paulo: Sociologia e Política, 2010.
BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto
Alegre: Zouk, 2007.
BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em: 06 jan. 2016.
_____. Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/leis/l8213cons.htm>. Acesso em: 19 jan. 2016.
_____. Lei n. 12.288, de 20 de julho de 2010. Disponível em: <em http://www.planalto.
gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12288.htm.>. Acesso em: 19 jan. 2016.
_____. Lei n. 13.146, de 6 de julho de 2015. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13146.htm>. Acesso em: 10. fev. 2016.
DAMATTA, Roberto. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e a morte no Brasil. 5. ed.
Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
DEPARTAMENTO Intersindical de Estudos Socioeconômicos. O Emprego Doméstico
no Brasil. Estudos e Pesquisas, São Paulo, n. 68, ago. 2013. Disponível em: <http://www.
dieese.org.br/estudosetorial/2013/estPesq68empregoDomestico.pdf>. Acesso em: 1
dez. 2015.
DUARTE, Allan Coelho. A Constitucionalidade das Políticas de Ações Afirmativas. Brasília:
Núcleo de Estudos e Pesquisas/CONLEG/Senado, abril/2014 (Texto para Discussão n.
147). Disponível em: <www.senado.leg.br/estudos>. Acesso em: 19 jan. 2016.
ESPAÇO da Cidadania (site). Disponível em: <http://www.ecidadania.org.br/>. Acesso
em: 15 mar. 2016.
FREIRE, Cristina Cavalcanti. RESENHA: LÉVI-STRAUSS, C. “Raça e História”. In: _______.
Antropologia Estrutural II Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1976, capítulo XVIII, pp
328- 366. Disponível em: <http://revista.ufrr.br/index.php/textosedebates/article/
download/896/738>. Acesso em: 9 mar. 2013.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 239


U4

FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime
da economia patriarcal. 48. ed. São Paulo: Global, 2003.
GELEDES – Instituto da Mulher Negra (site). Disponível em: <http://www.geledes.org.
br/>. Acesso em: 15 mar. 2016.
G1 RIO. Thor Batista é absolvido em caso de morte de ciclista por atropelamento. G1,
19. Fev. 2015. Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/02/thor-
batista-e-absolvido-em-caso-de-morte-de-ciclista-por-atropelamento.html>. Acesso
em: 15 mar. 2016.
IBGE. Estatísticas de Gênero. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/apps/snig/
v1/?loc=0>. Acesso em: 15 mar. 2016.
LOMBROSO, Cesare. As mais recentes descobertas e aplicações da psiquiatria e
antropologia criminal. [s.l.]: [s.n.], 1893.
MACIEL, Maria Eunice. Uma cozinha à brasileira. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n.
33, p. 25-39, jan.-jun. 2004. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/
reh/article/view/2217/1356>. Acesso em: 8 dez. 2016.
MARINGONI, Gilberto. O destino dos negros após Abolição. O destino dos negros após
a Abolição. Desafios do desenvolvimento, ano 8, ed. 70, 29. dez. 2011.
HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (orgs.). A invenção das tradições. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1984.
MARCHA Mundial das Mulheres (site). Disponível em: <http://www.
marchamundialdasmulheres.org.br/>. Acesso em: 15 mar. 2016.
NOGUEIRA, Oracy. Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem: sugestão
de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no
Brasil. Tempo social, São Paulo, v. 19, n. 1, p.287-308, jun. 2007. Disponível em: <http://
www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-20702007000100015&lng=pt
&nrm=iso>. Acesso em: 6 jan. 2016.
PARADA do Orgulho LGBT (site). Disponível em: <http://www.paradasp.org.br/> . Acesso
em: 15 mar. 2016.
PINTO, Marcus Vinícius. ‘Esquecido’ em prisão no Rio, catador afirma estar condenado
por engano. Terra, 27. fev. 2014. Disponível em: <http://noticias.terra.com.br/brasil/
policia/esquecido-em-prisao-no-rio-catador-afirma-estar-condenado-por-engano,d9a9
a6c78e274410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html>. Acesso em: 15 mar. 2016.
PIERSON, Donald. Brancos e Pretos na Bahia. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 1971.
RODRIGUES, Elisa. Raça e controle social no pensamento de Nina Rodrigues. Revista
Múltiplas Leituras, v. 2, n. 2, p. 81-107, jul./dez. 2009. Disponível em: <https://www.
metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/ML/article/viewFile/1269/1284>. Acesso

240 Sociedade, exclusão e direitos humanos


U4

em: 15 mar. 2016.


RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2. ed. São Paulo:
Companhia das Letras, 1995.
SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. 16. ed. São Paulo: Brasiliense, 2006.
SILVA, Alexandre Rocha da; VALLE, Julio César Augusto do. O mérito e o mito da
democracia racial: Tópicos de uma discussão. Revista Internacional de Educación para
la Justicia Social, v. 3, n.2, p. 235-250, 2014. Disponível em: <http://www.rinace.net/riejs/
numeros/vol3-num2/art12.pdf>. Acesso em: 1 dez. 2015.
SILVA, Maria Beatriz Nizza da. A carta-relatório de Pero Vaz de Caminha. Ide (São Paulo),
São Paulo, v. 33, n. 50, jul. 2010. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S0101-31062010000100005&lng=pt&nrm=iso>. Acesso
em: 15 mar. 2016.
SOUZA, Jessé. Os Batalhadores Brasileiros. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
SCHARWCZ, Lilia Katri Moritz. Complexo de Zé Carioca: notas sobre uma identidade
mestiça e malandra. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 10, n. 29,
out. 1995. Disponível em: <http://www.anpocs.org/portal/index.php?option=com_
content&view=article&id=208:rbcs-29&catid=69:rbcs&Itemid=399>. Acesso em: 15
mar. 2016.
WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no
Brasil. Brasília, DF: FLACSO/ONU Mulheres/SPM/OPAS, 2015. Disponível em: <http://
www.spm.gov.br/assuntos/violencia/pesquisas-e-publicacoes/mapaviolencia_2015_
mulheres.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2016.

Sociedade, exclusão e direitos humanos 241


Homem, cultura e
sociedade

Sonelise Auxiliadora Cizoto


Carla Regina Mota Alonso Diéguez
Rosângela de Oliveira Pinto