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GRUPO EDUCACIONAL ITECNE

CURSO DE HISTÓRIA ANTIGA E MEDIEVAL


KEILA FERNANDES BATISTA

DE CONSAGRADA A MERETRIZ: A CONSTRUÇÃO DA IDEIA DE


“PROSTITUIÇÃO SAGRADA” NA NARRATIVA DE TAMAR.

CURITIBA 2018
KEILA FERNANDES BATISTA

DE CONSAGRADA A MERETRIZ: A CONSTRUÇÃO DA IDEIA DE


“PROSTITUIÇÃO SAGRADA” NA NARRATIVA DE TAMAR.

Projeto de Pesquisa apresentado ao Curso de


História Antiga e Medieval do Grupo Educacional
ITECNE como requisito à disciplina Metodologia de
Pesquisa em História solicitado pela Prof. Dr.ª
Liliane Cristina Coelho.
Orientador: Prof. Dr. Moacir Elias Santos

CURITIBA 2018
DE CONSAGRADA A MERETRIZ: A CONSTRUÇÃO DA IDEIA DE
“PROSTITUIÇÃO SAGRADA” NA NARRATIVA DE TAMAR.
Keila Fernandes Batista1

Resumo

No presente artigo, discutiremos como a ideia de prostituição sagrada se fortaleceu


no imaginário da nossa sociedade, tendo como base traduções equivocadas de
relatos da Bíblia Hebraica a partir do relato de Tamar e Judá encontrado em Gênesis
38.

Palavras chave: Pprostituição sagrada. Textos bíblicos. Oriente Próximo. Tradução.


Sacerdotisas.

1 Graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina, pós-graduada em Religiões e


Religiosidades na Universidade Estadual de Londrina e pós-graduanda em História Antiga e Medieval
pelo grupo educacional ITECNE.
Sumário

Introdução .................................................................................................................. 5

1. O que é prostituição sagrada? ............................................................................. 7

2. A Bíblia Hebraica ................................................................................................. 12

2.1 As Mulheres na Bíblia .................................................................................... 14

2.2 A “prostituição sagrada” na Bíblia Hebraica ............................................... 15

2.3 A Questão da Tradução ................................................................................. 19

3 - A Permanência da ideia de “prostituição sagrada” ........................................ 22

Considerações Finais ............................................................................................. 26

BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................ 28

RUETHER, Rosemary Radford (Ed.). Religion and sexism: images of woman in

the Jewish and Christian traditions, Eugene, Wip and Stock Publishers,

1998………………………………………………………………………………………….29
Introdução

Quando estudamos História Antiga, não podemos deixar de lado o olhar


direcionado pelo nosso tempo e contexto. Porém, com distanciamento temporal que
temos do objeto de estudo é possível refletir sobre como a realidade na qual estamos
inseridos influencia na forma como enxergamos o modo de vida dos povos do
passado.
Por muito tempo, os historiadores que trataram das sociedades do Antigo
Oriente Próximo estiveram à mercê de relatos unilaterais redigidos por escritores,
como Heródoto, que traziam para suas narrativas uma visão direcionada pelo seu
ideal de sociedade, cultura e civilização. As narrativas de Heródoto trazem descrições
pormenorizadas do que ele teria presenciado, ou foi informado, que são utilizadas até
o presente como fontes, mas junto a elas existem equívocos e juízos de valor a
respeito de diversas práticas observadas e, consideradas por ele, como estranhas ou
imorais. E foi justamente a partir deste relato que começaram a construir e consolidar
a imagem da “prostituição sagrada” na antiga Mesopotâmia.
Mas não devemos depositar toda essa responsabilidade no historiador grego.
A imagem que temos (e nos esforçaremos para desconstruir) dos povos
mesopotâmicos e canaanitas, foram embasadas também pelos relatos bíblicos. Nos
textos da Bíblia Hebraica, tais povos são descritos como imorais e adoradores de
falsos deuses, algo que se deve ao contexto sociocultural no qual os textos foram
produzidos.
Porém, com um estudo mais aprofundado a respeito do povo hebreu e seus
relatos, é possível perceber que estamos tratando com uma grande diversidade de
textos que foram escritos em períodos e por autores diferentes e que, muitas vezes,
essa imagem pejorativa dos povos, canaanitas e mesopotâmicos, pode não vir dos
autores dos textos bíblicos, mas sim de editores e tradutores tardios.
Com este artigo pretende-se analisar os fragmentos da Bíblia Hebraica que
citam a prática da “prostituição sagrada”, levando em consideração o contexto
histórico e cultural de cada um deles, e se atentando para as questões referentes à
tradução de determinados termos. Assim, com o auxílio dos estudos de gênero,
sobre como estrutura patriarcal da sociedade hebraica, bem como as sociedades
cristãs posteriores, tem um grande peso na sua interpretação do papel da mulher
dentro das práticas religiosas, compreender a grande influência que os textos
bíblicos ainda possuem sobre a nossa cultura e forma de pensar.
1. O que é prostituição sagrada?

Existem relatos da existência de uma prática que ficou conhecida como


“prostituição sagrada” em diferentes culturas da antiguidade: Grécia, Mesopotâmia,
Índia e Canaã. Tais informações chegaram até nós por meio dos textos de Heródoto,
Estrabão e dos escritores da Bíblia Hebraica.
Há, atualmente, diversas discussões envolvendo a dita “prostituição sagrada”
e seu status. Ela realmente existiu como uma prática que aliava uma manifestação
religiosa à prostituição propriamente dita? Ou seria apenas uma forma de culto mal
interpretada pelo olhar estrangeiro?
Antes de respondermos a tais questões é necessário tentar compreender o que
seria “prostituição sagrada” e suas possíveis origens, pois muitos estudiosos tratam
deste assunto sem dar uma definição objetiva a ele, e quando o fazem, essa definição
não serve para o que eles denominam “prostituição sagrada” (WESTENHOLZ, 1989,
p. 262).
A prática da “prostituição sagrada” seria caracterizada como o ato de
comercializar o corpo em nome de uma divindade (geralmente ligada à fertilidade).
Isso ocorreria dentro ou nos arredores do templo da divindade a qual se prestava o
culto, e o sexo seria parte integrante de um ritual. O pagamento seria oferecido ao
templo e/ou à divindade em questão.
A construção da ideia de “prostituição sagrada” surgiu, inicialmente, a partir dos
relatos de Heródoto e da Bíblia Hebraica. Tais textos descrevem rituais ligados às
divindades da fertilidade nas regiões da Babilônia e de Canaã, mas voltaremos a eles
posteriormente. Por muito tempo, a historiografia se utilizou de tais fontes para falar
sobre as práticas religiosas na área do Crescente Fértil, pois, durante um longo
período, tudo o que se sabia das regiões do Antigo Oriente Próximo era o que as
fontes clássicas revelavam.
Somente com as descobertas arqueológicas que trouxeram a luz novas fontes
referentes a região do Iraque, da Síria, do Líbano, de Israel e da Palestina é que
podemos ter acesso à outras informações sobre estas sociedades. No que se refere
à “prostituição sagrada”, as fontes não corroboram com os relatos de Heródoto e
bíblicos. Para a historiadora Gerda Lerner (1986, p. 239), a ideia de “prostituição
sagrada” surge quando os pesquisadores confundem as várias tarefas realizadas nos
templos, inclusive o sexo ritualístico, e a função de sacerdotisas, com prostituição.
Alguns desses autores se utilizam do termo hieródula2 para designar essas mulheres
envolvidas na prática. Porém, tal termo é equivocado, já que se trata de um conceito
grego que não contempla a função das sacerdotisas mesopotâmicas (WESTENHOLZ,
1989, p. 256).
A partir da fala de Lerner é possível perceber que os relatos de Heródoto e as
traduções incorretas e interpretações confusas das fontes orientais contribuem para a
construção da ideia da “prostituição sagrada”. A autora se preocupa em expor as
confusões feitas (como no caso das sacerdotisas confundidas com prostitutas e o sexo
ritualístico como prostituição) e defende que ao longo dos anos, ocorreu nas
comunidades do Crescente Fértil uma mudança na mentalidade que foi se tornando
mais patriarcal (LERNER, 1986 p. 237). Assim, as mulheres que tinham destaque na
vida religiosa tiveram seu espaço reduzido, quando cada vez mais homens ocupavam
os papéis principais nos templos. As sacerdotisas que dirigiam e participavam dos
cultos ligados à fertilidade foram sendo marginalizadas e colocadas na mesma escala
de prostitutas comuns. As prostitutas comuns já circulavam próximas aos templos,
pois era onde havia mais fluxo de pessoas, assim o serviço de sexo ritualístico e a
prostituição comum acabaram por se confundir. Sendo assim, a construção da ideia
de “prostituição sagrada” é, também, uma questão de gênero.
Já Stephanie Lin Budin diz que a “prostituição sagrada” nunca existiu, pois as
definições das fontes são muito abstratas e por isso, ao longo dos séculos, a imagem
da “prostituição sagrada” foi sendo construída pelas fontes clássicas e por seus
leitores. A autora ainda faz uma análise dos termos utilizados nas fontes clássicas e
nas fontes orientais, pois “muitas palavras identificadas como ‘prostituta sagrada’ nos
antigos idiomas do Oriente Próximo (sumério, acadiano, ugarítico e hebraico) têm uma
identificação incerta” (BUDIN, 2008: 5)3. sendo assim, ela conclui que a “prostituição
sagrada” é uma construção literária.
Em uma análise voltada para a estrutura econômica, Gonzalo Rubio diz ser
normal que os rituais nos quais há a prática ou a simulação do ato sexual acabassem
se tornando uma forma mercenária de liturgia que visasse lucros em uma determinada
época. No caso dos rituais hierogâmicos4, isso aconteceu no Primeiro Milênio a.C.

2
Palavra grega que se refere a uma funcionária do templo.
3
Tradução da autora.
4
Do grego ιερός γάμο (hieros gamos): casamento sagrado.
quando, segundo Rubio, a sexualidade deixa de ser considerada sagrada e a
sociedade se torna mais “masculinizada” (RUBIO, 1999, p. 135). Assim, as
sacerdotisas envolvidas em ritos de fertilidade tornam-se uma ameaça pela sua
independência sexual e financeira que desafia o status quo de uma sociedade rígida.
A qědeša5 citada na Bíblia Hebraica é igualada, por muitas vezes, a uma
prostituta (zonah), como na história de Tamar e Judá, que veremos mais adiante.
Rubio diz que a prostituição da qědeša pode ser um exemplo de uma má
interpretação, ou uma interpretação má intencionada dos cultos populares por parte
da religião patriarcal de Jerusalém. Ou seja, a ideia de relacionar as sacerdotisas de
Inanna/Ishtar ou Shamash com prostitutas sagradas pode vir desde os tempos
bíblicos, pois os seguidores de Yahweh condenavam os cultos que envolviam práticas
sexuais e o culto a outros deuses.
Em suma, Rubio também concorda com a inexistência da “prostituição
sagrada”. Para ele o que ocorreu foi uma deturpação dos cultos sexuais por parte dos
profetas hebreus e dos documentos gregos do final do Primeiro Milênio a.C. (RUBIO,
1999, p. 135).
Assim, podemos perceber que, a partir de pesquisas mais recentes e que levam
em consideração uma gama maior de fontes, a ideia de “prostituição sagrada” como
prática ritual existente na Mesopotâmia e na terra de Canaã, vem sendo questionada
e até mesmo negada, pois as fontes não são capazes de sustentar tal ideia, visto que
trazem outras possibilidades de interpretação ao revelar mais traços das práticas
religiosas complexas destas sociedades.
O que sabemos, segundo as fontes como listas de funcionários de templos e
códigos de lei, como o código de Hammurabi e as leis assírias, é que os templos
mesopotâmicos possuíam uma equipe de funcionários que serviam aos deuses, por
meio de um sistema complexo que ia da manutenção do espaço à alimentação da
divindade, pois o templo era o seu lugar de moradia. A equipe era formada por
sacerdotisas e sacerdotes, artesãos, artistas e escravos que desempenhavam
diversos papéis de acordo com cada divindade. É possível que o sexo ritualístico
estivesse incluído nas atividades do templo, assim como apresentações de dança,
música e interpretação.

5
A sagrada, ou a consagrada, em hebraico. Qadištu em acádio.
Mulheres de família real, geralmente, eram sacerdotisas en (LERNER,1986, p.
23), - consideradas as principais de alguns templos sumérios, o que indicava o
elevado status da posição. Segundo Ciro Flamarion S. Cardoso, até meados do
Terceiro Milênio antes da era cristã, não havia separação entre o templo e os palácios
reais, e neles habitavam um tipo de funcionário chamado de en (chefe). Espécie de
sacerdote ou sacerdotisa que cuidava das tarefas administrativas, e no caso dos
sacerdotes homens, ficavam encarregados da chefia militar (CARDOSO, 1990, p. 27).
As referências a essas sacerdotisas datam do período Babilônico Antigo.
Lerner diz que elas comandavam rituais e cultos e não se casavam, sendo a
contrapartida dos sacerdotes homens (LERNER, 1986, p. 239) e não deixavam o
templo. Na Suméria, elas encarnavam a deusa Inanna no ritual do Sagrado
Casamento6, na Babilônia eram as mais importantes sacerdotisas do deus Sin (deus
da Lua) e da deusa Innana/Ishtar.
Outro tipo de funcionárias do templo eram as chamadas nin-dingir7. A autora
não se aprofunda muito nem cita o significado do termo, mas diz que existem muitas
referências a elas datadas da época de Hammurabi (1792-1750 a.C.). Elas poderiam
viver fora do templo, mas sua reputação era cuidadosamente guardada. Sobre esta
classe de sacerdotisas, a pesquisadora Johanna Stuckey as aponta como principais
sacerdotisas de uma cidade, e a que representava Inanna no ritual do Sagrado
Casamento (STUCKEY, 2005, p. 06).
Outra classe citada nas listas de funcionários são as sumérias nu.gig (qadishtu
em acádio e qedesha em hebraico). O termo significa “a consagrada” ou “aquela que
é tabu”. Segundo Westenholz, as nu.gig tinham papéis diversos de acordo com o
período e região. É certo que estão ligadas ao serviço de alguma divindade (Inanna,
Shamash, Sin, Nininsa) e poderiam estar ligadas ao parto, rituais de purificação,
exorcismo, bruxaria e rituais de fertilidade e sexo (WESTENHOLZ, 1989 p. 254).
Na Babilônia, ainda havia as sacerdotisas chamadas naditum, termo que
significa literalmente “deixada em pousio”, relação entre o estado da terra que é
deixada inculta com o estado da sacerdotisa que não pode ter filhos. As naditum

6
Ritual hierogâmico no qual o rei, representando Dumuzi, deus pastor ligado à vida animal e à
vegetação, se casa com a deusa Inanna, deusa da fertilidade, do amor sexual e da guerra, uma das
figuras divinas mais importantes na Suméria. Nesse caso, Inanna provavelmente era representada por
uma sacerdotisa en. (K. F. BATISTA, A Legitimação do poder real por meio da religião na antiga
Mesopotâmia: uma análise do sagrado casamento sumério. Universidade Estadual de Londrina, 2013,
p. 13)
7
Literalmente, em sumério: “Aquela que é a deusa”.
vinham de famílias importantes, e segundo algumas evidências (o significado da
palavra é uma delas) eram proibidas de ter filhos. Traziam grandes dotes para o
templo, e podiam deixar o isolamento para cuidar de seus negócios (comprar e vender
terras e escravos), podiam adotar crianças e deixar suas posses para uma herdeira
do sexo feminino, que provavelmente também era ou seria sacerdotisa.
O que se percebe é que nenhuma das fontes indica a existência de rituais
envolvendo a prática sexual (com ou sem pagamento), exceto pelo Sagrado
Casamento, que se tratava de um ritual sumério, realizado anualmente, no qual o rei
casava-se com Inanna, encarnada na figura da sacerdotisa, reencenando o
casamento da deusa com seu consorte Dummuzi. Tal ritual era celebrado com
grandes festejos e tinham grande importância para a legitimação do poder do rei 8.
Assim, a figura feminina no meio religioso era algo comum, porém, de acordo
com pesquisadores como Gerda Lerner e Gonzalo Rubio, a militarização das
sociedades mesopotâmicas acabou por minar o poder das mulheres na religião,
colocando-as em uma posição secundária, fazendo com que a tradição das
sacerdotisas fosse se transformando, acabando por colocá-las no mesmo patamar
das prostitutas.
Uma conclusão interessante para a ideia de que a “prostituição sagrada” não
existiu de fato é da historiadora Joan Goodnick Westenholz, que diz que a prostituição
está fora do controle cultural da sexualidade, já o sexo sagrado é controlado, logo,
não é considerado prostituição. (WESTENHOLZ, 1989, p. 262).

8
As principais referências ao Sagrado casamento estão em hinos e poemas que fazem referência à
união de Inanna e Dumuzi e que, frequentemente, associam o rei a Dumuzi, além de imagens em
baixo relevo (como o vaso ritual de Uruk) e imagens de amantes em terracota.
2. A Bíblia Hebraica

A Bíblia Hebraica é o conjunto de textos escritos originalmente em hebraico e


aramaico, e encontrados no Antigo Testamento. É uma importante fonte para o estudo
da “prostituição sagrada” no Oriente Próximo, pois durante muito tempo seus relatos
moldaram a forma que a sociedade ocidental enxerga os povos que não eram
hebreus.
Mas antes de falarmos sobre a influência que esses textos possuem até hoje,
é necessário conhecê-los um pouco melhor como fontes históricas e obras literárias.
Para John Van Seters, a tradição bíblica na sociedade israelita não deve ser
pensada somente no âmbito religioso. Tal tradição foi usada para reforçar sim, as
crenças religiosas, mas também para construir a noção de identidade, além de
perpetuar a história do povo hebreu. Sendo assim uma obra literária, pois foi
concebida por um motivo e de acordo com o contexto no qual foi escrita (SETERS.
2008, p. 22).
É claro que estamos falando de uma tradição de longa duração da qual temos
acesso somente a uma pequena parcela dos textos que, ora estão mais próximos, ora
estão mais afastados temporalmente. Também é importante ressaltar que, por conta
das transformações ocorridas na sociedade ao longo do tempo, bem como a interação
dos hebreus com outros povos, é necessário se atentar para o contexto em que as
narrativas foram produzidas, pois isto certamente influenciou na escrita dos autores.
Ou seja, algo mutável de acordo com o momento social.
Para compreender melhor a construção narrativa do Pentateuco9, Julius
Wellhausen, criou a chamada Teoria Documental, também conhecida como Teoria
das Fontes que diz que o Pentateuco foi escrito tendo como base quatro fontes
principais: Javista, Eloísta, Sacerdotal e Deuteronômica (apud. SILVA, 2013, p. 10).
A tradição Javista (código J) é considerada a mais antiga, datada do século X
a.C. Tem sua origem no reino de Judá, com Salomão. Recebe esse nome pois refere-
se à um período no qual Javé (Deus) estaria mais próximo ao homem.
Posterior á tradição J, temos a Eloísta (código E), datada do século X a.C.,
porém posterior à Javista. Nessa tradição Elohim (Deus) aparece como uma entidade
transcendente e sua relação com os seres humanos é mais distante. Teve origem no

9
Conjuntos dos 5 primeiros textos do Antigo Testamento. Torá judaica.
reino de Samaria, mas com a invasão dos assírios, os textos foram levados para Judá,
e se fundiram com a tradição J, dando origem à tradição JE.
Durante o período do exílio na Babilônia surge a tradição sacerdotal (código P).
Acredita-se que sacerdotes hebreus compilaram textos para elevar a moral do povo,
desanimado com a destruição de sua monarquia e seu exílio longe de suas terra. É
dessa tradição que vem os relatos da criação do mundo, do dilúvio e outras narrativas
do Gênesis, que tiveram influência da mitologia babilônica.
Por fim, em 621 a.C. o livro de leis composto sob a direção do sumo-sacerdote
Hilquias dá origem à tradição Deuteronômica, cujo objetivo seria reforçar e centralizar
os cultos à Jaweh em Jerusalém e eliminar os locais de sacrifício espalhados por
outros locais com o objetivo de consolidar a unidade do povo hebreu. Como se trata
de uma coletânea sobre leis, tal tradição também é considerada uma escola.
O que se percebe, no geral, é que nos textos do Antigo Testamento há
preocupação com a justiça divina e com as leis, logo, há a preocupação com o que é
certo e o que não é. As narrativas foram compostas observando o comportamento e
cultura dos povos que estavam em volta dos hebreus e, como seu foco estava na as
leis e na manutenção da unidade, é possível compreender que os hebreus
consideravam que eles estavam corretos, de acordo com as leis divinas, e os povos
vizinhos estavam errados, pois não observavam nem obedeciam tais leis.
Apesar disso, é possível encontrar proximidades entre os hebreus e povos
estrangeiros, como os canaanitas e moabitas. Tais proximidades se dão por conta dos
casamentos e do sincretismo religioso que pode ser observado em alguns momentos
e que será discutido posteriormente.
É importante ressaltar que a produção dos textos do Antigo Testamento teve
por base diversas tradições orais que incluíam mitos, novelas e sagas de diferentes
épocas e que sofreram influências culturais externas. De qualquer forma a tradição
oral, que se tornou escrita posteriormente, foi de grande importância para a
manutenção da história dos hebreus, pois poucas pessoas tinham domínio da leitura
e da escrita e, assim, a oralidade permitiu que tais narrativas sobrevivessem ao tempo.
2.1 As Mulheres na Bíblia

Segundo Rosemary Radford Ruether a mulher tem papel importante na bíblia,


mas está restrita socialmente pois vive em uma sociedade patriarcal (REUTHER,
1974, p. 222). Assim é considerada propriedade do homem (pai e depois, esposo) e
possui papel secundário na sociedade e na religião. Seu prestígio está diretamente
ligado à capacidade de gerar filhos para dar continuidade à linhagem do homem.
Porém, em algumas narrativas vemos mulheres com certo destaque. O
interessante é notar que algumas dessas mulheres apresentam comportamento
avesso às leis hebraicas e ainda assim não sofrem represálias, acabando por se
tornarem as heroínas de tais histórias, garantindo o legado do patriarca em questão.
No entanto, por mais que essas mulheres tenham ocupado lugares importantes
para os hebreus, elas ainda estão ligadas ao estigma da maternidade, pois seu valor,
nesse contexto, é proporcional à sua capacidade de gerar herdeiros para a linhagem
do marido. Ainda assim, é importante destacarmos a presença dessas mulheres nos
textos bíblicos para compreendermos os papéis de gênero.
Sobre a narrativa de Tamar e Judá, por exemplo, supõe-se que o objetivo dos
editores desse texto fosse registrar as origens que compõem a tribo de Judá e dos
ancestrais que compõe da dinastia davídica. (BRAGA, 2007, p. 17).
Devemos ter em mente que tais registros podem não ser históricos, mas com
certeza são parte importante das tradições orais que sobreviveram nos textos e que
abordam a questão do casamento entre hebreus e mulheres estrangeiras, justificando
a inclusão de outros clãs na tribo de Israel, já que mulheres estrangeiras deram à luz
a heróis da história ou deram continuidade à linhagem de um hebreu. (BRAGA, 2007,
p. 97).
É importante compreender sobre tais questões de gênero dentro dos textos
bíblicos pois eles ainda tem um profundo efeito na nossa sociedade. Exerceram e
ainda exercem influência sobre como entendemos o papel da mulher no passado e
no presente, e tal influência se estende, inclusive, sobre as pesquisas voltadas a tal
tema, como veremos ser o caso das “prostitutas sagradas”.
Sobre o peso que o pensamento guiado pelos textos bíblico possui, Letty
Russel, teóloga feminista, diz que a percepção do papel da mulher e o poder
masculino em nossa sociedade tem relação com a forma como se entende a principal
divindade da cultura cristã.
Essa cadeia de autoridade, a partir de Deus, é referida por DELE
(pronome pessoal possessivo na terceira pessoa do singular
masculino). Como símbolo de divindade, sua masculinidade
profundamente afeta ambos, nosso pensamento teológico e nossa
prática eclesiástica, e, portanto, nossas atitudes sociais. No
pensamento teológico o silogismo inconsciente parece dizer: Deus é
macho; Ele tem o direito de ditar e exigir obediência; e os homens
compartilham esse direito com Deus. (apud REUETHER,1974, p. 339)

Já, Eliézer Serra Braga, defende que a imagem da mulher dentro do


cristianismo foi mais uma construção dos primeiros teólogos cristãos do que dos
editores do Antigo Testamento que, segundo ele, eram lacônicos e não faziam
julgamentos (BRAGA, 2007, p. 23).
Para Alice Ogden Bellis, alguns textos bíblicos, assim como seus editores
sofreram influências dos autores gregos (BELLIS, 1994, p. 46), tanto na construção
literária, como analisa John van Seters (SETERS, 2008 p. 56), quanto na forma como
se enxergava a mulher dentro da sociedade. Assim, ao fazer a análise de um texto
bíblico, é necessário termos em mente que, além do contexto no qual está inserido,
suas edições e traduções também são importantes para compreender o papel de tal
narrativa como fonte histórica.

2.2 A “prostituição sagrada” na Bíblia Hebraica

Em certos momentos os textos da Bíblia Hebraica fazem referência à prática


da “prostituição sagrada”, ou às prostitutas (e em alguns trechos, aos prostitutos) do
templo. Alguns dos livros mais antigos que fazem referência a esse costume ou aos
seus praticantes são datados, em seu formato final, entre os séculos VII e VI a.C.,
sobretudo do tempo do exílio da Babilônia.
Talvez, o mais famoso destes trechos seja a história de Judá e Tamar:

No correr do tempo morreu a filha de Sua, mulher de Judá; e,


consolado Judá, subiu aos tosquiadores de ovelha em Timna, ele e
seu amigo Hira, o adulamita. E comunicaram a Tamar: Eis que o teu
sogro sobe a Timna, para tosquear as ovelhas. Então, ela despiu as
vestes de sua viuvez, e, cobrindo-se com um véu, se disfarçou e se
assentou na entrada e Enaim, no caminho de Timna; porque via que
Selá já era homem, e ela não lhe fora dada por mulher. Vendo-a Judá,
teve-a por meretriz; porque ela havia coberto o rosto. Então se dirigiu
a ela no caminho e lhe disse: Vem, deixa-me possuir-te; porque não
sabia que era sua nora. Ela respondeu: Que me darás para coabitares
comigo? Ele respondeu: Enviar-te-ei um cabrito do rebanho.
Perguntou ela: Dar-me-ás penhor até que o mandes? Respondeu ele:
Que penhor te darei? Ela disse: O teu selo, o teu cordão e o cajado
que seguras. Ele, porque, lhos deu e a possuiu; e ela concebeu dele.
Levantou-se ela e se foi; tirou de sobre si o véu e tornou às vestes de
sua viuvez. Enviou Judá o cabrito, por mão do adulamita, seu amigo,
para reaver o penhor da mão da mulher; porém não a encontrou. Então
perguntou aos homens daquele lugar: Onde está a prostituta cultual
que se achava junto ao caminho de Enaim. Responderam: Aqui não
esteve meretriz nenhuma. Tendo voltado a Judá, disse: Não a
encontrei; e também os homens do lugar me disseram: aqui não
esteve prostituta cultual nenhuma. (Gênesis 38:12-21)

Esse trecho refere-se ao relato no qual Tamar, que havia se casado com o filho
mais velho de Judá, ficou viúva de dois de seus filhos antes de engravidar. Judá então
promete a Tamar que a dará como esposa a seu filho mais novo assim que este tiver
idade para casar. Porém Judá não cumpre a promessa. Então Tamar se disfarça de
“prostituta cultual” para atrair o sogro e assim gerar um filho.
Aqui é importante ressaltar que, segundo a Bíblia de Estudos Harper Collins–
Nova Versão Padrão Revisada, a expressão hebraica utilizada para prostituta cultual
é qědeša (ou kedesha) que significa “consagrada”, porém em algumas partes do relato
é traduzida como meretriz, e no final como prostituta cultual.
Para historiador Gonzalo Rubio essas mulheres são por muitas vezes
relacionadas à prostituição pelos relatos bíblicos por conta de sua independência
sexual (RUBIO, 1999, p. 133), já que estamos falando de um texto inserido em um
contexto no qual os hebreus estavam em contato com as práticas religiosas da região
de Canaã, onde as mulheres tinham papel ativo em rituais de fertilidade.
Outrossim, os textos que compõe o Antigo Testamento formam uma coleção
de escritos elaborada por uma comunidade que tinha por objetivo promover e
conservar sua fé. Esses textos, ao fazerem referência à religião dos povos que estão
à sua volta, trazem a visão de uma sociedade monoteísta e patriarcal sobre práticas
de comunidades que habitavam a região de Canaã, os assim chamados cananeus ou
canaanitas, e alguns povos mesopotâmicos, como os babilônios.
O relato de Tamar e Judá é bastante interessante e rico para a discussão sobre
a ideia de prostituição sagrada pois ele além de trazer a visão dos hebreus sobre os
povos de Canaã, também traz o peso e a intencionalidade das traduções dos textos
bíblicos. Se sabemos que a palavra usada para Tamar é qědeša e não zonah10,
porque há a insistência no termo equivocado? E se Tamar estava disfarçada como
uma “prostituta sagrada”, Judá, ao relacionar-se com ela estaria fazendo parte de um
ritual canaanita que era malvisto pelo seu povo e sua religião?
Sobre a questão da tradução, segundo Luiz José Dietrich, as traduções
carregam intencionalidades e são influenciadas pelo contexto no qual são criadas
(DIETRICH, 2016, p. 109). Para Antoine Berman

a tradução se caracteriza por três traços: Primeiramente, em se


tratando de uma cultura, ela é etnocêntrica. Em segundo lugar é
hipertextual. E em terceiro lugar, sob a ótica filosófica, ela é platônica.
A essência etnocêntrica, hipertextual e platônica da tradução recobre
e oculta uma essência mais profunda, que é simultaneamente ética,
poética e pensante. Em suas regiões mais profundas, o traduzir está
ligado à ética, à poesia e ao pensamento e mesmo, - veremos com
Hõlderlin (esse nome está correto) e Chateaubriand -, ao "religioso"
(para não dizer à "religião"). Mas o ético, o poético, o pensante e o
religioso, por sua vez, definem-se em relação ao que chamamos a
"letra". (BERMAN, 1985, p, 26)

O autor ainda discorre sobre a Vulgata, pois São Jerônimo defendia que a
tradução seria o ato de traduzir não a palavra, mas o sentido (BERMAN, 1985, p. 31).
Assim sendo, era necessário que o texto traduzido fizesse sentido para os seus
leitores, mesmo que para isso as palavras tivessem de ser adaptadas, mudadas ou
até mesmo suprimidas, pois é necessário que a tradução não seja "sentida" pelo leitor
final. É nesse sentido que Berman fala sobre a tradução etnocêntrica.

10
Termo hebraico para prostituta.
Quanto a isso, Braga argumenta que é possível que alguns editores dos textos
bíblicos tenham trabalhado com traduções ou termos equivocados na tentativa de
suavizar algumas coisas e cristianizar tradições hebraicas (BRAGA, 2007, p. 113).
Um exemplo é o próprio contexto no qual Judá busca os serviços de uma
prostituta cultual. Na convivência com os povos de Canaã, prevalecem os costumes
locais, e não as leis de Moisés (BRAGA, 2007, p. 63). Isso explica o motivo pelo qual
Judá buscou uma qědeša para realizar o ritual: no relato é dito que Judá levava as
ovelhas para a tosquia, tal período era importante comercialmente para os pastores,
então é provável que eles buscassem formas para que os deuses favorecessem suas
atividades.
Judá, apesar de de hebreu, vivia em contato com a cultura canaanita, assim,
não é estranho que, estando ele inserido em tal contexto, acabasse por incorporar
alguns costumes dessa região. Isso abre a discussão sobre as trocas culturais
(inclusive na esfera religiosa) entre hebreus e canaanitas.
Além disso, segundo o autor, é possível que a tradição de Judá e Tamar tenha
se originado no folclore canaanita e foi apropriada pelo editores bíblicos com a
intenção de justificar a entrada de clãs estrangeiros nas tribos israelitas (BRAGA, 2007
p. 71), já que a união entre homens israelitas e mulheres de outros povos eram mal
vistas por ameaçar a pureza do sangue a unidade religiosa.
Nesse sentido, Tamar poderia realmente ter sido uma sacerdotisa de Astarte
ou Moloch, que posteriormente foi designada como “prostituta sagrada”.
Por outro lado, Tamar, apesar de ter se disfarçado como uma qědeša, só o fez
para gerar um filho e garantir seus direitos e integridade. Ou seja, ela, provavelmente,
não era uma qědeša, que possui, na sociedade canaanita, maior importância que uma
esposa possui na sociedade israelita.
2.3 A Questão da Tradução

O idioma não é só uma forma de comunicação, ele também faz parte da cultura.
Ao traduzir algo entramos em contato com a forma de se comunicar, expressar e
pensar do outro, na qual sua cultura é determinante (DIETRICH, 2016 p. 108). Nesse
sentido tradução é um processo de trocas e negociação no qual se estabelecem as
relações de poder. Rosvitha Blume e Patrícia Peterle afirmam que a linguagem

“tem a capacidade de controlar e moldar pensamentos e


comportamentos por toda uma rede que está ao seu redor, da qual ela
[a linguagem] faz parte, mas também ajuda a moldar”. (apud
DIETRICH, 2016, p. 108)

O que ocorre na tradução da Bíblia é: não é o idioma considerado superior,


mas sim a cultura baseada no cristianismo. Logo a tradução deve fazer com que o
texto se submeta à cultura cristã. Por isso a doutrina dos tradutores, por muitas vezes,
se sobrepõe ao conteúdo do texto traduzido (DIETRICH, 2016, p. 114).
Quando abordamos tais questões envolvendo a tradução da Bíblia, é possível
começar a pensar sobre como tais traduções carregam, assim como Berman diz,
determinados pesos e intencionalidades. A maioria dos leitores dos textos bíblicos não
tem acesso ao idioma original, e mesmo assim, durante muitos anos, até mesmo os
pesquisadores estiveram à mercê das traduções feitas por editores cristãos.
O debate acerca da “prostituição sagrada” na Bíblia ganhou mais luz a partir do
momento em que se trouxe ao conhecimento comum as pesquisas que cruzam as
fontes de origem hebraica com fontes de outras regiões do Antigo Oriente Próximo,
tais como Suméria, Babilônia e Canaã e com elas os termos utilizados para designar
as chamadas “prostitutas cultuais”.
Autores como Stephanie Lin Budin e Gonzalo Rubio atribuem parte da
construção da ideia da “prostituição sagrada” à equívocos (propositais ou não) das
traduções de termos usados para designar mulheres com importantes funções
religiosas.
Rubio diz existir uma confusão quanto aos termos utilizados para designar as
“prostitutas sagradas”, causada por equívocos nas traduções. Em seu artigo “Virgens
ou Meretrizes? A Prostituição Sagrada no Oriente Antigo” ele afirma que a sacerdotisa
que foi apontada como prostituta sagrada é a naditu (sumério lukur) e a qadistu
(sagrada ou consagrada - sumério nu-gig: a que é tabu, a sagrada) (RUBIO, 1999).
Por isso é importante nos atentarmos para a questão da tradução. Dietrich
explica que

Outro exemplo pode ser tirado da forma como as traduções lidam com
os termos Qedeshah (Gn 38,21.22; Dt 23,18) e Qadesh (Dt 23,18; 2Rs
23,7), adjetivos femininos e masculinos da mesma raiz da palavra
traduzida como “santo”, “consagrado”, que aparece por exemplo, em
Lv 19,2, em que Javé diz: “sede santos [Qedoshim] porque eu Javé,
sou santo [Qadosh]”. Então Qedeshah e Qadesh deveriam ser
traduzidos como “santa”, ou “mulher consagrada”, “santo” ou “homem
consagrado”. E, provavelmente, eram assim considerados, pois eram
sacerdotisa e sacerdote de culto às divindades da fertilidade, muito
comuns e certamente muito concorridos, até as reformas do rei Josias.
Mas as traduções modernas geralmente traduzem essas palavras
como “prostitutas” ou “rameiras”, para o feminino e “prostituto” ou
“sodomita” para o masculino. Essas traduções também provavelmente
superam o estranhamento causado por pessoas caracterizadas desta
forma dentro de Israel, seguindo a LXX, que tem πόρνη, pórnê,
prostituta; e πορνεύων, pornéuôn, prostituto; (o grego adiciona ao
versículo a condenação ainda de τελεσφόρος, telesfóros e
τελισκόμενος, teliskómenos, provavelmente mulheres e homens
iniciados em cultos relacionados à fertilidade), ou seguem a Vulgata,
que traz meretrix, e scortator, meretriz, prostituto. (DIETRICH, 2016,
p. 121 - 122)

Assim, o que podemos perceber é que há uma preocupação de alguns editores


e tradutores em associar a imagem de sacerdotisas e sacerdotes de religiões não-
cristãs à prostituição, de forma a legitimar a ideia de que os povos não hebreus eram,
de alguma forma, religiosa e moralmente inferiores, inclusive no que diz respeito à
presença de mulheres em importantes posições religiosas.
Para Joan Goodnick Westenholz a qědeša canaanita é uma equivalente à
qadištu babilônia. As qadištu (cognato assírio de qědeša) eram mulheres ligadas à
cultos de diversas divindades no período Babilônio Antigo. Não pertenciam à um
“núcleo familiar organizado”, portanto, não estavam confinadas ao âmbito doméstico
como era de costume para as “mulheres de família”. Tinham papéis diversos de
acordo com o período e região. Seus serviços poderiam estar relacionados ao parto,
rituais de purificação, exorcismo, bruxaria e rituais de fertilidade e sexo. Em algumas
fontes é dito que elas podiam se casar e, quando casadas, deveriam usar véus.
Talvez, Tamar tenha sido confundida com um qadištu casada (WESTENHOLZ, 1989,
p. 254).
Em seu artigo “Tamar, Qědēšā, Qadištu, e a Prostituição Sagrada na
Mesopotâmia”, Westenholz critica as pesquisas sobre a “prostituição sagrada”
dizendo que muitos autores abordam o assunto sem ao menos defini-lo. Após a
análise do relato de Tamar e Judá, levando em consideração os termos e traduções,
a autora conclui que a “prostituição sagrada” é um amálgama de pressuposições,
erros de interpretação e imprecisões, uma compilação de relatos antigos fictícios, com
uma pitada de ideologia moderna sobre o papel da mulher na história (WESTENHOLZ,
1989, p. 263).
Apesar de o texto não deixar transparecer, é possível perceber pelo contexto
que, a partir do comportamento de Judá, é possível que os hebreus habitantes da
região de Canaã não tinham conhecimento das leis monoteístas tais como elas se
estabeleceram em Israel após o exílio da Babilônia. Assim, o sincretismo religioso era
algo comum. No caso de Judá, é plausível que tenha buscado uma qědeša, ou
“prostituta cultual”, para obter favores das divindades, já que era o período da tosquia
das ovelhas.
Percebe-se que nos textos bíblicos (a partir do período do reino de Israel) há
uma preocupação em erradicar essas práticas, para que a ideia de unidade religiosa
e afastamento de ações malvistas se consolidasse como uma das principais bases da
sociedade hebraica. Assim o comportamento de Judá poderia ser considerado, pelos
próximos editores da bíblia, como algo impróprio, mas de acordo com o contexto e
período da narrativa, tal relação era comum (BRAGA, 2007, p. 83).
Assim não se pode deixar de considerar que a construção da ideia de
“prostituição sagrada” além de estar ligada à uma questão moral e religiosa, também
está ligada á uma questão de gênero e sexualidade, já que se atribui a prática à
mulheres e homens (envolvidos em sexo homossexual).
3 - A Permanência da ideia de “prostituição sagrada”

Como disse Michel de Certeau: “uma leitura do passado, por mais controlada
que seja pela análise dos documentos, é sempre dirigida por uma leitura do presente”
(CERTEAU, 1975, p. 34). Os historiadores não podem se desvencilhar de seu
contexto quando escrevem acerca do passado, pois sua escrita é guiada por sua
interpretação do passado que é construída no presente. Assim, mesmo com diversas
pesquisas que buscam desconstruir ideias equivocadas sobre a existência da
“prostituição sagrada”, os estudos sobre o assunto ainda sofrem influência dos textos
bíblicos, em boa parte responsáveis (ao lado dos relatos de Heródoto) pela
manutenção dessa ideia durante séculos.
Isso se dá pela grande influência que o pensamento grego e o cristianismo
possuem em nossa forma de pensar e produzir conhecimento, especialmente quando
pensamos em papéis de gênero e o lugar das mulheres na história. Segundo Joan
Scott, a história é responsável pela produção das diferenças sexuais, pois uma
narrativa nunca é neutra, e o gênero, que é construção cultural das diferenças sexuais,
pode ser utilizado para analisar a construção e a consolidação de um poder (SCOTT,
1990, p. 10).
É claro que, ao estarmos a par de tais influências, é possível problematizar a
forma como enxergamos determinados assuntos e sob que perspectiva pensamos
sobre eles. Por isso é importante apontar a existências dessas incongruências dentro
da pesquisa histórica e buscar apoio nos estudos de gênero, por exemplo.
Em outros trechos da bíblia existem menções às qědešas e seus
correspondentes masculinos, os qědeš11. Os textos traduzidos continuam traduzindo
tais termos como prostitutas e prostitutos (ou cão, no caso masculino). Mesmo em
versões como a Bíblia de Estudos Harper Collins–Nova Versão Padrão Revisada, que
possuem as explicações sobre o significado dos termos e sua etimologia, no corpo do
texto, os termos prostituta e prostituto permanecem.
Joan Goodnick Westenholz, após a análise dos trechos que citam as
“prostitutas cultuais” em comparação com fontes de origens sumérias, assírias e
babilônicas, diz que a transformação das mulheres sagradas em prostitutas começa

11
Menções as qědeša e os qědeš são encontradas em: Baruc 6:42-44; Deuteronômio 23:17-18; Oseias
4:14; 1 Reis 14:24; 1 Reis 15:12; 1 Reis 22:46 e 2 Reis 23:7.
com a tradução equivocada dos termos, que pode ter sido opcional para atender a
determinadas intenções dos editores bíblicos. Segundo ela:

(...) a prostituição sagrada é um amálgama de pressuposições, erros


de interpretação e imprecisões, uma compilação de relatos antigos
fictícios, com uma pitada de ideologia moderna sobre o papel da
mulher na história. (WESTENHOLZ, 1989, p, 263

A respeito do ato de traduzir, Antoine Berman diz ser necessário que a tradução
não seja "sentida" pelo leitor final. Qualquer estranhamento deve ser suavizado
(BERMAN, 1985, p. 33). No caso das traduções dos termos a respeito das “prostitutas
cultuais”, o que pode ter ocorrido é a tentativa de encaixar essas mulheres em um
papel mais compreensível para os leitores finais por conta da cristianização das
tradições hebraicas (BRAGA, 2007, p. 113). Assim as traduções dos textos podem ter
contribuído para esse movimento, ao passo que o ato de traduzir possui uma
intencionalidade ligada ao objetivo final do texto.
Porém, é necessário ter certa cautela, pois os costumes previstos nas leis
assírias sobre as diferentes classes de mulheres, incluindo as sacerdotisas dos cultos
de fertilidade, podem não se assemelhar à realidade canaanita da qual Tamar fazia
parte. O que devemos questionar é, se mesmo com as pesquisas questionando a ideia
de “prostituição sagrada” e esclarecendo o papel das mulheres dentro das religiões
do Antigo Oriente Próximo, por que a tradução bíblica que chama sacerdotisas de
prostitutas ainda possui uma influência tão presente no imaginário? Por que mesmo
em pesquisas historiográficas ainda se baseiam nessa ideia para falar das mulheres
envolvidas em cultos de fertilidade fora do contexto bíblico?
Como dito anteriormente, nossa cultura ocidental sofre uma grande influência
do pensamento grego e do cristianismo, e isso acabou por ser refletido também na
produção acadêmica. John Setters, inclusive, aponta as proximidades entre os textos
do Antigo Testamento e das produções de Heródoto no que diz respeito à construção
narrativa e à ideia de unidade. Tanto no Antigo Testamento quanto nos relatos de
Heródoto, a lei aparece como elemento fundamental para a compreensão das atitudes
dos homens. Além disso, ambos se baseiam em grande variedade de fontes, tanto
orais como escritas (SETERS, 2008, p. 58-59).
No entanto, para além destas similaridades, é possível perceber a influência do
pensamento grego na interpretação que alguns pensadores judeus, rabinos
conservadores, judeus helenistas e principais pensadores do período patrístico o que,
segundo Eliézer Serra Braga, determina a forma como tais pensadores pensam o
papel da mulher nos textos bíblicos (BRAGA, 2007 p. 33).
O autor John R. Huddlestun, faz uma análise bastante interessante sobre o uso
do véu como elemento identificador de Tamar como prostituta. Para ele, compreende-
se que as prostitutas, no texto bíblico, se adornavam de forma diferente das outras
mulheres, porém, o véu não fazia parte das vestimentas, assim como podemos ver
nos textos assírios que o véu era proibido para prostitutas, escravas e outras mulheres
consideradas “públicas” (HUDDLESTUN, 2001 p. 3-4). Dessa forma, é possível
considerar que o véu de Tamar pudesse ter sido usado para que ela cobrisse sua face
afim de que Judá não a reconhecesse.
O autor faz diversas outras considerações a respeito do véu. Pode ser que
Tamar tivesse o hábito de se velar na casa de Judá, e quando ele a viu na estrada,
sem o véu, não a reconheceu, pois nunca havia visto sua face (HUDDLESTUN, 2001
p. 4).
Mas mesmo não estando trajada como prostituta, Judá a confundiu com uma,
pois lhe ofereceu pagamento em troca de serviços sexuais. Isso faz sentido, uma vez
que que para os hebreus, as mulheres pertencem ao âmbito doméstico, e como Tamar
estava à beira da estrada, só poderia se tratar de uma prostituta. Assim, não é o véu
que a identifica como prostituta para Judá, mas sim o fato ser mulher e estar na
entrada da cidade, fora do ambiente doméstico.
O autor ainda traz a visão de pensadores cristãos sobre tal narrativa. Segundo
ele, Lutero não associa o véu à prostituição, antes explica que Tamar deixou as vestes
de sua viuvez e assumiu “vestes festivas” por conta da época do ano 12, ou seja, além
do véu, se enfeitou com jóias para seduzir Judá. O fato de ele não a ter reconhecido
pode ter sido uma intervenção de Deus, para que Perez nascesse e desse origem à
linhagem de David, a qual pertence Jesus (HUDDLESTUN, 2001, p. 7).
Já Calvino, compara Tamar com as prostitutas de seu tempo que, para ele, não
se importavam em esconder sua identidade. Ele diz que Tamar ao menos usou véu

12
Nota da autora: Judá vai à Timna no período da tosquia de ovelhas, o que indica que Tamar poderia
estar envolvida em rituais de fertilidade, ou apenas ter se disfarçado como sacerdotisa de um desses
cultos.
para esconder seu pecado (fornicação) e sua vergonha. Ele também afirma que Tamar
entendia que a fornicação era algo imundo, condenado até mesmo por aqueles que a
praticavam. Quanto ao fato de Judá não a reconhecer, ele atribui a interferência de
Deus (HUDDLESTUN, 2001 p. 8).
Tanto em Lutero quanto em Calvino é possível compreender como a
interpretação cristã desse relato pode se adaptar à intenção do discurso de cada um.
Em nenhum momento eles assumem a possibilidade de Tamar ser uma “prostituta
cultual” como o texto bíblico traduzido diz, mas também não sabemos como eles
interpretaram e traduziram o termo qědeša.
Vale nos atentarmos para que tais interpretações podem ser analisadas sob a
perspectiva de gênero, pois a prostituição e a fornicação eram coisas condenáveis
para os hebreus, porém, em nenhum momento se questiona a postura de Judá,
sobrando apenas para Tamar o estigma de meretriz, mesmo quando a palavra para
designá-la no texto original seja completamente diferente.
Assim, o que percebemos é um esforço para justificar as ações de Judá, que
além de não cumprir com a promessa e a tradição de entregar Tamar como esposa
para seu filho, ainda se envolveu em um ato de fornicação. Restando para Tamar a
responsabilidade de elaborar um plano para poder gerar um herdeiro e garantir seus
direitos dentro da comunidade hebraica, na qual ela havia entrado ao se casar com o
filho mais velho de Judá. Ao tornar-se viúva e ver que o sogro não lhe entregaria o
outro filho, ela se vê obrigada a tomar tal atitude, do contrário, ficaria desamparada
pela família de seu falecido marido.
Assim vemos que tais interpretações se dão sob valores que se enraizaram de
tal forma em nossa cultura que a imagem da cidade de Babilônia e da terra de Canaã
ficaram cristalizadas como antros de promiscuidade e blasfêmia. Mesmo que nos
textos originais haja certa admiração dos hebreus pela cultura e sabedoria babilônia
e das trocas culturais com os canaanitas, a imagem construída posteriormente pelo
cristianismo e pela falta de acesso popular aos textos originais da bíblia, perdurou (e
ainda perdura) na mente de muitos.
Devemos considerar também que, como no caso de Calvino, alguns autores
(tradutores e/ou editores) acabam por usar a imagem de prostituição de seu tempo,
além de sua própria ideia de qual é o lugar da mulher na sociedade, para pensar a
prática de Tamar acabando, por vezes, em um anacronismo que reflete seu
pensamento em uma narrativa antiga.
Considerações Finais

Levando em consideração as fontes de origem oriental, os apontamentos sobre


as incongruências e as traduções equivocadas, é possível compreender a
“prostituição sagrada” como uma ideia construída pela escassez de documentação, -
visto que a documentação disponível foi produzida por povos que estavam fora de tais
práticas -, e por uma mentalidade baseada em princípios cristãos e patriarcais apoiada
em traduções feitas para ressaltar determinado pensamento.
O que leva a esta conclusão é a análise da narrativa de Tamar, que conta com
o cruzamento de fontes de outras origens, o apoio dos estudos de gênero, a análise
da construção narrativa e a tradução dos textos bíblicos. Assim é possível
compreender que as narrativas bíblicas podem ter passado por algumas modificações
para que seu sentido ficasse mais apropriado ao leitor final e à intenção de seus
editores.
Quando pensamos nas produções acerca das civilizações do Antigo Oriente
Próximo e nos primeiros trabalhos que citam a questão da “prostituição sagrada”,
temos de levar em conta que as fontes utilizadas, inicialmente, eram fragmentos do
Antigo Testamento. Tais fragmentos trazem a visão de seus escritores, ou seja, dos
hebreus, sobre diferentes civilizações. Além disso, muitos dos trabalhos usados para
embasar a ideia de “prostituição sagrada” foram concebidos dentro de uma sociedade
com fortes influências cristãs, além de se apoiarem em relatos que deixam claro o
estranhamento que os hebreus tinham a respeito das culturas que os cercavam.
Essa postura equivocada chegou até os autores do século XIX e só começou
a ser questionada muito recentemente. A partir da premissa trazida por Keith Jenkins
de que “não existem interpretações do passado que dispensem pressupostos, e visto
serem as interpretações do passado elaboradas no presente” (JENKINS, 2004, p. 70),
é possível refletir sobre o olhar no objeto de estudo e as influências externas que se
tornam perceptíveis na obra. Por estarmos inseridos em uma cultura de base cristã, o
peso dos textos bíblicos é muito grande sobre a nossa forma de compreender as
culturas do Antigo Oriente Próximo.
Assim é possível verificar que a “ideia de prostituição sagrada” é uma
construção pois apesar de ter sido perpetuada como prática, os recentes estudos
apoiados em fontes orientais e na arqueologia não revelam evidências que suportem
a afirmação de que, em algum momento, a prática existiu a região da Mesopotâmia
ou na terra de Canaã. O que temos são dados que apontam para uma possível
existência de rituais de fertilidade que poderiam, ou não, envolver sexo, e que
geralmente, contavam com a participação de sacerdotisas que eram mulheres de
grande importância dentro da sociedade.
Sendo assim, quando questionamos a ideia de “prostituição sagrada” é
possível compreender que tal assunto envolve diversas questões como o contexto no
qual as fontes foram produzidas, as traduções destas fontes, o meio em que os
pesquisadores do assunto estão inseridos e questões de gênero, já que se liga a
“prostituição sagrada” (e rituais de cunho sexual) à figura feminina, dirigindo sobre
essas mulheres juízos de valor forjados em uma sociedade patriarcal.
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