Aula 6 - Evapotranspiracao
Aula 6 - Evapotranspiracao
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Evapotranspiração
O
retorno da água precipitada para a atmosfera, fechando o ciclo
hidrológico, ocorre através do processo da evapotranspiração. A
importância do processo de evapotranspiração permaneceu mal-
compreendido até o início do século 18, quando Edmond Halley provou
que a água que evaporava da terra era suficiente para abastecer os rios,
posteriormente, como precipitação.
De forma geral, quanto maior a energia recebida pela água líquida, tanto maior é a
taxa de evaporação. Da mesma forma, quanto mais baixa a concentração de vapor
no ar acima da superfície, maior a taxa de evaporação.
Radiação solar
A quantidade de energia solar que atinge a Terra no topo da atmosfera está na faixa
das ondas curtas. Na atmosfera e na superfície terrestre a radiação solar é refletida e
sofre transformações, como apresentado no capítulo 4.
Temperatura
A quantidade de vapor de água que o ar pode conter varia com a temperatura. Ar
mais quente pode conter mais vapor, portanto o ar mais quente favorece a
evaporação.
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I N T R O D U Z I N D O H I D R O L O G I A
Umidade do ar
Quanto menor a umidade do ar, mais fácil é o fluxo de vapor da superfície que está
evaporando. O efeito é semelhante ao da temperatura. Se o ar da atmosfera
próxima à superfície estiver com umidade relativa próxima a 100% a evaporação
diminui porque o ar já está praticamente saturado de vapor.
Velocidade do vento
O vento é uma variável importante no processo de evaporação porque remove o ar
úmido diretamente do contato da superfície que está evaporando ou transpirando.
O processo de fluxo de vapor na atmosfera próxima à superfície ocorre por
difusão, isto é, de uma região de alta concentração (umidade relativa) próxima à
superfície para uma região de baixa concentração afastada da superfície. Este
processo pode ocorrer pela própria ascensão do ar quente como pela turbulência
causada pelo vento.
Medição de evaporação
A evaporação é medida de forma semelhante à precipitação, utilizando unidades de
mm para caracterizar a lâmina evaporada ao longo de um determinado intervalo de
tempo. As formas mais comuns de medir a evaporação são o Tanque Classe A e o
Evaporímetro de Piche.
A medição de evaporação
no Tanque Classe A é
realizada diariamente
diretamente numa régua, ou
ponta linimétrica, instalada
dentro do tanque, sendo que
são compensados os valores
da precipitação do dia. Por
esta razão o Tanque Classe
A é instalado em estações
meteorológicas em conjunto
Figura 8. 1: Tanque Classe A para medição de evaporação. com um pluviômetro.
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W . C O L L I S C H O N N – I P H - U F R G S
Transpiração
A transpiração é a retirada da água do solo pelas raízes das plantas, o transporte da
água através das plantas até as folhas e a passagem da água para a atmosfera através
dos estômatos da folha.
Medição da evapotranspiração
A medição da evapotranspiração é relativamente mais complicada do que a
medição da evaporação. Existem dois métodos principais de medição de
evapotranspiração: os lisímetros e as medições micrometeorológicas.
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I N T R O D U Z I N D O H I D R O L O G I A
assim como a chuva e os volumes escoados de forma superficial e que saem por
orifícios no fundo do lisímetro. A evapotranspiração é calculada por balanço
hídrico entre dois dias subseqüentes de acordo com a equação 8.2, onde ∆V é a
variação de volume de água (medida pelo peso); P é a chuva (medida num
pluviômetro); E é a evapotranspiração; Qs é o escoamento superficial (medido) e
Qb é o escoamento subterrâneo (medido no fundo do tanque).
E = P - Qs – Qb - ∆V (8.2)
A umidade do ar também tem um valor médio (q) e uma flutuação em torno deste
valor médio (q’). O valor de q’ positivo significa ar com umidade ligeiramente
superior à média q, enquanto o valor q’ negativo significa umidade ligeiramente
inferior à média. Se num instante qualquer tanto w’ como q’ são positivos então ar
mais úmido do que a média está sendo afastado da superfície, e se w’ e q’ são, ao
mesmo tempo, negativos, então ar mais seco do que o normal está sendo trazido
para próximo da superfície.
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E=P–Q (8.3)
EXEMPLO
A evapotranspiração pode ser calculada por balanço hídrico da bacia desprezando a variação do
armazenamento na bacia E = 1600 – 700 = 900 mm.
Equação de Thornthwaite
Uma equação muito utilizada para a estimativa da evapotranspiração potencial
quando se dispõe de poucos dados é a equação de Thornthwaite. Esta equação
serve para calcular a evapotranspiração em intervalo de tempo mensal, a partir de
dados de temperatura.
a
10 ⋅ T
E = 16 ⋅ (8.4)
I
80
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1, 514
12
T j
I = ∑ (8.5)
j =1 5
EXEMPLO
Mês Temperatura
Janeiro 24,6
Fevereiro 24,8
Março 23,0
Abril 20,0
Maio 16,8
Junho 14,4
Julho 14,6
Agosto 15,3
Setembro 16,5
Outubro 17,5
Novembro 21,4
Dezembro 25,5
O primeiro passo é o cálculo do coeficiente I a partir das temperaturas médias mensais obtidas da
tabela. O valor de I é 96. A partir de I é possível obter a = 2,1. Com estes coeficientes, a
evapotranspiração potencial é:
2 ,1
10 ⋅ 16,5
E = 16 ⋅ =53,1 mm/mês
96
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Equação de Penman-Monteith
As equações para cálculo da evapotranspiração são do tipo empírico ou de base
física. A principal equação de evapotranspiração de base física é a equação de
Penman-Monteith (equação 8.6). Esta equação pode ser obtida a partir de
representações simplificadas do fluxo de calor latente e sensível a partir de uma
superfície úmida, combinadas à equação de balanço de energia em uma superfície.
Detalhes da obtenção desta equação podem ser encontrados em textos mais
aprofundados (Bierkens et al., 2008).
∆ ⋅ (RL − G ) + ρ A ⋅ c p ⋅ (es − ed )
ra 1
E = ⋅ (8.6)
r λ ⋅ ρW
∆ + γ ⋅ 1 + s
ra
PA
ρ A = 3,486 ⋅ (8.8)
275 + T
4098 ⋅ e s
∆= (8.9)
(237 ,3 + T )2
17 ,27 ⋅ T
es = 0 ,6108 ⋅ exp (8.10)
237 ,3 + T
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UR
ed = e s ⋅ (8.11)
100
PA
γ = 0 ,0016286 ⋅ (8.12)
λ
onde UR [%] é a umidade relativa do ar; PA [kPa] é a pressão atmosférica; e T [ºC] é
a temperatura do ar a 2 m da superfície.
Há uma analogia de parte da equação 8.6 com um circuito elétrico, em que o fluxo
evaporativo é a corrente, a diferença de potencial é o déficit de pressão de vapor no
ar (pressão de saturação do vapor menos pressão parcial real: es-ed) e a resistência é
uma combinação de resistência superficial e resistência aerodinâmica. A resistência
superficial é a combinação, para o conjunto da vegetação, da resistência estomática
das folhas. Mudanças na temperatura do ar e velocidade do vento vão afetar a
resistência aerodinâmica. Mudanças na umidade do solo são enfrentadas pelas
plantas com mudanças na transpiração, que afetam a resistência estomática ou
superficial.
O valor de E, calculado pela 8.6, é convertido para as unidades de lâmina diária pela
equação a seguir.
E a = E ⋅ fc (8.13)
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W . C O L L I S C H O N N – I P H - U F R G S
(z − d ) (z e − d )
ln u ⋅ ln
0 ,123 ⋅ h 0 ,0123 ⋅ h
ra = (8.24)
u⋅k2
d = 0 ,67 ⋅ h (8.25)
10
ln
z
u10 = u 2 ⋅ 0 (8.26)
ln 2
z
0
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I N T R O D U Z I N D O H I D R O L O G I A
parte das plantas exerce um certo controle sobre a resistência dos estômatos e,
portanto, pode controlar a resistência superficial.
Durante períodos de estiagem mais longos, a umidade do solo vai sendo retirada
por evapotranspiração e, à medida que o solo vai perdendo umidade, a
evapotranspiração diminui. A redução da evapotranspiração não ocorre
imediatamente. Para valores de umidade do solo entre a capacidade de campo e um
limite, que vai de 50 a 80 % da capacidade de campo, a evapotranspiração não é
afetada pela umidade do solo. A partir deste limite a evapotranspiração é diminuída,
atingindo o mínimo – normalmente zero – no ponto de murcha permanente.
Neste ponto a resistência superficial atinge valores altíssimos (teoricamente deve
tender ao infinito).
EXEMPLO
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W . C O L L I S C H O N N – I P H - U F R G S
O dia 15 de janeiro é o dia Juliano número 15 (J=15). O número máximo de horas de sol neste
dia depende da latitude do local e da declinação solar no dia considerado. Utilizando as equações do
capítulo 4 temos (perceba que a equação da declinação solar supõe que o calculo do seno é feito com
um ângulo dado em radianos):
2 ⋅π 2 ⋅π
δ = 0 ,4093 ⋅ sin ⋅ J − 1,405 = 0 ,4093 ⋅ sin ⋅ 15 − 1,405 = −0 ,373
365 365
Com a declinação solar e com a informação de latitude podemos calcular o ângulo do sol ao nascer
no local desejado:
24
N= ⋅ ω s = 13 ,89 horas.
π
A radiação solar que atinge a superfície neste local, nesta data, pode ser estimada por:
n
S SUP = a s + bs ⋅ ⋅ S TOP
N
onde N [horas] é o máximo número de horas de sol; n [horas] é a insolação medida (6 horas, de
acordo com o enunciado do problema); STOP [MJ.m-2.dia-1] é a radiação no local caso não existisse
a atmosfera; SSUP [MJ.m-2.dia-1] é a radiação que atinge a superfície terrestre; as [-] é a fração da
radiação que atinge a superfície em dias encobertos (quando n=0); e as + bs [-] é a fração da
radiação que atinge a superfície em dias sem nuvens (n=N). Serão adotados os valores 0,25 e
0,50, respectivamente, para os parâmetros as e bs.
A radiação incidente desprezando o efeito da atmosfera terrestre pode ser calculada por:
24 ⋅ 60
S TOP = G SC ⋅ ⋅ d r ⋅ (ω s ⋅ senϕ ⋅ senδ + cos ϕ ⋅ cos δ ⋅ senω s )
π
onde GSC [MJ.m-2.minuto-1] é a constante solar (cujo valor é 0,0820 MJ.m-2.minuto-1; STOP
[MJ.m-2.dia-1] é a radiação no topo da atmosfera; δ [radianos] é a declinação solar; φ [graus] é a
latitude; ωs [radianos] é o ângulo do sol ao nascer; e dr [-] é a distância relativa da terra ao sol,
dada por:
2 ⋅π
d r = 1 + 0 ,033 ⋅ cos ⋅J (4.9)
365
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I N T R O D U Z I N D O H I D R O L O G I A
2 ⋅π 2 ⋅π
d r = 1 + 0 ,033 ⋅ cos ⋅ J = 1 + 0 ,033 ⋅ cos ⋅ 15 = 1,0319
365 365
n
Usando a equação S SUP = a s + bs ⋅ ⋅ S TOP obtém se o valor de radiação que atinge a
N
superfície considerando o efeito da atmosfera:
n 6
S SUP = a s + bs ⋅ ⋅ S TOP = 0 ,25 + 0 ,50 ⋅ ⋅ 43 ,3 = 20,2 MJ.m .dia .
-2 -1
N 13 ,89
Parte desta radiação é refletida pela superfície, o que depende do albedo da superfície. A radiação
líquida de ondas curtas pode ser calculada por:
Uma parte da energia absorvida pela superfície é novamente emitida na forma de radiação de ondas
longas. A radiação líquida de ondas longas que deixa a superfície terrestre pode ser calculada por:
Rnl = f ⋅ ε ⋅ σ ⋅ (T + 273,2 )
4
onde Rnl [MJ.m-2.dia-1] é a radiação líquida de ondas longas que deixa a superfície; f [-] é um fator
de correção devido à cobertura de nuvens; T [ºC] é a temperatura média do ar a 2 m do solo; ε [-]
é a emissividade da superfície; σ [MJ.m-2.ºK-4.dia-1] é a constante de Stephan-Boltzman
(σ=4,903.10-9 MJ.m-2.ºK-4.dia-1).
ε = 0 ,34 − 0 ,14 ⋅ ed
onde ed é a pressão parcial de vapor de água no ar [kPa], valor que depende da umidade relativa e
da temperatura.
17 ,27 ⋅ T
80 ⋅ 0 ,611 ⋅ exp
ed =
UR ⋅ es
= 237 ,3 + T
= 2,54kPa.
100 100
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W . C O L L I S C H O N N – I P H - U F R G S
O fator de correção da radiação de ondas longas devido à cobertura de nuvens (f) pode ser estimado
com base na equação a seguir:
n
f = 0 ,1 + 0 ,9 ⋅
N
onde N [horas] é o número máximo possível de horas de sol numa certa data numa certa latitude,
e n [horas] é o número real de horas de sol. Substituindo os valores de n e N fica:
6
f = 0 ,1 + 0 ,9 ⋅ =0,621
13 ,89
Portanto, a superfície emite uma radiação líquida de ondas longas de 2,821 MJ.m-2.dia-1.
Este valor pode ser convertido para W.m-2, considerando que W é J.s-1, e que 1 MJ = 106 J.
Assim, a energia disponível para a evapotranspiração é:
10 6
RL = ⋅ 14 ,741 = 170 ,6 W.m-2.
24 ⋅ 3600
A pressão parcial de vapor de água no ar na condição de saturação na temperatura dada pode ser
calculada por:
17 ,27 ⋅ T
es = 0 ,611 ⋅ exp
237 ,3 + T
17 ,27 ⋅ 25
es = 0 ,611 ⋅ exp = 3 ,17 kPa
237 ,3 + 25
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enquanto a pressão real do vapor de água no ar na condição de umidade relativa de 80% já foi
calculada antes, e é de 2,54 kPa. Portanto o déficit de pressão em relação à saturação é de 3,17 -
2,54 que é igual a 0,63 kPa.
A massa específica do ar pode ser estimada por (lembrando que 1000 hPa é igual a 100kPa):
PA 100
ρ A = 3 ,486 ⋅ = 3 ,486 ⋅ =1,162 Kg.m-3
275 + T 275 + 25
O valor da taxa de variação da pressão de saturação do vapor com a temperatura do ar (∆) cujas
unidades são [kPa.ºC-1], pode ser estimado por:
4098 ⋅ e s
∆=
(237 ,3 + T )2
onde es [kPa] é a pressão de saturação de vapor de água no ar; e T [ºC] é a temperatura do ar.
λ = (2 ,501 − 0 ,002361 ⋅ T )
A valor da constante psicrométrica, que depende da pressão atmosférica e da temperatura, pode ser
estimado por:
PA
γ = 0 ,0016286 ⋅
λ
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PA 100
γ = 0 ,0016286 ⋅ = 0 ,0016286 ⋅ = 0 ,0667 kPa.ºC-1
λ 2 ,442
( z − 0 ,67 ⋅ h ) ( z e − 0 ,67 ⋅ h )
ln u ⋅ ln
0 ,123 ⋅ h 0 ,0123 ⋅ h
ra =
u⋅k2
onde zu [m] é a altura em que são realizadas as medições de velocidade do vento; ze [m] é a altura
em que são realizadas as medições de umidade relativa do ar; ra [s.m-1] é a resistência
aerodinâmica; u [m.s-1] é a velocidade do vento medido na altura zu; k [-] é constante de von
Kárman (0,41); e h [m] é altura média da cobertura vegetal.
Considerando que o problema diz que a velocidade do vento é medida a 10 m, e considerando que a
umidade relativa do ar é medida nesta mesma altura, a resistência aerodinâmica fica:
∆ ⋅ (RL − G ) + ρ A ⋅ c p ⋅ (e s − ed )
ra
E =
r
∆ + γ ⋅ 1 + s
r
a
(3,17 − 2 ,54 )
0 ,189 ⋅ (170 ,6 − 0 ,0 ) + 1,162 ⋅ 1013 ⋅
E = =144,5 W.m-2.
35 ,55
60
0 ,189 + 0 ,0667 ⋅ 1 +
35 ,55
1
E = 12 ,488 ⋅ = 5 ,1 ⋅ 10 −3 m.dia-1
1000 ⋅ 2 ,442
90
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900
0,408 ⋅ (R L − G ) + γ ⋅ ⋅ u 2 ⋅ (e s − ed )
ER = T + 273 (8.27)
∆ + γ ⋅ (1 + 0,34 ⋅ u 2 )
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EV = E R ⋅ K c (8.28)
Evaporação em reservatórios
A evaporação da água de reservatórios é de especial interesse para a engenharia,
porque afeta o rendimento de reservatórios para abastecimento, irrigação e geração
de energia. Reservatórios são criados para regularizar a vazão dos rios, aumentando
a disponibilidade de água e de energia nos períodos de escassez. A criação de um
reservatório, entretanto, cria uma vasta superfície líquida que disponibiliza água
para evaporação, o que pode ser considerado uma perda de água e de energia.
Elago = Etanque . Ft
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Leituras adicionais
O livro Climate and the Hydrological Cycle, editado pela IAHS (Bierkens et al.,
2008), apresenta detalhadamente a forma como se obtém a equação de Penman-
Monteith a partir de considerações sobre o fluxo turbulento de calor e umidade e a
partir da equação de balanço de energia em uma superfície úmida.
Exercícios
1) Um rio cuja vazão média é de 34 m3.s-1 foi represado por uma barragem
para geração de energia elétrica. A área superficial do lago criado é de 5000
hectares. Considerando que a evaporação direta do lago corresponde a 970
mm por ano, qual é a nova vazão média a jusante da barragem?
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