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ALVES, Fábio Lopes.

Noites de cabaré: prostituição


feminina, gênero e sociabilidade na zona de
meretrício. São Paulo: Arte e Ciência, 2010. 192 pp.

Marcelo de Paula Pereira Perilo

Estudar um tema eivado de estereótipos, tal no texto e havia sido projetada para operar
como a prostituição, é um desafio e, simulta- como uma pensão, mas antes de Geni assumir
neamente, um campo fértil para reflexões vis- seu controle o espaço fora adaptado em bor-
to uma série de disputas políticas, jurídicas e del. Ali vivem aproximadamente 25 mulheres
morais relacionadas a este ofício e a quem dele adultas, que se prostituem por consentimento
se vale. Eis que um dos êxitos de Fábio Lopes próprio, com as quais Alves conviveu a cada vi-
Alves é justamente investir nesse terreno com- sita e com quem manteve conversas informais,
plexo e frutífero em seu livro Noites de Cabaré: inclusive acompanhando algumas em ativida-
prostituição feminina, gênero e sociabilidade na des para além da casa. O pesquisador ainda re-
zona de meretrício. A obra é oriunda da pesqui- alizou sete entrevistas, sendo seis com garotas
sa que Alves realizou durante o mestrado no de programa e uma com o filho de Geni, que
Programa de Pós-Graduação em Ciências So- trabalhava como mototaxista.
ciais da Universidade do Vale do Rio dos Sinos A obra está dividida em quatro capítulos e
(Unisinos), defendida em 2010 sob a orienta- conta ainda com um prefácio assinado por Édson
ção de Édison Gastaldo. Com uma aguda sensi- Gastaldo, uma apresentação e uma última seção
bilidade etnográfica, o autor reflete o cotidiano do texto onde são tecidas considerações finais.
em uma zona de meretrício atentando para as No primeiro capítulo há um levantamen-
histórias de vida de algumas das mulheres que to bibliográfico sobre a prostituição no âmbi-
ali vivem e se prostituem. to das Ciências Sociais, o que não se pretende
Alves questiona de pronto o suposto da pros- exaustivo, mas sinaliza obras de autores como
tituição como um ofício universal e atemporal, Georg Simmel e Simone de Beauvoir, além dos
sendo que para refleti-lo é necessário contextu- textos de Maria Dulce Gaspar e Denise Mar-
alizar o espaço e as relações entre as pessoas que tin. Nesse capítulo também são discutidos os
se prostituem e seus eventuais clientes. Assim, o referenciais teóricos acionados para a análise
autor realizou seis meses de trabalho de campo das interações sociais, o que é feito a partir da
no Geni Drinks, bordel que leva o nome de sua metáfora da representação teatral em consonân-
proprietária e administradora1, onde pôde rea- cia com a perspectiva de Ervin Goffman. Au-
lizar sua investigação, mediante o aval de Geni, tores como Howard Becker e Gilberto Velho
o que entusiasmou as garotas de programa que favorecem que Fábio Alves descarte a premissa
atuavam no estabelecimento com a ideia de um da prostituição como desviante e reflita atores
livro sobre suas vidas. e disputas em contextos onde há transgres-
A casa é situada em uma rodovia no períme- são de regras sociais. As elaborações de Georg
tro urbano de um município não ­identificado ­Simmel para interação e sociabilidade também

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são ­fundamentais para as análises realizadas no sociabilidade são acionados como noções-chave
livro, incluindo o debate sobre a função do di- para a leitura das relações que ocorrem neste
nheiro nas interações sociais. cabaré. Alves recorre ainda a Pierre Bourdieu
O segundo capítulo apresenta um panora- para discutir sobre dominação masculina, bem
ma jurídico sobre a prostituição, onde são dis- como a Joan Scott para investir em gênero
cutidos posicionamentos do Estado brasileiro como categoria analítica.
quanto ao tema e os principais marcos legais Ao ingressarmos na zona de meretrício por
sobre proxenetas, meretrizes e clientes, tendo meio do livro, é possível notar as regras e con-
em vista a particularidade do país ao reconhe- venções que conformam o universo etnogra-
cer a prostituição a partir de 2002 na Classifi- fado. Nesse bordel “de beira de estrada” nem
cação Brasileira de Ocupações, do Ministério tudo é mediado pelo dinheiro e o que pode
do Trabalho e Emprego. ocorrer está relacionado às interações entre
A metodologia e parâmetros que orien- Geni, as mulheres que ali realizam seu trabalho
taram o trabalho de campo são tópicos do e os diversos homens que frequentam a casa.
debate no terceiro capítulo. Mediante os Esse não é um lugar onde tudo pode aconte-
referenciais apreendidos de autores como cer, sendo que os incentivos ao sexo seguem
Bronisław ­Malinowski, William Foote Whyte, restrições e limites pactuados entre as garotas
Laud Humphreys e Ruth Cardoso, são discu- de programa e seus clientes. Segundo o autor,
tidas as condições da entrada e permanência a maioria delas, por exemplo, não beijam nas
no Geni Drinks, bem como as sucessivas ne- bocas dos homens que pagam por seus servi-
gociações junto às moradoras da casa. Além da ços, sendo esta modalidade de carícia reservada
empatia e confiança que são demandadas a pes- somente a namorados e maridos.
quisadores em trabalhos de campo, curioso é O letreiro na fachada do cabaré indica fun-
notar como Alves se inseriu no contexto etno- cionamento da casa 24 horas por dia, mas é
grafado e como driblou as saias-justas durante no período noturno que o movimento se faz
a investigação. Ao passo que realizava a obser- mais intenso, principalmente aos finais de se-
vação participante, ele servia a suas interlocu- mana. O valor mínimo de cada programa cor-
toras como taxista, segurança e caixa do cabaré. responde a oitenta reais, sendo que a entrada
Com isso o pesquisador galgou reconhecimen- no bordel, a música que anima o ambiente, os
to de Geni e das profissionais do sexo a ponto stripteases e as bebidas são tarifadas em sepa-
de escrever um livro cujos relatos e análises são rado. Algumas das mulheres relatam já ter re-
fruto de uma intensa imersão junto às pessoas cebido sete mil reais em um mês de trabalho,
e ao lugar. outras sinalizam dois mil reais angariados em
No quarto capítulo são analisados os dados apenas uma noite de atendimentos. Contudo,
apreendidos a partir do trabalho de campo, o apesar de potencialmente rentável, a prostitui-
que permite aos leitores experimentar situa- ção nessa casa não é isenta de problemas, e as
ções burlescas ou pungentes na medida em que situações mais graves são aquelas em que os
­Barbie, Janaína, Raissa, Tamires, Mila e Juliana clientes ultrapassam as fronteiras de consenti-
e outras garotas de programa ganham destaque mento estabelecidas pelas profissionais do sexo
em suas histórias e pontos de vista. Conside- durante algum programa.
rando o Geni Drinks como uma instituição Um dos episódios extremos relatados pelo
social, alguns termos como estigma, interação e autor remonta ao caso de um homem que pa-

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gou uma expressiva quantia para bater no rosto contram: os critérios adotados pelas garotas
e corpo de Camila. Após o contato com seu de programa para a seleção de parceiros; as di-
cliente, a garota saiu aos prantos de um dos versas compreensões sobre o que é autorizado,
quartos do bordel. O pesquisador a encontrou quando ocorre e quando cessa uma interação
ainda quando eram evidentes as marcas em seu erótica; a margem de negociação e as estratégias
corpo em função de fortes golpes aplicados que detêm para controlar seus clientes e os pro-
pelo homem a quem ela acabara de atender. gramas. Como o dinheiro não é moeda para
Essa situação desafia a análise sobre as intera- qualquer troca, é a própria Camila quem acio-
ções entre garotas de programa e seus clientes, na sua subjetividade e, com isso, não permite
pois, apesar de lamentar a agressão física na tê- que seja circunscrita a uma suposta e impla-
nue fronteira do consentimento possivelmente cável submissão. Em uma passagem memorá-
ultrapassada pelo homem, Camila interpretou vel, a garota explica ao pesquisador que não é
tal situação de modo a considerar-se em posi- apenas o dinheiro que a faz ceder em algumas
ção de vantagem tendo em conta a recompensa práticas, como o sexo anal, pois, segundo ela,
financeira que recebeu de seu cliente. “Cu não se compra. Cu se conquista” (p. 172).
A partir desses episódios e amparado por As mulheres que vivem no Geni Drinks
Pierre Bourdieu, Fábio Alves tende a ler a pros- são apresentadas para além dos programas
tituição nesse cabaré como relacionada à vio- que realizam, pois as entrevistas que algumas
lência de gênero e à dominação masculina, que delas cederam ao pesquisador permitem uma
seriam inclusive legitimadas pelas profissionais sensível reflexão sobre suas trajetórias de vida.
do sexo em função do dinheiro que recebem Muitas dessas profissionais “caem na vida” ou
em tais interações. O flagrante de dor no caso “se perdem” – expressões que elas utilizam e
de Camila certamente é um caso explícito onde que denotam seu ingresso na prostituição –
a violência se manifesta de maneira intensa, quando ainda adolescentes e quando têm um
mas um questionamento a se fazer à obra cor- histórico de violências familiares somado a pre-
responde ao suposto da prostituição como âm- cários recursos financeiros. Contudo, em lugar
bito necessária e exclusivamente relacionado de pensar a vida na zona de meretrício como
à exploração de mulheres. As interações entre necessariamente pesarosa ou problemática,
as garotas de programa e seus clientes nes- muitas garotas de programa relatam que com
se contexto seriam caracterizadas apenas pela a prostituição obtém prazer e satisfação. Há
submissão daquelas que se prostituem? O que inconvenientes do cotidiano, como os homens
possivelmente renderia mais elementos para que lhes contam histórias enfadonhas sobre
essa análise seria a reflexão sobre quando – e suas esposas e seu trabalho, mas nem todas as
não exclusivamente como – ocorrem violências garotas se incomodam em ser “psicólogas do
e submissões no contexto etnografado. prazer”, como assim o relatam.
Com isso não se perderia de foco o ques- As trajetórias e anseios das mulheres no
tionamento que amiúde vem sendo realizado Geni Drinks são diversas e Fábio Lopes Alves
por teóricas feministas sobre a suposta univer- identifica cautelosamente que não cabe genera-
salidade, hegemonia e homogeneidade da do- lizar as experiências de quem reside e trabalha
minação masculina2. No livro pululam dados na casa. O caso das duas garotas de programa
etnográficos que sugerem o poder de agência3 que são namoradas, as profissionais do sexo e
dessas mulheres nos contextos em que se en- as relações com seus filhos, as irmãs que traba-

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lham juntas e demais particularidades corres- de cada leitor esse mundo intenso, complexo e
pondem a um conjunto complexo de pessoas preenchido por tensões e sedução.
com quem o pesquisador conviveu. Ademais,
há intensas disputas entre essas mulheres, que
estão relacionadas à busca de prestígio na rela- Notas
ção que mantêm com a dona do Geni Drinks
e ao interesse por receber os mais educados e 1. Em função do rigor ético na pesquisa, Alves substi-
bondosos clientes, ou seja, aqueles que ofere- tuiu o nome das pessoas envolvidas na investigação
cem mais dinheiro e atendem prontamente aos por outros que não as identificassem e, assim, atri-
comandos das garotas de programa. buiu à dona do cabaré o nome da célebre personagem
na canção “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque.
A prostituição é um tema que certamente
2. Ver CORRÊA, Mariza. O sexo da dominação. Novos
concerne a diversos sujeitos, atores sociais e Estudos CEBRAP, n. 54, pp. 43-53, 1999.
instituições. A partir de seu livro, Fábio Lo- 3. Ver PISCITELLI, Adriana. Estigma e trabalho se-
pes Alves nos mostra um universo preenchido xual: comentários a partir de leituras sobre turismo
por relações e processos definitivamente mais sexual. In: CÁCERES, Carlos; CAREAGA, Gloria;
abrangentes e densos que se poderia apreender FRASCA, Tim; PECHENY, Mario. (Orgs.). Sexuali-
dad, estima y derechos humanos: desafíos para el aceso
a partir da fachada do cabaré ou nas roupas e
a la salud en América Latina. Lima: FASPA/UPCH,
performances insinuantes das garotas de pro- 2006, pp. 223-250.
grama. Engana-se quem pensa que os segredos
da prostituição são relacionados apenas às in-
terações mediadas por dinheiro, pois a leitura
do livro descortina aos olhos e aos sentimentos

autor Marcelo de Paula Pereira Perilo


Mestre em Antropologia Social/Universidade Federal de Goiás

Recebida em 14/08/2012
Aceita para publicação em 13/10/2012

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