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Carta aos Gálatas com Emmanuel

Texto para Análise

Pedro e Paulo em Antioquia — 11Mas quando Cefas veio a Antioquia, eu o enfrentei


abertamente, porque ele se tinha tornado digno de censura.12Com efeito, antes de
chegarem alguns vindos da parte de Tiago, ele comia com os gentios, mas, quando
chegaram, ele se subtraía e andava retraído, com medo dos circuncisos. 13Os outros
judeus começaram também a fingir junto com ele, a tal ponto que até Barnabé se deixou
levar pela sua hipocrisia. 14Mas quando vi que não andavam retamente segundo a
verdade do evangelho, eu disse a Pedro diante de todos: se tu, sendo judeu, vives à
maneira dos gentios e não dos judeus, por que forças os gentios a viverem como judeus?

Cap. 2:11-14

Qual a diferença entre prudência e covardia¿ Aguardemos quanto a este questionamento.

Vemos neste trecho da carta aos Gálatas que, para Paulo, Pedro estava se esquivando de uma
responsabilidade, estava agindo de forma incorreta e o confrontou diante de uma assembleia,
apontando a sua incorreção.

O livro Paulo e Estevão nos dá o relato deste acontecimento:

“A comunidade antioquiana regozijava -se. Os gentios não ocultavam o júbilo que lhes ia
nalma. O gene roso Apóstolo a todos visitava pessoalmente, sem distinção ou preferência.
Antepunha sempre um bom sorriso às apreensões dos amigos que receavam a alimentação
“impura” e costumava perguntar onde estavam as substâncias que não fossem
abençoadas por Deus. Paulo acompanhava -lhe os passos sem dissimular íntima satisfação.
Num louvável esforço de congraçamento, o Apóstolo dos gentios fazia questão de levá-lo a
todos os lugares onde houvesse irmãos perturbados pelas idéias da circuncisão obrigatória.
Estabeleceu -se, rapidamente, notável movimento de confiança e uniformidade de opinião.
Todos os confrades exultavam de contentamento. Eis, porém, que chegam de Jerusalém três
emissários de Tiago. Trazem cartas para Simão, que os recebe com muitas demonstrações de
estima. Daí por diante, modifica-se o ambiente. O ex-pescador de Cafarnaum, tão dado à
simplicidade e à independência em Cristo Jesus, retrai-se imediatamente. Não mais atende
aos convites dos incircuncisos. As festividades íntimas e carinhosas, organizadas em sua
honra, já não contam com a sua presença alegre e amiga. Na igreja, modificou as mínimas
atitudes. Sempre em companhia dos mensageiros de Jerusalém, que nunca o deixavam,
parecia austero e triste, jamais se referindo à liberdade que o Evangelho outorgara à
consciência humana. Paulo observou a transformação, tomado de profundo desgosto. Para o
seu espírito habituado, de modo irrestrito, à liberdade de opinião, o fato era chocante e
doloroso.” (trecho do livro Paulo e Estevão)
Além da circuncisão, outro ponto era controverso entre judeus e gentios: a questão da
alimentação.

Para os judeus, alguns alimentos eram impuros e não deveriam ser consumidos, e este
costume havia se entranhado no cristianismo primitivo. No entanto, para os gentios, tais
regras não faziam sentido, não era seu costume nem compreendiam que o alimento lhes
maculava a alma ou a fé.

Parecia que Pedro também não se importava com o alimento, conforme vemos no livro Paulo
e Estevão: “Antepunha sempre um bom sorriso às apreensões dos amigos que receavam
a alimentação “impura” e costumava perguntar onde estavam as substâncias que não
fossem abençoadas por Deus.”

No entanto, quando chegaram os judeus, vindo de Jerusalém, Pedro retrai-se e muda sua
postura.

Barclay nos auxilia a compreender o contexto história em que tal fato se dá:

“Na Igreja primitiva uma parte da vida era a comida em comum que chamavam agape:
festa do amor. Toda a comunidade se congregava nesta festa para desfrutar de uma comida
para o qual todos contribuíam com o que tinham. Para muitos que eram escravos devia
tratar-se da única comida decente da semana; e de uma maneira muito especial assinalava o
companheirismo e a participação comunitária dos cristãos.
À primeira vista, isto parece algo encantado. Mas devemos lembrar o rígido
exclusivismo do judeu curto de idéias. A rigidez do judeu fazia considerar seu povo como o
escolhido e em tal medida que implicava o rechaço das outras nações. (...) Este exclusivismo
era parte da vida diária. Um judeu rígido até tinha proibido negociar com um pagão; não
podia viajar com ele; não podia lhe brindar hospitalidade nem aceitar sua hospitalidade. Em
Antioquia pois, surgiu um problema tremendo. Sendo assim as coisas, podiam judeus e
pagãos sentar-se juntos numa comida comunitária? Se tinham que observar as leis e
costumes antigos, era completamente impossível.
Pedro chegou a Antioquía e, esquecendo em princípio os tabus antigos pela glória da nova
fé, participou das comidas comunitárias com judeus e gentios. Mas então chegaram alguns
de Jerusalém pertencentes ao partido judeu. Invocavam o nome de Tiago ainda que com toda
segurança não representavam as opiniões do apóstolo. Estes influíram tanto sobre Pedro que
conseguiram separá-lo das comidas em comum. Os outros judeus se retiraram junto com ele
e finalmente o próprio Barnabé participou desta separação. Foi então quando Paulo falou
com toda a força de que era capaz sua natureza apaixonada. Ele via certos pontos com
clareza meridiana.” (Comentário à Carta aos Gálatas – William Barclay).

A questão, então, se apresenta mais complexa que num primeiro momento. O costume de um
povo estava interferindo na forma como outros povos deveriam se portar, o culto externo
estava se sobrepondo ao que realmente importa que é a fé, o amor e a caridade.

Questão antiga, no entanto, atualíssima, eis que fala do homem e de seus desenganos.
Talvez tenhamos na postura de Paulo o norte para nos guiar, achando que o confronto, a
exposição do erro é sempre a melhor saída. Sem dúvida, Paulo agiu conforme seu coração e
se não tivesse reagido ao erro, o cristianismo teria em sucumbido a essas demonstrações
exteriores.

Consideremos, no entanto, que a postura de Pedro não pode simplesmente ser tratada como
equivocada. Ele tinha suas razões para temer um escândalo diante da Igreja de Jerusalém, e
ao recuar, buscada evitar maiores contendas.

Paulo e Pedro, tinham suas razões de agir, seus motivos e suas justificativas. E não iremos
entrar na seara do certo e do errado, mas olharemos a ambos como aprendizes do Evangelho
sabendo que ora deveremos usar toda a nossa energia para defender um ponto de vista e
outras tantas vezes, deveremos silenciar, evitando maiores conflitos e dores.

Eis o que significa a palavra prudência, Emmanuel nos auxilia nesta questão.

Livro Companheiro — Emmanuel (psicografia de Chico Xavier)

Na visão do mundo

Não diga que o mundo é perverso, quando é justamente do chão do mundo que se recolhe a
bênção do pão.

O charco é uma queixa da gleba contra o descaso do lavrador.

Compara a Terra à uma universidade e notarás que todo Espírito encarnado é um aluno em
formação.

Aquilo que plantares nos corações alheios é o que colherás nas manifestações dos outros.

Quem aplique lentes enfumaçadas nos olhos, não notará senão tristeza onde o mundo está
ostentando as cores da esperança e da alegria.

A existência para cada um de nós é o que estivermos fazendo.

Cada pessoa vê no mundo a própria imagem.

A melhor crítica é aquela que se expressa mostrando como se deve fazer.

A utilidade é a força real que assegura a situação de cada um.

A proteção mais segura que possas desfrutar é a de teu próprio serviço.

Não perguntes além do necessário, para que os teus encargos não surjam atrasados.

De quando a quando, para efeito de valorização do tempo, relaciona quantas palavras terás
pronunciado, no transcurso do dia, sem qualquer significação para o bem.
A sabedoria da vida te colocou no lugar onde possas aprender com eficiência e servir
melhor.

Quando alguém condena o mundo, é porque se sente condenado em si mesmo.

O trabalho que executes é a tua certidão de identidade do ponto de vista espiritual.

Faze e terás certamente aquilo que esperas seja feito.

O que estiveres realizando para os outros é justamente o que estás realizando por ti mesmo.

As leis do mundo não se enganam: o que deres de ti, ser-te-á dado.

A Terra é a nossa escola benemérita: lembra-te de que o relógio não para.”

Importante se faz trazermos a lição para a nossa vida cotidiana.

Conhecemos o Evangelho e desejamos que o mundo o conheça para que possamos viver em
paz. A lição, porém, requer de nós o testemunho pessoal e, por isso, ainda é tão difícil para o
mundo reconhecer no Evangelho do Cristo a salvação para suas vidas: não somos o reflexo
fidedigno dos seus ensinamentos.

Ao longo dos séculos, em nossas diversas vidas, modificamos os ensinos deixados por Jesus,
esquecendo-nos dos postulados maiores que são o amor a Deus e ao próximo. Nada está
acima do amor, e apenas quando pautarmos nossas vidas desta forma, seremos o exemplo que
arrasta, a vida que inspira.

É fácil falar, belos discursos são proferidos há milênios, no entanto, é a vida que referenda a
palavra e neste quesitos, poucos são os homens que podem usar a sua vida como exemplo de
transformação moral operada pelo Evangelho.

Paulo foi um exemplo e Pedro também. Ambos deixaram-se transformar, reconhecendo,


porém, com humildade, suas falhas e desenganos.

A verdade é algo que ainda está distante de nós, ante a nossa imperfeição. No entanto,
quantos não usam as vestes de que sabem, de que o que dizem é verdadeiro e deixam de ouvir
opiniões diversas¿ Como aprender se já sabem tudo¿ Como discernir se estão sempre certos¿

Paulo chamou Pedro para o confronto e este, com toda humildade, apenas lhe pediu perdão e
seguiu em frente, sem contendas, sem justificativas.

São posturas de vida que muito nos ensinam e nos inspiram a buscar um melhor viver. Saber
a hora de agir e a hora de silenciar é um grande desafio, mas se nossas intenções estiverem
alicerçadas nos postulados do Cristo, de amor e paz, saberemos como agir.

Presenciamos, hoje, com grande tristeza, muitas brigas e disputas dentro do movimento
espírita. A lição de Paulo e Pedro, no entanto, nos convida à conciliarmos nossas idéias, não
atribuindo a fatos exteriores a importância que promova dissenções, o momento requer
paciência, amor, compaixão. Sigamos com Jesus.

Encerramos com o texto de Emmanuel que trata desta postura diante do “suposto” erro
alheio.

Fonte viva — Emmanuel

Busquemos o melhor

“Por que reparas o argueiro no olho de teu irmão?” — JESUS (Mateus, 7.3)

A pergunta do Mestre, ainda agora, é clara e oportuna. Muitas vezes, o homem que traz o
argueiro num dos olhos traz igualmente consigo os pés sangrando. Depois de laboriosa
jornada na virtude, ele revela as mãos calejadas no trabalho e tem o coração ferido por mil
golpes da ignorância e da inexperiência.

É imprescindível habituar a visão na procura do melhor, a fim de que não sejamos


ludibriados pela malícia que nos é própria.

Comumente, pelo vezo de buscar bagatelas, perdemos o ensejo das grandes realizações.

Colaboradores valiosos e respeitáveis são relegados à margem por nossa irreflexão, em


muitas circunstâncias simplesmente porque são portadores de leves defeitos ou de sombras
insignificantes do pretérito, que o movimento em serviço poderia sanar ou dissipar.

Nódulos na madeira não impedem a obra do artífice e certos trechos empedrados do campo
não conseguem frustrar o esforço do lavrador na produção da semente nobre.

Aproveitemos o irmão de boa vontade, na plantação do bem, olvidando as nugas que lhe
cercam a vida.

Que seria de nós se Jesus não nos desculpasse os erros e as defecções de cada dia? E, se
esperamos alcançar a nossa melhoria, contando com a benemerência do Senhor, por que
negar ao próximo a confiança no futuro?

Consagremo-nos à tarefa que o Senhor nos reservou na edificação do bem e da luz e


estejamos convictos de que, assim agindo, o argueiro que incomoda o olho do vizinho, tanto
quanto a trave que nos obscurece o olhar, se desfarão espontaneamente, restituindo-nos a
felicidade e o equilíbrio, através da incessante renovação.

Um fraterno abraço e até o próximo estudo.

Campo Grande – MS, junho de 2019.

Candice Günther