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COTAS RACIAIS: CRÍTICAS, JUSTIFICATIVAS E RESULTADOS1

Letícia Franco

Resumo

Este artigo estuda a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental número 186


que tramitou no Supremo Tribunal Federal e questões relacionadas às cotas para
afrodescendentes nas universidades, questionando-se a possibilidade de reparação da
desigualdade racial por meio delas. Para tanto realizou-se a leitura dos instrumentos legais
articulados na Arguição, os fundamentos dos Ministros, a cronologia das cotas raciais (até
o momento da produção deste artigo), e de alguns traços da “opinião pública” (no caso
restrita a algumas publicações midiáticas).

Palavras-chave: Cotas raciais; desigualdade racial; racismo; minorias.

Abstract

This article studies the ADPF 186/STF and aims to analyze the issues about this form of
university admission, questioning the possibility of reparation of racial inequality. For
this purpose articulated legal instruments in the action above are observed, ministerial
vows, some media publications and critical theory about the subject.

Key words: Racial inequality; racism; political minorities; racial quotes.

1
Este texto constitui uma versão reduzida de Monografia desenvolvida e apresentada à faculdade de Direito
da Universidade Presbiteriana Mazkenzie
Introdução

A questão da adoção de cotas para afrodescendentes nas


universidades fez surgir um debate político, jurídico, econômico e social sobre a
legitimidade de tal instrumento. O que é evidenciado na propositura pelo partido
Democratas – DEM – da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental número
186, argumentando que se trata de algo “racialista” e “inadequado”.

No Recurso Extraordinário 597.285 do Rio Grande do Sul,


igualmente, há problematização do instrumento, já que candidato argui ter sido preterido
em relação a outros que alcançaram “nota inferior no vestibular” por estes serem “negros
egressos do ensino público”.

Nessa toada, ainda, outro exemplo do impacto da adoção da


referida cota seria a posterior adoção em diferentes universidades no território nacional
do mesmo intrumento – Universidade de Brasília, Universidade do Rio de Janeiro e
Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro; além das notícias vinculadas
por mídias de grande circulação; e discussões acadêmicas sobre sua legitimidade e
enquadramento científico, como discorrido por Feres Junior e Campos2.

Nesse sentido, analisaremos, primeiramente, a ADPF 186,


considerando, para tanto, críticas realizadas em trabalhos acadêmicos sobre o tema; assim
como crítica advinda de mídia de grande circulação; e a análise da cronologia da ação
afirmativa ora abordada.

Diante dessas perspectivas buscaremos, por fim, verificar a


possibilidade de promoção da proteção à minoriais consagrada na Constituição Federal e
nos preceitos internacionais adotados pelo país e, ainda, se é possível a partir delas reparar
desigualdade racial.

2
CAMPOS, Luiz Augusto; FERES JUNIOR, João. Ação afirmativa, comunitarismo e
multiculturalismo: relações necessárias ou contingentes? Ver. Bras. Ci. Soc., São Paulo, v. 29, n.84, p.
103-118, fev. 2014. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?scipt=sci_arttext&pid=S0102-
69092014000100007&1ng=en&nrm=iso>. Acesso em: 24 maio 2015.
Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental número 1863

Arguição proposta pelo partido político Democratas (DEM)


contra a Universidade de Brasília na pessoa de seu Reitor e Centro de Seleção e de
Promoção, atacando atos instituidores de cotas raciais para ingresso nessa universidade
que reservaram 20% (vinte por cento) das vagas universais para pessoas autodeclaradas
negras que possuíssem as características avaliadas pelo “Tribunal Racial” da
universidade.

Primeiramente, nas fls. 4 da ADPF, vemos que o arguente não


questiona o instituto da ação afirmativa para inclusão de minorias, tampouco a existência
de racismo, preconteito ou discriminação. Porém alega que seriam inadequadas as
políticas afirmativas como a adotada pela UnB, em razão da necessidade de observação
dos princípios democráticos, sociais e jurídicos previstos na Constituição Federal.

Nesse sentido aponta que a acessibilidade à direitos fundamentais


no Brasil não está vinculada à questões raciais, mas questões econômicas.

De outra sorte, o arguente afirma que a adoção de tal medida


implica em prejuízos às minorias, visto que instituiria consciência estatal de “raça”,
ofenderia os princípios constitucionais da igualdade, legalidade, proporcionalidade,
devido processo legas, princípio do acesso aos níveis mais elevados de ensino, da
pesquisa e da criação artística segundo a capacidade de cada um e dignidade humana.
Favorecendo apenas os autodeclarados negros, discriminando brancos pobres e
favorecendo a classe média autodeclarada negra.

Assim, acusa-os de “racismo institucionalizado”, comparando


com casos da África do Sul, Estados Unidos da América e Ruanda.

Os arguidos defenderam-se, fls. 7 e 8 da ADPF, utilizando,


também, o princípio da dignidade humana como fundamento, dizendo que não há

3
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ADPF n.º 186. Arguente: Democratas – DEM. Arguidos: Reitor da
Universidade de Brasília e Centro de Seleção e de Promoção de Eventos da Universidade de Brasília –
CESPE/UnB. Relator: Ministro Ricardo Lewandowski. Brasília, DF, 26 de janeiro de 2012. Plenário do
Supremo Tribunal Federal. Brasília 20 out. 2014. Disponível em
<http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=6984693>. Acesso em: 15 ago.
2015.
ignorância que os cidadãos negros sofrem condições desfavoráveis, o que seria sustentado
por dados estatísticos. Além de fazer referência à Carta Magna, como diploma legal que
fundamenta seus argumentos e, também, à Convenção sobre Eliminação de Todas as
Formas de Discriminação Racial.

Ademais, os arguidos trazem argumentos baseados na realidade


brasileira no sentido de que, por exemplo, exige, além de normas negativas sobre o
racismo, regras que promovam a igualdade, uma vez que a lei que vedou não foi suficiente
para exterminá-lo, portanto insuficiente diante das premissas constitucionais.

A Procuradoria Geral da República, por meio de parecer,


representada por sua Vice-Procuradora-Geral, Débora Duprat, manifestou-se pela
improcedência da ADPF 186, observando que a medida é conforme com o
constitucionalismo social no qual a Constituição Federal está inserida – fls. 9 da ADPF.

A Advocacia Geral da União, fls. 10, através de manifestação


aduziu que diante da discriminação evidente da sociedade a medida é legítima.

Provocando, a ADPF, ainda, participação de organizações


interessadas, resultando em petição da Central Única dos Trabalhadores do Distrito
Federal (CUT/DF), da Defensoria Pública da União (DPU), do Instituto da Advocacia
Racial e Ambiental (IARA), da Sociedade Afro-brasileira do Desenvolvimento Sócio
Cultural (AFROBRAS), do Instituto Casa da Cultura Afro-brasileira (ICCAB), do
Instituto de Defensores dos Direitos Humanos (IDDH), do Movimento Pardo-Mestiço
Brasileiro (MPMB), da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), da Funação Cultural
Palmares, do Movimento Negro Unificado e da organização governamental Criola, para
serem admitidos como Amicus Curiae.

Dessas manifestações foram permitidos à cinco representantes de


cada perspectiva (pelo deferimento e pelo indeferimento) de fazerem apresentações de
seus argumentos em audiência pública.

Daqueles que entendiam pelo deferimento, destacam-se algumas


colocações, Wanda Marisa Gomes Siqueira, fls. 21 da ADPF, critica a medida pela não
exigência de comprovação de renda dos estudantes e que as vagas não preenchidas pelo
não atendimento da nota mínima não foram preenchidas pelos estudantes que não se
declararam negros e alcançaram a nota.
Sergio Danilo Pena, fls. 21 da ADPF, fundamentando-se em
genética humana, alegou que há contradição sobre o conceito de raça, posto que este
conceito não seria cientificamente aceito, mas mera característica de pigmentação da pele.

Yvonne Maggie, fls. 21 da ADPF, alegou que a medida é um


apartheid social, que leis raciais não combatem desigualdades, mas aumentam a ideia de
desigualdades entre as pessoas.

George de Cerqueira Leite Zarur, fls. 22 da ADPF, da Faculdade


Latino-Americana de Ciências Sociais, alegou que é impossível trazer a ideia de equidade
ao caso sob análise, porque não há desiguais que precisem ser igualados, tendo em vista
que a desigualdade baseada em raça ou aparência não existe.

Eunice Ribeiro Durham, fls. 22 da ADPF, questiona os aspectos


negativos das cotas raciais, como a não consideração de mérito para o ingresso ou a cor
da pele como característica necessária para ingressar. Bem como afirma que o acesso ao
Ensino Supeior é resultado da eficiência ou deficiência da formação escolar, portanto o
ponto a ser combatido não seria a desigualdade social, mas a má formação nos níveis
fundamentais no Estado Brasileiro.

Contrários às posições supracitadas, Luiz Felipe de Alencastro,


fls. 23 da ADPF, representante da Fundação Cultural Palmares, fundamenta-se na
consolidação da democracia no Brasil.

Oscar Vilhena, fls. 23 da ADPF, da Conectas, por sua vez,


argumenta que a educação universitária deve basear-se na capacidade de cada um, no
entanto que o vestibular não o faz, aferindo, apenas, o investimento que foi dado até
aquele momento por cada indivíduo.

Kabengele Munanga, fls. 24 da ADPF, pelo Centro de Estudos


Africanos da Universidade de São Paulo (USP), defende a integração gerada por esta
política.

Leonardo Avritzer, fls. 24 da ADPF, da Universidade Federal de


Minas Gerais (UFMG), defende a adoção do critério raça para a política e acrescenta que
outros fatores também devem ser considerados.

O representante da Coordenação Nacional de Entidades Negras


(CONEN), Marcos Antônio Cardoso, fls. 26 da ADPF, diz que a implantação das cotas
raciais externa a realidade do racismo e a aceitação tácita que deve ser combatida, tendo,
dessa forma, outra característica positiva ao integrar jovens negros e pobres ao ensino
superior.

Seguiram-se outros pronunciamentos a favor e contra as cotas


raciais, representando a polêmica e a solidariedade provocadas na sociedade brasileira em
seus caracteres mais amplos, alcançando interesse econômico, social, político e jurídico.
Aqueles que se manifestaram, portanto, exerceram seus direitos de apresentarem a
perspectiva e os argumento científicos que lhes pareceu pertinentes e que também
suscitaram interesse público.

Diante do abordado, pelas partes e interessados, explicitados faz-se necessária


uma análise, ainda que breve, dos dispositivos jurídicos repetidamente trazidos, quais
sejam: artigos 1.º, caput, III; 3.º, IV; 4.º, VIII; 5.º, I, II, XXXIII, XLII e LIV; 37, caput;
205; 207, caput; e 208, V, da Constituição Federal4.

Do ordenamento jurídico nacional

Primeiramente, o artigo 1.º da Constituição Federal de 1988


estabelece os fundamentos da República Federativa do Brasil através de um rol taxativo
constituído pela Soberania, Cidadania, Dignidade da Pessoa Humana, Valores Sociais do
Trabalho e da Livre Iniciativa e pelo Pluralismo Político, além de ter um parágrafo único
acentuando que o poder é emanado do povo mediante sufrágio.

Dispõe: "Art. 1.º - A República Federativa do Brasil, formada


pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em
Estado Democrático de Direito e tem como fundamento: [...] III - a dignidade da pessoa
humana". O Arguente, partido político DEM, ao utilizar-se desse artigo e inciso como
fundamentos à arguição afirmou que as cotas raciais inobservam um dos fundamentos da
República, Dignidade da Pessoa Humana.

4
PLANALTO. Constituição Federal, 1988, de 5 de janeiro de 1988. Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>. Acesso em: 20 mar.
2015.
Isto é, que desrespeita o ser humano, impossibilitando sua
realização, como acentua Awad (2006)5:

"a) igualdade de direitos entre todos os homens, uma vez


integrarem a sociedade como pessoas e não como cidadãos; b)
garantia da independência e autonomia do ser humano, de
forma a obstar toda coação externa ao desenvolvimento de sua
personalidade, bem como toda atuação que implique na sua
degradação e desrespeito à sua condição de pessoa, tal como se
verifica nas hipóteses de risco de vida; c) não admissibilidade
da negativa dos meios fundamentais para o desenvolvimento
de alguém como pessoa ou imposição de condições sub humanas
de vida." (Grifo acrescido)
Entendendo o arguente, portanto, que as cotas raciais, ao
estabelecerem uma vantagem quantitativa aos negros, implicam em um obstáculo à
dignidade, isto é, igualdade de direitos, independência, autonomia e, ainda, uma negativa
ao desenvolvimento dos indivíduos na sociedade brasileira.

Em seguida, ao abordar o artigo 3.º, IV, da Constituição Federal


(Da Promoção do Bem de Todos, Sem Preconceitos de Origem, Raça, Sexo, Cor, Idade
e Quaisquer Outras Formas de Discriminação), em que se estabelecem os objetivos
fundamentais, quais sejam, construir uma sociedade livre, justa e solidária, garantir o
desenvolvimento nacional, erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as
desigualdades sociais e regionais e promover o bem de todos, sem preconceitos de
origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Afirma o arguente, destarte, que ferem o objetivo da Constituição


Federal, que significaria, além de desvirtuar o norte Social e Democrático adotado no
Brasil, provocar o efeito inverso ao que este dispositivo determina. Ou seja, as cotas
raciais, privilegiariam pessoas com características físicas determinadas, discriminando
pessoas com mesmo status social ou vulnerabilidade social.

De outra sorte, a Constituição Federal ao equivaler o terrorismo e


o racismo como objetos de repúdio atendeu aos clamados internacionais, porque firma-se
a partir dessa postura os direitos humanos no Brasil. Considerando, como reafirmado no
acórdão, o progresso da humanidade através da cooperação entre os povos.

5
AWAD, Fahd. O princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. Justiça do Direito, Passo
Fundo, v. 20, n. 1, p.111-120, jan. 2006. Anual. Disponível em:
<http://www.upf.br/seer/index.php/rjd/article/viewFile/2182/1413>. Acesso em: 27 abr. 2015.
Portanto, o partido político DEM também alega que a ação
afirmativa, materializada por meio das cotas raciais, fere a Constituição Federal no que
concerne ao racismo e tratados internacionais sobre o tema.

Ao arguir que a adoção de cotas raciais pela universidade infringe


ao artigo 5º da Constituição Federal está-se a trazer o dispositivo chave do Título dos
Direitos e Garantias Fundamentais, objeto central da Suprema Corte, como afirma o
Ministro Luiz Fux no referido acórdão, que estabelece grande parte dos direitos e
obrigações civis e sociais do Estado Brasileiro.

Elencadas algumas partes desse dispositivo, temos em seu caput


a premissa básica da igualdade entre os cidadãos brasileiros, uma vez que estabelece a
igualdade perante à lei, indiscriminadamente, estendida aos brasileiros e estrangeiros,
bem como a proteção da vida, liberdade, segurança e propriedade.

Determina a Constituição Federal6:

"Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer


natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade,
à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: I
- homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos
termos desta Constituição; II - ninguém será obrigado a fazer ou
deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei; [...] XXXIII
- todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de
seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que
serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade,
ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da
sociedade e do Estado; [...] XLII - a prática do racismo constitui
crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão,
nos termos da lei; [...] LIV - ninguém será privado da liberdade
ou de seus bens sem o devido processo legal;"
Piovesan (2010)7, com o intuito de demonstrar que as cotas
raciais tem a função de enfrentar uma injustiça social, econômica e cultural vigente,
obviamente contrária aos direitos humanos resguardados pela ordem constitucional e

6
PLANALTO. Constituição Federal, 1988, de 5 de janeiro de 1988. Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>. Acesso em: 20 mar.
2015.
7
PIOVESAN, Flávia. Cotas para afro-descendentes nas universidades ADPF 186 e recurso
extraordinário 597.285/RS: a compatibilidade das cotas raciais com a ordem internacional e com a ordem
constitucional brasileira. [?]. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/
processoAudienciaPublicaAcaoAfirmativa/anexo/cotas
STF2010rev1_Flavia_Piovesan.doc>. Acesso em: 06 abr. 2015.
internacional, abordou alguns instrumentos normativos, dentre eles a Constituição da
República Federativa do Brasil, que como afirma é a "reinvenção do marco jurídico
normativo brasileiro no campo da proteção dos direitos humanos".

Entende, a referida autora, portanto, que não há qualquer infração


ou inobservância à constituição. Pois ela insere em seus objetivos, como já citamos, itens
como a construção da sociedade livre, justa e solidária. O que significa dizer que a
Constituição Federal determina que as desigualdades devem ser reduzidas, valorizando a
diversidade e a promoção das minorias.

Silva (2007)8, no mesmo sentido, analisando a compatibilidade


das ações afirmativas cotas raciais para ingresso na universidade, estuda a
compatibilidade de sua implantação, examinando a jurisprudência e os instrumentos
nacionais e internacionais sobre o assunto. Também conclui que há compatibilidade,
porém que carecem de ampliação e aperfeiçoamento.

Nesta pesquisa Silva percebendo a indagação de estudiosos, se


haveria ou não violação do princípio da igualdade, da proporcionalidade na adoção da
medida, inobservância do aspecto do mérito para alcançar a vaga pleiteada ou existência
de procedimento eficaz e cientificamente embasado, faz um elenco de elementos
constitucionais que devem ser ressaltados.

A partir do elenco citado, verificando-se a doutrina brasileira à


luz da constituição percebe-se que há uma corrente entre a maioria dos autores propondo
a implantação de medidas como essa, favorecendo aqueles que vivem em situação
desigual, seja economicamente, seja socialmente, assim não há violação da Carta Magna,
mas, diversamente, há uma atuação positiva com o fim de proporcionar a isonomia
material e a concretude dos princípios ora vigentes.

8
SILVA, Luiz Fernando Martins da. Políticas da ação afirmativas para negros no Brasil: considerações
sobre a compatibilidade com o ordenamento jurídico nacional e internacional. Revista Jurídica, Brasília,
v. 8, n. 82, p. 64-83, dez./jan. 2007. Bimestral. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/
revista/Rev_82/Artigos/PDF/LuizFernando_rev82.pdf>. Acesso em: 24 maio 2015.
Do ordenamento jurídico internacional

Como explicitado acima a professora Piovesan (2010)9 e Silva


(2007)10 realizaram estudos sobre as ações afirmativas como as cotas para
afrodescendentes nas universidades à luz do ordenamento jurídico. Nesse tópico
abordaremos a questão voltada ao âmbito internacional.

Piovesan, afirma que existem três destacáveis vertentes da


concepção de igualdade. Explicando que a primeira delas é a igualdade formal, que
tratamos no voto dos relatores, essa igualdade é reduzida na frase "igualdade legal". Após,
traz a igualdade material, igualmente tratada nos votos, que como explica a professora,
advém de um ideal de justiça social e distributiva ("igualdade orientada pelo critério
socio-econômico"). E, por fim, a igualdade material, também advinda do ideal de justiça,
mas com um elemento de identidade para os quais é voltada ("igualdade orientada pelos
critérios de gênero, orientação sexual, idade, raça, etnia e demais critérios").

Nesse sentido Piovesan explica que o caráter bidimensional da


justiça se vê refletido nessas políticas de ação afirmativa. De um lado a justiça no sentido
de equiparação econômica, e, de outro, o da justiça voltada ao reconhecimento de
identidades.

Nesse sentido retornamos ao enfoque da igualdade material - seja


no sentido econômico ou de identidade - para a consecução da igualdade formal. Isso
porque a mera proibição ou repressão não permitem a igualdade de fato. Reafirmando a
necessidade de estratégias promocionais que visem a inclusão de grupos vulneráveis.

Piovesan, conclui, portanto, que, para a realização dos direitos


previstos nacional e internacionalmente, as ações afirmativas são necessárias, na medida
em que são democráticas, valorizam a diversidade, promovem justiça social, e interagem
com um passado discriminatório e um futuro socialmente transformado.

9
PIOVESAN, Flávia. Cotas para afro-descendentes nas universidades ADPF 186 e recurso
extraordinário 597.285/RS: a compatibilidade das cotas raciais com a ordem internacional e com a ordem
constitucional brasileira. [?]. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/
processoAudienciaPublicaAcaoAfirmativa/anexo/cotas
STF2010rev1_Flavia_Piovesan.doc>. Acesso em: 06 abr. 2015.
10
SILVA, Luiz Fernando Martins da. Políticas da ação afirmativas para negros no Brasil: considerações
sobre a compatibilidade com o ordenamento jurídico nacional e internacional. Revista Jurídica, Brasília,
v. 8, n. 82, p. 64-83, dez./jan. 2007. Bimestral. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/
revista/Rev_82/Artigos/PDF/LuizFernando_rev82.pdf>. Acesso em: 24 maio 2015.
Quanto a pesquisa realizada por Silva (2007)11 no âmbito
internacional, podemos apreender que há várias leis e dispositivos que preveem a proteção
de direitos fundamentais, entre eles a igualdade racial e a sua promoção por meio de
medidas afirmativas.

Mais uma vez deparamo-nos, assim, com instrumentos


legislativos que fundamentam as medidas afirmativas. Ressalta, também, o autor que ao
analisar a legislação internacional, devemos, ao comparar, evitarmos a cópia porque não
perceberia as particularidades de cada país, examinando, além do aspecto formal, o modo
pelo qual é posto em prática.

Entendendo, por fim, que a história da construção de uma


sociedade permite verificarmos a necessidade de equivalermos as pessoas no plano
material, no caso porque os negros foram vítimas da escravidão, quando da abolição não
tiveram respaldo para a prática da igualdade.

E, ainda hoje, temos um reflexo disso porque há desproporção


entre a realidade de pessoas detentoras de determinadas características. Observando-se
que apenas o Estado pode promover a equivalência por meio de ação afirmativa que
trabalhe a relação inter-racial.

Dos votos da ADPF6

O primeiro a manifestar o voto foi o então relator Ministro


Ricardo Lewandowski, fls. 26. Ao analisar as preliminares destacou que as Ações
Afirmativas estão entre os temas clássicos abordados pela Suprema Corte, ressaltado,
portanto, a necessidade de definirem uma resolução.

O tema sob estudo recai sobre diferentes princípios


constitucionais, no entanto o princípio da igualdade é o primeiro a ser lembrado e, no
caso, a ser abordado pelo Ministro relator.

11
SILVA, Luiz Fernando Martins da. Políticas da ação afirmativas para negros no Brasil: considerações
sobre a compatibilidade com o ordenamento jurídico nacional e internacional. Revista Jurídica, Brasília,
v. 8, n. 82, p. 64-83, dez./jan. 2007. Bimestral. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/
revista/Rev_82/Artigos/PDF/LuizFernando_rev82.pdf>. Acesso em: 24 maio 2015.
Pondera, observando a questão frente a esse princípio, que o
princípio da igualdade deve ser analisado sempre sobre seu duplo enfoque, quais sejam,
igualdade material e igualdade formal. A igualdade formal, a primeira a ser
historicamente conquistada e mais facilmente visível é a igualdade de todos perante a lei.
Não podendo o Estado, destarte, distinguir as pessoas que estão sob seu abrigo.

De outra sorte, a igualdade material ultrapassa esse primeiro


limite, pertencendo tanto aos brasileiros como aos estrangeiros, como podemos ler na
Constituição Federal. Ela garante a todos os indivíduos, nas palavras do relator, a
observância da “diferença que os distingue por razões naturais, culturais, sociais,
econômicas ou até mesmo acidentais”.

Surgindo daí a possibilidade de o Estado, através de Políticas


Universalistas ou de Ações Afirmativas, fazer com que as desigualdades sejam superadas.
Portanto, a igualdade formal não se vê necessariamente mitigada em prol da igualdade
material, mas aquela apenas é possível quando esta estiver presente.

Em um Estado onde as desigualdades existem e onde elas devem


ser combatidas, como o Estado Democrático e Social Brasileiro, é natural, segue o relator,
a expectativa de medidas que proporcionem a equidade entre os cidadãos.

O Ministro Lewandowski, então, exposto o mencionado, passa a


destacar outros aspectos jurídicos que concernem ao tema em discussão. Assim, no
sentido de discutir uma promoção da igualdade de possibilidades e a participação
equitativa nos bens sociais, tem-se na doutrina da Justiça Distributiva a técnica que
permite esta inclusão, no caso sob análise, àqueles grupos historicamente marginalizados.

Entre a análise das questões levantadas pelo partido político


DEM, entendeu, o relator, que é necessário ressaltar que não é, esta Ação Afirmativa,
uma mera importação do direito norte americano. Ademais frisa que elas "têm origem na
Índia, país marcado, há séculos, por uma profunda diversidade cultural e étnico-racial,
como também por uma conspícua desigualdade entre as pessoas, decorrente de uma rígida
estratificação social".

Quanto à constitucionalidade dos critérios para ingresso em uma


universidade, destaca que nossa Constituição Federal “ao mesmo tempo em que
estabelece a igualdade de acesso, o pluralismo de ideias e a gestão democrática como
princípios norteadores do ensino, também acolhe a meritocracia como parâmetro para a
promoção aos seus níveis mais elevados”.

Assim, entende-se válido questionar se essas medidas são


constitucionais, porque presente na Constituição Federal o critério da meritocracia para
admissão em universidades. Porém, é indiscutível a desigualdade das condições sociais
dos vestibulandos, destarte, a análise sistemática da Constituição Federal permite concluir
que não se pode ter uma ótica puramente positivista.

Nesse contexto o objeto da discórdia, critérios de seleção, devem


ser observados no sentido de manterem-se as funções sociais de seu emprego. E, apenas
desta forma, poder-se-á alcançar objetivos constitucionais.

No que tange à adoção do critério étnico-racial, foi questionado


pelo Arguente o conceito de raça, porque não mais aceitável no âmbito científico
biológico. No entanto, as ciências sociais todavia estão permeadas destas questões devido
a fatores históricos, políticos e sociais, e, por isso, deve ser objeto da ciência jurídica.

Um dos efeitos que as Ações Afirmativas, como a sob enfoque,


exprimirão será a promoção de lideranças compostas também pelas características étnico-
raciais promovidas. Permitindo a equivalência e proteção democrática de direitos, bem
como a integração e ascensão social. Ultrapassada a necessidade meramente distributiva,
reconhecendo e valorizando os diferentes grupos étnicos e culturais.

Fez-se necessário, também, discutir os mecanismos de análise do


componente étnico-racial, o relator, diante da autoidentificação e heteroidentificação,
entende que são razoáveis, as primeiras por selecionar pessoas que se identificam como
tais e, em segundo lugar, a identificação por terceiros que visaria garantir a promoção do
objetivo da Ação Afirmativa.

Por outro lado, o Ministro Lewandowski, encerra sua análise com


dois fatores que entende fundamentais para o proposto pela Ação Afirmativa cotas raciais.
Quais sejam a transitoriedade e a proporcionalidade. Isto porque quando a distorção
histórica for corrigida não haverá motivo para mantê-las, o que foi observado pela
Universidade de Brasília, que estabeleceu um prazo para reavaliar o resultado; quanto a
proporcionalidade diz o relator que além da nobreza de intenção deve haver
proporcionalidade entre o meio empregado e o fim desejado, razoavelmente.
Seguindo o relator e seu voto passou-se a palavra ao Ministro
Luiz Fux, fls. 103 da ADPF, que com acentuada concordância com o relator, reafirma
que a mera igualdade formal não é suficiente para promover a diversidade nas
universidades. Fundamentando a política de cotas com as seguintes palavras: “permitir
que a universidade seja capaz de formar um corpo discente plural, capaz de abarcar
pessoas oriundas de camadas carentes da população e de minorias desfavorecidas,
construindo um futuro promissor em termos de integração e inclusão social”.

Cita, ainda, algumas leis que instrumentalizam o programa


constitucional, quais sejam, a Lei n.º 9.394/1996, que diz que compete às instituições
educacionais deliberar sobre critérios e normas de seleção e admissão de estudantes; Lei
n.º 10.172/2001, que aprovou o Plano Educacional de Educação que determina como
objetivo a adoção de políticas que facilitem o acesso à educação superior às minorias; Lei
n.º 10.558/2002 que implementa o Plano Diversidade na Universidade; Lei n.º
10.678/2003 que criou a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade
Racial; e Lei n.º 12.228/2010 que institui o Estatuto da Igualdade Racial; além de trazer,
também, a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de
Discriminação Racial, internalizada pelo Decreto n.º 65.810/1969.

A Ministra Rosa Weber, fls. 121 da ADPF, no mesmo sentido,


acrescenta ao que foi abordado a respeito do princípio da igualdade que “sem igualdade
mínima de oportunidades, não há igualdade de liberdade”, e tendo em vista que os negros
- pardos e pretos - tiveram, histórica e socialmente, um afastamento das oportunidades
dos indivíduos tidos por brancos - acentuado pelo dado de que entre os 10% (dez por
cento) da população mais pobre do Brasil, 75% (setenta e cinco por cento) é negra -
entende-se devida a ação, julgando no mesmo sentido, portanto, dos Ministros que
anteriormente votaram.

Seguindo, a Ministra Cármen Lúcia, fls. 137 da ADPF, passou a


expor sua fundamentação no sentido de que a igualdade, mais uma vez deve ser o ponto
de partida para a cognição da questão, uma vez que derivada de um processo dinâmico,
bem como de responsabilidade estatal. Acentuando que as ações afirmativas não são as
melhores opções para a atuação estatal, no entanto a melhor opção se vê inviável, porque
seria aquela em que a realidade é a igualdade de oportunidade e de liberdade à todos. Por
isso reafirma-se uma vez mais que as ações afirmativas são uma etapa.
Além de reafirmar o caráter temporal da ação afirmativa a
Ministra Cármen Lúcia traz a necessidade de as universidades aprimorá-las. No aspecto
de que outras medidas devem acompanhá-las, exemplificando com grupos de apoio em
determinados idiomas.

O Ministro Joaquim Barbosa acompanhou o voto do relator na


íntegra, conforme fls. 154 da ADPF. Então passou-se a palavra ao Ministro Cezar Peluso,
fls. 155 da ADPF. No seu entender trata-se de um dever jurídico e ético diante de
desigualdades como a combatida pela ação afirmativa cotas raciais nas universidades.

Apartado pelo senhor Ministro Gilmar Mendes, fls. 157 da


ADPF, entendeu por bem considerar que outro aspecto deve ser observado, qual seja a
necessidade de expansão no número de vagas nas universidades, o que, segundo ele,
minimizaria a tensão gerada por tal medida.

Os Ministros Marco Aurélio, fls 210, e Ayres Brito, fls. 220 da


ADPF, entenderam no mesmo sentido. Concluindo, assim, que para os Ministros ao
Supremo Tribunal Federal, diante da Arguição de Descumprimento de Preceito
Fundamental número 186, a ação afirmativa cotas raciais adotada pela Universidade de
Brasília é constitucional.

Portanto decidiram pela improcedência da ação. Significando, por


conseguinte, que a acessibilidade à direitos fundamentais no Brasil, no entender dos
Ministros está vinculada também a questões raciais, que a medida, por seu caráter
experimental e temporal deverá ser reavaliada e aprimorada, mas que há observância dos
princípios constitucionais da igualdade, legalidade, proporcionalidade, devido processo
legal, princípio do acesso aos níveis mais elevados do ensino e da pesquisa e da criação
artística segundo a capacidade de cada um e dignidade humana.

Cronologia da ação afirmativa cotas raciais no Brasil

Em pesquisa realizada por Verônica Toste Daflon, João Feres


Junior e Luiz Augusto Campos12, podemos verificar as modalidades de ações afirmativas

12
DAFLON, Verônica Toste; FERES JUNIOR, João; CAMPOS, Luiz Augusto. Ações afirmativas raciais
no ensino superior público brasileiro: um panorama analítico. Cad. Pesqui., São Paulo , v. 43, n.
148, Apr. 2013 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-
15742013000100015&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 06 abr. 2015.
raciais em vigor nas universidades públicas até 2012 e os diagnósticos sobre as
desigualdades educacionais no Brasil, isso porque, estes pesquisadores realizam um
levantamento de leis, resoluções e regimentos. Permitindo vislumbrar que esse tipo de
ação afirmativa é aplicada de maneira diversa entre as regiões brasileiras, acrescentando-
se que poderá haver homogeneização com a aplicação da lei federal de cotas de 29 de
agosto de 2012.

Discorrem os citados autores que o estudo tem por base onze leis
estaduais e setenta e sete resoluções de conselhos universitários, responsáveis pela
instituição das ações afirmativas objeto de estudo nas universidades brasileiras.
Informações selecionadas pelo grau de detalhamento das razões, procedimento e
objetivos. Estas informações foram cruzadas, como explicam na pesquisa, com dados
sobre a magnitude do vestibular nas diversas regiões brasileiras.

Ressaltam, ainda, que as primeiras universidades a chamar a


atenção da mídia, em 2003, foram a Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ -
e a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, as quais reservaram
quarenta por cento das vagas disponíveis aos estudantes negros ou pardos, vagas estas
inseridas nas cotas destinadas aos estudantes da rede pública.

Assim as universidades que passaram a adotar a ação afirmativa


de cotas raciais para ingresso na universidade , majoritariamente, exigiam que fossem
advindos da rede pública de educação, o que subentende-se indicarem carência
econômica. No entanto, uma minoria, doze por cento, exigia a comprovação da baixa
renda. Uma, entre todas as pesquisadas exigia, além da proveniência da rede pública, a
comprovação da baixa renda.

Essa medida inclusiva estendeu-se por todo o território nacional


e passou aos seguintes números13:

"Atualmente 9,3% das vagas disponíveis nos vestibulares de 1.º e


2.º semestre das universidades públicas estaduais e federais em
todo o Brasil estão reservados para candidatos pretos e pardos
pelo regime de cotas fixas. Esse percentual é de 11,3% para
alunos egressos de escolas públicas e de baixa renda. Outros

13
DAFLON, Verônica Toste; FERES JUNIOR, João; CAMPOS, Luiz Augusto. Ações afirmativas raciais
no ensino superior público brasileiro: um panorama analítico. Cad. Pesqui., São Paulo , v. 43, n.
148, Apr. 2013 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-
15742013000100015&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 06 abr. 2015.
candidatos (indígenas, deficientes etc.) usufruem de reserva de
2% das vagas, desconsiderados os programas de acréscimo de
vagas, que, aliás, não apresentam números muito expressivos"
Observam, ainda, que não existe, todavia uma unificação da
medida aplicada pelas universidades, isto porque há divergência em seus aspectos
superficiais, como a forma, e em seu fulcro.

Por fim, entendem que, além de promover a introdução de


diversidade cultural e racial, é possível que a ação afirmativa de cotas para negros nas
universidades, ao permitirem a autoclassificação, estimule a assunção da negritude. Bem
como asseveram que há uma tendência de homogeneização tendo em vista a lei federal
supracitada.

Outro artigo a ser estudado que permite uma análise cronológica


da questão é intitulado “Ação afirmativa, raça e racismo: uma análise das ações de
inclusão racial nos mandatos de Lula e Dilma”14. O trabalho, objetivando uma analise do
desenvolvimento das ações afirmativas durante o período da administração petista, avalia
a contribuição e o sucesso das iniciativas políticas, também voltado ao aspecto legislativo
e à lei das cotas em universidades federais.

No decorrer da pesquisa percebemos, uma vez mais, que a


introdução de cotas nas universidades é uma medida complexa, isso porque demanda
reconhecimento da necessidade de aplicá-las seguindo pela sua instituição e legislação.
No que concerne ao Governo de Luiz Inácio Lula da Silva, classificam-no como
pragmático, porque implantou as medidas para solucionar um problema apontado por seu
antecessor. E, quanto ao Governo de Dilma Rousseff, classificam-no como apoiador e
aprofundador das medidas anteriormente implantadas.

Para explicitá-lo os autores discorrem que no Governo de


FHC houve o reconhecimento público da existência de discriminação racial. Em 2001
três ministérios passaram a adotar ações afirmativas para contratação de ministérios e em
2002 FHC lançou o Segundo Plano Nacional de Direitos Humanos, que previa ação
afirmativa relacionada à raça.

14
FERES JÚNIOR, João; CAMPOS, Luiz Augusto; DAFLON, Verônica Toste. Ação afirmativa, raça e
racismo: uma análise das ações de inclusão racial nos mandatos de Lula e Dilma. 2012. Disponível em:
<http://www.cch.ufv.br/revista/pdfs/vol12/artigo8vol12-2.pdf>. Acesso em: 30 mar. 2015.
No Governo Lula, as ações afirmativas de cotas raciais surgiram
e se espalharam pelo sistema educacional, abarcando, inclusive, instituições privadas. Em
2003, criou a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Sepir). Em 2004,
criou o Prouni, ação afirmativa voltada, exclusivamente, para o ensino superior privado.

No Governo Dilma houve uma ágil transformação, isso realçado


por alguns eventos, como explicitam nessa pesquisa, “a declaração da constitucionalidade
das cotas e do ProUni pelo Supremo Tribunal Federal e a aprovação da lei que torna
obrigatória a adoção da ação afirmativa pelas universidades federais”. Entretanto,
afirmam também os autores que as medidas não tocam no quesito permanência, que
entendem necessária para a realização de inclusão no ensino superior.

Ressaltam, ainda, que há forte oposição à adoção de tais medidas


– evidenciado por publicações da Rede Globo e do grupo Abril –, abordando em suas
críticas que através delas promove-se uma classificação racial, conforme a que existe nos
Estados Unidos, assim, criaria conflitos raciais em uma sociedade que não os possuía.
Outro argumento citado pelos autores do presente estudo é aquele que diz que através de
medidas afirmativas há inobservância do princípio da igualdade. Além de também
levantarem a questão dos vícios procedimentais inerentes a adoção de tais medidas,
porque impossível distinguir quem é negro no Brasil, além de asseverarem que há
prejuízo do tido por branco pobre em benefício da classe média negra.

A opinião pública, o racismo e as minorias

Ao longo da Arguição de Descumprimento de Preceito


Fundamental número 186, temos frequentemente os conceitos de racismo, minorias e
opinião pública trazidos à pauta. Seja porque do primeiro depende a necessidade da ação
afirmativa, seja porque a necessidade advém da existência de minorias vulneráveis ou,
então, porque a opinião pública nos permite entender questionáveis a aplicabilidade ou a
eficácia de tais medidas.

Assim, diante do entrave conceitual e da necessidade de obter


base científica para encontrarmos uma perspectiva neutra para analisar o assunto. Propõe-
se neste tópico o estudo do trabalho em conjunto de Luiz Augusto Campos, João Feres
Júnior e Verônica Toste Daflon (2012)15; e outro, individualmente realizado, de João
Feres Júnior (2006)16.

O primeiro trabalho visa entender como o Jornal O Globo, “um


dos maiores veículos de comunicação” no Brasil, trabalha e expõe a controvérsia sobre a
adoção de cotas raciais. Dessa forma utilizou-se dos textos publicados sobre esta adoção
entre os anos de 2001 a 2008. Esse exame foi feito, como explicam os pesquisadores, por
uma equipe do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa do Instituto de
Estudos Sociais e Políticos (GEEMA - IESP) a partir de um programa de análises
estatísticas. Por meio desta medida questiona-se a filtragem de informações publicadas
pelo jornal, uma vez que presente indícios de que houve privilégio de determinadas
opiniões em detrimento de outras. O que faz surgir uma aparência de imparcialidade.

Assim, Campos, Feres Júnior e Daflon expõem que a neutralidade


jornalística é um ponto fundamental para uma possível credibilidade do que se estuda ou
lê através destas mídias, relacionando-as, dessa forma, ao resultado sociológico que uma
“ideia-força” – palavra por eles utilizada para o valor da neutralidade jornalística – pode
ter.

Explicando, nesse sentido, que a ideia construída no meio


jornalístico detém quatro aspectos manipulados para a construção de um debate, quais
sejam editoriais que defendem o interesse público e expõem a opinião do jornal que
representam; artigos e textos produzidos por determinados grupos na sociedade, que,
conforme os autores são os “‘atores relevantes’ selecionados pelo jornal”; algumas
reportagens com finalidade informativa e neutras que, portanto, não devem externar
opinião; e cartas de leitores que enviam suas respectivas opiniões.

O sistema de cotas da Universidade de Brasília interessou


majoritariamente à mídia, segundo os autores, porque foi o primeiro entre as
universidades federais a adotar a ação e, ainda, tem uma característica especial, uma vez
que a universidade está localizada no centro de tomada de decisões do país.
Diferentemente das universidades estaduais que implantaram o sistema a Universidade

15
CAMPOS, Luiz Augusto; FERES JÚNIOR, João; DAFLON, Verônica Toste. Administrando o debate
público: O Globo e a controvérsia em torno das cotas raciais. 2012. Disponível em:
<www.scielo.br/pdf/rbcpol/n11/01.pdf>. Acesso em: 06 abr. 2015.
16
FERES JÚNIOR, João. Aspectos semânticos da discriminação racial no Brasil: para além da teoria
da modernidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 21, n. 61, p.163-226, jun. 2006. Mensal.
Disponível em: <http://scielo.br/pdf/rbcsoc/v21n61/a09v2161.pdf>. Acesso em: 23 mar. 2015.
de Brasília o fez por iniciativa própria, independente de lei que a obrigasse, e optou por
implantar uma comissão que avaliaria a autoclassificação realizada pelos candidatos que
se considerassem negros.

Ao estabelecer uma discussão sobre o tema a imprensa objeto da


pesquisa colocou a sociedade em face de duas opções a posição daqueles favoráveis e
daqueles que discordassem, não havendo, assim, a possibilidade de um meio termo, ou
um posicionamento favorável com algumas críticas.

A partir de estabelecer essas duas vertentes, percebeu-se que o


jornal iniciou a seleção das cartas que lhe interessaria publicar. E, consoante, afirmam os
pesquisadores 76% (setenta e seis por cento) das publicadas foram cartas contrárias à
medida, bem como 89% (oitenta e nove por cento) dos textos publicados como opinião
do jornal representando o interesse da sociedade eram contrários a medida. Quanto aos
textos publicados por acadêmicos houve um equilíbrio, representantes de governo eram,
majoritariamente favoráveis, e movimentos sociais favoráveis em totalidade.

Assim sendo, a análise de dados da imprensa permite o


questionamento quanto a credibilidade da informação veiculada. O que enfraquece a fonte
cientificamente e empiricamente, bem como permite perceber que externa-se por meio do
jornal um interesse político, social, jurídico ou econômico parcial.

Feres Júnior (2006), em segundo lugar, proporciona-nos, a partir


de um estudo da literatura contemporânea, tipologias de formas de desrespeito e de textos
argumentativos e explicativos do racismo, um aprofundamento sobre a discriminação
racial no Brasil. Que, conforme veremos, depreende-se da importância da crítica sobre
fatores sociais externos que são refletidos no direito dos tidos por negros e dos
mecanismos que impossibilitam o seu reconhecimento.

Iniciamos com uma reflexão sobre a recepção de Florestan


Fernandes (1965)17, sociólogo que trata da “A integração do negro na sociedade de
classes”, Feres Júnior explica que este autor tratou, por meio de duas abordagens, do
preconceito no Brasil, primeiramente como resultado do escravismo, que estaria
condicionado ao desaparecimento temporal com o desenvolvimento da sociedade; e, em

17
apud FERES JÚNIOR, João. Aspectos semânticos da discriminação racial no Brasil: para além da
teoria da modernidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 21, n. 61, p.163-226, jun. 2006. Mensal.
Disponível em: <http://scielo.br/pdf/rbcsoc/v21n61/a09v2161.pdf>. Acesso em: 23 mar. 2015.
segundo lugar um preconceito racial advindo da inadequação de determinados indivíduos
com característica fenotípica específica, uma inadequação profissional, oriunda da falta
de preparação que deveria ter havido quando ocorreu o fim da escravidão.

Após abordar a Teoria de Florestan Fernandes, Feres Júnior traz


a contraposição apresentada por Hasenbalg (1979)18. Uma vez percebido que Florestan
Fernandes trabalhava o preconceito racial a partir do escravismo e seu fim, condicionando
o fim dele a uma eventual assimetria racial instrumentalizável com a redistribuição de
renda e de status.

Hasenbalg, como afirma Feres Júnior, entende que além daquelas


ideias deve-se vislumbrar uma contraposição presente na discriminação uma
“racionalidade do sistema industrial capitalista”, isso porque envolve práticas arraigadas
socialmente, trazendo como exemplo a “contratação de um negro para um cargo de alto
prestígio”, que segundo o autor demandaria um maior investimento por parte da
organização que o faça, pois deveram trabalhar com a “resistência maior de subordinados,
pares e clientes, sem qualquer garantias de ganho adicional”.

Destarte, para Hasenbalg, diferentemente das duas vertentes do


preconceito trazidas por Florestan Fernandes há uma cultura dentro do sistema do
capitalismo industrial que permite a perpetuação da discriminação racial. Entendendo,
assim, que na sociedade capitalista industrial preconceitos como o relacionado a
característica fenotípica cumpre uma função, qual seja “alijar os negros da competição
por oportunidades de ascensão social”.

O próximo autor a ser estudado por Feres Júnior é Souza (2003)19,


que tratou do não-reconhecimento e subcidadania, utilizando-se da filosofia de Charles
Taylor e da sociologia de Pierre Bourdieu, Feres diz que ele discute uma tese moderna e
ocidental constituída de alguns elementos que formam uma “ideologia espontânea do
capitalismo”, quais sejam “um conjunto de valores culturais que não são explicitados nas
práticas cotidianas”.

18
apud FERES JÚNIOR, João. Aspectos semânticos da discriminação racial no Brasil: para além da
teoria da modernidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 21, n. 61, p.163-226, jun. 2006. Mensal.
Disponível em: <http://scielo.br/pdf/rbcsoc/v21n61/a09v2161.pdf>. Acesso em: 23 mar. 2015.
19
apud FERES JÚNIOR, João. Aspectos semânticos da discriminação racial no Brasil: para além da
teoria da modernidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 21, n. 61, p.163-226, jun. 2006. Mensal.
Disponível em: <http://scielo.br/pdf/rbcsoc/v21n61/a09v2161.pdf>. Acesso em: 23 mar. 2015.
Para Souza esses valores possibilitam a negação do
reconhecimento às minorias, seja pelo desrespeito ou pela negação do reconhecimento.
Assim ele traz as seguintes formas que fazem com que determinadas pessoas sejam
identificadas como o “outro” diante da sociedade.

Dessa forma estabelece-se uma “oposição cultural e temporal”


quando aliena um indivíduo de suas características morais; e uma “oposição racial”
quando o que se nega é sua humanidade.

Então, devemos tentar compreender qual seria o fator


cronologicamente responsável pela construção do preconceito racial no Brasil, e Feres
Júnior o faz a partir do ano de 1870 a 1930, período em que temos contrapostos a abolição
da escravidão, a proclamação da República, a Industrialização, a migração acentuada e a
recepção de teorias advindas da Europa.

O Brasil, entretanto, possui uma teoria empírica da miscigenação


que excluiria o preconceito racial que não permite vislumbrarmos a realidade
exteriorizada no cotidiano. Um fator que é utilizado por Feres para confirmá-lo é o baixo
índice de casamentos inter-raciais.

Encontramos, assim, na discussão produzida por uma das grandes


mídias brasileiras, nas teorias e estudos sobre o racismo e na realidade das minorias no
Brasil, como acentua Santiago Dantas (1955)20, o fato social que faz gerar um direito e
que nos situa, estudantes da ciência jurídica, na origem do problema para o qual a norma
deve oferecer uma solução.

A aplicação das cotas para negros e a cidadania no Brasil

Para estabelecermos uma análise dos resultados da ação


afirmativa cotas para afrodescendentes nas universidades como uma realização da justiça,
propõe-se nesse tópico observar no caso, ainda que de forma incipiente, o sentido da
justiça para no próximo tópico abordarmos os resultados oferecidos pela análise do

20
DANTAS, San Tiago. A Educação Jurídica e a Crise Brasileira. São Paulo: Revista dos Tribunais,
1955. p. 3-47.
sistema realizada pela Universidade de Brasília do 2.º semestre de 2004 ao 1.º semestre
de 2013 e artigos e notícias referentes às consequências de sua adoção.

21
Campos e Feres Júnior (2014) , como dissemos no início,
enfrentaram a questão do enquadramento das ações afirmativas por alguns teóricos do
multiculturalismo e do comunitarismo, analisando suas correntes, que refletem em
diferentes teorias de justiça, uma entendendo pelo reconhecimento de um grupo e outra
criticamente entendendo como inobservância do princípio da igualdade.

Dentro dessa perspectiva do reconhecimento cultural os autores


discutem se seria uma ameaça ao fulcro da identidade nacional; discutem a utilização de
instrumentos adotados nos Estados Unidos da América; o reconhecimento das diferenças
de raça e etnia, que demandam os direitos e a identidade cultural; a extensão da avaliação
da justiça a outros indivíduos, como o caso dos brancos pobres que não podem ser
preteridos.

Ao objetivarmos encontrar o mais adequado enquadramento,


iniciamos com uma alusão à teoria da “Justiça como equidade: uma concepção política,
não metafísica” de Rawls (1992) 22, citada na ADPF. O qual trabalha o conceito de justiça
como equidade dentro da filosofia política, individualmente observando os componentes
sociais e a interdependência entre igualdade e liberdade à democracia.

Após fazermos essa alusão à teoria de Rawls abordamos o


23
trabalho de Romano (2002) "Ciência para justiça e equidade", que relaciona
cronologicamente ética, ciência e justiça.

24
Por meio do trabalho de Smanio, Bertolin e Brasil (2015) ,
observamos as políticas públicas como processo realizador de direitos e princípios

21
CAMPOS, Luiz Augusto; FERES JUNIOR, João. Ação afirmativa, comunitarismo e
multiculturalismo: relações necessárias ou contingentes?. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo , v. 29, n. 84, p.
103-118, Feb. 2014 . Disponível em: <http://www.scielo.br /scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
69092014000100007&lng= en&nrm=iso>. Acesso em: 24 maio 2015.
22
RAWLS, John. Justiça como equidade: uma concepção política, não metafísica. Lua Nova, São
Paulo, n. 25, p. 25-59, Abr. 1992 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S0102-64451992000100003&lng= en&nrm=iso>. Acesso em: 22 Set. 2015.
23
ROMANO, Roberto. Ciência para justiça e equidade. Saúde soc., São Paulo, v. 11, n. 1, p. 53-
66, Julho 2002 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
12902002000100007&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 22 Set. 2015.
24
SMANIO, Gianpaolo Poggio; BERTOLIN, Patrícia Tuma Martins; BRASIL, Patricia Cristina (Org.). O
Direito na Fronteira das Políticas Públicas. São Paulo: Páginas e Letras Editora e Gráfica, 2015. 128 p.
estabelecidos historicamente. E, por fim, veremos no trabalho de Ruy Braga (2004)25 a
teoria da construção social da subcidadania formulada por Jessé de Souza26.

Ralws aborda a concepção política de justiça cuja elaboração é


direcionada às instituições políticas, sociais e econômicas. Ela é fundamentada, segundo
este autor, no regime constitucional democrático e nas tradições púbicas. Assim ele
distingue dois princípios de justiça, o primeiro que diz da igualdade de direitos e
liberdades e o segundo que diz que as desigualdades devem observar “cargos e posições
abertos a todos em condições de justa igualdade de oportunidade” e “beneficiar
maiormente os membros menos favorecidos da sociedade”.

Rawls explica que convicções consolidadas (exemplificando com


a tolerância religiosa e a recusa da escravidão) tem ideias e princípios que as organizem
coerentemente à justiça. Assim, as convicções são um ponto referencial para explicar-se
a justiça. A cultura política pública, suas tradições e instituições, segue Rawls, tem ideias
e princípios básicos compartilhados.

Essa concepção política de justiça apresentada pelo autor trata de


uma ideia de cooperação sistemática dos indivíduos que, para ele, está implícita na
sociedade democrática. Formando, dessa forma, princípios determinadores de direitos e
deveres básicos institucionalizados que acarretam em benefícios adquiridos e divididos
equitativamente, pois “a sociedade é vista como um esquema mais ou menos completo e
autossuficiente de cooperação, abrindo espaço em seu interior para todas as necessidades
e atividades da vida”.

Essa ideia do sistema equitativo é desdobrada pelo autor para


abordar os princípios realizadores da liberdade e da igualdade, a partir do reconhecimento
dos cidadãos como iguais. Complementando que a liberdade pode ser vista a partir de três
pontos de vista, primeira liberdade é aquela da moral por poder entender o bem, a segunda
é a da fonte de criação de reivindicações válidas e, por último, da capacidade de assunção

25
BRAGA, Ruy. A construção social da subcidadania: para uma sociologia política da modernidade
periférica. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo , v. 19, n. 56, p. 139-143, Out. 2004 . Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
69092004000300010&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 09 Nov. 2015.
26
SOUZA, Jessé de apud BRAGA, Ruy. A construção social da subcidadania: para uma sociologia política
da modernidade periférica. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo , v. 19, n. 56, p. 139-143, Out. 2004
. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
69092004000300010&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 09 Nov. 2015.
de responsabilidades, entendendo que "supõe-se que os cidadãos sejam capazes de ajustar
seus fins e aspirações à luz daquilo com que podem razoavelmente arcar.".

Assim, conclui o autor que quando houver justiça plena a


autonomia dos indivíduos também será. Relacionando, por fim, a justiça como equidade
aos liberalismos, mas opondo-se a eles no que diz respeito a autonomia porque “o valor
da plena autonomia é aqui especificado por uma concepção política de justiça, e não por
uma doutrina moral abrangente”.

Romano, aborda, primeiramente, a hexis grega, vocábulo que


significa política, economia e retória. Atos que eram praticados na praça pública, nos
campos de treinamento e nas guerras dada a natureza de realidade visível que não poderia
ser escondida dos cidadãos. Nele estava a ética grega. Hegel27, segue Romano, dizia que
a ética embora do mundo dos valores e hábitos, não é subjetiva.

O Estado, detentor da justiça, da força, da norma e da


administração deve promover políticas públicas que entender pertinente diante dos
princípios constitucional e democraticamente estabelecidos – “saúde, educação, lazer,
guerra, segurança interna, cultura, etc”.

Diante da necessidade de avaliar a pertinência da política, ação


afirmativa cotas para afrodescendentes nas universidade, voltada à justiça, vimos que são
associadas ao regime constitucional a que são subordinadas e nas tradições púbicas. O
que faz depender, segundo Rawls (1992)28, da igualdade de direitos e liberdades,
igualdade de condições e oportunidades, o que exige benefícios aos menos favorecidos.

Com Romano entendemos a necessidade de o Estado praticar as


transformações por meio de políticas públicas. Dessa forma, resta-nos estudar a
concretização dos princípios e direitos por meio das políticas públicas.

27
apud ROMANO, Roberto. Ciência para justiça e equidade. Saúde soc., São Paulo, v. 11, n. 1, p. 53-
66, Julho 2002 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
12902002000100007&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 22 Set. 2015.
28
RAWLS, John. Justiça como equidade: uma concepção política, não metafísica. Lua Nova, São Paulo
, n. 25, p. 25-59, Abr. 1992 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S0102-64451992000100003&lng= en&nrm=iso>. Acesso em: 22 Set. 2015.
Smanio (2015)29 inicia seu artigo trabalhando a questão das
políticas públicas e sua relação com a cidadania, uma vez que elas tem como objetivo
concretizar direitos e garantias.

Esse autor explica que a cidadania é fundamental para o Estado


Social e Democrático de Direito, conjuntamente aos princípios da soberania, dignidade
da pessoa humana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político.

Cidadania, portanto, trata da comunidade integrada em uma


realidade de direitos fundamentais. A partir do momento que o Estado atribui ao indivíduo
a característica de cidadão ele adquire o direito.

Nesse contexto, explica Smanio, a figura do cidadão vem sendo


estendida no decorrer do tempo, em 1576, com Jean Bodin30 afirma-se que o “conceito
de cidadão como súdito era intrinsecamente excludente, pois somente era reconhecido
aos homens livres e nacionais. Os escravos, as mulheres, as crianças não tinham este
status reconhecido”.

Essa extensão da cidadania tem como primeiro marco o século


XVIII - fase do iluminismo - que contrariando o Absolutismo impôs a liberdade e a
participação política. A partir deste momento foi formado o Estado Liberal que, apesar
de ser apresentado como um marco também é visto como deficiente, uma vez que pobres,
mulheres e os analfabetos não eram considerados cidadãos, e, entre os que eram reinava
apenas a igualdade formal, insuficiente.

O segundo momento a ser ressaltado é no século XIX, com Karl


Marx31, oposição do Estado Liberal e à Revolução Industrial do século XVIII,
fundamentado, segundo Smanio, na crítica ao individualismo e na repartição desigual de
bens, defendia uma cidadania fundada em relações iguais de titularidade. Inaugurando,
assim, o Estado Social e o conceito de solidariedade.

29
SMANIO, Gianpaolo Poggio; BERTOLIN, Patrícia Tuma Martins; BRASIL, Patricia Cristina (Org.). O
Direito na Fronteira das Políticas Públicas. São Paulo: Páginas e Letras Editora e Gráfica, 2015. 128 p.
30
apud SMANIO, Gianpaolo Poggio; BERTOLIN, Patrícia Tuma Martins; BRASIL, Patricia Cristina
(Org.). O Direito na Fronteira das Políticas Públicas. São Paulo: Páginas e Letras Editora e Gráfica,
2015. 128 p.
31
apud SMANIO, Gianpaolo Poggio; BERTOLIN, Patrícia Tuma Martins; BRASIL, Patricia Cristina
(Org.). O Direito na Fronteira das Políticas Públicas. São Paulo: Páginas e Letras Editora e Gráfica,
2015. 128 p.
Diante dessa ideologia do Estado social foi possível a instituição
de direitos e princípios novos direcionados a diminuição das desigualdades sociais e
econômicas, direcionados a integração de indivíduos à sociedade, melhoramento do bem
estar e ascensão social de trabalhadores, como o da seguridade, a função social da
propriedade, sindicatos e associações. Além disso, também passou-se a, contrariamente
ao ideal liberal, defesa da intervenção Estatal na Economia.

Já no século XXI, portanto, e ainda com fundamento na


construção histórica consolidaram-se os direitos que definem a cidadania, conforme as
gerações, quais sejam: civis - direito à vida, à liberdade e à propriedade -; políticos -
participação do cidadão no governo -; sociais - direito ao trabalho, à educação e à saúde
-; direitos de solidariedade - "interesses difusos e coletivos, como meio ambiente,
consumidor, infância e juventude, idosos, dentre outros" -; e o atual de direito à
tecnologia.

Apesar de ter ocorrido essa construção de direitos formadores da


cidadania que prestigiam nossa Constituição Federal, a aquisição de direitos no Brasil não
seguiu esta ordem cronológica, como explica o professor Smanio.

Assim, com o intuito de enxergar como o Brasil se posicionou


historicamente com relação à cidadania, o professor Smanio parte da República após a
abolição da escravidão. Ressalta, primeiramente, que a abolição não foi acompanhada de
qualquer movimento de inserção social para os libertos. Em seguida, trata da propriedade
que decorre do latifúndio monocultor e exportação escravista. Observando-se que os
direitos políticos, nesse sentido, foram iniciados com a política do "Café com Leite", em
um contexto em que mulheres e analfabetos (maioria da população) não eram
considerados cidadãos.

Em 1937, segue o autor, adveio a ditadura do Estado Novo, em


que se suspenderam os direitos políticos e os direitos sociais, de outra sorte, foram, pela
primeira vez, formulados e executados, no entanto não de forma universal, porque excluía
os trabalhadores rurais. Destarte nossa cidadania sempre foi excludente, aplicando-se para
alguns e para outros não.

Após aquele movimento de direitos sociais houve seu silêncio no


período da ditadura, porque de ideologia liberal. Apenas retornando a preocupação com
direitos sociais no momento de redemocratização da Constituição Federal de 1988.
Considerada a Política Pública, como a objeto de estudo, como
uma categoria jurídica capaz de concretizar direitos fundamentais, portanto a cidadania,
elas permitem alcançar objetivos constitucionais.

Sandra Cordeiro Molina (2015)32, ao analisar a raça como


categoria para a promoção da igualdade, entende que se deve discutir como uma forma
de combater o racismo que vem sendo perpetuado no Brasil. Molina aborda o racismo
como realidade arraigada na sociedade brasileira, fundamentando-se no estudo “Síntese
de Indicadores Sociais - Uma análise das condições de vida da população brasileira”:

"em 1999 entre os 10% mais pobres, o percentual de brancos era


de 28,7% e de 70,9% [...] em 2009 [...] era de 25,4% para os
brancos e de 74,2% para os negros. [...] piores condições de
moradia, tem piores condições de escolaridade, assistência
médica, saneamento, emprego e renda."
Assim, entende que políticas públicas que enfrentem a questão do
racismo e que sejam hábeis de integrar pessoas que se enquadrem nessa categoria social
permitindo que integrem esferas de poder fazem-se necessárias.

Alessandra Benedito (2015)33, ao abordar o papel das ações


afirmativas no combate a discriminação, relembra que o direito a igualdade não permite
o direito à diferença, dessa forma ressalta que exige-se a utilização de políticas
compensatórias que avaliem e combatam condições de desigualdade material.

No que concerne a teoria da construção social subdesenvolvida,


Braga34 explica que essa teoria aprofunda a compreensão teórica das antinomias
existentes no Brasil em processo de modernização capitalista, onde, segundo o autor, as
soluções às contradições sociais, como segue:

“a desigualdade social brasileira não advém do fato de sermos


‘insuficientemente’ modernos, como era de se esperar, tendo em

32
MOLINA, Sandra Cordeiro. Raça como categoria de análise, o Estado brasileiro e as Políticas Públicas
para a promoção da igualdade racial. In: SMANIO, Organizadores: Gianpaolo Poggio; BERTOLIN,
Patrícia Tuma Martins; BRASIL, Patricia Cristina. O Direito na Fronteira das Políticas Públicas. São
Paulo: Páginas e Letras Editora e Gráfica, 2015. p. 39-41.
33
BENEDITO, Alessandra. O papel das ações afirmativas no combate à discriminação contra a mulher
negra no mercado de trabalho. In: SMANIO, Organizadores: Gianpaolo Poggio; BERTOLIN, Patrícia
Tuma Martins; BRASIL, Patricia Cristina. O Direito na Fronteira das Políticas Públicas. São Paulo:
Páginas e Letras Editora e Gráfica, 2015. p. 43-47.
34
BRAGA, Ruy. A construção social da subcidadania: para uma sociologia política da modernidade
periférica. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo , v. 19, n. 56, p. 139-143, Out. 2004 . Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
69092004000300010&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 09 Nov. 2015.
vista as diferentes teses modernizantes que teimam em nos
enfeitiçar – sobretudo quando pensamos no discurso político a
respeito do crescimento econômico – até hoje. Mas é exatamente
no caráter moderno da conflitualidade periférica brasileira que
devem ser buscadas as chaves explicativas de nossas dramáticas
contradições sociais”
Nesse sentido, ao entender que a desigualdade não advém da não
modernização social, mas de instituições que mantém o caráter discriminatório, nas
palavras de Souza35 “ralé estrutural”, visto que a desigualdade é reproduzida pela
estrutura em que estamos organizados.

Da potencialidade de transformação social

Neste tópico vislumbraremos os resultados da ação afirmativa


cotas para afrodescendentes da Universidade de Brasília, com base na análise do período
do segundo semestre de 2004 até o primeiro semestre de 2013, divulgada pela Comissão
para avaliação formulada pela universidade36. Bem como vislumbraremos a opinião
pública atualmente transmitida.

Esse relatório, segundo a Comissão, teve por finalidade


possibilitar decisões e discussões sobre a ação afirmativa e, para tanto, abordaram
descritivamente informações consideradas importantes.

Explica-se, primeiramente, que quando foi instaurado o programa


de cotas o candidato tinha a opção de se inscrever nos postos disponibilizados e que, após
sua inscrição devia ser fotografado e sua foto era anexada ao documento de inscrição para
a avaliação da banca. No ano de 2008 houve uma alteração nessa forma, devendo
comparecer para uma entrevista após realizar a prova. E, a partir do ano de 2013,
aplicando-se o determinado pela de Lei Federal número 7.824, de outubro de 2012, a
universidade implantou o sistema de cotas para escola pública.

35
SOUZA, Jessé de apud BRAGA, Ruy. A construção social da subcidadania: para uma sociologia
política da modernidade periférica. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo , v. 19, n. 56, p. 139-143, Out. 2004
. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-6909200400030001
0&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 09 Nov. 2015.
36
BRASÍLIA. Decanato de Ensino de Graduação. Universidade de Brasília. Análise do sistema de cotas
para negros da Universidade de Brasília. Período: 2.º semestre de 2004 ao 1.º semestre de 2013. 2013.
Comissão para avaliação dos 10 anos de implantação da política de ação afirmativa para o ingresso de
estudantes na UnB: Mauro Luiz Rabelo (DEG), Dione Oliveira Moura (FAC), Nelson Fernando Inocêncio
da Silva (SE COM), José Jorge de Carvalho (ICS), Girlene Ribeiro de Jesus (FE), Maria Eduarda Tannuri
Pianto (FACE) e Maria de Fátima Ramos Brandão (DEG).. Disponível em:
<http://www.unb.br/administracao/decanatos/deg/downloads/index/realtorio_sistema_cotas.pdf>. Acesso
em: 22 set. 2015.
O cenário de análise, pelo exposto nos capítulos anteriores, era de
uma medida fortemente criticada pela sua forma de aplicação e pela afirmada inversão de
finalidade, uma vez que foi arguido que, ao aplicá-la, estariam "racializando" a sociedade.
O relatório trabalhou sobre os dez anos da política utilizando-se do apoio estatístico do
Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (CESPE), além de expor o sistema a debate
e discussão dentro da comunidade acadêmica, voltados a função de combate a
desigualdade racial no Brasil.

Ademais, para quantificar os dados da pesquisa a Comissão


recebeu as informações do Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (CESPE), pela
Secretaria de Assuntos Acadêmicos (SAA) e pelo Centro de Informática da UnB (CPD).
Além de um questionado realizado pelo Decanato de Graduação, a primeira preocupação
seria aferia a inserção acadêmica e no mercado de trabalho dos alunos já formados pela
Universidade de Brasília que ingressaram pelo sistema de cotas para negros.

64.683 foram os candidatos inscritos no sistema que optaram por


concorrer às cotas para negros, desde 2004 até 2013, deste número 34.679 inscrições
foram aceitas, ou seja, aproximadamente 53% (cinquenta e três por cento).

Aferindo-se do ingresso na universidade até a formatura, o


relatório mostra que existiram alguns desligamentos:

"anulação de registro; decisão judicial; falta de documentação;


jubilamento; abandono voluntário de curso; não cumprimento de
condição; falecimento; transferência; novo vestibular; mudança
de habilitação; mudança de curso; mudança de turno; reprovação
pela terceira vez ou abandono da mesma disciplina e abandono."
Somados todos os motivos, aproximadamente 18% (dezoito por
cento) dos estudantes que ingressaram por meio de cotas para afrodescendentes
desligaram-se do curso.

Quanto ao desempenho destes estudantes, quando as vagas pelo


sistema de cotas são completadas eles passam a concorrer pelo sistema universal. Essa
migração, em 2005 foi de aproximadamente 27% (vinte e sete por cento) dos estudantes
aprovados pelo sistemas de cotas.

Verificou-se, também, o desempenho no decorrer do curso


mediante o Índice de Rendimento Acadêmico - IRA. Observou-se que observa-se os
valores obtidos tanto no sistema de cotas para negros quanto no sistema universal são
próximos e que todos ultrapassam a nota três. Com a ressalva de que "o curso de Letras-
Tradução apresentou a menor média do IRA final dos estudantes que ingressaram pelo
sistema de cotas para negros (3,79) e o curso de Música apresentou o maior (4,38)".

Assim, o rendimento entre os cotistas e os estudantes advindos do


sistema universal é próximo, com uma pequena diferença entre o IRA geral dos
estudantes. Os "estudantes cotistas obtiveram IRA médio de 3,1, e os estudantes que
ingressaram pelo sistema universal obtiveram IRA médio de 3,7".

O relatório faz ainda a observação de que essa proximidade entre


os índices se deu inclusive nos cursos mais concorridos, como medicina e direito.
Ressalvando-se que no sistema conveniado com a Funai a mediana é próxima de 3,5, mais
distante dos demais que tiveram nota 4.

No vestibular do ano de 2013, diante das alterações mencionadas,


as vagas foram distribuídas em 65% (sessenta e cinco por cento) para o sistema universal,
20% (vinte por cento) para o sistema de cotas para negros, 15% (quinze por cento) para
cotas voltadas ao ensino fundamental público, o que correspondeu a 421 (quatrocentas e
vinte e uma) vagas para candidatos negros, 305 (trezentos e cinco) oriundos de escolas
públicas e 1.366 (mil trezentos e sessenta e seis) do sistema universal.

Quanto aos aproximadamente 53% (cinquenta e três por cento)


dos candidatos que se inscreveram para participar do processo seletivo para cotistas e
não compareceram na entrevista, a Comissão verificou por meio de entrevista telefônica
que aproximadamente 57% (cinquenta e sete por cento) dos candidatos alegaram que
perderam a data da entrevista, e que aproximadamente 1% não compareceu por questões
socioeconômicas. Esse não comparecimento acarretou na conversão da candidatura ao
sistema universal.

Ademais, dos candidatos que compareceram às entrevistas e


tiveram a homologação da inscrição houve uma parcela que não se matriculou. Em 2013,
39 (trinta e nove) dos aprovados por cotas para afrodescendentes não compareceram e 32
(trinta e dois) dos aprovados advindos de escolas públicas não compareceram.

Destes aprovados que não se matricularam aproximadamente


49% (quarenta e nove por cento) foi aprovado pelo Programa de Avaliação Seriada da
UnB, uma outra alternativa para ingresso na graduação, 7% (sete por cento) afirmou ter
perdido o prazo para registro de calouros, aproximadamente 13% (treze por cento)
afirmou não ter feito a inscrição por problemas socioeconômicos, aproximadamente 2%
(dois por cento) afirmou ter impossibilidade por compromissos de trabalho. Além desses
números 29% (vinte e nove por cento) não puderam ser contatados.

A Comissão ainda fez um levantamento do número de população


de cor preta e parda no Distrito Federal (aproximadamente 8% - oito por cento - e 48% -
quarenta e oito por cento, respectivamente).

Para terem informações do programa por parte dos cotistas (395,


trezentos e noventa e cinco) a universidade elaborou um questionário visando saber a
escola que haviam estudado no Ensino Médio, o tempo que cursou a Universidade de
Brasília, se tiveram alguma bolsa por parte da Universidade de Brasília, se estavam
fazendo algum curso de pós-graduação, a situação em relação ao trabalho, a renda, a
estadia na Universidade de Brasília.

A metade dos entrevistados afirmou ter cursado o ensino médio


em escola pública. 30% (trinta por cento) dos entrevistados, a maioria, respondeu que
concluiu o curso na Universidade de Brasília em oito semestres. 51% (cinquenta e um por
cento) declararam ter recebido algum tipo de bolsa durante a graduação. 57% (cinquenta
e sete por cento) declarou não ter feito ou estar cursando pós-graduação. 56% (cinquenta
e seis por cento) trabalha no setor público. 17% (dezessete por cento) declararam não ter
renda e 18% (dezoito por cento), a maioria declararam ter renda superior a R$ 5.500,00
(cinco mil e quinhentos reais) mensais. 78% (setenta e oito por cento) considera que o
sistema de cotas deve continuar. A maioria, 66% (sessenta e seis por cento) entendem que
a estadia na Universidade de Brasília foi acolhedora.

Diante dos dados levantados a Comissão da Universidade de


Brasília entendeu que a medida adotada persegue o ideal de justiça ao diminuir a
desigualdade racial no Ensino Superior, destacando-se que, em 2012, 41% (quarenta e
um por cento) dos estudantes eram negros, diferentemente do ano de 2000, que era menos
que 20% (vinte por cento).

Ademais, entendeu que o debate originado da medida foi, da


mesma forma, um resultado promissor da política, uma vez que aumentou discussões
sobre o tema. Observou, também, que o rendimento estudantil dos cotistas é similar ao
dos que ingressaram pelo sistema universal.
No entanto, considerando que a população de negros e pardos no
Brasil está em torno de 50% (cinquenta por cento) entende que a ação afirmativa deve
continuar até alcançar a igualdade racial que é a meta do plano.

Após essa conclusão do relatório da Comissão da UnB passamos


a algumas notícias referentes a adoção de cotas raciais para vislumbrarmos a opinião
pública que hoje se vê arraigada nas mídias.

Na revista Carta Capital37 vemos, por meio do artigo de Luciano


Nascimento, que a Lei de Cotas de 2012 ainda gera polêmica entre as universidades,
atualmente cumprida em 128 (cento e vinte e oito) instituições federais de ensino. Mas
que é bem recebida por Nascimento, uma vez que teria garantido 111 (cento e onze) mil
vagas para estudantes negros.

Nilcéa Freire, ex-reitora da Universidade do Estado do Rio de


Janeiro (Uerj) e ex–ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), é citada
como uma das defensoras da legislação, por entender que "visa corrigir uma distorção
histórica na sociedade brasileira que remonta à escravidão".

Em artigo de Vanceslau Borlina Filho, publicado pelo jornal


Folha de São Paulo38, vemos a adesão da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)
às cotas inclusive em cursos de pós-graduação, pela primeira vez.

Em artigo publicado pelo G139, do jornal Globo, temos a


informação de que a Universidade de São Paulo, no próximo ano, irá oferecer 225
(duzentos e vinte e cinco) vagas especificamente para pretos, pardos e indígenas,
mediante o Sistema de Seleção Unificada. Observando-se que em “levantamento feito
pelo G1 a partir dos dados socioeconômicos dos candidatos mostrou que, em seis dos dez

37
NASCIMENTO, Luciano. Em três anos, lei de cotas garantiu mais de 111 mil vagas para negros: a
estimativa é que até o fim 2015, 40 mil vagas sejam ocupadas por negros, totalizando 150 mil vagas. 2015.
Publicado por: agência brasil. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/educacao/em-tres-anos-lei-
de-cotas-garantiu-mais-de-111-mil-vagas-para-negros-613.html>. Acesso em: 30 ago. 2015.
38
BORLINA FILHO, Vanceslau. Instituto da Unicamp aprova cota racial na pós-graduação. 2015.
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2015/03/1610551-instituto-da-unicamp-aprova-
cota-racial-na-pos-graduacao.shtml>. Acesso em: 30 ago. 2015.
39
MORENO, Ana Carolina. Pelo Sisu, USP terá 225 vagas em cota para pretos, pardos e
indígenas: Unidades que aderiram à cota racial falam em democratizar a universidade.. 2015. Disponível
em: <http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/07/pelo-sisu-usp-tera-225-vagas-em-cota-para-pretos-
pardos-e-indigenas.html>. Acesso em: 30 ago. 2015.
cursos mais concorridos do vestibular da USP, nenhum estudante preto conseguiu ser
aprovado”.

E, por fim, em artigo disponibilizado no sítio eletrônico do


periódico El País40, vemos uma estudante reclamar pela continuidade do programa, ao
dizer que os números ainda mostram a desigualdade racial no Brasil, exemplificando que:

"apenas 31% das negras fazem sete ou mais consultas pré-natal;


entre as brancas sem nenhuma instrução, o número sobe para
53%. Assim que o bebê nasce, a estrutura familiar também passa
a desempenhar seu papel: 60% das mulheres negras sem
escolaridade que tiveram filhos de 1994 a 2012 eram mães
solteiras, percentual que cai para 51% das brancas na mesma
condição no mesmo período"
Concluindo que a desigualdade é tamanha que "antes mesmo de
a criança negra nascer já há desigualdades que podem afetar seu desempenho cognitivo".

Conclusão

Ao objetivarmos o estudo da adoção de cotas para


afrodescendentes nas universidades a partir do acórdão da ADPF 186, pudemos observar
através de alguns ângulos a adoção desta ação afirmativa desde seu aspecto procedimental
até seus fundamentos.

A afirmada inadequação das cotas pelo partido político


Democratas fundamentando-se, entre outros motivos, na inexistência de vínculo entre a
falta de acesso a direitos fundamentais e questões raciais, mas, somente, à aspectos
econômicos foi contrário à aspectos históricos aferidos durante o desenvolvimento do
trabalho, inclusive pelos dados estatísticos apresentados pela Ministra Rosa Weber de que
75% (setenta e cinco por cento) da população mais pobre do Brasil é negra e pela
informação trazida pelo professor Smanio de que a abolição da escravidão não foi
acompanhada de qualquer movimento de inserção social.

Quanto ao fundamento de que as cotas discriminariam brancos


pobres, pessoas economicamente em igual situação do público das cotas raciais, não

40
PAIVA, Natália. Meu amigo de redes sociais, precisamos falar sobre cotas. De novo: Bem-vindos ao
século 21, parças. Desigualdade racial institucional (com conivência do estado e nossa passividade) terá de
ser coisa do passado. 2015. Disponível em:
<http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/04/opinion/1428100685_276155.html>. Acesso em: 30 ago. 2015.
exclui a necessidade da medida, mas demonstra a necessidade de outras medidas que
abarquem pessoas em situação econômica e social desigual.

Oportuno, ainda, ressaltar que o argumento que aborda a ação


afirmativa das cotas raciais como uma injusta indenização porque realizada pelas
gerações presentes aos negros ou pardos, uma vez que estas não poderiam “arcar” com as
ilicitudes cometidas outrora, vê-se substanciado pela concepção jurídica de direito como
repressor ou protetor que há tempos Bobbio41 criticou, isto porque ao inserir a ação
afirmativa no âmbito exclusivamente indenizatório, impossibilitaríamos a percepção da
promoção que representa.

A característica das cotas raciais que repetidamente vemos


embasá-las é o caráter promotor da igualdade material, visto que a formal apenas será
realizada a partir dela. O que implica, também, na compatibilidade com o ordenamento.
Destarte verificamos que para combatermos a desigualdade social e racial no Estado
Democrático de Direito em que estamos inseridos as instituições aparentemente neutras
devem ser reorganizadas para o fim de reestruturar a sociedade de maneira justa e
equânime.

Com algumas observações que podemos fazer devido ao relatório


da UnB e as próprias características de merecer revisão e readequações das ações
afirmativas, entende-se que ações dentro das universidades para permitir desempenho
similar dos cotistas devem ser desenvolvidas, como no caso do curso de Letras que
apresentou a menor média de rendimento para os cotistas de 3,79, ou no caso dos cotistas
advindos do sistema conveniado com a Funai, programa direcionado aos indígenas que
também merece ser desenvolvido e aprimorado uma vez que têm a média mais distante
daqueles que ingressaram pelo sistema universal.

Assim, o sistema de cotas raciais para admissão em universidades


permite a promoção da justiça. Transmite-se a esperança de que no futuro, ao vislumbrar
as salas de aulas, as próximas gerações verão o Brasil democrático como deve ser. Se
atualmente a sociedade é injusta para alguns devido a pigmentação de sua pele o direito
tem como obrigação combatê-lo.

41
BOBBIO, Norberto. A função promocional do direito. In: BOBBIO, Norberto. Da estrutura à função:
novos estudos da teoria do direito. Barueri: Manole, 2007. Cap. 1. p. 1-21. Tradução de: Daniela Beccaccia
Versiani; Revisão Técnica de: Orlando Seixas Bechara e Renata Nagamine.
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Poggio; BERTOLIN, Patrícia Tuma Martins; BRASIL, Patricia Cristina. O Direito na
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estrutura à função: novos estudos da teoria do direito. Barueri: Manole, 2007. Cap. 1. p.
1-21. Tradução de: Daniela Beccaccia Versiani; Revisão Técnica de: Orlando Seixas
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BODIN, Jean apud SMANIO, Gianpaolo Poggio; BERTOLIN, Patrícia Tuma Martins;
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BORLINA FILHO, Vanceslau. Instituto da Unicamp aprova cota racial na pós-


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