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Un iv e rs id ad e d e Co imb r a

F ac uld ad e de Ci ên c i as e T e cno log ia


Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores

QUALIDADE DE ENERGIA

Gestão de Energia Eléctrica

Coimbra 2004
GESTÃO DE ENERGIA ELÉCTRICA

Un iversidade de Coimbra
F ac uld ad e de Ci ên c i as e T e cno log ia
Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores

QUALIDADE DE ENERGIA

G. E. E.
Trabalho Realizado no Âmbito da disciplina de Gestão
de Energia Eléctrica pelos alunos:

Fernando Jorge dos Santos Barra Oliveira 975010632


feracer@alumni.deec.uc.pt
Hélder Luís Ribeiro da Torre 985010878
htorre77@alumni.deec.uc.pt
Jorge Manuel Simões de Almeida 995010626
jorge-al@alumni.deec.uc.pt

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GESTÃO DE ENERGIA ELÉCTRICA

Índice

1. INTRODUÇÃO ………………………………………………………………………….. 6
2. QUALIDADE DE SERVIÇO …………………………………………………………. 7
3. CONCEITO DE QUALIDADE DE ENERGIA ……………………………………. 9
4. NORMALIZAÇÃO ……………………………………………………………………… 10
4.1. O QUE SÃO AS NORMAS …………………………………………………………….. 10
4.2. IMPORTÂNCIA DA NORMALIZAÇÃO …………………………………………………. 10
4.3. NORMALIZAÇÃO NO ÂMBITO DA QUALIDADE DE ENERGIA ……………………. 10
4.4. NORMALIZAÇÃO EM PORTUGAL ……………………………………………………. 11
4.4.1. Regulamento da Qualidade de Serviço ………………………………………….. 11
4.4.2. Norma NP EN 50 160 ………………………………………………………………... 12
4.4.3. Normas IEC 61000 …………………………………………………………………… 13
5. ORIGEM DAS PERTURBAÇÕES DA QUALIDADE DA ENERGIA ………. 14
5.1. NOS CENTROS DE PRODUÇÃO ……………………………………………………… 14
5.2. NOS SISTEMAS DE TRANSPORTE …………………………………………………... 14
5.3. NOS SISTEMAS DE DISTRIBUIÇÃO ………………………………………………….. 15
5.4. NAS CARGAS …………………………………………………………………………... 16
6. PERTURBAÇÕES DA QUALIDADE DA ENERGIA ………………………….. 18
6.1. CAVAS DE TENSÃO …………………………………………………………………… 18
6.1.1. Origem das Cavas de Tensão …………………………………………………….. 18
6.1.2. Consequências das Cavas de Tensão …………………………………………... 20
6.1.3. Formas de Mitigação das Cavas de Tensão ……………………………………. 21
6.2. INTERRUPÇÕES BREVES E LONGAS (CONTINUIDADE DE SERVIÇO) …………. 22
6.2.1. Indicadores da Continuidade de Serviço ……………………………………….. 22
6.2.2. Origem das Interrupções …………………………………………………………... 24
6.2.3. Consequências das Interrupções ………………………………………………… 25
6.2.4. Formas de Mitigação das Interrupções …………………………………………. 25
6.3. SOBRETENSÕES ……………………………………………………………………….. 25
6.3.1. Origem das Sobretensões …………………………………………………………. 26
6.3.2. Consequências das Sobretensões ………………………………………………. 26
6.3.3. Formas de Mitigação das Sobretensões ………………………………………... 27
6.4. FLUTUAÇÕES DE TENSÃO …………………………………………………………… 27
6.4.1. Origem das Sobretensões …………………………………………………………. 29
6.4.2. Consequências das Sobretensões ………………………………………………. 30
6.4.3. Formas de Mitigação das Sobretensões ………………………………………... 30
6.5. OSCILAÇÕES DE FREQUÊNCIA ……………………………………………………… 30
6.5.1. Origem das Oscilações de Frequência ………………………………………….. 30
6.5.2. Consequências das Oscilações de Frequência ……………………………….. 30
6.5.3. Formas de Mitigação das Oscilações de Frequência ………………………… 31
6.6. DESEQUILÍBRIO DE FASES …………………………………………………………… 31
6.6.1. Origem do Desequilíbrio de Fases ……………………………………………….. 32
6.6.2. Consequências do Desequilíbrio de Fases …………………………………….. 32

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6.6.3. Formas de Mitigação do Desequilíbrio de Fases ……………………………… 33


6.7. DISTORÇÃO HARMÓNICA …………………………………………………………….. 33
6.7.1. Origem da Distorção Harmónica …………………………………………………. 35
6.7.2. Consequências da Distorção Harmónica ……………………………………….. 36
6.7.3. Formas de Mitigação da Distorção Harmónica ………………………………… 36
7. MONITORIZAÇÃO DA QUALIDADE DA ENERGIA ………………………….. 37
7.1. IMPORTÂNCIA DA MONITORIZAÇÃO ………………………………………………... 37
7.2. OBJECTIVOS DA MONITORIZAÇÃO …………………………………………………. 38
7.3. CONCLUSÕES SOBRE A MONITORIZAÇÃO ………………………………………... 38
8. CUSTOS DA NÃO QUALIDADE DA ENERGIA ………………………………. 40
8.1. AVALIAÇÃO DOS CUSTOS ……………………………………………………………. 41
8.2. ESTIMATIVAS DOS CUSTOS ………………………………………………………….. 41
9. PANORAMA EM PORTUGAL ……………………………………………………… 42
9.1. ORIGEM DOS INCIDENTES (PERTURBAÇÕES) EM 2000 ………………………… 42
9.2. MEDIÇÕES EFECTUADAS …………………………………………………………….. 43
9.2.1. Distorção Harmónica ……………………………………………………………….. 44
9.2.2. Flutuações de Tensão (Flickers) ………………………………………………….. 46
9.2.3. Desequilíbrio de Fases …………………………………………………………….. 47
9.2.4. Cavas de Tensão …………………………………………………………………….. 48
9.2.5. Oscilações de Frequência …………………………………………………………. 49
10. CONCLUSÃO ………………………………………………………………………... 50
11. TERMINOLOGIA ……………………………………………………………………... 50
12. BIBLIOGRAFIA ………………………………………………………………………. 55

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Lista de Abreviaturas
AC Alternating Current (Corrente Alternada)
AT Alta Tensão
BT Baixa Tensão
CBEMA Computer and Business Equipment Manufacturers Association
CEI Comissão Electrotécnica Internacional
CEM Compatibilidade Electromagnética
CENELEC Comité Europeu de Normalização Electrotécnica (Comité Européen de Normalisation Electrotechnique)
DC Direct Current (Corrente Contínua)
DGE Direcção Geral de Energia
DVR Dynamic Voltage Restorer
EN European Norm (Norma Europeia)
ERSE Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos
EUA Estados Unidos da América
FAC Fontes de Alimentação Comutadas
FP Factor de Potência
IEC International Electrotechnical Commission
IEEE Institute of Electrical and Electronic Engineers
IGBT Insulated Gate Bipolar Transistor (Transistor Bipolar com Porta Isolada)
IPQ Instituto Português da Qualidade
ITIC Information Technology Industry Council
JIT Just In Time
MAT Muito Alta Tensão
MT Média Tensão
NP Norma Portuguesa
PQ Power Quality (Qualidade da Energia)
PRE Produção em Regime Especial
PT Posto de Transformação
QE Qualidade da Energia
QEE Qualidade da Energia Eléctrica
QS Qualidade de Serviço
RDP Rede de Distribuição Pública
REN Rede Eléctrica Nacional
RMS Root Mean Square (Valor Eficaz)
RNT Rede Nacional de Transporte
RQS Regulamento da Qualidade de Serviço
SEI Serviço Eléctrico Independente
SEP Sistema Eléctrico de Serviço Público
THD Taxa de Distorção Harmónica ou Distorção Harmónica Total (Total Harmonic Distortion)
UCTE Union Pour la Coordenation du Transport de l’Electricité
UIE União Internacional para as aplicações Eléctricas (Union Internationale d’Electrothermie)
UPS Uninterruptible Power Supply (Fonte de Alimentação Ininterruptível)
VEV Variador Electrónico de Velocidade

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1. INTRODUÇÃO
Possivelmente a EE é a mais importante das matérias-primas usadas e comercializadas
dos tempos de hoje. Mas, a sua natureza obriga a que a produção e o consumo se efectuem ao
mesmo tempo, uma vez que os sistemas de armazenagem não são suficientemente eficientes e
baratos para que a desagregação temporal entre os momentos de produção e de consumo seja
rentável. Este é um caso onde a filosofia JIT é de aplicação obrigatória.
Tal como em qualquer outra aplicação dos métodos da filosofia JIT, os sectores da
produção, transporte e distribuição de EE devem conter sistemas de controlo muito eficientes, ter
um alto nível de confiança, para que os presumíveis clientes confiem nas entidades que
compõem o sector eléctrico como capazes de produzir e fornecer EE às suas cargas,
obedecendo a todas as especificações do produto em causa e, devem ainda conhecer na
perfeição o modo como os clientes se comportam e a relação entre o comportamento da procura
e a capacidade de produção.
Para complicar ainda mais a dinâmica da produção e transporte e distribuição de EE, o
local onde se produz pode situar-se muito distante do ponto de toma do consumidor. Se todas as
infra-estruturas e equipamentos que produzem e distribuem EE estivessem sob dependência
absoluta de apenas uma só entidade, o processo poderia parecer mais fácil mas a realidade é
que o destino dos monopólios nunca é muito risonho e a liberalização do sector eléctrico vem
como que a acudir o sector contra a falta de competição, mesmo que o processo se torne ainda
mais complexo.
O panorama da liberalização do sector eléctrico traz ainda mais complicações à gestão
da totalidade do processo em causa:
• As redes de distribuição, que constituem monopólios naturais locais podem estar a cargo
de diferentes empresas responsáveis pela rede local em diferentes zonas;
• Todos os produtores reclamam melhores níveis de eficiência para poderem subir na
pirâmide do despacho à produção;
• Surge uma nova entidade: os comercializadores de EE;
• Os inúmeros equipamentos estão espalhados ao longo de todo o país, à
responsabilidade de diferentes entidades (estatais ou privadas).

Produzir e entregar EE a quem pretende consumir já é muito complexo, quanto mais


controlar todos os equipamentos e indivíduos intervenientes no processo, no sentido de melhorar
e controlar a qualidade da EE. A situação piora com a necessidade de instalar equipamentos de
aquisição, registo, tratamento e envio de informação sobre a qualidade da EE.
Tal como se de uma simples empresa se tratasse, o sector eléctrico pretende ir de
encontro às necessidades dos seus clientes. Os clientes na realidade não pretendem EE na sua
forma primária mas sim as utilidades que esta proporciona por meio da sua conversão para
outras formas de energia. De facto, o que o consumidor pretende é que todos os seus sistemas
e equipamentos tenham alimentação. As utilidades são inúmeras: iluminação, aquecimento de
água, accionamentos mecânicos múltiplos, equipamento de criação, gestão e comunicação de
informação automática, meios de contacto, fornos, entretenimento etc.
A postura das empresas e organizações que compõem o sector eléctrico, tem que ir bem
além da simples entrega de pacotes de energia (“kWh”) para lá do contador porque, embora
existam clientes para os quais a qualidade da EE é suficiente para a satisfação das suas

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exigências no que respeita às utilizações de EE, existem muitos outros para os quais a QE
constitui um elemento crucial.
O sector eléctrico tem que estar preparado para fornecer EE com qualidade diferenciada
a todos os que estiverem na disposição de investir para a obter. Hoje em dia já existe quem
disponibilize pacotes de soluções que incluem o fornecimento de:
• EE com alta fiabilidade;
• energia na forma de calor ou frio;
• serviços de assistência permanente;
• garantia dos serviços acordados com indemnizações ao cliente caso exista
incumprimento.

Em alguns dos casos, os equipamentos de suporte à QE nem se encontram instalados


nas centrais de produção centralizada, podendo aparecer ao longo das redes de distribuição ou
mesmo dentro dos espaços dos clientes, para lá do contador. Note-se que, nos pacotes de
serviço de EE com qualidade diferenciada, os equipamentos de suporte à QE são da
responsabilidade de quem vende este tipo de serviços. Os serviços com qualidade diferenciada
e com alto nível de adaptabilidade aos requisitos dos consumidores são dispendiosos e exigem
que todos os intervenientes nos processos de produção, T&D e comercialização de EE estejam
altamente especializados e totalmente conscientes e comprometidos com os aspectos da Gestão
de Qualidade Total.
Uma postura deste tipo requer ferramentas evoluídas para gestão da qualidade e uma
compreensão globalizada, com a maior profundidade possível, das necessidades dos clientes,
capacidades e características do seu produto ou serviço, atitudes da concorrência e que
apresente vantagens competitivas relativamente à oferta dos concorrentes, a preços
competitivos.

2. QUALIDADE DE SERVIÇO
A qualidade de serviço (QS) de fornecimento de EE estabelece os padrões mínimos de
qualidade de natureza técnica e comercial a que deve obedecer o serviço prestado pelas
entidades do SEP.
A EE normalmente é gerada em locais distantes dos pontos de entrega sendo o
percurso desde o ponto em que é gerada até ao ponto em que é consumida um trilho sinuoso
por entre um elevado número de geradores, transformadores, cabos aéreos, subterrâneos,
ligações, disjunções, ramais, etc. A qualidade da EE no ponto de produção tem níveis muito
elevados e uniformes. Já as redes de distribuição, de onde é originária a maioria das
perturbações verificadas nos pontos de entrega, contribuem de forma nociva degradando a QS.
Mesmo sem referir as causas de força maior, são inúmeros os acontecimentos que
provocam perturbações da QS (ver Figura 1): descargas atmosféricas, árvores, vento excessivo,
humidade relativa do ar muito alta, acidentes de automóveis, animais, obras de construção, etc.
Toda a conjuntura associada à progressiva liberalização do sector eléctrico vem
aumentar a divisão de propriedades e de responsabilidades das estruturas que compõem o
sistema eléctrico, tornando difícil a tarefa de garantir a QS de fornecimento de EE, tanto a nível
técnico como a nível comercial.

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O número de consumidores com necessidades acrescidas de QS no fornecimento de EE


tem aumentado significativamente nos últimos anos o que vem reforçar a importância deste
factor. A evolução e proliferação de cargas não lineares, altamente susceptíveis a falhas de QE,
tem levado a um crescente nível de exigência por parte dos consumidores, cujos níveis de
qualidade exigidos ou desejados são geralmente incompatíveis com aqueles entendidos pelos
fornecedores e distribuidores como
sendo os mais justos.
De referir que, nesta fase,
nem todos os factores perturbadores
da QS são imputáveis aos
fornecedores ou distribuidores. Neste
campo, o papel dos clientes assume
grande relevo, uma vez que algumas
das perturbações são geradas dentro
das próprias instalações ou derivam
directa ou indirectamente da falta de
cuidados no projecto das instalações
dos consumidores. A resolução dos
problemas referentes à falta de QS de
fornecimento de EE implica a
conjugação de esforços entre
produtores, distribuidores e clientes.
Figura 1 – Conjuntura das Perturbações na Qualidade de Serviço [4]

A QS de fornecimento de EE inclui aspectos do impacto exercido sobre o desempenho


dos equipamentos e na exploração do sistema como um todo, quer do lado do cliente quer do
lado das empresas que contribuem para o serviço de fornecimento de EE. Seguindo a orientação
dada por especialistas nesta matéria, diz-se que a QS de fornecimento de EE pode ser descrita
segundo três dimensões:
• Qualidade da Onda – da designação inglesa “Power Quality” - o produto é a EE,
devendo todos os seus parâmetros característicos encontrar-se muito próximos dos
valores nominais desejados (amplitude das ondas que compõem o sistema de tensões
constante, sistema de tensões perfeitamente equilibrado e simétrico, frequência
constante e forma de onda sinusoidal);
• Continuidade do serviço – da designação inglesa “Power Reliability” - o fornecimento de
EE deve estar sempre disponível e em condições de Qualidade de Onda;
• Qualidade Comercial – não está intimamente relacionada ao produto em questão mas
sim ao conjunto de serviços que estabelecem a ligação entre o distribuidor e cliente.
Este aspecto de qualidade é comum ao bom serviço em qualquer sector e inclui os
seguintes aspectos:
o tempo de resposta entre contratação de um serviço e o seu fornecimento;
o atitude dos colaboradores no contacto com o cliente e perante reclamações;
o responsabilização pelo incumprimento das cláusulas contratuais;
o eficácia e existência de canais de comunicação;
o política económica e tarifária;

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o facilidade de compreensão e leitura das facturas de EE;


o eficiência, facilidade e disponibilidade de métodos de pagamento;
o apoio técnico, disponibilidade de informação e resposta a questões técnicas.

Estas dimensões podem ser divididas por parâmetros de natureza comercial (qualidade
comercial) e parâmetros de natureza técnica (continuidade de serviço e qualidade da onda).
A título de conclusão, poderá dizer-se que a QS de fornecimento de EE é tanto melhor
quanto menor for a diferença entre as características do fornecimento de EE e os parâmetros e
aspectos que caracterizam a EE perfeita.

3. CONCEITO DE QUALIDADE DE ENERGIA


Como foi visto em cima, a QS de fornecimento de EE inclui a totalidade dos factores na
relação entre vendedor de EE e consumidor, incluindo inúmeros aspectos para lá da qualidade
do produto em causa: comercialização, assistência, relacionamento com os consumidores,
atendimento, gestão e análise de problemas técnicos e comerciais, resposta a reclamações, etc.
A qualidade da energia eléctrica enquadra-se no contexto da qualidade de serviço, mais
precisamente nos aspectos relacionados com a qualidade da onda de tensão e com a
continuidade de serviço. Porém o seu conceito é vasto e complexo e pode ser interpretado de
diferente modo por diferentes intervenientes no processo, desde a produção até ao consumo de
EE. É desta problemática que surgem as normas e os regulamentos de qualidade do produto
EE, que serão abordados mais adiante.
O conceito de QE foi pela primeira vez utilizado numa publicação realizada pela Marinha
dos Estados Unidos em 1968, em que se analisaram as especificações de equipamento
electrónico relativas à alimentação. Contudo, este conceito ainda hoje não reúne consenso sobre
sua definição, tendo vindo a sofrer reformulações. A definição de QEE possui significados e
interpretações diferentes consoante as necessidades dos clientes envolvidos, mas o que está
regulamentado e legislado não deve ter mais do que uma interpretação.
Destacam-se deste modo as seguintes definições de QEE.
Uma possível definição é a frequência e severidade relativas dos desvios da sinusóide
perfeita à frequência fundamental de 50Hz da tensão e/ou corrente que alimentem os
equipamentos eléctricos.
Uma outra possível abordagem será as características dos sistemas eléctricos e da
alimentação que afecte a performance das cargas, bem como as características das cargas que
afectem o bom desempenho do sistema eléctrico ou de outras cargas. Deste modo temos que a
qualidade da energia eléctrica é o resultado da interacção desta com os equipamentos
eléctricos.
Numa perspectiva simplista, podemos dizer que se estes funcionarem correctamente,
sem serem danificados ou perturbados, então a energia eléctrica é de boa qualidade, caso
contrário esta será de pior qualidade.
Numa abordagem mais técnica diz-se que uma alimentação de EE em perfeitas
condições é aquela que está sempre disponível, dentro das tolerâncias de amplitude de tensão e
frequência e com uma forma de onda de tensão perfeitamente sinusoidal. A partir deste ponto,

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os desvios toleráveis dependem do tipo de carga em questão. Diferentes tipos de carga têm
níveis de tolerância diferentes para os diferentes tipos de defeito da alimentação de EE.

4. NORMALIZAÇÃO
4.1. O QUE SÃO AS NORMAS
As normas são acordos documentados contendo especificações técnicas, ou outro tipo
de critérios exactos, que servem para serem utilizados como regras, orientações ou definições
de características que assegurem que materiais, produtos ou processos servem os fins para que
foram concebidos.
A definição de normas é sempre feita por consenso, recolhendo o contributo de todas as
partes interessadas - fabricantes, técnicos e especialistas, organismos reguladores e clientes.

4.2. IMPORTÂNCIA DA NORMALIZAÇÃO


A evolução da economia de mercado nos nossos dias estimula cada vez mais as
organizações que querem ser competitivas, a procurarem os seus clientes e fornecedores a nível
global. A existência de referências comuns, que sejam reconhecidas de um país para outro, de
uma região do globo para outra, assume assim uma importância fulcral para garantir o comércio
livre e a competição justa entre empresas. As normas que abrangem um determinado produto,
serviço ou tecnologia servem assim como uma linguagem comum no comércio internacional.
Nas fases iniciais de concepção e desenvolvimento de novas tecnologias, as aplicações
práticas podem ser imaginadas mas nem sempre concretizadas em protótipos funcionais. Nestes
casos, as necessidades de normalização incidem especialmente sobre a definição de
terminologias e de informações de referência que orientem todo o processo de desenvolvimento.

4.3. NORMALIZAÇÃO NO ÂMBITO DA QUALIDADE DE ENERGIA


A normalização permite, por um lado, definir os níveis de Qualidade da Energia que têm
de ser satisfeitos pelas empresas distribuidoras, e por outro, força os fabricantes a disponibilizar
equipamentos mais robustos do ponto de vista da Qualidade da Energia. Visando este objectivo,
têm vindo a ser desenvolvidas normas por diversos organismos, dos quais se destacam os
seguintes:
• IEC – International Electrotechnical Commission;
• IEEE – Institute of Electrical and Electronic Engineers;
• CENELEC – Comité Europeu de Normalização Electrotécnica (principal organismo de
normalização da Europa).

Pretende-se com estas normas focar três aspectos fundamentais:


• Definição de Terminologia: é apresentada a definição dos conceitos relativos ao
fenómeno da Qualidade da Energia, bem como, são normalizados os conceitos e
técnicas de medição dos diversos parâmetros desta, facilitando assim a troca de
informação entre os diversos fabricantes de equipamentos, empresas do sector eléctrico
e consumidores;

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• Definição das Características Nominais: são definidas as características nominais de um


produto disponibilizado e as respectivas tolerâncias;
• Definição de Limites para as Perturbações: este é o objectivo final de uma norma de
Qualidade da Energia.

4.4. NORMALIZAÇÃO EM PORTUGAL


4.4.1. Regulamento da Qualidade de Serviço
A principal ferramenta em Portugal, no que se refere à normalização de Qualidade da
Energia é o Regulamento de Qualidade de Serviço. Este regulamento, publicado pela DGE,
estabelece os padrões mínimos de qualidade técnica (continuidade de serviço e qualidade da
onda de tensão) e qualidade comercial a que deve obedecer o serviço prestado pelas entidades
do SEP.
Este regulamento aplica-se às seguintes entidades:
• REN, a entidade concessionária da Rede Nacional de Transporte de energia eléctrica
(RNT);
• Distribuidores vinculados, EDP distribuição e cooperativas de distribuição de energia
eléctrica;
• Clientes do SEP;
• Produtores do SEI e aos clientes não vinculados, com instalações fisicamente ligadas às
redes do SEP.

Relativamente à definição de continuidade de serviço, são utilizados alguns parâmetros


que serão mencionados mais à frente, cujos limites são definidos de acordo com a distribuição
dos consumidores por três zonas.
As zonas geográficas de qualidade de serviço estão definidas segundo critérios de
organização administrativa e de acordo com o número de clientes por localidade, como pode ser
visto na Tabela 1.
Zona A Capitais de distrito com mais de 25000 clientes
Zona B Localidades com um número de clientes compreendido entre 2000 e 25000
Zona C Restantes locais
Tabela 1 – Classificação de zonas para estabelecimento de padrões de qualidade de serviço. [1]

Nas tabelas seguintes (Tabela 2 e Tabela 3) estão definidos os principais indicadores de


continuidade de serviço pelo RQS, para cada cliente, consoante o nível de tensão e a zona
geográfica. No regulamento, apenas são contabilizadas as interrupções longas, ou seja,
interrupções cuja duração é superior a 3 minutos.

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MAT AT MT BT
Zona A 8 12
Zona B 3 8 18 23
Zona C 30 36
Tabela 2 – Número limite de interrupções longas por ano, definidas pelo RQS para cada cliente. [1]

MAT AT MT BT
Zona A 4 6
Zona B 0,75 4 8 10
Zona C 16 20
Tabela 3 – Número limite de duração total das interrupções longas por ano, definidas pelo RQS para cada cliente
(em horas). [1]

Relativamente à qualidade da onda de tensão, este regulamento estabelece os limites


para os indicadores desta, para as redes de AT e MAT, adoptando os limites para BT e MT
definidos pela norma NP EN 50 160.

4.4.2. Norma NP EN 50 160


Esta norma que se define por “Características da tensão fornecida pelas redes de
distribuição pública de energia eléctrica”, descreve e esclarece as características da tensão de
alimentação num ponto de entrega das redes de distribuição pública de energia eléctrica em BT
e em MT, em condições de exploração normal, impondo limites para determinados fenómenos
perturbadores da onda de tensão no que respeita à amplitude, frequência, forma de onda e
simetria das tensões trifásicas.
No primeiro ponto, a norma apresenta a delimitação do respectivo campo de aplicação,
enumerando as condições anormais de exploração onde não é aplicável:
• avarias, condições provisórias de fornecimento (manutenção, construção ou manobras
da rede);
• não conformidades de instalação a jusante do ponto de entrega;
• não conformidades de instalação a montante da rede de distribuição pública;
• condições especiais, alheias à vontade do fornecedor:
o condições climatéricas e catástrofes naturais;
o perturbações causadas por terceiros;
o decisões oficiais;
o greves;
o casos de força maior;
o interrupções com causas externas.

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Ainda dentro deste mesmo ponto, esclarece os limites da própria norma quanto à sua
utilização:
• não estabelece níveis de CEM;
• não impõe limites à emissão de perturbações pelos clientes para a RDP;
• não se destina à utilização em especificações de requisitos em normas de produtos;
• não é substituível em parte nem por todo por nenhum termo de contracto entre o cliente
e o fornecedor.

Posteriormente são definidos e delimitados os conceitos que envolvem os contratos de


fornecimento de energia eléctrica. Este ponto é de especial importância não só porque define
conceitos para não existirem equívocos mas também porque torna a norma auto-contida. Tal
como é do conhecimento de todos os que estão envolvidos neste campo, existem inúmeras
nomenclaturas, definições e denominações que se referem a aspectos comuns. De país para
país, de região para região, de especialidade técnica para especialidade técnica, de campo de
aplicação para campo de aplicação, um só conceito é definido de forma diferente, apresenta
diferentes nomenclaturas, tem diferentes denominações e em muitos casos a confusão instala-
se tornando o tratamento destes conceitos um trabalho árduo e de extrema complexidade.
Como o objectivo é a normalização globalizada para entendimento comum de tudo entre
todos, é essencial que uma boa norma vá para além de especificações de limites e de
características de um determinado aspecto e estabeleça, de forma directa e concreta, a
nomenclatura e a denominação usada de todos os conceitos técnicos utilizados na própria. Uma
norma auto-contida é muito mais útil e imune a críticas destrutivas devido ao seu cariz
desprovido de equívocos.

4.4.3. Normas IEC 61000


O conjunto de normas IEC 61000 pretende abordar todos os fenómenos relacionados
com a Qualidade da Energia que possam induzir perturbações no equipamento de uso final. Este
conjunto divide-se em 6 partes do seguinte modo:
• Geral – são feitas considerações gerais sobre a Qualidade da Energia;
• Ambiente Electromagnético – definem-se as condições electromagnéticas a que se
devem encontrar instalados os equipamentos;
• Limites – definem-se os limites máximos de emissão dos equipamentos ligados às
redes públicas e os limites de perturbações que estes deverão suportar sem que
ocorram falhas no seu funcionamento;
• Técnicas de Teste e Medida – são indicadas de forma detalhada as técnicas e métodos
a utilizar para efectuar a medição e avaliação da conformidade entre o aparelho e o
ambiente;
• Linhas de Orientação para Instalações e Mitigação de Problemas – são indicadas
formas de instalação de equipamentos, relativamente aos sistemas de terra e
condutores a utilizar, assegurando a compatibilidade entre os equipamentos eléctricos e
os equipamentos electrónicos que partilham o mesmo ambiente;
• Diversos – são definidos os níveis de imunidade às perturbações electromagnéticas que
os equipamentos devem possuir.

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5. ORIGEM DAS PERTURBAÇÕES DA QUALIDADE DA ENERGIA


5.1. NOS CENTROS DE PRODUÇÃO
À semelhança do que acontece em quase todo o mundo, a maior parte da EE
consumida em Portugal é produzida em centros produtores de grande capacidade. Este tipo de
geradores e respectivas instalações eléctricas adjacentes são projectadas de forma minuciosa
para virem a integrar o sistema interligado de produção de EE, que se pretende com capacidade
de reserva significativa, capaz de responder ao aumento de carga no sistema sem que se
verifiquem cavas de tensão significativas à sua saída. Dentro dos centros de produção de EE, as
cargas existentes são lineares não originando perturbações na QEE. Em suma, a QEE à saída
dos centros de produção de EE apresenta altos níveis.
Numa visão mais alargada, pode referir-se que é o conjunto de todas as grandes
centrais electroprodutoras que segura o maior nível de QEE existente em toda a estrutura do
sector eléctrico.
Porém, desde que a electricidade é gerada neste grandes centros produtores até ser
consumida, pode sofrer diversas perturbações, originando uma degradação da sua qualidade.
Estas perturbações podem ser introduzidas quer na rede de transporte, quer na rede de
distribuição, quer pelas cargas ligadas ao sistema.

5.2. NOS SISTEMAS DE TRANSPORTE


À saída das grandes centrais electroprodutoras, a energia é injectada na rede de
transporte em AT ou em MAT na ordem dos 150, 220 e 400kV, de forma a optimizar o seu
transporte até aos pontos de ligação à rede de distribuição. Neste percurso, a EE fica exposta a
inúmeros agentes perturbadores que exercem efeitos nocivos à QEE. Em seguida, são referidos
alguns dos factores mais importantes:
• Variação das indutâncias das linhas, originada pelas oscilações laterais dos vãos das
linhas de transporte aéreas, provocadas por ventos fortes. Ainda que possa ser
minimizado pela sua transposição, este efeito tem sempre impacto manifesto em
oscilações de tensão aleatórias no extremo da linha;
• Descargas Atmosféricas, que ocorrem nos locais onde se encontram as linhas. O facto
da rede aérea se encontrar a uma altura relativamente elevada e uma vez que as
linhas, são constituídas por material condutor, a rede de transporte é um autêntico
chamariz de descargas atmosféricas. A ocorrência destes fenómenos origina picos de
tensão de amplitude muito elevada e de curta duração. Neste tipo de rede (AT e MAT)
não se trata de um problema tão gravoso como no caso das redes de MT e BT, onde os
picos podem causar sobretensões muito perigosas. Agregado a este factor vem o
disparo das aparelhagens de protecção que, para além dos picos de tensão já referidos,
originam interrupções de fornecimento de duração directamente proporcional à
gravidade do pico de tensão;
• Contornamento dos isoladores, que ocorre por disrupção da linha à terra, que
normalmente são provocadas por acumulação de poeiras e de humidade nos
isoladores. As disrupções à terra (ou passagem à terra), originam cavas de tensão nas
fases que estão a dar passagem à terra e também o desequilíbrio do sistema trifásico,
podendo dar lugar ao disparo da aparelhagem de protecção. Este tipo de perturbações
pode originar pequenas interrupções e fenómenos transitórios relativos ao refecho dos

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disjuntores de protecção da linha de transporte e, em casos extremos, interrupções de


longa duração;
• Quedas de tensão por efeito de Joule na impedância das linhas, uma vez que a
impedância das linhas de transporte não é nula, causando a variação da amplitude da
onda de tensão da ordem dos 10% entre situações de vazio e de plena carga;
• Influência de linhas interligadas, que apesar de contribuírem de forma positiva pela
redução das impedâncias em qualquer ponto de ligação e pelo aumento da estabilidade
e fiabilidade do sistema, mas também contribuem de forma negativa ao criar meios de
propagação difusa de perturbações. Em princípio a difusão da perturbação por várias
linhas pode até parecer uma vantagem porque a perturbação espalha-se pela rede em
porções de menor intensidade e menos problemáticas, mas este aspecto torna o
projecto de novas redes muito dependente das redes adjacentes. O que para uma
determinada linha é uma pequena perturbação pode não o ser para outro troço de rede.
Hoje em dia, o projectista deve projectar troços de rede auto sustentáveis no que
respeita a capacidade e protecção, sem que para tal origine situações de desequilíbrio
nas redes periféricas que anteriormente funcionavam sem aqueles problemas. Caso
contrário, cada vez que se instalassem novas redes de transporte tinham que se fazer
revisões a toda a aparelhagem de protecção das redes adjacentes assim como às
capacidades de resposta a perturbações de todas as redes adjacentes;
• Agressões físicas, tais como incêndios, temporais, ninhos de cegonha ou ruptura de
linhas. Este tipo de acontecimentos originam sempre perturbações graves e as suas
consequências são de grande escala. Tome-se como exemplo o sucedido nas linhas da
rede que alimenta o sul de Portugal continental no verão de 2003, em que o fogo que
fustigou a zona onde se encontrava uma das linhas da rede de transporte provocou a
sua disfunção, até à interrupção definitiva do troço em questão.

5.3. NOS SISTEMAS DE DISTRIBUIÇÃO


Salvo as ligações directas em AT e MAT aos grandes consumidores de EE, a rede de
transporte termina em grandes subestações, onde a EE é transformada para valores de MT com
valores de amplitude de tensão típicos de 15, 30 e 60kV, a fim de ser distribuída por regiões
geográficas mais restritas e de ser transportada até próximo dos clientes finais, da forma mais
económica possível. Ao longo da rede de distribuição a EE vai sofrendo transformações
consecutivas até se adaptar à forma mais adequada de alimentação do cliente final. Alguns
grandes clientes adquirem EE em MT, efectuando a transformação necessária dentro das
próprias instalações. Outros adquirem EE em níveis adaptados à utilização final mais comum,
isto é, BT a 230V monofásica ou 400V trifásica.
As sucessivas reduções de amplitude da onda de tensão são feitas em transformadores
implicando adições sucessivas de impedâncias com características não lineares desde os
geradores das centrais electroprodutoras até às cargas finais. Em casos de excesso de energia
reactiva produzida pelo conjunto de transformadores e de cargas, é necessária a instalação de
bancos de condensadores para compensação do FP. Mais uma vez, a instalação de
aparelhagem faz com que se introduzam mais impedâncias e, consecutivamente, aumenta a
probabilidade de ocorrerem perturbações de QEE.
Por outro lado, a rede de distribuição em MT e BT é muito mais susceptível a
perturbações do que a rede de transporte, devido à sua abrangência geográfica. As redes de
distribuição encontram-se em todo o lado e estão muito mais acessíveis e susceptíveis a
agentes perturbadores da QEE. A extrema vulnerabilidade da rede de distribuição e o facto de se

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encontrar espalhada por toda a parte faz com que seja a fonte de maior parte das perturbações
de QEE. A rede de distribuição atravessa inúmeras zonas com imensos potenciais agressores
físicos: gruas em zonas de obras, árvores em zonas rurais, automóveis em zonas de estrada,
animais, incêndios, agentes catalizadores dos processos de oxidação em estações de
tratamento de resíduos, minas ou salinas etc.
Mesmo no que respeita a factores de cariz ambiental e meteorológico este tipo de redes
é mais preocupante. Tome-se o exemplo mais óbvio das descargas atmosféricas. As redes de
transporte são protegidas com cabos de guarda (ver Figura 2) que escoam a EE das descargas
atmosféricas à terra sem que se dê lugar a perturbações de maior calibre. Mesmo que a
descarga se efectue em parte, ou por todo, nos cabos da rede de transporte, as repercussões a
nível da integridade da linha ou mesmo da aparelhagem por onde se propagará a perturbação,
não será tão crítica como no caso das redes de distribuição, devido à atenuação ao longo da
própria rede, ao escorvamento pelos isoladores que se encontram nos postes da rede de
transporte, à difusão da sobretensão por várias linha adjacentes ou mesmo às impedâncias
existentes ao longo de toda a rede.
As descargas nas redes de distribuição são muito mais problemáticas. Por um lado é
uma rede mais sensível a descargas atmosféricas e porque não tem cabos de guarda, por outro
lado porque está próxima das cargas dos clientes. Normalmente, uma descarga atmosférica num
ponto da rede de distribuição tem sempre efeitos nefastos tanto nos equipamentos do lado da
rede como nos equipamentos do lado do consumidor.
Um exemplo que descreve de forma
concreta este facto foi o que sucedeu numa
tempestade tropical no verão de 1978 numa
zona industrial Brasileira. Uma primeira
descarga atmosférica causou a fusão
instantânea dos materiais constituintes dos
equipamentos de protecção do PT de uma
pequena indústria de cerâmica e uma
segunda descarga danificou equipamentos
com valor estimado em 730 mil contos.
Assim, conclui-se que quanto mais
longe do gerador nos situarmos, maior é o
número de perturbações por unidade de
tempo e piores são as consequências
dessas mesmas perturbações.
Figura 2 – Cabos de Guarda

5.4. NAS CARGAS


Desde a década de 1970 que se tem vindo a assistir ao aparecimento de cargas
baseadas em dispositivos electrónicos sensíveis, tais como díodos, transístores, tirístores,
IGBT’s, circuitos integrados, microprocessadores, etc. As vantagens a nível de consumo de EE e
de capacidade de controlo fizeram com que este tipo de cargas proliferasse de uma forma
bastante rápida. Mas, este tipo de tecnologias trouxe consigo perturbações de QEE que
proliferam à mesma velocidade, acrescido de um aumento considerável de sensibilidades às
perturbações da QEE. Esta tecnologia gera perturbações de QEE e é ao mesmo tempo a maior
vítima dessas mesmas perturbações.

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Na altura em que se efectuaram os projectos dos equipamentos deste tipo, houve muito
descuido na prevenção contra a poluição da rede. A forma de onda das correntes absorvidas por
este tipo de equipamentos é rica em harmónicos de alta-frequência e rapidamente começaram a
aparecer na rede os efeitos desta falta de linearidade.
A progressiva substituição das fontes de alimentação lineares pelas FAC foi o principal
factor responsável pelo grande aumento do impacto nocivo na QEE. A alteração da natureza das
cargas é o factor que mais tem promovido o aparecimento dos problemas relacionados à QEE.
Nos dias de hoje a maioria das cargas eléctricas têm FAC’s, que utilizam na sua composição
electrónica de potência. As FAC’s apresentem inúmeras vantagens (alta eficiência, controlo mais
preciso de processos, baixo consumo, peso e tamanho reduzido, etc.) mas não são lineares, isto
é, a corrente que absorvem não é sinusoidal. Este factor faz com que, ao mesmo tempo que
causam perturbações nas ondas de corrente e de tensão, são também as maiores vítimas da
falta de QEE, pois são muitos sensíveis a essas perturbações.
Actualmente a grande maioria dos problemas de qualidade de energia que afectam um
dado edifício/instalação têm como origem esse mesmo edifício/instalação.
Na Figura 3 são apresentadas algumas características de cargas não lineares. O efeito
introduzido por este tipo de cargas vai propagar-se, contribuindo para a degradação da tensão
da rede eléctrica, conforme ilustra a Figura 4.

Figura 3 – Características de algumas cargas não lineares [12]

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Figura 4 – Degradação da tensão da rede causada pelas cargas não lineares [12]

6. PERTURBAÇÕES DA QUALIDADE DA ENERGIA


6.1. CAVAS DE TENSÃO
Uma cava de tensão (“sag”) corresponde a uma diminuição brusca do valor eficaz da
tensão de alimentação para um valor entre 1 e 90% da tensão nominal, seguida de
restabelecimento da tensão depois de um curto lapso de tempo (ver Figura 5). Por convenção
uma cava de tensão dura de 10 milissegundos a 1 minuto [RQS, 2003].
Durante o tempo da cava de tensão, o valor eficaz da tensão desce para valores que
poderão não ser suficientes para o bom funcionamento de certos equipamentos.
Para vários dispositivos sensíveis a este tipo de perturbações, especialmente os
dispositivos electrónicos,
uma cava de tensão pode
ter os mesmos efeitos que
uma interrupção da
alimentação, e tendo em
conta que se observam com
uma maior frequência do
que as interrupções podem
trazer prejuízos mais graves
para um sector de
actividade onde
predominem tipos de cargas
susceptíveis a este tipo de
perturbação.
Figura 5 – Aspecto típico de uma cava de tensão [5]

6.1.1. Origem das Cavas de Tensão


As cavas de tensão podem ter origem em dois factores em especial:
• Ligação de grandes cargas: Quando se liga uma carga de grande potência na rede, por
exemplo um motor de indução, onde a corrente de arranque poder ser 5 a 6 vezes
superior à corrente nominal, existe uma maior queda de tensão que pode ultrapassar os
valores mínimos permitidos, originando assim uma cava de tensão;

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• Defeitos na rede: Quando ocorre um defeito numa linha (curto-circuito), as correntes são
elevadíssimas o que provoca um abaixamento de tensão nas linhas mais próximas (a
linha com defeito é desligada pelos aparelhos de protecção) dando-se assim origem a
uma cava de tensão nos locais mais próximos do defeito com uma maior profundidade,
diminuindo quando se caminha para linhas mais distantes do defeito. Estas cavas de
tensão têm uma duração típica de algumas centenas de milissegundos.

O equipamento mais susceptível às cavas de tensão é o equipamento electrónico.


Devido a alguns maus
funcionamentos destes
dispositivos no passado,
foram criadas curvas de
tolerância de tensão que
regulam a alimentação para o
bom funcionamento dos
aparelhos electrónicos. A
primeira curva a ser
estabelecida foi a curva
CBEMA (ver Figura 6) e
surgindo depois a curva ITIC
(ver Figura 7) que depois de
revista em 2000 apresenta a
forma da figura abaixo.
Figura 6 – Curva CBEMA

Figura 7 – Curva ITIC

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Se uma perturbação da tensão de alimentação de um equipamento se situar na zona


sombreada da figura, o equipamento deve operar normalmente, se estiver fora, o equipamento
pode funcionar ou não.

6.1.2. Consequências das Cavas de Tensão


As consequências de uma cava de tensão podem ser desastrosas para certas
instalações ou processos produtivos. Apresentam-se de seguida alguns exemplos dos efeitos
provocados pelas cavas de tensão em equipamentos que usualmente estão ligados a uma rede
de energia eléctrica.
• Motores de indução
O binário de um motor de indução é aproximadamente proporcional ao quadrado do
valor da tensão aplicada aos seus terminais. Se houver uma pequena diminuição da
tensão de alimentação, esta provoca uma grande redução do binário do motor, o que por
sua vez leva a uma diminuição da velocidade do motor. Esta redução depende da
profundidade da carga mas também das características do sistema motor-carga;
• Motores de síncronos
Os motores síncronos possuem em geral uma maior inércia que os motores de indução
o seu binário é proporcional a tensão de alimentação. Devido a estas características os
efeitos de uma cava de tensão num motor síncrono não se farão sentir tanto como num
motor de indução. Os motores síncronos podem suportar uma cava de tensão de 50%
sem que a sua velocidade seja diminuída significativamente.
• Equipamento electrónico
O equipamento electrónico representa uma parte significativa das cargas actuais e em
muitos casos são estas as cargas mais criticas relativamente a perturbações na
qualidade de energia eléctrica de uma instalação.
Este tipo de equipamento requer alimentação em DC. Como a energia da rede é
fornecida apenas AC, estes equipamentos recorrem a fontes de alimentação para poder
rectificar a tensão e deste modo ser alimentados correctamente. Uma fonte de
alimentação é normalmente constituída por uma ponte rectificadora, um filtro capacitivo e
um módulo regulador. Quando ocorre uma cava de tensão, a tensão no barramento DC
baixa pois esta depende da tensão de entrada da fonte, a taxa de diminuição depende
do tamanho da cava de tensão e também da capacidade do condensador utilizado pela
fonte. Nas fontes de alimentação mais modernas (fontes comutadas) a tensão de saída
não é tão dependente da tensão de entrada como anteriormente permitindo assim uma
gama de tensão de entrada mais ampla. No entanto em qualquer dos casos se a tensão
no barramento DC baixar abaixo de um certo limiar o equipamento pode deixar de
funcionar correctamente ou comportar-se como se tivesse ocorrido uma falha de
alimentação.
No caso se ser um equipamento electrónico doméstico ou de pequenos serviços, a falha
do equipamento devido à cava de tensão pode reduzir-se a um pequeno incómodo e a
alguma perda de informação (como é caso dos computadores), mas se o equipamento
electrónico estiver a fazer a monitorização de algum processo produtivo industrial, esta
pequena falha da alimentação pode ser responsável por uma paragem de todo um
processo industrial mais complexo e com isso acarretar custos elevados. Neste tipo de
equipamentos de controlo de processos é também usual, e sensato, proteger o sistema

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contra uma má qualidade de energia eléctrica da rede, utilizando UPS’s de modo a


manter a qualidade da energia para o equipamento.
• Variadores electrónicos de velocidade
Um variador electrónico de velocidade é constituído basicamente por quatro módulos:
um rectificador, um filtro, um inversor e uma unidade de controlo. As cavas de tensão
podem afectar o funcionamento de um variador electrónico de velocidade de várias
formas:
⇒ A unidade de controlo pode detectar variações das condições de alimentação e
desliga o variador de modo a evitar danos nas partes de electrónica de potência.
⇒ Os valores de tensão no barramento DC não são suficientemente elevados para
assegurar o correcto funcionamento do inversor ou da unidade de controlo.
⇒ Durante a ocorrência da cava ou imediatamente após a sua ocorrência podem existir
correntes de valor elevado para carregar o condensador que podem fazer actuar os
aparelhos de protecção do circuito de alimentação.
⇒ O processo pode não permitir as eventuais variações de binário que o motor exerce
e o processo para.
De todas estas formas de afectação do funcionamento de um variador de velocidade o
mais comum é a diminuição da tensão no barramento DC de modo a não conseguir
assegurar o bom funcionamento do equipamento.
Existem alguns métodos de minimizar os efeitos das cavas de tensão nos variadores
electrónicos de velocidade.
⇒ Ligar a unidade controlo a uma alimentação diferente da do variador. Podendo ainda
colocar uma unidade que assegure o bom funcionamento durante alguma
perturbação, já que a unidade de controlo é de baixo consumo.
⇒ Colocar uma tecnologia de armazenamento de energia de modo a injectar essa
mesma energia no barramento DC se se verificasse a diminuição da tensão.
⇒ Utilizar elementos controláveis na rectificação da tensão em vez de díodos.

6.1.3. Formas de Mitigação das Cavas de Tensão


A grande maioria das cavas de tensão é provocada por perturbações na rede de
distribuição. Uma boa estratégia para mitigar estas perturbações é introduzir medidas como as
descritas de seguida:
• Aumento da potência de curto-circuito da rede: deste modo conseguimos que a área
afectada por uma perturbação seja menor, produzindo por isso menos cavas e de menor
amplitude;
• Minimizar o tempo de eliminação dos defeitos: quanto menor o tempo de defeito menor
será a cava de tensão;
• Isolar clientes sensíveis: no caso de existirem clientes mais sensíveis estes devem ser
ligados a pontos da rede que estejam mais afastados das perturbações.

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Outro método de contrapor as cavas de tensão é a utilização de aparelhos dedicados à


mitigação deste fenómeno. Entre outros são utilizados os seguintes: transformador ferro-
ressonante, transformadores com regulação automática de número de espiras, reguladores de
tensão estáticos, DVRs, e alguns aparelhos destinados a mitigar as interrupções (UPS,
equipamentos de geração distribuída, etc.) que também estão aptos a resolver o problema das
cavas de tensão.

6.2. INTERRUPÇÕES BREVES E LONGAS (CONTINUIDADE DE SERVIÇO)


Os conceitos de continuidade de serviço e interrupções estão intimamente relacionados
uma vez que, continuidade de serviço entende-se como o fornecimento de energia eléctrica sem
interrupções.
Segundo o RQS, define-se uma interrupção do fornecimento, ou entrega, de energia
eléctrica como sendo uma situação em que, o valor eficaz da tensão de alimentação no ponto de
entrega é inferior a 1% da tensão declarada Uc, em pelo menos uma das fases, dando origem a
cortes de consumo nos clientes [RQS, 2003].
As interrupções podem ser consideradas acidentais ou previstas. No primeiro caso,
consiste numa interrupção do fornecimento ou da entrega de energia eléctrica provocada por
defeitos permanentes ou transitórios, na maior parte das vezes ligados a acontecimentos
externos, a avarias ou a interferências. No segundo caso, trata-se de uma interrupção do
fornecimento ou da entrega que ocorre quando os clientes são informados com antecedência,
para permitir a execução de trabalhos programados na rede.
As interrupções são caracterizadas pela sua duração. Assim, segundo as normas EN
50160 e IEC 61000, as interrupções poderão ser breves ou longas. Interrupções breves são
interrupções cujo o tempo é igual ou inferior a três minutos. Interrupções longas são interrupções
cujo o tempo excede os três minutos.

6.2.1. Indicadores da Continuidade de Serviço


Neste ponto apresentam-se alguns dos indicadores usados para a avaliação da
continuidade de serviço de um sistema de energia. A continuidade de serviço na RNT é
caracterizada, de acordo com o Regulamento da Qualidade de Serviço, por indicadores gerais e
por indicadores individuais.
Os primeiros são descritos de seguida, mencionando para cada um deles a abreviatura
usada, a definição, a fórmula de cálculo e respectiva unidade. [1]

Abreviatura ENF – Energia Não Fornecida


Definição Valor estimado da energia não fornecida nos pontos de entrega com base na
potência cortada no início da interrupção de fornecimento e do tempo de
interrupção.
Fórmula
Unidade MWh

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Abreviatura TIEPI – Tempo de Interrupção Equivalente da Potência Instalada


Definição Quociente entre o somatório do produto da potência instalada afectada nos
postos de transformação de serviço público e particular pelo tempo de
interrupção de fornecimento daqueles postos e o somatório das potência
instaladas em todos os postos de transformação, de serviço público e
particular, da rede de distribuição.
Fórmula
TIEPI =
∑ P xT
i int errupçãoi

Ptotal
Unidade Minutos

Abreviatura TIE – Tempo de Interrupção Equivalente


Definição Quociente entre a energia não fornecida num dado período e a potência
média de carga nesse período, calculada a partir da energia total fornecida e
não fornecida no mesmo período.
Fórmula ENF
TIE =
ENF + EnergiaFor necida
T
Unidade Minutos

Abreviatura SAIFI – Frequência Média das Interrupções do Sistema (System Average


Interruption Frequency Index)
Definição Quociente do número total de interrupções nos pontos de entrega, durante
determinado período, pelo número total dos pontos de entrega nesse mesmo
período.
Fórmula
SAIFI =
∑ InterrupçõesNosPontosDeEntrega
NúmeroTotalDePontosDeEntrega
Unidade Nº de interrupções por ponto de entrega

Abreviatura SAIDI – Duração Média de Interrupções do Sistema (System Average


Interruption Duration Index)
Definição Quociente da soma das durações das interrupções nos pontos de entrega,
durante determinado período, pelo número total dos pontos de entrega nesse
mesmo período.
Fórmula
SAIDI =
∑ DuraçãoDasInterrupçõesNosPontosDeEntrega
NúmeroTotalDePontosDeEntrega
Unidade Minutos

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Abreviatura ASAI – Disponibilidade Média do Sistema (Average Service Availability Index)


Definição Quociente entre o produto do número total de pontos de entrega pelo tempo
em que o serviço esteve disponível e o produto do número total de pontos de
entrega pela duração do período em análise.
Fórmula ⎡ SAIFI ⎤
ASAI = 100⎢1 − ⎥
⎣ DuraçãoDoPeríodo ⎦
Unidade %

Abreviatura MAIFI – Frequência Média das Interrupções Breves do Sistema (Momentary


Average Interruption Frequency Index)
Definição Quociente do número total de interrupções momentâneas nos pontos de
entrega, durante determinado período, pelo número total de pontos de entrega
nesse mesmo período.
Fórmula ∑ InterrupçõesBrevesNosPontosDeEntrega
MAIFI =
NúmeroTotalDePontosDeEntrega
Unidade Nº de interrupções por ponto de entrega

Abreviatura CAIDI – Duração Média das Interrupções no Ponto de Entrega ()


Definição Quociente entre a soma das durações de todas as interrupções num ponto de
entrega, durante determinado período e o número total de interrupções nesse
ponto de entrega nesse período.
Fórmula
CAIDI =
∑ DuraçãoDasInterrupçõesNumPontoDeEntrega
∑ InterrupçõesNoPontoDeEntrega
Unidade Minutos por interrupção

Relativamente aos indicadores individuais referem-se dois:


• Número de interrupções por ponto de entrega;
• Duração total das interrupções por ponto de entrega.

6.2.2. Origem das Interrupções


A origem das interrupções é normalmente o sistema de abastecimento de EE. Os curto-
circuitos, as descargas atmosféricas ou mesmo as operações de comutação em grandes cargas
levam ao disparo dos equipamentos de protecção ou, inclusive, ao mau funcionamento dessas
mesmas protecções. Mas não se descura a possibilidade de algumas interrupções serem
provocadas por factores dentro das instalações dos próprios consumidores, ficando estas a
dever-se a falhas de isolamento em equipamentos, a má coordenação ou deficiente
dimensionamento de protecções, a exceder a potência contratada ou a erro humano.

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6.2.3. Consequências das Interrupções


As consequências das interrupções dependem de diversos factores, como sejam as
características dos equipamentos, a duração das interrupções, etc. Antigamente, as cargas não
sofriam danos de maior com as interrupções de fornecimento de EE. Nos tempos que decorrem,
as interrupções de longa duração levam à paragem dos equipamentos. Mesmo interrupções que
tenham uma duração a rondar a centena de milissegundos, podem provocar paragens de
algumas horas em linhas de produção, devido aos elevados tempos de re-arranque de todos os
processos de produção, implicando perdas de produção e consequentes prejuízos financeiros.

6.2.4. Formas de Mitigação das Interrupções


As principais formas de mitigação das consequências das interrupções no fornecimento
de energia eléctrica aos equipamentos passam pela melhoria dos sistemas de transporte e
distribuição de energia eléctrica ou pela instalação de equipamentos de armazenamento ou
produção de energia junto das cargas.
No que se refere à intervenção ao nível das redes de transporte e de distribuição, esta
apresenta três objectivos:
• Diminuição do Número de Falhas, através da substituição de linhas aéreas por linhas
subterrâneas; pela utilização de cabos isolados para as linhas aéreas; pelo aumento do
isolamento dos condutores; através da implementação de politicas de manutenção dos
corredores das linhas; instalação adicional de cabos de guarda; aumento da
manutenção;
• Redução da Duração das Falhas, o que é conseguido através do uso de fusíveis
limitadores de corrente e de disjuntores com a capacidade de rearme automático, que ao
detectarem um defeito disparam, retirando a linha de serviço, voltando posteriormente a
ligar (rearma automaticamente);
• Topologia do Sistema, através da aplicação de redundância nos componentes do
sistema, ou seja, se um componente falhar, os consumidores poderão ser abastecidos
por outros componentes da rede, o que permite uma redução do número de
consumidores afectados.

Relativamente à instalação de geradores o mais próximos possíveis das cargas é, de


facto, uma medida importante no combate às interrupções no fornecimento de energia eléctrica,
uma vez que, quanto mais próximo estiver o gerador da carga, menor será a exposição da rede
a fenómenos perturbadores, além de que, permite manter a tensão constante no caso de
defeitos em linhas mais distantes.
Relativamente aos equipamentos existentes para evitar os efeitos das interrupções
refere-se que, para interrupções breves é comum a utilização de UPS, ao passo que se, a
interrupção for prolongada, a solução será recorrer a sistemas de geração local de energia
eléctrica (Geração Distribuída).

6.3. SOBRETENSÕES
As sobretensões, como o próprio nome indica, são aumentos da tensão que podem
atingir valores varias vezes superiores à tensão nominal, durante pequenos intervalos de tempo,

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para frequências superiores à frequência nominal do sistema, ou podem ser de valor pouco
maior do que o valor nominal e durar mais tempo, de segundos a horas.
As sobretensões com duração até alguns milissegundos, com frequência superior à
fundamental, são definidas como sobretensões transitórias. As sobretensões à frequência
fundamental, com duração entre alguns milissegundos a alguns segundos, são definidas como
sobretensões temporárias (“swells”).

6.3.1. Origem das Sobretensões


As sobretensões têm a sua origem em quatro elementos em especial:
• Descargas atmosféricas: as linhas de distribuição estão particularmente susceptíveis a
estas descargas devido à sua posição mais elevada em relação ao solo. Se a descarga
for directa nas linhas pode atingir picos de corrente superiores a 25 KA, com impulsos de
subida que podem ser de 100KA/µs. A sobretensão provocada por uma descarga
atmosférica pode ser bastante elevada devido à impedância da linha.
Outro fenómeno que pode acontecer quando se dá uma descarga atmosférica é a
indução de uma sobretensão na linha devido aos efeitos electromagnéticos provocados
pela corrente de descarga. Quando a descarga se dá perto de uma instalação eléctrica,
o potencial da terra pode subir naquele ponto e assim originar uma sobretensão em
relação ao potencial do transformador colocado num sítio mais distante;
• Descargas electrostática: alguns equipamentos ou até mesmo os humanos são capazes
de adquirir carga eléctrica que quando em contacto com alguns componentes mais
sensíveis podem provocar a sua destruição, por exemplo num componente electrónico
pode haver destruição dos seus componentes internos quando este está a ser
manuseado.
• Sobretensões transitórias devidas a comutação de linhas ou cargas: quando se executa
uma comutação de uma bateria de condensadores é comum a ocorrência de uma
sobretensão transitória, de baixa frequência que normalmente não tem efeitos
destrutivos. Quando se inicia a circulação ou corte de uma corrente indutiva (arranque
de motores de indução, ligação de um transformador, etc.), podem ocorrer fenómenos
transitórios de elevada amplitude e elevada frequência que sobrelevam a tensão. A
interrupção muito rápida de uma corrente de curto-circuito pode provocar uma
sobretensão transitória, este tipo de sobretensões são sempre inferiores a 4 kV, já que
para valores superiores estabelecesse o arco eléctrico que limita o valor da tensão.
• Sobretensões à frequência do sistema: este tipo de perturbações dão-se quando existe
um curto-circuito entre uma fase e o neutro, um curto-circuito entre uma fase e a terra,
neste caso o comportamento da instalação é muito dependente do regime de neutro da
mesma instalação. A descontinuidade do condutor de neutro numa instalação trifásica
desequilibrada pode originar sobretensões nas fases em que a tensão simples atinge
valores da tensão composta e pode provocar problemas em equipamentos monofásicos.

6.3.2. Consequências das Sobretensões


Como consequência das sobretensões de curta duração em equipamentos, pode-se
citar falhas dos componentes, dependendo da frequência de ocorrência do distúrbio. Dispositivos
electrónicos incluindo ASD's, computadores e controladores electrónicos, podem apresentar
falhas imediatas durante estas condições. Transformadores, cabos, barramentos e máquinas

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rotativas podem ter a vida útil reduzida. Um aumento de curta duração na tensão em alguns
relés pode resultar numa má operação, enquanto outros podem não ser afectados. Um "swell"
num banco de condensadores pode, frequentemente, causar danos no equipamento. As
variações rápidas da tensão associadas Às sobretensões também podem causar interferências e
erros no equipamento de processamento de dados.

6.3.3. Formas de Mitigação das Sobretensões


A mitigação de sobretensões pode ser realizada em três locais distintos. Na rede de
transporte e distribuição, onde ocorrem muitas descargas atmosféricas, podem ser utilizados
cabos de guarda que, com a sua posição privilegiada em relação à terra e aos cabos condutores,
atraem para si as descargas atmosféricas.
As sobretensões podem ainda ser mitigadas, à entrada das instalações dos
consumidores ou então em cada equipamento de uso final. Nesta última situação é usual
utilizarem-se supressores de sobretensões, tais como
pára-raios ou varístores (ver Figura 8).
Os pára-raios são mais utilizados para conter
as descargas atmosféricas e devem ser instalados o
mais próximo possível das cargas a proteger, entre a
provável origem do defeito e a carga. Os varístores são
dispositivos que têm uma resistência não linear.
Quando a tensão aumenta aos seus terminais é
provocada uma queda de resistência e
consequentemente dá-se a fuga da corrente para terra
protegendo-se deste modo o equipamento. Os
varístores podem ser formados por díodos de Zener ou
então por resistências de óxidos metálicos. Um dos
inconvenientes da utilização destes aparelhos em
tensões mais elevadas é que é produzido ruído de alta
frequência, quando se dá o corte da tensão, que poderá
fazer com que os equipamentos protegidos deixem de
funcionar correctamente.
Figura 8 – Pára-raios

6.4. FLUTUAÇÕES DE TENSÃO


Uma flutuação de tensão é uma variação cíclica do valor da tensão, ou então uma série
de variações aleatórias que geralmente se situam entre 90% e 110% do valor de tensão nominal.
Estas variações são mais rápidas do que as cavas de tensão ou as sobretensões.
As flutuações de tensão são as principais causadoras do efeito de flicker que se pode
verificar nas lâmpadas. Este efeito de flicker consiste numa impressão visual estimulada por um
estímulo luminoso cuja repartição varia no tempo. Este efeito pode ter consequências físicas em
indivíduos que sejam mais sensíveis a perturbações epilépticas.
Existem duas maneiras de determinar o efeito de flicker. Podemos medi-lo utilizando um
flickmeter (ver Figura 9), equipamento desenvolvido pela UIE, que simula a resposta de uma
lâmpada incandescente de 60 W a flutuações de tensão. Como a luminosidade da lâmpada é

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dependente da temperatura do filamento, e este tem uma inércia térmica, as flutuações de


elevada frequência não são observadas.

Figura 9 – Diagrama de blocos de um flickermeter

Quando a evolução do valor eficaz da tensão assume determinadas formas geométricas


é possível analisar e obter analiticamente um valor indicador do efeito de flicker:
1
⎛ ∑t f ⎞ 3.2
Pst = ⎜ ⎟
⎜ T ⎟
⎝ p ⎠
t f = 2.3 ⋅ (F ⋅ d max )
3.2

) Pst - indicador de flicker de curto prazo;


) tf - tempo de impressão de flicker, em segundos;
) Tp - período que se deseja a analisar (10 minutos segundo as normas IEC);
) F - factor de forma relativo às variações de valor eficaz da tensão (em períodos de
10ms);
) dmax- desvio máximo da tensão, em relação `tensão nominal verificada durante o período
tf.

As flutuações de tensão são classificadas da seguinte maneira:


Tipo A – degraus de tensão periódicos e de
amplitude constante, cuja origem poderá ser
a comutação periódica de cargas resistivas,
ou de aparelhos de soldadura;

Figura 10 – Flicker tipo A [5]

QUALIDADE DE ENERGIA ELÉCTRICA Pág. 28


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Tipo B – uma série de degraus


irregulares com amplitudes máximas e
mínimas iguais ou não;

Figura 11 – Flicker tipo B [5]

Tipo C – flutuações de tensão bem separadas


cuja origem pode estar na ligação de cargas
não resistivas, tais como motores eléctricos;

Figura 12 – Flicker tipo C [5]

Tipo D – uma série de flutuações aleatórias


contínuas cuja origem pode ser de cargas
que apresentam variações rápidas nas suas
condições de funcionamento, tais como os
fornos de arco.

Figura 13 – Flicker tipo D [5]

6.4.1. Origem das Flutuações de Tensão


Os grandes responsáveis pelas flutuações de tensão são:
⇒ Fornos de arco; este tipo de fornos utiliza a energia fornecida para aquecer matérias a
alta temperatura. Existem fornos de arco AC e DC, nos fornos alimentados a DC
podemos controlar o arco de uma melhor forma e reduzir o efeito de flicker, mas
introduzimos mais harmónicos na rede devido ao rectificador. Como o arco é altamente
instável este tipo de equipamento introduz na rede muitas perturbações;
⇒ Aparelhos de soldar; estes aparelhos são capazes de unir peças metálicas que
estejam em contacto. Os aparelhos de soldar podem ser monofásicos ou trifásicos e
podem ser ligados a baixa tensão ou directamente a um barramento de MT, apesar
deste consistir numa fonte de corrente de baixa tensão (tipicamente menor que 20 V);
⇒ Outros equipamentos; maquinas de raios-X, fotocopiadoras, impressoras laser de
grande capacidade, bombas de calor, e menos preocupante fornos microondas,
maquinas de lavar e secar roupa e termoacumuladores.

QUALIDADE DE ENERGIA ELÉCTRICA Pág. 29


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6.4.2. Consequências das Flutuações de Tensão


Os principais efeitos nos sistemas eléctricos, resultados das oscilações causadas pelos
equipamentos mencionados anteriormente são oscilações de potência e binário das máquinas
eléctricas, queda de rendimento dos equipamentos eléctricos, interferência nos sistemas de
protecção, e efeito "flicker" ou cintilação luminosa.

6.4.3. Formas de Mitigação das Flutuações de Tensão


Podemos diminuir a amplitude das flutuações da tensão se aumentarmos a potência de
curto-circuito nos locais onde estão ligadas as cargas emissoras de perturbações para a rede.
No caso do forno de arco verificou-se que se aumentarmos para o dobro a potência de curto-
circuito diminuíamos para metade o efeito de flicker. Além disso, as cargas perturbadoras devem
ser ligadas a níveis de tensão mais elevados.
A diminuição da energia reactiva na rede é outra medida a ter em conta para a
diminuição das flutuações de tensão, já que as variações do fluxo de energia reactiva também
provocam flutuações de tensão. Deve ser compensada a energia reactiva junto das cargas
emissoras.
Outras medidas de mitigação é a colocação dos equipamentos poluidores electricamente
afastados de outros circuitos mais sensíveis a este tipo de perturbação.

6.5. OSCILAÇÕES DE FREQUÊNCIA


Numa abordagem mais simplista, é a velocidade angular dos geradores de um
determinado SEE que estipula a frequência da onda de tensão nesse mesmo SEE. Mas é o
equilíbrio dinâmico existente entre o processo de produção de EE e o respectivo consumo que
estipula a frequência da tensão num SEE. Quando este equilíbrio varia, a frequência varia de
forma proporcional.

6.5.1. Origem das Oscilações de Frequência


As causas deste tipo de perturbações são as avarias ou falhas no sistema de T&D,
saídas repentinas do sincronismo de grupos de geração de grande capacidade ou mesmo as
quedas bruscas de solicitação de alimentação originadas quando um grande bloco de cargas é
desligado simultaneamente.

6.5.2. Consequências das Oscilações de Frequência


As consequências das pequenas oscilações recaem apenas na velocidade das
máquinas rotativas. Em sistemas de ligação assíncrona (ilhas ou sistemas isolados da rede
eléctrica) estas perturbações são bem mais frequentes e podem tornar-se num problema mais
sério, afectando, por exemplo, os relógios eléctricos cuja base temporal são os 50Hz da rede, o
rendimento dos motores eléctricos e nos filtros de harmónicos que podem ficar a operar de forma
irregular.

QUALIDADE DE ENERGIA ELÉCTRICA Pág. 30


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6.5.3. Formas de Mitigação das Oscilações de Frequência


Verificou-se que, as alterações de solicitação de EE pelas cargas devem ser
acompanhadas pela produção de EE, para que se mantenha sempre o equilíbrio necessário à
estabilização da frequência e da tensão do SEE, caso contrário podem aparecer oscilações de
frequência devidas ao desequilíbrio entre geração e consumo.
A amplitude e duração das oscilações de frequência dependem das características das
cargas em questão e da capacidade de resposta do sistema de controlo de geração a alterações
de carga. Em sistemas ligados a redes muito grandes e fortemente interligadas, como é o caso
da rede eléctrica nacional, as oscilações de frequência significativas são raras.

6.6. DESEQUILÍBRIO DE FASES


Um sistema trifásico é desequilibrado quando as três tensões são diferentes em
amplitude ou o desfasamento entre elas é diferente de 120º. O método mais correcto para
quantificar o desequilíbrio de fases de um sistema passa pela decomposição do sistema nas
componentes de Fortescue, ou componentes simétricas:
• Sistema de sequência positiva, ou directa, que corresponde a um sistema trifásico ideal
(U1a, U1b e U1c );
• Sistema de sequência negativa, ou inversa, que corresponde a um sistema trifásico
equilibrado, mas com sequencia de fases inversa ao sistema de sequencia positiva (U2a,
U2b e U2c );
• Sistema de sequência homopolar, onde todas as fases possuem a mesma fase (U0a, U0b
e U0c).

O grau de desequilíbrio de fases de um sistema trifásico é dado pela razão entre a


componente de sequência negativa e a componente de sequência positiva da componente de
frequência fundamental. No entanto, este método apresenta alguma complexidade.
Uma fórmula simples para calcular o factor de desequilíbrio de um sistema trifásico e
utilizando a expressão:
máximo desvio das três fases em relação á média
Uu = *100%
média da tensão das três fases
Este método é bastante simples, necessitando apenas de conhecer a amplitude das
tensões das três fases. Embora os valores obtidos por este método sejam bastante aceites,
podem surgir erros de grandeza da ordem dos 13%.
Para calcular o valor do desequilíbrio de fases num ponto da rede, devido a uma
combinação de cargas trifásicas desequilibradas ou cargas monofásicas, pode ser utilizada a
expressão:
3.I 2 .U
U u (%) ≈ *100%
S cc
onde I2 representa a amplitude da sequência negativa da corrente (em Ka), U representa a
tensão fase-fase (em Kv) e Scc representa a potencia de curto-circuito (em MVA) nesse ponto.

QUALIDADE DE ENERGIA ELÉCTRICA Pág. 31


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6.6.1. Origem do Desequilíbrio de Fases


O sistema de tensões nas centrais apresenta um nível de simetria bastante apreciável,
que fica a dever-se ao funcionamento dos grandes geradores síncronos com elevadas nível de
simetria normalmente utilizados. Mesmo utilizando geradores de indução, o sistema de tensões
gerado pode ser considerado equilibrado.
Actualmente já existe uma quantidade apreciável de pequenos sistemas de geração
ligados a rede. Alguns destes sistemas, como os pequenos sistemas fotovoltaicos, estão ligados
à rede em BT e com ligação monofásica. Como o ponto de ligação tem uma impedância
relativamente elevada (logo uma potência de curto-circuito reduzida), pode surgir um
desequilíbrio de fases com valor apreciável.
Contudo, a grande causa de desequilíbrio é a distribuição assimétrica das cargas pelas
diferentes fases do sistema.
A distribuição não uniforme da carga de um sistema pelas fases origina um sistema de
correntes desequilibrado, mesmo quando o sistema de tensões gerado é equilibrado. Este
sistema de correntes desequilibrado, ao circular pelas linhas vai originar quedas de tensão,
devido à impedância das linhas, que vão ser diferentes em cada fase. Assim, deixa de existir
equilíbrio no sistema de tensões.

6.6.2. Consequências do Desequilíbrio de Fases


Do exposto, verifica-se que a qualidade no fornecimento de energia é prejudicada e
alguns consumidores vêm as suas alimentações sofrerem um desequilíbrio de tensão. Estes
desequilíbrios de tensão podem apresentar problemas indesejáveis na operação de
equipamentos, dentro dos quais se destacam:
• Motores de Indução: para a análise dos efeitos de tensões desequilibradas aplicadas a
um motor de indução, considera-se somente os efeitos produzidos pelas tensões de
sequência negativa, que somados aos resultados da tensão de sequência positiva,
resultam num conjugado
pulsante no eixo da máquina
(ver Figura 14) e no
sobreaquecimento da
máquina. Como
consequência directa desta
elevação de temperatura
tem-se a redução do tempo
de vida útil dos motores,
visto que o material isolante
sofre uma deterioração mais
acentuada na presença de
elevadas temperaturas nos
enrolamentos;
Figura 14 – Resposta do motor ao desequilíbrio de tensão [16]

• Máquinas síncronas: como no caso anterior, a corrente de sequência negativa


circulando através do estator de uma máquina síncrona, cria um campo magnético
girante com velocidade igual à do rotor, porém, no sentido contrário da rotação definido
pela sequência positiva. Consequentemente, as tensões e correntes induzidas nos

QUALIDADE DE ENERGIA ELÉCTRICA Pág. 32


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enrolamentos de campo, de amortecimento e na superfície do ferro do rotor, terão uma


frequência igual a duas vezes à da rede, aumentando significativamente as perdas no
rotor.
• Rectificadores: uma ponte rectificadora AC/DC, controlada ou não, injecta na rede AC,
quando esta opera sob condições nominais, correntes harmónicas características (de
ordem 5, 7, 11, 13, etc). Entretanto, quando o sistema supressor se encontra
desequilibrado, os rectificadores passam a gerar, além das correntes harmónicas
características, o terceiro harmónico e os seus múltiplos. A presença do terceiro
harmónico e seus múltiplos no sistema eléctrico é extremamente indesejável, pois
possibilita manifestação de ressonâncias não previstas, causando danos a uma série de
equipamentos.

6.6.3. Formas de Mitigação do Desequilíbrio de Fases


Com o objectivo de diminuir o desequilíbrio de fases podem ser tomadas diversas
medidas, com graus de complexidade técnica diferentes, que a seguir se descrevem.
• Redistribuição das cargas do sistema: esta é a solução mais básica, que consiste em
analisar possíveis distribuições incorrectas das cargas pelas fases e, eventualmente,
redistribuir as cargas pelas fases do sistema, de modo a que todas as fases do sistema
fiquem o mais equilibradas possível. Se esta medida for eficazmente implementada,
diminui o desequilíbrio do sistema de correntes e, consequentemente, o desequilíbrio do
sistema de tensões;
• Aumento da potencia de curto-circuito no ponto de ligação: as cargas que introduzem
maiores desequilíbrios (como os fornos de arco ou algumas cargas de tracção) devem
ser ligadas em pontos com potência de curto-circuito mais elevada, normalmente em AT
ou MT. A redução da impedância de curto-circuito pode ser conseguida através da
ligação de linhas e transformadores em paralelo, diminuído as reactâncias das linhas ou
utilizando transformadores de elevada potencia ou com baixa tensão de curto-circuito;
• Transformadores com ligações especiais: a utilização de alguns transformadores com
ligações especiais, tais como os transformadores de Scott e os transformadores de
Steinmetz, pode contribuir para a redução do equilíbrio de fases;
• Electrónica de potencia: quando não é possível reduzir o desequilíbrio de fases para um
nível aceitável com o recurso as técnicas referidas anteriormente, deve ser considerado
o recurso a electrónica de potência. No entanto, estes equipamentos são muito
dispendiosos, devendo apenas ser utilizados para compensar cargas muito
desequilibradas de grande potencia e cujas condições de funcionamento sejam
fortemente dinâmicas, como por exemplo os fornos de arco.

6.7. DISTORÇÃO HARMÓNICA


Uma onda periódica não sinusoidal pode ser decomposta em ondas sinusoidais com
frequências variáveis e múltiplas da frequência fundamental do sinal que lhes deu origem. A
amplitude de cada um destes harmónicos é habitualmente apresentada em valores percentuais
da amplitude da componente fundamental que é a componente cuja frequência é a mesma da
onda que é decomposta. Na rede eléctrica nacional a frequência fundamental das ondas de
corrente e tensão é de 50Hz o que significa que a frequência de um harmónico de ordem h será:

QUALIDADE DE ENERGIA ELÉCTRICA Pág. 33


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f h = h × 50 ( Hz ) .

Figura 15 – Fundamental, 3º e 5º harmónico [5]

Na Figura 15 são apresentadas as componentes fundamental, de 3ª e de 5ª ordem de


uma hipotética onda periódica. Adicionando as componentes harmónicas à componente
fundamental, da Figura 15 obtém-se a forma de onda original que é apresentada na Figura 16.

Figura 16 – Forma de onda original [5]

O valor da distorção harmónica é a quantificação do desvio que a onda apresenta em


relação à sinusóide perfeita. Este fenómeno é geralmente quantificado em termos de THD, ou
em português, DHT (“Distorção Harmónica Total”) cujo cálculo é efectuado pela seguinte
expressão:
40

∑U h
2
THD =
h=2

No caso das cargas lineares a corrente que as atravessa é directamente proporcional à


tensão de alimentação o que significa que se a tensão de alimentação for perfeitamente
sinusoidal, também a corrente o será (Figura 17).

QUALIDADE DE ENERGIA ELÉCTRICA Pág. 34


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Figura 17 – Característica de uma carga linear [5]

Em cargas não lineares a corrente que circula não é sinusoidal (Figura 18).

Figura 18 – Característica de uma carga não linear [5]

Pelos cálculos efectuados para a determinação das componentes harmónicas conclui-se


que, no caso de a onda a decompor ser simétrica (alternância positiva simétrica à alternância
negativa), não existem harmónicos de ordem par. Estes harmónicos são geralmente de
amplitude negligenciável, mas podem aparecer quando de efectuam rectificações de meia onda.

6.7.1. Origem da Distorção Harmónica


No SEE ideal, as ondas de corrente e de tensão teriam formas perfeitamente
sinusoidais, as cargas seriam todas lineares, com potência constante e sem defeitos. Mas, na
realidade, há muitos anos que a distorção harmónica está presente no sistema de alimentação.
No início era originária da saturação magnética dos transformadores, fornos de arco,
aparelhos de soldar a arco e de rectificadores usados na electrificação dos caminhos-de-ferro e
em accionamentos DC de velocidade variável na indústria. Recentemente, o número aparelhos
que geram harmónicos tem vindo a aumentar em número e em tipo. Este crescimento deve-se à
proliferação dos conversores de electrónica de potência.
Este problema é agravado pela crescente utilização de baterias de condensadores para
compensação do factor potência, pois os condensadores instalados ficam em paralelo com a
reactância do sistema eléctrico ficando assim reunidas as condições para o aparecimento da
indesejada ressonância electromagnética, à frequência dada pela seguinte expressão:
1 1
f =
2π LC .
Caso a corrente solicitada à rede contenha harmónicos com frequência próxima da
frequência de ressonância, serão originadas correntes oscilatórias de amplitudes muito elevadas,

QUALIDADE DE ENERGIA ELÉCTRICA Pág. 35


GESTÃO DE ENERGIA ELÉCTRICA

que podem danificar por completo os condensadores e criar tensões harmónicas de amplitude
também elevada. Esta perturbação ganha ainda mais relevância, porque juntamente ao
aparecimento de cargas poluidoras aparecem cargas cada vez mais sensíveis à distorção
harmónica. Em muitos dos casos, as cargas que por um lado produzem distorção harmónica são
também as mais susceptíveis a danos causados por este tipo de perturbação de QE.
Dos equipamentos que geram harmónicos destacam-se: FAC’s, balastros electrónicos
para lâmpadas fluorescentes, UPS, accionamentos de velocidade variável, etc.

6.7.2. Consequências da Distorção Harmónica


O grau de severidade com que os equipamentos ou materiais de rede ou instalações do
consumidor são afectados pelos harmónicos depende da susceptibilidade dos equipamentos e
das características técnicas da rede.
Os equipamentos mais sensíveis, que são também os mais perturbadores, são os
equipamentos electrónicos. Os efeitos dos harmónicos podem manifestar-se devido ao aumento
da corrente eficaz ou devido à deformação da onda de tensão (deixa de ser sinusoidal). Um
aumento da corrente eficaz vai sempre provocar um acréscimo de temperatura de todos os
componentes da rede eléctrica o que se traduz em degradação dos materiais isolantes,
diminuição do rendimento e menor eficácia da aparelhagem de protecção. Todos estes factos
contribuem para a diminuição da vida útil dos equipamentos. A deformação da onda de tensão é
mais prejudicial para o equipamento electrónico sensível, podendo causar perturbações no seu
funcionamento.
• Efeitos em termos económicos:
⇒ degradação do rendimento energético da instalação (perdas de energia);
⇒ sobredimensionamento dos equipamentos;
⇒ perda da produtividade (envelhecimento acelerado dos equipamentos, disparo
intempestivo).
• Efeitos instantâneos e a curto prazo:
⇒ disparo intempestivo das protecções: os harmónicos tem influência nos dispositivos
de controlo de temperatura, uma vez que tendem a alterar o valor limite para o qual
o dispositivo se encontra projectado para entrar em funcionamento;
⇒ perturbações induzidas em sistemas de corrente baixa (telecomandos,
telecomunicações, aparelhagens, monitores de computadores, televisões);
⇒ vibrações e barulhos acústicos anormais (quadros de BT, motores,
transformadores);
⇒ destruição por sobrecarga térmica de condensadores;
⇒ perdas de precisão de aparelhos de medida.
• Efeitos instantâneos e a longo prazo:
⇒ aquecimento de equipamentos (transformadores, alternadores) devido ao efeito de
Joule e perdas de ferro;
⇒ aquecimento das cargas devido a perdas por efeito de Joule e devido ao facto dos
condensadores serem particularmente sensíveis aos harmónicos aumentando a sua
impedância proporcionalmente à ordem dos harmónicos presentes;
⇒ corrosão de peças metálicas.

6.7.3. Formas de Mitigação da Distorção Harmónica


Como formas de mitigação de harmónicos são apresentadas as seguintes:
• Sobredimensionamento de equipamentos de modo a minimizar o efeito das perdas
excessivas (em forma de calor);

QUALIDADE DE ENERGIA ELÉCTRICA Pág. 36


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• Separação de Cargas em barramentos distintos, de cargas responsáveis pela distorção


harmónica e de cargas sensíveis (muitas vezes estas são as principais geradoras de
harmónicos);
• Outras soluções para reduzir o efeito dos harmónicos pode passar pela utilização de
transformadores com ligações especiais, de filtros passivos, activos e híbridos (ver
Figuras 19, 20, 21).

Figura 19 – Filtro passivo [12] Figura 20 – Filtro activo [12]

Figura 21 – Filtro híbrido [12]

7. MONITORIZAÇÃO DA QUALIDADE DA ENERGIA [4]


7.1. IMPORTÂNCIA DA MONITORIZAÇÃO
Conforme já foi referido anteriormente, está criado todo um ambiente em torno da
questão da qualidade de energia, dado pela liberalização do mercado energético, pela
proliferação das cargas de natureza não linear, pelas pressões económicas e normativas e de
uma forma geral pela sensibilização dos intervenientes do sector energético.
Num universo industrial onde a mais pequena perturbação poderá levar a prejuízos
avultados, impõe-se que os problemas sejam solucionados rapidamente, idealmente mesmo
antes de acontecerem.
Neste sentido, a monitorização aparece como um elemento fundamental no sentido da
necessária caracterização da performance dos sistemas eléctricos, constituindo assim uma
importante medida preventiva. Ao termos um conhecimento rigoroso e detalhado da performance
destes sistemas, todas as perturbações poderão ser facilmente identificáveis. Assim, quando se
estiver perante uma situação de problemas relacionados com a qualidade da energia numa dada
instalação, uma boa estratégia será, após efectuada uma inspecção do local e recolha de toda a
informação possível, proceder à monitorização do sistema durante um certo período de tempo.
Deste modo, após uma análise cuidada de todos os dados recolhidos, poder-se-á então avançar
para a aplicação de medidas correctivas necessárias por forma a solucionar o(s) problema(s).

QUALIDADE DE ENERGIA ELÉCTRICA Pág. 37


GESTÃO DE ENERGIA ELÉCTRICA

Por outro lado, a monitorização permite também estabelecer uma ponte de ligação entre
as exigências dos consumidores e o cumprimento ou não da normalização vigente por parte dos
produtores/distribuidores, funcionando como uma “arma” de defesa e de ataque para ambas as
partes. A informação sobre a qualidade da energia, dada pela monitorização, reveste-se ainda
de uma importância estratégica para as companhias eléctricas na procura de uma melhor
posição de mercado, onde a lei da competitividade exige níveis elevados de qualidade.

7.2. OBJECTIVOS DA MONITORIZAÇÃO


Os principais objectivos da monitorização da Qualidade da Energia são a seguir
descritos:
• Aplicação contratual: no contexto da liberalização do sector eléctrico, as relações
contratuais passam a existir não só entre o distribuidor e o cliente, como também entre
produtores, empresas de transporte, empresas de distribuição e clientes finais. Assim, a
monitorização para além de garantir que o disposto nos contratos seja cumprido e a falta
do seu cumprimento penalizada, serve ainda de base para a elaboração de tais
contratos, pois estes são feitos sob parâmetros de qualidade resultantes de inevitáveis
processos de monitorização;
• Acções de diagnóstico: a monitorização aparece aqui intimamente relacionada com o
diagnóstico, pois os resultados das suas medições e muitas das vezes dos alarmes
associados a estes instrumentos (quando é detectada uma perturbação é accionado um
alarme indicador do defeito), servem de ponto de partida para a realização de acções de
diagnóstico e subsequente manutenção;
• Optimização da performance das instalações eléctricas: no sentido de alcançar ganhos
de produção e redução de custos de operação, é necessária que exista uma óptima
coordenação de processos, que é um factor dependente da qualidade da energia.
Decisões tais como o planeamento de acções preventivas, possibilidade de instalação
de um dado equipamento num determinado ambiente electromagnético, possíveis
aquisições de tecnologias reparadoras, são decisões decorrentes de uma eficaz
monitorização.

7.3. CONCLUSÕES SOBRE A MONITORIZAÇÃO


Um equipamento deste género deverá idealmente cumprir os seguintes requisitos gerais:
• Clareza: embora muita gente receba informação destes equipamentos de monitorização,
muitos não conseguem perceber o seu significado. Dado que a linguagem do universo
da qualidade de energia é recente, alguns técnicos e até mesmo alguns engenheiros
não dominam os seus conteúdos. E a situação vem ainda agravada se pensarmos que
muitas das decisões no ramo industrial são tomadas por administradores que não têm o
mínimo conhecimento na área da energia. Deve-se também ter a noção de que estes
administradores não investem dinheiro na medida da qualidade de energia, mas sim
para que o seu processo produtivo se desenvolva em perfeitas condições. A chave aqui
é ter-se a informação certa, na medida certa para as pessoas certas. Neste sentido
impõe-se que os outputs dos instrumentos de monitorização de qualidade de energia
possam ser captados facilmente por pessoal não especializado no assunto. Num futuro
próximo, espera-se mesmo que os relatórios elaborados por estes equipamentos,

QUALIDADE DE ENERGIA ELÉCTRICA Pág. 38


GESTÃO DE ENERGIA ELÉCTRICA

baseados na informação da monitorização, reportem causas e soluções específicas


numa linguagem simples;
• Robustez: os instrumentos de monitorização de qualidade de energia necessitam de
funcionar em perfeitas condições em ambientes adversos, pois a razão da sua
existência prende-se com a necessidade de registar perturbações que ocorram e que
levem à falha de outros equipamentos electrónicos. E quando se fala em ambientes
adversos, não se está a referir somente perturbações na qualidade da energia, como
também a presença de grandes campos magnéticos, vibrações, stress mecânico,
temperaturas extremas, etc. Infelizmente, verifica-se ainda que muitos instrumentos de
monitorização não são suficientemente robustos e falham em simultâneo com os
equipamentos que estão a monitorizar;
• Concisão: o grande desafio para o projecto dos instrumentos de monitorização de
qualidade de energia é a decisão de qual a informação que se deve reter. A grande
quantidade de informação registada e armazenada pode muitas vezes revelar-se inútil,
pois muitos destes dados não são mais do que perfeitas formas de onda ausentes de
qualquer perturbação. Então de modo a conseguir-se a tal concisão, ou estes
instrumentos compreendem algoritmos que identifiquem e registem somente a
informação interessante (regimes perturbados), ou então algoritmos de compressão por
forma também a guardarem somente a informação mais relevante;
• Comunicação: como na maior parte das áreas da sociedade moderna, também no que
concerne à monitorização da qualidade de energia, a capacidade de comunicação
reveste-se de uma importância vital. Dado que as perturbações não escolhem altura
nem lugar para ocorrerem, nem sempre o técnico especializado está presente, e dada a
urgência com que estes problemas devem ser tratados, a informação tem de ser
disponibilizada rapidamente onde quer que ela seja necessária. Deste modo impõe-se a
integração de um sistema de comunicação versátil, com várias opções de comunicação
(Ethernet, modem, capacidades e-mail);
• Consistência: diferentes equipamentos fazendo a mesma monitorização, deveriam
registar os mesmos resultados, porém isso geralmente não acontece. Instrumentos
precisos, com algoritmos de medida perfeitos, podem ter substanciais diferenças de
leituras. Neste sentido, justifica-se a existência de uma normalização mais precisa sobre
a matéria. A norma IEC 61000-4-30 já especifica como deve ser feita a medida de cavas
e sobretensões temporárias, o que constitui um assinalável progresso. Por outro lado, a
existência de normas que especifiquem como realizar uma tarefa em vez de
especificarem o resultado exigido, acaba normalmente por constituir um
desencorajamento à inovação. Deste modo esta questão torna-se complexa e
pertinente, cabendo a todos os intervenientes a ela ligados, fazer uma necessária
reflexão. Saliente-se porém, que não se deve aqui confundir a clara necessidade de que
a tecnologia desenvolvida seja sustentada de alguma forma na normalização existente.
Isso constitui sem dúvida um trunfo importantíssimo, pois irá reduzir a problemática
questão de qual o nível de qualidade de energia aceitável, a uma simples questão de
conformidade ou não com os limites impostos pelas normas;
• Sinalização: a integração de alarmes nestes aparelhos é de grande importância, no
sentido de se poder remotamente notificar o pessoal chave, acerca das condições do
sistema que necessitem de atenção imediata. Também a notificação com relatórios
calendarizados, que forneçam informação detalhada do sistema, pode ajudar à
identificação de problemas recorrentes e apontar possíveis causas;

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GESTÃO DE ENERGIA ELÉCTRICA

• Flexibilidade: esta é também uma característica importante, pois quanto maior for o
número de tarefas que o mesmo instrumento conseguir integrar, menor será o número
de aparelhos necessários;
• Custo: constatou-se que o preço destes equipamentos é bastante elevado, não
acessível à grande parte dos consumidores. Isto leva a que, muitas vezes, quando se
necessita de um instrumento de monitorização, o problema já aconteceu. Uma solução
será possuir vários equipamentos de preço mais baixo acoplados à instalação,
monitorizando os processos produtivos vitais, tendo um controlo mais apertado sobre a
ocorrência de perturbações.

Aquando da escolha dum equipamento desta natureza, para além destas características
mais gerais, devemos também procurar satisfazer os seguintes requisitos específicos:
• Capacidade de medir correntes;
• Número de entradas de tensão e de corrente;
• Isolamento entre inputs;
• Gama de tensão suportada;
• Especificações de temperatura suportada;
• Especificações das suas dimensões;
• Software de análise respectivo;
• Documentação adequada.

Dificilmente algum aparelho de monitorização de qualidade de energia conseguirá


cumprir todos os requisitos descritos, até porque uns podem estar em contradição com outros.
Deve-se ter sempre a noção de quais as reais necessidades de monitorização e o que se
pretende fazer com os seus resultados. Assim, poder-se-á ter a noção de quais os requisitos
mais importantes para cada caso particular. Desta forma, existem boas oportunidades de se
encontrar um instrumento que preencha as nossas necessidades, e dada a contínua evolução
patente neste sector, é bem provável que num futuro próximo, se encontrem dispositivos que
preencham necessidades que nem sabíamos ter.

8. CUSTOS DA NÃO QUALIDADE DA ENERGIA


Dado todo este panorama que envolve a qualidade de energia, descrito nos pontos
anteriores, facilmente podemos concluir que ela é hoje em dia um autêntico problema
económico. Os custos relacionados com a falta de Qualidade da Energia dependem de diversos
factores, entre os quais se destaca a área de actividade em que se encontra inserido o cliente.
Outros factores que influenciam as perdas relacionadas com a Qualidade de Energia deficiente,
são a sensibilidade do equipamento, condições de mercado para o produto a produzir ou o
serviço a prestar.

QUALIDADE DE ENERGIA ELÉCTRICA Pág. 40


GESTÃO DE ENERGIA ELÉCTRICA

8.1. AVALIAÇÃO DOS CUSTOS


Os custos relacionados com perturbações da Qualidade da Energia podem dividir-se em:
• Custos Directos: custos directamente atribuídos a uma perturbação da Qualidade da
Energia e que incluem danos no equipamento, perda de produção, perda de matéria-
prima, custos com salários durante o período não produtivo e custos de reinicialização
do processo;
• Custos Indirectos: resultantes da perda de clientes, ou seja, devido a paragens da
produção, as empresas não cumprirão os prazos de entrega do produto, tendo como
consequência, o cancelamento de encomendas futuras. Os custos com investimento
para prevenção de problemas de Qualidade da Energia são também considerados
custos indirectos;
• Prejuízos Não Materiais: custos não expressos em dinheiro, mas sim em incómodo,
como por exemplo, o facto de um cliente (consumidor) não poder usufruir de um
determinado equipamento que possui em casa. Para a contabilizar estes incómodos em
custos de Qualidade da Energia, atribui-se um valor que o consumidor estaria disposto a
desembolsar para os evitar.

8.2. ESTIMATIVAS DOS CUSTOS


Com o intuito de calcular os custos relacionados com a não Qualidade da Energia foram
realizados alguns estudos, os quais apresentam resultados baseados em estimativas (uma vez
que o cálculo exacto destes valores é muito difícil), que se indicam de seguida:
• em 1991, só nos Estados Unidos, as interrupções de energia são estimadas em cerca
de 25 biliões de dólares anuais em perdas de produção, e dada a crescente
sensibilidade da industria a estes problemas, cada vez são registadas mais queixas de
que a qualidade da energia afecta significativamente a performance global das
empresas. Por outro lado, e como geralmente problemas dispendiosos requerem
soluções dispendiosas, também este sector não foge à regra. Assim espera-se para este
ano de 2004, o mercado norte-americano de soluções para qualidade de energia exceda
os 8 biliões de dólares; [4]
• em 1998, estima-se que nos EUA existe um prejuízo anual de 10 biliões de dólares
devido a cavas de tensão. É devido a este facto que, de modo geral, as cavas de tensão
em conjunto com as interrupções são das perturbações que têm motivado mais
investimento nos últimos anos com vista à sua redução; [5]
• estima-se que os problemas de Qualidade da Energia representam um custo para a
industria e o comércio da União Europeia de cerca de 10 biliões de euros por ano,
enquanto a despesa em medidas preventivas representa apenas 5% deste valor. [13]

De notar que estes estudos apresentam valores distintos para os custos, tendo no
entanto algo em comum: os custos devidos à não Qualidade da Energia são bastante elevados.
Deste modo, surge a seguinte questão: Quanto dinheiro deve ser investido em prevenção para
compensar o risco de falhas? A resposta a esta questão depende da natureza dos negócios. O
primeiro passo é entender a natureza dos problemas e avaliar como cada um deles afecta a
actividade empresarial e que perdas poderão daí resultar.

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9. PANORAMA EM PORTUGAL
9.1. ORIGEM DOS INCIDENTES (PERTURBAÇÕES) EM 2000
Em 2000 ocorreram 369 incidentes cujos efeitos se fizeram sentir na RNT.
Dos 369 incidentes com repercussões na RNT, 346 tiveram origem interna à RNT (+
6.8% em relação ao ano anterior), tanto no sistema primário (301 incidentes) como nos sistemas
auxiliares (45 incidentes) e 23 tiveram origem em sistemas exteriores à RNT, correspondendo a
cerca de 6,2% do total.
Dos 369 incidentes com repercussões na RNT, 346 tiveram origem interna à RNT (+
6.8% em relação ao ano anterior), tanto no sistema primário (301 incidentes) como nos sistemas
auxiliares (45 incidentes) e 23 tiveram origem em sistemas exteriores à RNT, correspondendo a
cerca de 6,2% do total (Fig. 22).

Figura 22 – Origem dos incidentes com repercussões na RNT em 2000 [17]

Agrupando os incidentes pelas causas que estiveram na sua origem, e mantendo-se a


separação por elementos (linhas, transformadores, barramentos e sistemas exteriores), obtêm-
se o gráfico da Figura 23.

Figura 23 – Causa dos incidentes em 2000 [17]

Os factores que mais contribuíram para os incidentes continuaram a ser as aves, os


factores atmosféricos e os incêndios.

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9.2. MEDIÇÕES EFECTUADAS


Durante o ano de 2002 foram realizadas medições de teor harmónico, tremulação
(flicker), desequilíbrio do sistema trifásico de tensões, valor eficaz da tensão, frequência, cavas
de tensão e sobretensões nas instalações da REN apresentadas na Tabela 4.
Os períodos de medição realizados em cada nível de tensão tiveram a duração de uma
semana.

Tabela 4 – Monitorização da Qualidade da Onde de Tensão em 2002 [2]

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9.2.1. Distorção Harmónica


Na Tabela 5 indicam-se alguns dos valores limite de referência considerados no RQS
para as harmónicas de tensão e para a distorção harmónica total (THD).

Tabela 5 – Harmónicos – limites do RQS [2]

Na Tabela 6 é possível ver os resultados das medições efectuadas, mais


especificamente, os níveis de harmónicos em percentagem da tensão nominal, em pontos de
medida a 400 kV, na qual se assinalam a vermelho os casos em que se ultrapassam os limites
estabelecidos. Nesta tabela não se apresentam os valores das medições das componentes
acima do 7º harmónico por serem negligenciáveis.

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Tabela 6 – Níveis de harmónicos em percentagem da tensão nominal, em pontos de medida a 400kV [2]

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9.2.2. Flutuações de Tensão (Flickers)


Os valores apresentados nos quadros correspondem aos mais desfavoráveis em cada
uma das subestações referidas.

Tabela 7 – Níveis de flutuações de tensão em pontos de Tabela 8 – Níveis de flutuações de tensão em pontos de
medida a 150kV. [2] medida a 400kV. [2]

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9.2.3. Desequilíbrio de Fases

Tabela 9 – Desequilíbrio da tensão em pontos de medida a 60kV e a 30kV [2]

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9.2.4. Cavas de Tensão

Tabela 10 – Número/duração de cavas de tensão em diversas subestações em 2002. [2]

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9.2.5. Oscilações de Frequência

Tabela 11 – Desvios máximos de frequência nos pontos de medida a 400, 220 e 150 kV. [2]

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10. CONCLUSÃO
A qualidade de energia tem sofrido uma autêntica revolução um pouco por todo o
mundo, respondendo às rápidas mudanças políticas, regulatórias e às crescentes inovações
tecnológicas. Actualmente, muitos dos novos contratos de fornecimento de energia eléctrica
prevêem já a garantia de um fornecimento fiável de energia de alta qualidade. Para trás ficaram
tempos onde os grandes monopólios do sector eléctrico forneciam energia eléctrica sem
quaisquer preocupações de qualidade. Da mesma forma, as companhias de
distribuição/comercialização, já não estão totalmente ilibadas de eventuais problemas desta
natureza que possam afectar o sistema produtivo dos seus clientes, prevendo-se mesmo que
num futuro próximo as disputas entre fornecedores e clientes venham a terminar em litígios
judiciais. Outro reflexo das novas realidades do mercado é a crescente agitação na indústria de
serviços de qualidade de energia. Empresas especializadas na monitorização e diagnóstico, e
fabricantes de equipamentos capazes de mitigar estes problemas têm vindo a proliferar e a
exercerem pressão no sentido de demonstrarem a elevada performance económica na opção
pelos seus serviços e produtos.
Como conclusões finais refere-se que, para assegurar uma boa qualidade de energia é
necessário conjugar os mais variados factores, começando pela existência de uma forte
regulamentação, passando pela necessidade de um projecto global consistente, pela
contribuição essencial dos produtores e distribuidores, pelas frequentes acções de monitorização
e de manutenção, pela participação activa e positiva dos fabricantes de equipamentos e
finalmente pela não menos importante acção dos consumidores.

11. TERMINOLOGIA [3]


Alta Tensão (AT) – tensão entre fases cujo valor eficaz é superior a 45 kV e igual ou inferior a
110 kV.
Baixa Tensão (BT) – tensão entre fases cujo valor eficaz é igual ou inferior a 1 kV.
Carga – valor, num dado instante, da potência activa fornecida em qualquer ponto de um
sistema, determinada por uma medida instantânea ou por uma média obtida pela integração da
potência durante um determinado intervalo de tempo. A carga pode referir-se a um consumidor,
um aparelho, uma linha, ou uma rede.
Cava (abaixamento) da tensão de alimentação – diminuição brusca da tensão de alimentação
para um valor situado entre 90% e 1% da tensão declarada, seguida do restabelecimento da
tensão depois de um curto lapso de tempo. Por convenção, uma cava de tensão dura de 10 ms a
1 min. O valor de uma cava de tensão é definido como sendo a diferença entre a tensão eficaz
durante a cava de tensão e a tensão declarada.
Cliente – pessoa singular ou colectiva com um contrato de fornecimento de energia eléctrica ou
acordo de acesso e operação das redes.
Compatibilidade electromagnética (CEM) - aptidão de um aparelho ou de um sistema para
funcionar no seu ambiente electromagnético de forma satisfatória e sem ele próprio produzir
perturbações electromagnéticas intoleráveis para tudo o que se encontre nesse ambiente.
Corrente de curto-circuito – corrente eléctrica entre dois pontos em que se estabeleceu um
caminho condutor ocasional e de baixa resistência.
Desequilíbrio de tensão – estado no qual os valores eficazes das tensões das fases ou das
desfasagens entre tensões de fases consecutivas, num sistema trifásico, não são iguais.

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Emissão (electromagnética) – processo pelo qual uma fonte fornece energia electromagnética
ao exterior.
Energia não fornecida (ENF) – valor estimado da energia não fornecida nos pontos de entrega,
devido a interrupções de fornecimento.
Equipamento de Protecção (vulgo protecção) - equipamento que incorpora, entre outras, uma
ou mais funções de protecção.
Exploração – conjunto das actividades necessárias ao funcionamento de uma instalação
eléctrica, incluindo as manobras, o comando, o controlo, a manutenção, bem como os trabalhos
eléctricos e os não eléctricos.
Flutuação de tensão – série de variações da tensão ou variação cíclica da envolvente de uma
tensão.
Fornecimento de energia eléctrica - venda de energia eléctrica a qualquer entidade que é
cliente do distribuidor e concessionária da RNT.
Frequência da tensão de alimentação (f) – taxa de repetição da onda fundamental da tensão
de alimentação, medida durante um dado intervalo de tempo (em regra 1 segundo).
Frequência média de interrupções do sistema (SAIFI – System Average Interruption
Frequency Index) – quociente do número total de interrupções nos pontos de entrega, durante
determinado período, pelo número total dos pontos de entrega, nesse mesmo período.
Imunidade (a uma perturbação) – aptidão dum dispositivo, dum aparelho ou dum sistema para
funcionar sem degradação na presença duma perturbação electromagnética.
Incidente - qualquer anomalia na rede eléctrica, com origem no sistema de potência ou não, que
requeira ou cause a abertura automática de disjuntores.
Indisponibilidade – situação em que um determinado elemento, como um grupo, uma linha, um
transformador, um painel, um barramento ou um aparelho, não se encontra apto a responder em
exploração às solicitações de acordo com as suas características técnicas e parâmetros
considerados válidos.
Instalação (eléctrica) – conjunto dos equipamentos eléctricos utilizados na Produção, no
Transporte, na Conversão, na Distribuição e na Utilização da energia eléctrica, incluindo as
fontes de energia, como as baterias, os condensadores e todas as outras fontes de
armazenamento de energia eléctrica.
Interrupção acidental - interrupção do fornecimento ou da entrega de energia eléctrica
provocada por defeitos permanentes ou transitórios, na maior parte das vezes ligados a
acontecimentos externos, a avarias ou a interferências.
Interrupção breve – interrupção acidental com um tempo igual ou inferior a 3 minutos.
Interrupção do fornecimento ou da entrega – situação em que o valor eficaz da tensão de
alimentação no ponto de entrega é inferior a 1% da tensão declarada Uc, em pelo menos uma
das fases, dando origem, a cortes de consumo nos clientes.
Interrupção forçada – saída de serviço não planeada de um circuito, correspondente à remoção
automática ou de emergência de um circuito (abertura de disjuntor).
Interrupção longa - interrupção acidental com um tempo superior a 3 min.
Interrupção permanecente – interrupção de tempo superior ou igual a um minuto.
Interrupção prevista - interrupção do fornecimento ou da entrega que ocorre quando os clientes
são informados com antecedência, para permitir a execução de trabalhos programados na rede.

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Interrupção transitória – interrupção de tempo inferior a um segundo.


Limite de emissão (duma fonte de perturbação) - valor máximo admissível do nível de
emissão.
Limite de imunidade - valor mínimo requerido do nível de imunidade.
Média Tensão (MT) – tensão entre fases cujo valor eficaz é superior a 1 kV e igual ou inferior a
45 kV.
Muito Alta Tensão (MAT) - tensão entre fases cujo valor eficaz é superior a 110 kV.
Nível (duma quantidade) - valor duma quantidade avaliada duma maneira especificada.
Nível de compatibilidade (electromagnética) - nível de perturbação especificado para o qual
existe uma forte e aceitável probabilidade de compatibilidade electromagnética.
Nível de emissão - nível duma dada perturbação electromagnética, emitida por um dispositivo,
aparelho ou sistema particular e medido duma maneira especificada.
Nível de imunidade - nível máximo duma perturbação electromagnética de determinado tipo,
incidente sobre um dispositivo, aparelho ou sistema, de forma a não provocar qualquer
degradação do funcionamento.
Nível de perturbação - nível de uma dada perturbação electromagnética, medido de uma
maneira especificada.
Perturbação (electromagnética) – fenómeno electromagnético susceptível de degradar o
funcionamento dum dispositivo, dum aparelho ou dum sistema, ou de afectar desfavoravelmente
a matéria viva ou inerte.
Ponto de entrega - ponto (da rede) onde se faz a entrega de energia eléctrica à instalação do
cliente ou a outra rede.
Nota: Na Rede Nacional de Transporte o ponto de entrega é, normalmente, o barramento de uma subestação a
partir
do qual se alimenta a instalação do cliente. Podem também constituir pontos de entrega:
• Os terminais dos secundários de transformadores de potência de ligação a uma instalação do cliente.
• A fronteira de ligação de uma linha à instalação do cliente.
Ponto de ligação - ponto da rede electricamente identificável no qual uma carga e/ou qualquer
outra rede e/ou grupo(s) gerador(es) são ligadas à rede em causa.
Ponto de medida - ponto da rede onde a energia e/ou a potência é medida.
Posto (de uma rede eléctrica) - parte de uma rede eléctrica, situada num mesmo local,
englobando principalmente as extremidades de linhas de transporte ou de distribuição, a
aparelhagem eléctrica, edifícios e, eventualmente, transformadores.
Potência nominal - é a potência máxima que pode ser obtida em regime contínuo nas
condições geralmente definidas na especificação do fabricante, e em condições climáticas
precisas.
Rede – conjunto de subestações, linhas, cabos e outros equipamentos eléctricos ligados entre si
com vista a transportar a energia eléctrica produzida pelas centrais até aos consumidores.
Rede de distribuição – parte da rede utilizada para condução da energia eléctrica, dentro de
uma zona de consumo, para o consumidor final.

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Rede Nacional de Transporte (RNT) - Compreende a rede de muito alta tensão, rede de
interligação, instalações do Gestor do Sistema e os bens e direitos conexos.
Severidade da tremulação - intensidade do desconforto provocado pela tremulação definida
pelo método de medição UIE-CEI da tremulação e avaliada segundo os seguintes valores:
• severidade de curta duração (Pst) medida num período de 10 min;
• severidade de longa duração (Plt) calculada sobre uma sequência de 12 valores de
Pst relativos a um intervalo de duas horas, segundo a expressão:

Sobretensão temporária à frequência industrial - Sobretensão ocorrendo num dado local com
uma duração relativamente longa.
Sobretensão transitória - Sobretensão, oscilatória ou não, de curta duração, em geral
fortemente amortecida e com uma duração máxima de alguns milisegundos.
Subestação – posto destinado a algum dos seguintes fins:
• Transformação da corrente eléctrica por um ou mais transformadores estáticos, cujo
secundário é de alta tensão;
• Compensação do factor de potência por compensadores síncronos ou condensadores,
em alta tensão.
Tempo de interrupção equivalente (TIE) - quociente entre a energia não fornecida (ENF) num
dado período e a potência média do diagrama de cargas nesse período, calculada a partir da
energia total fornecida e não fornecida no mesmo período.
Tempo médio das interrupções do sistema (SAIDI – System Average Interruption Duration
Index) – quociente da soma dos tempos das interrupções nos pontos de entrega, durante
determinado período, pelo número total dos pontos de entrega, nesse mesmo período.
Tensão de alimentação - valor eficaz da tensão entre fases presente num dado momento no
ponto de entrega, medido num dado intervalo de tempo.
Tensão de alimentação declarada (Uc) - tensão nominal Un entre fases da rede, salvo se, por
acordo entre o fornecedor e o cliente, a tensão de alimentação aplicada no ponto de entrega
diferir da tensão nominal, caso em que essa tensão é a tensão de alimentação declarada.
Tensão harmónica - tensão sinusoidal cuja frequência é um múltiplo inteiro da frequência
fundamental da tensão de alimentação. As tensões harmónicas podem ser avaliadas:
• individualmente, segundo a sua amplitude relativa (Uh) em relação à fundamental (U1),
em que “h” representa a ordem da harmónica;
• globalmente, ou seja, pelo valor da distorção harmónica total (THD) calculado pela
expressão seguinte:

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Tensão inter-harmónica - tensão sinusoidal cuja frequência está compreendida entre as


frequências harmónicas, ou seja, cuja frequência não é um múltiplo inteiro da frequência
fundamental.
Tensão nominal de uma rede (Un) – tensão entre fases que caracteriza uma rede e em relação
à qual são referidas certas características de funcionamento.
Tremulação (“flicker”) - impressão de instabilidade da sensação visual provocada por um
estímulo luminoso, cuja luminância ou repartição espectral flutua no tempo.
Variação de tensão - aumento/diminuição do valor eficaz da tensão provocados pela variação
da carga total da rede ou de parte desta.

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12. BIBLIOGRAFIA
[1] RQS – Regulamento da Qualidade de Serviço; Direcção-Geral da Energia; 2003.
[2] “Caracterização da Rede Nacional de Transporte para Efeitos de Aceso à Rede em 31 de
Dezembro de 2002 ”, REN Março 2003.
[3] Martins, António Gomes; Jorge, Humberto; “Introdução à Utilização Racional de Energia
Eléctrica”, 1993
[4] Couto, Daniel; Vaz, Luís; Pinto, Paulo; “IMPRE – Instrumentação para Monitorização de
Perturbações na Rede Eléctrica”, 2002.
[5] Ferreira, Nuno; Vilar, Nuno; “GD – Geração Distribuída”, 2003.
[6] www.cda.org.uk, 2004, Cooper Development Association.
[7] www.edp.pt, 2004 EDP.
[8] www.mge.com.br, 2004, Medição e Gerenciamento de Energia Eléctrica.
[9] www.dge.pt, 2004, DGE – Direcção Geral de Energia.
[10] www.erse.pt, 2004, Entidade Reguladora dos Serviços Eléctricos.
[11] www.iec.ch, 2004, International Electrotechnical Commission.
[12] www.schneider-electric.com, “Cahier technique n° 199- La qualité de l’énergie électrique”,
2004, Schneider-Electric.
[13] www.lpqi.com, “Guia de Aplicação de Qualidade de Energia”, LPQI, Leonardo Power Quality
Initiative, 2004.
[14] www.saskpower.com, 2004.
[15] www.ada.eng.br, ADA Engenharia, 2004.
[16] www.engecomp.com.br, Engecomp Tecnologia em Automação e Controle, Ltda, “Qualidade
de Energia – Causas, Efeitos e Soluções”, Edgard Franco, 2004.
[17] “Qualidade de Serviço – Relatório Síntese 2000”, REN 2000.

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