Cena Lusófona

n.º 3 Dezembro 2004

Rua António José de Almeida n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA Portugal t (+351) 239 836 679 f (+351) 239 836 476 | teatro@cenalusofona.pt | www.cenalusofona.pt

distribuição gratuita

e r t a c e n a b o rde l u m c com o ba ia n

ofício
de contar
Cándido Pazó ¶ Ângelo Torres ¶ Antônio Vieira VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais ¶ Festival Gravana

Editorial

1. O cordel brasileiro é um filão capaz de ligar mundos, de estabelecer pontes entre diversos níveis criativos, de recentrar a História com a intrusão de factos, argumentos e vozes, habitualmente na sombra. Além do acervo literário, mais ou menos editado e documentado, o movimento do cordel usa meios expressivos directos e eficazes para comunicar. O perfil do cordelista é o do escritor/performer, alguém que sabe fazer a síntese, de admirável economia de meios, entre a palavra, a actuação e a musicalidade. O baiano Antônio Vieira — convidado pela Cena Lusófona para em Setembro intervir em Portugal — é o cordelista aqui apresentado. De sua autoria é o cordel Popó do Maculelê de Santo Amaro, separata editada pela Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e pela Cena Lusófona, cooperação que saudamos. As entrevistas com Cándido Pazó e Ângelo Torres prolongam o esforço que temos desenvolvido na identificação e na apreensão de várias formas de narrar. Constitui raro privilégio poder juntar criadores de diferentes geografias num só evento — o Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais — e numa mesma edição de cenaberta.

Ofício
No âmbito do projecto “Contadores de Histórias”, a Cena Lusófona convocou três nomes importantes da narrativa oral — Ângelo Torres (São Tomé e Príncipe), Antônio Vieira (Brasil) e Cándido Pazó (Galiza) — para participarem no VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, palco em Coimbra de 16 a 18 de Setembro de 2004. Estes criadores animaram uma participada sessão do Congresso (Palácio de S. Marcos, 17 de Setembro) e a sua presença entre nós permitiu conversa. Viabilizou a escrita agora e aqui publicada.

2. Defendemos um conceito de intercâmbio efectivo distinto da ideia muito em voga de “exportação da cultura portuguesa”. Compreendemos este esforço — defensável, em especial, quando dirigido a certos “sectores de topo do mercado”, a grandes montras internacionais — embora reste saber se essa deve ser toda a fatia ou a cota maior do esforço de internacionalização. A vocação do intercâmbio implica a existência, também e muito, de projectos mais longos, mais densos, mais complexos, na busca e na concretização de parcerias, com os custos inerentes. Na abordagem do teatro, o intercâmbio deve permitir ganhos recíprocos, reconhecendo multiplicidade de formas e pertinências, alargando fronteiras, diversificando vínculos. Na comunidade de língua portuguesa parece-nos bem mais necessário e significativo este caminho. Promover desta forma o intercâmbio cénico na CPLP é modo consistente de integrar o teatro na política de defesa da língua, reconhecê-lo como exercício fulgurante da palavra, catalisador das artes, elo de ligação entre grupos e espectadores de países diferentes que têm o privilégio de se entenderem em Português. Incluir o teatro, priorizar as artes no intercâmbio Lusófono, é potenciar relações, superar — falando e não falando — dificuldades de relacionamento, cá e lá. O Brasil é o protagonista da nossa língua comum para a era global, o terreno futuro da batalha. Como afastar o teatro — e o seu papel no sistema das artes — esse terreno de aventura e redescoberta? Que curtos horizontes e fracos timoneiros nos fariam privar de tamanha energia e força agregadora, solidária?

3. Sublinhada tem sido a prioridade portuguesa de intercâmbio com o Brasil. Ministros e responsáveis têm-no repetido nos últimos tempos sem que se retire consequência, reflexiva, política e orçamental, dessa fórmula preconizada. Com independência de factores conjunturais, é altura de projectar um esboço de política cultural externa e, no caso da intervenção portuguesa no espaço geo-cultural da CPLP, elaborar um documento orientador, com uma formulação participada, que seja expressão de um esforço articulador entre ministérios e institutos do Estado e destes com a sociedade civil. Não mais se pode navegar ao sabor dos ventos, das marés.

Cándido Pazó
Si he sufrido la sed, el hambre, todo lo que era mío y resultó ser nada, si he segado las sombras en silencio, me queda la palabra. Blas de Otero in En el principio

A palavra
No sossego de uma moradia do pacato bairro Norton de Matos, em Coimbra, sala luminosa, olhar debruçado sobre o novo estádio de futebol da Académica, a entrevista com Cándido Pazó: momento para desvendar segredos sobre o ofício de contar, espaço para falar das palavras. A abrir a conversa, surpresa rouca, o ruído do motor de um frigorífico! Cándido Pazó (CP) — Penso um dia escrever sobre este barulho... cenaberta (ca) — Curioso, ontem um motorista de táxi falava-me, com nostalgia, do som da chuva a bater nas telhas da sua velha casa de infância.Ao ouvi-lo, ocorreu-me o ping! ping! da goteira a cair na lata: o soporífero dos pobres. Espantosa é a memória sonora, a marca que nos deixam estes sons. Sons; que não ruídos. CP — Mas o frígorífico... ca — O frígorífico é fantasmagórico. Brrrrrrr... Até por estar a fazer uma coisa que, quando se

António Augusto Barros

ficha técnica
Director António Augusto Redacção Augusto

Barros Baptista (coordenação e fotografia), António José Silva, Cátia Faísco e Tiago Boavida Concepção gráfica Ana Rosa Assunção
N.º 3 distribuição gratuita | Tiragem 1500 exemplares | Impressão Tipografia Ediliber
Propriedade

Cena Lusófona . Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral Rua António José de Almeida, n.º 2 3000 - 040 COIMBRA, Portugal
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cenaberta 2

de contar

Augusto Baptista

Cándido Pazó no Palácio de S. Marcos

está sozinho, se tem em excesso: frio.A solidão é gelada. Como as trevas. Por isso reclamas luz nas tuas intervenções. Luz, para ver os olhos do público. CP — Contar histórias é conversar. Pode-se conversar às escuras, mas esse é outro tipo de conversa. No meu caso, preciso de ver os espectadores. É muito importante saber como reage quem me escuta. ca — Isso pressupõe também proximidade. CP — O melhor é isso. Mas às vezes não se consegue.Trabalhei na rádio, contei histórias na televisão. O ideal é estar o mais perto possível e ter um auditório não muito grande... Claro, enquanto profissional, tanto participas em eventos com sessenta, como com seiscentos espectadores. ca — Nas tuas actuações, verifiquei, tens um contacto quase físico com as pessoas. CP — Depende das condições, do público. Quando há cinquenta espectadores, o contacto físico não é imperativo: embora a vista seja já contacto físico. Agora, quando há muita gente e há o perigo de dispersão, tens de apanhar os espectadores com a mão, interpelá-los a meio metro de distância. A vista não chega. Tens de lançar cordas, cabos para amarrar o barco da comunicação. Se permites dispersão, não podes voltar atrás. ca — Um tanto como no namoro, se há ruptura é difícil reatar. CP — É possível, mas requer uma energia especial. Muitas vezes uma energia louca. Quando estamos a recuperar uma relação, como a do namoro, fazemos muitas parvoíces. Também quando se está a contar uma história e se rompe a relação, no desespero, podes fazer disparates, dizer coisas parvas.

ca — Para chamar a atenção de quem te vê e ouve usas como objecto-âncora um escadote. Tu próprio te apresentas com uma camisa vermelha. Isso é por acaso? CP — Não, não. Isso tem razão de ser. Quando comecei a contar histórias, apresentava-me como calhava. Depois pensei: isto é uma arte cénica, é palavra cénica. Palavra natural, palavra directa, mas é cénica, a actividade. Então, eu, portador de signos visuais, vou vestir-me como? A primeira ideia foi vestir-me de preto, por ser uma cor neutra, que acentua a importância do rosto, das mãos. É normal, no palco, ver músicos e artistas vestidos de preto. Mas, como eu actuava muito em bares mal iluminados, comecei a notar que visualmente me perdia. Decidi adoptar o vermelho, também em homenagem a um cómico espanhol muito importante, falecido há dois anos: Miguel Gila. ca — Gila? CP — Miguel Gila era um excelente cómico e um homem íntegro. Soldado do exército republicano, foi aprisionado e fuzilado, juntamente com mais 20 ou 30 companheiros. Mas fuzilaram-no mal e, como ele dizia, tinha tão pouca importância que ninguém foi verificar se estava mesmo morto. Gila transformou esta história trágica num caso cómico. Ora ele trabalhava de vermelho e, quando morreu, decidi-me por esta cor. ca — No caso de Miguel Gila, admito, o vermelho era bandeira. CP — Também. E um modo de individualização. Há duas semanas eu estava a trabalhar no fórum de Barcelona, partilhando o palco com um grupo de flamenco, todo vestido de preto. Se me apresentasse de preto, não me distinguiria. Ora Gila, que trabalhou muito em

bares, locais nocturnos, talvez tenha chegado à mesma conclusão. E optou pelo vermelho, cor que, nos anos 50, 60, realmente era um bocadinho provocatória. ca — Sendo que, entretanto, vermelha é a cor da capa dos toureiros... CP — E da camisola da selecção nacional de futebol. Sempre foi vermelha. Mas, se calhar, no mundo do espectáculo, não será corrente o uso do vermelho. Não sei. De qualquer modo, no meu caso, há uma questão visual e um lado de homenagem. Concluindo: a questão da cor não é gratuita. Entrar no quarto meia hora antes do espectáculo, tirar a roupa normal, vestir a camisa vermelha... É como o padre quando se prepara para rezar a missa. ca — Ou o toureiro, antes de entrar em cena. CP — Para o toureiro, é uma cerimónia intensa. No meu caso, é só vestir uma camisa. ca — Mas com carga ritual. Antes dos espectáculos, vejo-te circunspecto, às voltas, ar de quem sabe que breve vai correr riscos. CP — Nesses momentos procuro antecipar o modo como decorrerá a acção, a possível reacção do público. O que se vai passar aqui? Esta gente estará com vontade de me escutar? Como vou fazer? Na minha actuação de ontem no palácio de S. Marcos, para os congressistas do fórum de Ciências Socias, eu tinha várias histórias na cabeça. Uma falava de Castelao, um homem da cultura, da política, referência histórica galega, muito conhecido no mundo da Sociologia. E havia outras. Mas qual? Então eu estive a observar e, já que estamos numa de toureio, perguntava-me, vou sair à praça e como vou lidar? ca — Foste atrevido. Escolheste uma história

dir-se-ia em contradição com o universo académico, o ambiente grave, os grandes cadeirões do palácio, varandim de pedra impregnado de monarquia... CP — A questão é: vou trabalhar contra ou a favor da corrente? As duas hipóteses podem funcionar, mas eu só decidi contar aquilo no momento em que o António Augusto Barros estava a fazer a apresentação. Só aí verifiquei que a desconcentração era muita. Então pensei: há que fazer tratamento de choque, ir ao contrário, apanhar o pessoal não pelo direito, pelo avesso. ca — Quer dizer, decidiste tudo à última hora? CP — Já tinha admitido ir por aí, mas só quando assistia à apresentação determinei o caminho. Eu podia contar a história do Castelao, muito bonita, delicada, ir a favor do público. Mas peguei numa ementa do jantar e... ca — ... E começaste de improviso, lendo a ementa, introduzindo a história. Isto leva-me a supor que tu, homem de texto, do apuro da palavra, da depuração narrativa, da escrita!, na vertigem da acção assumes o inesperado, deixas-te tentar pelo risco. CP — As duas coisas estão intimamente relacionadas. Só podes improvisar quando dispões de uma estrutura firme, conhecida, segura. Aí podes lançar-te à aventura, cruzar os mares, sem medo, porque sabes que, se te perderes, tens salvação. No meu caso, quanto mais sei a história, mais improviso. Eu comparo isto ao jazz: os músicos fazem improvisação, mas conhecem muito bem a estrutura. Não inventam. ca — Neste jogo, não corres o risco de um dia meteres os pés pelas mãos, te baralhares?
cenaberta 3

CP — Tenho, digamos, uma marca própria. Saio do caminho principal, entro em vias secundárias, mas sinalizei o ponto de saída. E assim não me perco. Estou a dizer, sei lá, Então o homem ia no autocarro... Nesta altura, posso improvisar uma qualquer outra situação. Na minha cabeça sinalizei a palavra autocarro e, na hora de voltar ao fluxo narrativo principal, retomo Neste autocarro... ca — Até chegares ao apuro de recursos e truques, há um trajecto; que começa quando e como? CP — Sou um homem de teatro. A partir de 1989, já escrevia teatro, fazia encenações. Depois, sempre fui um conversador. Gostava de contar histórias, sem o mínimo projecto profissional, sem sequer saber que havia essa possibilidade. Quando o Quico Cadaval estava a trabalhar em Madrid, encontrou muitos sul-americanos contadores de histórias, nomeadamente columbianos (na Colômbia, cuentero é uma profissão normal, reconhecida). O Quico gostou daquilo, voltou para a Galiza e montou o espectáculo Falar por falar. O sucesso foi grande, o que o levou a pensar numa dinâmica contista na Galiza. Desafiou-me e, um dia, no final de um espectáculo, chamou-me ao palco para eu contar uma história. Foi o começo. Hoje trabalho mais a contar histórias do que no teatro. Embora continue a fazer teatro, a escrever. ca — Esta primeira intervenção pela mão do Quico Cadaval foi onde? CP — Em Santiago de Compostela, no ano de 1996. Depois, durante muito tempo, fiz aí a estreia de novas histórias, apresentei novas estruturas, apurei caminhos, formas, ritmos. As histórias não podem ser, como no teatro, ensaiadas dentro de portas. Tudo tem de ser provado com o público. Normalmente fazia isso num bar de Santiago. ca — Onde levavas e colhias histórias. CP — Muitas verídicas, em redor da guerra, seus horrores e cicatrizes. Como a de uma senhora idosa, que, na década de 60, ia a casa de velhos falangistas, à hora da morte. Eles na agonia, com padre, mulheres a rezar, homens ao alto, ela entrava vestida de preto, pesarosa, ia à cabeceira do moribundo, ao ouvido, Tu mataste fulano, em tal sítio. Mataste mais não sei quem, além. Mataste... Isto na justa hora em que o homem ia prestar contas ao Altíssimo! Morriam no mais absoluto retorcimento. ca — Esta é uma história forte, a suscitar muita narrativa. CP — Claro, tu podes recriar a história desta velha, alongá-la, dizeres que ela tinha uma cabra, uma chibinha, construir um caminho, decidir um final. Mas, para chegar a um resultado, necessito de um público cúmplice que me permita testar soluções. E isto não pode ser feito em qualquer lugar, com um público qualquer. ca — Este caso, que ainda estou a digerir, atravessado pelo universo cruel da guerra, permite construir histórias que abanam consciências, desvendar os alicerces da Galiza, as contradições. Isto significa dizer que tens grande margem de intervenção ideológica. CP — Eu e o Quico somos filhos do que chamam em Espanha Teatro Independente, iniciado nos anos 60, 70, em contestação ao teatro comercial que se fazia então em Madrid ou Barcelona. O Teatro Independente assumia-se contra a ditadura, a favor da amnistia dos presos políticos, da liberdade. Esta herança estruturou a nossa forma de ser e de fazer. Sou um homem de esquerda, preocupado
cenaberta 4

com a actualidade galega, espanhola e mundial. Mas isto não é algo que eu tenha de reflectir muito na hora de contar. Também não tenho a intenção... Eu gosto de contar histórias... A que contei ontem no Palácio de S. Marcos é um bom exemplo. ca — A história corrosiva de um peido, contada a académicos, cientistas sociais... CP — Numa cota elementar de recepção, esta é simplesmente a história de um peido e suas consequências. Mas ali reivindico a memória, falo de emigração, do desenraízamento, do retorno, do reencontro com uma nova paisagem, outra realidade... Mesmo assim, num momento dado, achei que a história terminava com pouca consistência. Foi quando inventei o estrambote final, o remate, concluindo que somos todos muito parecidos nas coisas de cagar, mas temos de passar a ser mais iguais nas coisas de comer. Confesso que fiquei muito satisfeito por ter sido capaz de dar sentido a toda aquela festa da palavra, do humor. ca — A história chama-se? CP — O peido de Abelardo, o Caruncho. ca — Pelo que percebi, as tuas histórias são uma espécie de acordeão que esticas mais ou menos, conforme a música que queres tocar. E te reclamam. CP — Por vezes tens de fazer a música que o público pede, sem o saber. Isto passa-se muito nas escolas do ensino secundário. Tens de conquistar esse público jovem, de 15, 16, 17 anos, dando-lhe coisas que parecem não lhe interessar: a beleza da palavra, o humor inteligente. Daí a conclusão de que se pode trabalhar a favor do público, mas nunca superficialmente. Há que ir além das aparências, sondar em profundidade. ca — Naquilo a que se pode chamar a tua bagagem profissional, carregas quantas histórias? CP — Umas trinta. Mas trinta histórias modulares. Quer dizer, histórias compostas por módulos intercambiáveis. Eu tenho um módulo que faz parte desta história, mas que me faz falta noutra, por razões determinadas: transfiro. ca — É um puzzle que constróis às vezes mesmo na hora, no acto de contar? CP — Sim. Por exemplo, estou a contar a história delicada de alguém que leva um ramo de flores à amada. Chegado aqui, noto que preciso de mais energia para captar o público e poder continuar. Recorro então à história de um fulano ecologista que levava flores à namorada, mas que as apanhava no cemitério, flores de enterro, que ele assim reciclava. O público ri, está reposta a energia, posso continuar. ca — Uma das tuas preocupações é o ritmo. CP — O ritmo energético. ca — Mas, na história do Abelardo que ontem contaste, o registo narrativo foi sempre muito intenso, agressivo. CP — Ontem, se quiseres, foi especial. Foi um bocado eléctrico. E foi assim por ter concluído que, naquele contexto, se eu não fosse eléctrico aquilo perdia-se. Não tem de ser sempre assim, nem sempre é assim. Desejável é que a narrativa seja como num bolo: com creme, nozes, biscoito... Há que misturar. Num ambiente normal, devem-se criar contrastes, falar baixinho e tal. Talvez me tenha enganado, mas ontem achei que precisava de rédea curta. O público não me conhecia e, quando é assim, é ele o dono do ritmo e do tempo. Nestas condições, não navegas, é o mar que te leva. ca — As tuas actuações estão centradas na Galiza?

CP — Eu trabalho muito na Galiza e em toda a Espanha, sobretudo a Norte. E todos os anos, ou de dois em dois anos, vou à Venezuela, Argentina, Colômbia. E agora vou ao Chile. Para além do espaço hispânico, tenho também o espaço da lusofonia... Estou, como nós dizemos na Galiza, escarrachado, uma perna aqui e outra lá. Sinto-me natural dos dois mundos. ca — Nos países de Língua Portuguesa, para além de Portugal, estiveste onde? CP — São Tomé e Príncipe. ca — E como correram aí as coisas? CP — Houve duas actuações. A primeira foi num imenssíssimo cinema em São Tomé.Aí foi difícil. A palavra tem a sua dimensão. É muito potente, mas é frágil. Não pode ser levada a um teatro de mil lugares, sem apoio sonoro, sem ambiente, com gente a entrar e a sair. A segunda foi no Príncipe. Ali o espaço era apropriado e o público, para além de pessoas da terra, diversificado: brasileiros, angolanos, portugueses, guineenses... Havia muita gente e correu muito bem, com comunicação. ca — Achas que estas experiências da Cena introduzem mais-valia no teu trabalho? CP — Tudo é um somatório. A primeira vez que actuei em Portugal foi aqui em Coimbra num evento chamado Os contos outrora, agora, uma espécie de congresso sobre a narrativa oral, os velhos contos populares. Era um contexto muito universitário. Depois fui solicitado pela Universidade do Minho. As coisas correram bem e agora, desde há dois anos, dirijo uma acção de formação no ESMAE (Escola

Superior de Música e Artes do Espectáculo), no Porto. Isto é uma via. A outra é a Cena Lusófona, a partir da ida a São Tomé e Príncipe. Enfim, aos poucos e como uma mancha de óleo, vais alastrando... ca — Isso significa boas perspectivas para as histórias, para os contadores, para a palavra? CP — Se a pergunta me fosse feita há uns anos, não saberia responder. Hoje, vendo que cada vez mais se estruturam os circuitos, cada vez mais se abrem caminhos, crescem os contratantes, estou optimista. Tal qual Blas de Otero, poeta social espanhol, acredito na palavra: último reduto, abrigo, barricada. A fascinante matéria-prima com que trabalho.

Cándido Pazó perfil breve
candidopazo@tiscali.es Nasceu em Vigo, 1960, reside em Santiago de Compostela, Galiza. Formação universitária na área da Filologia Galego-Portuguesa. Contador de Histórias. Actor (Teatro de Adro e Ollomoltranvia). Dramaturgo, publicou: O melro branco; Raiñas de Pedra; Commedia, un xoguete para Goldoni; O bululu do linier; Ñiqui-Ñaque; O Rei Nu.

Augusto Baptista

Ângelo Torres
Nasceu na Guiné Equatorial, cresceu em São Tomé e Príncipe, foi estudar para Cuba e acabou por pousar as malas em Portugal. Aqui descobriu o teatro e o mundo dos contos. As histórias com que hipnotiza o público foram em grande parte herdadas do baú da avó. Da sua velha avó, que prometia uma história, depois de todos os meninos da aldeia terem tomado banho. Verdade? Ficção? Senhores e senhoras, Ângelo Torres… Com um sorriso de menino que nos vai pregar uma partida, Ângelo Torres contou — num dia de muito Sol — como aterrou no mundo dos contadores de histórias. Finalista do Conservatório de Teatro em Lisboa, desistiu, mudou-se para um curso de Artes e Ofícios Circenses, no Chapitô. Quando terminou os estudos iniciava-se um evento chamado “Sonhar África”. Nesse ano, 1994, o país homenageado era São Tomé e Príncipe. Convidado a participar, Ângelo decidiu contar histórias: «O António Fontinha estava lá e viu-me. Em Outubro, convenceu-me a ir contar histórias para as escolas, num projecto chamado Multicultura». Nesse mês propuseram o projecto a escolas de Lisboa com uma grande população luso-africana. Duas aceitaram. Em Maio, as duas passaram a dezoito e, no ano seguinte, novo salto. Durante a infância todos nós ouvimos histórias. Esse ritual era concebido para adormecer crianças irrequietas ou, muitas vezes, para transmitir lições de vida. À medida que fomos crescendo, essas histórias começaram a desaparecer e ganharam novas tonalidades e formas, através de pequenos relatos do quotidiano que nos fazem sorrir ou torcer o nariz, numa mesa de café ou naquelas noites em que a lua vai alta e os ouvidos estão atentos. Os contadores de histórias são a hipótese de um regresso a um universo que se julgava perdido e que nos devolve cheiros e tons antigos, apagados na nossa rotina. Através dos contos, Ângelo Torres descobriu o poder mágico da palavra: «Houve momentos em que senti, se parasse, as pessoas iam chorar e pedir para que eu continuasse». Toda a força tem em si uma fraqueza. «Mas também já tive a sensação de que se me calasse e me fosse embora, ninguém ia reparar que tinha estado ali». Ângelo é um contador que busca a perfeição em cada sessão. Para ele, o ideal muitas vezes é o contrário daquilo que acaba por fazer. Ou seja, a perfeição será atingida, diz, no dia em que conseguir narrar só com a voz. Sem se apoiar no gesto ou no corpo. Quando alcançar, através da modelação da voz, intensidade, densidade, mistério, receio, ironia. Levar o público, mesmo de olhos fechados, a sentir,

Histórias só com a voz
Augusto Baptista

perceber, visualizar. Apesar desta busca, para quem acompanha Ângelo Torres a contar histórias impossível é ouvir-lhe só a voz. Os olhos crescem-lhe quando o vilão da história se aproxima do herói, as mãos acompanham o ritmo do cavalo com que o príncipe corre pela planície, o corpo curva-se para dizer velha senhora e são todos estes ingredientes que também nos prendem. No entanto, não encara isto como um elogio: «Muitas vezes as pessoas vêem mais do que ouvem e eu creio que assim não se passa o objectivo do conto». E qual é o verdadeiro objectivo do conto? Ângelo confessa ser algo muito pessoal e que varia de contador para contador: «Todo o conto tem uma mensagem e a maneira como um contador se apropria

dela terá a ver com a sua educação, as suas crenças… Mas, para mim, o essencial é a mensagem do conto». Há alturas em que sente não conseguir passar essa mensagem e precisa de se explicar ao público. Para exemplificar, refere a recente apresentação no Congresso Luso-Afro-Brasileiro, no Palácio de S. Marcos, perto de Coimbra: «Nesse dia enganei-me, interrompi o aplauso das pessoas. Teria sido uma grande seca e aplaudiram para que eu me calasse? Ou teriam mesmo percebido aquilo que eu queria dizer? Interrompi o aplauso e estraguei um momento mágico». Nos dias em que a narrativa não corre tão bem, Ângelo Torres faz por não pensar nisso. Confessa que há quem o acuse de falta de

profissionalismo por agir assim. Numa atitude de desprendimento diz que não vale a pena perder tempo a autoflagelar-se: «Nascemos para ser felizes».

Ângelo Torres perfil breve
acuario@netc.pt Nasceu em 1969 na Guiné Equatorial, reside em Lisboa. Contador de Histórias. Actor. Integrou os filmes: “Tudo isto é Fado”, “Nha Fala” e “Preto e Branco”. Fez parte do elenco das peças: “A Varanda de Frangipani”; “Mar Me Quer”; “Sorrisos de Bergman”. Eleito em Portugal Shooting Star (actor revelação) 2004.
cenaberta 5

Antônio Vieira usa chapéu: na cabeça e no nome. O circunflexo é coisa de registo; o adereço capital é opção de artista, marca de criador de cordel de tipo novo — remoçado, diz —, que propõe pensar lógico, transformar. Mordeu a pedra. À volta, todos, que poucos eram, suspensos no alvitre. Ouro! — assegurou Pedrão, garimpeiro velho. E no lugar donde esta veio, tem muitas! Logo abraços, implosão de alegria, júbilo amordaçado: para não despertar suspeita. Um caso nascido de acasos. Primeiro a ida da pequena equipa de topografia para o cu de Judas, demarcar terrenos. Depois o mergulho à tardinha do agrimensor no rio, a pepita no fundo. A reluzir. Ouro! E no lugar donde esta veio, tem muitas! Valeu a pena demandar Araguaína, contactar Pedrão, logo logo companheiro de agrimensores rendidos ao garimpo, ouro fácil, à superfície. Missão a enricar, no rio não tardou a companhia do dono da fazenda, dos donos das fazendas. E outros. Muitos. Mais, mais.Vindos cada vez de mais longe. Nascia o garimpo na Serra Pelada! Antônio Vieira conhece em detalhe a febre do ouro que fez arder o Brasil na década de 80: jornalistas, médicos, intelectuais, vaqueiros, burocratas, operários, deserdados, marginais, caldo humano a borbulhar na cratera, goelas esgalgadas a engolir a turba. Fez cordel: Os barrancos desabavam Só via gente morrendo Ou ficavam soterrados Ou escapavam fedendo Alguns ficavam pra sempre Traumatizados, doentes Do garimpo maldizendo. Aprendeu casos de gente que bamburrava eufórica, atraindo pistolagem. Soube de muito garimpeiro morto, por não vender pepita ao governo. Apurou números: «A produção acumulada de Serra Pelada até Setembro de 1984 foi da ordem de trinta e três toneladas de ouro.» Catou e guardou histórias, sem cair na tentação do garimpo: «O meu ouro era outro». Várias classes de pessoas O garimpo faz nascer Prostitutas, pistoleiros Quem rouba para viver Garimpeiro bamburrava O ladrão o tocaiava Só sorte para não morrer! No garimpo, a crueldade É coisa de assustar Não se tem dó de ninguém Não adianta gritar Triste de quem adoece Se for pra morrer falece Só Deus lhe pode salvar.

«uma senhora contadeira de histórias, branca, cabelo comprido, tipo uma portuguesa, magrinha». Terça armas ao lado de Oliveiros e Roldão, às ordens de Carlos Magno. Se arrepia com «caso de bichos, histórias mal assombradas, fantasmas e reis». Na escola, «todo o mundo contava coisas, como prática normal, recreativa. Histórias decoradas, de lobisomem e tal, às vezes em verso». Entre o jantar e a deita, «era jogar pião, fabricar carrinho, correr picula, que é o procura-procura», jogo das escondidas, como em Portugal se diz.

Na porta, faziam fila E ela dizendo: — Me coma! Não era de meretrício Morava numa casinha Atrás de uma avenida Porta de frente pra linha Tinha o olhar meloso Um trejeito apetitoso Era do tipo galinha Repara em Popó do Maculelê «guiando trole puxado a burro, que trazia as bagagens

motivação lembrou-se das bandas»: — Me diga, você torce por qual banda? — Doutor, eu gosto das duas. — Um homem tem de se decidir! — Gosto da Lira... — Tragam o chicote cinza! — ordenou o delegado. «E meteram o chicote cinza no meio da sova». — Doutor, eu torço por Apolo! — Tragam o chicote caqui! — Eu torço pelas duas, doutor! — Juntem os dois! Caso verídico? «Eu já peguei o bonde

Antônio Vieira
Augusto Baptista

Me coma!
Antônio Vieira nasce na heróica e benemérita cidade de Santo Amaro da Purificação, no estado da Bahia, em 1949. Filho mais velho de uma prole de seis, cedo histórias, casos, dramas, lhe preenchem a vida. Desde menino, na venda do pai, escuta narrativas. Conhece Ferrabrás, irmão de Floripes e filho de Balaão, pela voz de Donata,
cenaberta 6

Crescendo, aos 13 anos aprende violão. E histórias da História. Pasma com as pregações de António Conselheiro em 1889, «o Bom Jesus prometendo montanhas de cuscus e rios de leite para todos». Um caso que poucos conhecem, lamenta: «Conselheiro e a sua gente se instalaram numa fazenda abandonada na região que hoje se chama Monte Santo, fundaram a povoação de Canudos. Os fazendeiros, sem mão-de-obra, pressionaram as autoridades para acabar com aquilo». Os ataques foram todos repelidos. «Até que, após três anos de guerra, o Ministro do Exército à frente das tropas arrasou Canudos — 20 mil mortos: homens, mulheres e crianças». Na vida, aprende Feliça, «a prostituta que ensinou uma geração inteira»: O rapaz vinha de longe Para comer a negona Um saía outro entrava Ela deitada, abertona Os meninos de família

dos passageiros do cais do porto (no Conde) para o centro da cidade». Retém os ecos da fantástica epopeia do capoeirista Besouro, morto mas nunca vencido, «nome manchado proposital e preconceituosamente pela tarja da marginalidade». Atreve-se nas primeiras quadras, caligrafia indecisa em papel de embrulho, relato do caso de um enfermeiro, que — diariamente e por mais dum ano — vê correr para aplicar injecção numa moça, «doente com uma gripe, muito bonita». Ufano, mostra a criação aos catraios mais velhos: «Incinere isso, rapaz! Você é maluco?!». Se Antônio tendia para a malandragem nas letras, também Santo Amaro fervia de samango, mariola «a emprenhar vizinha». E outros casos. Conta que na cidade havia (e há) duas bandas de música, rivais: a Lira (uniforme cinza e vermelho) e a Apolo (uniforme caqui — verde claro — e vermelho). «Pois uma vez, preso um sujeito sem qualquer razão, o delegado queria dar surra nele. À falta de

andando» — assegura. «Isto foi-me contado pela minha família». O real e a ficção: dois chicotes. Neste entrosado, António se fez homem, temperou ideias, descobriu o lado que lhe estava reservado na barricada social.

Semear consciência
Um dia, a vida empurra-o para fora de Santo Amaro, joga-o para o imenso Brasil. Anos de andanças, mais de vinte: Feira de Santana, Goiás, Brasília, Imperatriz do Maranhão... E, enfim, regresso recente a chão baiano: Salvador. Nesta peregrinação, estuda, serve o exército, tira curso técnico de agro-pecuária, constitui família. Nos quadros do Ministério da Agricultura, entre outros afazeres, «acompanhei o assentamento de populações nas zonas rurais». Explica: No tempo do governo militar, houve uma reforma agrária, «de cima para baixo, de Brasília para o campo». Foram distribuídas terras, «fazendeiros, os antigos

posseiros, a disputarem solo fértil, nas margens dos rios; nos outros lugares ficava gente sem terra, vinda da cidade». Antônio integrava uma equipa técnica «de vistoria e preenchimento de laudos das propriedades, que acompanhava a subdivisão da terra e o assentamento das pessoas». O epicentro do sismo! «Nesse processo se geram corrupções, invasões, pistolagem, um camarada ocupa uma terra, tem direito à vizinha, aí manda assassinar o cidadão para poder...». A selva! Também geografia privilegiada para caçar histórias, coleccionar casos,

dos Bush da vida. E o Brasil aceitou isso».

O cordel ao poder!
Outras vocações atribui Antônio ao cordel. Ao seu cordel. Rodeia o assunto, dá voltas, conta a história do cientista que chamou um barqueiro para atravessar um rio. Na viagem, para avaliar o grau de conhecimentos do remador, o cientista multiplicou-se em perguntas: Sabe Matemática? Biologia? Astrofísica? Termodinâmica? A cada pergunta, ouviu um não de resposta. E, para cada não, o sábio judiciava:

Café com cordel
Ano quatro de dois mil, Vinte, rigorosamente, Do nono mês que é Setembro, Surgiu, esteve presente No bonito Santa Cruz, Café vetusto, de truz, Cordelista competente. Antônio de nome próprio Vieira de apelido Fez Coimbra vir à Baixa Para escutar o sonido De poema de eleição Com fundo de violão E muito aplauso batido. De chapéu claro na cuca Apresentou-se o bacano Que é cordelista afamado Do Recôncavo baiano E falou de Santo Amaro, De Feliça, trato caro, Besouro e de mais fulano. Alta andava a noite já Houve enfim que terminar Para desgosto de todos Meninas em particular Que eram muitas, bonitonas, Olhos grandes, azeitonas, E negrinha a atasanar. E quando todo o mundo alçou Deste café com cordel O baiano encantador Foi amarrar o tropel Posto que copofonia Rima com lusofonia Só na trova, no papel.

Cordel novo
conhecer os homens, a sociedade: «A história dos menos favorecidos sempre me chamou a atenção. Sempre quis compreender o porquê das diferenças sociais». A terra e o gado, a causa agrícola, abrem-lhe horizontes, mostram-lhe o Brasil social, visto de baixo. Desvendam-lhe espaços. Extasia diante de Alto Paraíso, «uma das regiões mais lindas do mundo». Conhece Pedro Afonso, cidade entre os rios Sono e Tocantins, a sua fauna: «Dá peixe de 100 quilos, o Filhote, por exemplo, peixe de couro». Ronda Serra Pelada, o garimpo. Trabalha na Transamazónica «estrada que pega de Brasília, em Goiás, atravessa Tocantins, Pará, Amazonas». Por onde passa, aprende: «Enquanto os outros iam para um simples serviço, eu fazia pesquisa sócio-económica por minha conta. Fui anotando, ouvindo termos, conceitos, sacando comportamentos». Contacta populações índias, interpela gente andarilha em busca de uma vida melhor. «Autómato no emprego, autónomo na parte literária», ganha lastro cultural, colhe experiência humana. E decide semear consciência. Opta pelo cordel: «Por ser veículo ideal para transmitir mensagens, popularizar a cultura, deselitizar o saber». Denunciar: «No Maranhão, o minério de ferro passa em composições quilométricas puxadas por um trem e o povo não sabe a origem nem o destino daquilo. Fica tipo espectador de quadra de ténis. O interesse da minha literatura é difundir informações, ainda que diluídas em água com açucar, só a manchete, mas que o povo saiba que o minério está a ser tirado de Carajás, um dos grandes celeiros de ferro do mundo, para o Japão. Se alguém quiser saber mais, que vá buscar». Demora-se em referências à incontornável superficialidade do cordel, embora momento de possíveis indagações ulteriores: «O que escrevo no cordel é uma sinalização para o aprofundamento. Quem quiser permanecer só no conhecimento do cordel, tem um princípio necessário para o consumo. Aquele que quiser aprofundar — a posição social dos protagonistas, o ambiente... — pode fazê-lo». No cordel “Se a ferrovia traz progresso, porquê o trem parou?” freme a indignação: «Nós temos 20 mil quilómetros de estrada de ferro e de repente sucatearam, arruinaram estações, arrancaram os trilhos em algumas cidades, fizeram avenidas. Porquê, se estão fazendo o metro em Salvador?». Logo a resposta: «O comboio foi desmantelado prepositadamente em função da Shell, em função — Pois é, perdeu um percentual importante da sua vida. Às tantas, arma-se uma tempestade, o barqueiro inquire: — Sabe nadar, doutor? Não! Então, vai perder a vida toda já! «Nessa hora — adianta Antônio — não interessa o nome da capital da Hungria, ou da Rússia. O importante é saber nadar!». Remata: «Com o cordel o que queremos é mostrar esta realidade e ensinar a nadar, a raciocinar. Propor cidadania, integrar. Daí a razão do cordel remoçado. O cordel tradicional ele é lúdico, engraçado, mas neste ponto é inóquo. Não influi nem contribui. Nas entrelinhas de nossos versos, a gente coloca essa questão da necessidade de pensar. Pensar lógico». Desempenho que atribui ao cordel é também salvar do esquecimento «os momentos, gestos, os mil modos como o povo, as populações e seus heróis intervieram no curso dos acontecimentos e na formação do Brasil». A propósito assinala que, na História oficial, os protagonistas, os agentes das transformações são os generais. E o povo? «Um general não ganha uma guerra sozinho. Também, paralelamente às macro-acções, uma multidão de actos influencia sobremaneira o processo». Daí a urgência, através do cordel, «de cantar o povo e a actuação popular, repor verdade na avaliação histórica». A par da exaltação do herói colectivo, «função do poeta é o resgate, o evidenciamento de certas acções e indivíduos, como Besouro de Santo Amaro, que reagiu com pernada, valentia, à proibição oficial de jogar capoeira. E lembrar grandes nomes, exemplos que o povo precisa conhecer. Multiplicar os Albert Schweitzer da vida, as Madres Terezas de Calcutá». Perante tanta tarefa, tanta necessidade de multiplicação, de milagre, tempero, apetece perguntar, sem lirismo, o que pode a Donata, o Popó do Maculelê, a Feliça, Lâmpião, Besouro, o que podem eles juntos na inversão do curso das coisas, agregar, humanizar? O que pode o cordel na transformação do mundo? «Veja bem» — diz-me Antônio, no seu jeito pausado e sereno de contar história. «Veja bem, neste caso, o cordel seria aquele passarinho que estava com o bico pegando água para apagar o incêndio. E os outros animais da floresta lhe disseram: Então você quer apagar o fogo assim?! E o passarinho, sem interromper o trabalho: Estou fazendo a minha parte!» antoniovieira.cordel@ig.com.br

Augusto Baptista

Santa Cruz: Cena no Café com Antônio Vieira

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Companhia do Feijão apresenta “Mire Veja”
A Companhia do Feijão apresentou durante o mês de Novembro, em São Paulo, cidade-sede do grupo, o espectáculo “Mire Veja”. “Mire Veja” estreou em 2003 no Festival de Curitiba e resulta de uma adaptação livre da obra “Eles Eram Muitos Cavalos”, do escritor mineiro Luíz Ruffato. «São 24 histórias curtas, fragmentadas e entrelaçadas, que falam da vida na metrópole de S. Paulo». Nesse ano foi prémio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) para Melhor Espectáculo e Prémio Shell na Categoria Especial. Paralelamente a esta produção, a companhia mantém em circulação “Reis da Fumaça”, uma performance de rua inspirada na cultura popular brasileira. No seu repertório constam ainda “O Ó da Viragem”, “Antigo 1850”, “Movido a Feijão” e “Julgamento do Filhote de Elefante”. Nascida em 1998 a Companhia tem-se dedicado à «pesquisa de linguagens cénicas baseadas no trabalho do actor e aborda predominantemente temas brasileiros a partir de obras literárias, trabalho de campo e documentos históricos». www.companhiadofeijao.com.br imprensa@companhiadofeijao.com.br

O Bando, 30 anos

Pia Fraus em digressão com “Bichos do Brasil”
Pia Fraus, companhia de teatro de São Paulo, Brasil, está em digressão com “Bichos do Brasil”. A peça, da autoria de Beto Andretta e Beto Lima, tem no elenco quatro actores e mais de cinquenta bonecos concebidos especialmente para o espectáculo, a partir de elementos naturais. Segundo o site oficial do grupo, “Bichos do Brasil”, actualmente em São Paulo, é um «espectáculo que busca a riqueza da fauna brasileira através de recursos plásticos». Pia Fraus estreou a produção desta peça em Maio de 2001 na cidade de São Paulo e, desde então, tem sido premiada várias vezes. Apostando em diversas áreas artísticas (teatro, dança, circo, teatro de bonecos e de máscaras), o grupo mantém ainda em repertório os espectáculos:“A Lenda do Guaraná”,“Flor de Obsessão” (que esteve em Portugal em 1999), “Farsa Quixotesca”, “Navegadores” e “Gigantes do Ar”. www.piafraus.com piafraus@piafraus.com.br

Gabriel Villela encena na Seiva Trupe
Seiva Trupe, companhia de teatro com mais trinta anos de carreira, levou a cena “Quarteto/Relações Perigosas”, de Heiner Müller, de 30 de Setembro a 17 de Outubro, no Teatro do Campo Alegre, na cidade do Porto. A peça foi encenada pelo brasileiro Gabriel Villela, que, em 2001, passou por Portugal com Galpão (companhia de teatro de Minas Gerais) para apresentar “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, espectáculo de rua em que assinava a concepção artística e a encenação. Em “Quarteto/Relações Perigosas”, Gabriel Villela responde pela cenografia, figurinos e a direcção geral da peça. Entretanto, está em cena no Teatro do Campo Alegre a mais recente produção da Seiva Trupe,“Variações Enigmáticas”, de Eric-Emmanuel Schimtt, com encenação de Júlio Cardoso. Os espectáculos da Seiva Trupe apresentam-se no Auditório do Teatro do Campo Alegre, de terça a sábado às 21h45, domingos às 16h00. www.seivatrupe.pt teatro@seivatrupe.pt

Ao registar trinta anos de percurso, o Bando ofereceu-nos uma bela prenda organizando em quatro dias de Outubro (15 a 18) umas “jornadas retrospectivas e de reflexão” que encheram de estudantes, críticos, professores de teatro e teatreiros vários as acolhedoras instalações da sua quinta em Palmela. Nesses quatro dias o Bando proporcionou a apresentação de seis dos seus espectáculos, Gente Feliz com Lágrimas (2002), Os Anjos (2002), Ensaio sobre a Cegueira (2004), Horas do Diabo (2004), Alma Grande (2003) e Amanhã (1990) que serviram de mote a outras tantas discussões sobre os textos, os processos de criação e a recepção de cada um deles. A estas discussões somou-se ainda um conjunto de debates temáticos:“O colectivo como opção política”,“dinâmica das relações com as populações”,“implantação na comunidade”, “a consciência do actor em cena”, “O Bando no contexto artístico português”, “O Bando no contexto teatral internacional”, “espaços cénicos e espaços sonoros”, “métodos e multiplicidade de linguagens (texto, dramaturgia e encenação, experimentação e cruzamentos disciplinares)”. Nestes debates participaram nomes como João Brites, Idalina Conde, Eugénia Vasques, Ana Pais, Nuno Porto, Hélia Correia, Maria Helena Serôdio, Clara Crabbé Rocha, António Pinto Ribeiro, George Banu, Amauri Tangará e Massimo Marino. A Cena Lusófona participou também com um depoimento sobre o trabalho do Bando no contexto da CPLP. Com este encontro o Bando pretende estabelecer uma forma própria de celebrar um aniversário tão significativo. Através de um olhar interno de revisão de métodos e de processos e de um convite ao olhar externo sobre os efeitos vários sociais, culturais e propriamente artísticos dos seus trabalhos, o Bando mostrou-se como é, um lugar único e imprescindível do nosso panorama cultural, um lugar da prática e da reflexão, um lugar (agora tão bem concretizado no espaço físico de Palmela) de aproximação e de encontro teatral.
www.obando.pt geral@obando.pt
Nuno Patinho

Cena Só estreia “O Sistema”
Cena Só, grupo de teatro sãotomense, estreou “O Sistema” no Festival Gravana que decorreu entre os dias 20 e 29 de Agosto, em São Tomé. A peça resulta de um trabalho colectivo, com encenação de Ayres Major, e aborda o submundo dos esquemas que atravessa a sociedade. Entretanto,“Pedro Andrade, a Tartaruga e o Gigante”, anterior produção do grupo, itinerou pelas povoações de S. João dos Angolares e Neves, na ilha de São Tomé. cenaso@hotmail.com

ordem social injusta». A cantora paulista Cida Moreira assina a banda sonora d”O Assalto”.

“Para Além do Tejo” pelo Teatro Meridional
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Os Fidalgos adaptam Abdulai Sila
Os Fidalgos, grupo de teatro guineense, estrearam “Mistida”, de Abdulai Sila, no dia 30 de Outubro, em Bissau. Com este trabalho, baseado em dois capítulos do romance do escritor guineense Abdulai Sila, publicado em 1997, Os Fidalgos, pela voz de Amélia da Silva, pretendem «mostrar que cada um tem a sua mistida, um assunto muito importante na vida para resolver, seja onde for». Nas palavras do autor, que escreveu ainda “Eterna Paixão” e “A Última Tragédia”, “Mistida” significa amor, demanda interior que nos impele à sua procura. A direcção artística do espectáculo está a cargo de Amélia da Silva, Jorge Biague e Musa Camará, com o apoio de Andrzej Kowalski. Paralelamente a esta estreia, Os Fidalgos preparam a remontagem do espectáculo “O Lutador”, uma co-produção do grupo com a Cena Lusófona estreada em 2002 e apresentada no ano passado em Coimbra no programa da Estação. amejo2002@yahoo.com

Além do Tejo”, espectáculo concebido para o Festival Percursos 2004 pelo Teatro Meridional, esteve no Teatro da Garagem, em Lisboa, entre os dias 28 de Outubro e 28 de Novembro. A criação deste projecto no âmbito do Percursos – Festival Europeu de Artes do Espectáculo para um Público Jovem – promovido pelo Centro de Pedagogia e Animação do Centro Cultural de Belém, assentou, segundo Miguel Seabra e Natália Luíza, responsáveis pelo espectáculo, «na procura de um trabalho de exploração de linguagem gestual, visando tornar expressivo um universo que identificasse o Alentejo». O percurso do “Para Além do Tejo” começou em Outubro de 2003 e estreou no dia 9 de Outubro deste ano, paralelamente à exposição fotográfica “Tempos e Modos na Planície Alentejana” e ao lançamento do livro “Diários de Um Percurso”.
www.teatromerional.net teatromeridional@teatromeridional.net
Teatro Meridional

Augusto Baptista

Luiz Paulo Vasconcellos encena “O Assalto”
Luiz Paulo Vasconcellos, actor e encenador gaúcho, dirigiu “O Assalto”, uma peça de José Vicente, apresentada entre 13 de Novembro e 5 de Dezembro, em Porto Alegre, no Brasil. “O Assalto”, peça de estreia do dramaturgo mineiro José Vicente, foi escrita na década de 70. Em entrevista a um jornal brasileiro, o autor refere que este texto teatral «é uma colocação existencial e política do problema da esquerda, que na época assaltava bancos para fazer a revolução». O encenador, Luiz Paulo Vasconcellos, dirigiu, entre outros, “A Ópera dos Três Vinténs” (Brecht), “Vestido de Noiva” (Nelson Rodrigues) e “Boneca Teresa” (Carlos Carvalho). Na sua opinião, apesar dos anos que se passaram, «os valores permanecem os mesmos, atuantes, significantes, instigantes. Afinal, apesar das mudanças, ainda vivemos uma

“O Túnel dos Ratos” no II Encontro de Teatro Ibérico
O Centro Dramático de Évora (CENDREV) estreou em Novembro, na abertura do II Encontro de Teatro Ibérico, “O Túnel dos Ratos”, uma peça do eborense Armando Nascimento Rosa. “O Túnel dos Ratos”, encenado por José Russo, assinala a conclusão de um ciclo dedicado às novas dramaturgias, no qual passaram nomes como Bernard Marie Koltés,António Lobo Antunes e António Rodriguez Almodôvar. O Encontro, organizado pelo CENDREV, decorreu em Évora entre os dias 25 e 28 de Novembro sob o tema “Da Escrita Dramática como Prática Cénica” e procurou promover o contacto entre agentes de criação teatral de Espanha e Portugal para que, no futuro, surjam mais intercâmbios, parcerias de criação e produção teatrais. A Espanha marcou presença com “Hamlet Garcia” do

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Teatro de Acción Candente e “El Hombre Probable” do Tatary Teatro. Na programação portuguesa, “Gestos Para Nada” com Dinarte Branco e Nicolau dos Mares; “Adélia Z.” do Teatro da Garagem; “Audição – Com Daisy ao Vivo no Odre Marítimo”, uma co-produção de O Espaço do Tempo e Propositário Azul. A encerrar o Encontro “A Verdadeira História da Bela Adormecida”, um texto de António Rodriguez, numa co-produção entre o CENDREV e La Fundición de Sevilha. www.evora.net/cendrev cendrev@mail.evora.net que este ano foi Clóvis Massa, professor de Teatro da Universidade Federal de Porto Alegre.

31.ª Edição da Jornada Internacional de Cinema da Bahia
A 31ª edição da Jornada Internacional de Cinema da Bahia concretizada este ano entre os dias 9 e 15 de Setembro, na Bahia, Brasil, decorreu sob o lema “Por um mundo mais humano”. Com mais de trinta anos de existência, o festival, dos primeiros no Brasil a mostrar as produções cinematográficas da África Lusófona, atribuiu nesta edição destaque a Angola, Guiné-Bissau e, sobretudo, a Moçambique, que este ano assinala os 40 anos do ínicio do processo de luta armada pela independência. A realizadora portuguesa Margarida Cardoso e o escritor José Eduardo Agualusa foram alguns dos convidados desta edição e integraram o júri para o apuramento do melhor filme da Jornada. “Nha Fala”, de Flora Gomes, e “O Mineiro”, do realizador moçambicano Gabriel Mondlane, foram dois dos filmes apresentados no certame dedicado ao cinema da África Lusófona. Portugal esteve representado por Rui Filipe Torres com “Pescadores de Tractor”, Margarida Cardoso com “Kuxa Kanema” e Catarina Alves Costa com “O Arquitecto e a Cidade Velha”. Nesta edição foram homenageados Amílcar Cabral, herói da luta pela independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, Ítalo Zappa, embaixador brasileiro, e Thomas Farkas, um dos principais produtores independentes do cinema brasileiro e um dos mais reconhecidos fotógrafos do Brasil. http://geocities.yahoo.com.br/jornadabahia/ jornada@ufba.com.br

criativos e o produto final, o conto, também na sua vertente de tradição oral, de recriação da palavra dos contadores e aprendizes do contar, enquanto expressão da memória, cultura e afectos populares. Em 2003, o Palavras Andarilhas envolveu cerca de 60 bibliotecas portuguesas e mais de 200 participantes. Este ano houve mais uma vez espaço dedicado a oficinas, com a exploração do universo dos contos e das actividades paralelas, e houve “Papa Contos”, sessões de narrativas para pais e filhos. No programa principal desta VI edição estiveram presentes, para além de contadores portugueses, Paula Carballeira de Espanha, Marina Colassanti do Brasil, Horácio Santos de Cabo Verde e Ana Padovani da Argentina. palavrasandarilhasbmbeja@hotmail.com

Festival Recife do Teatro Nacional
A sétima edição do Festival Recife do Teatro Nacional decorreu de 11 a 21 de Novembro deste ano, levando aos principais teatros da capital pernambucana (o histórico Teatro Santa Isabel, o Teatro do Parque, o Teatro Barreto Júnior, o Teatro Apolo, o Teatro Hermilo Borba Filho) alguns dos espectáculos que, desde o início do ano, mais se destacaram nos principais centros de produção teatral brasileira – Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco. O coordenador-geral do Festival, o encenador António Cadengue, também responsável pela acção cultural da prefeitura do Recife, convidou o dramaturgo Aimar Labaki para curador tendo este proposto o tema central. “Sob o tema Identidade e Contemporaneidade olhamos para espectáculos e plateias com o mesmo desejo de contribuir para um diálogo profícuo entre artistas e cidadãos. (…) Nada mais contemporâneo que assumir nossa identidade sem medo de mudar as fórmulas no diálogo ininterrupto com o tempo, seguros de que o essencial permanece inalterado: o compromisso com a qualidade e com o ofício teatral”, justifica Labaki ao propor a sua programação. Desta programação, que incluiu quinze espectáculos diferentes, destacamos “O Inspector Geral”, de Gogol, pelo Galpão; “A Procissão” e “Aldeotas”, de e por Gero Camilo; “Comédia do Fim”, de Beckett, dirigido por Luiz Marfouz para o Teatro Castro Alves; “Agreste”, de Newton Moreno, dirigido por Marco Aurélio para a Companhia Razões Inversas; “O que Morreu Mas Não Deitou”, projecto coordenado por Francisco Medeiros com jovens actores de São Paulo; “Guiomar, A Filha da Mãe”, de Lurdes Ramalho, pela actriz Augusta Ferraz; “Carta Aberta”, de Denis Guénon”, com o actor Lori Santos, dirigido por Fernando Kinas; “O que Diz Molero”, de Dinis Machado, dirigido por Aderbal Freire-Filho para o Centro de Demolição e Construção do Espectáculo. O Festival integrou ainda uma homenagem ao dramaturgo recifense Luis Marinho (1926-2002) – com leituras dramáticas e exercícios sobre as suas peças e a publicação de um livro -, projectou um ciclo de reflexões sobre o tema geral e organizou cursos, oficinas e encontros com artistas e produtores culturais estrangeiros onde a Cena Lusófona também participou. Para além de uma selecção cuidada de espectáculos, ligada por um desenho temático coerente, o Festival Recife fez passar pelas plateias (quase todas esgotadas) e pelos participantes um desejo de pensar o teatro consentâneo com o seu fruir. Neste sentido, a temática do actor-narrador, na constatação de uma nova épica que atravessa o teatro contemporâneo, foi glosa e fio condutor que atravessou os espectáculos, as palestras, as oficinas e as discussões várias que os prolongaram noite dentro por um público ávido e interessado. No último dia realizou-se uma avaliação pública do festival, no Teatro Apolo, onde, num notável exercício de cidadania, os responsáveis pelo desenho e pela organização do Festival, incluindo o Secretário Municipal de Cultura da Prefeitura, responderam às diferentes observações e críticas dos participantes. A sessão, como já é hábito do Festival, organiza-se a partir de um texto proposto por um avaliador convidado,

Quico Cadaval, em entrevista a um jornal galego, refere-se ao método de trabalho utilizado nesta adaptação do romance de Cunqueiro: reescrever a história de memória, voltar a ler a obra em galego «para procurar manter a mesma fraseologia, prosódia e ritmo», e, no fim, consultar a novela original. “O Ano do Cometa” é uma reflexão sobre o mundo dos sonhos e da realidade, com o protagonista no desempenho de um emprego inesperado: sonhador municipal. O livro, publicado em 1974 com o título original “El año del cometa com la batalla de los cuatro reyes”, é considerado o testamento literário de Cunqueiro. O espectáculo esteve em cena em Abril, no Centro Dramático Galego, fez digressão por Vigo, Orense e Pontevedra, entre outras cidades galegas.

Augusto Baptista

10.ª Edição do Mindelact
O Mindelact, Festival Internacional de Teatro do Mindelo, abriu mais uma vez as portas ao público entre os dias 4 e 19 de Setembro, no Mindelo, Cabo Verde. A 10ª edição do encontro, sob a direcção de João Branco, apostou numa forte presença brasileira: Grupo XIX de Teatro, Priscila Camargo, Companhia Livre de Teatro, entre outros. Em declarações ao site noticioso visãonews, o director do Festival esclarece esta escolha: «sempre que temos grupos brasileiros, há um frenesim no público mindelense que se identifica muito com os trabalhos apresentados». O primeiro dia do evento foi comemorado com o espectáculo “Bernard à Mindelo”, do belga Bernard Massuir. O teatro português esteve representado pelo grupo 3 Em Pipa com a peça “A Maior Flor do Mundo”, uma adaptação da obra de Saramago; a Companhia do Chapitô com “Talvez Camões” e “Serafim Ponte Grande” & “Confissão de Caboclo”, uma co-produção da companhia luso-brasileira Entretanto Teatro. Nas participações especiais, a Itália, com o espectáculo “12 de Setembro”, de Leo Bassi, e “New Orleans Society”, dos franceses TC Spectacles. Na celebração dos dez anos do Mindelact estiveram presentes vários grupos cabo-verdianos como o Grupo Juventude em Marcha, de Santo Antão, que encerrou o Festival com a peça “Coruja”, de Jorge Martins. www.mindelact.com mindelact@hotmail.com

Lançamento da revista Sinais de Cena

“Nação Teatro – História do Teatro em Cabo Verde”
“Nação Teatro, História do Teatro em Cabo Verde”, obra da autoria de João Branco, editada pelo Instituto Nacional da Biblioteca e do Livro de Portugal, foi lançada no dia 13 de Julho, no Mindelo, Cabo Verde. O livro dá a conhecer, em cinco actos, o percurso histórico do teatro caboverdiano. O prefácio de “Nação Teatro, História do Teatro em Cabo Verde” é assinado por Francisco Fragoso, ex-director e fundador do grupo Korda Kaoberdi, figura importante da história do teatro em Cabo Verde. João Branco fundou em 1993 o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, de que é encenador e director artístico. É ainda responsável pela fundação da Associação Mindelact, a qual realiza anualmente o Festival Internacional de Teatro do Mindelo (Mindelact).

VI Palavras Andarilhas em Beja
A VI edição do Palavras Andarilhas – Encontro de Aprendizes do Contar realizou-se este ano nos dias 23, 24 e 25 de Setembro, em Beja. O evento, nascido em 1999 e com periodicidade anual, é organizado pela Biblioteca Municipal de Beja e pela Associação de Defesa do Património Cultural desta cidade. Os objectivos do encontro são, entre outros, a promoção do relacionamento dos que trabalham com as palavras e com os livros, cruzamento de saberes que valoriza os dois pólos

Quico Cadaval adapta Álvaro Cunqueiro
O encenador, actor e contador de histórias galego Quico Cadaval adaptou, para o Centro Dramático Galego, em Santiago de Compostela, “O Ano do Cometa”, de Álvaro Cunqueiro.

O primeiro número da Sinais de Cena, revista para o estudo e crítica do teatro em Portugal, foi lançado no dia 14 de Outubro, no Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. A revista pertence à Associação Portuguesa de Críticos de Teatro (APCT), conta com a colaboração do Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa (CET) e é editada pela Campo das Letras. Na sessão de apresentação da Sinais de Cena, Georges Banu, teatrólogo e professor da Sorbonne, também colaborador da revista, protagonizou uma breve conferência sob o tema “L’acteur: entre l’âge et l’image”. No índice da publicação, Maria Helena Serôdio, professora da Faculdade de Letras de Lisboa na área de teatrologia e directora da revista, frisa que esta surgiu porque «se julgou vital criar um espaço de documentação, debate, análise e avaliação do que no campo do teatro – e

Artigos Escolares e de Escritório, Lda.

mariofidalgo@iol.pt

FIDALGO'S
Rua do Senhor da Serra, 111 - Vendas de Ceira - 3030-908 Ceira COIMBRA Tel. (239) 923 426 Fax (239) 923 737 Telem. 963 040 926
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de outras artes performativas – se vem praticando nas suas múltiplas vertentes criativas, tanto em Portugal, como no resto do mundo». Periodicidade bi-anual, a revista integra dez rubricas fixas e tem um preço de capa de 12 euros.
www.apcteatro.org

Teatro e Literatura de Língua Portuguesa nas Edições Cotovia
Até ao final do ano as Edições Cotovia reservam-nos, em matéria teatral, o segundo volume das obras completas de Brecht (com “A Vida de Eduardo II”, “A Ópera dos Três Vinténs”, “Um Homem é um Homem”, “A Cria do Elefante” e “Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny”) e ainda “Figurantes”, a última obra de Jacinto Lucas Pires, encomendada e encenada por Ricardo Pais, com estreia recente no Teatro Nacional de S. João, no Porto. Em preparação para o próximo ano estão duas obras de Ruy Duarte de Carvalho, que é já um dos autores emblemáticos da editora, depois de aí ter publicado “Vou Lá Visitar Pastores”, “Como Se o Mundo Não Tivesse Leste”, “Observação Directa”, “Actas de Maianga” e “Os Papéis do Inglês”. As duas novas edições de Ruy Duarte deverão surgir em Março:“Poesia Reunida”, que resgatará um conjunto de obras já esgotadas ou nunca publicadas em Portugal, e “O Branco da Namíbia” que segue uma pista deixada em “Os Papéis do Inglês”, a última obra de ficção do autor. A atenção muito especial que a Cotovia tem dedicado ao Brasil terá continuidade no próximo ano através da edição de um “Curso Breve de Literatura Brasileira”, um projecto de grande expressão, em dezasseis volumes, coordenado por Abel Barros Baptista. O projecto contempla as áreas da poesia, ficção e teatro, cada volume dedicado a um autor, com ensaios introdutórios assinados por diversos especialistas. Recorde-se que o livro de contos “O Voo da Madrugada”, de Sérgio Sant’anna, também editado pela Cotovia, foi uma das três obras galardoadas recentemente no Brasil pelo Prémio Portugal Telecom da Literatura, talvez o principal prémio literário da actualidade brasileira. Bernardo de Carvalho, com “Mongólia”, outro autor da mesma chancela editorial, foi o autor premiado no ano passado.

Cenaberta digital
O cenaberta entrou no mundo digital com o número dois da edição em papel. Duas versões de um mesmo jornal que se complementam e encontram sinergias frutuosas: na memória do papel ficam notícias acabadas que se desenvolvem na edição online. Na versão Internet o cenaberta tem uma outra regularidade que vai além das quatro edições anuais do papel. Com uma actualização e newsletter mensal, cenaberta digital acolhe notícias que requerem uma publicação mais imediata e abre para temas e assuntos que encontram no online espaço privilegiado de explanação. O cenaberta online conta já com cerca de 100 utilizadores registados que recebem regularmente a newsletter com as últimas notícias de teatro e cultura do espaço lusófono. Com cerca de 10 mil visitas desde o lançamento, a edição online alarga o leque de leitores do jornal da Cena Lusófona e potencia as iniciativas teatrais promovidas no espaço lusófono. O cenaberta online estimula ainda uma intervenção directa de colaboradores e agentes teatrais e culturais de todo o espaço CPLP. www.cenalusofona.pt/cenaberta

Timor visto por Pedro Rosa Mendes e Alain Corbel
“Madre Cacau”, o novo livro do jornalista e escritor Pedro Rosa Mendes e do ilustrador Alain Corbel, acerca de Timor, foi lançado no dia 2 de Dezembro, na Culturgest, em Lisboa. Depois de nos transportarem numa magnífica viagem pela África Lusófona em “Ilhas de Fogo”, Pedro Rosa Mendes e Alain Corbel voltam a trabalhar em conjunto transmitindo-nos um mundo de descobertas “em que o olhar jornalístico se combina com a linguagem da banda desenhada para oferecer ao leitor um percurso que é ao mesmo tempo rigoroso e onírico”. “Madre Cacau” apresenta-nos rostos e histórias de Timor na actualidade, país em reconstrução que ressurge depois de um passado de guerra. Paralelamente ao jornalismo, Pedro Rosa Mendes tem escrito acerca de África, sendo autor de “Baía dos Tigres”, “Ilhas de Fogo” e “Atlântico-Romance Fotográfico”. Alain Corbel ilustrou, entre outros, “Contos da Terra do Dragão”, de Wang Suoyng e Ana Cristina Alves, “Contos de Macau”, de Alice Vieira, e “A Cor Instável” de Paulo Cotrim.

de dramaturgos franceses e internacionais, procurando “devolver o estatuto literário à escrita teatral”. A obra de Abel Neves, traduzida por Alexandra Moreira da Silva, vai ter como título “Au-delà les Étoiles Sont Notre Maison” e integrará a colecção Répertoire Contemporain. Abel Neves integra o conjunto de dramaturgos lusófonos editados na colecção de teatro Cena Lusófona com "Supernova". Esta obra estruturou a coprodução com o mesmo nome estreada a 25 de Abril de 2000 no Teatro Vila Velha, em Salvador, Bahia, Brasil.
www.editionstheatrales.fr
Augusto Baptista

Abel Neves publicado em França

Éditions Théâtrales, prestigiada editora francesa, lançou em Novembro a versão francesa de “Além as Estrelas São a Nossa Casa”, do dramaturgo português Abel Neves. Esta editora centra-se no universo teatral e aposta na qualidade

As Virgens Loucas
de António Aurélio Gonçalves, Cabo Verde, adaptação teatral de Cândido Ferreira (2001) – 10,50 euros

Teatro do Imaginário Angolar
de Fernando de Macedo, São Tomé e Príncipe (2000) Inclui as peças Capitango e Cloçon Son – 10,50 euros

Supernova
de Abel Neves, Portugal (2000) – 10,50 euros

Almedina Coimbra Hotel

As Mortes de Lucas Mateus
de Leite de Vasconcelos, Moçambique (1999) – 9,45 euros

Teatro I e II
obra dramatúrgica de José Mena Abrantes, em dois volumes, Angola (1998) – 10,50 euros (cada volume)

Mar me quer
de Mia Couto e Natália Luiza, Portugal / Moçambique (2002) – 10,50 euros.

Floripes Negra
Floripes na Ilha do Príncipe, em Portugal e no mundo (2002) de Augusto Baptista, Álbum Fotográfico/Reportagem/Ensaio – 26,25 euros

Revista Setepalcos
(esgotadas números 0, 1 e 2) N.º 3 – 10,50 euros N.º 4 – Setepalcos especial sobre Teatro Galego15,75 euros

o seu hotel no coração de Coimbra

TEATRO Naum Alves de Sousa a editar
a obra completa do dramaturgo brasileiro
Cena Lusófona Rua Afonso José de Almeida, nº 2 3000-040 COIMBRA, Portugal Tel.: (+351) 239 836 679 Fax: (+351) 239 836 476

edições.cena
cenaberta 10

Almedina Coimbra Hotel — Av. Fernão de Magalhães n.º 199, 3000-176 COIMBRA telf. 239 855 500 fax. 239 829 906 www.hotel-almedina.pt geral@residencial-almedina.pt

Questão social em congresso
A oitava edição do Congresso Luso-Afro-Brasileiro regressou este ano a Coimbra, cidade que acolheu pela primeira vez o encontro em 1990. Mais de mil e quinhentos participantes oriundos dos vários países da CPLP encontraram-se para debater “A Questão Social no Novo Milénio”. Organizado pelo Centro de Estudos Sociais e pela Universidade de Coimbra, o Congresso decorreu nos dias 16, 17 e 18 de Setembro.
Durante três dias, mais de mil e quinhentos cientistas da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa abraçaram uma língua comum e fizeram falar mais alto os problemas e as possíveis soluções para várias preocupações com que a sociedade contemporânea se depara. Estes debates foram realizados ao longo de mais de setenta sessões temáticas, painéis e grupos de discussão. A sessão de abertura do Congresso, no Teatro Académico de Gil Vicente, na manhã do dia 16, foi presidida por Boaventura de Sousa Santos, director do Centro de Estudos Sociais(CES), Carlos Encarnação, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, António Augusto Barros, director da Cena Lusófona, Carlos Fortuna, presidente do Conselho Científico da Faculdade de Economia, Luis Manuel Fernandes, Vice-Ministro da Ciência e Tecnologia do Brasil, Celeste Amaro, Delegada Regional da Cultura, Fernando Seabra Santos, Reitor da Universidade de Coimbra e Elísio Estanque, Presidente da Comissão Organizadora do Congresso. Boaventura de Sousa Santos alertou para a necessidade da sensibilização das classes políticas que não «têm estado atentas para a importância científica e cultural deste espaço». Sublinhou ainda o interesse e a importância da intensificação desta rede das ciências sociais na CPLP, para que surjam mais programas de pós-graduação, mais investigação e mais articulação entre as instituições científicas. Luís Manuel Fernandes demonstrou que este congresso «antecipa o movimento que está hoje no coração da própria política externa brasileira, que é o encontro da pátria com o mundo da lusofonia».Acrescentou ainda que existe uma necessidade premente de ampliar os laços e o intercâmbio internacional da pátria lusófona. António Augusto Barros assinalou a oportunidade de se poder analisar uma experiência de terreno como a Cena Lusófona, «numa área que nem sempre conhece a honra de ser objecto de análise». A Cena Lusófona integrou o programa desta edição, não só com uma participação cultural, mas também com um painel de discussão intitulado “A Cena Lusófona e o intercâmbio

cultural no espaço da CPLP”. No programa cultural, o Congresso apresentou o concerto “Venham mais Cinco”, uma homenagem à Revolução Portuguesa de Abril com a presença de vários músicos de intervenção como Manuel Freire, João Lóio e Francisco Fanhais, entre outros.

No segundo dia desta edição, decorreu no Palácio de S. Marcos um jantar para todos os congressistas, acompanhado por uma sessão de Contadores de Histórias. Esta sessão, organizada pela Cena, contou com a presença do sãotomense Ângelo Torres, do baiano Antônio Vieira e do galego Cándido Pazó.

Augusto Baptista

A Cena e o intercâmbio cultural na CPLP *
A Cena Lusófona e o intercâmbio cultural no espaço da CPLP foi o tema escolhido para centrar o debate do Grupo de Discussão sobre cultura e teatro no espaço lusófono e a experiência da Cena, no âmbito do VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. A sessão, nas instalações da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (UC), sala Keynes, na tarde de 17 de Setembro 2004, foi moderada por André Brito Correia (Centro de Estudos Sociais da UC) e integrou, como interventores: António Augusto Barros (Cena Lusófona), José António Bandeirinha (Arquitecto, UC), Manuel Pais de Sousa (Documentalista, UC), Nuno Porto (Antropólogo, UC), Pedro Rodrigues (A Escola da Noite). A comunicação de António Augusto Barros correspondeu a um olhar abrangente sobre as várias frentes de trabalho da Cena Lusófona, as cumplicidades construídas a nível dos Oito em quase uma década de intercâmbio teatral, um caso com «carácter de exemplaridade que pode ser aproveitado como material de reflexão sobre o papel da troca cultural na CPLP». A contrario do conceito de «exportação cultural e da internacionalização da cultura portuguesa», situou o intercâmbio no âmbito da Cena como meio de «alterar as condições concretas em que os agentes desenvolvem o seu trabalho, quebrando isolamentos quase intransponíveis em alguns países africanos». Neste quadro, sublinhou o papel dos Centros de Intercâmbio Teatral — CITs —, estruturas em implantação no espaço lusófono, vocacionadas para acções em rede, «para a melhoria de condições de trabalho e ensaio, para dar voz e autonomia às pretensões dos agentes locais». Manuel Pais de Sousa enquadrou a acção da Cena nas áreas da Documentação e da Informação e do trabalho do Centro de Documentação e Informação, CDI, já com um acervo significativo (monografias, revistas, video, DVDs, fotografias), parcialmente disponível na internet em http://www.cenalusofona.pt José António Bandeirinha destacou a experiência do levantamento dos espaços cénicos nos Países Africanos de Língua Portuguesa, tarefa em curso, e que — à luz das especificidades africanas — seria importante estender, para além dos edifícios, também a terreiros, praças, sítios em que normalmente acontece teatro ao ar livre. Pedro Rodrigues fez o desenho sintético do último Estágio Internacional de Actores, o terceiro, em Dezembro de 2003, numa acção conjunta da Cena Lusófona e da companhia teatral A Escola da Noite, com o apoio financeiro da Coimbra 2003 - Capital da Cultura. Intervenção derradeira, Nuno Porto assinalou «as articulações que se têm tentado fazer no trabalho da Cena e algum trabalho de investigação, sobretudo no campo da antropologia». Após uma espécie de inventário, na ordem do dia disse estar o projecto dos Narradores Orais, que coordena, e a decisão de o núcleo dos estudantes de Antropologia da UC constituir uma equipa já encarregada de reunir materiais publicados sobre as questões performativas na CPLP. André Brito Correia encerrou os trabalhos. Confiou que a experiência da Cena Lusófona «com o seu esforço notável e toda a riqueza que aqui nos apresentou, revelará que, de facto, há muitas Línguas numa só, há muitos teatros num só».
*Notícia desenvolvida: www.cenalusofona.pt/cenaberta

Grupo de Trabalho: António Augusto Barros (a apresentar comunicação), José António Bandeirinha, André Brito Correia, Nuno Porto, Manuel Pais de Sousa, Pedro Rodrigues
Augusto Baptista

cenaberta 11

Festival Gravana anima São Tomé e Príncipe
António José Silva

Agosto em São Tomé e Príncipe foi mês de mais um Festival Gravana. Durante 10 dias, de 20 a 29, teatro, música, artes performativas fizeram da capital do arquipélago um espaço em festa, os ritmos, a cor, a dança, no adeus à época seca.
Gravana é termo usado em São Tomé e Príncipe para referir a estação seca. E é também nome de festival, este ano na terceira edição, com a cultura santomense a cruzar outras culturas, vindas de diferentes paragens, e a dar um especial colorido à cidade capital. No primeiro dia do Festival, grupos de Danço Congo, Tchiloli e outras artes performativas animaram o Estádio Nacional 12 de Julho, aqueceram o final de tarde já de si escaldante. Nem a poeira, nem as duas horas de espera até a abertura oficial do evento, com os habituais discursos políticos, levaram a plateia a procurar outros destinos. À noite subiu ao palco, no Arquivo Histórico, “O julgamento de dona Anofélis” peça do grupo santomense Os Parodiantes da Ilha, sobre a problemática do paludismo, tratada de forma pedagógica. A programação teatral continuou com duas apresentações de “A História do Tigre”: monólogo de Dário Fo levado à cena por Filipe Crawford. O actor português, presente no certame a convite da Cena Lusófona, dirigiu ainda uma Oficina de Actores sobre

Abertura oficial do Festival Gravana: Estádio Nacional 12 de Julho

Commedia dell’Arte. Esta Oficina, sobre a técnica da máscara, foi a primeira iniciativa oficial do Centro de Intercâmbio Teatral de São Tomé (ver caixa). Paula Só, d' O Bando, por seu turno apresentou o monólogo “Ti Miséria”, retrato de uma velhota que, por não querer morrer, aprisiona a Morte no cimo da nogueira do seu quintal. A senhora, vendedora de bolinhos de nozes, não previu que essa acção redundasse numa romaria à sua porta, gente a pedir liberdade para a guardiã do descanso eterno. Inserido no Festival Gravana o arquiAntónio José Silva

tecto José António Bandeirinha proferiu uma conferência subordinada ao tema “A Evolução dos espaços cénicos: da Antiguidade Clássica à contemporaneidade”. O evento, que contou com o apoio da Cena Lusófona e do CIT São Tomé, decorreu no Arquivo Histórico, no dia 26 de Agosto. Por toda a cidade capital, fora dos espaços formais, em palcos improvisados, os transeuntes eram surpreendidos por Tchiloli, Danço Congo, música, danças. Tentados, encalhavam. A ver: sentados no chão, de pé... O último espectáculo de teatro do

Festival resultou de uma criação colectiva do gupo “Cena Só” que, com “O Sistema”, apresentou uma crítica mordaz à corrupção, burocracia, compadrios. De 25 a 29 de Agosto, o Gravana instalou-se no Estádio Nacional 12 de Julho. Espectáculos centrados nos grupos musicais santomenses, todos amadores, palco no relvado, o público assistiu ao desfilar de uma panóplia de sons e de ritmos, quebrados no último dia pela chuva. A chuva a declarar o fim da Gravana, duplamente: o Festival e a época seca.

António José Silva

CIT São Tomé
Durante o Festival Gravana, no dia 25 de Agosto, o CIT São Tomé foi inaugurado oficialmente. Presentes estiveram Álvaro Santiago, Ministro da Educação e Cultura de São Tomé e Príncipe, Nazaré Ceita, Directora-Geral de Cultura, Ayres Major, responsável local do CIT e director artístico do grupo Cena Só, o Presidente da Assembleia Geral da Cena Lusófona, José António Bandeirinha, e individualidades locais e agentes teatrais santomenses e portugueses. A primeira iniciativa do CIT foi uma oficina de formação sobre a Técnica da Máscara, orientada por

Oficina de Formação com Filipe Crawford

Filipe Crawford. O programa da formação incidiu na iniciação à Técnica da Máscara com algum trabalho prático com máscaras neutras e máscaras de Commedia dell’Arte. A Oficina, dividida em três momentos diferentes, centrou-se: nos aspectos dedicados à assimilação de regras básicas; na abordagem às máscaras de Commedia dell’Arte; na revisão do trabalho, com o objectivo de apurar o grau de aproveitamento dos participantes. A Oficina foi frequentada por 14 formandos, na maioria actores do Cena Só e do Grupo de Teatro Estudantil da Alliance Française de São Tomé.

Bom apetite…
Estrada da Beira, n.º 389 - 3030-173 COIMBRA reservas Tel. (239) 701460 / Telem. 967 857 937
encerramos ao Domingo. Destaques: Filetes de Polvo | Bacalhau com natas | Secreto de Porco Preto com Castanhas | Posta Mirandeza

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