UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS DEPARTAMENTO DE DIREITO NAYARA ALINE SCHMITT AZEVEDO

FICHA-RESUMO SÍNTESE DE UMA HISTÓRIA DAS IDÉIAS JURÍDICAS: DA ANTIGÜIDADE CLÁSSICA À MODERNIDADE

Florianópolis, 29 de junho de 2009.

Ficha-resumo WOLKMER, Antonio Carlos. Síntese de uma História das Idéias Jurídicas: da Antigüidade Clássica à Modernidade. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2006. A obra Síntese de uma História das Idéias Jurídicas: da Antigüidade Clássica à Modernidade, de Antonio Carlos Wolkmer, aborda de maneira sucinta a produção jurídica do Ocidente, destacando as idéias dos pensadores mais relevantes de cada momento histórico a respeito de temas recorrentes como liberdade, igualdade e justiça. O livro adota uma organização cronológica bastante didática e, ao tratar de um novo período, traz também o contexto sociopolítico da época e as concepções ou µverdades¶ então vigentes, demonstrando assim a estreita ligação entre as idéias jurídicas e o modo de vida segundo o qual cada autor viveu. O capítulo I, intitulado ³As Origens do Pensamento Jurídico na Antigüidade Clássica´ trata inicialmente dos gregos, fundadores da filosofia ocidental e de suas idéias acerca de direito e justiça, destacando o trabalho de grandes filósofos. Em seguida, aborda o pensamento de Cícero, já no contexto da Roma Antiga. Não há uma definição do pensamento jurídico grego antes do século II a.C. e mesmo depois, os gregos não conceberam ³[...] uma reflexão jusfilosófica mais acabada.´ (p. 14) Ao contrário dos romanos - que se preocupavam mais com questões de ordem prática ± os gregos preferiam as discussões sobre os ³[...] fundamentos da idéia de justiça como universalidade.´ (p. 14) Porém essa visão não elimina a origem divina da justiça, presente em escritos dos tempos homéricos. Em relação ainda ao Direito justo, é preciso destacar a peça Antígona de Sófocles, que trata do conflito entre a lei dos deuses ou direito familiar e a lei dos homens ou do Estado. Ao contar a história da heroína, que decide enterrar o irmão, mesmo contra a vontade do rei e por isso é condenada à morte, Sófocles defende um Direito natural e ³[...] problematiza o eterno dilema do ser humano que luta contra a injustiça pela defesa de um Direito à liberdade de consciência e ao respeito à dignidade humana.´ (p. 17 -18) Os sofistas foram os primeiros a romper com a concepção do naturalismo cósmico no século V a. C. Para eles, a lei não era natural, mas sim a expressão da vontade de quem governava, ou seja, uma convenção humana. Também Sócrates, Platão e Aristóteles se preocuparam com o homem.

deve-se obediência a ela. portanto. os estóicos requerem ³uma lei natural universal e suprema. 22) Aristóteles acreditava que o homem era um ser político por natureza e como tal deveria viver integrado aos outros homens na cidade. Aristóteles dá ³uma definição do fim da atividade jurídica. de uma concepção formalista. . ele ignorou mulheres. mesmo que ela seja esteja errada. Aristóteles tratou da justiça política. pois é o cumprimento da função que cada pessoa tem na sociedade. Cabe destacar que ao vincular o princípio da justiça aos homens iguais. Aristóteles traz os conceitos de justiça total ± a lei deve ser obedecida para o bem de todos ± e de justiça particular ± relação entre as partes. que se torna obrigatório através do legislador. Trata-se.. de modo proporcional. entre os membros de uma comunidade ± e justiça corretiva ± como o nome diz. não a situa como obrigatoriedade de dimensão meramente religiosa. que não depende da vontade dos homens. ele trabalha a questão da justiça e.. a verdadeira justiça se expressa tanto no âmbito individual quanto no coletivo. 22) Em suas outras obras ± O Político e As Leis ± Platão discorre. útil à convivência humana. um Estado ideal que iria promovê-la. 20) Segundo ele. escravos e outros. mas é imanente a cada comunidade e o justo legal político. Platão. 28) enquanto Epicuro acredita que justiça é um conceito relativo. tem-se uma concepção formal da justiça.]. Essa concepção aparece tanto em sua ética quanto em sua filosofia político-jurídica. dividida entre o justo natural político. respectivamente. A seguir. admitindo ³o valor educativo da lei enquanto instrumento ético. trata da correção. cuja ³incidência se situa na esfera moral societária [.´ (VILLEY apud WOLKMER. É a porta da doutrina do Direito. Os primeiros podem ser caracterizados por negarem o Estado. estóica e epicuréia. Ele também diferencia justiça distributiva ± distribuição de bens.Sócrates acreditava que uma lei é sempre justa e que. que seria a intermediação entre dois extremos. Embora ³Platão designe esporadicamente a justiça como algo divino. podem ser verificadas três correntes de pensamento grego: cínica. a respeito da utilidade do Direito e da função da legislação para uma cidade.. ao afirmar que existem diferentes tipos de comportamento humano.]´ (p. 24) Inicialmente.. foi o primeiro a pensar racionalmente sobre a justiça ao descrever. classificando-os em nãonaturais e recomendáveis.´ (p. 2006. p. emanada da razão [.´ (p. na obra A República. Após a morte de Aristóteles.´ (p. discípulo de Sócrates. Por fim. No livro V de Ética a Nicômaco. por esse motivo.

2006. O capítulo II estuda o pensamento jurídico da Idade Média. por isso. lei humana e obediência: ³[. 42) O cristianismo. imutável.] a concepção cristã de governo e de autoridade legal se baseia numa filosofia do Direito divino. competindo ao povo escolhido a obediência e a subordinação às autoridades em exercício. 35) e especifica a organização e administração judiciária romana. .. numa perspectiva estóica.. Sua obra De Republica era sobre a melhor ordem política enquanto De Legibus tratava dos aspectos jurídicos de tal regime. preexistente. respectivamente. Esse período histórico é marcado inicialmente pelo fim do Império Romano do Ocidente em 476 d.]´ (CÍCERO apud WOLKMER. defende uma razão reta. Essa concepção rompia com a visão romana da dedicação total ao Estado. para a preservação dos Estados e a tranqüilidade e felicidade da vida humana [. As doutrinas da Igreja Romana dominaram tanto a filosofia quanto a política e produziram um pensamento jusfilósofico próprio: espiritual e ortodoxo. O pensamento cristão contribuiu especialmente para a evolução dos direitos humanos porque tratava da dignidade da pessoa humana e da fraternidade universal. Os romanos eram mais práticos do que os gregos e. diferente da concepção cósmica dos gregos e romanos. Ele também afirma que os homens nasceram para a justiça e que o direito se baseia na natureza. a qual não é externa ao homem. por exemplo. a razão. Cícero. portanto. pela sociedade feudal e pela consolidação do cristianismo. o qual tinha grande habilidade em adaptar os temas ético-filosóficos discutidos pelos gregos à cultura romana. em que o poder constituído provém de Deus. A Igreja não era um mero acessório estatal. distinguia questões espirituais de temporais e o cristão tinha o duplo dever de obedecer a Deus e ao homem. p. autoridade. que dá legitimidade aos governantes.. Mas a herança da antiguidade não foi abandonada. Além disso. porque os autores clássicos influenciaram. mas sim sua própria essência. Pode-se dizer que o primeiro grande filósofo do Direito foi romano: Cícero. as obras de Santo Agostinho (Patrística) e de Santo Tomás de Aquino (Escolástica). válida para todos os homens em todas as comunidades ao longo dos tempos.. C. tinham grande interesse no Direito. ³inventadas para segurança dos cidadãos.´ (p..A parte final do primeiro capítulo é dedicada a Roma. ou seja. o Novo Testamento trazia certas idéias sobre governo. Nos Livros II e III. no Livro I de Das Leis. Cícero reconhece as leis dos homens.

que estruturou sua doutrina teológica. em que se manifesta: ³[.´ (JUSTINIANO apud WOLKMER. dentre as quais evidenciamos o Digesto.] advém das leis. o que gerou conflitos entre Imperadores e Papas.Padres Apologistas ± e teve como principal representante Santo Agostinho. 49 . corporificada pela Igreja.Além disso. o início da vida a partir da concepção e afi mando que o r senhor não deve maltratar demasiadamente seus servos. principalmente Ulpiano. que pretendia simplificar e uniformizar a legislação. no Baixo Império (235 ± 476 d.C. p. senatus-consultos.´ (p..] o dualismo maniqueísta da cidade celestial que. Os dez primeiros livros da primeira parte do Digesto tratam da ³questão da condição humana perante o Direito natural. cabe comentar o direito produzido na fase de decadência do Império Romano. reconhece determinados princípios de proteção ao ser humano. a justiça. plebiscitos. decretos dos príncipes e da autoridade dos prudentes. por exemplo. O direito dos homens é o Direito das gentes. A primeira é conhecida como Patrística em referência aos pais da Igreja . com o qual se iniciou a escravidão e ³[. na filosofia de Platão e nos ensinamentos de São Paulo. 43). Nesse período. Já na Idade Média. ³não lesar outrem´ e ³dar a cada um o seu´. ou seja. mas discriminador e conservador´ (p. o Direito natural é próprio dos animais e não dos homens. 2006. admitindo. a Igreja defendia a ³supremacia do poder espiritual e da autoridade eclesiástica sobre a laica´ (p. se . em questões como a regulação da escrav idão e a tutela da mulher pelo homem um ³direito positivo eficiente. porém. Papiniano e Gaio. A obra foi dividida em quatro partes principais.. Por outro lado. é preciso destacar o Corpus Juris Civilis de Justiniano (527 ± 565). ou seja. é muito forte a presença do cristianismo e.. podem ser identificadas duas fases: a Patrística (século II ao século VI) e a Escolástica (século XI ao século XIV). as leis positivas e as garantias jurídicas [.. Antes... O Digesto revela. Paulo.]. 50). 49) Segundo o Digesto. baseada na fé.). A legislação produzida pelos imperadores era a principal fonte de direito. como mencionado anteriormente. o Direito romano passa por crises e perde sua posição dominante. O Digesto era a síntese do pensamento dos jurisconsultos clássicos. de tratar do pensamento jusfilosófico da Idade Média. uma reunião dos códigos dos imperadores e do trabalho dos jurisconsultos clássicos.50) No Digesto aparecem também os conhecidos preceitos da cultura jurídica romana: ³viver honestamente´. Nesse sentido. Suas obras principais são Confissões e Cidade de Deus. a obediência a Deus deveria prevalecer sobre a obediência ao homem.

Em sua obra O Defensor da Paz ele separa radicalmente a lei humana da lei divina. a ³questão das investiduras´. eterna. a lei natural ± manifestação da lei eterna nos homens ±. com o processo de secularização da política mais acentuado. ocorre o Cisma do Oriente. corrente filosófica e teológica que objetivava ³demonstrar. ele trata da essência das leis e suas características. rompendo com a cultura então vigente. cuja concepção engloba agora também o crer em Deus. Santo Tomás de Aquino afirma que a justiça legal não é igual à justiça geral. Entre os séculos XI e XV.ocupará dos interesses espirituais e reinará soberana sobre seus inimigos e da cidade civil identificada com o Estado temporal que se encarregará das coisas materiais´ (p. Após a morte de Santo Tomás. afirmando que a lei deve ser fundamentada na razão e não na vontade. só se manifesta na esfera do cristianismo. a obra agostiniana fornece as bases de uma doutrina inicial de Estado. acreditava que o homem deveria se basear na razão. Sua obra Suma Teológica está dividida em Tratado das Leis e Tratado da Justiça. por um raciocínio lógico formal.. que criticou severamente a Igreja e os papas. p. 64) Na segunda parte. no período conhecido por Baixa Idade Média. destinada a sanar as imperfeições das leis dos homens. 65) Distingue ainda a justiça comutativa (entre duas pessoas) da distributiva (entre a comunidade e seus membros).´ (p. Nesse contexto. ou seja. surgem pensadores como Marsílio de Pádua. 59). cuja manifestação na consciência humana é a lei natural..] procura materializar. cujo grande representante foi Santo Tomás de Aquino. a autenticidade dos dogmas cristãos´ (POKROVSKY apud WOLKMER. organizada pela sociedade e baseada nos costumes ± e a lei divina ou religião ± ³revelação proveniente das Sagradas Escrituras. base para a lei positiva. o crescente fortalecimento das monarquias nacionais e da secularização na política. as cruzadas. o sistema feudal entra em crise. Para Santo Agostinho. . submetido à Igreja e apresenta uma teoria em que o cristianismo e as concepções clássicas de lei se harmonizam. Na primeira parte. a justiça que advém da razão divina e da razão natural. leis injustas não são leis e a justiça. superior às demais leis ±. a lei fundamental é a lei divina. 54 -55) Assim. Santo Tomás retomou o pensamento de Aristóteles. surge a Escolástica. na comunidade. Ainda segundo ele. o direito ³[.´ (p. 2006. a expansão comercial. a lei humana ± derivada da lei natural. mas tenta aproximar-se dela. entre os séculos XIV e XV. Faz ainda uma distinção entre a lei eterna ± ³razão suprema existente em Deus´.

2006. o julgamento deve ser baseado na lei e não no arbítrio. no qual ³predominou a reprodução de uma cultura jusfilosófica e de um aparato jurídico corporativo [fragmentado]. mesmo depois da independência das colônias. . Por suas idéias. 75) No terceiro capítulo. Marsílio de Pádua é considerado precursor do positivismo jurídico. (p. que.. 2006.. surgiu a necessidade da implantação de um sistema jurídico eficaz que regulamentasse e garantisse a transferência das riquezas para as metrópoles na Europa. 77) O autor destaca ainda na introdução que.]. um preceito estatuído para ser observado.. Ao final do capítulo. a lei deriva do próprio corpo de cidadãos e tem por objetivo primeiro o bem comum.] um enunciado ou princípio que procede duma certa prudência e da inteligência política [.´ (PÁDUA apud WOLKMER. foi adotada a legislação já existente. p. diante do genocídio dos índios e das denúncias feitas por religiosos. que pretendia atender e harmonizar três fatores: ³os interesses econômicos e políticos da coroa. Inicialmente. proclama ³[. intitulado ³Esboço da Tradição Jurídica na América LusoHispânica´. patrimonialista [sem distinção de limites entre o público e o privado] e repressivo´.. Porém. a política de lucro e riqueza dos conquistadores e µa evangelização e bom trato aos índios¶. o qual se deve respeitar.. Com a ³descoberta´ da América e posterior demarcação das colônias. p.afirmando que a lei é: ³[.] limitações às atribuições do Pontífice romano no plano espiritual.] sustentado no empirismo nominalista (µa razão prática como expressão da vontade pura¶) [. o autor discorre sobre o período da colonização da América pela Espanha e Portugal.. surgiu também um novo Direito. para ele.. o autor também destaca os escritos de Guilherme de Occam.´ (p. as principais fontes do direito aplicado nas colônias são o direito espanhol... com o predomínio do Código das Siete Partidas (1256-1265) e da Lei de Toro (1505). as metrópoles elaboraram uma nova legislação representada pelas Leis de Burgos (1512) e pelas Leis Novas (1542). as capitulações (acertos contratuais entre participantes ou dhefes de expedição) e as instruções (diretrizes de administração civil e militar).71) Em outras palavras. Num segundo momento. a partir de reivindicações humanistas.]´ (p. não surgiu uma filosofia jurídica autêntica e a estrutura sócio-política continuou elitista e excludente. 80) Ente os séculos XVI e XVII. 75).´ (TORRE RANGEL apud WOLKMER. ³[.. Além disso.

não foram eficazmente aplicadas. ³não reconheciam o poder total do papa e a pretensão universal de jurisdição dos monarcas sobre os nativos. crítico da administração espanhola. 87) Cabe destacar ainda que nos séculos XVI e XVII.. político. muitos pensadores readequaram os princípios do Direito natural ao seu contexto social e. Desse modo.] sintetizavam o último intento da Coroa Espanhola para conter as tendências desumanizadoras do processo da conquista. Já as Leis Novas. criticou o Requerimento. assim. além de determinarem como deveria ser a relação entre os nativos e os colonizadores. Eram. preocupado ³[. cultural. ³favoreceu a superação de interpretações consideradas demasiadamente pragmáticas e a valorização da pesquisa crítica histórica [. bispo de Chiapas.´ (LOSADA apud WOLKMER. que respeitasse o direito à liberdade dos indígenas. Com a finalidade de esclarecer o que foi o humanismo cristão e sua importância para a legislação das colônias luso-hispânicas. por isso. os teólogos-juristas da Escola de Salamanca debateram sobre a necessidade de uma legislação mais justa nas colônias. questionou a tradição escolástica e voltou-se para a investigação das fontes do Direito romano. p.´ (p. religioso¶ e jurídico. no qual ficava instituída a intervenção espanhola nas Índias e que legitimava a guerra caso os nativos não aceitassem a presença dos colonizadores. sobressaiu-se Francisco de Vitória. limites ao poder dos colonizadores e o fim das conquistas privadas sem autorização da coroa.]´. 84) Já o humanismo cristão se manifestou principalmente depois que os Reis Católicos oficializaram seu posicionamento em relação às Índias Ocidentais através do Requerimento (1514). em especial. denunciou o genocídio dos indígenas e lutou por uma legislação mais protetora. a prova da vitória do humanismo cristão e ³[.´ (p. (p. pode ser considerado ³µo precursor do conceito moderno pluralismo racial..] em proteger a condição de vida e de existência com dignidade das nações nativas. estabeleciam a proteção aos indígenas.´ (p. 2006.. Sua obra expressa um projeto de convivência pacífica entre todos os povos e. 82) Mas muitos colonizadores se opuseram a elas por interesses políticos e. que surgiu na Europa no final da Idade Média..As Leis de Burgos reconheciam que os índios eram livres e mereciam um tratamento humano. 85) Bartolomé de las Casas. o autor discorre primeiro a respeito do humanismo jurídico. Essa corrente filosófica. Dentre esses pensadores. Os humanistas cristãos como Bartolemé de las Casas se baseavam no Direito natural e defendiam a liberdade e dignidade aos gentios... portanto. 87) . que se desenvolveu influenciada pelo individualismo e pelo racionalismo .

Além disso. um humanismo abstrato. inicialmente. patrimonial. o que expressa um humanismo mais concreto. que legitimou ³uma cultura liberalindividualista desumanizadora. é preciso: ³[. ocultando as desigualdades sócio-econômicas da estrutura capitalista de poder. Ele trabalha. erudito e racionalista. mas a Inquisição tinha ênfase teológica. nas colônias luso-hispânicas. A partir. Houve apenas uma adequação das doutrinas modernas como o liberalismo econômico ao antigo sistema. Porém.Na sociedade moderna podem ser distinguidos dois momentos da crítica humanista: o primeiro é a manifestação de um humanismo que se opõe ao modelo jurídico-penal e processual ligado à Inquisição. enquanto o Iluminismo tinha um caráter humanitário. liberalindividualista e burguesa. a estreita ligação entre Estado e Igreja. uma crítica à ditadura da lei. O quarto e último capítulo do livro intitula-se ³Evolução das Idéias Jusfilosóficas na Modernidade do Ocidente´. O segundo momento se segue às codificações do século XIX: a crítica humanista recai sobre o positivismo jurídico. a América Latina ainda se caracteriza por um executivo de caráter imperialista. autoritária. o que debilita o legislativo e o judiciário. Nesse sentido. católica. 92).. p. 90) É. é preciso destacar que os grandes movimentos revolucionários da modernidade como o Renascimento e a Reforma Protestante causaram pouco impacto na Península Ibérica. o Brasil conquistou sua independência. a aplicação do humanismo não representou uma grande transformação. elitista. semelhante à das metrópoles. porém de fatores internos e externos.´ (p. Ambos se valiam de uma justificativa jusnaturalista.´ (p. ao tratar da cultura jurídica latino-americana. nossos textos legais continuam representando os interesses de uma elite agora influenciada pela cultura anglo-saxônica. Portanto. 95) O autor destaca ainda que mesmo com a neutralidade científica pregada pelo positivismo presente nos códigos.. 2006.] ter em conta a herança colonial luso-hispânica (e suas respectivas raízes romano-germânicas) e os processos normativo-disciplinares provenientes da modernidade capitalista. O legado recebido pelas colônias de Espanha e Portugal foi uma estrutura sociopolítica ³biclassista. hierárquica e corporativa´ (WIARDA apud WOLKMER. Porém. estratificada. a independência das colônias não representou uma ruptura total com Portugal e Espanha nem uma mudança da estrutura interna tradicional de caráter corporativo e patrimonialista. tradicional. portanto. o contexto . Assim a cultura colonial brasileira reproduziu os valores tradicionais lusitanos.

que após o fim do Império romano assumiu funções públicas. Os burgueses eram principalmente artesãos e mercadores que viviam no meio urbano.. a modernidade pode ser entendida como um processo generalizado de racionalização. científica e religiosa ao longo do período que vai do século XV ao XVIII´ (p. lógica e retórica foi influência da prática escolar da Antigüidade... 107) Outro fator determinante foi a Igreja Católica. Em relação aos aspectos políticos. liberal e representativo do século XVIII [. o Direto romano se mostra mais adequado a esse período de centralização. o surgimento do Estado moderno.] um dos traços marcantes do Direito moderno emergente . cabe destacar que o ensino elementar com base em gramática. que se reflete também no Direito. o início da Modernidade se caracteriza pela transição do feudalismo ± agricultura de subsistência e regime de servidão ± para o capitalismo mercantil.histórico da Idade Moderna. destacando as grandes transformações que ocorreram nas ³[. social. de organização administrativa e financeira [. A sociedade também se modificou com o surgimento de um novo segmento: a burguesia. racionalização e secularização do que as práticas legais medievais.. De modo geral. embora também houvesse uma pequena burguesia campesina e uma burguesia profissional (médicos e advogados). 100) e que estão vinculadas à cultura jurídica.. Porém o Direito moderno difere do romano por ser mais sistematizado e exato. No âmbito econômico. como conseqüência. ficou o legado de ³uma forma de burocracia.. através de processos revolucionários. abrangia quase toda a Europa. ³A organização centralizadora de poder que se institui sob a forma secularizada monárquica de Estado absolutista transforma-se no Estado nacional. a crescente nacionalização das monarquias e. que se desenvolveu primeiramente no norte da Itália (século XIII) e. pela hegemonia política. No cenário de rupturas da Idade Moderna.. ³[. Do Direito romano. com o movimento de reformas e a diminuição do poder da Igreja como guia da humanidade.. O Direito moderno europeu tem sua origem na tradição dos diversos tipos de Direito existentes na Idade Média. Trata ainda das duas principais correntes do Direito: o jusracionalismo e o juspositivismo. observa-se a progressiva centralização do poder. 105) As transformações também ocorrem no campo da ciência ± através dos estudos de cientistas como Copérnico. (p. depois dos séculos XVI e XVII. Por fim.]´ (p. Galileu e Newton ± como também no plano teológico. posteriormente. sociais e morais.] esferas econômica.]´. política. caracterizada pela propriedade dos meios de produção e.

embora tivessem muitos pontos de divergência.´ (p. 115) Para Lutero.´ (p.. 109) A secularização crescente provém de movimentos como o Renascimento e a Reforma Protestante. em um segundo momento da Reforma. O Renascimento. na contribuição da filosofia dos direitos humanos e. criticaram a ausência de métodos dos juristas anteriores e defenderam a preservação do Corpus Juris. de modo geral. surgiu na Itália. o Renascimento entende a sociedade como construção artificial humana. Os humanistas voltaram-se para o estudo e reconstrução dos textos clássicos e defenderam uma interpretação mais autônoma da lei. desvinculada de todas as restrições transcendentais que inviabilizam a criatividade do pensamento e a liberdade da prática objetiva. inspirado nas Sagradas Escrituras. era a autonomia do cristão diante da lei objetiva e sua submissão à lei como expressão que revela a vontade de Deus.´ (p. Relativamente às leis e à questão da justiça. tem-se o questionamento da utilização do latim e dos métodos de ensino dos Comentadores. Em oposição ao humanismo tem-se a Reforma Protestante. ela adotou uma postura mais moderna. ³[. no século XV e atingiu seu auge no XVI. mas a do sujeito cristão. O protestantismo contribuiu ³na gênese do Capitalismo moderno. Em relação ao humanismo no campo jurídico. o autor aborda a origem e o desenvolvimento das escolas jusracionalistas do século XVI ao XVIII.. na valoração da consciência moral. ressaltar que..entre o século XVI e o XVII está na íntima relação do Direito com o poder estatal e na sua identificação com a lei escrita. o Humanismo e a Reforma tinham preocupações comuns. aspectos da cultura jurídica medieval.] não era a liberdade do homem político. no impulso para a moderna concepção de jusnaturalismo. as leis positivas só eram necessárias aos cristãos µdesgarrados do rebanho¶. movimento cultural e humanista. Já as idéias de Calvino são mais adequadas ao Direito. a preocupação dos reformadores. Eles elaboraram um direito teórico em contraposição ao direito prático dos Comentadores. destacando a importância dos .´ (p. ao defender a fé cristã como único meio de salvação.. Deve-se. ³[. 116) Ou seja. entretanto. na formulação da mentalidade livre individualista. revela seu desprezo pelo racionalismo. 110) A partir de sua concepção antropocêntrica do mundo.] é a celebração do humano como força autônoma e racional. Na seqüência do capítulo. fundamentalmente. Há também um interesse maior por princípios jurídicos sistematizados. ao negar o livre-arbítrio e ao afirmar a predestinação. que.

³[. mas da lei formalizada e positivada. Depois. o jusracionalismo se caracteriza por autores e perspectivas diferenciadas. ou Segunda Escolástica. que representou a ³[. O primeiro . que identificou Deus como legislador e afirmou que a verdadeira lei natural é divina. sem.. destacou-se Francisco de Vitória (1480 ± 1546).. a decadência da escolástica.processos de secularização. racionalização e individualização (interligados e relacionados ao naturalismo) para a compreensão da modernidade e dos conceitos de estado de natureza. direito e teologia. 130) Os jusracionalistas desenvolveram suas teorias a partir de pressupostos comuns: o estado de natureza ± ausência do Estado e de leis. na Universidade de Salamanca. Outro expoente dessa escola foi Francisco Suarez (1548 ± 1617).] intermediação e a passagem do Direito natural teológico para a doutrina do jusnaturalismo racionalista. sendo considerado precursor do contratualismo. bem como com a idéia de segurança social e de unificação do poder político. contrato social e sociedade civil. a Espanha necessitava de um modelo normativo para ser aplicado nas colônias: um Direito internacional fundado num novo Direito natural. dentre os quais podem ser destacados o humanismo. 129). Dentre esses pensadores. filosofia. o progresso científico e a valorização da matemática. fossem elas cristãs ou pagãs e que.´ (p. 124) Nos séculos XVI e XVII. contrato social ± diferentes interpretações. um intenso debate sobre política.´ (p. Por compreender um período bastante amplo da história ocidental. ainda que a fonte última estivesse em Deus [. que conduzem ao absolutismo ou a uma concepção política liberal e sociedade civil ± Estado moderno. que se estendeu do início do século XVII até o fim do século XVIII.. condenava a chamada µguerra justa¶ empregada pelos espanhóis para legitimar a ocupação dos territórios indígenas.. O primeiro ponto dentro dessa abordagem trata da Escola Clássica Espanhola. por isso.. Assim. abandonar os preceitos da escolástica e do tomismo. adequado à tradição da moral cristã e do jusnaturalismo teocêntrico. exceto as naturais. entretanto.] o modelo de juridicidade que se constrói passa a associar-se não mais com a idéia de ius.. trazendo mais uma vez os fatores que contribuíram para a consolidação do jusracionalismo. Ele ainda tratou da ³questão do poder político como vontade natural do povo e como manifestação social da comunidade. que acreditava em uma lei natural comum a todas as pessoas. a escravização e o massacre dos nativos.]´ (p. o autor discorre sobre a Escola Clássica do Direito Natural Racionalista. um grupo de teólogos-juristas (dominicanos e jesuítas) gerou.

marcada pela Revolução Gloriosa de 1688. Por isso. holandês. entre os séculos XVII e XVIII. saúde. Grócio analisa o direito das gentes e o divide em ³[. seriam regras de condutas e não propriamente leis.´ (p. ao nível da consciência. no estado de natureza. ³deduzido da natureza racional e social do homem. no qual os homens não têm segurança contra uma morte violenta. está acima das leis. Por isso.´ (p. segundo Hobbes. o estado de natureza é um estado de plena liberdade e igualdade. Segundo ele. autor de Leviatã. Os homens contratam e instituem um soberano a fim de garantir uma vida boa. ele é também um estado de guerra. que é a lei da razão. 137) Na Inglaterra do século XVII. A teoria de Locke atendia às aspirações da classe média ascendente. foram desenvolvidas duas tendências opostas dentro do paradigma do Direito natural racional: uma defendia a monarquia absolutista. (p. A segunda tendência tem como principal representante John Locke (1632± 1704). a outra era liberal. porque suas bases teriam sido dadas pelos pensadores de Salamanca. autor Dos Tratados sobre o Governo. é absoluto. Leibniz (1646±1716) formulou uma teoria idealista do Direito . a obra de Grócio contribuiu para o processo de secularização. expresso nos tratados e nos costumes. os homens contratam. no qual o homem tem direito à propriedade ± vida. Ainda assim. todos os homens têm direito sobre todas as coisas. Já as chamadas leis naturais do estado de natureza obrigariam apenas em foro interno. instituindo uma autoridade pública. limitada pela lei..pensador comentado é Hugo Grócio (1583-1645). ele também é considerado o criador do Direito Internacional moderno. ³personagem de transição entre a tradição escolástica e as tendências racionalistas de seu tempo´ (p. Mas as paixões dos homens fazem com que se instaure o estado de guerra. O soberano. 140 ± 141) O autor trata ainda do jusnaturalismo racionalista na Alemanha. O principal defensor da primeira tendência foi Thomas Hobbes (1588±1679). trabalho e bens ± e segue a lei da natureza. Para Hobbes. liberdade. A fim de evitá-lo e preservar a propriedade. 134) e autor de O Defensor da Paz. porque a lei é a sua palavra.. obra em que defende um direito acima das monarquias nacionais. é questionado como pioneiro. no entanto.] ius inter gentes (o direito das gentes natural) e em ius gentium (direito das gentes tradicional e positivo. 135) Seu trabalho. porque ele se preocupou com um Direito natural concreto. positivada por sua vontade e ninguém pode se obrigar consigo mesmo.

O Iluminismo influenciou a ética. que seria ³um sistema de idéias eternas´ (FRIEDRICH apud WOLKMER. 143). o Iluminismo considerava mais importante a aplicação prática das teorias e buscava um conhecimento fundado na razão e na experiência empírica.] o Direito aparece como faculdade que viabiliza a efetivação da obrigação moral. percebem-se pontos em comum como a razão e a pretensão de universalismo. portanto. 151) Ao contrário do século anterior que se preocupava com questões metafísicas. caracterizando-se como uma crítica ao absolutismo monárquico.. ambos estabelecendo a ponte entre o jusnaturalismo alemão e o espírito emergente da µAufklärung¶.] a teoria do Direito natural racionalista foi enriquecida com a contribuição mais empírica de Christian Thomasius e mais racionalista de Christian Wolff..´ (p.. Mas é preciso evidenciar que. que defendia a valorização da natureza.´ (p.. Além dele. mostrou-se desvinculado do pensamento escolástico e do luteranismo.] para a racionalização de um sistema filosófico no Direito. da .natural.. pode-se destacar a obra de Pufendorf (1632±1694). ³[. privilégios de nascimento e falta de liberdade. 151). Combateram. que. 145) Thomasius (1655±1728) fez a distinção entre Direito (legislação externa) e Moral (legislação interna. liberalização e criatividade´ (p. 2006.. a política e o Direito.´ (p. na seqüência da obra.. 149). que culminou. 144) ³[.]´ (p. Em contraposição ao Iluminismo e sua excessiva racionalização e enciclopedismo. intolerância.] todos os aspectos da vida deveriam ser submetidos à crítica [. Quanto à relação entre Iluminismo e o pensamento jurídico do século XVIII. que surgiu no século XVIII. surgiu o romantismo.] todas as formas de superstição. Os iluministas consideravam que ³[. Conclui-se a respeito das origens e do desenvolvimento do jusracionalismo que ele influenciou um processo crescente de codificações e justificou os limites impostos aos monarcas absolutistas. na Revolução Francesa. um Direito natural dos indivíduos de um Direito do Estado.. O autor trata. enquanto o Iluminismo foi uma ruptura moral.. que subordinou o Direito natural aos interesses políticos e diferenciou. consciência do sujeito) enquanto para Wolff (1679±1754) ³[... assim. ³um processo histórico vigoroso de ruptura. p.´ (p. revelando uma tendência mas humanista. o jusracionalismo foi a continuação renovada da tradição. que concebeu o Direito sob uma relação ambígua com a força e Vattel.. além de contribuir ³[. do Iluminismo. 147) Cabe citar ainda Spinoza. em 1789. ao distinguir Direito de Teologia e Direito natural do Direito positivo.

Montesquieu (1689-1755)..] a natureza e a formação das leis. Vico (1688-1744) entendia a história como uma sucessão progressiva de fases que completariam um ciclo (corsi). a classificação das formas de governo (República. dos quais os dois primeiros contêm as idéias mais relevantes para uma filosofia jurídica.´ (p. Enquanto a primeira tem como fim o bem comum. a necessidade de se remontar à primeira convenção.´ (p. Um pensador que se distanciou dos demais iluministas foi Rousseau (17121778).. vincula-se a soberania à vontade geral. Rousseau ³[. em muitos Estados europeus. 163) No segundo livro.. Inicialmente. a restauração conservadora diante das conseqüências políticas desestabilizadoras e radicais da Revolução Francesa. contribuíram para o surgimento da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) e posteriores codificações. a segunda é a soma de interesses particulares.. Vico propõe uma doutrina historicista do Direito em contraposição ao jusnaturalismo racionalista eterno. que também se sucederiam. Monarquia e Despotismo) e a célebre teoria da divisão dos poderes. que é diferente da vontade da maioria.] descreve o estado de natureza. o romantismo representou. em sua obra O Espírito das Leis.emoção e da liberdade sem regras. à força legitimadora da µvontade geral¶ e a aquisição da liberdade civil. A seguir.. . dividido em quatro livros. abordou ³[. 160) Embora os pensadores franceses da época não tenham examinado grandes questões jusfilosóficas. à formação do pacto social. cabe destacar a definição de lei de Rousseau. as instituições jurídicas eram produto da história e a lei era um instrumento da razão.´ (p. ³Para além de seus traços associados ao idealismo transcendental. como o surgimento de novas relações de poder e a materialização do Estado-Nação. ao nacionalismo e ao historicismo. o Direito se limita aos interesses da burguesia: ³[. Sua principal obra é O Contrato Social. 157) Segundo ele.´ (p. A nova organização social consolida o jusnaturalismo racionalista. ao trabalhar novamente os princípios vindos da tradição anglo saxônica. o autor destaca alguns aspectos da Revolução Francesa.. Por fim. o príncipe soberano é substituído pela nação soberana. Essa valorização da lei contribuiu para que o Direito se reduzisse cada vez mais ao Direito estatal e para que a lei fosse entendida como limitadora do poder. 155) Dois pensadores que defenderam uma análise do homem e da sociedade do ponto de vista da história foram Vico e Montesquieu.] a filosofia jurídica do século XVIII refletiu as condições sociais e econômicas de uma classe média individualista e ascendente. ou seja.

o empirismo inglês e traços do pensamento de Rousseau. distinguindo Direito (legislação externa) de moral (legislação interna). Os iluministas italianos defendiam uma reforma no legislativo e judicial. ou seja.. Em sua obra Dos Delitos e das Penas. Outro pensador mencionado é Hegel (1770-1831). para quem a filosofia jurídica era um artifício para a glória do Estado e a sociedade civil é entendida por ele como ³[. a finalidade da legislação é a igualdade e a liberdade. enquanto este se fundamenta na vontade do legislador. . acreditava que os defeitos da justiça seriam resolvidos na medida em que os pontos controvertidos fossem solucionados por uma codificação. de autoria popular. além de afirmar ser necessário adequar a legislação anterior aos novos tempos. o autor aborda o pensamento jusfilosófico kantiano. Aquele vige no estado de natureza e é constituído por leis racionais. um ato absoluto da vontade geral..´ Nessa obra.. 174-175) Para concluir esse tópico relativo ao Iluminismo. Kant (1724-1804) reuniu em sua obra o racionalismo germânico. Beccaria (1738-1794) ficou conhecido por ter exposto os princípios do Direito Penal e por defender uma reforma humanitária nessa área. ele criticou o Direito Penal Absolutista.´ (p.] um meio de que se vale o Estado para a realização de seus fins específicos. Kant ainda separa o Direito natural do Direito positivo. Essa distinção permite que associemos o Direito natural ao Direito privado e o Direito positivo ao Direito público.]´. por empregar torturas e prever a aplicação da pena de morte. A perspectiva dele sobre o Direito é formal.] pela formulação mais acabada e mais técnica de uma filosofia moral racionalista para a modernidade.´ (p.. mesclando ³[. 168) Com ele... Ele foi o responsável ³[.ou seja. o autor aborda a filosofia jurídica desenvolvida no século XVIII na Itália.. Em Metafísica dos Costumes. o Direito natural passou a Direito racional. Kant estuda os princípios que regulam a conduta do homem livre e racional. (p. Kant não se preocupa com o conteúdo das relações que o Direito regula. Ele desenvolve ainda o princípio universal do Direito. enquanto ideal racional em progressão.] orientações racionalistas com equilíbrio e realismo [. Para ele. que pode ser entendido como ³A minha liberdade termina onde começa a do outro. Após tratar do pensamento francês iluminista. 175) Muratori (1672-1750)..

Smith foi professor de filosofia moral.. 2006.´ (p. portanto: ³impedir o réu de fazer novos danos aos seus concidadãos e de remover os outros de fazê-los iguais.´ (BRUNO apud WOLKMER. A finalidade da pena era.] finalidade de reafirmação constante do poder monárquico.Ao longo do livro. 181) Beccaria também era contra a pena de morte. para Beccaria. as penas não tinham como fim impor sofrimento ou desfazer um delito. Em relação à cultura jurídica do século XVIII. porém ficou conhecido por sua teoria econômica do liberalismo exposta em A Riqueza das Nações.] experiência institucional mais moderada e linear. 183) Cabe ainda mencionar a situação inglesa à época do Iluminismo. para ele. Também A. cabe lembrar que a tortura e as penas cruéis eram empregadas pelo absolutismo também com a ³[..] pela consolidação histórica de um processo de racionalização. Na sua concepção. 183) Na seqüência da obra. Nesse sentido. deveria ser substituída pela perda total da liberdade. pelo que foi criticado por Bentham. p. somente a lei poderia determinar os casos em que a punição seria merecida por um homem. Ele também condenou a prática da tortura. mas sim. 184) Embora houvesse pensadores conservadores como Burke. é ineficaz na apuração da verdade.´ (p. mas não se projetou como filósofo do direito e sim por discutir questões de conhecimento e ética. outros incorporaram os princípios iluministas e os aplicaram à filosofia. Segundo ele.. da afirmação de uma .´ (p. conclui-se que foi marcada ³[. os ingleses viviam uma ³[. ou da necessidade de existir uma lei para que haja um delito. Conclui-se que Dos Delitos e das Penas foi significativo por denunciar ³os privilégios e as discriminações da justiça penal. o Princípio da legalidade. nos casos de crimes mais graves. Blackstone (17231780) foi o grande expoente da cultura jurídica inglesa. reordenando-a em novas bases da razão humana. Beccaria examina a proporção entre os delitos e as penas. por exemplo... Ao contrário da França. não apenas pela crueldade. ao destacar aproximações entre a common law e o Direito natural. política e economia. Beccaria enuncia. mas também pela questão da igualdade diante da lei.. que. a preservação da sociedade. em que a queda do absolutismo se deu por meio de um processo revolucionário. porque um homem inocente e frágil pode ser condenado enquanto um culpado e forte pode permanecer livre. demonstrando assim que sua preocupação era com a desigualdade dos homens perante a lei e não com a desigualdade dos homens em si. Hume (1711-1778) criticou as concepções artificiais do jusnaturalismo. A tortura.

. Por isso. cabe destacar ainda a Revolução Industrial e suas conseqüências: progresso científico.] o Direito é explicado por sua própria materialidade coercitiva.. inaugurada preliminarmente por Thomas Hobbes e desenvolvida por Jeremy Bentham. expressão da burguesia.. foi a de maior influência sobre os movimentos operários.´ (p. contrário às codificações e defendia o Direito fundamentado nos costumes.cultura individualista e liberal.´ (p. De acordo com os positivistas. objetividade e universalidade´ (p. era. portanto. única fonte do Direito.. 189). No campo jurídico. Assim. 195) Savigny. mas uma constante e orgânica emanação da consciência política popular e do espírito do povo.] trajetória anglo-saxônica [do positivismo]. sofrendo influência ainda.´ (p. desenvolvida por Marx.´ (p. consolidou-se o positivismo. eliminando qualquer juízo de valor ou considerações metafísicas.] efetivação do modelo positivista de ciência. nacionalistas e conservadores´ (p. Os juristas dessa Escola defendiam que a função do juiz era aplicar o previsto na lei. acaba doutrinariamente formalizando-se num positivismo imperativo lógico-descritivo do jurista John Austin (1790-1859) [.. reflexo do Volksgeist. que procurou transformar o Direito em ciência.] deu consistência teórica ao movimento que apregoava ser o Direito não uma criação deliberada da razão. que estimularam o fortalecimento do socialismo em suas vertentes utópica. 191) Essa corrente tem ainda como característica a redução de todo o Direito ao Direito estatal e um dos seus elementos essenciais é o formalismo. e da progressiva secularização do Direito rumo à unicidade e à positivação. defensor da codificação como saída . estatal e científica. que ³[.. ³[.. classe detentora dos meios de produção.187) O século XIX foi o período da ³[... previsibilidade e segurança. mesmo que não viesse diretamente do poder soberano. da distinção entre o Direito e a moral. o positivismo alcançou seu auge com o Código Civil (ou Napoleônico) de 1804 e com a Escola da Exegese. o maior representante da Escola Histórica foi Savigny (1779 1861). calcado nos parâmetros de experiência. transformações econômicas e graves problemas sociais. Na esfera sociopolítica. através do seu exame literal. nas décadas finais. 193) Ele foi responsável por reconhecer que o direito da common law era direito positivo. predominou o liberalismo de ³contornos progressistas. ³[.]. Na França. a partir da metade do século XIX. Nesse sentido.. Esta última. Na Alemanha. 188). do evolucionismo darwinista. definiam a estatalidade do Direito e pregavam o automatismo do juiz. atacava Thibaut (1772-1840).

Eles argumentavam..] uma concepção finalística do Direito. foi reelaborada por Heck (1858-1943). mas sim ³[. portanto.. um movimento chamado de Direito livre.. A concepção finalística de Jhering.] numa adequada ponderação desses interesses [. 203) Entretanto. no momento mais maduro de sua carreira. produzido nas relações sociais. que era Direito apenas o Direito positivo. Surge também em meados do século XIX. que o juiz não baseasse sua decisão nos conceitos. 201) Mas ele defendia que uma norma sem coação não era válida e que o Direito de coação social era monopólio do Estado. quando surgiu o Código Civil Alemão. .]´. Assim.] interpretações que questionavam o rigor conceitualista e o distanciamento da teoria jurídica da dinâmica social´ (p.. a lei ainda era entendida como a única fonte do Direito e juiz deveria se submeter inteiramente a ela. 2006. foi readequado ao pensamento formalista dos pandectistas. em caso de conflitos de interesses. o sistema de conceitos de Puchta. deveria ser obedecida. vista como meio de realizar e satisfazer interesses antagônicos. Ele defendeu. Essa Escola defendia a sistematização do Direito alemão a partir dos textos clássicos do Direito romano ± universal e estável. p.. revelando assim a permanência de vínculos estatistas e positivistas. Jhering (1818-1892). desenvolveu ³[. a manifestação mais forte do positivismo alemão ocorre a partir de 1850 com a Teoria Geral do Direito. anterior ao Direito estatal.. sendo lei. estimuladas pelo desenvolvimento do capitalismo e pelo agravamento dos problemas sociais. 200). que juízos de valor e considerações a respeito da finalidade do direito deveriam ser excluídas. o positivismo na Alemanha se consolida através da jurisprudência dos conceitos. O último tópico abordado pelo autor se refere às ³[. cuja obra mostrou que a verdadeira fonte do Direito é o juiz e não a lei. cujo precursor foi Bülow.para a desorganização das leis na Alemanha. cujos defensores desprezavam a filosofia e se interessavam por uma ciência positiva do Direito. além de analisar as relações entre Direito e poder. (HESPANHA apud WOLKMER. Suas idéias foram incorporadas por Kantorowicz (1877-1940) e por Ehrlich (1862-1907). que a lei deveria ser interpretada µao pé da letra¶ e que. O primeiro defendeu um Direito livre.´ (p. enquanto o segundo concebia o Direito como algo vivo. discípulo de Savigny. conhecida como jurisprudência dos interesses. Embora a Escola Histórica não possa ser considerada positivista... Porém. O pensamento de Savigny predominou até 1900.

o Direito à liberdade se baseia ³[. ele destaca que a emancipação política não é equivalente à emancipação humana. A Questão Judaica contribui para que repensemos sobre o Direito e suas deformações formalistas. segundo Marx. sobre a abstração que são os direitos humanos e sobre as novas formas de prática jurídica em que o Direito funcione ³[.que não se impõe por meio de regras fixas.. os direitos humanos são direitos de seres egoístas e o Direito à segurança (garantia da conservação da pessoa. são citados também o Círculo de Viena ± tradição formalista ± e a Escola de Frankfurt ± idealistas ± além de diversas correntes doutrinárias.´ (p.´ (p. Independentemente disso. distintos e contraditórios: os direitos do homem e os direitos do cidadão. Em resumo. que refletem um tempo de rupturas de velhos paradigmas. que surgiram já na primeira metade do século XX: o neokantismo alemão e o criticis mo neo-idealista italiano. Na conclusão. . o autor menciona duas novas correntes da filosofia jurídica.. 220) Na seqüência. mas tem sua eficácia nas ³[. 206) Segundo Ehrlich. pois a vida jurídica se desenvolve longe do Estado. o Direito integrava a ³superestrutura´ (Estado ± reflexo das relações determinadas pelos modos de produção) e não possuía autonomia filosófica e científica.´ (p. seus direitos e propriedade) é a preservação desse egoísmo...216) Já o direito à propriedade privada é entendido por Max como o direito do interesse pessoal: o homem pode desfrutar de seu patrimônio se atender aos outros homens. é o indivíduo que pertence à burguesia e à sociedade civil e que possui direitos reais. Segundo ele. O homem.] sanções naturais que predominam nos grupos. porque a emancipação política reduz o homem a burguês ou a cidadão do Estado.] como instrumental da justiça humanizada e da emancipação social concreta. Outra reação ao positivismo vem na forma do materialismo histórico desenvolvido por Marx. o Direito estatal é pouco significativo. Marx analisa os direitos contemplados pelo artigo 2º da Declaração Francesa de 1793. real. Marx também afirma que os direitos humanos são conseqüência de um processo de luta contra os privilégios hereditários e que podem ser diferenciados em dois grupos. Já o cidadão é o ser genérico que pertence à comunidade política. Ao longo do texto. texto.] na separação do homem em relação a seu semelhante. nesse caso. que não elaborou uma concepção fechada de Direito porque as relações jurídicas tinham sua origem nas relações materiais de vida. Assim... pode ser encontrada em A Questão Judaica a crítica de Marx aos direitos burgueses consolidados nas Declarações do século XVIII No .

o homem nasce em condição de igualdade aos outros homens. Embora ele afirme em sua obra O Contrato Social que o homem nasce livre. o autor reforça um dos objetivos da obra. Conclui-se. mas não livre. momento posterior à sociedade civil (que tem conotação negativa para Rousseau). anteriormente explicitado na introdução: ³Trata-se de resgatar. de modo geral. ao mesmo tempo. portanto. Por exemplo. que a obra proporciona um conhecimento muito amplo. mas. ele acreditava que os professores de direito (como ele) é que deveriam defini-lo. Tem-se uma seleção dos autores mais influentes de cada época e os trechos relativos ao contexto histórico de cada idéia facilitam a compreensão das mesmas. ao configurar uma historicidade das principais idéias jurídicas. a obra capta justamente a essência das idéias jurídicas mais relevantes da história do Ocidente e contribui para uma reflexão a respeito do processo de formação do Direito atual. resumido. Alguns pontos são tratados de modo superficial e ficam um pouco obscuros. Seu pensamento. tem contradições. a retomada de diretrizes valorativas acerca do Direito justo.Por fim. Em relação ao pensador alemão Savigny. superada pelo contrato. Entretanto. .´ (p. 223) A respeito da obra Síntese de uma História das Idéias Jurídicas. A liberdade só é alcançada na república. embora ele defendesse a idéia de um Direito que surge espontaneamente das relações entre os homens. cabe dizer que. Ou seja. por ser uma síntese e por tratar de um extenso período de tempo. o pensamento de Rousseau. logo depois faz uma ressalva ao dizer que ainda assim o homem vive sob ferros. cabe enumerar algumas considerações específicas em relação a alguns dos temas tratados. da dignidade humana e da efetividade dos direitos humanos.

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