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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade

Departamento de Administração de Empresas

Modelos de Crédito Aplicados a Empresas de Factoring

EAD 601 – Trabalho de Conclusão de Curso II


Professor Orientador: Prof. Dr. José Roberto Securato

DANIEL MIZUSAKI KATAYAMA

São Paulo
2003
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade

Departamento de Administração de Empresas

Modelos de Crédito Aplicados a Empresas de Factoring

EAD 601 – Trabalho de Conclusão de Curso II


Professor Orientador: Prof. Dr. José Roberto Securato
Aluno: Daniel Mizusaki Katayama
N° USP: 2369270

Monografia apresentada à Faculdade de


Economia, Administração e Contabilidade
como parte dos requisitos para conclusão
do curso de Administração de Empresas,
referente à disciplina EAD 601 – Trabalho
de Conclusão de Curso II, Orientado pelo
Professor Doutor José Roberto Securato.

São Paulo
2003
I

AGRADECIMENTOS

Agradeço ao Professor Dr. José Roberto Securato pelas orientações, apoio e

incentivo.

Agradeço aos funcionários da Delta Amika Factoring e Tetrafac Factoring pelas

informações concedidas e pelo contínuo apoio e incentivo.

Agradeço aos meus familiares, a Mirian Midori Kina e aos meus amigos pelas

informações concedidas, colaboração, apoio e incentivo.

Agradeço aos funcionários da Biblioteca FEA / USP pela qualidade de seus serviços

e apoio.
II

RESUMO

O fomento mercantil, também conhecido como factoring, surgiu no Brasil no início da

década de 80. A formação deste mercado permitiu que os pequenos e médios

empresários tivessem ao seu dispor uma importante ferramenta para a melhoria das

condições de concessão de crédito aos seus clientes. Através das empresas de

factoring, estes empresários podem reduzir os seus riscos e se dedicar ao core-

business de suas atividades sejam elas a prestação de serviços, a fabricação de

mercadorias, intermediação, comercialização de produtos, etc.

O objetivo deste trabalho é elaborar um modelo de crédito que seja adequado às

operações de empresas de factoring, de forma a minimizar o risco destas e

capacitando-as a oferecer aos seus clientes serviços melhores a custos inferiores.


III

ABSTRACT

Fomento Mercantil, also known as factoring, first appeared in Brazil during the early

80’s. This market’s formation allowed the small and medium entrepreneurs to have a

tool to ensure better credit conditions to their clients. Through factoring companies,

these entrepreneurs could reduce their risk and dedicate to their core-business, such

as services, building products, intermediating, commercializing products, etc.

This work’s objective is to elaborate a credit model that is adequate to factoring

operations, which will minimize their risk and allowing them to offer better services at

lower costs to their clients.


Índice

1. INTRODUÇÃO .....................................................................................................1

1.1. OBJETIVOS..................................................................................................1

1.2. IMPORTÂNCIA .............................................................................................2

1.3. PROBLEMÁTICA ..........................................................................................4

1.4. TENDÊNCIAS ...............................................................................................5

2. METODOLOGIA DO TRABALHO DE PESQUISA...............................................7

2.1. DELINEAMENTO DO ESTUDO....................................................................7

2.2. TÉCNICA DE COLETA DE DADOS .............................................................9

2.3. ANÁLISE DOS DADOS ..............................................................................11

3. CONTEXTO ECONÔMICO................................................................................13

3.1. INFLAÇÃO ..................................................................................................13

3.2. TAXA DE JUROS........................................................................................14

3.3. INADIMPLÊNCIA ........................................................................................15

4. O MERCADO DE FACTORING .........................................................................17

4.1. DEFINIÇÃO DE FACTORING ....................................................................17

4.2. PERFIL DO CLIENTE DE FACTORING .....................................................19

4.2.1. DEFINIÇÃO DO PÚBLICO ALVO........................................................22

4.3. RISCOS DO MERCADO DE FACTORING.................................................23

4.4. EMPRESAS ESTUDADAS .........................................................................24

5. MODELOS DE CRÉDITO ..................................................................................26

5.1. DEFINIÇÃO DE CRÉDITO .........................................................................26

5.2. ANÁLISE DE CRÉDITO..............................................................................27

5.3. RISCOS DA CONCESSÃO DE CRÉDITO .................................................28


5.4. GARANTIAS ...............................................................................................31

5.5. ANÁLISE SUBJETIVA DO CRÉDITO .........................................................33

5.5.1. OS CS DO CRÉDITO ..........................................................................33

5.5.2. FASES DA ANÁLISE SUBJETIVA DE CRÉDITO................................38

5.6. RATING DE CRÉDITO ...............................................................................39

5.7. ANÁLISE MATRICIAL DE CRÉDITO..........................................................42

5.8. CONTROLE DO RISCO DA CARTEIRA DE CRÉDITO .............................44

6. ANÁLISE DE CRÉDITO DE UMA CARTEIRA DE FACTORING .......................48

6.1. PARTICULARIDADES ................................................................................48

6.2. ANÁLISE MATRICIAL.................................................................................49

6.2.1. CENÁRIOS MACRO-ECONÔMICOS..................................................49

6.2.2. PESOS DAS VARIÁVEIS ....................................................................50

6.2.3. APLICAÇÃO DO MODELO MATRICIAL .............................................51

6.3. RELAÇÃO ANÁLISE MATRICIAL VERSUS RATING.................................53

6.4. RISCO E PROBABILIDADE DE LIQUIDAÇÃO DA CARTEIRA .................54

6.5. VALOR EM RISCO DA CARTEIRA DE FACTORING ................................55

7. GLOSSÁRIO ......................................................................................................57

8. CONCLUSÕES ..................................................................................................58

9. BIBLIOGRAFIA ..................................................................................................60
1

1. INTRODUÇÃO

1.1. OBJETIVOS

A dificuldade em se analisar o crédito de pequenas e médias empresas,

entidades predominantes no mercado de factoring, tem se apresentado como um

empecilho para as atividades das empresas que atuam neste mercado.

O objetivo deste trabalho é realizar um estudo sobre o mercado de factoring e

estabelecer um modelo de análise de crédito condizente com as particularidades

que o regem. A elaboração deste modelo será fundamentada sobre o estudo

aprofundado das atividades de duas empresas atuantes deste setor.

Este modelo de crédito será aplicado a estas duas empresas e iremos

apresentar os resultados preliminares de sua aplicação, elaborando um estudo de

um caso prático sobre estas duas organizações.

O modelo, que deverá ser descrito no decorrer deste trabalho, poderá contribuir

sobre a profissionalização da atuação das empresas de fomento mercantil,

resultando em melhor desempenho e práticas mais padronizadas.


2

1.2. IMPORTÂNCIA

Os cenários de instabilidade financeira que o Brasil vivenciou nos últimos anos

fez com que o governo exercesse políticas monetárias reduziram a quantidade de

recursos disponíveis para crédito no mercado. Através de ferramentas como os

empréstimos compulsórios e elevadas taxas de juros o governo reduziu a

capacidade do sistema financeiro de absorver as necessidades de crédito do

pequeno e médio empresariado brasileiro.

Além disso, os altos índices de inadimplência têm aumentado os riscos para as

instituições financeiras que provêem crédito de curto prazo. Desta forma, as taxas de

juros cobradas por este tipo de crédito passaram a apresentar um premio pelo risco

muito elevado, o que tornou mais dispendiosa a captação de recursos para estes

pequenos e médios empresários.

Neste cenário, as empresas de fomento mercantil, ou factoring, têm assumido

uma crescente importância no mercado brasileiro. Através da compra de títulos,

estas empresas têm sido responsáveis pelo provimento de recursos financeiros para

o capital de giro de muitas empresas brasileiras. Além disso, as factorings têm

auxiliado seus clientes a administrarem os seus recursos financeiros e

estabelecerem políticas de concessão de crédito, reduzindo a sua necessidade de

captar recursos dispendiosos e tornando suas operações mais saudáveis.


3

Entretanto, ainda não existem muitos trabalhos e estudos realizados sobre este

setor, o qual é caracterizado por muita utilização de feeling e da experiência

profissional dos agentes de factoring. Esta ausência de estudos e trabalhos sobre o

setor faz com que haja uma falta de aplicação das teorias de crédito e risco nas

empresas de factoring. A adequada aplicação destas teorias a este mercado pode

colaborar para que os empresários do setor possam desempenhar seus papéis com

maior eficiência.

Este trabalho visa suprir estas necessidades do mercado brasileiro, iluminando

o entendimento do mercado de fomento mercantil e elaborando um sistema de

controle de crédito para as empresas que operam neste setor.


4

1.3. PROBLEMÁTICA

A organização administrativa de grandes empresas prevê, de maneira geral,

uma forma de analisar o crédito dos clientes e também de organizar os fluxos de

caixa da empresa, respeitando os prazos de pagamentos e recebimentos da

organização. Isso é primordial para a saúde financeira de uma empresa e até

mesmo para sua sobrevivência.

A maior parte destas empresas mantém esta estrutura internamente, apesar de

haverem casos em que isso não ocorre. Atualmente, existem empresas como a

Unilever que mantém parte de seus setores financeiros terceirizados com empresas

como a Accenture. A decisão de manter a estrutura financeira da organização dentro

ou fora da empresa varia em função das estratégias traçadas por cada

administração.

A importância vital de manter uma saúde financeira não é restrita a grandes

empresas. As pequenas e médias empresas compartilham desta mesma

necessidade e sua falta de atuação sobre este assunto pode, muitas vezes, levá-las

ao fracasso. Entretanto, muitas vezes a devida atenção não é dada para estas áreas

das empresas. Algumas vezes por falta de capacidade administrativa, outras por

falta de recursos disponíveis, muitas pequenas e médias empresas não possuem um

setor encarregado de analisar a concessão de crédito para cada cliente nem mesmo

uma área financeira que seja capaz de organizar os fluxos de caixa respeitando os

prazos de recebimento e pagamento de cada cliente ou fornecedor.


5

Além disso, a falta de organização financeira das pequenas empresas, o seu

risco operacional e a falta de garantias acaba tornando a captação de recursos

financeiros para as suas operações mais cara. As instituições financeiras não têm

condições de avaliar e acompanhar as operações destas pequenas empresas de

maneira muito intensiva, o que acaba elevando o risco operacional da concessão de

crédito destas organizações. Em vista deste maior risco, as instituições financeiras

acabam cobrando prêmios pelo risco mais elevados, encarecendo a captação de

recursos de curto prazo nestas pequenas e médias empresas.

Estes fatores explicam em parte a razão pela qual o principal mercado de

atuação de empresas de factoring é o de pequenas e médias empresas. Estas

organizações muitas vezes não têm condições de manter uma estrutura financeira

saudável e os serviços de factoring de análise de crédito dos clientes, de

organização financeira e de provimento de recursos para o capital de giro de

organização acabam sendo muito adequados para as empresas que se encaixem

neste último cenário.

1.4. TENDÊNCIAS

O mercado de factoring tem apresentado um relevante crescimento nos últimos

anos. A tabela abaixo apresenta os números que representam esta evolução e, no

entender do autor, leva a crer que a importância deste mercado será crescente no

que diz respeito ao desenvolvimento da economia brasileira.


6

Evolução do Factoring no Brasil


1999 2000 2001
Empresas Associadas 728 703 717
Patrimônio Líquido 1.107,10 1.382,80 1.406,40
Carteira 18.759,00 24.324,00 27.397,00
Inadimplência 3,77% 3,76% 3,77%
Funcionários 5.790 6.035 6.186
Empresas Clientes 60.350 64.750 66.070
Fonte: Anfac - Levantamento Estatístico de 2001

A quantidade de estabelecimentos atendidos por empresas de factoring

cresceu, entre 1999 e 2001, cerca de 9,48%, entretanto, a carteira total atendida

cresceu cerca de 46,05%. Esta carteira de títulos de empresas de factoring atingiu,

em 2001, cerca de R$ 27.397 milhões. Cabe observar que estes dados estão

restritos às empresas cadastradas na ANFAC, entretanto, existem mais empresas

atuando no mercado além das cadastradas na associação.

Os serviços de factoring no Brasil têm possibilitado o desenvolvimento das

pequenas e médias empresas através da difusão das práticas de administração

financeira como também da concessão de crédito aos diversos empresários. O

cenário de crescimento econômico previsto para ocorrer nestes próximos anos será

de fundamental importância para o setor, pois sua atividade será fundamental para o

desenvolvimento da pequena e média industria brasileira.


7

2. METODOLOGIA DO TRABALHO DE PESQUISA

2.1. DELINEAMENTO DO ESTUDO

A metodologia de estudo de caso foi baseada nas orientações de Gilberto

Martins e Alexandre Lintz (2000, p.36 – 58). Segundo os autores o estudo de caso

trata-se de uma técnica de pesquisa cujo objetivo é o estudo de uma unidade que se

analisa profunda e intensamente. E considera-se a unidade social estudada em sua

totalidade, seja um indivíduo, uma família, uma instituição, uma empresa, ou uma

comunidade, com o objetivo de compreendê-lo em seus próprios termos.

O estudo de caso, de acordo com Martins e Lintz (2000, p. 36):

“É uma investigação empírica que pesquisa fenômenos dentro de seu contexto

real (pesquisa naturalística). O estudo de caso reúne o maior número de

informações detalhadas, por meio de diferentes técnicas de coleta de dados:

entrevistas, questionário, observação participante, entrevista em profundidade,

levantamento de dados secundários etc., com o objetivo de apreende a totalidade de

uma situação e, criativamente, descrever a complexidade de um caso concreto.

Mediante um mergulho profundo e exaustivo em um objetivo delimitado – problema

da pesquisa -, o estudo de caso possibilita a penetração na realidade social, não

conseguida plenamente pela análise e pela avaliação quantitativa”.


8

O estudo de caso tem como principais aplicações, a importância de explicar

ligações causais em intervenções ou situações da vida real que são complexas

demais para tratamento através de estratégias experimentais ou de levantamento de

dados, além de descrever um contexto de vida real no qual uma intervenção

ocorreu. Pode se ainda avaliar uma intervenção em curso e modificá-la com base

em um Estudo de Caso ilustrativo, o qual não será objeto deste trabalho. E ainda

explorar aquelas situações nas quais a intervenção não tem clareza no conjunto de

resultados.

Segundos os autores, é importante atentar para os principais componentes do

“design da pesquisa”, como:

• Trata-se de um estudo do tipo como? e/ou por quê?;

• As proposições orientadoras do estudo, enunciadas a partir de questões

secundárias;

• Unidade de análises: indivíduo? organização? setor? ...

• Estabelecer a lógica que ligará os dados às proposições do estudo;

• Critérios para interpretar os achados – referencial teórico e categorias.

E ainda não se deve confundir “generalização analítica” – própria do Estudo de

Caso – com “generalização estatística”. O que se generaliza, no Estudo de Caso,

são os aspectos do ‘modelo teórico encontrado’. O caso não é um elemento

amostral.
9

Dessa maneira, há uma razão lógica de se elaborar um estudo de caso com

uma delimitação, para que a seleção dos aspectos mais relevantes leve a uma

compreensão mais completa sobre a situação estudada.

Nesta fase, foram também escolhidas as técnicas de estudo mais adequadas

para a coleta de dados.

2.2. TÉCNICA DE COLETA DE DADOS

Após a definição clara da delimitação do objeto de estudo abordado neste

trabalho, foram escolhidas as técnicas de coleta de dados.

Segundo os autores Martins e Lintz (2000) as principais fontes de evidências

são:

• Documentação;

• Registros em arquivos;

• Observação direta;

• Observação participante;

• Entrevistas;

• Uso de artefatos físicos.


10

Neste trabalho foram utilizados basicamente dois tipos de fontes de evidência:

a entrevista e a observação direta, pois eram a fontes que estavam disponíveis e

que mais auxiliariam neste estudo de caso.

Para a elaboração da entrevista foi utilizada foi basicamente um questionário

de questões abertas, do tipo associação de palavras, com questões claras e

compreensíveis para o(s) entrevistado(s). Buscou-se obter dados de informações e

opiniões mais relevantes por meio da conversação objetiva e através da observação

direta.

As entrevistas constituem a principal fonte de evidência de um Estudo de Caso.

Trata-se de relato verbal sujeito a problemas de viés, recuperação de informações

e/ou de articulação imprecisa. Quando possível deve-se usar gravador. Há três tipos

de entrevistas: aberta – para extrair fatos; opiniões, “insights”; focada – perguntas

previamente formuladas. Servem para corroborar o que o investigador pensa a

respeito de determinada situação, segundo os mesmos autores.

Neste trabalho as entrevistas foram conduzidas com os gerentes das empresas

analisadas, a fim de conseguir depoimentos que descrevessem todas as etapas,

desde as discussões iniciais sobre os motivos do investimento do sistema até seu

desenvolvimento e implementação.

E a segunda fonte de evidência utilizada para a coleta de dados e informações

foi à observação direta. Neste contexto, o pesquisador foi um observador passivo,


11

durante o período de três meses aproximadamente para análise do funcionamento

do sistema e o sucesso de sua implementação, além do resultado obtido pelo

sistema para a empresa em geral.

2.3. ANÁLISE DOS DADOS

A análise de dados é um dos aspectos mais importantes e difíceis de um

Estudo de Caso, pois exige um raciocínio crítico do investigador/entrevistador para

construir descrições, interpretações que possibilitem a extração cuidadosa das

conclusões. Porém, por se considerar de uma situação específica, não muito ampla

e de uma só empresa, a análise das informações obtidas foi facilitada.

Segundo os autores Martins e Lintz (2000), há duas maneiras de se analisar os

dados coletados, através de uma proposição teórica (referencial teórico) ou

desenvolver uma criativa descrição do caso. Basear-se em proposições teóricas é a

forma mais comum para se analisar as evidências de um caso.

Segundo o professor Martins,

(site: http://www.eac.fea.usp.br/metodologia/referencias.asp):

“Sendo assim, as proposições podem fornecer a orientação teórica que direcionará a

análise do estudo. Isso ajuda a focalizar a atenção sobre certos dados e a ignorar

outros, além de auxiliar a organizar o estudo como um todo e a definir explanações

alternativas a serem examinadas – proposições teóricas sobre relações causais –


12

perguntas do tipo “como?” ou “por quê?” – podem ser úteis para direcionar a análise

do estudo de caso”.

Esta primeira estratégia foi utilizada neste trabalho, já que além de ser a mais

comum, é a mais recomendada pois a segunda estratégia, de descrição é menos

preferível, servindo de alternativa quando não se tem um referencial teórico.

A forma de análise de dados através da proposição teórica permitiu que fossem

descritos modelos teóricos de análise de crédito, comparando o caso da empresa

real com os modelos teóricos, onde poderão ser obtidas as razões para demonstrar

que o modelo de crédito proposto se torna adequado para as operações em

empresas de factoring.
13

3. CONTEXTO ECONÔMICO

Contextualizar economicamente o cenário atual é de extrema relevância para a

avaliação de crédito. O cenário macro-econômico afeta diretamente as empresas de

factoring em vista de que esta lida diretamente com a inadimplência de pessoas

físicas e jurídicas, taxas de juros, níveis de atividade econômica, etc.

Desta forma, ambientar a atual situação econômica é necessário para que se

possa fazer uma correta avaliação do mercado de factoring, assim como o grau de

risco de suas operações e, conseqüentemente, a taxa de retorno esperada.

3.1. INFLAÇÃO

Desde Julho de 1994, com a implantação do Plano Real, o Brasil vivencia um

período de inflação controlada, mesmo tendo havido uma considerável alta na

inflação dos últimos 5 anos. A inflação medida pelo índice oficial do governo, o

IPCA, tem apresentado como média nos 5 últimos anos, cerca de 9,05% ao ano.
14

Inflação Mensal IPCA

8,00%

7,00%

6,00%

5,00%

4,00%

3,00%

2,00%

1,00%

0,00%
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ju

ju
ou

-1,00%

Fonte: IPEADATA

O cenário atual é de uma expectativa de queda da inflação em vista do período

conturbado que foi vivenciado no final do ano de 2002. Neste ano houve a eleição

presidencial e a oposição do governo era a favorita para ganhar a eleição

(expectativa que veio a se comprovar). O mercado financeiro apresentou uma certa

apreensão neste período, o que refletiu diretamente na estabilidade econômica.

3.2. TAXA DE JUROS

A meta governamental da taxa de juros básica da economia, a SELIC, que

apresentou considerável alta no ano de 2002, sofreu cortes sucessivos durante o

segundo semestre do ano de 2003, atingindo o patamar de 17,5% (Reunião do

COPOM de Novembro de 2003) conforme ilustra o gráfico abaixo.


15

Meta SELIC Anual

50,00%

45,00%

40,00%

35,00%

30,00%

25,00%

20,00%

15,00%

10,00%

5,00%

0,00%
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02

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03

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no

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no

no
ja

ja

ja

ja

ja
m

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Fonte: Banco Central do Brasil

O governo eleito do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou, durante o

ano de 2003, políticas responsáveis e condizentes com o contexto da ocasião. Isso

amenizou os ânimos do mercado refletindo na melhora de diversos índices da

economia, como uma queda da inflação, a diminuição do risco Brasil de agências

internacionais e outros.

Neste novo contexto, o governo pôde reduzir as taxas de juros de maneira a

estimular a volta do crescimento do mercado, que se apresentou estagnado nos

anos que precederam.

3.3. INADIMPLÊNCIA

A inadimplência atingiu níveis extremamente elevados no ano de 1999.

Entretanto, a partir deste ano, a taxa de inadimplência medida pela Associação de


16

Comércio de São Paulo (Boletim Gastão Vidigal) girou entre cerca de 2% A 10%. O

Gráfico abaixo ilustra este comportamento da taxa.

Taxa de Inadimplência

25,00%

20,00%

15,00%

10,00%

5,00%

0,00%
9

99

99

00

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01

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02

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03

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02

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ja

ja

ja
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m

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Fonte: IPEADATA

Durante o ano de 2003, a inadimplência se apresentou um pouco mais estável

que nos anos anteriores, sendo que a taxa média do ano de 2003 (Janeiro a

Outubro) foi de cerca de 5,59%. No período entre março e maio, a taxa apresentou-

se menor que nos anos anteriores. Este período, nestes cinco anos analisados, foi

caracterizado por uma maior taxa de inadimplência.

A taxa de inadimplência intensifica a importância da analise de crédito das

empresas, pois apresenta um considerável aumento do risco das operações. Esta

reflete diretamente na probabilidade de recebimento dos créditos concedidos de

uma empresa.
17

4. O MERCADO DE FACTORING

4.1. DEFINIÇÃO DE FACTORING

A correta conceituação de factoring é desconhecida pela maior parte das

pessoas. Muitos confundem as empresas de factoring com bancos, financeiras ou

mesmo agiotas. Entretanto, a empresa de factoring não realiza atividades de

nenhuma destas três entidades. As atividades de uma empresa de factoring

englobam desde a prestação de serviços até o provimento de caixa para as

empresas que precisem saldar os seus compromissos de curto prazo.

Os serviços prestados pelas empresas de factoring vão desde consultorias

financeiras até mesmo a efetiva atuação sobre o setor financeiro da empresa,

administrando todas as contas a receber como também a pagar. Em alguns casos,

as empresas de factoring cuidam da administração financeira de seus clientes,

deixando para o proprietário a administração da produção ou vendas. Neste caso, os

empresários podem dedicar-se às atividades relacionadas ao seu core-business,

sejam elas a venda, a intermediação, a fabricação de produtos ou mesmo a

prestação de serviços.

As empresas de factoring podem ainda prover caixa para as empresas através

da compra dos títulos por esta emitidos. Uma venda a prazo feita pela a empresa

pode ser transformada em uma duplicata, isto é, um título de crédito que representa

esta venda através de uma cópia (duplicata) da nota fiscal de venda. Quando esta
18

venda ocorre, a empresa de factoring se encarrega de assumir todos os riscos de

crédito que esta venda ocasionou. Este último fator é que distingue as atividades da

factoring das atividades de um banco. Um banco faz desconto de duplicatas

enquanto a factoring compra a duplicata. O desconto de duplicata não faz com que o

banco assuma todos os riscos do sacado. Caso este não venha a honrar os seus

compromissos, o banco pode ainda vir a cobrar o cedente pelo título, enquanto nas

empresas de factoring, este risco é integralmente assumido por elas, não podendo

exercer uma cobrança sobre o cedente destas duplicatas.

LEITE (2003, p. 32) define factoring como sendo “uma atividade mercantil mista

atípica = serviços + compra de créditos (direitos creditórios) resultantes de vendas

mercantis.”. Esta definição engloba as atividades que um agente de factoring deve

executar e também frisa a diferenciação da empresa de factoring em relação a uma

instituição financeira.
19

4.2. PERFIL DO CLIENTE DE FACTORING

No momento econômico atual, todas as empresas, especialmente aquelas de

médias e pequenas dimensões, têm necessidade de recursos para fazer frente aos

custos e encargos numa economia competitiva.

As pequenas e médias não dispõem de estrutura administrativa para suportar

as incertezas e flutuações de um sistema econômico como o brasileiro,

caracterizado por diversas oscilações e alterações das políticas governamentais.

Necessitam, sobretudo, de apoios técnicos, administrativos e gerenciais para que

possam comprar bem suas matérias primas e insumos, produzir com custos

compatíveis e vender seus produtos a preços competitivos.

A tabela abaixo apresenta a evolução do direcionamento das operações de

factoring no Brasil.

Direcionamento das Operações


1996 1997 1998 1999 2000 2001
1. Ind. Metalúrgica 15,00% 18,00% 18,00% 22,00% 20,00% 28,00%
2. Ind. Química 8,00% 10,00% 7,00% 8,00% 3,00% 3,00%
3. Ind. Gráfica 5,00% 3,00% 4,00% 4,00% 4,00% 2,00%
4. Ind. Têxtil/Confec. 3,00% 2,00% 2,00% 2,00% 5,55% 5,00%
5. Ind. Sucro-alcool 0,50% 0,50% 0,50% 0,50% 0,45% 0,50%
6. Outras Indústrias 21,00% 25,00% 30,00% 32,00% 34,00% 35,00%
7. Empresas Comerc. 25,00% 21,00% 20,00% 18,00% 17,00% 14,00%
8. Prest. Serviços 22,00% 20,00% 18,00% 13,00% 13,00% 12,00%
9. Emp. Transporte 0,50% 0,50% 0,50% 0,50% 3,00% 0,50%
Fonte: Anfac

Conforme apresentado, o factoring tem como clientela tradicional a pequena e

média empresa representada de forma significativa por industrias. No Brasil existem


20

hoje milhares de industrias, de porte médio e pequeno, que contribuem

substancialmente para engrossar o produto interno bruto nacional. É a clientela

preferencial do factoring porque se ajusta como uma luva a seus legítimos e

verdadeiros objetivos, ou seja: expandir os ativos dessas empresas, aumentando

suas vendas, criando todas as condições indispensáveis ao seu efetivo e almejado

crescimento e eliminando o seu endividamento, sem criar novas exigibilidades.

Outro fator que afeta fortemente uma pequena e média empresa para atuar

junto a uma empresa de factoring é que esta costuma executar vendas de menor

porte. Uma vez transformadas em duplicatas, estas poderiam ser descontadas em

um banco ou mesmo vendidas para um agente de factoring.

Apesar de, tradicionalmente, cobrarem taxas de juros mais baixas que as

empresas de factoring, os bancos cobram também uma série de tarifas como de

cobrança, protesto de títulos, etc. Estas tarifas, quando consideradas sobre um titulo

de baixo valor, acabam elevando a taxa de juros de maneira muito acentuada, o que

encarece o desconto do título em um banco.

Uma empresa de factoring, não possuindo a grande estrutura de um banco,

apresenta custos inferiores. Estes custos são repassados na forma de uma taxa de

juros de valor, tradicionalmente, superior a dos bancos. Entretanto, quando

consideradas as tarifas bancárias de um desconto de título, o produto de uma

empresa de factoring acaba apresentando um custo inferior. Isso faz com que, para

as pequenas e médias empresas, seja mais atrativo estar procurando as empresas


21

de factoring para transformarem as suas contas a receber em caixa. Além disso, o

desconto de uma duplicata gera um passivo para a empresa que pode vir a ser

reclamado pelos bancos. Entretanto, ao efetuar uma venda da duplicata para a

empresa de factoring, este passivo não é criado, resultando em menor grau de

alavancagem para a empresa.


22

4.2.1. DEFINIÇÃO DO PÚBLICO ALVO

O mercado-alvo do factoring é, em sua essência e origens históricas,

universalmente constituído do pequeno e médio produtor industrial. Podemos

classificar em três diferentes tipos o perfil da clientela-alvo do factoring:

• Empresas sem acesso ao mercado de crédito tradicional.

• Empresas que, embora tenham acesso ao mercado de crédito, não possuem

conhecimentos técnicos que lhes respaldem a iniciativa de barganha com as

instituições financeiras.

• Empresas dirigidas por pessoas com excelente nível técnico, em seu ramo de

atividade, mas utilizam os serviços de factoring para cuidar da gestão de

caixa, enquanto concentram seus esforços na produção.

De acordo com Leite (2003), “O perfil típico hoje da empresa candidata

potencial no Brasil para operar com o factoring pode estar delimitado num

faturamento mensal que varia entre R$ 30.000,00 e R$ 2.000.000,00.”.


23

4.3. RISCOS DO MERCADO DE FACTORING

Em uma operação de factoring, a empresa fomentadora assume todos os

riscos referentes aos créditos futuros que forem adquiridos de outras empresas

(cedentes). Desta forma, no caso de vendas (as quais são representadas através de

duplicatas), assume-se, principalmente, o risco de crédito destas. Em outras

palavras, assume-se o risco de um sacado não honrar os compromissos a prazo

referentes a uma compra que fez com o cedente (o cliente da factoring).

Uma empresa de factoring pode ainda estar exposta ao risco de crédito de

seus próprios clientes. Uma vez que muitas empresas em dificuldades financeiras

acabam procurando as empresas de factoring para obter capital de giro e assim

atender os seus compromissos de curto prazo, estas podem, em um determinado

momento, acabar cometendo atos ilícitos para saldar suas dividas. Dentre estes

atos, as empresas entrevistadas listaram atitudes como emissão de títulos “frios”,

isto é, sem procedência de uma venda a prazo da empresa, cobrança em

duplicidade de uma mesma venda e outros.

Além destes riscos, a empresa de factoring está exposta aos riscos do

mercado (conjunturais), como flutuação das taxas de juros, surgimento de produtos

substitutos e também empresas concorrentes. Existem diversas variáveis

econômicas e legais que afetam fortemente as operações de factoring no Brasil,

uma vez que a legislação acerca do assunto sempre foi vaga, mas tem tomado

forma nos últimos anos.


24

4.4. EMPRESAS ESTUDADAS

As empresas estudadas e entrevistadas apresentam um índice de giro mensal

médio de cerca de R$ 976 mil e R$ 1.437 mil. De acordo com LEITE (2003), estas

empresas podem ser classificadas como pequena (giro abaixo de R$ 1 milhão) e

média (giro entre R$ 1 milhão a R$ 5 milhões). Estes tipos de empresas compõem

cerca de 90% do mercado, sendo que 60% das empresas são de médio porte e 30%

de pequeno porte. Os 10% restantes representam empresas com giro superior a R$

5 milhões.

A Delta Amika Factoring – Fomento Comercial Ltda é uma empresa de

factoring de pequeno porte. Criada em 17 de Dezembro de 1990, a empresa atua no

mercado a mais de 12 anos, já tendo prestado serviços para mais de 5.000

empresas entre sacados e cedentes. Assim como o restante do mercado de

factoring, grande parte dos seus clientes são empresas do ramo industrial.

Sua carteira de clientes é caracterizada por parcerias de longo prazo. Algumas

essas empresas são acompanhadas pela a Delta-Amika desde a sua data de

criação, em 1990. Seus parceiros estão todos localizados na Grande São Paulo.

Isso se deve em função de que, para o acompanhamento intensivo das operações

financeiras de seus clientes, existe uma necessidade de proximidade física muito

relevante.
25

A empresa possui cerca de 5 empregados e possui participações em outros 4

empreendimentos. Os empreendimentos do grupo são diversificados, o que reduz o

risco do mesmo, sendo que as outras empresas do grupo têm atuação na área de

educação, entretenimento, factoring e consultoria.

A Tetrafac Fomento Comercial Ltda é uma empresa de factoring de médio

porte, criada em 23 de Maio de 1996. A organização atua no mercado a cerca de 8

anos, já tendo prestado serviços para cerca de 10.000 empresas. Seu corpo de

funcionários é de cerca de 7 funcionários, sendo 4 deles sócios-diretores.

Característica do mercado, sua carteira de clientes é caracterizada por

parcerias de longo prazo localizados na região da Grande São Paulo.


26

5. MODELOS DE CRÉDITO

5.1. DEFINIÇÃO DE CRÉDITO

O termo crédito provém do latim creditum “confiança ou segurança na verdade

de alguma coisa, crença / reputação, boa fama...” (Caldas Aulete), o que indica o

fator de confiança entre duas ou mais partes sobre um determinado assunto. Sobre

as finanças, crédito é definido por SANTOS (2003, p. 15) como sendo “a modalidade

de financiamento destinada a possibilitar a realização de transações comerciais

entre empresas e seus clientes.”.

O crédito abrange duas noções fundamentais para as finanças, a confiança,

expressa na promessa de pagamento, e o tempo, que se refere ao período fixado

entre a aquisição e liquidação da dívida. Desta forma, a seguinte linha de raciocínio

pode ser utilizada para explicar o crédito: O Crédito se refere à promessa de

pagamento futuro, não necessariamente certo, em virtude de um fator de risco.

O crédito atende a múltiplas necessidades econômicas como o financiamento

de pessoas físicas e de pessoas jurídicas. Nas operações de factoring, o

financiamento de pessoas físicas também é relevante pois existem sacados que se

encaixem neste quadro. Desta forma, o modelo que será elaborado deverá abranger

tanto pessoas físicas como pessoas jurídicas para que tenhamos uma maior

amplitude de alcance.
27

5.2. ANÁLISE DE CRÉDITO

A análise de crédito em uma empresa de factoring deve abranger não somente

as operações de seu cliente, o cedente, mas também, e principalmente, os sacados

deste. Isso se dá em função do fato de que o papel da empresa de factoring é

analisar a concessão de crédito de seus clientes, tendo como alvo os sacados.

A análise de crédito deve ser executada avaliando-se a compatibilidade entre

os fluxos de receitas da empresa analisada e os planos de amortização da dívida

proposto, sem deixar de verificar a idoneidade dos clientes. Isso visa garantir o

recebimento da dívida e reduzir o risco de moratória destas dividas.

Entretanto, na venda de um crédito, está implícita a absorção de todos os

benefícios ou malefícios que esta transação envolve. A qualquer momento,

acontecimentos imprevistos e adversos, como os decorrentes de recessão

econômica, podem afetar as fontes primarias de pagamentos de empresas e de

pessoas físicas, reduzindo a possibilidade de recebimento do crédito.

Assim, a determinação do risco de inadimplência se apresenta como a principal

preocupação dos credores, pois esta permite mensurar a ocorrência de perdas

financeiras que podem vir a prejudicar a capacidade de honrar as dividas com os

provedores de capital das partes devedoras.


28

5.3. RISCOS DA CONCESSÃO DE CRÉDITO

A conjuntura econômica brasileira, marcada por alta volatilidade dos ativos, das

decisões político-econômicas e pela alta sensibilidade da economia às oscilações

internacionais faz com que o controle do risco de crédito seja de extrema relevância

para as empresas de qualquer setor.

Este controle é fundamental para que a empresa tenha consciência do risco ao

qual ela esteja sujeita e que este seja compatível com suas provisões e capacidade

financeira de suportar o impacto de uma inadimplência.

Para identificarmos os riscos de uma concessão de crédito, devemos definir, a

priori, o significado da palavra risco. SECURATO (2002) define risco como sendo

“Uma forma de medir quanto podemos perder em uma operação, em relação a um

ganho médio estabelecido”. De acordo com Sharpe, esse risco divide-se entre Risco

Conjuntural e Risco Próprio, sendo ambas partes relevantes para a análise e para

não subestimar os pontos fortes e fracos do objeto de análise.

Segundo SANTOS (2003), para medir a taxa de perdas em carteiras de

créditos é indispensável que os supridores de capital avaliem o risco total do

investimento, baseados no conhecimento de fatores de risco (internos e externos –

próprios e conjunturais) influenciadores da capacidade de pagamento dos clientes.

Como exemplo, os riscos internos apresentados pelo autor são:


29

• Profissionais desqualificados

• Controles de riscos inadequados

• Ausência de modelos estatísticos

• Concentração de crédito com clientes de alto risco

Os fatores externos, de natureza macro econômica e, por isso, relacionados

diretamente com a liquidez de empresas e pessoas físicas estão apresentados no

diagrama abaixo.

Concorrência Inflação

Carga Fatores Taxa de Juros


Tributária Externos

Caráter dos Paridade


Clientes Cambial

O modelo sugerido por SANTOS é o de Sinkey e Greenawalt (1991) onde a

taxa de perda de uma carteira de crédito (tPE) é dada em função das condições

econômicas e administrativas históricas e atuais, assim como os distúrbios

econômicos aleatórios conforme demonstrado abaixo:

tPE = f [CE ( t − k ) , DA( t − k ) , DEA( t ) ]

Onde:
30

• CE(t-k): Condições Econômicas Históricas e Atuais;

• DA(t-k): Decisões Administrativas Históricas e Atuais;

• DEA(t): Distúrbios Econômicos Aleatórios.

Esta equação uma vez mais apresenta a dependência do risco total de uma

concessão de crédito em relação aos fatores externos e internos. Os fatores internos

são expressos através das variáveis administrativas da empresa objeto, enquanto os

fatores externos são representados através das condições econômicas e também

dos distúrbios considerados “aleatórios” pelos autores. Estes distúrbios representam

a ocorrência de fenômenos que fogem a normalidade, como a quebra de uma

economia no mercado global (crises como as da Rússia, México, Argentina), atos de

terrorismos (o atentado de 11 de setembro) ou mesmo fenômenos de ordem natural

(como secas prolongadas que afetam a produção de energia ou a produção de

alimentos).
31

5.4. GARANTIAS

As garantias consistem na vinculação de um bem ou de uma responsabilidade

conversível em numerário que assegure a liquidação do crédito. A finalidade da

garantia é evitar que fatores imprevisíveis impossibilitem a liquidação do crédito,

reduzindo assim os riscos ao qual o credor está sujeito.

O Banco Central estabelece que as instituições financeiras, na realização de

operações de crédito, devem exigir dos clientes garantias adequadas e suficientes

para assegurar o retorno sobre o capital aplicado. Mais além, determina que a

garantia seja adequada ao tipo, ao montante e ao prazo do crédito. Entretanto, as

empresas de factoring não se encaixam no sistema financeiro, mas sim como

atividades mercantis. Desta forma, as garantias não são exigidas por um órgão

regulador (até mesmo por que este não existe) e, desta forma, na maior parte das

vezes, este artifício de redução de risco não é utilizado.

Empresas como as entrevistadas utilizam deste recurso através da emissão de

notas promissórias no valor das duplicatas compradas para os seus clientes. Esse

tipo de garantia é conhecido como Garantia Acessória e é utilizada no caso do

cliente da empresa de factoring emitir títulos considerados “frios”, isto é, títulos

vinculados a vendas que não existiram, ou sobre os quais incidem cobranças

duplicadas, ou mesmo sobre clientes fantasmas.


32

Em alguns casos, os cedentes acabam emitindo títulos em nomes de amigos e

familiares para “simular” vendas para as empresas de factoring, o que acaba

causando um problema para as empresas de factoring. Quando isso ocorre, as

empresas que apelam para este tipo de irregularidade já se encontram em situação

financeira crítica e procuram fazer este artifício para dar um “golpe” em uma

empresa de factoring. Em função da ocorrência deste tipo de ilegalidade, as

empresas de factoring entrevistadas passaram a exigir este tipo de garantia

acessória para reduzir o seu risco de crédito.


33

5.5. ANÁLISE SUBJETIVA DO CRÉDITO

5.5.1. OS CS DO CRÉDITO

Por definição, o processo de análise subjetivo envolve decisões individuais

quanto à concessão ou recusa de crédito. Nesse processo, a decisão baseia-se na

experiência adquirida, disponibilidade de informações e sensibilidade de cada

analista quanto ao risco do negócio.

As informações que são necessárias para a análise subjetiva da capacidade

financeira dos clientes são tradicionalmente conhecidas como Cs do crédito: Caráter,

capacidade, capital, colateral e condições. SECURATO (2002) propõe mais um C, o

conglomerado. O autor parte do principio que as informações referentes à situação

de outras empresas de um mesmo grupo econômico são relevantes sobre como

poderão afetar, positivamente ou negativamente, a empresa em estudo.

A estrutura de analise subjetiva da capacidade financeira dos clientes é a

seguinte:
34

Idoneidade da empresa objeto no mercado


Caráter de crédito

Habilidade em converter investimentos em


Capacidade receita

Situação financeira em termos de


Capital composição, aplicação e financiamento
Cs do Crédito
Dados do Cliente Garantias que podem ser oferecidas pelo
Colateral cliente

Sensibilidade da capacidade de pagamento


Condições em função dos fatores externos

Informações referentes à situação de


Conglomerado empresas do mesmo grupo

5.5.1.1. CARÁTER

Esse tipo de informação abrange as informações que refletem a idoneidade do

cliente. Para a análise desse critério é indispensável aos credores que disponham

de informações históricas de seus clientes, sejam elas de fontes internas ou

externas, que evidenciem a intencionalidade e pontualidade na amortização de suas

dívidas.

As informações internas podem ser obtidas através do histórico das operações

entre a empresa e o próprio credor. Deve-se manter um registro das informações

históricas em termos de pontualidade, atrasos, renegociações e perdas financeiras

resultantes da inadimplência do cliente.

As informações externas, podem ser extraídas de arquivos de dados de

empresas especializadas em coleta de informações relacionadas à idoneidade do

cliente no mercado de crédito. Os credores verificam nos arquivos de empresas de


35

gerenciamento de risco de crédito (exemplos: Equifax e Serasa) se existem

informações desabonadoras de tais clientes.

5.5.1.2. CAPACIDADE

Refere-se ao julgamento subjetivo do analista quanto à habilidade dos clientes

no gerenciamento e conversão de seus negócios em receitas. Para empresas, de

maneira geral, analisa-se as fontes de receita da empresa enquanto para as

pessoas físicas analisa-se a sua renda.

O objetivo de se analisar este tipo de informação é determinar se a empresa ou

pessoa física tem a capacidade de gerar receitas compatíveis com a amortização da

divida.

5.5.1.3. CAPITAL

O capital é medido pela situação financeira do cliente, levando-se em conta a

composição (qualitativa e quantitativa) dos recursos, onde são aplicados e como são

financiados.

As fontes usuais de informação para a avaliação do capital são os

Demonstrativos Contábeis e a Declaração de Imposto de Renda. As pequenas e

médias empresas geralmente não utilizam os recursos de auditoria dos seus

números contábeis principalmente em função da falta de obrigatoriedade. Empresas


36

com ações negociadas em bolsa ou participantes do mercado financeiro são

obrigadas a ter seus balanços e demonstrativos de resultados auditados, o que

reduz a chance de haverem números mascarados.

A declaração de Imposto de Renda se apresenta como uma boa alternativa de

comprovação de renda em vista de que a Receita Federal tem realizado

significativos investimentos para qualificar os seus procedimentos de analise da

declaração de imposto de renda de pessoas físicas e jurídicas. Desta forma, pode-se

considerar que este tipo de informação mais se aproxima da real situação financeira

do cliente.

5.5.1.4. COLATERAL

Refere-se aos bens e ativos da empresa que podem ser colocados como

garantia no processo de concessão de crédito. Para a realização de adequada

análise de riqueza patrimonial, é fundamental a abertura da composição do

patrimônio do cliente, além da identificação da situação dos ativos em termos de

liquidez, existência de ônus e valor de mercado.

5.5.1.5. CONDIÇÕES

Essas informações estão relacionadas à sensibilidade da capacidade de

pagamento dos clientes diante da ocorrência de fatores externos adversos ou

sistemáticos.
37

5.5.1.6. CONGLOMERADO

São as informações relevantes à avaliação de crédito referentes a outras

empresas do mesmo grupo. Leva em consideração como as empresas coligadas

podem afetar a capacidade de pagamento das dividas das empresas objeto. Com

isso, uma empresa que, a principio, não pareça atrativa, poderia ter melhores

condições de crédito uma vez que fossem consideradas as condições do grupo. Por

outro lado, uma organização pode apresentar boas condições de pagamento das

dividas, entretanto, pode tratar-se de uma empresa “fachada” de um grupo em

precária situação financeira.


38

5.5.2. FASES DA ANÁLISE SUBJETIVA DE CRÉDITO

A análise subjetiva de crédito é baseada na experiência adquirida dos analistas

de crédito, no conhecimento técnico, no bom-senso e na disponibilidade de

informações internas e externas que possibilitem diagnosticar se o cliente possui

idoneidade e capacidade de gerar receita para honrar o pagamento das parcelas do

financiamento. Nela são abordados todos os Cs do crédito para clientes pessoas

físicas e jurídicas.

SANTOS (2003) propõe que a análise de crédito deva ser dividida da seguinte

maneira:

Análise Cadastral

Análise de Idoneidade

Análise Financeira

Análise de Relacionamento

Análise Patrimonial

Análise de Sensibilidade

Análise do Negócio

A divisão da análise de crédito permite que sejam estabelecidos os passos a

serem cumpridos antes de passar a uma fase seguinte. Desta forma, poupa-se

tempo ao analisar um determinado crédito e se organiza o processo de análise.


39

Estes passos devem fazer parte da política da empresa de crédito e devem ser

seguidos para a manutenção da padronização e organização. No modelo de crédito

que iremos propor, as informações da análise subjetiva de crédito deverão seguir

5.6. RATING DE CRÉDITO

Rating consiste em estabelecer um conceito que mensure o risco de uma

determinada organização. Através deste, é possível utilizar notas que possam,

facilmente, indicar o risco ao qual determinada empresa estaria sujeita ao ceder

crédito à organização.

O Rating que iremos utilizar neste trabalho irá tomar como base a Resolução

2682/99 do BACEN. Esta resolução visa determinar os critérios que determinam a

classificação das operações de Crédito, assim como as regras de constituição de

provisão para créditos de liquidação duvidosa. Esta norma visa assegurar que o

risco das instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil esteja

dentro de um determinado controle e que este risco seja mensurado de maneira

uniforme e padronizada.

Uma vez mais, frisamos a ausência de um órgão regulador do mercado de

factoring como o BACEN é para as instituições financeiras. Entretanto, dadas as

similaridades existentes entre a operação de concessão de crédito entre bancos e

empresas mercantis, iremos utilizar esta norma para determinar o rating adequado

para cada empresa a ser analisada.


40

A citada resolução determina o estabelecimento de nove graus de severidade

para a classificação dos créditos em ordem crescente de risco. Para cada um destes

graus, é determinado ainda o percentual mínimo de provisões que devem ser feitas

para estes créditos de liquidação duvidosa.

Rating BACEN - Res. No. 2682/99


Probabilidade de
Rating Provisão Mínima
Recebimento
Nível AA 0,00% 100,00%
Nível A 0,50% 99,50%
Nível B 1,00% 99,00%
Nível C 3,00% 97,00%
Nível D 10,00% 90,00%
Nível E 30,00% 70,00%
Nível F 50,00% 50,00%
Nível G 70,00% 30,00%
Nível H 100,00% 0,00%
Fonte: Resolução BACEN 2682/99

Como pode ser observado, a partir do provisionamento mínimo que o BACEN

exige para cada nível de crédito, estabelecemos a probabilidade de recebimento de

cada nível de crédito. Isso será útil para que determinemos o risco da carteira de

crédito e que o mantenhamos em controle.

Na resolução há ainda a determinação dos aspectos mínimos a serem

avaliados na análise de crédito. Estes aspectos podem ser avaliados através de

informações internas ou externas e abranger os seguintes tópicos:


41

Em relação ao devedor e seus garantidores:

• Situação econômico-financeira;

• Grau de endividamento;

• Capacidade de geração de resultados;

• Fluxo de caixa;

• Administração e qualidade dos controles;

• Pontualidade e atrasos nos pagamentos;

• Contigencias;

• Setor de atividade econômica;

• Limite de crédito.

Em relação à operação:

• Natureza e finalidade da transação;

• Características das garantias, particularmente quanto à solvência e liquidez;

• Valor.

SECURATO (2002) propõe a elaboração de um modelo para a classificação do

risco de crédito que considere o conjunto de fatores de risco normalmente

verificados pelas agencias de rating, e devidamente ponderados, a que as empresas

estão sujeitas e o grau de exposição a cada fator. Neste trabalho, iremos utilizar a

análise matricial de crédito adaptada para que determinemos a probabilidade de

recebimento do ativo e, assim, determinemos o rating adequado para este crédito.


42

5.7. ANÁLISE MATRICIAL DE CRÉDITO

A análise matricial consiste em determinar a capacidade de pagamento das

dividas de uma determinada empresa através da análise do comportamento da

empresa diante de diversos cenários econômicos.

Como este modelo utiliza o comportamento histórico da empresa, esta análise

é baseada no seu passado. Entretanto, em vista do curto prazo da concessão de

crédito praticada no mercado de atuação de empresas de factoring, esta análise

torna-se suficiente para mensurar o comportamento futuro de uma determinada

organização.

A base deste modelo é a construção de uma planilha chamada matriz de

crédito, formada por linhas que representam os Cs do Crédito e por colunas que

representam os cenários conjunturais.

Os cenários conjunturais ou macroeconômicos são determinados em função

das projeções das variáveis que afetem o mercado em termos conjunturais. Dentre

estas variáveis, temos a taxa básica da economia (SELIC), taxas de inflação, de

emprego, de atividade da economia, etc.

Na elaboração dos cenários econômicos, deve-se determinar os cenários

possíveis para a economia e também a possibilidade de cada cenário.


43

A matriz abaixo exemplifica o Modelo Matricial de Crédito.

Matriz de Crédito
Fator de Cenário 1 Cenário 2 Cenário 3 Cenário 4 Cenário 5
Critério
Ponderação P1 P2 P3 P4 P5
Caráter F1 Nota(1,1) Nota(1,2) Nota(1,3) Nota(1,4) Nota(1,5)
Capacidade F2 Nota(2,1) Nota(2,2) Nota(2,3) Nota(2,4) Nota(2,5)
Capital F3 Nota(3,1) Nota(3,2) Nota(3,3) Nota(3,4) Nota(3,5)
Colateral F4 Nota(4,1) Nota(4,2) Nota(4,3) Nota(4,4) Nota(4,5)
Condições F5 Nota(5,1) Nota(5,2) Nota(5,3) Nota(5,4) Nota(5,5)
Conglomerado F6 Nota(6,1) Nota(6,2) Nota(6,3) Nota(6,4) Nota(6,5)

Cabe observar que cada cenário é determinado por uma probabilidade (Pn) de

ocorrência. Esta probabilidade será utilizada para a avaliação do risco de crédito e a

determinação do rating adequado para esta avaliação.

Cada item mensurado (representado pelas linhas) é multiplicado por um fator

de ponderação (Fm) que determina o peso deste critério na avaliação de crédito de

um determinado cliente.

As diversas notas podem ser dadas mediante um critério previamente definido,

podendo ser até mesmo a probabilidade de recebimento. Estas notas são

multiplicadas pelo fator de ponderação e pela probabilidade do cenário. A somatória

destas multiplicações é a nota média da empresa que irá determinar o rating que ela

deverá ter.
44

Como o rating proposto pelo Banco Central do Brasil prevê nove níveis, iremos

dividir as notas conforme estes níveis.

5.8. CONTROLE DO RISCO DA CARTEIRA DE CRÉDITO

A metodologia de controle do risco da carteira de crédito deverá ser elaborada

a partir da teoria do Valor em Risco de uma Carteira. SECURATO (2002) exemplifica

a aplicação desta teoria para a análise de crédito, apesar de ser tradicionalmente

utilizada para avaliar investimentos em títulos do mercado.

O Valor em Risco de uma Carteira (V@R – Value at Risk) consiste na

determinação do valor que está sob o risco de perda dentro de um intervalo de

segurança. Para o melhor entendimento desta medição de risco, é necessário ter

conhecimento da distribuição normal de probabilidades.

A distribuição normal de probabilidades consiste na principal distribuição de

probabilidades da estatística. Através desta iremos determinar o valor real em risco

da carteira de crédito e qual o percentual da carteira que podemos considerar como

perda com um determinado intervalo de segurança.

Os gráficos abaixo ilustram a distribuição normal padronizada, isto é, a forma

em que a distribuição se porta quando a média analisada é de 0 e o desvio padrão é

de 1. Esta distribuição consiste na forma em que os números sorteados ao acaso

iriam estar distribuídos ao longo dos números. A maior parte destes estariam
45

concentrados próximo à média, isto é, haveria uma maior ocorrência de valores igual

a zero. Conforme o número sorteado se afasta do valor 0, a quantidade de

ocorrências de valores sorteados também diminui, tendendo a zero conforme a

distancia em relação ao ponto central aumenta.

Os gráficos ilustram estas ocorrências. No primeiro gráfico, há a indicação que

apenas 5% dos valores sorteados deverão ser maiores que 1,64. No segundo e

terceiro gráfico, o mesmo raciocínio é aplicado, sendo que apenas 2,5% dos

números sorteados serão superiores a 1,96 e 1% dos números serão superiores a

2,33.

Distribuição Normal (Z=1,64) Distribuição Normal (Z=1,96)

5%
2,5%%

-5 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 5 -5 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 5
Z=1,64 Z=1,96

Distribuição Normal (Z=2,33) Distribuição Normal

1% X%

-5 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 5 -5 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 5
Z=2,33 Z
46

A variável Z indica a quantidade de desvios padrão que se distanciam do valor

médio. A cauda indicativa de 5% da amostragem será determinada pelo valor de Z

igual a 1,64 vezes o desvio padrão. Como a média é igual a zero e o desvio padrão

igual a um, todos os valores superiores a 1,64 representarão 5% da amostra.

Caso a média e o desvio padrão fossem diferentes dos utilizados em uma

distribuição normal padronizada, como por exemplo média de 5 e desvio padrão de

3, iríamos ter que todos os valores superiores a 9,92 representariam 5% da amostra.

Este valor é obtido através do seguinte cálculo:

S ( P ) = Média + Z × Desvio

P = 5% ←
→ Z = 1,64

S ( 5%) = 5 + 1,64 × 3 = 9,92

Desta forma, utilizando o raciocínio análogo para se calcular o V@R de um

ativo, teremos que:

V @ R( Ativo, p ) = P( Ativo ) + Z ( p ) × S ( Ativo )

Onde:
47

• V @ R( Ativo, p ) corresponde ao Valor em Risco do Ativo objeto ao determinado

nível p% de probabilidade;

• P( Ativo ) corresponde à probabilidade de recebimento do crédito;

• Z ( p ) corresponde ao coeficiente correspondente à cauda com p% de

probabilidade;

• S ( Ativo) corresponde ao desvio padrão da probabilidade de recebimento do

crédito.
48

6. ANÁLISE DE CRÉDITO DE UMA CARTEIRA DE FACTORING

6.1. PARTICULARIDADES

Pelo fato de ainda não existir um órgão tenha abrangência sobre todas as

empresas de factoring, as informações de crédito sobre os diversos sacados se

encontram um tanto dispersas. A falta de um órgão de análise de crédito faz com

que haja uma dificuldade muito grande sobre a avaliação de crédito dos diversos

sacados e, conseqüentemente, uma elevação do grau de risco destes.

A impossibilidade de separar os bons pagadores dos maus pagadores de

maneira global causa uma série de custos para o setor que poderiam ser evitados. A

instituição de um órgão centralizador poderia fazer com que as informações de

crédito fossem consolidadas e distribuídas de maneira a aumentar a eficiência do

setor no que diz respeito à qualificação dos diversos créditos.

O sistema de análise de crédito que será implementado nas empresas

analisadas deverá compreender a união dos bancos de dados no quesito de

qualificação dos créditos. Uma maior abrangência poderá ampliar o universo de

empresas atendidas e previamente analisadas, o que poderá melhorar as condições

de análise de crédito. Este sistema será detalhado mais adiante.

A análise de crédito de uma carteira de factoring deve abranger desde a

análise subjetiva como também a análise quantitativa. Desta forma, a adoção de


49

políticas e procedimentos para a analise de crédito se torna essencial para a

padronização do sistema e das informações que deverão ser inseridas ou retiradas

deste.

Como a empresa de factoring está sujeita tanto ao risco do sacado como

também do cedente, esta deve utilizar a avaliação de crédito para as duas partes a

fim de mensurar o efeito que a má situação financeira da empresa possa estar

gerando.

6.2. ANÁLISE MATRICIAL

A análise matricial será elaborada seguindo o modelo anteriormente

apresentado. A metodologia que será abordada a seguir deverá ser utilizada nas

empresas onde o modelo da avaliação de crédito para empresas de factoring for

aplicado.

6.2.1. CENÁRIOS MACRO-ECONÔMICOS

Os cenários deverão ser elaborados pelas diretorias das empresas. Cada

diretor irá estabelecer quais são os três cenários para a empresa no futuro e a

probabilidade de ocorrência de cada um deles. Estes cenários serão apresentados

aos seus colegas e deverão ser rediscutidos até a chegada de um senso comum. Os

três possíveis cenários para a diretoria da empresa serão apresentados como o

“Mais Provável”, o “Desfavorável” e o “Favorável”.


50

A cadência de elaboração dos cenários macro-econômicos deverá ser

trimestral, podendo ser revista mensalmente. Como as variáveis que determinam os

cenários são menos voláteis, pode-se utilizar uma cadência de reavaliação maior.

As variáveis analisadas nestes cenários serão as seguintes:

• Taxa de Juros Básica da Economia (SELIC);

• Taxa de Inflação para o Trimestre;

• Taxa de Inadimplência;

• Índice de Atividade Econômica;

Uma vez determinadas as projeções destas variáveis, estas serão repassadas

para os gerentes e analistas de crédito que basearão suas análises nestes

informações. Este relatório deverá ser trabalhado de maneira a tornar as

informações inteligíveis a todos os funcionários a quem ele se dirige.

6.2.2. PESOS DAS VARIÁVEIS

Os pesos das variáveis do modelo matricial, assim como os cenários, serão

determinados pela diretoria da empresa. Estes pesos serão responsáveis pela

determinação das linhas gerais do modelo matricial. Cada variável terá seu peso

determinado e será associada ao C do crédito ao qual esta corresponde.


51

Através da realização conjunta da diretoria das duas empresas da factoring que

analisamos, chegamos ao seguinte modelo matricial:

Avaliação Matricial
Probabilidade dos Cenários
Peso Atributos Desfavorável Mais Provável Favorável
(Pessimista) (Conservador) (Otimista)
15% 60% 25%
3,00% Cadastro das Informações da Empresa
4,00% Avaliação de Fornecedores e Clientes
3,00% Pontualidade
5,00% Ocorrências no SPC / SERASA
3,00% Operações Anteriores
Caráter

3,00% Atuação na Praça no Curto Prazo


3,00% Atuação na Praça no Longo Prazo
3,00% Números Contábeis Auditados
3,00% Registros de Outras Empresas Dirigidas pelos Sócios
30,00% Total de Caráter
4,00% Capacitação Técnica dos Gerentes
3,00% Capacitação Gerencial e Modelo de Gestão
4,00% Gestão Financeira
Capacidade

3,00% Capacitação Tecnológica


3,00% Capacidade de Aportar Recursos
3,00% Estratégia Empresarial
20,00% Total de Capacidade
2,00% Endividamento
2,00% Endividamento Bancário
2,00% Nível de Faturamento
2,00% Evolução do Faturamento
2,00% Ciclo Financeiro
Capital

2,00% Liquidez
2,00% Rentabilidade
2,00% Efeito Tesoura
2,00% Nível de Títulos Comprados deste Sacado
2,00% Lucro Operacional
20,00% Total de Capital
3,00% Imóveis
5,00% Veiculos
Colateral

5,00% Investimentos em TVM


2,00% Outras Empresas dos Sócios
15,00% Total de Colateral
2,00% Posicionamento em Relação à Concorrência
2,00% Poder de Negociação em Relação aos Clientes
Condições

2,00% Poder de Negociação em Relação aos Fornecedores


2,00% Capacidade de Adaptação ao Ambiente Econômico
2,00% Regulamentação do Setor
10,00% Total de Condições
2,00% Influência do Grupo nos Resultados da Empresa
Conglomerado

1,00% Poder do Grupo de Garantir a Empresa


2,00% Situação Financeira de Outras Empresas dos Sócios
5,00% Total de Conglomerado
100,00% Total Final

6.2.3. APLICAÇÃO DO MODELO MATRICIAL


52

Com os cenários em mãos, os analistas de crédito serão responsáveis por

recolher todas as informações cadastrais e necessárias para iniciar a avaliação de

crédito. Estas informações serão dispostas conforme foi apresentado no item

anterior.

As notas dadas para a empresa analisada em cada quesito serão a base de

cálculo da nota média da empresa. Estas notas deverão variar entre 0 e 10.

No caso dos itens subjetivos, as notas serão dadas conforme a avaliação do

analista de crédito, nos casos em que os itens são quantitativos, a avaliação será

feita conforme um ranking das empresas que já foram avaliadas anteriormente. A

empresa que possuir o melhor índice apresentará a nota 10 enquanto a empresa

que possuir o pior índice apresentará a nota 0. Uma vez que a empresa se localiza

entre estas duas notas, ela será disposta linearmente dentro deste universo e terá

sua nota determinada.

Uma vez levantadas as variáveis listadas, o programa de avaliação de crédito

irá calcular a nota média do título a ser comprado. Esta nota será subtraída do

desvio padrão da amostra atingindo o patamar mínimo de 0 (zero). Este índice é o

que servirá de base para o estabelecimento do rating apropriado e também do risco

da operação.
53

6.3. RELAÇÃO ANÁLISE MATRICIAL VERSUS RATING

Em uma avaliação conjunta das notas de todos os sacados que foram

avaliados pelas empresas estudadas, e associando estas notas ao histórico das

empresas, chegamos à seguinte relação entre o risco de crédito e a nota nos

quesitos avaliados:

Relação Risco de Crédito - Nota


Probabilidade de
Nota Risco de Crédito
Recebimento
8,43 0,00% 100,00%
7,93 0,50% 99,50%
7,47 1,00% 99,00%
6,39 3,00% 97,00%
5,89 10,00% 90,00%
4,20 30,00% 70,00%
3,19 50,00% 50,00%
2,32 70,00% 30,00%
0,00 100,00% 0,00%
Fonte: Banco de Dados das Empresas Analisadas

Uma vez que este risco de crédito foi determinado, pela relação entre rating e

risco de crédito que determinamos anteriormente, podemos estabelecer a seguinte

relação entre notas e rating.


54

Relação Nota - Rating

Nota Mínima Rating


8,43 Nível AA
7,93 Nível A
7,47 Nível B
6,39 Nível C
5,89 Nível D
4,20 Nível E
3,19 Nível F
2,32 Nível G
0,00 Nível H

Estes ratings serão úteis para que os analistas de crédito possam avaliar as

empresas de maneira simplificada, mas sem perder os critérios da análise de crédito

previamente realizada.

6.4. RISCO E PROBABILIDADE DE LIQUIDAÇÃO DA CARTEIRA

Através das notas de todos os títulos da empresa em estudo, pode-se

determinar a probabilidade de liquidação da carteira média, assim como o desvio

padrão apresentado. Esta média e desvio padrão servirão de base para o cálculo do

V@R da carteira e também para controle da empresa em termos de níveis de risco e

retornos esperados.

As empresas avaliadas, em conjunto, apresentaram uma carteira com uma

probabilidade média de recebimento da carteira de crédito de cerca de 92,76 %, com

desvio padrão de cerca de 8,41% e valor médio por título de cerca de R$ 357,21.

Esta probabilidade foi estabelecida sobre a aplicação do modelo matricial sobre os

6756 títulos das empresas que totalizam os cerca de R$ 2.413.329,88 em carteira.


55

6.5. VALOR EM RISCO DA CARTEIRA DE FACTORING

A aplicação da teoria do V@R às empresas de factoring objeto deste estudo

gerou os resultados que serão apresentados a seguir. Cada empresa foi informada

sobre a posição atual de sua carteira de crédito e esta foi reavaliada com o objetivo

de estabelecer o nível de risco adequado para as suas operações.

A Delta Amika Factoring Fomento Comercial apresenta, atualmente, cerca de

R$ 976.426,32 em títulos provenientes de compras de direitos creditórios de seus

clientes. Estes títulos apresentam uma probabilidade média de recebimento de seus

títulos de cerca de 94,37% com desvio padrão de cerca de 8,23%. Para o cálculo do

V@R da empresa, iremos adotar esta média e desvio padrão e adaptá-los a sua

curva normal de probabilidades.

Os diretores da empresa definiram como intervalo de confiança adequado o

patamar de 95% de certeza, o que é associado a um índice Z de, conforme

apresentado anteriormente, de 1,64 vezes o desvio padrão.

V @ R( Ativo, p ) = P( Ativo ) + Z ( p ) × S ( Ativo )

Pela aplicação da equação acima, temos que:

V @ R(CarteiraDelta ,95%) = 976.426,32 + 1,64 × 8,23% = 131.790,21


56

A direção da empresa considera este valor adequado diante do histórico das

operações da organização. O patamar de cerca de 13,5% da carteira em risco

dentro dos limites aceitáveis apesar de haver o desejo da redução deste patamar

para cerca de 12,5%. Isso será possível através da compra de títulos de melhor

qualidade para a redução do risco da carteira da empresa.

A Tetrafac Fomento Mercantil apresenta uma carteira de títulos que totaliza

cerca de R$ 1.436.903,56. Esta carteira apresenta a probabilidade média de

recebimento de 91,67%, com desvio padrão de cerca de 8,54%.

Através da aplicação da teoria de V@R para esta média e desvio padrão com o

intervalo de confiança de 95%, temos que o valor em risco da carteira é de

R$201.236,20, ou 14,00% da carteira total da empresa.

A direção da organização manifestou claramente o desejo em reduzir este valor

para cerca de 10% no curto prazo, o que implicará, diretamente, na melhoria da

qualidade dos títulos comprados na carteira, através da liquidação dos títulos de

baixa qualidade, com aumento da participação em carteira dos títulos com rating

superior.
57

7. GLOSSÁRIO

CEDENTE: Consiste no cliente da empresa de factoring. É a empresa que

solicita os serviços de factoring, vendendo um determinado título para a factoring

“cedendo” os direitos creditícios a esta.

SACADO: Consiste na empresa objeto da venda de título. É a empresa

devedora da cessão de crédito entre o CEDENTE e a FACTORING.

DUPLICATA: É o título objeto de uma negociação de factoring. Representa

uma venda a prazo do CEDENTE para o SACADO, sendo uma “duplicata” da nota

fiscal de venda.

FACTORING E FOMENTO MERCANTIL: São sinônimos para a atividade de

factoring no Brasil, a qual foi anteriormente explicada.


58

8. CONCLUSÕES

Este trabalho procurou identificar as linhas gerais que regem o mercado de

factoring para que fosse possível elaborar as políticas de análise de crédito mais

adequadas a este mercado. Para a execução deste trabalho, foi executada uma

pesquisa bibliográfica acerca da literatura que existe acerca de dois assuntos, o

mercado de factoring e a análise de crédito. Apesar de a literatura sobre o mercado

de factoring ser relativamente escassa, o material consultado e as empresas

entrevistadas forneceram material adequado para a análise do mercado e sobre as

suas diretrizes.

Uma vez obtidos os subsídios e as bases conceituais necessárias para a

elaboração do modelo de crédito proposto, foi analisado o relacionamento entre o

mercado de factoring e as teorias existentes de análise de crédito. A conclusão que

o autor chega é que as teorias abrangem suficientemente o mercado de factoring e

que as adaptações que devem ser feitas são relacionadas a algumas

particularidades que encontramos neste mercado.

A conclusão a que se chega é que a adoção de uma política de crédito em uma

empresa de factoring, assim como para qualquer outra, é extremamente relevante

para a sua sobrevivência no atual contexto econômico, caracterizado por elevados

níveis de inadimplência e também de taxas de juros.


59

O modelo proposto tem como objetivo a redução dos riscos aos quais as

empresas de factoring estão sujeitos, através de análise quantitativa e qualitativa

mais adequada. Os resultados preliminares não são suficientes para quantificar a

eficiência do modelo proposto, uma vez que sua eficiência é dependente do decorrer

do tempo e das operações das empresas em que foi aplicado. Mesmo assim,

entrevistas com os administradores das empresas em que o modelo foi aplicado

indicam que este foi capaz de poupar tempo dos funcionários, possibilitando que

estes se dedicassem mais às tarefas que agreguem maior valor para a empresa.

Isso aumentou a eficiência das operações e também do desempenho financeiro da

empresa.

A opinião do autor é de que a regulamentação do setor, a qual traria maior

clareza sobre as operações de factoring, poderia também abranger um sistema de

avaliação de crédito integrado. O órgão regulador poderia solicitar determinadas

informações às empresas de factoring que poderiam facilitar a avaliação de crédito.

Essa facilitação poderia reduzir os custos de avaliação de crédito e também o risco

das operações de compra de títulos. Desta forma, a eficiência do mercado como um

todo poderia apresentar melhorias, o que daria espaço para um maior lucro dos

operadores de factoring, uma redução do custo de capitação de recursos de curto

prazo para as pequenas e médias empresas e ainda uma maior flexibilidade para a

arrecadação governamental.
60

9. BIBLIOGRAFIA

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Caso do Modelo KMV Adequado ao Mercado Brasileiro. Orientado José Roberto

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