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Um olhar sobre o guerreiro: a avaliação social na Ilíada, a partir do Canto I e Canto IX.

Rosângela S. B. Gonçalves
UFRJ – Letras-Hebraico/Grego

A questão da avaliação social e de como o olhar do outro influencia sobre a vida do


indivíduo é algo já discutido e verificado ao longo da história da humanidade. O trabalho aqui
apresentado visa tratar deste assunto a partir da epopeia de Homero – a Ilíada – traçando um
paralelo entre os Cantos I e IX.
Escolhemos os textos dos Cantos I e IX, da Ilíada para falarmos do valor proeminente
do indivíduo, a saber, a sua honra (timé), a partir da epopeia de Homero. O homem desta
época precisava demonstrar que merecia fazer parte dos áristoi, dos melhores. O homem deste
tempo de Homero (e por que não dizer também, o homem de nossos dias) dá principal
importância em ser aquilo que o outro diz que ele é. Exige-se a sua coragem (andréia); que ele
seja o kalós kai agathós: referencial de homem belo, forte e corajoso, com sensibilidade
(sophrosine), afinal espera-se sempre algo do outro. Se tratasse de um guerreiro, sua honra
poderia ser heróica, como a de Aquiles, que trazia sobre si certo tipo de avaliação social. Já, se
fizesse parte da aristocracia poderia carregar sobre si uma honra social, devido à sua
hierarquia, aos privilégios e honras que têm direito de exigir por conta da sua posição elevada,
como é o caso de Agamêmnon. Havia sempre uma competição em busca da glória sendo esse
um requisito básico para a elevação ou não da avaliação social feita por cada um dos
indivíduos: seus atos e palavras falam mais alto. São estas as motivações que o levam a entrar
nas pelejas. Ele existe por este olhar do outro (VERNANT, 2002, p.407).
O evento desencadeador da ira de Aquiles, que acaba por determinar o destino da
guerra dos exércitos Aqueus contra Tróia, é descrito no Canto I da Ilíada. Agamêmnon decide
tomar Briseide, geras de guerra conquistada por Aquiles, já que fora obrigado a devolver
Criseide, filha do sacerdote de Apolo, Crises. Em uma sociedade de confronto, tal ofensa
pública fere a reputação e a dignidade do guerreiro. Agamemnon precisa retratar-se, caso
contrário, a timé de Aquiles, juntamente com seu lugar na hierarquia e os seus privilégios
estariam em xeque. Aquiles não é o melhor exemplo do kalós kaí agathós. Ele é só andréia.
Age por impulsos; não tem sophrosine; não se importa em ver seus irmãos aqueus morrendo
na guerra (IX, 630-642)1. É tomado de hibris (desmedida). Não possui por completo as
virtudes e a nobreza de alma semelhantes ao ideal grego do homem completo, mas possui a

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Optamos por referenciar as citações desta forma, a saber: o número romano refere-se ao canto no qual
aparece a citação e os números arábicos, os versos onde está inserida.
honra heróica. Sua avaliação social está a ponto de ser questionada e é justamente isso que ele
não quer. Sabe que está condenado a uma vida curta, mas não se importa:

Mãe, já que vida de tão curto prazo me deste, seria justo que ao menos tivesse
honras muitas de Zeus poderoso que no alto troa! (I, 352-354);
Tétis, a deusa dos pés argentinos, de quem fui nascido, já me falou sobre o
dúplice Fado que à Morte há de dar-me; se continuar a lutar ao redor da cidade de
Tróia, não voltarei mais à pátria, mas glória hei de ter sempiterna; se para casa
voltar, para o grato torrão de nascença, da fama excelsa hei de ver-me privado,
mas vida mui longa conseguirei, sem que o temor da Morte mui cedo me alcance
(IX, 410-416).

“A bela morte” não é morrer na velhice, pois essa é feia e degradante. O velho tem
como quinhão a sabedoria. O quinhão dos velhos é a sabedoria:

[...] alça-se o velho Nestor, o orador delicioso dos Pílios, de cuja boca fluíam,
mais doces que o mel, as palavras [...] Ora, atendei-me, que muito mais moços
do que eu sois, sem dúvida. Já convivi noutros tempos, com mais vigorosos
guerreiros do que vós ambos; no entanto, nenhum inferior me julgava (I, 248-
260).

O quinhão dos jovens é a “bela morte” que lhes dá glórias. A morte sangrenta em
batalha é honra para os jovens (VERNANT, 2002, p.412).
A honra, para Aquiles, era se jogar todo dia na guerra. Vêde! Nenhuma vantagem me
veio de tantos trabalhos, a pôr em risco a existência nos mais temerosos combates (IX, 321-
322). Buscava incansavelmente a glória imperecível – kléos aphthiton. A saudade imortal –
photos athánatos2 estará presente na vida de quem se espelhar nele. Este é o motivo pelo qual
entra em uma guerra que não é sua: morrer jovem em combate e ser lembrado eternamente.

Não foi por causa dos fortes troianos que eu vim para Tróia, para guerreá-los,
pois nunca motivo para isso me deram. Deles, nenhum das manadas um boi me
roubou, nem cavalos, nem no terreno de Ftia, nutriz de guerreiros, tampouco,
minhas colheitas destruíram, pois grandes montanhas escuras e o vasto mar
sonoro entre nós de permeio se estendem (I, 152-157).

Aquiles despreza o tipo de honra que Agamêmnon quer para si. Este tem a honra social
adquirida por conta da sua hierarquia, pelo cetro que o Divino Crônida, Zeus, lhe deu. Não
conquistou honras em batalhas lutadas por ele. Preocupa-se somente com o seu trono: Nem tu,
Pelida, presumas que podes, assim, antepor-te ao soberano, porque sempre toca por sorte
mais honras ao rei que o cetro detém, a quem Zeus conferiu glória imensa (I, 277-279).
Aquiles não quer reinar sobre homens, mas irrita-se com a honra desigual entre ele e seu rival.

2
Termo cunhado a partir do século V pelo sofista Górgias.
O Pelida, de pés velozes, entrega-se às pelejas, mas a honra, no final, vai para o rei que não
lutou nas primeiras fileiras como os outros aqueus.

Nunca meu prêmio se iguala ao que obténs [...]. É bem verdade que a parte mais
dura dos prélios sangrentos a estes meus braços compete; mas quando se passa à
partilha, sempre o quinhão mais valioso te cabe, enquanto eu me contento com
recolher-me ao navio, alquebrado, com a paga mesquinha (I,163-168).
[...] pois graça nenhuma me veio de meu esforço incessante ao lutar contra os
nossos imigos [sic]. Tanto ao ocioso, que ao mais esforçado, iguais prêmios são
dados; as mesmas honras se outorgam ao fraco e ao herói mais galhardo (IX, 316-
319).

No crivo da avaliação social desta sociedade épica, para ser rei, preciso seria mostrar-
se heróico. De Zeus, o atrida, recebeu o cetro do poder, mas não veio junto a força e a
coragem de que tanto precisava para consolidar-se entre os aristoí e entre os aqueus sobre
quem liderava. Fazendo-se valer do princípio da isogoria, tanto Aquiles como Diomedes
expõem a avaliação social que não só eles, mas todos os argivos fazem do protegido de Zeus:

Bêbado, que tens a vista do cão e a coragem do veado, nunca a armadura


envergaste para ir combater como os outros, nunca às ciladas te atreves, ao lado
dos nobres Aquivos, que no imo peito tens medo pois sabes que a Morte te espera
(I, 225-228).
Foste o primeiro a acoimar-me de fraco, na frente dos Dânaos, de ser imbele e de
pouco valor. Mas, sobre isso, os Argivos, tanto os anciões como os moços, já têm
idéia formada. Zeus poderoso, nascido de Crono, negou-te uma dádiva: deu-te,
sem dúvida um cetro, o mais alto penhor de comando, mas não te deu a coragem,
sem dúvida a força mais nobre (IX, 35-39).

O Canto I e o canto IX nos retratam uma civilização preocupada com a honra; o valor
do olhar sobre o indivíduo, que influencia em suas tomadas de decisões. É este olhar que o
atira na guerra, pois sabe que sobreviverá na memória dos homens que estão por vir; no canto
dos aedos, de geração em geração. É por este olhar que ele luta.
Os meros mortais de Homero empenham-se por duas formas de vida, uma, breve e
gloriosa, devida aos heróis, outra longa, declinante e sem glória, destinada aos meros mortais.
Buscam duas honras, a de Aquiles, a honra heróica, ou a de Agamêmnon, a honra social, a
honra do Estado. Lançam-se a duas mortes: a “bela morte”, que confere brilho e valorização
ao jovem, e a morte feia, degradante e vergonhosa que cabe ao velho (VERNANT, 2002,
p.412). Eram assim as lutas; era por isso que se valia lutar. O guerreiro cai em batalha, mas
obtém um estatuto especial: a mortalidade e a imortalidade. O que interessa, então, é lançar-se
totalmente, sem reservas à Morte, sabendo que a ti caberá o viver sempre, através do olhar do
outro, quando este outro se esmera por identificar-se nele, conquistando a “glória
imperecível”, “a partir da saudade imortal”.
Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer,
fica ele só, mas se morrer, produz muito fruto” (Evangelho de João, 12.24).

Referências Bibliográficas:

HOMERO Ilíada (em versos). Trad. Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
VERNANT, Jean-Pierre. Entre mito e política. São Paulo: Edusp, 2002.