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A LEITURA COMO PROCESSO INTERTEXTUAL O constrangimento positivo António Fernando Cascais Departamento de Ciências da Comunicação, Universidade Nova de Lisboa

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O processo de leitura realiza o sentido de um texto. A pragmática não pode porém dar cabalmente conta dos fenómenos de cooperação textual cuja descrição, por Wolfgang Iser, permite compreender que o texto fornece ao leitor as condições fundamentais da sua leitura mediante a constituição, no seu interior, de um leitor implícito, tornan do-se assim o leitor uma estrutura textual e a leitura um acto estruturado. A indeterminância textual aponta, por um lado, para uma fuga tendencial ao sentido que impede que se fixe ao texto uma verdade última, prolongando por outro lado, no processo de leitura, a transformacionalidade que caracteriza o próprio texto. O texto constrange positivamente ao jogo intertextual em que se dá à leitura, deste modo remetendo o leitor para a textualidade característica de toda a experiência.

«La lecture fait seulement que le livre, l¶oeuvre, devienne ± devient ± oeuvre pardelàl¶hommequil¶aprod uite, l¶expériencequis¶y est exprimée et mêmetouteslesressour cesartistiques que lestraditionsontrendue sdisponibles. Le propre de lalecture, sasingularité, éclairelesenssingulierd uverbe µfaire¶ dansl¶expression: µelle fait que l¶oeuvredevientoeuvre¶ .» Maurice Blanchot, L¶espacelitté raire

Não é nova a ideia de que o processo de leitura realiza o sentido de um texto. Ideia cara a Sartre que, em «Qu¶est-ce que lalittérature», sublinha o apelo que o texto dirige ao leitor para que este faça passar à existência objectiva o desvelamento que pressupõe o compromisso do autor com a escrita, ideia não menos valorizada por um outro crítico-escritor, Maurice Blanchot, para quem a leitura «faz com que a obra se torne obra» (Blanchot, 1982 [3], p. 257). Do mesmo modo, para Gadamer, a obra literária apela essencialmente à leitura e «o conceito de literatura não é inteiramente desprovido de referência àquele que recebe a obra» (Gadamer, 1 976, p. 91), ideia por sua vez central na Estética da recepção de Hans Robert Jauss. Será porém Umberto Eco quem se terá debruçado mais atenta e longamente sobre o problema da cooperação textual, concebendo-o no quadro de uma dupla Pragmática do código e do texto. Para Eco, o texto é expansão de um semema: «numa semântica orientada para as suas actualizações textuais o semema deve aparecer como um texto virtual, e um texto não é outra coisa senão a expansão de um semema» (Eco, 1979, p. 26), cabendo ao leito colaborar na r sua expansão semiósica. O texto aparece como extracodificado, a um tempo hipercodificado ±

p. 26). a abdução estética representa a proposta de códigos que tornem o texto compreensível numa dialéctica de fidelidade e de liberdade interpretativas que constitui uma experiência que não pode ser prevista nem totalmente determinada e que decorre da estrutura multinivelar. deve encontrar-se em condições de conceber um Autor-modelo mediante um percurso inferencial que propõe «topics» que lhe permitam identificar. além de muito próximas. autor. pelo menos parcialmente. «aberta». p. por sua vez. e devido ao terreno dúctil para o qual remete. A cooperação textual realiza-se assim entre duas «estratégias discursivas ± de escrita e de leitura ±. como lhe chama Eco. movendo-se interpretativamente da mesma maneira que ele. apenas. 1976. particularmente interessantes se as articularmos com a notável perspectivação que Wolfgang Iser nos dá das questões levantadas pela cooperação textual e a leitura. O leitor. na       . 121). ora sendo o emissor ora o destinatário que colabora na sua expansão semiósica» (Eco. possa gerar exclusivamente as interpretações que a sua estratégia previu. por outro lado. 233). aliás. porém. a circularidade intertextual não deve. agenciando o texto de tal modo que. Veremos adiante que a problemática da leitura envolve muito mais que os simples efeitos da obra. «desencorajar uma investigação rigorosa: o problema consiste. 57). um Sistema Semântico Global ideal que precede todas as suas actualizações textuais e sem o qual não seria possível a uma sociedade registar uma informação enciclopédica. em contrapartida. o modelo estrutural de um processo não estruturado de interacção comunicativa« O texto estético torna-se assim fonte de um acto comunicativo imprevisível. sendo ele potencialmente infinito. em termos de produtividade teórica. metatextualmente. A compreensão do texto baseia -se. para Eco. A cooperação requerida pelo processo textual da semiose ilimitada levanta o problema da não coincidência das competências do destinatário e do emissor. p. do próprio texto. da complexidade dos fenómenos de cooperação textual que concentraram a atenção do autor d¶ A obra aberta e a quem se deve. 233). Finalmente. em estabelecer processos rigorosos para dar conta desta circularidade» (idem. 1979. São já clássicas as ideias de écriture» de Derrida e de mot d¶ordre» de Deleuze. os efeitos perversos de uma interpretabilidade ilimitada por parte do leitor: «a obra de arte é um texto que é adaptado pelos seus destinatários de modo a satisfazer vários tipos de actos comunicativos em diversas circunstâncias históricas e psicológicas. uma vez que ela teria de ser fornecida por textos precedentes ± «a enciclopédia ou thesaurus é o destilado (sob a forma de macroproposições) de outros textos» (idem. Eco recolhe de Peirce o conceito de abdução como modalidade de inferência privilegiada que trabalha um texto ora concebido como modelo de relação pragmática: «A definição semiótica do texto estético provê. não entre dois sujeitos individuais. a estratégia de escrita que corporiza o texto. pois. e hipocodificado ± apresentando porções macroscópicas que o leitor começa por admitir como unidades pertinentes de um código ainda em formação de modo a atribuir-lhes novas funções sígnicas. p. A competência deste deve reger. se moveu generativamente. p. incontroláveis: o idiolecto estético age como seu disciplinador e limita. «um texto é um produto cujo destino interpretativo deve fazer parte do seu próprio mecanismo generativo: gerar um texto significa actuar segundo uma estratégia que inclui as previsões dos movimentos do outro» (Eco. O leitor deve sair do texto e a ele regressar com um reservatório intertextual que lhe é proporcionado por uma enciclopédia semântica ou. 1976.apresentando dados não contemplados pelo código preexistente que obrigam o intérprete a avançar hipóteses interpretativas. «numa dialéctica de aceitação e repúdio dos códigos do emissor e de proposta e controlo dos códigos do destinatário» (idem. 26). A cooperação textual: semântica ou pragmática? A Pragmática tradicional não pode porém dar conta. alargando a sua competência ±. Deste modo. sem nunca perder de vista a regra idiolectal que a rege» (idem. As críticas de Jacques Derrida e de Gilles Deleuze aos limites da pragmática. cujo autor permanece indeterminado. se «uma teoria semiótica não pode negar que existem actos concretos de interpretação que produzem sentido (Eco. p. a este respeito. 1. parecem-nos. O autor deve prever um Leitor-modelo capaz de cooperar na actualização textual. 233). abdutiva. p. As linhas de fuga que essa estrutura precipita não são. a competência do destinatário. e que atrás foram sumariamente descritos. uma das primeiras e mais interessantes rupturas com as visões puramente pragmaticistas» dos efeitos da obra literária.

corporizada na performancecomunicativa que é todo o acto de discurso. commepotentialités ou commesurgissementseffectifs. no reenvio da linguagem a um eventual exterior (o enunciado a um significante. antes corresponde à natureza de toda a comunicação. falamos as coisas. cetteiterabilité de la marque n¶est pasunaccident ou une anomalie. Unagencement d¶énonciationne parle pasdeschoses. Austin e Searle tinham aliás excluído a linguagem literária de uma possível análise pragmática por a ¡ ¡ ¡ ¡ ¡ ¡ ¡ ¡ . mediante convenções. e que Searle desenvolveu. il n¶est pas communication d¶information. Entre o enunciado e o acto há uma relação de redundância que circunscreve o próprio conceito de palavra-de-ordem: «Nousappelonsmots d¶ordre ( ) lerapport de tout mot ou tout énoncéavecdesprésupposésimplicites. uma disseminação nunca saturada que é também o conceito de escrita. o seu horizonte apresenta-se já escrito. por definição. cetteduplication ou duplicité. A palavra comunicação. compresentes a todo o discurso. etlesmots d¶ordrerenvoientauxagencements. sessauts et mutations» (idem. Para Austin. mas com uma função diferente: o sucesso de uma acção linguística depende da resolução das indeterminâncias ( indeterminacies»). p. p. fairelediagrammedesmachinesabstraitesmisesenjeudanschaquecas. Toda a marca se constitui em escrita («écriture») antes mesmo e exteriormente a todo o horizonte semio-linguístico. La linguistique n¶est rienendehors de lapragmatique (sémiotique ou politique) quidéfinitl¶effectuation de laconditiondulangage et l¶usagedeséléments de la langue» (idem. Il n¶y a pas d¶énonciationindividuelle. à semiótica ou à linguística. mais parle à mêmedesétats de contenu» (idem. des-ontologizada ± La fonction-langage est transmission de mots d¶ordre. A pragmática terá deste modo por objecto as componentes (quatro. cequi est trèsdifférent. as noções de locução e de perlocução não designam o transporte de um conteúdo de sentido mas a produção de um efeito. procedimentos. p. transformacional. transmission de mots d¶ordre. commelesagencementsauxtransformationsincorporellesquiconstituentlesvariables de lafonction.sequência das críticas a Austin e a Searle. c¶estce (normal/anormal) sansquoi une marque ne pourraitmêmeplusavoir de fonctionnementdit µnormal¶» (Derrida. 100). nimême de sujet d¶énonciation» (idem. não há para esses textos os feixes de referência que existem para os discursos quotidianos. dirá ainda Derrida. soit à l¶intérieur de chaqueénoncé. 183). 1979b. fairela carte transformationnelledes régimes avecleurspossibilités de traduction et de création. diagramática e maquínica) da linguagem encarada como máquina abstracta: L¶ensemble de lapragmatiqueconsisteraitenceci: fairele calque dessémiotiquesmixtesdanslacomposantegénérative. que formam o feixe de referências dentro do qual o acto de fala pode ser resolvido num contex de acção. Iser afirma que a linguagem da literatura se assemelha ao modo do actoilocutório. avecsesalternatives. com o que aliás Derrida não discorda. 109). Muito próximo(s) de Derrida. c¶est à direavecdesactes de parole quis¶accomplissentdansl¶énoncé et ne peuvents¶accomplirqu¶enlui» ( idem. designa igualmente movimentos não semânticos. sem nunca podermos obter verdadeira resposta: as variações de expressão não se devem a hipotéticas alterações dos estados de coisas. 1106). A pragmática é uma política da língua» e não se limita a um resíduo de uma linguística que não pode continuar a insistir nas constantes fonológicas. Por seu lado. p. traduzindo-se de imediato esse agenciamento colectivo por uma transformação incorporal precipitada pela palavra de ordem e mediante a qual os corpos individuais têm acesso à linguagem assim des-substancializada. o conceito de comunicação não é porém puramente semiótico ou linguístico: o performativo é uma «comunicação» que não se limita a transportar um conteúdo semântico já constituído. a enunciação é agenciada colectivamente. garantias de sinceridade. abre a um campo semântico que não se limita à semântica. 101). de bourgeonnementsurles calques. 381). não delas. os textos to literários também requerem a resolução das indeterminâncias mas. a comunicação de uma força pela impulsão de uma marca. A comunicação possui um carácter grafemático. a enunciação a um sujeito. 1980. escritural. baseando-se também na teoria dos actos de fala de Austin. previamente ao ± e como condição do ± processo que a linguística descreve como a constituição em signo. a trocar duas intenções de querer-dizer. p. Deleuze (com Guattari) afirma(m) que «lelangage n¶est niinformatifnicommunicatif. faireleprogrammedesagencementsquiventilentl¶ensemble et fontcirculerlemouvement. para Deleuze/Guattari: generativa. p. a conectar duas consciências. externos). Falamos às coisas. Significação e comunicação têm assim uma natureza fundamental citacional: «Cettecitacionnalité.) A palavra-de-ordem não reenvia à simplicidade de uma voz de comando» emanada da consciência de um sujeito. ibid. morfológicas ou sintácticas. soit d¶unénoncé à unautre. mais. entantqu¶unénoncéaccomplitunacte et que l¶actes¶accomplitdansl¶énoncé» (Deleuze e Guattari.

O texto age sobre o real transformando os (outros) textos em que o real se dá. de todos os textos que constituem o real e que «este» texto particular desloca. It relates to conventions which it carries with it. lt has the quality of µperformance¶. iniciando assim o processo pelo qual o leitor estabelece o sentido do texto. isto é. uma deformação coerente («coherentdeformation») que aponta para a existência de um sistema de equivalências a ele subjacente e que é em larga medida idêntico ao que se chamou valor estético. que para Iser principia justamente quando «despragmatiza» as convenções seleccionadas pelo texto. the reader cannot detach himself from such an interaction. cumprindo-se deste modo a função textual mediante o envolvimento do leitor que actualiza a realidade potencial do texto. it takes on an illocutionary force. isto é. tendo como resultado o re-arranjo e a redisposição dos modelos de sentido existentes. que se passará a designar realização. O texto literário é constituído por signos icónicos que não denotam as qualidades de um objectoextra-literário empiricamente dado mas sim o próprio signo. as condições de concepção e percepção que habilitam o observador a constituir o objecto visado pelo signo. equally clearly. p. p. como uma escrita legível. O texto apresenta. ou melhor. 61-62). Os signos icónicos fornecem instruções ao leitor. A leitura como processo intertextual: o constrangimento positivo. 9). and it also entails procedures which. in the form of strategies. segundo Iser. on the contrary. and the potential effectiveness of this not only arouses attention but also guides the reader¶s approach to the text and elicits responses to it» (Iser.considerarem vazia desse ponto de vista. antes representa uma reacção aos sistemas de pensamento que incorporou no seu próprio repertório. fornece ao leitor as condições fundamentais da sua leitura. que poderiam chamar-se estratégias textuais. induzindo-o a reconstruir o objecto representacional que é o texto. in the form of thought systems or models of reality» (Iser. Emsuma: «fictional language has the basic properties of the illocutionary act. Iser diz-nos que o texto literário é um sistema que partilha a estrutura básica de todos os sistemas em geral. processo este que corresponde à própria natureza da acção performativa. Embora não deixe de ter a sua dimensão pragmática própria. «Herein lies the unique relationship between the literary text and µreality¶. 72). O texto não copia esses sistemas nem se desvia deles. O sentido tem pois de serestabelecido no processo de leitura: «if meaning is imagistic in character then inevitably there must be a different relationship between text and reader from that which the critic seeks to create through his referential approach. in that it makes the reader produce the code governing this selection as the actual meaning of the text. O valor estético é aquilo que não é formulado pelo texto nem dado no repertório mas cuja existência se prova a partir da necessidade do seu efeito. Iser serve-se aqui do conceito de disponibilidade textual («textual availability») que toma de Philip Hobsbaum: o texto apresentase deficientemente disponível ao leitor na medida em que lhe serve para aumentar o grau de projecção das suas próprias normas. As componentes básicas da realização performativa do texto literário seriam então. and its frustration of established expectations. as convenções necessárias ao estabelecimento de uma situação que poderiam ser melhor designadas por repertório do texto. reescreve. O texto oferece-se como legível. And. 1978. o que confirma a suspeita de que a uniformidade de . os procedimentos comummente aceites. na medida em que é ele que condiciona a selecção do repertório e induz ao movimento («drive») de leitura necessário ao processo de comunicação. estrutura operativa não em relação ao modelo ordenado de sistemas com o qual o texto interfere. pp. help to guide the reader to an understanding of the selective processes underlying the text. isto é. consequentemente. With this horizontal organisation of different conventions. 2. as quais. não invocando convenções e não se ligando com um contexto situacional que permita estabilizar o sentido das suas proposições e. como veremos. para Iser. sujeita a um uso não controlado. obrigando desse modo o leitor a descobrir os mecanismos de tal selecção. e a participação do leitor. não decorrem exclusivamente da sua provável unidade como texto isolado mas da natureza escritural de todo o «real». Such a meaning must clearly be the product of an interaction between the textual signals and the reader¶s acts of comprehension. the activity stimulated in him will link him to the text and induce him to create the conditions necessary for the effectiveness of the text» (idem. 1978. a transparência e eficácia dos seus efeitos pragmáticos. transforma.

ou para os quais envia no espaço dos textos (práticas semióticas) exteriores. Estrutura de efeitos (o texto) e estrutura de resposta (o leitor) sobrepõem-se de tal modo que a descrição da interacção entre o aspecto verbal do texto (que gu a reacção ia impedindo-a de cair no puro arbítrio) e o aspecto afectivo (que preenche aquilo que é préestruturado pela linguagem do texto) tem de incorporar ambas «themeaningof a literarytextisnot a definableentitybut. O texto literário contém instruções intersubjectivamente verificáveis para a produção de sentido preestruturando a recepção por parte do leitor. Uma vez que o sentido se ergue do processo de actualização da realidade potencial que o texto é. Pelo contrário. na medida em que não pode ser reduzida nem à realidade do texto (isto é. pelas personagens. de tal maneira que este é capaz de actualizar o potencial de significação nele contido de acordo com os seus próprios princípios de selecção. «The concept of the implied reader is [« ] a textual structure anticipating the presence of a recipient without necessarily defining him: this concept prestructures the role to be assumed by each recipient. e que consiste na capacidade que o texto possui de suscitar a cooperação activa. nem por outro lado à sua concretização na leitura ± ela é deriva. fixo) nem à subjectividade do autor. neste sentido. do leitor. confrontados. A obra tem um carácter virtual. O texto constitui no seu interior o que Iser chama um leitor implícito («impliedreader») que corporiza todas as predisposições necessárias para que o texto exerça o seu efeito e que não se confunda de modo nenhum com qualquer leitor real. chamar-se-á ideologema. ifanything. porquanto a todo o momento somos remetidos. O leitor torna-se assim uma estrutura textual e a leitura um acto estruturado. and this holds true even when texts deliberately appear to ignore their possible recipient or actively exclude him. A falta de disponibilidade deste condiciona aliás o que Iser chama a «consistency-building» ± e que nós optamos por traduzir como «estabelecimento de verosimilhança» ± que atravessa ambos os processos de escrita e de leitura. produtiva. p. p. será justamente a partir daqui que é possível definir a função da literatura. força-o a produzir o seu sentido em condições que estão fora dos seus hábitos: o interesse principal de um texto reside não no seu sentido mas no seu efeito. um eixo de deriva (simultaneamente convergência e dispersão) das perspectivas mutantes de algum modo formuladas no texto (pelo narrador. etc. de um possível sentido único. fornece as condições da sua legibilidade num processo nunca saturado. p.O ideologema é aquela função intertextual que podemos ler µmaterializada¶ nos vários níveis da estrutura de cada texto. Dá-se a ler. ao mesmo tempo que dá indicadores do seu valor estético. como assinala Iser. sendo essa a sua qualidade fundamental enquanto texto literário. a constante mutação das perspectivas que constitui o jogo cooperativo em que o leitor se envolve aponta para um crescente grau de indeterminância ( indeterminacy»): an µoverdeterminedtext¶ causes thereadertoengage in anactiveprocessofcomposition. O texto produz algo que ele não é.). 49). sobredeterminado. O leitor implícito emana da estrutura do texto em primeiro lugar porque se topologiza sobre um ponto de vista proeminente. because it ishewhohastostructurethemeaningpotentialarising out ofthemultifarious connections betweenthesemanticlevelsofthetext» (idem. do texto. na medida em que. p. 34). que claramente não pode ser idêntico ao produto final.sentido do texto se deve mais à projecçãocompresente a todo o processo de leitura do que propriamente a um conteúdo oculto. profundo. se este guarda ainda um resquício da ideia de fidelidade». É neste ponto que a teorização de Iser nos parece particularmente próxima do conceito de texto transformacional assim como do de ideologema de Julia Kristeva: A interacção de uma organização textual (ou de uma prática semiótica) dada com os enunciados (sequências) que ele assimila no seu espaço. which impel the reader to grasp the text» (idem. O texto é. É a sua própria transformacionalidade que abre» o texto à leitura. e que se estende ao longo de todo o seu trajecto. dando-lhe as suas coordenadas históricas e sociais» (Kristeva. a dynamic happening» (idem. a qual não se limitará ao percurso inferencial descrito por Eco. Thus the concept of the implied reader designates a network of response ± inviting structures. 22). 19). deve tê-lo. com uma fuga tendencial ao sentido de que o autor é o primeiro a aperceber se: - ¢ ¢ ¢ ¢ ¢ .actualizável no máximo à maneira de uma interacção entre texto e leitor. a nossa atenção deve debruçar-se preferencialmente sobre o processo que não sobre o produto: «It is in thereaderthatthetext comes tolife. O texto não apenas liberta o leitor da pressão da sua experiência normal. p. andthisistrueevenwhenthe µmeaning¶ hasbecomesohistoricalthat it is no longerrelevanttous» (idem. latente. 12). A performance de sentido precipitada pelo texto impede que o sentido desse mesmo texto se possa subsumir à sua eventual formulação explícita. 1984.

nas suas implicações. 1979a. Para Iser. A leitura refaz a intertextualidade característica do texto literário sem porém deixar intacto esse trabalho intertextual: prolonga o excesso (de sentido) que o texto já é. Uma primeira conclusão que poderemos extrair da proposta de Iser será justamente a de que o texto induz ao processo de leitura como estabelecimento do sentido na medida em que regista em si as marcas (ele próprio é uma macro-marca) do deslocamento e da transformação de outros textos a partir dos quais se constitui. de diferância ( différance»): o sentido do texto. o que enceta o movimento da significação é o que lhe torna a interrupção impossível sendo a própria «coisa» um signo. [ ] ilfautbienparler de trace originaire ou d¶architrace» (Derrida. à linguagem do real»). em que a força de um depara sempre com a resistência do outro. do duplo não formulado que subjaz ao texto (mas que não se confunde com o que foi chamado a sua estrutura profunda. A única experiência implicada pelo texto é a experiência do deslocamento intertextual que de algum modo o caracteriza e que é a própria experiência da escrita. o que não denota uma condição ontológica mas sim o que ele chama o carácter diádico da interacção (neste caso entre texto e leitor) e que nos parece. da verdade). la trace. o património de experiência do leitor pode sofrer uma reavaliação semelhante à contida no repertório. la µmort¶ ou lapossibilité de la µmort¶ dudestinataireinscritedanslastructure de la marque» (Derrida. imagem hoje clássica. visto que «la trace n¶est passeulementladisparition de l¶origine. andistheconditionthatenablesthereadertoconstructthemeaningofthetexton a question -and- £ £ £ £ £ £ £ £ £ £ £ . Não há texto tomado por si mesmo. como prossegue Derrida: escrever é produzir uma marca que constituirá uma espécie de máquina por sua vez produtora que não cessará de se dar a ler e a reescrever. É impossível comunicar a totalidade da experiência individual (não posso experienciar a experiência do outro). fora de um estrito paradigma comunicacional: Touteécrituredoitdonc. que nos permite igualmente compreender a performancecomunicacional do texto. Aliás. A escrita derridiana é escarificação. mas da negatividade textual. do exterior. muito próximo do dialogismo bakhtiniano. não há terceiro entre eles que possa ajuizar da justeza da interpretação. pouvoirfonctionnerenl¶absenceradicale de tout destinataireempiriquementdétermineengénéral. se quisermos. ao apareSer dúctil em que o real se dá ± para utilizarmos uma linguagem heideggeriana. Cada texto ± se é que se pode isolar «um» texto da rede intertextual que o constitui ± se inscreve na cadeia da semiose ilimitada como interpretante possível (ou. como já vimos. violência originária que é o próprio modo de acesso à linguagem (e logo. ao real». Outra coisa não pretende Iser quando diz que o repertório do texto como emissor e o leitor como receptor saltam»: como o repertório é normalmente caracterizado por uma forma de recodificação. Etcetteabsence n¶est pas une modification continue de laprésence. neste sentido não originária porque concebida como intratextual. mas subscrevendo a não -anterioridade do sentido com que Derrida afasta a sua noção de écriture» da de Linguagem do Ser de Heidegger. Não há texto invulnerável nem leitura «inocente». como diria Derrida. fornece o seu próprio contexto de possibilidades de sentido e o sentido torna-se a própria experiência do leitor na proporção do grau de ordem que ele consegue estabelecer à medida em queoptimiza a estrutura. como deve ser neste momento evidente). p. elleveutdireici [ ] que l¶origine n¶a mêmepasdisparu. releva não da sua formulação. p. mas à maneira de um palimpsesto. qu¶elle n¶a jamais étéconstituéequ¶enretour par une non-origine. nomeadamente a impossibilidade de firmar um metadiscurso que permita regular. como se o texto não estivesse escrito antes da leitura. a proposta de Iser realça o diferir contínuo que funda toda a comunicação. 90). irreconhecível espelho deformante cuja «verdadeira» imagem nem o vulgar leitor nem o crítico se encontram em condições de alguma vez lhe restituir. Ora o que vale para o destinatário também é válido para o emissor ou produtor. then.o texto deixa imediatamente de ser coisa sua. funcional) de todos os outros textos que nela se inscrevem ± como a partir de Peirce podemos compreender. a relação dialógica. no antes da leitura: Negativity. aliás. há uma lacuna ( gap») central na nossa experiência. Deste modo. corporeidade esmagadora da archiécriture» que recobre todo o campo do real e da experiência. c¶est une rupture de présence. Através deste processo. 1979b. A relação entre texto e leitor é assimétrica. Des lors. A leitura é o jogo não de uma absoluta mas de pequena perversão. derridiana. pourêtrecequ¶elle est. quidevientainsil¶origine de l¶origine. estabelecido no decurso do processo de leitura. apenas possível no mundo dos textos. ideia que também não é alheia a essa outra. o texto não remete para uma experiência originária de cujo sentido ele seria o fiel viático. tal como a supõe Iser. embraces boththequestionandtheanswer. 375). A escrita é uma inscrita ± não sobre um corpo fixo (do sentido. na infinita cadeia de remetência de um para o outro. Ou.

a que a noção mesma de indeterminância obvia e que não se pode transformar por sua vez num método de acesso ao texto. Este trabalho de conexão acompanha potencialmente todo o texto. de quem ele aliás se assume como um dos primeiros divulgadores nos Estados Unidos. p. constrangendo o processo cooperativo. Vulgar nos meios de língua inglesa. p. 228). schemata textuais construídos como estratégias no interior do texto e que têm a função de estimular o processo de leitura. diz-nos Iser. Aesterespeito. constituindo essa capacidade de cada um se aperceber do próprio envolvimento uma qualidade fundamental da experiência estética. an internalisation. com Iser. desdobrando desse modo a multiplicidade de perspectivas que se interconectam. os factos não são dados.(Iser. Não há pois factos para os quais o texto remeta em última análise. A indeterminância é um conceito operativo em Iser. as quais. segundo Iser. Diríamos. não deixam contudo de permanecer intersubjectivamente compreensíveis enquanto tentativas para optimizar a mesma estrutura. 1978. contra a concepção cartesiana. para Iser. There is. nem especifica como implementar a conectabilidade das recordações. O texto é «indeterminável» no sentido em que não há outro possível texto que lhe fixe a sua «verdade». 1980. se bem que não sendo intersubjectivamente idênticas (como mostram as muitas diversas interpretações de um mesmo texto). of course. nor does it respond to an economy of scarcity and try to make reading more µproductive¶ of meaning. mas o potencial significante nunca pode ser completamente realizado. e estes aspectos devem ser sintetizados pelo leitor que. oculta. Quite the contrary: it encourages a form of writing ± of articulate interpretation ± that is not subordinated naïvely to the search for ideas» (Hartman. Aqui se levanta. It does not doubt meaning. diz-nos Geoffrey Hartman: «One should not talk of understanding. O ponto de vista mutante permite ao leitor viajar através do texto.answerbasis». Esta posição. Logo. Há. To methodise indeterminacy would be to forget the reason for the concept. isto é. Osschemata dão corpo a aspectos de uma «verdade» não verbalizada. 1981. porque ela apenas é possível quando os códigos existentes são transcendidos ou invalidados: «The resultantrestructuringofstoredexperiencesmakesthereaderawareno tonlyoftheexperiencebutalsoo . são produzidos. 137). O processo de leitura põe em jogo as expectativas modificadas (do leitor) e a memória transformada (do texto). por outro lado. antes. Marcará. 269). não é inteiramente não-pragmática. o que se põe em causa é a «objectividade» do metadiscurso literário. por parte do leitor. poderemos inclusivamente ler aquela afirmação como uma tentativa de se demarcar da «metodização» do desconstrucionismo que o próprio Derrida ainda recentemente ± e entre nós ± deplorava nos seus divulgadores americanos. o habilitam a formular a sua «experiência» (a sua habituação textual) nos termos novos com que elas o enformam. pelo contrário. devir-consciente apenas no sentido em que a internalização das estratégias textuais. através de um permanente reajustamento do ponto de vista mutante do texto. na medida em que explora uma estrutura básica de compreensão. forma a base para as multas relações que têm de ser estabelecidos no decurso do processo de leitura. Este é o campo do leitor e é a sua actividade sintética que possibilita que o texto seja transferido para a sua própria mente. butbymodifyingthereader¶sawarenessratherthanimposing a method. O leitor envolve-se a si próprio e vê-se a si próprio a ser envolvido no texto. rather than the answer to a problem» (Hartman. O texto não formula. fazendo da leitura uma necessidade interna do próprio texto. but the life-situation on the interpreter has to deal with riddles as well as puzzles: what is sought is often the readiness to take and give words in trust. mas de que o termo português «instabilidade» não reproduz toda a riqueza teórica e que já foi aliás transposto entre nós para o termo que temos vindo a utilizar no decurso deste trabalho: «indeterminância»). já o sabemos: é ela que contribui para desencadear o próprio processo de comunicação. as expectativas ou sequer a sua modificação. todavia. os limites de todo o método: não desconhecendo a dívida de Hartman em relação a Derrida. therefore. mas expandindo-a de maneira a que ela possa incorporar a efectiva produção de «factos». é levado a idealizar uma totalidade de sentido. ponto este a que tende o que Iser chamou a optimização da estrutura. uma questão que atravessa toda esta problemática e que os teóricos de língua inglesa resumem no conceito de «indeterminacy» (frequentemente traduzido entre os franceses por «instabilité». que a «consciência» do leitor se torna então num devir-consciente. parece-nos particularmente a propósito o que dela diz Geoffrey Hartman: «Indeterminacy as a speculativeinstrumentshouldinfluencethewayliteratureisread. p. o texto é o produzi-los. as if it were a matter of rules or techniques that become intuitive and quasi-silent.

T. aquilo a que o leitor implícito obriga e a que ele dá o nome de «interplay». Gilles e Guattari. Umberto 1976 A TheoryofSemiotics. C. 1979a. p. Bompiani. Tübingen. Presença. Jacques 1967 De laGrammatologie. Seuil. São Paulo.ª ed. 2: Mille Plateaux. ut. ed. T. 271-272). Mohr (Paul Siebeck). 1972 Marges de la Philosophie. 1980. Paris.: Vérité et Méthode. Hans-Georg 1973 Warheit und Methode. Queiroz editor e Editora da Universidade de São Paulo. A. A escrita tem como sua condição de possibilidade a legibilidade do texto escrito. Minuit. Indiana University Press. Lisboa. ¤ ¤ . 1983. recorrendo às palavras de Iser. Derrida. a qual age sobre o emissor transformando-o no primeiro leitor-destinatário e guiando a própria escrita tanto como constrange a leitura: não esta ou aquela leitura. 1979 Lector in Fabula.fthemeanswhereby it develops» (Iser. 1976. to be understood. 134). 1979b. prescrevendo este ou aquele sentido. Bibliografia Deleuze. is it the object (in the world) revealed by the book. 2. Minuit. Eco. ut. 1984 O conceito de texto. mas constrangendo positivamente ao jogo em que o texto ± e unicamente nele ± se dá. Gadamer. 2. ed. [ ] Reading itself becomes the project: we read to understand what is involved in reading as a form of life. rather than to resolve what is read into glossy ideas» (Hartman 1980. O texto surge deste modo como um ser viscoso que se prolonga muito para além da realidade tipográfica do livro. yet what we gain is the undoing of a previous understanding. ed. Perspectiva.: Leitura do texto literário: Lector in fabula.ª ed. Milão. segundo uma topologia censória de negação/afirmação. pp. Paris. ut. is it ourselves? Or some transcendental X? We read. ou.: Tratado Geral de Semiótica. 1978. Félix 1980 Capitalisme et Schizophrénie.. Paris. as we write. buttounderstandwhat? Is it the book. Reencontramos a ideia de negatividade textual: o texto dá-se no envolvimento textual do leitor que se vê envolvido segundo linhas de fuga que constituem a virtualidade própria do texto e que indicam claramente que ele não se detém nos limites da página impressa mas remete para a textualidade de todas as relações humanas: «wereadtounderstand. Paris. J. Minuit.

ed. John Hopkins University Press. 1978. Derrida. Munique.: The Act of Reading. 1981 Saving the Text: Literature. Yale University Press. MoutonPublishers. ut. Kristeva. New Haven e Londres. Lisboa. Julia 1970 Le textedu Roman: Approchesémiologiquedlunestructurediscursivetransformationelle . . Livros Horizonte. Paris. 1981. Routledge&Kegan Paul. A Theory of Aesthetic Response. ut.: O texto do romance: Estudo semiológico de urna estrutura discursiva transformacional. Geoffrey 1980 Criticism in the Wildemess: The Study of Literature Today. 1970. 1984.Hartman. ed. Philosophy. 1980. Baltimore e Londres. Wolfgang 1976 Der Akt des Lesens: TheorieAesthetischeWirkung. Iser. Londres and Henley.