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Nome: Simoni Cristina Franquini 3° Período

Construção da Linguagem simbólica

Como seres concebidos na e pela linguagem, somos capazes de comunicar-nos


com sucesso mesmo que não saibamos descrever os mecanismos utilizados para efetivar
essa comunicação. Não se pode negar, entretanto, que o aprimoramento teórico é
fundamental para que nos desenvolvamos comunicativamente, utilizando com
propriedade e correção a língua em diferentes contextos.

Esse estudo tem caráter metalingüístico, ou seja, usa-se a linguagem para explicar
a própria linguagem, fato que apresenta implicações positivas e negativas. As negativas
ficam por conta da permanente influência que o falar cotidiano, coloquial, exerce sobre
os outros níveis de formalidade, e da conseqüente "contaminação" que nos dificulta, às
vezes, fazer as escolhas adequadas às diferentes situações de comunicação. As
implicações positivas dizem respeito à permanente possibilidade de auto-
aprimoramento, já que vivemos e nos movemos regidos pela linguagem.

Assim sendo, a mobilização para o autodesenvolvimento depende da importância


que cada um de nós confere à própria proficiência lingüística, seja para ler e ouvir de
forma mais compreensiva os outros e, por extensão, o mundo, seja para falar ou
escrever com mais propriedade, dando voz a nossos pensamentos e sentimentos. Se essa
proficiência constituir uma prioridade, estará criada uma saudável necessidade, cuja
satisfação dependerá, basicamente, de um olhar atento e reflexivo sobre os fatos
lingüísticos, do exercício continuado da leitura, e da escrita e da consulta a boas
gramáticas, manuais instrucionais e dicionários. Mas dependerá, sobretudo, da
consciência de que se trata de um processo lento, permanente, inesgotável e, não
obstante, promissor, já que é sempre possível aprimorar o idioleto.

Na busca do auto-aprimoramento, muitos aspectos podem ser considerados, alguns


dos quais apresentamos a seguir.

uma unidade comunicativa

Até recentemente, os estudos lingüísticos limitavam-se à competência


lingüística, ou seja, aos conhecimentos gramaticais. Com o tempo, tais limites se
revelaram inadequados, ficando evidente que, além do conhecimento de regras de
estrutura frasal (gramática) e de um léxico, outras habilidades são necessárias para uma
comunicação eficiente, pela simples razão de que não interagimos por frases isoladas,
mas por textos, unidades de comunicação que incluem, entre outros, um componente
referencial (conhecimento do mundo compartilhado por falante/ouvinte); um
componente pragmático (domínio de práticas correntes na comunidade falante, em
consonância com padrões e estratégias aceitas em situações específicas de
comunicação); um componente textual (capacidade de identificar, receber e produzir
textos bem formados).

Embora todos nós, alfabetizados e proficientes, sejamos capazes de reconhecer


um bom texto - e talvez por isso mesmo - nem sempre sabemos como defini-lo. Uma
definição possível seria:

Um texto bem formado é uma unidade comunicativa estruturada de forma a


manifestar determinada intenção discursiva do autor.

Analisando: antes de tudo, um texto bem formado é uma unidade comunicativa,


com começo, meio e fim, que pretende comunicar algo a alguém. Sendo uma unidade,
constitui uma estrutura, ou seja, não é qualquer seqüência de idéias faladas ou escritas,
mas sim um conjunto organizado de acordo com regras compartilhadas por quem
fala/escreve e ouve/lê. Assim como tijolos, cimento, areia e um pedreiro dispostos lado
a lado não fazem uma parede, também o material lingüístico, sozinho, não constitui um
texto. É necessária uma certa combinação, uma distribuição correta e proporcional da
matéria-prima para haver um produto. E essa combinação ainda não é suficiente
porque, como o pedreiro precisa conhecer a utilidade e a função do que faz para fazê-lo
bem, também o autor do texto deve ter uma determinada intenção, que sustenta,
direciona e justifica a escolha dos materiais, sua disposição e acabamento. Este objetivo
é a intenção discursiva que move o autor. Por isso, entende-se que a tudo que
dizemos/escrevemos subjaz uma intenção.

O ato de argumentar

Se nada do que escrevemos ou dizemos é neutro, e se nossas intenções se expressam,


no mais das vezes, por meio de argumentos, é forçoso admitir que a argumentação é
uma constante em nossa vida, seja no discurso do publicitário, do sindicalista, do
político, do poeta, do pai, da criança. Assim, é fácil entender por que a Retórica, ou
"arte da argumentação", vem sendo objeto de interesse há milênios: ainda na
Antigüidade Clássica, Aristóteles propunha a primeira sistematização das estratégias
retóricas; no Renascimento, Abade Giraud afirmava que "a arte de argumentar consiste
em provar algo que parece duvidoso, usando como recurso algo considerado
verdadeiro", sugerindo falar diferentemente, de acordo com as diferenças entre os
ouvintes, em termos de idade, educação, posição, hábitos. Hoje, os estudos sobre a
argumentação ganham novo impulso, e as técnicas de convencimento interessam
especialmente a segmentos dela dependentes, como o da publicidade, da política e da
mídia em geral.

No passado ou na atualidade, argumentar significa provocar a adesão do ouvinte às


teses que apresentamos a seu julgamento, significa seduzi-lo com recursos de efeito
lógico ou psicológico que se produzem no encontro dos mundos de referência do
locutor e do ouvinte, por meio de condições de verossimilhança e aceitabilidade.

A língua culta padrão e a argumentação


A aceitabilidade de nossos argumentos depende também de conhecimentos
gramaticais específicos. Sem esquecer as possibilidades que a variação lingüística
oferece - como a linguagem coloquial, regional técnica, por exemplo-, em muitas
situações uma boa argumentação depende do domínio da língua culta padrão,
especialmente escrita.

Como o nome indica, esta variedade lingüística segue as normas de uma gramática
altamente padronizada, restrita a um número relativamente pequeno de falantes que
tiveram o privilégio de adquiri-la, seja por meio de leitura quantitativa e qualitativa,
seja pelo esforço sistemático de aprender. Nesse sentido, aprender a norma culta do
idioma implica procedimentos semelhantes aos utilizados ao se estudar uma língua
estrangeira, idéia muito bem sintetizada pelo eminente gramático Evanildo Bechara
quando afirma que o falante de língua materna deve tornar-se um poliglota em seu
próprio idioma.

O padrão culto do idioma, além de ser uma espécie de marca de identidade, constitui
recurso imprescindível para uma boa argumentação. Ou seja: em situações em que a
norma culta se impõe, transgressões podem desqualificar o conteúdo exposto e até
mesmo desacreditar o autor.

A gramática de um idioma pode ser descrita - e, portanto, estudada - em níveis


distintos, mas sempre inter-relacionados, alguns deles a seguir apresentados.

• Nível ortográfico
Deste fazem parte todos os aspectos relacionados à grafia (abreviaturas, parônimas e
homônimas, uso de letras, hífen) e à acentuação das palavras.

• Nível morfossintático
A morfologia é a parte da gramática que dá conta da forma das palavras, enquanto a
sintaxe diz respeito às regras de combinação das palavras e orações de uma língua. É
difícil demarcar seus limites. As flexões verbais (que são do âmbito da morfologia), por
exemplo, só existem devido à necessidade de o verbo se adequar ao sujeito da estrutura
em que ele se encontra (questão de concordância verbal, sintática). Como ilustração,
observemos que na frase "Quantas partes contém esse relatório?" deve ser usada a
flexão verbal "contém" (singular), e não sua homônima "contêm" (plural), porque o
sujeito é "este relatório", e não "partes". A escolha é sintática, e a conseqüência é
morfológica. E mais: a marca da flexão/concordância é gráfica... mas esta já é outra
história, que apenas confirma a indissociabilidade entre os diferentes componentes dos
proferimentos lingüísticos.

Para fins didáticos, entretanto, as obras especializadas separam morfologia e sintaxe.


A primeira, além da formação, estrutura e flexão das palavras, descreve tudo o que
concerne às categorias gramaticais (por exemplo: gênero de substantivos e adjetivos,
conjugações verbais), enquanto a sintaxe estuda aspectos mais complexos, como
concordância, regência, uso e colocação de pronomes, uso do acento indicativo de crase.

• Nível sintático-semântico
Em sentido amplo, a semântica trata do sentido das palavras que formam o léxico de
uma língua, em todos os seus aspectos, como relações semânticas em geral,
semelhanças e diferenças de sentido entre os vocábulos, usos denotativo e conotativo da
linguagem.

A melhor receita para desenvolver a competência semântica é ler, em quantidade e


qualidade. Vale também consultar obras especializadas e dicionários para resolver
problemas específicos. Mas é fundamental ter consciência dos diferentes léxicos: o
grande léxico da língua, patrimônio social, bem comum recebido por herança,
virtualmente ao alcance de todos; os léxicos dialetais e grupais; os léxicos particulares,
individuais. Cada vocabulário particular compreende um vocabulário ativo, formado
pelas lexias que usamos no dia-a-dia, e um vocabulário passivo, constituído por aquelas
que reconhecemos semanticamente porém não utilizamos.

Mais do que em relação a qualquer outro dos itens de estudo comentados, o


enriquecimento do vocabulário - seja pela incorporação de novos vocábulos ao nosso
léxico, seja pela transposição das palavras do vocabulário passivo ao ativo - depende
sobretudo da vontade e do esforço de cada um.

Concluindo sem encerrar

Assim como a língua que nos constitui desde sempre - na História coletiva ou na
história pessoal - não se deixa jamais apreender/aprender/prender por completo, assim
também as reflexões sobre ela resultam incompletas e parciais. O que é muito bom, já
que sempre estaremos desafiados a descobri-la um pouco mais. Fica o convite.