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Nome: Diogo Mariotto de Oliveira 3ºPeriodo/vespertino

Texto: Noção de Crença e Conhecimento

Noção de crença e conhecimento

Ao ler o texto de Thomas Negel, do qual ele cita as visões solipcistas, céticas etc etc... senti-
me verdadeiramente (sem trocadilhos) confuso por alguns instantes (e acho que ainda estou).
Todas essas correntes dizendo sobre a verdade... todo aquele arcabouço explicativo do cético,
que é convincente... tudo isso parece nos jogar de um lado para o outro. Pelo menos quando eu
penso que estou concordando com uma corrente, lá vem explicações coerentes e por vezes
contrárias.
Bem, como o professor disse o conhecimento está ligado com a verdade, acho que realmente
está. Só não sei se o conhecimento está ligado como a maneira mais trivial que dispomos
expor... exemplo? Creio (disse creio, ainda não estou bem fixo nesta idéia) que a verdade
esteja ligada sim ao conhecimento (ora se conhecemos, OU é porque >>buscamos
conhecer<<, OU conhecemos a verdade, OU os dois). Confuso? Tb acho. Deixa eu explicar
melhor.
Por que as vezes utilizamos o conhecimento, como uma "crença verdadeira e justificada?" E
todas aquelas meras informações que não justificamos? E, ora bolas, se conhecemos apenas
experiências internas, furtivas, e por vezes irrepetíveis, Céus! Tudo seria injustificado, nada
prático seria conhecimento. E ninguem iria me garantir que o meu sonho é realidade ou não...
Mas simplesmente, não garantir, ou a impossibilidade (se essa impossibilidade realmente
existir; creio que não) de garantir NÃO TORNAM A HIPÓTESE CONTRÁRIA FALSA. É, se
eu digo que sonhamos, que alucinamos, que viajamos, q o escambal: Esse tipo de argumento
não tira a possibilidade de que a realidade exista... Talvez ela exista e não podemos falar
completamente dela. Sei lá, uma hipótese...
Estou sendo um tanto informal neste fórum, e um pouco confuso, mas vou arrumar o que estou
dizendo ao longo de nossas discussões - afinal, ainda é um primeiro debate (estamos
delineando nossos limites).
Ora, levando esse "discurso" para a vida prática, digo apenas o seguinte: viverei normalmente;
dormirei normalmente, comerei normalmente etc etc etc etc...
Alguém pode perguntar-me: mas porque não se inquietaria, em prática normal, diante de tão
profunda confusão, em que vc se encontra? E sim apenas quando está estudando o tema ou
ainda pensando sobre o mesmo? Ora! é simples: SE EU NÃO PUDER DIZER NADA ALÉM
DAS EXPERIÊNCIAS E NÃO PUDER DETERMINAR QUE EXISTE ALGO ALÉM DE
MINHA MENTE, ESSE ARGUMENTO NÃO INVALIDA A POSSIBILIDADE DE TAL
EXISTÊNCIA.
Entretanto se eu não sei determinar a verdade ou falsidade da existência de um mundo externo
a mim, não irá alterar a minha vida prática pessoal
Mas eu poderia estar em maus lençóis se me desse conta, ao reler o texto, e perceber que a
ciência estaria também envolta nesta neblina: se a ciência explica por teorias e as teorias
devam representar fatos externos observáveis e eu não tenho certeza de q esses fatos existam
(portanto não é o mesmo que dizer que não existem), eu ficaria louco pensando q do nada todo
nosso "conhecimento" estaria fadado ao fracasso (se eu acreditasse que o elo único entre
conhecimento e verdade é de fato a igualdade entre pensamento e realidade): como eu iria
pensar que o paracetamol que tomo para sanar algumas dores de cabeça podem simplesmente
não possuir esse efeito, já que o conhecimento por trás disto estaria em xeque?
Mas de fato o paracetamol sana dores, mesmo que eu suspeite de sua eficácia: e toda uma leva
de dados científicos estão conforme o que acontecem (sejam ilusões ou realidades
incomprovadas), então há de alguma forma uma consonância entre teoria e realidade (ou
alucinação): e essa conformidade pode ser encarada como conhecimento de algo. Ou pelo
menos acho... não tenho certeza...
Então, creio que, por mais que seja extremamente plausível que não venhamos conhecer o
mundo externo, isso não falseia sua existência, e nem a comprova... Mas eu ainda me pergunto
e não estou certo de uma resposta: Será que realmente não conhecemos esse mundo externo?
Tenho em minha mente, uma leve impressão de que o conhecimento não é só "crenças
verdadeiras justificadas"... Já que fica difícil definir verdadeiro e muito menos justificar uma
crença. Talvez conhecimento seja uma busca incessante entre a conformidade de uma teoria
com algo (seja a realidade ou a alucinação) e essa conformidade seja uma disposição de
informações que podem ser igualadas como A=B e portanto descrevem uma relação. Se A é
uma informação, B é outra então (A=B) é um conhecimento (ou não, sei que viajei nisso,
talvez).
De fato, o que posso ter certeza é que se o conhecimento um processo incessante de
conformidade entre dados, relações etc; isso é crucial para a filosofia e outros ramos, como a
ciência (e porque não, a política): esse processo é incessante de conformidades, assim a
filosofia é conhecimento, já q durante milênios filósofos respondem coisas e mais coisas. A
ciência seria conhecimento, já que teorias aparecem e desaparecem para explicar as mesmas
coisas.
Acho que falei demais e muita abobrinha. Perdoem-me. Entretanto estou um pouco confuso,
não se o que falei tem realmente fundamento.
Devemos pensar mais sobre o assunto. Devemos investigar. Mesmo que vocês existam, ou não.

Arnaldo Vasconcellos.

Então, Arnaldo...

Tuas inquietações são muito fortes e também provocativas. Embora você não responda a
pergunta que o fórum faz, você traz uma série de falas que valem a pena ser pensadas.

Você traz uma série de questões que não tenho a menor condição de responder nesse momento
da discussão. Vamos ouvir primeiro algumas idéias sobre as teorias da verdade para que
possamos, por fim, levar tuas questões para uma discussão de uma maneira mais radical.

Mas uma coisa devemos marcar como uma pergunta para seguir a reflexão. Você se incomoda
com a noção de conhecimento como sendo uma "crença verdadeira justificada". Essa é uma
das discussões epistemológicas mais antigas que ocorrem. Platão no Teeteto discutia a noção
de crença verdadeira ao falar de "opinião". Platão discutia acerca da possibilidade de haver
uma opinião (crença) falsa. Para isso ele separa a episteme, um conhecimento científico,
produto de uma investigação determinada por métodos formalizaveis da manthano,
nosso saber por familiaridade com o mundo. Isso talvez nos ajude a pensar um pouco as suas
inquietações.

Quando falamos de um conhecimento científico (episteme) estamos falando da mesma coisa


que quando falamos sobre nosso conhecimento sobre nossos filhos (manthano)? Será que a
postura do cético ou a do solipsista se aplica a qual desses tipos de "conhecer"?

Mas esse, como você chamou a atenção, é apenas o início de uma discussão que vamos levar
durante todo o curso

Crença e percepção
Olavo de Carvalho

A consciência cognitiva do sujeito concreto – com tudo o que nele está subentendido de biológico,
de histórico-social e de espiritual – é rigorosamente o único campo de observação onde podem ser
estudados diretamente os problemas da teoria do conhecimento. Os processos cognitivos não podem
ser totalmente objetivados e reduzidos a esquemas gerais e médios sem que deixem de ser,
precisamente, processos cognitivos e se tornem seus meros símbolos lingüísticos, submetidos
portanto a leis e condições que, em relação ao conhecimento enquanto tal, são, por assim dizer, de
segundo grau e, na verdade, coisa já diversa e outra.

O processo do conhecimento deve ser surpreendido in fieri, isto é, no lugar e no momento onde se
dá. Só aí pode-se dizer que o observamos. Ele nunca se dá genericamente ou especificamente, mas
sempre singularmente e no próprio sujeito que o examina. Fora disso, escapamos da observação e
entramos na rememoração e na análise lógica.

Nesse sentido, colocar uma questão como a das origens ou fundamentos da nossa "crença no mundo
exterior", como se fosse coisa básica e da qual dependesse a validade cognitiva da percepção, é uma
grave alienação das condições concretas em que se dá a nossa relação com o mundo exterior e a
reflexão que fazemos sobre ela.

O mundo exterior, no instante em que é apreendido, não é jamais apreendido como "crença", e sim
como dado, presença, injunção ou coisa assim, sem qualquer mediação de uma crença. Se não fosse
assim, não haveria diferença entre nossa relação com o mundo exterior e a relação que temos com
nossas crenças, isto é, não haveria diferença entre o agir e sentir, de um lado, e a memória e
reflexão, de outro – diferença que, não obstante, não só se nos apresenta de maneira imediata e
intuitiva mas é também a condição mesma da própria reflexão.

A "crença" no mundo exterior não é pois um elemento da percepção e da ação, mas um momento da
reflexão, totalmente ausente no ato mesmo da percepção e da ação. A prova mais eloqüente disto é
que aqueles filósofos que não creem no mundo exterior percebem esse mundo da mesma maneira
que os outros, que nele crêem; ou, mais claramente ainda, eu próprio, se alternadamente creio no
mundo exterior ou duvido dele, filosoficamente, nem por isto o percebo diferente no instante em
que o percebo.

Como elemento da reflexão, desnecessário à percepção e à ação, a "crença" não pode ser apreendida
empiricamente no ato da percepção e da ação senão per accidens e nas ocasiões excepcionais em
que entre nelas um componente essencial de reflexão, como por exemplo no ato da leitura ou da
comparação consciente entre um objeto percebido agora e um outro conservado na memória.

Isso já basta para provar que a crença, não sendo essencial ao conhecimento perceptivo do mundo
exterior, também não pode ser fundamento dele, mas somente fundamento de conclusões que, na
reflexão, tiramos eventualmente do que sabemos dele. A noção de "crença" é pois uma premissa
menor que introduzimos na reflexão gnoseológica, mas que não obtemos diretamente do exame dos
processo cognitivos concretos, e sim de uma suposição extra que fazemos ex post facto para
"explicá-los".

Ora, de onde podemos extrair a idéia de que nossa aceitação espontânea dos dados percebidos é
uma "crença", senão de um raciocínio que, partindo da dúvida cética ou crítica, coloca essa
aceitação "entre parênteses"? Se, na reflexão, fazemos abstração da presença atual dos dados e
raciocinamos somente sobre sua representação, seus conceitos ou seus símbolos, aí já se introduziu
entre sujeito e objeto aquele hiato sem o qual não haveria a possibilidade da dúvida e portanto a
possibilidade de explicar como "crença" aquela aceitação espontânea. Mas é esse hiato que,
precisamente, não pode haver no ato da percepção.

A aceitação espontânea dos dados não é, de maneira alguma, uma "crença", embora possa, na
reflexão, se expressar sob a forma de crença. Acreditar, portanto, que a resposta a uma pergunta
sobre "qual o fundamento da nossa crença no mundo exterior" possa nos ajudar a compreender algo
sobre os processos reais e concretos do conhecimento é confundir percepção e reflexão e afastar-se
infinitamente da possibilidade de uma elucidação do problema.

A consideração destas observações basta para por à mostra a inocuidade das longas especulações
que, sobretudo na tradição filosófica anglo-saxônica, têm se concedido a esse ponto.

O fenômeno da aceitação espontânea deve ser estudado em si mesmo, tal como se dá efetivamente
no ato da percepção, e não na interpretação secundária a que damos o nome de "crença". Bem ao
contrário, a aceitação espontânea é que pode ser alegada retrospectivamente como razão em favor
da crença ou da descrença. Podemos, é claro, refletir sobre essa aceitação espontânea, mas jamais
caindo na esparrela de confundi-la com uma "crença", pois, uma vez feita a confusão, não
encontraremos outro fundamento para a crença senão a crença mesma e, aí, fazer correr rios de tinta
não nos libertará da dúvida cética nunca mais, como parece acontecer, de fato, na tradição anglo-
saxônica, mesmo entre os autores mais "realistas", como por exemplo Bertrand Russel, que nunca
pode crer no mundo exterior sem sentir que faz uma concessão à fragilidade humana ou, pior ainda,
que se permite uma indulgência no pecado.