UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA
DEPARTAMENTO DE MEDICINA VETERINÁRIA
PATOLOGIA ESPECIAL DAS AVES
Laura de Almeida Tellado
INFLUENZA AVIÁRIA
Juiz de Fora
2022
1. INTRODUÇÃO
A influenza aviária, também conhecida como gripe aviária, é uma doença viral
infecciosa aguda altamente contagiosa, causado pelo vírus da influenza tipo A. Afeta
principalmente espécies de aves domésticas e silvestres, mas pode ocorrer em
mamíferos como ratos, gatos, cães, cavalos, suínos, e até no ser humano, se tratando,
assim, de uma zoonose, o que representa preocupação permanente aos agentes de saúde
pública. É uma doença sistêmica que pode ser altamente letal às aves domésticas.
Inclusive, desde 1981 que a terminologia influenza aviária de alta patogenicidade
(IAAP) foi adotada para designar a forma mais virulenta da enfermidade, relacionada à
capacidade de provocar sinais clínicos mais severos em aves. Já as variantes de baixa
patogenicidade (IABP) causam sintomas mais brandos, que podem passar
despercebidos. Em casos de IAAP, a notificação se torna obrigatória aos órgãos oficiais
nacionais e internacionais de controle de saúde animal, juntamente com barreiras
sanitárias para o comércio de produtos avícolas no mercado interno e externo, além de
causar grandes prejuízos econômicos à avicultura comercial.
2. ETIOLOGIA
É causada pelo vírus da família Orthomyxoviridae e gênero Influenzavirus Tipo A. É
um vírus que apresenta RNA fita simples senso negativo segmentado e envelopado,
cujo genoma viral é composto de oito segmentos de RNA. Possui glicoproteínas em sua
superfície, as Hemaglutininas (HA) e as Neuraminidases (N). Atualmente, existem 15
variações de Hemaglutinina (H1 a H15) e 9 de Neuraminidase (N1 a N9) e apenas os
vírus com as hemaglutininas identificadas como H5 e H7 têm sido altamente
patogênicas às galinhas e outras espécies de aves domésticas e aquáticas. São vírus
esféricos que medem, aproximadamente, 200nm de diâmetro ou pleomórficos quando
observados os replicados pelos hospedeiros naturais. Estirpes propagadas em ovos têm
morfologia mais circular, medindo em torno de 80 a 120nm de diâmetro.
Produtos químicos como os agentes oxidantes, dodecil sulfato de sódio, detergentes, ß-
propiolactona e desinfetantes comuns, como formalina e compostos iodados inativam o
vírus, além do mesmo ser sensível ao calor (56°C por 3 horas ou 60°C por 30 minutos e
em pH ácido). Porém, pode sobreviver em esterco contaminado por, pelo menos, três
meses. Na água, o vírus pode sobreviver por até 4 dias em temperatura de 22°C e mais
de 30 dias a 0°C. Para as formas de alta patogenicidade (H5 e H7), estudos
demonstraram que um único grama de esterco contaminado pode conter vírus suficiente
para infectar milhares de aves.
3. EPIDEMIOLOGIA
Se trata de uma doença de distribuição mundial desde 1959 (FIGURA 1). Até 1997 não
havia registro de transmissão direta para o homem, provavelmente devido à adaptação
de vírus altamente patogênicos em aves domésticas criando condições necessárias
(mutações) para desencadear esse tipo de transmissão. Ademais, aves silvestres,
inclusive migratórias, e aves aquáticas como patos, marrecos e gaivotas são
reservatórios naturais do vírus da influenza tipo A. Dessa forma, a doença pode se
espalhar de um país para outro através dessas aves migratórias, que são resistentes à
infecção e que em determinadas épocas do ano migram de um lugar para outro.
Segundo a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), a influenza aviária de
notificação obrigatória é uma infecção em aves comerciais causada por qualquer vírus
da influenza do tipo A, pertencente ao subtipo H5 ou H7 (também relacionados com
casos de transmissão à população humana), ou ainda por qualquer vírus de influenza
aviária que apresente índice de patogenicidade intravenosa (IPIV) superior a 1,2 ou que
seja causador de mortalidade superior a 75%. Inclusive, é uma doença que apresenta
mortalidade variável, podendo chegar a 100% em casos de influenza aviária de alta
patogenicidade. Influenza aviária de baixa patogenicidade causa pouca ou nenhuma
mortalidade nas aves, sendo que condições ambientais são determinantes para a
transmissão. Atualmente, pela primeira vez na história, há um surto em fase no Brasil.
FIGURA 1 – Distribuição mundial da Influenza Aviária de 1959 a 2005.
4. TRASMISSÃO E PATOGENIA
O vírus é transmitido de forma horizontal, no contato direto entre aves infectadas e
susceptíveis a partir de secreções nasais, orais e/ou fezes contaminadas ou através de
contato indireto, via aerossóis e exposição a fômites contaminados. Ovos contaminados
são outras fontes de infecções de galinhas, principalmente nos incubatórios de
pintinhos, visto que o vírus pode ficar presente de 3 a 4 dias na casca dos ovos postos
por aves contaminadas. Não é evidenciada transmissão pela ingestão de ovos. Em
humanos, a exposição direta a aves infectadas ou às suas fezes pode resultar em
infecção.
Após ingestão ou inalação do vírus, o mesmo se reproduz no epitélio nasal e/ou da
faringe e se espalha nas membranas mucosas do sistema respiratório, podendo se
disseminar por todo o organismo do animal e causar a forma sistêmica da doença. O
período de incubação pode variar muito, dependendo da dose do vírus, da via de
contaminação, da espécie afetada e da habilidade da pessoa em contato com as aves em
identificar a sintomatologia sugestiva. Esse período pode variar de poucas horas para as
aves inoculadas por via intravenosa, 3 dias em infecções de aves criadas
individualmente e 14 dias em aves de galpão.
Microscopia eletrônica de transmissão de virions de Influenza A, aumentados aprox. 100.000x
5. SINAIS CLÍNICOS E ACHADOS MACRO E MICRO
Os sinais clínicos da influenza aviária nas aves são extremamente variáveis e
dependentes de fatores como a espécie infectada, idade, infecções concomitantes,
imunidade adquirida e fatores ambientais. Em aves domésticas, a sintomatologia está
associada a anormalidades nos órgãos respiratórios, digestivo, urinário e reprodutor. Em
infecções por vírus altamente patogênicos, a morte pode ocorrer antes que as lesões
proeminentes sejam observadas, podendo alcançar 100% do aviário. Caracteriza-se por
depressão severa, penas arrepiadas, edema facial, crista e barbela inchada e cianótica,
lesões hemorrágicas nas canelas, dificuldade respiratória, descarga nasal, severa queda
de postura, prostração, inapetência, diarreia, paralisia e morte, ou morte súbita sem
presença de sinais clínicos. No caso de infecção por vírus de média e baixa
patogenicidade, os animais apresentam como sinais clínicos sinais respiratórios
discretos, aerosaculites, diarreia, mortalidade baixa, ovos com má formação,
degeneração ovariana com presença de hemorragia, queda de postura, peritonite por
ruptura de ovário e inflamação renal com presença de uratos.
As lesões patológicas dos sistemas pelo vírus são várias, mas o mais afetado é o sistema
respiratório. As lesões nos seios paranasais podem promover secreções fibrinosas,
mucopurulentas ou catarrais na traqueia, traqueíte hemorrágica, necrose em vários
órgãos, edemas e secreções intensas, e os sacos aéreos podem estar espessados e com
exsudato seroso, fibrinoso ou fibropurulento. Em caso de morte súbita, sem lesões à
necropsia. Em geral, nenhuma lesão é considerada característica da influenza.
6. DIAGNÓSTICO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Para o diagnóstico presuntivo, observar sinais clínicos, lesões e histórico de mortalidade
no recinto, mas para confirmação do diagnóstico é necessário realizar o isolamento do
vírus, detecção de RNA e/ou proteínas virais obtidos de tecidos, ovos embrionados ou
swabs de traqueia ou cloaca, assim como caracterização do subtipo e a determinação do
seu grau de patogenicidade do vírus. Métodos de diagnóstico rápido têm sido
padronizados em projetos de pesquisa, como RT-PCR (Transcrição Reversa e Reação
de Polimerase em Cadeia) e RT-PCR em tempo real, que se baseiam na detecção do
genoma viral e sequenciamento de DNA, ferramentas laboratoriais que vêm sendo
utilizadas no diagnóstico e nas investigações epidemiológicas dos surtos de influenza
aviária.
O diagnóstico diferencial para a distinção de AI de outras enfermidades de quadro
clínico e patológico semelhante é necessário, especialmente para doença de Newcastle,
cólera aviária, laringotraqueíte infecciosa, micoplasmose e bronquite infecciosa.
7. TRATAMENTO, CONTROLE E PREVENÇÃO
Apesar de comumente não se optar pelo tratamento das aves, no caso das gripes aviárias
tem sido sugerido o uso de uma nova classe de drogas, os inibidores de neuraminidase
(NA). Essa glicoproteína é responsável pela liberação dos vírus a partir da célula
hospedeira e pela contaminação de outras células. Se obtiver sucesso na inibição dessa
enzima, a princípio, haverá menor liberação de vírus e a doença terá um curso mais
limitado. Porém, para exercer seu potencial terapêutico, o tratamento deve ser instituído
bem precocemente.
O MAPA não indica a vacinação preventiva porque ela reduz o aparecimento de sinais
clínicos da doença e a mortalidade, mas não necessariamente interrompe ou previne o
processo de disseminação do agente infeccioso. Faz-se necessário, então, em casos de
infecção, destruir ou tratar apropriadamente todos os resíduos: ração, cama de aviário,
fezes e fômites susceptíveis à contaminação. Além disso, evitar o trânsito de outras
pessoas e animais, bem como o contato de galinhas com patos, marrecos, gansos, perus
e pássaros silvestres, lavar as mãos e limpar os pneus do carro caso entre em contato
com outros criadores e outras aves e manter as aves recém-chegadas ou de situação
sanitária desconhecida em quarentena, separadas das outras da criação. Dessa forma, a
aplicação de medidas de biosseguridade e higiene nos estabelecimentos avícolas,
limitando a exposição de aves domésticas a aves silvestres, principalmente migratórias
e/ou aquáticas, é a principal medida de mitigação de risco para introdução do vírus da
influenza aviária no plantel avícola, e consequentemente, para diminuir o risco de
evolução às formas altamente patogênicas e transmissão aos humanos. Em caso de
qualquer suspeita de aves doentes, o aconselhado é isolamento da área e busca por um
médico veterinário de confiança.
8. CONCLUSÃO
A influenza aviária é uma doença altamente contagiosa, transmitida pelo vírus da
influenza tipo A, que ocorre principalmente em aves e causa grandes prejuízos
econômicos aos produtores, tendo distribuição mundial desde a década de 50. Em raras
ocasiões atravessou a barreira entre as espécies e infectou a população humana. A
transmissão é horizontal, de forma direta ou indireta, causando sinais clínicos
principalmente no sistema respiratório. As infecções são classificadas como de alta e
baixa patogenicidade, que pode ter uma alta mortalidade se não for reconhecida cedo.
Portanto, já que o Brasil é hoje um dos maiores produtores e exportadores de frango no
mundo, e não existe vacina e nem um tratamento realmente viável, é através de uma boa
biossegurança que poderá se evitar uma maior contaminação e um cenário mais grave,
que seria conviver, no futuro, com a gravidade dessa doença nos seres humanos.
9. REFERÊNCIAS
Coordenação de Sanidade Avícola. PLANO DE CONTINGÊNCIA PARA
INFLUENZA AVIÁRIA E DOENÇA DE NEWCASTLE. Julho, 2019
Martins, NRS. Influenza Aviária: Uma Revisão dos Últimos Dez Anos. Escola de
veterinária – UFMG, 2011
THEVENARD, BRUNO MACHADO. INFLUENZA AVIÁRIA: Revisão.
Especialização lato sensu em Defesa e Vigilância Sanitária Animal realizado no
Instituto Quallitas – Universidade Castelo Branco, Vitória – ES, 2008
Site Governo Federal, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
INFLUENZA AVIÁRIA (IA). Publicado em 06/01/2020 às 17h25
Aulas da disciplina