Introdução à Reflexão Filosófica
Introdução à Reflexão Filosófica
FILOSOFIA
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Índice
Módulo 3 Sócrates . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
Módulo 4 Platão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
Módulo 6 O Helenismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64
Módulo 8 Maquiavel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81
Autores:
Ivy Judensnaider
Alexandre Freitas Ceistutis
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mesmos, dos motivos e dos processos que nos levam a constantes pelas quais passamos nós e as coisas. A pessoa que, agora,
compreender a realidade da forma como o fazemos. Em molha os pés no rio será outra daqui a instantes. O rio, com suas águas
correntes, também será outro. Não há como repetir uma experiência
resumo, a Filosofia leva-nos à reflexão sobre nossa capa-
exatamente da mesma forma como ela ocorreu há instantes.
cidade e finalidade em relação ao conhecimento e à ação.
Assim, a Filosofia pode nos tornar pessoas mais vir- 2. Definindo Filosofia
tuosas, já que nos dá os instrumentos para o questio-
namento e a interrogação.
Etimologicamente, a palavra grega filosofia é resulta-
Vamos voltar à questão do tempo. A reflexão filosó-
do da junção de outras duas: philo, que deriva de philia,
fica permite que indaguemos quais os motivos que nos
significa amizade e amor fraterno; e sophia significa
levam a entender o tempo de determinada forma; qual o
sabedoria. Assim, Filosofia é o amor pelo saber, e o filó-
sentido que damos ao tempo; e com que finalidade preci-
sofo é alguém que deseja saber e tem amor pelo saber.
samos da atribuição do sentido ao tempo. Como você já
Alguns pensadores pretendem defini-la como visão de
deve ter percebido, a reflexão filosófica requer o pensa-
mundo, quase como um resultado da própria cultura.
mento sobre o pensamento e, no nosso exemplo, esta-
Outros a definem como sabedoria de vida – como arte do
mos pensando sobre as formas a partir das quais
bem-viver –, ou como resultado de um esforço racional
pensamos o tempo.
para compreender e dotar de sentido o mundo e o
Pensar sobre o pensamento exige que algumas
Universo. Segundo Chauí, cada uma dessas definições é
condições sejam atendidas: é evidente que não podemos
problemática, não abarcando a totalidade do significado de
refletir filosoficamente usando os mesmos métodos que
Filosofia. Para a filósofa, a melhor definição de Filosofia é
utilizamos no dia a dia para compreender o mundo e as
aquela que a entende como fundamento teórico e crítico
coisas que nos cercam. Não estamos mais operando no
dos conhecimentos e das práticas. Em outras palavras,
campo do “eu acho” ou do “eu gosto”. Para pensar sobre A Filosofia, cada vez mais, ocupa-se com as
o que é o pensamento, precisamos utilizar palavras preci- condições e os princípios do conhecimento que
sas e conceitos claros. Também necessitamos fazer uso pretenda ser racional e verdadeiro; com a origem,
da nossa razão para formar um conjunto coerente de a forma e o conteúdo dos valores éticos, políticos,
explicações e significados. Nessa atividade intelectual, artísticos e culturais; com a compreensão das
não podemos nos deixar enganar pelo que é fácil: ao causas e das formas da ilusão e do preconceito no
contrário, de forma sistemática, devemos utilizar princí- plano individual e coletivo; com as transformações
pios coerentes e encadeamentos lógicos para buscar o históricas dos conceitos, das ideias e dos valores.
significado das coisas. Essas são condições básicas para A Filosofia volta-se, também, para o estudo da
a reflexão filosófica. consciência em suas várias modalidades: percep-
Heráclito (540-475 a.C.), um dos raros pensadores ção, imaginação, memória, linguagem, inteligên-
pré-socráticos de quem temos fragmentos escritos, afir- cia, experiência, reflexão, comportamento, vontade,
mou que “não podemos entrar duas vezes no mesmo rio: desejo e paixões, procurando descrever as formas
suas águas não são nunca as mesmas e nós não somos e os conteúdos dessas modalidades de relação
nunca os mesmos” (CHAUÍ, 2002b, p. 81). Com essas entre o ser humano e o mundo, do ser humano
palavras, ele estava refletindo sobre a mudança contínua consigo mesmo e com os outros. Finalmente, a
à qual estamos sujeitos, nós e o mundo. Tudo muda, Filosofia visa ao estudo e à interpretação de ideias
todos envelhecem, nada permanece idêntico. Nós muda- ou significações gerais como: realidade, mundo,
mos e as águas do rio também mudam: não há como natureza, cultura, história, subjetividade, objetivi-
dade, diferença, repetição, semelhança, conflito,
manter o mundo constante, permanente.
contradição, mudança etc. Sem abandonar as
A atividade filosófica tem esse poder transformador.
questões sobre a essên-cia da realidade, a Filoso-
A reflexão e o pensamento crítico fazem com que mude-
fia procura diferenciar-se das ciências e das artes,
mos; também nos fazem perceber que as águas do rio
dirigindo a investigação sobre o mundo natural e o
nunca mais serão as mesmas.
mundo histórico (ou humano) num momento
muito preciso: quando perdemos nossas certezas
cotidianas e quando as ciências e as artes ainda
não ofereceram outras certezas para substituir as
que perdemos. Em outras palavras, a Filosofia se
interessa por aquele instante em que a realidade
natural (o mundo das coisas) e a histórica (o
mundo dos homens) tornam-se estranhas, espan-
tosas, incompreensíveis e enigmáticas, quando o
senso comum já não sabe o que pensar e dizer e
as ciências e as artes ainda não sabem o que
pensar e dizer (CHAUÍ, 2002a, p. 17).
Figura 3. Ao afirmar que não mergulhamos duas vezes nas águas de
um mesmo rio, Heráclito está refletindo a respeito das mudanças
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Assim, caberia à Filosofia ocupar-se com a criação apenas o presente que existe e, no entanto, ele não tem
dos conceitos, bem como com o processo do pensa- nenhum espaço. O que acontece agora já é passado, o
mento, fruto da atividade racional, e com a comunicação que ainda não aconteceu é futuro. O presente só pode
dessa atividade pensante. existir se o tempo puder ser subdividido em mínimos
pedaços, tão mínimos que sua passagem não se faça
perceptível; afinal, no momento em que o presente
ocorre, ele já deixa de existir e se transforma em passa-
do. Da mesma forma, quando pensamos no futuro – um
tempo que ainda não ocorreu – o fazemos daqui do pre-
sente. O futuro é imaginado e é pensado, não existindo
concretamente a não ser quando se torna presente (e,
portanto, passado).
As ideias de Agostinho parecem estranhas ou incom-
preensíveis? Reflita um pouco a respeito: ao contar sobre
o passado, a nossa perspectiva é sempre a do presente.
Se hoje somos pessoas diferentes do que éramos há
duas semanas, como conseguiríamos reconstruir o
passado sempre da mesma forma? Isso não equivale a
dizer que não seja possível uma percepção precisa a
Figura 4. O artista não pretende imitar a realidade; o seu objetivo é a respeito dos fatos do passado: apenas estamos reconhe-
busca da expressão da realidade, fazendo uso de técnicas. A Estética é cendo que a reconstrução do que já foi é, e sempre será,
a área da Filosofia que estuda a compreensão do mundo por meio das uma tarefa realizada no presente. Isso ocorre também em
expressões artísticas. relação ao futuro, uma construção feita a partir do pre-
sente, o qual, por sua vez, muda ao longo do tempo. O
Vamos adotar, por sua simplicidade, a definição tempo que já foi e o que ainda virá são sempre uma
proposta por Marilena Chauí (2002a): a Filosofia é análise construção feita a partir do presente. Se não fosse o
das condições das manifestações culturais, é reflexão presente, passado e futuro não existiriam. E, no entanto,
sobre as condições do conhecimento e é crítica às o presente é rápido e fugaz, logo se torna passado ou é
formulações artísticas, religiosas, científicas e políticas que pensado como futuro que ainda acontecerá.
surgem em função de como os seres humanos entendem Da mesma forma como estamos agora refletindo
a realidade e dão sentido a ela. Não é ciência, mas reflexão criticamente sobre o tempo a partir da perspectiva do
sobre como fazemos ciência. Não é religião, mas reflexão século XXI, Agostinho elaborou explicações racionais para
sobre as crenças religiosas e compreensão do como elas a existência do mundo e do tempo a partir do ponto de
buscam dar conta de explicar o mundo. Não é arte, mas vista do seu próprio momento histórico. Não poderia ser
entendimento sobre as formas de apreensão estética que de outra forma: todo autor é fruto do seu contexto
os homens desenvolveram ao longo do tempo. histórico, da cultura existente àquele instante, das
condições do conhecimento daquele momento.
3. A história da Filosofia Nascido em 354, na província de Numídia, na África,
Aurelius Augustinus tornou-se bispo de Hipona, cidade na
Fizemos, anteriormente, uma breve reflexão sobre o qual viveu até 430, ocupando um cargo que o obrigou a
significado do tempo. Outros também o fizeram, e em dividir-se entre as tarefas administrativas e a reflexão
vários e diferentes momentos históricos. Vejamos, por filosófica que tanto apreciava. Naquele instante, o Império
exemplo, a reflexão filosófica realizada por Santo Agos- Romano havia se dividido em dois: o Império Romano do
tinho a respeito do tempo. Ocidente (que, embora tivesse reunido sob o cristianismo
De que modo existem aqueles dois tempos – o inúmeras tribos de culturas diferentes, encontrava-se
passado e o futuro –, se o passado já não existe e ameaçado por seitas que criticavam a visão dos principais
o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se líderes cristãos e por invasões bárbaras) e o Império Ro-
fosse sempre presente, e não passasse para o mano do Oriente (cuja capital, Constantinopla, acabaria
pretérito, já não seria tempo, mas eternidade. Mas por cair nas mãos dos inimigos otomanos em 1453). O
se o presente, para ser tempo, tem necessa- cristianismo ocidental tinha muito com o que se
riamente de passar para o pretérito, como preocupar: além de deter as práticas pagãs e converter
podemos afirmar que ele existe, se a causa da sua os infiéis, ainda precisava lidar com as cisões provocadas
existência é a mesma pela qual deixará de existir?
pelas inúmeras correntes contrárias a Roma. Além disso,
(AGOSTINHO, 1999, p. 322).
ressentia-se com a falta de fundamentação filosófica de
seus preceitos, o que tornava obrigatório apoiar-se única
Para Agostinho, não existe o passado (ele já aconte- e exclusivamente nas verdades reveladas.
ceu), tampouco o futuro (que ainda não aconteceu). É
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O cristianismo existia há apenas quatro séculos, e Como resultado desse raciocínio, Agostinho formu-
seus pensadores e seguidores não haviam elaborado um lou a seguinte ideia: o ser humano era passível de erros;
conjunto de trabalhos filosóficos que discutissem os no entanto, como era também capaz de reconhecer o
principais elementos desta fé. Esta religião ainda tão erro, ele estava isento de erro. O que garantia a verdade
jovem tinha como apoio somente regras de conduta e no julgamento humano? O pensamento. Qual a fonte e a
crenças, entre elas a do sacrifício de Cristo em prol da origem do pensamento? A alma. A capacidade de pensar
humanidade. Para dotar o cristianismo de um arcabouço era uma qualidade da alma, enquanto os equívocos
filosófico, a Patrística – movimento filosófico – foi buscar provenientes das sensações estavam relacionados à
inspiração nas fontes que até então eram conhecidas, materialidade do corpo. Finalmente, à pergunta sobre
quer dizer, nas obras dos filósofos gregos e seus suces- quem seria o responsável pela iluminação da alma e pela
sores. Valendo-se, então, de vários elementos ali encon- sua capacitação para a busca da verdade, o pensador
trados, os filósofos da Patrística procuraram construir uma responderia de forma incisiva: Deus, criador de um
verdadeira filosofia cristã. Se a fé não era suficiente para mundo perfeito, obra de sua sabedoria e de sua bondade.
a conversão dos infiéis, era necessária uma filosofia que Habitante de um mundo criado por um Deus infinita-
provasse os principais fundamentos cristãos. mente bom, ao ser humano restava apenas a salvação da
Envolvido na tarefa de elaborar essa filosofia cristã, graça divina, única possibilidade de resgatá-lo do risco da
Agostinho propôs que a reflexão filosófica fosse o danação eterna.
caminho ideal para atingir a felicidade: a Filosofia seria o Para Agostinho, em pleno século IV d.C., só havia
instrumento mais que perfeito para a indagação a respeito uma resposta lógica para a pergunta a respeito do signifi-
da condição humana e para a prova da existência de Deus; cado do tempo: ele havia sido criado por Deus, sinônimo
em adição, a fé seria a via de acesso à verdade eterna, de Eternidade. “Criastes todos os tempos e existis antes
porém precedida pela razão. Era necessário compreender de todos os tempos. Não é concebível um tempo em que
para crer; depois, era necessário crer para compreender. A possa dizer-se que não havia tempo” (AGOSTINHO,
razão precedia a fé e era, também, sua consequência. 1999, p. 322).
Caminhando por essa trilha, Agostinho formulou sua Faltava objetividade na reflexão filosófica de
concepção de mundo, do ser humano e de Deus. Agostinho? Estaria essa reflexão contaminada pela fé e
por suas crenças pessoais? Vamos pensar um pouco a
respeito. A objetividade é um dos objetivos da reflexão
Saiba mais filosófica. Isso não significa, entretanto, que possamos
Sugerimos que você assista ao filme Augustine – O nos imaginar totalmente imunes ao nosso próprio tempo
declínio do Império Romano (diretor Christian Duguay, histórico. Como já discutimos anteriormente, a atitude
2010, 200 minutos). Nele, Agostinho – em meio à crítica e o pensamento crítico têm como propósito
invasão dos vândalos e visigodos ao Império Romano, diminuir o atrito entre as nossas crenças pessoais e a
nossa reflexão imparcial sobre a realidade. No entanto,
já em decadência – relembra sua adolescência, sua
não há como negar que somos seres morais, dotados de
adesão ao maniqueísmo (uma religião que acreditava
cultura e frutos do nosso contexto histórico.
no confronto contínuo entre as forças do Bem e do
A Filosofia está imersa na História. Mais: a Filosofia
Mal), sua vida de excessos e, posteriormente, sua
tem uma História própria e seus representantes falam a
conversão ao cristianismo. O filme também mostra os
partir das condições históricas do momento em que ela-
conflitos entre o cristianismo e as diversas seitas que
boram suas ideias. Agostinho trata a questão do tempo de
se opunham ao poder central da Igreja, em particular
acordo com as possibilidades do seu momento histórico.
a dos donatistas, que se consideravam representantes
Qualquer um de nós, em pleno século XXI, poderia fazê-
da verdadeira igreja e julgavam os demais como
lo de outra forma. Aliás, impossível fazer de maneira
traidores e pecadores. semelhante à de Agostinho: nós já nos apropriamos dos
resultados da Revolução Científica, já lemos Newton e
Na tentativa de refutar o ceticismo (que considerava Darwin, já passamos por duas grandes guerras mundiais,
os sentidos como únicas fontes do conhecimento e, por já vimos cidades inteiras serem destruídas pela energia
isso mesmo, estava imerso em erros e incertezas), atômica, temos contato com as possibilidades quase ilimi-
Agostinho propôs que os equívocos não estavam naquilo tadas da comunicação no espaço virtual... Como, então,
que os sentidos apreendiam, mas nos juízos feitos pensar no tempo tal como o fez o pensador que estamos
daquilo que era percebido. estudando?
Ao invés de afirmar “isso é branco”, vendo nisso Em razão disso, é fundamental termos em mente
uma verdade absoluta, o ser humano deveria dizer alguns aspectos:
“eu sei que isto me parece branco: limito-me à a) não há como ignorar o contexto histórico a partir
minha percepção e encontro nela uma verdade que do qual foram desenvolvidas as ideias dos filósofos que
não me pode ser negada” (PESSANHA, 1999, p. 14). estudaremos;
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b) devemos ser cuidadosos quando do diálogo entre Razão. A Filosofia medieval procurou demonstrar racional-
filósofos de períodos históricos diferentes: Platão (427- mente a existência de Deus, investigou a diferença entre
347 a.C.) e Hannah Arendt (1906-1975) falam de amor, o finito e o infinito e buscou formular uma hierarquia entre
mas a partir de perspectivas totalmente distintas; quando os seres, na qual os inferiores eram governados pelos
Leucipo de Mileto (século V a.C.) fala de átomo, não se superiores. A Renascença colocou o homem no controle
refere ao mesmo que Albert Einstein (1879-1955) do seu destino por meio do acesso ao conhecimento: o
entendia como átomo – são “átomos” diferentes, concei- saber permitiria o controle da natureza, dos céus, dos ma-
tos distintos, sem qualquer comunicação entre eles; res e da matéria. A Filosofia moderna fez triunfar o
c) as ideias filosóficas são capazes de sobreviver ao racionalismo: nada mais recomendável do que usar o
seu próprio tempo. Assim, podemos falar de influências intelecto e a razão para conhecer o mundo, essa realidade
platônicas (século IV) no trabalho de um filósofo do século organizada sob uma forma racional e dotada de mecanis-
XVII, ou do impacto do positivismo de Comte (século XIX) mos físicos e matemáticos possíveis de serem com-
em pleno século XXI. Fica claro também que essas preendidos e interpretados. A Filosofia da Ilustração
influências não significam que as ideias se repetem manteve a razão em papel de proeminência, colocando-a
exatamente da mesma forma como foram elaboradas ao como responsável pela conquista da evolução e do
seu tempo: elas se adaptam, se acomodam e ganham progresso.
novas interpretações em contextos históricos diferentes; A cada momento histórico, os filósofos fizeram as
d) não há como aplicar os adjetivos “melhor”, “pior”, perguntas que a realidade lhes apresentava e de acordo
“certo” ou “errado” às abordagens filosóficas: elas pre- com as suas possibilidades de conhecimento. Quais são,
cisam ser analisadas a partir das possibilidades de conhe- então, as perguntas para as quais a Filosofia do século
cimento existentes à época em que foram elaboradas; XXI está à procura de respostas? São muitas e diversas,
e) os textos primários (quer dizer, os textos originais e podemos citar algumas: o que é o progresso? Qual é o
dos filósofos) devem ser lidos e compreendidos à luz do papel da ciência? Qual o domínio que o conhecimento
tempo em que foram produzidos. Quase sempre, a pode exercer sobre a natureza e a sociedade? Como
linguagem utilizada pelos filósofos causará estranheza; construir uma sociedade justa e feliz? Como tornar possí-
pense nisso como um ponto positivo, já que a estranheza vel a pluralidade cultural? Como garantir o rigor nos méto-
permitirá a distância e a objetividade necessárias para a dos científicos? Quais os papéis desempenhados pela
análise imparcial das ideias do pensador estudado. linguagem científica, os problemas lógicos com os quais
Como já dissemos, a Filosofia tem uma História, e as ciências devem conviver e as condições para o conhe-
propomos dividi-la em sete períodos, tal como sugerido cimento científico? Quais os limites e a consistência dos
por Chauí (2002a). Assim, temos: conceitos até hoje desenvolvidos por meio da reflexão
a) a Filosofia antiga, que compreende a Filosofia filosófica e da atividade científica? São muitos os desafios
greco-romana até o período helenístico; a serem enfrentados pela reflexão filosófica, e os 25
séculos de vida da Filosofia são a garantia de que eles
b) a Patrística, do século I ao século VII, do qual serão ultrapassados e de que outros novos desafios
Agostinho é um dos representantes mais ilustres; surgirão.
c) a Filosofia medieval, do século VIII ao século XIV;
d) a Filosofia da Renascença, do século XIV ao século
XVII;
e) a Filosofia Moderna, do século XVII ao século XVIII;
f) a Filosofia da Ilustração, ou Iluminismo, que
compreende o período entre meados do século XVIII e
começo do século XIX;
g) a Filosofia contemporânea, do século XIX aos dias
de hoje.
Cada um desses períodos tem a marca do seu mo-
mento histórico. Em cada um deles, vemos os sinais do
que as perguntas propostas pelos filósofos revelam sobre
as condições de pensamento vigentes àqueles instantes.
A Filosofia patrística refletiu sobre a criação do mundo por Figura 5. No século XXI, e em termos das perguntas para as quais a
Deus, sobre o juízo final, sobre o Bem e o Mal; ainda, Filosofia deve oferecer respostas, é fundamental a questão referente
questionou-se sobre a possibilidade de conciliar a Fé e a à construção de uma sociedade justa e feliz, respeitada a pluralidade
cultural.
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Breve diálogo
Daniel Loneeff, 55 anos, é bacharel em Filosofia, Jornalismo e Direito. Atualmente, trabalha como assessor de
comunicação em São Paulo.
Pergunta: Em que momento você decidiu que estudaria Filosofia?
Daniel Loneeff: Quando terminei o Colégio. Fui muito instigado por um professor de Matemática. Ele levantava
sempre problemas filosóficos e achei que a Filosofia era uma base cultural importante. Independentemente do que
eu fosse fazer em termos profissionais, eu achei que valeria a pena estudar Filosofia.
Pergunta: Estudar Filosofia mudou a maneira de você ver o mundo?
Daniel Loneeff: Ela trouxe uma densidade de pensamento e uma cautela nas conclusões que, normalmente, a gente
não tem. Estamos acostumados a tirar conclusões apressadas, e a Filosofia me mostrou um outro caminho. Ela me
ensinou a desconfiar de verdades estabelecidas, me ensinou que a Ciência não é uma solução para tudo, que ela tem
limites e também está sujeita a pressupostos do pensamento que não podem ser comprovados empiricamente. Não
existe Ciência isenta de pressupostos, e esses pressupostos, além de não estarem sujeitos a comprovação, estão
ocultos, você não enxerga isso claramente na teia de conceitos de uma teoria.
Pergunta: De que forma a Filosofia facilitou os estudos em outras áreas do conhecimento?
Daniel Loneeff: A Filosofia me ensinou a ler textos de uma maneira não trivial e a escrever bem. A organização das
ideias também foi um ganho. Há um treino para ler textos de Filosofia e esse treino é bastante útil. Na Filosofia,
aprender como ideias e conceitos estão conectados e como eles se desenvolvem coerentemente num texto é um
treino diário. Além disso, há a formação cultural: você lê textos que continuam sendo o fundamento da nossa civilização.
Pergunta: Qual foi a maior dificuldade que você enfrentou durante o curso de Filosofia?
Daniel Loneeff: Alguns textos com os quais a gente se depara são muito difíceis de serem lidos sozinho. Você precisa
de um tutor, de alguém que o oriente. Essa é a maior dificuldade que um aluno de Filosofia enfrenta.
Conteúdo complementar
d) a criação de direitos baseados nos princípios de igualdade e seus sentimentos, e pelas consequências do que faz e
(todos devem ser tratados da mesma forma), liberdade sente (CHAUÍ, 2002, p. 337).
(todos têm o direito de se expressar e de fazer escolhas,
sejam elas profissionais, políticas ou religiosas) e participa- A ética não é algo que possa ser imposto; ao contrário, deve
ção no poder (todos têm o direito de se fazer representar, ser fruto da livre vontade do agente. Esse agente deve ter
garantido o sufrágio universal, reconhecendo-se a cidadania consciência de si e dos outros, deve ser capaz de controlar os
para homens, mulheres, negros, analfabetos ou perten- próprios desejos e impulsos e de assumir a responsabilidade
centes a grupos minoritários). pelos efeitos que suas ações provocam.
A ética é construída socialmente; portanto, depende das
condições históricas e sociais das quais emana. Isso nos leva a
pensar a respeito das transformações que sofreram nossos
valores morais e éticos. Por exemplo, a escravidão era tida como
moralmente justificada nos séculos XVII e XVIII. A autópsia, por
sua vez, foi considerada uma prática pecaminosa durante muitos
séculos: examinar o cadáver era visto como uma profanação do
corpo.
Da mesma forma como os valores éticos se formam a partir
do espírito de determinada época, os desenvolvimentos científicos
e a própria ampliação do conhecimento trazem novos desafios a
serem enfrentados pela nossa consciência moral.
Nos dias de hoje, os desenvolvimentos alcançados pelas
Ciências da Vida e da Saúde criaram novos conflitos éticos. Não
seria possível, na Idade Média, pensarmos a respeito da
dimensão moral associada ao transplante de órgãos; no entanto,
Figura 1. O então presidente da Assembleia Nacional Constituinte, em pleno século XXI, certas questões se impõem, todas elas
Ulysses Guimarães, apresenta a nova Constituição Federal, vigente referentes às relações entre os valores humanos e o
até hoje. A Constituição Federal de 1988 é tida como Constituição-ci- conhecimento biológico, em especial quando os atos humanos
dadã, pois foi formulada tendo em vista a proteção aos direitos dos causam efeitos irreversíveis sobre os fenômenos vitais.
cidadãos. Assim, ela restabelece as eleições diretas para todos os
cargos do Poder Executivo, o direito de voto para os analfabetos e a
proteção à liberdade de expressão dos meios de comunicação. Saiba mais
Caso você tenha interesse pelo assunto, sugerimos a
Os desafios à construção de uma sociedade democrática
são inúmeros. Não basta que a forma de governo seja demo- leitura de O que é Ética, de Álvaro L. M. Valls, da
crática; é necessário que os benefícios da democracia estejam Coleção Primeiros Passos, Editora Brasiliense, 1994.
ao alcance de todos. Assim, a violência, o racismo, o precon-
ceito e as desigualdades sociais e econômicas são empecilhos
para a construção de uma sociedade justa e que seja capaz de Texto 3:
defender e proteger os direitos de todos.
A Filosofia e a Estética
A Estética é o campo da Filosofia que se preocupa com o
Texto 2:
estudo das manifestações artísticas. No século XVIII, ela
buscava o estudo das obras de arte como criações que tinham
A ética como finalidade o belo. Atualmente, ela designa a investigação
Nosso senso moral e nossa consciência moral são frutos filosófica que tem por objeto as artes, buscando compreender
das distinções que fazemos entre o que é bom e o que é mau, a realização da beleza, por parte do artista, e a recepção da obra,
entre o Bem e o Mal. Essas distinções nos permitem construir por parte do espectador.
valores relacionados à justiça, à integridade, ao espírito de A História da Arte permite a identificação de diferentes
sacrifício e à generosidade; em função desses valores, desen- escolas e estilos artísticos. Segundo Chauí,
volvemos sentimentos de admiração, amor, dúvida, medo e Se acompanharmos as transformações sofridas pelas
artes, passando da função religiosa à autonomia da obra
revolta que, ao final, levam-nos a ações que se traduzem em
de arte como criação e expressão, veremos que as
consequências para nós mesmos e para os outros. Assim, o
mudanças foram de dois tipos. De um lado, mudanças
senso moral e a consciência moral estão atrelados às relações quanto ao fazer artístico, diferenciando-se em escolas de
que mantemos com os outros. arte ou estilos artísticos – clássico, gótico, renascentista,
A ética diz respeito a esse conjunto de valores morais que barroco, rococó, romântico, impressionista, realista, ex-
norteia a nossa ação. Dessa forma, a ética requer a existência pressionista, abstrato, construtivista, surrealista etc. Essas
de um sujeito consciente e que saiba diferenciar o certo do mudanças concernem à concepção do objeto artístico, às
errado. Segundo Chauí, relações entre matéria e forma, às técnicas de elaboração
a consciência moral não só conhece tais diferenças, mas dos materiais, à relação com o público, ao lugar ocupado
também se reconhece como capaz de julgar o valor dos por uma arte no interior das demais e servindo de padrão
atos e das condutas, e de agir em conformidade com os a elas, às descobertas de procedimentos e materiais novos
valores morais, sendo por isso responsável por suas ações etc. (CHAUÍ, 2002, p. 326).
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O Expressionismo, por exemplo, foi um movimento artístico que surgiu na Alemanha, na primeira década do século XX. Para os
artistas do Expressionismo, a arte estava associada ao movimento, ao uso das cores fortes e à distorção das imagens. Assim, nas
obras de arte do Expressionismo, surgem figuras deformadas em meio ao sofrimento, ao clima dramático e à desolação. A morte é
um tema constante nas obras dessa escola, bem como a crítica ao ideal de beleza.
Saiba mais
Caso você tenha interesse em estudar mais os movimentos artísticos, sugerimos uma visita à Enciclopédia Cultural
Itaú, disponível em: <www. [Link]>. Acesso em: 26 jun. 2016. Lá, você poderá encontrar
mais de cinco mil verbetes a respeito de artes visuais, dança, música, cinema, teatro e literatura.
1. Leia o texto a seguir. Nele, estão contidas algumas não as suas imagens, mas os próprios objetos. (...) De
ideias de Agostinho a respeito da memória. onde e por que parte me entraram na memória? (...)
Entreguei-as ao meu espírito, como quem as deposita,
Quando ouço dizer que há três espécies de questões, para depois as retirar quando quiser.
a saber: “se uma coisa existe (...), qual a sua natureza (...) (AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo:
e qual a sua qualidade (...)”, retenho as imagens dos sons Nova Cultural, 1999, p. 270. Coleção Os Pescadores.)
de que se formaram estas palavras, e vejo que eles
passaram com ruído através do ar, e já não existem. Não O que Agostinho quer dizer quando afirma que as coisas
foi por nenhum dos sentidos do corpo que atingi essas já existem no espírito, cabendo à memória apenas
coisas significadas nestes sons, nem as vi em parte reconhecê-las?
nenhuma a não ser no meu espírito. Escondi na memória
–9
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10 –
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3. 4.
Texto I
A ação democrática consiste em todos tomarem parte
do processo decisório sobre aquilo que terá conse-
quências na vida de toda a coletividade.
(GALLO, S. et al. Ética e cidadania: caminhos da Filosofia.
Campinas: Papirus, 1997. Adaptado.)
Texto II
É necessário que haja liberdade de expressão,
fiscalização sobre órgãos governamentais e acesso por
parte da população às informações trazidas a público pela
A conversa entre Mafalda e seus amigos imprensa.
a) revela a real dificuldade de entendimento entre (Disponível em: <[Link]
– 11
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5.
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a) b)
c) d)
– 13
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verdade por quem o enuncia (poetas ou narradores de persas, africanos e índios) também desenvolveram for-
histórias) e é entendido como verdade por quem o ouve. mas específicas de pensar o mundo; no entanto, a
Tendo origem em alguma revelação divina, o mito incor- Filosofia é um fato grego, destacando-se das concepções
pora o sagrado e é transmitido como verdade inques- de outras culturas de forma clara.
tionável. O relato mítico transforma-se a cada vez que é
narrado. Parcialmente aberto à inovação, adapta-se ao
público com o qual fala.
Como os mitos narram o mundo? Em geral, eles atri-
buem a paternidade ou a maternidade das coisas e dos
seres a entes e deuses. A narrativa da criação e da exis-
tência do mundo é, portanto, uma genealogia (narrativa
de gerações).
Esses deuses e entes mágicos são dotados de
vontades e, por meio de seus atos, o mundo é criado, da
mesma forma como as paixões humanas são criadas e
se manifestam. Assim, a origem do mundo e da natureza
tem como princípio uma cosmogonia (gonia significa
nascimento a partir do parto; cosmo é o mundo orga-
nizado), na qual a narrativa sobre o nascimento e sobre a
organização do mundo é feita a partir de forças divinas
que exercem os papéis de pai e mãe.
O mito narra o funcionamento de forças que agem e
se comportam exatamente como os seres humanos.
Assim, os deuses e os entes estão em constante confli-
to, o que explica as transformações bruscas na natureza
e na vida dos homens. A raiva e o amor desses deuses
são revelados por meio dos temporais, dos períodos de
seca, das safras abundantes, das noites estreladas e de
outras em completa escuridão. Assim, para compreender
o mundo, basta compreender (ou tentar compreender) o
que se passa nos mundos dos deuses. Não que esse Figura 1. Povos indígenas de todos os lugares do planeta sempre
conhecimento seja acessível em sua totalidade: ao fizeram uso das estrelas (e de narrativas míticas associadas a elas) para
contrário, o acesso ao conhecimento de alguns dos mis- explicar as alterações do clima e os fenômenos da natureza. As estrelas
térios do mundo é passível de punição, e será castigado não eram os únicos indícios da origem do mundo: para os índios Mbya
Guarani, o princípio de tudo pode ser conhecido por meio dos mitos
aquele que tentar desvendá-los.
ligados ao Sol e à lua. Na imagem, vemos a constelação conhecida
Em algum momento da História do pensamento e como Homem Velho, que representa um homem sem uma perna, cujo
das ideias, os mitos cederam lugar a outras explicações e pedaço foi cortado pela esposa que preferia o cunhado ao marido.
formas de compreender o mundo. Claro que essa
transição não se deu de repente, tampouco de maneira As concepções para nós deixadas de herança pelo
irreversível. pensamento grego instituíram as bases do conhecimento
A Filosofia começou com os gregos, mas não na ocidental, em particular no que se refere à razão, à
Grécia. Os primeiros filósofos dos quais temos frag- racionalidade, à ciência e aos valores éticos e morais.
mentos de textos vieram de Mileto, uma colônia grega Uma das contribuições legadas pelos gregos está
da Ásia Menor. Evidentemente, outros povos (hebreus, associada à ideia de que a Natureza opera segundo leis
Saiba mais
Sugerimos que você assista ao filme Fúria de Titãs (diretor Louis Leterrier, 2010, 106 minutos). O filme narra o mito
de Perseu, um semideus (filho de Zeus) que teria fundado a cidade de Micenas. Usando um escudo (oferecido a ele
por Atena, deusa da sabedoria e da justiça), um elmo que o tornava invisível (dado por Hades, o deus dos mortos) e
sandálias com asas (oferecidas por Hermes, deus da fertilidade e dos conhecimentos mágicos), Perseu consegue
cortar a cabeça da Medusa, um monstro terrível que ameaçava os mortais e a sua amada. Independentemente das
modificações no mito original de Perseu, o filme permite que você entre em contato com o mundo conturbado dos
deuses, responsáveis pela sorte e pelo destino dos seres humanos.
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próprias e universais, sendo essas leis sujeitas ao A Filosofia nasce com base nas transformações
conhecimento e possíveis de serem acessadas por meio graduais que são realizadas a partir das narrativas míticas,
da vontade e da capacidade humana. O conhecimento, comuns tanto nas comunidades gregas quanto em outras
por sua vez, também obedece a leis lógicas. comunidades. Portanto, a razão descola-se do pensa-
Outra contribuição está relacionada à percepção de mento mágico aos poucos, estando este último presente
que as ações humanas são frutos de decisões e escolhas em várias obras dos primeiros filósofos – da cosmogonia
feitas pelos homens, especialmente dirigidas pela à cosmologia, e desta para a Filosofia. Esse processo, ao
aspiração à felicidade e à justiça. Excetuando-se as situa- menos segundo a visão da maior parte dos historiadores,
ções que fogem ao nosso controle, nossas operações no não se deu abruptamente: ao contrário, a transição foi
mundo são consequências das nossas decisões, tomadas lenta e gradual, permanecendo vestígios do pensamento
a partir do conhecimento e do acesso às leis de mágico em vários dos filósofos posteriores.
funcionamento da natureza. Segundo Chauí, De acordo com Chauí (2002b), podem ser assim
É por uma lei necessária da Natureza que os sintetizadas as diferenças entre os mitos e a Filosofia:
corpos caem, mas é por uma deliberação humana a) enquanto o mito narrava o passado, a Filosofia se
e por uma escolha voluntária que fabrico uma ocupou com as explicações relativas ao presente (mesmo
bomba, a coloco num avião e a faço despencar se, para isso, precisasse fazer uso do passado);
sobre Hiroshima (CHAUÍ, 2002a, p. 23).
b) enquanto o mito fazia uso de genealogias e
A Filosofia nasce desse pressuposto, qual seja, a da conflitos entre divindades, a Filosofia se ocupou em
possibilidade de aspirar ao conhecimento do mundo, buscar uma explicação racional para a compreensão do
regido e conduzido por homens cientes das leis de seu mundo e da natureza;
funcionamento. Nesse cenário, ficam excluídas as divin- c) enquanto o mito não estava preocupado com a
dades e as explicações mágicas (ao menos, enquanto verossimilhança de suas narrativas, a Filosofia buscou
princípio), estando o conhecimento ao alcance de todos. explicações isentas de contradições.
A Filosofia que nasce em Mileto, ao final do século E por que a Filosofia surgiu na Grécia, ou por que
VII e início do VI a.C., é uma cosmologia, quer dizer, um surgiu entre os gregos? Os historiadores da Filosofia
sistema organizado de ideias que buscam explicar apontam algumas explicações:
racionalmente o mundo (cosmos significa mundo organi- a) os gregos, em suas viagens comerciais, entraram
zado; logia significa pensamento racional). Essa cosmo- em contato com o conhecimento produzido por outras
logia não nasce sem bases no conhecimento desenvolvido culturas, e esse conhecimento formou um "caldo de
por outros povos; ao contrário, ela surge da transformação cultura" extremamente original e rico; ainda, as viagens
que os gregos realizaram tendo os saberes de outros marítimas ampliaram o conhecimento grego a respeito do
povos como ponto de partida. espaço e de regiões até então desconhecidas;
b) os gregos transformaram práticas de outros povos
Observação: em conhecimentos racionais;
Alguns historiadores da Filosofia identificaram c) os gregos inventaram a política (pólis, em grego,
inúmeros pontos de semelhança entre as religiões significa cidade organizada por leis), com o desenvol-
orientais e a cultura grega: os contatos econômicos vimento de práticas novas e arrojadas, tais como tribu-
entre esses povos e os gregos poderiam ter susci- nais e assembleias; dessa forma, a pólis passa a ser o
tado a presença de algumas concepções orientais no espaço público a ser ocupado por um discurso que não é
pensamento grego, especialmente as relacionadas à mais o do relato mítico, mas o da defesa das ideias;
ideia de um ente universal divino, criador de todos os d) os gregos inventaram o calendário, o que
seres, e à interpretação cosmogônica de processo de transformou em prática cotidiana a abstração associada à
geração e diferenciação dos seres. No entanto, essas percepção do tempo;
teses – chamadas de orientalistas – ignoram o fato
e) os gregos inventaram a moeda, que passou a
de os gregos terem criado algo inteiramente novo a
representar – de forma simbólica e abstrata – o valor das
partir das heranças orientais. Assim, sem desprezar a
coisas, permitindo a intensificação das trocas comerciais
influência do Oriente, entende-se que a Filosofia
e o consequente processo de urbanização;
grega nasceu de contribuições originais feitas pelos
gregos a partir dessas heranças. A Filosofia grega não f) os gregos inventaram a escrita alfabética, que,
pode, portanto, ser tratada como um milagre, surgido diferentemente da de outras culturas, buscou representar
do nada; em contrapartida, tampouco pode ser não a imagem das coisas, mas a ideia a elas associada.
considerada como mero desenvolvimento das culturas De início, essa Filosofia – que se desenvolveu gradati-
orientais. vamente e que foi buscando distância da narrativa mítica
– procurou oferecer respostas claras, lógicas e racionais
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Figura 2. Teatro de Epidauro, na Grécia. A Filosofia não pode ser vista como um milagre grego, surgido do nada e sem nada a dever a outras culturas. No entanto,
é inegável o fato de os gregos terem realizado mudanças profundas no conhecimento herdado de outros povos, criando algo extremamente original.
para os problemas que eram trazidos. Da mesma forma, Tales de Mileto viveu aproximadamente entre o final
buscou respeitar as regras de funcionamento do pensa- do séc. VII a.C. e meados do século VI a.C. Matemático,
mento, rejeitando explicações genéricas ou mágicas. buscou submeter os mitos cosmogônicos à racionalidade.
Para ele, a água era a origem de todas as coisas.
2. Os primeiros filósofos: a Filosofia pré-socrática A physis, então, teria como único princípio esse
elemento natural, presente em tudo. Segundo
A filosofia nascente carregou dentro de si algumas Tales, a água, ao se resfriar, torna-se densa e dá
construções míticas do período que lhe era anterior, bus- origem à terra; ao se aquecer, transforma-se em
cando, no entanto, a racionalização e a rejeição aos vapor e ar, que retornam como chuva quando
elementos religiosos típicos da narrativa mítica. Esse pro- novamente esfriados. Desse ciclo (vapor, chuva,
rio, mar, terra) nascem as diversas formas de vida,
cesso ocorreu ao tempo da transformação da sociedade
vegetal e animal (ABRÃO, 1999, p. 26).
grega numa sociedade citadina e urbana. Foi nesse
momento, e nesse ambiente, que as explicações religio-
Tal como seu contemporâneo Tales de Mileto,
sas deram lugar ao racionalismo, com o abandono gradual
dos elementos mágicos tão comuns nas narrativas Anaximandro buscou a arkhé, princípio de tudo; no
míticas. entanto, para Anaximandro, esse fator não era a água,
Os primeiros filósofos fundadores dessa nova forma mas o ápeiron, que significa indeterminado ou ilimitado.
de interpretar o mundo são chamados de pré-socráticos. De forma eterna, o ápeiron estava em constante mo-
Essa denominação não se explica apenas por serem eles vimento, criando pares opostos como água e fogo, frio e
anteriores a Sócrates, mas por possuírem em comum calor. O mundo era constituído por esses pares.
vários elementos e formas de percepção e racionalização Filósofo que viveu em meados de VI a.C., Anaxí-
da realidade. menes entendeu que a arkhé era o ar:
Os conceitos-chave para compreendermos os A arkhé que comanda o mundo é o ar, um
pré-socráticos são dóxa (que significa opinião e persua- elemento não tão abstrato como o ápeiron, nem
palpável demais como a água. Tudo provém do ar,
são) e alétheia (palavra que exprime um pensamento
através de seus movimentos: o ar é respiração e
verdadeiro para todos). Assim, se o pensamento não
é vida; o fogo é o ar rarefeito; a água, a terra, a
sofre a influência do senso comum, dos preconceitos e
pedra são formas cada vez mais condensadas de
interesses particulares, ele vale por si: não é necessário
ar. Tudo o que existe, mesmo apresentando qua-
que as pessoas sejam convencidas de sua verdade. A lidades diferentes, reduz-se a variações quan-
dóxa opõe-se, portanto, à alétheia: a primeira é apenas titativas (mais raro, mais denso) desse único
uma opinião, convincente ou não; a segunda exprime um elemento (ABRÃO, 1999, p. 27).
pensamento verdadeiro.
Outros conceitos fundamentais, e que permeiam o Como você deve ter notado, Tales, Anaximandro e
pensamento dos pré-socráticos, são: Anaxímenes (todos eles da cidade de Mileto) não atribuí-
• arkhé: princípio, ponto de partida; ram a origem do mundo ao casamento entre deuses e
• physis: realidade, manifestação visível da arkhé, entes mágicos. Para eles, havia uma arkhé, um princípio
totalidade de tudo o que existe concretamente; único, capaz de dar conta da explicação da realidade.
• kinesis: movimento (transformação, incluídas aí as Água, forças indeterminadas ou ar poderiam ser os
transformações pelas quais os homens e a natureza princípios criadores do mundo.
passam). A destruição de Mileto pelos persas em 494 a.C.
deslocou o eixo da cultura grega para o sul da Itália, local
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Se existe algo, esse algo está em algum lugar, Segundo Anaxágoras, todas as coisas estavam
mas esse lugar deve também estar num lugar e juntas na origem, formando um todo cujas
assim sucessivamente. Um lugar sempre contém partes não eram identificáveis, como o caos
um outro e, por isso, não pode estar vazio: o vazio original da mitologia. Elas, porém, foram se
não existe (ABRÃO, 1999, p. 33). separando pela força do nous (espírito ou
inteligência), que, como num turbilhão, pôs em
Para Zenão, até mesmo o movimento era uma ilusão, movimento todas as coisas, misturando-as em
já que algo, ao se mover, ocuparia um espaço igual a ele diversas proporções. O nous é assim a origem
mesmo. Assim, um objeto, ao se mover, na verdade do movimento e da pluralidade. Ele, porém, é
estaria imóvel... O movimento de uma flecha lançada autônomo, isto é, não se mistura com as
seria a soma de momentos em que está imóvel, o coisas, mas as dirige (ABRÃO, 1999, p. 35).
que é absurdo. O movimento é assim uma ilusão,
do mesmo modo que a pluralidade das coisas o é. Leucipo (século V a.C.) e seu discípulo Demócrito
Só há um ser, único, imóvel, indivisível e eterno (460-370 a.C.) responderam à questão sobre a natureza
(ABRÃO, 1999, p. 33). da realidade de forma distinta: para eles, o mundo era
composto de átomos (em grego, a palavra significa não
Empédocles (aproximadamente 483-430 a.C.) buscou divisível), indivisíveis, imutáveis e eternos. Existentes em
responder ao desafio que Parmênides e Zenão haviam número infinito, entre eles havia um algo vazio, um nada.
apresentado: haveria um ser único e imóvel ou a Do choque entre os átomos, resultava a pluralidade de
pluralidade era uma característica das coisas? Empédo- um mundo em constante movimento.
cles solucionou a questão da seguinte forma: o mundo Da cosmogonia à cosmologia; da cosmologia à
era composto de quatro princípios: água, ar, fogo e terra. Filosofia, os pré-socráticos buscaram explicar o caos e a
Tudo o que havia no mundo era resultado da combinação ordem do mundo. Os problemas do mundo, longe de
entre esses princípios. O Amor e o Ódio, por sua vez, serem resultado das emoções e paixões dos deuses,
eram as forças que os aproximavam ou afastavam. tornaram-se possíveis de resolução por meio do logos, da
Anaxágoras, que nasceu na Jônia e viveu em Atenas, razão.
desenvolveu a ideia de inúmeros princípios que, combi-
nados, resultavam nas coisas e explicavam a pluralidade
dessas coisas.
Breve diálogo
Bettina Gerken Brasil, 40 anos, é bacharel em Filosofia e doutora em Saúde Pública. Atualmente, é professora da
Universidade Paulista – UNIP – e coordenadora do curso de Nutrição na mesma instituição.
Pergunta: Em que momento você decidiu que estudaria Filosofia?
Dra. Bettina Gerken Brasil: Foi uma decisão muito particular, fruto de uma percepção de que existia (e existe) muita
coisa para conhecer e entender. Durante o curso, não imaginava que estudar Filosofia influenciaria minha forma de
ver o mundo e de me ver no mundo. Mesmo quando imaginei que era algo separado da minha formação de
nutricionista, eu me enganei: até como nutricionista, eu estava completamente imersa nas teorias do conhecimento.
Pergunta: De que forma a Filosofia dialoga com a sua formação em Nutrição?
Dra. Bettina Gerken Brasil: Posso dizer que o estudo da Filosofia traz uma visão humanística para um curso que tem
ênfase nas Ciências Biomédicas. Além disso, a forma de pensar ensinada pela Filosofia e pela Lógica nos faz entender
a ciência de modo diferente. Isso também ocorre com a ciência da Nutrição.
Pergunta: Quais são os maiores desafios de que a Filosofia precisa dar conta nos dias de hoje?
Dra. Bettina Gerken Brasil: Vivemos hoje uma grande mudança sociocultural, que é reflexo de todo o
desenvolvimento do pensamento de tempos anteriores, mas que, ao mesmo tempo, traz figuras novas à
contemporaneidade. Entender o ser humano nesse novo contexto, suas relações com o mundo e as consequências
que todas essas mudanças podem provocar é o grande desafio da Filosofia contemporânea.
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Conteúdo complementar
Texto 1:
O mito como narrativa poética
Saiba mais
A poesia foi uma das fontes em cujas águas a Filosofia Sugerimos o filme Troia (diretor Wolfgang Petersen,
grega nascente se banhou. Essa poesia era constituída de 2004, 163 minutos). Apesar de algumas adaptações
versos harmônicos e sua narrativa fantástico-poética era recitada em relação à narrativa de Homero, o filme é uma boa
em público, com força de verdade. Acreditava-se na narrativa oportunidade para entrar em contato com o mundo
fantástica e os mitos ali contidos envolviam lutas e conflitos heroico, mítico e fantástico da Grécia Antiga.
entre deuses e homens. Ainda, a poesia não se contentava em
descrever os fatos – mesmo que míticos; ela também buscava
explicar as causas e as razões dos acontecimentos. Texto 2:
Dos poetas gregos, o mais conhecido é Homero.
Os paradoxos de Zenão
Curiosamente, sequer sua existência é confirmada, sendo forte
a possibilidade de ter sido atribuída a ele uma série de poemas Conhecemos Zenão por meio dos textos de Platão e de
e narrativas de autores diversos. Na poesia de Homero, Aristóteles. Segundo Aristóteles, Zenão podia ser considerado
pode-se dizer que tudo é divino, pois tudo o que o pai da dialética (dialektiké): Zenão tomava duas teses con-
acontece é explicado em função de intervenções dos trárias e provava que nenhuma era verdadeira; outro proce-
deuses. Os fenômenos naturais são promovidos por dimento consistia em apanhar as teses de seus adversários e
numes [divindades]: raios e relâmpagos são arremes- demonstrar que ambas eram falsas, ou baseadas apenas em
sados por Zeus do alto do Olimpo, as ondas do mar são meras opiniões. Seu trabalho, portanto, baseava-se na retórica
provocadas pelo tridente de Poseidon, o sol é levado
e na argumentação.
pelo áureo carro de Apolo, e assim por diante. Mas
Não são raras as vezes em que sua argumentação deságua
também a vida social dos homens, a sorte das cidades,
numa aporia, ou seja, em uma dificuldade intransponível.
as guerras e a paz são imaginadas como vinculadas aos
deuses de modo não acidental e, por vezes, até de modo Segundo Chauí,
essencial (REALE; ANTISERI, 2003, p. 8). O raciocínio de Zenão é aporético, criador de dificuldades
sem solução, [sendo registradas oito aporias de sua
autoria], cujo tema é sempre a prova indireta da verdade
Das obras de Homero, as mais famosas são Ilíada e
da imobilidade e da unidade pela redução ao absurdo do
Odisseia. Odisseia narra a jornada de Ulisses. Em Ilíada, Homero movimento da multiplicidade (CHAUÍ, 2002, p. 97).
nos traz a Guerra de Troia. Nessa poesia épica, os guerreiros
são belos, bons e sábios. Possuem as virtudes que são Vejamos um exemplo do raciocínio aporético de Zenão,
admiradas pelos deuses e, heroicos, não temem a morte. mais conhecido como a aporia (ou o paradoxo) de Aquiles e a
A guerra teria ocorrido por causa do sequestro de Helena, tartaruga.
esposa do rei de Esparta, pelo príncipe de Troia, Páris. Em se Observação:
tratando de um mundo governado por deuses, a guerra – bem
Como vimos, a aporia é um desafio sem solução. O
como a posterior queda de Troia – encontra explicação na
paradoxo, por sua vez, é uma contradição, ou um raciocínio
vingança promovida pelas deusas Hera e Atenas, enciumadas que carrega dentro de si uma oposição.
por Páris ter escolhido a deusa Afrodite como a mais bela.
Afrodite teria oferecido o amor de Helena (a mais bela das
mulheres) para Páris, mas o rancor das outras deusas faria com A proposta de Zenão era a seguinte: no caso de uma corrida
que a paixão deles acabasse por provocar a desgraça de Troia. entre Aquiles e uma tartaruga, e caso Aquiles permitisse que a
Para vingar o sequestro de Helena, os gregos atacam Troia, tartaruga tivesse alguma vantagem na largada, quem chegaria
tendo como seu principal trunfo Aquiles, que era filho de uma em primeiro lugar? Você, provavelmente, dirá: “Aquiles vencerá
deusa com um mortal e considerado o mais bravo dos soldados. a corrida, claro”. Qualquer um, aliás, responderia a mesma
Invencível, seu único ponto fraco era o calcanhar. Em Ilíada, coisa. No entanto, Zenão, por meio do seu arguto raciocínio,
Aquiles representa a figura heroica, forte e imbatível. mostrou que Aquiles jamais alcançaria a tartaruga!
Desgostoso com os rumos da guerra, Aquiles abandona o Qual era a lógica utilizada por Zenão? Vejamos: dada a
campo de batalha. Cansados de tanta matança, os gregos distância entre Aquiles e a tartaruga, e considerando que o
preparam uma armadilha para os troianos: com a madeira dos espaço era divisível, a cada vez que Aquiles corresse metade
navios, constroem um cavalo gigante. Os troianos, acreditando da distância, ainda assim faltaria a outra metade para percorrer.
que os gregos haviam fugido, deixando para trás o belo cavalo, Quando Aquiles vencesse a metade da metade, ainda estaria
levam-no para dentro da cidade. De lá, saem soldados gregos faltando a outra metade do restante para ser vencida, e assim
que derrubam os portões da cidade, derrotando Troia e por diante... Mesmo que a tartaruga caminhasse lentamente, a
recuperando Helena. distância entre o ponto alcançado por Aquiles e a posição da
tartaruga jamais seria percorrida.
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Em outras palavras, Aquiles nunca alcançaria a tartaruga, Claro que nem sempre somos capazes de identificar esse
porque sempre haveria uma metade qualquer a ser vencida. movimento constante do mundo: tal como temos impressão de
Segundo Chauí, que a chama de uma vela está imóvel (e sequer notamos o
a argumentação tem como pressuposto, no caso de quanto a vela está sendo consumida para gerar essa chama), as
Aquiles e a tartaruga, que, por mais vagaroso que seja um mudanças da realidade são imperceptíveis ao homem: quase
movimento num espaço divisível, o movimento mais nem percebemos o nosso próprio processo de envelhecimento,
rápido nunca pode alcançá-lo, porque precisa vencer uma ou o envelhecimento de quem está ao nosso lado, ou o
distância infinita de pontos (CHAUÍ, 2002, p. 98). crescimento de uma planta que temos em casa. No entanto, se
há uma verdade, é que tudo se transforma: até mesmo a pedra,
Segundo a aporia proposta por Zenão, o movimento se
que nos parece imóvel e indestrutível, sofre o processo de
transforma em um fenômeno extremamente contraditório, a res-
desgaste do tempo.
peito do qual os sentidos apenas podem criar uma falsa ilusão.
Para Heráclito, o confronto entre princípios opostos é o que
gera esse contínuo movimento e, portanto, a mudança. A luta,
assim, não é sinônimo de justiça: ao contrário, a guerra é o que
coloca coisas juntas que, no embate, acabam por resultar em
harmonia. A natureza está longe de ser algo inerte e tranquilo;
o mundo é tenso e inquieto, sendo a unidade e a ordem do
cosmos geradas pelo conflito provocado por essa tensão e
inquietude.
De que forma essa multiplicidade de forças gera a unidade?
Se algo não pode existir sem o seu oposto (por exemplo: se o
Mal inexistir, não há como se reconhecer o Bem), é necessário
entender que o um, antes de ser um, é múltiplo. Há uma unidade
primordial (no sentido de primeira força, geradora e fundadora),
mas ela dá origem à multiplicidade das coisas que, por sua vez,
Figura 1. Os sentidos e o senso comum nos levam a concluir que
podem ser separadas ou diferenciadas entre si.
Aquiles vencerá a corrida contra a tartaruga. No entanto, Zenão prova,
A noite traz dentro de si o dia e este traz dentro de si a
por meio da argumentação, que ele jamais a alcançará, já que, para
noite; o frio traz dentro de si o quente e o quente traz
encontrá-la, sempre faltará metade do caminho a ser percorrido.
dentro de si o frio; a necessidade traz dentro de si o
acaso e o acaso traz dentro de si a necessidade; a saúde
Texto 3:
traz dentro de si a doença e a doença traz dentro de si
Heráclito versus Parmênides, a saúde; a beleza traz dentro de si a feiura e a feiura traz
permanência versus inconstância dentro de si a beleza; a vida traz dentro de si a morte e
a morte traz dentro de si a vida (CHAUÍ, 2002, p. 83).
Tido como um dos mais importantes pré-socráticos,
Heráclito refletiu a respeito de cinco principais temas: o mundo
como resultado do fluxo constante e eterno; a ordem e a justiça Qual é esse princípio gerador de tudo? Para Heráclito, o
como resultados do conflito permanente entre princípios fogo é physis, entendida como natureza e início de tudo.
contrários; a unidade como produto da multiplicidade; o fogo pri-
mordial como princípio fundador da physis; e a ideia de que o
conhecimento tem como base o intelecto, e não a experiência
sensorial.
Como é possível perceber, essa temática está bem distante
da abordagem das explicações ou reflexões míticas: não são
deuses ou deusas que, por meio do seu comportamento, po-
dem explicar a origem e o funcionamento do mundo. Tal res-
ponsabilidade fica a cargo de princípios derivados da atividade
intelectual e reflexiva.
Heráclito tenta justificar e explicar as mudanças pelas quais
a nossa realidade está sujeita em função do fluxo constante e Figura 2. Esse fogo, para Heráclito, não é o mesmo que percebemos por
eterno. Nada permanece o mesmo. De fato, não há nada que se meio dos sentidos; é o fogo que não foi criado por ninguém e que se
mantenha constante, imutável. Para Heráclito: constitui em origem eterna do mundo.
o úmido seca, o seco umedece, o quente esfria, o frio
esquenta, a vida morre, a morte renasce, o dia anoitece, Como chama eterna, o fogo se distribui por todas as coisas
a noite amanhece, a vigília adormece, o sono desperta, de forma justa, sem que haja falta ou excesso. Como a chama
a criança envelhece, o velho se infantiliza. O mundo é da vela que, se observada de perto, ilumina mais ou menos o
um perpétuo nascer e morrer, envelhecer e rejuve- ambiente, o fogo primordial pode acender-se ou apagar-se, mas
nescer. Tudo muda, nada permanece idêntico a si sempre criando – ou transferindo – algo de si para outra coisa.
mesmo. O movimento é, portanto, a realidade verda- Para que a chuva possa existir, algo é transferido dos rios para
deira (CHAUÍ, 2002, p. 81).
as nuvens, e das nuvens para a terra. A morte da umidade é a
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secura: para que haja o seco, é necessário que algo do úmido pois nem conhecerias o que não é, nem o dirias...
morra. Esse processo ocorre de forma justa e moderada, (...)
conforme uma medida. Assim, para Heráclito, o fogo primordial Pois o mesmo é a pensar e portanto ser.
nunca excede as suas medidas, gerando justiça, mesmo que às
(...)
custas do conflito entre os contrários.
Necessário é o dizer e pensar o que o ente é; pois é ser.
Quanto ao conhecimento, Heráclito acredita que a sabe-
doria e a verdade pertencem apenas aos deuses (e atenção: E nada não é. Isto eu te mando considerar (CHAUÍ, 2002,
p. 89).
você pode perceber que, mesmo quando da busca de expli-
cações racionais, ainda há vestígios do pensamento mítico), À primeira vista, parece difícil decifrar o poema parme-
cabendo aos homens apenas buscá-las e admirá-las. O fogo diano... Há quem diga, inclusive, que a leitura e a compreensão
primordial capacita os homens nessa busca: encontrar-se a si do poema eram difíceis até mesmo para os contemporâneos de
mesmo equivale a escutar a voz do logos – a razão –, que está Parmênides! No entanto, a leitura cuidadosa e atenta nos
escondido na invisibilidade e que resulta da harmonia gerada permite entender que:
pelo confronto entre contrários. Se o senso comum é derivado a) a Deusa que revela a verdade não é um ser carregado de
da experiência sensorial, a verdade só pode ser alcançada por mistérios; ao contrário, ela representa a Razão;
meio do esforço racional: nossos sentidos acreditam que a b) a Deusa afirma que a verdade não se assemelha às
chama da vela é imóvel; nossa razão nos capacita a perceber opiniões. Verdade e opinião são coisas distintas: enquanto a
que ela é instável e tensa. opinião é fruto do que os sentidos apreendem, a verdade é resul-
Parmênides, por sua vez, “ergue-se contra o pitagorismo tado do uso da razão. “Os órgãos dos sentidos nos enganam, não
(a dualidade par-ímpar como origem da ordem do mundo) e são confiáveis para o conhecimento verdadeiro, pois este é
contra Heráclito (o fluxo perpétuo e a identidade do uno e do alcançado apenas pelo pensamento puro” (CHAUÍ, 2002, p. 93);
múltiplo)” (CHAUÍ, 2002, p. 88). c) o que é é; o que não é não é: embora essa afirmativa
Para ele, as mudanças pelas quais passa a realidade são pareça conter apenas o óbvio, ela resume uma lei fundamental
apenas apreensões errôneas dos nossos sentidos: na verdade, do pensamento que indica ser impossível afirmar ao mesmo
nada muda e tudo permanece sempre o mesmo. tempo algo e o seu contrário;
Vejamos um raro trecho de sua poesia: d) existe o que pode ser pensado e dito; o que não é
Apressavam-se a enviar-me, as filhas do Sol, para a luz, pensável nem dizível não existe.
deixando as moradas da Noite, retirando com as mãos
os véus. Como podemos resumir o pensamento de Parmênides?
(...) Em primeiro lugar, o ser é imóvel e imutável: se ele se
E a Deusa me acolheu benévola, e na sua a minha mão transformasse, passaria a ser aquilo que não é. Em segundo
direita tomou, e assim dizia e me interpelava: lugar, o ser é indestrutível: não podemos determinar sua origem,
(...)
nascimento ou morte. Se houve um tempo em que ele não
existia, então ele era o não ser, o que é impossível de ser pen-
É preciso que de tudo te instruas, do âmago inabalável
sado. O ser também é indivisível e pleno: se fosse permitido
da verdade (alétheia) bem redonda, e das opiniões
(dóxai) dos mortais, em que não há fé verdadeira. dividi-lo, ele deixaria de ser o ser e passaria a ser a negação do
ser; se não fosse pleno – se houvesse buracos no seu interior,
(...)
por exemplo –, ele conteria o não ser dentro do ser, o que
eu te direi, e tu, recebe a palavra que ouviste, os únicos
também é impossível de ser pensado.
caminhos de inquérito que são a pensar: o primeiro, que
O conflito entre Heráclito e Parmênides alimentou e ins-
é; e, portanto, que não é não ser, de Persuasão, é
pirou as obras dos filósofos posteriores. Deles, Platão foi quem
caminho, pois à verdade acompanha. O outro, que não
é; e, portanto, que é preciso não ser. conseguiu propor uma solução para o embate entre essas duas
formas de pensar.
Eu te digo que este último é atalho de todo não crível,
Referências – Módulo 2
PESSANHA, José Américo Motta. Vida e obra. In: Os pré-
socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os
Audiovisuais
Pensadores).
FÚRIA de Titãs. Dir. Louis Leterrier. Estados Unidos:
VERNANT, Jean Pierre. O universo, os deuses e os
Warner Bros., 2010, 106 minutos.
homens. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.
Textuais
Créditos das imagens
ABRÃO, Bernadette Siqueira. História da Filosofia. São
Figura 1. Disponível em: <[Link]
Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores).
portalebc2014/files/atoms_image/homemvelho_p.jpg>.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 12. ed. São Paulo:
Acesso em: 3 jul. 2016.
Ática, 2002a.
Figura 2. Disponível em: <[Link]
_____. Introdução à história da Filosofia: dos pré-socráticos
_radios/files/1024px-epidaurus_theater.jpg>. Acesso em:
a Aristóteles. São Paulo: Cia. das Letras, 2002b.
3 jul. 2016.
KORTE, Gustavo. O roteiro mágico de Pitágoras: a viagem
Figura 3. Disponível em: <[Link]
em busca da linguagem perdida. São Paulo: Fundação
radios/files/violao_6.jpg>. Acesso em: 3 jul. 2016.
Peirópolis, 1999.
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MÓDULO 3 Sócrates
Neste módulo, estudaremos as ideias de Sócrates. A democracia havia sido inventada pelos atenienses.
Também detalharemos o contexto político da Grécia Nela, o poder era dado pela “força das leis. Na demo-
naquele momento: nosso objetivo será o de entender o cracia, a função soberana não cabe a algum ou a alguns,
quanto Sócrates perturbou a ordem vigente e como isso mas à lei; e a desobediência a ela é a anarquia” (CHAUÍ,
foi responsável pela sua prisão e morte. 2002, p. 133).
Observação:
Péricles (495-429 a.C.) foi um importante orador e político da
Grécia. São atribuídos a ele o desenvolvimento da
democracia em Atenas, a expansão do comércio e o
crescimento da economia por meio do incentivo à
manufatura.
A cidade era formada por pequenas vilas e lá Figura 1. De forma distinta de como hoje em dia são exercidos os
moravam agricultores e artífices. A aristocracia era for- direitos democráticos, as mulheres, crianças, estrangeiros e escravos
de Atenas não eram considerados cidadãos.
mada por proprietários de grandes latifúndios e guer-
reiros, e as famílias reuniam, além das unidades familiares
propriamente ditas, os parentes sanguíneos e os amigos Nos termos da democracia ateniense, a cidadania
próximos. Essas famílias eram governadas por um chefe, envolvia o respeito a dois princípios fundamentais:
que tinha poder absoluto sobre os que haviam procurado A isonomia, isto é, a igualdade de todos os cida-
por sua proteção. Assim, a cidade funcionava por meio dãos perante a lei, e a isegoria, isto é, o direito de
de governos oligárquicos que entravam em conflito entre todo cidadão de exprimir em público (...) sua
opinião, vê-la discutida e considerada no momento
si com bastante frequência.
da decisão coletiva. Assim, a democracia ateniense
Essa situação mudou a partir de 594 a.C., quando
não aceita que, na política, alguns possam ser mais
Sólon estabeleceu leis que separavam o poder das que outros (...); e não aceita que alguns julguem
famílias do poder da pólis (a cidade); essas leis deveriam saber mais do que os outros e por isso ter o direito
ser respeitadas por todos e, dessa forma, o poder da de, sozinho, exercer o poder. Desse modo, exclui
oligarquia fundiária viu-se atingida. da política a ideia de competência ou de
Até mesmo em contrapartida à perda de poder das tecnocracia. Na política, todos são iguais, todos
famílias proprietárias de terra, o comércio e o artesanato têm os mesmos direitos e deveres, todos são
cresceram em termos de importância. Essa mudança no competentes (CHAUÍ, 2002, p. 134).
eixo de poder viu-se finalizada com as reformas de
Clístenes, em 510 a.C. A partir da reorganização espacial A democracia ateniense não seria a única marca
do território de Atenas, Clístenes distribuiu as famílias importante do “século de Péricles”: no período entre
mais poderosas; o espaço político passou a ter na cidade 440-404 a.C., desenvolvem-se as artes, os ofícios, a
de Atenas o seu centro de decisões. medicina, as técnicas sofísticas e a filosofia socrática.
Clístenes criou duas instituições políticas: a Boulé e a Também foi o tempo da tragédia enquanto gênero poé-
Ekklesia. A primeira era constituída por um tribunal, no tico. Nos teatros, existiam dois espaços: o palco e o coro.
qual quinhentos cidadãos sorteados entre todas as uni- Neste, um grupo de pessoas cantava e narrava o que
dades políticas atuavam como juízes. A Ekklesia era a estava acontecendo. Naquele, atores profissionais se
Assembleia Geral, que reunia todos os cidadãos de Atenas, apresentavam. Ao final das tragédias encenadas (e que
e ali se discutiam os assuntos mais relevantes da vida da mostravam crimes e vinganças), o direito à justiça era
pólis (guerras e tratados de paz, por exemplo). Para os dado aos mortais: as punições deveriam ser atribuídas por
cidadãos mais pobres, uma remuneração era dada em mortais, e não por deuses ou entes mágicos.
compensação pelos dias à disposição da Assembleia.
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convencer a todos de que seu argumento era o melhor. A à Filosofia e ao debate filosófico. Por exemplo, os sofistas
oratória diante do público e a capacidade de fazer valer a desmontaram as crenças nos velhos deuses e até
sua opinião eram as qualidades mais admiradas. mesmo colocaram em julgamento a possibilidade de
existência do Divino. Ainda, os sofistas demarcaram a
Observação: diferença entre logos (raciocínio) e aparências. O logos
conteria a verdade, enquanto as aparências apenas enga-
O sofisma é um argumento que aparenta ser verda-
navam ou induziam ao erro. Os argumentos, embora
deiro, mas que apresenta alguma inconsistência interna
convincentes, poderiam não traduzir a verdade.
intencional, com o objetivo de enganar ou iludir.
Contra o sofismo que tinha apenas a intenção de con-
A dialética diz respeito à oposição criada pela contra-
vencer – mesmo que o argumento fosse contrário à ver-
dição entre princípios e ideias.
dade –, vários filósofos se oporiam, Sócrates entre eles.
A práxis está relacionada à prática, em oposição à
Para Sócrates, os sofistas não eram filósofos, já que eles
teoria.
apenas tinham a intenção de vencer os embates retóricos,
A oratória diz respeito às técnicas de falar em público.
fossem quais fossem os argumentos e tivessem ou não
A retórica, que muitas vezes está associada à oratória,
esses argumentos algum conteúdo de verdade. Para
relaciona-se à eficácia da fala em termos de persuasão
Sócrates, os sofistas desrespeitavam a sabedoria e a
e convencimento.
verdade, e assim o faziam desde que fosse vantajoso. Ao
ensinar isso aos jovens, eles os corrompiam.
Quem era capaz de ensinar essas artes dos discur-
sos e dos debates? Os sofistas. Apenas eles poderiam 3. Sócrates, a dúvida e a verdade
ensinar os jovens a defender uma opinião, a convencer a
todos de que X era a melhor alternativa e, posteriormente, Estudar Sócrates é uma tarefa que envolve grande
aprovar que Y era infinitamente melhor que X. dificuldade, basicamente em função de o filósofo nada ter
Os sofistas [eram] verdadeiros representantes do deixado de escrito: alguns historiadores dão conta de que
espírito democrático, isto é, da pluralidade confli- o filósofo acreditava que a palavra escrita “congelava” as
tuosa de opiniões e interesses, enquanto seus opiniões, não permitindo que elas passassem por qualquer
adversários seriam partidários de uma política
transformação ou mudança. De qualquer forma, os relatos
aristocrática, na qual somente algumas opiniões e
de alunos e de outros filósofos acabaram por construir
interesses teriam o direito para valer para o
restante da sociedade (CHAUÍ, 2000, p. 43).
uma imagem de homem sábio, ascético e adorado por
todos. Seus hábitos eram excêntricos: conversava com
todos na rua, vestia-se como um maltrapilho e perdia a
paciência com muita facilidade (CHAUÍ, 2002).
Há também historiadores que sequer acreditam que
Sócrates tenha existido, ao menos não da forma como é
descrito e narrado por alunos e outros filósofos: o
Sócrates dos escritos de Platão, Xenofonte e Aristóteles
estaria bem distante do verdadeiro filósofo, adquirindo os
traços e as características que os diferentes autores
construíram. Em outras palavras, o Sócrates narrado por
Platão revelaria mais de Platão do que de Sócrates, e
assim por diante. Em meio aos vários Sócrates revelados,
teria se tornado quase impossível descobrir o verdadeiro
filósofo.
Aceita-se que Socrátes tenha nascido em Atenas, no
Figura 3. Ainda nos dias de hoje, a oratória e a capacidade de mobilizar início de 469 a.C., e morrido aos 70 anos. O pai era escultor,
a sociedade por meio do discurso são qualidades importantes para o e a mãe, parteira, o que fez com que ele admitisse que seu
exercício da atividade política. método filosófico se parecia com um parto da alma. Assim,
É compreensível a crítica muitas vezes formulada ao Sócrates entendia que não era o pai das ideias, mas que
sofismo: era tido por alguns como mero exercício da apenas auxiliava no nascimento delas.
Seu trabalho era suscitar no interlocutor o desejo
retórica e da argumentação, independentemente da
de saber (como o médico suscita no paciente o
verdade nele contida. Assim, alguns sofistas eram vistos
desejo da cura) e auxiliá-lo a realizar sozinho esse
como simples oradores de extrema competência e desejo. O diálogo é a medicina socrática da alma
eficácia. No entanto, apesar das críticas, são inegáveis as (CHAUÍ, 2002, p. 189).
contribuições que o sofismo e os sofistas proporcionaram
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Essa é a maior contribuição da filosofia socrática, qual Uma, sobretudo, me assombrou das muitas alei-
seja, a de apresentar uma alternativa metodológica: a vosias que assacaram: a recomendação de cau-
maiêutica, a arte de realizar o parto das ideias. Por meio tela para não vos deixardes embair pelo orador
dessa arte, a busca do conhecimento era estimulada pela formidável que sou. Com efeito, não corarem de
me haver eu de desmentir prontamente com os
reflexão provocada pelas perguntas feitas pelo mestre.
fatos, ao mostrar-me um orador nada formidável,
As perguntas, por sua vez, exerciam o papel de iluminar
eis o que me pareceu o maior de seus desca-
o caminho a ser seguido.
ramentos, salvo se essa gente chama formidável
Em Apologia de Sócrates, Platão descreve como o a quem diz a verdade; se é o que entendem, eu cá
mestre teria ido ao templo de Delfos e de lá saído com a admitiria que, em contraste com eles, sou um
certeza de que o título de homem mais sábio do mundo a orador. Seja como for, repito-o, verdade eles não
ele atribuído significava apenas uma coisa: se ele era cheio proferiram nenhuma ou quase nenhuma; de mim,
de dúvidas e certo de nada saber, a sabedoria estava porém, vós ides ouvir a verdade inteira. Mas não,
justamente em reconhecer a própria ignorância. E, como por Zeus, Atenienses, não ouvireis discursos
no templo havia uma inscrição no pórtico (“conhece-te a como os deles, aprimorados em nomes e verbos,
ti mesmo”), Sócrates concluiria que em estilo florido; serão expressões espontâneas,
nenhum homem sabe verdadeiramente nada, mas nos termos que me ocorrerem, porque deposito
o sábio é aquele que reconhece isso. O início da confiança na justiça do que digo; nem espere
sabedoria é, pois, “sei que nada sei”. (...) O outra coisa quem quer de vós. Deveras, senhores,
conhecimento não é um estado (o estado da sabe- não ficaria bem, a um velho como eu, vir diante
doria), mas um processo, uma busca, uma procura de vós plasmar seus discursos como um rapazola.
da verdade. Eis o motivo que leva Sócrates a Faço-vos, no entanto, um pedido, Atenienses,
praticar a filosofia como missão: a busca uma súplica premente; se ouvirdes, na minha
incessante da sabedoria e da verdade e o reconhe- defesa, a mesma linguagem que habitualmente
cimento incessante de que, a cada conhecimento emprego na praça, junto das bancas, onde tantos
obtido, uma nova ignorância se abre diante de nós. dentre vós me tendes escutado, e noutros
Isso não significa que a verdade não exista, e sim lugares, não a estranheis nem vos amotineis por
que deve ser sempre procurada e que sempre isso. Acontece que venho ao tribunal pela primeira
será maior do que nós (CHAUÍ, 2002, p. 188). vez aos setenta anos de idade; sinto-me, assim,
completamente estrangeiro à linguagem do local.
O questionamento diante de tudo e todos e a reflexão Se eu fosse de fato um estrangeiro, sem dúvida
me desculparíeis o sotaque e o linguajar de minha
sobre o que se imaginava ser verdadeiro: esses eram os
criação; peço-vos nesta ocasião a mesma
procedimentos adotados por Sócrates. Mais: a qualidade
tolerância, que é de justiça a meu ver, para minha
das perguntas feitas determinava a qualidade das
linguagem — que poderia ser talvez pior, talvez
respostas obtidas; por isso, em vários dos seus diálogos, melhor — e que examineis com atenção se o que
o resultado vem sob a forma de aporias, ou seja, de digo é justo ou não. Nisso reside o mérito de um
dificuldades que não podem ser transpostas. Assim, os juiz; o de um orador, em dizer a verdade (PLATÃO,
diálogos socráticos “indicam que a busca da verdade não 1987, p. 34).
cessa nunca. É isso a philosophia, amizade pela sabedoria
e não a posse dela” (CHAUÍ, 2002, p. 198). Seja por meio das palavras por ele ditas e narradas
De todas as batalhas travadas por Sócrates, a maior por seus alunos, seja em função da leitura que os filó-
seria a sua guerra contra os sofistas. Em primeiro lugar, sofos contemporâneos ou posteriores fizeram a respeito
ele não admitia que seu trabalho fosse similar ao deles, já de suas ideias, podemos elencar os seguintes elementos
que nada ensinava; em sua opinião, ele apenas propunha como principais dentro do contexto da filosofia socrática:
perguntas, provando aos interlocutores que eles não a) a lógica é fruto do raciocínio indutivo, no qual o
estavam certos em relação ao que pensavam saber. Em estudo dos casos particulares possibilita uma generali-
segundo, de forma quase inédita, Sócrates não cobrava zação capaz de explicar todos os casos;
por seus serviços, ao contrário dos sofistas. Finalmente, b) a ideia é uma síntese dos vários elementos
ele considerava que os sofistas tinham maior paixão pelas contidos nos diversos casos particulares;
palavras do que pela verdade. Sobre isso, e de acordo c) na dialética socrática, as opiniões contraditórias
com o Platão, ele faria uma declaração quando do seu são colocadas para dialogar, e desse diálogo resulta o
julgamento: conhecimento;
Não sei, Atenienses, que influência exerceram d) a virtude é a maior das preocupações da Filosofia;
meus acusadores em vosso espírito; a mim pró- ao conceituarmos a virtude, somos capazes de agir de
prio, quase me fizeram esquecer quem sou, tal a forma virtuosa. Consequentemente, a virtude é uma forma
força de persuasão de sua eloquência. Verdade,
de conhecimento, já que as ações virtuosas ocorrem porque
porém, a bem dizer, não proferiram nenhuma.
sabemos o que é virtude. À Filosofia cabe estudar as
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qualidades morais e políticas dos seres humanos, estudo de que era inocente e concluiu que os seus juízes é que
este que resulta na finalidade da vida ética; deveriam determinar a penalidade pelos crimes que lhe
e) a alma é o local em que o conhecimento se abriga; atribuíam. Afinal, se era inocente, que a Cidade o decla-
a verdade mora na nossa alma, e a maiêutica nada mais rasse um herói, sustentando-o pelo resto da vida; se era
faz do que ajudá-la a se revelar. Dessa forma, a razão é o culpado, que fosse condenado à morte.
poder da alma, e é utilizada para chegarmos à essência É evidente que os juízes não poderiam declará-lo um
das coisas. herói; restou a Sócrates, portanto, a morte. Os amigos
propuseram uma fuga, mas Sócrates não se deixou
Cidadão ativo da vida pública em Atenas, a última
convencer, ingerindo o veneno trazido pelos carcereiros.
participação política de Sócrates foi na Assembleia,
Segundo o relato de Platão, suas últimas palavras foram
defendendo-se das acusações de adorar novos deuses e
as seguintes:
corromper os jovens: no caso desta última, acusavam-no Façamos mais esta reflexão: há grande esperança
de perverter as mentes dos alunos com perguntas e de que isto seja um bem. Morrer é uma destas
questionamentos, tornando-os refratários aos valores duas coisas: ou o morto é igual a nada, e não
aceitos pela sociedade ateniense. Essa acusação não sente nenhuma sensação de coisa nenhuma; ou,
deixava de fazer sentido: se a filosofia de Sócrates partia então, como se costuma dizer, trata-se duma
do princípio de tudo indagar e de tudo desconfiar, esse mudança, uma emigração da alma, do lugar deste
comportamento acabava por disseminar a dúvida e a mundo para outro lugar. Se não há nenhuma
inquietação. Por causa disso, Sócrates foi condenado à sensação, se é como um sono em que o
morte, sendo obrigado a ingerir uma dose letal de cicuta. adormecido nada vê nem sonha, que maravilhosa
vantagem seria a morte! (...) Logo, se a morte é
4. O julgamento de Sócrates isso, digo que é uma vantagem, porque, assim
sendo, toda a duração do tempo se apresenta
como nada mais que uma noite. Se, do outro lado,
Sócrates foi a julgamento sob as acusações de não
a morte é como a mudança daqui para outro lugar
reconhecer os deuses do Estado, de divulgar novas e está certa a tradição de que lá estão todos os
divindades e de corromper a juventude. Em sua própria mortos, que maior bem haveria que esse,
defesa, Sócrates usou como argumento o fato de a sua senhores juízes? (...) Vós também, senhores
missão ser apenas a de cuidar da alma das pessoas e de juízes, deveis bem esperar da morte e considerar
cultivar a virtude. Também provou que o acusador que lhe particularmente esta verdade: não há, para o
imputava o crime de corromper a juventude não era homem bom, nenhum mal, quer na vida, quer na
sequer capaz de definir o que era ou não era bom para a morte, e os deuses não descuidam de seu
juventude. destino. O meu não é efeito do acaso; vejo
Segundo o relato do julgamento, feito por Platão em claramente que era melhor para mim morrer agora
Apologia de Sócrates, em momento algum o filósofo e ficar livre de fadigas. Por isso é que a
buscou se desculpar em relação àquilo de que o acusa- advertência nada me impediu. Não me insurjo
vam, ou procurou vantagens que a sua vibrante retórica absolutamente contra os que votaram contra mim
ou me acusaram. Verdade é que não me acusaram
poderia proporcionar, tampouco procurou ganhar a
e condenaram com esse modo de pensar, mas na
piedade ou misericórdia de seus acusadores: ao contrário,
suposição de que me causavam dano: nisso
Sócrates queria convencer os seus acusadores de que
merecem censura. Contudo, só tenho um pedido
eles estavam errados. Segundo Pessanha,
que lhes faça: quando meus filhos crescerem,
embora a demonstração pública da inconsistência
castigai-os, atormentai-os com os mesmíssimos
dos argumentos de seus acusadores e embora a
tormentos que eu vos infligi, se achardes que eles
tranquila e reiterada declaração de inocência, (...)
estejam cuidando mais da riqueza ou de outra
Sócrates foi condenado (PESSANHA, 1987, p. 11).
coisa que da virtude; se estiverem supondo ter um
valor que não tenham, repreendei-os, como vos
Os acusadores deixaram a Sócrates a fixação da
fiz eu, por não cuidarem do que devem e por
própria pena, esperando que ele escolhesse qualquer suporem méritos, sem ter nenhum. Se vós o
uma que não o prejudicasse. Sócrates, no entanto, não fizerdes, eu terei recebido de vós justiça; eu, e
queria fazer qualquer concessão: ele estava convencido meus filhos também (PLATÃO, 1987, p. 58).
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Breve diálogo
German Segre, 49 anos, é graduado em Direito e em Administração de Empresas. É mestre em Administração pela
UNIP Universidade Paulista e atualmente está cursando Doutorado em Direito Constitucional na Universidad de
Buenos Aires. Atua como advogado nas áreas de direito internacional, empresarial e tributário.
Pergunta: De que forma o estudo da Filosofia contribui para a formação de um advogado?
Dr. German Segre: A Filosofia exerce papel crucial, já que ela nos leva à reflexão e permite a fundamentação. O
advogado necessita da reflexão e, posteriormente, do argumento para fazer a melhor defesa dos direitos que
representa. O juiz, por outro lado, também a necessitará para julgar da melhor forma. Na busca da justiça para seu
cliente, o advogado usa, entre outras ferramentas filosóficas, do ceticismo, do dogmatismo e da retórica. Para isso,
além de refletir sobre cada caso, ele interpretará a lei de forma harmônica, quer dizer, a partir do conjunto de normas
e a letra da lei. Usa dela também para eventualmente recusar um caso ou, ainda, para criar novos conceitos na
constante evolução da ciência jurídica. Se assim não o fizer, além de comprometer seu desempenho e o resultado
para o qual foi contratado, estará se limitando profissional e pessoalmente. Por último, ela é imprescindível na análise
de casos “impossíveis” ou “trágicos”, daqueles em que a lei não oferece alternativas. Por exemplo, podemos citar
a ida de um soldado à guerra: a defesa da pátria choca, de forma irremediável, contra o valor da vida humana. Vemos
que a realização de um direito cancela outro direito de igual grandeza. Nesses casos, somente encontraremos socorro
na Filosofia.
Pergunta: Sócrates fez oposição aos sofistas porque entendia que a argumentação, mesmo que eficaz, não poderia
jamais faltar com a verdade. Como, no Direito, é resolvido o conflito entre a eficácia da argumentação e a verdade?
Dr. German Segre: Pela importância da argumentação no direito, os Sofistas ocupam lugar de destaque no trabalho
do advogado. Um deles, Gorgias de Leontino (485-380 a.C.) defendia três teses fundamentais que, de forma resumida,
afirmavam: “não há nada absoluto”; “mesmo que existisse algo, não o poderíamos conhecer”; e, por último, “mesmo
que pudéssemos conhecê-lo, não poderíamos comunicá-lo”. Podemos extrapolar tais colocações para a questão da
verdade. Existe uma verdade absoluta? Caso exista, podemos conhecê-la? E se a conhecêssemos, conseguiríamos
comunicá-la? Uma verdade absoluta de ontem não é a mesma de hoje. Vemos que o “conflito filosófico” dessa
questão é anterior e mais amplo que a oposição de Sócrates aos Sofistas; antes, teríamos que aceitar a existência
de uma verdade absoluta com a qual a argumentação não poderia faltar. Temos um belo exemplo do poder e do
apaixonante mundo ao qual a Filosofia abre as portas.
Referências – Módulo 3
José Américo Motta Pessanha. Tradução de Jaime Bruna,
Audiovisuais
Libero Rangel de Andrade, Gilda Maria Reale Strazynski.
TROIA. Dir. Wolfgang Petersen. Estados Unidos: Warner
São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Coleção Os pensadores)
Bros., Village Roadshow Pictures, Plan B Films e Radiant
REALE, G; ANTISERI, D. História da Filosofia: filosofia
Productions, 2004, 163 minutos.
pagã antiga, v. 1. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo:
Paulus, 2003.
Textuais
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 7. ed. São Paulo:
Créditos das imagens
Ática, 2000.
Figura 1. Disponível em: <[Link]
_____. Introdução à história da Filosofia: dos pré-socráticos
portalebc2014/
a Aristóteles. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.
files/atoms_image/abr170913dsc_5496.jpg>. Acesso em:
PESSANHA, José Américo Motta. Seleção de textos. In:
22 ago. 2016.
PLATÃO. Defesa de Sócrates/Platão. Ditos e feitos
Figura 2. Disponível em: <[Link]
memoráveis de Sócrates; Apologia de Sócrates/
portalebc2014/files/atoms_image/caixa_4.jpg>. Acesso
Xenofonte. As nuvens/Aristófanes. Tradução de Jaime
em: 22 ago. 2016.
Bruna, Libero Rangel de Andrade, Gilda Maria Reale
Figura 3. Disponível em: <[Link]
Strazynski. São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Coleção Os
portalebc2014/files/atoms_image/congresso_brasilia_seve
pensadores).
[Link]>. Acesso em: 24 ago. 2016.
PLATÃO. Defesa de Sócrates/Platão. Ditos e feitos
memoráveis de Sócrates; Apologia de Sócrates/
Xenofonte. As nuvens/Aristófanes. Seleção de textos de
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Para o autor, a reivindicação atendida na Grécia antiga, Na configuração política da democracia grega, em
ainda vigente no mundo contemporâneo, buscava garantir especial a ateniense, a ágora tinha por função
o seguinte princípio: a) agregar os cidadãos em torno de reis que governavam
a) Isonomia – igualdade de tratamento aos cidadãos. em prol da cidade.
b) Transparência – acesso às informações b) permitir aos homens livres o acesso às decisões do
governamentais. Estado expostas por seus magistrados.
c) Tripartição – separação entre os poderes políticos c) constituir o lugar onde o corpo de cidadãos se reunia
estatais. para deliberar sobre as questões da comunidade.
d) Equiparação – igualdade de gênero na participação d) reunir os exercícios para decidir em assembleias
política. fechadas os rumos a serem tomados em caso de
e) Elegibilidade – permissão para candidatura aos cargos guerra.
públicos. e) congregar a comunidade para eleger representantes
com direito a pronunciar-se em assembleias.
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MÓDULO 4 Platão
Neste módulo, estudaremos as ideias de Platão, no geográfico e o político associavam-se de tal
buscando compreender como o filósofo resolveu o pro- modo que, na língua grega, pólis era, ao mesmo
blema anteriormente apresentado por Heráclito e tempo, uma expressão geográfica e uma
Parmênides. Também detalharemos suas ideias políticas, expressão política, designando tanto o lugar da
cidade quanto a população submetida à mesma
bem como as formas a partir das quais o filósofo
soberania. Compreende-se, assim, por que um
entendeu o trabalho político e o exercício da cidadania.
grego antigo pensava a si mesmo antes de tudo
como um cidadão ou como um “animal político”
1. Platão: o filósofo e sua obra (PESSANHA, 1991, p. 7).
Antes de apresentarmos Platão e sua obra, é Assim, a pólis é percebida como desdobramento de
importante fazermos uma ressalva: vários autores um processo cosmogônico, exercendo o papel de um
entendem a obra de Platão como formada pelo conjunto princípio fundador (arkhé) do universo e do mundo. A pó-
dos trabalhos do próprio filósofo e pelos escritos de seus lis é o começo de tudo e é o princípio que tudo explica.
leitores e de seus intérpretes. Portanto, ao fazermos
referência à obra platônica, estamos falando sobre o
platonismo, quer dizer, as influências que o pensamento Observação:
de Platão exerceu sobre os filósofos de seu tempo e a os A cosmogonia diz respeito às teorias que buscam explicar a
posteriores. origem do universo. Em geral, essa explicação está baseada
Segundo Chauí, em um mito fundador e tenta dar conta de mostrar a gênese
a obra de Platão é o conjunto formado pelos do universo e da realidade tal como a conhecemos.
escritos de Platão e pelos escritos de seus
leitores, o conjunto de seus textos e dos textos
de seus intérpretes. O platonismo não está A vida pública exigia o dom da oratória, a habilidade
apenas nos textos de Platão, nem está apenas no no raciocínio e a prática no uso da voz e do gesto: essas
texto de um de seus intérpretes, mas nos textos eram as competências que permitiam ascendência sobre
de Platão e de todos os seus intérpretes. A obra o auditório e a vitória nos debates. No entanto, a jovem
platônica são os escritos de Platão, motivados democracia ateniense tinha problemas a enfrentar:
pelas questões teóricas e práticas de seu tempo, a) não eram todos que tinham o direito de participar
e a posterioridade filosófica que seus escritos das Assembleias;
tiveram a força para suscitar. Se há diferentes b) se, por um lado, a alternância no poder impedia
interpretações e, no entanto, todos os leitores se
que a aristocracia se organizasse e assumisse o con-
consideram intérpretes do verdadeiro Platão, é
trole da máquina política, por outro lado o fato de as
porque cada um deles, em seu tempo e nos
funções públicas serem limitadas em termos do tempo
problemas que enfrenta, encontra, no escrito
platônico, o tema ou a questão que está de vigência causava instabilidade no ambiente político;
discutindo e interpretando (CHAUÍ, 2002, p. 224). c) as liberdades individuais, que eram tão caras à
democracia ateniense e não priorizavam a ordem e a
O fato de ter exercido tanta influência dá a medida da disciplina, poderiam ser ameaçadas militarmente por
importância do trabalho de Platão. Vejamos, então, o con- outras cidades, como Esparta.
texto histórico em que o filósofo desenvolveu sua obra. Platão acompanhou o julgamento de Sócrates e,
Platão viveu em um tempo em que a vida cultural horrorizado com a falta de princípios éticos no trata-
estava indelevelmente vinculada aos acontecimentos da mento dispensado ao maior de todos filósofos, colocou
pólis. as questões políticas no centro da sua investigação
Essa vinculação resultava fundamentalmente da filosófica. Várias de suas obras terão Sócrates como
organização política, constituída por uma constela- personagem central, e Platão colocará, inúmeras vezes,
ção de cidades-Estados fortemente ciosas de suas suas próprias palavras na boca do filósofo. Na verdade,
peculiaridades, de suas tradições, de seus deuses Platão considerava que a vida política deveria ser
e heróis. A própria dimensão da cidade-Estado im- ocupação daqueles que, por meio da reflexão filosófica,
punha, de saída, grande solidariedade entre seus haviam chegado ao conhecimento da realidade.
habitantes, facilitando a ação coercitiva dos pa- A crítica à democracia ateniense e a procura de
drões de conduta; ao mesmo tempo, propiciava à soluções políticas do mundo grego foram preo-
pólis o desenvolvimento de uma fisionomia par- cupações centrais da vida e da obra daquele que
ticular, inconfundível, que era o orgulho e o é por muitos considerado o maior pensador da
patrimônio comum de seus cidadãos. O fenôme- Antiguidade: Platão. Nele, filosofia e ação
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Figura 1. Platão, ao centro com seus alunos, nasceu em 428-7 a.C. e morreu em 348-7 a.C. Em 387 a.C., fundou em Atenas a Academia, sua escola
de investigação científica e filosófica.
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Esse princípio era exatamente o oposto daquele que rências. Nossos olhos percebiam a realidade, mas nossa
Parmênides defendia: ao invés de um mundo em cons- visão não era capaz de perceber a totalidade do mundo.
tante movimento, Parmênides via imobilidade, constância Da mesma forma como nossas opiniões estão repletas
e ausência de transformação. de erros do senso comum, nossa visão também é limi-
tada pelo que pretendemos ver, pelo que estamos dis-
Lembrete:
postos a ver e pelo que temos condições de ver. Esse
Lembre-se de que tanto Heráclito quanto Parmênides
mundo, a quem ele chamou de sensível, estaria sujeito a
estavam procurando uma explicação para o mundo que
transformações. Nossos olhos perceberiam o envelhe-
os cercava. Enquanto para Heráclito essa natureza
estava sempre em mudança, Parmênides acreditava cimento, o efeito da corrosão do tempo nas pedras; nos-
que nada na natureza realmente se transformava, sas opiniões seriam emitidas com base no conhecimento
permanecendo sempre a mesma, como se fosse uma parcial das coisas.
unidade imutável. Mas não existia apenas o mundo sensível, o da reali-
dade, das opiniões, das aparências. Havia também o mun-
do inteligível, das ideias, da essência das coisas. As ideias,
Embora Platão tenha sofrido a influência de Crátilo, ao contrário da opinião ou da percepção a respeito delas,
posteriormente, e em função de suas viagens para Siracusa não mudavam: eram constantes e imutáveis.
– onde teria entrado em contato com outros filósofos e Pensemos numa árvore.
com matemáticos –, ele foi capaz de retomar e reler o Caso estejamos falando de uma árvore determinada,
pensamento de Heráclito e Parmênides. Se para Heráclito teremos que reconhecer que ela sofrerá a ação do tempo.
não havia um sujeito que se pudesse conhecer, tampouco Podemos dizer que ela é frondosa, que dá frutos e que
um objeto que pudesse ser conhecido (já que o fluxo suas raízes são sólidas; no entanto, ela não manterá essas
perene de todas coisas impedia o exercício do pensamento características para sempre! A árvore do mundo sensível
na busca da essência), para Platão o engano consistia em muda conforme as condições de idade e da natureza. O
considerar que o devir alcançava a totalidade do real. mundo sensível é sujeito a transformações!
Para Platão, o devir é apenas a marca do mundo Em oposição, vejamos a ideia de árvore. Caso de-
sensível, do mundo das coisas materiais e corpóreas, que finamos o que venha a ser uma árvore, esse conceito
nascem, transformam-se e corrompem-se. valerá quaisquer que sejam as condições de tempo e da
Observação: natureza. A ideia a respeito da árvore e o conceito atribuí-
do a esse ser serão sempre os mesmos. O mundo inteli-
O devir significa passar a ser, transformar-se, modificar-
se. O devir, assim, está associado às mudanças pelas
gível, das ideias, alcança a essência das coisas, essência
quais passam as coisas. essa imutável e permanente.
Ao criar dois mundos, o mundo inteligível e o mundo
A corrupção, por outro lado, não tem o significado que
atribuímos ao termo. Corrupção, nos termos filosó- sensível, Platão resolveu o dilema apresentado pelo con-
ficos, significa mudança. As coisas se corrompem, flito entre Parmênides e Heráclito. A inconstância de
quer dizer, elas deixam de apresentar as características Heráclito e o constante movimento percebido na nature-
originais à medida que se transformam ou sofrem a za diziam respeito ao mundo sensível. Em contrapartida,
ação do tempo. a perenidade e a imutabilidade percebidas por Parmê-
nides diziam respeito ao mundo inteligível.
Platão considerou que Heráclito tinha razão no que
se refere ao mundo material e sensível, mundo
das imagens e das opiniões. A matéria, diz Platão,
é, por essência e por natureza, algo imperfeito,
que não consegue manter a identidade das coisas,
mudando sem cessar, passando de um estado a
outro, contrário ou oposto. O mundo material ou
de nossa experiência sensível é mutável e contra-
ditório e, por isso, dele só nos chegam as apa-
rências das coisas e sobre ele só podemos ter
opiniões contrárias e contraditórias. Por esse
motivo, diz Platão, Parmênides está certo ao exigir
que a Filosofia deva abandonar esse mundo sen-
sível e ocupar-se com o mundo verdadeiro, invi-
Figura 2. O devir é a marca do mundo das aparências, do que é sível aos sentidos e visível apenas ao puro
percebido pelos nossos sentidos.
pensamento. O verdadeiro é o Ser, uno, imutável,
Vamos detalhar o pensamento de Platão: para ele, idêntico a si mesmo, eterno, imperecível,
havia a realidade dos sentidos, das opiniões, das apa- puramente inteligível (CHAUÍ, 2000, p. 269).
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Sócrates: E se o forçassem a olhar para a própria Glauco: Concordo com você. Ele aceitaria qual-
luz, não achas que os olhos lhe doeriam, que ele quer provação para não viver como se vive lá.
viraria as costas e voltaria para as coisas que pode Sócrates: Reflita ainda nisto: suponha que esse
olhar e que as consideraria verdadeiramente mais homem volte à caverna e retome o seu antigo
nítidas do que as coisas que lhe mostram? lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele
Glauco: Sem dúvida alguma. teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do
Sócrates: E se o tirassem de lá à força, se o fizes- sol?
sem subir o íngreme caminho montanhoso, se Glauco: Naturalmente.
não o largassem até arrastá-lo para a luz do sol, Sócrates: E se ele tivesse que emitir de novo um
ele não sofreria e se irritaria ao ser assim em- juízo sobre as sombras e entrar em competição
purrado para fora? E, chegando à luz, com os olhos com os prisioneiros que continuaram acorren-
ofuscados pelo brilho, não seria capaz de ver tados, enquanto sua vista ainda está confusa,
nenhum desses objetos, que nós afirmamos seus olhos ainda não se recompuseram, enquanto
agora serem verdadeiros. lhe deram um tempo curto demais para
Glauco: Ele não poderá vê-los, pelo menos nos acostumar-se com a escuridão, ele não ficaria
primeiros momentos. ridículo? Os prisioneiros não diriam que, depois de
Sócrates: É preciso que ele se habitue, para que ter ido até o alto, voltou com a vista perdida, que
possa ver as coisas do alto. Primeiro, ele distin- não vale mesmo a pena subir até lá? E se alguém
guirá mais facilmente as sombras, depois, as ima- tentasse retirar os seus laços, fazê-los subir, você
gens dos homens e dos outros objetos refletidas acredita que, se pudessem agarrá-lo e executá-lo,
na água, depois os próprios objetos. Em segundo não o matariam?
lugar, durante a noite, ele poderá contemplar as Glauco: Sem dúvida alguma, eles o matariam.
constelações e o próprio céu, e voltar o olhar para Sócrates: E agora, meu caro Glauco, é preciso
a luz dos astros e da lua mais facilmente que aplicar exatamente essa alegoria ao que dissemos
durante o dia para o sol e para a luz do sol. anteriormente. Devemos assimilar o mundo que
Glauco: Sem dúvida. apreendemos pela vista à estada na prisão, a luz
Sócrates: Finalmente, ele poderá contemplar o do fogo que ilumina a caverna à ação do sol.
sol, não o seu reflexo nas águas ou em outra su- Quanto à subida e à contemplação do que há no
perfície lisa, mas o próprio sol, no lugar do sol, o alto, considera que se trata da ascensão da alma
sol tal como é. até o lugar inteligível, e não te enganarás sobre
Glauco: Certamente. minha esperança, já que desejas conhecê-la. Deus
Sócrates: Depois disso, poderá raciocinar a res- sabe se há alguma possibilidade de que ela seja
peito do sol, concluir que é ele que produz as fundada sobre a verdade. Em todo o caso, eis o
estações e os anos, que governa tudo no mundo que me aparece tal como me aparece; nos últimos
visível, e que é, de algum modo a causa de tudo o limites do mundo inteligível aparece-me a ideia do
que ele e seus companheiros viam na caverna. Bem, que se percebe com dificuldade, mas que
Glauco: É indubitável que ele chegará a essa não se pode ver sem concluir que ela é a causa
conclusão. de tudo o que há de reto e de belo. No mundo
Sócrates: Nesse momento, se ele se lembrar de visível, ela gera a luz e o senhor da luz, no mundo
sua primeira morada, da ciência que ali se possuía inteligível ela própria é a soberana que dispensa a
e de seus antigos companheiros, não acha que verdade e a inteligência. Acrescento que é preciso
ficaria feliz com a mudança e teria pena deles? vê-la se quer comportar-se com sabedoria, seja na
Glauco: Claro que sim. vida privada, seja na vida pública.
Sócrates: Quanto às honras e louvores que eles Glauco: Tanto quanto sou capaz de compreender-
se atribuíam mutuamente outrora, quanto às te, concordo contigo (PLATÃO, 2000, p. 39-42).
recompensas concedidas àquele que fosse
dotado de uma visão mais aguda para discernir a A alegoria da caverna de Platão nos leva a refletir sobre
passagem das sombras na parede e de uma o mundo em que vivemos, repleto de coisas materiais das
memória mais fiel para se lembrar com exatidão quais apenas percebemos partes. Nosso conhecimento
daquelas que precedem certas outras ou que lhes sobre o mundo é tão limitado quanto aquele dos homens
sucedem, as que vêm juntas, e que, por isso mes-
encerrados na caverna e que apenas enxergam sombras.
mo, era o mais hábil para conjeturar a que viria
O filósofo é quem sai da caverna e vê a totalidade das
depois, acha que nosso homem teria inveja dele,
que as honras e a confiança assim adquiridas
coisas. O filósofo é quem vê a luz do sol, a luz da verdade.
entre os companheiros lhe dariam inveja? Ele não Por meio da luz, o filósofo pode entrar em contato com o
pensaria antes, como o herói de Homero, que mundo das ideias verdadeiras. Ao procurar esclarecer os
mais vale “viver como escravo de um lavrador” e homens ainda encerrados na caverna a respeito da vastidão
suportar qualquer provação do que voltar à visão do mundo e da inexatidão das suas opiniões a respeito da
ilusória da caverna e viver como se vive lá? realidade, ele corre o risco de ser desacreditado. A dialética,
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o instrumento que pelo filósofo será utilizado para ampliar o E por que os homens devem buscar o conhecimento
conhecimento dos homens, não será compreendida por da realidade? Por que se deve fazer da busca do conhe-
todos. Não será fácil tirar os homens do conforto que as cimento uma meta? Porque, segundo Platão (e essas
sombras possibilitam, e os filósofos serão objeto de serão ideias que permearão a filosofia grega antiga):
violência por parte dos homens (tal como Sócrates foi vítima 1. por natureza, os seres humanos aspiram ao bem
da incompreensão e da intolerância da sociedade ate- e à felicidade, que só podem ser alcançados pela
niense). No entanto, a Filosofia é a única forma de apre- conduta virtuosa;
ender as ideias e libertar-se do mundo restrito e falso das 2. a virtude é uma força interior do caráter, que con-
siste na consciência do bem e na conduta defini-
aparências.
da pela vontade guiada pela razão, pois cabe a esta
Se há dois mundos distintos, há duas formas dife-
última o controle sobre instintos e impulsos
rentes de conhecimento. O conhecimento sensível é irracionais descontrolados que existem na natu-
aquele que apreende o mundo sensível e que nos chega reza de todo ser humano;
por meio das crenças e das opiniões. Já o conhecimento 3. a conduta ética é aquela na qual o agente sabe o
intelectual nos permite o conhecimento do mundo das que está e o que não está em seu poder realizar,
ideias, do mundo da verdade. O conhecimento intelec- referindo-se, portanto, ao que é possível e dese-
tual, por meio do raciocínio e da intuição, é o mundo que jável para um ser humano. Saber o que está em
a Filosofia permite alcançar; por sua vez, a Matemática é nosso poder significa, principalmente, não se dei-
a linguagem perfeita, já que totalmente desvinculada do xar arrastar pelas circunstâncias, nem pelos ins-
mundo das aparências. O raciocínio matemático, que de tintos, nem por uma vontade alheia, mas afirmar
forma alguma depende dos órgãos dos sentidos, é, por nossa independência e nossa capacidade de
autodeterminação (CHAUÍ, 2000, p. 439).
essência, o melhor caminho para alcançar as ideias verda-
deiras e a realidade.
Breve diálogo
Renato Bulcão é formado em Filosofia e tem mestrado em Ciência da Comunicação pela USP. Pesquisador em EaD,
está terminando seu doutorado em Educação e Cultura na Universidade Mackenzie. É professor dos cursos de
Pedagogia e de Psicologia da UNIP desde 2010.
Pergunta: O que o Mito da Caverna ainda tem a nos ensinar nos dias de hoje?
Prof. Renato Bulcão: O Mito da Caverna é uma metáfora de como as pessoas adquirem conhecimento. O
conhecimento é comparado à luz que torna as imagens mais fáceis de serem conhecidas. Quando vemos as sombras
das coisas através de uma luz fraca que nos mostra somente sua silhueta, somos obrigados a acreditar que aquela
sombra é aquilo que nos disseram ser. Quando vemos as coisas banhadas de luz, podemos perceber todas as suas
características por meio dos nossos sentidos. Este é um estágio intermediário entre ouvir que a coisa é uma sombra
e ver a coisa em si. A partir deste instante, podemos pensar se aquela imagem realmente representa o que sabemos
daquela coisa. Daí surge a ideia da reflexão para conhecer. Tudo isso escrito num só mito, que até hoje temos como
exemplo máximo de como devemos aprender o que é o mundo.
Pergunta: Como a dualidade mundo sensível/mundo inteligível colaborou para o desenvolvimento das técnicas e da
Ciência?
Prof. Renato Bulcão: Todo conhecimento do mundo nasce de nossos sentidos. Os cincos sentidos permitem um
mapeamento imediato do mundo. Mas como transformamos a memória que temos daquilo que conhecemos para
podermos dizer aos outros? Precisamos criar uma forma de compreender e reproduzir não apenas as nossas
experiências, mas principalmente dar sentido para elas. Atribuindo uma ideia a uma coisa (por exemplo, isto é uma
pedra), construímos lentamente os saberes. Com o acúmulo de saberes, podemos organizar técnicas de produção.
Evoluindo as técnicas de produção, descobrimos os motivos pelos quais as técnicas funcionam, e assim
desenvolvemos as ciências.
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Conteúdo complementar
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Textuais Textuais
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 7. ed. São Paulo: Ática, 2000. CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 7. ed. São Paulo: Ática, 2000.
_____. Introdução à história da Filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. _____. Introdução à história da Filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles.
São Paulo: Cia. das Letras, 2002. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.
PESSANHA, José Américo Motta. Seleção de textos. In: PLATÃO. LOPES, L. C. (2002). Percepção e comunicação: mitos e problemas
Diálogos/Platão. Tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge contemporâneos. In: Ponencia presentada en el VI Congreso de la ALAIC.
Paleikat e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os Disponível em: <[Link]
Pensadores). percepcao_comunicacao.htm>. Acesso em: 14 set. 2016.
PLATÃO. A alegoria da caverna: a República. In: MARCONDES, Danilo. PESSANHA, José Américo Motta. Seleção de textos. In: PLATÃO.
Textos básicos de Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Tradução Diálogos/Platão. Tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge
de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. Paleikat e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os
_____. Diálogos/Platão. Seleção de textos de José Américo Motta Pensadores).
Pessanha. Tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikat PLATÃO. A alegoria da caverna: a República. In: MARCONDES, Danilo.
e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os Textos básicos de Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Tradução
Pensadores). de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
REALE, G; ANTISERI, D. História da Filosofia: filosofia pagã antiga, v. 1. _____. Diálogos/Platão. Seleção de textos de José Américo Motta
Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003. Pessanha. Tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikat
e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os
Créditos das imagens Pensadores).
Figura 1. Disponível em: <[Link] REALE, G; ANTISERI, D. História da Filosofia: filosofia pagã antiga, v. 1.
files/atoms_image/caiu_no_enem_platao.png>. Acesso em: 2 set. 2016. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003.
Figura 2: Disponível em: <[Link] SOUZA, Maurício de. As sombras da vida. Disponível em: <[Link]
files/atoms_image/01_mina_de_carajas_ps.jpg>. Acesso em: 5 set. 2016. [Link]/2014/02/11/o-mito-da-caverna-de-platao-em-
Figura 3. Disponível em: <[Link] quadrinhos/>. Acesso em: 12 set. 2016.
files/atoms_image/[Link]>. Acesso em: 2 set. 2016.
Para responder às questões de 1 a 3, observe as tirinhas a seguir, criadas por Mauricio de Sousa, tendo o Mito da Caverna, de Platão,
como fonte inspiradora.
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2. Os prisioneiros reagem de forma violenta à intervenção 3. Na última parte da sequência de tirinhas, Piteco
de Piteco. Além de ironizá-lo, tentam agredi-lo. Essa encontra três homens assistindo à televisão. Ao serem
atitude dos prisioneiros questionados sobre o que estão fazendo, eles respon-
dem: “Que pergunta mais boba! Como se existisse outra
I. faz uma alusão ao julgamento e à morte de Sócrates. coisa pra fazer! Estamos contemplando o fantástico show
Afinal, o filósofo perturba a ordem vigente e isso nem da vida!”. Esse diálogo
sempre é bem-vindo pela sociedade.
II. mostra a impossibilidade de o conhecimento filosófico I. associa o conhecimento parcial de mundo dos
ser ensinado e transmitido para a sociedade. Em prisioneiros da caverna com o conhecimento limitado
função disso, a Filosofia sempre foi e será uma que, atualmente, as pessoas adquirem por meio da
atividade de poucos. televisão.
[Link] que as forças conservadoras sempre se II. mostra que o trabalho dos filósofos é inócuo, ou seja,
opõem ao novo e às formas diferentes de perceber a incapaz de trazer qualquer benefício: se a Filosofia
realidade. contribuísse para o conhecimento da realidade, não
teríamos, nos dias de hoje, o aprisionamento dos
Sobre as afirmativas acima, está correto apenas o que se homens à versão midiática do mundo por meio do
afirma em: show da vida apresentado pela televisão.
a) I. b) I e II. c) I e III. d) II. e) III. [Link] que a sociedade deve impor limites ao acesso
às mídias, sob o risco de criar prisioneiros acorrentados
ao conhecimento parcial do mundo.
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dedos? Para satisfazer esta necessidade de saber, o Para Aristóteles, o inteligível encontrava-se no mundo
homem saía em busca do conhecimento. Com qual sensível, no mundo das coisas reais e possíveis de serem
propósito ele procurava por respostas a respeito dos percebidas por meio dos sentidos. Distanciando-se da
efeitos do tempo nas rochas? Apenas para saber, porque abordagem platônica, procurou compreender por que esse
o saber provocava uma satisfação pessoal. Embora fosse mundo sensível era como era e como ele funcionava.
possível utilizar esse conhecimento para algum fim Assim, mostrou que, no mundo sensível, o particular (que
prático, não era isto o que movia o ser humano em era mutável) e o universal (que permanecia imutável)
direção ao conhecimento. Esta necessidade de conhe- encontravam-se entrelaçados e relacionados. O conhe-
cimento e esta satisfação quando do alcance do cimento a respeito das árvores do mundo real (ou seja,
conhecimento explicavam o fato de a filosofia ser um fim dos casos particulares) não estava de forma alguma
em si mesma. Afinal, a filosofia ocupava-se com a busca desconectado da elaboração do conceito de árvore (de
do saber pelo próprio saber. Segundo Aristóteles, caráter universal).
a filosofia, nascida do espanto, não é um impulso Aristóteles morreu em 322 a.C., de uma doença do
espontâneo, mas nasce de uma pressão sobre estômago, e suas ideias – que marcaram profundamente
nossa alma, causada por uma aporia, isto é, por o conhecimento ocidental – são discutidas até os dias de
uma dificuldade que nos parece insolúvel. (...) A hoje. Em outras palavras, esse filósofo
filosofia descreve um movimento em que o formulou questões que ainda fazem sentido em
primeiro espanto tira os humanos de sua outras épocas e por isso ele não cessa de ser lido
ignorância satisfeita para fazê-los cair em novos e reinterpretado; (...), [ainda], a permanência de
espantos, ou seja, em aporias com as quais uma Aristóteles se deve por mais um motivo, qual seja:
nova ignorância é reconhecida e um novo ao distinguir e classificar todos os gêneros do
movimento, iniciado (CHAUÍ, 2002, p. 329). conhecimento, ele estruturou o modo como,
durante quase vinte séculos, o Ocidente ensinou
e fez filosofia e ciência, organizou os currículos
universitários e diferenciou teoria e prática
(CHAUÍ, 2002, p. 343).
Figura 1. Segundo Marilena Chauí, a filosofia caminha de espanto em espanto porque é “constrangida a isso pela força da verdade e pela
necessidade de acompanhar os fenômenos, o phainómenon, aquilo que aparece e se põe diante de nós, dando-se a conhecer” (CHAUÍ, 2002, p.
330).
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Ainda, para dar continuidade ao esforço de categori- Por sua vez, as ciências práticas eram aquelas que
zação, as ciências teoréticas podiam ser divididas em três estudavam as coisas cujos princípios dependiam da ação
diferentes campos: humana e que tinham como finalidade o próprio ser
a) a física, que compreendia o estudo da natureza, da humano. Os objetos estudados por estas ciências eram
biologia e da psicologia; obra da vontade humana e fruto da ação humana. Uma
b) a metafísica, que estudava o princípio de todos os boa ação, por exemplo, era uma possibilidade dentre
seres (e falaremos mais sobre a metafísica logo adiante). várias ações e era resultado de uma decisão do homem.
c) as matemáticas, que estudavam os seres que, Assim, o objeto das ciências práticas era
independentemente de qualquer existência real, po- aquilo que pode acontecer ou deixar de acontecer,
deriam ser estudados sem que fosse considerada sua uma possibilidade que depende da vontade
materialidade. Nesse campo do saber estavam a aritmé- racional do agente. (...) Acontece de uma maneira
tica, a geometria, a música (em função da proporção determinada, pois uma ação ou um aconte-
existente entre os sons) e a astronomia. cimento dependem das características pessoais
do agente, das circunstâncias em que ele age e
da finalidade da ação no momento em
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Aristóteles supunha ser possível compreender as Como os escritos envolviam o estudo da ontologia,
causas e os princípios das ações humanas, e acreditava quer dizer, o “estudo ou conhecimento do Ser, dos entes
na existência de regularidade e constância nestas. Nas ou das coisas tais como são em si mesmas, real e
ciências práticas, assim, abrigavam-se os estudos da: verdadeiramente” (CHAUÍ, 2002b, p. 209), passou-se a
a) ética, que estudava a ação do homem considerar que metafísica dizia respeito ao estudo das
necessária para a vida na Cidade e estabelecia coisas, do que havia de perene e verdadeiro nos entes.
os princípios racionais da ação virtuosa, isto é, Não se tratava de estudar uma coisa específica (uma boa
da ação que tinha como finalidade o bem do ação, por exemplo), mas de buscar a essência desta coisa
indivíduo enquanto ser sociável que vivia em
(ou seja, a compreensão da natureza da bondade). Em
relação com os outros;
outras palavras, era
b) política, que estudava a ação dos homens
o estudo ou o conhecimento da essência das
enquanto seres comunitários ou sociais, pro-
coisas ou do ser real e verdadeiro das coisas,
curando estabelecer, para cada forma de re-
daquilo que elas são em si mesmas, apesar das
gime político, os princípios racionais da ação
aparências que possam ter e das mudanças que
política, cuja finalidade era o bem da comunidade
possam sofrer (CHAUÍ, 2002b, p. 210).
ou o bem comum (CHAUÍ, 2002, p. 350).
são, assim, os temas principais da metafísica, que existem e onde vivemos. As essências, diz
investiga os fundamentos, as causas e o ser Aristóteles, estão nas próprias coisas, nos
íntimo de todas as coisas, indagando por que próprios homens, nas próprias ações e é tarefa da
existem e por que são o que são (CHAUÍ, 2002b, Filosofia conhecê-las ali mesmo onde existem e
p. 207). acontecem (CHAUÍ, 2002b, p. 217).
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Breve diálogo
Adilson Silva Oliveira, 43 anos, é licenciado em Letras e mestre em Língua Portuguesa. Atualmente, é professor da
Universidade Paulista (UNIP), escritor, roteirista e redator de material didático.
Pergunta: Qual o contato que o senhor tem com o ensino da Lógica?
Prof. Adilson Silva Oliveira: A lógica, especialmente a aristotélica, está presente em várias disciplinas com as quais
trabalho, visto que ela não é uma ciência, mas um instrumento que auxilia na organização do pensamento. Trabalho
Lógica, por exemplo, nos cursos de Direito e de Letras. No primeiro, associo o pensamento lógico à argumentação;
no segundo, trago esse pensamento lógico para as aulas de Retórica ou de Estilística.
Pergunta: De que maneira o conhecimento das regras da Lógica pode contribuir para o exercício profissional em
diferentes áreas?
Prof. Adilson Silva Oliveira: O objeto da Lógica é o silogismo, ou seja, o argumento constituído de premissas (ex.:
"Todo homem é mortal/ João é um homem/ Logo, João é mortal"). A conclusão a que se chega com a proposições
não tem o propósito de conferir verdade ou falsidade, mas de observar o movimento de construção do pensamento.
Nas áreas jurídicas, o uso do instrumento da Lógica é muito importante para se pensar, por exemplo, conceitos de
verdade ou de mentira.
Pergunta: Como o senhor percebe a relação entre Lógica e Literatura?
Prof. Adilson Silva Oliveira: A literatura não trabalha com a verdade dos fatos, mas com a verossimilhança, ou seja,
com aquilo que parece intuitivamente verdadeiro – tanto para o autor quanto para o leitor. Os autores literários,
portanto, inventam uma verdade. Para tanto, fazem uso do pensamento lógico.
Conteúdo complementar
Exemplo 1: Proposição e negação continuará verdadeira. Caso Leonardo estude matemática e faça
Se uma proposição é verdadeira, a sua negação é falsa. Se a lista de exercícios, a proposição continuará verdadeira. Portanto,
uma proposição é falsa, a sua negação é verdadeira. há apenas uma possibilidade de negação da proposição:
Acompanhe o raciocínio. Se Leonardo não estudar matemática, tampouco
fizer a lista de exercícios, a proposição acima será
No caso da proposição “o número 2 é um inteiro”,
falsa.
a negação é “o número 2 não é um inteiro”. Se a
proposição for verdadeira (e é verdadeira), sua Exemplo 4: Uso da condicional “se..., então”
negação é falsa.
A proposição é “Se Leonardo estudar matemática, então
No caso da proposição “o número 1,5 é um ele fará a lista de exercícios”.
inteiro”, a negação é “o número 1,5 não é um
Como podemos falsear, ou negar, essa proposição? Se
inteiro”. Se a proposição for falsa (e esta é uma
Leonardo estudar matemática e fizer a lista de exercícios, a
proposição falsa), sua negação é verdadeira.
proposição será verdadeira. Se Leonardo não estudar
Exemplo 2: Uso do conectivo “e” matemática e não fizer a lista de exercícios, a proposição será
verdadeira. Se Leonardo não estudar matemática, mas fizer a
A proposição é “Leonardo estudará matemática e fará a
lista de exercícios, a proposição será verdadeira. Portanto, há
lista de exercícios”.
apenas uma possibilidade de negação da proposição:
Como podemos falsear, ou negar, essa proposição? Temos
Se Leonardo estudar matemática, mas não fizer a lista
três possibilidades de negação da proposição:
de exercícios, a proposição será falsa.
Se Leonardo estudar matemática, mas não fizer a
lista de exercícios, a proposição acima será falsa. Exemplo 5: Uso da condicional “se, e somente se”
Se Leonardo não estudar matemática, mas A proposição é “Leonardo irá estudar matemática se, e
mesmo assim fizer a lista de exercícios, a somente se, fizer a lista de exercícios”.
proposição será falsa. Como podemos falsear, ou negar, essa proposição? Se
Se Leonardo não estudar matemática, tampouco Leonardo fizer a lista de exercícios e estudar matemática, a propo-
fizer a lista de exercícios, a proposição será falsa. sição será verdadeira. Se Leonardo não fizer a lista de exercícios e
não estudar matemática, a proposição será verdadeira. Portanto,
Exemplo 3: Uso do conectivo “ou” há apenas duas possibilidades de negação da proposição:
A proposição é “Leonardo estudará matemática ou fará a Se Leonardo não fizer a lista de exercícios, mas estudar
lista de exercícios”. matemática, a proposição será falsa.
Como podemos falsear, ou negar, essa proposição? Caso Se Leonardo fizer a lista de exercícios, mas não estudar
Leonardo estude matemática, mas não faça a lista de exercícios, matemática, a proposição será falsa.
a proposição continuará verdadeira. Caso Leonardo não estude
matemática, mas faça a lista de exercícios, a proposição
Referências – Módulo 5
______________. Convite à Filosofia. 12. ed. São Paulo:
Audiovisuais Ática, 2002b.
O NOME DA ROSA. Dir. Jean-Jacques Annaud. Créditos das imagens
Alemanha, França, Itália: Bernd Eichinger, Franco Cristaldi, Capa: [Link]
Alexandre Mnouchkine, Bernd Schaefers e Hermann reflex%C3% A3o-1810929/
Weigel, 1986. 130 minutos.
Textuais Referências – Conteúdo Complementar
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco; Poética; seleção de
textos de José Américo Motta Pessanha. Ética a Textuais
Nicômaco: tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 12. ed. São Paulo:
da versão inglesa de W.D. Ross; Poética: tradução, Ática, 2002.
comentários e índices analítico e onomástico de Eudoro Oliveira et al. Raciocínio lógico e leitura e interpretação de
de Souza. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção textos. São Paulo: Universidade Paulista/Vice-Reitoria de
Os pensadores, v. 2). Pós-Graduação e Pesquisa, 2012. (Cadernos de estudos
CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da Filosofia: dos e pesquisas – UNIP. Série Didática).
pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Cia. das Letras,
2002.
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1. Na sua metafísica, Aristóteles investigou as causas da 2. – Segundo Aristóteles, “na cidade com o
existência das coisas e dos seres. Assim, temos a causa melhor conjunto de normas e naquela dotada
material, que diz respeito à matéria da qual a essência é de homens absolutamente justos, os cidadãos não
feita (ar, água, fogo e terra); a causa formal, que está devem viver uma vida de trabalho trivial ou de negócios –
associada à forma por meio da qual a essência é esses tipos de vida são desprezíveis e incompatíveis com
materializada (a mesa é a forma assumida pela madeira); as qualidades morais –, tampouco devem ser agricultores
a causa eficiente, que explica como uma matéria assumiu os aspirantes à cidadania, pois o lazer é indispensável ao
determinada forma (o marceneiro é a causa eficiente que desenvolvimento das qualidades morais e à prática das
permitiu à madeira receber a forma de mesa); a causa atividades políticas”.
final, que diz respeito ao motivo, ou finalidade, para algo (VAN ACKER, T. Grécia: a vida cotidiana na cidade-Estado. São
existir de determinada forma (o Bem é a causa final da Paulo: Atual. 1994.)
política).
O trecho, retirado da obra Política, de Aristóteles, permite
Considerando o acima exposto, considere as afirmativas compreender que a cidadania
a seguir: a) possui uma dimensão histórica que deve ser criticada,
I. A água é a causa formal do rio. pois é condenável que os políticos de qualquer época
II. O pedreiro é a causa eficiente da parede de tijolos. fiquem entregues à ociosidade, enquanto o resto dos
III.O prazer é a causa final da busca pelo conhecimento. cidadãos tem de trabalhar.
b) era entendida como uma dignidade própria dos grupos
Está correto o que se afirma em: sociais superiores, fruto de uma concepção política
a) I, apenas. profundamente hierarquizada da sociedade.
b) I e II, apenas. c) estava vinculada, na Grécia Antiga, a uma percepção
c) I, II e III. política democrática, que levava todos os habitantes
d) II, apenas. da pólis a participarem da vida cívica.
e) II e III, apenas. d) tinha profundas conexões com a justiça, razão pela
qual o tempo livre dos cidadãos deveria ser dedicado
às atividades vinculadas aos tribunais.
e) vivida pelos atenienses era, de fato, restrita àqueles
que se dedicavam à política e que tinham tempo para
resolver os problemas da cidade.
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8. (UPE-Modificado) – A validade de nossos conheci- 9. (OLIVEIRA et al., 2012, p. 10) – Existem três
mentos é garantida pela correção do raciocínio. São dois suspeitos de invadir uma rede de computadores: Luiz,
os modos de raciocínio: o indutivo e o dedutivo. Sobre Thaís e Felipe. Sabe-se que a invasão foi de fato cometida
isso, assinale a alternativa correta. por um ou por mais de um deles, já que podem ter agido
a) O raciocínio indutivo é amplamente utilizado pelas individualmente ou não. Sabe-se, ainda, que:
ciências experimentais.
b) O raciocínio indutivo parte de uma lei universal, I. Se Luiz é inocente, então Thaís é culpada.
considerada válida para um determinado conjunto, II. Ou Felipe é culpado ou Thaís é culpada, mas não os
aplicando-a aos casos particulares desse conjunto. dois.
c) O raciocínio dedutivo parte de uma lei particular, [Link] não é inocente.
considerada válida para um determinado conjunto,
aplicando-a aos casos universais desse conjunto. Com base nessas considerações, é possível concluir que
d) O raciocínio dedutivo é uma argumentação na qual, a a) somente Luiz é inocente.
partir de dados singulares suficientemente enume- b) somente Thaís é culpada.
rados, inferimos uma verdade universal. c) somente Felipe é culpado.
e) As leis formuladas por meio do raciocínio indutivo não d) Thaís e Felipe são culpados.
podem ser aplicadas aos casos particulares. e) Luiz e Felipe são culpados.
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11. Indique a alternativa que corresponda à negação 12. (IBGE) – Se todo A é B e nenhum B é C, é possível
da proposição: concluir, corretamente, que:
a) Nenhum B é A.
Marcos sabe nadar e dirigir. b) Nenhum A é C.
c) Todo A é C.
a) Se Marcos souber dirigir, então saberá nadar.
d) Todo C é B.
b) Marcos não sabe nadar, mas sabe dirigir.
e) Todo B é A.
c) Marcos saberá nadar se, e apenas se, também souber
dirigir.
d) Marcos saberá dirigir se, e apenas se, também souber
nadar.
e) Se Marcos souber nadar, então saberá dirigir.
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MÓDULO 6 O Helenismo
O helenismo diz respeito à influência da cultura grega leis e tradições, e num contexto de extrema descen-
na região mediterrânea oriental e no Oriente no período tralização política, o homem grego precisara de refe-
que vai de 332 a.C. (quando do início das conquistas de rências, em especial aquelas relacionadas às normas e
Alexandre) até 30 a.C. (quando os romanos conquistaram aos costumes do que era considerado “correto” e bom
o Egito). Foram séculos marcados pela tentativa de se em termos de comportamento e atitudes.
criar uma hegemonia cultural, na qual a língua e a moeda Foram várias as escolas de pensamento que se
gregas eram vistas como símbolos da unificação do desenvolveram naquele período e, a partir de agora,
império de Alexandre. Com a morte de Alexandre, o estudaremos algumas delas: a escola cética, a escola
império se esfacelou; no entanto, as influências na cínica, a escola epicurista e a escola estoica. É importante
filosofia permaneceram vivas. ressaltarmos que estas não foram as únicas escolas
A filosofia do helenismo tem sido pouco estudada filosóficas que floresceram no período, mas somente as
[...]. Muitas das obras da intensa produção mais significativas e as que mais influências exerceram
filosófica dessa época se perderam ou subsistiram nos períodos posteriores, da Patrística até a Modernidade.
apenas em fragmentos. Talvez a concepção de Ainda, delas não será feita uma apresentação por ordem
filosofia então vigente esteja muito distante da
cronológica, já que o percurso histórico percorrido por
nossa, herdeira direta do Pensamento Moderno
essas diferentes correntes nem sempre foram de
que começa a se desenvolver nos sécs. XVI-XVII,
valorizando a originalidade e a criatividade do
natureza linear; também deve ser levado em conta o fato
pensamento do filósofo, como fruto de sua de que, em várias ocasiões, seus elementos mesclaram-
individualidade, de sua subjetividade, como obra se uns aos outros.
de um autor. O pensamento do helenismo, ao Há vários pontos em comum nas ideias e perspectivas
contrário, é essencialmente um pensamento de dessas diferentes escolas. De forma geral, na filosofia
escola, em que mais importante do que a helênica (em particular por parte dos epicuristas e dos
originalidade do indivíduo é sua vinculação a uma estoicos) acreditava-se na impossibilidade de “encontrar
determinada tradição, a uma corrente filosófica regras de conduta humana e de alcançar a felicidade sem o
(MARCONDES, 2010, p. 95). apoio numa concepção racional da Natureza” (CHAUÍ, 2010,
p. 15). A ética seria impossível sem o apoio de algo físico,
Fotoarena
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humano. Em cada uma das escolas, a terapêutica mas de uma decisão que compromete todo o
da alma proporá remédios e procedimentos modo de vida. Sua filosofia é totalmente exercício
diferentes, mas seu tema e seu objetivo serão (askésis) e esforço (BICCA, 2011, p. 157).
sempre os mesmos: não se submeter ao páthos,
mas buscar a apátheia, graças à qual se chega à A gargalhada, a ironia e o sarcasmo fazem parte do
ataraxía (CHAUÍ, 2010, p. 18). repertório da filosofia cínica. O riso, mais do que a teoria,
éa
Observação: resposta da vontade de viver àquilo que as teorias
e ideologias a ela fizeram –, em parte, uma arte
Páthos é uma palavra grega que designa paixão,
de sobreviver, em parte resistência intelectual, em
sofrimento, doença. Apátheia, também do parte sátira, em parte crítica (SLOTERDIJK, 1983
vocabulário grego, significa o estado de espírito livre apud BICCA, 2011, p. 159).
de paixões ou perturbações emocionais. Ataraxía,
termo grego, designa harmonia, paz, tranquilidade. O ceticismo
Fotoarena
equilíbrio a todo o universo, inclusive ao
homem. A boa ação, de um ponto de vista
ético, é portanto uma ação de acordo com a
natureza. São três as virtudes básicas para os
estoicos: a inteligência, que consiste no
conhecimento do bem e do mal; a coragem, ou
o conhecimento do que temer e do que não
temer; e a justiça, o conhecimento que nos
permite dar a cada um o que lhe é devido
(MARCONDES, 2010, p. 101).
Ingimage
Figura 3. “A dúvida é o verdadeiro bem: a tranquilidade a acompanha,
como a sombra segue o corpo” (BROCHARD, 2014, p. 6).
princípios básicos, o epicurismo preconizava a felicidade brevidade e a provisoriedade da dor (LIMA FILHO,
(eudaimonia) com base na tranquilidade emocional 2011, p. 133).
(ataraxía); ao contrário da filosofia estoica, o epicurismo
não considerava que houvesse diferença entre a razão e O epicurismo sugere que não são todas as
a paixão. necessidades que devem ser satisfeitas. A cada desejo,
O homem age eticamente na medida em que dá deve-se indagar: ele deve ser saciado? Pode-se renunciar
vazão a seus desejos e necessidades naturais de ao atendimento dessa necessidade? Caso o homem se
forma equilibrada ou moderada, e é isso que questione a respeito da real necessidade de satisfazer os
garante a ataraxía. A valorização do prazer desejos, ele poderá libertar-se da escravidão das paixões.
(hedoné) como algo natural e a concepção de que “[...] Só o cálculo cuidadoso dos prazeres pode
a realização de nossos desejos naturais e conseguir que o homem se baste a si próprio e não
espontâneos é positiva deram origem à imagem, se converta em escravo das necessidades e da
certamente distorcida, de que o epicurista é preocupação pelo amanhã. Mas este cálculo só se
alguém devotado a uma vida de prazeres. Ao pode ficar a dever à sabedoria. A sabedoria é mais
contrário, a ética epicurista prega a austeridade e preciosa do que a filosofia, porque por ela nascem
a moderação, mas não a supressão dos prazeres todas as outras virtudes e sem ela a vida não tem
e desejos que são expressões de nossa natureza doçura, nem beleza, nem justiça”. A virtude, e
(MARCONDES, 2010, p. 103). especialmente a sabedoria que é a primeira e a
fundamental, aparecem assim a Epicuro como
O caminho para a felicidade é ser senhor de si mesmo condição necessária da felicidade (LIMA FILHO,
e ter a capacidade de estabelecer reciprocidade (philia), 2011, p. 135).
buscando não causar danos aos outros (CHAUÍ, 2002). A
Ingimage
filosofia torna-se, então, o caminho para alcançar a
felicidade, desde que ela sirva de instrumento para que o
homem liberte-se das paixões, das opiniões sem base na
racionalidade, das perturbações diante do desconhecido,
das dores e dos desejos (LIMA FILHO, 2011).
O valor da filosofia está, pois, inteiramente em dar
ao homem um “quádruplo remédio”: 1 Libertar os
homens do temor dos deuses, demonstrando que,
pela sua natureza feliz, não se ocupam das obras
humanas; 2 Libertar os homens do temor da
morte, demonstrando que ela não é nada para o
homem: “quando nós existimos, não existe a Figura 5. “À sabedoria se deve o cálculo, a escolha e a limitação das
morte; quando a morte existe, não existimos nós”. necessidades e, portanto, o alcançar da ataraxía [ausência de
3 Demonstrar a acessibilidade do limite do prazer, perturbação emocional] e da aponia [ausência de dor]” (LIMA FILHO,
isto é, o alcançar fácil do próprio prazer; 4 2011, p. 135).
Demonstrar a distância do limite do mal, isto é, a
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NOVAK, Maria da Glória. Estoicismo e epicurismo em SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. Trad. Bruno
Roma. Letras Clássicas, n.o 3, p. 257-273, 1999. Disponível Garschagen. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2015.
em: <[Link] [Link]/letrasclassicas/article Disponível em: <https://
/view/73765>. Acesso em: 17 jun. 2019. [Link]/2017/04/roger-scruton-como-
PIMENTEL, Pablo Fernando Campos. Conservadorismo [Link]>. Acesso em: 21 jun. 2019.
para além do senso comum. Cognitio Estudos: Revista Audiovisuais
Eletrônica de Filosofia, v. 15, n.o 2, 2018, p. 275-286. A DAMA de ferro. Direção: Phyllida Lloyd. Reino
Disponível em: <https:// revistas. [Link]/ Unido/França: Pathé; Film4 Productions; UK Film Council;
cognitio/article/view/35497>. Acesso em: 21 jun. 2019. Goldcrest Films, 2011). 104 minutos.
1. – ”Pirro afirmava que nada é nobre nem 2. – ”Alguns dos desejos são naturais e
vergonhoso, justo ou injusto; e que, da necessários; outros, naturais e não neces-
mesma maneira, nada existe do ponto de vista da sários; outros, nem naturais nem necessários, mas nascidos
verdade; que os homens agem apenas segundo a lei e o de vã opinião. Os desejos que não nos trazem dor se não
costume, nada sendo mais isto do que aquilo. Ele levou satisfeitos não são necessários, mas o seu impulso pode
uma vida de acordo com esta doutrina, nada procurando ser facilmente desfeito, quando é difícil obter sua satisfação
evitar e não se desviando do que quer que fosse, ou parecem geradores de dano.”
suportando tudo, carroças, por exemplo, precipícios, (Epicuro de Samos. “Doutrinas principais”.
cães, nada deixando ao arbítrio dos sentidos.” In: V. F. Sanson. Textos de filosofia. Rio de Janeiro:
(D. Laércio. Vidas e sentenças Eduff, 1974.)
dos filósofos ilustres. Brasília: Editora UnB, 1988.)
No fragmento da obra filosófica de Epicuro, o homem tem
como fim
O ceticismo, conforme sugerido no texto, caracteriza-se
a) alcançar o prazer moderado e a felicidade.
por:
b) valorizar os deveres e as obrigações sociais.
a) Desprezar quaisquer convenções e obrigações da
c) aceitar o sofrimento e o rigorismo da vida com
sociedade.
resignação.
b) Atingir o verdadeiro prazer como o princípio e o fim da
d) refletir sobre os valores e as normas dadas pela
vida feliz.
divindade.
c) Defender a indiferença e a impossibilidade de obter
e) defender a indiferença e a impossibilidade de se atingir
alguma certeza.
o saber.
d) Aceitar o determinismo e ocupar-se com a esperança
transcendente.
e) Agir de forma virtuosa e sábia a fim de enaltecer o
homem bom e belo.
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3. – ”A quem não basta pouco, nada basta.” 4 – ”Alexandria começou a ser construída em
(Epicuro. Os pensadores. 332 a.C., por Alexandre, o Grande, e, em
São Paulo: Abril Cultural,1985.)
poucos anos, tornou-se um polo de estudos sobre
matemática, filosofia e ciência gregas. Meio século mais
Remanescente do período helenístico, a máxima
apresentada valoriza a seguinte virtude: tarde, Ptolomeu II ergueu uma enorme biblioteca e um
a) Esperança, tida como confiança no porvir. museu — que funcionou como centro de pesquisa. A
b) Justiça, interpretada como retidão de caráter. biblioteca reuniu entre 200 mil e 500 mil papiros e, com
c) Temperança, marcada pelo domínio da vontade. o museu, transformou a cidade no maior núcleo
d) Coragem, definida como fortitude na dificuldade. intelectual da época, especialmente entre os anos 290 e
e) Prudência, caracterizada pelo correto uso da razão. 88 a.C. A partir de então, sofreu sucessivos ataques de
romanos, cristãos e árabes, o que resultou na destruição
ou perda de quase todo o seu acervo.”
(F. Ribeiro. Filósofa e mártir. Aventuras na história.
São Paulo: Abril. ed. 81, abr. 2010. Adaptado.)
– 69
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Observação:
Segundo Oliveira (1995, p. 15), os maniqueus acreditavam
na existência de duas divindades (o Bem e o Mal),
responsáveis pelas duas almas que os homens possuíam.
Em consequência, cada alma era “presidida por um desses
dois princípios. A pessoa não é livre nem responsável pelo
mal que faz. Este lhe é imposto".
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existe um outro ensino, que reconheço segura- de O Filósofo. O pensamento medieval buscou a inter-
mente ser mau, e de cujo autor indago. pretação da herança aristotélica, dando a ela continuidade.
Ag. Vejamos. Admites pelo menos o seguinte: O Corpus Aristotelicus, que ficara preservado no lado
será a inteligência integralmente um bem? bizantino do Império Romano, acabou sendo conservado,
Ev. A ela, com efeito, considero de tal modo ser
lido e traduzido pelos árabes e pelos judeus. Para Chauí
um bem, que nada vejo poder existir de melhor no
(2002), posteriormente, ao traduzirem essas obras para o
homem. De maneira alguma posso considerar a
latim, os padres e monges buscaram “corrigir” aquilo que
inteligência como um mal.
Ag. Mas quando alguém for ensinado e não se não havia sido entendido “de forma correta”.
servir da inteligência para entender, poderá ser ele Segundo Alfonso-Goldfarb (1994), os medievais
considerado como alguém que fica instruído? O fizeram verdadeiros malabarismos para cristianizar a
que te parece? filosofia aristotélica. Apenas para dar um exemplo: o
Ev. Parece-me que ele não o pode de modo algum. filósofo entendia que a Terra era o centro do universo; os
Ag. Logo, se toda a inteligência é boa, e quem não pensadores medievais, por meio de uma interpretação
usa da inteligência não aprende, segue-se que todo bastante curiosa, atribuíram, então, um papel central ao
aquele que aprende procede bem. Com efeito, todo homem dentro do conjunto da criação divina, tal como já
aquele que aprende usa da inteligência e todo afirmado pela fé cristã.
aquele que usa da inteligência procede bem.
Assim, Aristóteles tornou-se a principal autoridade
Assim, procurar o autor de nossa instrução, sem
para os estudiosos da Filosofia; inspirados por suas obras,
dúvida, é procurar o autor de nossas boas ações.
uma série de pensadores buscou fazer uso da lógica e da
Deixa, pois, de pretender descobrir não sei que
mau ensinante. Pois se, na verdade, for mau, ele razão para provar o que a fé já sabia por meio das Escrituras.
não será mestre. E caso seja mestre, não poderá
ser mau (AGOSTINHO, 1995, p. 25-8). 1.4. Tomás de Aquino
Tomás de Aquino (1225-1274) teve uma vida inteira
1.3. A Escolástica
dedicada à meditação e ao estudo. Nascido na Sicília,
O imaginário que cerca a Idade Média como uma ingressou na Ordem dos Dominicanos. Na França, obteve
época de trevas integra uma percepção errônea, depre- o título de doutor em Teologia. De volta à Itália, passou a
ciativa e equivocada. De fato, é um erro considerar esse lecionar. Também lecionaria em Paris antes de morrer, aos
período somente um intervalo entre a produção basilar do 49 anos, na Itália. Sua obra mais famosa – embora
conhecimento clássico e o despertar renascentista. inconclusa – é a Suma Teológica.
Ao contrário das trevas simbolizadas pela hegemonia Leu as traduções em latim dos gregos e dos filósofos
da Igreja, é importante ressaltar que todo o pensamento árabes e judeus. Sob a influência das ideias de Santo
clássico teria se perdido caso as instituições católicas não Agostinho, ele viveu no período em que a Igreja buscava
tivessem tratado de preservá-las. Dessa forma, longe do conter os avanços da filosofia laica sobre a teologia cristã.
obscurantismo imaginado, a Idade Média criou as univer- Os estudiosos da filosofia grega eram unânimes em
sidades, locais onde se estudavam geometria euclidiana, afirmar que o conteúdo da obra aristotélica, a mais
Lógica, metafísica, ética, medicina, física e Direito. importante do acervo da filosofia grega, não corroborava
A Escolástica, escola de pensamento filosófico desse o que diziam as Sagradas Escrituras.
período, recebeu influência determinante dos clássicos e Assim, a filosofia aristotélica ignorava totalmente
foi marcada pela tentativa de conciliação entre fé e razão. as noções de Deus criador e providente, bem
Nos monastérios, monges trataram de recepcionar, traduzir como as de alma imortal, queda e redenção do
e preservar obras gregas, romanas, árabes e judaicas. Claro homem, todas fundamentais à doutrina cristã
que esses textos passaram por um curioso processo de (MATTOS, 1988, p. 11).
“cristianização”: tratava-se, afinal, de adequá-los à teologia
cristã. No entanto, longe de ser o mundo escuro, árido e Dada a impossibilidade de impedir a leitura de
retrógrado que o imaginário ocidental construiu, a Idade Aristóteles, o papa Gregório IX achou por bem divulgar as
Média foi o momento em que a nossa civilização passou a ideias do filósofo, desde que fossem adaptadas aos
ser construída. dogmas da Igreja. Teve início, então, a
Qual era a principal fonte do conhecimento para os cristianização da filosofia aristotélica, o que só
filósofos medievais? Dada a relevância e a posição veio a se tornar possível graças ao espírito analí-
ocupada pelo seu trabalho, Aristóteles foi retomado pelo tico, à capacidade de ordenação metódica e à ha-
bilidade dialética de Tomás de Aquino, que ele
pensamento filosófico cristão medieval, que o censurou
aliava a um profundo sentimento de fé cristã
e adaptou a sua obra ao pensamento dogmático da Igreja;
(MATTOS, 1988, p. 11).
sua importância foi tamanha que passou a ser chamado
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Tomás de Aquino desenvolveu seu trabalho a partir Em relação ao exercício da política, Aquino considerava
desta perspectiva e, para isso, buscou resolver a questão da ser a vontade divina impossível de ser conhecida. Portanto,
distinção entre essência e existência de forma a conciliar a aos homens restava a obediência às leis naturais, ou seja,
filosofia aristotélica com a cristã: para ele, se a definição da a consciência humana. São Tomás reconhecia três tipos de
essência de algo não garantia a sua existência, era necessá- leis: a lei natural (conservação da vida e desejo da verdade,
ria uma outra realidade capaz de dar existência às coisas. Em por exemplo); a lei humana ou positiva (estabelecida pelos
outras palavras, era necessário o conceito de criação. homens com vistas ao bem comum); e a lei divina,
Voltemos ao raciocínio tomista: se o fato de se atingir uma responsável por guiar a alma humana, imortal. Ao Estado
definição de bondade não significava, obrigatoriamente, que caberia promover o bem comum, e à Igreja caberia cuidar
a bondade existisse, quer dizer, se a razão não era suficiente dos fins sobrenaturais. Finalmente,
para fazer surgirem as coisas, era preciso que outra dimen- a harmonização, no plano social e político, entre
são fosse responsável pela criação. poder temporal e poder espiritual seria, portanto,
Apenas em Deus seria possível haver identidade análoga à que Santo Tomás procura estabelecer
entre essência e existência. Deus seria o criador de tudo, entre filosofia e teologia, entre razão e fé
(MATTOS, 1988, p. 15).
o puro ato de existir, de forma que nada poderia lhe ser
acrescentado. Nesses termos, Deus seria imóvel e
Leia, a seguir, um trecho da obra Súmula contra os
eterno, não sujeito a qualquer transformação, já que
Gentios, de São Tomás de Aquino. Aqui, Tomás de Aquino
existia em plena perfeição.
busca compreender os domínios da fé e da razão. Para ele,
Aquino não apenas usou Aristóteles para provar a
a fé permite a aceitação da palavra revelada de Deus e a
existência de Deus, como também mostrou que a razão
compreensão das verdades que são acessíveis pela via da
era capaz de provar a existência de Deus por meio de
razão. Esta fé é conduzida pelo intelecto humano e pelo
cinco vias. Vejamos como:
raciocínio, não estando, de forma alguma, associada à
Por meio da primeira via, admitia-se que qualquer coisa
aceitação ingênua. E, embora a razão, per si, não seja
que fosse colocada para movimentar-se deveria o seu
capaz de alcançar o entendimento do divino, ela permite
movimento a outro ser. O que teria feito Deus mover-se e
alcançar o cognoscível, o que pode ser compreendido e
criar o mundo? Nada. Deus, então, seria o início de tudo.
conhecido (CAMPOS, 2011).
Por meio da segunda via, admitia-se que Deus seria
a primeira causa não causada, ou seja, o primeiro a ser É justo que as verdades divinas acessíveis à razão
nos sejam propostas como objetos de fé.
causa de outra coisa que não havia sido causada por
Uma vez que em Deus há duas espécies de
nenhuma outra.
verdades, algumas das quais são acessíveis à nossa
A terceira via referia-se à necessidade da existência: se inteligência e outras ultrapassam totalmente as
algo existia, era porque sua existência fizera-se necessária; nossas capacidades, é justo que Deus proponha
caso retrocedêssemos infinitamente (para descobrir a como objetos de fé tanto umas como outras.
origem da necessidade), culminaríamos em Deus. Comecemos por demonstrar isto, com referência
A quarta via recuperou a ideia de comparabilidade: às verdades que são acessíveis à nossa razão na-
para que fôssemos capazes de comparar coisas, deveria tural. Com isto daremos uma resposta àqueles que
haver algo absoluto que fosse parâmetro para a consideram inútil a transmissão de tais verdades
comparação, quer dizer, Deus. como objetos de fé por via de inspiração sobrena-
Finalmente, a quinta via associava-se à ideia de tural, de vez que tais verdades nos são conhecidas
finalidade: se tudo existia para um determinado fim, e através de nosso próprio conhecimento natural.
considerando-se que as coisas não eram dotadas de Verificar-se-iam três grandes inconvenientes, se
conhecimento, só podia haver uma inteligência primeira, tais verdades naturais acerca de Deus estivessem
abandonadas exclusivamente às forças da razão
determinadora da finalidade de tudo, ou seja, Deus.
humana. O primeiro deles está em que poucos
Aquino também se debateu com a questão que havia
homens desfrutariam do conhecimento de Deus.
perturbado Agostinho: como explicar a existência do mal?
Pois para chegar a tal conhecimento exige-se uma
Para Aquino, o mal era fruto da ausência do bem, não sen- longa e laboriosa busca, o que é impossível para a
do algo real fora do sujeito: o mal existia no sujeito. Ainda, maior parte dos homens, por três motivos.
o mal que alguém produzia não poderia ter sido causado por Primeiramente, certas pessoas são afastadas desta
Deus: o mal resultava da privação ou de algum defeito na busca por más disposições de seu próprio
atividade que as pessoas desempenhavam, e o agir de temperamento, que as desviam do saber. Nenhum
Deus estava isento de mal, já que Ele representava a per- estudo seria capaz de fazer com que tais pessoas
feição absoluta. Assim, nos seres humanos, o mal se ma- atingissem o ponto mais alto do conhecimento
terializava sob a forma de pecados. "O melhor nome que humano, isto é, o conhecimento de Deus.
identifica o mal para o cristianismo, é o pecado diretamen- Para outros o obstáculo é constituído pelos afa-
te associado com o mal moral" (CALLEGARO, 2010, p. 68). zeres materiais. É indispensável que haja, entre os
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homens, quem se ocupe com a administração dos Em consequência, se o único caminho para o
bens temporais. A estes falta, evidentemente, o conhecimento de Deus fosse a razão natural, o
tempo necessário para a busca contemplativa que gênero humano permaneceria envolto nas trevas
lhes permitiria atingir o ápice da pesquisa humana, mais profundas da ignorância: o conhecimento de
ou seja, o conhecimento de Deus. Deus, que contribui enormemente para tornar os
Para outros, enfim, o obstáculo é a preguiça. O homens perfeitos e bons, constituiria o privilégio
conhecimento de tudo o que a razão pode des- de um pequeno grupo de pessoas, e mesmo
cobrir acerca de Deus exige preliminarmente estes só chegariam a este privilégio após muito
numerosos conhecimentos, pois quase toda a tempo de pesquisa.
reflexão filosófica está orientada para o conhe- O terceiro grande inconveniente de que acima
cimento de Deus. Esta é a razão pela qual a Meta- falávamos consistiria no seguinte: as pesquisas da
física, consagrada ao estudo das coisas divinas, razão humana estariam, na maioria dos casos,
ocupa cronologicamente o último lugar no ensina- eivadas de erros, em razão da fraqueza conatural
mento das disciplinas filosóficas. Por conseguinte, da nossa inteligência, em razão também da mist-
ninguém pode entregar-se à pesquisa da verdade ura das imagens. Para muitos permaneceriam
divina sem muito trabalho e diligência. Este traba- dúvidas em relação ao que é demonstrado como
lho, muito poucos estão dispostos a assumi-lo por verdade absoluta, por não conhecerem o valor da
amor à ciência, embora Deus tenha colocado este demonstração, e sobretudo pela incapacidade de
desejo no mais profundo do coração humano. discernir a veracidade ou não veracidade dos que
O segundo inconveniente que surgiria, caso Deus se apresentam como sábios.
não houvesse revelado sobrenaturalmente as ver- Face a tudo isto, era necessário que Deus trans-
dades que, em si, são acessíveis à razão natural, mitisse aos homens, pelo caminho da fé, uma cer-
consistiria no seguinte: os homens que chegas- teza bem firme e uma verdade sem mescla, no
sem à descoberta de tais verdades só o conse- que concerne às coisas de Deus. Ora, a misericór-
guiriam com dificuldade e após muito tempo de dia divina proveu a isto de maneira salutar, obri-
busca. Isto devido à profundidade desta verdade, gando-nos a aceitar como objetos de fé aquelas
profundidade que só se consegue compreender mesmas coisas que, de per si, seriam acessíveis
pela simples razão natural, se a inteligência hu- à razão. Desta maneira, todos têm a possibilidade
mana primeiro se capacitar para isto mediante um de participar do conhecimento de Deus, sem
longo tirocínio; além disso, em razão da necessi- perigo de dúvida ou de erro.
dade de múltiplos conhecimentos preliminares, Esta é a razão pela qual se lê na Epístola aos
como já foi dito; finalmente, pelo fato de que, no Efésios: “Não vos comporteis como fazem os pa-
período da juventude, a alma é agitada pelos gãos na vaidade dos seus julgamentos e dos seus
diversos movimentos das paixões e consequen- pensamentos entrevados” (Efésios, capítulo 4,
temente não tem aptidões para conhecer uma versículo 17). E em Isaías lemos: “Todos os teus
verdade tão profunda, uma vez que, no dizer do filhos serão instruídos pelo Senhor” (Isaías, capí-
Filósofo no sétimo livro da Física (capítulo III, nú- tulo 54, versículo 13). (AQUINO, 1988, p. 99-101).
mero 7), o homem se torna prudente e sábio so-
mente à medida que as suas paixões se acalmam.
Breve diálogo
José Maurício Fonzaghi Mazzucco, 56 anos, é bacharel e licenciado em Ciências Sociais, licenciado em Geografia e
Mestre em Antropologia Filosófica. Leciona no Colégio e Curso Objetivo desde 1990.
Pergunta: Qual a importância de estudarmos as obras filosóficas da Patrística e da Escolástica?
Prof. Mazzucco: Ainda que nunca tenhamos lido os antigos autores dessas escolas ou movimentos, as suas ideias
influenciam a nossa visão de mundo, sobretudo porque somos herdeiros, em parte, das concepções neoplatônicas,
ainda que não o saibamos.
Pergunta: As perguntas elaboradas pelos pensadores da Patrística e da Escolástica já foram respondidas na atualidade?
Prof. Mazzucco: Muitos dos debates, os quais hoje preocupam os filósofos, já ocorriam na Antiguidade e na Idade
Média. São temas que atravessaram os séculos e que permitem a reflexão, mas que dificilmente terão soluções
definitivas.
Pergunta: Nos dias de hoje, o fazer filosófico encontra-se dissociado da perspectiva religiosa?
Prof. Mazzucco: Muitos filósofos contemporâneos são motivados por uma fé religiosa na elaboração de suas
reflexões, e suas contribuições para a história do pensamento não podem ser desclassificadas. Eu mesmo sou uma
pessoa religiosa.
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Referências – Módulo 7
CAMPOS, Fernanda Ferreira. Fé e razão na Suma contra os Gentios de
Tomás de Aquino. X Jornada de Estudos Antigos e Medievais. II Jornada
Textuais
Internacional de Estudos Antigos e Medievais. Maringá, PR, 2011.
ABRÃO, Bernadette Siqueira. História da Filosofia. São Paulo: Nova
Disponível em: <[Link] jeam/anais/2011/pdf/comun/
Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores).
[Link]>. Acesso em: 5 abr. 2017.
AGOSTINHO, Santo. O livre-arbítrio. Tradução, organização, introdução
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
e notas de Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Paulus, 1995. (Patrística).
MATTOS, C. L. Sto. Tomás, vida e obra. In: ALIGHIERI, Dante. Sto. Tomás
ALFONSO-GOLDFARB, Ana Maria. O que é História da Ciência. São
de Aquino. Seleção de textos. São Paulo: Nova Cultural, 1988.
Paulo: Brasiliense, 1994.
OLIVEIRA, N. A. Introdução. In: AGOSTINHO, Santo. O livre-arbítrio. São
AQUINO, Santo Tomás. In: ALIGHIERI, Dante. Sto. Tomás de Aquino.
Paulo: Paulus, 1995. (Patrística).
Seleção de textos. São Paulo: Nova Cultural, 1988.
PESSANHA, José Américo Motta. Vida e obra. In: AGOSTINHO, Santo.
CALLEGARO, Ronaldo. A doutrina do mal em Santo Tomás de Aquino.
Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. São
5.° Encontro de Pesquisa na Graduação em Filosofia da Unesp. Marília, SP,
Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores).
v. 3, n. 10, p. 66-75, 2010. Disponível em: <[Link]
REALE, G.; ANTISERI, D. História da Filosofia: Patrística e Escolástica, v.
[Link]/Home/RevistasEletronicas/FILOGENESE/RonaldoCallegaro(66-
2. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003.
75).pdf>. Acesso em: 29 mar. 2017.
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2. (UFU) – Segundo o texto abaixo, de Agostinho de Uma das características da patrística é a busca da
Hipona (354-430 d. C.), Deus cria todas as coisas a partir conciliação entre a fé e a filosofia, e Agostinho de Hipona,
de modelos imutáveis e eternos, que são as ideias ou Santo Agostinho (354 d.C. – 430 d.C.), influenciado
divinas. Essas ideias ou razões seminais, como também pelo neoplatonismo, tornou-se uma referência para a
são chamadas, não existem em um mundo à parte, inde- filosofia cristã. Em relação ao desenvolvimento das
pendentes de Deus, mas residem na própria mente do ciências naturais, porém, o pensamento de Agostinho não
Criador, deu grande impulso, uma vez que sua filosofia – tal como
[...] a mesma sabedoria divina, por quem a do mestre Platão – não adotava os fenômenos naturais
foram criadas todas as coisas, conhecia como objeto de reflexão. Com base nos textos acima e
aquelas primeiras, divinas, imutáveis e em seus conhecimentos sobre a obra de Agostinho de
eternas razões de todas as coisas, antes de Hipona, assinale a alternativa incorreta.
serem criadas [...]. a) Agostinho de Hipona criou a doutrina da iluminação
(Sobre o Gênese, V.) divina baseado na teoria da reminiscência de Platão,
Considerando as informações acima, é correto afirmar conciliando de modo original a fé cristã e o
que se pode perceber pensamento filosófico.
a) que Agostinho modifica certas ideias do cristianismo a b) A observação, a experimentação e a aplicação dos
fim de que este seja concordante com a filosofia de princípios da geometria sobre os fenômenos naturais
Platão, que ele considerava a verdadeira. foi uma das principais características da filosofia de
b) uma crítica radical à filosofia platônica, pois esta é Santo Agostinho.
contraditória com a fé cristã. c) Conforme Agostinho de Hipona, a filosofia grega é um
c) a influência da filosofia platônica sobre Agostinho, mas instrumento útil para a fé cristã.
esta é modificada a fim de concordar com a doutrina d) As verdades eternas e imutáveis, que têm sua sede
cristã. em Deus, só podem ser alcançadas pela iluminação
d) uma crítica violenta de Agostinho contra a filosofia em divina.
geral.
4. (UFU) – A teologia natural, segundo Tomás de Aquino 5. (UFU) – Considere o seguinte texto sobre Tomás de
(1225-1274), é uma parte da filosofia, é a parte que ele Aquino (1226-1274).
elaborou mais profundamente em sua obra e na qual ele
se manifesta como um gênio verdadeiramente original. Fique claro que Tomás não aristoteliza o cristianismo,
mas cristianiza Aristóteles. Fique claro que ele nunca
Se se trata de física, de fisiologia ou dos meteoros, Tomás
pensou que com a razão se pudesse entender tudo;
é simplesmente aluno de Aristóteles, mas se se trata de não, ele continuou acreditando que tudo se
Deus, da origem das coisas e de seu retorno ao Criador, compreende pela fé: só quis dizer que a fé não estava
Tomás é ele mesmo. Ele sabe, pela fé, para que limite se em desacordo com a razão, e que, portanto, era
possível dar-se ao luxo de raciocinar, saindo do
dirige, contudo, só progride graças aos recursos da razão.
universo da alucinação.
(GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média.
(ECO, Umberto. “Elogio de Santo Tomás de Aquino”.
São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 657.)
In: Viagem na irrealidade cotidiana, p. 339.)
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MÓDULO 8 Maquiavel
A Política: a formação dos Estados Nacionais ilegitimidade do poder gera situações de crise e
e O Príncipe instabilidade permanente. Somente o cálculo polí-
tico, a astúcia, a ação rápida e fulminante contra os
adversários são capazes de manter o príncipe.
Neste módulo, estudaremos o período da formação
Esmagar ou reduzir à impotência a oposição inter-
dos Estados Nacionais e a obra de Maquiavel, o pensador
na, atemorizar os súditos para evitar a subversão
que melhor traduziu o clima político-filosófico e o contexto
e realizar alianças com outros principados consti-
daquele tempo. tuem o eixo da administração. Como o poder se
funda exclusivamente em atos de força, é previsí-
1. Introdução: a formação dos Estados nacionais, a vel e natural que pela força seja deslocado, deste
política e Maquiavel (1469–1527) para aquele senhor. Nem a religião, nem a tradi-
ção, nem a vontade popular legitimam o soberano
Ao final do século XV e início do XVI, a Europa viu e ele tem de contar exclusivamente com sua
suas cidades revoltarem-se contra o sistema senhorial e energia criadora. A ausência de um Estado central
as suas inúmeras regras, moedas e tributos. Aquele era e a extrema multipolarização do poder criam um
vazio, que as mais fortes individualidades capaci-
um modelo insatisfatório para uma classe média que
tam-se a ocupar (MARTINS, 1999, p. 6-7).
buscava liberdade para comerciar e que estava cansada
de pagar pelo luxo da monarquia, sem qualquer contra-
Sequer havia um soberano italiano que pudesse fazer
partida. Nesse contexto de luta pelo poder, e tendo a Itália
frente aos seus opositores; ao contrário do que se
como pano de fundo, Nicolau Maquiavel escreveu sua
verificava em outros países europeus, os principados
obra-prima, O Príncipe (1512), texto que resumiu de
italianos pareciam incapazes de levar adiante qualquer
maneira magnífica o espírito de seu tempo. De fato, sua
projeto de unificação nacional. Por sua vez, de forma
obra diz respeito a todos os países em que a monarquia
distinta do que se dera no restante da Europa, a burguesia
se estabelecia, àquele momento, como força absoluta: se
italiana “dispensa o monarca como peça essencial para
as monarquias absolutistas eram a forma de governo dos
submeter os senhores feudais, como ocorreu no caso
Estados nascentes, para elas serviriam as regras e
clássico da França. Ela mesma se concede como aristo-
recomendações que Maquiavel formulava.
cracia reinante” (MARTINS, 1999, p. 8). Como resultado,
Maquiavel, filho de um advogado estudioso das
a Itália se vê privada de uma liderança central.
humanidades, trabalhou em funções diplomáticas em
A queda de Constantinopla, em 1453, e a descoberta
meio à luta entre os Médicis (uma das mais poderosas
de uma via de acesso às Índias, em 1494, enfraqueceriam
famílias italianas), a Espanha e a França. Por conta de
os negócios comandados pela elite burguesa da Itália –
acusações de traição e conspiração, chegou a ser preso
baseada, em grande parte, no comércio –, e a decadência
e torturado. Posteriormente, conseguiu libertar-se da
econômica se aliaria ao caos político.
prisão, embora sem poder voltar ao serviço público. Para
Será neste cenário, e a partir deste contexto, que
os republicanos, ele era tido como simpático à monarquia.
Maquiavel buscará ensinar ao Príncipe como governar.
Para os monarquistas, ele era visto como favorável aos
ideais republicanos. Quais eram os interesses de Figura 1. Alguns monarcas
parecem ter sofrido influência
Maquiavel e sobre o que ele pretendia discutir? Na verda- das ideias de Maquiavel. Por
de, o que interessava a Maquiavel era falar sobre o exemplo, o rei inglês
Estado, o Estado real, capaz de impor a ordem necessária Henrique VIII conseguiu
separar a Inglaterra do poder
para evitar o caos e a barbárie. Assim, sua obra-prima, O de Roma – colocando-se, em
Príncipe, “contém ensinamentos de como conquistar seguida, como chefe maior
Estados e conservá-los sob domínio; em síntese, um da Igreja – ao separar-se da
rainha católica Catarina de
manual para governantes” (MARTINS, 1999, p. 5). Aragão e desposar Ana
No mundo de Maquiavel, a Itália estava mergulhada Bolena. A rainha Catarina de
no caos que a fragmentação política só fazia favorecer. A Médicis, filha do rei Leonardo
II (a quem Maquiavel dedicou
confusão política tinha origem na luta entre os pequenos seu livro), também parece ter
principados e poderosas famílias que, não raras vezes, seguido os conselhos do
Príncipe maquiavélico: jogou
eram vistas como forças ilegítimas que buscavam usurpar
católicos contra protestantes
o poder de quem o detinha por direito. (o que provocou o massacre
A tirania impera em pequenos principados, gover- de 1572) e garantiu o poder
nados despoticamente por casas reinantes sem para seus filhos (MARTINS,
1999).
tradição dinástica ou de direitos contestáveis. A
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2. Da moral teocrática às teorias renascentistas: Por isso, o fenômeno histórico não compactua com a
a gênese de O Príncipe ideia cristã de fatos que, ao longo do tempo, cumprem
aquilo que estava designado por forças divinas. Ao
Segundo Chauí (2002), a obra de Maquiavel pode ser contrário, os fatos históricos se repetem, e a recorrência
considerada fundadora do pensamento político moderno, já permite que sejam investigados e compreendidos. Por
que procurou oferecer respostas novas a antigas perguntas. sua vez, os homens são egoístas e ambiciosos, e apenas
Para Maquiavel, o líder, o príncipe, deve ser virtuoso e a força da lei é capaz de conter esses instintos capazes de
racional, cabendo a ele mediar e solucionar os conflitos provocar guerras e lutas. O guia para a conduta, portanto,
existentes na Cidade, além de garantir o seu poder. Esta provém da intersecção entre a psicologia e a história, e
Cidade abriga dois desejos que se colocam em oposição: dessa convergência torna-se possível derivar um conjunto
o desejo de um grupo em oprimir e comandar; e o desejo de condutas que estabelecem a melhor forma de
de outro grupo em não ser oprimido ou comando. Portanto, governar. Para Maquiavel,
Essa divisão evidencia que a Cidade não é uma quem observa com diligência os fatos do passado
comunidade homogênea nascida da vontade divina, pode prever o futuro em qualquer república e usar
da ordem natural ou da razão humana. Na realidade, os remédios aplicados desde a Antiguidade ou, na
a Cidade é tecida por lutas internas que a obrigam ausência deles, imaginar novos, de acordo com a
a instituir um polo superior que possa unificá-la e semelhança de circunstâncias entre o passado e o
dar-lhe identidade. Esse polo é o poder político. presente (MARTINS, 1999, p. 17).
Assim, a política nasce das lutas sociais e é obra da
própria sociedade para dar a si mesma unidade e A arte de governar resulta, de fato, de uma teoria
identidade. A política resulta da ação social a partir científica que se apoia na recorrência dos fenômenos
das divisões sociais (CHAUÍ, 2002, p. 395). históricos e do comportamento humano. Por sua vez, a
ação humana, especialmente a das personalidades, é
Para Maquiavel, não há uma Cidade que possa viver capaz de romper com certos círculos viciosos da história.
sem lutas, ou que possa se constituir como uma comuni- Maquiavel chama de fortuna ao conjunto de circuns-
dade em que todos, unidos, lutam em prol do bem tâncias capazes de ditar ou estabelecer os rumos históricos.
comum. Ao contrário, a vida política na Cidade ocorre em Cabe aos homens, portanto, aproveitar as oportunidades
função das lutas e conflitos entre os diferentes grupos e ultrapassar os obstáculos fornecidos pela fortuna, em
que dela fazem parte. Assim, a finalidade política não é a função das necessidades que lhes são impostas. Tal
justiça e o bem-estar de todos, mas a tomada e a conser- como ocorre quando se navega por um rio turbulento, a
vação do poder nas mãos do grupo que o tomou para si. fortuna faz emergir circunstâncias que requerem iniciativa
Nesses termos, “a política não é a lógica racional da jus- e vontade criadora para serem superadas.
tiça e da ética, mas a lógica da força transformada em
lógica do poder e da lei” (CHAUÍ, 2002, p. 396). Por sua
vez, o Príncipe não precisava ser portador das virtudes
morais tão preciosas à tradição cristã;
ele precisa ter virtu, mas esta é propriamente
política, referindo-se às qualidades do dirigente
para tomar e manter o poder, mesmo que para
isso deva usar a violência, a mentira, a astúcia e a
força (CHAUÍ, 2002, p. 396).
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por alguns daqueles atributos que lhes acarretam desordens das quais resultam assassínios ou
ou reprovação ou louvor. Assim é que alguns são rapinagens: porque estes costumam prejudicar a
havidos como liberais, alguns miseráveis (usando comunidade inteira, enquanto aquelas execuções
um termo toscano, porque "avaro" em nossa que emanam do príncipe atingem apenas um
língua é ainda aquele que deseja possuir por indivíduo. E, dentre todos os príncipes, é ao novo
rapina, enquanto "miserável" chamamos aquele que se torna impossível fugir à pecha de cruel,
que se abstém em excesso de usar o que possui); visto serem os Estados novos cheios de perigos.
alguns são tidos como pródigos, alguns rapaces; Diz Virgílio, pela boca de Dido:
alguns cruéis, alguns piedosos; um fedífrago, o Res dura, et regni novitas me talia cogunt moliri, et
outro fiel; um efeminado e pusilânime, o outro late fines custode tueri.
feroz e animoso; um humano, o outro soberbo; O príncipe, contudo, deve ser lento no crer e no
um lascivo, o outro casto; um simples, o outro agir, não se alarmar por si mesmo e proceder por
astuto; um duro, o outro fácil; um grave, o outro forma equilibrada, com prudência e humanidade,
leviano; um religioso, o outro incrédulo, e assim buscando evitar que a excessiva confiança o torne
por diante. incauto e a demasiada desconfiança o faça
Sei que cada um confessará que seria sumamente intolerável. Nasce daí uma questão: se é melhor
louvável encontrarem-se em um príncipe, de ser amado que temido ou o contrário. A resposta
todos os atributos acima referidos, apenas é de que seria necessário ser uma coisa e outra;
aqueles que são considerados bons; mas, desde mas, como é difícil reuni-las, em tendo que faltar
que não os podem possuir nem inteiramente uma das duas é muito mais seguro ser temido do
observá-los em razão das contingências humanas que amado. Isso porque dos homens pode-se
não o permitirem, é necessário seja o príncipe tão dizer, geralmente, que são ingratos, volúveis,
prudente que saiba fugir à infâmia daqueles vícios simuladores, tementes do perigo, ambiciosos de
que o fariam perder o poder, cuidando evitar até ganho; e, enquanto lhes fizeres bem, são todos
mesmo aqueles que não chegariam a pôr em risco teus, oferecem-te o próprio sangue, os bens, a
o seu posto; mas, não podendo evitar, é possível vida, os filhos, desde que, como se disse acima, a
tolerá-los, se bem que com quebra do respeito necessidade esteja longe de ti; quando esta se
devido. Ainda, não evite o príncipe de incorrer na avizinha, porém, revoltam-se. E o príncipe que
má faina daqueles vícios que, sem eles, difícil se confiou inteiramente em suas palavras, encon-
lhe torne salvar o Estado; pois, se bem consi- trando-se destituído de outros meios de defesa,
derado for tudo, sempre se encontrará alguma está perdido: as amizades que se adquirem por
coisa que, parecendo virtude, praticada acarretará dinheiro, e não pela grandeza e nobreza de alma,
ruína, e alguma outra que, com aparência de vício, são compradas mas com elas não se pode contar
seguida dará origem à segurança e ao bem-estar. e, no momento oportuno, não se torna possível
utilizá-las. E os homens têm menos escrúpulo em
(...) ofender a alguém que se faça amar do que a
quem se faça temer, posto que a amizade é
CAPÍTULO XVII
mantida por um vínculo de obrigação que, por
DA CRUELDADE E DA PIEDADE; SE É MELHOR
serem os homens maus, é quebrado em cada
SER AMADO QUE TEMIDO, OU ANTES TEMIDO
oportunidade que a eles convenha; mas o temor é
QUE AMADO
mantido pelo receio de castigo que jamais se
(DE CRUDELITATE ET PIETATE; ET AN SIT
abandona.
MELIUS AMARI QUAM TIMERI, VEL E CONTRA)
Deve o príncipe, não obstante, fazer-se temer de
Reportando-me às outras qualidades já referidas, forma que, se não conquistar o amor, fuja ao ódio,
digo que cada príncipe deve desejar ser tido como mesmo porque podem muito bem coexistir o ser
piedoso e não como cruel: não obstante isso, deve temido e o não ser odiado: isso conseguirá
ter o cuidado de não usar mal essa piedade. César sempre que se abstenha de tomar os bens e as
Bórgia era considerado cruel; entretanto, essa sua mulheres de seus cidadãos e de seus súditos e,
crueldade tinha recuperado a Romanha, logrando em se lhe tornando necessário derramar o sangue
uni-la e pô-la em paz e em lealdade. O que, se de alguém, faça-o quando existir conveniente
bem considerado for, mostrará ter sido ele muito justificativa e causa manifesta. Deve, sobretudo,
mais piedoso do que o povo florentino, o qual, abster-se dos bens alheios, posto que os homens
para fugir à pecha de cruel, deixou que Pistoia esquecem mais rapidamente a morte do pai do
fosse destruída. que a perda do patrimônio. Além disso, nunca
Um príncipe não deve, pois, temer a má fama de faltam motivos para justificar as expropriações, e
cruel, desde que por ela mantenha seus súditos aquele que começa a viver de rapinagem sempre
unidos e leais, pois que, com mui poucos exem- encontra razões para apossar-se dos bens alheios,
plos, ele será mais piedoso do que aqueles que, ao passo que as razões para o derramamento de
por excessiva piedade, deixam acontecer as sangue são mais raras e esgotam-se mais
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Saiba mais
Maquiavel escreveu ao tempo em que se buscava
dessacralizar a política – ou seja, retirar dela todo o caráter
sagrado e religioso – e tornar o poder temporal
independente do poder religioso representado por Roma.
Ao tempo em que os Estados se sobrepunham à religião,
a obra O Príncipe circulou sem que fosse criticada ou alvo
de qualquer tipo de censura (MARTINS, 1999).
As circunstâncias mudaram com a Contrarreforma,
que passou a defender o poder espiritual em detrimento
do temporal. Por isso, sua obra acabou por ser incluída no
index dos livros proibidos pela Igreja.
Nos séculos seguintes, Maquiavel passou a ser
acusado de protetor de déspotas e tiranos: seu manual
era visto como disseminador do oportunismo, da Figura 3. Ainda nos dias de hoje, a influência da religião
mentira, da manipulação política, do engano. e de suas instituições no mundo político ainda é enorme.
O Iluminismo buscou resguardar suas qualidades, entre elas a defesa da ética e da República como solução ideal
para o governo do Estado. Será apenas ao tempo do Renascimento italiano (no século XIX) que Maquiavel verá sua
obra conquistar novamente o respeito de todos, a ponto de ser ele transformado em herói nacional.
A controvérsia em torno de O Príncipe não cessará, entretanto. “Mussolini (1883-1945) o transformará em
precursor do fascismo e Gramsci (1891-1937), marxista, assimilará ao príncipe ideal renascentista o partido do
proletariado, como instrumento contemporâneo de sua vontade e ações coletivas” (MARTINS, 1999, p. 26).
De qualquer forma, é necessário lembrar que o maquiavelismo antecede o próprio Maquiavel. Outros já haviam
discorrido sobre as práticas que detentores do poder deveriam assumir. Em vários momentos da História, governantes
já haviam priorizado os resultados em detrimento dos meios. O que Maquiavel fez, em resumo, foi transformar em
teoria aquilo que havia observado do passado, tendo percebido que a moralidade de quem governa obedece a regras
outras que o povo não deve – tampouco pode – seguir.
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A influência de Maquiavel é tamanha que seu nome foi transformado em adjetivo. Assim, no nosso linguajar
tornou-se comum associarmos os termos maquiavélico e maquiavelismo a determinadas pessoas ou condutas. Leia
atentamente o que Marilena Chauí diz a respeito.
Maquiavélico, maquiavelismo
Estamos acostumados a ouvir as expressões maquiavélico e maquiavelismo. São usadas quando alguém
deseja referir-se tanto à política quanto aos políticos, quanto a certas atitudes das pessoas, mesmo
quando não ligadas diretamente a uma ação política (fala-se, por exemplo, num comerciante maquiavélico,
numa professora maquiavélica, no maquiavelismo de certos jornais, etc.). Quando ouvimos ou
empregamos essas expressões? Sempre que pretendemos julgar a ação ou a conduta de alguém desleal,
hipócrita, fingidor, poderosamente malévolo, que brinca com sentimentos e desejos dos outros, mente-
lhes, faz a eles promessas que sabe que não cumprirá, usa a boa-fé alheia em seu próprio proveito.
Falamos num “poder maquiavélico” para nos referirmos a um poder que age secretamente nos
bastidores, mantendo suas intenções e finalidades desconhecidas para os cidadãos; que afirma que os
fins justificam os meios e usa meios imorais, violentos e perversos para conseguir o que quer; que dá
as regras do jogo, mas fica às escondidas, esperando que os jogadores causem a si mesmos sua própria
ruína e destruição. Maquiavélico e maquiavelismo fazem pensar em alguém extremamente poderoso e
perverso, sedutor e enganador, que sabe levar as pessoas a fazerem exatamente o que ele deseja,
mesmo que sejam aniquiladas por isso. Como se nota, maquiavélico e maquiavelismo correspondem
àquilo que, em nossa cultura, é considerado diabólico.
Que teria escrito Maquiavel para que gente que nunca leu sua obra e que nem mesmo sabe que existiu, um
dia, em Florença, uma pessoa com esse nome, fale em maquiavélico e maquiavelismo? (CHAUÍ, 2002, p. 395).
Breve diálogo
Adilson Silva Oliveira, 43 anos, é licenciado em Letras e mestre em Língua Portuguesa. Atualmente, é professor da
Universidade Paulista (UNIP), escritor, roteirista e redator de material didático.
Pergunta: O Príncipe foi pensado e escrito no contexto de uma Europa que assistia à formação dos Estados Nacionais.
O príncipe, caso não fosse possível um regime republicano, era aquele de quem se esperava um governo justo e
estável. Você acredita que as ideias de Maquiavel ainda fazem sentido nos dias de hoje?
Prof. Adilson Silva Oliveira: A obra clássica O Príncipe, de Maquiavel, foi escrita há quase cinco séculos, mas,
apesar do distanciamento histórico, o posicionamento do autor é atual. O autor, na verdade, descreve o político de
seu tempo. No campo sociopolítico, não houve mudanças consideráveis: o político brasileiro contemporâneo pode ser
pintado com as mesmas cores do político de Maquiavel. A expressão “os fins justificam os meios”, retirada da obra,
ilustra a atemporalidade de O Príncipe e significa que não importa o que o governante faça em seus domínios, desde
que seja para manter-se como autoridade.
Pergunta: Os elementos básicos de O Príncipe ainda se prestam à comunicação com o público? De que maneira as
produções culturais contemporâneas aproveitaram-se das ideias de Maquiavel?
Prof. Adilson Silva Oliveira: A modernidade do livro O Príncipe, de Maquiavel, é incontestável. Diversos teóricos já
discorreram sobre isso. O autor florentino é conhecido como o fundador da ciência política moderna, da Razão de
Estado, da abordagem sociológica da religião e da separação entre ética e política. Essas contribuições reverberam
na sociedade contemporânea, sobretudo no campo da política. Observe o trecho do livro: “(...) far-se-ia necessário
que a Itália chegasse aonde se acha neste momento. Que se visse mais escravizada do que os hebreus, mais oprimida
do que os persas, mais desunida do que os atenienses, sem chefe, sem ordem, batida, espoliada, lacerada, invadida,
e que houvesse, por fim, suportado toda sorte de calamidades. (...) Verifica-se que roga ela a Deus o envio de alguém
para redimi-la das crueldades e insolências dos estrangeiros. Nota-se, igualmente, que está pronta e disposta a seguir
uma bandeira, desde que haja quem a levante...” (MAQUIAVEL, Cap. XXVI). Nesse trecho, é possível perceber que
o povo, seja o da época de Maquiavel, seja o dos nossos tempos, sempre estará à espera de um líder (ou herói) que
salve a nação de problemas sociais, políticos, econômicos, culturais etc.
Pergunta: É possível estabelecer relações entre O Príncipe, de Maquiavel, e O pequeno príncipe, de Saint-Exupéry?
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Prof. Adilson Silva Oliveira: Maquiavel e Saint-Exupéry começam os seus livros com dedicatórias. O primeiro dedica
O Príncipe ao Magnífico Lourenço de Médicis, oferecendo-lhe não só o livro, mas também as faculdades da sabedoria;
o segundo dedica a obra a Lèon Werth, não ao adulto, corrompido pelos valores mundanos, mas à criança que Lèon
Werth foi um dia. Tanto Maquiavel quanto Saint-Exupéry descrevem como o príncipe deve proceder ante seus súditos
e amigos, explicando que, para manter-se adorado, é necessário que o líder saiba utilizar os vícios e as virtudes
necessários, fazendo o que for possível para garantir a segurança e o bem-estar.
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2. – Não ignoro a opinião antiga e muito 3. – Nasce daqui uma questão: se vale mais ser
difundida de que o que acontece no mundo amado que temido ou temido que amado.
é decidido por Deus e pelo acaso. Essa opinião é muito Responde-se que ambas as coisas seriam de desejar;
aceita em nossos dias, devido às grandes transformações mas porque é difícil juntá-las, é muito mais seguro ser
ocorridas, e que ocorrem diariamente, as quais escapam temido que amado, quando haja de faltar uma das duas.
à conjectura humana. Não obstante, para não ignorar Porque dos homens se pode dizer, duma maneira geral,
inteiramente o nosso livre-arbítrio, creio que se pode que são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e
aceitar que a sorte decida metade dos nossos atos, mas ávidos de lucro, e enquanto lhes fazes bem são
[o livre-arbítrio] nos permite o controle sobre a outra inteiramente teus, oferecem-te o sangue, os bens, a vida
metade. e os filhos, quando, como acima disse, o perigo está
(N. Maquiavel. O Príncipe. Brasília: EdUnB, 1979. Adaptado.) longe; mas quando ele chega, revoltam-se.
(N. Maquiavel. O príncipe. Rio de Janeiro: Bertrand, 1991.)
Em O Príncipe, Maquiavel refletiu sobre o exercício do
poder em seu tempo. No trecho citado, o autor A partir da análise histórica do comportamento humano
demonstra o vínculo entre o seu pensamento político e o em suas relações sociais e políticas, Maquiavel define o
humanismo renascentista ao homem como um ser
a) valorizar a interferência divina nos acontecimentos a) munido de virtude, com disposição nata a praticar o
definidores do seu tempo. bem a si e aos outros.
b) rejeitar a intervenção do acaso nos processos políticos. b) possuidor de fortuna, valendo-se de riquezas para
c) afirmar a confiança na razão autônoma como alcançar êxito na política.
fundamento da ação humana. c) guiado por interesses, de modo que suas ações são
d) romper com a tradição que valorizava o passado como imprevisíveis e inconstantes.
fonte de aprendizagem. d) naturalmente racional, vivendo em um estado pré-
e) redefinir a ação política com base na unidade entre fé social e portando seus direitos naturais.
e razão. e) sociável por natureza, mantendo relações pacíficas
com seus pares.
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3. O homem e sua obra cebidas que formulamos a respeito das coisas – escra-
vizava o pensamento. A precipitação, por sua vez, aca-
Nascido na França, René Descartes (1596-1650) é um bava por resultar em opiniões não necessariamente
dos nomes mais significativos desse período em que a válidas ou verdadeiras. No entanto, era possível corrigir
busca pelo método é tarefa com a qual os filósofos e esses erros, bastando para isso duvidar sistematicamente
pensadores estão ocupados. O princípio do seu trabalho de tudo e seguir um conjunto de regras que permitiam o
está na proposição da dúvida como instrumento para exame detalhado e minucioso dos fatos. Para Descartes,
identificar o real conhecimento. O saber está naquilo a a dúvida fazia parte do procedimento que atestaria o valor
respeito do qual não pairam dúvidas e, por isso, cada de determinado conhecimento: não havia como algo pre-
parte do conhecimento deve ser colocada sob suspeita e tender-se conhecimento caso pairasse dúvida sobre
deve ser rigorosamente investigada. Essa atitude é algum elemento seu. Na verdade, se havia algo sobre o
chamada de ceticismo e, no caso de Descartes, assumiu qual não havia dúvidas era o fato de que sempre pode-
a forma de dúvida metódica. ríamos duvidar, para isso usando nosso pensamento.
Filho de uma família burguesa, Descartes foi educado Portanto, a única certeza era a do pensamento, da nossa
numa das mais prestigiadas instituições de ensino da capacidade de pensar e duvidar.
França. Decepcionado com as disciplinas de Humanida- Nas palavras de Descartes, “penso, logo existo” (ou,
des, que nada mais faziam do que comentar as antigas em latim, cogito). Para pensar, é necessário existir. Existe
fontes gregas, e ávido por uma nova mentalidade cientí- aquilo que pensamos de forma clara. Existimos enquanto
fica, aproximou-se da matemática. Afinal, pensamos, e nossa existência é confirmada pela nossa
as matemáticas exibiam uma construção sólida e capacidade de pensar. O cogito é a consciência que pensa
clara, que a todos se impunha com a força de sobre si mesma, e não se mistura com o corpo, cuja exis-
demonstrações incontestáveis e que atravessara tência é duvidosa. “Nessa medida, o ‘eu’ que pensa, e
incólume as crises de pensamento instauradas que por isso existe como coisa, só pode ser uma coisa
pelos novos ventos da Renascença. A validade que pensa: coisa pensante, res cogitans” (ABRÃO, 1999,
das proposições matemáticas parecia pairar acima
p. 198).
das contingências do espaço e do tempo, suge-
rindo a possibilidade de seguras e perenes verda-
Ingimage/Fotoarena
des, imunes à corrosão do ceticismo (GRANGER,
1983, p. XII).
fosse um engano. Quando o cogito se enganava, não era máticos, isso equivale a dizer que deveríamos reduzir as
por conta de um ser maligno, mas apenas porque não equações de grau superior até chegar à equação mais
havia sido adotado um método rigoroso. Com o que simples;
deveria ocupar-se esse método? Esse método deveria b) a enumeração, que consistia na verificação do
ocupar-se com o estabelecimento de uma nova ordem processo de divisão até a identificação do elemento
das coisas, diferente daquela imposta por nossos sen- simples;
tidos. E, como o cogito e as coisas da realidade eram de c) a síntese, quando se realizava a operação inversa
natureza distinta, o método requeria que transformás- da descrita anteriormente, recompondo-se a divisão
semos as coisas em ideias dessas coisas, para que então realizada, do simples ao complexo.
pudessem ser pensadas e transformadas em objeto do A garantia de termos chegado ao elemento mais
conhecimento. Em outras palavras, o homem tornava-se simples nos era dada pela certeza de que as ideias claras,
sujeito, o ser pensante; o mundo era o seu objeto. O ser como são os princípios matemáticos, estavam desde
pensante podia pensar em si mesmo como aquele que sempre no cogito: eram ideias inatas, embora misturadas
efetivamente organizava o mundo, dando-lhe sentido, a outras ideias; daí a importância da divisão até alcançar-
segundo suas próprias regras. Em o Discurso do Método, se o elemento mais simples.
Descartes transforma os homens em senhores e donos
da natureza. 3.1. O Discurso do Método
Para Descartes, dentre todas as ideias claras e dis- Seria possível construir um edifício do saber que
tintas, destacavam-se a matemática e suas figuras geo- acomodasse todo o conhecimento conquistado até
métricas. A matemática era, por sua natureza, a ciência aquele momento? Seria possível arquitetar uma cidade
universal, quer dizer, ela dava os fundamentos únicos a cujos caminhos, planejados e ordenados, conduzissem a
todas as outras ciências. Aliás, essa mathesis universalis humanidade ao conhecimento seguro? A estas per-
(a ciência universal) era maior do que a própria matemá- guntas, um ainda jovem Descartes respondeu afirmati-
tica e suas ramificações, tais como a álgebra, a aritmética vamente. Mais: ele chegou à conclusão que seria o
e a geometria. Estas últimas serviriam, na verdade, como arquiteto perfeito para realizar esta missão. Segundo
exercício preparatório para o acesso à ciência universal. Granger (1983, p. VIII), havia a
As investigações de Descartes o levariam a realizar o que convicção de que era ele, Descartes, o arquiteto
mais tarde receberia o nome de “geometria destinado a traçar o plano e lançar as bases
analítica”, isto é, a conversão de grandezas e de daquela cidade onde não haveria as “ruas
propriedades geométricas em fórmulas algé- tortuosas e desiguais” das múltiplas opiniões
bricas. O quadrado e o cubo, por exemplo, podem acumuladas pelo tempo e ensombradas pela
ser representados pelas expressões a e a, o que dúvida. A ele cabia a tarefa de inaugurar, desde os
possibilita relacioná-los num mesmo sistema de fundamentos, o luminoso reino da certeza.
cálculo (ABRÃO, 1999, p. 200).
Em Discurso do Método, sua principal obra,
Descartes enunciou o que considerava as três principais
características do seu método:
a) suas regras eram certas, ou seja, permitiam
segurança;
b) eram fáceis, o que tornava possíveis esforços
eficazes; e
c) permitiam alcançar todos os conhecimentos
possíveis. Assim, por ele pretender o alcance de todas as
áreas do saber, podemos afirmar que o método
cartesiano se configurou como uma mathesis universalis,
ou seja, um conhecimento válido para quaisquer que
fossem os objetos do conhecimento (CHAUÍ, 2002).
Figura 2. Em sua obra mais conhecida, Discurso sobre o método, Des-
Veja, a seguir, um trecho de Discurso do Método, no
cartes mostrou como era possível demonstrar a posição de um objeto
qualquer usando, como coordenadas, dois eixos que se interceptam.
qual o filósofo expõe três máximas que considerava
fundamentais para a vida: obedecer às leis, aos costumes
O método proposto por Descartes envolvia três do país e a Deus; ser firme e decidido, não cedendo ao
etapas: impulso de seguir opiniões menos firmes e seguras do
a) a análise, momento no qual deveriam ser divididas que as próprias; e, finalmente, estar ciente das próprias
as partes que compõem o todo (o objeto estudado), bus- limitações diante da ordem do mundo.
cando-se o elemento mais simples. Em termos mate-
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4. Críticas ao método cartesiano Pascal defendeu que nem todo conhecimento era
passível de ser alcançado pela dedução: alguns saberes
Longe de ser uma unanimidade, Descartes foi alvo só poderiam ser acessados por meio dos experimentos.
de críticas, especialmente em relação ao seu cogito. Para As pessoas não eram dotadas de qualquer mecanismo
Blaise Pascal (1623-1662), por exemplo, Descartes havia que as levasse, de forma natural, ao conhecimento; pelo
buscado apoio na ideia de Deus porque sua concepção contrário, em geral, elas alcançavam as verdades por
de mundo, o cogito, não se sustentava sozinha. Cristão, meio da intuição, e não da razão.
Pascal apoiou-se na doutrina fundada por Jansênio, para Para Pascal, as ideias claras e distintas de Descartes
quem a salvação viria por meio da graça divina, e apenas nada mais eram do que a demonstração da própria
para os eleitos. Tida como herética, essa atitude de fraqueza do uso da razão: eram apenas princípios inde-
indiferença era vista como extremamente perigosa, tanto monstráveis e de imensa fragilidade.
quanto as ideias protestantes. A própria geometria supõe que o espaço seja
Um dos aforismos mais famosos de Pascal é o que divisível ao infinito. Mas é tão certo que essa ideia
afirmava que “o coração tem razões que a própria razão de divisão ao infinito seja clara e distinta? Ela não
é, ao contrário, inteiramente obscura, incompreen-
desconhece”. Ao invocar as razões do coração, Pascal
sível e inconcebível? No entanto, é necessária.
não fazia referência aos sentimentos, mas aos princípios
Não tanto porque seja verdadeira – isso não pode-
que não eram demonstráveis, tais como os da geometria: mos saber –, mas por servir à geometria, que a
não havia como prová-los, embora devêssemos admiti- utiliza em suas demonstrações, estas sim evi-
los como verdadeiros. dentes. Em suma, para provar a força da mate-
mática, não é preciso a pretensão de que nela
tudo é certo e verdadeiro (ABRÃO, 1999, p. 207).
Ingimage/Fotoarena
Breve diálogo
Bettina Gerken Brasil, 40 anos, é bacharel em Filosofia e doutora em Saúde Pública. Atualmente, é professora da
Universidade Paulista – UNIP e coordenadora do curso de Nutrição da mesma instituição.
Pergunta: Qual a importância do trabalho de Descartes no contexto do Iluminismo do século XVIII?
Dra. Bettina Gerken Brasil: Descartes não foi o primeiro a sugerir que a dedução e os métodos racionais fossem os
melhores quando da busca do conhecimento. No entanto, sua relevância está no fato de que ele foi capaz de sintetizar
o que até então já havia sido falado sobre o tema e, mais importante, de sistematizar os processos por meio dos quais
a racionalidade seria capaz de superar os erros da experiência sensível. Porém, não se deve incorrer no equívoco de
imaginar que os séculos XVII e XVIII preferiram os métodos experimentais no lugar dos racionais. Aquele foi um
tempo em que também os métodos experimentais se desenvolveram de forma significativa. O lugar de destaque que
cabe a Descartes, porém, é que ele, talvez mais do que os outros filósofos do período, foi capaz de representar de
forma magnífica o espírito das Luzes, da primazia da razão, da autonomia intelectual do homem por meio do uso de
sua capacidade racional.
Pergunta: O que a leitura de Discurso do Método pode nos ensinar nos dias de hoje?
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Dra. Bettina Gerken Brasil: O Discurso do Método é um marco na história da Filosofia. Ali estão as bases do
pensamento cartesiano, especialmente no que diz respeito à vontade de Descartes de construir uma base para todo
conhecimento. Em Discurso do Método estão apresentadas as premissas que seriam seguidas por filósofos e
estudiosos das mais diferentes áreas do saber. As questões referentes à dúvida metódica como elemento necessário
para o pensamento são fundamentais. Também não podemos nos esquecer que Descartes, com sua obra, distanciou
definitivamente o sujeito pensante do objeto pensado. Mais: ele revelou o sujeito pensante como autoevidente.
Quando ele afirma o Cogito, o “penso, logo existo”, ele está dizendo que o pensamento é o que evidencia a nossa
existência, a existência do sujeito pensante.
Pergunta: Como os filósofos posteriores lidaram com as ideias de Descartes?
Dra. Bettina Gerken Brasil: Por sua importância, Descartes recebeu dois tipos de recepção por parte dos filósofos
posteriores: a aprovação ou a crítica. No entanto, uma evidência da sua importância reside justamente nisso:
independentemente da opinião que eles tiveram sobre a sua obra, foi impossível ignorá-la.
Referências do módulo 9
Carta. Tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. 3.
Textuais ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
ABRÃO, B. S. (Org.). História da Filosofia. São Paulo: Nova
Créditos das imagens
Cultural, 1999.
Figura 1: Disponível em: <[Link] [Link]/
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática,
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2002.
[Link] [Link]/sites/_portalebc2014/files/atoms
DESCARTES, R. Meditações; Objeções e respostas; As
_image/4866520465_a99b41569b_z.jpg>. Acesso em: 15
paixões da alma; Cartas. Tradução de J. Guinsburg e Bento
ago. 2017.
Prado Júnior. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
Figura 3: Disponível em: <[Link]
FALCON, F. J. C. Iluminismo. 4. ed. São Paulo: Ática, 2009.
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GRANGER, G-G. Vida e obra. In: DESCARTES, René.
2017.
Meditações; Objeções e respostas; As paixões da alma;
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6. – Pirro afirmava que nada é nobre nem 7. – Nunca nos tornaremos matemáticos, por
vergonhoso, justo ou injusto; e que, da exemplo, embora nossa memória possua
mesma maneira, nada existe do ponto de vista da todas as demonstrações feitas por outros, se nosso
verdade; que os homens agem apenas segundo a lei e o espírito não for capaz de resolver toda espécie de
costume, nada sendo mais isto do que aquilo. Ele levou problemas; não nos tornaríamos filósofos, por ter lido
uma vida de acordo com esta doutrina, nada procurando todos os raciocínios de Platão e Aristóteles, sem poder
evitar e não se desviando do que quer que fosse, formular um juízo sólido sobre o que nos é proposto.
suportando tudo, carroças, por exemplo, precipícios, Assim, de fato, pareceríamos ter aprendido, não ciências,
cães, nada deixando ao arbítrio dos sentidos. mas histórias.
(D. Laércio. Vidas e sentenças dos filósofos ilustres. (R. Descartes. Regras para a orientação do espírito.
Brasilia: Editora UNB, 1988.) São Paulo: Martins Fontes, 1999.)
O ceticismo, conforme sugerido no texto, caracteriza-se Em sua busca pelo saber verdadeiro, o autor considera o
por: conhecimento, de modo crítico, como resultado da
a) Desprezar quaisquer convenções e obrigações da a) investigação de natureza empírica.
sociedade. b) retomada da tradição intelectual.
b) Atingir o verdadeiro prazer como o princípio e o fim da c) imposição de valores ortodoxos.
vida feliz. d) autonomia do sujeito pensante.
c) Defender a indiferença e a impossibilidade de obter e) liberdade do agente moral.
alguma certeza.
d) Aceitar o determinismo e ocupar-se com a esperança
transcendente.
e) Agir de forma virtuosa e sábia a fim de enaltecer o
homem bom e belo.
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substância. Deus é tudo, e tudo é Deus. O sentido do uni- O desejo é paixão. A vontade, decisão. O desejo
verso, ou seja, Deus, é o próprio universo, já que não há nasce da imaginação. A vontade se articula à
nada além dele. Assim, se cada um de nós faz parte do reflexão. O desejo não suporta o tempo, ou seja,
corpo de Deus, ao ferirmos alguém estamos, de fato, desejar é querer a satisfação imediata e o prazer
imediato. A vontade, ao contrário, realiza-se no
ferindo a nós mesmos. Cada um de nós, dessa forma, é
tempo; o esforço e a ponderação trabalham com
responsável pela felicidade de todos (STRATHERN, 2000).
a relação entre meios e fins e aceitam a demora
da satisfação. Mas é o desejo que oferece à
vontade os motivos interiores e os fins exteriores
da ação. [...] Consciência, desejo e vontade
formam o campo da vida ética: consciência e
desejo referem-se às nossas intenções e moti-
vações; a vontade, às nossas ações e finalidades.
As primeiras dizem respeito à qualidade da atitude
interior ou dos sentimentos internos ao sujeito
moral; as últimas, à qualidade da atitude externa,
das condutas e dos comportamentos do sujeito
moral (CHAUÍ, 2002, p. 352).
Figura 1. Para Espinosa, não há Deus e o mundo que ele criou, mas
apenas Deus, que é também o mundo por Ele criado.
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Saiba mais
Sugerimos que você assista Espinosa: o apóstolo da razão (dir. Christopher Spencer, 1994, 52 minutos). O filme,
disponível na internet, encena a luta de Espinosa contra as superstições e o conflito entre o filósofo e as autoridades
judaicas de Amsterdã. Ainda, aborda as divergências entre católicos e protestantes e entre republicanos e
monarquistas, bem como as repercussões provocadas pela Restauração da monarquia inglesa após a morte de
Cromwell e as agressões entre Holanda e França. A respeito desse cenário, o filme também narra o assassinato dos
irmãos De Witt. Filhos de uma importante família holandesa, os De Witt foram tutores de Guilherme III, Príncipe de
Orange. Guilherme III invadiu a Inglaterra, depondo o rei católico Jaime II, durante a chamada Revolução Gloriosa, que
marcou o fim do absolutismo inglês e o crescente poder do parlamento. A reação anglo-francesa não demorou e
Guilherme III foi obrigado a recuar. Desejoso de se eximir de qualquer responsabilidade pela guerra que havia
provocado, Guilherme III atribuiu aos irmãos De Witt a iniciativa das agressões. Quando as tropas francesas ocuparam
os países baixos, os dois irmãos foram assassinados pela multidão enfurecida, de forma extremamente brutal.
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1.2. O Empirismo de Locke e Hume pedaço de ferro) no calor do fogo, não só ele se
derreterá, mas também passará a ocupar um
O empirismo foi uma resposta oferecida pela filosofia
espaço muito maior no interior do recipiente. A
ao problema da origem da nossa capacidade de raciocínio
experiência também repete constantemente para
e de intuição. De forma contrária ao inatismo – que
mim a possibilidade que tenho de retirar um
defende a ideia de que nascemos com inteligência e com objeto preso dentro de um outro, se eu aquecer
capacidade para raciocinar – o empirismo argumenta que este último, pois, aquecido, ele solta o que estava
nossas ideias e nossa competência para raciocinar são preso no seu interior, parecendo alargar-se e
adquiridas e desenvolvidas por meio da experiência. aumentar de tamanho. Experiências desse tipo, à
Antes da experiência, dizem eles, nossa razão é medida que vão se repetindo sempre da mesma
como uma “folha em branco”, onde nada foi maneira, vão criando em mim o hábito de associar
escrito; uma “tábula rasa”, onde nada foi grava- o calor com certos fatos. Adquiro o hábito de
do. Somos como uma cera sem forma e sem nada perceber o calor e, em seguida, um fato igual ou
impresso nela, até que a experiência venha semelhante a outros que já percebi inúmeras
escrever na folha, gravar na tábula, dar forma à vezes. E isso me leva a dizer: “O calor é a causa
cera (CHAUÍ, 2002, p. 71). desses fatos”. Como os fatos são de aumento do
volume ou da dimensão dos corpos submetidos
Para os empiristas, nossa primeira fonte de ao calor, acabo concluindo: “O calor é a causa da
conhecimento é a experiência dos sentidos. Aquilo que é dilatação dos corpos” e também “A dilatação dos
percebido pelos sentidos (cores, sons, sabores, odores corpos é o efeito do calor” (CHAUÍ, 2002, p. 72).
etc.) forma uma percepção. A combinação ou associação
entre percepções formam, por sua vez, as ideias. Por A aceitação dos pressupostos empiristas nos conduz
semelhança, proximidade, contiguidade ou repetição, a um problema difícil de resolver: se nosso pensamento
criamos o hábito de associar determinadas percepções, resulta do hábito psicológico de associar ideias, a ciência
construindo, assim, ideias. "As ideias, trazidas pela – fruto do nosso pensamento – carece de objetividade.
experiência, isto é, pela sensação, pela percepção e pelo Afinal, a objetividade defende que as verdades cons-
hábito, são levadas à memória e, de lá, a razão as apanha truídas para explicar a realidade não sofram qualquer
para formar os pensamentos" (CHAUÍ, 2002, p. 72). contaminação por parte dos nossos costumes, nossos
preconceitos, nossos vieses. No entanto, são justamente
os nossos costumes e os nossos hábitos que nos
auxiliam na tarefa de encontrar explicações plausíveis
para o que nos cerca.
Em referência ao raciocínio anterior, poderíamos
perguntar: e se um dia, ao invés de ferver e aumentar de
volume, a água colocada ao fogo transformar-se em gelo?
Alguém poderia lembrar da impossibilidade de isso
acontecer, mas a pergunta permaneceria, ainda, sem
resposta. Acreditamos que a água ferverá e aumentará
de tamanho porque isso sempre ocorreu. Mas o fato de
um fenômeno ter se repetido até então não garante que
Figura 3. As percepções formam-se por meio da experiência dos ele sempre ocorrerá da mesma forma. Portanto, o fato de
sentidos. a ciência apoiar-se, em grande parte, naquilo que
construímos por meio de hábitos psicológicos torna-a
Uma das formas de construirmos hábitos racionais é vulnerável e suscetível a críticas.
por meio da construção de relações causais. Procuramos Entre os séculos XVI e XVIII, dois filósofos ingleses se
saber o que causa ou explica determinado fenômeno; notabilizaram por defender as teses empiristas: John
precisamos saber o que ocorre, caso nos deparemos com Locke e David Hume.
determinada coisa:
A experiência me mostra, todos os dias, que, se 1.2.1. John Locke (1632-1704)
eu puser um líquido num recipiente e levar ao
Locke é um dos mais ilustres críticos ao inatismo e ao
fogo, esse líquido ferverá, saindo do recipiente
sob a forma de vapor. Se o recipiente estiver total-
racionalismo; apesar de a sua formação em Oxford ter
mente fechado e eu o destampar, receberei um privilegiado o estudo dos clássicos, da lógica, da metafí-
bafo de vapor, como se o recipiente tivesse ficado sica e da matemática, Locke interessou-se por experiên-
pequeno para conter o líquido. A experiência cias químicas e medicina (aliás, chegou a praticar a
também me mostra, todo o tempo, que se eu medicina por diversas vezes, quase sempre chegando a
puser um objeto sólido (um pedaço de vela, um diagnósticos e prognósticos corretos).
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1.2.2. David Hume (1711-1776) a) por meio das impressões, guardaríamos os dados
David Hume, escocês e jurista, é um dos nomes mais obtidos a partir dos nossos sentidos; exemplos dessa
importantes da Escola Empirista. Extremamente cético, experiência seriam o perfume de uma flor ou a sensação
ele afirmava que apenas a experiência poderia ser fonte do calor em nossa pele; assim, as impressões aparecem
do conhecimento; assim, negava não apenas a metafísica na mente quando desejamos, odiamos, queremos,
filosófica, mas também aquilo que se articulava por meio amamos;
da dedução. Em outras palavras, Hume criticava os extre- b) por meio das ideias, guardaríamos a lembrança de
mos que delimitavam o campo da investigação filosófica: determinada experiência, a partir de então representada
por um lado, fazia objeções à teoria abstrata que não na nossa mente: a lembrança de uma ventania inesperada
aderia à realidade; por outro, questionava o espírito prático ou de um agradável dia na praia. As ideias, por sua vez,
que não fazia uso da teoria para organizar aquilo que era são cópias fracas e desbotadas das impressões.
observado cotidianamente. Por isso, para ele, Hume faz a pergunta: como é que as ideias são
tudo quanto temos no nosso conhecimento é associadas pela mente? Como se dá, afinal, o processo
representação da realidade, não a realidade mes- que, da experiência, chega às relações de causa e efeito
ma. Portanto, o estudo que deve ser empreendido que dão base ao nosso raciocínio? Por exemplo:
pela filosofia não é o da coisa em si, mas o da estabelecemos associação entre fogo e calor; no entanto,
nossa faculdade cognitiva, no ato de construir as o estabelecimento de uma relação causal entre essas
representações a partir de instâncias a priori duas coisas não é imediato, já que não há nada que, a
(RODRÍGUEZ, s/d., p. 8), princípio, explique a relação entre elas. Para Hume,
dos hábitos que nos auxiliam no ato de associar ideias. a relação de causalidade é uma crença, baseada
no hábito, que se expressa por meio de palavras
como ‘portanto’, ‘logo’, ‘porque’.
Observação: Crença, mas não ficção: ambas se produzem pela
A priori (em latim, anterior) é o conhecimento que não imaginação, e, no entanto, as ideias em que se
depende da experiência. O raciocínio matemático é um acredita são mais vivas e fortes do que as de
bom exemplo de conhecimento a priori. Caso eu ficção. A crença é ainda mais viva quando apoiada
queira somar dois e dois, não se faz necessário que eu na experiência repetida de fatos semelhantes que,
junte duas maçãs a outras duas maçãs; a soma é pelo hábito, produz a sensação de que os fatos
naturais ocorram com regularidade. Isso também
calculada por meio do pensamento, sem que seja
permite que se acredite na repetição dos mesmos
necessária qualquer experiência. Em contrapartida, a
fatos em experiências futuras. O caráter necessá-
posteriori (em latim, posterior) é o conhecimento que rio e universal das leis da natureza baseia-se nessa
advém da experiência; assim, quando afirmo ser o mel crença da regularidade da natureza (ABRÃO, 1999,
um alimento doce, faço-o tendo como referência a p. 260).
experiência.
Observação:
O ceticismo de Hume o levou a aproximar-se do
solipsismo, perspectiva que parte do princípio de que Para Hume, a associação entre ideias pode ocorrer de
apenas o ente observador existe, sendo o restante (o três formas distintas:
mundo, a realidade) apenas parte da consciência. a) por semelhança: ao vermos um retrato,
Nem o mundo da religião nem o mundo da ciência pensamos na pessoa;
está certo. Podemos optar por acreditar na religião, b) por contiguidade: amarelo e ouro estão
se quisermos, mas não o fazemos com base em próximos e, por isso, associamos as duas ideias;
qualquer evidência exata. E podemos escolher c) por causalidade: associamos ferimento e dor,
fazer deduções científicas, a fim de impor nossa porque supomos a existência de uma relação causal
própria vontade sobre o mundo. Mas nem a entre os dois.
religião nem a ciência existem em si mesmas.
Ainda, temos dois tipos de associações de ideias: as
Ambas são meras reações nossas à experiência,
primeiras são as matemáticas, demonstráveis por
uma de muitas reações possíveis (STRATHERN,
1997a, p. 7).
meio da operação do pensamento; as segundas são
as associações de ideias por causalidade, que têm a
A experiência, única base segura para a construção experiência como fundamento.
do conhecimento, teria como fundamento nossa percep-
ção e se materializaria de duas formas distintas:
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Figura 4. Hume indaga: Para Hume, “os homens associam ideias e acreditam
como sabemos que o fogo nessa associação por força do hábito, ou costume. E este
é causa do calor? Ele não é a repetição de experiências semelhantes por parte
responde: pela experiência. de um único indivíduo, mas de muitos” (ABRÃO, 1999, p.
No entanto, não há nada na 260). Acreditamos que o sol nascerá amanhã, como
experiência que possa nos sempre nasceu, pois acreditamos nisso; em outras
revelar que “se fogo, então palavras, nossa certeza tem como origem a crença. O
calor”. A experiência ape- conhecimento, por sua vez, resulta da associação de
nas nos permite concluir ideias, que é traduzida na conexão de várias impressões
que há fogo e calor. A por meio de suas cópias; dessa associação surgem ideias
relação de causalidade é, complexas.
assim, uma crença. Acredi- Esse raciocínio tem como ponto de chegada um
tamos na relação causal inevitável ceticismo: de fato, todo o conhecimento
fogo e calor porque os científico que se constrói a partir da razão e da
costumes nos mostraram demonstração – responsáveis pela nossa elaboração de
que há causalidade entre explicações causais – tem bases não racionais, tais como
essas duas coisas. a crença e o hábito.
1. – Todo o poder criativo da mente se reduz a nada mais do que a faculdade de compor, transpor, aumentar
ou diminuir os materiais que nos fornecem os sentidos e a experiência. Quando pensamos em uma
montanha de ouro, não fazemos mais do que juntar duas ideias consistentes, ouro e montanha, que já conhecíamos.
Podemos conceber um cavalo virtuoso, porque somos capazes de conceber a virtude a partir de nossos próprios
sentimentos, e podemos unir a isso a figura e a forma de um cavalo, animal que nos é familiar.
(D. Hume. Investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: Abril Cultural, 1995.)
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Experimentei algumas vezes que os sentidos eram O empirismo, corrente filosófica da qual Locke fazia parte,
enganosos, e é de prudência nunca se fiar inteiramente a) afirma que o conhecimento não é inato, pois sua
em quem já nos enganou uma vez. aquisição deriva da experiência.
(R. Descartes. Meditações metafísicas. b) é uma forma de ceticismo, pois nega que os
São Paulo: Abril Cultural, 1979.) conhecimentos possam ser obtidos.
c) aproxima-se do modelo científico cartesiano, ao negar
Texto II a existência de ideias inatas.
Sempre que alimentarmos alguma suspeita de que uma d) defende que as ideias estão presentes na razão desde
ideia esteja sendo empregada sem nenhum significado, o nascimento.
precisaremos apenas indagar: de que impressão deriva
esta suposta ideia? E se for impossível atribuir-lhe
qualquer impressão sensorial, isso servirá para confirmar
nossa suspeita.
(D. Hume. Uma investigação sobre o entendimento.
São Paulo: UNESP, 2004. Adaptado.)
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mais tempo nesse mesmo plano. Parece quase Desde os ensaios de Locke e de Leibniz, ou antes,
ridículo que, enquanto todas as outras ciências desde a origem da metafísica, tanto quanto
progridem continuamente, ela ande constante- alcança a sua história, nenhuma ocorrência teve
mente às voltas no mesmo lugar, sem avançar um lugar que pudesse ser mais decisiva, a respeito do
passo, ela que quer ser a própria sabedoria e cujos destino desta ciência, do que o ataque que David
oráculos todos os homens consultam. Também os Hume lhe fez. Ele não trouxe qualquer luz a este
seus adeptos se dispersaram muito e não se vê tipo de conhecimento, fez, porém, brotar uma
que aqueles que se sentem suficientemente centelha com a qual se poderia ter acendido uma
fortes para brilhar noutras ciências queiram luz, se ela tivesse alcançado uma mecha
arriscar nesta a sua fama, onde toda a gente, que, inflamável, cujo brilho teria sido cuidadosamente
aliás, é ignorante em todas as outras coisas, se alimentado e aumentado. Hume partiu
atribui um juízo decisivo porque, neste campo, não essencialmente de um único, mas importante
existe na realidade uma medida e um peso conceito de metafísica, a saber, a conexão de
seguros para distinguir a profundidade da causa e efeito (portanto, também os seus
loquacidade trivial. Mas, nem sequer é inaudito conceitos consecutivos de força e ação, etc.), e
que, após a longa elaboração de uma ciência, intimou a razão, que pretende tê-lo gerado no seu
quando se olha maravilhado o progresso já feito, seio, a explicar-lhe com que direito ela pensa que
finalmente a alguém ocorra a ideia de se uma coisa pode ser de tal modo constituída que,
interrogar: se, e de que maneira, é possível uma uma vez posta, se segue necessariamente que
tal ciência. Pois, a razão humana sente tanto uma outra também deva ser posta; pois, é isso o
prazer em construir que já, por diversas vezes, que diz o conceito de causa. Ele provou de modo
edificou e, em seguida, demoliu a torre para irrefutável que é absolutamente impossível à razão
examinar a natureza do seu fundamento. Nunca é pensar a priori e a partir dos conceitos uma tal
demasiado tarde para se tornar racional e sábio; relação, porque esta encerra uma necessidade;
mas, é sempre mais difícil pôr em movimento o mas, não é possível conceber como é que, porque
discernimento, se ele chega tarde. Perguntar se algo existe, também uma outra coisa deva existir
uma ciência é possível supõe que se duvida da necessariamente, e como é que a priori se pode
realidade da mesma. Mas, uma tal dúvida ofende introduzir o conceito de uma tal conexão. Daí
todos aqueles cujos haveres consistem talvez concluía ele que a razão se iludia inteiramente com
neste pretenso tesouro; e, por conseguinte, este conceito, considerando-o falsamente como
aquele que se deixa cair nesta dúvida será sempre seu próprio filho, quando nada mais é do que um
objeto de resistência por todos os lados. Alguns, bastardo da imaginação, a qual, fecundada pela
com a consciência orgulhosa da sua posse antiga, experiência, colocou certas representações sob a
considerada legítima precisamente por isso, olhá- lei da associação, fazendo passar uma
lo-ão com desprezo, com os seus compêndios de necessidade subjetiva daí derivada, isto é, um
metafísica na mão; outros, que não se apercebem hábito, por uma necessidade objetiva fundada no
senão do que se identifica com o que já viram em conhecimento. Daí tirava a conclusão: a razão não
algum lado, não o compreenderão e, durante tinha a capacidade de pensar tais conexões,
algum tempo, tudo permanecerá como se nada mesmo só em geral, porque então os seus
tivesse ocorrido que permita recear ou esperar conceitos seriam simples ficções e todos os seus
uma transformação próxima. No entanto, atrevo- conhecimentos pretensamente a priori não eram
me a predizer que o leitor destes Prolegômenos, senão experiências comuns falsamente estampi-
capaz de pensamento pessoal, não só duvidará da lhadas, o que equivale a dizer que não há, nem
ciência que possuía até agora, mas de todo se pode haver metafísica (KANT, 1973, p. 12/14).
convencerá subsequentemente de que
semelhante ciência não poderá existir sem que se Esse novo campo de saber passou a ser conhecido
cumpram as condições aqui expressas, das quais como transcendental, tendo como objeto de estudo o
depende a sua possibilidade; e, visto que isso próprio sujeito de conhecimento, sem quaisquer outros
nunca se fez, não temos ainda nenhuma
acréscimos, na sua forma mais pura.
metafísica. Como, porém, a busca dela não
O que é posterior (a posteriori) ao sujeito é
desaparecerá, porque o interesse da razão
experiência sensível (ou empírica), e, por isso, a
universal está nela implicado demasiado
investigação transcendental deve examinar o
intimamente, ele reconhecerá que uma reforma
sujeito puro, a priori, isto é, anterior a toda e
completa, ou antes, um novo nascimento da
qualquer experiência. Tal exame é indispensável
metafísica, segundo um plano inteiramente
para verificar se o sujeito puro, por si só, é capaz
desconhecido até agora, se produzirá inevitavel-
do conhecimento a priori, independentemente da
mente, apesar das resistências que, durante
experiência (ABRÃO, 1999, p. 308).
algum tempo, se lhe poderão opor.
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Nosso conhecimento – e que independe da expe- Na dúvida a respeito do conteúdo moral de uma ação,
riência, segundo Kant – está organizado a partir de doze a pergunta seria: como seria caso todos agissem dessa
“categorias”, que incluiriam coisas, como qualidade, forma? A medida da moralidade ou do conteúdo ético de
quantidade e relação. Essas categorias funcionariam uma ação, dessa maneira, seria o resultado possível caso
como lentes, através das quais perceberíamos o mundo. todos agissem daquela forma (STRATHERN, 1997).
Como, afinal, perceber a realidade se não por meio de Segundo Strathern (1997), de forma curiosa, Kant aca-
categorias mentais associadas à qualidade, à quantidade bou por defender a ideia de que não deveríamos mentir,
etc.? O filósofo complementaria: dentre as categorias mesmo que a verdade resultasse em consequências
mentais utilizadas pelo homem, eram fundamentais as indesejadas. No entanto, nem sempre ele mesmo seguiu
noções de espaço e tempo (STRATHERN, 1997). o que preconizava. Por exemplo, quando Frederico II
Kant, porém, fazia uma ressalva: essas lentes permi- subiu ao poder, Kant viu-se acusado de distorcer a Bíblia
tiriam apenas enxergar a superfície da realidade, sendo pelo Ministério da Educação. Embora pudesse defender-
limitado nosso acesso aos númenos (as coisas do real, se, Kant preferiu prometer que jamais escreveria qualquer
apreendidas independentemente da nossa perspectiva coisa que tivesse cunho religioso. Kant mentiu: assim que
subjetiva, ou seja, as coisas em si). o monarca faleceu, o filósofo retomou seu trabalho, indi-
Kant denominou de “razão pura” a razão a priori, ferente a qualquer crítica e ignorando a promessa
aquilo que saberíamos de forma anterior à nossa expe- anteriormente feita.
riência. Esta razão a priori transcenderia a experiência, daí
o argumento de que o filósofo teria resgatado a meta-
física. Mas, haveria como conhecermos o mundo na sua
totalidade? Kant diria que não: o númeno explicativo do
fenômeno permanecia sempre incognoscível, impossível
de ser conhecido (STRATHERN, 1997).
Figura 2.
Figura 1. Segundo Kant, as categorias mentais de tempo e espaço são Segundo o
aplicadas à experiência. Assim, tudo o que surge em nossa mente é imperativo
uma representação que fazemos a partir dessas categorias mentais. categórico
de Kant, as
pessoas
Para Kant, nosso conhecimento alcançava apenas os deveriam agir
fenômenos, jamais alcançando as coisas em si. O nú- conforme
meno, portanto, demarcava o limite do que poderíamos preceitos
conhecer, mesmo porque o nosso conhecimento estava éticos que
gostariam
restrito ao que as categorias mentais de espaço e tempo
que fossem
eram capazes de perceber. seguidos
Se em Crítica da razão pura Kant apresentou sua por todos.
metafísica, em Crítica da razão prática o filósofo discutiu
questões éticas e morais. O que o interessava era uma lei Para Kant, o conhecimento tinha início com a expe-
moral básica, os alicerces da moralidade, ou seja, as riência, mas não se originava dela. Antes de qualquer
categorias e de princípios que poderiam servir de base coisa, o sujeito deveria ser capaz de tornar possíveis a
para a moral (STRATHERN, 1997). experiência e o conhecimento. A experiência, por si só,
Assim, Kant elaborou o seu imperativo categórico: não garantia o conhecimento, já que o sujeito deveria ter
agir somente conforme um princípio que fosse desejável as qualidades necessárias para que a experiência fosse
tornar-se uma lei universal. Em outras palavras, as pes- possível e, a partir dela, para que o conhecimento fosse
soas deveriam agir conforme preceitos éticos que possível também.
gostariam que fossem seguidos por todos.
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Saiba mais
Sugerimos que você pense a respeito da ética kantiana a partir das narrativas de três filmes.
Em Feitiço do tempo (dir. Harold Ramis, 101 minutos, Estados Unidos, Columbia Pictures, 1993), por exemplo,
entramos em contato com a história de Phil, um repórter egoísta e autocentrado, que viaja para uma cidadezinha
para cobrir um evento que ele considera totalmente desimportante. Depois de passar a noite na cidade, ao acordar,
Phil descobre que o tempo não passou; o dia anterior se repete, exatamente da mesma forma como já acontecera.
Em outras palavras, Phil descobre que o tempo não avança mais, e que ele está condenado a repetir o mesmo dia
para sempre. A princípio, Phil resolve transgredir todas as regras: afinal, como não havia futuro, ele jamais poderia
ser punido por qualquer ação ilícita ou ilegal. Ao se dar conta de que não poderia continuar vivendo daquele jeito, Phil
então decide fazer algo em prol dos outros. Ele descobre ser capaz de sentir empatia pelos outros e que pode agir
de forma altruísta.
Em O informante (dir. Michael Mann, Estados Unidos, 157 minutos, Disney/Buena Vista, 1999), Jeffrey Wigand
é um cientista que é demitido de uma empresa do ramo de tabaco, lugar no qual trabalhou muitos anos. Um jornalista
propõe que ele conte a todos que a empresa sabia dos efeitos maléficos do produto que fabricavam. A indecisão de
Jeffrey resulta de um conflito interior muito grande: o que ele deve fazer? Deve desrespeitar o contrato de
confidencialidade que havia assinado? Deve colocar sua família em primeiro lugar, protegendo-a em detrimento do
bem-estar de todos? Deve revelar tudo o que sabe, em prol da comunidade? Jeffrey resolve denunciar a empresa e,
numa entrevista, revela todos os segredos. No entanto, a emissora responsável pelo programa jornalístico que o
havia entrevistado retrocede na última hora. Como denunciar uma empresa que é um dos maiores anunciantes
publicitários? Dessa forma, a narrativa transpassa inúmeros dilemas morais.
Em O leitor (dir. Stephen Daldry, Estados Unidos, The Weinstein Company, 124 minutos, 2008), no contexto da
Alemanha do pós-guerra, Michael Berg, um jovem de 15 anos, tem um caso amoroso com Hanna, uma mulher que
conhece acidentalmente. Para Hanna, Michael sempre lia algum romance, o que explica o título do filme. Hanna
desaparece e Michael só irá reencontrá-la muitos anos depois quando, em um julgamento de ex-oficiais da SS (a
polícia política de Hitler), ele a vê como uma das acusadas pela morte de prisioneiras judias. A prova que irá condená-
la é uma carta que, supostamente, ela teria escrito. Michael sabe, no entanto, que Hanna jamais poderia ter escrito
a carta, já que é analfabeta. O que o impede de defendê-la? Mesmo não sendo responsável pela morte das
prisioneiras, Hanna trabalhara nos campos de concentração e se calara. Embora não fosse diretamente responsável
pela morte das prisioneiras, ela havia sido cúmplice do terrível holocausto que vitimara os judeus. Aliás, como alguém
como ela poderia ter ajudado e amado um garoto desconhecido? Hanna não corresponde ao estereótipo do nazista
sádico. Ela é apenas uma mulher que se viu no meio de acontecimentos que não conseguia compreender. Não há
em Hanna qualquer noção do que seja certo ou errado: ela apenas acompanha os acontecimentos e os outros, sem
qualquer julgamento autônomo próprio.
Como o conhecimento, então, tornava-se possível? tempo. Em resumo: só podemos entender um objeto
Inicialmente, nossa sensibilidade perceberia os objetos externo a nós se conseguirmos inseri-lo em alguma
por meio da intuição. Em outras palavras: as sensações dimensão espacial e em alguma forma temporal. Tempo
causadas pelos objetos (ou seja, o conteúdo da expe- e espaço são, assim, noções intuitivas que antecedem a
riência) passariam a fazer parte do cognoscível (do que é nossa percepção de objetos. Tempo e espaço são atribu-
possível conhecer) em função de, anteriormente, serem tos do sujeito e tornam possível a experiência; só pode-
intuídas em termos de espaço e tempo. Essa intuição mos entender o que as sensações nos trazem, pois
seria anterior a qualquer representação mental de um somos capazes de organizar esses dados espacial e tem-
objeto. Para a representação mental de um objeto, seria poralmente, sendo essas noções anteriores a qualquer
necessário, a priori, a intuição em termos de espaço e experiência.
tempo. Na sequência, após as sensações terem sido repre-
Vejamos isso de forma mais simplificada: consegui- sentadas mentalmente, esses objetos são pensados sob
mos entender um espaço sem uma árvore que, anterior- a forma de conceitos e, a respeito dos conceitos, Kant
mente, lá existia. No entanto, não conseguimos buscou analisar aqueles puros a priori do conhecimento.
apreender uma árvore sem um espaço que a contenha. Os objetos só se tornam passíveis de conhecimento
Da mesma forma, podemos entender um tempo no qual quando eles surgem para o sujeito do conhecimento. Em
o objeto não exista, mas não conseguimos apreender a outras palavras, não se busca conhecer aquilo que não
ideia de um objeto sem que ele esteja inserido em um existe ou aquilo que não pode ser pensado. Esses objetos
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são identificados em função de noções intuitivas de precisamos de qualquer experiência para calcularmos o
tempo e espaço. O sujeito do conhecimento reúne todas valor da soma entre “4” e “5”. Assim, o “9” é uma ideia
essas intuições (e que operam sobre o resultado da independente da experiência, e é esse o tipo de
experiência sensível) sob a forma de conceitos. conhecimento que Kant almejava.
São quatro as categorias de conceitos: os conceitos
referentes à quantidade, os conceitos referentes à 1.1.1. A estética kantiana
qualidade, os conceitos referentes à relação (incluídas aí O Iluminismo alemão também se dedicou ao estudo
as associações por meio da causalidade) e os conceitos da estética, ou seja, o estudo do que é belo nas artes.
referentes à modalidade (que incluem os conceitos
Para os filósofos estudiosos da estética, o padrão corres-
relativos à possibilidade, à existência e à necessidade).
pondia às obras da Antiguidade clássica, e a investigação
São essas as categorias a partir das quais os objetos
da beleza (embora fruto do conhecimento sensível) era
serão pensados.
percebida como uma atividade e uma demonstração
Para Kant, portanto, a causalidade (algo que causa um
lógica.
efeito) está no sujeito que, a priori, possui a categoria de
A arte capta a unidade perfeita – a beleza – de
causalidade que o permite acomodar aquilo que as sen-
um objeto; é, por isso, o conhecimento vivo
sações trouxeram ao seu conhecimento. Assim, Kant faz dessas coisas singulares e únicas, que constituem
uma síntese entre o papel da razão e o papel da expe- o mundo vivo que se dá aos sentidos (ABRÃO,
riência para o conhecimento: sem a experiência, os 1999, p. 300).
objetos não surgem, mas sem a razão eles não podem
ser pensados. Por isso, a estética buscou nas obras gregas o seu
Àquele momento, a cultura alemã ainda era um padrão para estudo: os corpos eram embelezados pelo
projeto que aguardava pela sua realização. Em especial, exercício físico, o ambiente era de liberdade e de demo-
era necessária a promoção de uma língua nacional, cracia, e as virtudes eram valorizadas. A decadência desse
instrumento para propagar outras ideias e de gerar a união padrão estético explicava, por sua vez, o rococó e as figu-
nacional tão necessária para a formação de um Estado. ras humanas contorcidas dos períodos artísticos pos-
Não à toa, a filosofia do período teve as relações entre teriores, e a filosofia alemã pregou o retorno ao modelo
linguagem e conhecimento como um dos seus principais clássico como uma forma de recomeço e resgate da
focos. Os estudos filosóficos buscaram o estudo das cultura.
proposições necessárias para a lógica, indispensável para
o conhecimento teórico puro e preferível ao empírico, já
que os dados obtidos pela experiência eram apenas
prováveis.
A partir deste contexto, Kant investigou algumas
questões relacionadas ao raciocínio lógico. Assim, o
filósofo distinguiu entre juízos analíticos, aqueles que
faziam referência a proposições lógicas e que inde-
pendiam de qualquer experiência, e os juízos sintéticos,
que ampliavam o conhecimento por meio da constatação
das contribuições que a experiência sensível trazia.
Um juízo analítico seria a igualdade de A com A: “A é
A; A não é não-A”. Em contrapartida, um juízo sintético
referia-se a algo particular, cujo conhecimento não poderia
prescindir da experiência sensível: “a folha é verde”.
Afinal, não havia nada nas folhas que permitisse concluir
algo a respeito de sua cor; apenas em relação a uma única Figura 3. Para Kant, a arte existe por causa do artista,
aquele que reconhece no mundo beleza e finalidade.
folha poderíamos afirmar algo a respeito de sua cor.
Assim, Kant buscou identificar juízos analíticos, indepen-
A terceira obra, a Crítica do juízo, Kant investigou
dentes da experiência, mas que também fossem
questões associadas à teologia e à estética. Para o
possíveis de funcionar de forma universal.
filósofo, as estrelas eram evidências da obra de Deus, da
Vejamos um exemplo: “4 + 5 = 9”. Essa operação
mesma forma como os sentimentos altruístas provavam
não pode ser realizada de forma analítica, já que o “9”
a existência do Bem.
não está contido na expressão. Não há nada na decom-
Como havia feito anteriormente, Kant buscou
posição da expressão matemática que nos leve, auto-
estabelecer um princípio a priori que explicasse nossa
maticamente, ao valor “9”. No entanto, esse valor
apreensão do que é belo. Embora a percepção da beleza
também não é resultado da experiência sensível; não
fosse algo subjetivo, e justamente por ser subjetivo, Kant
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resolveu esse conflito da seguinte forma: gostar ou não A arte liberta-se da natureza, criando uma outra
de determinada obra não tem qualquer relação com o realidade por meio da expressão livre da fantasia. Essa
conhecimento. O prazer ou o desprazer que sentimos expressão iguala os seres humanos a Deus. A arte não é
diante de um quadro ou uma estátua não são frutos da apenas imitativa ou reprodutiva.
cognição, mas são juízos de valor, frutos da nossa ex- A obra de arte busca caminhos de acesso ao real
periência de contemplação ou reflexão. Sequer discute-se e de expressão da verdade. Em outras palavras,
a respeito da existência do objeto fruto da representação; as artes não pretendem imitar a realidade, nem
apenas importam as relações de prazer ou desprazer que pretendem ser ilusões sobre a realidade, mas
exprimir por meios artísticos a própria realidade
experimentamos em relação ao objeto. Assim, essas
(CHAUÍ, 2002, p. 318).
experiências – que estão fundamentadas na intuição ou
nos sentimentos – são distintas das experiências
Assim, Kant defende a ideia de que a função da arte
cognitivas, relacionadas ao conhecimento intelectual, e
é a produção do sublime e do arrebatamento do nosso
das experiências práticas, das quais derivam os fins
espírito em direção ao infinito (CHAUÍ, 2002).
morais e os preceitos éticos (STRATHERN, 1997).
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2. – Até hoje admitia-se que nosso conhe- 3. – Uma pessoa vê-se forçada pela necessi-
cimento se devia regular pelos objetos; dade a pedir dinheiro emprestado. Sabe
porém, todas as tentativas para descobrir, mediante muito bem que não poderá pagar, mas vê também que
conceitos, algo que ampliasse nosso conhecimento não lhe emprestarão nada se não prometer firmemente
malogravam-se com esse pressuposto. Tentemos, pois, pagar em prazo determinado. Sente a tentação de fazer a
uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as promessa; mas tem ainda consciência bastante para
tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se perguntar a si mesma: não é proibido e contrário ao dever
deveriam regular pelo nosso conhecimento. livrar-se de apuros desta maneira? Admitindo que se
(I. Kant. Crítica da razão pura. Lisboa: decida a fazê-lo, a sua máxima de ação seria: quando julgo
Calouste-Guibenkian, 1994. Adaptado.) estar em apuros de dinheiro, vou pedi-lo emprestado e
prometo pagá-lo, embora saiba que tal nunca sucederá.
O trecho em questão é uma referência ao que ficou (l. Kant. Fundamentação da metafísica dos costumes.
conhecido como revolução copernicana da filosofia. Nele, São Paulo. Abril Cultural, 1980.)
confrontam-se duas posições filosóficas que
a) assumem pontos de vista opostos acerca da natureza De acordo com a moral kantiana, a “falsa promessa de
do conhecimento. pagamento” representada no texto
b) defendem que o conhecimento é impossível, restando- a) assegura que a ação seja aceita por todos a partir livre
nos somente o ceticismo. discussão participativa.
c) revelam a relação de interdependência entre os dados b) garante que os efeitos das ações não destruam a
da experiência e a reflexão filosófica. possibilidade da vida futura na terra.
d) apostam, no que diz respeito às tarefas da filosofia, na c) opõe-se ao princípio de que toda ação do homem
primazia das ideias em relação aos objetos. possa valer como norma universal.
e) refutam se mutuamente quanto à natureza do nosso d) materializa-se no entendimento de que os fins da ação
conhecimento e são ambas recusadas por Kant. humana podem justificar os meios.
e) permite que a ação individual produza a mais ampla
felicidade para as pessoas envolvidas.
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Neste módulo, estudaremos as ideias de Rousseau e mesmo quando esclarecida, só faziam criar obstáculos e
de Montesquieu no contexto do Iluminismo e da Revo- restrições ao crescimento econômico (ARCOS, 2018), era
lução Científica do século XVIII. Ao final, você encontrará necessário refletir a respeito da vida civil, das suas
exercícios e algumas referências bibliográficas. Também condições e limitações. Também era fundamental inves-
indicamos alguns filmes cujas narrativas abordam os tigar o papel da educação na formação de um indivíduo
elementos aqui discutidos. que opinaria e decidiria sobre seu destino, de forma livre
e autônoma. Na discussão sobre esses temas, dois
1. Introdução filósofos destacaram-se: Montesquieu e Rousseau.
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isolamento das florestas, satisfaz as necessidades A civilização é vista por Rousseau como respon-
de alimentação e sexo sem maiores dificuldades, sável pela degeneração das exigências morais
e não é atingido pela angústia diante da doença e mais profundas da natureza humana e sua subs-
da morte. As necessidades impostas pelo tituição pela cultura intelectual. A uniformidade
sentimento de autopreservação – presente em artificial de comportamento, imposta pela socie-
todos os momentos da vida primitiva e que impele dade às pessoas, leva-as a ignorar os deveres
o homem selvagem a ações agressivas – são humanos e as necessidades naturais. Assim como
contrabalançadas pelo inato sentimento de a polidez e as demais regras de etiqueta podem
piedade que o impede de fazer mal aos outros esconder o mais vil e impiedoso egoísmo, as
desnecessariamente (ARBOUSSE-BASTIDE e ciências e as artes, com todo o seu brilho exterior,
MACHADO, 1983, p. XIII). frequentemente seriam somente máscaras da
vaidade e do orgulho (ARBOUSSE-BASTIDE e
MACHADO, 1983, p. XIII).
eismannhans
Saiba mais
A admiração pelo homem primitivo, dotado de qualidades inexistentes no mundo social contaminado pela
modernidade, pelas ambições e pelas aparências, ainda se mantém viva nos dias de hoje. Em Avatar, por exemplo,
o diretor James Cameron construiu um mundo fictício, Pandora, onde nativos Na'vi e seres híbridos humanos (criados
com recursos da engenharia genética) buscam defender o planeta e seus recursos naturais dos abusos e da
exploração irracional promovida pela RDA, uma corporação que trabalha com a extração de um minério muito raro e
difícil de ser encontrado. A relação simbiótica entre os nativos e a natureza é simbolizada pela Árvore-lar, ameaçada
de destruição pelos mercenários contratados pela RDA, e pela Árvore das Almas, que abriga toda a herança cultural
dos Na'vi. Os nativos estão atavicamente ligados à natureza; destruí-la significa a sua própria destruição. Valentes,
generosos e inocentes, os Na'vi precisam defender a natureza e garantir a continuação de sua espécie.
Outro filme que aborda alguns elementos presentes na obra de Rousseau é O enigma de Kaspar Hauser, dirigido
por Werner Herzog, o qual narra a história de Kaspar Hauser, um jovem encontrado em condições de isolamento e
aprisionamento num porão. Após ser libertado, ele é colocado em contato com a sociedade, com seus hábitos e
costumes; aprende a falar, mas tem dificuldades em compreender questões religiosas ou científicas. A trajetória de
Kaspar Hauser, o selvagem que é introduzido na sociedade europeia do Iluminismo, dialoga com ideias caras a
Rousseau: a pureza e a inocência do ser incivilizado; e o processo de aquisição de modos e valores da sociedade.
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Evidentemente, tal perspectiva não poderia ser aceita Para Rousseau, a educação deveria ocupar-se com a
de forma unânime por uma Europa contaminada pelos arte de “gerir os contrários, na perspectiva do desen-
ares do Iluminismo e do racionalismo. Rousseau foi volvimento da liberdade autônoma” (SOËTARD, 2010, p.
acusado por supostas agressões às autoridades e à 16), sendo que o pedagogo deveria atuar de forma a que
opinião pública: alguns haviam entendido que o filósofo, sua vontade jamais substituísse a vontade da criança
de certo modo, defendia a selvageria e preconizava o fim (idem). Crente na bondade natural do homem, Rousseau
da civilização. Até mesmo colegas filósofos (por exemplo, atribuía à civilização a origem do mal. Por isso, a educação
Voltaire) participaram dessa campanha difamatória, o que tinha dois objetivos a serem atingidos: “o desenvolvi-
conduziu Rousseau à escrita de Confissões, na qual mento das potencialidades naturais da criança e seu
procurou defender a si mesmo e ao seu pensamento. afastamento dos males sociais" (ARBOUSSE-BASTIDE e
Afinal, tais acusações não encontravam qualquer susten- MACHADO, 1983, p. XVI). Esse conflito é um dos eixos
tação: Rousseau não defendia a destruição de univer- da narrativa da história de Kaspar Hauser, sobre o qual já
sidades, tampouco do mundo acadêmico. Ele apenas falamos anteriormente, que, como outras crianças encon-
não quer[ia] os artistas e intelectuais submetidos tradas em situação de abandono ou isolamento social
aos caprichos frívolos das modas passageiras. naquela época, encontrava-se sujeito às dificuldades ori-
Pelo contrário, glorifica[va] os esforços laboriosos ginadas no processo de aquisição de valores e normas
da conquista intelectual verdadeira (ARBOUS-SE- sociais.
BASTIDE e MACHADO, 1983, p. XIV). O texto de Rousseau a respeito de Educação é uma
das obras fundadoras da Pedagogia. Entretanto, foi por
Assim, longe de defender o fim da civilização e o meio da sua obra Contrato Social que o filósofo ganhou o
retorno à vida de tempos primitivos, Rousseau reconhecia respeito e a fama na posterioridade. Para ele, o homem
os ganhos que a vida social havia tornado possível, tais nasce livre e essa liberdade é essencial para a sua exis-
como tência. No entanto, a vida em sociedade requer algumas
capacidade de desenvolver-se mais rapidamente, restrições à liberdade, que é trocada pela proteção aos
ampliação dos horizontes intelectuais, enobre- direitos de propriedade e aos outros direitos civis.
cimento dos sentimentos e elevação total da Quando os indivíduos se juntam para formar uma
alma. Se os abusos do estado social civilizado não sociedade, cada um deve comprometer-se a
o colocassem abaixo da vida primitiva, o homem ceder alguma coisa; em troca, a sociedade lhes dá
deveria bendizer sem cessar o instante feliz que o algo. Esse é o hipotético “contrato social”
arrancou para sempre da animalidade e fez de um (STRATHERN, 1997, p. 60).
ser estúpido e limitado uma criatura inteligente
(ARBOUSSE-BASTIDE e MACHADO, 1983, p. XIV). Rousseau defendeu que uma sociedade justa não
poderia nascer do uso da força; pelo contrário, a força
Rousseau também desenvolveu um importante apenas criava direitos passageiros. Para que fosse pos-
trabalho na área da Educação. Em Emílio, ou Da Educa- sível construir uma sociedade justa, na qual prevalecesse
ção, ele introduz ideias que se tornaram paradigmáticas e a igualdade moral, era imprescindível estabelecer um
nucleares em quase todos os trabalhos sobre pedagogia governo por meio do consentimento de todos. "O cidadão
dos anos posteriores. Àquele momento, a criança deixava encontra a liberdade submetendo-se à lei que impõe
de ser vista como um adulto de proporções menores sobre si mesmo para o bem de todos" (STRATHERN,
(portanto, incapaz de produzir como um adulto, mas, em 1997, p. 63). Dessa forma, as vontades individuais deve-
contrapartida, fazendo jus a salários menores) para tornar- riam submeter-se à "vontade geral", que se aplicava a
se um ser a ser atendido de forma especial e segundo todos, já que derivava de todos. Por isso, os dissidentes,
determinados pressupostos pedagógicos. os que não entravam em acordo com o restante, deve-
Enquanto seus contemporâneos mais ativos, riam ser excluídos ou forçados à obediência. Os dissi-
também tocados pela “graça educacional”, dentes
ocupam-se de “fabricar a educação”; e os mes- são estrangeiros entre os cidadãos. Depois que o
tres do pensamento se esforçavam, por meio da Estado é instituído, residir nele implica consenti-
educação, a remodelar o homem, tornando-o mento: habitar o território é submeter-se à sobe-
senão um humanista, um bom cristão, um cava- rania. Se um indivíduo dentro de uma sociedade
lheiro, um bom cidadão, Rousseau deixa de lado o “recusa-se a obedecer à vontade geral, deve ser
conjunto das técnicas, rompendo com todos os forçado a fazê-lo”. Aqueles que não se submetem
modelos e proclamando que a criança não tem à liberdade da soberana vontade geral “devem ser
que se tornar outra coisa senão aquilo que ela forçados a ser livres” (STRATHERN, 1997, p. 65)
deve ser (SOËTARD, 2010, p. 12).
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A seguir, leia alguns trechos de Contrato Social : coletivo, composto de tantos membros quanto a
selecionamos algumas partes que tratam das questões assembleia de vozes, o qual recebe desse mesmo
referentes ao pacto social e às funções das leis. ato sua unidade, seu eu comum, sua vida e sua
vontade. A pessoa pública, formada assim pela
Livro I união de todas as outras, tomava outrora o nome
Capítulo VI. Do Pacto Social de cidade, e toma hoje o de república ou corpo
político, o qual é chamado por seus membros:
“Encontrar uma forma de associação que Estado, quando é passivo; soberano, quando é
defenda e proteja de toda a força comum a pessoa ativo; autoridade, quando comparado a seus
e os bens de cada associado, e pela qual, cada semelhantes. No que concerne aos associados,
um, unindo-se a todos, não obedeça, portanto, adquirem coletivamente o nome de povo, e se
senão a si mesmo, e permaneça tão livre como chamam particularmente cidadãos, na qualidade
anteriormente”. Tal é o problema fundamental de participantes na autoridade soberana, e vas-
cuja solução é dada pelo contrato social. salos, quando sujeitos às leis do Estado. Todavia,
As cláusulas deste contrato são de tal modo esses termos frequentemente se confundem e
determinadas pela natureza do ato, que a menor são tomados um pelo outro. É suficiente saber
modificação as tornaria vãs e de nenhum efeito; distingui-los, quando empregados em toda a sua
de sorte que, conquanto jamais tenham sido precisão (ROUSSEAU, 1983, p. 31-34).
formalmente enunciadas, são as mesmas em
todas as partes, em todas as partes tacitamente Livro II
admitidas e reconhecidas, até que, violado o pacto Capítulo VI. Da Lei
social, reentra cada qual em seus primeiros direi-
tos e retoma a liberdade natural, perdendo a Pelo pacto social demos existência ao corpo
liberdade convencional pela qual ele aqui renun- político; trata-se agora de lhe dar o movimento e a
ciou. Todas essas cláusulas, bem entendido, se vontade por meio da legislação. Porque o ato
reduzem a uma única, a saber, a alienação total de primitivo, pelo qual esse corpo se forma e se une,
cada associado, com todos os seus direitos, em não determina ainda o que ele deve fazer para se
favor de toda a comunidade; porque, primeira- conservar. O que é bom e conforme a ordem o é
mente, cada qual se entregando por completo e pela natureza das coisas e independentemente
sendo a condição igual para todos, a ninguém das convenções humanas. Toda justiça vem de
interessa torná-la onerosa para os outros. Além Deus; só Ele é sua fonte; mas, se soubéssemos
disso, feita a alienação sem reserva, a união é tão recebê-la de tão alto, não teríamos necessidade
perfeita quanto o pode ser, e nenhum associado nem de governo nem de leis. Está fora de dúvida
tem mais nada a reclamar; porque, se aos a existência de uma justiça universal, só da razão
particulares restassem alguns direitos, como não emanada; tal justiça, porém, para ser admitida
haveria nenhum superior comum que pudesse entre nós, deve ser recíproca. Considerando hu-
decidir entre eles e o público, cada qual, tornado manamente as coisas, à falta de sanção natural,
nalgum ponto o seu próprio juiz, pretenderia em são vãs as leis da justiça entre os homens; fazem
breve sê-lo em tudo; o estado natural subsistiria, o bem do perverso e o mal do justo, quando este
e a associação se tornaria necessariamente as observa com todos, sem que ninguém as
tirânica ou inútil. observe consigo. É necessário, pois, haja conven-
Enfim, cada qual, dando-se a todos, não se dá ções e leis para unir os direitos aos deveres e
ninguém, e, como não existe um associado sobre encaminhar a justiça a seu objetivo. No estado
quem não se adquira o mesmo direito que lhe foi natural, onde tudo é comum, nada devo àqueles a
cedido, ganha-se o equivalente de tudo o que se quem nada prometi; só reconheço como sendo de
perde e maior força para conservar o que se tem. outrem o que me é inútil. Isso não ocorre no
Portanto, se afastarmos do pacto social o que não estado civil, onde todos os direitos são fixados
constitui a sua essência, acharemos que ele se pela lei. Mas que é enfim uma lei? Enquanto conti-
reduz aos seguintes termos: nuarmos a juntar a esse termo somente ideias
“Cada um de nós põe em comum sua pessoa metafísicas, prosseguiremos a raciocinar sem
e toda a sua autoridade, sob o supremo comando nada entender, e quando tivermos dito o que é
da vontade geral, e recebemos em conjunto cada uma lei natural, não saberemos melhor o que é
membro como parte indivisível do todo”. Logo, ao uma lei do Estado.
invés da pessoa particular de cada contratante, Já tive ocasião de dizer que, de modo algum,
esse ato de associação produz um corpo moral e havia vontade geral num objeto particular. Esse
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objeto particular encontra-se, com efeito, no por leis, independente da forma de administração
Estado ou fora do Estado; uma vontade que lhe que possa ter; porque então somente o interesse
seja estranha não é em absoluto geral em relação público governa, e a coisa pública algo representa.
a ele; e se esse objeto está no Estado, dele faz Todo governo legítimo é republicano. Explicarei
parte, e então se forma entre o todo e sua parte mais adiante o que é o governo.
uma relação que os transforma em dois seres As leis não são propriamente senão as condi-
separados, cuja parte é um, e o todo, menos esta ções de associação civil. O povo, submetido às
mesma parte, constitui o outro. Mas o todo leis, deve ser o autor das mesmas; compete unica-
menos uma parte, não é de nenhum modo o todo, mente aos que se associam regulamentar as
e enquanto essa relação subsiste, não mais há o condições de sociedade; mas de que maneira as
todo, mas sim duas partes desiguais; de onde se regulamentarão? Fá-lo-ão de comum acordo, como
conclui que a vontade de uma não é também mais que por uma inspiração sublime? Possui o corpo
geral em relação à outra. Mas quando todo o povo político um órgão qualquer para enunciar-lhe as
estatui sobre todo o povo, só a si mesmo consi- vontades? Quem lhe dará a previsão necessária
dera; e se se forma então uma relação, é do objeto para formar e publicar os atos antecipadamente,
inteiro sob um ponto de vista ao objeto inteiro sob ou como os pronunciará no momento de necessi-
outro ponto de vista, sem nenhuma divisão do dade? De que maneira uma turba cega, que em
todo. Então, a matéria sobre a qual estatuímos geral não sabe o que quer, porque raramente
passa a ser geral, como a vontade que estatui. A conhece o que lhe convém, executará por si
esse ato é que eu chamo uma lei. Quando digo mesma um empreendimento de tal importância e
que o objeto das leis é sempre geral, entendo que tão difícil como um sistema de legislação? O povo,
a lei considera os vassalos em corpo e as ações de si mesmo, sempre deseja o bem; mas nem
como sendo abstratas, jamais um homem como sempre o vê, de si mesmo. A vontade geral é
indivíduo, nem uma ação particular. Destarte, pode sempre reta; mas o julgamento que a dirige nem
a lei estatuir perfeitamente que haverá privilégios, sempre é esclarecido. É necessário fazer-lhe ver
mas não pode ofertá-los nominalmente a nin- os objetos tais como são, e muitas vezes tais
guém; pode a lei instituir diversas classes de cida- como devem parecer-lhe; é preciso mostrar-lhe o
dãos, assinalar inclusive as qualidades que darão bom caminho que procura, protegê-la da sedução
direito a essas classes; mas não pode nomear das vontades particulares, aproximar de seus olhos
este ou aquele para ser nelas admitido; pode os lugares e os tempos, equilibrar o encanto das
estabelecer um governo real e uma sucessão vantagens presentes e sensíveis com o perigo dos
hereditária, mas não pode eleger um rei nem males afastados e ocultos. Os particulares veem o
nomear uma família real: numa palavra, toda bem que rejeitam, o público deseja o bem que não
função que se relacione com um objeto individual vê. Todos igualmente necessitam de guias; é
não pertence de nenhum modo ao poder legis- preciso obrigar uns a conformar suas vontades
lativo. No tocante a esta ideia, vê-se imediata- com sua razão; é necessário ensinar outrem a
mente não mais ser preciso perguntar a quem conhecer o que pretende. Então, das luzes públi-
compete fazer as leis, pois que elas constituem cas resulta a união do entendimento e da vontade
atos da vontade geral; nem se o príncipe se no corpo social; dá o exato concurso das partes e,
encontra acima das leis, pois que ele é membro finalmente, a maior força do todo. Eis de onde
do Estado; nem se a lei pode ser injusta, pois que nasce a necessidade de um legislador (ROUSSEAU,
ninguém é injusto consigo mesmo; nem em que 1983, p. 53-56).
sentido somos livres e sujeitos às leis, pois que
estas são apenas registros de nossas vontades. Os sucessivos conflitos com colegas e com a socie-
Vê-se ainda que, reunindo a lei da universa- dade europeia provocaram sérios problemas emocionais
lidade da vontade e a do objeto, tudo que um em Rousseau: àquele momento já visto como um
homem, seja quem for, ordena de sua cabeça não importante romancista e teórico, o filósofo passou a
é em absoluto uma lei; mesmo o que é ordenado apresentar sinais claros de mania de perseguição e de
pelo soberano acerca de um objeto particular não paranoia. Após refugiar-se na Inglaterra, sob a proteção
é igualmente uma lei, mas um decreto; nem de David Hume, Rousseau voltou a Paris e, na França,
constitui um ato de soberania, mas de magistra- após a escrita de Devaneios de um caminhante solitário,
tura. Eu chamo, pois, república todo Estado regido faleceu, aos 66 anos de idade.
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Figura 4. O novo
contrato social
proposto por
Rousseau
pressupõe a
construção de uma
consciência global,
fruto da submissão
Ingimage / Fotoarena da vontade
individual à vontade
geral, em um
processo que
permite a
celebração de um
pacto de todos
homens entre si
mesmos e no qual
estão garantidas a
liberdade e a
igualdade.
Referências do módulo 12
Audiovisuais
AVATAR. Dir. James Cameron. Estados Unidos/Reino Unido: Lightstorm Entertainment/Dune Entertainment, 2009. 162
minutos.
O ENIGMA de Kaspar Hauser. Dir. Werner Herzog. Alemanha Ocidental, 1974, 110 minutos.
Textuais
ABRÃO, B. S. (Org.). História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
ARBOUSSE-BASTIDE, P.; MACHADO, L. G. “Introdução”. In: Do Contrato Social; Ensaio sobre a origem das línguas;
Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens; Discurso sobre as ciências e as artes.
Tradução de Lourdes Santos Machado. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Coleção Os Pensadores).
ARCOS. Teoria política moderna: Rousseau e contexto histórico, 2018. Disponível em: <[Link]
[Link]/cursos/teoria-politica-moderna/rousseau/contexto-historico>. Acesso em: 16 mar. 2018.
CHAUÍ, M. Convite a filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
MONTESQUIEU, C. L. Do espírito das leis. Introdução e notas de Gonzague Truc. Tradução de Fernando Henrique
Cardoso e Leôncio Martins Rodrigues. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1985. (Coleção Os Pensadores).
RIBEIRO, L. M. C. Contrato social e direito natural em Jean-Jacques Rosseau. Kriterion, Belo Horizonte, v. 58, n. 136,
p. 125-138, Abr. 2017. Disponível em: <[Link] 17
000100125&lng=en&nrm=iso>. ou <[Link] Acesso em: 19 mar. 2018.
ROUSSEAU, J.-J. Do contrato social; Ensaio sobre a origem das línguas; Discurso sobre a origem e os fundamentos
da desigualdade entre os homens; Discurso sobre as ciências e as artes. Tradução de Lourdes Santos Machado.
Introdução e notas de Paul Arbousse-Bastide e Lourival Gomes Machado. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Coleção
Os Pensadores).
SANTINI, J. Rousseau e o Romantismo. UNESP, 2000. Disponível em: <[Link]
2000rousseau/[Link]>. Acesso em: 2 mar. 2018.
SOËTARD, M. Jean-Jacques Rousseau: Introdução e notas. Tradução e organização de José Eustáquio Romão e Verone
Lane. Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana, 2010.
STRATHERN, P. Rousseau em 90 minutos. Tradução de Maria Lúcia de Oliveira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
TRUC, G. “Introdução e Notas”. In: MONTESQUIEU, C. L. Do espírito das leis. Tradução de Fernando Henrique Cardoso
e Leôncio Martins Rodrigues. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1985. (Coleção Os Pensadores).
Créditos das imagens
Figura 2. Disponível em: <[Link] Acesso em: 9 abr. 2018.
Figura 3. Disponível em: <[Link]
Acesso em: 9 abr. 2018.
122 –
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conformidade às leis.
c) à possibilidade de o cidadão participar no poder e, 2 (UNICAMP) – No trecho apresentado, o autor
nesse caso, livre da submissão às leis. a) argumenta que um corpo político existe quando os
d) ao livre-arbítrio do cidadão em relação àquilo que é homens encontram-se associados em estado de
proibido, desde que ciente das consequências. igualdade política.
e) ao direito de o cidadão exercer sua vontade de acordo b) reconhece os direitos sagrados como base para os
com seus valores pessoais. direitos políticos e sociais.
c) defende a necessidade de os homens se unirem em
agregações, em busca de seus direitos políticos.
d) denuncia a prática da escravidão nas Américas, que
obrigava multidões de homens a se submeterem a um
único senhor.
– 123
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3 (UNICAMP) – Sobre Do Contrato Social, publicado em se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra
1762, e seu autor, é correto afirmar que: não pertence a ninguém!”. Grande é a possibilidade,
a) Rousseau, um dos grandes autores do Iluminismo, porém, de que as coisas já então tivessem chegado ao
defende a necessidade de o Estado francês substituir ponto de não poder mais permanecer como eram. Foi
os impostos por contratos comerciais com os preciso fazer-se muitos progressos, adquirir-se muita
cidadãos. indústria e luzes, transmiti-las e aumentá-las de geração
b) A obra inspirou os ideais da Revolução Francesa, ao para geração, antes de chegar a esse último termo do
explicar o nascimento da sociedade pelo contrato estado de natureza.
social e pregar a soberania do povo. (J.-J. Rousseau. “Discurso sobre a origem e os fundamentos
c) Rousseau defendia a necessidade de o homem voltar da desigualdade entre os homens”. In: Os pensadores. São
a seu estado natural, para assim garantir a sobrevi- Paulo: Abril Cultural, 1979. Adaptado.)
vência da sociedade.
d) O livro, inspirado pelos acontecimentos da Indepen- Considerando o texto, avalie as afirmações a seguir com
dência Americana, chegou a ser proibido e queimado base nas ideias de Rousseau:
em solo francês. I. A desigualdade moral ou política depende de uma
convenção entre os homens.
II. Há privilégios de que alguns homens gozam em
prejuízo de outros homens.
III.A ideia de propriedade se formou repentinamente no
espírito humano.
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Neste módulo, vamos estudar os dois filósofos do tados segundo a tradição do pensamento lógico e
final do século XVIII e início do XIX, Schopenhauer e sistemático de Hegel.
Kierkegaard, que desenvolveram suas obras no contexto
de uma Europa devastada pelas guerras napoleônicas.
Desespero e angústia são marcas importantes desses Observação:
filósofos; no entanto, ambos se negaram a se entregar O aforismo é uma espécie de ditado, ou sentença
facilmente ao sofrimento. Cada um deles, a seu próprio sintética, que apresenta uma regra ou princípio
modo, buscou apresentar alternativas ao pessimismo e à moral. Trata-se de um texto curto e breve, cujo
percepção da vida como algo sem significado e sem conteúdo encerra uma reflexão filosófica.
sentido.
E também a brilhante, incisiva e perturbadora obra de
Nietzsche. As ideias do filósofo transformaram-no em um Schopenhauer é lembrado como o filósofo da angús-
dos mais importantes representantes do niilismo existen- tia e da desesperança. Essa perspectiva resulta da
cial e exerceram profunda influência no pensamento constatação de que, em sua obra, a angústia e o tédio são
filosófico do século XX. apresentados como elementos centrais da existência
humana, na qual os momentos de felicidade são raros.
1. Arthur Schopenhauer: uma filosofia construída No entanto, essa interpretação do pensamento de
por meio de aforismos Schopenhauer é simplista demais. Em primeiro lugar, é
importante observar que o mundo que se coloca diante
Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão, do filósofo é conturbado e, efetivamente, repleto de sofri-
viveu à sombra de vários fantasmas: o do reconhe- mento; é um mundo devastado pelas guerras napoleôni-
cimento e o da fama, que só aconteceram 32 anos depois cas que haviam deixado rastros de miséria e mutilação
da publicação de sua principal obra, O mundo como por toda a Europa. Até mesmo a Revolução Francesa
vontade e representação; e o da aceitação, por parte da resultara em desespero e terror. No entanto, Schopenhauer
comunidade acadêmica, de que ele era superior a Hegel. evita sucumbir ao desânimo e ao desalento; ao contrário,
Essa disputa com Hegel marcou a vida de Schopenhauer ele alerta para a necessidade de afirmar a vida e a
de forma profunda e intensa (e há dúvidas a respeito do disposição de vivê-la em plenitude, especialmente se
quanto Hegel estava efetivamente preocupado com o seu essa afirmação e essa disposição forem materializadas
suposto oponente). sob a forma de uma sabedoria de vida (BARBOZA, 2002).
Os dois filósofos encontraram-se na Universidade de Nesse sentido, podemos definir o pensamento de
Berlim. Ali, Schopenhauer resolveu medir forças com Schopenhauer como pendular, vale dizer, ele oscila
continuamente entre pessimismo metafísico e
Hegel, filósofo reconhecido como crítico e admirador de
otimismo prático. Embora o mundo seja sofrimen-
Kant. O que Schopenhauer desejava, na verdade, era ser
to no seu íntimo, o homem tem à sua disposição
reconhecido como o “verdadeiro intérprete” de Kant. A a possibilidade de uma felicidade, até onde é
inveja e o ressentimento de Schopenhauer foram possível para seres tão carentes como nós. [...]
tamanhos que ele chegou a marcar suas aulas no mesmo Quer dizer, paradoxalmente, estamos diante de
horário em que Hegel ministrava seu curso de filosofia, um livro de um metafísico pessimista que, toda-
com a intenção de disputar alunos e prestígio, iniciativa via, não teme falar de uma felicidade alcançável
que só fez aumentar a sua raiva: sua sala continuava vazia, (BARBOZA, 2002, p. XIII).
e a de Hegel, repleta de estudantes.
Uma das principais características da obra de
Schopenhauer é que as ideias são apresentadas sob a Observação:
forma de aforismos. Determinado a superar os filósofos A metafísica busca a compreensão daquilo que está
do romantismo alemão, Schopenhauer adotou o aforismo além da experiência sensível. Assim, suas principais
como marca de um pensamento livre de amarras expo- preocupações são a totalidade cósmica, a alma
sitivas e de complexidade conceitual. Esse estilo, quase humana e o conhecimento da essência das coisas.
artístico, acabou por influenciar gerações de filósofos, que
viram no discurso aforístico uma maneira simples e
atrativa de abordar temas complexos, até então apresen-
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Ingimage/Fotoarena
si, na sua totalidade (o númeno). Somos apenas
capazes de conhecer o que nossa mente consegue
apreender da realidade, o fenômeno, que nada mais
é do que uma representação da realidade.
Saiba mais
Sugerimos que você assista dois filmes que, de certa
forma, tangenciam as ideias de Schopenhauer.
Figura 1. Para Barboza (2002, p. XIV), "o que Schopenhauer entende por O primeiro é Os Duelistas (1977), filme dirigido por
sabedoria está muito próximo da visão estoica do mundo, isto é, encarar Ridley Scott e protagonizado por Keith Carradine e
as adversidades com serenidade. Eis a razão da crítica ao pessimismo Harvey Keitel. Por causa de uma troca de ofensas, dois
exacerbado".
soldados franceses tornam-se inimigos, ameaçando-
se e enfrentando-se em duelos ao longo de quinze
Outro eixo importante do seu trabalho é a questão da
anos. O filme trata dos exageros e absurdos que são
representação. De forma curiosa (especialmente se
cometidos em nome da honra.
considerarmos sua obsessão por Hegel), Schopenhauer
defendeu que não se deve dar tanta importância ao que O segundo filme é Blade Runner (1982), também
"representamos" na opinião do outro. Em outros termos, dirigido por Ridley Scott e protagonizado por Harrison
o ser humano deve evitar conduzir suas ações em função Ford e Rutger Hauer. Uma das obras cinematográficas
do que o olhar alheio determina. mais icônicas da década de 1980, o filme narra as
Como exemplo de atos tolos, e gerados pela insupor- aventuras de um caçador de androides fugitivos que
tável necessidade de agradar a opinião de outros, lutam pelos direitos de uma existência humana (ou
Schopenhauer cita a prática do duelo: que coisa estúpida pelo reconhecimento de que suas existências são tão
especiais quanto as dos seres humanos). Afinal, se
essa de, apenas por conta de uma ofensa externalizada,
eles são percebidos pelos outros como humanos, por
colocar a sua vida em risco ou tirar a vida alheia? Por qual
que então eles devem ser considerados escravos ou
motivo aquilo que parece aos outros deve valer mais do
inferiores? Uma das questões que o filme deixa em
que o que pensamos a nosso próprio respeito?
O mundo que vemos consiste em representação,
aberto diz respeito ao caçador que, melancolicamente,
meros fenômenos, como Kant muito bem o coloca em dúvida a sua própria condição: ele é humano
definiu. O que apoia essa representação, porém, ou é apenas um androide que se imagina humano?
não é, como em Kant, a realidade final do número,
mas a Vontade universal. Essa Vontade é cega,
perpassa todas as coisas e é sempre destituída de
A vontade, assim, é a nossa experiência direta, uma
objetivo. Como o númeno de Kant, está além do força impessoal que funciona como motor de nossas
espaço e do tempo e não possui causa. É isso que vidas. O mundo, esse lugar inóspito e cruel, merece
provoca toda a miséria e sofrimento do mundo, nosso repúdio; as artes, em particular, podem nos aliviar
que só podem terminar com a morte. Nossa única de uma existência de suplícios e de sofrimento. E, como
esperança é nos libertarmos do poder dessa estamos separados uns dos outros apenas na aparência,
Vontade e da carga de individualidade e egoísmo os sentimentos de compaixão e de amor podem construir
atada a ela. Isso só pode ser obtido pela renúncia uma realidade em que os seres humanos sejam solidários
expressa na compaixão por nossos irmãos uns com os outros.
sofredores, pela abnegação da vontade tal como Dessa forma, Schopenhauer
praticada pelos santos e eremitas de todas as realizou uma mudança radical com relação à
raças e credos, e pela apreciação estética das tradição filosófica antecedente, pois ela colocou
obras de arte (que inclui a contemplação sem em segundo plano a primazia da razão como
vontade) (STRATHERN, 1998, p. 10). sendo a legisladora e o princípio ordenador do
mundo. Desde os gregos antigos, a filosofia
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expressou grande confiança no poder da razão, grande mente ou um grande coração, todos os
depositando na racionalidade cósmica uma ordem privilégios de posição, nascimento, mesmo um
inteligente que rege e conduz as leis naturais do nascimento nobre, riqueza e assim por diante, não
universo. No entanto, contrariando este posiciona- passam de reis de teatro em comparação com
mento, a filosofia schopenhaueriana se desen- reis na vida real.
volveu na reflexão acerca do irracional, isto é, ela [...]
parte da ideia de que o princípio de onde todas as
E é óbvio que o elemento principal no bem-estar
coisas emanam, a Vontade, a coisa-em-si do
de um indivíduo — de fato, de todo o seu modo de
mundo, não possui nenhum fundamento ou razão.
existir — é aquilo que o constitui, que ocorre
Para Schopenhauer, a Vontade é uma força cega e
dentro dele próprio. Pois isso constitui a fonte
dinâmica. [...]. Noutras palavras, a Vontade é en-
imediata de sua satisfação ou insatisfação íntima,
tendida como um princípio metafísico, sem finali-
que resulta de todo o seu sentir, desejar e pensar.
dade ou objetivo, uma força volitiva e insaciável,
Por outro lado, tudo que o cerca exerce somente
que se firma nas diversas camadas da natureza e
uma influência indireta; por esse motivo, os mes-
da existência em geral (NASCIMENTO, 2015, p.
mos eventos ou circunstâncias afetam diferente-
2).
mente cada um de nós; e até com ambientes
exatamente iguais, cada qual vive em seu próprio
Em vez de fazer a apologia do desespero, Schopenhauer
mundo. Pois um homem apenas preocupa-se
propõe que os jovens busquem evitar a dor; a felicidade
diretamente com suas próprias ideias, sentimen-
e o prazer completo são impossíveis de serem tos e volições; o mundo exterior somente pode
alcançados, e uma vida sábia resulta do reconhecimento influenciá-lo na medida em que traz vida a esses.
de que não há muito o que se esperar do mundo. A inútil O mundo em que cada qual vive depende princi-
busca pela felicidade é substituída pela alegria que pode palmente de sua própria interpretação desse e,
ser encontrada nas pequenas coisas. assim, mostra-se diferentemente a homens dife-
A distinção entre opinião alheia e valor próprio é o rentes; para um é pobre, insípido e monótono,
eixo de uma das obras de Schopenhauer, Aforismos para para outro é rico, interessante e importante. Por
a sabedoria da vida. Assim, o ser humano detém três exemplo, apesar de muitos invejarem os aconteci-
diferentes tipos de bens: tudo o que possui em termos de mentos interessantes que ocorreram ao longo da
valores e características pessoais; tudo o que possui em vida de um homem, deveriam, em vez disso,
invejar seu dom de interpretação que imbuiu tais
termos materiais; e tudo o que representa para os outros.
eventos com a significância que exibem enquanto
Aristóteles (Ética a Nicômaco, I. 8) dividiu os bens
os descreve. O mesmo evento que parece inte-
da vida humana em três classes: aqueles que vêm
ressante ao homem de gênio seria somente uma
de fora, aqueles da alma e aqueles do corpo. Pre-
cena monótona e fugidia do mundo corriqueiro
servando dessa divisão somente o número três,
quando concebida pela mente superficial de um
observo que as diferenças fundamentais na sina
homem comum (SCHOPENHAUER, 2002, p. 3-9).
dos homens podem ser reduzidas a três classes
distintas:
(1) O que um homem é, ou seja, sua persona-
lidade no sentido mais amplo. Isso inclui saúde, 2. Søren Kierkegaard
força, beleza, temperamento, caráter moral, inteli-
gência e educação. Representante do existencialismo, o dinamarquês
(2) O que um homem tem, ou seja, propriedades Søren Kierkegaard (1813-1855) refletiu sobre o indivíduo
e posses em todos os sentidos. e sua existência. Diante de uma Europa destroçada pela
(3) O que um homem representa; sabemos que guerra, o desespero precisava de um discurso que o
por meio dessa expressão entende-se o que um explicasse e o justificasse: a filosofia existencialista cum-
homem é aos olhos dos demais e, portanto, como priu com esse papel no século XIX e Kierkegaard tinha o
é representado por esses. Consiste, assim, na
perfil ideal para a sua elaboração: criado de forma intran-
opinião desses ao seu respeito, e pode ser divi-
sigente e autoritária pelo seu pai, atormentado pela ideia
dida em honra, posição e glória.
As diferenças a serem consideradas em relação à
de pecado e pelos conflitos religiosos daquele período,
primeira classe são aquelas que a própria natureza frustrado com o fato de não conseguir concretizar uma
estabeleceu entre os homens. Disso pode-se relação amorosa com Regine Olsen, a quem conhecera
inferir que sua influência sobre a felicidade ou quando ela era ainda uma criança, e mergulhado em
infelicidade da humanidade será muito mais dúvidas e incertezas, ninguém melhor do que ele para
fundamental e radical que aquela abarcada pelas tentar responder a questões que outros filósofos haviam
outras duas classes, que são apenas o efeito de desistido de solucionar.
decisões e resoluções humanas. Comparados Na verdade, Kierkegaard retomou uma questão que
com vantagens pessoais genuínas, como uma havia sido deixada de lado: o que era a existência, afinal?
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A filosofia há muito desistira de tentar responder a essa Kierkegaard trouxe à tona um dilema extremamente
pergunta, já que entendia ser impossível alcançar uma simples e que, de certa forma, explicava a existência e
explicação. Qual era a utilidade de questionar-se a res- dava sentido à vida. Para ele, havia duas maneiras de viver
peito do significado da vida e do sentido da existência? a vida: a estética e a ética. Cabia a cada ser humano fazer
No século XVII, Descartes propusera uma solução no sua escolha, escolha essa que resultava em conse-
seu cogito. Cogito ergo sum, quer dizer, penso logo quências sobre as quais cabiam responsabilidades. Os
existo. Pode-se duvidar de tudo, menos de que estamos que preferiam a estética, viviam para o seu próprio prazer.
pensando. Se eu penso em algo, eu existo. Todo o res- Kierkegaard, no entanto, fazia uma ressalva.
tante pode ser apenas fruto de ilusões ou erros, exceto o Num nível básico, o indivíduo que vive a vida
fato de eu pensar. Hegel, no início do século XIX, havia estética não tem o controle da sua existência. Ele
retomado a questão da existência: era real tudo o que era vive o momento, levado pelo prazer. Sua vida pode
racional e tudo que era racional era real. Realidade e razão ser contraditória, carente de estabilidade e certeza.
Mesmo num nível mais calculado, a vida estética
justificavam-se e explicavam-se. No entanto, a pergunta
continua sendo “experimental”. Sentimos certo
sobre o significado da existência ainda continuava sem
prazer apenas enquanto ela exerce apelo sobre
resposta. nós. A inadequação do ponto de vista estético é
Profundamente impactado pela dialética hegeliana, fundamental. Porque ele se apoia no mundo
Kierkegaard procurou oferecer uma explicação para o externo. Ele “espera tudo de fora”. Dessa forma,
sentido da existência. Sua relação com as ideias de Hegel é passivo e carente de liberdade. Apoia-se em
era, aliás, marcada pela dialética: Kierkegaard amava coisas que estão, em última instância, além do
Hegel e, ao mesmo tempo, odiava Hegel. Como outros controle da sua vontade — como o poder, as
filósofos que haviam sido influenciados pelas ideias de posses ou mesmo a amizade. É contingente,
Hegel, o que Kierkegaard mais queria era conseguir superar dependente do “acidental”. Não há nada “neces-
o mestre tão admirado. sário” nele. Se compreendermos essas coisas,
A dialética também alcançaria a relação de veremos a inadequação última da existência
estética. Quando um indivíduo que vive a vida
Kierkegaard com sua própria obra. Vários dos seus textos
estética reflete sobre sua existência, logo percebe
foram publicados sob pseudônimos que Kierkegaard fazia
que lhe faltam certeza e significado (STRATHERN,
questão de sinalizar que eram falsos. Escondendo-se, 1999, p. 25).
mas revelando-se, o filósofo entrou em contato com
outros pensadores alemães que, como ele, tentavam Esta renúncia à liberdade, este colocar-se como um
libertar-se da sombra de Hegel. Kierkegaard, no entanto, mero joguete do destino, este é o caminho que leva
acreditava ter condições de se sair bem dessa tarefa. O certamente ao desespero. Assim, o que Kierkegaard pre-
que os outros não haviam ainda compreendido era que tende é oferecer uma alternativa ao desespero. “A solu-
O sistema filosófico de Hegel e, de fato, todos os
ção que lhe deu foi igualmente radical. A única resposta
sistemas filosóficos eram agora coisa do passado.
é assumir a posse integral da própria existência e aceitar
Um sistema construído sobre princípios racionais
(como qualquer sistema devia ser) só descrevia os
responsabilidade por ela” (STRATHERN, 1999, p. 27). Não
aspectos racionais do mundo. Kierkegaard à toa, essa perspectiva existencialista influenciaria enor-
compreendera — e experimentara plenamente — memente os filósofos de uma Europa que, no século XX,
o fato de que a subjetividade não era racional viveria em constante estado de guerra. Ao contrário de
(STRATHERN, 1999, p. 23). uma vida estética, Kierkegaard oferece a chance de o
indivíduo fazer uma opção, uma opção ética.
Ali onde o indivíduo estético meramente aceita-se
Observação: tal como é, o indivíduo ético procurar conhecer e
mudar a si mesmo por escolha própria. Será
A dialética hegeliana parte de uma tese que, por sua
guiado nisso pelo seu autoconhecimento e sua
vez, gera o seu contrário, a antítese. A síntese é o
vontade — não de aceitar o que descobre, mas de
resultado do encontro entre tese e antítese e, na tentar melhorar isso (STRATHERN, 1999, p. 28).
sequência, ela se transforma em tese. Um exemplo
pode ser a seguinte ideia. O Ser (a existência) é a Enquanto o indivíduo estético está preocupado com
tese. O Nada é a antítese da tese. A síntese, o mundo exterior, o indivíduo ético busca tornar-se melhor
encontro entre tese e antítese, é o devir, o vir-a-ser, e alcançar uma vida mais elevada em termos de padrões
o que ainda não é, mas que poderá ser, quando a éticos. E a transição do mundo estético para o ético
mudança e a transformação agirem sobre as coisas ocorre de forma natural, já que, automaticamente, o ser
provisórias e transitórias. humano é capaz de reconhecer o que é superior.
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Observação:
Cada indivíduo constrói seu próprio mundo, por meio O ascetismo é uma doutrina que prega a disciplina
do exercício da vontade. Vemos o que queremos ver, e e o controle dos instintos com o objetivo de cultivar
vemos de acordo com valores que escolhemos e que nos a virtude e o caminho das palavras de Deus.
fazem ser o que somos. Essas escolhas são arriscadas:
não há como termos certeza de que são as melhores. A É provável que a proposta de uma vida de piedade, fé
vida que vivemos, e a consciência que dela temos, são e renúncia não tenha emocionado Nietzsche, mas a noção
precárias. Se é verdade que nossa vida pode terminar a de vontade como força motriz foi fundamental para a sua
qualquer momento, também é verdade que, a cada reflexão. Faltava apenas um elemento que fizesse explo-
instante, nos é possível modificá-la por meio de escolhas. dir todas as ideias que estavam ali em sua mente e isso
aconteceu com a entrada de Richard Wagner na sua vida.
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Segundo Strathern (1997), assim como Nietzsche, Ao retornar da guerra e retomar seu trabalho como
Wagner também era apaixonado pelas ideias de professor, Nietzsche começou a escrever O nascimento
Schopenhauer. “O efeito sobre Nietzsche foi imediato e da tragédia. Nessa obra, o filósofo buscou resgatar os
profundo: Nietzsche foi sufocado pelo grande compositor, elementos dionisíacos da cultura grega: o que ele queria
cujo caráter exuberante era pelo menos igual ao de suas desenterrar eram as forças mais sombrias e instintivas da
obras” (STRATHERN, 1997, p. 10). tragédia grega.
Observação:
Na mitologia grega, Apolo e Dionísio são filhos de
Zeus. Enquanto Apolo representa a razão, Dionísio
materializa a loucura e o caos. Eles não são, neces-
sariamente, antagônicos, já que podem estar pre-
sentes de forma simultânea, como, por exemplo,
nas tragédias gregas.
Saiba mais
Nietzsche pretendia utilizar as forças apolíneas e
dionisíacas para iluminar a música grandiosa de
Wagner, a única capaz de fundir esses elementos de
forma harmoniosa, épica e majestosa.
O lado sombrio, louco e caótico da ópera A cavalgada
das Valquírias, de Wagner, foi explorado pelo diretor
Francis Ford Copolla, em 1979, em Apocalipse now.
O filme narra uma operação especial realizada no meio
da guerra do Vietnã, com o objetivo de resgatar um
coronel que, supostamente, havia enlouquecido. Em
uma das cenas, helicópteros americanos atacam e
destroem um vilarejo vietnamita; nesse momento,
Copolla usa um trecho da ópera de Wagner para acen-
Figura 3. Richard Wagner (1813-1883) foi um compositor alemão, tuar os elementos insanos da guerra. Essa cena está
conhecido especialmente por causa de suas óperas grandiosas e disponível no link: <[Link]
dramáticas, como A cavalgada das Valquírias. Sua vida foi extremamente v=fc3G_f34Wrc>. Acesso em: 5 out. 2018
turbulenta; seus amores, seu comportamento errático e mundano e o
seu envolvimento com os movimentos revolucionários da segunda
metade do século XIX acabaram por levá-lo à falência.
Schopenhauer havia demonstrado o quanto a filosofia
Os hábitos permissivos de Wagner e o ambiente ocidental devia ao pensamento oriental, adotando, em sua
conturbado que o cercava abalaram Nietzsche de forma obra, conceitos e sentimentos importantes do budismo,
significativa. De acordo com Abrão (1999), seu convívio tais como sofrimento, compaixão e iluminação. Para
com Wagner foi tão intenso que ele chegou a se Schopenhauer, o nirvana, a felicidade, nada mais era do
apaixonar pela esposa do músico, Cósima, filha de outro que a eliminação da vontade, um estado de negação total.
grande compositor, Franz Liszt (1811-1886). Nietzsche, em oposição, fez uso dos elementos
Mas a realidade era bem diferente daquela na qual o dionisíacos para se contrapor aos cristãos. Para ele, estes
filósofo vivia ao lado de Wagner, em meio ao luxo e à haviam enfraquecido a civilização.
Ele compreendeu que a maioria de nossos
frivolidade intelectual. Assim, o trabalho como enfermeiro
impulsos tem dois lados. Mesmo os assim
voluntário durante a guerra franco-prussiana ofereceu a
chamados melhores impulsos têm seu lado
Nietzsche a oportunidade única de entrar em contato com sombrio ou degenerado. “Todo ideal pressupõe
o ambiente de um campo de batalha. Segundo Strathern amor e ódio, reverência e desprezo. O impulso
(1997), este teria sido o momento em que Nietzsche essencial pode surgir tanto do lado positivo quanto
entendeu que a principal vontade do ser humano não era do negativo” (STRATHERN, 1997, p. 12).
lutar pela vida, mas viver para guerrear e dominar.
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Para Nietzsche, o cristianismo apenas tentara se Vejamos, a seguir, um trecho de A gaia ciência no
sobrepor aos nossos instintos positivos, impondo aos qual Nietzsche explica o seu conceito de eterno retorno.
homens atitudes e sentimentos estranhos à nossa E se um dia, ou uma noite, um demônio fosse te
natureza. As atitudes éticas não precisavam da religião seguir em tua suprema solidão e te dissesse:
para serem adotadas pelos homens, daí a desnecessária "Esta vida, tal como a vives atualmente, tal como
intervenção do cristianismo. Por isso, Nietzsche a viveste, vai ser necessário que a revivas mais
uma vez e inumeráveis vezes; e não haverá nela
proclamou: "Deus está morto".
nada de novo, pelo contrário! A menor dor e o
menor prazer, o menor pensamento e o menor
Observação: suspiro, o que há de infinitamente grande e de
infinitamente pequeno em tua vida retornará e
Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo alemão, já havia tudo retornará na mesma ordem – essa aranha
decretado a morte de Deus, mas em outro sentido. também e esse luar entre as árvores e esse
Para Hegel, a morte de Cristo mostrava que mesmo instante e eu mesmo! A eterna ampulheta da vida
a morte não triunfaria sobre o espírito humano. Para será invertida sem cessar – e tu com ela, poeira
Nietzsche, não se tratava de negar a divindade ou a das poeiras!" – Não te jogarias no chão, rangendo
existência de Deus. Ele desejava afirmar, acima de os dentes e amaldiçoando esse demônio que
tudo, que a religião não era necessária para que os assim falasse?
homens pudessem viver de maneira ética, já que Ou talvez já viveste um instante bastante
prodigioso para lhe responder:
essa tão somente impunha valores e compor-
"Tu és um deus e nunca ouvi coisa tão divina!" Se
tamentos. Em outras palavras, era possível, admis-
este pensamento te dominasse, tal como és, te
sível e desejável que os homens fossem capazes de transformaria talvez, mas talvez te aniquilaria; a
viver de uma maneira ética, a partir de valores pergunta "queres isso ainda uma vez e um
elevados, independentemente de acreditarem ou número incalculável de vezes?", esta pergunta
não na existência de Deus, independentemente da pesaria sobre todas as tuas ações com o peso
existência ou não de Deus. mais pesado! E então, como te seria necessário
amar a vida e amar a ti mesmo para não desejar
mais outra coisa que essa suprema e eterna
Já tendo iniciado o processo de afastamento em confirmação, esse eterno e supremo selo!
relação a Wagner, Nietzsche escreveu Humano, (NIETZSCHE, 2008, p. 201).
demasiadamente humano, obra em que buscou refletir
sobre elementos psicológicos da natureza humana.
Seus admiradores achavam que o que ele fazia
não era filosofia e estavam certos. Tratava-se de
psicologia, e de tal qualidade que algumas
décadas mais tarde Freud decidiu não continuar a
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ler Nietzsche – receando descobrir não houvesse
mais nada a dizer sobre o assunto (STRATHERN,
1997, p. 13).
– 131
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Leia, abaixo, o trecho em que Nietzsche anuncia o De fato, Nietzsche usa Zaratustra para contar a história
super-homem e a morte de Deus. da civilização, marcada pelas metamorfoses do espírito: em
Chegando à cidade mais próxima, enterrada nos um primeiro estágio, a civilização passa pelo domínio do
bosques, Zaratustra encontrou uma grande multi-
dever, materializado na moral e na religião; em seguida, o
dão na praça pública, porque estava anunciado o
“tu deves” é substituído pelo “eu quero”, o domínio da
espetáculo de um bailarino de corda.
E Zaratustra falou assim ao povo:
vontade; finalmente, a vontade cede espaço ao “eu sou”,
“Eu vos anuncio o Super-homem”. ou seja, uma nova relação entre o homem e a sua existência
“O homem é superável. Que fizestes para o superar? (Abrão, 1999). Por isso, a importância de se superar o
Até agora todos os seres têm apresentado alguma estágio do dever, e sobre ele Nietzsche será enfático: o
coisa superior a si mesmos; e vós, quereis o dever impõe qualidades que adoçam a vida, tornando o ser
refluxo desse grande fluxo, preferis tornar ao humano anêmico e fraco; a piedade, o altruísmo e a
animal, em vez de superar o homem? abnegação são valores do escravo, do homem domesticado
Que é o macaco para o homem? Uma irrisão ou que busca na religião o seu ponto de apoio e que apenas
uma dolorosa vergonha. Pois é o mesmo que obedece a ordens. Em contrapartida, os valores dos
deve ser o homem para Super-homem: uma senhores são outros, são aqueles em que “a afirmação de
irrisão ou uma dolorosa vergonha.
si substitui as virtudes cristãs” (ABRÃO, 1999, p. 416).
Percorrestes o caminho que medeia do verme ao
O mundo do escravo será agora aquele onde o
homem, e ainda em vós resta muito do verme.
indivíduo sofre com o mundo, se ressente dele. E o
Noutro tempo fostes macaco, e hoje o homem é
ressentimento será a mola propulsora desse
ainda mais macaco do que todos os macacos.
sofredor, que desejará vingar-se do senhor e negar
Mesmo o mais sábio de todos vós não passa de
seu mundo. [...] Não foi a dor, mas a falta de sentido
uma mistura híbrida de planta e de fantasma.
da dor que atormentou os fracos, e para encontrar
Acaso vos disse eu que vos torneis planta ou
esse sentido eles inventaram seus ideais. Assim,
fantasma?
toda a civilização cristã será um analgésico para uma
Eu anuncio-vos o Super-homem!
existência sofredora (ABRÃO, 1999, p. 417).
O Super-homem é o sentido da terra. Diga a vossa
vontade: seja o Super-homem, o sentido da terra.
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Exorto-vos, meus irmãos, a permanecer fiéis à
terra e a não acreditar naqueles que vos falam de
esperanças supraterrestres.
São envenenadores, quer o saibam ou não.
São menosprezadores da vida, moribundos que
estão, por sua vez, envenenados, seres de quem
a terra se encontra fatigada; vão-se por uma vez!
Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a
maior das blasfêmias; mas Deus morreu, e com
ele morreram tais blasfêmias. Agora, o mais
espantoso é blasfemar da terra, e ter em maior
conta as entranhas do impenetrável do que o
sentido da terra. Figura 5. Para Nietzsche, “nossa civilização enaltece a obediência e
[...] coloca o comando ao lado da má consciência, promovendo como figura
O homem é um rio turvo. É preciso ser um mar do homem alguém preparado apenas para obedecer, um escravo”
para, sem se toldar, receber um rio turvo. (ABRÃO, 1999, p. 416).
Pois bem; eu vos anuncio o Super-homem; é ele
esse mar; nele se pode abismar o vosso grande Superar o sofrimento significa transgredir normas e
menosprezo” (NIETZSCHE, 2002, p. 12-16). regras, exercendo a liberdade com ousadia; a força vital
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deve se manifestar como força criadora; "é preciso É essa consciência que estará na origem da
manter os fortes, dizendo-lhes que o bem é tudo o que análise filosófica de Nietzsche. Se não há mais um
fortalece o desejo de vida e o mal tudo o que é contrário “mundo-verdade”, então o “espírito livre” saberá
a esse desejo" (CHAUÍ, 2002, p. 353). que existem apenas diferentes “interpretações”.
E sua tarefa será interpretar as interpretações. Se
Nietzsche morreu louco, em estado catatônico,
o “cristianismo” não é mais a “verdade”, mas
provavelmente em função da sífilis que havia contraído
“apenas uma perspectiva entre outras”, é como
ainda jovem. Sua obra, vigorosa e original, marca a sua
tal que ele deve ser analisado (ABRÃO, 1999, p.
posição como o “primeiro niilista perfeito da Europa” 415).
(ABRÃO, 1999, p. 414). O niilismo (do latim nihil, quer
dizer, nada) de Nietzsche será o território da negação e A negação dos valores cristãos e de outros tidos
da desvalorização dos valores tidos como supremos, como supremos leva ao niilismo, que, então, transforma-
cenário em que o dever passa a ocupar um lugar secun- se num estado psicológico no qual a existência não tem
dário. qualquer sentido ou significado. Esse mal-estar só pode
O niilismo de Nietzsche é resultado direto do con- ser eliminado se a existência não estiver associada ao
texto europeu do século XIX, momento em que já se sofrimento e se o ser humano aceitar a doutrina do eterno
pode perceber a morte de Deus (ou melhor, o declínio da retorno. Essa abordagem “levará a uma aprovação inte-
ilusão de que a crença em Deus é suficiente para munir gral da existência, ao amor aos fatos, o dionisíaco dizer-
os homens de bons sentimentos e atitudes éticas) e “em sim à vida” (ABRÃO, 1999, p. 419). O niilismo então é
que se perdeu toda a ilusão sobre a chance de estabe- superado pela vontade de viver em um mundo desdivi-
lecer verdades definitivas sobre as coisas” (ABRÃO, nizado, no qual tudo retorna indefinidamente e no qual
1999, p. 414). nossas escolhas serão revividas para sempre.
Referências do módulo 13
Textuais
ABRÃO, B. S. (Org.). História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
BARBOZA, J. Prefácio. In SHOPENHAUER, A. Aforismos para a sabedoria da vida. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
NASCIMENTO, I. S. A metafísica da vontade em Schopenhauer. Revista Lampejo, Fortaleza, v. 1, n.° 8, p. 1-15, 2015.
Disponível em: [Link] Vontade.
pdf. Acesso em: 7 set. 2018.
SCHOPENHAUER, A. Aforismos para a sabedoria da vida. Tradução de Jair Barboza. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
STRATHERN, P. Schopenhauer em 90 minutos. Tradução de Maria Helena Geordane. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
_________ . Kierkegaard em 90 minutos. Tradução de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
ABRÃO, B. S. (Org.). História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
NIETZSCHE, F. W. Assim falava Zaratustra. [Link], 2002 (fonte digital). Disponível em:
[Link] Acesso em: 6 out. 2018.
_________. A gaia ciência. Tradução de Antônio Carlos Braga. São Paulo: Escala, 2008.
STRATHERN, P. Nietzsche em 90 minutos. Tradução de Maria Helena Geordane. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
Audiovisuais
Blade Runner. Dir. Ridley Scott. Estados Unidos/Hong Kong: The Ladd Company, Shaw Brothers e Blade Runner
Partnership, 1982. 117 minutos.
Os Duelistas. Dir. Ridley Scott. Estados Unidos: Paramount, 1977. 100 minutos.
APOCALIPSE now. Dir. Francis Ford Copolla. Estados Unidos: Omni Zoetrope, 1979. 153 minutos.
2001, UMA odisseia no espaço. Dir. Stanley Kubrick. Estados Unidos/Reino Unido: Metro-Goldwyn-Mayer/Stanley
Kubrick Productions, 1968. 142 min.
Créditos das imagens
Figura 3. Disponível em: [Link] Acesso em: 7 nov. 2018.
– 133
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1. – Sentimos que toda satisfação de nossos 2. (Concurso de Provas e Títulos, com modificações)
desejos advinda do mundo assemelha-se à – A angústia é uma experiência cujo manejo é objeto
esmola que mantém hoje o mendigo vivo, porém frequente de intervenção do psicólogo hospitalar.
prolonga amanhã a sua fome. A resignação, ao contrário, Kierkegaard preocupa-se em mostrar como a existência
assemelha-se à fortuna herdada: livra o herdeiro para está centrada na angústia e como a partir dela se
sempre de todas as preocupações. desdobram outras experiências que levam o indivíduo ao
(A. Schopenhauer. Aforismo para a sabedoria da vida. reconhecimento de si mesmo.
São Paulo: Martins Fontes, 2005.) Em relação à angústia, verifique as afirmações a seguir:
I. A possibilidade de fazer escolhas marca o ser humano,
O trecho destaca uma ideia remanescente de uma trazendo-lhe angústia e sofrimento.
tradição filosófica ocidental, segundo a qual a felicidade se II. A angústia dá ao ser humano a percepção de sua
mostra indissociavelmente ligada à própria finitude e da impossibilidade de alcançar a
a) consagração de relacionamentos afetivos. perfeição e a completude.
b) administração da independência interior. III.A angústia resulta de o ser humano perceber que pode
c) fugacidade do conhecimento empírico. fazer escolhas que podem ser ou não bem-sucedidas.
d) liberdade de expressão religiosa.
e) busca de prazeres efêmeros. Está correto o que se afirma em:
a) I, apenas.
b) II e III, apenas.
c) III, apenas.
d) I e III, apenas.
e) I, II e III.
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3. – A filosofia grega parece começar com uma 4 (UNESP) – Em algum remoto rincão do sistema solar
ideia absurda, com a proposição: a água é a cintilante em que se derrama um sem-número de
origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo sistemas solares, havia uma vez um astro em que animais
necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto
razões: em primeiro lugar, porque essa proposição mais soberbo e mais mentiroso da história universal: mas
enuncia algo sobre a origem das coisas, em segundo também foi somente um minuto. Passados poucos
lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e enfim, em fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais
terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de inteligentes tiveram de morrer. – Assim poderia alguém
crisálida, está contido o pensamento: Tudo é um. inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado
suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico
O que, de acordo com Nietzche, caracteriza o surgimento e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto
da filosofia entre os gregos? humano dentro da natureza. Houve eternidades em que
a) O impulso para transformar, mediante justificativas, os ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada
elementos sensíveis em verdades racionais. terá acontecido. Ao contrário, ele é humano, e somente
b) O desejo de explicar, usando metáforas, a origem dos seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como
seres e das coisas. se os gonzos do mundo girassem nele. Mas se pudésse-
c) A necessidade de buscar, de forma racional, a causa mos entender-nos com a mosca, perceberíamos então
primeira das coisas existentes. que também ela boia no ar (...) e sente em si o centro
d) A ambição de expor, de maneira metódica, as voante desse mundo.
diferenças entre as coisas. (Nietzsche. O livro das citações, 2008.)
e) A tentativa de justificar, a partir de elementos
empíricos, o que existe no real. Sobre este texto, é correto afirmar que:
a) seu teor acerca do lugar da humanidade na história do
universo é antropocêntrico.
b) o autor revela uma visão de mundo cristã.
c) o autor apresenta uma visão cética acerca da
importância da humanidade na história do universo.
d) ao comparar a vida humana com a vida de uma mosca,
Nietzsche corrobora os fundamentos de diversas
teologias, não se limitando ao ponto de vista cristão.
e) para o filósofo, a vida humana é eterna.
– 135
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5. (UNESP) – Jamais um homem fez algo apenas para 6. (ENADE) – A filosofia grega parece começar com uma
outros e sem qualquer motivo pessoal. E como poderia ideia absurda, com a proposição de que a água é a origem
fazer algo que fosse sem referência a ele próprio, ou seja, e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário
sem uma necessidade interna? Como poderia o ego agir deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões:
sem ego? Se um homem desejasse ser todo amor como em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo
aquele Deus, fazer e querer tudo para os outros e nada sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque faz
para si, isto pressupõe que o outro seja egoísta o bastante sem imagem e fabulação; e, enfim, em terceiro lugar,
para sempre aceitar esse sacrifício, esse viver para ele: porque nela, embora apenas em estado de crisálida, está
de modo que os homens do amor e do sacrifício têm contido o pensamento: "Tudo é um". A razão citada em
interesse em que continuem existindo os egoístas sem primeiro lugar deixa Tales ainda em comunidade com os
amor e incapazes de sacrifício, e a suprema moralidade, religiosos e supersticiosos, a segunda tira-o dessa
para poder subsistir, teria de requerer a existência da sociedade e no-lo mostra como investigador da natureza,
imoralidade, com o que, então, suprimiria a si mesma. mas, em virtude da terceira, Tales se torna o primeiro
(Friedrich Nietzsche. Humano, demasiado humano, filósofo grego.
2005. Adaptado.) (F. Nietzsche. Crítica moderna. In: Os pré-socráticos.
Trad. Rubens Rodrigues Torres. São Paulo: Nova
A reflexão do filósofo sobre a condição humana apresenta Cultural, 2004, p. 43. Adaptado.)
pressupostos
a) psicológicos, baseados na crítica da inconsistência De acordo com o texto acima, Tales de Mileto chegou à
subjetiva da moral cristã. preposição "Tudo é um", que traz consigo
b) cartesianos, baseados na ideia inata da existência de a) um postulado metafísico.
Deus na substância pensante. b) uma hipótese científica.
c) estoicistas, exaltadores da apatia emocional como ideal c) um preceito mítico e religioso.
de uma vida sábia. d) um postulado existencial.
d) éticos, defensores de princípios universais para e) um preceito crítico reflexivo.
orientar a conduta humana.
e) metafísicos, uma vez que é alicerçada no mundo
inteligível platônico.
136 –
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Observação:
O materialismo histórico dialético buscou compreender a história a partir dos seus elementos materiais,
representados pelos meios de produção; assim, a apropriação dos meios de produção por parte dos capitalistas os
colocava em oposição ao proletariado, que só possuía a sua força de trabalho para vender no mercado, da mesma
forma como qualquer outra mercadoria era vendida. De forma dialética (ou seja, de forma a contrapor tese e antítese,
fazendo surgir algo novo, a síntese), o conflito entre as classes sociais (capitalistas versus proletariado) faria surgir
um novo modo de produção no qual não haveria propriedade privada dos meios de produção e, portanto, não haveria
exploração da mão de obra pelos capitalistas.
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contradição em destaque no campo da filosofia. “Ao afir- O segundo e o terceiro período transcorrem ao tempo
mativo e positivo kantianos, Hegel responde com a dialé- da ascensão de Hitler ao poder. Segundo Mogendorff
tica, o pensamento do negativo, da contradição que não (2012), neste momento, a designação "teoria crítica"
separa sujeito e objeto, natureza e cultura. [...] As coisas são (assim utilizada pelos pensadores do Instituto para
e não são ao mesmo tempo” (MATOS, 2005, p. 21). Por designar sua proposta teórica) funcionava como uma
sua vez, Marx trouxe a dialética para o campo das condições espécie de camuflagem para a teoria marxista. Essa era
materiais de produção. O mundo econômico passou a ser uma precaução necessária: o nazismo havia proclamado
a base da análise porque a totalidade social era, “antes de a existência de inúmeros inimigos do povo, dentre eles
mais nada, relação entre os homens que produzem seus os comunistas (seguidores de Marx) e os judeus (que,
meios de subsistência” (MATOS, 2005, p. 21). acreditava-se, eram também comunistas). Aliás, todo e
qualquer intelectual que não aderisse ao ideário nazista
era considerado inimigo do Estado e, portanto, sujeito a
Observação: perseguições e à morte nos campos de concentração.
As influências que moldaram o pensamento dos Em especial, era insuportável ao regime nazista a ideia de
filósofos de Frankfurt não se limitaram a Kant, Hegel que o proletariado devesse acelerar o processo de
e Marx. A filosofia desses pensadores era também destruição do capitalismo por meio da revolução. Tal
herdeira de Freud: Erich Fromm (1900-1980), por perspectiva e a defesa dessas ideias eram inconcebíveis,
exemplo, buscou associar a psicanálise freudiana às daí a preocupação dos pensadores da Escola de Frankfurt
ideias marxistas, concebendo novas perspectivas em esconder a influência de Marx nos seus trabalhos.
para a psicologia social. O regime nazista acabou por provocar a mudança do
Instituto para Nova York, nos Estados Unidos. O êxodo
de intelectuais alemães em direção à América foi a saída
Para Mogendorff (2012), a teoria crítica pode ser encontrada para a sobrevivência (apenas Walter Benjamin
dividida em três períodos distintos: acabou por sucumbir, como falaremos mais adiante).
a) primeiro período (anos iniciais): materialismo Assim, terminada a Segunda Guerra Mundial, e sob a
interdisciplinar, focado na pesquisa embasada por influência dos anos dourados que se seguiram à rendição
uma teoria social que tinha como base a crítica da da Alemanha e ao fortalecimento hegemônico dos
economia política marxista, aliando teoria filosófica Estados Unidos, os filósofos da Escola de Frankfurt tam-
à prática científica e seguindo uma junção entre bém buscaram refletir amplamente sobre a sociedade de
“pesquisa social, análise crítica e ação revolucio- consumo.
nária”; O projeto iluminista fracassara. Afinal, como, apesar
dos ideais iluministas, o mundo havia mergulhado em
b) segundo período (1940-1951): a problemática
tamanha barbárie? Se os ideais iluministas preconizavam
passa a ser vista sob a ótica de uma "crítica da
a liberdade do homem, a não subjugação do homem pelo
razão moderna";
outro, como tamanha catástrofe fora possível? Talvez
c) terceiro período: ocorre a retomada do projeto fosse justamente essa a função da indústria cultural:
inicial de uma “ciência social crítica” servir como válvula de escape ao reconhecimento de que
(MOGENDORFF, 2012, p. 154). a razão, embora tivesse a intenção de tirar o homem da
barbárie, nada mais fazia do que perpetuar esse destino.
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A questão da arte e da sua função social foi um dos O sistema cartesiano havia fundamentado o ideal da
temas a respeito dos quais os filósofos da Escola de ciência a partir da dedução, procedimento que permitia
Frankfurt se debruçaram, dentre eles Walter Benjamin, que preposições pudessem ser derivadas de algumas
Max Horkheimer, Theodor W. Adorno e Jürgen Habermas. outras poucas. Quanto menor o número de princípios
Os múltiplos interesses dos pensadores de gerais, mais completa a teoria. Ainda, essa concepção
Frankfurt e o fato de não constituírem uma escola tradicional possibilitava a utilização operativa das suas
no sentido tradicional do termo, mas uma postura teorias, bem como sua aplicabilidade prática. No entanto,
de análise crítica e uma perspectiva aberta para essa perspectiva impunha à atividade científica limitações
todos os problemas da cultura do século XX, torna significativas:
difícil a sistematização de seu pensamento. Pode- Em outros termos, a teoria tradicional não se
se, no entanto, salientar alguns de seus temas, ocupa da gênese social dos problemas, das
chegando-se a compor um quadro de suas prin- situações reais nas quais a ciência é usada e dos
cipais ideias. De Walter Benjamin, devem-se escopos para os quais é usada. Chega-se, assim,
destacar reflexões sobre as técnicas de repro- ao paradoxo de que a ciência tradicional, exata-
dução da arte, particularmente do cinema, e as mente porque pretende o maior rigor – para que
consequências sociais e políticas resultantes; de seus resultados alcancem a maior aplicabilidade
Adorno, o conceito de “indústria cultural” e a prática –, acaba por se tornar mais abstrata, muito
função da obra da arte; de Horkheimer, os funda- mais estranha a realidade [...] do que a teoria
mentos epistemológicos da posição filosófica de crítica. Esta, dando relevância social à ciência, não
todo o grupo de Frankfurt, tal como se encontram conclui que o conhecimento deva ser pragmático;
formulados em sua “teoria crítica”; e, finalmente, ao contrário, favorece a reflexão autônoma,
de Habermas, as ideias sobre a ciência e a técnica segundo a qual a verificação prática de uma ideia
como ideologia (ARANTES, 1983, p. XI). e sua verdade não são coisas idênticas
(ARANTES, 1983, p. XVI).
2. Max Horkheimer (1895-1973)
A teoria crítica propunha, assim, que os dados da
É de Horkheimer a obra que reúne as principais realidade deveriam ser analisados em função do caráter
concepções filosóficas da Escola de Frankfurt, e a base histórico do objeto percebido e do caráter histórico de
dessa filosofia é Marx. Na verdade, a obra de Horkheimer, quem o vê. Tal perspectiva significava rejeitar o subje-
Teoria Tradicional e Teoria Crítica, de 1937, marcou a tivismo, mas, por outro lado, haveria que se rejeitar
gênese da Escola de Frankfurt. Horkheimer tomou como também o positivismo, cujo único critério de verdade era
ponto de partida a teoria tradicional, simbolizada por o valor operativo de seus princípios, e da capacidade de
Descartes: nesta, “tudo que é contraditório é impensável estes dominarem o homem e a natureza.
porque confuso; o contraditório é, assim, sinônimo de
‘irracional’. [Em contrapartida, a teoria crítica] põe em
suspenso qualquer juízo sobre o mundo, para sua prévia Observação:
interrogação” (MATOS, 2005, p. 20). O positivismo, escola inaugurada por Auguste
Comte (1798-1857), buscou nas ciências naturais o
Observação: modelo perfeito do conhecimento humano. Esse
Para René Descartes (1596-1650), a razão era única modelo requeria a experimentação como base e
fonte do conhecimento seguro. “Pode-se duvidar rejeitava as especulações metafísicas (reflexões não
da existência do mundo: talvez ele não passe de vinculadas às experiências sensíveis) ou teológicas
uma ficção; pode-se duvidar da existência do corpo (explicações religiosas associadas à ideia de um ser
ou se estamos acordados ou sonhando” (MATOS, criador do homem e da realidade).
2005, p. 18). Só não podemos duvidar de que,
quando duvidamos, estamos pensando. Cogito,
ergo sum: penso, logo existo. É possível duvidar Os positivistas desobrigavam-se de refletir sobre os
de tudo, exceto do fato de que o sujeito pensante critérios de racionalidade ou justiça de um sistema
está pensando. Dessa forma, o pensamento era a econômico ou político, sugerindo apenas a resignação.
garantia do estabelecimento da verdade, já que por De forma oposta, a teoria crítica levaria em consideração
meio dele era possível chegar à dedução mate- o percurso histórico dos homens, vivendo sob deter-
mática, decompor fenômenos em partes e com- minadas condições e com a ajuda dos seus instrumentos
preender o mundo. de trabalho. O que Horkheimer pretendia, portanto, era
uma ciência que se opusesse ao totalitarismo e à razão
instrumental.
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Finalmente, Habermas conclui: ao longo do tempo, os Tivesse nascido e vivido em outra época, Benjamin
atos comunicativos fortaleceram a necessidade de teria nos deixado um vasto e imenso repertório de obras
entendimento. Como é possível obter esse entendimento? e ideias; no entanto, aquele era um tempo marcado por
Por meio do consenso, no qual cada vez mais a comuni- esperanças revolucionárias e decepções históricas. Em
cação torna-se independente de normas, e a partir do qual 1940, um grupo de filósofos tentou escapar da Alemanha.
se busca uma comunicação imparcial que respeite e Na fronteira entre a França e a Espanha, um deles, de
transcenda as opiniões de todos os indivíduos envolvidos, ascendência judaica e sob intenso estresse, não resistiu
sem que haja qualquer tipo de coerção externa ou interna. à tensão psicológica e se suicidou.
O fato poderia ser visto apenas à luz da psicologia
4. Walter Benjamin (1892-1940) individual, mas na verdade transcende esses limites
e adquire dimensão social e cultural mais ampla. O
Kant foi o ponto de partida de Walter Benjamin: “o intelectual em questão era Walter Benjamin, um
ato da crítica era visto por ele como um meio de crítica de dos principais representantes da chamada Escola
todo o sistema cultural e de sua base econômica” de Frankfurt (ARANTES, 1983, p. VII).
(SELIGMANN-SILVA, 2010, apud MOGENDORFF, 2012,
p. 155). Para Benjamin, a reflexão ocorria em cinco atos: O nazismo lograra fazer mais uma vítima, dessa vez
refletia-se a respeito de si mesmo, refletia-se a respeito um intelectual cuja maneira de ser indicava muito mais o
da obra em observação, refletia-se sobre a história da arte temperamento artístico do que a frieza de um filósofo.
e da literatura, refletia-se sobre a sociedade e, finalmente, Seu pensamento parecia nascer de um impulso de
refletia-se sobre a teoria da história. natureza artística que, transformado em teoria – como diz
A obra de arte, e em especial sua reprodutibilidade, ainda Adorno – "liberta-se da aparência e adquire incom-
era a grande preocupação de Benjamin. Para o filósofo, parável dignidade: a promessa de felicidade" (ARANTES,
as obras de arte eram objetos individualizados, únicos. 1983, p. IX).
Mas, o progresso técnico havia permitido que elas fos-
sem reproduzidas. A aura, esse atributo especial das 5. Theodor W. Adorno (1903-1969)
obras de arte, então, desaparecia em meio a tantas
cópias. O cinema, em particular, configurava-se como a Embora Adorno devesse a maior parte de suas
mídia em que era mais nítida a materialização da perda da reflexões a Benjamin, ele considerava seu colega por
aura e da constituição de uma nova relação entre o demais otimista e ingênuo. Para Adorno, ao reproduzir a
público e a obra de arte. Nesse sentido, o filósofo consi- arte, a técnica passaria a exercer um imenso poder; no
derava que o cinema, entanto, esse poder emanaria daqueles que a arquite-
ao substituir o espaço onde o homem age cons- taram, ou seja, os economicamente mais poderosos da
cientemente por outro onde sua ação é incons- sociedade. "Em decorrência, a racionalidade da técnica
ciente, possibilita a experiência do inconsciente identifica-se com a racionalidade do próprio domínio"
visual, do mesmo modo que a prática psicanalítica (ARANTES, 1983, p. XII). Nesses termos, a técnica, ao
possibilita a experiência do inconsciente instintivo. reproduzir a arte, não estava contribuindo para uma mu-
Exibindo, assim, a reciprocidade de ação entre a dança drástica do mundo; ao contrário, apenas reforçava
matéria e o homem, o cinema seria de grande o caráter de exploração e exclusão dos mais fracos.
valia para um pensamento materialista. Adaptado A exploração dos bens culturais constituía a indústria
adequadamente ao proletariado que se prepararia cultural. Para Adorno, a indústria cultural
para tomar o poder, o cinema tornar-se-ia, em ao aspirar à integração vertical de seus consu-
consequência, portador de uma extraordinária midores, não apenas adapta seus produtos ao
esperança histórica (ARANTES, 1983, p. XI). consumo das massas, mas, em larga medida,
determina o próprio consumo. Interessada nos
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Os meios de comunicação não promoveriam qual- Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra
quer democratização da cultura: afinal, eles estavam a a qual se dirige toda a educação. Fala-se da
serviço da indústria que transformava a arte em produção ameaça de uma regressão à barbárie. Mas não se
mercantilizada. “A cultura de mercado seria nada mais do trata de uma ameaça, pois Auschwitz foi a regres-
que uma forma de controle social” (MOGENDORFF, são; a barbárie continuará existindo enquanto
2012, p. 156). E, mais importante: a questão principal não persistirem no que têm de fundamental as condi-
dizia respeito a ser contra ou a favor da técnica ou das ções que geram esta regressão. É isto que
manifestações culturais realizadas por meia dessa. A apavora. Apesar da não visibilidade atual dos
dialética era o instrumento ideal para analisar essa ques- infortúnios, a pressão social continua se impondo.
tão, já que a própria modernidade tinha como caracte- Ela impele as pessoas em direção ao que é indes-
rística principal o caráter contraditório. critível e que, nos termos da história mundial,
Contraditório e bárbaro: as circunstâncias da morte culminaria em Auschwitz. Dentre os conhecimen-
de Benjamin, que tanta influência exercera sobre a sua tos proporcionados por Freud, efetivamente rela-
obra, e o desnudamento do horror nos campos de cionados inclusive à cultura e à sociologia, um dos
concentração nazistas inspiraram Adorno na formulação mais perspicazes parece-me ser aquele de que a
de uma pergunta muito simples: era possível fazer poesia civilização, por seu turno, origina e fortalece pro-
depois de Auschwitz? Como era possível comer, amar e gressivamente o que é anticivilizatório. Justa-
admirar o céu depois de Auschwitz? Como refletir sobre mente no que diz respeito a Auschwitz, os seus
o indizível e absurdamente incompreensível? ensaios O mal-estar na cultura e Psicologia de
massas e análise do eu mereceriam a mais ampla
divulgação. Se a barbárie encontra-se no próprio
Observação: princípio civilizatório, então pretender se opor a
Auschwitz foi um campo de concentração localizado isso tem algo de desesperador. A reflexão a res-
no sul da Polônia. Construído pelos nazistas, ele é peito de como evitar a repetição de Auschwitz é
tido como o maior dos campos de concentração obscurecida pelo fato de precisarmos nos cons-
construídos para aprisionar e assassinar os inimigos cientizar desse elemento desesperador, se não
do regime de Hitler. Estima-se que aproximada- quisermos cair presas da retórica idealista. Mes-
mente 1,3 milhão de judeus, poloneses e prisio- mo assim é preciso tentar, inclusive porque tanto
neiros soviéticos tenham sido exterminados no a estrutura básica da sociedade como os seus
campo, entre 1940 e 1945. membros, responsáveis por termos chegado onde
estamos, não mudaram nesses vinte e cinco anos.
Milhões de pessoas inocentes — e só o simples
Como educar depois de Auschwitz? Essa é a fato de citar números já é humanamente indigno,
pergunta que Adorno se faz em Educação e Emanci- quanto mais discutir quantidades — foram
pação, obra que reuniu uma coletânea de textos, assassinadas de uma maneira planejada. Isto não
conferências e debates realizados por ele entre 1959 e pode ser minimizado por nenhuma pessoa viva
1969. Mais do que se perguntar a respeito de como como sendo um fenômeno superficial, como
educar depois de Auschwitz, Adorno parece querer saber: sendo uma aberração no curso da história, que
como evitar outro Auschwitz? não importa, em face da tendência dominante do
A exigência que Auschwitz não se repita é a progresso, do esclarecimento, do humanismo
primeira de todas para a educação. De tal modo supostamente crescente (ADORNO, p. 119/120).
ela precede quaisquer outras que creio não ser
possível nem necessário justificá-la. Não consigo Apenas a educação poderia impedir que Auschwitz
entender como até hoje mereceu tão pouca acontecesse novamente; seria inócuo apelar aos bons
atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em sentimentos dos opressores ou trazê-los à razão por meio
vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas a pouca do esclarecimento das qualidades positivas de suas
consciência existente em relação a essa exigência vítimas. A única coisa capaz de obstruir a barbárie era a
e as questões que ela levanta provam que a educação, e não apenas a educação infantil: seria
monstruosidade não calou fundo nas pessoas, necessário também uma educação que produzisse um
sintoma da persistência da possibilidade de que clima intelectual capaz de se opor ao horror. Autonomia,
se repita no que depender do estado de cons- tal como sugerido por Kant, e poder para a reflexão, a
ciência e de inconsciência das pessoas. Qualquer autodeterminação e a não participação: esses seriam os
debate acerca de metas educacionais carece de instrumentos para impedir outro Auschwitz.
significado e importância frente a essa meta: que
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Observação:
O neoliberalismo buscou dar uma nova interpretação ao liberalismo inglês dos séculos XVII e XVIII, período em que
a Revolução Industrial destruiu os últimos alicerces do feudalismo que agonizava na maior parte da Europa. O
liberalismo clássico defendeu a autonomia dos agentes econômicos, a divisão do trabalho como origem da riqueza
e a necessária não intervenção do Estado na economia. Para os liberais, havia uma ordem natural que levava o
mundo ao equilíbrio, sendo contraproducente qualquer iniciativa do Estado no sentido de alterar ou normatizar as
relações entre os agentes econômicos. O neoliberalismo do século XX retomou essas ideias, dando a elas uma nova
roupagem, mas que, em essência, procurou combater o gigantismo do Estado, bem como sua intromissão na vida
econômica e nas relações sociais.
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da percepção de que havia censura moral e à liberdade acreditara na possibilidade de um mundo paradisíaco em
de expressão como pressupostos da revolução cultural que não houvessem diferenças sociais e que o homem
pretendida pelos seguidores da Escola de Frankfurt. não fosse explorado por outro. No século XXI, as dificul-
Aquela seria uma revolução que objetivava o controle da dades de governos de esquerda da América Latina (em
mentalidade e da visão política das pessoas, em especial especial, na Argentina, na Venezuela, na Colômbia, na
por meio do aparelhamento das instituições e das mani- Bolívia e no Brasil) e a ascensão, na Europa, de governos
festações culturais, artísticas e educacionais por elas apoiados por partidos de direita, contribuíam para o
emanadas. fortalecimento de correntes filosóficas mais conserva-
A desilusão de parte das esquerdas também foi deve- doras. Assim, as ideias da Escola de Frankfurt passaram
dora dos modelos autoritários que governos socialistas a ser combatidas por inúmeros filósofos, dos quais desta-
adotaram ao longo do século XX, tais como Cuba, a União cam-se os britânicos G. K. Chesterton (1874- 1936) e
Soviética e a Coreia do Norte. Notícias de perseguições a Roger Scruton (1944- ), a russa Ayn Rand (1905-1982) e o
opositores políticos e de manutenção de fronteiras vigia- francês Raymond Aron (1905-1983).
das para que cientistas, artistas e cidadãos comuns não Para Aron, o marxismo criara regimes totalitários e se
fugissem transformaram em sombras as antigas utopias transformara em ópio para os intelectuais. Para o filósofo,
socialistas e comunistas. Ao final da década de 1980, o o ideário de esquerda funcionava quase como uma droga,
golpe final no ideário de esquerda materializou-se na fazendo com que se continuasse a acreditar no sistema
queda do Muro de Berlim, que desde o final da Segunda comunista mesmo quando as evidências mostravam que
Guerra Mundial separava o lado ocidental (capitalista) do o sistema capitalista era o único capaz de gerar riqueza e
lado oriental (comunista) da capital da Alemanha. proteger as liberdades individuais. Dentro dessa mesma
O fim da União Soviética e a adesão da China comu- perspectiva, esses filósofos (conhecidos como filósofos
nista ao projeto econômico capitalista abalaram forte- conservadores ou de direita) voltaram a defender princí-
mente os alicerces dos movimentos filosóficos alinhados pios caros ao liberalismo, agora a partir do contexto do
ao pensamento de Marx. O neoliberalismo defendido por final do século XX, vários deles associados a valores reli-
Ronald Reagan e Margareth Thatcher provocava novas giosos, à autonomia individual, à liberdade de expressão,
reflexões, em particular quanto aos resultados obtidos à meritocracia (ou seja, à competência do ser humano
pelos governos que haviam adotado o comunismo ou o como medida para a obtenção de benefícios e de rele-
socialismo. vância no corpo social) e ao próprio sistema capitalista,
Esse era um cenário totalmente distinto daquele do simultaneamente a críticas ao marxismo, ao coletivismo
final do século XIX e início do século XX, quando se e à burocracia estatal.
Referências do módulo 14
Audiovisuais
O ELEITO (The Chosen). Dir. Antonio Chavarrías, México: 2016. 127 minutos.
Textuais
ABRÃO, B. S. (Org.). História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
ADORNO, Theodor W. Educação após Auschwitz. In: Educação e Emancipação. Tradução de Wolfgang Leo Maar. São
Paulo: Paz e Terra, 2003.
ARANTES, Paulo Eduardo. Vida e obra. In Textos escolhidos/Walter Benjamin, Max Horkheimer, Theodor W. Adorno,
Jürgen Habermas. Trad. José Lino Grunnewald et al. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Coleção Os Pensadores).
MATOS, Olgária C. F. A Escola de Frankfurt: luzes e sombras do Iluminismo. São Paulo: Moderna, 2005. (Coleção logos)
MOGENDORFF, Janine Regina. A Escola de Frankfurt e seu legado. Verso e Reverso, v. 26, n. 63, p. 152-159, 2012.
Disponível em: [Link] Acesso em:
14 nov. 2018.
PINTO, José Marcelino de Rezende. A teoria da ação comunicativa de Jürgen Habermas: conceitos básicos e
possibilidades de aplicação à administração escolar. Paideia (Ribeirão Preto), Ribeirão Preto, n. 8/9, p. 77-96, 1995.
Disponível em: [Link] script=sci_arttext&pid=S0103-863X1995000100007. Acesso em: 16
nov. 2018.
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1. (UFPA) – “Originalmente concebida e acionada para 2. (UEL) – Sobre a crítica frankfurtiana à concepção
emancipar os homens, a moderna ciência está hoje a positivista de ciência e técnica, é correto afirmar que a
serviço do capital, contribuindo para a manutenção das racionalidade técnica
relações de classe. A ciência e a técnica nas mãos dos I. dissocia meios e fins e redunda na adoração fetichista
poderosos [...] controlam a vida dos homens, subjuga-os de seus próprios meios.
ao interesse do capital. A produção de bens segue uma II. constitui um saber instrumental cujo critério de verdade
lógica técnica, e não a lógica das necessidades reais dos é o seu valor operativo na dominação do homem e da
homens”. natureza.
FREITAG, B. A teoria crítica ontem e hoje, III. aprimora a ação do ser humano sobre a natureza e
São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 94. resgata o sentido da destinação humana.
IV. incorpora a reflexão sobre o significado e sobre os fins
A autora nos apresenta a visão da Escola de Frankfurt da ciência no contexto social.
acerca do papel desempenhado pela ciência e pela
tecnologia na moderna economia capitalista. Sobre este Assinale a alternativa correta.
papel, considere as afirmativas abaixo: a) Somente as alternativas I e II são corretas.
I. A ciência e a técnica, além de serem forças b) Somente as alternativas I e IV são corretas.
produtivas, funcionam como ideologias para legitimar c) Somente as alternativas III e IV são corretas.
o sistema capitalista. d) Somente as alternativas I, II e III são corretas.
II. Nas mãos do poder econômico e político, a tecnologia e) Somente as alternativas II, III e IV são corretas.
e a ciência são empregadas para impedir que as
pessoas tomem consciência de suas condições de
desigualdade.
III. A dimensão emancipadora e crítica da racionalidade
moderna foi valorizada na economia capitalista, pois
muitas das reivindicações dos trabalhadores foram
atendidas a partir do advento da tecnologia.
IV. Na economia capitalista, produz-se com eficácia o que
dá lucro e não aquilo de que os homens necessitam e
gostariam de ter ou usar.
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Pouco mais de trinta anos separaram essa guerra de A fenomenologia de Husserl havia proposto não
outra, também de proporções mundiais, e nações de apenas um novo método de construir o conhecimento (por
todos os continentes foram arrastadas para os conflitos meio da consciência livre das amarras da razão e da
na Europa e na Ásia. Esta última guerra, de dimensões empiria, ou seja, por meio da imaginação e da intuição),
avassaladoras, fez ruir a esperança de que a cultura e a mas uma nova ontologia: os objetos e os fenômenos da
erudição fossem capazes de conter a barbárie: afinal, o natureza eram o que nosso inconsciente, ou nossa
assassinato de milhões de pessoas em câmaras de gás e “consciência pura”, era capaz de apreender do mundo real.
em campos de extermínio poderia ser obra de qualquer
um, menos de um povo que bebera das águas de
Observação:
Nietzsche, Kant e Leibniz.
Este contexto favoreceu o desenvolvimento da A ontologia diz respeito ao estudo daquilo que
fenomenologia e do existencialismo, e também criou define, na essência, um ser ou um objeto. Faça um
ambiguidades, tendo sido Martin Heidegger um exemplo exercício mental, tentando pensar numa flor. Se
perfeito do terreno pantanoso que havia sido criado no cada um de nós fizer isso, cada um de nós pensará
campo das ideias e das práticas políticas: inteligência numa determinada flor; no entanto, haverá algo em
ímpar e aprendiz de Husserl (fundador da fenomenologia), comum nas nossas diversas representações de flor.
Heidegger mostrou imensa simpatia em relação aos Independentemente da flor na qual estivermos
ideais nazistas, o que, certamente, manchou a sua obra e pensando, do seu formato ou tamanho, haverá algo
fez com que, em tempos posteriores, ele fosse visto comum nas nossas flores, qual seja, a sua essência.
sempre com alguma reserva. É dessa essência que se ocupa a ontologia.
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Husserl foi professor de Heidegger, e este sucedeu o aos pré-socráticos para formular o problema do Ser? Se
mestre na sua posição de titular na Universidade de voltarmos no tempo, veremos que a filosofia anterior a
Freiburg. No entanto, Heidegger foi além: sua intenção Sócrates, Platão e Aristóteles tinha como um de seus
não era apenas a de dar continuidade à ontologia fenome- focos justamente a questão do Ser.
nológica, na qual os objetos e o mundo real existiam como Para Heráclito, o mundo estava em constante trans-
haviam sido pensados. Segundo Chauí (2002, p. 238), formação: nada permanecia igual, tudo fluía continua-
Vimos que a palavra ontologia deriva do particípio mente e os contrários estavam sempre em conflito; em
presente do verbo queinai (ser), isto é, de on outras palavras, a mudança e a contradição eram
(ente) e onta (entes), dos quais vem o substantivo condições da existência do Ser. Em oposição, Parmênides
to on: o Ser. O filósofo alemão Heidegger propõe
defendia que a essência do Ser era imutável; apenas as
distinguir duas palavras: ôntico e ontológico.
aparências sofriam a ação do tempo e, por isso, o mundo
Ôntico se refere à estrutura e à essência própria
de um ente, aquilo que ele é em si mesmo, sua
sensível era apenas ilusão.
identidade, sua diferença em face de outros Como vocês podem perceber, Heráclito e Parmênides
entes, suas relações com outros entes. Ontoló- se perguntavam a respeito da existência da realidade, do
gico se refere ao estudo filosófico dos entes, à que caracterizava a existência do real, se a transformação
investigação dos conceitos que nos permitam fazia parte dela ou se a permanência era o que a definia.
conhecer e determinar pelo pensamento em que Essas questões seriam fundamentais caso a intenção
consistem as modalidades ônticas, quais os fosse entender o quanto o mundo poderia ser apreendido
métodos adequados para o estudo de cada uma por meio do conhecimento. Se o mundo se transformava
delas, quais as categorias que se aplicam a cada
constantemente, como construir um conhecimento
uma delas. Em resumo: ôntico diz respeito aos
seguro sobre ele? E, caso ele não mudasse, seria possível
entes em sua existência própria; ontológico diz
respeito aos entes tomados como objetos de que nossa razão o compreendesse de forma única e
conhecimento. Como existem diferentes esferas definitiva?
ou regiões ônticas, existirão ontologias regionais Essas questões, de cunho ontológico, foram, em grande
que se ocupam com cada uma delas. parte, abandonadas por Sócrates, Platão e Aristóteles.
Sócrates fez a defesa da dúvida como método (“só sei
É a partir dessa diferença que Heidegger quer iniciar que nada sei”). Platão, por sua vez, dividiu o mundo em
sua ontologia. A ontologia que ele pretende desenvolver dois planos: o das ideias e o das coisas. As ideias eram
tem a ambição de superar essas duas posições, ou seja, imutáveis, enquanto as coisas se transformavam. Aristó-
resolver o problema Heráclito-Parmênides, Platão- teles ignorou a divisão platônica: havia um mundo a res-
Aristóteles, medievais e modernos, Kant e peito do qual poderíamos construir um conhecimento
Husserl. Como resolver um problema milenar seguro. Mais tarde, os medievais e os modernos haviam
como esse e que se tornara o eixo central da discordado em relação ao determinismo divino, que tudo
própria história da metafísica e da ontologia?
podia conceber e comandar: havia uma ordem natural no
(CHAUÍ, 2002, p. 241).
mundo, planejada por Deus e por seus desígnios, ou havia
uma realidade possível de ser compreendida por meio de
Artes Gráficas – Objetivo
Para Heidegger, a filosofia ocidental havia cometido mundo nem fora dele; não somos os criadores do
um erro ao declinar do estudo do ser. Isto mundo e sim seus habitantes. Damos sentido ao
havia reduzido a humanidade a uma superficia- mundo, transformamos as coisas, criamos
lidade em que ela mal tinha noção do que signifi- utensílios, obras de arte, instituições sociais, mas
cava ser. Tornara-se desatenta às propriedades não criamos o próprio mundo. Sem a consciência,
inerentes à noção total do ser. A humanidade não há mundo para nós. Sem o mundo, não temos
moderna vivia uma vida destituída de qualquer como conhecer nem agir.
consciência essencial do que sua existência
significava. Sua existência, ou “condição de ser”,
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perdera toda a sua profundidade, já não tinha
nenhuma ressonância. O próprio conhecimento da
“condição de ser” da humanidade evaporara em
meio a uma confusão de conhecimento científico
e tecnológico (STRATHERN, 2004, p. 14).
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floresta. Limpamos a mata cerrada e a vegetação
rasteira de modo que a luz possa se irradiar no
terreno da clareira. A palavra alemã lichtung, que
significa “clareira”, contém a palavra licht, que
significa “luz”. Espalhamos luz sobre o terreno
limpo que está oculto sob o que é imediatamente
aparente. Expomos seu substrato, que é assim
“desvelado” (STRATHERN, 2004, p. 22).
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caminho para alcançar a essência do homem, ou seja, francesa. Socialistas e comunistas disseminavam suas
para alimentar o que é acidental e fortuito (e que, ideias, mas Sartre buscou manter-se distante de polê-
artificialmente, foi introduzido nas nossas vidas por meio micas sobre esses temas.
do desenvolvimento tecnológico), é assumir a morte Essa recusa de Sartre em se envolver com política
como fim da existência humana. Se pensarmos na morte, durou até a Segunda Guerra Mundial, quando o filósofo
conseguimos abolir tudo aquilo que não é essencial, que resolveu se juntar à Resistência Francesa. Posterior-
é provisório e acidental. mente, abraçou o comunismo e o marxismo. Ao lado da
Ao apreender a "finitude de nossa existência", filósofa Simone de Beauvoir, formou um dos casais mais
libertamo-nos da "multiplicidade de possibilidades" icônicos do século XX. Agraciado com o Nobel de
superficial que a vida nos apresenta. Evitando Literatura em 1964, recusou-se a receber o prêmio, para
coisas como o conforto e a vida fácil, e não
escândalo de todos.
ignorando a questão da morte, podemos "trazer o
A filosofia do século XX havia colocado o sujeito no
Dasein para a simplicidade de seu destino". Na
angústia, ou na culpa desassossegante, ou na
centro do processo de produção do conhecimento e de
perspectiva cruel da morte, o ser do Dasein nos é representação da realidade. No entanto, pairava a per-
revelado (STRATHERN, 2004, p. 24). gunta: quem era esse sujeito e o quão finito e limitado
ele era?
É importante fazermos uma observação: esta O existencialismo respondeu a essa pergunta de
perspectiva da vida como via em direção a um destino maneira clara: o homem era “’um ser para a morte’, isto
finito encontra explicação no vazio existencial da geração é, um ser que sabe que termina e que precisa encontrar
que sobreviveu à Primeira Guerra Mundial. Depois de em si mesmo o sentido de sua existência” (CHAUÍ, 2002,
toda aquela mortandade, depois do colapso do mundo p. 53). Como enfrentar a finitude? Sartre responde: por
que existira até então, não é de se estranhar que uma meio da ação revolucionária e das artes. “Nessas formas
corrente filosófica propusesse a reflexão sobre o quanto excepcionais da atividade, os humanos seriam capazes
o pensamento a respeito da morte poderia revelar a de dar sentido à brevidade e finitude de suas vidas”
respeito da existência humana. Também não é de se (CHAUÍ, 2002, p. 53).
estranhar a influência que essas ideias causaram nos Como usufruir desse breve tempo de vida? Para
filósofos do período posterior à Segunda Guerra Mundial. Sartre, era necessário repudiar a fatalidade e o deter-
Essas ideias, em especial a de um ser humano que, para minismo: o primeiro representava o acaso, e o segundo,
fugir do tédio e da angústia existencial, deveria fazer a certeza de que “tudo já está escrito e não podia ser
escolhas livres, marcaram a geração de filósofos como mudado”. A crença na sorte e na contingência (o que
Jean-Paul Sartre (1905-1980) e Albert Camus (1913-1960). poderia ou não acontecer) esgarçava a vontade de lutar
pela liberdade, tal como explica Chauí (2002, p. 359).
Tomemos um exemplo da necessidade oposta à
Saiba mais liberdade: não escolhi nascer numa determinada
época, num determinado país, numa determinada
Albert Camus, argelino, participou da Resistência família, com um corpo determinado. As condições
Francesa (movimento que se opôs à ocupação nazista de meu nascimento e de minha vida fazem de
na França) e escreveu inúmeras peças de teatro, mim aquilo que sou e minhas ações, meus
novelas e ensaios. Pelo seu trabalho, recebeu o desejos, meus sentimentos, minhas intenções,
Prêmio Nobel de Literatura em 1957. Sugerimos a minhas condutas resultam dessas condições,
leitura de um de seus livros mais famosos, A Peste, nada restando a mim senão obedecê-las. Como
que narra os eventos em uma cidade na Argélia que se dizer que sou livre e responsável?
vê assolada por uma peste. A solidariedade entre os [...]
habitantes da cidade e os efeitos da peste servem de Tomemos, agora, um exemplo da contingência
oposta à liberdade. Quando minha mãe estava
instrumento para a discussão a respeito da existência
grávida de mim, houve um acidente sanitário,
humana e do destino do homem. Amigo próximo de
provocando uma epidemia. Minha mãe adoeceu.
Sartre, Camus rompeu com ele em função de
Nasci com problemas de visão. Foi por acaso que
divergências a respeito do comunismo soviético, a gravidez de minha mãe coincidiu com o acaso
combatido pelo escritor argelino, mas defendido pelo da epidemia: por acaso, ela adoeceu; por acaso,
filósofo francês. nasci com distúrbios visuais. Tendo tais distúrbios,
preciso de cuidados médicos especiais. No
entanto, na época em que nasci, o governo de
Jean-Paul Sartre viveu em uma época de intensa meu país instituiu um plano econômico de
atividade intelectual e artística, na qual os filósofos e redução de empregos e privatização do serviço
pensadores foram chamados a participar da vida política público de saúde. Meu pai e minha mãe ficaram
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desempregados e não podiam contar com o Sartre defendia: somos aquilo que fazemos. Em
serviço de saúde para meu tratamento. Tivesse eu outras palavras, a ação nos definia enquanto seres hu-
nascido em outra ocasião, talvez pudesse ter sido manos. Era uma
curada de meus problemas visuais. Quis o acaso filosofia pessoalmente envolvente — ou, para
que eu nascesse numa época funesta. Tal como os seus críticos, a teoria última da introspecção,
sou, há coisas que não posso fazer. Sou, porém, beirando o solipsismo (a crença de que só eu
bem dotada para música e poderia receber uma existo). Mas todos concordam que nas mãos de
educação musical. Porém, houve a decisão do Sartre o existencialismo se transformou numa
governo municipal de minha cidade de demolir o revolta contra os valores burgueses europeus
conservatório musical público. Não posso pagar arruinados pela Segunda Guerra. A burguesia
um conservatório particular e ficarei sem a (essencialmente a classe média) veio a repre-
educação musical, porque, por acaso, moro numa sentar tudo o que o existencialismo não era.
cidade que deixará de ter um serviço público de Impossível ser existencialista e burguês
educação artística. Morasse eu em outra cidade (STRATHERN, 1999, p. 10).
ou fosse outro o governo municipal, isso não
aconteceria comigo. Como, então, dizer que sou Muito do que veio a ser conhecido por existen-
livre para decidir e escolher, se vivo num mundo cialismo era devido à fenomenologia de Husserl. Afinal,
onde tudo acontece por acaso? Husserl havia resolvido a questão do empirismo versus o
[...]
racionalismo propondo uma terceira via para o alcance do
No primeiro exemplo – negra, mulher, pobre,
conhecimento: o inconsciente. O conhecimento só
numa sociedade racista, machista, classista –
parece que nada posso fazer. A porta está fechada
poderia ser construído "analisando-se o material bruto da
e a luz apagada. Porém, nada estará no poder de consciência, anterior às pressuposições e teorias que tão
minha liberdade? Terei que gostar do escuro e habitualmente lhe impomos” (STRATHERN, 1999, p. 26).
permanecer com a porta fechada? Se a ética Para Sartre, a contingência (a possibilidade de
afirmar que a discriminação étnica, sexual e de acontecer ou não) permeava a nossa vida, o que tornava
classe é imoral (isto é, violenta), se eu tiver o presente a única certeza possível. O existencialismo de
consciência disso, nada farei? Serei impotente Sartre era uma proposta de examinar a sua própria
para lutar livremente contra tal situação? Manten- existência, apesar das nossas limitações psicológicas e
do-me resignada, conformada, passiva e omissa emocionais, apesar dos percalços da realidade: devería-
não estarei fazendo da necessidade uma descul- mos ser capazes de agir, mesmo que cientes de que
pa, um álibi para não agir?
jamais conseguiríamos alcançar a liberdade total.
No segundo exemplo – epidemia, desemprego,
Segundo Strathern (1999, p. 35),
fim dos serviços públicos de saúde e educação
o existencialismo insiste em mergulhar a filosofia
artística – também parece que nada posso fazer.
na ação; assim, não é surpresa que pelo menos
Será verdade?
em parte pareça ser uma estratégia de vida. (Sabe-
[...]
se que isso é quase o mesmo que ser moralmen-
Nos dois casos, podemos indagar se, afinal, para
te coercivo, mas nesse estágio a ideia sartriana do
nós resta somente “a pena de viver, mais nada”
bem era suficientemente aberta para livrar seu
ou se, como escreveu o filósofo Sartre, o que
existencialismo da acusação de ser meramente
importa não é saber o que fizeram de nós e sim o
um sistema disfarçado de moralidade. [...] ).
que fazemos com o que quiseram fazer conosco.
Ingimage/Fotoarena
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Referências de módulo 15
Textuais
ABRÃO, B. S. (Org.). História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
FERREIRA, Acylene Maria Cabral. Arte no pensamento de Heidegger. Arte no Pensamento, p. 205-224, 2006. Disponível
em: [Link] Acesso em: 9 abr. 2019.
STRATHERN, Paul. Sartre em 90 minutos. Tradução de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
STRATHERN, Paul. Heidegger em 90 minutos. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges; consultoria, Danilo Marcondes.
Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
Audiovisuais
HANNAH Arendt. Direção: Margarethe von Trotta. França, Alemanha: Heimatfilm Gmbh, 2012. 109 minutos.
1. (CESPE/UnB – SEDUC/CE) – No ensaio Confissão a) Para ambos os autores citados no texto, a arte,
criadora, Paul Klee, de forma lapidar, anuncia sua concep- primariamente, não tem o sentido de imitar ou de
ção relativa ao sentido de ser da arte: “A arte não reproduz reproduzir o visível, mas o de tornar visível o que é
o visível, mas torna visível”; “...Porque as obras de arte vislumbrado no segredo, o sentido de desvelar.
não só reproduzem com vivacidade o que é visto, mas b) Para Klee e Heidegger, a obra de arte é meramente
também tornam visível o que é vislumbrado em segredo”. uma expressão da subjetividade das vivências do
De modo semelhante, Heidegger, em A origem da obra artista.
de arte, apresenta a arte como uma forma de pôr-em-obra c) Heidegger trata da obra de arte de modo estético, ou
a verdade, no sentido do desvelamento, do tornar visível seja, levando em consideração a questão do belo e
o desvelamento do mundo e da natureza em jogo na obra das vivências do belo por parte do artista e daquele
de arte. Assim, tomando como exemplo um templo grego, que aprecia e julga a obra em relação à sua beleza.
Heidegger diz que ele “não imita nada” e que ele torna d) A arte, na concepção de Heidegger, é algo de
visível o mundo em que ele se apresenta: “É a obra irracional; portanto, não tem vinculação com a
templo que primeiramente ajusta e, ao mesmo tempo, verdade e não deve interessar ao filósofo.
congrega em torno de si a unidade das vias e relações, e) De acordo com Paul Klee e Heidegger, a arte consiste
nas quais nascimento e morte, infelicidade e prosperidade, na imitação do real, ou seja, na reprodução do visível.
vitória e derrota, resistência e ruína ganham para o ser
humano a forma de seu destino. A amplitude dominante
dessas relações abertas é o mundo desse povo histórico.
A partir dele e nele é que ele é devolvido a si próprio, para
o cumprimento a que se destina”. Além disso, a obra-
templo faz aparecer também em seu esplendor a “terra”,
isto é, a “natureza” (physis), fazendo vir à luz a pedra, o
rochedo das montanhas, a imensidade do céu, a claridade
do dia e a treva da noite, o mar, os animais etc. A este vir
à luz, a este levantar-se ele próprio e na sua totalidade
chamavam os gregos, desde muito cedo, a physis. Ela abre
ao mesmo tempo a clareira daquilo sobre o qual e no qual
o homem funda o seu habitar. Chamamos isso a Terra”.
(Martin Heidegger. A origem da obra de arte. Lisboa: Edições
70, 2007.)
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defendendo a manutenção da propriedade privada uma maneira totalizante (como os regimes marxistas
– que considerava “o último direito metafísico” do buscaram) é impossível sem um inimigo real ou imaginário
indivíduo – como maneiras de salvar o Ocidente – só funcionando em tempos de crise e guerra" (BASSO,
do declínio que julgava estar testemunhando. Sua 2017). A seguir, apresentamos um trecho de uma de suas
obra inspirou os conservadores que vieram depois principais obras, Como ser um conservador, na qual ele
e serviu de base teórica para muitos trabalhos que discute o papel desempenhado pelo governo de Margareth
criticariam os movimentos reformistas que Thatcher na Inglaterra.
ganhariam força, sobretudo, a partir dos anos 60 Nunca engoli totalmente a retórica de livre
(BASSO, 2017). mercado dos thatcheristas, mas simpatizava
profundamente com as razões de Thatcher. Ela
queria que o eleitorado reconhecesse que a vida
Russel Kirk (1918-1994) é outro expoente do pensa-
individual pertencia a cada um e que a respon-
mento americano conservador, em especial no período
sabilidade de vivê-la não poderia ser exercida por
posterior à Segunda Guerra Mundial.
qualquer outra pessoa, menos ainda pelo Estado.
Os Dez Princípios conservadores são, conforme
Thatcher esperava libertar o talento e a iniciativa
Kirk (2013) – 1º) o conservador acredita que há
que acreditava ainda existirem na sociedade
uma ordem moral duradoura; 2º) o conservador
britânica, apesar das décadas de conversa fiada
adere aos costumes, à convenção e à
igualitária. A situação que herdou era simbolizada
continuidade; 3º) os conservadores acreditam no
pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico
que se pode chamar de princípio da consagração
Nacional (CDEN), criado em 1962 por um gover-
pelo uso; 4º) os conservadores são guiados pelo
no conservador fraco, para gerir a decadência
princípio da prudência; 5º) os conservadores
econômica do país. Composto por figurões da
prestam atenção a princípio da variedade; 6º) os
indústria e do serviço público, o “Neddy”, como
conservadores são disciplinados pelo princípio de
era conhecido o CDEN, dedicou-se a perpetuar a
imperfectibilidade; 7º) os conservadores estão
ilusão de que o país estava em “mãos seguras”,
convencidos de que a liberdade e a propriedade
de que havia um plano, de que os adminis-
estão intimamente ligadas; 8º) os conservadores
tradores, políticos e líderes sindicais estavam
defendem comunidades voluntárias, da mesma
nisso juntos e trabalhando para o bem comum.
forma que se opõem a um coletivismo involun-
Foi o exemplo perfeito do sistema político
tário; 9º) o conservador vê a necessidade de
britânico do pós-guerra, que tratou dos proble-
limites prudentes sobre o poder e as paixões
mas nacionais nomeando comitês compostos
humanas e 10º) o conservador razoável entende
pelas pessoas que os causaram. A ideia que
que a permanência e a mudança devem ser
regia o Neddy era a de que a vida econômica
reconhecidas e reconciliadas em uma sociedade
consistia na gestão das indústrias em funciona-
vigorosa (PIMENTEL, 2018, p. 279).
mento, e não na criação de novas empresas.
Harold Wilson, Edward Heath e James Callaghan
Por sua vez, Thomas Sowell (1930- ), economista e fiavam-se no Neddy para confirmar a crença que
negro, ficou conhecido por suas opiniões a respeito de compartilhavam de que, caso a situação fosse
etnia e educação. Crítico contumaz de ações afirmativas, mantida por tempo suficiente, as coisas dariam
Sowell preconizou que o Estado não deveria intervir em certo e qualquer culpa recairia sobre o sucessor.
questões relacionadas ao controle de armas e ao auxílio a Por outro lado, Margaret Thatcher acreditava
grupos minoritários (BASSO, 2017). que, tanto nos negócios quanto na política, a
responsabilidade terminava por aqui. Em uma
economia livre, a pessoa importante não é o
Observação: administrador, mas o empreendedor – aquele
que assume e enfrenta os riscos do negócio. Se
Ações afirmativas dizem respeito a políticas públicas Thatcher fosse bem-sucedida em substituir uma
que têm a intenção de garantir a equidade social e economia de administração estatal e de
diminuir os prejuízos relacionados à falta de interesses escusos por uma de empreen-
oportunidades de segmentos sociais marginalizados dedorismo e risco poderia, naturalmente, colocar
ou vulneráveis do ponto de vista social e econômico. a primeira em xeque. Ao liberar o mercado de
trabalho, poria a economia em uma escalada
ascendente. O resultado de longo prazo,
Finalmente, deve-se mencionar o filósofo britânico contudo, foi a emergência de uma nova classe
Roger Scruton (1944), um dos mais conhecidos repre- gerencial, visto que as multinacionais agiam com
sentantes do pensamento conservador. Scruton tem as ofertas públicas de aquisição, os privilégios
criticado de forma sistemática “as visões socialistas, legais e seus lobistas transnacionais, de quem os
pequenos empresários e empreendedores são
argumentando que a tentativa de organizar a sociedade de
os inimigos. Aqueles que contestavam esse
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novo modelo gerencial (sou um deles), não britânico queria, e tinha, era o tipo de político
obstante, deveriam reconhecer que aquilo que é instintivo que as pessoas poderiam ver dirigindo-
ruim nesse modelo é precisamente o que era se à nação, não importando se tivesse ou não um
ruim na velha economia corporativista que cabedal adequado de argumentos abstratos. Há
Thatcher pretendia destruir. Quando ela afirmou de se entender que Thatcher sentira os ventos
que os empreendedores criavam coisas, ao do escárnio intelectual que sopraram ao seu
passo que os gestores públicos as sepultavam, redor e se protegeu atrás de uma guarda
logo ficou evidente que ela estava certa, uma vez pretoriana de conselheiros econômicos versados
que todas as consequências da cultura de gestão em “soluções de mercado”, “economia pelo
estatal estavam ao nosso redor. Digo que isso lado da oferta”, “soberania do consumidor” e
logo havia ficado evidente, mas não para a classe assim por diante. Entretanto, aqueles slogans da
intelectual, que continua até hoje muitíssimo moda não apreendiam o núcleo de suas crenças.
devotada ao consenso do pós-guerra. A ideia do Todos os seus discursos mais importantes,
Estado como uma figura paterna benigna, que assim como as suas políticas imperecíveis, provi-
aloca os ativos coletivos da sociedade para o nham de uma consciência de lealdade nacional.
lugar onde são necessários, e que está sempre Ela acreditava no país e nas instituições, e as via
presente para nos retirar da pobreza, da doença como a personificação dos afetos sociais
ou do desemprego, manteve-se no primeiro cultivados e acumulados ao longo dos séculos.
plano da ciência política acadêmica na Grã Família, associação civil, a religião cristã e o
Bretanha. No dia da morte de Margaret Thatcher, common law estavam integrados em seu ideal
eu estava preparando uma aula de Filosofia de liberdade sob a lei. A desvantagem é que ela
Política na Universidade de St. Andrews. Estava não tinha uma filosofia com que pudesse articular
interessado em identificar o que o texto esse ideal, de modo que o “thatcherismo” veio
recomendado identificava como algo chamado a simbolizar um tipo de caricatura do pensa-
de a Nova Direita, associado pelo autor a mento conservador criado pela esquerda com o
Thatcher e Reagan, como uma investida radical objetivo de ridicularizar a direita (SCRUTON,
sobre os membros vulneráveis da sociedade. O 2015, p. 18/21).
autor supunha que a principal incumbência do
governo é a de distribuir a riqueza coletiva da
sociedade entre seus membros e que, em Saiba mais
matéria de distribuição, o governo é deveras
competente. O fato de que a riqueza só pode ser O filme A Dama de Ferro (2011) narra a trajetória de
distribuída caso antes tenha sido criada parecia Margareth Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido
escapar à sua observação. Naturalmente, entre os anos de 1979 e 1990. Decidida a diminuir a
Thatcher não era uma intelectual, e tinha por influência do Estado na economia britânica, ela
motivação mais o instinto do que uma filosofia promoveu mudanças radicais, tais como a desregula-
elaborada. Pressionada por argumentos, ela mentação financeira, a diminuição da influência dos
pendia muito rapidamente para a economia de sindicatos e a flexibilização das leis trabalhistas. Ao
mercado e ignorava as raízes mais profundas do lado de Ronald Reagan, presidente dos Estados
conservadorismo na teoria e na prática da
Unidos entre 1981 e 1989, Thatcher foi uma defensora
sociedade civil. Seu comentário breve de que
radical do liberalismo econômico. Sua atuação acabou
“essa coisa de sociedade não existe” foi
por possibilitar a retomada do crescimento econômico
alegremente apoderado pelos meus colegas de
universidade como prova de seu individualismo da Inglaterra e a disseminação do ideário conservador
crasso, de sua ignorância sobre filosofia social, e pelo mundo.
de sua fidelidade aos valores da nova geração de
empresários que poderiam ser resumidos em
três palavras: dinheiro, dinheiro, dinheiro. 2. O pensamento filosófico de oposição ao
Efetivamente, o que Thatcher quis dizer naquela totalitarismo
ocasião era bastante verdadeiro, embora seja o
oposto do que disse. Quis dizer que a sociedade 2.1. Michel Foucault (1926-1984)
existia, mas que não era equivalente ao Estado. Francês, Michel Foucault preferiu dedicar-se à
A sociedade é formada por indivíduos que se
filosofia em vez de seguir a profissão do pai, um médico
associam livremente e formam comunidades de
bastante renomado. Suas obras abrangem um vasto
interesse que os socialistas não têm o direito de
controlar nem qualquer autoridade legal para
conjunto de temas: loucura, epistemologia da ciência,
proibir. No entanto, expressar-se dessa forma linguagem, violência e punição. Mesmo após sua morte,
não era o estilo de Thatcher, nem era o que os causada pela AIDS, ele manteve a sua imensa influência
correligionários esperavam dela. O que o público no pensamento filosófico moderno, e suas reflexões e
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métodos de análise tornaram-se basilares em um número governa é racional, e desse contexto também deriva o
imenso de áreas. conceito de biopolítica, uma das chaves do pensamento
Uma das mais importantes áreas de interesse de de Foucault. A biopolítica consiste na atuação de formas
Foucault foi a história e a filosofia das ciências, para as de poder e governo que têm como objetivo
quais ele desenvolveu os conceitos de arqueologia e interferir nos modos de ação dos indivíduos-
genealogia. Para Foucault, a história convencional era população, uma racionalidade conjugada a uma
construída por meio do sepultamento de conteúdos e forma de exercício de poder. É esta racionalidade
saberes tidos como hierarquicamente inferiores, e política que vai tomar o ser humano enquanto
espécie, inserindo-o em um conjunto populacional
jogados no jazigo sem que se soubesse dos combates
sobre o qual se podem exercer formas de conduta
que os ferira. Fatos, acontecimentos e ideias eram sepul-
e de governo tendo como referência os aspectos
tados e arrancados da história, em geral porque quebra- vitais e os traços biológicos que os reúnem
vam com uma desejada linearidade dos fatos históricos, enquanto espécie, a saber, a reprodução da vida,
ou porque “problematizavam” a história desnecessa- crescimento, morte que permitem traçar estra-
riamente. A história não era linear; ao contrário, as tégias políticas como o controle de natalidade,
narrativas históricas – e que davam a sensação de controle do crescimento vegetativo, campanhas
linearidade – nada mais eram do que discursos forjados de vacinação, etc. (COSTA, 2018, p. 163).
dentro de lutas políticas que foram tomadas por
invasões, disfarces, astúcias. Por isso, para a Prisões, hospitais, escolas e fábricas: em todos os
genealogia é importante marcar os aconteci- lugares, os indivíduos seriam disciplinados e vigiados. O
mentos em sua singularidade, já que único na símbolo desse poder de vigilância é o panóptico, estrutura
sua composição de forças. Fazer genealogia, imaginada pelo filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-
portanto, é mostrar o momento que determina-
1832) para a construção da prisão ideal. Alguém no centro
das práticas foram diferentes, principalmente,
vigia a todos, que sequer sabem se estão sendo ou não. É
daquilo que é hoje, é retornar em pontos da
história, não com o objetivo de traçar a lenta linha
justamente a incerteza quanto a estar sendo ou não vigiado
de evolução de determinado objeto, mas para que cria a submissão e o poder disciplinar. Em Vigiar e
marcar as diferentes cenas em que eles atuavam Punir, Foucault (2004) reflete sobre o panóptico e o seu
com diferentes papéis (CARMO SANTOS; funcionamento.
LEMOS, 2017, p. 117).
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métodos de repartição analítica do poder, indivi- sombra, que finalmente protegia. A visibilidade é
dualizar os excluídos, mas utilizar processos de uma armadilha. O que permite em primeiro lugar
individualização para marcar exclusões – isso é o – como efeito negativo – evitar aquelas massas
que foi regularmente realizado pelo poder disci- compactas, fervilhantes, pululantes, que eram
plinar desde o começo do século XIX: o asilo encontradas nos locais de encarceramento, os
psiquiátrico, a penitenciária, a casa de correção, o pintados por Goya ou descritos por Howard. Cada
estabelecimento de educação vigiada, e por um um, em seu lugar, está bem trancado em sua cela
lado os hospitais, de um modo geral todas as de onde é visto de frente pelo vigia; mas os
instâncias de controle individual funcional num muros laterais impedem que entre em contato
duplo modo: o da divisão binária e da marcação com seus companheiros. É visto, mas não vê;
(louco-não louco; perigoso-inofensivo; normal- objeto de uma informação, nunca sujeito numa
anormal); e o da determinação coercitiva, da comunicação. A disposição de seu quarto, em
repartição diferencial (quem é ele; onde deve frente da torre central, lhe impõe uma visibilidade
estar; como caracterizá-lo, como reconhecê-lo; axial; mas as divisões do anel, essas celas bem
como exercer sobre ele, de maneira individual, separadas, implicam uma invisibilidade lateral. E
uma vigilância constante, etc.). De um lado, esta é a garantia da ordem. Se os detentos são
"pestilentam-se" os leprosos; impõem-se aos condenados não há perigo de complô, de
excluídos a tática das disciplinas individualizantes; tentativa de evasão coletiva, projeto de novos
e de outro lado a universalidade dos controles crimes para o futuro, más influências recíprocas;
disciplinares permite marcar quem é "leproso" e se são doentes, não há perigo de contágio;
fazer funcionar contra ele os mecanismos loucos, não há risco de violências recíprocas;
dualistas da exclusão. A divisão constante do crianças, não há "cola", nem barulho, nem con-
normal e do anormal, a que todo indivíduo é versa, nem dissipação. Se são operários, não há
submetido, leva até nós, e aplicando-os a objetos roubos, nem conluios, nada dessas distrações
totalmente diversos, a marcação binária e o exílio que atrasam o trabalho, tornam-no menos per-
dos leprosos; a existência de todo um conjunto de feito ou provocam acidentes. A multidão, massa
técnicas e de instituições que assumem como compacta, local de múltiplas trocas, individuali-
tarefa medir, controlar e corrigir os anormais, faz dades que se fundem, efeito coletivo, é abolida
funcionar os dispositivos disciplinares que o medo em proveito de uma coleção de individualidades
da peste chamava. Todos os mecanismos de separadas. Do ponto de vista do guardião, é
poder que, ainda em nossos dias, são dispostos substituída por uma multiplicidade enumerável e
em torno do anormal, para marcá-lo como para controlável; do ponto de vista dos detentos, por
modificá-lo, compõem essas duas formas de que uma solidão sequestrada e olhada.
longinquamente derivam. Daí o efeito mais importante do Panóptico: induzir
O Panóptico de Bentham é a figura arquitetural no detento um estado consciente e permanente
dessa composição. O princípio é conhecido: na de visibilidade que assegura o funcionamento
periferia uma construção em anel; no centro, uma automático do poder. Fazer com que a vigilância
torre; esta é vazada de largas janelas que se seja permanente em seus efeitos, mesmo se é
abrem sobre a face interna do anel; a construção descontínua em sua ação; que a perfeição do
periférica é dividida em celas, cada uma atraves- poder tenda a tornar inútil a atualidade de seu
sando toda a espessura da construção; elas têm exercício; que esse aparelho arquitetural seja
duas janelas, uma para o interior, correspondendo uma máquina de criar e sustentar uma relação de
às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, poder independente daquele que o exerce;
permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. enfim, que os detentos se encontrem presos
Basta então colocar um vigia na torre central, e numa situação de poder de que eles mesmos são
em cada cela trancar um louco, um doente, um os portadores. Para isso, é ao mesmo tempo
condenado, um operário ou um escolar. Pelo excessivo e muito pouco que o prisioneiro seja
efeito da contraluz, pode-se perceber da torre, observado sem cessar por um vigia: muito pouco,
recortando-se exatamente sobre a claridade, as pois o essencial é que ele se saiba vigiado;
pequenas silhuetas cativas nas celas da periferia. excessivo, porque ele não tem necessidade de
Tantas jaulas, tantos pequenos teatros, em que sê-lo efetivamente. Por isso Bentham colocou o
cada ator está sozinho, perfeitamente indivi- princípio de que o poder devia ser visível e
dualizado e constantemente visível. O dispositivo inverificável. Visível: sem cessar o detento terá
panóptico organiza unidades espaciais que diante dos olhos a alta silhueta da torre central
permitem ver sem parar e reconhecer imediata- de onde é espionado. Inverificável: o detento
mente. Em suma, o princípio da masmorra é
nunca deve saber se está sendo observado; mas
invertido; ou antes, de suas três funções –
deve ter certeza de que sempre pode sê-lo. Para
trancar, privar de luz e esconder – só se conserva
tornar indecidível a presença ou a ausência do
a primeira e suprimem-se as outras duas. A plena
vigia, para que os prisioneiros, de suas celas, não
luz e o olhar de um vigia captam melhor que a
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pudessem nem perceber uma sombra ou anteriormente era considerado correto. Em As origens do
enxergar uma contraluz, previu Bentham, não só totalitarismo (Arendt, 2012), a filósofa reflete sobre este
persianas nas janelas da sala central de vigia, fenômeno.
mas, por dentro, separações que a cortam em Sempre que galgou o poder, o totalitarismo criou
ângulo reto e, para passar de um quarto a outro, instituições políticas inteiramente novas e destruiu
não portas, mas biombos: pois a menor batida, todas as tradições sociais, legais e políticas do
uma luz entrevista, uma claridade numa abertura país. Independentemente da tradição especifica-
trairiam a presença do guardião. Panóptico é uma mente nacional ou da fonte espiritual particular da
máquina de dissociar o para ver-ser visto: no anel sua ideologia, o governo totalitário sempre trans-
periférico, se é totalmente visto, sem nunca ver; formou as classes em massas, substituiu o siste-
na torre central, vê-se tudo, sem nunca ser visto. ma partidário não por ditaduras unipartidárias, mas
(FOUCAULT, 2004, p. 164-166). por um movimento de massa, transferiu o centro
do poder do Exército para a polícia e estabeleceu
uma política exterior que visava abertamente ao
Saiba mais domínio mundial. Os governos totalitários do
nosso tempo evoluíram a partir de sistemas uni-
Sugerimos que você assista ao filme Snowden (2016), partidários; sempre que estes se tornavam
dirigido por Oliver Stone, que narra a história do ex- realmente totalitários, passavam a operar segundo
funcionário terceirizado da CIA, Edward Snowden, um sistema de valores tão radicalmente diferente
que em 2013 enviou documentos para os principais de todos os outros que nenhuma das nossas
jornais norte-americanos acusando o governo de atos tradicionais categorias utilitárias – legais, morais,
de espionagem por meio de um sistema de vigilância lógicas ou de bom senso – podia mais nos ajudar
em massa. Snowden, que está em Moscou na a aceitar, julgar ou prever o seu curso de ação.
Se é verdade que podemos encontrar os ele-
condição de exilado político, tornou público que todos
mentos do totalitarismo se repassarmos a história
os indivíduos, dentro ou fora dos Estados Unidos,
e analisarmos as implicações políticas daquilo que
poderiam ser vigiados caso o governo americano geralmente chamamos de crise do nosso século,
assim o desejasse. chegaremos à conclusão inelutável de que essa
crise não é nenhuma ameaça de fora, nenhuma
consequência de alguma política exterior agres-
2.2. Hannah Arendt (1906-1975) siva da Alemanha ou da Rússia, e que não desapa-
recerá com a morte de Stalin, como não desapareceu
Nascida na Alemanha em uma família judia de classe com a queda da Alemanha nazista. Pode ser até
média-alta, a filósofa Hannah Arendt desenvolveu o seu que os verdadeiros transes do nosso tempo
trabalho, em grande parte, impactada pela expansão do somente venham a assumir a sua forma autêntica
nazismo e pela perseguição aos judeus. – embora não necessariamente a mais cruel –
Tentando escapar do nazismo, ela se refugiou na quando o totalitarismo pertencer ao passado.
França, onde chegou a ser presa em um campo de con- Com relação a estas reflexões, podemos indagar
centração. Sua fuga do campo foi acompanhada pela mi- se o governo totalitário, nascido dessa crise e, ao
mesmo tempo, o seu mais claro sintoma, o único
gração para os Estados Unidos, país onde viveu até sua
inequívoco, é apenas um arranjo improvisado que
morte.
adota os métodos de intimidação, os meios de
O nazismo não era o único regime para o qual Arendt organização e os instrumentos de violência do
olhava: interessava-a, em especial, os governos totalitá- conhecido arsenal político da tirania, do despo-
rios nos quais os direitos civis eram destruídos e o Estado tismo e das ditaduras, e deve a sua existência
prevalecia sobre os interesses sociais e individuais. O apenas ao fracasso, deplorável mas talvez aci-
totalitarismo, inclusive, independia das tendências dental, das tradicionais forças políticas – liberais
políticas dos governos, o que explicava o nazismo na ou conservadoras, nacionais ou socialistas, repu-
Alemanha, o fascismo na Itália e o avanço do stalinismo blicanas ou monarquistas, autoritárias ou demo-
na União Soviética. cratas. Ou se, pelo contrário, existe algo que se
possa chamar de natureza do governo totalitário,
Para Arendt, a principal estratégia dos governos
se ele tem essência própria e pode ser comparado
totalitários era a destruição das tradições existentes,
com outras formas de governo conhecidas do
substituindo-as por um Estado com poder coercitivo, pensamento ocidental e reconhecidas desde os
autorizado a intimidar e a agir de forma violenta. tempos da filosofia antiga, e definido como elas
O totalitarismo se faz presente, inclusive, na podem ser definidas. Se a segunda suposição for
dissolução da ordem judicial vigente, criando outra lei à verdadeira, então as formas inteiramente novas e
qual todos devem obedecer. A legalidade do governo inauditas da organização e do modo de agir do
autoritário se dá dessa forma, por meio do arcabouço totalitarismo devem ter fundamento numa das
legal que legitima o que antes era ilegal e que pune o que poucas experiências básicas que os homens
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podem realizar quando vivem juntos e se interes- comum para os sentimentos de todos os homens
sam por assuntos públicos. Se existe uma expe- – são necessariamente gerais e devem ser válidos
riência básica que encontre expressão no domínio para um número sem conta e imprevisível de
totalitário, então, dada a novidade da forma casos, de sorte que cada caso individual concreto,
totalitária de governo, deve ser uma experiência com o seu conjunto de circunstâncias irrepetíveis,
que, por algum motivo, nunca antes havia servido lhes escapa de certa forma (ARENDT, 2012, p.
como base para uma estrutura política, e cujo 528/530).
ânimo geral – embora conhecido sob outras
formas – nunca antes permeou e dirigiu o trata- Outro conceito central na obra de Arendt diz respeito
mento das coisas públicas. à banalidade do mal, ideia que ela desenvolveu ao ir para
[...] Jerusalém, em 1961, para acompanhar o julgamento de
Adolf Eichmann. Eichmann havia sido um dos mais
Em vez de dizer que o governo totalitário não tem
importantes burocratas alemães nos processos de
precedentes, poderíamos dizer que ele destruiu a
própria alternativa sobre a qual se baseiam, na deportação e condução dos judeus aos campos de
filosofia política, todas as definições da essência concentração. Refugiado na América Latina ao fim da
dos governos, isto é, a alternativa entre o governo Segunda Guerra Mundial, Eichmann imaginava conseguir
legal e o ilegal, entre o poder arbitrário e o poder escapar do cerco dos que buscavam descobrir seu
legítimo. Nunca se pôs em dúvida que o governo paradeiro. Localizado na Argentina em 1960, Eichmann
legal e o poder legítimo, de um lado, e a ilegali- foi sequestrado pelo serviço secreto israelense e levado
dade e o poder arbitrário, de outro, são aparen- a julgamento em Israel.
tados e inseparáveis. No entanto, o totalitarismo Arendt não apenas acompanhou e registrou o julga-
nos coloca diante de uma espécie totalmente
mento de Eichmann, como também buscou compreender
diferente do governo. É verdade que desafia todas
o interior de um sistema totalitário que havia conseguido
as leis positivas, mesmo ao ponto de desafiar
aquelas que ele próprio estabeleceu (como no assassinar milhões de pessoas. Para Arendt, alguns
caso da Constituição Soviética de 1936, para citar nazistas fundamentavam sua ação no mal, um mal radical,
apenas o exemplo mais notório) ou que não se alimentado pelo ódio. No entanto, o mal de Eichmann era
deu ao trabalho de abolir (como no caso da outro: no julgamento, Eichmann afirmara não ter ódio
Constituição de Weimar, que o governo nazista algum aos judeus; ao contrário, tinha por eles admiração.
nunca revogou). Mas não opera sem a orientação Ele encarregara-se dos transportes das comunidades
de uma lei, nem é arbitrário, pois afirma obedecer judaicas de toda a Europa para os campos de concen-
rigorosa e inequivocamente àquelas leis da tração e extermínio por que havia recebido ordens para
Natureza ou da História que sempre acreditamos
que assim procedesse: ele jamais havia discutido qual-
serem a origem de todas as leis.
A afirmação monstruosa e, no entanto, aparen-
quer aspecto ético do seu trabalho, por que era esperado
temente irrespondível do governo totalitário é que, apenas que ele cumprisse com suas tarefas. Para Arendt,
longe de ser "ilegal", recorre à fonte de autoridade banalidade do mal de Eichmann destoava do mal radical:
da qual as leis positivas recebem a sua legitimi- o mal de Eichmann era banal no sentido de que não era
dade final; que, longe de ser arbitrário, é mais fruto de qualquer reflexão moral ou ética. Eichemann
obediente a essas forças sobre-humanas que sequer discernia o certo do errado, ele apenas cumpria
qualquer governo jamais o foi; e que, longe de ordens, fossem elas quais fossem. Aliás, essa era a princi-
exercer o seu poder no interesse de um só pal estratégia dos regimes totalitários: impossibilitar o
homem, está perfeitamente disposto a sacrificar
exercício do livre-arbítrio com base em regras morais e
os interesses vitais e imediatos de todos à
éticas.
execução do que supõe ser a lei da História ou a
lei da Natureza. O seu desafio às leis positivas
Embora fosse uma humanista, a banalidade e o horror
pretende ser uma forma superior de legitimidade do crime de Eichmann levaram Arendt a concordar com o
que, por inspirar-se nas próprias fontes, pode veredito ao qual chegara o tribunal em Jerusalém:
dispensar legalidades menores. A legalidade Eichmann deveria ser enforcado em punição pelos seus
totalitária pretende haver encontrado um meio de crimes de guerra contra a humanidade. Em Eichmann em
estabelecer a lei da justiça na terra – algo que a Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, Arendt
legalidade da lei positiva certamente nunca pôde “conversa” com o nazista, explicando-lhe a justiça da
conseguir. A discrepância entre a legalidade e a sentença.
justiça nunca pôde ser corrigida, porque os Você disse também que seu papel na Solução
critérios de certo e errado nos quais a lei positiva Final foi acidental e que quase qualquer pessoa
converte a sua fonte de autoridade – a “lei poderia ter tomado seu lugar, de forma que
natural” que governa todo o universo, ou a lei potencialmente quase todos os alemães são
divina revelada na história humana, ou os
igualmente culpados. O que você quis dizer foi
costumes e tradições que representam a lei
que onde todos, ou quase todos, são culpados,
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ninguém é culpado. Essa é uma conclusão real- coisa. E assim como você apoiou e executou uma
mente bastante comum, mas que não estamos política de não partilhar a Terra com o povo judeu
dispostos a aceitar. e com o povo de diversas outras nações – como
[...] se você e seus superiores tivessem o direito de
Suponhamos, hipoteticamente, que foi simples- determinar quem devia e quem não devia habitar
mente a má sorte que fez de você um instru- o mundo –, consideramos que ninguém, isto é,
mento da organização do assassinato em massa; nenhum membro da raça humana haverá de
mesmo assim resta o fato de você ter apoiado querer partilhar a Terra com você. Esta é a razão,
ativamente uma política de assassinato em a única razão, pela qual você deve morrer na forca"
massa. Pois política não é um jardim de infância; (ARENDT, 2013, p. 301/302)
em política, obediência e apoio são a mesma
Saiba mais
Eichmann foi condenado à forca e executado em Israel, em 1962. Hannah Arendt teve que responder às críticas ao
seu livro até o final da vida. Em Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, Arendt deslocou a
maldade do campo moral para o campo político. Em segundo, a filósofa mostrou que Eichmann não era nenhum
mostro; ao contrário, ele era um homem extremamente comum que, em função de circunstâncias especiais, havia
conseguido galgar posições no regime nazista graças a sua enorme competência burocrática. Finalmente, a filósofa
levantou a questão da colaboração das lideranças judaicas com os serviços policiais nazistas, o que havia contribuído,
e muito, para que milhões fossem conduzidos à morte sem qualquer protesto ou reação.
Hannah já havia sido alvo de críticas anteriores: quando jovem, ela mantivera um caso com Heidegger, homem casado
e renomado filósofo que, durante o regime hitlerista, havia mostrado simpatias às políticas antissemitas.
Sugerimos que você assista ao filme Hannah Arendt – ideias que chocaram o mundo (2012), que narra a ida de Arendt
para Jerusalém e a cobertura do julgamento de Eichmann.
Referências do módulo 16
Textuais
ALBUQUERQUE, José Augusto Guilhon. Michel Foucault e a teoria do poder. Tempo social, v. 7, n. 1-2, p. 105-110,
1995. Disponível em: [Link]
Acesso em: 09 set. 2020.
ARENDT, Hanna. As origens do totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
______________. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rodrigues Siqueira.
São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
BASSO, Murilo. 10 autores para entender o conservadorismo. Gazeta do Povo, 2017. Disponível em:
[Link] [Link]/ideias/10-autores-para-entender-o-conservadorismo-eof2ycz57fq32wwpnrr6z7ssu/.
Acesso em: 21 jun. 2019.
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
COSTA, Helrison Silva. Poder e violência no pensamento de Michel Foucault. Sapere Aude, v. 9, n. 17, p. 153-170,
2018. Disponível em: [Link] Acesso em: 09 set. 2020.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: o nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Editora Vozes, 2004.
PIMENTEL, Pablo Fernando Campos. Conservadorismo para além do senso comum. Cognitio Estudos: Revista
Eletrônica de Filosofia, v. 15, n.o 2, 2018, p. 275-286. Disponível em: [Link] /article
/view/35497. Acesso em: 21 jun. 2019.
SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. Trad. Bruno Garschagen. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2015.
Disponível em: [Link] Acesso em: 21
jun. 2019.
Audiovisuais
A DAMA de ferro. Direção: Phyllida Lloyd. Reino Unido/França: Pathé; Film4 Productions; UK Film Council; Goldcrest
Films, 2011). 104 minutos.
HANNAH Arendt – Ideias que chocaram o mundo. Direção: Margarethe von Trotta. Alemanha: Westdeutscher
Rundfunk, Heimat, 2012). 113 minutos.
SNOWDEN, Herói ou Traidor. Direção: Oliver Stone. França, Alemanha, Estados Unidos: Endgame Entertainment; Wild
Bunch; KrautPack Entertainment; Onda Entertainment; Vendian Entertainment; 2016). 134 minutos.
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1. – “A lei não nasce da natureza, junto das 2. – “O edifício é circular. Os apartamentos dos
fontes frequentadas pelos primeiros prisioneiros ocupam a circunferência. Você
pastores: a lei nasce das batalhas reais, das vitórias, dos pode chamá-los, se quiser, de celas. O apartamento do
massacres, das conquistas que têm sua data e seus inspetor ocupa o centro; você pode chamá-lo, se quiser
heróis de horror: a lei nasce das cidades incendiadas, das de alojamento do inspetor. A moral reformada; a saúde
terras devastadas; ela nasce com os famosos inocentes preservada; a indústria revigorada; a instrução difundida;
que agonizam no dia que está amanhecendo.” os encargos públicos aliviados; a economia assentada,
(FOUCAULT. M. Aula de 14 de janeiro de 1976. In. Em defesa como deve ser, sobre uma rocha; o nó górdio da Lei sobre
da sociedade. São Paulo: Martins Fontes. 1999.) os Pobres não cortado, mas desfeito – tudo por uma
simples ideia de arquitetura!”
O filósofo Michel Foucault (séc. XX) inova ao pensar a (BENTHAM, J. O panóptico. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.)
política e a lei em relação ao poder e à organização social.
Com base na reflexão de Foucault, a finalidade das leis
Essa é a proposta de um sistema conhecido como
na organização das sociedades modernas é
panóptico, um modelo que mostra o poder da disciplina
a) combater ações violentas na guerra entre as nações.
nas sociedades contemporâneas, exercido
b) coagir e servir para refrear a agressividade humana.
preferencialmente por mecanismos
c) criar limites entre a guerra e a paz praticadas entre os
a) religiosos, que se constituem como um olho divino
indivíduos de uma mesma nação.
controlador que tudo vê.
d) estabelecer princípios éticos que regulamentam as
b) ideológicos, que estabelecem limites pela alienação,
ações bélicas entre países inimigos.
impedindo a visão da dominação sofrida.
e) organizar as relações de poder na sociedade e entre os
c) repressivos, que perpetuam as relações de dominação
Estados.
entre os homens por meio da tortura física.
d) sutis, que adestram os corpos no espaço-tempo por
meio do olhar como instrumento de controle.
e) consensuais, que pactuam acordos com base na
compreensão dos benefícios gerais de se ter as
próprias ações controladas.
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