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Introdução à Reflexão Filosófica

O documento apresenta um curso de Filosofia dividido em 16 módulos, abordando temas desde a reflexão filosófica até conceitos de filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles. O primeiro módulo discute a importância da reflexão crítica sobre o tempo e a realidade, incentivando a busca por um entendimento mais profundo das ideias e conceitos que muitas vezes consideramos evidentes. A Filosofia é apresentada como uma ferramenta essencial para questionar e compreender a verdade, tanto sobre o mundo externo quanto sobre nós mesmos.

Enviado por

Eva Gois
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Introdução à Reflexão Filosófica

O documento apresenta um curso de Filosofia dividido em 16 módulos, abordando temas desde a reflexão filosófica até conceitos de filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles. O primeiro módulo discute a importância da reflexão crítica sobre o tempo e a realidade, incentivando a busca por um entendimento mais profundo das ideias e conceitos que muitas vezes consideramos evidentes. A Filosofia é apresentada como uma ferramenta essencial para questionar e compreender a verdade, tanto sobre o mundo externo quanto sobre nós mesmos.

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ALUNO_Curso_Filosofia_cadunico_YONNE_2024 18/12/2023 14:24 Página I

FILOSOFIA
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Índice

Módulo 1 Um Tempo para a Reflexão Filosófica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1

Módulo 2 Do Mito à Razão (pré-socráticos) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14

Módulo 3 Sócrates . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26

Módulo 4 Platão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34

Módulo 5 Aristóteles: O Conhecimento sobre a Realidade, a Metafísica e a Ética . . . . . . . . . . . 49

Módulo 6 O Helenismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64

Módulo 7 As relações entre a Fé e a Razão (Patrística e Escolástica) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70

Módulo 8 Maquiavel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81

Módulo 9 O Poder do Método: a Razão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90

Módulo 10 O Racionalismo Ético de Espinosa e o Empirismo de Locke e Hume . . . . . . . . . . . . . . 99

Módulo 11 A Metafísica Kantiana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108

Módulo 12 Razão, política e o Contrato Social (Montesquieu e Rousseau) . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116

Módulo 13 A afirmação da vida e o Existencialismo: Shopenhauer, Kierkegaard

e Nietzsche e a vontade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125

Módulo 14 A Escola de Frankfurt: Horkheimer, Habermas, Benjamin e Adorno . . . . . . . . . . . . . . 137

Módulo 15 A complexidade do Ser (Heidegger) e o Existencialismo (Sartre) . . . . . . . . . . . . . . . . . 148

Módulo 16 O Conservadorismo e o Pensamento Filosófico Libertário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156

Autores:
Ivy Judensnaider
Alexandre Freitas Ceistutis
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MÓDULO 1 Um tempo para a reflexão filosófica


Neste módulo, estudaremos a reflexão filosófica en- sucedem e que notamos o tempo nas mudanças que
quanto processo de rejeição ao senso comum e o pensa- nosso corpo sofre. Entretanto, poucas vezes interrom-
mento crítico sobre os fatos e os fenômenos da realidade pemos nossas vidas para fazer essa pergunta: o que é o
interna do ser humano e da realidade externa a ele. Tere- tempo, afinal? Estamos tão acostumados com o que
mos contato com as reflexões de Agostinho (século IV imaginamos ser o tempo que dificilmente paramos para
d.C.) a respeito do tempo. Investigaremos as definições refletir sobre o que ele representa, qual o seu sentido,
possíveis para a Filosofia e discutiremos a importância da qual o significado do que, até então, havíamos assumido
contextualização histórica das ideias filosóficas e os como compreendido.
principais períodos da História da Filosofia. De fato, a sensação de estranheza que o filme nos
provoca é necessária para que a pergunta surja. Preci-
1. A atitude filosófica: reflexão crítica e samos sair da passividade confortável em relação ao que
pensamento crítico nos cerca para que a dúvida possa emergir. Precisamos
aceitar o fato de não sabermos muito sobre a realidade,
No filme O curioso caso de Benjamin Button, versão inclusive sobre coisas das quais, em princípio, quase
cinematográfica do conto do escritor estadunidense F. tínhamos a certeza de ter o conhecimento suficiente. O
Scott Fitzgerald (1896-1940), entramos em contato com tempo, esse nosso velho amigo que nos acompanha des-
uma ideia interessante: o tempo rompe com a lógica da de sempre, tornou-se, agora, uma incógnita: o que signi-
linearidade e transcorre de forma contrária! Benjamin fica envelhecer? O que o passar do tempo pode nos
Button nasce velho e rejuvenesce a cada dia que passa; revelar? Existe um tempo real e um tempo emocional?
o seu relógio funciona de forma inversa ao que estamos Existe um tempo do corpo e um tempo da mente? E se
acostumados. Não se trata de saltar para o futuro ou vol- nos indagássemos a respeito de tudo o mais?
tar para o passado: no caso de Benjamin Button, o tempo Segundo Marilena Chauí, em Convite à Filosofia, essa
não obedece à ordem de sempre. Ele já nasce velho, mais distância entre o que supomos saber e a realidade é
velho que o próprio pai; a partir do seu nascimento, ficará necessária para que nossas crenças e julgamentos abram
cada vez mais jovem, e assim até a sua morte. espaço à crítica e à descoberta. A essa reflexão damos o
nome de atitude filosófica. Assim, a Filosofia surge como
resultado de
Saiba mais não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as
ideias, os fatos, as situações, os valores, os com-
Sugerimos que você leia o conto de Francis Scott portamentos de nossa existência cotidiana; jamais
Fitzgerald e assista ao filme O curioso caso de aceitá-los sem antes havê-los investigado e
Benjamin Button (diretor David Fincher, 2009, 155 compreendido (CHAUÍ, 2002a, p. 12).
minutos), estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchett.

Benjamin Button vive a infância cerceado pelas limita-


ções físicas e emocionais que costumam acompanhar
pessoas idosas. Apaixonado, espera que a garota amada
envelheça – enquanto ele próprio rejuvenesce – para que,
então, não haja qualquer diferença de idade entre eles.
Enquanto todos que ama envelhecem, ele fica cada vez
mais ágil e mais vigoroso. Ao morrer no colo da mulher
que amou a vida toda, naquele momento já uma senhora
idosa, Benjamin Button é um bebê, exatamente como
somos ao nascer.
É inevitável que essa narrativa nos desperte
estranheza. Também é provável que ela nos estimule à Figura 1. “Os físicos, às vezes, dizem medir o tempo. Servem-se de
dúvida sobre algo que passa despercebido no nosso dia a fórmulas matemáticas nas quais o tempo desempenha o papel de um
quantum específico. Mas o tempo não se deixa ver, tocar, ouvir, sabo-
dia: o que é o tempo, afinal? Sabemos que ele é marcado
rear nem respirar como um odor. Há uma pergunta que continua à
pelo movimento da Terra em torno do Sol, que o relógio espera de resposta: como medir uma coisa que não se pode perceber
nos aponta o horário de acordar e estudar, que os dias se pelos sentidos? Uma 'hora' é algo de invisível” (Elias, 1998, p. 7).

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verdade nelas existentes. Em contrapartida, a atitude


Saiba mais crítica e o pensamento crítico têm o propósito de garantir
Sugerimos a leitura do livro O mundo de Sofia, de a objetividade, mantendo – ou procurando manter –
Jostein Gaarden. O livro conta a história de Sofia distância das crenças e dos sentimentos que moldam – e,
Amundsen, uma garota norueguesa de 14 anos. Em às vezes, deformam – nossa percepção da realidade.
A reflexão filosófica requer que afastemos nossas
data próxima a de seu aniversário, ela começa a rece-
opiniões parciais para que possamos buscar a verdade, para
ber cartas anônimas que a estimulam a refletir sobre
que atinjamos a essência das coisas. A objetividade é uma
si mesma e sobre o mundo. Ao longo do livro, você
condição para a busca da verdade. Claro que essa é uma
poderá ter contato com os principais filósofos, da
meta a ser perseguida e é extremamente difícil de ser
Antiguidade aos dias atuais, e com as correntes de
conquistada: somos seres morais, temos uma história
pensamento mais importantes da História da Filosofia.
pessoal, nossa vida está repleta de crenças silenciosas, e
de muitas delas sequer temos consciência. No entanto, o
distanciamento busca diminuir o impacto que a ação
Pensamos saber e ter certeza a respeito de muita desses sentimentos pessoais pode causar.
coisa; no entanto, ficaríamos bastante confusos se tivés-
semos que responder sobre o que é o sonho, o que é a
razão, o que é causa e o que é efeito, o que é a verdade,
o que é a moral, o que é liberdade e o que é arte... A ati-
tude filosófica nos permite questionar o real significado
do amor, da beleza, da amizade, da fraternidade, da justi-
ça, das emoções, dos sentimentos, da ética e das sensa-
ções. Em outras palavras, a atitude filosófica diz respeito
à reflexão sobre fatos ou conceitos em relação aos quais
temos a falsa impressão de tudo saber.
A atitude filosófica compreende dois momentos. No
primeiro, agimos de forma crítica: é a atitude crítica que
nos leva a dizer não ao senso comum, ao que pensamos
saber, ao que temos como certo. É ela que pede distân-
cia dos julgamentos rápidos, fáceis e descomprometidos
realizados por nós cotidianamente e que nos coloquemos
no lugar de quem nada sabe. Figura 2. Detalhe da escultura O Pensador (1903), de Auguste Rodin
No segundo, pensamos de forma crítica: o que é? Por (1840-1917). No rosto do homem imerso em pensamentos, podemos
que as coisas são assim? Como elas são? O que elas si- vislumbrar a densidade da reflexão filosófica.
gnificam? Essas respostas só podem surgir com o pen-
samento crítico, já distante do senso comum e não O espanto (diante do nosso desconhecimento) e a
contaminado pelo que aprendemos com os nossos pais, admiração (diante de tudo que ainda podemos aprender
a escola, os amigos, os livros. Nas palavras de Marilena a respeito do mundo) permitem que nos coloquemos
Chauí, é diante das questões filosóficas. Mas para que serve a
como se estivéssemos acabando de nascer para o Filosofia? Qual é a utilidade da reflexão filosófica?
mundo e para nós mesmos e precisássemos Se você estiver à espera de uma resposta que faça
perguntar o que é, por que é e como é o mundo, e referência à utilidade prática da reflexão filosófica, podemos
precisássemos perguntar também o que somos, por dizer que o conhecimento verdadeiro é necessário para a
que somos e como somos (CHAUÍ, 2002a, p. 12). formulação de teorias, o desenvolvimento de métodos
científicos, a intervenção na natureza e o aperfeiçoamento
Ficamos admirados e espantados, exatamente como dos instrumentos tecnológicos: sem a formulação de
Benjamin Button ao nascer: já dotados das capacidades perguntas e a busca de respostas – sempre do ponto de
de ver, entender e conhecer, mas totalmente ignorantes vista externo ao senso comum –, não há como conquistar
a respeito das coisas. nada do que foi listado acima.
A subjetividade, quer dizer, a parcialidade no No entanto, temos aqui outra pretensão. Queremos
julgamento e na apreensão do mundo que nos cerca, é falar da importância da Filosofia não no sentido dos seus
representada pelas nossas atitudes pessoais em relação resultados práticos, mas sim quanto à possibilidade de
aos objetos. Podemos gostar ou não de determinadas ela permitir o acesso a novas formas de compreender e
coisas, e isso nos leva a emitir opiniões ou a elaborar dar sentido ao mundo.
julgamentos. Podemos gostar ou não das pessoas que A reflexão filosófica trata sobre a possibilidade do
emitem opiniões, e isso nos leva a concordar ou não com pensamento e, portanto, do conhecimento da verdade;
essas opiniões, independentemente do conteúdo ou da não apenas da realidade externa a nós, mas de nós
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mesmos, dos motivos e dos processos que nos levam a constantes pelas quais passamos nós e as coisas. A pessoa que, agora,
compreender a realidade da forma como o fazemos. Em molha os pés no rio será outra daqui a instantes. O rio, com suas águas
correntes, também será outro. Não há como repetir uma experiência
resumo, a Filosofia leva-nos à reflexão sobre nossa capa-
exatamente da mesma forma como ela ocorreu há instantes.
cidade e finalidade em relação ao conhecimento e à ação.
Assim, a Filosofia pode nos tornar pessoas mais vir- 2. Definindo Filosofia
tuosas, já que nos dá os instrumentos para o questio-
namento e a interrogação.
Etimologicamente, a palavra grega filosofia é resulta-
Vamos voltar à questão do tempo. A reflexão filosó-
do da junção de outras duas: philo, que deriva de philia,
fica permite que indaguemos quais os motivos que nos
significa amizade e amor fraterno; e sophia significa
levam a entender o tempo de determinada forma; qual o
sabedoria. Assim, Filosofia é o amor pelo saber, e o filó-
sentido que damos ao tempo; e com que finalidade preci-
sofo é alguém que deseja saber e tem amor pelo saber.
samos da atribuição do sentido ao tempo. Como você já
Alguns pensadores pretendem defini-la como visão de
deve ter percebido, a reflexão filosófica requer o pensa-
mundo, quase como um resultado da própria cultura.
mento sobre o pensamento e, no nosso exemplo, esta-
Outros a definem como sabedoria de vida – como arte do
mos pensando sobre as formas a partir das quais
bem-viver –, ou como resultado de um esforço racional
pensamos o tempo.
para compreender e dotar de sentido o mundo e o
Pensar sobre o pensamento exige que algumas
Universo. Segundo Chauí, cada uma dessas definições é
condições sejam atendidas: é evidente que não podemos
problemática, não abarcando a totalidade do significado de
refletir filosoficamente usando os mesmos métodos que
Filosofia. Para a filósofa, a melhor definição de Filosofia é
utilizamos no dia a dia para compreender o mundo e as
aquela que a entende como fundamento teórico e crítico
coisas que nos cercam. Não estamos mais operando no
dos conhecimentos e das práticas. Em outras palavras,
campo do “eu acho” ou do “eu gosto”. Para pensar sobre A Filosofia, cada vez mais, ocupa-se com as
o que é o pensamento, precisamos utilizar palavras preci- condições e os princípios do conhecimento que
sas e conceitos claros. Também necessitamos fazer uso pretenda ser racional e verdadeiro; com a origem,
da nossa razão para formar um conjunto coerente de a forma e o conteúdo dos valores éticos, políticos,
explicações e significados. Nessa atividade intelectual, artísticos e culturais; com a compreensão das
não podemos nos deixar enganar pelo que é fácil: ao causas e das formas da ilusão e do preconceito no
contrário, de forma sistemática, devemos utilizar princí- plano individual e coletivo; com as transformações
pios coerentes e encadeamentos lógicos para buscar o históricas dos conceitos, das ideias e dos valores.
significado das coisas. Essas são condições básicas para A Filosofia volta-se, também, para o estudo da
a reflexão filosófica. consciência em suas várias modalidades: percep-
Heráclito (540-475 a.C.), um dos raros pensadores ção, imaginação, memória, linguagem, inteligên-
pré-socráticos de quem temos fragmentos escritos, afir- cia, experiência, reflexão, comportamento, vontade,
mou que “não podemos entrar duas vezes no mesmo rio: desejo e paixões, procurando descrever as formas
suas águas não são nunca as mesmas e nós não somos e os conteúdos dessas modalidades de relação
nunca os mesmos” (CHAUÍ, 2002b, p. 81). Com essas entre o ser humano e o mundo, do ser humano
palavras, ele estava refletindo sobre a mudança contínua consigo mesmo e com os outros. Finalmente, a
à qual estamos sujeitos, nós e o mundo. Tudo muda, Filosofia visa ao estudo e à interpretação de ideias
todos envelhecem, nada permanece idêntico. Nós muda- ou significações gerais como: realidade, mundo,
mos e as águas do rio também mudam: não há como natureza, cultura, história, subjetividade, objetivi-
dade, diferença, repetição, semelhança, conflito,
manter o mundo constante, permanente.
contradição, mudança etc. Sem abandonar as
A atividade filosófica tem esse poder transformador.
questões sobre a essên-cia da realidade, a Filoso-
A reflexão e o pensamento crítico fazem com que mude-
fia procura diferenciar-se das ciências e das artes,
mos; também nos fazem perceber que as águas do rio
dirigindo a investigação sobre o mundo natural e o
nunca mais serão as mesmas.
mundo histórico (ou humano) num momento
muito preciso: quando perdemos nossas certezas
cotidianas e quando as ciências e as artes ainda
não ofereceram outras certezas para substituir as
que perdemos. Em outras palavras, a Filosofia se
interessa por aquele instante em que a realidade
natural (o mundo das coisas) e a histórica (o
mundo dos homens) tornam-se estranhas, espan-
tosas, incompreensíveis e enigmáticas, quando o
senso comum já não sabe o que pensar e dizer e
as ciências e as artes ainda não sabem o que
pensar e dizer (CHAUÍ, 2002a, p. 17).
Figura 3. Ao afirmar que não mergulhamos duas vezes nas águas de
um mesmo rio, Heráclito está refletindo a respeito das mudanças
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Assim, caberia à Filosofia ocupar-se com a criação apenas o presente que existe e, no entanto, ele não tem
dos conceitos, bem como com o processo do pensa- nenhum espaço. O que acontece agora já é passado, o
mento, fruto da atividade racional, e com a comunicação que ainda não aconteceu é futuro. O presente só pode
dessa atividade pensante. existir se o tempo puder ser subdividido em mínimos
pedaços, tão mínimos que sua passagem não se faça
perceptível; afinal, no momento em que o presente
ocorre, ele já deixa de existir e se transforma em passa-
do. Da mesma forma, quando pensamos no futuro – um
tempo que ainda não ocorreu – o fazemos daqui do pre-
sente. O futuro é imaginado e é pensado, não existindo
concretamente a não ser quando se torna presente (e,
portanto, passado).
As ideias de Agostinho parecem estranhas ou incom-
preensíveis? Reflita um pouco a respeito: ao contar sobre
o passado, a nossa perspectiva é sempre a do presente.
Se hoje somos pessoas diferentes do que éramos há
duas semanas, como conseguiríamos reconstruir o
passado sempre da mesma forma? Isso não equivale a
dizer que não seja possível uma percepção precisa a
Figura 4. O artista não pretende imitar a realidade; o seu objetivo é a respeito dos fatos do passado: apenas estamos reconhe-
busca da expressão da realidade, fazendo uso de técnicas. A Estética é cendo que a reconstrução do que já foi é, e sempre será,
a área da Filosofia que estuda a compreensão do mundo por meio das uma tarefa realizada no presente. Isso ocorre também em
expressões artísticas. relação ao futuro, uma construção feita a partir do pre-
sente, o qual, por sua vez, muda ao longo do tempo. O
Vamos adotar, por sua simplicidade, a definição tempo que já foi e o que ainda virá são sempre uma
proposta por Marilena Chauí (2002a): a Filosofia é análise construção feita a partir do presente. Se não fosse o
das condições das manifestações culturais, é reflexão presente, passado e futuro não existiriam. E, no entanto,
sobre as condições do conhecimento e é crítica às o presente é rápido e fugaz, logo se torna passado ou é
formulações artísticas, religiosas, científicas e políticas que pensado como futuro que ainda acontecerá.
surgem em função de como os seres humanos entendem Da mesma forma como estamos agora refletindo
a realidade e dão sentido a ela. Não é ciência, mas reflexão criticamente sobre o tempo a partir da perspectiva do
sobre como fazemos ciência. Não é religião, mas reflexão século XXI, Agostinho elaborou explicações racionais para
sobre as crenças religiosas e compreensão do como elas a existência do mundo e do tempo a partir do ponto de
buscam dar conta de explicar o mundo. Não é arte, mas vista do seu próprio momento histórico. Não poderia ser
entendimento sobre as formas de apreensão estética que de outra forma: todo autor é fruto do seu contexto
os homens desenvolveram ao longo do tempo. histórico, da cultura existente àquele instante, das
condições do conhecimento daquele momento.
3. A história da Filosofia Nascido em 354, na província de Numídia, na África,
Aurelius Augustinus tornou-se bispo de Hipona, cidade na
Fizemos, anteriormente, uma breve reflexão sobre o qual viveu até 430, ocupando um cargo que o obrigou a
significado do tempo. Outros também o fizeram, e em dividir-se entre as tarefas administrativas e a reflexão
vários e diferentes momentos históricos. Vejamos, por filosófica que tanto apreciava. Naquele instante, o Império
exemplo, a reflexão filosófica realizada por Santo Agos- Romano havia se dividido em dois: o Império Romano do
tinho a respeito do tempo. Ocidente (que, embora tivesse reunido sob o cristianismo
De que modo existem aqueles dois tempos – o inúmeras tribos de culturas diferentes, encontrava-se
passado e o futuro –, se o passado já não existe e ameaçado por seitas que criticavam a visão dos principais
o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se líderes cristãos e por invasões bárbaras) e o Império Ro-
fosse sempre presente, e não passasse para o mano do Oriente (cuja capital, Constantinopla, acabaria
pretérito, já não seria tempo, mas eternidade. Mas por cair nas mãos dos inimigos otomanos em 1453). O
se o presente, para ser tempo, tem necessa- cristianismo ocidental tinha muito com o que se
riamente de passar para o pretérito, como preocupar: além de deter as práticas pagãs e converter
podemos afirmar que ele existe, se a causa da sua os infiéis, ainda precisava lidar com as cisões provocadas
existência é a mesma pela qual deixará de existir?
pelas inúmeras correntes contrárias a Roma. Além disso,
(AGOSTINHO, 1999, p. 322).
ressentia-se com a falta de fundamentação filosófica de
seus preceitos, o que tornava obrigatório apoiar-se única
Para Agostinho, não existe o passado (ele já aconte- e exclusivamente nas verdades reveladas.
ceu), tampouco o futuro (que ainda não aconteceu). É
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O cristianismo existia há apenas quatro séculos, e Como resultado desse raciocínio, Agostinho formu-
seus pensadores e seguidores não haviam elaborado um lou a seguinte ideia: o ser humano era passível de erros;
conjunto de trabalhos filosóficos que discutissem os no entanto, como era também capaz de reconhecer o
principais elementos desta fé. Esta religião ainda tão erro, ele estava isento de erro. O que garantia a verdade
jovem tinha como apoio somente regras de conduta e no julgamento humano? O pensamento. Qual a fonte e a
crenças, entre elas a do sacrifício de Cristo em prol da origem do pensamento? A alma. A capacidade de pensar
humanidade. Para dotar o cristianismo de um arcabouço era uma qualidade da alma, enquanto os equívocos
filosófico, a Patrística – movimento filosófico – foi buscar provenientes das sensações estavam relacionados à
inspiração nas fontes que até então eram conhecidas, materialidade do corpo. Finalmente, à pergunta sobre
quer dizer, nas obras dos filósofos gregos e seus suces- quem seria o responsável pela iluminação da alma e pela
sores. Valendo-se, então, de vários elementos ali encon- sua capacitação para a busca da verdade, o pensador
trados, os filósofos da Patrística procuraram construir uma responderia de forma incisiva: Deus, criador de um
verdadeira filosofia cristã. Se a fé não era suficiente para mundo perfeito, obra de sua sabedoria e de sua bondade.
a conversão dos infiéis, era necessária uma filosofia que Habitante de um mundo criado por um Deus infinita-
provasse os principais fundamentos cristãos. mente bom, ao ser humano restava apenas a salvação da
Envolvido na tarefa de elaborar essa filosofia cristã, graça divina, única possibilidade de resgatá-lo do risco da
Agostinho propôs que a reflexão filosófica fosse o danação eterna.
caminho ideal para atingir a felicidade: a Filosofia seria o Para Agostinho, em pleno século IV d.C., só havia
instrumento mais que perfeito para a indagação a respeito uma resposta lógica para a pergunta a respeito do signifi-
da condição humana e para a prova da existência de Deus; cado do tempo: ele havia sido criado por Deus, sinônimo
em adição, a fé seria a via de acesso à verdade eterna, de Eternidade. “Criastes todos os tempos e existis antes
porém precedida pela razão. Era necessário compreender de todos os tempos. Não é concebível um tempo em que
para crer; depois, era necessário crer para compreender. A possa dizer-se que não havia tempo” (AGOSTINHO,
razão precedia a fé e era, também, sua consequência. 1999, p. 322).
Caminhando por essa trilha, Agostinho formulou sua Faltava objetividade na reflexão filosófica de
concepção de mundo, do ser humano e de Deus. Agostinho? Estaria essa reflexão contaminada pela fé e
por suas crenças pessoais? Vamos pensar um pouco a
respeito. A objetividade é um dos objetivos da reflexão
Saiba mais filosófica. Isso não significa, entretanto, que possamos
Sugerimos que você assista ao filme Augustine – O nos imaginar totalmente imunes ao nosso próprio tempo
declínio do Império Romano (diretor Christian Duguay, histórico. Como já discutimos anteriormente, a atitude
2010, 200 minutos). Nele, Agostinho – em meio à crítica e o pensamento crítico têm como propósito
invasão dos vândalos e visigodos ao Império Romano, diminuir o atrito entre as nossas crenças pessoais e a
nossa reflexão imparcial sobre a realidade. No entanto,
já em decadência – relembra sua adolescência, sua
não há como negar que somos seres morais, dotados de
adesão ao maniqueísmo (uma religião que acreditava
cultura e frutos do nosso contexto histórico.
no confronto contínuo entre as forças do Bem e do
A Filosofia está imersa na História. Mais: a Filosofia
Mal), sua vida de excessos e, posteriormente, sua
tem uma História própria e seus representantes falam a
conversão ao cristianismo. O filme também mostra os
partir das condições históricas do momento em que ela-
conflitos entre o cristianismo e as diversas seitas que
boram suas ideias. Agostinho trata a questão do tempo de
se opunham ao poder central da Igreja, em particular
acordo com as possibilidades do seu momento histórico.
a dos donatistas, que se consideravam representantes
Qualquer um de nós, em pleno século XXI, poderia fazê-
da verdadeira igreja e julgavam os demais como
lo de outra forma. Aliás, impossível fazer de maneira
traidores e pecadores. semelhante à de Agostinho: nós já nos apropriamos dos
resultados da Revolução Científica, já lemos Newton e
Na tentativa de refutar o ceticismo (que considerava Darwin, já passamos por duas grandes guerras mundiais,
os sentidos como únicas fontes do conhecimento e, por já vimos cidades inteiras serem destruídas pela energia
isso mesmo, estava imerso em erros e incertezas), atômica, temos contato com as possibilidades quase ilimi-
Agostinho propôs que os equívocos não estavam naquilo tadas da comunicação no espaço virtual... Como, então,
que os sentidos apreendiam, mas nos juízos feitos pensar no tempo tal como o fez o pensador que estamos
daquilo que era percebido. estudando?
Ao invés de afirmar “isso é branco”, vendo nisso Em razão disso, é fundamental termos em mente
uma verdade absoluta, o ser humano deveria dizer alguns aspectos:
“eu sei que isto me parece branco: limito-me à a) não há como ignorar o contexto histórico a partir
minha percepção e encontro nela uma verdade que do qual foram desenvolvidas as ideias dos filósofos que
não me pode ser negada” (PESSANHA, 1999, p. 14). estudaremos;

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b) devemos ser cuidadosos quando do diálogo entre Razão. A Filosofia medieval procurou demonstrar racional-
filósofos de períodos históricos diferentes: Platão (427- mente a existência de Deus, investigou a diferença entre
347 a.C.) e Hannah Arendt (1906-1975) falam de amor, o finito e o infinito e buscou formular uma hierarquia entre
mas a partir de perspectivas totalmente distintas; quando os seres, na qual os inferiores eram governados pelos
Leucipo de Mileto (século V a.C.) fala de átomo, não se superiores. A Renascença colocou o homem no controle
refere ao mesmo que Albert Einstein (1879-1955) do seu destino por meio do acesso ao conhecimento: o
entendia como átomo – são “átomos” diferentes, concei- saber permitiria o controle da natureza, dos céus, dos ma-
tos distintos, sem qualquer comunicação entre eles; res e da matéria. A Filosofia moderna fez triunfar o
c) as ideias filosóficas são capazes de sobreviver ao racionalismo: nada mais recomendável do que usar o
seu próprio tempo. Assim, podemos falar de influências intelecto e a razão para conhecer o mundo, essa realidade
platônicas (século IV) no trabalho de um filósofo do século organizada sob uma forma racional e dotada de mecanis-
XVII, ou do impacto do positivismo de Comte (século XIX) mos físicos e matemáticos possíveis de serem com-
em pleno século XXI. Fica claro também que essas preendidos e interpretados. A Filosofia da Ilustração
influências não significam que as ideias se repetem manteve a razão em papel de proeminência, colocando-a
exatamente da mesma forma como foram elaboradas ao como responsável pela conquista da evolução e do
seu tempo: elas se adaptam, se acomodam e ganham progresso.
novas interpretações em contextos históricos diferentes; A cada momento histórico, os filósofos fizeram as
d) não há como aplicar os adjetivos “melhor”, “pior”, perguntas que a realidade lhes apresentava e de acordo
“certo” ou “errado” às abordagens filosóficas: elas pre- com as suas possibilidades de conhecimento. Quais são,
cisam ser analisadas a partir das possibilidades de conhe- então, as perguntas para as quais a Filosofia do século
cimento existentes à época em que foram elaboradas; XXI está à procura de respostas? São muitas e diversas,
e) os textos primários (quer dizer, os textos originais e podemos citar algumas: o que é o progresso? Qual é o
dos filósofos) devem ser lidos e compreendidos à luz do papel da ciência? Qual o domínio que o conhecimento
tempo em que foram produzidos. Quase sempre, a pode exercer sobre a natureza e a sociedade? Como
linguagem utilizada pelos filósofos causará estranheza; construir uma sociedade justa e feliz? Como tornar possí-
pense nisso como um ponto positivo, já que a estranheza vel a pluralidade cultural? Como garantir o rigor nos méto-
permitirá a distância e a objetividade necessárias para a dos científicos? Quais os papéis desempenhados pela
análise imparcial das ideias do pensador estudado. linguagem científica, os problemas lógicos com os quais
Como já dissemos, a Filosofia tem uma História, e as ciências devem conviver e as condições para o conhe-
propomos dividi-la em sete períodos, tal como sugerido cimento científico? Quais os limites e a consistência dos
por Chauí (2002a). Assim, temos: conceitos até hoje desenvolvidos por meio da reflexão
a) a Filosofia antiga, que compreende a Filosofia filosófica e da atividade científica? São muitos os desafios
greco-romana até o período helenístico; a serem enfrentados pela reflexão filosófica, e os 25
séculos de vida da Filosofia são a garantia de que eles
b) a Patrística, do século I ao século VII, do qual serão ultrapassados e de que outros novos desafios
Agostinho é um dos representantes mais ilustres; surgirão.
c) a Filosofia medieval, do século VIII ao século XIV;
d) a Filosofia da Renascença, do século XIV ao século
XVII;
e) a Filosofia Moderna, do século XVII ao século XVIII;
f) a Filosofia da Ilustração, ou Iluminismo, que
compreende o período entre meados do século XVIII e
começo do século XIX;
g) a Filosofia contemporânea, do século XIX aos dias
de hoje.
Cada um desses períodos tem a marca do seu mo-
mento histórico. Em cada um deles, vemos os sinais do
que as perguntas propostas pelos filósofos revelam sobre
as condições de pensamento vigentes àqueles instantes.
A Filosofia patrística refletiu sobre a criação do mundo por Figura 5. No século XXI, e em termos das perguntas para as quais a
Deus, sobre o juízo final, sobre o Bem e o Mal; ainda, Filosofia deve oferecer respostas, é fundamental a questão referente
questionou-se sobre a possibilidade de conciliar a Fé e a à construção de uma sociedade justa e feliz, respeitada a pluralidade
cultural.

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Breve diálogo
Daniel Loneeff, 55 anos, é bacharel em Filosofia, Jornalismo e Direito. Atualmente, trabalha como assessor de
comunicação em São Paulo.
Pergunta: Em que momento você decidiu que estudaria Filosofia?
Daniel Loneeff: Quando terminei o Colégio. Fui muito instigado por um professor de Matemática. Ele levantava
sempre problemas filosóficos e achei que a Filosofia era uma base cultural importante. Independentemente do que
eu fosse fazer em termos profissionais, eu achei que valeria a pena estudar Filosofia.
Pergunta: Estudar Filosofia mudou a maneira de você ver o mundo?
Daniel Loneeff: Ela trouxe uma densidade de pensamento e uma cautela nas conclusões que, normalmente, a gente
não tem. Estamos acostumados a tirar conclusões apressadas, e a Filosofia me mostrou um outro caminho. Ela me
ensinou a desconfiar de verdades estabelecidas, me ensinou que a Ciência não é uma solução para tudo, que ela tem
limites e também está sujeita a pressupostos do pensamento que não podem ser comprovados empiricamente. Não
existe Ciência isenta de pressupostos, e esses pressupostos, além de não estarem sujeitos a comprovação, estão
ocultos, você não enxerga isso claramente na teia de conceitos de uma teoria.
Pergunta: De que forma a Filosofia facilitou os estudos em outras áreas do conhecimento?
Daniel Loneeff: A Filosofia me ensinou a ler textos de uma maneira não trivial e a escrever bem. A organização das
ideias também foi um ganho. Há um treino para ler textos de Filosofia e esse treino é bastante útil. Na Filosofia,
aprender como ideias e conceitos estão conectados e como eles se desenvolvem coerentemente num texto é um
treino diário. Além disso, há a formação cultural: você lê textos que continuam sendo o fundamento da nossa civilização.
Pergunta: Qual foi a maior dificuldade que você enfrentou durante o curso de Filosofia?
Daniel Loneeff: Alguns textos com os quais a gente se depara são muito difíceis de serem lidos sozinho. Você precisa
de um tutor, de alguém que o oriente. Essa é a maior dificuldade que um aluno de Filosofia enfrenta.

Conteúdo complementar

Texto 1: vivemos o lugar em que prevaleçam nossos ideais de justiça,


generosidade, coragem e solidariedade. Enquanto a morte é um
ato solitário, a vida exige a presença dos outros.
A liberdade, a política e a democracia
Entre os instrumentos que os homens desenvolveram para
Na atualidade, uma das mais importantes questões
a vida em sociedade, a política ocupa lugar de destaque: ela foi
filosóficas está relacionada à liberdade e aos limites da nossa
criada para que os seres humanos possam viver em grupo,
vontade. Até onde podemos ir, até que ponto nosso desejo é
apesar das diferenças e dos conflitos existentes. É por meio da
mais importante do que o desejo dos outros? Em termos dos
política que os homens discutem, deliberam e decidem as ações
nossos anseios, o que depende de nós e o que depende daquilo que dizem respeitos a todos; por isso, é no âmbito da política
que é externo a nós? que discutimos as formas de participação no poder, bem como
Segundo Chauí, os direitos e as obrigações de todos.
Não é na solidão de uma vontade individual que
podemos enfrentar o “mundo grande”, mas na
companhia dos outros que nos trazem a notícia de que
A democracia é uma das formas de organização política e
o mundo cresce todo dia, isto é, transforma-se tem como base alguns princípios:
incessantemente (...) entre lutas, guerras, conflitos e a) a adoção de um regime de governo democrático, no qual
busca de paz, entendimento e justiça. Somos livres não estão presentes os partidos políticos, a divisão de poderes,
contra o mundo, mas no mundo (...), mudando-o na o respeito à vontade da maioria e o reconhecimento dos
companhia dos outros, aprendendo (...) suas dores, seus direitos da minoria;
sofrimentos, suas batalhas e suas esperanças (CHAUÍ, b) a escolha dos representantes segundo a vontade da maioria,
2002, p. 364). por meio de eleições (o poder pertence não aos ocupantes
de postos no governo, mas aos cidadãos que, livremente,
Nossa liberdade é aquela que, de forma objetiva, está escolhem seus representantes para que exerçam o poder em
inserida no mundo e depende, portanto, dos limites e das pos- seu nome durante determinado intervalo de tempo);
sibilidades que se apresentam diante de nós. Isso não significa, c) o reconhecimento da existência de opiniões divergentes e
porém, conformismo com aquilo que a realidade nos oferece: ao de divisões na sociedade, que se expressam sob a forma da
contrário, a liberdade exige que façamos do mundo em que alternância no poder;
–7
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d) a criação de direitos baseados nos princípios de igualdade e seus sentimentos, e pelas consequências do que faz e
(todos devem ser tratados da mesma forma), liberdade sente (CHAUÍ, 2002, p. 337).
(todos têm o direito de se expressar e de fazer escolhas,
sejam elas profissionais, políticas ou religiosas) e participa- A ética não é algo que possa ser imposto; ao contrário, deve
ção no poder (todos têm o direito de se fazer representar, ser fruto da livre vontade do agente. Esse agente deve ter
garantido o sufrágio universal, reconhecendo-se a cidadania consciência de si e dos outros, deve ser capaz de controlar os
para homens, mulheres, negros, analfabetos ou perten- próprios desejos e impulsos e de assumir a responsabilidade
centes a grupos minoritários). pelos efeitos que suas ações provocam.
A ética é construída socialmente; portanto, depende das
condições históricas e sociais das quais emana. Isso nos leva a
pensar a respeito das transformações que sofreram nossos
valores morais e éticos. Por exemplo, a escravidão era tida como
moralmente justificada nos séculos XVII e XVIII. A autópsia, por
sua vez, foi considerada uma prática pecaminosa durante muitos
séculos: examinar o cadáver era visto como uma profanação do
corpo.
Da mesma forma como os valores éticos se formam a partir
do espírito de determinada época, os desenvolvimentos científicos
e a própria ampliação do conhecimento trazem novos desafios a
serem enfrentados pela nossa consciência moral.
Nos dias de hoje, os desenvolvimentos alcançados pelas
Ciências da Vida e da Saúde criaram novos conflitos éticos. Não
seria possível, na Idade Média, pensarmos a respeito da
dimensão moral associada ao transplante de órgãos; no entanto,
Figura 1. O então presidente da Assembleia Nacional Constituinte, em pleno século XXI, certas questões se impõem, todas elas
Ulysses Guimarães, apresenta a nova Constituição Federal, vigente referentes às relações entre os valores humanos e o
até hoje. A Constituição Federal de 1988 é tida como Constituição-ci- conhecimento biológico, em especial quando os atos humanos
dadã, pois foi formulada tendo em vista a proteção aos direitos dos causam efeitos irreversíveis sobre os fenômenos vitais.
cidadãos. Assim, ela restabelece as eleições diretas para todos os
cargos do Poder Executivo, o direito de voto para os analfabetos e a
proteção à liberdade de expressão dos meios de comunicação. Saiba mais
Caso você tenha interesse pelo assunto, sugerimos a
Os desafios à construção de uma sociedade democrática
são inúmeros. Não basta que a forma de governo seja demo- leitura de O que é Ética, de Álvaro L. M. Valls, da
crática; é necessário que os benefícios da democracia estejam Coleção Primeiros Passos, Editora Brasiliense, 1994.
ao alcance de todos. Assim, a violência, o racismo, o precon-
ceito e as desigualdades sociais e econômicas são empecilhos
para a construção de uma sociedade justa e que seja capaz de Texto 3:
defender e proteger os direitos de todos.
A Filosofia e a Estética
A Estética é o campo da Filosofia que se preocupa com o
Texto 2:
estudo das manifestações artísticas. No século XVIII, ela
buscava o estudo das obras de arte como criações que tinham
A ética como finalidade o belo. Atualmente, ela designa a investigação
Nosso senso moral e nossa consciência moral são frutos filosófica que tem por objeto as artes, buscando compreender
das distinções que fazemos entre o que é bom e o que é mau, a realização da beleza, por parte do artista, e a recepção da obra,
entre o Bem e o Mal. Essas distinções nos permitem construir por parte do espectador.
valores relacionados à justiça, à integridade, ao espírito de A História da Arte permite a identificação de diferentes
sacrifício e à generosidade; em função desses valores, desen- escolas e estilos artísticos. Segundo Chauí,
volvemos sentimentos de admiração, amor, dúvida, medo e Se acompanharmos as transformações sofridas pelas
artes, passando da função religiosa à autonomia da obra
revolta que, ao final, levam-nos a ações que se traduzem em
de arte como criação e expressão, veremos que as
consequências para nós mesmos e para os outros. Assim, o
mudanças foram de dois tipos. De um lado, mudanças
senso moral e a consciência moral estão atrelados às relações quanto ao fazer artístico, diferenciando-se em escolas de
que mantemos com os outros. arte ou estilos artísticos – clássico, gótico, renascentista,
A ética diz respeito a esse conjunto de valores morais que barroco, rococó, romântico, impressionista, realista, ex-
norteia a nossa ação. Dessa forma, a ética requer a existência pressionista, abstrato, construtivista, surrealista etc. Essas
de um sujeito consciente e que saiba diferenciar o certo do mudanças concernem à concepção do objeto artístico, às
errado. Segundo Chauí, relações entre matéria e forma, às técnicas de elaboração
a consciência moral não só conhece tais diferenças, mas dos materiais, à relação com o público, ao lugar ocupado
também se reconhece como capaz de julgar o valor dos por uma arte no interior das demais e servindo de padrão
atos e das condutas, e de agir em conformidade com os a elas, às descobertas de procedimentos e materiais novos
valores morais, sendo por isso responsável por suas ações etc. (CHAUÍ, 2002, p. 326).

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O Expressionismo, por exemplo, foi um movimento artístico que surgiu na Alemanha, na primeira década do século XX. Para os
artistas do Expressionismo, a arte estava associada ao movimento, ao uso das cores fortes e à distorção das imagens. Assim, nas
obras de arte do Expressionismo, surgem figuras deformadas em meio ao sofrimento, ao clima dramático e à desolação. A morte é
um tema constante nas obras dessa escola, bem como a crítica ao ideal de beleza.

Saiba mais
Caso você tenha interesse em estudar mais os movimentos artísticos, sugerimos uma visita à Enciclopédia Cultural
Itaú, disponível em: <www. [Link]>. Acesso em: 26 jun. 2016. Lá, você poderá encontrar
mais de cinco mil verbetes a respeito de artes visuais, dança, música, cinema, teatro e literatura.

Referências – Módulo 1 [Link]?itok=S9btM6ol>. Acesso em: 21 jun. 2016.


Audiovisuais Figura 2. Disponível em: <[Link]
AUGUSTINE, o declínio do Império Romano. Dir. Christian _portalebc2014/
Duguay. Itália/Alemanha: Warner Bros., 2010, 200 files/atoms_image/filosofia_120730_cc.jpg>. Acesso em:
minutos. 21 jun. 2016.
O CURIOSO caso de Benjamin Button. Dir. David Fincher. Figura 3. Disponível em: <[Link]
Estados Unidos: Paramount Pictures, Warner Bros., The sites/_agenciabrasil2013/files/rios_negro_e_solimoes.jpg>
Kennedy/Marshall Company, 2009, 155 minutos. . Acesso em: 21 jun. 2016.
Textuais Figura 4. Disponível em: <[Link]
AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova sites/_agenciabrasil2013/files/styles/interna_ grande/
Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores). public/marieta_1.jpeg?itok=hd7tRBNv>. Acesso em: 21
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 12. ed. São Paulo: jun. 2016.
Ática, 2002a. Figura 5. Disponível em: <[Link]
_____. Introdução à história da Filosofia: dos pré-socráticos portalebc2014/
a Aristóteles. São Paulo: Cia. das Letras, 2002b. files/atoms_image/981957-25102015-dsc_2786_0.jpg>.
ELIAS, N. Sobre o tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Acesso em: 21 jun. 2016.
1998.
FITZGERALD, Francis Scott. O estranho caso de Benjamin Referências – Conteúdo Complementar – Módulo 1
Button. Balneário Rincão: Dracaena, 2013.
GAARDEN, Jostein. O mundo de Sofia. São Paulo: Cia. Textuais
das Letras, 2012. CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 12. ed. São Paulo:
PESSANHA, José Américo Motta. Vida e obra. In: Ática, 2002.
AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de J. Oliveira VALLS, A. L. M. O que é Ética. São Paulo: Brasiliense,
Santos e A. Ambrósio de Pina. São Paulo: Nova Cultural, 1994. (Coleção Primeiros Passos).
1999. (Coleção Os Pensadores). Créditos das imagens
Créditos das imagens Figura 1. Disponível em: <[Link]
Figura 1. Disponível em: <[Link] agenciabrasil/sites/_agenciabrasil/files/gallery_assist/
_portalebc2014/ 26/gallery_assist732139/[Link]>. Acesso
files/styles/full_colunm/public/atoms_image/relogio_usp_i em: 26 jun. 2016.

1. Leia o texto a seguir. Nele, estão contidas algumas não as suas imagens, mas os próprios objetos. (...) De
ideias de Agostinho a respeito da memória. onde e por que parte me entraram na memória? (...)
Entreguei-as ao meu espírito, como quem as deposita,
Quando ouço dizer que há três espécies de questões, para depois as retirar quando quiser.
a saber: “se uma coisa existe (...), qual a sua natureza (...) (AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo:
e qual a sua qualidade (...)”, retenho as imagens dos sons Nova Cultural, 1999, p. 270. Coleção Os Pescadores.)
de que se formaram estas palavras, e vejo que eles
passaram com ruído através do ar, e já não existem. Não O que Agostinho quer dizer quando afirma que as coisas
foi por nenhum dos sentidos do corpo que atingi essas já existem no espírito, cabendo à memória apenas
coisas significadas nestes sons, nem as vi em parte reconhecê-las?
nenhuma a não ser no meu espírito. Escondi na memória
–9
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2. – A ética precisa ser compreendida como


um empreendimento coletivo a ser constan-
temente retomado e rediscutido, porque é produto da
relação interpessoal e social. A ética supõe ainda que
cada grupo social se organize sentindo-se responsável por
todos e que crie condições para o exercício de um pensar
e agir autônomos. A relação entre ética e política é
também uma questão de educação e luta pela soberania
dos povos. É necessária uma ética renovada, que se
construa a partir da natureza dos valores sociais para
organizar também uma nova prática política.
(CORDI et al. Para filosofar. São Paulo:
Scipione, 2007. Adaptado.)

O Século XX teve de repensar a ética para enfrentar


novos problemas oriundos de diferentes crises sociais,
conflitos ideológicos e contradições da realidade. Sob
esse enfoque e a partir do texto, a ética pode ser
compreendida como
a) instrumento de garantia da cidadania, porque através
dela os cidadãos passam a pensar e agir de acordo
com valores coletivos.
b) mecanismo de criação de direitos humanos, porque é
da natureza do homem ser ético e virtuoso.
c) meio para resolver os conflitos sociais no cenário da
globalização, pois a partir do entendimento do que é
efetivamente a ética, a política internacional se realiza.
d) parâmetro para assegurar o exercício político primando
pelos interesses e ação privada dos cidadãos.
e) aceitação de valores universais implícitos numa
sociedade que busca dimensionar sua vinculação a
outras sociedades.

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3. 4.

Texto I
A ação democrática consiste em todos tomarem parte
do processo decisório sobre aquilo que terá conse-
quências na vida de toda a coletividade.
(GALLO, S. et al. Ética e cidadania: caminhos da Filosofia.
Campinas: Papirus, 1997. Adaptado.)

Texto II
É necessário que haja liberdade de expressão,
fiscalização sobre órgãos governamentais e acesso por
parte da população às informações trazidas a público pela
A conversa entre Mafalda e seus amigos imprensa.
a) revela a real dificuldade de entendimento entre (Disponível em: <[Link]

posições que pareciam convergir. [Link]>. Acesso em: 24 abr. 2010.)

b) desvaloriza a diversidade social e cultural e a


capacidade de entendimento e respeito entre as Partindo da perspectiva de democracia apresentada no
pessoas. Texto I, os meios de comunicação, de acordo com o Texto
c) expressa o predomínio de uma forma de pensar e a II, assumem um papel relevante na sociedade por
possibilidade de entendimento entre posições a) orientarem os cidadãos na compra dos bens
divergentes. necessários à sua sobrevivência e bem-estar.
d) ilustra a possibilidade de entendimento e de respeito b) fornecerem informações que fomentam o debate
entre as pessoas a partir do debate político de ideias. político na esfera pública.
e) mostra a preponderância do ponto de vista masculino c) apresentarem aos cidadãos a versão oficial dos fatos.
nas discussões políticas para superar divergências. d) propiciarem o entretenimento, aspecto relevante para
conscientização política.
e) promoverem a unidade cultural, por meio das
transmissões esportivas.

– 11
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5.

6. – Panayiotis Zavos “quebrou” o último tabu


da clonagem humana – transferiu embriões
para o útero de mulheres, que os gerariam. Esse
procedimento é crime em inúmeros países. Aparen-
(AZEVEDO, Dom Walmor Oliveira de. Disponível em:
temente, o médico possuía um laboratório secreto, no
<[Link] Acesso em: 30 ago. 2010.)
qual fazia seus experimentos. “Não tenho nenhuma
dúvida de que uma criança clonada irá aparecer em breve.
A charge acima representa um grupo de cidadãos
Posso não ser eu o médico que irá criá-la, mas vai
pensando e agindo de modo diferenciado, frente a uma
acontecer”, declarou Zavos. “Se nos esforçarmos,
decisão cujo caminho exige um percurso ético.
podemos ter um bebê clonado daqui a um ano, ou dois,
Considerando a imagem e as ideias que ela transmite,
mas não sei se é o caso. Não sofremos pressão para
avalie as afirmativas que se seguem.
entregar um bebê clonado ao mundo. Sofremos pressão
para entregar um bebê clonado saudável ao mundo.”
I. A ética não se impõe imperativamente nem universal-
(CONNOR, S. Disponível em: <[Link]>.
mente a cada cidadão; cada um terá que escolher por Acesso em: 14 ago. 2012. Adaptado.)
si mesmo os seus valores e ideias, isto é, praticar a
autoética. A clonagem humana é um importante assunto de reflexão
II. A ética política supõe o sujeito responsável por suas no campo da bioética que, entre outras questões, dedica-
ações e pelo seu modo de agir na sociedade. se a
III. A ética pode se reduzir ao político, do mesmo a) refletir sobre as relações entre o conhecimento da vida
modo que o político pode se reduzir à ética, em e os valores éticos do homem.
um processo a serviço do sujeito responsável. b) legitimar o predomínio da espécie humana sobre as
IV. A ética não depende de condições históricas e demais espécies animais no planeta.
sociais, pois é no homem que se situa a decisão c) relativizar, no caso da clonagem humana, o uso dos
ética, quando ele escolhe os seus valores e as valores de certo e errado, de bem e mal.
suas finalidades. d) legalizar, pelo uso das técnicas de clonagem, os
processos de reprodução humana e animal.
É correto apenas o que se afirma em: e) fundamentar técnica e economicamente as pesquisas
a) I e II. b) I e III. c) III e IV. sobre células-tronco para uso em seres humanos.
d) II e IV. e) IV.

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7. (ENADE) – O filósofo alemão Friedrich Nietzsche e)


(1844-1900), talvez o pensador moderno mais incômodo
e provocativo, influenciou várias gerações e movimentos
artísticos. O Expressionismo, que teve forte influência
desse filósofo, contribuiu para o pensamento contrário ao
racionalismo moderno e ao trabalho mecânico, através do
embate entre a razão e a fantasia. As obras desse
movimento deixam de priorizar o padrão de beleza
tradicional para enfocar a instabilidade da vida, marcada
Abaporu, Tarsila do Amaral.
por angústia, dor, inadequação do artista diante da Disponível em:
realidade. <[Link]

Das obras a seguir, a que reflete esse enfoque artístico é

a) b)

Homem idoso na poltrona, Figura e borboleta,


Rembrandt van Rijn, Milton Dacosta. Disponível
em:Louvre, Paris. <[Link]
Disponível em:
<[Link]

c) d)

O grito, Edvard Munch, Menino mordido por um


Museu Munch, Oslo. lagarto, Michelangelo Merisi
Disponível em: (Caravaggio),
<[Link] National Gallery, Londres.
Disponível em:
<[Link]

– 13
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MÓDULO 2 Do mito à razão (pré-socráticos)


Neste módulo, estudaremos o surgimento da e à tenebrosa indistinção de Caos opõem-se a
Filosofia como resultado da transição da explicação mítica nitidez, a firmeza e a estabilidade de Gaia. Na Terra
para a explicação racional. Investigaremos as condições tudo é desenhado, tudo é visível e sólido. É
históricas que facilitaram o surgimento da Filosofia na possível definir Gaia como o lugar onde os deuses,
os homens e os bichos podem andar com
Grécia e exploraremos as ideias de alguns pensadores
segurança. (...) Embora a Terra seja bem visível,
anteriores ao período socrático.
tenha uma forma recortada, e tudo o que dela
nascer também terá limites e fronteiras distintas,
1. O surgimento da Filosofia: da cosmogonia à nem por isso ela deixa de ser, em suas profun-
cosmologia dezas, semelhante ao Abismo. Ela é a Terra negra.
Os adjetivos que a definem nos relatos são
Na infância de sua História, a humanidade usou de similares aos que se referem ao Abismo. A Terra
muitos recursos para dar conta de explicar a realidade e o negra se estende entre o baixo e o alto; entre, de
mundo. As perguntas deviam ser inúmeras, tantas um lado, a escuridão e o enraizamento no Abismo,
quantas as que nos cercam atualmente. Por que o mar representado em suas profundezas, e, de outro,
inunda as terras em certos períodos, recuando para longe as montanhas encimadas de neve que ela projeta
para o céu, montanhas luminosas cujos picos mais
em outros? Por que a noite vem depois do dia, retornando
altos atingem a zona celeste continuamente
quando o Sol desaparece? Quem criou cada grão de areia
inundada de luz. A Terra constitui a base dessa
e as estrelas que brilham na escuridão? Por que chove e
morada que é o cosmo, mas não tem só essa
por que a chuva faz nascerem flores e crescerem função. Ela engendra e alimenta todas as coisas
sementes? Há alguém que comanda as chuvas, o Sol, a (...). Gaia é a mãe universal. Florestas, montanhas,
lua; que faz com que pragas se espalhem por entre os grutas subterrâneas, ondas do mar, vasto céu, é
homens; que fornece ou esconde os peixes do mar? Por sempre de Gaia, a Mãe-Terra, que eles nascem.
que algumas crianças morrem logo ao nascer, enquanto Portanto, primeiro houve o Caos, imensa boca em
outros envelhecem e morrem já em idade avançada? Para forma de abismo escuro, sem limites, mas que
qual lugar os mortos se dirigem depois de se despedirem num segundo tempo abriu-se para um chão sólido:
da vida? Estamos mortos ou vivos quando dormimos? O a Terra. Esta se lança para o alto, desce às profun-
que são os sonhos? dezas. Depois de Caos e Terra aparece, em
terceiro lugar, o que os gregos chamam Eros, e
Tal como uma criança que cria narrativas mágicas para
que mais tarde chamarão “o velho Amor” (...) O
explicar os motivos de o Sol acompanhá-la aonde quer
primeiro Eros expressa um impulso no universo.
que ela vá, os homens fizeram algo parecido: o objetivo
Da mesma forma que Terra surgiu de Caos, de
era o de explicar o que não era possível de ser entendido Terra vai brotar o que ela contém em suas profun-
e controlado. A elaboração e a difusão de narrativas dezas. Terra vai parir sem precisar se unir a
míticas foram algumas dessas estratégias. Vernant, um ninguém. Ela dá à luz o que nela existia de forma
dos maiores estudiosos dos mitos gregos, apresenta uma obscura. Primeiro, Terra engendra um persona-
versão do mito da criação do mundo. gem muito importante, Ouranós, Céu, e até mes-
O que havia quando ainda não havia coisa alguma, mo Céu estrelado. Depois, traz ao mundo Póntos,
quando não havia nada? A essa pergunta os isto é, a água, todas as águas, e mais exatamente
gregos responderam com histórias e mitos. No a Onda do Mar, palavra que em grego é masculina.
início de tudo, o que primeiro existiu foi Abismo: Terra os concebe sem se unir a ninguém. Pela
os gregos dizem Kháos. O que é o Caos? É um força íntima que tem, Terra desenvolve o que já
vazio, um vazio escuro onde não se distingue estava dentro de si e que, ao sair dela, torna-se
nada. Espaço de queda, vertigem e confusão, sem seu duplo e seu contrário. Por quê? Porque produz
fim, sem fundo. Somos apanhados por esse um Céu estrelado igual a si mesma, como uma
Abismo como por uma boca imensa e aberta que réplica tão sólida, tão firme quanto ela, e do
tudo tragasse numa mesma noite indistinta. mesmo tamanho. Então, Urano se deita sobre ela.
Portanto, na origem há apenas esse Caos, abismo Terra e Céu constituem dois planos superpostos
cego, noturno, ilimitado. Depois apareceu Terra. do universo, um chão e uma abóbada, um
Os gregos dizem Gaía, Gaia. Foi no próprio seio embaixo e um em cima, que se cobrem comple-
do Caos que surgiu a Terra. Portanto, nasceu tamente (VERNANT, 2000, p. 18).
depois de Caos e representa, em certos aspectos,
seu contrário. A Terra não é mais esse espaço de O mito (da palavra grega mythos, que significa contar,
queda escuro, ilimitado, indefinido. A Terra possui narrar, anunciar) é uma narrativa sobre a origem de
uma forma distinta, separada, precisa. À confusão alguma coisa e tem poder de verdade. É visto como uma
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verdade por quem o enuncia (poetas ou narradores de persas, africanos e índios) também desenvolveram for-
histórias) e é entendido como verdade por quem o ouve. mas específicas de pensar o mundo; no entanto, a
Tendo origem em alguma revelação divina, o mito incor- Filosofia é um fato grego, destacando-se das concepções
pora o sagrado e é transmitido como verdade inques- de outras culturas de forma clara.
tionável. O relato mítico transforma-se a cada vez que é
narrado. Parcialmente aberto à inovação, adapta-se ao
público com o qual fala.
Como os mitos narram o mundo? Em geral, eles atri-
buem a paternidade ou a maternidade das coisas e dos
seres a entes e deuses. A narrativa da criação e da exis-
tência do mundo é, portanto, uma genealogia (narrativa
de gerações).
Esses deuses e entes mágicos são dotados de
vontades e, por meio de seus atos, o mundo é criado, da
mesma forma como as paixões humanas são criadas e
se manifestam. Assim, a origem do mundo e da natureza
tem como princípio uma cosmogonia (gonia significa
nascimento a partir do parto; cosmo é o mundo orga-
nizado), na qual a narrativa sobre o nascimento e sobre a
organização do mundo é feita a partir de forças divinas
que exercem os papéis de pai e mãe.
O mito narra o funcionamento de forças que agem e
se comportam exatamente como os seres humanos.
Assim, os deuses e os entes estão em constante confli-
to, o que explica as transformações bruscas na natureza
e na vida dos homens. A raiva e o amor desses deuses
são revelados por meio dos temporais, dos períodos de
seca, das safras abundantes, das noites estreladas e de
outras em completa escuridão. Assim, para compreender
o mundo, basta compreender (ou tentar compreender) o
que se passa nos mundos dos deuses. Não que esse Figura 1. Povos indígenas de todos os lugares do planeta sempre
conhecimento seja acessível em sua totalidade: ao fizeram uso das estrelas (e de narrativas míticas associadas a elas) para
contrário, o acesso ao conhecimento de alguns dos mis- explicar as alterações do clima e os fenômenos da natureza. As estrelas
térios do mundo é passível de punição, e será castigado não eram os únicos indícios da origem do mundo: para os índios Mbya
Guarani, o princípio de tudo pode ser conhecido por meio dos mitos
aquele que tentar desvendá-los.
ligados ao Sol e à lua. Na imagem, vemos a constelação conhecida
Em algum momento da História do pensamento e como Homem Velho, que representa um homem sem uma perna, cujo
das ideias, os mitos cederam lugar a outras explicações e pedaço foi cortado pela esposa que preferia o cunhado ao marido.
formas de compreender o mundo. Claro que essa
transição não se deu de repente, tampouco de maneira As concepções para nós deixadas de herança pelo
irreversível. pensamento grego instituíram as bases do conhecimento
A Filosofia começou com os gregos, mas não na ocidental, em particular no que se refere à razão, à
Grécia. Os primeiros filósofos dos quais temos frag- racionalidade, à ciência e aos valores éticos e morais.
mentos de textos vieram de Mileto, uma colônia grega Uma das contribuições legadas pelos gregos está
da Ásia Menor. Evidentemente, outros povos (hebreus, associada à ideia de que a Natureza opera segundo leis

Saiba mais
Sugerimos que você assista ao filme Fúria de Titãs (diretor Louis Leterrier, 2010, 106 minutos). O filme narra o mito
de Perseu, um semideus (filho de Zeus) que teria fundado a cidade de Micenas. Usando um escudo (oferecido a ele
por Atena, deusa da sabedoria e da justiça), um elmo que o tornava invisível (dado por Hades, o deus dos mortos) e
sandálias com asas (oferecidas por Hermes, deus da fertilidade e dos conhecimentos mágicos), Perseu consegue
cortar a cabeça da Medusa, um monstro terrível que ameaçava os mortais e a sua amada. Independentemente das
modificações no mito original de Perseu, o filme permite que você entre em contato com o mundo conturbado dos
deuses, responsáveis pela sorte e pelo destino dos seres humanos.

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próprias e universais, sendo essas leis sujeitas ao A Filosofia nasce com base nas transformações
conhecimento e possíveis de serem acessadas por meio graduais que são realizadas a partir das narrativas míticas,
da vontade e da capacidade humana. O conhecimento, comuns tanto nas comunidades gregas quanto em outras
por sua vez, também obedece a leis lógicas. comunidades. Portanto, a razão descola-se do pensa-
Outra contribuição está relacionada à percepção de mento mágico aos poucos, estando este último presente
que as ações humanas são frutos de decisões e escolhas em várias obras dos primeiros filósofos – da cosmogonia
feitas pelos homens, especialmente dirigidas pela à cosmologia, e desta para a Filosofia. Esse processo, ao
aspiração à felicidade e à justiça. Excetuando-se as situa- menos segundo a visão da maior parte dos historiadores,
ções que fogem ao nosso controle, nossas operações no não se deu abruptamente: ao contrário, a transição foi
mundo são consequências das nossas decisões, tomadas lenta e gradual, permanecendo vestígios do pensamento
a partir do conhecimento e do acesso às leis de mágico em vários dos filósofos posteriores.
funcionamento da natureza. Segundo Chauí, De acordo com Chauí (2002b), podem ser assim
É por uma lei necessária da Natureza que os sintetizadas as diferenças entre os mitos e a Filosofia:
corpos caem, mas é por uma deliberação humana a) enquanto o mito narrava o passado, a Filosofia se
e por uma escolha voluntária que fabrico uma ocupou com as explicações relativas ao presente (mesmo
bomba, a coloco num avião e a faço despencar se, para isso, precisasse fazer uso do passado);
sobre Hiroshima (CHAUÍ, 2002a, p. 23).
b) enquanto o mito fazia uso de genealogias e
A Filosofia nasce desse pressuposto, qual seja, a da conflitos entre divindades, a Filosofia se ocupou em
possibilidade de aspirar ao conhecimento do mundo, buscar uma explicação racional para a compreensão do
regido e conduzido por homens cientes das leis de seu mundo e da natureza;
funcionamento. Nesse cenário, ficam excluídas as divin- c) enquanto o mito não estava preocupado com a
dades e as explicações mágicas (ao menos, enquanto verossimilhança de suas narrativas, a Filosofia buscou
princípio), estando o conhecimento ao alcance de todos. explicações isentas de contradições.
A Filosofia que nasce em Mileto, ao final do século E por que a Filosofia surgiu na Grécia, ou por que
VII e início do VI a.C., é uma cosmologia, quer dizer, um surgiu entre os gregos? Os historiadores da Filosofia
sistema organizado de ideias que buscam explicar apontam algumas explicações:
racionalmente o mundo (cosmos significa mundo organi- a) os gregos, em suas viagens comerciais, entraram
zado; logia significa pensamento racional). Essa cosmo- em contato com o conhecimento produzido por outras
logia não nasce sem bases no conhecimento desenvolvido culturas, e esse conhecimento formou um "caldo de
por outros povos; ao contrário, ela surge da transformação cultura" extremamente original e rico; ainda, as viagens
que os gregos realizaram tendo os saberes de outros marítimas ampliaram o conhecimento grego a respeito do
povos como ponto de partida. espaço e de regiões até então desconhecidas;
b) os gregos transformaram práticas de outros povos
Observação: em conhecimentos racionais;
Alguns historiadores da Filosofia identificaram c) os gregos inventaram a política (pólis, em grego,
inúmeros pontos de semelhança entre as religiões significa cidade organizada por leis), com o desenvol-
orientais e a cultura grega: os contatos econômicos vimento de práticas novas e arrojadas, tais como tribu-
entre esses povos e os gregos poderiam ter susci- nais e assembleias; dessa forma, a pólis passa a ser o
tado a presença de algumas concepções orientais no espaço público a ser ocupado por um discurso que não é
pensamento grego, especialmente as relacionadas à mais o do relato mítico, mas o da defesa das ideias;
ideia de um ente universal divino, criador de todos os d) os gregos inventaram o calendário, o que
seres, e à interpretação cosmogônica de processo de transformou em prática cotidiana a abstração associada à
geração e diferenciação dos seres. No entanto, essas percepção do tempo;
teses – chamadas de orientalistas – ignoram o fato
e) os gregos inventaram a moeda, que passou a
de os gregos terem criado algo inteiramente novo a
representar – de forma simbólica e abstrata – o valor das
partir das heranças orientais. Assim, sem desprezar a
coisas, permitindo a intensificação das trocas comerciais
influência do Oriente, entende-se que a Filosofia
e o consequente processo de urbanização;
grega nasceu de contribuições originais feitas pelos
gregos a partir dessas heranças. A Filosofia grega não f) os gregos inventaram a escrita alfabética, que,
pode, portanto, ser tratada como um milagre, surgido diferentemente da de outras culturas, buscou representar
do nada; em contrapartida, tampouco pode ser não a imagem das coisas, mas a ideia a elas associada.
considerada como mero desenvolvimento das culturas De início, essa Filosofia – que se desenvolveu gradati-
orientais. vamente e que foi buscando distância da narrativa mítica
– procurou oferecer respostas claras, lógicas e racionais
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Figura 2. Teatro de Epidauro, na Grécia. A Filosofia não pode ser vista como um milagre grego, surgido do nada e sem nada a dever a outras culturas. No entanto,
é inegável o fato de os gregos terem realizado mudanças profundas no conhecimento herdado de outros povos, criando algo extremamente original.

para os problemas que eram trazidos. Da mesma forma, Tales de Mileto viveu aproximadamente entre o final
buscou respeitar as regras de funcionamento do pensa- do séc. VII a.C. e meados do século VI a.C. Matemático,
mento, rejeitando explicações genéricas ou mágicas. buscou submeter os mitos cosmogônicos à racionalidade.
Para ele, a água era a origem de todas as coisas.
2. Os primeiros filósofos: a Filosofia pré-socrática A physis, então, teria como único princípio esse
elemento natural, presente em tudo. Segundo
A filosofia nascente carregou dentro de si algumas Tales, a água, ao se resfriar, torna-se densa e dá
construções míticas do período que lhe era anterior, bus- origem à terra; ao se aquecer, transforma-se em
cando, no entanto, a racionalização e a rejeição aos vapor e ar, que retornam como chuva quando
elementos religiosos típicos da narrativa mítica. Esse pro- novamente esfriados. Desse ciclo (vapor, chuva,
rio, mar, terra) nascem as diversas formas de vida,
cesso ocorreu ao tempo da transformação da sociedade
vegetal e animal (ABRÃO, 1999, p. 26).
grega numa sociedade citadina e urbana. Foi nesse
momento, e nesse ambiente, que as explicações religio-
Tal como seu contemporâneo Tales de Mileto,
sas deram lugar ao racionalismo, com o abandono gradual
dos elementos mágicos tão comuns nas narrativas Anaximandro buscou a arkhé, princípio de tudo; no
míticas. entanto, para Anaximandro, esse fator não era a água,
Os primeiros filósofos fundadores dessa nova forma mas o ápeiron, que significa indeterminado ou ilimitado.
de interpretar o mundo são chamados de pré-socráticos. De forma eterna, o ápeiron estava em constante mo-
Essa denominação não se explica apenas por serem eles vimento, criando pares opostos como água e fogo, frio e
anteriores a Sócrates, mas por possuírem em comum calor. O mundo era constituído por esses pares.
vários elementos e formas de percepção e racionalização Filósofo que viveu em meados de VI a.C., Anaxí-
da realidade. menes entendeu que a arkhé era o ar:
Os conceitos-chave para compreendermos os A arkhé que comanda o mundo é o ar, um
pré-socráticos são dóxa (que significa opinião e persua- elemento não tão abstrato como o ápeiron, nem
palpável demais como a água. Tudo provém do ar,
são) e alétheia (palavra que exprime um pensamento
através de seus movimentos: o ar é respiração e
verdadeiro para todos). Assim, se o pensamento não
é vida; o fogo é o ar rarefeito; a água, a terra, a
sofre a influência do senso comum, dos preconceitos e
pedra são formas cada vez mais condensadas de
interesses particulares, ele vale por si: não é necessário
ar. Tudo o que existe, mesmo apresentando qua-
que as pessoas sejam convencidas de sua verdade. A lidades diferentes, reduz-se a variações quan-
dóxa opõe-se, portanto, à alétheia: a primeira é apenas titativas (mais raro, mais denso) desse único
uma opinião, convincente ou não; a segunda exprime um elemento (ABRÃO, 1999, p. 27).
pensamento verdadeiro.
Outros conceitos fundamentais, e que permeiam o Como você deve ter notado, Tales, Anaximandro e
pensamento dos pré-socráticos, são: Anaxímenes (todos eles da cidade de Mileto) não atribuí-
• arkhé: princípio, ponto de partida; ram a origem do mundo ao casamento entre deuses e
• physis: realidade, manifestação visível da arkhé, entes mágicos. Para eles, havia uma arkhé, um princípio
totalidade de tudo o que existe concretamente; único, capaz de dar conta da explicação da realidade.
• kinesis: movimento (transformação, incluídas aí as Água, forças indeterminadas ou ar poderiam ser os
transformações pelas quais os homens e a natureza princípios criadores do mundo.
passam). A destruição de Mileto pelos persas em 494 a.C.
deslocou o eixo da cultura grega para o sul da Itália, local
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em que Pitágoras se destacou como grande pensador. Se


ele realmente existiu (há dúvidas a esse respeito), deve Saiba mais
ter sido na segunda metade do século VI a.C. Fundador Sugerimos a leitura de O roteiro mágico de Pitágoras:
de uma seita religiosa que acreditava na reencarnação – na viagem em busca da linguagem perdida, de
o orfismo –, Pitágoras pregava a necessidade da Gustavo Korte, que narra o trajeto do autor segundo
purificação do ser humano para que pudesse se livrar das um traçado geográfico que teria sido, provavelmente,
reencarnações sucessivas. Para ele, a arkhé era a o que Pitágoras havia realizado. De fato, mais do que
matemática, até então utilizada apenas para a agrimen- repetir a trajetória de Pitágoras, o autor procurou
sura. Impregnada de religiosidade, a Matemática permitia realizar uma viagem em busca do conhecimento a
a busca da harmonia, tal como existente na música. O respeito do misticismo e da filosofia.
encontro do homem com essa harmonia seria respon-
sável pela extinção dos conflitos.
A guerra entre Grécia e Pérsia fez surgir dois
diferentes grupos de filósofos: um, localizado em Éfeso,
na Grécia asiática; outro, ao sul da Itália, em Eleia.
Heráclito (aproximadamente 540-480 a.C.), em Éfeso,
buscou solucionar o problema das transformações pelas
quais o mundo passava de forma extremamente original.
Para ele, o mundo podia ser explicado em função das
mudanças e contradições. A tensão é o que dava unidade
ao mundo. Ao contrário de Anaximandro, que pensava em
termos de harmonia, Heráclito entendia que a harmonia
só poderia existir em função de tensões contrárias. O
mundo flui constantemente, da mesma forma como as
águas de um rio fluem sem parar; por isso, é impossível
banhar-se duas vezes na mesma água.
Parmênides (aproximadamente 540-450 a.C.), em
Figura 3. Para Pitágoras, a música seria resultado de uma relação harmo-
Eleia, fez o caminho inverso ao de Heráclito. Acreditando
niosa entre o tamanho das cordas, representadas numericamente.
que as mudanças eram meras ilusões e aparências,
Estudando as cordas dos instrumentos musicais, Parmênides procurou eliminar o contraditório, o
Pitágoras identificou que o som variava de acordo com o temporário e o variável. Se algo existe, se um ser é, ele
não pode ser um não ser; o oposto do ser não pode ser
comprimento das cordas.
Os pitagóricos vão estender para todas as coisas algo que não existe.
esse entendimento da música. O mundo é Se só o ser existe, o ser deve sempre existir. Deve
número – e para mostrá-lo, reduzem tudo o que ser único, imóvel, imutável, sem variações,
existe a figuras geométricas simples. O ponto é o eterno. Mas o que seriam então as constantes
número um; a linha é o número dois; a superfície mudanças, as contradições e os aspectos dife-
é três; e o volume é quatro. O mundo se traduz rentes que o mundo apresenta? São ilusões, resp-
nesses números e em seus múltiplos, e por isso onde Parmênides, meras aparências produzidas
os pitagóricos consideram sagrado o dez, a soma por opiniões enganadoras, não pelo conhecimento
desses algarismos (ABRÃO, 1999, p. 28). do verdadeiro ser (ABRÃO, 1999, p. 32).

Como você pode observar, não se trata de explicar as


Observação: mudanças ou a constância das condições concretas da
Pitágoras também demonstrou racionalmente uma realidade em função de conflitos ou brigas entre deuses.
propriedade existente nos triângulos, já conhecida dos Esses são fenômenos explicados por meio de princípios.
egípcios. O Teorema que leva o seu nome diz que a É assim, inclusive, que Parmênides inaugura a metafísica
soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado (conhecimento que vai além da física, em busca da
da hipotenusa. Vale lembrar que os números irracionais essência das coisas) e a lógica (forma de operação do
não podiam ser concebidos pelos pitagóricos, já que a raciocínio).
matemática desenvolvida até aquele momento tinha Zenão, discípulo de Parmênides, dará continuidade ao
como origem a geometria. trabalho de seu mestre por meio da formulação de
paradoxos (um paradoxo é o contrário do que alguém
pensa ou espera ser verdade). Apenas para exemplificar:

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Se existe algo, esse algo está em algum lugar, Segundo Anaxágoras, todas as coisas estavam
mas esse lugar deve também estar num lugar e juntas na origem, formando um todo cujas
assim sucessivamente. Um lugar sempre contém partes não eram identificáveis, como o caos
um outro e, por isso, não pode estar vazio: o vazio original da mitologia. Elas, porém, foram se
não existe (ABRÃO, 1999, p. 33). separando pela força do nous (espírito ou
inteligência), que, como num turbilhão, pôs em
Para Zenão, até mesmo o movimento era uma ilusão, movimento todas as coisas, misturando-as em
já que algo, ao se mover, ocuparia um espaço igual a ele diversas proporções. O nous é assim a origem
mesmo. Assim, um objeto, ao se mover, na verdade do movimento e da pluralidade. Ele, porém, é
estaria imóvel... O movimento de uma flecha lançada autônomo, isto é, não se mistura com as
seria a soma de momentos em que está imóvel, o coisas, mas as dirige (ABRÃO, 1999, p. 35).
que é absurdo. O movimento é assim uma ilusão,
do mesmo modo que a pluralidade das coisas o é. Leucipo (século V a.C.) e seu discípulo Demócrito
Só há um ser, único, imóvel, indivisível e eterno (460-370 a.C.) responderam à questão sobre a natureza
(ABRÃO, 1999, p. 33). da realidade de forma distinta: para eles, o mundo era
composto de átomos (em grego, a palavra significa não
Empédocles (aproximadamente 483-430 a.C.) buscou divisível), indivisíveis, imutáveis e eternos. Existentes em
responder ao desafio que Parmênides e Zenão haviam número infinito, entre eles havia um algo vazio, um nada.
apresentado: haveria um ser único e imóvel ou a Do choque entre os átomos, resultava a pluralidade de
pluralidade era uma característica das coisas? Empédo- um mundo em constante movimento.
cles solucionou a questão da seguinte forma: o mundo Da cosmogonia à cosmologia; da cosmologia à
era composto de quatro princípios: água, ar, fogo e terra. Filosofia, os pré-socráticos buscaram explicar o caos e a
Tudo o que havia no mundo era resultado da combinação ordem do mundo. Os problemas do mundo, longe de
entre esses princípios. O Amor e o Ódio, por sua vez, serem resultado das emoções e paixões dos deuses,
eram as forças que os aproximavam ou afastavam. tornaram-se possíveis de resolução por meio do logos, da
Anaxágoras, que nasceu na Jônia e viveu em Atenas, razão.
desenvolveu a ideia de inúmeros princípios que, combi-
nados, resultavam nas coisas e explicavam a pluralidade
dessas coisas.

Breve diálogo
Bettina Gerken Brasil, 40 anos, é bacharel em Filosofia e doutora em Saúde Pública. Atualmente, é professora da
Universidade Paulista – UNIP – e coordenadora do curso de Nutrição na mesma instituição.
Pergunta: Em que momento você decidiu que estudaria Filosofia?
Dra. Bettina Gerken Brasil: Foi uma decisão muito particular, fruto de uma percepção de que existia (e existe) muita
coisa para conhecer e entender. Durante o curso, não imaginava que estudar Filosofia influenciaria minha forma de
ver o mundo e de me ver no mundo. Mesmo quando imaginei que era algo separado da minha formação de
nutricionista, eu me enganei: até como nutricionista, eu estava completamente imersa nas teorias do conhecimento.
Pergunta: De que forma a Filosofia dialoga com a sua formação em Nutrição?
Dra. Bettina Gerken Brasil: Posso dizer que o estudo da Filosofia traz uma visão humanística para um curso que tem
ênfase nas Ciências Biomédicas. Além disso, a forma de pensar ensinada pela Filosofia e pela Lógica nos faz entender
a ciência de modo diferente. Isso também ocorre com a ciência da Nutrição.
Pergunta: Quais são os maiores desafios de que a Filosofia precisa dar conta nos dias de hoje?
Dra. Bettina Gerken Brasil: Vivemos hoje uma grande mudança sociocultural, que é reflexo de todo o
desenvolvimento do pensamento de tempos anteriores, mas que, ao mesmo tempo, traz figuras novas à
contemporaneidade. Entender o ser humano nesse novo contexto, suas relações com o mundo e as consequências
que todas essas mudanças podem provocar é o grande desafio da Filosofia contemporânea.

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Conteúdo complementar
Texto 1:
O mito como narrativa poética
Saiba mais
A poesia foi uma das fontes em cujas águas a Filosofia Sugerimos o filme Troia (diretor Wolfgang Petersen,
grega nascente se banhou. Essa poesia era constituída de 2004, 163 minutos). Apesar de algumas adaptações
versos harmônicos e sua narrativa fantástico-poética era recitada em relação à narrativa de Homero, o filme é uma boa
em público, com força de verdade. Acreditava-se na narrativa oportunidade para entrar em contato com o mundo
fantástica e os mitos ali contidos envolviam lutas e conflitos heroico, mítico e fantástico da Grécia Antiga.
entre deuses e homens. Ainda, a poesia não se contentava em
descrever os fatos – mesmo que míticos; ela também buscava
explicar as causas e as razões dos acontecimentos. Texto 2:
Dos poetas gregos, o mais conhecido é Homero.
Os paradoxos de Zenão
Curiosamente, sequer sua existência é confirmada, sendo forte
a possibilidade de ter sido atribuída a ele uma série de poemas Conhecemos Zenão por meio dos textos de Platão e de
e narrativas de autores diversos. Na poesia de Homero, Aristóteles. Segundo Aristóteles, Zenão podia ser considerado
pode-se dizer que tudo é divino, pois tudo o que o pai da dialética (dialektiké): Zenão tomava duas teses con-
acontece é explicado em função de intervenções dos trárias e provava que nenhuma era verdadeira; outro proce-
deuses. Os fenômenos naturais são promovidos por dimento consistia em apanhar as teses de seus adversários e
numes [divindades]: raios e relâmpagos são arremes- demonstrar que ambas eram falsas, ou baseadas apenas em
sados por Zeus do alto do Olimpo, as ondas do mar são meras opiniões. Seu trabalho, portanto, baseava-se na retórica
provocadas pelo tridente de Poseidon, o sol é levado
e na argumentação.
pelo áureo carro de Apolo, e assim por diante. Mas
Não são raras as vezes em que sua argumentação deságua
também a vida social dos homens, a sorte das cidades,
numa aporia, ou seja, em uma dificuldade intransponível.
as guerras e a paz são imaginadas como vinculadas aos
deuses de modo não acidental e, por vezes, até de modo Segundo Chauí,
essencial (REALE; ANTISERI, 2003, p. 8). O raciocínio de Zenão é aporético, criador de dificuldades
sem solução, [sendo registradas oito aporias de sua
autoria], cujo tema é sempre a prova indireta da verdade
Das obras de Homero, as mais famosas são Ilíada e
da imobilidade e da unidade pela redução ao absurdo do
Odisseia. Odisseia narra a jornada de Ulisses. Em Ilíada, Homero movimento da multiplicidade (CHAUÍ, 2002, p. 97).
nos traz a Guerra de Troia. Nessa poesia épica, os guerreiros
são belos, bons e sábios. Possuem as virtudes que são Vejamos um exemplo do raciocínio aporético de Zenão,
admiradas pelos deuses e, heroicos, não temem a morte. mais conhecido como a aporia (ou o paradoxo) de Aquiles e a
A guerra teria ocorrido por causa do sequestro de Helena, tartaruga.
esposa do rei de Esparta, pelo príncipe de Troia, Páris. Em se Observação:
tratando de um mundo governado por deuses, a guerra – bem
Como vimos, a aporia é um desafio sem solução. O
como a posterior queda de Troia – encontra explicação na
paradoxo, por sua vez, é uma contradição, ou um raciocínio
vingança promovida pelas deusas Hera e Atenas, enciumadas que carrega dentro de si uma oposição.
por Páris ter escolhido a deusa Afrodite como a mais bela.
Afrodite teria oferecido o amor de Helena (a mais bela das
mulheres) para Páris, mas o rancor das outras deusas faria com A proposta de Zenão era a seguinte: no caso de uma corrida
que a paixão deles acabasse por provocar a desgraça de Troia. entre Aquiles e uma tartaruga, e caso Aquiles permitisse que a
Para vingar o sequestro de Helena, os gregos atacam Troia, tartaruga tivesse alguma vantagem na largada, quem chegaria
tendo como seu principal trunfo Aquiles, que era filho de uma em primeiro lugar? Você, provavelmente, dirá: “Aquiles vencerá
deusa com um mortal e considerado o mais bravo dos soldados. a corrida, claro”. Qualquer um, aliás, responderia a mesma
Invencível, seu único ponto fraco era o calcanhar. Em Ilíada, coisa. No entanto, Zenão, por meio do seu arguto raciocínio,
Aquiles representa a figura heroica, forte e imbatível. mostrou que Aquiles jamais alcançaria a tartaruga!
Desgostoso com os rumos da guerra, Aquiles abandona o Qual era a lógica utilizada por Zenão? Vejamos: dada a
campo de batalha. Cansados de tanta matança, os gregos distância entre Aquiles e a tartaruga, e considerando que o
preparam uma armadilha para os troianos: com a madeira dos espaço era divisível, a cada vez que Aquiles corresse metade
navios, constroem um cavalo gigante. Os troianos, acreditando da distância, ainda assim faltaria a outra metade para percorrer.
que os gregos haviam fugido, deixando para trás o belo cavalo, Quando Aquiles vencesse a metade da metade, ainda estaria
levam-no para dentro da cidade. De lá, saem soldados gregos faltando a outra metade do restante para ser vencida, e assim
que derrubam os portões da cidade, derrotando Troia e por diante... Mesmo que a tartaruga caminhasse lentamente, a
recuperando Helena. distância entre o ponto alcançado por Aquiles e a posição da
tartaruga jamais seria percorrida.

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Em outras palavras, Aquiles nunca alcançaria a tartaruga, Claro que nem sempre somos capazes de identificar esse
porque sempre haveria uma metade qualquer a ser vencida. movimento constante do mundo: tal como temos impressão de
Segundo Chauí, que a chama de uma vela está imóvel (e sequer notamos o
a argumentação tem como pressuposto, no caso de quanto a vela está sendo consumida para gerar essa chama), as
Aquiles e a tartaruga, que, por mais vagaroso que seja um mudanças da realidade são imperceptíveis ao homem: quase
movimento num espaço divisível, o movimento mais nem percebemos o nosso próprio processo de envelhecimento,
rápido nunca pode alcançá-lo, porque precisa vencer uma ou o envelhecimento de quem está ao nosso lado, ou o
distância infinita de pontos (CHAUÍ, 2002, p. 98). crescimento de uma planta que temos em casa. No entanto, se
há uma verdade, é que tudo se transforma: até mesmo a pedra,
Segundo a aporia proposta por Zenão, o movimento se
que nos parece imóvel e indestrutível, sofre o processo de
transforma em um fenômeno extremamente contraditório, a res-
desgaste do tempo.
peito do qual os sentidos apenas podem criar uma falsa ilusão.
Para Heráclito, o confronto entre princípios opostos é o que
gera esse contínuo movimento e, portanto, a mudança. A luta,
assim, não é sinônimo de justiça: ao contrário, a guerra é o que
coloca coisas juntas que, no embate, acabam por resultar em
harmonia. A natureza está longe de ser algo inerte e tranquilo;
o mundo é tenso e inquieto, sendo a unidade e a ordem do
cosmos geradas pelo conflito provocado por essa tensão e
inquietude.
De que forma essa multiplicidade de forças gera a unidade?
Se algo não pode existir sem o seu oposto (por exemplo: se o
Mal inexistir, não há como se reconhecer o Bem), é necessário
entender que o um, antes de ser um, é múltiplo. Há uma unidade
primordial (no sentido de primeira força, geradora e fundadora),
mas ela dá origem à multiplicidade das coisas que, por sua vez,
Figura 1. Os sentidos e o senso comum nos levam a concluir que
podem ser separadas ou diferenciadas entre si.
Aquiles vencerá a corrida contra a tartaruga. No entanto, Zenão prova,
A noite traz dentro de si o dia e este traz dentro de si a
por meio da argumentação, que ele jamais a alcançará, já que, para
noite; o frio traz dentro de si o quente e o quente traz
encontrá-la, sempre faltará metade do caminho a ser percorrido.
dentro de si o frio; a necessidade traz dentro de si o
acaso e o acaso traz dentro de si a necessidade; a saúde
Texto 3:
traz dentro de si a doença e a doença traz dentro de si
Heráclito versus Parmênides, a saúde; a beleza traz dentro de si a feiura e a feiura traz
permanência versus inconstância dentro de si a beleza; a vida traz dentro de si a morte e
a morte traz dentro de si a vida (CHAUÍ, 2002, p. 83).
Tido como um dos mais importantes pré-socráticos,
Heráclito refletiu a respeito de cinco principais temas: o mundo
como resultado do fluxo constante e eterno; a ordem e a justiça Qual é esse princípio gerador de tudo? Para Heráclito, o
como resultados do conflito permanente entre princípios fogo é physis, entendida como natureza e início de tudo.
contrários; a unidade como produto da multiplicidade; o fogo pri-
mordial como princípio fundador da physis; e a ideia de que o
conhecimento tem como base o intelecto, e não a experiência
sensorial.
Como é possível perceber, essa temática está bem distante
da abordagem das explicações ou reflexões míticas: não são
deuses ou deusas que, por meio do seu comportamento, po-
dem explicar a origem e o funcionamento do mundo. Tal res-
ponsabilidade fica a cargo de princípios derivados da atividade
intelectual e reflexiva.
Heráclito tenta justificar e explicar as mudanças pelas quais
a nossa realidade está sujeita em função do fluxo constante e Figura 2. Esse fogo, para Heráclito, não é o mesmo que percebemos por
eterno. Nada permanece o mesmo. De fato, não há nada que se meio dos sentidos; é o fogo que não foi criado por ninguém e que se
mantenha constante, imutável. Para Heráclito: constitui em origem eterna do mundo.
o úmido seca, o seco umedece, o quente esfria, o frio
esquenta, a vida morre, a morte renasce, o dia anoitece, Como chama eterna, o fogo se distribui por todas as coisas
a noite amanhece, a vigília adormece, o sono desperta, de forma justa, sem que haja falta ou excesso. Como a chama
a criança envelhece, o velho se infantiliza. O mundo é da vela que, se observada de perto, ilumina mais ou menos o
um perpétuo nascer e morrer, envelhecer e rejuve- ambiente, o fogo primordial pode acender-se ou apagar-se, mas
nescer. Tudo muda, nada permanece idêntico a si sempre criando – ou transferindo – algo de si para outra coisa.
mesmo. O movimento é, portanto, a realidade verda- Para que a chuva possa existir, algo é transferido dos rios para
deira (CHAUÍ, 2002, p. 81).
as nuvens, e das nuvens para a terra. A morte da umidade é a

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secura: para que haja o seco, é necessário que algo do úmido pois nem conhecerias o que não é, nem o dirias...
morra. Esse processo ocorre de forma justa e moderada, (...)
conforme uma medida. Assim, para Heráclito, o fogo primordial Pois o mesmo é a pensar e portanto ser.
nunca excede as suas medidas, gerando justiça, mesmo que às
(...)
custas do conflito entre os contrários.
Necessário é o dizer e pensar o que o ente é; pois é ser.
Quanto ao conhecimento, Heráclito acredita que a sabe-
doria e a verdade pertencem apenas aos deuses (e atenção: E nada não é. Isto eu te mando considerar (CHAUÍ, 2002,
p. 89).
você pode perceber que, mesmo quando da busca de expli-
cações racionais, ainda há vestígios do pensamento mítico), À primeira vista, parece difícil decifrar o poema parme-
cabendo aos homens apenas buscá-las e admirá-las. O fogo diano... Há quem diga, inclusive, que a leitura e a compreensão
primordial capacita os homens nessa busca: encontrar-se a si do poema eram difíceis até mesmo para os contemporâneos de
mesmo equivale a escutar a voz do logos – a razão –, que está Parmênides! No entanto, a leitura cuidadosa e atenta nos
escondido na invisibilidade e que resulta da harmonia gerada permite entender que:
pelo confronto entre contrários. Se o senso comum é derivado a) a Deusa que revela a verdade não é um ser carregado de
da experiência sensorial, a verdade só pode ser alcançada por mistérios; ao contrário, ela representa a Razão;
meio do esforço racional: nossos sentidos acreditam que a b) a Deusa afirma que a verdade não se assemelha às
chama da vela é imóvel; nossa razão nos capacita a perceber opiniões. Verdade e opinião são coisas distintas: enquanto a
que ela é instável e tensa. opinião é fruto do que os sentidos apreendem, a verdade é resul-
Parmênides, por sua vez, “ergue-se contra o pitagorismo tado do uso da razão. “Os órgãos dos sentidos nos enganam, não
(a dualidade par-ímpar como origem da ordem do mundo) e são confiáveis para o conhecimento verdadeiro, pois este é
contra Heráclito (o fluxo perpétuo e a identidade do uno e do alcançado apenas pelo pensamento puro” (CHAUÍ, 2002, p. 93);
múltiplo)” (CHAUÍ, 2002, p. 88). c) o que é é; o que não é não é: embora essa afirmativa
Para ele, as mudanças pelas quais passa a realidade são pareça conter apenas o óbvio, ela resume uma lei fundamental
apenas apreensões errôneas dos nossos sentidos: na verdade, do pensamento que indica ser impossível afirmar ao mesmo
nada muda e tudo permanece sempre o mesmo. tempo algo e o seu contrário;
Vejamos um raro trecho de sua poesia: d) existe o que pode ser pensado e dito; o que não é
Apressavam-se a enviar-me, as filhas do Sol, para a luz, pensável nem dizível não existe.
deixando as moradas da Noite, retirando com as mãos
os véus. Como podemos resumir o pensamento de Parmênides?
(...) Em primeiro lugar, o ser é imóvel e imutável: se ele se
E a Deusa me acolheu benévola, e na sua a minha mão transformasse, passaria a ser aquilo que não é. Em segundo
direita tomou, e assim dizia e me interpelava: lugar, o ser é indestrutível: não podemos determinar sua origem,
(...)
nascimento ou morte. Se houve um tempo em que ele não
existia, então ele era o não ser, o que é impossível de ser pen-
É preciso que de tudo te instruas, do âmago inabalável
sado. O ser também é indivisível e pleno: se fosse permitido
da verdade (alétheia) bem redonda, e das opiniões
(dóxai) dos mortais, em que não há fé verdadeira. dividi-lo, ele deixaria de ser o ser e passaria a ser a negação do
ser; se não fosse pleno – se houvesse buracos no seu interior,
(...)
por exemplo –, ele conteria o não ser dentro do ser, o que
eu te direi, e tu, recebe a palavra que ouviste, os únicos
também é impossível de ser pensado.
caminhos de inquérito que são a pensar: o primeiro, que
O conflito entre Heráclito e Parmênides alimentou e ins-
é; e, portanto, que não é não ser, de Persuasão, é
pirou as obras dos filósofos posteriores. Deles, Platão foi quem
caminho, pois à verdade acompanha. O outro, que não
é; e, portanto, que é preciso não ser. conseguiu propor uma solução para o embate entre essas duas
formas de pensar.
Eu te digo que este último é atalho de todo não crível,

Referências – Módulo 2
PESSANHA, José Américo Motta. Vida e obra. In: Os pré-
socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os
Audiovisuais
Pensadores).
FÚRIA de Titãs. Dir. Louis Leterrier. Estados Unidos:
VERNANT, Jean Pierre. O universo, os deuses e os
Warner Bros., 2010, 106 minutos.
homens. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.
Textuais
Créditos das imagens
ABRÃO, Bernadette Siqueira. História da Filosofia. São
Figura 1. Disponível em: <[Link]
Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores).
portalebc2014/files/atoms_image/homemvelho_p.jpg>.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 12. ed. São Paulo:
Acesso em: 3 jul. 2016.
Ática, 2002a.
Figura 2. Disponível em: <[Link]
_____. Introdução à história da Filosofia: dos pré-socráticos
_radios/files/1024px-epidaurus_theater.jpg>. Acesso em:
a Aristóteles. São Paulo: Cia. das Letras, 2002b.
3 jul. 2016.
KORTE, Gustavo. O roteiro mágico de Pitágoras: a viagem
Figura 3. Disponível em: <[Link]
em busca da linguagem perdida. São Paulo: Fundação
radios/files/violao_6.jpg>. Acesso em: 3 jul. 2016.
Peirópolis, 1999.
22 –
ALUNO_Curso_Filosofia_cadunico_YONNE_2024 18/12/2023 14:25 Página 23

Referências – Conteúdo Complementar – Módulo 2


REALE, G; ANTISERI, D. História da Filosofia: filosofia
pagã antiga, v. 1. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo:
Audiovisuais
Paulus, 2003.
TROIA. Dir. Wolfgang Petersen. Estados Unidos: Warner
Créditos das imagens
Bros., Village Roadshow Pictures, Plan B Films e Radiant
Figura 1. Disponível em: <[Link]
Productions, 2004, 163 minutos.
portalebc2014/
Textuais
files/atoms_image/podocnemis_expansa_inpa-tartaruga_-
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 7. ed. São Paulo:
da_amazonia_0.jpg>. Acesso em: 19 ago. 2016.
Ática, 2000.
Figura 2. Disponível em: <[Link]
_____. Introdução à história da Filosofia: dos pré-socráticos
radios/files/fogo_0.jpg>. Acesso em: 19 ago. 2016.
a Aristóteles. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.

1. Leia o texto a seguir. Nele, estão contidas algumas


ideias da filósofa Marilena Chauí a respeito das origens
da Filosofia.

Quando se diz que a Filosofia é um fato grego, o que


se quer dizer é que ela possui certas características, 2.
apresenta certas formas de pensar e de exprimir os
pensamentos, estabelece certas concepções sobre o que
sejam a realidade, o pensamento, a ação, as técnicas, que
são completamente diferentes das características desen- Texto I
volvidas por outros povos e outras culturas. (...). A Anaxímenes de Mileto disse que o ar é o elemento
Filosofia é um modo de pensar e exprimir os pensa- originário de tudo o que existe, existiu e existirá, e que
mentos que surgiu especificamente com os gregos e outras coisas provêm de sua descendência. Quando o ar
que, por razões históricas e políticas, tornou-se o modo de se dilata, transforma-se em fogo, ao passo que os ventos
pensar e de se exprimir predominante da chamada cultura são ar condensado. As nuvens formam-se a partir do ar
europeia ocidental. por filtragem e, ainda mais condensadas, transformam-
(CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 12. ed. se em água. A água, quando mais condensada,
São Paulo: Ática, 2002, p. 20.) transforma-se em terra, e quando condensada ao máximo
possível, transforma-se em pedras.
(BURNET, J. A aurora da Filosofia grega.
De que forma os historiadores da Filosofia negam o Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2006. Adaptado.)
caráter milagroso e a suposta origem orientalista da
Filosofia grega? Texto II
Basílio Magno, filósofo medieval, escreveu: “Deus,
como criador de todas as coisas, está no princípio do
mundo e dos tempos. Quão parcas de conteúdo se nos
apresentam, em face desta concepção, as especulações
contraditórias dos filósofos, para os quais o mundo se
origina, ou de algum dos quatro elementos, como
ensinam os Jônios, ou dos átomos, como julga
Demócrito. Na verdade, dão impressão de quererem
ancorar o mundo numa teia de aranha”.
(GILSON, E.; BOEHNER, P. História da Filosofia Cristã.
São Paulo: Vozes, 1991. Adaptado.)

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Filósofos dos diversos tempos históricos desenvolveram


teses para explicar a origem do universo, a partir de uma
explicação racional. As teses de Anaxímenes, filósofo
grego antigo, e de Basílio, filósofo medieval, têm em
comum na sua fundamentação teorias que
a) eram baseadas nas ciências da natureza.
b) refutavam as teorias de filósofos da religião.
c) tinham origem nos mitos das civilizações antigas.
d) postulavam um princípio originário para o mundo.
e) defendiam que Deus é o princípio de todas as coisas.
4. A respeito do paradoxo da flecha proposto por Zenão,
Chauí afirma:
Um arqueiro jamais atingirá o alvo com sua flecha. Uma
flecha, ao voar, está em repouso, porque uma coisa está
em repouso quando ocupa um lugar idêntico a si mesmo.
Assim, a cada instante, a flecha estará ocupando um
espaço idêntico a si mesma e, portanto, estará em
repouso.
(CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da Filosofia: dos pré-
3. – A filosofia grega parece começar com uma
socráticos a Aristóteles. São Paulo: Cia. das Letras, 2002, p. 98.)
ideia absurda, com a proposição: a água é a
origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo
A contradição na qual repousa o paradoxo diz respeito ao
necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três
fato de
razões: em primeiro lugar, porque essa proposição
a) os nossos sentidos não conseguirem captar o
enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo
movimento da flecha.
lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e enfim, em
b) os nossos sentidos perceberem movimento quando,
terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de
na verdade, não há qualquer garantia de que uma
crisálida, está contido o pensamento: Tudo é um.
flecha tenha sido lançada pelo arqueiro.
(NIETZSCHE, F. Crítica moderna. In: Os pré-socráticos.
c) o movimento ser a soma dos repousos da flecha;
São Paulo: Nova Cultural, 1999.)
assim, o movimento é repouso, e o repouso é
movimento, o que é extremamente contraditório.
O que, de acordo com Nietzsche, caracteriza o
d) ser impossível provar, racionalmente, a existência do
surgimento da filosofia entre os gregos?
movimento.
a) O impulso para transformar, mediante justificativas, os
e) ser impossível provar, racionalmente, a existência do
elementos sensíveis em verdades racionais.
repouso.
b) O desejo de explicar, usando metáforas, a origem dos
seres e das coisas.
c) A necessidade de buscar, de forma racional, a causa
primeira das coisas existentes.
d) A ambição de expor, de maneira metódica, as
diferenças entre as coisas.
e) A tentativa de justificar, a partir de elementos
empíricos, o que existe no real.

24 –
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5. Leia os trechos a seguir, extraídos de fragmentos de


obras de filósofos e historiadores gregos.

Não encontrarás limites da alma, percorrendo todo o


caminho, tão profundo logos ela tem (Diógenes de
Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres)
(...)
A natureza ama esconder-se (Temístio, Oração)
(...)
A harmonia invisível é superior à visível (Hipólito, Refu-
tação das Heresias).
6. – A filosofia grega parece começar com uma

(CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da Filosofia: dos


ideia absurda, com a proposição: a água é a
pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Cia. das Letras, origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo
2002, p. 85.) necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três
razões: em primeiro lugar, porque essa proposição
A partir desses fragmentos, podemos identificar algumas enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo
linhas do pensamento de Heráclito. A respeito disso, lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e enfim, em
considere as afirmativas abaixo: terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de
I. Para Heráclito, não é possível jamais chegar à verdade, crisálida, está contido o pensamento: Tudo é um.
já que ela se encontra profundamente escondida na (Nietzsche, F. Crítica moderna. In: Os pré-socráticos.
alma. Por isso, os homens devem procurá-la nos São Paulo: Nova Cultural, 1999.)
indícios e evidências que nossos sentidos são capazes
de capturar. O que, de acordo com Nietzsche, caracteriza o
II. De acordo com Heráclito, a verdade encontra-se oculta, surgimento da filosofia entre os gregos?
cabendo ao homem, por meio do esforço racional e de a) O impulso para transformar, mediante justificativas, os
reflexão, descobri-la e admirá-la. elementos sensíveis em verdades racionais.
[Link] Heráclito, não há como reconhecer os princípios b) O desejo de explicar, usando metáforas, a origem dos
explicativos da origem e do funcionamento do mundo, seres e das coisas.
já que o conhecimento resulta na diminuição do c) A necessidade de buscar, de forma racional, a causa
mistério do Universo: nesse sentido, a guerra entre o primeira das coisas existentes.
Saber e a Ignorância resulta na incapacidade humana d) A ambição de expor, de maneira metódica, as
de atingir o verdadeiro conhecimento. diferenças entre as coisas.
IV. Para Heráclito, embora a guerra pareça injusta e e) A tentativa de justificar, a partir de elementos
indesejável – ao menos a partir da percepção sensível empíricos, o que existe no real.
–, ela cria uma unidade justa e desejável. Essa unidade
é invisível aos olhos e carrega consigo uma verdade
superior à aparente imutabilidade das coisas e do
mundo.

Está(ão) correta(s) apenas a(s) afirmativa(s):


a) II e IV. b) I e III. c) I e II. d) II. e) III.

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MÓDULO 3 Sócrates
Neste módulo, estudaremos as ideias de Sócrates. A democracia havia sido inventada pelos atenienses.
Também detalharemos o contexto político da Grécia Nela, o poder era dado pela “força das leis. Na demo-
naquele momento: nosso objetivo será o de entender o cracia, a função soberana não cabe a algum ou a alguns,
quanto Sócrates perturbou a ordem vigente e como isso mas à lei; e a desobediência a ela é a anarquia” (CHAUÍ,
foi responsável pela sua prisão e morte. 2002, p. 133).

1. O século de Péricles e a invenção da democracia

Sócrates viveu entre os séculos V e IV a.C., período


conhecido como o “século de Péricles”. Atenas era,
então, o centro do mundo, e os debates filosóficos tinham
a cidadania, a virtude e a política como temas centrais.

Observação:
Péricles (495-429 a.C.) foi um importante orador e político da
Grécia. São atribuídos a ele o desenvolvimento da
democracia em Atenas, a expansão do comércio e o
crescimento da economia por meio do incentivo à
manufatura.

A cidade era formada por pequenas vilas e lá Figura 1. De forma distinta de como hoje em dia são exercidos os
moravam agricultores e artífices. A aristocracia era for- direitos democráticos, as mulheres, crianças, estrangeiros e escravos
de Atenas não eram considerados cidadãos.
mada por proprietários de grandes latifúndios e guer-
reiros, e as famílias reuniam, além das unidades familiares
propriamente ditas, os parentes sanguíneos e os amigos Nos termos da democracia ateniense, a cidadania
próximos. Essas famílias eram governadas por um chefe, envolvia o respeito a dois princípios fundamentais:
que tinha poder absoluto sobre os que haviam procurado A isonomia, isto é, a igualdade de todos os cida-
por sua proteção. Assim, a cidade funcionava por meio dãos perante a lei, e a isegoria, isto é, o direito de
de governos oligárquicos que entravam em conflito entre todo cidadão de exprimir em público (...) sua
opinião, vê-la discutida e considerada no momento
si com bastante frequência.
da decisão coletiva. Assim, a democracia ateniense
Essa situação mudou a partir de 594 a.C., quando
não aceita que, na política, alguns possam ser mais
Sólon estabeleceu leis que separavam o poder das que outros (...); e não aceita que alguns julguem
famílias do poder da pólis (a cidade); essas leis deveriam saber mais do que os outros e por isso ter o direito
ser respeitadas por todos e, dessa forma, o poder da de, sozinho, exercer o poder. Desse modo, exclui
oligarquia fundiária viu-se atingida. da política a ideia de competência ou de
Até mesmo em contrapartida à perda de poder das tecnocracia. Na política, todos são iguais, todos
famílias proprietárias de terra, o comércio e o artesanato têm os mesmos direitos e deveres, todos são
cresceram em termos de importância. Essa mudança no competentes (CHAUÍ, 2002, p. 134).
eixo de poder viu-se finalizada com as reformas de
Clístenes, em 510 a.C. A partir da reorganização espacial A democracia ateniense não seria a única marca
do território de Atenas, Clístenes distribuiu as famílias importante do “século de Péricles”: no período entre
mais poderosas; o espaço político passou a ter na cidade 440-404 a.C., desenvolvem-se as artes, os ofícios, a
de Atenas o seu centro de decisões. medicina, as técnicas sofísticas e a filosofia socrática.
Clístenes criou duas instituições políticas: a Boulé e a Também foi o tempo da tragédia enquanto gênero poé-
Ekklesia. A primeira era constituída por um tribunal, no tico. Nos teatros, existiam dois espaços: o palco e o coro.
qual quinhentos cidadãos sorteados entre todas as uni- Neste, um grupo de pessoas cantava e narrava o que
dades políticas atuavam como juízes. A Ekklesia era a estava acontecendo. Naquele, atores profissionais se
Assembleia Geral, que reunia todos os cidadãos de Atenas, apresentavam. Ao final das tragédias encenadas (e que
e ali se discutiam os assuntos mais relevantes da vida da mostravam crimes e vinganças), o direito à justiça era
pólis (guerras e tratados de paz, por exemplo). Para os dado aos mortais: as punições deveriam ser atribuídas por
cidadãos mais pobres, uma remuneração era dada em mortais, e não por deuses ou entes mágicos.
compensação pelos dias à disposição da Assembleia.
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cidadão participa da Boulé e da Ekklesia, é por


meio dela que, na praça de mercado, a agorá, ele
se informa dos acontecimentos, ouve opiniões, as
discute para formar a sua própria, preparando-se
para falar e deliberar nas assembleias. Na nova
paideia, o ideal de excelência e mérito é o bom
orador (CHAUÍ, 2002, p. 158).

2. Os sofistas e a técnica da oratória

Os sofistas – sábios ou especialistas – representaram


uma mudança radical no contexto da reflexão filosófica,
que se deslocou da physis (natureza) e dos princípios
geradores para a questão do homem enquanto partici-
pante de uma sociedade. A crise da aristocracia, o efer-
Figura 2. “A aparição da responsabilidade individual e da culpa como
consciência dos excessos dos próprios atos humanos indica que a vescente comércio e as transformações políticas foram
tragédia não é apenas uma reflexão sobre democracia, mas já se tornou responsáveis por esse deslocamento.
um fruto dela” (CHAUÍ, 2002, p. 141). Os sofistas tornaram-se figuras extremamente valo-
rizadas pela sociedade. Numa nova época, em que os
valores tradicionais já não ofereciam respostas às per-
Saiba mais guntas feitas pela sociedade, os sofistas passaram a viajar
para várias cidades-Estados, transmitindo suas ideias e
Antígona, uma tragédia de Sófocles, narra a trajetória
propagando a liberdade de espírito.
de Polinice, que é acusado de traição e morto em
De forma alguma os sofistas formavam um grupo
combate. A lei da cidade não permite o seu sepulta-
homogêneo e compacto: alguns tinham a moral e a
mento. Antígona, sua irmã, resolve enfrentar a cida-
verdade como elementos centrais de sua argumentação;
de, dando ao irmão um funeral digno de sua condição
outros se ocupavam com a vitória nos debates, mesmo
de aristocrata. No seu julgamento, em que será con-
que abrindo mão da verdade; outros usavam a capacidade
denada à morte, Antígona justifica o seu crime: afinal,
não havia desobedecido qualquer regra ditada pelos retórica para finalidades políticas. Como ponto comum,
deuses, mas tão somente as leis dos homens. todos eles reconheciam o poder da palavra, pois era esta
que tinha o poder da persuasão, da crença e da sugestão.
Assim, o sofista era portador do dom de persuadir,
O “século de Péricles” também foi marcado pelo competência fundamental em uma cidade na qual os
predomínio da técnica. Essa técnica estava longe de ser destinos eram traçados a partir de defesas orais diante
uma dádiva dos deuses, tal como o fogo foi dado aos dos outros nas Assembleias.
homens por Prometeu. A técnica passara a ser um saber Segundo Reale e Antiseri,
prático, desenvolvido por meio da experiência, ou seja, Alguns Sofistas, abusando da técnica de refu-
uma atividade (poiesis) com uma finalidade – o objeto tação, sem ter qualquer ideal a realizar, perderam-
se na pesquisa de jogos de conceitos e na
fabricado – que é exterior ao homem. Era fabricação, rea-
formulação de dilemas insolúveis, do tipo dos
lizada para usar a natureza em favor dos homens; ao
raciocínios que ainda hoje chamamos de
produzir objetos que funcionavam como extensão do
sofismas. Tais Sofistas são chamados de
corpo humano (como a alavanca, a roca de fiar e a polia), “Erísticos”, homens empenhados na briga de
a técnica materializava a experiência em termos de palavras. Alguns Sofistas, denominados “Sofistas
utilidades práticas. Quem eram os técnicos, os respon- políticos”, aplicaram a arte dialética à práxis
sáveis pela prática da técnica? Eram pessoas como o política e a forçaram à conquista do poder, pondo-
caçador, o capitão naval, o estrategista, o político, o se contra a moral e a fé tradicional de modo
médico e o sofista. provocativo (REALE; ANTISERI, 2003, p. 80).
Eram aqueles homens cuja areté (virtude) se mostrava
distinta daquela esperada dos aristocratas e guerreiros. É razoavelmente fácil explicar como os sofistas ad-
Se a paideia (educação) aristocrática tinha como meta a quiriram tanta fama – e também passaram a ser alvo de
formação do belo e do corajoso – o padrão necessário tantas críticas. O exercício da cidadania representava a
para os perigos da guerra –, a paideia democrática queria grande virtude dos gregos. A cidadania, por sua vez, era
a formação de bons cidadãos capazes de dirigir a pólis. exercida nas assembleias, por meio da defesa de ideias
Ora, qual o instrumento principal para a realização ou por meio do debate político. Mais do que qualquer
da virtude cívica? A palavra, pois é com ela que o outra coisa, o cidadão deveria estar apto a persuadir, a
– 27
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convencer a todos de que seu argumento era o melhor. A à Filosofia e ao debate filosófico. Por exemplo, os sofistas
oratória diante do público e a capacidade de fazer valer a desmontaram as crenças nos velhos deuses e até
sua opinião eram as qualidades mais admiradas. mesmo colocaram em julgamento a possibilidade de
existência do Divino. Ainda, os sofistas demarcaram a
Observação: diferença entre logos (raciocínio) e aparências. O logos
conteria a verdade, enquanto as aparências apenas enga-
O sofisma é um argumento que aparenta ser verda-
navam ou induziam ao erro. Os argumentos, embora
deiro, mas que apresenta alguma inconsistência interna
convincentes, poderiam não traduzir a verdade.
intencional, com o objetivo de enganar ou iludir.
Contra o sofismo que tinha apenas a intenção de con-
A dialética diz respeito à oposição criada pela contra-
vencer – mesmo que o argumento fosse contrário à ver-
dição entre princípios e ideias.
dade –, vários filósofos se oporiam, Sócrates entre eles.
A práxis está relacionada à prática, em oposição à
Para Sócrates, os sofistas não eram filósofos, já que eles
teoria.
apenas tinham a intenção de vencer os embates retóricos,
A oratória diz respeito às técnicas de falar em público.
fossem quais fossem os argumentos e tivessem ou não
A retórica, que muitas vezes está associada à oratória,
esses argumentos algum conteúdo de verdade. Para
relaciona-se à eficácia da fala em termos de persuasão
Sócrates, os sofistas desrespeitavam a sabedoria e a
e convencimento.
verdade, e assim o faziam desde que fosse vantajoso. Ao
ensinar isso aos jovens, eles os corrompiam.
Quem era capaz de ensinar essas artes dos discur-
sos e dos debates? Os sofistas. Apenas eles poderiam 3. Sócrates, a dúvida e a verdade
ensinar os jovens a defender uma opinião, a convencer a
todos de que X era a melhor alternativa e, posteriormente, Estudar Sócrates é uma tarefa que envolve grande
aprovar que Y era infinitamente melhor que X. dificuldade, basicamente em função de o filósofo nada ter
Os sofistas [eram] verdadeiros representantes do deixado de escrito: alguns historiadores dão conta de que
espírito democrático, isto é, da pluralidade confli- o filósofo acreditava que a palavra escrita “congelava” as
tuosa de opiniões e interesses, enquanto seus opiniões, não permitindo que elas passassem por qualquer
adversários seriam partidários de uma política
transformação ou mudança. De qualquer forma, os relatos
aristocrática, na qual somente algumas opiniões e
de alunos e de outros filósofos acabaram por construir
interesses teriam o direito para valer para o
restante da sociedade (CHAUÍ, 2000, p. 43).
uma imagem de homem sábio, ascético e adorado por
todos. Seus hábitos eram excêntricos: conversava com
todos na rua, vestia-se como um maltrapilho e perdia a
paciência com muita facilidade (CHAUÍ, 2002).
Há também historiadores que sequer acreditam que
Sócrates tenha existido, ao menos não da forma como é
descrito e narrado por alunos e outros filósofos: o
Sócrates dos escritos de Platão, Xenofonte e Aristóteles
estaria bem distante do verdadeiro filósofo, adquirindo os
traços e as características que os diferentes autores
construíram. Em outras palavras, o Sócrates narrado por
Platão revelaria mais de Platão do que de Sócrates, e
assim por diante. Em meio aos vários Sócrates revelados,
teria se tornado quase impossível descobrir o verdadeiro
filósofo.
Aceita-se que Socrátes tenha nascido em Atenas, no
Figura 3. Ainda nos dias de hoje, a oratória e a capacidade de mobilizar início de 469 a.C., e morrido aos 70 anos. O pai era escultor,
a sociedade por meio do discurso são qualidades importantes para o e a mãe, parteira, o que fez com que ele admitisse que seu
exercício da atividade política. método filosófico se parecia com um parto da alma. Assim,
É compreensível a crítica muitas vezes formulada ao Sócrates entendia que não era o pai das ideias, mas que
sofismo: era tido por alguns como mero exercício da apenas auxiliava no nascimento delas.
Seu trabalho era suscitar no interlocutor o desejo
retórica e da argumentação, independentemente da
de saber (como o médico suscita no paciente o
verdade nele contida. Assim, alguns sofistas eram vistos
desejo da cura) e auxiliá-lo a realizar sozinho esse
como simples oradores de extrema competência e desejo. O diálogo é a medicina socrática da alma
eficácia. No entanto, apesar das críticas, são inegáveis as (CHAUÍ, 2002, p. 189).
contribuições que o sofismo e os sofistas proporcionaram
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Essa é a maior contribuição da filosofia socrática, qual Uma, sobretudo, me assombrou das muitas alei-
seja, a de apresentar uma alternativa metodológica: a vosias que assacaram: a recomendação de cau-
maiêutica, a arte de realizar o parto das ideias. Por meio tela para não vos deixardes embair pelo orador
dessa arte, a busca do conhecimento era estimulada pela formidável que sou. Com efeito, não corarem de
me haver eu de desmentir prontamente com os
reflexão provocada pelas perguntas feitas pelo mestre.
fatos, ao mostrar-me um orador nada formidável,
As perguntas, por sua vez, exerciam o papel de iluminar
eis o que me pareceu o maior de seus desca-
o caminho a ser seguido.
ramentos, salvo se essa gente chama formidável
Em Apologia de Sócrates, Platão descreve como o a quem diz a verdade; se é o que entendem, eu cá
mestre teria ido ao templo de Delfos e de lá saído com a admitiria que, em contraste com eles, sou um
certeza de que o título de homem mais sábio do mundo a orador. Seja como for, repito-o, verdade eles não
ele atribuído significava apenas uma coisa: se ele era cheio proferiram nenhuma ou quase nenhuma; de mim,
de dúvidas e certo de nada saber, a sabedoria estava porém, vós ides ouvir a verdade inteira. Mas não,
justamente em reconhecer a própria ignorância. E, como por Zeus, Atenienses, não ouvireis discursos
no templo havia uma inscrição no pórtico (“conhece-te a como os deles, aprimorados em nomes e verbos,
ti mesmo”), Sócrates concluiria que em estilo florido; serão expressões espontâneas,
nenhum homem sabe verdadeiramente nada, mas nos termos que me ocorrerem, porque deposito
o sábio é aquele que reconhece isso. O início da confiança na justiça do que digo; nem espere
sabedoria é, pois, “sei que nada sei”. (...) O outra coisa quem quer de vós. Deveras, senhores,
conhecimento não é um estado (o estado da sabe- não ficaria bem, a um velho como eu, vir diante
doria), mas um processo, uma busca, uma procura de vós plasmar seus discursos como um rapazola.
da verdade. Eis o motivo que leva Sócrates a Faço-vos, no entanto, um pedido, Atenienses,
praticar a filosofia como missão: a busca uma súplica premente; se ouvirdes, na minha
incessante da sabedoria e da verdade e o reconhe- defesa, a mesma linguagem que habitualmente
cimento incessante de que, a cada conhecimento emprego na praça, junto das bancas, onde tantos
obtido, uma nova ignorância se abre diante de nós. dentre vós me tendes escutado, e noutros
Isso não significa que a verdade não exista, e sim lugares, não a estranheis nem vos amotineis por
que deve ser sempre procurada e que sempre isso. Acontece que venho ao tribunal pela primeira
será maior do que nós (CHAUÍ, 2002, p. 188). vez aos setenta anos de idade; sinto-me, assim,
completamente estrangeiro à linguagem do local.
O questionamento diante de tudo e todos e a reflexão Se eu fosse de fato um estrangeiro, sem dúvida
me desculparíeis o sotaque e o linguajar de minha
sobre o que se imaginava ser verdadeiro: esses eram os
criação; peço-vos nesta ocasião a mesma
procedimentos adotados por Sócrates. Mais: a qualidade
tolerância, que é de justiça a meu ver, para minha
das perguntas feitas determinava a qualidade das
linguagem — que poderia ser talvez pior, talvez
respostas obtidas; por isso, em vários dos seus diálogos, melhor — e que examineis com atenção se o que
o resultado vem sob a forma de aporias, ou seja, de digo é justo ou não. Nisso reside o mérito de um
dificuldades que não podem ser transpostas. Assim, os juiz; o de um orador, em dizer a verdade (PLATÃO,
diálogos socráticos “indicam que a busca da verdade não 1987, p. 34).
cessa nunca. É isso a philosophia, amizade pela sabedoria
e não a posse dela” (CHAUÍ, 2002, p. 198). Seja por meio das palavras por ele ditas e narradas
De todas as batalhas travadas por Sócrates, a maior por seus alunos, seja em função da leitura que os filó-
seria a sua guerra contra os sofistas. Em primeiro lugar, sofos contemporâneos ou posteriores fizeram a respeito
ele não admitia que seu trabalho fosse similar ao deles, já de suas ideias, podemos elencar os seguintes elementos
que nada ensinava; em sua opinião, ele apenas propunha como principais dentro do contexto da filosofia socrática:
perguntas, provando aos interlocutores que eles não a) a lógica é fruto do raciocínio indutivo, no qual o
estavam certos em relação ao que pensavam saber. Em estudo dos casos particulares possibilita uma generali-
segundo, de forma quase inédita, Sócrates não cobrava zação capaz de explicar todos os casos;
por seus serviços, ao contrário dos sofistas. Finalmente, b) a ideia é uma síntese dos vários elementos
ele considerava que os sofistas tinham maior paixão pelas contidos nos diversos casos particulares;
palavras do que pela verdade. Sobre isso, e de acordo c) na dialética socrática, as opiniões contraditórias
com o Platão, ele faria uma declaração quando do seu são colocadas para dialogar, e desse diálogo resulta o
julgamento: conhecimento;
Não sei, Atenienses, que influência exerceram d) a virtude é a maior das preocupações da Filosofia;
meus acusadores em vosso espírito; a mim pró- ao conceituarmos a virtude, somos capazes de agir de
prio, quase me fizeram esquecer quem sou, tal a forma virtuosa. Consequentemente, a virtude é uma forma
força de persuasão de sua eloquência. Verdade,
de conhecimento, já que as ações virtuosas ocorrem porque
porém, a bem dizer, não proferiram nenhuma.
sabemos o que é virtude. À Filosofia cabe estudar as
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qualidades morais e políticas dos seres humanos, estudo de que era inocente e concluiu que os seus juízes é que
este que resulta na finalidade da vida ética; deveriam determinar a penalidade pelos crimes que lhe
e) a alma é o local em que o conhecimento se abriga; atribuíam. Afinal, se era inocente, que a Cidade o decla-
a verdade mora na nossa alma, e a maiêutica nada mais rasse um herói, sustentando-o pelo resto da vida; se era
faz do que ajudá-la a se revelar. Dessa forma, a razão é o culpado, que fosse condenado à morte.
poder da alma, e é utilizada para chegarmos à essência É evidente que os juízes não poderiam declará-lo um
das coisas. herói; restou a Sócrates, portanto, a morte. Os amigos
propuseram uma fuga, mas Sócrates não se deixou
Cidadão ativo da vida pública em Atenas, a última
convencer, ingerindo o veneno trazido pelos carcereiros.
participação política de Sócrates foi na Assembleia,
Segundo o relato de Platão, suas últimas palavras foram
defendendo-se das acusações de adorar novos deuses e
as seguintes:
corromper os jovens: no caso desta última, acusavam-no Façamos mais esta reflexão: há grande esperança
de perverter as mentes dos alunos com perguntas e de que isto seja um bem. Morrer é uma destas
questionamentos, tornando-os refratários aos valores duas coisas: ou o morto é igual a nada, e não
aceitos pela sociedade ateniense. Essa acusação não sente nenhuma sensação de coisa nenhuma; ou,
deixava de fazer sentido: se a filosofia de Sócrates partia então, como se costuma dizer, trata-se duma
do princípio de tudo indagar e de tudo desconfiar, esse mudança, uma emigração da alma, do lugar deste
comportamento acabava por disseminar a dúvida e a mundo para outro lugar. Se não há nenhuma
inquietação. Por causa disso, Sócrates foi condenado à sensação, se é como um sono em que o
morte, sendo obrigado a ingerir uma dose letal de cicuta. adormecido nada vê nem sonha, que maravilhosa
vantagem seria a morte! (...) Logo, se a morte é
4. O julgamento de Sócrates isso, digo que é uma vantagem, porque, assim
sendo, toda a duração do tempo se apresenta
como nada mais que uma noite. Se, do outro lado,
Sócrates foi a julgamento sob as acusações de não
a morte é como a mudança daqui para outro lugar
reconhecer os deuses do Estado, de divulgar novas e está certa a tradição de que lá estão todos os
divindades e de corromper a juventude. Em sua própria mortos, que maior bem haveria que esse,
defesa, Sócrates usou como argumento o fato de a sua senhores juízes? (...) Vós também, senhores
missão ser apenas a de cuidar da alma das pessoas e de juízes, deveis bem esperar da morte e considerar
cultivar a virtude. Também provou que o acusador que lhe particularmente esta verdade: não há, para o
imputava o crime de corromper a juventude não era homem bom, nenhum mal, quer na vida, quer na
sequer capaz de definir o que era ou não era bom para a morte, e os deuses não descuidam de seu
juventude. destino. O meu não é efeito do acaso; vejo
Segundo o relato do julgamento, feito por Platão em claramente que era melhor para mim morrer agora
Apologia de Sócrates, em momento algum o filósofo e ficar livre de fadigas. Por isso é que a
buscou se desculpar em relação àquilo de que o acusa- advertência nada me impediu. Não me insurjo
vam, ou procurou vantagens que a sua vibrante retórica absolutamente contra os que votaram contra mim
ou me acusaram. Verdade é que não me acusaram
poderia proporcionar, tampouco procurou ganhar a
e condenaram com esse modo de pensar, mas na
piedade ou misericórdia de seus acusadores: ao contrário,
suposição de que me causavam dano: nisso
Sócrates queria convencer os seus acusadores de que
merecem censura. Contudo, só tenho um pedido
eles estavam errados. Segundo Pessanha,
que lhes faça: quando meus filhos crescerem,
embora a demonstração pública da inconsistência
castigai-os, atormentai-os com os mesmíssimos
dos argumentos de seus acusadores e embora a
tormentos que eu vos infligi, se achardes que eles
tranquila e reiterada declaração de inocência, (...)
estejam cuidando mais da riqueza ou de outra
Sócrates foi condenado (PESSANHA, 1987, p. 11).
coisa que da virtude; se estiverem supondo ter um
valor que não tenham, repreendei-os, como vos
Os acusadores deixaram a Sócrates a fixação da
fiz eu, por não cuidarem do que devem e por
própria pena, esperando que ele escolhesse qualquer suporem méritos, sem ter nenhum. Se vós o
uma que não o prejudicasse. Sócrates, no entanto, não fizerdes, eu terei recebido de vós justiça; eu, e
queria fazer qualquer concessão: ele estava convencido meus filhos também (PLATÃO, 1987, p. 58).

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Breve diálogo
German Segre, 49 anos, é graduado em Direito e em Administração de Empresas. É mestre em Administração pela
UNIP Universidade Paulista e atualmente está cursando Doutorado em Direito Constitucional na Universidad de
Buenos Aires. Atua como advogado nas áreas de direito internacional, empresarial e tributário.
Pergunta: De que forma o estudo da Filosofia contribui para a formação de um advogado?
Dr. German Segre: A Filosofia exerce papel crucial, já que ela nos leva à reflexão e permite a fundamentação. O
advogado necessita da reflexão e, posteriormente, do argumento para fazer a melhor defesa dos direitos que
representa. O juiz, por outro lado, também a necessitará para julgar da melhor forma. Na busca da justiça para seu
cliente, o advogado usa, entre outras ferramentas filosóficas, do ceticismo, do dogmatismo e da retórica. Para isso,
além de refletir sobre cada caso, ele interpretará a lei de forma harmônica, quer dizer, a partir do conjunto de normas
e a letra da lei. Usa dela também para eventualmente recusar um caso ou, ainda, para criar novos conceitos na
constante evolução da ciência jurídica. Se assim não o fizer, além de comprometer seu desempenho e o resultado
para o qual foi contratado, estará se limitando profissional e pessoalmente. Por último, ela é imprescindível na análise
de casos “impossíveis” ou “trágicos”, daqueles em que a lei não oferece alternativas. Por exemplo, podemos citar
a ida de um soldado à guerra: a defesa da pátria choca, de forma irremediável, contra o valor da vida humana. Vemos
que a realização de um direito cancela outro direito de igual grandeza. Nesses casos, somente encontraremos socorro
na Filosofia.
Pergunta: Sócrates fez oposição aos sofistas porque entendia que a argumentação, mesmo que eficaz, não poderia
jamais faltar com a verdade. Como, no Direito, é resolvido o conflito entre a eficácia da argumentação e a verdade?
Dr. German Segre: Pela importância da argumentação no direito, os Sofistas ocupam lugar de destaque no trabalho
do advogado. Um deles, Gorgias de Leontino (485-380 a.C.) defendia três teses fundamentais que, de forma resumida,
afirmavam: “não há nada absoluto”; “mesmo que existisse algo, não o poderíamos conhecer”; e, por último, “mesmo
que pudéssemos conhecê-lo, não poderíamos comunicá-lo”. Podemos extrapolar tais colocações para a questão da
verdade. Existe uma verdade absoluta? Caso exista, podemos conhecê-la? E se a conhecêssemos, conseguiríamos
comunicá-la? Uma verdade absoluta de ontem não é a mesma de hoje. Vemos que o “conflito filosófico” dessa
questão é anterior e mais amplo que a oposição de Sócrates aos Sofistas; antes, teríamos que aceitar a existência
de uma verdade absoluta com a qual a argumentação não poderia faltar. Temos um belo exemplo do poder e do
apaixonante mundo ao qual a Filosofia abre as portas.

Referências – Módulo 3
José Américo Motta Pessanha. Tradução de Jaime Bruna,
Audiovisuais
Libero Rangel de Andrade, Gilda Maria Reale Strazynski.
TROIA. Dir. Wolfgang Petersen. Estados Unidos: Warner
São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Coleção Os pensadores)
Bros., Village Roadshow Pictures, Plan B Films e Radiant
REALE, G; ANTISERI, D. História da Filosofia: filosofia
Productions, 2004, 163 minutos.
pagã antiga, v. 1. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo:
Paulus, 2003.
Textuais
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 7. ed. São Paulo:
Créditos das imagens
Ática, 2000.
Figura 1. Disponível em: <[Link]
_____. Introdução à história da Filosofia: dos pré-socráticos
portalebc2014/
a Aristóteles. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.
files/atoms_image/abr170913dsc_5496.jpg>. Acesso em:
PESSANHA, José Américo Motta. Seleção de textos. In:
22 ago. 2016.
PLATÃO. Defesa de Sócrates/Platão. Ditos e feitos
Figura 2. Disponível em: <[Link]
memoráveis de Sócrates; Apologia de Sócrates/
portalebc2014/files/atoms_image/caixa_4.jpg>. Acesso
Xenofonte. As nuvens/Aristófanes. Tradução de Jaime
em: 22 ago. 2016.
Bruna, Libero Rangel de Andrade, Gilda Maria Reale
Figura 3. Disponível em: <[Link]
Strazynski. São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Coleção Os
portalebc2014/files/atoms_image/congresso_brasilia_seve
pensadores).
[Link]>. Acesso em: 24 ago. 2016.
PLATÃO. Defesa de Sócrates/Platão. Ditos e feitos
memoráveis de Sócrates; Apologia de Sócrates/
Xenofonte. As nuvens/Aristófanes. Seleção de textos de

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1. – Compreende-se assim o alcance de uma 2. – O que implica o sistema da pólis é uma


reivindicação que surge desde o nascimento extraordinária preeminência da palavra sobre
da cidade na Grécia antiga: a redação das leis. Ao escrevê- todos os outros instrumentos do poder. A palavra
las, não se faz mais que assegurar-lhes permanência e constitui o debate contraditório, a discussão, a argumen-
fixidez. As leis tornam-se bem comum, regra geral, tação e a polêmica. Torna-se a regra do jogo intelectual,
suscetível de ser aplicada a todos da mesma maneira. assim como do jogo político.
(VERNANT, J. P. As origens do pensamento grego. Rio (VERNANT, J. P. As origens do pensamento grego. Rio
de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992. Adaptado.) de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992. Adaptado.)

Para o autor, a reivindicação atendida na Grécia antiga, Na configuração política da democracia grega, em
ainda vigente no mundo contemporâneo, buscava garantir especial a ateniense, a ágora tinha por função
o seguinte princípio: a) agregar os cidadãos em torno de reis que governavam
a) Isonomia – igualdade de tratamento aos cidadãos. em prol da cidade.
b) Transparência – acesso às informações b) permitir aos homens livres o acesso às decisões do
governamentais. Estado expostas por seus magistrados.
c) Tripartição – separação entre os poderes políticos c) constituir o lugar onde o corpo de cidadãos se reunia
estatais. para deliberar sobre as questões da comunidade.
d) Equiparação – igualdade de gênero na participação d) reunir os exercícios para decidir em assembleias
política. fechadas os rumos a serem tomados em caso de
e) Elegibilidade – permissão para candidatura aos cargos guerra.
públicos. e) congregar a comunidade para eleger representantes
com direito a pronunciar-se em assembleias.

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3. (PUC-PR-Adaptado) – A obra Apologia de Sócrates, 4. (PUC-PR-Adaptado) – Na terceira parte da Apologia


de Platão, descreve a defesa de seu mestre perante as de Sócrates há a seguinte afirmação: “é possível que
acusações de não aceitação dos deuses reconhecidos tenhais acreditado, ó cidadãos, que eu tenha sido
pelo Estado, de introduzir novos cultos e de corromper a condenado por pobreza de raciocínios, com os quais eu
juventude. poderia vos persuadir, se eu tivesse acreditado que era
preciso dizer e fazer tudo para evitar a condenação. Mas
Sobre isso, leia as afirmativas abaixo: não é assim. Caí por falta, não de raciocínios, mas de
I. Sócrates assumiu a responsabilidade dos atos aludidos audácia e imprudência, e não por querer dizer-vos coisas
pelos denunciantes, mas repudiou a atitude destes por tais que vos teriam sido gratíssimas de ouvir,
não valorizarem a liberdade de pensamento em busca choramingando, lamentando e fazendo e dizendo muitas
da verdade. outras coisas indignas, as quais, é certo, estais habituados
II. Sócrates considerou inaceitável um homem livre valer- a ouvir de outros”.
se de sofisticada retórica ou de apelos emocionais para Considerando esta passagem, já sendo a transcrição de
obter sua absolvição. suas últimas palavras, é possível afirmar que Sócrates:
III.Sócrates recusou-se a fugir, preferindo sua a) Lamenta sua fraqueza argumentativa perante a
condenação à morte, uma vez que considerava mais quantidade de pessoas que o condenou, comparando-
digno uma morte na verdade que uma vida na mentira. a com a firmeza e a eficácia do discurso dos sofistas.
IV. Sócrates aceitou apenas a acusação de difundir o b) Ressalta a preocupação de seu discurso com a verdade
ateísmo, quer dizer, de defender a inexistência de e não com elegante retórica, como os pretensos
divindades, contrariamente à tradição da Cidade. "sábios" o faziam.
c) Reconhece que seu discurso é audacioso, mas que ele
Está correto apenas o que se afirma em: não é capaz de revelar a verdade de seus argumentos.
a) I, II e IV. b)II e III. c) III e IV. d) Desculpa-se por decepcionar tantos admiradores,
d) IV. e) I, II e III. aconselhando-os a seguir as regras e as crenças
permitidas pela Cidade.
e) Afirma que o tribunal não é competente para julgar o
seu caso.

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MÓDULO 4 Platão
Neste módulo, estudaremos as ideias de Platão, no geográfico e o político associavam-se de tal
buscando compreender como o filósofo resolveu o pro- modo que, na língua grega, pólis era, ao mesmo
blema anteriormente apresentado por Heráclito e tempo, uma expressão geográfica e uma
Parmênides. Também detalharemos suas ideias políticas, expressão política, designando tanto o lugar da
cidade quanto a população submetida à mesma
bem como as formas a partir das quais o filósofo
soberania. Compreende-se, assim, por que um
entendeu o trabalho político e o exercício da cidadania.
grego antigo pensava a si mesmo antes de tudo
como um cidadão ou como um “animal político”
1. Platão: o filósofo e sua obra (PESSANHA, 1991, p. 7).

Antes de apresentarmos Platão e sua obra, é Assim, a pólis é percebida como desdobramento de
importante fazermos uma ressalva: vários autores um processo cosmogônico, exercendo o papel de um
entendem a obra de Platão como formada pelo conjunto princípio fundador (arkhé) do universo e do mundo. A pó-
dos trabalhos do próprio filósofo e pelos escritos de seus lis é o começo de tudo e é o princípio que tudo explica.
leitores e de seus intérpretes. Portanto, ao fazermos
referência à obra platônica, estamos falando sobre o
platonismo, quer dizer, as influências que o pensamento Observação:
de Platão exerceu sobre os filósofos de seu tempo e a os A cosmogonia diz respeito às teorias que buscam explicar a
posteriores. origem do universo. Em geral, essa explicação está baseada
Segundo Chauí, em um mito fundador e tenta dar conta de mostrar a gênese
a obra de Platão é o conjunto formado pelos do universo e da realidade tal como a conhecemos.
escritos de Platão e pelos escritos de seus
leitores, o conjunto de seus textos e dos textos
de seus intérpretes. O platonismo não está A vida pública exigia o dom da oratória, a habilidade
apenas nos textos de Platão, nem está apenas no no raciocínio e a prática no uso da voz e do gesto: essas
texto de um de seus intérpretes, mas nos textos eram as competências que permitiam ascendência sobre
de Platão e de todos os seus intérpretes. A obra o auditório e a vitória nos debates. No entanto, a jovem
platônica são os escritos de Platão, motivados democracia ateniense tinha problemas a enfrentar:
pelas questões teóricas e práticas de seu tempo, a) não eram todos que tinham o direito de participar
e a posterioridade filosófica que seus escritos das Assembleias;
tiveram a força para suscitar. Se há diferentes b) se, por um lado, a alternância no poder impedia
interpretações e, no entanto, todos os leitores se
que a aristocracia se organizasse e assumisse o con-
consideram intérpretes do verdadeiro Platão, é
trole da máquina política, por outro lado o fato de as
porque cada um deles, em seu tempo e nos
funções públicas serem limitadas em termos do tempo
problemas que enfrenta, encontra, no escrito
platônico, o tema ou a questão que está de vigência causava instabilidade no ambiente político;
discutindo e interpretando (CHAUÍ, 2002, p. 224). c) as liberdades individuais, que eram tão caras à
democracia ateniense e não priorizavam a ordem e a
O fato de ter exercido tanta influência dá a medida da disciplina, poderiam ser ameaçadas militarmente por
importância do trabalho de Platão. Vejamos, então, o con- outras cidades, como Esparta.
texto histórico em que o filósofo desenvolveu sua obra. Platão acompanhou o julgamento de Sócrates e,
Platão viveu em um tempo em que a vida cultural horrorizado com a falta de princípios éticos no trata-
estava indelevelmente vinculada aos acontecimentos da mento dispensado ao maior de todos filósofos, colocou
pólis. as questões políticas no centro da sua investigação
Essa vinculação resultava fundamentalmente da filosófica. Várias de suas obras terão Sócrates como
organização política, constituída por uma constela- personagem central, e Platão colocará, inúmeras vezes,
ção de cidades-Estados fortemente ciosas de suas suas próprias palavras na boca do filósofo. Na verdade,
peculiaridades, de suas tradições, de seus deuses Platão considerava que a vida política deveria ser
e heróis. A própria dimensão da cidade-Estado im- ocupação daqueles que, por meio da reflexão filosófica,
punha, de saída, grande solidariedade entre seus haviam chegado ao conhecimento da realidade.
habitantes, facilitando a ação coercitiva dos pa- A crítica à democracia ateniense e a procura de
drões de conduta; ao mesmo tempo, propiciava à soluções políticas do mundo grego foram preo-
pólis o desenvolvimento de uma fisionomia par- cupações centrais da vida e da obra daquele que
ticular, inconfundível, que era o orgulho e o é por muitos considerado o maior pensador da
patrimônio comum de seus cidadãos. O fenôme- Antiguidade: Platão. Nele, filosofia e ação
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política estiveram permanentemente interli-


gadas, pois alimentou sempre a convicção de Observação:
que "...os males não cessarão para os humanos A dialética é uma forma de filosofar na qual se chega à
antes que a raça dos puros e autênticos filósofos verdade por meio da contraposição e da reconciliação
chegue ao poder, ou antes que os chefes das de contradições. Com a dialética, não se usa da palavra
cidades, por uma divina graça, ponham-se a para lutar e vencer aquele que tem o maior poder de
filosofar verdadeiramente" (Carta VII) argumentação. A discussão tem como objetivo a pro-
(PESSANHA, 1991, p. 11).
dução de contradições para que, por meio delas, seja
possível reconhecer a própria ignorância.
Na Academia que inaugurou, Platão buscou estimular
a investigação sistemática a respeito dos fundamentos
da conduta humana. Essa percepção do processo de De fato, se cabia a Platão preparar os futuros líderes
educação era oposta àquela de seus concorrentes, da Cidade, era importante que os alunos se transfor-
sofistas em geral, que acreditavam que a educação do massem em filósofos: apenas os filósofos seriam
candidato à vida pública deveria ocorrer por meio do treino capazes de exercer o poder de maneira justa. Associan-
da retórica e da persuasão. No entanto, Platão privilegiava do a virtude e a moral, ele acreditava que a qualidade da
outra coisa: o que ele pretendia era estimular a atividade ação política deveria resultar da moral que os gover-
intelectual, que, por meio da inquietação e da proble- nantes desenvolvessem. Em resumo, a ciência política
matização, permitiria o pensamento e o conhecimento (quer dizer, o saber teórico) determinava o direito de
profundos e claros. governar: governariam aqueles que possuíssem senso
Para Platão, a violência e a justiça ocorriam especial- de justiça e que procurassem o bem comum.
mente por conta de dois instrumentos: a força física e a
palavra. Se havia um combate, este era resultado das
2. A dualidade entre o mundo sensível e o mundo
mentiras e dissimulações que decorriam do uso da lin-
inteligível: a solução ao conflito entre Heráclito
guagem. E, se a retórica era a arte do engano (e o sofista,
e Parmênides
um perito em imitações), a dialética seria o instrumento
do filósofo para combater a falta de conhecimento e a
Crátilo, amigo de Platão na adolescência, adotava as
inverdade. A pharmakon (linguagem) deveria ser usada
ideias de Heráclito, que acreditava não ser possível
como filtro, poção, remédio, adereço, veneno e máscara.
qualquer conhecimento estável. Afinal, se a realidade
Para alcançar o seu objetivo, Platão criou mitos e os
mudava constantemente, se nada permanecia igual,
utilizou nos seus Diálogos. Nesses diálogos, ele exerci-
como acreditar em um conhecimento imutável? Como
tou o pensamento por meio da discussão e utilizou a
seria possível afirmar qualquer coisa sobre a realidade?
dialética como método de conhecimento.

Figura 1. Platão, ao centro com seus alunos, nasceu em 428-7 a.C. e morreu em 348-7 a.C. Em 387 a.C., fundou em Atenas a Academia, sua escola
de investigação científica e filosófica.

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Esse princípio era exatamente o oposto daquele que rências. Nossos olhos percebiam a realidade, mas nossa
Parmênides defendia: ao invés de um mundo em cons- visão não era capaz de perceber a totalidade do mundo.
tante movimento, Parmênides via imobilidade, constância Da mesma forma como nossas opiniões estão repletas
e ausência de transformação. de erros do senso comum, nossa visão também é limi-
tada pelo que pretendemos ver, pelo que estamos dis-
Lembrete:
postos a ver e pelo que temos condições de ver. Esse
Lembre-se de que tanto Heráclito quanto Parmênides
mundo, a quem ele chamou de sensível, estaria sujeito a
estavam procurando uma explicação para o mundo que
transformações. Nossos olhos perceberiam o envelhe-
os cercava. Enquanto para Heráclito essa natureza
estava sempre em mudança, Parmênides acreditava cimento, o efeito da corrosão do tempo nas pedras; nos-
que nada na natureza realmente se transformava, sas opiniões seriam emitidas com base no conhecimento
permanecendo sempre a mesma, como se fosse uma parcial das coisas.
unidade imutável. Mas não existia apenas o mundo sensível, o da reali-
dade, das opiniões, das aparências. Havia também o mun-
do inteligível, das ideias, da essência das coisas. As ideias,
Embora Platão tenha sofrido a influência de Crátilo, ao contrário da opinião ou da percepção a respeito delas,
posteriormente, e em função de suas viagens para Siracusa não mudavam: eram constantes e imutáveis.
– onde teria entrado em contato com outros filósofos e Pensemos numa árvore.
com matemáticos –, ele foi capaz de retomar e reler o Caso estejamos falando de uma árvore determinada,
pensamento de Heráclito e Parmênides. Se para Heráclito teremos que reconhecer que ela sofrerá a ação do tempo.
não havia um sujeito que se pudesse conhecer, tampouco Podemos dizer que ela é frondosa, que dá frutos e que
um objeto que pudesse ser conhecido (já que o fluxo suas raízes são sólidas; no entanto, ela não manterá essas
perene de todas coisas impedia o exercício do pensamento características para sempre! A árvore do mundo sensível
na busca da essência), para Platão o engano consistia em muda conforme as condições de idade e da natureza. O
considerar que o devir alcançava a totalidade do real. mundo sensível é sujeito a transformações!
Para Platão, o devir é apenas a marca do mundo Em oposição, vejamos a ideia de árvore. Caso de-
sensível, do mundo das coisas materiais e corpóreas, que finamos o que venha a ser uma árvore, esse conceito
nascem, transformam-se e corrompem-se. valerá quaisquer que sejam as condições de tempo e da
Observação: natureza. A ideia a respeito da árvore e o conceito atribuí-
do a esse ser serão sempre os mesmos. O mundo inteli-
O devir significa passar a ser, transformar-se, modificar-
se. O devir, assim, está associado às mudanças pelas
gível, das ideias, alcança a essência das coisas, essência
quais passam as coisas. essa imutável e permanente.
Ao criar dois mundos, o mundo inteligível e o mundo
A corrupção, por outro lado, não tem o significado que
atribuímos ao termo. Corrupção, nos termos filosó- sensível, Platão resolveu o dilema apresentado pelo con-
ficos, significa mudança. As coisas se corrompem, flito entre Parmênides e Heráclito. A inconstância de
quer dizer, elas deixam de apresentar as características Heráclito e o constante movimento percebido na nature-
originais à medida que se transformam ou sofrem a za diziam respeito ao mundo sensível. Em contrapartida,
ação do tempo. a perenidade e a imutabilidade percebidas por Parmê-
nides diziam respeito ao mundo inteligível.
Platão considerou que Heráclito tinha razão no que
se refere ao mundo material e sensível, mundo
das imagens e das opiniões. A matéria, diz Platão,
é, por essência e por natureza, algo imperfeito,
que não consegue manter a identidade das coisas,
mudando sem cessar, passando de um estado a
outro, contrário ou oposto. O mundo material ou
de nossa experiência sensível é mutável e contra-
ditório e, por isso, dele só nos chegam as apa-
rências das coisas e sobre ele só podemos ter
opiniões contrárias e contraditórias. Por esse
motivo, diz Platão, Parmênides está certo ao exigir
que a Filosofia deva abandonar esse mundo sen-
sível e ocupar-se com o mundo verdadeiro, invi-
Figura 2. O devir é a marca do mundo das aparências, do que é sível aos sentidos e visível apenas ao puro
percebido pelos nossos sentidos.
pensamento. O verdadeiro é o Ser, uno, imutável,
Vamos detalhar o pensamento de Platão: para ele, idêntico a si mesmo, eterno, imperecível,
havia a realidade dos sentidos, das opiniões, das apa- puramente inteligível (CHAUÍ, 2000, p. 269).
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Afinal, se há dois mundos, o das coisas sensíveis e o Glauco: Entendo.


das coisas inteligíveis, há formas distintas de se obter o Sócrates: Então, ao longo desse pequeno muro,
conhecimento de cada um deles. Por meio do Mito da imagine homens que carregam todo o tipo de
Caverna, Platão mostrou a importância da Filosofia no objetos fabricados, ultrapassando a altura do
muro; estátuas de homens, figuras de animais, de
processo de transição do mundo sensível para o mundo
pedra, madeira ou qualquer outro material.
inteligível.
Provavelmente, entre os carregadores que desfi-
lam ao longo do muro, alguns falam, outros se
3. O Mito da Caverna calam.
Glauco: Estranha descrição e estranhos
Transcrevemos a seguir um trecho de A República, prisioneiros!
de Platão, o qual apresenta o Mito da Caverna. Esse texto Sócrates: Eles são semelhantes a nós. Primeiro,
você pensa que, na situação deles, eles tenham
resume, de forma alegórica e imaginativa, as ideias de
visto algo mais do que as sombras de si mesmos
Platão a respeito do conhecimento da essência das coisas
e dos vizinhos que o fogo projeta na parede da
em aposição ao conhecimento das aparências.
caverna à sua frente?
Glauco: Como isso seria possível, se durante toda
Observação: a vida eles estão condenados a ficar com a cabeça
A alegoria é uma representação figurativa cujo objetivo imóvel?
é o de atribuir um significado adicional àquele que o Sócrates: Não acontece o mesmo com os objetos
que desfilam?
literal transmite.
Glauco: É claro.
Sócrates: Então, se eles pudessem conversar,
não acha que, nomeando as sombras que veem,
pensariam nomear seres reais?
Glauco: Evidentemente.
Sócrates: E se, além disso, houvesse um eco
vindo da parede diante deles, quando um dos que
passam ao longo do pequeno muro falasse, não
acha que eles tomariam essa voz pela da sombra
que desfila à sua frente?
Glauco: Sim, por Zeus.
Sócrates: Assim sendo, os homens que estão
nessas condições não poderiam considerar nada
como verdadeiro, a não ser as sombras dos
objetos fabricados.
Glauco: Não poderia ser de outra forma.
Figura 3. Em O Mito da Caverna, Platão mostra a importância da Filo- Sócrates: Veja agora o que aconteceria se eles
sofia na compreensão do mundo inteligível, compreensão esta que vai fossem libertados de suas correntes e curados de
além dos nossos sentidos, das nossas opiniões e das aparências. sua desrazão. Tudo não aconteceria naturalmente
como vou dizer? Se um desses homens fosse
Sócrates: Agora imagine a nossa natureza, solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a
segundo o grau de educação que ela recebeu ou cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos
não, de acordo com o quadro que vou fazer. Ima- esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofus-
gine, pois, homens que vivem em uma morada cado e não poderia distinguir os objetos, dos quais
subterrânea em forma de caverna. A entrada se via apenas as sombras anteriormente. Na sua
abre para a luz em toda a largura da fachada. Os opinião, o que ele poderia responder se lhe disses-
homens estão no interior desde a infância, acor- sem que, antes, ele só via coisas sem consis-
rentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo tência, que agora ele está mais perto da realidade,
que não podem mudar de lugar nem voltar a voltado para objetos mais reais, e que está vendo
cabeça para ver algo que não esteja diante deles. melhor? O que ele responderia se lhe desig-
A luz lhes vem de um fogo que queima por trás nassem cada um dos objetos que desfilam,
deles, ao longe, no alto. Entre os prisioneiros e o obrigando-o, com perguntas, a dizer o que são?
fogo, há um caminho que sobe. Imagine que esse Não acha que ele ficaria embaraçado e que as
caminho é cortado por um pequeno muro, seme- sombras que ele via antes lhe pareceriam mais
lhante ao tapume que os exibidores de marionetes verdadeiras do que os objetos que lhe mostram
dispõem entre eles e o público, acima do qual agora?
manobram as marionetes e apresentam o Glauco: Certamente, elas lhe pareceriam mais
espetáculo. verdadeiras.

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Sócrates: E se o forçassem a olhar para a própria Glauco: Concordo com você. Ele aceitaria qual-
luz, não achas que os olhos lhe doeriam, que ele quer provação para não viver como se vive lá.
viraria as costas e voltaria para as coisas que pode Sócrates: Reflita ainda nisto: suponha que esse
olhar e que as consideraria verdadeiramente mais homem volte à caverna e retome o seu antigo
nítidas do que as coisas que lhe mostram? lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele
Glauco: Sem dúvida alguma. teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do
Sócrates: E se o tirassem de lá à força, se o fizes- sol?
sem subir o íngreme caminho montanhoso, se Glauco: Naturalmente.
não o largassem até arrastá-lo para a luz do sol, Sócrates: E se ele tivesse que emitir de novo um
ele não sofreria e se irritaria ao ser assim em- juízo sobre as sombras e entrar em competição
purrado para fora? E, chegando à luz, com os olhos com os prisioneiros que continuaram acorren-
ofuscados pelo brilho, não seria capaz de ver tados, enquanto sua vista ainda está confusa,
nenhum desses objetos, que nós afirmamos seus olhos ainda não se recompuseram, enquanto
agora serem verdadeiros. lhe deram um tempo curto demais para
Glauco: Ele não poderá vê-los, pelo menos nos acostumar-se com a escuridão, ele não ficaria
primeiros momentos. ridículo? Os prisioneiros não diriam que, depois de
Sócrates: É preciso que ele se habitue, para que ter ido até o alto, voltou com a vista perdida, que
possa ver as coisas do alto. Primeiro, ele distin- não vale mesmo a pena subir até lá? E se alguém
guirá mais facilmente as sombras, depois, as ima- tentasse retirar os seus laços, fazê-los subir, você
gens dos homens e dos outros objetos refletidas acredita que, se pudessem agarrá-lo e executá-lo,
na água, depois os próprios objetos. Em segundo não o matariam?
lugar, durante a noite, ele poderá contemplar as Glauco: Sem dúvida alguma, eles o matariam.
constelações e o próprio céu, e voltar o olhar para Sócrates: E agora, meu caro Glauco, é preciso
a luz dos astros e da lua mais facilmente que aplicar exatamente essa alegoria ao que dissemos
durante o dia para o sol e para a luz do sol. anteriormente. Devemos assimilar o mundo que
Glauco: Sem dúvida. apreendemos pela vista à estada na prisão, a luz
Sócrates: Finalmente, ele poderá contemplar o do fogo que ilumina a caverna à ação do sol.
sol, não o seu reflexo nas águas ou em outra su- Quanto à subida e à contemplação do que há no
perfície lisa, mas o próprio sol, no lugar do sol, o alto, considera que se trata da ascensão da alma
sol tal como é. até o lugar inteligível, e não te enganarás sobre
Glauco: Certamente. minha esperança, já que desejas conhecê-la. Deus
Sócrates: Depois disso, poderá raciocinar a res- sabe se há alguma possibilidade de que ela seja
peito do sol, concluir que é ele que produz as fundada sobre a verdade. Em todo o caso, eis o
estações e os anos, que governa tudo no mundo que me aparece tal como me aparece; nos últimos
visível, e que é, de algum modo a causa de tudo o limites do mundo inteligível aparece-me a ideia do
que ele e seus companheiros viam na caverna. Bem, que se percebe com dificuldade, mas que
Glauco: É indubitável que ele chegará a essa não se pode ver sem concluir que ela é a causa
conclusão. de tudo o que há de reto e de belo. No mundo
Sócrates: Nesse momento, se ele se lembrar de visível, ela gera a luz e o senhor da luz, no mundo
sua primeira morada, da ciência que ali se possuía inteligível ela própria é a soberana que dispensa a
e de seus antigos companheiros, não acha que verdade e a inteligência. Acrescento que é preciso
ficaria feliz com a mudança e teria pena deles? vê-la se quer comportar-se com sabedoria, seja na
Glauco: Claro que sim. vida privada, seja na vida pública.
Sócrates: Quanto às honras e louvores que eles Glauco: Tanto quanto sou capaz de compreender-
se atribuíam mutuamente outrora, quanto às te, concordo contigo (PLATÃO, 2000, p. 39-42).
recompensas concedidas àquele que fosse
dotado de uma visão mais aguda para discernir a A alegoria da caverna de Platão nos leva a refletir sobre
passagem das sombras na parede e de uma o mundo em que vivemos, repleto de coisas materiais das
memória mais fiel para se lembrar com exatidão quais apenas percebemos partes. Nosso conhecimento
daquelas que precedem certas outras ou que lhes sobre o mundo é tão limitado quanto aquele dos homens
sucedem, as que vêm juntas, e que, por isso mes-
encerrados na caverna e que apenas enxergam sombras.
mo, era o mais hábil para conjeturar a que viria
O filósofo é quem sai da caverna e vê a totalidade das
depois, acha que nosso homem teria inveja dele,
que as honras e a confiança assim adquiridas
coisas. O filósofo é quem vê a luz do sol, a luz da verdade.
entre os companheiros lhe dariam inveja? Ele não Por meio da luz, o filósofo pode entrar em contato com o
pensaria antes, como o herói de Homero, que mundo das ideias verdadeiras. Ao procurar esclarecer os
mais vale “viver como escravo de um lavrador” e homens ainda encerrados na caverna a respeito da vastidão
suportar qualquer provação do que voltar à visão do mundo e da inexatidão das suas opiniões a respeito da
ilusória da caverna e viver como se vive lá? realidade, ele corre o risco de ser desacreditado. A dialética,
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o instrumento que pelo filósofo será utilizado para ampliar o E por que os homens devem buscar o conhecimento
conhecimento dos homens, não será compreendida por da realidade? Por que se deve fazer da busca do conhe-
todos. Não será fácil tirar os homens do conforto que as cimento uma meta? Porque, segundo Platão (e essas
sombras possibilitam, e os filósofos serão objeto de serão ideias que permearão a filosofia grega antiga):
violência por parte dos homens (tal como Sócrates foi vítima 1. por natureza, os seres humanos aspiram ao bem
da incompreensão e da intolerância da sociedade ate- e à felicidade, que só podem ser alcançados pela
niense). No entanto, a Filosofia é a única forma de apre- conduta virtuosa;
ender as ideias e libertar-se do mundo restrito e falso das 2. a virtude é uma força interior do caráter, que con-
siste na consciência do bem e na conduta defini-
aparências.
da pela vontade guiada pela razão, pois cabe a esta
Se há dois mundos distintos, há duas formas dife-
última o controle sobre instintos e impulsos
rentes de conhecimento. O conhecimento sensível é irracionais descontrolados que existem na natu-
aquele que apreende o mundo sensível e que nos chega reza de todo ser humano;
por meio das crenças e das opiniões. Já o conhecimento 3. a conduta ética é aquela na qual o agente sabe o
intelectual nos permite o conhecimento do mundo das que está e o que não está em seu poder realizar,
ideias, do mundo da verdade. O conhecimento intelec- referindo-se, portanto, ao que é possível e dese-
tual, por meio do raciocínio e da intuição, é o mundo que jável para um ser humano. Saber o que está em
a Filosofia permite alcançar; por sua vez, a Matemática é nosso poder significa, principalmente, não se dei-
a linguagem perfeita, já que totalmente desvinculada do xar arrastar pelas circunstâncias, nem pelos ins-
mundo das aparências. O raciocínio matemático, que de tintos, nem por uma vontade alheia, mas afirmar
forma alguma depende dos órgãos dos sentidos, é, por nossa independência e nossa capacidade de
autodeterminação (CHAUÍ, 2000, p. 439).
essência, o melhor caminho para alcançar as ideias verda-
deiras e a realidade.

Breve diálogo
Renato Bulcão é formado em Filosofia e tem mestrado em Ciência da Comunicação pela USP. Pesquisador em EaD,
está terminando seu doutorado em Educação e Cultura na Universidade Mackenzie. É professor dos cursos de
Pedagogia e de Psicologia da UNIP desde 2010.
Pergunta: O que o Mito da Caverna ainda tem a nos ensinar nos dias de hoje?
Prof. Renato Bulcão: O Mito da Caverna é uma metáfora de como as pessoas adquirem conhecimento. O
conhecimento é comparado à luz que torna as imagens mais fáceis de serem conhecidas. Quando vemos as sombras
das coisas através de uma luz fraca que nos mostra somente sua silhueta, somos obrigados a acreditar que aquela
sombra é aquilo que nos disseram ser. Quando vemos as coisas banhadas de luz, podemos perceber todas as suas
características por meio dos nossos sentidos. Este é um estágio intermediário entre ouvir que a coisa é uma sombra
e ver a coisa em si. A partir deste instante, podemos pensar se aquela imagem realmente representa o que sabemos
daquela coisa. Daí surge a ideia da reflexão para conhecer. Tudo isso escrito num só mito, que até hoje temos como
exemplo máximo de como devemos aprender o que é o mundo.
Pergunta: Como a dualidade mundo sensível/mundo inteligível colaborou para o desenvolvimento das técnicas e da
Ciência?
Prof. Renato Bulcão: Todo conhecimento do mundo nasce de nossos sentidos. Os cincos sentidos permitem um
mapeamento imediato do mundo. Mas como transformamos a memória que temos daquilo que conhecemos para
podermos dizer aos outros? Precisamos criar uma forma de compreender e reproduzir não apenas as nossas
experiências, mas principalmente dar sentido para elas. Atribuindo uma ideia a uma coisa (por exemplo, isto é uma
pedra), construímos lentamente os saberes. Com o acúmulo de saberes, podemos organizar técnicas de produção.
Evoluindo as técnicas de produção, descobrimos os motivos pelos quais as técnicas funcionam, e assim
desenvolvemos as ciências.

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Conteúdo complementar

Texto 1: Amor é carência e astúcia, desejo de saciar a fome e a


O Mito da Caverna sede, desejo de preenchimento, desejo de completar-se
e de encontrar a plenitude. Amar é desejar o amado
Em A República, Platão nos fala a respeito das formas como como o que nos completa, nos sacia e satisfaz, nos dá
percebemos o mundo. Os homens presos na caverna plenitude. Amar é desejar fundir-se na plenitude do
conhecem a realidade por meio único e exclusivo das sombras amado e ser um só com ele. O que pode completar e
e dos ruídos: aquilo que enxergam e as vozes que escutam são dar plenitude a um ser carente? O que é em si mesmo
a realidade. Estão presos não apenas fisicamente, mas também completo e pleno, isto é, o que é perfeito. O amor é
cognitivamente, já que o real e o verdadeiro têm as sombras e desejo de perfeição. (...) O amor é desejo de beleza
os sons como únicas fontes de conhecimento. O filósofo, em (CHAUÍ, 2000, p. 274).
contrapartida, é aquele que sai da caverna, sobrevive aos raios
A alma humana busca beleza e bondade e o faz por meio do
do sol que o cegam e que, finalmente, consegue acessar o
Amor. Se a Filosofia é a meta de quem aspira ao conhecimento,
mundo em sua totalidade. A percepção, aqui, chega ao seu nível
desse objeto – o Saber – o ser humano jamais irá desistir, exata-
máximo; em consequência, a cognição alcança patamares antes
mente como um amante jamais desiste do objeto do seu amor.
impossíveis. No entanto, ao retornar para a caverna, o filósofo
Em outras palavras, o amante procura o ser amado, incansavel-
é recebido com desprezo. Os outros, furiosos ao serem
mente, da mesma forma como a alma humana busca o conhe-
defrontados com outra forma de perceber a realidade, ameaçam
cimento. Para Platão, o homem está sempre em busca do Bem,
o filósofo. Assim, podemos deduzir que
seu primeiro e mais importante amigo. Assim,
se todos se soltassem e fizessem o mesmo percurso
do primeiro, estabeleceriam e compartilhariam de modo o verdadeiro amor é desejo do belo, do bem, da
consensual a mesma ideia sobre a importância do Sol, sabedoria, da felicidade, da imortalidade, do Absoluto. O
entendido como o fogo do saber (LOPES, 2002). Amor dispõe de muitos caminhos que conduzem a
vários graus de bem (toda forma de amor é desejo de
possuir o bem definitivamente). O verdadeiro amante,
Para Platão, a Filosofia é, acima de tudo, o caminho para a porém, é aquele que sabe percorrer esses caminhos até
reflexão crítica e para a aquisição do conhecimento; o conhe- o fim, até chegar à visão suprema do belo absoluto
cimento é anamnese, isto é, a recordação de verdades já (REALE; ANTISERI, 2003, p. 150).
existentes e conhecidas pela alma e que emergem a partir da
experiência concreta. Platão também nos fala sobre os vários níveis a partir dos
quais o amor se manifesta:

Texto 2: a) no nível mais baixo da escala do amor, está o amor físico,


que também constitui o desejo da imortalidade e da eternidade
O amor, segundo Platão
por meio da geração;
Em O Banquete, Platão reproduz uma conversa entre
b) em um nível mais elevado, está o amor dos amantes
Sócrates e outros amigos. No dia seguinte a um farto banquete
cujas almas se encontram, incluídos nesse grupo os amantes
regado a bebida, um dos convivas sugere que sejam feitos
da justiça e das ciências puras;
elogios ao Amor. Sócrates, no entanto, ressalva que, antes de
qualquer manifestação de apreço, é necessário que eles che- c) no nível mais elevado, está a Ideia do Belo em si.
guem a um consenso sobre o significado e a essência do Assim, dentro da concepção de dualidade proposta por
sentimento que será objeto de louvação. Cada um apresenta Platão – na qual são distintas a esfera das sensações e das
sua ideia a respeito do Amor. Aristófanes, por sua vez, prefere coisas (pertencentes ao mundo sensível) e a esfera das Ideias
a narrativa mítica. (pertencentes ao mundo inteligível), “o reflexo da Beleza ideal
No princípio, os humanos eram de três tipos: havia o no belo sensível inflama a alma, que é tomada pelo desejo de
homem duplo, a mulher dupla e o homem-mulher, isto é, alçar voo e voltar para o lugar de onde desceu” (REALE;
o andrógino. Tinham um só corpo, com duas cabeças, ANTISERI, 2003, p. 151).
quatro braços e quatro pernas. Como se julgavam seres Platão vai além: se o Amor se pretende eterno, ele não
completos, decidiram habitar no céu. Zeus, rei dos pode ter como objeto de desejo nada que seja sensível, que
deuses, enfureceu-se, tomou de uma espada e os sofra transformações ou que seja perecível. Assim, o Amor só
cortou pela metade. Decaídos, separados e desespera-
pode ter como objeto a Alma, que é bela porque abriga o
dos, os humanos teriam desaparecido se Eros não lhes
tivesse dado órgãos sexuais e os ajudasse a procurar a
intelecto, sua parte imortal. O que o intelecto busca? As Ideias.
metade perdida. Os que eram homens duplos e mulhe- O amor é o desejo da perfeição imperecível das formas
res duplas amam os de mesmo sexo, enquanto os que belas, daquilo que permanece sempre idêntico a si
eram andróginos amam a pessoa do sexo oposto. Amar mesmo, daquilo que pode ser contemplado plenamente
é encontrar a nossa metade e o amor é esse encontro pelo intelecto e conhecido plenamente pela inteligência.
(CHAUÍ, 2000, p. 273). Sendo amor intelectual pelo inteligível ou pelas ideias, o
amor é o desejo de saber: philo sophia, amor da
sabedoria. Pelo amor, o intelecto humano participa do
São de Sócrates as palavras que, finalmente, explicam o inteligível, toma parte no mundo das ideias ou das
que é Amor. Dando voz ao filósofo perseguido e assassinado, essências, conhecendo o ser verdadeiro (CHAUÍ, 2000,
Platão nos diz que o Amor não é belo, tampouco bom, mas que p. 275).
representa a sede humana pela beleza e pela bondade.

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Referências – Módulo 4 Referências – Conteúdo Complementar – Módulo 4

Textuais Textuais
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 7. ed. São Paulo: Ática, 2000. CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 7. ed. São Paulo: Ática, 2000.
_____. Introdução à história da Filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. _____. Introdução à história da Filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles.
São Paulo: Cia. das Letras, 2002. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.
PESSANHA, José Américo Motta. Seleção de textos. In: PLATÃO. LOPES, L. C. (2002). Percepção e comunicação: mitos e problemas
Diálogos/Platão. Tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge contemporâneos. In: Ponencia presentada en el VI Congreso de la ALAIC.
Paleikat e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os Disponível em: <[Link]
Pensadores). percepcao_comunicacao.htm>. Acesso em: 14 set. 2016.
PLATÃO. A alegoria da caverna: a República. In: MARCONDES, Danilo. PESSANHA, José Américo Motta. Seleção de textos. In: PLATÃO.
Textos básicos de Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Tradução Diálogos/Platão. Tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge
de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. Paleikat e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os
_____. Diálogos/Platão. Seleção de textos de José Américo Motta Pensadores).
Pessanha. Tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikat PLATÃO. A alegoria da caverna: a República. In: MARCONDES, Danilo.
e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os Textos básicos de Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Tradução
Pensadores). de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
REALE, G; ANTISERI, D. História da Filosofia: filosofia pagã antiga, v. 1. _____. Diálogos/Platão. Seleção de textos de José Américo Motta
Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003. Pessanha. Tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikat
e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os
Créditos das imagens Pensadores).
Figura 1. Disponível em: <[Link] REALE, G; ANTISERI, D. História da Filosofia: filosofia pagã antiga, v. 1.
files/atoms_image/caiu_no_enem_platao.png>. Acesso em: 2 set. 2016. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003.
Figura 2: Disponível em: <[Link] SOUZA, Maurício de. As sombras da vida. Disponível em: <[Link]
files/atoms_image/01_mina_de_carajas_ps.jpg>. Acesso em: 5 set. 2016. [Link]/2014/02/11/o-mito-da-caverna-de-platao-em-
Figura 3. Disponível em: <[Link] quadrinhos/>. Acesso em: 12 set. 2016.
files/atoms_image/[Link]>. Acesso em: 2 set. 2016.

Para responder às questões de 1 a 3, observe as tirinhas a seguir, criadas por Mauricio de Sousa, tendo o Mito da Caverna, de Platão,
como fonte inspiradora.

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A respeito do conteúdo das tirinhas, responda às


questões a seguir.

1. Ao perceber que os prisioneiros da caverna acreditam


que o mundo é exatamente aquilo que as sombras e os
ruídos revelam, Piteco
I. demonstra perceber os limites dos prisioneiros em
relação à percepção e à cognição (ao conhecimento)
da realidade.
II. diferencia-se dos prisioneiros: ele sabe que o mundo
real contém muito mais do que as sombras e os ruídos
que os prisioneiros percebem do mundo.
[Link] que não há como estabelecer qualquer
diálogo com os prisioneiros. Com isso, Mauricio de
Sousa pretende mostrar como o diálogo só é possível
quando os interlocutores têm a mesma percepção da
realidade.

Sobre as afirmativas acima, está correto apenas o que se


afirma em:
a) I. b) I e II. c) I e III. d) II. e) III.

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2. Os prisioneiros reagem de forma violenta à intervenção 3. Na última parte da sequência de tirinhas, Piteco
de Piteco. Além de ironizá-lo, tentam agredi-lo. Essa encontra três homens assistindo à televisão. Ao serem
atitude dos prisioneiros questionados sobre o que estão fazendo, eles respon-
dem: “Que pergunta mais boba! Como se existisse outra
I. faz uma alusão ao julgamento e à morte de Sócrates. coisa pra fazer! Estamos contemplando o fantástico show
Afinal, o filósofo perturba a ordem vigente e isso nem da vida!”. Esse diálogo
sempre é bem-vindo pela sociedade.
II. mostra a impossibilidade de o conhecimento filosófico I. associa o conhecimento parcial de mundo dos
ser ensinado e transmitido para a sociedade. Em prisioneiros da caverna com o conhecimento limitado
função disso, a Filosofia sempre foi e será uma que, atualmente, as pessoas adquirem por meio da
atividade de poucos. televisão.
[Link] que as forças conservadoras sempre se II. mostra que o trabalho dos filósofos é inócuo, ou seja,
opõem ao novo e às formas diferentes de perceber a incapaz de trazer qualquer benefício: se a Filosofia
realidade. contribuísse para o conhecimento da realidade, não
teríamos, nos dias de hoje, o aprisionamento dos
Sobre as afirmativas acima, está correto apenas o que se homens à versão midiática do mundo por meio do
afirma em: show da vida apresentado pela televisão.
a) I. b) I e II. c) I e III. d) II. e) III. [Link] que a sociedade deve impor limites ao acesso
às mídias, sob o risco de criar prisioneiros acorrentados
ao conhecimento parcial do mundo.

Sobre as afirmativas acima, está correto apenas o que se


afirma em:
a) I. b) I e II. c) I e III. d) II. e) III.

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4. O termo “amor platônico” é usado no cotidiano para


fazer referência a um amor que não se concretiza, que se
limita a idealizar o objeto amado e a adorar à distância.
Esse significado difere do sentido atribuído por Platão ao
amor, já que
I. Em Platão, o amor não idealiza o objeto amado; ao
contrário, ele permite que o ser amado seja visto na
sua totalidade, com todos os defeitos e qualidades.
II. Em Platão, o amor só acontece uma única vez, sendo
eterno e não sujeito a qualquer transformação.
[Link] Platão, o amor é a busca pela beleza, sendo que a
maior de todas as belezas está no conhecimento, que
anseia pelo saber e que tem as Ideias como objeto de
desejo.
Está correto apenas o que se afirma em:
a) I. b) I e II. c) III. d) II e III. e) II.

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MÓDULO 5 Aristóteles: o conhecimento sobre a realidade, a metafísica e a Ética


Neste módulo, estudaremos as ideias de Aristóteles, c) os escritos sobre Ética e Política, com destaque
buscando compreender como o filósofo resolveu o para Ética a Nicômaco.
problema do conhecimento do mundo sensível. Também
detalharemos as formas por meio das quais ele buscou Também são inspiradores os escritos aristotélicos
sistematizar o conhecimento da realidade, bem como sobre Lógica, reunidos no Órganon. Nestes estudos,
investigaremos a sua metafísica e suas ideias políticas. Aristóteles nos apresenta o instrumento utilizado pelo
pensamento para raciocinar de forma correta. Preste
1. Aristóteles: o filósofo e a sua obra atenção: não se trata do conteúdo do pensamento, mas
da forma como o pensar acontece. Assim, a lógica dá as
Aristóteles nasceu em 384 a.C., na cidade grega de normas para a condução correta do pensamento na busca
Estagira. Filho de um médico, era esperado que ele do conhecimento e permite verificarmos se determinada
exercesse a mesma profissão do pai. Em função disso, conclusão é verdadeira ou falsa.
aprimorou-se nos estudos médicos e naturalistas.
Ao contrário de seus colegas na Academia de Platão,
Aristóteles relutou em identificar a filosofia com a Saiba mais
matemática, tida pelos platônicos como a linguagem ideal Dentre as obras de Aristóteles, podemos encontrar
para a compreensão do mundo; da mesma forma, discor- algumas que versam sobre retórica, paixões, o teatro,
dou do contexto místico a partir do qual os seguidores de a poesia e a comédia.
Platão buscavam explicações para o que os circundava.
Uma fictícia obra aristotélica sobre o riso e o humor é
Assim, embora tivesse uma profunda admiração por seu
motivo para uma série de assassinatos em um con-
mestre, Aristóteles desenvolveu outra perspectiva em
vento em O nome da rosa (dir. Jean-Jacques Annaud,
relação à questão do conhecimento da realidade.
Alemanha, França, Itália, 1986, 130 minutos), filme
Posteriormente, fundou o seu próprio Liceu, em 335
a.C., em Atenas. O liceu baseado no livro homônimo de Umberto Eco.
possuía um edifício, um jardim e uma alameda para
passeio – em grego: peripatos, passeio por onde se
2. O papel da filosofia
anda conversando –, motivo pelo qual a escola
aristotélica foi chamada peripatética (...), seja como
referência à alameda, seja como referência ao fato Ao contrário do que pensava seu mestre, Aristóteles
de que Aristóteles e os estudantes passeavam por afirmou ser possível o conhecimento do mundo sensível,
ali, discutindo animadamente filosofia (CHAUÍ, 2002, bastando, para isso, que fossem acessadas as causas e os
p. 336). princípios responsáveis pela existência e pela transfor-
mação dos seres. Em outras palavras: se fossem conhe-
No Liceu, Aristóteles atendia dois públicos diferentes: cidas as causas que provocavam ou explicavam a
durante as manhãs, lecionava lógica, física, matemática existência das coisas, e se fossem compreendidos os
e teologia para os alunos mais avançados; de tarde, dava princípios responsáveis pelas transformações às quais as
aulas de lógica e retórica para o público em geral. coisas estavam sujeitas, seria possível desenvolver um
Sua obra (conhecida como Corpus aristotelicus) é conhecimento seguro sobre os fenômenos e os seres do
extensa e as suas ideias exerceram profunda influência mundo real percebidos por meio dos nossos sentidos.
no pensamento dos filósofos dos séculos posteriores: de Para Aristóteles, todos os homens apresentavam, por
fato, talvez não haja outro filósofo que tenha sido tão natureza, o desejo de conhecer. O espanto do ser
discutido e interpretado quanto Aristóteles. humano diante do mundo gerava a vontade de saber. A
Das obras aristotélicas, destacamos: filosofia, portanto, representava o desejo de conhecer e
a) os escritos sobre Metafísica; o prazer alcançado com a busca do conhecimento. Como
b) os escritos sobre Física (sobre a physis, a o homem desejava saber, a conquista do conhecimento
natureza), que reúnem Sobre a geração e a corrupção provocava prazer.
(relacionados ao nascimento e à transformação das Quando o homem contemplava a ação do tempo
coisas), Sobre os meteoros, Sobre a geração dos animais, sobre as rochas, o espanto contemplativo provocava o
Sobre a transmigração dos animais, Sobre o movimento desejo de conhecer. Por que as rochas mudavam de
dos animais, Sobre a alma e “estudos sobre a percepção, coloração ao longo do tempo? Por que algumas rochas
a memória, o sonho, o sono e a vigília, os sonhos profé- resistiam mais ao tempo do que as outras? Por que
ticos, a vida curta e a vida longa, a morte, a respiração” algumas rochas eram duras, sendo necessária muita força
(CHAUÍ, 2002, p. 344); para parti-las, enquanto outras desfarelavam por entre os

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dedos? Para satisfazer esta necessidade de saber, o Para Aristóteles, o inteligível encontrava-se no mundo
homem saía em busca do conhecimento. Com qual sensível, no mundo das coisas reais e possíveis de serem
propósito ele procurava por respostas a respeito dos percebidas por meio dos sentidos. Distanciando-se da
efeitos do tempo nas rochas? Apenas para saber, porque abordagem platônica, procurou compreender por que esse
o saber provocava uma satisfação pessoal. Embora fosse mundo sensível era como era e como ele funcionava.
possível utilizar esse conhecimento para algum fim Assim, mostrou que, no mundo sensível, o particular (que
prático, não era isto o que movia o ser humano em era mutável) e o universal (que permanecia imutável)
direção ao conhecimento. Esta necessidade de conhe- encontravam-se entrelaçados e relacionados. O conhe-
cimento e esta satisfação quando do alcance do cimento a respeito das árvores do mundo real (ou seja,
conhecimento explicavam o fato de a filosofia ser um fim dos casos particulares) não estava de forma alguma
em si mesma. Afinal, a filosofia ocupava-se com a busca desconectado da elaboração do conceito de árvore (de
do saber pelo próprio saber. Segundo Aristóteles, caráter universal).
a filosofia, nascida do espanto, não é um impulso Aristóteles morreu em 322 a.C., de uma doença do
espontâneo, mas nasce de uma pressão sobre estômago, e suas ideias – que marcaram profundamente
nossa alma, causada por uma aporia, isto é, por o conhecimento ocidental – são discutidas até os dias de
uma dificuldade que nos parece insolúvel. (...) A hoje. Em outras palavras, esse filósofo
filosofia descreve um movimento em que o formulou questões que ainda fazem sentido em
primeiro espanto tira os humanos de sua outras épocas e por isso ele não cessa de ser lido
ignorância satisfeita para fazê-los cair em novos e reinterpretado; (...), [ainda], a permanência de
espantos, ou seja, em aporias com as quais uma Aristóteles se deve por mais um motivo, qual seja:
nova ignorância é reconhecida e um novo ao distinguir e classificar todos os gêneros do
movimento, iniciado (CHAUÍ, 2002, p. 329). conhecimento, ele estruturou o modo como,
durante quase vinte séculos, o Ocidente ensinou
e fez filosofia e ciência, organizou os currículos
universitários e diferenciou teoria e prática
(CHAUÍ, 2002, p. 343).

Edson Ruiz / Fotoarena

Figura 1. Segundo Marilena Chauí, a filosofia caminha de espanto em espanto porque é “constrangida a isso pela força da verdade e pela
necessidade de acompanhar os fenômenos, o phainómenon, aquilo que aparece e se põe diante de nós, dando-se a conhecer” (CHAUÍ, 2002, p.
330).

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3. A classificação dos campos do conhecimento

Para Aristóteles, todos os campos do saber


caracterizavam-se por possuir méthodos, ou seja, faziam
uso de procedimentos para a busca dos princípios e das
causas dos fenômenos.
No entanto, como as coisas investigadas poderiam
variar em termos de sua natureza, méthodos diferentes
surgiram para examinar as causas e os princípios
específicos de cada um destes objetos.
Em função disto, o filósofo classificou os campos do
saber em três grupos: as ciências teoréticas (cujo objetivo
era a busca pela verdade), as ciências práticas (cujo
objetivo era a busca do bem de todos) e as ciências
produtivas (ou poiéticas, cujo objetivo era a realização de
uma obra).

Figura 2. Segundo Marilena Chauí, e nos termos aristotélicos, “o


Observação: cientista teorético é aquele que registra, descreve, interpreta e classifica
os princípios e causas dos objetos ou seres naturais (entendendo-se por
É interessante observar que o grau de importância dos natural tudo que é ‘de acordo com a phýsis’, isto é, o que existe por
vários campos do saber encontra correspondência na natureza), investigando os princípios de que tais seres dependem para
divisão social existente naquele momento. Assim, em existir e para ser como são” (CHAUÍ, 2002, p. 347).
uma sociedade escravista como a grega, é natural que
as artes teoréticas, contemplativas, fossem as de
maior prestígio. Em seguida, viriam as ciências práticas Observação:
e, por último, as produtivas: os valores aristocráticos Em relação aos objetos de estudo das matemáticas, con-
estão associados, portanto, às ciências teóricas; em sidere o seguinte exemplo: podemos perceber que
contrapartida, as produtivas são aquelas executadas determinada área de um campo de trigo corresponde a
por homens que, mesmo livres, estão expostos ao um retângulo; no entanto, essa forma, o retângulo, pode
cansaço, à dor e à fadiga. ser estudada mesmo que não façamos a relação dela
com a realidade da qual a abstraímos, o campo de trigo.
Vejamos outro exemplo, desta vez de natureza aritmé-
As ciências teoréticas compreendiam os saberes que tica: se somarmos duas frutas a outras três frutas,
se propunham a investigar os princípios e as causas dos chegaremos a um total de cinco frutas; no entanto, a
seres que estavam presentes na natureza e que soma de 2 + 3 (que é igual a 5) permanece, mesmo que
independiam da ação humana, tais como o céu, os mares, as frutas desapareçam.
as árvores e a chuva.

Ainda, para dar continuidade ao esforço de categori- Por sua vez, as ciências práticas eram aquelas que
zação, as ciências teoréticas podiam ser divididas em três estudavam as coisas cujos princípios dependiam da ação
diferentes campos: humana e que tinham como finalidade o próprio ser
a) a física, que compreendia o estudo da natureza, da humano. Os objetos estudados por estas ciências eram
biologia e da psicologia; obra da vontade humana e fruto da ação humana. Uma
b) a metafísica, que estudava o princípio de todos os boa ação, por exemplo, era uma possibilidade dentre
seres (e falaremos mais sobre a metafísica logo adiante). várias ações e era resultado de uma decisão do homem.
c) as matemáticas, que estudavam os seres que, Assim, o objeto das ciências práticas era
independentemente de qualquer existência real, po- aquilo que pode acontecer ou deixar de acontecer,
deriam ser estudados sem que fosse considerada sua uma possibilidade que depende da vontade
materialidade. Nesse campo do saber estavam a aritmé- racional do agente. (...) Acontece de uma maneira
tica, a geometria, a música (em função da proporção determinada, pois uma ação ou um aconte-
existente entre os sons) e a astronomia. cimento dependem das características pessoais
do agente, das circunstâncias em que ele age e
da finalidade da ação no momento em

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Aristóteles supunha ser possível compreender as Como os escritos envolviam o estudo da ontologia,
causas e os princípios das ações humanas, e acreditava quer dizer, o “estudo ou conhecimento do Ser, dos entes
na existência de regularidade e constância nestas. Nas ou das coisas tais como são em si mesmas, real e
ciências práticas, assim, abrigavam-se os estudos da: verdadeiramente” (CHAUÍ, 2002b, p. 209), passou-se a
a) ética, que estudava a ação do homem considerar que metafísica dizia respeito ao estudo das
necessária para a vida na Cidade e estabelecia coisas, do que havia de perene e verdadeiro nos entes.
os princípios racionais da ação virtuosa, isto é, Não se tratava de estudar uma coisa específica (uma boa
da ação que tinha como finalidade o bem do ação, por exemplo), mas de buscar a essência desta coisa
indivíduo enquanto ser sociável que vivia em
(ou seja, a compreensão da natureza da bondade). Em
relação com os outros;
outras palavras, era
b) política, que estudava a ação dos homens
o estudo ou o conhecimento da essência das
enquanto seres comunitários ou sociais, pro-
coisas ou do ser real e verdadeiro das coisas,
curando estabelecer, para cada forma de re-
daquilo que elas são em si mesmas, apesar das
gime político, os princípios racionais da ação
aparências que possam ter e das mudanças que
política, cuja finalidade era o bem da comunidade
possam sofrer (CHAUÍ, 2002b, p. 210).
ou o bem comum (CHAUÍ, 2002, p. 350).

Em função disto, os filósofos posteriores passaram a


Finalmente, as ciências produtivas tinham como
designar a metafísica como ontologia, que significa
objeto de estudo os seres que resultavam da ação
“estudo ou conhecimento do Ser, dos entes ou das
fabricadora do ser humano. Essas ciências, portanto,
coisas tais como são em si mesmas, real e verda-
reuniam os seguintes saberes:
deiramente” (CHAUÍ, 2002b, p. 210).
agricultura, metalurgia, tecelagem, serralheria,
marcenaria, carpintaria, sapataria, olaria, culinária,
pintura, escultura, engenharia, arquitetura, Observação:
medicina, comédia, poesia épica ou lírica, etc.
(CHAUÍ, 2002, p. 351).
Imagine que você esteja diante de uma pessoa que
conheceu há vários anos. Como você pode afirmar ser
esta pessoa do presente a mesma que conheceu no
Observação: passado? Você pode responder da seguinte forma:
Em grego, a ação fabricadora é poíesis. Por isso, as havia naquela pessoa do passado algumas
ciências produtivas também são denominadas características que tornam possível reconhecê-la no
ciências poiéticas. presente, mesmo que tenham ocorrido mudanças,
mesmo que o corpo tenha sofrido a ação do tempo.
Essa essência da pessoa é, em outras palavras, o que
4. A metafísica aristotélica permite a identificação.
Esta essência das coisas é o objeto do estudo meta-
Para Aristóteles, a Filosofia encontrava seu ponto físico.
máximo na teologia e na metafísica: todos os outros
conhecimentos surgiam dessas duas áreas. Se a teologia Vejamos outro exemplo: o que nos leva a associar a
era a ciência teórica do que era divino (theion), a palavra “mar” ao que vemos em diferentes praias? O mar
metafísica era a ciência do puro ser, quer dizer, a de uma praia do Nordeste brasileiro encontra semelhança
ciência da realidade pura, (...) nem resultado da com o mar que avistamos no Sudeste do país? O que há
ação humana, nem resultado da fabricação nos dois mares que nos permite colocá-los numa mesma
humana. Tratava-se daquilo que deveria haver em categoria? É possível identificar em ambos algumas
toda e qualquer realidade, fosse ela natural, características comuns, essenciais, que identificam aque-
matemática, ética, política ou técnica, para ser las águas salgadas como “mar”.
realidade (CHAUÍ, 2002b, p. 42).
Segundo Marilena Chauí,
A palavra metafísica surgiu pela primeira vez no a metafísica é a investigação filosófica que gira em
trabalho de um organizador dos textos de Aristóteles: os torno da pergunta “O que é?”. Este “é” possui
estudos metafísicos correspondiam aos escritos dois sentidos: 1. significa “existe”, de modo que
a pergunta se refere à existência da realidade e
aristotélicos que foram localizados depois dos estudos do
pode ser transcrita como: “O que existe?”; 2.
filósofo sobre a física e a Natureza. Ta physika significa
significa “natureza própria de alguma coisa”, de
aqueles da física; meta, depois. “Assim, a expressão ta modo que a pergunta se refere à essência da
meta ta physika significa literalmente: aqueles [escritos] realidade, podendo ser transcrita como: “Qual é a
que estão [catalogados] após os [escritos] da física” essência daquilo que existe?”. Existência e
(CHAUÍ, 2002b, p. 209). essência da realidade em seus múltiplos aspectos
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são, assim, os temas principais da metafísica, que existem e onde vivemos. As essências, diz
investiga os fundamentos, as causas e o ser Aristóteles, estão nas próprias coisas, nos
íntimo de todas as coisas, indagando por que próprios homens, nas próprias ações e é tarefa da
existem e por que são o que são (CHAUÍ, 2002b, Filosofia conhecê-las ali mesmo onde existem e
p. 207). acontecem (CHAUÍ, 2002b, p. 217).

Assim, o conhecimento metafísico não provém da


nossa experiência sensível; ele é exclusivamente form-
ulado pelo pensamento e exige que façamos a distinção
entre o que é e o que parece ser. A essência de cada
coisa, a qual deve ser buscada pelo intelecto, exige a
compreensão das coisas como são e como a nossa cons-
ciência percebe as coisas e os seres existentes na
natureza.
Parmênides, um pré-socrático, já havia abordado a
questão. Para ele, havia uma notável diferença entre o
que pensávamos e o que percebíamos. Era possível
perceber mudanças na árvore que germinava, crescia e
morria; no céu, que de manhã trazia luminosidade e, de Figura 3. Na filosofia platônica, a passagem da compreensão do mundo
noite, escuridão. Os sentidos tornavam possível a sensível para a apreensão do mundo inteligível se dá por meio da
percepção das mudanças. No entanto, para além da apa- Filosofia: é ela o instrumento que permite que transitemos das
aparências para a essência das coisas.
rência, também era possível pensar no Ser: indepen-
dentemente de qualquer mudança, havia o Ser árvore na Como podemos conhecer as coisas? A partir daquilo
nossa mente, imutável e eterno, da mesma forma como que a nossa sensação capta e o nosso pensamento se
havia o Ser céu, igualmente imutável e eterno. ocupa de compreender. Não há separação entre o que é
Platão também abordou o dilema com o qual Par- sensível e o que é inteligível, porque o conhecimento
mênides havia se debatido. No entanto, a ontologia pla- daquilo que é essencial existe no nosso mundo. Em
tônica tomou outro rumo. No mundo sensível, era consequência,
necessário lidar com as aparências e com as transfor- o que distingue a ontologia ou metafísica dos
mações e mudanças dos seres; no mundo inteligível, ao outros saberes (isto é, das ciências e das técni-
contrário, a operação envolvia a essência (o conceito) das cas) é o fato de que nela as verdades primeiras ou
coisas, que jamais se transformava. os princípios universais e toda e qualquer realidade
A ontologia platônica introduz uma divisão no são conhecidos direta ou indiretamente pelo
mundo, afirmando a existência de dois mundos pensamento ou por intuição intelectual, sem
inteiramente diferentes e separados: o mundo passar pela sensação, pela imaginação e pela
sensível da mudança, da aparência, do devir dos memória (CHAUÍ, 2002b, p. 217).
contrários, e o mundo inteligível da identidade, da
permanência, da verdade, conhecido pelo inte-
lecto puro, sem qualquer interferência dos senti- Observação:
dos e das opiniões. O primeiro é o mundo das
Há diferentes essências, já que diferentes são os
coisas. O segundo, o mundo das ideias ou das
seres. Para Aristóteles, há os seres matemáticos, que
essências verdadeiras. O mundo das ideias ou das
não são reais, mas que existem como a forma que as
essências é o mundo do Ser; o mundo sensível
das coisas ou aparências é o mundo do Não Ser. coisas assumem na realidade. Estes seres não estão
O mundo sensível é uma sombra, uma cópia sujeitos a qualquer transformação.
deformada ou imperfeita do mundo inteligível das Há os seres humanos, que partilham com as plantas
ideias ou essências (CHAUÍ, 2002b, p. 212). e os animais o fato de surgirem, transformarem-se e
desaparecerem.
Para Aristóteles, no entanto, a questão metafísica (ou Finalmente, há o ser “eterno, imutável, imperecível,
seja, a questão do conhecimento da essência das coisas) sempre idêntico a si mesmo, perfeito, imaterial,
não estava sujeita à existência de dois mundos distintos. conhecido apenas pelo intelecto, que o conhece como
separado de nosso mundo, superior a tudo que existe,
Aristóteles considera que a essência verdadeira das
e que é o ser por excelência: o ser divino” (CHAUÍ,
coisas naturais e dos seres humanos e de suas
2002b, p. 218).
ações não está no mundo inteligível, separado do
mundo sensível, onde as coisas físicas ou naturais

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5. Ética e política Não é, pois, por natureza, nem contrariando a


natureza que as virtudes se geram em nós. Diga-
Para o filósofo, a ética é uma ciência prática, fruto da se, antes, que somos adaptados por natureza a
recebê-las e nos tornamos perfeitos pelo hábito.
práxis humana, ou seja, da ação humana. Essa práxis surge
Por outro lado, de todas as coisas que nos vêm
em função de o homem agir com vistas a um determinado
por natureza, primeiro adquirimos a potência e
fim, ou finalidade. "No caso da ética, esse bem é o do
mais tarde exteriorizamos os atos. Isso é evidente
indivíduo que se prepara para viver com os outros na pólis, no caso dos sentidos, pois não foi por ver ou ouvir
pois, escreve Aristóteles, o bem propriamente humano é a frequentemente que adquirimos a visão e a
finalidade da política" (CHAUÍ, 2002, p. 440). audição, mas, pelo contrário, nós as possuíamos
Dessa forma, a ética encontra-se situada no contexto antes de usá-las, e não entramos na posse delas
das relações que o homem estabelece ao viver na pólis, pelo uso. Com as virtudes dá-se exatamente o
sendo a política a oposto: adquirimo-las pelo exercício, como tam-
ciência prática arquitetônica, isto é, aquela que bém sucede com as artes. Com efeito, as coisas
oferece os princípios e os fins da vida moral, pois que temos de aprender antes de poder fazê-las,
somente na Cidade os homens podem alcançar o aprendemo-las fazendo; por exemplo, os homens
bem propriamente humano. Qual é o bem ético do tornam-se arquitetos construindo e tocadores de
indivíduo, fim ao qual todo indivíduo aspira? A vida lira tangendo esse instrumento. Da mesma forma,
feliz, o bem viver e o bem agir, ou a felicidade tornamo-nos justos praticando atos justos, e
(CHAUÍ, 2002, p. 441). assim com a temperança, a bravura, etc.
Isto é confirmado pelo que acontece nos Estados:
Aristóteles considera a virtude resultado da ação os legisladores tornam bons os cidadãos por meio
realizada com base na racionalidade. O comportamento de hábitos que lhes incutem. Esse é o propósito
de todo legislador, e quem não logra tal desiderato
virtuoso não é resultado de uma aptidão ou de algum fator
falha no desempenho da sua missão.
hereditário, mas é desenvolvido por meio do hábito. A
Nisso, precisamente, reside a diferença entre as
ética é, justamente, o que orienta o ser humano na
boas e as más constituições.
direção da virtude e da prudência. Ainda mais: é das mesmas causas e pelos mes-
Assim, o ato bom e virtuoso é aquele que é realizado mos meios que se gera e se destrói toda virtude,
por um agente que sabe o que faz e que o faz graças a assim como toda arte: de tocar a lira surgem os
uma disposição interior e permanente. Não se é bom bons e os maus músicos. Isso também vale para
porque alguém dá esse comando, ou porque se é os arquitetos e todos os demais; construindo
obrigado a isso; o homem busca a virtude graças a bem, tornam-se bons arquitetos; construindo mal,
escolhas que ele mesmo faz, sem ser obrigado de forma maus. Se não fosse assim não haveria necessi-
alguma a agir de forma virtuosa. dade de mestres, e todos os homens teriam nas-
A seguir, apresentamos um trecho de Ética a cido bons ou maus em seu ofício.
Isso, pois, é o que também ocorre com as
Nicômaco. Sugerimos que você preste especial atenção
virtudes: pelos atos que praticamos em nossas
à forma por meio da qual Aristóteles desenvolve o
relações com os homens nos tornamos justos ou
raciocínio a respeito da necessidade do hábito da virtude.
injustos; pelo que fazemos em presença do perigo
Sendo, pois, de duas espécies a virtude, intelectual
e pelo hábito do medo ou da ousadia, nos torna-
e moral, a primeira, por via de regra, gera-se e
mos valentes ou covardes. O mesmo se pode
cresce graças ao ensino — por isso requer
dizer dos apetites e da emoção da ira: uns se
experiência e tempo; enquanto a virtude moral é
tornam temperantes e calmos, outros intem-
adquirida em resultado do hábito, donde ter-se
perantes e irascíveis, portando-se de um modo ou
formado o seu nome por uma pequena modificação
de outro em igualdade de circunstâncias.
da palavra (hábito). Por tudo isso, evidencia-se
Numa palavra: as diferenças de caráter nascem de
também que nenhuma das virtudes morais surge
atividades semelhantes. É preciso, pois, atentar
em nós por natureza; com efeito, nada do que
para a qualidade dos atos que praticamos,
existe naturalmente pode formar um hábito
porquanto da sua diferença se pode aquilatar a
contrário à sua natureza. Por exemplo, à pedra que
diferença de caracteres. E não é coisa de so-
por natureza se move para baixo não se pode
menos que desde a nossa juventude nos habi-
imprimir o hábito de ir para cima, ainda que
tuemos desta ou daquela maneira. Tem, pelo
tentemos adestrá-la jogando-a dez mil vezes no ar;
contrário, imensa importância, ou melhor: tudo
nem se pode habituar o fogo a dirigir-se para baixo,
depende disso (Aristóteles, 1991, p. 29-30).
nem qualquer coisa que por natureza se comporte
de certa maneira a comportar-se de outra.

54 –
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Breve diálogo
Adilson Silva Oliveira, 43 anos, é licenciado em Letras e mestre em Língua Portuguesa. Atualmente, é professor da
Universidade Paulista (UNIP), escritor, roteirista e redator de material didático.
Pergunta: Qual o contato que o senhor tem com o ensino da Lógica?
Prof. Adilson Silva Oliveira: A lógica, especialmente a aristotélica, está presente em várias disciplinas com as quais
trabalho, visto que ela não é uma ciência, mas um instrumento que auxilia na organização do pensamento. Trabalho
Lógica, por exemplo, nos cursos de Direito e de Letras. No primeiro, associo o pensamento lógico à argumentação;
no segundo, trago esse pensamento lógico para as aulas de Retórica ou de Estilística.
Pergunta: De que maneira o conhecimento das regras da Lógica pode contribuir para o exercício profissional em
diferentes áreas?
Prof. Adilson Silva Oliveira: O objeto da Lógica é o silogismo, ou seja, o argumento constituído de premissas (ex.:
"Todo homem é mortal/ João é um homem/ Logo, João é mortal"). A conclusão a que se chega com a proposições
não tem o propósito de conferir verdade ou falsidade, mas de observar o movimento de construção do pensamento.
Nas áreas jurídicas, o uso do instrumento da Lógica é muito importante para se pensar, por exemplo, conceitos de
verdade ou de mentira.
Pergunta: Como o senhor percebe a relação entre Lógica e Literatura?
Prof. Adilson Silva Oliveira: A literatura não trabalha com a verdade dos fatos, mas com a verossimilhança, ou seja,
com aquilo que parece intuitivamente verdadeiro – tanto para o autor quanto para o leitor. Os autores literários,
portanto, inventam uma verdade. Para tanto, fazem uso do pensamento lógico.

Conteúdo complementar

Texto 1: Aristóteles e a lógica

A lógica aristotélica, apresentada em um conjunto de obras


conhecido como Órganon (a lógica), apresenta-nos instrumentos
de pensamento, ou seja, formas de pensar. Assim, essa lógica é
o conhecimento que deve preceder quaisquer outros. É disciplina
que dá as normas para a condução correta do pensamento na
busca do conhecimento e é o que permite verificarmos se
determinadas conclusões são verdadeiras ou falsas.
Para Aristóteles, a lógica é um instrumento para outras
ciências. Portanto, ela é um instrumento para pensar correta-
mente e para verificar o quanto o pensamento estava sendo
pensado de forma correta. Em outras palavras, a lógica não
busca investigar os objetos pensados, mas apenas estudar as
formas do pensamento, em geral expressas por meio da
linguagem.
Segundo Chauí (2002), para Aristóteles a lógica assumia Figura 1. Segundo Chauí (2002, p. 180), ao fazermos uso da palavra
características: lógica “estamos participando de uma tradição do pensamento que se
a) propedêuticas (quer dizer, introdutórias, básicas), já que ela origina da Filosofia grega, quando a palavra logos – significando
indicava os procedimentos empregados para cada linguagem-discurso e pensamento-conhecimento – conduziu os
modalidade de pensamento (tais como métodos, filósofos a indagar se o logos obedecia ou não a regras, possuía ou não
demonstrações e raciocínios); normas, princípios e critérios para seu uso e funcionamento”.
b) normativas, já que fornecia os princípios e as regras que o
pensamento deveria seguir; Ao elaborar um conjunto de regras para o pensamento,
c) de doutrina de prova, já que estabelecia as condições para Aristóteles revelou os caminhos do raciocínio dedutivo. Por meio
verificar se determinada conclusão – dadas algumas dos silogismos, ou seja, de conexões de ideias, mostrou como,
premissas – estava correta ou não; a partir de uma afirmação universal verdadeira, era possível
explicar casos particulares que dela dependiam. O exemplo
d) gerais e temporais, já que as normas de pensamento, bem
mais famoso é o seguinte:
como seus princípios e suas leis, eram universais,
independendo do tempo ou do lugar. Todos os homens são mortais.
– 55
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Sócrates é homem. Uma proposição pode ser negada se algum fato ou


Logo, Sócrates é mortal. fenômeno falsear a afirmativa feita. Conforme os exemplos
acima, o fato de o sol não nascer em determinado dia falsearia
No exemplo acima, a premissa inicial é a de que todos os
(tornaria falsa) a afirmativa “o sol nasce todos os dias”; caso
homens são mortais. Como Sócrates é um homem, pode-se
fosse observada uma segunda-feira chuvosa em Brasília, a
deduzir que Sócrates também seja mortal. A explicação geral
afirmativa “chove em Brasília apenas nos finais de semana”
(todos os homens são mortais) serve, portanto, para que
também seria falsa.
possamos deduzir algo a respeito de um caso particular
(Sócrates, que é um homem, é, portanto, também mortal). Os princípios da lógica, embora possam parecer óbvios,
ajudam-nos a pensar de forma correta e, portanto, a
compreender o processo de falseamento (ou de negação) de
Observação:
proposições. Segundo Chauí (2002, p. 60),
O método indutivo faz o caminho inverso do método dedutivo.
Desde seus começos, a Filosofia considerou que a razão
Na indução, estudamos os casos particulares e, por meio deles,
opera seguindo certos princípios que ela própria
formulamos uma explicação geral. Assim, e seguindo o padrão
estabelece e que estão em concordância com a própria
do exemplo dado para a dedução, poderíamos observar que
realidade, mesmo quando os empregamos sem
Milton é mortal, Adilson é mortal, Augusto é mortal, e assim
conhecê-los explicitamente. Ou seja, o conhecimento
por diante. Dado que os homens observados são mortais, por
racional obedece a certas regras ou leis fundamentais,
indução, concluiríamos que todos os homens são mortais.
que respeitamos até mesmo quando não conhecemos
diretamente quais são e o que são. Nós as respeitamos
porque somos seres racionais e porque são princípios
Em adição, Aristóteles combateu os silogismos que pecavam que garantem que a realidade é racional.
pela premissa que lhes dava base. Vejamos um exemplo:
Todo homem treinado nas artes da guerra é capaz de Vejamos quais são estes princípios:
matar um dragão. a) Princípio da identidade: uma proposição, se verdadeira, não
Odin é treinado nas artes da guerra. pode ser falsa; se falsa, não pode ser verdadeira. “A é A” ou,
Logo, Odin é capaz de matar um dragão.
por mais óbvio que possa parecer, “o que é é”. Esse
A premissa inicial do exemplo acima é a de que todo princípio afirma que “uma coisa, seja ela qual for (um ser da
homem treinado nas artes da guerra seria capaz de matar um Natureza, uma figura geométrica, um ser humano, uma obra
dragão. Como afirma-se ser Odin treinado nas artes da guerra, de arte, uma ação), só pode ser conhecida e pensada se for
podemos deduzir que Odin seria capaz de matar um dragão. No percebida e conservada com sua identidade”. Definido um
entanto, esse silogismo fere a lógica. Qual é o problema do triângulo como uma figura geométrica de três lados e três
exemplo acima citado? O maior problema diz respeito ao fato ângulos, não há como dizer que outra figura, e que não
de não existirem dragões. Portanto, a premissa inicial faz tenha três lados e três ângulos, seja um triângulo. Da
referência a algo inexistente (o dragão), o que fere a lógica. mesma forma, quando alguém fizer referência a um
Mesmo que, aparentemente, o raciocínio pareça estar correto, triângulo, é possível saber sobre qual figura se está falando.
é necessário ficar atento ao conteúdo das premissas.
b) Princípio do não contraditório: uma proposição não pode ser
Veja o exemplo a seguir: imagine que alguém faça uma falsa e verdadeira simultaneamente; no caso de uma propo-
afirmativa a respeito de todos os restaurantes do Brasil venderem sição, ou ela é falsa ou ela é verdadeira. “A é A e é
sanduíches. impossível que seja, ao mesmo tempo e na mesma relação,
Afirmar que todos os restaurantes do Brasil vendem sanduí- não A” (CHAUÍ, 2002, p. 60). Não é possível que o objeto
ches é o mesmo que afirmar que, no Brasil, todos os sanduíches diante de nós seja uma árvore e, ao mesmo tempo, não seja
são vendidos apenas em restaurantes? A resposta é negativa: uma árvore. Não é possível que um triângulo tenha três
caso alguém afirme que todos os restaurantes vendem san- lados e três ângulos e, ao mesmo tempo, tenha quatro lados
duíches, não poderemos deduzir, a partir dessa premissa, que to- e quatro ângulos. Segundo Chauí (2002, p. 60),
dos os sanduíches vendidos no Brasil o sejam em restaurantes. Sem o princípio da não contradição, o princípio da
Tampouco poderemos deduzir que os restaurantes brasileiros identidade não poderia funcionar. O princípio da não
vendam apenas sanduíches: a premissa não permite afirmarmos contradição afirma que uma coisa ou uma ideia que se
isso (OLIVEIRA et al., 2012). negam a si mesmas se autodestroem, desaparecem,
Dessa forma, a lógica dá-nos as regras gerais para que deixam de existir. Afirma, também, que as coisas e as
possamos pensar de forma verdadeira e correta, chegando a ideias contraditórias são impensáveis e impossíveis”.
conclusões igualmente verdadeiras e corretas.
c) Princípio do terceiro excluído: uma proposição só pode ser
Texto 2 falsa ou verdadeira, não havendo qualquer outra possi-
Os princípios da lógica bilidade. Ou aquilo que vemos é uma árvore ou não é uma
árvore. Como Chauí (2002, p. 60) afirma, ou aquele homem
Uma proposição é uma afirmativa que diz algo, que afirma que vemos é Sócrates ou não é Sócrates. “‘Ou faremos a
alguma coisa. Entretanto, seu conteúdo pode ser verdadeiro ou guerra ou faremos a paz’. Esse princípio define a decisão de
falso. Uma proposição do tipo “o sol nasce todos os dias” é um dilema – ‘ou isto ou aquilo’ – e exige que apenas uma
verdadeira: realmente, o sol nasce todos os dias. Em contrapartida, das alternativas seja verdadeira”.
uma proposição do tipo “chove em Brasília apenas nos finais de
semana” é uma proposição falsa: não há qualquer evidência de Esses princípios básicos, e aparentemente surpreendentes,
que chova em Brasília apenas nos finais de semana. são instrumentos para o pensamento. Para que você possa
perceber a importância deles, vejamos os casos de negação de
proposições.
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Exemplo 1: Proposição e negação continuará verdadeira. Caso Leonardo estude matemática e faça
Se uma proposição é verdadeira, a sua negação é falsa. Se a lista de exercícios, a proposição continuará verdadeira. Portanto,
uma proposição é falsa, a sua negação é verdadeira. há apenas uma possibilidade de negação da proposição:
Acompanhe o raciocínio. Se Leonardo não estudar matemática, tampouco
fizer a lista de exercícios, a proposição acima será
No caso da proposição “o número 2 é um inteiro”,
falsa.
a negação é “o número 2 não é um inteiro”. Se a
proposição for verdadeira (e é verdadeira), sua Exemplo 4: Uso da condicional “se..., então”
negação é falsa.
A proposição é “Se Leonardo estudar matemática, então
No caso da proposição “o número 1,5 é um ele fará a lista de exercícios”.
inteiro”, a negação é “o número 1,5 não é um
Como podemos falsear, ou negar, essa proposição? Se
inteiro”. Se a proposição for falsa (e esta é uma
Leonardo estudar matemática e fizer a lista de exercícios, a
proposição falsa), sua negação é verdadeira.
proposição será verdadeira. Se Leonardo não estudar
Exemplo 2: Uso do conectivo “e” matemática e não fizer a lista de exercícios, a proposição será
verdadeira. Se Leonardo não estudar matemática, mas fizer a
A proposição é “Leonardo estudará matemática e fará a
lista de exercícios, a proposição será verdadeira. Portanto, há
lista de exercícios”.
apenas uma possibilidade de negação da proposição:
Como podemos falsear, ou negar, essa proposição? Temos
Se Leonardo estudar matemática, mas não fizer a lista
três possibilidades de negação da proposição:
de exercícios, a proposição será falsa.
Se Leonardo estudar matemática, mas não fizer a
lista de exercícios, a proposição acima será falsa. Exemplo 5: Uso da condicional “se, e somente se”
Se Leonardo não estudar matemática, mas A proposição é “Leonardo irá estudar matemática se, e
mesmo assim fizer a lista de exercícios, a somente se, fizer a lista de exercícios”.
proposição será falsa. Como podemos falsear, ou negar, essa proposição? Se
Se Leonardo não estudar matemática, tampouco Leonardo fizer a lista de exercícios e estudar matemática, a propo-
fizer a lista de exercícios, a proposição será falsa. sição será verdadeira. Se Leonardo não fizer a lista de exercícios e
não estudar matemática, a proposição será verdadeira. Portanto,
Exemplo 3: Uso do conectivo “ou” há apenas duas possibilidades de negação da proposição:
A proposição é “Leonardo estudará matemática ou fará a Se Leonardo não fizer a lista de exercícios, mas estudar
lista de exercícios”. matemática, a proposição será falsa.
Como podemos falsear, ou negar, essa proposição? Caso Se Leonardo fizer a lista de exercícios, mas não estudar
Leonardo estude matemática, mas não faça a lista de exercícios, matemática, a proposição será falsa.
a proposição continuará verdadeira. Caso Leonardo não estude
matemática, mas faça a lista de exercícios, a proposição

Referências – Módulo 5
______________. Convite à Filosofia. 12. ed. São Paulo:
Audiovisuais Ática, 2002b.
O NOME DA ROSA. Dir. Jean-Jacques Annaud. Créditos das imagens
Alemanha, França, Itália: Bernd Eichinger, Franco Cristaldi, Capa: [Link]
Alexandre Mnouchkine, Bernd Schaefers e Hermann reflex%C3% A3o-1810929/
Weigel, 1986. 130 minutos.
Textuais Referências – Conteúdo Complementar
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco; Poética; seleção de
textos de José Américo Motta Pessanha. Ética a Textuais
Nicômaco: tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 12. ed. São Paulo:
da versão inglesa de W.D. Ross; Poética: tradução, Ática, 2002.
comentários e índices analítico e onomástico de Eudoro Oliveira et al. Raciocínio lógico e leitura e interpretação de
de Souza. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção textos. São Paulo: Universidade Paulista/Vice-Reitoria de
Os pensadores, v. 2). Pós-Graduação e Pesquisa, 2012. (Cadernos de estudos
CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da Filosofia: dos e pesquisas – UNIP. Série Didática).
pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Cia. das Letras,
2002.

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1. Na sua metafísica, Aristóteles investigou as causas da 2. – Segundo Aristóteles, “na cidade com o
existência das coisas e dos seres. Assim, temos a causa melhor conjunto de normas e naquela dotada
material, que diz respeito à matéria da qual a essência é de homens absolutamente justos, os cidadãos não
feita (ar, água, fogo e terra); a causa formal, que está devem viver uma vida de trabalho trivial ou de negócios –
associada à forma por meio da qual a essência é esses tipos de vida são desprezíveis e incompatíveis com
materializada (a mesa é a forma assumida pela madeira); as qualidades morais –, tampouco devem ser agricultores
a causa eficiente, que explica como uma matéria assumiu os aspirantes à cidadania, pois o lazer é indispensável ao
determinada forma (o marceneiro é a causa eficiente que desenvolvimento das qualidades morais e à prática das
permitiu à madeira receber a forma de mesa); a causa atividades políticas”.
final, que diz respeito ao motivo, ou finalidade, para algo (VAN ACKER, T. Grécia: a vida cotidiana na cidade-Estado. São
existir de determinada forma (o Bem é a causa final da Paulo: Atual. 1994.)
política).
O trecho, retirado da obra Política, de Aristóteles, permite
Considerando o acima exposto, considere as afirmativas compreender que a cidadania
a seguir: a) possui uma dimensão histórica que deve ser criticada,
I. A água é a causa formal do rio. pois é condenável que os políticos de qualquer época
II. O pedreiro é a causa eficiente da parede de tijolos. fiquem entregues à ociosidade, enquanto o resto dos
III.O prazer é a causa final da busca pelo conhecimento. cidadãos tem de trabalhar.
b) era entendida como uma dignidade própria dos grupos
Está correto o que se afirma em: sociais superiores, fruto de uma concepção política
a) I, apenas. profundamente hierarquizada da sociedade.
b) I e II, apenas. c) estava vinculada, na Grécia Antiga, a uma percepção
c) I, II e III. política democrática, que levava todos os habitantes
d) II, apenas. da pólis a participarem da vida cívica.
e) II e III, apenas. d) tinha profundas conexões com a justiça, razão pela
qual o tempo livre dos cidadãos deveria ser dedicado
às atividades vinculadas aos tribunais.
e) vivida pelos atenienses era, de fato, restrita àqueles
que se dedicavam à política e que tinham tempo para
resolver os problemas da cidade.

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3. – A felicidade é, portanto, a melhor, a mais 4.


nobre e a mais aprazível coisa do mundo, e Texto I
esses atributos não devem estar separados como na
inscrição existente em Delfos “das coisas, a mais nobre Olhamos o homem alheio às atividades públicas não
é a mais justa, e a melhor é a saúde; porém a mais doce como alguém que cuida apenas de seus próprios interes-
é ter o que amamos”. Todos estes atributos estão ses, mas como um inútil; nós, cidadãos atenienses,
presentes nas mais excelentes atividades, e entre essas decidimos as questões públicas por nós mesmos na
a melhor, nós a identificamos como felicidade. crença de que não é o debate que é empecilho à ação, e
(ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Cia. das Letras, 2010.) sim o fato de não se estar esclarecido pelo debate antes
de chegar a hora da ação.
Ao reconhecer na felicidade a reunião dos mais (TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. Brasília:
excelentes atributos, Aristóteles a identifica como UnB, 1987. Adaptado.)
a) busca por bens materiais e títulos de nobreza.
b) plenitude espiritual e ascese pessoal. Texto II
c) finalidade das ações e condutas humanas.
d) conhecimento de verdades imutáveis e perfeitas. Um cidadão integral pode ser definido por nada mais
e) expressão do sucesso individual e reconhecimento nada menos que pelo direito de administrar justiça e
público. exercer funções públicas; algumas destas, todavia, são
limitadas quanto ao tempo de exercício, de tal modo que
não podem de forma alguma ser exercidas duas vezes
pela mesma pessoa, ou somente podem sê-lo depois de
certos intervalos de tempo prefixados.
(ARISTÓTELES. Política. Brasília: UnB, 1985.)

Comparando os textos I e II, tanto para Tucídides (no


século V a.C.) quanto para Aristóteles (no século IV a.C.),
a cidadania era definida pelo(a)
a) prestígio social.
b) acúmulo de riqueza.
c) participação política.
d) local de nascimento.
e) grupo de parentesco.

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5. (ENADE) – A urbanização no Brasil registrou marco


histórico na década de 1970, quando o número de
pessoas que viviam nas cidades ultrapassou o número
daquelas que viviam no campo. No início deste século,
em 2000, segundo dados do IBGE, mais de 80% da
população brasileira já era urbana.
Considerando essas informações, estabeleça a relação
entre as charges:

Com base nas informações dadas e na relação proposta


entre essas charges, é CORRETO afirmar que
a) a primeira charge é falsa e a segunda é verdadeira.
b) a primeira charge é verdadeira e a segunda é falsa.
c) as duas charges são falsas.
d) as duas charges são verdadeiras e a segunda explica a
primeira.
e) as duas charges são verdadeiras, mas a segunda não
explica a primeira.

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6. (OLIVEIRA ET AL., 2012, P. 13) – O método indutivo é


um processo mental por meio do qual se infere uma 7. (OLIVEIRA et al., 2012, p. 16) – Suponha que, em
verdade geral ou universal, não contida nas partes determinada escola, todas as salas que possuem mais de
examinadas. O objetivo dos argumentos é levar a trinta carteiras situam-se no 2.° andar. Sabe-se que Isabela
conclusões cujo conteúdo é muito mais amplo do que o estuda nessa escola, em uma sala no 2.° andar. Conside-
das premissas nas quais se baseiam. rando essas informações, assinale a alternativa correta.
O método dedutivo é um processo mental, contrário à a) A sala onde Isabela estuda tem trinta carteiras.
indução, por meio do qual é possível, a partir de uma ou b) A sala onde Isabela estuda tem mais de trinta carteiras.
mais premissas aceitas como verdadeiras, a obtenção de c) A sala onde Isabela estuda tem menos de trinta
uma conclusão necessária e evidente. carteiras.
Com base nesses conceitos, qual alternativa constitui um d) Nada se pode afirmar sobre a quantidade de carteiras
exemplo de método científico indutivo? da sala onde Isabela estuda.
a) O corvo 1 é negro. e) Na escola há exatamente dois andares com salas de
O corvo 2 é negro. aula.
O corvo 3 é negro.
O corvo “n” é negro.
-------------------------------------
(Todo) corvo é negro.

b) José e Antônio são homens.


Todos os homens morrem.
Logo, José e Antônio morrerão.

c) As uvas caem, então a raposa as come.


A raposa come somente uvas maduras.
As uvas estão verdes ou caem.
Logo, a raposa come unicamente uvas que caem.

d) Todos os homens são mortais.


Sócrates é homem.
Portanto, Sócrates é mortal.

e) 100% dos calouros universitários são capazes de ler


livros do sexto período.
Fábio é calouro universitário.
Fábio é capaz de ler livros do sexto período.

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8. (UPE-Modificado) – A validade de nossos conheci- 9. (OLIVEIRA et al., 2012, p. 10) – Existem três
mentos é garantida pela correção do raciocínio. São dois suspeitos de invadir uma rede de computadores: Luiz,
os modos de raciocínio: o indutivo e o dedutivo. Sobre Thaís e Felipe. Sabe-se que a invasão foi de fato cometida
isso, assinale a alternativa correta. por um ou por mais de um deles, já que podem ter agido
a) O raciocínio indutivo é amplamente utilizado pelas individualmente ou não. Sabe-se, ainda, que:
ciências experimentais.
b) O raciocínio indutivo parte de uma lei universal, I. Se Luiz é inocente, então Thaís é culpada.
considerada válida para um determinado conjunto, II. Ou Felipe é culpado ou Thaís é culpada, mas não os
aplicando-a aos casos particulares desse conjunto. dois.
c) O raciocínio dedutivo parte de uma lei particular, [Link] não é inocente.
considerada válida para um determinado conjunto,
aplicando-a aos casos universais desse conjunto. Com base nessas considerações, é possível concluir que
d) O raciocínio dedutivo é uma argumentação na qual, a a) somente Luiz é inocente.
partir de dados singulares suficientemente enume- b) somente Thaís é culpada.
rados, inferimos uma verdade universal. c) somente Felipe é culpado.
e) As leis formuladas por meio do raciocínio indutivo não d) Thaís e Felipe são culpados.
podem ser aplicadas aos casos particulares. e) Luiz e Felipe são culpados.

10. Indique a alternativa que corresponda à negação


da proposição:

Todas as brasileiras são morenas.

a) Ana é brasileira e não é morena.


b) Nenhuma brasileira é morena.
c) Todas as brasileiras são loiras.
d) Ana é loira e não é brasileira.
e) Ana não é loira e não é brasileira.

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11. Indique a alternativa que corresponda à negação 12. (IBGE) – Se todo A é B e nenhum B é C, é possível
da proposição: concluir, corretamente, que:
a) Nenhum B é A.
Marcos sabe nadar e dirigir. b) Nenhum A é C.
c) Todo A é C.
a) Se Marcos souber dirigir, então saberá nadar.
d) Todo C é B.
b) Marcos não sabe nadar, mas sabe dirigir.
e) Todo B é A.
c) Marcos saberá nadar se, e apenas se, também souber
dirigir.
d) Marcos saberá dirigir se, e apenas se, também souber
nadar.
e) Se Marcos souber nadar, então saberá dirigir.

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MÓDULO 6 O Helenismo
O helenismo diz respeito à influência da cultura grega leis e tradições, e num contexto de extrema descen-
na região mediterrânea oriental e no Oriente no período tralização política, o homem grego precisara de refe-
que vai de 332 a.C. (quando do início das conquistas de rências, em especial aquelas relacionadas às normas e
Alexandre) até 30 a.C. (quando os romanos conquistaram aos costumes do que era considerado “correto” e bom
o Egito). Foram séculos marcados pela tentativa de se em termos de comportamento e atitudes.
criar uma hegemonia cultural, na qual a língua e a moeda Foram várias as escolas de pensamento que se
gregas eram vistas como símbolos da unificação do desenvolveram naquele período e, a partir de agora,
império de Alexandre. Com a morte de Alexandre, o estudaremos algumas delas: a escola cética, a escola
império se esfacelou; no entanto, as influências na cínica, a escola epicurista e a escola estoica. É importante
filosofia permaneceram vivas. ressaltarmos que estas não foram as únicas escolas
A filosofia do helenismo tem sido pouco estudada filosóficas que floresceram no período, mas somente as
[...]. Muitas das obras da intensa produção mais significativas e as que mais influências exerceram
filosófica dessa época se perderam ou subsistiram nos períodos posteriores, da Patrística até a Modernidade.
apenas em fragmentos. Talvez a concepção de Ainda, delas não será feita uma apresentação por ordem
filosofia então vigente esteja muito distante da
cronológica, já que o percurso histórico percorrido por
nossa, herdeira direta do Pensamento Moderno
essas diferentes correntes nem sempre foram de
que começa a se desenvolver nos sécs. XVI-XVII,
valorizando a originalidade e a criatividade do
natureza linear; também deve ser levado em conta o fato
pensamento do filósofo, como fruto de sua de que, em várias ocasiões, seus elementos mesclaram-
individualidade, de sua subjetividade, como obra se uns aos outros.
de um autor. O pensamento do helenismo, ao Há vários pontos em comum nas ideias e perspectivas
contrário, é essencialmente um pensamento de dessas diferentes escolas. De forma geral, na filosofia
escola, em que mais importante do que a helênica (em particular por parte dos epicuristas e dos
originalidade do indivíduo é sua vinculação a uma estoicos) acreditava-se na impossibilidade de “encontrar
determinada tradição, a uma corrente filosófica regras de conduta humana e de alcançar a felicidade sem o
(MARCONDES, 2010, p. 95). apoio numa concepção racional da Natureza” (CHAUÍ, 2010,
p. 15). A ética seria impossível sem o apoio de algo físico,
Fotoarena

da natureza; em outras palavras, tratava-se ali de defender


um naturalismo ético, no qual a Natureza determinava a
ação humana.
Outro traço marcante do helenismo é a sua tradição
doutrinária, fato que incentivou a formação de escolas
para que as doutrinas pudessem ser ensinadas.
Finalmente, a filosofia helenística concebeu a filosofia
como uma verdadeira medicina para a alma, um instru-
mento para curá-la.
De fato, todas as escolas helenísticas dedicam-se
ao estudo das paixões da alma e consideram
impossível ser feliz e passional ao mesmo tempo
porque uma paixão se opõe a outras e chama
outras, dilacerando interiormente o ser humano. [...]
Estar sob o domínio das paixões é estar doente da
Figura 1. Ruínas de um teatro romano em Alexandria, a segunda cidade alma e cabe à filosofia ser a medicina que ensina a
mais populosa do Egito. Fundada em 331 a.C. por Alexandre, o Grande, liberar-se delas, começando por libertar-se do desejo
Alexandria permaneceu como capital do Egito até a conquista de possuir coisas e outros seres humanos. Libertar-
muçulmana, no século III d.C. se do apelo dos bens exteriores e encontrar na
razão, no espírito ou na interioridade o verdadeiro
Essa filosofia, que posteriormente influenciou o bem é o caminho da sabedoria — nem a riqueza,
judaísmo, o cristianismo e o islamismo, teve como preo- nem as honras, nem o poder político, nem a
cupação central a ética, ou seja, o estabelecimento de imortalidade da alma, nem a sorte, nem um Deus
transcendente são o bem. Por isso mesmo o grande
normas da "arte de viver". O fim da pólis grega havia
mote dos helenísticos será: renunciar a tudo que
contribuído para isso: na ausência da vida de comunidade
não depende de nós e buscar apenas o que
que, outrora, havia estabelecido as marcas principais das depende de nós, o lógos que habita todo ser

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humano. Em cada uma das escolas, a terapêutica mas de uma decisão que compromete todo o
da alma proporá remédios e procedimentos modo de vida. Sua filosofia é totalmente exercício
diferentes, mas seu tema e seu objetivo serão (askésis) e esforço (BICCA, 2011, p. 157).
sempre os mesmos: não se submeter ao páthos,
mas buscar a apátheia, graças à qual se chega à A gargalhada, a ironia e o sarcasmo fazem parte do
ataraxía (CHAUÍ, 2010, p. 18). repertório da filosofia cínica. O riso, mais do que a teoria,
éa
Observação: resposta da vontade de viver àquilo que as teorias
e ideologias a ela fizeram –, em parte, uma arte
Páthos é uma palavra grega que designa paixão,
de sobreviver, em parte resistência intelectual, em
sofrimento, doença. Apátheia, também do parte sátira, em parte crítica (SLOTERDIJK, 1983
vocabulário grego, significa o estado de espírito livre apud BICCA, 2011, p. 159).
de paixões ou perturbações emocionais. Ataraxía,
termo grego, designa harmonia, paz, tranquilidade. O ceticismo

Em função do importante papel de Pirro (nascido,


O cinismo
aproximadamente, em 365 a.C.), vários autores preferem
o termo pirronismo ao ceticismo. Poeta e pobre, Pirro foi
Os cínicos enfatizavam o desapego, o autocontrole e aluno de um dos discípulos de Sócrates. Embora não
a impassividade. Extremamente ousados e contes- tenha deixado textos escritos a respeito da sua filosofia,
tadores, defendiam que o homem não deveria entregar- Pirro teve suas ideias divulgadas por Tímon, seu discípulo,
se ao joguete das paixões. A própria cidade-Estado, não e é por meio delas que podemos refletir sobre as origens
raras vezes, impunha regras que não obedeciam ao curso do pensamento cético.
natural determinado pela physis, pela natureza. Qual o eixo central da filosofia cética? Para os céticos,
A pedagogia do cínico é a parrhésia, a franqueza não há como confiar na razão, tampouco nos sentidos.
de dizer tudo, mesmo aquilo que mais possa Dessa forma, não há como afirmar ou negar algo, reco-
escandalizar: o cínico provoca, incomoda, choca e mendando-se suspender o juízo a respeito de tudo. Pirro
sabe que choca, mas para ensinar (BICCA, 2011,
sugere não apenas a dúvida, mas a dúvida sistemática.
p. 155).
A razão que ele apresentava é que sempre podem
ser invocados argumentos de força igual a favor e
Ingimage

contra cada opinião [...]. O melhor é, pois, não


tomar partido, confessar que não se sabe nada
[...]; não inclinar-se para nenhum lado [...]; perma-
necer em suspensão [...]. Daí também diversas
fórmulas que têm o mesmo significado: eu não
defino nada [...]; nada é inteligível [...]; nem sim
nem não [...] (BROCHARD, 2014, p. 4).

Vejamos a dúvida cética mais de perto: não se trata


de duvidar do próprio pensamento ou dos objetos que
nos aparecem por meio dos sentidos. A dúvida não ocorre
em relação à cor de um objeto: os sentidos nos fazem
Figura 2. A natureza, mais do que a pólis, é o que determina as leis do
acreditar que tal objeto é branco; no entanto, ele é
comportamento. realmente branco? É possível afirmar ser aquele um
objeto branco?
A filosofia cínica, assim, constitui-se como visão de Não ter opinião sobre o bem, nem sobre o mal,
mundo na qual o homem deve lutar pelo desapego e pela esse é o meio de evitar todas as causas de
recusa ao que é luxuoso ou ao que alimenta a vaidade. inquietude. A maioria das vezes os homens se
Nela [nesta filosofia] estavam presentes muitas tornam infelizes por sua culpa; sofrem porque são
noções filosóficas que não eram exclusividade dos privados do que acreditam ser um bem, ou
cínicos, mas que serviam para designar aquelas porque, possuindo-o, temem perdê-lo, ou porque
atitudes concretas que correspondem à sua esco- sofrem o que acreditam ser um mal. Suprima-se
lha de vida: ascese, ataraxía (ausência de pertur- toda crença desse gênero e todos os males
bação), autarquia (independência), esforço, desaparecem [...]. Restará sem dúvida dores que
impassibilidade, simplicidade, ausência de vaida- não se pode evitar, porque elas pertencem à
de. Para os cínicos, não se trata de especulações, nossa natureza, o frio, a fome, a doença: mas
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estas dores mesmas se tornarão menos fortes se é um microcosmo no macrocosmo, ou seja, é


dermos a elas pouca importância (BROCHARD, parte do universo, da natureza. Para ter uma
2014, p. 6). conduta ética que assegure sua felicidade, suas
ações devem estar de acordo com os princípios
naturais, com a harmonia do cosmo, que dá

Fotoarena
equilíbrio a todo o universo, inclusive ao
homem. A boa ação, de um ponto de vista
ético, é portanto uma ação de acordo com a
natureza. São três as virtudes básicas para os
estoicos: a inteligência, que consiste no
conhecimento do bem e do mal; a coragem, ou
o conhecimento do que temer e do que não
temer; e a justiça, o conhecimento que nos
permite dar a cada um o que lhe é devido
(MARCONDES, 2010, p. 101).

Ingimage
Figura 3. “A dúvida é o verdadeiro bem: a tranquilidade a acompanha,
como a sombra segue o corpo” (BROCHARD, 2014, p. 6).

O cético pirrônico crê que


a postura intelectual dogmática, de ânsia por
um saber absoluto, crença na posse de certe-
zas sobre a realidade ou a real natureza das coi-
sas, trazia consigo inquietude, desas sossego,
em suma, infelicidade" (BICCA, 2011, p. 160).

Por isso, o necessário estado de suspensão: a


renúncia à certeza traz a tranquilidade e o bem-estar do
espírito.
Figura 4. Para compreender a filosofia estoica, podemos utilizar a
O estoicismo metáfora da árvore: “a física corresponderia à raiz, a lógica ao tronco e
a ética aos frutos” (MARCONDES, 2010, p. 101).
A escola estoica nasce com o pensamento de Zenão
de Cítio (344-262 a.C.), um filósofo de origem fenícia. Para O conformismo é a marca da filosofia estoica: é
Novak (1999), o estoico busca a explicação dos fenô- sugerido conformar-se com os acontecimentos que são
menos, objetivo possível de ser alcançado. O estoico é inevitáveis. Se agimos, as consequências não podem ser
passivo e crê que o homem deve se conformar com os ignoradas, e não há razão alguma para que nos
fatos que acontecem independentemente dele. desesperemos ou fiquemos desesperançados.
O estoicismo entende a natureza como associada à
existência de um Deus único, imortal, que tudo governa e
Observação:
tudo explica e que fornece os elementos de uma razão
universal capaz de fazer com que os homens alcancem o Esses elementos podem explicar os motivos de a
funcionamento da realidade e dos fenômenos. ética estoica ter tido tanta influência no cristianismo,
O sábio estoico concebe a filosofia a partir de três “dado seu caráter determinista e sua valorização do
eixos: o da física (da realidade), o da lógica (da razão) e o autocontrole, da submissão, e da austeridade”
(MARCONDES, 2010, p. 102).
da ética. A esse conjunto pode ser aplicada a metáfora da
árvore.
A física corresponderia à raiz, a lógica ao tronco
O epicurismo
e a ética aos frutos. Portanto, a parte mais
relevante é a ética: são os frutos que podemos
colher da árvore do saber, porém não podemos Fundada por Epicuro (341-271 a.C.) em Atenas
tê-los sem as raízes e o tronco. Essa (provavelmente em 306 a.C.), esta escola era designada
concepção reflete-se na estreita relação que o por Jardim (kepos), já que as aulas e os encontros entre
estoicismo vê entre a física e a ética. O homem os discípulos e os mestres aconteciam num jardim. Como
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princípios básicos, o epicurismo preconizava a felicidade brevidade e a provisoriedade da dor (LIMA FILHO,
(eudaimonia) com base na tranquilidade emocional 2011, p. 133).
(ataraxía); ao contrário da filosofia estoica, o epicurismo
não considerava que houvesse diferença entre a razão e O epicurismo sugere que não são todas as
a paixão. necessidades que devem ser satisfeitas. A cada desejo,
O homem age eticamente na medida em que dá deve-se indagar: ele deve ser saciado? Pode-se renunciar
vazão a seus desejos e necessidades naturais de ao atendimento dessa necessidade? Caso o homem se
forma equilibrada ou moderada, e é isso que questione a respeito da real necessidade de satisfazer os
garante a ataraxía. A valorização do prazer desejos, ele poderá libertar-se da escravidão das paixões.
(hedoné) como algo natural e a concepção de que “[...] Só o cálculo cuidadoso dos prazeres pode
a realização de nossos desejos naturais e conseguir que o homem se baste a si próprio e não
espontâneos é positiva deram origem à imagem, se converta em escravo das necessidades e da
certamente distorcida, de que o epicurista é preocupação pelo amanhã. Mas este cálculo só se
alguém devotado a uma vida de prazeres. Ao pode ficar a dever à sabedoria. A sabedoria é mais
contrário, a ética epicurista prega a austeridade e preciosa do que a filosofia, porque por ela nascem
a moderação, mas não a supressão dos prazeres todas as outras virtudes e sem ela a vida não tem
e desejos que são expressões de nossa natureza doçura, nem beleza, nem justiça”. A virtude, e
(MARCONDES, 2010, p. 103). especialmente a sabedoria que é a primeira e a
fundamental, aparecem assim a Epicuro como
O caminho para a felicidade é ser senhor de si mesmo condição necessária da felicidade (LIMA FILHO,
e ter a capacidade de estabelecer reciprocidade (philia), 2011, p. 135).
buscando não causar danos aos outros (CHAUÍ, 2002). A

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filosofia torna-se, então, o caminho para alcançar a
felicidade, desde que ela sirva de instrumento para que o
homem liberte-se das paixões, das opiniões sem base na
racionalidade, das perturbações diante do desconhecido,
das dores e dos desejos (LIMA FILHO, 2011).
O valor da filosofia está, pois, inteiramente em dar
ao homem um “quádruplo remédio”: 1 Libertar os
homens do temor dos deuses, demonstrando que,
pela sua natureza feliz, não se ocupam das obras
humanas; 2 Libertar os homens do temor da
morte, demonstrando que ela não é nada para o
homem: “quando nós existimos, não existe a Figura 5. “À sabedoria se deve o cálculo, a escolha e a limitação das
morte; quando a morte existe, não existimos nós”. necessidades e, portanto, o alcançar da ataraxía [ausência de
3 Demonstrar a acessibilidade do limite do prazer, perturbação emocional] e da aponia [ausência de dor]” (LIMA FILHO,
isto é, o alcançar fácil do próprio prazer; 4 2011, p. 135).
Demonstrar a distância do limite do mal, isto é, a

Referências – Módulo 6 [Link]/[Link]/oqnfp/ article/ view/347>. Acesso em: 11


jun. 2019.
Textuais BROCHARD, Victor. Pirro e o ceticismo primitivo. Trad.
ABAGNANO, N. História da filosofia, v. III. Trad. bras. Jaimir Conte. Revista Litterarius, v. 13, n.o 1, 2014. Dispo-
Armando da Silva Carvalho. Lisboa: Editorial Presença, nível em: <[Link] [Link]/~conte/txt-brochard-
1969. Disponível em: <[Link] [Link]/biblioteca/ [Link]>. Acesso em: 11 jun. 2019.
downloads/cadernos_didaticos_vol_1.pdf#page=13>. CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
Acesso em: 17 jun. 2019. CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia: as
ABRÃO, B. S. (Org.). História da filosofia. São Paulo: Nova escolas helenísticas, v. II. São Paulo: Companhia das
Cultural, 1999. Letras, 2010.
BASSO, Murilo. 10 autores para entender o conserva- LIMA FILHO et al. Cadernos Didáticos para o Ensino de
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<[Link] [Link]/ ideias/10-autores- Vale do Acaraú), 2011. Disponível em: <[Link]
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BICCA, Luiz. Ceticismo e cinismo. O que nos faz pensar, MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos
[S.l.], v. 20, n. 30, p. 153-175, dez. 2011. ISSN 0104-6675. pré-socráticos a Wittgenstein. 13. ed. Rio de Janeiro,
Disponível em: <http:// ww [Link]- Zahar, 2010.

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NOVAK, Maria da Glória. Estoicismo e epicurismo em SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. Trad. Bruno
Roma. Letras Clássicas, n.o 3, p. 257-273, 1999. Disponível Garschagen. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2015.
em: <[Link] [Link]/letrasclassicas/article Disponível em: <https://
/view/73765>. Acesso em: 17 jun. 2019. [Link]/2017/04/roger-scruton-como-
PIMENTEL, Pablo Fernando Campos. Conservadorismo [Link]>. Acesso em: 21 jun. 2019.
para além do senso comum. Cognitio Estudos: Revista Audiovisuais
Eletrônica de Filosofia, v. 15, n.o 2, 2018, p. 275-286. A DAMA de ferro. Direção: Phyllida Lloyd. Reino
Disponível em: <https:// revistas. [Link]/ Unido/França: Pathé; Film4 Productions; UK Film Council;
cognitio/article/view/35497>. Acesso em: 21 jun. 2019. Goldcrest Films, 2011). 104 minutos.

1. – ”Pirro afirmava que nada é nobre nem 2. – ”Alguns dos desejos são naturais e
vergonhoso, justo ou injusto; e que, da necessários; outros, naturais e não neces-
mesma maneira, nada existe do ponto de vista da sários; outros, nem naturais nem necessários, mas nascidos
verdade; que os homens agem apenas segundo a lei e o de vã opinião. Os desejos que não nos trazem dor se não
costume, nada sendo mais isto do que aquilo. Ele levou satisfeitos não são necessários, mas o seu impulso pode
uma vida de acordo com esta doutrina, nada procurando ser facilmente desfeito, quando é difícil obter sua satisfação
evitar e não se desviando do que quer que fosse, ou parecem geradores de dano.”
suportando tudo, carroças, por exemplo, precipícios, (Epicuro de Samos. “Doutrinas principais”.
cães, nada deixando ao arbítrio dos sentidos.” In: V. F. Sanson. Textos de filosofia. Rio de Janeiro:
(D. Laércio. Vidas e sentenças Eduff, 1974.)
dos filósofos ilustres. Brasília: Editora UnB, 1988.)
No fragmento da obra filosófica de Epicuro, o homem tem
como fim
O ceticismo, conforme sugerido no texto, caracteriza-se
a) alcançar o prazer moderado e a felicidade.
por:
b) valorizar os deveres e as obrigações sociais.
a) Desprezar quaisquer convenções e obrigações da
c) aceitar o sofrimento e o rigorismo da vida com
sociedade.
resignação.
b) Atingir o verdadeiro prazer como o princípio e o fim da
d) refletir sobre os valores e as normas dadas pela
vida feliz.
divindade.
c) Defender a indiferença e a impossibilidade de obter
e) defender a indiferença e a impossibilidade de se atingir
alguma certeza.
o saber.
d) Aceitar o determinismo e ocupar-se com a esperança
transcendente.
e) Agir de forma virtuosa e sábia a fim de enaltecer o
homem bom e belo.

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3. – ”A quem não basta pouco, nada basta.” 4 – ”Alexandria começou a ser construída em
(Epicuro. Os pensadores. 332 a.C., por Alexandre, o Grande, e, em
São Paulo: Abril Cultural,1985.)
poucos anos, tornou-se um polo de estudos sobre
matemática, filosofia e ciência gregas. Meio século mais
Remanescente do período helenístico, a máxima
apresentada valoriza a seguinte virtude: tarde, Ptolomeu II ergueu uma enorme biblioteca e um
a) Esperança, tida como confiança no porvir. museu — que funcionou como centro de pesquisa. A
b) Justiça, interpretada como retidão de caráter. biblioteca reuniu entre 200 mil e 500 mil papiros e, com
c) Temperança, marcada pelo domínio da vontade. o museu, transformou a cidade no maior núcleo
d) Coragem, definida como fortitude na dificuldade. intelectual da época, especialmente entre os anos 290 e
e) Prudência, caracterizada pelo correto uso da razão. 88 a.C. A partir de então, sofreu sucessivos ataques de
romanos, cristãos e árabes, o que resultou na destruição
ou perda de quase todo o seu acervo.”
(F. Ribeiro. Filósofa e mártir. Aventuras na história.
São Paulo: Abril. ed. 81, abr. 2010. Adaptado.)

A biblioteca de Alexandria exerceu durante certo tempo


um papel fundamental para a produção do conhecimento
e memória das civilizações antigas, porque
a) eternizou o nome de Alexandre, o Grande, e zelou
pelas narrativas dos seus grandes feitos.
b) funcionou como um centro de pesquisa acadêmica e
deu origem às universidades modernas.
c) preservou o legado da cultura grega em diferentes
áreas do conhecimento e permitiu sua transmissão a
outros povos.
d) transformou a cidade de Alexandria no centro urbano
mais importante da Antiguidade.
e) reuniu os principais registros arqueológicos até então
existentes e fez avançar a museologia antiga.

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MÓDULO 7 As relações entre a Fé e a Razão (Patrística e Escolástica)


Neste módulo, estudaremos as ideias e obras elabo- cristãos – padres que não raras vezes haviam sido
radas a partir das relações existentes entre a Fé e a filósofos antes da conversão – buscavam disseminar os
Razão. Duas escolas filosóficas investigaram essa ques- ensinamentos de Jesus, retirando do próprio conteúdo
tão: a Patrística e a Escolástica. Assim, estudaremos as filosófico produzido até aquele momento os elementos
ideias de Agostinho e de Tomás de Aquino, represen- que pudessem servir de ponto de contato entre a cultura
tantes destas vertentes filosóficas.
grega e o cristianismo. Entre esses elementos, estava a
ideia de que o conhecimento (gnosis) não se colocava em
1. Fé e Razão: a ausência de conflito
oposição ao cristianismo: ao contrário, ele representava o
estado mais perfeito da fé nas palavras de Cristo. De
Do ponto de vista histórico, o cristianismo tem início
forma simplificada, essa era a maneira que os pregadores
com as pregações de Jesus de Nazaré pela Judeia.
cristãos haviam encontrado para conciliar os ensina-
Segundo Abrão (1999, p. 93), as mensagens de Jesus
mentos de Jesus, a tradição filosófica, os elementos da fé
diziam respeito a
e os da razão.
amar ao próximo, praticar a bondade e desprezar
Ao final do século III, o Império Romano foi dividido
os valores deste mundo, pois a verdadeira morada
do homem é o reino dos céus. Jesus se declarava em dois: o Império Romano do Ocidente e o Império
filho de Deus, enviado ao mundo para redimir o Romano do Oriente. Esse momento corresponde,
homem dos pecados. Sua crucificação seria, também, ao triunfo do cristianismo: o imperador romano
nessa medida, o sacrifício do próprio Deus Constantino concedeu liberdade de culto aos cristãos e o
encarnado para salvar os homens. cristianismo se disseminou e se organizou. Roma tornou-
se a capital da cristandade. Mais: ela se tornou o alvo dos
De forma geral, essas mensagens não eram bem diversos grupos que interpretavam os ensinamentos
recebidas. Paulo, apóstolo que saiu pregando os cristãos de forma distinta daquela que até então vigorara
ensinamentos de Jesus no século I, enfrentou resis- (por isso mesmo, vista como ortodoxa ou, em outras
tências de todos os tipos. Afinal, “a ideia de que Deus palavras, “correta”). A vitória da ortodoxia resultou na
enviara um homem para julgar o mundo, e que, como criação da Igreja Católica, cuja consolidação ficaria na
prova disso, ressuscitara esse mesmo homem dentre os dependência do seu poder de convencimento e
mortos, provocou risos” (ABRÃO, 1999, p. 93). Paulo, ora persuasão. Segundo Abrão (1999, p. 97),
conciliando os ensinamentos cristãos com a filosofia A consolidação da ortodoxia exige, no entanto,
grega, ora entrando em confronto com os infiéis, preci- mais do que um ato de poder que a decrete. Ela
sava convencer que Deus havia se tornado homem e se também precisa ser convincente, apresentando-se
deixado crucificar, em oposição à filosofia então vigente não apenas como revelação, mas também como
resultado de raciocínios. A filosofia patrística (dos
que pregava a ideia de uma entidade divina que coincidia
santos padres) representa, em algumas de suas
com o próprio mundo e que era o próprio mundo.
vertentes, esse esforço de munir a fé de
A perseguição violenta aos cristãos alternava-se com
argumentos racionais.
períodos de relativa tolerância. Os primeiros pregadores
Bailey-Cooper Photography/ Alamy/ Fotoarena

Figura 1. O Vaticano, tido como uma cidade-


Estado, está localizado em Roma e é a sede
da Igreja Católica.

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1.1. A Patrística c) a existência do homem como centro do mundo;


A Patrística teve início no século I e perdurou até o d) a crença em Deus como a fonte e a origem da moral;
século VII. Seus pensadores podem ser divididos em dois por isso, seus mandamentos deveriam ser
grandes grupos: os da patrística grega, ligada à Igreja de obedecidos. Como prova desta obrigação, deveria ser
Bizâncio; e os da patrística latina, da Igreja de Roma, cujo lembrada a expulsão do homem do paraíso como
principal nome é o de Santo Agostinho. punição pela desobediência à lei divina;
O cristianismo ocidental tinha muito com o que se e) a crença na salvação por meio de Deus, que ama a
preocupar: além de deter as práticas pagãs e converter humanidade;
os infiéis, ainda precisava lidar com as cisões provocadas f) a fé no desenvolvimento da história como algo dire-
pelas inúmeras correntes contrárias a Roma. Além disso, cionado à salvação e à realização no reino de Deus.
ressentia-se com a falta de fundamentação filosófica de
seus preceitos: afinal, sobravam apenas as verdades Os valores que irão permear essa filosofia estão
reveladas aos cristãos e pregadores das mensagens de associados à pureza e à humildade. O conceito de alma,
Jesus. Àquele momento, o cristianismo ainda não havia uma invenção grega, passa por transformações: embora
elaborado um conjunto de obras filosóficas que o cristianismo não negasse a sobrevivência de algo após
permitisse a compreensão dos principais elementos de a morte, tampouco apontava para a imortalidade da alma.
uma fé que se apoiava somente em regras de conduta e Segundo Reale e Antiseri (2003, p. 21), a ressurreição é
crenças, entre elas a do sacrifício de Cristo em prol da uma
humanidade. das marcas da nova fé. E a ressurreição implica o
retorno também do corpo à vida. Precisamente
Para dotar o cristianismo de um arcabouço filosófico,
isso constituía um gravíssimo obstáculo para os
a Patrística foi buscar inspiração nas fontes conhecidas,
filósofos gregos: era um absurdo que devesse
quer dizer, nas obras dos filósofos gregos e seus
renascer aquele corpo que era visto por eles como
sucessores. Valendo-se de vários elementos ali encon- "obstáculo" e como fonte de toda negatividade e
trados, os filósofos da Patrística procuraram construir uma de mal.
verdadeira filosofia cristã. Se a fé não era suficiente para
a conversão dos infiéis, era necessária uma filosofia que Os filósofos cristãos também buscaram explicar a
provasse os principais fundamentos cristãos. existência do mal: se tudo havia sido criado por Deus,
Segundo Reale e Antiseri (2003), o século IV marcou puro, perfeito e bondoso, como era possível que o mal
a aceitação dos ensinamentos reunidos na Bíblia (em existisse? A elaboração de uma resposta à essa questão
grego, biblía, termo que significa livro) como canônicos, ficaria a cargo de Santo Agostinho, responsável por
ou seja, fundadores. A Bíblia, escrita em hebraico, grego explicar “a ideia de ‘homem interior’, isto é, da cons-
e aramaico, tornou-se, assim, a reunião dos textos que ciência moral e do livre-arbítrio, pelo qual o homem se
traziam aos homens a palavra de Deus. torna responsável pela existência do mal no mundo”
Em suma, pode-se dizer que a palavra de Cristo (CHAUÍ, 2002, p. 44).
contida no Novo Testamento (a qual se apresenta
como revelação que completa, aperfeiçoa e coroa
1.2. Agostinho de Hipona
a revelação dos profetas contida no Antigo
Testamento) produziu uma revolução de tal Nascido em 354, na província de Numídia, na África,
alcance que mudou todos os termos de todos os Aurelius Augustinus tornou-se bispo de Hipona, cidade na
problemas que o homem se propusera em qual viveu até 430. Envolvido na tarefa de elaborar uma
filosofia no passado e passou a condicionar filosofia cristã, propôs que a reflexão filosófica fosse o
também os termos nos quais o homem os caminho ideal para atingir a felicidade: a Filosofia seria o
proporia no futuro. Em outras palavras, a instrumento mais que perfeito para a indagação a respeito
mensagem bíblica condicionará aqueles que a da condição humana e para a prova da existência de
aceitam, obviamente de modo positivo, mas
Deus; em adição, a fé seria a via de acesso à verdade
também condicionará aqueles que a rejeitam
eterna, porém precedida pela razão. Era necessário
(REALE e ANTISERI, 2003, p. 8).
compreender para crer; depois, era necessário crer para
compreender. A razão precedia a fé e era, também, sua
Dentre os fundamentos filosóficos cristãos
consequência. Caminhando por essa trilha, Agostinho
elaborados pela Patrística, devemos destacar:
formulou sua concepção de mundo, do ser humano e de
a) a existência de apenas um Deus;
Deus.
b) a criação do mundo a partir do nada, por vontade de
Deus;

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sua sabedoria e de sua bondade. Habitante de um mundo

Jozef Sedmak/ Alamy/ Fotoarena


criado por um Deus infinitamente bom, ao ser humano
restava apenas a salvação da graça divina, única
possibilidade de resgatá-lo do risco da danação eterna.
Em O livre-arbítrio, Agostinho constrói diálogos nos
quais Evódio, seu amigo, faz perguntas e instiga a reflexão.
Esta obra reflete sua preocupação com os temas da
liberdade humana e da origem do mal, razão pela qual,
inclusive, ele aderiu ao maniqueísmo por um tempo.

Observação:
Segundo Oliveira (1995, p. 15), os maniqueus acreditavam
na existência de duas divindades (o Bem e o Mal),
responsáveis pelas duas almas que os homens possuíam.
Em consequência, cada alma era “presidida por um desses
dois princípios. A pessoa não é livre nem responsável pelo
mal que faz. Este lhe é imposto".

Assim, para Agostinho,


Deus todo-poderoso e Bem supremo criou todas as
coisas por meio de seu Verbo, e nada pode escapar
à ordem de sua Providência. Todas as suas obras são
boas. O pecado não pode lhe ser imputado, nem
ficar fora da ordem providencial. Diz Agostinho: “É
preciso compreender aquilo em que cremos”. (...)
Ele procura explicar pela razão a origem do pecado e
seu papel na obra de Deus. Em conclusão, chega a
afirmar em síntese: a fonte do mal moral, o pecado,
está no abuso da liberdade, mas esta é um bem
(OLIVEIRA, 1995, p. 14).
Figura 2. Agostinho, entre outros pensadores da Patrística,
chamou para si a tarefa de dotar o cristianismo de
O neoplatonismo foi uma das fontes filosóficas que
fundamentação filosófica.
maior influência exerceram sobre a obra de Agostinho. No
Na tentativa de negar o ceticismo (que considerava os entanto, é importante ressaltar que esse neoplatonismo
sentidos como únicas fontes de um conhecimento imerso não estava apenas associado a uma nova leitura ou
em erros e incertezas), Agostinho propôs que os equívocos reinterpretação das obras de Platão. O neoplatonismo no
não estavam naquilo que os sentidos apreendiam, mas nos qual Agostinho se inspirou apoiava-se nas obras de Platão
juízos feitos daquilo que era percebido. que haviam sido traduzidas do árabe ou do hebraico para o
Ao invés de afirmar “isso é branco”, vendo nisso latim, sendo, portanto, versões do material original grego.
uma verdade absoluta, o ser humano deveria dizer Ainda, haviam sido adicionados às ideias de Platão alguns
“eu sei que isto me parece branco: limito-me à elementos de magia e de ocultismo provenientes dos
minha percepção e encontro nela uma verdade que textos herméticos e da cabala (mística judaica).
não me pode ser negada” (PESSANHA, 1999, p. 14). O que eram esses textos herméticos? Dizia a lenda
que, em um tempo anterior aos hebreus e aos gregos, teria
Como resultado desse raciocínio, Agostinho formulou a havido um primeiro Hermes, que fora ensinado pelos
seguinte ideia: o ser humano era passível de erros; no Deuses e que havia transmitido seu conhecimento para o
entanto, como era também capaz de reconhecer o erro, ele seu neto, Hermes, o três vezes grande, ou Trismegisto, que,
estava isento de erro. Em consequência, podia-se afirmar por sua vez, havia escondido várias tábuas de pedras nas
que o pensamento era a garantia da verdade. quais esse conhecimento havia sido escrito. No século XV,
A capacidade de pensar era uma qualidade da alma, considerou-se que um manuscrito grego era parte do
enquanto os equívocos provenientes das sensações Corpus hermeticum (o conjunto de obras de Hermes
estavam relacionados à materialidade do corpo. E quem Trismegisto). Agostinho foi um dos que avalizaram e
era o responsável pela iluminação da alma e pela sua confirmaram a suposta origem desses textos que,
capacitação para a busca da verdade? A resposta era uma impregnados de magia e ocultismo, foram incorporados ao
só: Deus, criador de um mundo perfeito que era obra de tesouro grego à disposição dos padres e pensadores.
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dirige o universo –, Deus de modo algum será o


Observação: autor daquele primeiro gênero de males a que nos
A crença no conteúdo do Corpus hermeticum só foi abalada referimos, só do segundo.
no século XVII, quando um teólogo protestante confirmou Ev. Haverá então algum outro autor do primeiro
que os textos atribuídos a Hermes nada mais eram do que gênero de mal, uma vez estar claro não ser Deus?
falsificações cristãs que haviam sido produzidas para Ag. Certamente, pois o mal não poderia ser
impressionar novos adeptos. Assim, esses escritos cometido sem ter algum autor. Mas caso me
herméticos não eram fruto da sabedoria egípcia, como todos perguntes quem seja o único autor. Pois cada
imaginavam, mas apenas textos do cristianismo primitivo. pessoa ao cometê-lo é o autor de sua má ação. Se
duvidas, reflete no que já dissemos acima: as más
ações são punidas pela justiça de Deus. Ora, elas
Para Chauí (2002, p. 223), o neoplatonismo que não seriam punidas com justiça, se não tivessem
inspirou Agostinho era aquele que combinava o misticismo sido praticadas de modo voluntário.
e as ideias de Platão. Dessa mistura, resultava a crença na O mal vem por ter sido ensinado?
existência de três diferentes realidades: 2. Ev. Ignoro se existe alguém que chegue a pecar,
o mundo sensível da matéria ou dos corpos, o sem antes o ter aprendido. Mas caso isso seja
mundo inteligível das puras formas imateriais, e, verdade, pergunto: De quem aprendemos a pecar?
acima desses dois mundos, uma realidade suprema, Ag. Julgas a instrução (disciplinam) ser algo de
separada de todo o resto, inalcançável pelo intelecto bom?
humano, luz pura e esplendor imaterial, o Uno ou o Ev. Quem se atreveria a dizer que a instrução é
Bem. Por ser uma luz, o Uno se irradia; suas um mal?
irradiações (que os neoplatônicos chamavam de Ag. E caso não for nem um bem nem um mal?
emanações) formaram o mundo inteligível, onde Ev. A mim, parece-me que é um bem.
estão o Ser, a Inteligência e a Alma do Mundo. (...) Ag. Por certo! Com efeito, a instrução comunica-nos
Por seu intelecto, o homem participa do mundo ou desperta em nós a ciência, e ninguém aprende
inteligível. Purificando-se da matéria de seu corpo, algo se não for por meio da instrução. Acaso tens
desenvolvendo seu intelecto, o homem pode subir outra opinião?
além do pensamento e ter o êxtase místico, pelo Ev. Penso que por meio da instrução não se pode
qual se funde com a luz do Uno e retorna ao seio da aprender a não ser coisas boas.
realidade suprema ou do Bem. Ag. Vês, então, que as coisas más não se
aprendem, posto que o termo “instrução” deriva
Veja, a seguir, um trecho da obra O livre-arbítrio, de precisamente do fato de alguém se instruir.
Ev. De onde hão de vir, então, as más ações prati-
Santo Agostinho, no qual é possível identificarmos algumas
cadas pelos homens, se elas não são aprendidas?
ideias básicas do pensamento agostiniano a respeito do
Ag. Talvez, porque as pessoas se desinteressam e
conflito entre a existência do mal e de Deus. Para ele, a
se afastam do verdadeiro ensino, isto é, dos meios
resposta a este dilema encontra-se na questão do livre- de instrução. Mas isso vem a ser outra questão. O
arbítrio, ou seja, nas possibilidades de decisão em função que, porém, mostra-se evidente é que a instrução
da vontade individual dos homens. Para Agostinho, cabia ao sempre é um bem, visto que tal termo deriva do
ser humano escolher entre o Bem e o Mal, de forma livre verbo “instruir”. Assim, será impossível o mal ser
e sem sofrer qualquer constrangimento. objeto de instrução. Caso fosse ensinado, estaria
1. Evódio. Peço-te que me digas, será Deus o contido no ensino e, desse modo, a instrução não
autor do Mal? seria um bem. Ora, a instrução é um bem, como tu
Agostinho. Dir-te-ei, se antes me explicares a que mesmo já o reconheceste. Logo, o mal não se
mal te referes. Pois, habitualmente, tomamos o aprende. E em vão que procuras quem nos teria
termo "mal" em dois sentidos: um, ao dizer que ensinado a praticá-lo. Logo, se a instrução falar
alguém praticou o mal; outro, ao dizer que sofreu sobre o mal, será para nos ensinar a evitá-lo e não
algum mal. para nos levar a cometê-lo. De onde se segue que
Ev. Quero saber a respeito de um e de outro. fazer o mal não seria outra coisa do que renunciar
Ag. Pois bem, se sabes ou acreditas que Deus é à instrução. (Pois a verdadeira instrução só pode
bom – e não nos é permitido pensar de outro modo ser para o bem.)
–, Deus não pode praticar o mal. Por outro lado, se 3. Ev. Não obstante, julgo que há duas espécies de
proclamamos ser ele justo – e negá-lo seria instrução: uma que nos ensina a praticar o bem, e
blasfêmia –, Deus deve distribuir recompensas aos outra a praticar o mal. Mas ao me perguntares se a
bons, assim como castigos aos maus. E, por certo, instrução era um bem, o amor mesmo do bem
tais castigos parecem males àqueles que os absorveu-me a atenção de tal modo a me fazer
padecem. É porque, visto ninguém ser punido considerar, unicamente, o ensino relativo às boas
injustamente – como devemos acreditar, já que, de ações, motivo pelo qual respondi que ele era
acordo com a nossa fé, é a divina Providência que sempre um bem. Mas dou-me conta, agora, que

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existe um outro ensino, que reconheço segura- de O Filósofo. O pensamento medieval buscou a inter-
mente ser mau, e de cujo autor indago. pretação da herança aristotélica, dando a ela continuidade.
Ag. Vejamos. Admites pelo menos o seguinte: O Corpus Aristotelicus, que ficara preservado no lado
será a inteligência integralmente um bem? bizantino do Império Romano, acabou sendo conservado,
Ev. A ela, com efeito, considero de tal modo ser
lido e traduzido pelos árabes e pelos judeus. Para Chauí
um bem, que nada vejo poder existir de melhor no
(2002), posteriormente, ao traduzirem essas obras para o
homem. De maneira alguma posso considerar a
latim, os padres e monges buscaram “corrigir” aquilo que
inteligência como um mal.
Ag. Mas quando alguém for ensinado e não se não havia sido entendido “de forma correta”.
servir da inteligência para entender, poderá ser ele Segundo Alfonso-Goldfarb (1994), os medievais
considerado como alguém que fica instruído? O fizeram verdadeiros malabarismos para cristianizar a
que te parece? filosofia aristotélica. Apenas para dar um exemplo: o
Ev. Parece-me que ele não o pode de modo algum. filósofo entendia que a Terra era o centro do universo; os
Ag. Logo, se toda a inteligência é boa, e quem não pensadores medievais, por meio de uma interpretação
usa da inteligência não aprende, segue-se que todo bastante curiosa, atribuíram, então, um papel central ao
aquele que aprende procede bem. Com efeito, todo homem dentro do conjunto da criação divina, tal como já
aquele que aprende usa da inteligência e todo afirmado pela fé cristã.
aquele que usa da inteligência procede bem.
Assim, Aristóteles tornou-se a principal autoridade
Assim, procurar o autor de nossa instrução, sem
para os estudiosos da Filosofia; inspirados por suas obras,
dúvida, é procurar o autor de nossas boas ações.
uma série de pensadores buscou fazer uso da lógica e da
Deixa, pois, de pretender descobrir não sei que
mau ensinante. Pois se, na verdade, for mau, ele razão para provar o que a fé já sabia por meio das Escrituras.
não será mestre. E caso seja mestre, não poderá
ser mau (AGOSTINHO, 1995, p. 25-8). 1.4. Tomás de Aquino
Tomás de Aquino (1225-1274) teve uma vida inteira
1.3. A Escolástica
dedicada à meditação e ao estudo. Nascido na Sicília,
O imaginário que cerca a Idade Média como uma ingressou na Ordem dos Dominicanos. Na França, obteve
época de trevas integra uma percepção errônea, depre- o título de doutor em Teologia. De volta à Itália, passou a
ciativa e equivocada. De fato, é um erro considerar esse lecionar. Também lecionaria em Paris antes de morrer, aos
período somente um intervalo entre a produção basilar do 49 anos, na Itália. Sua obra mais famosa – embora
conhecimento clássico e o despertar renascentista. inconclusa – é a Suma Teológica.
Ao contrário das trevas simbolizadas pela hegemonia Leu as traduções em latim dos gregos e dos filósofos
da Igreja, é importante ressaltar que todo o pensamento árabes e judeus. Sob a influência das ideias de Santo
clássico teria se perdido caso as instituições católicas não Agostinho, ele viveu no período em que a Igreja buscava
tivessem tratado de preservá-las. Dessa forma, longe do conter os avanços da filosofia laica sobre a teologia cristã.
obscurantismo imaginado, a Idade Média criou as univer- Os estudiosos da filosofia grega eram unânimes em
sidades, locais onde se estudavam geometria euclidiana, afirmar que o conteúdo da obra aristotélica, a mais
Lógica, metafísica, ética, medicina, física e Direito. importante do acervo da filosofia grega, não corroborava
A Escolástica, escola de pensamento filosófico desse o que diziam as Sagradas Escrituras.
período, recebeu influência determinante dos clássicos e Assim, a filosofia aristotélica ignorava totalmente
foi marcada pela tentativa de conciliação entre fé e razão. as noções de Deus criador e providente, bem
Nos monastérios, monges trataram de recepcionar, traduzir como as de alma imortal, queda e redenção do
e preservar obras gregas, romanas, árabes e judaicas. Claro homem, todas fundamentais à doutrina cristã
que esses textos passaram por um curioso processo de (MATTOS, 1988, p. 11).
“cristianização”: tratava-se, afinal, de adequá-los à teologia
cristã. No entanto, longe de ser o mundo escuro, árido e Dada a impossibilidade de impedir a leitura de
retrógrado que o imaginário ocidental construiu, a Idade Aristóteles, o papa Gregório IX achou por bem divulgar as
Média foi o momento em que a nossa civilização passou a ideias do filósofo, desde que fossem adaptadas aos
ser construída. dogmas da Igreja. Teve início, então, a
Qual era a principal fonte do conhecimento para os cristianização da filosofia aristotélica, o que só
filósofos medievais? Dada a relevância e a posição veio a se tornar possível graças ao espírito analí-
ocupada pelo seu trabalho, Aristóteles foi retomado pelo tico, à capacidade de ordenação metódica e à ha-
bilidade dialética de Tomás de Aquino, que ele
pensamento filosófico cristão medieval, que o censurou
aliava a um profundo sentimento de fé cristã
e adaptou a sua obra ao pensamento dogmático da Igreja;
(MATTOS, 1988, p. 11).
sua importância foi tamanha que passou a ser chamado

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Tomás de Aquino desenvolveu seu trabalho a partir Em relação ao exercício da política, Aquino considerava
desta perspectiva e, para isso, buscou resolver a questão da ser a vontade divina impossível de ser conhecida. Portanto,
distinção entre essência e existência de forma a conciliar a aos homens restava a obediência às leis naturais, ou seja,
filosofia aristotélica com a cristã: para ele, se a definição da a consciência humana. São Tomás reconhecia três tipos de
essência de algo não garantia a sua existência, era necessá- leis: a lei natural (conservação da vida e desejo da verdade,
ria uma outra realidade capaz de dar existência às coisas. Em por exemplo); a lei humana ou positiva (estabelecida pelos
outras palavras, era necessário o conceito de criação. homens com vistas ao bem comum); e a lei divina,
Voltemos ao raciocínio tomista: se o fato de se atingir uma responsável por guiar a alma humana, imortal. Ao Estado
definição de bondade não significava, obrigatoriamente, que caberia promover o bem comum, e à Igreja caberia cuidar
a bondade existisse, quer dizer, se a razão não era suficiente dos fins sobrenaturais. Finalmente,
para fazer surgirem as coisas, era preciso que outra dimen- a harmonização, no plano social e político, entre
são fosse responsável pela criação. poder temporal e poder espiritual seria, portanto,
Apenas em Deus seria possível haver identidade análoga à que Santo Tomás procura estabelecer
entre essência e existência. Deus seria o criador de tudo, entre filosofia e teologia, entre razão e fé
(MATTOS, 1988, p. 15).
o puro ato de existir, de forma que nada poderia lhe ser
acrescentado. Nesses termos, Deus seria imóvel e
Leia, a seguir, um trecho da obra Súmula contra os
eterno, não sujeito a qualquer transformação, já que
Gentios, de São Tomás de Aquino. Aqui, Tomás de Aquino
existia em plena perfeição.
busca compreender os domínios da fé e da razão. Para ele,
Aquino não apenas usou Aristóteles para provar a
a fé permite a aceitação da palavra revelada de Deus e a
existência de Deus, como também mostrou que a razão
compreensão das verdades que são acessíveis pela via da
era capaz de provar a existência de Deus por meio de
razão. Esta fé é conduzida pelo intelecto humano e pelo
cinco vias. Vejamos como:
raciocínio, não estando, de forma alguma, associada à
Por meio da primeira via, admitia-se que qualquer coisa
aceitação ingênua. E, embora a razão, per si, não seja
que fosse colocada para movimentar-se deveria o seu
capaz de alcançar o entendimento do divino, ela permite
movimento a outro ser. O que teria feito Deus mover-se e
alcançar o cognoscível, o que pode ser compreendido e
criar o mundo? Nada. Deus, então, seria o início de tudo.
conhecido (CAMPOS, 2011).
Por meio da segunda via, admitia-se que Deus seria
a primeira causa não causada, ou seja, o primeiro a ser É justo que as verdades divinas acessíveis à razão
nos sejam propostas como objetos de fé.
causa de outra coisa que não havia sido causada por
Uma vez que em Deus há duas espécies de
nenhuma outra.
verdades, algumas das quais são acessíveis à nossa
A terceira via referia-se à necessidade da existência: se inteligência e outras ultrapassam totalmente as
algo existia, era porque sua existência fizera-se necessária; nossas capacidades, é justo que Deus proponha
caso retrocedêssemos infinitamente (para descobrir a como objetos de fé tanto umas como outras.
origem da necessidade), culminaríamos em Deus. Comecemos por demonstrar isto, com referência
A quarta via recuperou a ideia de comparabilidade: às verdades que são acessíveis à nossa razão na-
para que fôssemos capazes de comparar coisas, deveria tural. Com isto daremos uma resposta àqueles que
haver algo absoluto que fosse parâmetro para a consideram inútil a transmissão de tais verdades
comparação, quer dizer, Deus. como objetos de fé por via de inspiração sobrena-
Finalmente, a quinta via associava-se à ideia de tural, de vez que tais verdades nos são conhecidas
finalidade: se tudo existia para um determinado fim, e através de nosso próprio conhecimento natural.
considerando-se que as coisas não eram dotadas de Verificar-se-iam três grandes inconvenientes, se
conhecimento, só podia haver uma inteligência primeira, tais verdades naturais acerca de Deus estivessem
abandonadas exclusivamente às forças da razão
determinadora da finalidade de tudo, ou seja, Deus.
humana. O primeiro deles está em que poucos
Aquino também se debateu com a questão que havia
homens desfrutariam do conhecimento de Deus.
perturbado Agostinho: como explicar a existência do mal?
Pois para chegar a tal conhecimento exige-se uma
Para Aquino, o mal era fruto da ausência do bem, não sen- longa e laboriosa busca, o que é impossível para a
do algo real fora do sujeito: o mal existia no sujeito. Ainda, maior parte dos homens, por três motivos.
o mal que alguém produzia não poderia ter sido causado por Primeiramente, certas pessoas são afastadas desta
Deus: o mal resultava da privação ou de algum defeito na busca por más disposições de seu próprio
atividade que as pessoas desempenhavam, e o agir de temperamento, que as desviam do saber. Nenhum
Deus estava isento de mal, já que Ele representava a per- estudo seria capaz de fazer com que tais pessoas
feição absoluta. Assim, nos seres humanos, o mal se ma- atingissem o ponto mais alto do conhecimento
terializava sob a forma de pecados. "O melhor nome que humano, isto é, o conhecimento de Deus.
identifica o mal para o cristianismo, é o pecado diretamen- Para outros o obstáculo é constituído pelos afa-
te associado com o mal moral" (CALLEGARO, 2010, p. 68). zeres materiais. É indispensável que haja, entre os

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homens, quem se ocupe com a administração dos Em consequência, se o único caminho para o
bens temporais. A estes falta, evidentemente, o conhecimento de Deus fosse a razão natural, o
tempo necessário para a busca contemplativa que gênero humano permaneceria envolto nas trevas
lhes permitiria atingir o ápice da pesquisa humana, mais profundas da ignorância: o conhecimento de
ou seja, o conhecimento de Deus. Deus, que contribui enormemente para tornar os
Para outros, enfim, o obstáculo é a preguiça. O homens perfeitos e bons, constituiria o privilégio
conhecimento de tudo o que a razão pode des- de um pequeno grupo de pessoas, e mesmo
cobrir acerca de Deus exige preliminarmente estes só chegariam a este privilégio após muito
numerosos conhecimentos, pois quase toda a tempo de pesquisa.
reflexão filosófica está orientada para o conhe- O terceiro grande inconveniente de que acima
cimento de Deus. Esta é a razão pela qual a Meta- falávamos consistiria no seguinte: as pesquisas da
física, consagrada ao estudo das coisas divinas, razão humana estariam, na maioria dos casos,
ocupa cronologicamente o último lugar no ensina- eivadas de erros, em razão da fraqueza conatural
mento das disciplinas filosóficas. Por conseguinte, da nossa inteligência, em razão também da mist-
ninguém pode entregar-se à pesquisa da verdade ura das imagens. Para muitos permaneceriam
divina sem muito trabalho e diligência. Este traba- dúvidas em relação ao que é demonstrado como
lho, muito poucos estão dispostos a assumi-lo por verdade absoluta, por não conhecerem o valor da
amor à ciência, embora Deus tenha colocado este demonstração, e sobretudo pela incapacidade de
desejo no mais profundo do coração humano. discernir a veracidade ou não veracidade dos que
O segundo inconveniente que surgiria, caso Deus se apresentam como sábios.
não houvesse revelado sobrenaturalmente as ver- Face a tudo isto, era necessário que Deus trans-
dades que, em si, são acessíveis à razão natural, mitisse aos homens, pelo caminho da fé, uma cer-
consistiria no seguinte: os homens que chegas- teza bem firme e uma verdade sem mescla, no
sem à descoberta de tais verdades só o conse- que concerne às coisas de Deus. Ora, a misericór-
guiriam com dificuldade e após muito tempo de dia divina proveu a isto de maneira salutar, obri-
busca. Isto devido à profundidade desta verdade, gando-nos a aceitar como objetos de fé aquelas
profundidade que só se consegue compreender mesmas coisas que, de per si, seriam acessíveis
pela simples razão natural, se a inteligência hu- à razão. Desta maneira, todos têm a possibilidade
mana primeiro se capacitar para isto mediante um de participar do conhecimento de Deus, sem
longo tirocínio; além disso, em razão da necessi- perigo de dúvida ou de erro.
dade de múltiplos conhecimentos preliminares, Esta é a razão pela qual se lê na Epístola aos
como já foi dito; finalmente, pelo fato de que, no Efésios: “Não vos comporteis como fazem os pa-
período da juventude, a alma é agitada pelos gãos na vaidade dos seus julgamentos e dos seus
diversos movimentos das paixões e consequen- pensamentos entrevados” (Efésios, capítulo 4,
temente não tem aptidões para conhecer uma versículo 17). E em Isaías lemos: “Todos os teus
verdade tão profunda, uma vez que, no dizer do filhos serão instruídos pelo Senhor” (Isaías, capí-
Filósofo no sétimo livro da Física (capítulo III, nú- tulo 54, versículo 13). (AQUINO, 1988, p. 99-101).
mero 7), o homem se torna prudente e sábio so-
mente à medida que as suas paixões se acalmam.

Breve diálogo
José Maurício Fonzaghi Mazzucco, 56 anos, é bacharel e licenciado em Ciências Sociais, licenciado em Geografia e
Mestre em Antropologia Filosófica. Leciona no Colégio e Curso Objetivo desde 1990.
Pergunta: Qual a importância de estudarmos as obras filosóficas da Patrística e da Escolástica?
Prof. Mazzucco: Ainda que nunca tenhamos lido os antigos autores dessas escolas ou movimentos, as suas ideias
influenciam a nossa visão de mundo, sobretudo porque somos herdeiros, em parte, das concepções neoplatônicas,
ainda que não o saibamos.
Pergunta: As perguntas elaboradas pelos pensadores da Patrística e da Escolástica já foram respondidas na atualidade?
Prof. Mazzucco: Muitos dos debates, os quais hoje preocupam os filósofos, já ocorriam na Antiguidade e na Idade
Média. São temas que atravessaram os séculos e que permitem a reflexão, mas que dificilmente terão soluções
definitivas.
Pergunta: Nos dias de hoje, o fazer filosófico encontra-se dissociado da perspectiva religiosa?
Prof. Mazzucco: Muitos filósofos contemporâneos são motivados por uma fé religiosa na elaboração de suas
reflexões, e suas contribuições para a história do pensamento não podem ser desclassificadas. Eu mesmo sou uma
pessoa religiosa.

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Referências – Módulo 7
CAMPOS, Fernanda Ferreira. Fé e razão na Suma contra os Gentios de
Tomás de Aquino. X Jornada de Estudos Antigos e Medievais. II Jornada
Textuais
Internacional de Estudos Antigos e Medievais. Maringá, PR, 2011.
ABRÃO, Bernadette Siqueira. História da Filosofia. São Paulo: Nova
Disponível em: <[Link] jeam/anais/2011/pdf/comun/
Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores).
[Link]>. Acesso em: 5 abr. 2017.
AGOSTINHO, Santo. O livre-arbítrio. Tradução, organização, introdução
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
e notas de Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Paulus, 1995. (Patrística).
MATTOS, C. L. Sto. Tomás, vida e obra. In: ALIGHIERI, Dante. Sto. Tomás
ALFONSO-GOLDFARB, Ana Maria. O que é História da Ciência. São
de Aquino. Seleção de textos. São Paulo: Nova Cultural, 1988.
Paulo: Brasiliense, 1994.
OLIVEIRA, N. A. Introdução. In: AGOSTINHO, Santo. O livre-arbítrio. São
AQUINO, Santo Tomás. In: ALIGHIERI, Dante. Sto. Tomás de Aquino.
Paulo: Paulus, 1995. (Patrística).
Seleção de textos. São Paulo: Nova Cultural, 1988.
PESSANHA, José Américo Motta. Vida e obra. In: AGOSTINHO, Santo.
CALLEGARO, Ronaldo. A doutrina do mal em Santo Tomás de Aquino.
Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. São
5.° Encontro de Pesquisa na Graduação em Filosofia da Unesp. Marília, SP,
Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores).
v. 3, n. 10, p. 66-75, 2010. Disponível em: <[Link]
REALE, G.; ANTISERI, D. História da Filosofia: Patrística e Escolástica, v.
[Link]/Home/RevistasEletronicas/FILOGENESE/RonaldoCallegaro(66-
2. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003.
75).pdf>. Acesso em: 29 mar. 2017.

1. – Ora, em todas as coisas ordenadas a algum


fim, é preciso haver algum dirigente, pelo qual
se atinja diretamente o devido fim. Com efeito, um navio,
que se move para diversos lados pelo impulso dos ventos
contrários, não chegaria ao fim de destino, se por indústria
do piloto não fosse dirigido ao porto; ora, tem o homem
um fim, para o qual se ordenam toda a sua vida e ação.
Acontece, porém, agirem os homens de modos diversos
em vista do fim, o que a própria diversidade dos esforços
e ações humanas comprova. Portanto, precisa o homem
de um dirigente para o fim.
(AQUINO, T. Do reino ou do governo dos homens: ao rei do
Chipre. Escritos políticos de São Tomás de Aquino. Petrópolis:
Vozes, 1995. Adaptado.)

No trecho citado, Tomás de Aquino justifica a monarquia


como o regime de governo capaz de
a) refrear os movimentos religiosos contestatórios.
b) promover a atuação da sociedade civil na vida política.
c) unir a sociedade tendo em vista a realização do bem
comum.
d) reformar a religião por meio do retorno à tradição
helenística.
e) dissociar a relação política entre os poderes temporal
e espiritual.

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2. (UFU) – Segundo o texto abaixo, de Agostinho de Uma das características da patrística é a busca da
Hipona (354-430 d. C.), Deus cria todas as coisas a partir conciliação entre a fé e a filosofia, e Agostinho de Hipona,
de modelos imutáveis e eternos, que são as ideias ou Santo Agostinho (354 d.C. – 430 d.C.), influenciado
divinas. Essas ideias ou razões seminais, como também pelo neoplatonismo, tornou-se uma referência para a
são chamadas, não existem em um mundo à parte, inde- filosofia cristã. Em relação ao desenvolvimento das
pendentes de Deus, mas residem na própria mente do ciências naturais, porém, o pensamento de Agostinho não
Criador, deu grande impulso, uma vez que sua filosofia – tal como
[...] a mesma sabedoria divina, por quem a do mestre Platão – não adotava os fenômenos naturais
foram criadas todas as coisas, conhecia como objeto de reflexão. Com base nos textos acima e
aquelas primeiras, divinas, imutáveis e em seus conhecimentos sobre a obra de Agostinho de
eternas razões de todas as coisas, antes de Hipona, assinale a alternativa incorreta.
serem criadas [...]. a) Agostinho de Hipona criou a doutrina da iluminação
(Sobre o Gênese, V.) divina baseado na teoria da reminiscência de Platão,
Considerando as informações acima, é correto afirmar conciliando de modo original a fé cristã e o
que se pode perceber pensamento filosófico.
a) que Agostinho modifica certas ideias do cristianismo a b) A observação, a experimentação e a aplicação dos
fim de que este seja concordante com a filosofia de princípios da geometria sobre os fenômenos naturais
Platão, que ele considerava a verdadeira. foi uma das principais características da filosofia de
b) uma crítica radical à filosofia platônica, pois esta é Santo Agostinho.
contraditória com a fé cristã. c) Conforme Agostinho de Hipona, a filosofia grega é um
c) a influência da filosofia platônica sobre Agostinho, mas instrumento útil para a fé cristã.
esta é modificada a fim de concordar com a doutrina d) As verdades eternas e imutáveis, que têm sua sede
cristã. em Deus, só podem ser alcançadas pela iluminação
d) uma crítica violenta de Agostinho contra a filosofia em divina.
geral.

3. (UFU) – A filosofia grega se expandiu para além das


fronteiras do mundo helênico e influenciou outros povos
e culturas. Com o cristianismo não foi diferente e, aos
poucos, a filosofia foi absorvida. Conforme Chalita, um
dos motivos dessa absorção foi:
(...) a necessidade de organizar os
ensinamentos cristãos, de reunir os fatos e
conceitos do cristianismo sob a forma de uma
doutrina e elaborar uma teologia rigorosa.
(CHALITA, G. Vivendo a Filosofia. São Paulo:
Ática, 2006, p. 94.)
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4. (UFU) – A teologia natural, segundo Tomás de Aquino 5. (UFU) – Considere o seguinte texto sobre Tomás de
(1225-1274), é uma parte da filosofia, é a parte que ele Aquino (1226-1274).
elaborou mais profundamente em sua obra e na qual ele
se manifesta como um gênio verdadeiramente original. Fique claro que Tomás não aristoteliza o cristianismo,
mas cristianiza Aristóteles. Fique claro que ele nunca
Se se trata de física, de fisiologia ou dos meteoros, Tomás
pensou que com a razão se pudesse entender tudo;
é simplesmente aluno de Aristóteles, mas se se trata de não, ele continuou acreditando que tudo se
Deus, da origem das coisas e de seu retorno ao Criador, compreende pela fé: só quis dizer que a fé não estava
Tomás é ele mesmo. Ele sabe, pela fé, para que limite se em desacordo com a razão, e que, portanto, era
possível dar-se ao luxo de raciocinar, saindo do
dirige, contudo, só progride graças aos recursos da razão.
universo da alucinação.
(GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média.
(ECO, Umberto. “Elogio de Santo Tomás de Aquino”.
São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 657.)
In: Viagem na irrealidade cotidiana, p. 339.)

De acordo com o texto acima, é correto afirmar que


É correto afirmar, segundo esse texto, que
a) a obra de Tomás de Aquino é uma mera repetição da
a) Tomás de Aquino, com a ajuda da filosofia de
obra de Aristóteles.
Aristóteles, conseguiu uma prova científica para as
b) Tomás parte da revelação divina (Bíblia) para entender
certezas da fé, por exemplo, a existência de Deus.
a natureza das coisas.
b) Tomás de Aquino se empenha em mostrar os erros da
c) as verdades reveladas não podem de forma alguma ser
filosofia de Aristóteles para mostrar que esta filosofia
compreendidas pela razão humana.
é incompatível com a doutrina cristã.
d) é necessário procurar a concordância entre razão e fé,
c) o estudo da filosofia de Aristóteles levou Tomás de
apesar da distinção entre ambas.
Aquino a rejeitar as verdades da fé cristã que não
fossem compatíveis com a razão natural.
d) a atitude de Tomás de Aquino diante da filosofia de
Aristóteles é de conciliação desta filosofia com as
certezas da fé cristã.

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6. (UNESP-2016) – Não posso dizer o que a alma é com


expressões materiais, e posso afirmar que não tem
qualquer tipo de dimensão, não é longa ou larga, ou
dotada de força física, e não tem coisa alguma que entre
na composição dos corpos, como medida e tamanho. Se
lhe parece que a alma poderia ser um nada, porque não
apresenta dimensões do corpo, entenderá que
justamente por isso ela deve ser tida em maior conside-
ração, pois é superior às coisas materiais exatamente por
isso, porque não é matéria. É certo que uma árvore é
menos significativa que a noção de justiça. Diria que a
justiça não é coisa real, mas um nada? Por conseguinte,
se a justiça não tem dimensões materiais, nem por isso
dizemos que é nada. E a alma ainda parece ser nada por
não ter extensão material?
(Santo Agostinho. Sobre a potencialidade da alma, 2015.
Adaptado.)

No texto de Santo Agostinho, a prova da existência da


alma
a) desempenha um papel primordialmente retórico,
desprovido de pretensões objetivas.
b) antecipa o empirismo moderno ao valorizar a
experiência como origem das ideias.
c) serviu como argumento antiteológico mobilizado
contra o pensamento escolástico.
d) é fundamentada no argumento metafísico da primazia
da substância imaterial.
e) é acompanhada de pressupostos relativistas no campo
da ética e da moralidade.

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MÓDULO 8 Maquiavel
A Política: a formação dos Estados Nacionais ilegitimidade do poder gera situações de crise e
e O Príncipe instabilidade permanente. Somente o cálculo polí-
tico, a astúcia, a ação rápida e fulminante contra os
adversários são capazes de manter o príncipe.
Neste módulo, estudaremos o período da formação
Esmagar ou reduzir à impotência a oposição inter-
dos Estados Nacionais e a obra de Maquiavel, o pensador
na, atemorizar os súditos para evitar a subversão
que melhor traduziu o clima político-filosófico e o contexto
e realizar alianças com outros principados consti-
daquele tempo. tuem o eixo da administração. Como o poder se
funda exclusivamente em atos de força, é previsí-
1. Introdução: a formação dos Estados nacionais, a vel e natural que pela força seja deslocado, deste
política e Maquiavel (1469–1527) para aquele senhor. Nem a religião, nem a tradi-
ção, nem a vontade popular legitimam o soberano
Ao final do século XV e início do XVI, a Europa viu e ele tem de contar exclusivamente com sua
suas cidades revoltarem-se contra o sistema senhorial e energia criadora. A ausência de um Estado central
as suas inúmeras regras, moedas e tributos. Aquele era e a extrema multipolarização do poder criam um
vazio, que as mais fortes individualidades capaci-
um modelo insatisfatório para uma classe média que
tam-se a ocupar (MARTINS, 1999, p. 6-7).
buscava liberdade para comerciar e que estava cansada
de pagar pelo luxo da monarquia, sem qualquer contra-
Sequer havia um soberano italiano que pudesse fazer
partida. Nesse contexto de luta pelo poder, e tendo a Itália
frente aos seus opositores; ao contrário do que se
como pano de fundo, Nicolau Maquiavel escreveu sua
verificava em outros países europeus, os principados
obra-prima, O Príncipe (1512), texto que resumiu de
italianos pareciam incapazes de levar adiante qualquer
maneira magnífica o espírito de seu tempo. De fato, sua
projeto de unificação nacional. Por sua vez, de forma
obra diz respeito a todos os países em que a monarquia
distinta do que se dera no restante da Europa, a burguesia
se estabelecia, àquele momento, como força absoluta: se
italiana “dispensa o monarca como peça essencial para
as monarquias absolutistas eram a forma de governo dos
submeter os senhores feudais, como ocorreu no caso
Estados nascentes, para elas serviriam as regras e
clássico da França. Ela mesma se concede como aristo-
recomendações que Maquiavel formulava.
cracia reinante” (MARTINS, 1999, p. 8). Como resultado,
Maquiavel, filho de um advogado estudioso das
a Itália se vê privada de uma liderança central.
humanidades, trabalhou em funções diplomáticas em
A queda de Constantinopla, em 1453, e a descoberta
meio à luta entre os Médicis (uma das mais poderosas
de uma via de acesso às Índias, em 1494, enfraqueceriam
famílias italianas), a Espanha e a França. Por conta de
os negócios comandados pela elite burguesa da Itália –
acusações de traição e conspiração, chegou a ser preso
baseada, em grande parte, no comércio –, e a decadência
e torturado. Posteriormente, conseguiu libertar-se da
econômica se aliaria ao caos político.
prisão, embora sem poder voltar ao serviço público. Para
Será neste cenário, e a partir deste contexto, que
os republicanos, ele era tido como simpático à monarquia.
Maquiavel buscará ensinar ao Príncipe como governar.
Para os monarquistas, ele era visto como favorável aos
ideais republicanos. Quais eram os interesses de Figura 1. Alguns monarcas
parecem ter sofrido influência
Maquiavel e sobre o que ele pretendia discutir? Na verda- das ideias de Maquiavel. Por
de, o que interessava a Maquiavel era falar sobre o exemplo, o rei inglês
Estado, o Estado real, capaz de impor a ordem necessária Henrique VIII conseguiu
separar a Inglaterra do poder
para evitar o caos e a barbárie. Assim, sua obra-prima, O de Roma – colocando-se, em
Príncipe, “contém ensinamentos de como conquistar seguida, como chefe maior
Estados e conservá-los sob domínio; em síntese, um da Igreja – ao separar-se da
rainha católica Catarina de
manual para governantes” (MARTINS, 1999, p. 5). Aragão e desposar Ana
No mundo de Maquiavel, a Itália estava mergulhada Bolena. A rainha Catarina de
no caos que a fragmentação política só fazia favorecer. A Médicis, filha do rei Leonardo
II (a quem Maquiavel dedicou
confusão política tinha origem na luta entre os pequenos seu livro), também parece ter
principados e poderosas famílias que, não raras vezes, seguido os conselhos do
Príncipe maquiavélico: jogou
eram vistas como forças ilegítimas que buscavam usurpar
católicos contra protestantes
o poder de quem o detinha por direito. (o que provocou o massacre
A tirania impera em pequenos principados, gover- de 1572) e garantiu o poder
nados despoticamente por casas reinantes sem para seus filhos (MARTINS,
1999).
tradição dinástica ou de direitos contestáveis. A

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2. Da moral teocrática às teorias renascentistas: Por isso, o fenômeno histórico não compactua com a
a gênese de O Príncipe ideia cristã de fatos que, ao longo do tempo, cumprem
aquilo que estava designado por forças divinas. Ao
Segundo Chauí (2002), a obra de Maquiavel pode ser contrário, os fatos históricos se repetem, e a recorrência
considerada fundadora do pensamento político moderno, já permite que sejam investigados e compreendidos. Por
que procurou oferecer respostas novas a antigas perguntas. sua vez, os homens são egoístas e ambiciosos, e apenas
Para Maquiavel, o líder, o príncipe, deve ser virtuoso e a força da lei é capaz de conter esses instintos capazes de
racional, cabendo a ele mediar e solucionar os conflitos provocar guerras e lutas. O guia para a conduta, portanto,
existentes na Cidade, além de garantir o seu poder. Esta provém da intersecção entre a psicologia e a história, e
Cidade abriga dois desejos que se colocam em oposição: dessa convergência torna-se possível derivar um conjunto
o desejo de um grupo em oprimir e comandar; e o desejo de condutas que estabelecem a melhor forma de
de outro grupo em não ser oprimido ou comando. Portanto, governar. Para Maquiavel,
Essa divisão evidencia que a Cidade não é uma quem observa com diligência os fatos do passado
comunidade homogênea nascida da vontade divina, pode prever o futuro em qualquer república e usar
da ordem natural ou da razão humana. Na realidade, os remédios aplicados desde a Antiguidade ou, na
a Cidade é tecida por lutas internas que a obrigam ausência deles, imaginar novos, de acordo com a
a instituir um polo superior que possa unificá-la e semelhança de circunstâncias entre o passado e o
dar-lhe identidade. Esse polo é o poder político. presente (MARTINS, 1999, p. 17).
Assim, a política nasce das lutas sociais e é obra da
própria sociedade para dar a si mesma unidade e A arte de governar resulta, de fato, de uma teoria
identidade. A política resulta da ação social a partir científica que se apoia na recorrência dos fenômenos
das divisões sociais (CHAUÍ, 2002, p. 395). históricos e do comportamento humano. Por sua vez, a
ação humana, especialmente a das personalidades, é
Para Maquiavel, não há uma Cidade que possa viver capaz de romper com certos círculos viciosos da história.
sem lutas, ou que possa se constituir como uma comuni- Maquiavel chama de fortuna ao conjunto de circuns-
dade em que todos, unidos, lutam em prol do bem tâncias capazes de ditar ou estabelecer os rumos históricos.
comum. Ao contrário, a vida política na Cidade ocorre em Cabe aos homens, portanto, aproveitar as oportunidades
função das lutas e conflitos entre os diferentes grupos e ultrapassar os obstáculos fornecidos pela fortuna, em
que dela fazem parte. Assim, a finalidade política não é a função das necessidades que lhes são impostas. Tal
justiça e o bem-estar de todos, mas a tomada e a conser- como ocorre quando se navega por um rio turbulento, a
vação do poder nas mãos do grupo que o tomou para si. fortuna faz emergir circunstâncias que requerem iniciativa
Nesses termos, “a política não é a lógica racional da jus- e vontade criadora para serem superadas.
tiça e da ética, mas a lógica da força transformada em
lógica do poder e da lei” (CHAUÍ, 2002, p. 396). Por sua
vez, o Príncipe não precisava ser portador das virtudes
morais tão preciosas à tradição cristã;
ele precisa ter virtu, mas esta é propriamente
política, referindo-se às qualidades do dirigente
para tomar e manter o poder, mesmo que para
isso deva usar a violência, a mentira, a astúcia e a
força (CHAUÍ, 2002, p. 396).

Maquiavel distancia-se do universo escolástico e, tal


como outros renascentistas, busca fincar seu pensamen-
to em outras bases. Para ele, a experiência é a fonte mais
segura para o conhecimento. Nesse sentido, propõe-se
a estudar a sociedade tal como ela é, sem perder-se em Figura 2. Para Maquiavel, alguns heróis souberam aproveitar os
especulações inócuas. momentos oferecidos pela fortuna e, a partir deles, mobilizar-se para
O objeto de suas reflexões é a realidade política, conquistar seus objetivos. A virtude maior está em perceber os sinais
pensada como prática humana concreta, e o cen- da fortuna, compreendendo e apreendendo os sinais emitidos pelo
tro maior de seu interesse é o fenômeno do poder, seu tempo histórico, ajustando a sua conduta no sentido de conquistar
formalizado na instituição do Estado. Não se trata o que se deseja. Como exemplo, Maquiavel cita Teseu, que, por amor
a Ariadne, luta contra o Minotauro, vencendo-o (MARTINS, 1999).
de estudar o tipo ideal de Estado, mas compreen-
der como as organizações políticas se fundam, se No último capítulo de O Príncipe, Maquiavel alcança o
desenvolvem, persistem e decaem (MARTINS, ápice de sua argumentação: ele deseja que, da Casa dos
1999, p. 16).
Médicis, surja um príncipe virtuoso capaz de reinar na Itália.
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3. As virtudes do Príncipe Para Maquiavel, o que torna um regime político justo


e legítimo é o valor atribuído à liberdade. Em função do
Para Maquiavel, só há duas respostas possíveis para modo como são tratados o povo e o poder do Príncipe, o
a anarquia: o Principado e a República. A escolha entre regime pode ser justo ou injusto, legítimo ou ilegítimo. O
uma delas depende de quão preparada uma sociedade povo não pode ser esmagado, tampouco o poder do
esteja para a vida republicana; afinal, a República requer Príncipe pode ser desrespeitado. Dessa forma, o poder
que o povo seja virtuoso e que as instituições sejam do Príncipe precisa ser superior ao poder dos outros, e
estáveis. Caso a nação esteja dividida e à mercê da ele deve usar este poder em benefício do povo.
corrupção ou de inimigos externos, só há uma saída: um O príncipe pode ser monarca hereditário ou por
príncipe virtuoso, capaz de manter a ordem e, posterior- conquista; pode ser todo um povo que conquista,
mente, fazer surgir o Estado. Se as leis humanas não são pela força, o poder. Qualquer desses regimes
suficientes para manter a ordem necessária, a autoridade políticos será legítimo se for uma república e não
real é a única capaz de estabelecer o equilíbrio entre os despotismo ou tirania, isto é, só é legítimo o
múltiplos interesses humanos. regime no qual o poder não está a serviço dos
Cabe ao Estado o controle dos conflitos e, caso não desejos e interesses de um particular ou de um
seja possível o estabelecimento de uma república, o Prín- grupo de particulares (CHAUÍ, 2002, p. 396).
cipe chamará para si a tarefa de governar e manter a paz.
Ele não é um homem qualquer, “mas uma personalidade A seguir, leia um trecho de O Príncipe, de Maquiavel.
fora do comum, dotada de uma ética superior, que lhe Nele, o autor discorre sobre as qualidades que um
faculta o uso de meios extraordinários para a organização governante deve ter.
de reinos ou repúblicas” (MARTINS, 1999, p. 21).
Nesses termos, o príncipe não é, necessariamente, o CAPÍTULO XV
mais forte, mas o que consegue manter o domínio DAQUELAS COISAS PELAS QUAIS OS
HOMENS, E ESPECIALMENTE OS PRÍNCIPES,
adquirido e o respeito dos seus governados. O príncipe
SÃO LOUVADOS OU VITUPERADOS
deve, ao menos, ser percebido como portador das
(DE HIS REBUS QUIBUS HOMINES, ET
qualidades valorizadas pelos seus governados, porque a PRAESERTIM PRINCIPES, LAUDANTUR AUT
política tem regras próprias e a ambiguidade entre VITUPERANTUR)
aparência e essência faz parte do jogo. O poder emana
da força, mas sua sustentação depende do controle e do Resta ver agora quais devam ser os modos e o
domínio. Finalmente, é importante esclarecer que aquilo proceder de um príncipe para com os súditos e os
que é considerado uma virtude em se tratando de amigos e, porque sei que muitos já escreveram a
pessoas comuns pode não o ser em relação ao Príncipe. respeito, duvido não ser considerado presunçoso
Maquiavel é incisivo: alguns vícios são, na verdade, escrevendo ainda sobre o mesmo assunto,
virtudes. Espera-se que o Príncipe, para manter o poder, máxime quando irei disputar essa matéria à orien-
tenha a sabedoria de agir conforme as circunstâncias. Essa tação já por outros dada aos príncipes. Mas, sendo
minha intenção escrever algo de útil para quem por
sabedoria inclui, também, o exercício do que, nos outros, é
tal se interesse, pareceu-me mais conveniente ir
considerado defeito. Assim, a ação do Príncipe não está
em busca da verdade extraída dos fatos e não à
sujeita às limitações típicas da ação dos homens. O bom ou imaginação dos mesmos, pois muitos conceberam
mau uso de determinados recursos, no caso do Príncipe, é repúblicas e principados jamais vistos ou
determinado pela necessidade da ação. conhecidos como tendo realmente existido. Em
Ele também acrescenta: para que seja estabelecido o verdade, há tanta diferença de como se vive e
melhor regime e construída a melhor sociedade, não como se deveria viver, que aquele que abandone o
basta a ação de um príncipe virtuoso. que se faz por aquilo que se deveria fazer
O nível de solidariedade é maior quando o povo aprenderá antes o caminho de sua ruína do que o
participa do governo. Homens em liberdade iden- de sua preservação, eis que um homem que queira
tificam-se com os negócios do seu Estado e o de- em todas as suas palavras fazer profissão de
fendem como coisa sua (MARTINS, 1999, p. 22). bondade, perder-se-á em meio a tantos que não
são bons. Donde é necessário, a um príncipe que
Dessa forma, um povo aterrorizado não é capaz de queira se manter, aprender a poder não ser bom e
defender sua terra, tampouco conquistar o mundo. Se a usar ou não da bondade, segundo a necessidade.
corrupção tiver sido banida, os cidadãos colocarão os Deixando de parte, assim, os assuntos relativos a
interesses de todos em primeiro lugar, em detrimento de um príncipe imaginário e falando daqueles que são
verdadeiros, digo que todos os homens, máxime
seus próprios.
os príncipes por situados em posição mais
preeminente, quando analisados, se fazem notar

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por alguns daqueles atributos que lhes acarretam desordens das quais resultam assassínios ou
ou reprovação ou louvor. Assim é que alguns são rapinagens: porque estes costumam prejudicar a
havidos como liberais, alguns miseráveis (usando comunidade inteira, enquanto aquelas execuções
um termo toscano, porque "avaro" em nossa que emanam do príncipe atingem apenas um
língua é ainda aquele que deseja possuir por indivíduo. E, dentre todos os príncipes, é ao novo
rapina, enquanto "miserável" chamamos aquele que se torna impossível fugir à pecha de cruel,
que se abstém em excesso de usar o que possui); visto serem os Estados novos cheios de perigos.
alguns são tidos como pródigos, alguns rapaces; Diz Virgílio, pela boca de Dido:
alguns cruéis, alguns piedosos; um fedífrago, o Res dura, et regni novitas me talia cogunt moliri, et
outro fiel; um efeminado e pusilânime, o outro late fines custode tueri.
feroz e animoso; um humano, o outro soberbo; O príncipe, contudo, deve ser lento no crer e no
um lascivo, o outro casto; um simples, o outro agir, não se alarmar por si mesmo e proceder por
astuto; um duro, o outro fácil; um grave, o outro forma equilibrada, com prudência e humanidade,
leviano; um religioso, o outro incrédulo, e assim buscando evitar que a excessiva confiança o torne
por diante. incauto e a demasiada desconfiança o faça
Sei que cada um confessará que seria sumamente intolerável. Nasce daí uma questão: se é melhor
louvável encontrarem-se em um príncipe, de ser amado que temido ou o contrário. A resposta
todos os atributos acima referidos, apenas é de que seria necessário ser uma coisa e outra;
aqueles que são considerados bons; mas, desde mas, como é difícil reuni-las, em tendo que faltar
que não os podem possuir nem inteiramente uma das duas é muito mais seguro ser temido do
observá-los em razão das contingências humanas que amado. Isso porque dos homens pode-se
não o permitirem, é necessário seja o príncipe tão dizer, geralmente, que são ingratos, volúveis,
prudente que saiba fugir à infâmia daqueles vícios simuladores, tementes do perigo, ambiciosos de
que o fariam perder o poder, cuidando evitar até ganho; e, enquanto lhes fizeres bem, são todos
mesmo aqueles que não chegariam a pôr em risco teus, oferecem-te o próprio sangue, os bens, a
o seu posto; mas, não podendo evitar, é possível vida, os filhos, desde que, como se disse acima, a
tolerá-los, se bem que com quebra do respeito necessidade esteja longe de ti; quando esta se
devido. Ainda, não evite o príncipe de incorrer na avizinha, porém, revoltam-se. E o príncipe que
má faina daqueles vícios que, sem eles, difícil se confiou inteiramente em suas palavras, encon-
lhe torne salvar o Estado; pois, se bem consi- trando-se destituído de outros meios de defesa,
derado for tudo, sempre se encontrará alguma está perdido: as amizades que se adquirem por
coisa que, parecendo virtude, praticada acarretará dinheiro, e não pela grandeza e nobreza de alma,
ruína, e alguma outra que, com aparência de vício, são compradas mas com elas não se pode contar
seguida dará origem à segurança e ao bem-estar. e, no momento oportuno, não se torna possível
utilizá-las. E os homens têm menos escrúpulo em
(...) ofender a alguém que se faça amar do que a
quem se faça temer, posto que a amizade é
CAPÍTULO XVII
mantida por um vínculo de obrigação que, por
DA CRUELDADE E DA PIEDADE; SE É MELHOR
serem os homens maus, é quebrado em cada
SER AMADO QUE TEMIDO, OU ANTES TEMIDO
oportunidade que a eles convenha; mas o temor é
QUE AMADO
mantido pelo receio de castigo que jamais se
(DE CRUDELITATE ET PIETATE; ET AN SIT
abandona.
MELIUS AMARI QUAM TIMERI, VEL E CONTRA)
Deve o príncipe, não obstante, fazer-se temer de
Reportando-me às outras qualidades já referidas, forma que, se não conquistar o amor, fuja ao ódio,
digo que cada príncipe deve desejar ser tido como mesmo porque podem muito bem coexistir o ser
piedoso e não como cruel: não obstante isso, deve temido e o não ser odiado: isso conseguirá
ter o cuidado de não usar mal essa piedade. César sempre que se abstenha de tomar os bens e as
Bórgia era considerado cruel; entretanto, essa sua mulheres de seus cidadãos e de seus súditos e,
crueldade tinha recuperado a Romanha, logrando em se lhe tornando necessário derramar o sangue
uni-la e pô-la em paz e em lealdade. O que, se de alguém, faça-o quando existir conveniente
bem considerado for, mostrará ter sido ele muito justificativa e causa manifesta. Deve, sobretudo,
mais piedoso do que o povo florentino, o qual, abster-se dos bens alheios, posto que os homens
para fugir à pecha de cruel, deixou que Pistoia esquecem mais rapidamente a morte do pai do
fosse destruída. que a perda do patrimônio. Além disso, nunca
Um príncipe não deve, pois, temer a má fama de faltam motivos para justificar as expropriações, e
cruel, desde que por ela mantenha seus súditos aquele que começa a viver de rapinagem sempre
unidos e leais, pois que, com mui poucos exem- encontra razões para apossar-se dos bens alheios,
plos, ele será mais piedoso do que aqueles que, ao passo que as razões para o derramamento de
por excessiva piedade, deixam acontecer as sangue são mais raras e esgotam-se mais

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depressa. exércitos se revoltaram na Espanha em conse-


Mas quando o príncipe está à frente de seus quência de sua excessiva piedade, pois que havia
exércitos e tem sob seu comando uma multidão concedido aos seus soldados mais liberdades do
de soldados, então é de todo necessário não se que convinha à disciplina militar. Tal fato foi-lhe
importar com a fama de cruel, eis que, sem ela, censurado no Senado por Fábio Máximo, o qual
jamais se conservará exército unido e disposto a chamou-o de corruptor da milícia romana. Os
alguma empresa. Dentre as admiráveis ações de locrenses, tendo sido arruinados e abatidos por
Aníbal, menciona-se esta: tendo um exército um legado de Cipião, não foram por ele vingados,
imenso, constituído de homens de inúmeras nem a insolência daquele legado foi reprimida,
raças, conduzido a batalhar em terras alheias, resultando tudo isso de sua natureza fácil; tanto
nunca surgiu qualquer dissensão entre eles ou assim que, querendo alguém desculpá-lo perante
contra o príncipe, tanto na má como na boa o Senado, disse haver muitos homens que melhor
fortuna. Isso não pode resultar de outra coisa sabiam não errar do que corrigir os erros. Essa sua
senão daquela sua desumana crueldade que, natureza teria com o tempo sacrificado a fama e a
aliada às suas infinitas virtudes, o tornou sempre glória de Cipião, tivesse ele perseverado no
venerado e terrível no conceito de seus soldados; comando; mas, vivendo sob o governo do Senado,
sem aquela crueldade, as virtudes não lhe teriam esta sua prejudicial qualidade não só desapareceu,
bastado para surtir tal efeito e, todavia, escritores como lhe resultou em glória.
nisto pouco ponderados, admiram, de um lado, Concluo, pois, voltando à questão de ser temido e
essa sua atuação e, de outro, condenam a amado, que um príncipe sábio, amando os
principal causa da mesma. homens como a eles agrada e sendo por eles
Para prova de que, realmente, as outras suas temido como deseja, deve apoiar-se naquilo que é
virtudes não seriam bastantes, pode-se considerar seu e não no que é dos outros; deve apenas
o caso de Cipião, homem dos mais notáveis não empenhar-se em fugir ao ódio, como foi dito
somente nos seus tempos, mas também na (MAQUIAVEL, s/d, p. 58/66).
memória de todos os fatos conhecidos, cujos

Saiba mais
Maquiavel escreveu ao tempo em que se buscava
dessacralizar a política – ou seja, retirar dela todo o caráter
sagrado e religioso – e tornar o poder temporal
independente do poder religioso representado por Roma.
Ao tempo em que os Estados se sobrepunham à religião,
a obra O Príncipe circulou sem que fosse criticada ou alvo
de qualquer tipo de censura (MARTINS, 1999).
As circunstâncias mudaram com a Contrarreforma,
que passou a defender o poder espiritual em detrimento
do temporal. Por isso, sua obra acabou por ser incluída no
index dos livros proibidos pela Igreja.
Nos séculos seguintes, Maquiavel passou a ser
acusado de protetor de déspotas e tiranos: seu manual
era visto como disseminador do oportunismo, da Figura 3. Ainda nos dias de hoje, a influência da religião
mentira, da manipulação política, do engano. e de suas instituições no mundo político ainda é enorme.
O Iluminismo buscou resguardar suas qualidades, entre elas a defesa da ética e da República como solução ideal
para o governo do Estado. Será apenas ao tempo do Renascimento italiano (no século XIX) que Maquiavel verá sua
obra conquistar novamente o respeito de todos, a ponto de ser ele transformado em herói nacional.
A controvérsia em torno de O Príncipe não cessará, entretanto. “Mussolini (1883-1945) o transformará em
precursor do fascismo e Gramsci (1891-1937), marxista, assimilará ao príncipe ideal renascentista o partido do
proletariado, como instrumento contemporâneo de sua vontade e ações coletivas” (MARTINS, 1999, p. 26).
De qualquer forma, é necessário lembrar que o maquiavelismo antecede o próprio Maquiavel. Outros já haviam
discorrido sobre as práticas que detentores do poder deveriam assumir. Em vários momentos da História, governantes
já haviam priorizado os resultados em detrimento dos meios. O que Maquiavel fez, em resumo, foi transformar em
teoria aquilo que havia observado do passado, tendo percebido que a moralidade de quem governa obedece a regras
outras que o povo não deve – tampouco pode – seguir.

– 85
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A influência de Maquiavel é tamanha que seu nome foi transformado em adjetivo. Assim, no nosso linguajar
tornou-se comum associarmos os termos maquiavélico e maquiavelismo a determinadas pessoas ou condutas. Leia
atentamente o que Marilena Chauí diz a respeito.
Maquiavélico, maquiavelismo
Estamos acostumados a ouvir as expressões maquiavélico e maquiavelismo. São usadas quando alguém
deseja referir-se tanto à política quanto aos políticos, quanto a certas atitudes das pessoas, mesmo
quando não ligadas diretamente a uma ação política (fala-se, por exemplo, num comerciante maquiavélico,
numa professora maquiavélica, no maquiavelismo de certos jornais, etc.). Quando ouvimos ou
empregamos essas expressões? Sempre que pretendemos julgar a ação ou a conduta de alguém desleal,
hipócrita, fingidor, poderosamente malévolo, que brinca com sentimentos e desejos dos outros, mente-
lhes, faz a eles promessas que sabe que não cumprirá, usa a boa-fé alheia em seu próprio proveito.
Falamos num “poder maquiavélico” para nos referirmos a um poder que age secretamente nos
bastidores, mantendo suas intenções e finalidades desconhecidas para os cidadãos; que afirma que os
fins justificam os meios e usa meios imorais, violentos e perversos para conseguir o que quer; que dá
as regras do jogo, mas fica às escondidas, esperando que os jogadores causem a si mesmos sua própria
ruína e destruição. Maquiavélico e maquiavelismo fazem pensar em alguém extremamente poderoso e
perverso, sedutor e enganador, que sabe levar as pessoas a fazerem exatamente o que ele deseja,
mesmo que sejam aniquiladas por isso. Como se nota, maquiavélico e maquiavelismo correspondem
àquilo que, em nossa cultura, é considerado diabólico.
Que teria escrito Maquiavel para que gente que nunca leu sua obra e que nem mesmo sabe que existiu, um
dia, em Florença, uma pessoa com esse nome, fale em maquiavélico e maquiavelismo? (CHAUÍ, 2002, p. 395).

Breve diálogo
Adilson Silva Oliveira, 43 anos, é licenciado em Letras e mestre em Língua Portuguesa. Atualmente, é professor da
Universidade Paulista (UNIP), escritor, roteirista e redator de material didático.
Pergunta: O Príncipe foi pensado e escrito no contexto de uma Europa que assistia à formação dos Estados Nacionais.
O príncipe, caso não fosse possível um regime republicano, era aquele de quem se esperava um governo justo e
estável. Você acredita que as ideias de Maquiavel ainda fazem sentido nos dias de hoje?
Prof. Adilson Silva Oliveira: A obra clássica O Príncipe, de Maquiavel, foi escrita há quase cinco séculos, mas,
apesar do distanciamento histórico, o posicionamento do autor é atual. O autor, na verdade, descreve o político de
seu tempo. No campo sociopolítico, não houve mudanças consideráveis: o político brasileiro contemporâneo pode ser
pintado com as mesmas cores do político de Maquiavel. A expressão “os fins justificam os meios”, retirada da obra,
ilustra a atemporalidade de O Príncipe e significa que não importa o que o governante faça em seus domínios, desde
que seja para manter-se como autoridade.
Pergunta: Os elementos básicos de O Príncipe ainda se prestam à comunicação com o público? De que maneira as
produções culturais contemporâneas aproveitaram-se das ideias de Maquiavel?
Prof. Adilson Silva Oliveira: A modernidade do livro O Príncipe, de Maquiavel, é incontestável. Diversos teóricos já
discorreram sobre isso. O autor florentino é conhecido como o fundador da ciência política moderna, da Razão de
Estado, da abordagem sociológica da religião e da separação entre ética e política. Essas contribuições reverberam
na sociedade contemporânea, sobretudo no campo da política. Observe o trecho do livro: “(...) far-se-ia necessário
que a Itália chegasse aonde se acha neste momento. Que se visse mais escravizada do que os hebreus, mais oprimida
do que os persas, mais desunida do que os atenienses, sem chefe, sem ordem, batida, espoliada, lacerada, invadida,
e que houvesse, por fim, suportado toda sorte de calamidades. (...) Verifica-se que roga ela a Deus o envio de alguém
para redimi-la das crueldades e insolências dos estrangeiros. Nota-se, igualmente, que está pronta e disposta a seguir
uma bandeira, desde que haja quem a levante...” (MAQUIAVEL, Cap. XXVI). Nesse trecho, é possível perceber que
o povo, seja o da época de Maquiavel, seja o dos nossos tempos, sempre estará à espera de um líder (ou herói) que
salve a nação de problemas sociais, políticos, econômicos, culturais etc.
Pergunta: É possível estabelecer relações entre O Príncipe, de Maquiavel, e O pequeno príncipe, de Saint-Exupéry?

86 –
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Prof. Adilson Silva Oliveira: Maquiavel e Saint-Exupéry começam os seus livros com dedicatórias. O primeiro dedica
O Príncipe ao Magnífico Lourenço de Médicis, oferecendo-lhe não só o livro, mas também as faculdades da sabedoria;
o segundo dedica a obra a Lèon Werth, não ao adulto, corrompido pelos valores mundanos, mas à criança que Lèon
Werth foi um dia. Tanto Maquiavel quanto Saint-Exupéry descrevem como o príncipe deve proceder ante seus súditos
e amigos, explicando que, para manter-se adorado, é necessário que o líder saiba utilizar os vícios e as virtudes
necessários, fazendo o que for possível para garantir a segurança e o bem-estar.

Referências do módulo 8 Audiovisual:


Textuais O PEQUENO príncipe (prod. Mark Osborne, Onyx Films/Orange
ABRÃO, B. S. (Org.). História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, Studio/On Entertainment: França, 2015, 110 minutos).
1999. Créditos das imagens do Módulo 8:
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2002. Figura 1: Disponível em: <[Link] wikipedia/
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Versão digital disponível em: commons/c/c7/Hans_Holbein%2C_the_Younger%2C_Around_1497-
<[Link] Acesso em: 31 1543_-_Portrait_of_Henry_VIII_of_England_-_Google_Art_Project.jpg>.
maio 2017. Acesso em: 31 maio 2017.
MARTINS, Carlos Estevam. Vida e obra. In: O Príncipe: escritos Figura 2: Disponível em: <[Link]
políticos. Tradução de Olívia Bauduh. São Paulo: Nova Cultural, commons/a/a4/Bambini%2C_Niccolo_-_Ariadne_and_The
1999. (Coleção Os Pensadores). [Link]>. Acesso em: 31 maio 2017.

1. – O príncipe, portanto, não deve se inco-


modar com a reputação de cruel, se seu
propósito é manter o povo unido e leal. De fato, com uns
poucos exemplos duros poderá ser mais clemente do que
outros que, por muita piedade, permitem os distúrbios
que levem ao assassínio e ao roubo.
(N. Maquiavel. O Príncipe. São Paulo: Martin Claret, 2009.)

No século XVI, Maquiavel escreveu O Príncipe, reflexão


sobre a Monarquia e a função do governante. A
manutenção da ordem social, segundo esse autor,
baseava-se na
a) inércia do julgamento de crimes polêmicos.
b) bondade em relação ao comportamento dos
mercenários.
c) compaixão quanto à condenação de transgressões
religiosas.
d) neutralidade diante da condenação dos servos.
e) conveniência entre o poder tirânico e a moral do
príncipe.

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2. – Não ignoro a opinião antiga e muito 3. – Nasce daqui uma questão: se vale mais ser
difundida de que o que acontece no mundo amado que temido ou temido que amado.
é decidido por Deus e pelo acaso. Essa opinião é muito Responde-se que ambas as coisas seriam de desejar;
aceita em nossos dias, devido às grandes transformações mas porque é difícil juntá-las, é muito mais seguro ser
ocorridas, e que ocorrem diariamente, as quais escapam temido que amado, quando haja de faltar uma das duas.
à conjectura humana. Não obstante, para não ignorar Porque dos homens se pode dizer, duma maneira geral,
inteiramente o nosso livre-arbítrio, creio que se pode que são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e
aceitar que a sorte decida metade dos nossos atos, mas ávidos de lucro, e enquanto lhes fazes bem são
[o livre-arbítrio] nos permite o controle sobre a outra inteiramente teus, oferecem-te o sangue, os bens, a vida
metade. e os filhos, quando, como acima disse, o perigo está
(N. Maquiavel. O Príncipe. Brasília: EdUnB, 1979. Adaptado.) longe; mas quando ele chega, revoltam-se.
(N. Maquiavel. O príncipe. Rio de Janeiro: Bertrand, 1991.)
Em O Príncipe, Maquiavel refletiu sobre o exercício do
poder em seu tempo. No trecho citado, o autor A partir da análise histórica do comportamento humano
demonstra o vínculo entre o seu pensamento político e o em suas relações sociais e políticas, Maquiavel define o
humanismo renascentista ao homem como um ser
a) valorizar a interferência divina nos acontecimentos a) munido de virtude, com disposição nata a praticar o
definidores do seu tempo. bem a si e aos outros.
b) rejeitar a intervenção do acaso nos processos políticos. b) possuidor de fortuna, valendo-se de riquezas para
c) afirmar a confiança na razão autônoma como alcançar êxito na política.
fundamento da ação humana. c) guiado por interesses, de modo que suas ações são
d) romper com a tradição que valorizava o passado como imprevisíveis e inconstantes.
fonte de aprendizagem. d) naturalmente racional, vivendo em um estado pré-
e) redefinir a ação política com base na unidade entre fé social e portando seus direitos naturais.
e razão. e) sociável por natureza, mantendo relações pacíficas
com seus pares.

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4. (UNICAMP) – Quanto seja louvável a um príncipe


manter a fé, aparentar virtudes e viver com integridade,
não com astúcia, todos o compreendem; contudo,
observa-se, pela experiência, em nossos tempos, que
houve príncipes que fizeram grandes coisas, mas em
pouca conta tiveram a palavra dada, e souberam, pela
astúcia, transtornar a cabeça dos homens, superando,
enfim, os que foram leais (...). Um príncipe prudente não
pode nem deve guardar a palavra dada quando isso se lhe
torne prejudicial e quando as causas que o determinaram
cessem de existir.
(Nicolau Maquiavel. O Príncipe. São Paulo:
Nova Cultural, 1997, p. 73-85.)

A partir desse excerto da obra, publicada em 1513, é


correto afirmar que:
a) O jogo das aparências e a lógica da força são algumas
das principais artimanhas da política moderna
explicitadas por Maquiavel.
b) A prudência, para ser vista como uma virtude, não
depende dos resultados, mas de estar de acordo com
os princípios da fé.
c) Os princípios e não os resultados é que definem o
julgamento que as pessoas fazem do governante, por
isso é louvável a integridade do príncipe.
d) A questão da manutenção do poder é o principal
desafio ao príncipe e, por isso, ele não precisa cumprir
a palavra dada, desde que autorizado pela Igreja.

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MÓDULO 9 O poder do método: a razão


Neste módulo, estudaremos as questões metodoló- Desde a Grécia Antiga, a razão pôde pretender
gicas investigadas por Descartes, tendo como contexto o abarcar o mundo porque, de certa forma, o próprio
Iluminismo. Ao final do Módulo, você encontrará uma breve mundo era concebido como racionalmente orde-
entrevista, exercícios e algumas referências bibliográficas. nado e unificado. Nos tempos modernos, no en-
tanto, essa imagem já não existe. Não há mais a
pólis, o Império ou uma Igreja única; a realidade
1. Introdução
apresenta-se dispersa, múltipla e relativa. Cabe à
razão a tarefa de reunificar o mundo, reproduzi-lo,
Vamos iniciar nosso estudo sobre o racionalismo representá-lo (ABRÃO, 1999, p. 196).
cartesiano com um desafio: tente imaginar tudo aquilo
que você já aprendeu ao longo da sua vida, considerando Aquela era uma época em que os eruditos redes-
os ensinamentos recebidos em casa, na escola, nos livros cobriam antigos textos gregos e, a partir deles, ampliavam
e junto aos amigos. Podemos supor que estamos falando, o conhecimento filosófico. Ao mesmo tempo, as viagens
então, de uma quantidade imensa de ideias, conceitos, marítimas levavam os homens a novos mundos e novos
operações, fatos e acontecimentos. Nossa pergunta é povos. Naquele tempo, o homem passou a questionar tudo
simples: o quanto de certeza você tem sobre o que e todos, incluindo os líderes políticos, religiosos, filosóficos
aprendeu? Será que podemos confiar naquilo que e científicos. O ambiente, portanto, estimulava a dúvida e
supomos saber? Existe alguma possibilidade de termos a descrença: como havia sido possível acreditar em tantas
aprendido algo que não corresponda à verdade? ideias equivocadas e como havia sido possível aceitar a
Descartes se fez essa mesma pergunta e a resposta autoridade de pessoas que tão pouco sabiam a respeito do
que encontrou o deixou desconfortável: não havia como admirável mundo novo que agora se apresentava? Para
ter certeza absoluta sobre aquilo que se tinha como já esses novos tempos, não bastava um conhecimento que
aprendido e compreendido. Para que se pudesse alcançar houvesse sido corrigido dos erros do passado. Era
esta certeza, e, portanto, a verdade, era necessário necessário começar tudo de novo, era preciso
encontrar novo ponto de partida e demarcar um
submeter cada um dos conhecimentos à prova. O que
novo itinerário que conduzisse, com segurança, a
Descartes afirmou foi que só seria possível aceitar uma
certezas científicas universais. As múltiplas opiniões
ideia ou um fato após um rigoroso exame crítico, exame eram caminhos vários e inseguros que não levavam
esse guiado por uma dúvida metódica. Em outras pala- a qualquer meta definitiva e estável. Era necessário,
vras, duvidar sistematicamente e, a partir disso, escru- portanto, que se encontrasse não um caminho –
tinar cada fato ou opinião: essa era a melhor maneira de mais um ao lado de tantos outros – porém o cami-
se chegar à verdade. Para Descartes, havia apenas uma nho certo, aquele que se impusesse a todos os
ideia da qual não era possível duvidar, e ela estava asso- demais como único legítimo porque o único capaz
ciada ao fato de ele se reconhecer como um ser pensante. de escapar ao labirinto das incertezas e das estéreis
Descartes desenvolveu o seu trabalho considerando construções meramente verbais, para conduzir
a capacidade humana de errar e de chegar à verdade. O afinal à descoberta de verdades permanentes,
irretorquíveis, fecundas (GRANGER, 1983, p. IX).
contexto no qual ele observou e elaborou suas ideias foi
o da Europa em pleno processo de industrialização. Neste contexto, Descartes buscou produzir um novo
mundo, reordenado pelo esforço racional. A matemática
2. Contexto histórico, político e social tornou-se o principal paradigma deste racionalismo, já que
proporcionava o “conhecimento completo”: por ser es-
Aos séculos XVI e XVII, encontraremos uma Europa sencialmente dedutiva, a matemática tornava-se o sím-
reorganizada, com vários Estados já formados ou em bolo máximo do uso da razão no esforço de interpretação
formação. Havia um novo equilíbrio na Europa, especial- do mundo. Por isso, proliferaram os tratados sobre méto-
mente por conta da consolidação da burguesia: a Suécia, dos. A questão do método adquiriu uma importância vital,
a Holanda e a Suíça eram, então, potências emergentes, pois era por meio do método que se podia garantir a
e comerciantes e financistas trataram de colocar essas certeza do conhecimento.
nações à frente dos negócios e do comércio. Do período renascentista, Descartes guardou as mar-
O capitalismo espalhava-se pelos Estados europeus cas do pensamento místico, tendo sido, inclusive, mem-
em formação e a burguesia estabelecia-se como força e bro de uma sociedade secreta chamada Rosacruz. Em
eixo do poder: os nobres se aburguesaram, a burguesia relação ao Iluminismo, ele anunciou: a hegemonia da
e as monarquias associavam-se em parcerias, e o regime razão como instrumento para se chegar à verdade; e a
absolutista garantia o poder à Coroa para que ela pudesse autonomia intelectual do homem, agora livre de supersti-
defender os interesses do país e dos seus comerciantes. ções e da influência de equivocadas autoridades.
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3. O homem e sua obra cebidas que formulamos a respeito das coisas – escra-
vizava o pensamento. A precipitação, por sua vez, aca-
Nascido na França, René Descartes (1596-1650) é um bava por resultar em opiniões não necessariamente
dos nomes mais significativos desse período em que a válidas ou verdadeiras. No entanto, era possível corrigir
busca pelo método é tarefa com a qual os filósofos e esses erros, bastando para isso duvidar sistematicamente
pensadores estão ocupados. O princípio do seu trabalho de tudo e seguir um conjunto de regras que permitiam o
está na proposição da dúvida como instrumento para exame detalhado e minucioso dos fatos. Para Descartes,
identificar o real conhecimento. O saber está naquilo a a dúvida fazia parte do procedimento que atestaria o valor
respeito do qual não pairam dúvidas e, por isso, cada de determinado conhecimento: não havia como algo pre-
parte do conhecimento deve ser colocada sob suspeita e tender-se conhecimento caso pairasse dúvida sobre
deve ser rigorosamente investigada. Essa atitude é algum elemento seu. Na verdade, se havia algo sobre o
chamada de ceticismo e, no caso de Descartes, assumiu qual não havia dúvidas era o fato de que sempre pode-
a forma de dúvida metódica. ríamos duvidar, para isso usando nosso pensamento.
Filho de uma família burguesa, Descartes foi educado Portanto, a única certeza era a do pensamento, da nossa
numa das mais prestigiadas instituições de ensino da capacidade de pensar e duvidar.
França. Decepcionado com as disciplinas de Humanida- Nas palavras de Descartes, “penso, logo existo” (ou,
des, que nada mais faziam do que comentar as antigas em latim, cogito). Para pensar, é necessário existir. Existe
fontes gregas, e ávido por uma nova mentalidade cientí- aquilo que pensamos de forma clara. Existimos enquanto
fica, aproximou-se da matemática. Afinal, pensamos, e nossa existência é confirmada pela nossa
as matemáticas exibiam uma construção sólida e capacidade de pensar. O cogito é a consciência que pensa
clara, que a todos se impunha com a força de sobre si mesma, e não se mistura com o corpo, cuja exis-
demonstrações incontestáveis e que atravessara tência é duvidosa. “Nessa medida, o ‘eu’ que pensa, e
incólume as crises de pensamento instauradas que por isso existe como coisa, só pode ser uma coisa
pelos novos ventos da Renascença. A validade que pensa: coisa pensante, res cogitans” (ABRÃO, 1999,
das proposições matemáticas parecia pairar acima
p. 198).
das contingências do espaço e do tempo, suge-
rindo a possibilidade de seguras e perenes verda-

Ingimage/Fotoarena
des, imunes à corrosão do ceticismo (GRANGER,
1983, p. XII).

Como, no entanto, transformar o conhecimento


matemático em um conhecimento prático que pudesse
responder às perguntas feitas cotidianamente? A solução
encontrada por Descartes foi bastante simples: havia uma
relação entre as leis da matemática e as leis da natureza,
cuja descoberta permitiria descobrir a própria alma do
mundo. A obra do filósofo mostrou as marcas do seu
tempo; dedicada a desvendar os caminhos para o conhe-
cimento seguro, também revelou a prudência dele em
relação às autoridades religiosas. Já havia chegado ao seu Figura 1. Para Descartes, a sabedoria é como uma árvore. As raízes são
conhecimento a condenação de Galileu, defensor de uma a metafísica, os princípios filosóficos que explicam o domínio do ser. O
tese que ele próprio reconhecia como legítima, qual seja, tronco é a física (o conhecimento sobre o mundo sensível que pode ser
a do movimento da Terra. Esta cautela pode explicar o revelado por meio da matemática). E os ramos são os outros saberes,
estilo ambíguo do filósofo: era necessário muito cuidado tais como a medicina, a psicologia e a moral.
para não se indispor com a Igreja, mesmo que às custas
Seria possível um gênio maligno que nos fizesse
de não sair em defesa de ideias e teorias que se sabiam
acreditar, erroneamente, que éramos capazes de pensar?
verdadeiras. Assim, escrito em francês, e não em latim,
Descartes eliminou essa possibilidade, já que Deus era a
às vezes de forma rebuscada e tortuosa, o seu trabalho
substância infinita, eterna, imutável, independente e
afirmou a vontade de romper com a herança medieval e
onipotente. O próprio fato de acreditar em Deus era a
anunciar um novo tempo.
prova de sua existência, já que nenhuma outra coisa
Descartes partiu do pressuposto de que nosso
poderia ser responsável por nos fazer acreditar em uma
conhecimento sobre o mundo estava repleto de erros e
substância infinita caso ela não fosse, necessariamente,
equívocos. Quais seriam as fontes de erro, que man-
infinita. A causa de Deus (o que fez surgir Deus e o que
tinham o conhecimento distante da verdade? Para
provocou a sua existência) era o próprio Deus, e a causa
Descartes, a prevenção – quer dizer, as ideias precon-
verdadeira e perfeita não podia provocar um efeito que
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fosse um engano. Quando o cogito se enganava, não era máticos, isso equivale a dizer que deveríamos reduzir as
por conta de um ser maligno, mas apenas porque não equações de grau superior até chegar à equação mais
havia sido adotado um método rigoroso. Com o que simples;
deveria ocupar-se esse método? Esse método deveria b) a enumeração, que consistia na verificação do
ocupar-se com o estabelecimento de uma nova ordem processo de divisão até a identificação do elemento
das coisas, diferente daquela imposta por nossos sen- simples;
tidos. E, como o cogito e as coisas da realidade eram de c) a síntese, quando se realizava a operação inversa
natureza distinta, o método requeria que transformás- da descrita anteriormente, recompondo-se a divisão
semos as coisas em ideias dessas coisas, para que então realizada, do simples ao complexo.
pudessem ser pensadas e transformadas em objeto do A garantia de termos chegado ao elemento mais
conhecimento. Em outras palavras, o homem tornava-se simples nos era dada pela certeza de que as ideias claras,
sujeito, o ser pensante; o mundo era o seu objeto. O ser como são os princípios matemáticos, estavam desde
pensante podia pensar em si mesmo como aquele que sempre no cogito: eram ideias inatas, embora misturadas
efetivamente organizava o mundo, dando-lhe sentido, a outras ideias; daí a importância da divisão até alcançar-
segundo suas próprias regras. Em o Discurso do Método, se o elemento mais simples.
Descartes transforma os homens em senhores e donos
da natureza. 3.1. O Discurso do Método
Para Descartes, dentre todas as ideias claras e dis- Seria possível construir um edifício do saber que
tintas, destacavam-se a matemática e suas figuras geo- acomodasse todo o conhecimento conquistado até
métricas. A matemática era, por sua natureza, a ciência aquele momento? Seria possível arquitetar uma cidade
universal, quer dizer, ela dava os fundamentos únicos a cujos caminhos, planejados e ordenados, conduzissem a
todas as outras ciências. Aliás, essa mathesis universalis humanidade ao conhecimento seguro? A estas per-
(a ciência universal) era maior do que a própria matemá- guntas, um ainda jovem Descartes respondeu afirmati-
tica e suas ramificações, tais como a álgebra, a aritmética vamente. Mais: ele chegou à conclusão que seria o
e a geometria. Estas últimas serviriam, na verdade, como arquiteto perfeito para realizar esta missão. Segundo
exercício preparatório para o acesso à ciência universal. Granger (1983, p. VIII), havia a
As investigações de Descartes o levariam a realizar o que convicção de que era ele, Descartes, o arquiteto
mais tarde receberia o nome de “geometria destinado a traçar o plano e lançar as bases
analítica”, isto é, a conversão de grandezas e de daquela cidade onde não haveria as “ruas
propriedades geométricas em fórmulas algé- tortuosas e desiguais” das múltiplas opiniões
bricas. O quadrado e o cubo, por exemplo, podem acumuladas pelo tempo e ensombradas pela
ser representados pelas expressões a e a, o que dúvida. A ele cabia a tarefa de inaugurar, desde os
possibilita relacioná-los num mesmo sistema de fundamentos, o luminoso reino da certeza.
cálculo (ABRÃO, 1999, p. 200).
Em Discurso do Método, sua principal obra,
Descartes enunciou o que considerava as três principais
características do seu método:
a) suas regras eram certas, ou seja, permitiam
segurança;
b) eram fáceis, o que tornava possíveis esforços
eficazes; e
c) permitiam alcançar todos os conhecimentos
possíveis. Assim, por ele pretender o alcance de todas as
áreas do saber, podemos afirmar que o método
cartesiano se configurou como uma mathesis universalis,
ou seja, um conhecimento válido para quaisquer que
fossem os objetos do conhecimento (CHAUÍ, 2002).
Figura 2. Em sua obra mais conhecida, Discurso sobre o método, Des-
Veja, a seguir, um trecho de Discurso do Método, no
cartes mostrou como era possível demonstrar a posição de um objeto
qualquer usando, como coordenadas, dois eixos que se interceptam.
qual o filósofo expõe três máximas que considerava
fundamentais para a vida: obedecer às leis, aos costumes
O método proposto por Descartes envolvia três do país e a Deus; ser firme e decidido, não cedendo ao
etapas: impulso de seguir opiniões menos firmes e seguras do
a) a análise, momento no qual deveriam ser divididas que as próprias; e, finalmente, estar ciente das próprias
as partes que compõem o todo (o objeto estudado), bus- limitações diante da ordem do mundo.
cando-se o elemento mais simples. Em termos mate-
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Terceira Parte quaisquer motivos, ainda que no início só o acaso


talvez haja definido sua escolha: pois, por este
AFINAL, COMO não é suficiente, antes de dar método, se não vão exatamente aonde desejam,
início à reconstrução da casa onde residimos, ao menos chegarão a algum lugar onde prova-
demoli-la, ou munir-nos de materiais e contratar velmente estarão melhor do que no meio de uma
arquitetos, ou habilitar-nos na arquitetura, nem, floresta. E, assim como as ações da vida não
além disso, termos efetuado com esmero o seu suportam às vezes atraso algum, é uma verdade
projeto, é preciso também havermos provide- muito certa que, quando não está em nosso poder
nciado outra onde possamos nos acomodar o distinguir as opiniões mais verdadeiras, deve-
confortavelmente ao longo do tempo em que nela mos seguir as mais prováveis; e mesmo que não
se trabalha. Da mesma maneira, para não hesitar percebamos em umas mais probabilidades do que
em minhas ações, enquanto a razão me obrigasse em outras, devemos, sem embargo, decidir-nos
a fazê-lo, em meus juízos, e a fim de continuar a por algumas a considerá-las depois não mais
viver desde então de maneira mais feliz possível, como duvidosas, na medida em que se relacionam
concebi para mim mesmo uma moral provisória, com a prática, mas como muito verdadeiras e
que consistia apenas em três ou quatro máximas corretas, visto que a razão que a isso nos induziu
que eu quero vos anunciar. A primeira era obe- se apresenta como tal. E isto me consentiu, desde
decer às leis e aos costumes de meu país, man- então, libertar-me de todos os arrependimentos e
tendo-me na religião na qual Deus me concedera remorsos que costumam agitar as consciências
a graça de ser instruído a partir da infância, e desses espíritos fracos e hesitantes que se dei-
conduzindo-me, em tudo o mais, de acordo com xam levar a praticar, como boas, as coisas que em
as opiniões mais moderadas e as mais distantes seguida consideram más. Minha terceira máxima
do excesso, que fossem comumente aceitas era a de procurar sempre antes vencer a mim
pelos mais sensatos daqueles com os quais teria próprio do que ao destino, e de antes modificar os
de conviver. Porquanto, começando desde então meus desejos do que a ordem do mundo; e, em
a não me valer para nada de minhas próprias opi- geral, a de habituar-me a acreditar que nada existe
niões, porque eu as queria submeter todas a que esteja completamente em nosso poder, salvo
análise, estava convencido de que o melhor a os nossos pensamentos, de maneira que, após
fazer era seguir as dos mais sensatos. E, a des- termos feito o melhor possível no que se refere
peito de que talvez existam, entre os persas e às coisas que nos são exteriores, tudo em que
chineses, homens tão sensatos como entre nós, deixamos de nos sair bem é, em relação a nós,
afigurava-se-me que o mais útil seria orientar-me absolutamente impossível. E somente isso me
por aqueles entre os quais teria de viver; e que, parecia suficiente para impossibilitar-me, no
para saber quais eram realmente as suas opiniões, futuro, de desejar algo que eu não pudesse obter,
devia tomar nota mais daquilo que praticavam do e, assim, para me tornar contente. [...] Mas con-
que daquilo que diziam; [...] E, entre várias fesso que é preciso um longo adestramento e
opiniões igualmente aceitas, escolhia somente as uma meditação frequentemente repetida para nos
moderadas: tanto porque são sempre as mais habituarmos a olhar todas as coisas por este
cômodas para a prática, e provavelmente as me- ângulo; e acredito que é principalmente nisso que
lhores, já que todo excesso costuma ser mau, consistia o segredo desses filósofos, que pude-
como também para me desviar menos do verda- ram em outros tempos esquivar-se do império do
deiro caminho, caso eu falhasse, do que, havendo destino e, apesar das dores e da pobreza, pleitear
escolhido um dos extremos, fosse o outro aquele felicidade aos seus deuses. Pois, ocupando-se
que eu deveria ter seguido. E, em especial, punha continuamente em considerar os limites que lhes
entre os excessos todas as promessas pelas quais eram impostos pela natureza, convenceram-se tão
se restringe em algo a própria liberdade. [...] Minha perfeitamente de que nada estava em seu poder
segunda máxima consistia em ser o mais firme e além dos seus pensamentos, que só isso bastava
decidido possível em minhas ações, e em não para impossibilitá-los de sentir qualquer afeição
seguir menos constantemente do que se fossem por outras coisas; e os utilizavam tão absoluta-
muito seguras as opiniões mais duvidosas, sem- mente que tinham neste caso especial certa razão
pre que eu me tivesse decidido a tanto. Imitava de se julgar mais ricos, mais poderosos, mais
nisso os viajantes que, estando perdidos numa livres e mais felizes que quaisquer outros homens,
floresta, não devem ficar dando voltas, ora para os quais, não tendo esta filosofia, por mais favo-
um lado, ora para outro, menos ainda permanecer recidos que sejam pela natureza e pelo destino,
num local, mas caminhar sempre o mais reto nunca são senhores de tudo o que desejam
possível para um mesmo lado, e não mudá-lo por (DESCARTES, 1983, p. 41-43).

– 93
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4. Críticas ao método cartesiano Pascal defendeu que nem todo conhecimento era
passível de ser alcançado pela dedução: alguns saberes
Longe de ser uma unanimidade, Descartes foi alvo só poderiam ser acessados por meio dos experimentos.
de críticas, especialmente em relação ao seu cogito. Para As pessoas não eram dotadas de qualquer mecanismo
Blaise Pascal (1623-1662), por exemplo, Descartes havia que as levasse, de forma natural, ao conhecimento; pelo
buscado apoio na ideia de Deus porque sua concepção contrário, em geral, elas alcançavam as verdades por
de mundo, o cogito, não se sustentava sozinha. Cristão, meio da intuição, e não da razão.
Pascal apoiou-se na doutrina fundada por Jansênio, para Para Pascal, as ideias claras e distintas de Descartes
quem a salvação viria por meio da graça divina, e apenas nada mais eram do que a demonstração da própria
para os eleitos. Tida como herética, essa atitude de fraqueza do uso da razão: eram apenas princípios inde-
indiferença era vista como extremamente perigosa, tanto monstráveis e de imensa fragilidade.
quanto as ideias protestantes. A própria geometria supõe que o espaço seja
Um dos aforismos mais famosos de Pascal é o que divisível ao infinito. Mas é tão certo que essa ideia
afirmava que “o coração tem razões que a própria razão de divisão ao infinito seja clara e distinta? Ela não
é, ao contrário, inteiramente obscura, incompreen-
desconhece”. Ao invocar as razões do coração, Pascal
sível e inconcebível? No entanto, é necessária.
não fazia referência aos sentimentos, mas aos princípios
Não tanto porque seja verdadeira – isso não pode-
que não eram demonstráveis, tais como os da geometria: mos saber –, mas por servir à geometria, que a
não havia como prová-los, embora devêssemos admiti- utiliza em suas demonstrações, estas sim evi-
los como verdadeiros. dentes. Em suma, para provar a força da mate-
mática, não é preciso a pretensão de que nela
tudo é certo e verdadeiro (ABRÃO, 1999, p. 207).
Ingimage/Fotoarena

Matemático competente e estudioso de problemas


envolvendo elementos da Física, Pascal conduziu expe-
rimentos sobre pressão atmosférica e outros fenômenos,
chegando à conclusão de que a confirmação de hipó-
teses, longe de solucionar qualquer problema, apenas
indicava a certeza mais provável. Aliás, era a probabilidade
de certeza que fundamentava a própria fé em Deus: por
acaso o homem, um quase nada diante do infinito, não
estaria sendo arrogante ao buscar a prova da existência
de Deus? Não seria melhor admitir que Deus era
incompreensível, encontrando-se oculto aos olhos dos
homens? Ao mostrar a fragilidade da razão, Pascal fez
Figura 3. Pascal defendeu que alguns saberes só poderiam ser
uma declaração de fé: não era necessário compreender
alcançados por meio da experimentação. Dessa forma, ele estabeleceu
limites para o alcance do processo dedutivo como meio de se atingir a Deus, mas apenas nele crer; em outras palavras, mesmo
verdade. o incompreensível podia existir.

Breve diálogo
Bettina Gerken Brasil, 40 anos, é bacharel em Filosofia e doutora em Saúde Pública. Atualmente, é professora da
Universidade Paulista – UNIP e coordenadora do curso de Nutrição da mesma instituição.
Pergunta: Qual a importância do trabalho de Descartes no contexto do Iluminismo do século XVIII?
Dra. Bettina Gerken Brasil: Descartes não foi o primeiro a sugerir que a dedução e os métodos racionais fossem os
melhores quando da busca do conhecimento. No entanto, sua relevância está no fato de que ele foi capaz de sintetizar
o que até então já havia sido falado sobre o tema e, mais importante, de sistematizar os processos por meio dos quais
a racionalidade seria capaz de superar os erros da experiência sensível. Porém, não se deve incorrer no equívoco de
imaginar que os séculos XVII e XVIII preferiram os métodos experimentais no lugar dos racionais. Aquele foi um
tempo em que também os métodos experimentais se desenvolveram de forma significativa. O lugar de destaque que
cabe a Descartes, porém, é que ele, talvez mais do que os outros filósofos do período, foi capaz de representar de
forma magnífica o espírito das Luzes, da primazia da razão, da autonomia intelectual do homem por meio do uso de
sua capacidade racional.
Pergunta: O que a leitura de Discurso do Método pode nos ensinar nos dias de hoje?

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Dra. Bettina Gerken Brasil: O Discurso do Método é um marco na história da Filosofia. Ali estão as bases do
pensamento cartesiano, especialmente no que diz respeito à vontade de Descartes de construir uma base para todo
conhecimento. Em Discurso do Método estão apresentadas as premissas que seriam seguidas por filósofos e
estudiosos das mais diferentes áreas do saber. As questões referentes à dúvida metódica como elemento necessário
para o pensamento são fundamentais. Também não podemos nos esquecer que Descartes, com sua obra, distanciou
definitivamente o sujeito pensante do objeto pensado. Mais: ele revelou o sujeito pensante como autoevidente.
Quando ele afirma o Cogito, o “penso, logo existo”, ele está dizendo que o pensamento é o que evidencia a nossa
existência, a existência do sujeito pensante.
Pergunta: Como os filósofos posteriores lidaram com as ideias de Descartes?
Dra. Bettina Gerken Brasil: Por sua importância, Descartes recebeu dois tipos de recepção por parte dos filósofos
posteriores: a aprovação ou a crítica. No entanto, uma evidência da sua importância reside justamente nisso:
independentemente da opinião que eles tiveram sobre a sua obra, foi impossível ignorá-la.

Referências do módulo 9
Carta. Tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. 3.
Textuais ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
ABRÃO, B. S. (Org.). História da Filosofia. São Paulo: Nova
Créditos das imagens
Cultural, 1999.
Figura 1: Disponível em: <[Link] [Link]/
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática,
HyWJCf lejpPpHm8Im2-2g6yiYtA=/1100x370/smart/
2002.
[Link] [Link]/sites/_portalebc2014/files/atoms
DESCARTES, R. Meditações; Objeções e respostas; As
_image/4866520465_a99b41569b_z.jpg>. Acesso em: 15
paixões da alma; Cartas. Tradução de J. Guinsburg e Bento
ago. 2017.
Prado Júnior. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
Figura 3: Disponível em: <[Link]
FALCON, F. J. C. Iluminismo. 4. ed. São Paulo: Ática, 2009.
images/ [Link]>. Acesso em: 8 ago.
GRANGER, G-G. Vida e obra. In: DESCARTES, René.
2017.
Meditações; Objeções e respostas; As paixões da alma;

1. a) defendem os sentidos como critério originário para


considerar um conhecimento legítimo.
Texto I b) entendem que é desnecessário suspeitar do
Experimentei algumas vezes que os sentidos eram significado de uma ideia na reflexão filosófica e crítica.
enganosos, e é de prudência nunca se fiar inteiramente c) são legítimos representantes do criticismo quanto à
em quem já nos enganou uma vez. gênese do conhecimento.
(R. Descartes. Meditações metafísicas. d) concordam que conhecimento humano é impossível
São Paulo: Abril Cultural, 1979.) em relação às ideias e aos sentidos.
e) atribuem diferentes lugares ao papel dos sentidos no
Texto II processo de obtenção do conhecimento.
Sempre que alimentarmos alguma suspeita de que
uma ideia esteja sendo empregada sem nenhum
significado, precisaremos apenas indagar: de que
impressão deriva esta suposta ideia? E se for impossível
atribuir-lhe qualquer impressão sensorial, isso servirá para
confirmar nossa suspeita.
(D. Hume. Uma investigação sobre o entendimento.
São Paulo: Unesp, 2004. Adaptado.)

Nos textos, ambos os autores se posicionam sobre a


natureza do conhecimento humano. A comparação dos
excertos permite assumir que Descartes e Hume
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2. – Os produtos e seu consumo constituem a 3.


meta declarada do empreendimento tecno-
lógico. Essa meta foi proposta pela primeira vez no início
da Modernidade, como expectativa de que o homem Texto I
poderia dominar a natureza. No entanto, essa expecta- Há já algum tempo eu me apercebi de que, desde
tiva, convertida em programa anunciado por pensadores meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões
como Descartes e Bacon e impulsionado pelo Iluminismo, como verdadeiras, e de que aquilo que depois eu fundei
não surgiu “de um prazer de poder”, “de um mero em princípios tão mal assegurados não podia ser senão
imperialismo humano”, mas da aspiração de libertar o mui duvidoso e incerto. Era necessário tentar seriamente,
homem e de enriquecer sua vida, física e culturalmente. uma vez em minha vida, desfazer-me de todas as
(A. Cupani. A tecnologia como problema filosófico: três opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo
enfoques, Scientiae Studia. São Paulo, v. 2 n. 4, 2004. novamente a fim de estabelecer um saber firme e
Adaptado.) inabalável.
(R. Descartes. Meditações concernentes à Primeira Filosofia.
Autores da filosofia moderna, notadamente Descartes e São Paulo: Abril Cultural, 1973. Adaptado.)
Bacon, e o projeto iluminista concebem a ciência como
uma forma de saber que almeja libertar o homem das Texto II
intempéries da natureza. Nesse contexto, a investigação É o caráter radical do que se procura que exige a
científica consiste em radicalização do próprio processo de busca. Se todo o
a) expor a essência da verdade e resolver definitivamente espaço for ocupado pela dúvida, qualquer certeza que
as disputas teóricas ainda existentes. aparecer a partir daí terá sido de alguma forma gerada
b) oferecer a última palavra acerca das coisas que pela própria dúvida, e não será seguramente nenhuma
existem e ocupar o lugar que outrora foi da filosofia. daquelas que foram anteriormente varridas por essa
c) ser a expressão da razão e servir de modelo para mesma dúvida.
outras áreas do saber que almejam o progresso. (F. L. Silva. Descartes: a metafísica da modernidade.
d) explicitar as leis gerais que permitem interpretar a São Paulo: Moderna, 2001. Adaptado).
natureza e eliminar os discursos éticos e religiosos.
e) explicar a dinâmica presente entre os fenômenos A exposição e a análise do projeto cartesiano indicam que,
naturais e impor limites aos debates acadêmicos. para viabilizar a reconstrução radical do conhecimento,
deve-se
a) retomar o método da tradição para edificar a ciência
com legitimidade.
b) questionar de forma ampla e profunda as antigas ideias
e concepções.
c) investigar os conteúdos da consciência dos homens
menos esclarecidos.
d) buscar uma via para eliminar da memória saberes
antigos e ultrapassados.
e) encontrar ideias e pensamentos evidentes que
dispensam ser questionados.

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5. (UNICAMP) – A dúvida é uma atitude que contribui


para o surgimento do pensamento filosófico moderno.
Neste comportamento, a verdade é atingida através da
supressão provisória de todo conhecimento, que passa a
ser considerado como mera opinião. A dúvida metódica
aguça o espírito crítico próprio da Filosofia.
(Gerd A. Bornheim. Introdução ao filosofar.
Porto Alegre: Globo, 1970, p. 11. Adaptado.)

A partir do texto, é correto afirmar que:


a) A Filosofia estabelece que opinião, conhecimento e
verdade são conceitos equivalentes.
b) A dúvida é necessária para o pensamento filosófico,
4. – É o caráter radical do que se procura que por ser espontânea e dispensar o rigor metodológico.
exige a radicalização do próprio processo de c) O espírito crítico é uma característica da Filosofia e
busca. Se todo o espaço for ocupado pela dúvida, surge quando opiniões e verdades são coincidentes.
qualquer certeza que aparecer a partir daí terá sido de d) A dúvida, o questionamento rigoroso e o espírito crítico
alguma forma gerada pela própria dúvida, e não será segu- são fundamentos do pensamento filosófico moderno.
ramente nenhuma daquelas que foram anteriormente
varridas por essa mesma dúvida.
(F. l. Silva. Descartes: a metafísica da modernidade.
São Paulo: Moderna, 2001. Adaptado.)

Apesar de questionar os conceitos da tradição, a dúvida


radical da filosofia cartesiana tem caráter positivo por
contribuir para o(a)
a) dissolução do saber científico.
b) recuperação dos antigos juízos.
c) exaltação do pensamento clássico.
d) surgimento do conhecimento inabalável.
e) fortalecimento dos preconceitos religiosos.

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6. – Pirro afirmava que nada é nobre nem 7. – Nunca nos tornaremos matemáticos, por
vergonhoso, justo ou injusto; e que, da exemplo, embora nossa memória possua
mesma maneira, nada existe do ponto de vista da todas as demonstrações feitas por outros, se nosso
verdade; que os homens agem apenas segundo a lei e o espírito não for capaz de resolver toda espécie de
costume, nada sendo mais isto do que aquilo. Ele levou problemas; não nos tornaríamos filósofos, por ter lido
uma vida de acordo com esta doutrina, nada procurando todos os raciocínios de Platão e Aristóteles, sem poder
evitar e não se desviando do que quer que fosse, formular um juízo sólido sobre o que nos é proposto.
suportando tudo, carroças, por exemplo, precipícios, Assim, de fato, pareceríamos ter aprendido, não ciências,
cães, nada deixando ao arbítrio dos sentidos. mas histórias.
(D. Laércio. Vidas e sentenças dos filósofos ilustres. (R. Descartes. Regras para a orientação do espírito.
Brasilia: Editora UNB, 1988.) São Paulo: Martins Fontes, 1999.)

O ceticismo, conforme sugerido no texto, caracteriza-se Em sua busca pelo saber verdadeiro, o autor considera o
por: conhecimento, de modo crítico, como resultado da
a) Desprezar quaisquer convenções e obrigações da a) investigação de natureza empírica.
sociedade. b) retomada da tradição intelectual.
b) Atingir o verdadeiro prazer como o princípio e o fim da c) imposição de valores ortodoxos.
vida feliz. d) autonomia do sujeito pensante.
c) Defender a indiferença e a impossibilidade de obter e) liberdade do agente moral.
alguma certeza.
d) Aceitar o determinismo e ocupar-se com a esperança
transcendente.
e) Agir de forma virtuosa e sábia a fim de enaltecer o
homem bom e belo.

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MÓDULO 10 O racionalismo ético de Espinosa e o empirismo de Locke e Hume


Introdução
Os atributos são as qualidades por meio das quais
Deus se manifesta. Os atributos de Deus que estão
Neste módulo, estudaremos duas correntes filosó-
ao alcance de nossa compreensão são o pensamento
ficas dos Seiscentos e dos Setecentos: o racionalismo
e a matéria.
ético de Espinosa e o empirismo de Locke e Hume. Ao
final do Módulo, você encontrará exercícios e algumas
referências bibliográficas. O pecado de Espinosa foi o de declarar que a ideia de
um Deus senhor e separado dos homens apenas tinha o
1.1. Baruch de Espinosa (1632-1677)
propósito político de dominação. Em outras palavras, a
Baruch de Espinosa (ou Espinoza) nasceu no seio de concepção de Deus transcendente, superior às coisas
uma família judia que havia buscado na Holanda abrigo físicas e reais, servia apenas para construir a ideia de um
das perseguições religiosas sofridas em Portugal e na ser criador que a tudo julgava e que exigia obediência
Espanha. Tido como judeu e ateu pelos cristãos, e como total. Segundo Strathern (2000), Spinosa demonstra que
herege pelos judeus, Espinosa foi um filósofo maldito. Por o homem não deve qualquer obediência a um Deus trans-
meio de procedimentos rigorosos e sistemáticos, cendente. Como o homem é parte da substância divina,
construiu um sistema matematicamente estruturado, no sua liberdade nada mais é do que uma necessidade
qual Deus é a própria natureza. imanente à sua própria natureza divina.
A equivalência de Deus ao universo gerou um sem-
número de críticas à filosofia de Espinosa. Afinal,
na concepção de Spinoza, podemos amar a Deus Observação:
o quanto quisermos, mas não há como ele nos
A transcendência é a característica daquilo que,
amar em troca. Isso fez muita gente sentir-se pro-
superior aos limites normais, extrapola a natureza física
fundamente desamada e face à perspectiva de
das coisas. Em outras palavras, a transcendência é
não ser recompensada por toda sua santidade. Ao
tornar sagradas todas as coisas, Spinoza desenca- característica do que é metafísico e, portanto, daquilo
deou uma censura doida (STRATHERN, 2000, p. que diz respeito à essência das coisas. Como campo
14). de investigação, a metafísica ocupa-se em explicar a
essência dos seres e suas relações com o universo. A
Para Espinosa, de forma panteísta, o universo e Deus transcendência, portanto, não diz respeito às condi-
fazem parte de uma única coisa. Deus é o universo e o ções de existência das coisas (como as coisas estão),
universo é Deus. Nas palavras do filósofo, Deus sive mas às razões que explicam a origem e a existência
Natura (Deus ou Natureza). Como substância única, Deus- delas (por que as coisas existem ou por que elas são
Universo tem infinitos atributos, dos quais apenas a como são). Para Espinosa, não faz o menor sentido a
extensão e o pensamento são por nós percebidos ideia de um Deus transcendente, que existe para além
(STRATHERN, 2000). do que é físico e do que faz parte da natureza.
Imanência pode ser compreendida como a pre-
Observação: sença do resultado de uma ação na própria ação. Deus
O panteísmo é a doutrina para a qual Deus e o universo é causa de tudo e não existe nada fora dele. Essa ideia
formam uma única realidade integrada. A substância é contrária à perspectiva tradicional de um Deus trans-
é o que existe por si só e que independe de qualquer cendente, cuja existência se encontra separada daquilo
outra concepção para ser concebido. Por isso, Deus é que por Ele foi criado. Assim, na ortodoxia, há Deus e
o único elemento que corresponde à definição de as coisas criadas por ele; para Espinosa, só há Deus.
substância: Deus é causa de si (Deus criou Deus) e Na perspectiva dele, “o produto expressa o produtor,
existe em si mesmo (Deus não está subordinado a e este se exprime no produto” (ABRÃO, 1999, p. 217).
nada para existir). Espinosa define substância como
“aquilo que é em si e concebido por si, quer dizer,
Para Espinosa, todo o conteúdo bíblico estava longe
aquilo cujo conceito não tem necessidade doconceito
de corresponder à verdade, limitando-se a funcionar como
de uma outra coisa para ser formado” (STRATHERN,
um conjunto de preceitos que tinham o objetivo de
2000, p. 14). Para Strathern (2000), a definição de
normatizar a conduta humana. Espinosa afirmará: Deus é
substância é o ponto de origem e o princípio básico da
imanente, ou seja, ele é a única substância existente.
filosofia de Espinosa: caso não a aceitemos, nada mais
Deus existe por si só e não depende de mais nada para
faz sentido.
existir. Tudo que de Deus emana é expressão da sua
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substância. Deus é tudo, e tudo é Deus. O sentido do uni- O desejo é paixão. A vontade, decisão. O desejo
verso, ou seja, Deus, é o próprio universo, já que não há nasce da imaginação. A vontade se articula à
nada além dele. Assim, se cada um de nós faz parte do reflexão. O desejo não suporta o tempo, ou seja,
corpo de Deus, ao ferirmos alguém estamos, de fato, desejar é querer a satisfação imediata e o prazer
imediato. A vontade, ao contrário, realiza-se no
ferindo a nós mesmos. Cada um de nós, dessa forma, é
tempo; o esforço e a ponderação trabalham com
responsável pela felicidade de todos (STRATHERN, 2000).
a relação entre meios e fins e aceitam a demora
da satisfação. Mas é o desejo que oferece à
vontade os motivos interiores e os fins exteriores
da ação. [...] Consciência, desejo e vontade
formam o campo da vida ética: consciência e
desejo referem-se às nossas intenções e moti-
vações; a vontade, às nossas ações e finalidades.
As primeiras dizem respeito à qualidade da atitude
interior ou dos sentimentos internos ao sujeito
moral; as últimas, à qualidade da atitude externa,
das condutas e dos comportamentos do sujeito
moral (CHAUÍ, 2002, p. 352).

Figura 1. Para Espinosa, não há Deus e o mundo que ele criou, mas
apenas Deus, que é também o mundo por Ele criado.

Deus está presente em todo o universo, sendo,


portanto, o próprio cosmos; a realidade é fruto da Figura 2. Espinosa aprendeu o ofício de fabricante de lentes e passou a
identidade entre mente e corpo, agora não percebidos produzi-las. Na Holanda dos Seiscentos, as lentes eram utilizadas para
como pertencentes a planos distantes, mas como partes a fabricação de microscópios, telescópios náuticos e óculos de leitura
(STRATHERN, 2000).
de uma mesma substância.
É importante também mencionar que Espinosa
Parece compreensível que as ideias de Espinosa
acabou por solucionar um dilema anteriormente enfren-
tenham ofendido não apenas a religião judaica, mas
tado por Descartes: para este, havia a alma e o corpo,
também outras que haviam se abrigado na tolerante e
sendo o conhecimento possível apenas por meio da
protestante Holanda. Como perdoar um filósofo que dizia
representação da realidade. Para Descartes, a questão
não existir provas na Bíblia da existência de Deus ou de
insolúvel dizia respeito às relações entre a mente (movida
anjos e da imortalidade da alma? Assim, em 1656, a
pela razão) e o corpo (movido mecanicamente). Para Espi-
comunidade judaica de Amsterdã achou por bem
nosa, essa operação é desnecessária, já que corpo e alma
excomungar o filósofo por meio de um herém (em
se expressam “mutuamente e constituem a unidade
hebraico, decreto de proibição), cujo texto segue abaixo.
imanente do homem” (ABRÃO, 1999, p. 217). Em outras Os senhores do Mahamad fazem saber a vossas
palavras, a mente e o corpo faziam parte da mesma coisa, mercês: como há dias que, tendo notícia das más
Deus, mas percebidos por meio de atributos distintos opiniões de Baruch de Espinosa, procuraram por
(a mente, operada pelo pensamento; o corpo, pela extensão). diferentes caminhos e promessas retirá-lo de seus
Assim, Espinosa é considerado um dos mais maus caminhos; e que, não podendo remediá-lo,
importantes filósofos do racionalismo ético enquanto antes, pelo contrário, tendo a cada dia maiores
tradição filosófica, que atribui à razão o centro da vida notícias das horrendas heresias que praticava e
ética e que distingue necessidade, desejo e vontade. A ensinava, e das enormes obras que praticava;
necessidade está relacionada ao que necessitamos para tendo disso muitas testemunhas fidedignas que
depuseram e testemunharam tudo em presença
continuar existindo. O desejo adiciona prazer à satisfação
de dito Espinosa, de que ficou convencido, o qual
das necessidades. "No desejo, nossa imaginação busca
tendo tudo examinado em presença dos Senhores
o prazer e foge da dor pelo significado atribuído ao que é
Hahamín, deliberaram com o seu parecer que dito
desejado ou indesejado" (CHAUÍ, 2002, p. 351). Por sua Espinosa seja excomunhado e apartado de toda
vez, a vontade é um ato voluntário que envolve esforço, nação de Israel como atualmente o põe em
discernimento e reflexão. A vontade faz referência ao que herém, com o Herém seguinte:
é possível. Em outras palavras, Com a sentença dos Anjos, com dito dos Santos,

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com o consentimento do Deus Bendito e o passividade e a atividade, ou seja, a virtude mostrava


consentimento de todo este Kahal Kados, diante sermos capazes de nos tornar causa ativa da nossa
dos Santos Sepharin, estes, com seiscentos e existência, dos nossos atos e pensamentos. Nesses
treze parceiros que estão escritos neles, nós termos, “o vício não é um mal: é fraqueza para existir, agir
excomunhamos, apartamos, amaldiçoamos e
e pensar” (CHAUÍ, 2002, p. 350). Dessa forma, para o
praguejamos a Baruch de Espinosa, como o
filósofo, a razão nos impediria de perder a liberdade sob
herém que excomunhou Josué a Jericó, com a
a ação das paixões.
maldição que maldisse Elias aos moços, e com
todas as maldições que estão escritas na Lei. De forma oposta a Hobbes, que considerava o
Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito governo uma condição indispensável para que os homens
seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, não tivessem uma vida cheia de conflitos e guerras,
maldito ele em seu sair e maldito ele em seu Espinosa entendia que a proteção do indivíduo era a única
entrar; não queira Adonai perdoar a ele, que então razão de ser do Estado. Por isso, ele deveria garantir total
semeie o furor de Adonai e seu zelo neste homem liberdade de pensamento e opinião. No caso de opiniões
e caia nele todas as maldições escritas no livro que pudessem colocar em risco a segurança de todos, a
desta Lei. E vós, os apegados com Adonai, vosso sua prática deveria ser proibida. Em outras palavras:
Deus, sejais atento todos vós hoje. Advertindo alguém poderia ser contra a pintura e manifestar-se a
que ninguém lhe pode falar oralmente nem por
respeito disso com total liberdade; no entanto, jamais
escrito, nem lhe fazer nenhum favor, nem estar
poderia atentar contra a segurança dos pintores, ou incitar
com ele debaixo do mesmo teto, nem junto com
as pessoas a fazê-lo.
ele a menos de quatro côvados (três palmos, isto
é, 0,66m; cúbito), nem ler papel algum feito ou Tendo passado boa parte da sua vida em condições
escrito por ele (CONIB, 2016). de extrema pobreza, Espinosa morreu de tuberculose.
Suas principais obras – Ética e Tratado teológico-político –
Segundo Chauí (2002), Espinosa considerava os seres são um imenso legado à filosofia. Afinal, ao utilizar a
humanos naturalmente passionais. Ao nos deixarmos razão, a lógica e o rigor matemático para construir um
levar por forças exteriores ao nosso corpo e à nossa alma, Deus à imagem e semelhança do universo determinístico,
entregamo-nos às paixões. Essas paixões, a alegria, a o filósofo levou o racionalismo cartesiano às suas últimas
tristeza e o desejo, e todas as outras que delas derivam, consequências. Mais tarde, Locke faria a apologia do
podem ser boas ou más. empirismo, substituindo a razão pela experiência. De
Uma paixão triste é aquela que diminui a qualquer forma, Espinosa ocupa um lugar único no campo
capacidade de ser e agir de nosso corpo e de das ideias: em busca de uma verdade última e que
nossa alma; ao contrário, uma paixão alegre pudesse explicar tudo, olhou para o mundo com a
aumenta a capacidade de existir e agir de nosso perspectiva da eternidade (sub specie aeternitatis),
corpo e de nossa alma. No caso do desejo, desvelando um
podemos ter paixões tristes (como a crueldade, a universo panteístico cuja verdade só pode ser
ambição, a avareza) ou alegres (como a gratidão e apreendida através da razão, da matemática e da
experimentação racional, um deus-mundo em que
a ousadia) (CHAUÍ, 2002, p. 349).
o número é prece. Talvez fosse isso que Spinoza
tinha em mente e, com efeito, pode ser uma bela
Para Espinosa, o vício representava a submissão às
descrição poética da ciência moderna vista sub
paixões e a virtude representava a transição entre a
specie aeternitatis (STRATHERN, 2000, p. 20).

Saiba mais
Sugerimos que você assista Espinosa: o apóstolo da razão (dir. Christopher Spencer, 1994, 52 minutos). O filme,
disponível na internet, encena a luta de Espinosa contra as superstições e o conflito entre o filósofo e as autoridades
judaicas de Amsterdã. Ainda, aborda as divergências entre católicos e protestantes e entre republicanos e
monarquistas, bem como as repercussões provocadas pela Restauração da monarquia inglesa após a morte de
Cromwell e as agressões entre Holanda e França. A respeito desse cenário, o filme também narra o assassinato dos
irmãos De Witt. Filhos de uma importante família holandesa, os De Witt foram tutores de Guilherme III, Príncipe de
Orange. Guilherme III invadiu a Inglaterra, depondo o rei católico Jaime II, durante a chamada Revolução Gloriosa, que
marcou o fim do absolutismo inglês e o crescente poder do parlamento. A reação anglo-francesa não demorou e
Guilherme III foi obrigado a recuar. Desejoso de se eximir de qualquer responsabilidade pela guerra que havia
provocado, Guilherme III atribuiu aos irmãos De Witt a iniciativa das agressões. Quando as tropas francesas ocuparam
os países baixos, os dois irmãos foram assassinados pela multidão enfurecida, de forma extremamente brutal.

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1.2. O Empirismo de Locke e Hume pedaço de ferro) no calor do fogo, não só ele se
derreterá, mas também passará a ocupar um
O empirismo foi uma resposta oferecida pela filosofia
espaço muito maior no interior do recipiente. A
ao problema da origem da nossa capacidade de raciocínio
experiência também repete constantemente para
e de intuição. De forma contrária ao inatismo – que
mim a possibilidade que tenho de retirar um
defende a ideia de que nascemos com inteligência e com objeto preso dentro de um outro, se eu aquecer
capacidade para raciocinar – o empirismo argumenta que este último, pois, aquecido, ele solta o que estava
nossas ideias e nossa competência para raciocinar são preso no seu interior, parecendo alargar-se e
adquiridas e desenvolvidas por meio da experiência. aumentar de tamanho. Experiências desse tipo, à
Antes da experiência, dizem eles, nossa razão é medida que vão se repetindo sempre da mesma
como uma “folha em branco”, onde nada foi maneira, vão criando em mim o hábito de associar
escrito; uma “tábula rasa”, onde nada foi grava- o calor com certos fatos. Adquiro o hábito de
do. Somos como uma cera sem forma e sem nada perceber o calor e, em seguida, um fato igual ou
impresso nela, até que a experiência venha semelhante a outros que já percebi inúmeras
escrever na folha, gravar na tábula, dar forma à vezes. E isso me leva a dizer: “O calor é a causa
cera (CHAUÍ, 2002, p. 71). desses fatos”. Como os fatos são de aumento do
volume ou da dimensão dos corpos submetidos
Para os empiristas, nossa primeira fonte de ao calor, acabo concluindo: “O calor é a causa da
conhecimento é a experiência dos sentidos. Aquilo que é dilatação dos corpos” e também “A dilatação dos
percebido pelos sentidos (cores, sons, sabores, odores corpos é o efeito do calor” (CHAUÍ, 2002, p. 72).
etc.) forma uma percepção. A combinação ou associação
entre percepções formam, por sua vez, as ideias. Por A aceitação dos pressupostos empiristas nos conduz
semelhança, proximidade, contiguidade ou repetição, a um problema difícil de resolver: se nosso pensamento
criamos o hábito de associar determinadas percepções, resulta do hábito psicológico de associar ideias, a ciência
construindo, assim, ideias. "As ideias, trazidas pela – fruto do nosso pensamento – carece de objetividade.
experiência, isto é, pela sensação, pela percepção e pelo Afinal, a objetividade defende que as verdades cons-
hábito, são levadas à memória e, de lá, a razão as apanha truídas para explicar a realidade não sofram qualquer
para formar os pensamentos" (CHAUÍ, 2002, p. 72). contaminação por parte dos nossos costumes, nossos
preconceitos, nossos vieses. No entanto, são justamente
os nossos costumes e os nossos hábitos que nos
auxiliam na tarefa de encontrar explicações plausíveis
para o que nos cerca.
Em referência ao raciocínio anterior, poderíamos
perguntar: e se um dia, ao invés de ferver e aumentar de
volume, a água colocada ao fogo transformar-se em gelo?
Alguém poderia lembrar da impossibilidade de isso
acontecer, mas a pergunta permaneceria, ainda, sem
resposta. Acreditamos que a água ferverá e aumentará
de tamanho porque isso sempre ocorreu. Mas o fato de
um fenômeno ter se repetido até então não garante que
Figura 3. As percepções formam-se por meio da experiência dos ele sempre ocorrerá da mesma forma. Portanto, o fato de
sentidos. a ciência apoiar-se, em grande parte, naquilo que
construímos por meio de hábitos psicológicos torna-a
Uma das formas de construirmos hábitos racionais é vulnerável e suscetível a críticas.
por meio da construção de relações causais. Procuramos Entre os séculos XVI e XVIII, dois filósofos ingleses se
saber o que causa ou explica determinado fenômeno; notabilizaram por defender as teses empiristas: John
precisamos saber o que ocorre, caso nos deparemos com Locke e David Hume.
determinada coisa:
A experiência me mostra, todos os dias, que, se 1.2.1. John Locke (1632-1704)
eu puser um líquido num recipiente e levar ao
Locke é um dos mais ilustres críticos ao inatismo e ao
fogo, esse líquido ferverá, saindo do recipiente
sob a forma de vapor. Se o recipiente estiver total-
racionalismo; apesar de a sua formação em Oxford ter
mente fechado e eu o destampar, receberei um privilegiado o estudo dos clássicos, da lógica, da metafí-
bafo de vapor, como se o recipiente tivesse ficado sica e da matemática, Locke interessou-se por experiên-
pequeno para conter o líquido. A experiência cias químicas e medicina (aliás, chegou a praticar a
também me mostra, todo o tempo, que se eu medicina por diversas vezes, quase sempre chegando a
puser um objeto sólido (um pedaço de vela, um diagnósticos e prognósticos corretos).
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Locke, era evidente que nem todos os homens conhe-


Observação: ciam princípios filosóficos básicos; portanto, como
O inatismo defende que as ideias nascem com o ser acreditar em princípios inatos universais? Segundo ele, a
humano e independem de qualquer experiência para alma humana era, ao nascimento, uma tábula rasa, um
que possam ser desenvolvidas. Em outras palavras, o papel em branco no qual passariam a ser impressos os
ser humano já nasce com os elementos necessários resultados da experiência. Aprenderíamos com a expe-
para a compreensão do mundo, não sendo necessário riência e a partir da percepção da realidade por meio dos
qualquer ensinamento ou experiência individual para sentidos.
que esses elementos sejam aperfeiçoados. Para Strathern (1997b), Locke, contemporâneo e em
alguns casos amigo de grandes pensadores científicos
daquele momento (por exemplo, Isaac Newton), viveu no
Embora a história tenha lhe concedido lugar de período em que a teoria heliocêntrica foi finalmente
destaque no panteão dos filósofos políticos (sua obra, aceita, em que a gravidade celeste e o movimento circular
Leviatã, é um marco do ideário democrático liberal), Locke do sangue no corpo humano foram identificados.
desempenhou papel significativo na elaboração do O emergente mundo moderno era comple-
pensamento empirista. No Ensaio sobre o entendimento tamente diferente do que tinham vivido os
humano, obra em apresenta suas ideias sobre a impor- medievais. Esse mundo novo necessitava uma
tância da experiência na construção do saber, o filósofo nova forma de pensar, o que, na filosofia, foi
proporcionado por Locke. Seu Ensaio sobre o
deixa claras as influências recebidas de pensadores que,
entendimento humano seria a obra filosófica de
como ele, faziam críticas contundentes à tradição do
maior influência na Europa pelos cem anos
inatismo e do racionalismo. seguintes (STRATHERN, 1997b, p. 19).
O conhecimento humano deriva da experiência
externa e da reflexão (a palavra de Locke para
Locke também foi responsável por uma farta obra
introspecção) que nos permite descobrir o que
sobre Política. Era um defensor da liberdade dos cidadãos
acontece em nossas mentes. Utilizamos a razão
(e de que a garantia da liberdade individual era a principal
para tirar conclusões a partir dessas experiências.
função do governo) e da ordem política; e criticava de
Dessa forma, chegamos às generalizações, às leis
maneira contundente o direito divino dos monarcas e o
e às verdades da matemática. Como Descartes,
absolutismo real. A marca dessas ideias e a primazia da
Locke acreditava que o conhecimento empírico que
experiência como forma de aquisição do conhecimento
recebemos dos sentidos pode apenas ser provável.
são visíveis nas obras dele. Segundo Rodríguez (s/d), e
Mas Locke não deixou que isso minasse todo esse
considerando-se a questão do empirismo como eixo de
conhecimento, como Descartes. Ao invés de
análise, é possível colocar os dois textos principais de
recorrer à razão, ele usava o senso comum. O
Locke para dialogar, quais sejam, Ensaio sobre o
conhecimento empírico e o conhecimento daí
entendimento humano e Dois tratados sobre o governo.
derivado podem apenas ser prováveis, mas, me-
Assim como, a partir da experiência, podemos
diante o uso da intuição e da dedução, podemos
concluir que não há ideias inatas, a experiência
avaliar o grau de probabilidade (STRATHERN,
igualmente nos mostra que não há soberanos
1997b, p. 14).
inatos. Assim como os nossos conhecimentos
devem ser construídos a partir de ideias simples,
Por isso, e em função dos graus de probabilidade do originadas da experiência (externa ou interna), o
conhecimento, Locke distinguiu dois tipos de disciplinas Estado deve ser efeito de uma ação humana. E
científicas: o primeiro, constituído pelas matemáticas e essa ação é o pacto social, efetivado pelos
pelas ciências morais; o segundo, pelas ciências experi- cidadãos (RODRÍGUEZ, s/d, p. 7).
mentais, para as quais a certeza “dependeria do critério
de verificação da conveniência entre as ideias que estão Assim, a epistemologia empirista de Locke não
na mente humana e a realidade exterior a ela” (MARTINS apenas sugere uma forma de conhecer o mundo e cons-
e MONTEIRO, 1999, p. 14). truir o conhecimento, mas também fundamenta a análise
Como legítimo defensor dos interesses da burguesia, política que o filósofo faz tendo em vista a sociedade
classe à qual pertencia, Locke procurou mostrar que o inglesa que emergia da Revolução Gloriosa de 1688
inatismo materializava o preconceito, traduzindo-se em (RODRÍGUEZ, s/d).
dogmatismo individual. "Se os princípios fossem verda-
deiramente inatos, constituiriam uma certeza irredutível, Observação:
sem nenhum outro fundamento a não ser a afirmação do
Já tratamos deste tema anteriormente, em Espinosa.
indivíduo" (MARTINS e MONTEIRO, 1999, p. 9). Para

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1.2.2. David Hume (1711-1776) a) por meio das impressões, guardaríamos os dados
David Hume, escocês e jurista, é um dos nomes mais obtidos a partir dos nossos sentidos; exemplos dessa
importantes da Escola Empirista. Extremamente cético, experiência seriam o perfume de uma flor ou a sensação
ele afirmava que apenas a experiência poderia ser fonte do calor em nossa pele; assim, as impressões aparecem
do conhecimento; assim, negava não apenas a metafísica na mente quando desejamos, odiamos, queremos,
filosófica, mas também aquilo que se articulava por meio amamos;
da dedução. Em outras palavras, Hume criticava os extre- b) por meio das ideias, guardaríamos a lembrança de
mos que delimitavam o campo da investigação filosófica: determinada experiência, a partir de então representada
por um lado, fazia objeções à teoria abstrata que não na nossa mente: a lembrança de uma ventania inesperada
aderia à realidade; por outro, questionava o espírito prático ou de um agradável dia na praia. As ideias, por sua vez,
que não fazia uso da teoria para organizar aquilo que era são cópias fracas e desbotadas das impressões.
observado cotidianamente. Por isso, para ele, Hume faz a pergunta: como é que as ideias são
tudo quanto temos no nosso conhecimento é associadas pela mente? Como se dá, afinal, o processo
representação da realidade, não a realidade mes- que, da experiência, chega às relações de causa e efeito
ma. Portanto, o estudo que deve ser empreendido que dão base ao nosso raciocínio? Por exemplo:
pela filosofia não é o da coisa em si, mas o da estabelecemos associação entre fogo e calor; no entanto,
nossa faculdade cognitiva, no ato de construir as o estabelecimento de uma relação causal entre essas
representações a partir de instâncias a priori duas coisas não é imediato, já que não há nada que, a
(RODRÍGUEZ, s/d., p. 8), princípio, explique a relação entre elas. Para Hume,
dos hábitos que nos auxiliam no ato de associar ideias. a relação de causalidade é uma crença, baseada
no hábito, que se expressa por meio de palavras
como ‘portanto’, ‘logo’, ‘porque’.
Observação: Crença, mas não ficção: ambas se produzem pela
A priori (em latim, anterior) é o conhecimento que não imaginação, e, no entanto, as ideias em que se
depende da experiência. O raciocínio matemático é um acredita são mais vivas e fortes do que as de
bom exemplo de conhecimento a priori. Caso eu ficção. A crença é ainda mais viva quando apoiada
queira somar dois e dois, não se faz necessário que eu na experiência repetida de fatos semelhantes que,
junte duas maçãs a outras duas maçãs; a soma é pelo hábito, produz a sensação de que os fatos
naturais ocorram com regularidade. Isso também
calculada por meio do pensamento, sem que seja
permite que se acredite na repetição dos mesmos
necessária qualquer experiência. Em contrapartida, a
fatos em experiências futuras. O caráter necessá-
posteriori (em latim, posterior) é o conhecimento que rio e universal das leis da natureza baseia-se nessa
advém da experiência; assim, quando afirmo ser o mel crença da regularidade da natureza (ABRÃO, 1999,
um alimento doce, faço-o tendo como referência a p. 260).
experiência.

Observação:
O ceticismo de Hume o levou a aproximar-se do
solipsismo, perspectiva que parte do princípio de que Para Hume, a associação entre ideias pode ocorrer de
apenas o ente observador existe, sendo o restante (o três formas distintas:
mundo, a realidade) apenas parte da consciência. a) por semelhança: ao vermos um retrato,
Nem o mundo da religião nem o mundo da ciência pensamos na pessoa;
está certo. Podemos optar por acreditar na religião, b) por contiguidade: amarelo e ouro estão
se quisermos, mas não o fazemos com base em próximos e, por isso, associamos as duas ideias;
qualquer evidência exata. E podemos escolher c) por causalidade: associamos ferimento e dor,
fazer deduções científicas, a fim de impor nossa porque supomos a existência de uma relação causal
própria vontade sobre o mundo. Mas nem a entre os dois.
religião nem a ciência existem em si mesmas.
Ainda, temos dois tipos de associações de ideias: as
Ambas são meras reações nossas à experiência,
primeiras são as matemáticas, demonstráveis por
uma de muitas reações possíveis (STRATHERN,
1997a, p. 7).
meio da operação do pensamento; as segundas são
as associações de ideias por causalidade, que têm a
A experiência, única base segura para a construção experiência como fundamento.
do conhecimento, teria como fundamento nossa percep-
ção e se materializaria de duas formas distintas:

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Figura 4. Hume indaga: Para Hume, “os homens associam ideias e acreditam
como sabemos que o fogo nessa associação por força do hábito, ou costume. E este
é causa do calor? Ele não é a repetição de experiências semelhantes por parte
responde: pela experiência. de um único indivíduo, mas de muitos” (ABRÃO, 1999, p.
No entanto, não há nada na 260). Acreditamos que o sol nascerá amanhã, como
experiência que possa nos sempre nasceu, pois acreditamos nisso; em outras
revelar que “se fogo, então palavras, nossa certeza tem como origem a crença. O
calor”. A experiência ape- conhecimento, por sua vez, resulta da associação de
nas nos permite concluir ideias, que é traduzida na conexão de várias impressões
que há fogo e calor. A por meio de suas cópias; dessa associação surgem ideias
relação de causalidade é, complexas.
assim, uma crença. Acredi- Esse raciocínio tem como ponto de chegada um
tamos na relação causal inevitável ceticismo: de fato, todo o conhecimento
fogo e calor porque os científico que se constrói a partir da razão e da
costumes nos mostraram demonstração – responsáveis pela nossa elaboração de
que há causalidade entre explicações causais – tem bases não racionais, tais como
essas duas coisas. a crença e o hábito.

Referências RODRÍGUEZ, R. V. O empirismo inglês. Juiz de Fora:


Universidade Federal de Juiz de Fora, s/d. Disponível em:
<[Link] ecsbdefesa. com. br/defesa/fts/[Link]>.
Textuais
Acesso em: 9 nov. 2017.
ABRÃO, B. S. (Org.). História da Filosofia. São Paulo: Nova
STRATHERN, P. Hume em 90 minutos. Trad. Maria Helena
Cultural, 1999.
Geordane. Rio de Janeiro, Zahar, 1997a.
CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
STRATHERN, P. Locke em 90 minutos. Trad. Maria Helena
CONIB – Confederação Israelita do Brasil. Carta de
Geordane. Rio de Janeiro: Zahar, 1997b.
excomunhão de Baruch Espinoza. 2016. Disponível em:
STRATHERN, P. Spinoza em 90 minutos. Trad. Marcus
<[Link]
Penchel. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
munho-de-baruch-espinoza>. Acesso em: 19 out. 2017.
LOCKE, J. Ensaio acerca do entendimento humano. Trad. Audiovisual
Anoar Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 1999. Espinosa: o apóstolo da razão. Dir. Christopher Spencer.
MARTINS, C. E.; MONTEIRO, J. P. Vida e obra. In: LOCKE, Inglaterra: Bandung Productions, 1994. 52 minutos.
J. Ensaio acerca do entendimento humano. Trad. Anoar
Alex. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

1. – Todo o poder criativo da mente se reduz a nada mais do que a faculdade de compor, transpor, aumentar
ou diminuir os materiais que nos fornecem os sentidos e a experiência. Quando pensamos em uma
montanha de ouro, não fazemos mais do que juntar duas ideias consistentes, ouro e montanha, que já conhecíamos.
Podemos conceber um cavalo virtuoso, porque somos capazes de conceber a virtude a partir de nossos próprios
sentimentos, e podemos unir a isso a figura e a forma de um cavalo, animal que nos é familiar.
(D. Hume. Investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: Abril Cultural, 1995.)

Hume estabelece um vínculo entre pensamento e impressão ao considerar que


a) os conteúdos das ideias no intelecto têm origem na sensação.
b) o espírito é capaz de classificar os dados da percepção sensível.
c) as ideias fracas resultam de experiências sensoriais determinadas pelo acaso.
d) os sentimentos ordenam como os pensamentos devem ser processados na memória.
e) as ideias têm como fonte específica o sentimento cujos dados são colhidos na empiria.

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d) concordam que conhecimento humano é impossível


em relação às ideias e aos sentidos.
e) atribuem diferentes lugares ao papel dos sentidos no
processo de obtenção do conhecimento.

2. 3. (UNICAMP) – A maneira pela qual adquirimos qualquer


conhecimento constitui suficiente prova de que não é
inato.
(John Locke. Ensaio acerca do entendimento humano.
Texto I São Paulo: Nova Cultural, 1988, p. 13.)

Experimentei algumas vezes que os sentidos eram O empirismo, corrente filosófica da qual Locke fazia parte,
enganosos, e é de prudência nunca se fiar inteiramente a) afirma que o conhecimento não é inato, pois sua
em quem já nos enganou uma vez. aquisição deriva da experiência.
(R. Descartes. Meditações metafísicas. b) é uma forma de ceticismo, pois nega que os
São Paulo: Abril Cultural, 1979.) conhecimentos possam ser obtidos.
c) aproxima-se do modelo científico cartesiano, ao negar
Texto II a existência de ideias inatas.
Sempre que alimentarmos alguma suspeita de que uma d) defende que as ideias estão presentes na razão desde
ideia esteja sendo empregada sem nenhum significado, o nascimento.
precisaremos apenas indagar: de que impressão deriva
esta suposta ideia? E se for impossível atribuir-lhe
qualquer impressão sensorial, isso servirá para confirmar
nossa suspeita.
(D. Hume. Uma investigação sobre o entendimento.
São Paulo: UNESP, 2004. Adaptado.)

Nos textos, ambos os autores se posicionam sobre a


natureza do conhecimento humano. A comparação dos
excertos permite assumir que Descartes e Hume
a) defendem os sentidos como critério originário para
considerar um conhecimento legítimo.
b) entendem que é desnecessário suspeitar do
significado de uma ideia na reflexão filosófica e crítica.
c) são legítimos representantes do criticismo quanto à
gênese do conhecimento.

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4. – Pode-se admitir que a experiência passada


dá somente uma informação direta e segura
sobre determinados objetos em determinados períodos
do tempo, dos quais ela teve conhecimento. Todavia, é
esta a principal questão sobre a qual gostaria de insistir:
por que esta experiência tem de ser estendida a tempos
futuros e a outros objetos que, pelo que sabemos,
unicamente são similares em aparência. O pão que
outrora comi alimentou-me, isto é, um corpo dotado de
tais qualidades sensíveis estava, a este tempo, dotado de
tais poderes desconhecidos. Mas, segue-se daí que este
outro pão deve também alimentar-me como ocorreu na
outra vez, e que qualidades sensíveis semelhantes
devem sempre ser acompanhadas de poderes ocultos
semelhantes? A consequência não parece de nenhum
modo necessária.
(D. Hume. Investigação acerca do entendimento humano.
São Paulo: Abril Cultural, 1995.)
O problema descrito no texto tem como consequência a
a) universabilidade do conjunto das proposições de
observação.
b) normatividade das teorias científicas que se valem da
experiência.
c) dificuldade de se fundamentar as leis científicas em
bases empíricas.
d) inviabilidade de se considerar a experiência na
construção da ciência.
e) correspondência entre afirmações singulares e
afirmações universais.

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MÓDULO 11 A metafísica kantiana


Neste módulo, estudaremos como a concepção como origem as percepções e sensações sendo, por-
kantiana a respeito da natureza do conhecimento pro- tanto, um conjunto de meras suposições ou crenças. Kant
curou oferecer uma resposta ao ceticismo e ao em- dedicou-se a oferecer uma resposta ao empirismo exces-
pirismo. Também ofereceremos algumas sugestões de sivo de Hume, recolocando a metafísica em um lugar de
filmes cujos conteúdos remetem ao debate de Kant sobre destaque (STRATHERN, 1997).
moral e ética. Ao final, você encontrará exercícios e
algumas referências bibliográficas.
Observação:
1. A Alemanha e o Iluminismo A metafísica se ocupa com a investigação daquilo
que ultrapassa a experiência sensível. Nos termos
Na Alemanha, o Iluminismo adquiriu características de Kant, a metafísica estudaria as realidades
distintas daquelas que se desenvolveram no restante do suprassensíveis (que estão acima da realidade
mundo: afinal, ali os princípios racionais não entravam em sensível e do que pode ser captado pelos sentidos)
choque com a realidade política, e basicamente em e os princípios gerais para o conhecimento.
virtude de o protestantismo de Frederico II ter transfor-
mado o país em um centro cultural, no qual as muitas
vertentes filosóficas sentiam-se bastante à vontade. Segundo Strathern (1997), embora concordasse com
Claro que a Alemanha ainda não existia àquele mo- Hume a respeito da inexistência de ideias inatas (ideias
mento, ao menos da forma como a conhecemos hoje: no que nasciam com o indivíduo e independiam de
século XVIII, havia apenas um aglomerado de Estados. A aprendizagem e experiência para serem apreendidas),
cultura alemã era, em consequência, uma realidade que Kant duvidava de que a experiência fosse a origem de
ainda necessitava de certas condições para se concretizar. todo o conhecimento. Enquanto os céticos e empiristas
Assim, ao tempo em que Kant escreveu suas obras, a entendiam que o conhecimento deveria corresponder à
situação na Prússia (como era conhecida a Alemanha) era experiência, Kant propôs uma inversão ousada: era a
de extrema tolerância. Frederico II era um amante das artes experiência que necessitava de correspondência com o
e da Filosofia e, sob o seu governo, a Prússia havia se conhecimento. Experimentava-se aquilo que o conheci-
tornado um refúgio seguro e tranquilo para os que discu- mento indicava como possível e real.
tiam ideias que desgostavam Roma (STRATHERN, 1997). Anteriormente, os empiristas haviam duvidado da
Sob a proteção de Frederico II, Kant promoveu uma metafísica: isto resultara em ceticismo (que transformara
revolução na forma de compreender a razão como as certezas em meras crenças baseadas no hábito) ou em
caminho para o conhecimento. dogmatismo (que pressupunha a certeza sobre essas
coisas). Kant fez outro caminho: ao invés de procurar o
1.1. Immanuel Kant (1724-1804) conhecimento sobre o mundo, ele considerou importante
Influenciado por Leibniz e Hume, Kant colocou a examinar antes o próprio conhecimento e as possibi-
crítica e a dúvida num patamar até então desconhecido: lidades colocadas diante dos homens.
A minha intenção é convencer todos os que
para o filósofo, antes mesmo de investigar qualquer
creem na utilidade de se ocuparem de metafísica
objeto, fazia-se necessário esclarecer algumas questões
de que lhes é absolutamente necessário interrom-
preliminares, especialmente aquelas que colocavam a per o seu trabalho, considerar como inexistente
própria razão em julgamento. tudo o que se fez até agora e levantar antes de
De Leibniz, Kant incorporou a ideia de uma harmonia tudo a questão: «de se uma coisa como a
interna no mundo, harmonia essa resultante do mundo metafísica é simplesmente possível». Se é uma
físico que funcionava segundo regras de causa e efeito e ciência, como se explica que ela não possa, como
da qual emergia um propósito moral. as outras ciências, obter uma aprovação geral e
Assim, para Kant, a humanidade, por participar do duradoura? Se o não é, como se explica que ela,
mundo natural, também participava da finalidade última no entanto, se vanglorie incessantemente sob a
do universo (STRATHERN, 1997) e, embora não fosse aparência de uma ciência e mantenha em
possível provar essa finalidade, deveríamos agir como se suspenso o entendimento humano com esperan-
ças jamais extintas, nunca realizadas?
ela efetivamente existisse. Afinal, caso contrário, como
Pode, pois, demonstrar-se o seu saber ou a sua
explicar o fato de o Bem ser maior do que o Mal?
ignorância, importa, porém, por uma vez,
As ideias de Hume, em contrapartida, serviram como assegurar-se da natureza desta pretensa ciência;
estímulo para que Kant buscasse o resgate da metafísica. com efeito, é impossível permanecer com ela
Afinal, Hume defendia que nosso conhecimento tinha
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mais tempo nesse mesmo plano. Parece quase Desde os ensaios de Locke e de Leibniz, ou antes,
ridículo que, enquanto todas as outras ciências desde a origem da metafísica, tanto quanto
progridem continuamente, ela ande constante- alcança a sua história, nenhuma ocorrência teve
mente às voltas no mesmo lugar, sem avançar um lugar que pudesse ser mais decisiva, a respeito do
passo, ela que quer ser a própria sabedoria e cujos destino desta ciência, do que o ataque que David
oráculos todos os homens consultam. Também os Hume lhe fez. Ele não trouxe qualquer luz a este
seus adeptos se dispersaram muito e não se vê tipo de conhecimento, fez, porém, brotar uma
que aqueles que se sentem suficientemente centelha com a qual se poderia ter acendido uma
fortes para brilhar noutras ciências queiram luz, se ela tivesse alcançado uma mecha
arriscar nesta a sua fama, onde toda a gente, que, inflamável, cujo brilho teria sido cuidadosamente
aliás, é ignorante em todas as outras coisas, se alimentado e aumentado. Hume partiu
atribui um juízo decisivo porque, neste campo, não essencialmente de um único, mas importante
existe na realidade uma medida e um peso conceito de metafísica, a saber, a conexão de
seguros para distinguir a profundidade da causa e efeito (portanto, também os seus
loquacidade trivial. Mas, nem sequer é inaudito conceitos consecutivos de força e ação, etc.), e
que, após a longa elaboração de uma ciência, intimou a razão, que pretende tê-lo gerado no seu
quando se olha maravilhado o progresso já feito, seio, a explicar-lhe com que direito ela pensa que
finalmente a alguém ocorra a ideia de se uma coisa pode ser de tal modo constituída que,
interrogar: se, e de que maneira, é possível uma uma vez posta, se segue necessariamente que
tal ciência. Pois, a razão humana sente tanto uma outra também deva ser posta; pois, é isso o
prazer em construir que já, por diversas vezes, que diz o conceito de causa. Ele provou de modo
edificou e, em seguida, demoliu a torre para irrefutável que é absolutamente impossível à razão
examinar a natureza do seu fundamento. Nunca é pensar a priori e a partir dos conceitos uma tal
demasiado tarde para se tornar racional e sábio; relação, porque esta encerra uma necessidade;
mas, é sempre mais difícil pôr em movimento o mas, não é possível conceber como é que, porque
discernimento, se ele chega tarde. Perguntar se algo existe, também uma outra coisa deva existir
uma ciência é possível supõe que se duvida da necessariamente, e como é que a priori se pode
realidade da mesma. Mas, uma tal dúvida ofende introduzir o conceito de uma tal conexão. Daí
todos aqueles cujos haveres consistem talvez concluía ele que a razão se iludia inteiramente com
neste pretenso tesouro; e, por conseguinte, este conceito, considerando-o falsamente como
aquele que se deixa cair nesta dúvida será sempre seu próprio filho, quando nada mais é do que um
objeto de resistência por todos os lados. Alguns, bastardo da imaginação, a qual, fecundada pela
com a consciência orgulhosa da sua posse antiga, experiência, colocou certas representações sob a
considerada legítima precisamente por isso, olhá- lei da associação, fazendo passar uma
lo-ão com desprezo, com os seus compêndios de necessidade subjetiva daí derivada, isto é, um
metafísica na mão; outros, que não se apercebem hábito, por uma necessidade objetiva fundada no
senão do que se identifica com o que já viram em conhecimento. Daí tirava a conclusão: a razão não
algum lado, não o compreenderão e, durante tinha a capacidade de pensar tais conexões,
algum tempo, tudo permanecerá como se nada mesmo só em geral, porque então os seus
tivesse ocorrido que permita recear ou esperar conceitos seriam simples ficções e todos os seus
uma transformação próxima. No entanto, atrevo- conhecimentos pretensamente a priori não eram
me a predizer que o leitor destes Prolegômenos, senão experiências comuns falsamente estampi-
capaz de pensamento pessoal, não só duvidará da lhadas, o que equivale a dizer que não há, nem
ciência que possuía até agora, mas de todo se pode haver metafísica (KANT, 1973, p. 12/14).
convencerá subsequentemente de que
semelhante ciência não poderá existir sem que se Esse novo campo de saber passou a ser conhecido
cumpram as condições aqui expressas, das quais como transcendental, tendo como objeto de estudo o
depende a sua possibilidade; e, visto que isso próprio sujeito de conhecimento, sem quaisquer outros
nunca se fez, não temos ainda nenhuma
acréscimos, na sua forma mais pura.
metafísica. Como, porém, a busca dela não
O que é posterior (a posteriori) ao sujeito é
desaparecerá, porque o interesse da razão
experiência sensível (ou empírica), e, por isso, a
universal está nela implicado demasiado
investigação transcendental deve examinar o
intimamente, ele reconhecerá que uma reforma
sujeito puro, a priori, isto é, anterior a toda e
completa, ou antes, um novo nascimento da
qualquer experiência. Tal exame é indispensável
metafísica, segundo um plano inteiramente
para verificar se o sujeito puro, por si só, é capaz
desconhecido até agora, se produzirá inevitavel-
do conhecimento a priori, independentemente da
mente, apesar das resistências que, durante
experiência (ABRÃO, 1999, p. 308).
algum tempo, se lhe poderão opor.

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Nosso conhecimento – e que independe da expe- Na dúvida a respeito do conteúdo moral de uma ação,
riência, segundo Kant – está organizado a partir de doze a pergunta seria: como seria caso todos agissem dessa
“categorias”, que incluiriam coisas, como qualidade, forma? A medida da moralidade ou do conteúdo ético de
quantidade e relação. Essas categorias funcionariam uma ação, dessa maneira, seria o resultado possível caso
como lentes, através das quais perceberíamos o mundo. todos agissem daquela forma (STRATHERN, 1997).
Como, afinal, perceber a realidade se não por meio de Segundo Strathern (1997), de forma curiosa, Kant aca-
categorias mentais associadas à qualidade, à quantidade bou por defender a ideia de que não deveríamos mentir,
etc.? O filósofo complementaria: dentre as categorias mesmo que a verdade resultasse em consequências
mentais utilizadas pelo homem, eram fundamentais as indesejadas. No entanto, nem sempre ele mesmo seguiu
noções de espaço e tempo (STRATHERN, 1997). o que preconizava. Por exemplo, quando Frederico II
Kant, porém, fazia uma ressalva: essas lentes permi- subiu ao poder, Kant viu-se acusado de distorcer a Bíblia
tiriam apenas enxergar a superfície da realidade, sendo pelo Ministério da Educação. Embora pudesse defender-
limitado nosso acesso aos númenos (as coisas do real, se, Kant preferiu prometer que jamais escreveria qualquer
apreendidas independentemente da nossa perspectiva coisa que tivesse cunho religioso. Kant mentiu: assim que
subjetiva, ou seja, as coisas em si). o monarca faleceu, o filósofo retomou seu trabalho, indi-
Kant denominou de “razão pura” a razão a priori, ferente a qualquer crítica e ignorando a promessa
aquilo que saberíamos de forma anterior à nossa expe- anteriormente feita.
riência. Esta razão a priori transcenderia a experiência, daí
o argumento de que o filósofo teria resgatado a meta-
física. Mas, haveria como conhecermos o mundo na sua
totalidade? Kant diria que não: o númeno explicativo do
fenômeno permanecia sempre incognoscível, impossível
de ser conhecido (STRATHERN, 1997).

Figura 2.
Figura 1. Segundo Kant, as categorias mentais de tempo e espaço são Segundo o
aplicadas à experiência. Assim, tudo o que surge em nossa mente é imperativo
uma representação que fazemos a partir dessas categorias mentais. categórico
de Kant, as
pessoas
Para Kant, nosso conhecimento alcançava apenas os deveriam agir
fenômenos, jamais alcançando as coisas em si. O nú- conforme
meno, portanto, demarcava o limite do que poderíamos preceitos
conhecer, mesmo porque o nosso conhecimento estava éticos que
gostariam
restrito ao que as categorias mentais de espaço e tempo
que fossem
eram capazes de perceber. seguidos
Se em Crítica da razão pura Kant apresentou sua por todos.
metafísica, em Crítica da razão prática o filósofo discutiu
questões éticas e morais. O que o interessava era uma lei Para Kant, o conhecimento tinha início com a expe-
moral básica, os alicerces da moralidade, ou seja, as riência, mas não se originava dela. Antes de qualquer
categorias e de princípios que poderiam servir de base coisa, o sujeito deveria ser capaz de tornar possíveis a
para a moral (STRATHERN, 1997). experiência e o conhecimento. A experiência, por si só,
Assim, Kant elaborou o seu imperativo categórico: não garantia o conhecimento, já que o sujeito deveria ter
agir somente conforme um princípio que fosse desejável as qualidades necessárias para que a experiência fosse
tornar-se uma lei universal. Em outras palavras, as pes- possível e, a partir dela, para que o conhecimento fosse
soas deveriam agir conforme preceitos éticos que possível também.
gostariam que fossem seguidos por todos.
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Saiba mais
Sugerimos que você pense a respeito da ética kantiana a partir das narrativas de três filmes.
Em Feitiço do tempo (dir. Harold Ramis, 101 minutos, Estados Unidos, Columbia Pictures, 1993), por exemplo,
entramos em contato com a história de Phil, um repórter egoísta e autocentrado, que viaja para uma cidadezinha
para cobrir um evento que ele considera totalmente desimportante. Depois de passar a noite na cidade, ao acordar,
Phil descobre que o tempo não passou; o dia anterior se repete, exatamente da mesma forma como já acontecera.
Em outras palavras, Phil descobre que o tempo não avança mais, e que ele está condenado a repetir o mesmo dia
para sempre. A princípio, Phil resolve transgredir todas as regras: afinal, como não havia futuro, ele jamais poderia
ser punido por qualquer ação ilícita ou ilegal. Ao se dar conta de que não poderia continuar vivendo daquele jeito, Phil
então decide fazer algo em prol dos outros. Ele descobre ser capaz de sentir empatia pelos outros e que pode agir
de forma altruísta.
Em O informante (dir. Michael Mann, Estados Unidos, 157 minutos, Disney/Buena Vista, 1999), Jeffrey Wigand
é um cientista que é demitido de uma empresa do ramo de tabaco, lugar no qual trabalhou muitos anos. Um jornalista
propõe que ele conte a todos que a empresa sabia dos efeitos maléficos do produto que fabricavam. A indecisão de
Jeffrey resulta de um conflito interior muito grande: o que ele deve fazer? Deve desrespeitar o contrato de
confidencialidade que havia assinado? Deve colocar sua família em primeiro lugar, protegendo-a em detrimento do
bem-estar de todos? Deve revelar tudo o que sabe, em prol da comunidade? Jeffrey resolve denunciar a empresa e,
numa entrevista, revela todos os segredos. No entanto, a emissora responsável pelo programa jornalístico que o
havia entrevistado retrocede na última hora. Como denunciar uma empresa que é um dos maiores anunciantes
publicitários? Dessa forma, a narrativa transpassa inúmeros dilemas morais.
Em O leitor (dir. Stephen Daldry, Estados Unidos, The Weinstein Company, 124 minutos, 2008), no contexto da
Alemanha do pós-guerra, Michael Berg, um jovem de 15 anos, tem um caso amoroso com Hanna, uma mulher que
conhece acidentalmente. Para Hanna, Michael sempre lia algum romance, o que explica o título do filme. Hanna
desaparece e Michael só irá reencontrá-la muitos anos depois quando, em um julgamento de ex-oficiais da SS (a
polícia política de Hitler), ele a vê como uma das acusadas pela morte de prisioneiras judias. A prova que irá condená-
la é uma carta que, supostamente, ela teria escrito. Michael sabe, no entanto, que Hanna jamais poderia ter escrito
a carta, já que é analfabeta. O que o impede de defendê-la? Mesmo não sendo responsável pela morte das
prisioneiras, Hanna trabalhara nos campos de concentração e se calara. Embora não fosse diretamente responsável
pela morte das prisioneiras, ela havia sido cúmplice do terrível holocausto que vitimara os judeus. Aliás, como alguém
como ela poderia ter ajudado e amado um garoto desconhecido? Hanna não corresponde ao estereótipo do nazista
sádico. Ela é apenas uma mulher que se viu no meio de acontecimentos que não conseguia compreender. Não há
em Hanna qualquer noção do que seja certo ou errado: ela apenas acompanha os acontecimentos e os outros, sem
qualquer julgamento autônomo próprio.

Como o conhecimento, então, tornava-se possível? tempo. Em resumo: só podemos entender um objeto
Inicialmente, nossa sensibilidade perceberia os objetos externo a nós se conseguirmos inseri-lo em alguma
por meio da intuição. Em outras palavras: as sensações dimensão espacial e em alguma forma temporal. Tempo
causadas pelos objetos (ou seja, o conteúdo da expe- e espaço são, assim, noções intuitivas que antecedem a
riência) passariam a fazer parte do cognoscível (do que é nossa percepção de objetos. Tempo e espaço são atribu-
possível conhecer) em função de, anteriormente, serem tos do sujeito e tornam possível a experiência; só pode-
intuídas em termos de espaço e tempo. Essa intuição mos entender o que as sensações nos trazem, pois
seria anterior a qualquer representação mental de um somos capazes de organizar esses dados espacial e tem-
objeto. Para a representação mental de um objeto, seria poralmente, sendo essas noções anteriores a qualquer
necessário, a priori, a intuição em termos de espaço e experiência.
tempo. Na sequência, após as sensações terem sido repre-
Vejamos isso de forma mais simplificada: consegui- sentadas mentalmente, esses objetos são pensados sob
mos entender um espaço sem uma árvore que, anterior- a forma de conceitos e, a respeito dos conceitos, Kant
mente, lá existia. No entanto, não conseguimos buscou analisar aqueles puros a priori do conhecimento.
apreender uma árvore sem um espaço que a contenha. Os objetos só se tornam passíveis de conhecimento
Da mesma forma, podemos entender um tempo no qual quando eles surgem para o sujeito do conhecimento. Em
o objeto não exista, mas não conseguimos apreender a outras palavras, não se busca conhecer aquilo que não
ideia de um objeto sem que ele esteja inserido em um existe ou aquilo que não pode ser pensado. Esses objetos
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são identificados em função de noções intuitivas de precisamos de qualquer experiência para calcularmos o
tempo e espaço. O sujeito do conhecimento reúne todas valor da soma entre “4” e “5”. Assim, o “9” é uma ideia
essas intuições (e que operam sobre o resultado da independente da experiência, e é esse o tipo de
experiência sensível) sob a forma de conceitos. conhecimento que Kant almejava.
São quatro as categorias de conceitos: os conceitos
referentes à quantidade, os conceitos referentes à 1.1.1. A estética kantiana
qualidade, os conceitos referentes à relação (incluídas aí O Iluminismo alemão também se dedicou ao estudo
as associações por meio da causalidade) e os conceitos da estética, ou seja, o estudo do que é belo nas artes.
referentes à modalidade (que incluem os conceitos
Para os filósofos estudiosos da estética, o padrão corres-
relativos à possibilidade, à existência e à necessidade).
pondia às obras da Antiguidade clássica, e a investigação
São essas as categorias a partir das quais os objetos
da beleza (embora fruto do conhecimento sensível) era
serão pensados.
percebida como uma atividade e uma demonstração
Para Kant, portanto, a causalidade (algo que causa um
lógica.
efeito) está no sujeito que, a priori, possui a categoria de
A arte capta a unidade perfeita – a beleza – de
causalidade que o permite acomodar aquilo que as sen-
um objeto; é, por isso, o conhecimento vivo
sações trouxeram ao seu conhecimento. Assim, Kant faz dessas coisas singulares e únicas, que constituem
uma síntese entre o papel da razão e o papel da expe- o mundo vivo que se dá aos sentidos (ABRÃO,
riência para o conhecimento: sem a experiência, os 1999, p. 300).
objetos não surgem, mas sem a razão eles não podem
ser pensados. Por isso, a estética buscou nas obras gregas o seu
Àquele momento, a cultura alemã ainda era um padrão para estudo: os corpos eram embelezados pelo
projeto que aguardava pela sua realização. Em especial, exercício físico, o ambiente era de liberdade e de demo-
era necessária a promoção de uma língua nacional, cracia, e as virtudes eram valorizadas. A decadência desse
instrumento para propagar outras ideias e de gerar a união padrão estético explicava, por sua vez, o rococó e as figu-
nacional tão necessária para a formação de um Estado. ras humanas contorcidas dos períodos artísticos pos-
Não à toa, a filosofia do período teve as relações entre teriores, e a filosofia alemã pregou o retorno ao modelo
linguagem e conhecimento como um dos seus principais clássico como uma forma de recomeço e resgate da
focos. Os estudos filosóficos buscaram o estudo das cultura.
proposições necessárias para a lógica, indispensável para
o conhecimento teórico puro e preferível ao empírico, já
que os dados obtidos pela experiência eram apenas
prováveis.
A partir deste contexto, Kant investigou algumas
questões relacionadas ao raciocínio lógico. Assim, o
filósofo distinguiu entre juízos analíticos, aqueles que
faziam referência a proposições lógicas e que inde-
pendiam de qualquer experiência, e os juízos sintéticos,
que ampliavam o conhecimento por meio da constatação
das contribuições que a experiência sensível trazia.
Um juízo analítico seria a igualdade de A com A: “A é
A; A não é não-A”. Em contrapartida, um juízo sintético
referia-se a algo particular, cujo conhecimento não poderia
prescindir da experiência sensível: “a folha é verde”.
Afinal, não havia nada nas folhas que permitisse concluir
algo a respeito de sua cor; apenas em relação a uma única Figura 3. Para Kant, a arte existe por causa do artista,
aquele que reconhece no mundo beleza e finalidade.
folha poderíamos afirmar algo a respeito de sua cor.
Assim, Kant buscou identificar juízos analíticos, indepen-
A terceira obra, a Crítica do juízo, Kant investigou
dentes da experiência, mas que também fossem
questões associadas à teologia e à estética. Para o
possíveis de funcionar de forma universal.
filósofo, as estrelas eram evidências da obra de Deus, da
Vejamos um exemplo: “4 + 5 = 9”. Essa operação
mesma forma como os sentimentos altruístas provavam
não pode ser realizada de forma analítica, já que o “9”
a existência do Bem.
não está contido na expressão. Não há nada na decom-
Como havia feito anteriormente, Kant buscou
posição da expressão matemática que nos leve, auto-
estabelecer um princípio a priori que explicasse nossa
maticamente, ao valor “9”. No entanto, esse valor
apreensão do que é belo. Embora a percepção da beleza
também não é resultado da experiência sensível; não
fosse algo subjetivo, e justamente por ser subjetivo, Kant

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resolveu esse conflito da seguinte forma: gostar ou não A arte liberta-se da natureza, criando uma outra
de determinada obra não tem qualquer relação com o realidade por meio da expressão livre da fantasia. Essa
conhecimento. O prazer ou o desprazer que sentimos expressão iguala os seres humanos a Deus. A arte não é
diante de um quadro ou uma estátua não são frutos da apenas imitativa ou reprodutiva.
cognição, mas são juízos de valor, frutos da nossa ex- A obra de arte busca caminhos de acesso ao real
periência de contemplação ou reflexão. Sequer discute-se e de expressão da verdade. Em outras palavras,
a respeito da existência do objeto fruto da representação; as artes não pretendem imitar a realidade, nem
apenas importam as relações de prazer ou desprazer que pretendem ser ilusões sobre a realidade, mas
exprimir por meios artísticos a própria realidade
experimentamos em relação ao objeto. Assim, essas
(CHAUÍ, 2002, p. 318).
experiências – que estão fundamentadas na intuição ou
nos sentimentos – são distintas das experiências
Assim, Kant defende a ideia de que a função da arte
cognitivas, relacionadas ao conhecimento intelectual, e
é a produção do sublime e do arrebatamento do nosso
das experiências práticas, das quais derivam os fins
espírito em direção ao infinito (CHAUÍ, 2002).
morais e os preceitos éticos (STRATHERN, 1997).

Referências do módulo 11 Textuais


Audiovisuais ABRÃO, B. S. (Org.). História da Filosofia. São Paulo: Nova
FEITIÇO DO TEMPO. Dir. Harold Ramis, Estados Unidos: Cultural, 1999.
Columbia Pictures, 1993, 101 minutos. CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
O INFORMANTE. Dir. Michael Mann, Estados Unidos: KANT, I. Prolegômenos a toda a metafísica futura. Textos
Disney/Buena Vista, 1999, 157 minutos. Filosóficos. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1973.
O LEITOR. Dir. Stephen Daldry, Estados Unidos: The STRATHERN, P. Kant em 90 minutos. Trad. Maria Helena
Weinstein Company, 2008, 124 minutos. Geordane. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

1. – Esclarecimento é a saída do homem de b) o exercício da racionalidade como pressuposto menor


sua menoridade, da qual ele próprio é diante das verdades eternas.
culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de c) a imposição de verdades matemáticas, com caráter
seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O objetivo, de forma heterônoma.
homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa d) a compreensão de verdades religiosas que libertam o
dela não se encontra na falta de entendimento, mas na homem da falta de entendimento.
falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem e) a emancipação da subjetividade humana de ideologias
a direção de outrem. Ter coragem de fazer uso de teu produzidas pela própria razão.
próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento. A
preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão
grande parte dos homens, depois que a natureza de há
muito os libertou de uma condição estranha, continuem,
no entanto, de bom grado menores durante toda a vida.
(I. Kant. Resposta à pergunta: o que é esclarecimento?
Petrópolis: Vozes, 1985. Adaptado.)

Kant destaca no texto o conceito de Esclarecimento,


fundamental para a compreensão do contexto filosófico
da Modernidade. Esclarecimento, no sentido empregado
por Kant, representa
a) a reivindicação de autonomia da capacidade racional
como expressão da maioridade.

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2. – Até hoje admitia-se que nosso conhe- 3. – Uma pessoa vê-se forçada pela necessi-
cimento se devia regular pelos objetos; dade a pedir dinheiro emprestado. Sabe
porém, todas as tentativas para descobrir, mediante muito bem que não poderá pagar, mas vê também que
conceitos, algo que ampliasse nosso conhecimento não lhe emprestarão nada se não prometer firmemente
malogravam-se com esse pressuposto. Tentemos, pois, pagar em prazo determinado. Sente a tentação de fazer a
uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as promessa; mas tem ainda consciência bastante para
tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se perguntar a si mesma: não é proibido e contrário ao dever
deveriam regular pelo nosso conhecimento. livrar-se de apuros desta maneira? Admitindo que se
(I. Kant. Crítica da razão pura. Lisboa: decida a fazê-lo, a sua máxima de ação seria: quando julgo
Calouste-Guibenkian, 1994. Adaptado.) estar em apuros de dinheiro, vou pedi-lo emprestado e
prometo pagá-lo, embora saiba que tal nunca sucederá.
O trecho em questão é uma referência ao que ficou (l. Kant. Fundamentação da metafísica dos costumes.
conhecido como revolução copernicana da filosofia. Nele, São Paulo. Abril Cultural, 1980.)
confrontam-se duas posições filosóficas que
a) assumem pontos de vista opostos acerca da natureza De acordo com a moral kantiana, a “falsa promessa de
do conhecimento. pagamento” representada no texto
b) defendem que o conhecimento é impossível, restando- a) assegura que a ação seja aceita por todos a partir livre
nos somente o ceticismo. discussão participativa.
c) revelam a relação de interdependência entre os dados b) garante que os efeitos das ações não destruam a
da experiência e a reflexão filosófica. possibilidade da vida futura na terra.
d) apostam, no que diz respeito às tarefas da filosofia, na c) opõe-se ao princípio de que toda ação do homem
primazia das ideias em relação aos objetos. possa valer como norma universal.
e) refutam se mutuamente quanto à natureza do nosso d) materializa-se no entendimento de que os fins da ação
conhecimento e são ambas recusadas por Kant. humana podem justificar os meios.
e) permite que a ação individual produza a mais ampla
felicidade para as pessoas envolvidas.

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4. (UNESP) – A fonte do conceito de autonomia da arte


é o pensamento estético de Kant. Praticamente tudo o
que fazemos na vida é o oposto da apreciação estética,
pois praticamente tudo o que fazemos serve para alguma
coisa, ainda que apenas para satisfazer um desejo.
Enquanto objeto de apreciação estética, uma coisa não
obedece a essa razão instrumental: enquanto tal, ela não
serve para nada, ela vale por si. As hierarquias que entram
em jogo nas coisas que obedecem à razão instrumental,
isto é, nas coisas de que nos servimos, não entram em
jogo nas obras de arte tomadas enquanto tais. Sendo
assim, a luta contra a autonomia da arte tem por fim
submeter também a arte à razão instrumental, isto é, tem
por fim recusar também à arte a dimensão em virtude da
qual, sem servir para nada, ela vale por si. Trata-se, em
suma, da luta pelo empobrecimento do mundo.
(Antonio Cícero. “A autonomia da arte”. Folha de [Link], 13
dez. 2008. Adaptado.)

De acordo com a análise do autor,


a) a racionalidade instrumental, sob o ponto de vista da
filosofia de Kant, fornece os fundamentos para a
apreciação estética.
b) um mundo empobrecido seria aquele em que ocorre o
esvaziamento do campo estético de suas qualidades
intrínsecas.
c) a transformação da arte em espetáculo da indústria
cultural é um critério adequado para a avaliação de sua
condição autônoma.
d) o critério mais adequado para a apreciação estética
consiste em sua validação pelo gosto médio do público
consumidor.
e) a autonomia dos diversos tipos de obra de arte está
prioritariamente subordinada à sua valorização como
produto no mercado.

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MÓDULO 12 Razão, política e o Contrato Social (Montesquieu e Rousseau)

Neste módulo, estudaremos as ideias de Rousseau e mesmo quando esclarecida, só faziam criar obstáculos e
de Montesquieu no contexto do Iluminismo e da Revo- restrições ao crescimento econômico (ARCOS, 2018), era
lução Científica do século XVIII. Ao final, você encontrará necessário refletir a respeito da vida civil, das suas
exercícios e algumas referências bibliográficas. Também condições e limitações. Também era fundamental inves-
indicamos alguns filmes cujas narrativas abordam os tigar o papel da educação na formação de um indivíduo
elementos aqui discutidos. que opinaria e decidiria sobre seu destino, de forma livre
e autônoma. Na discussão sobre esses temas, dois
1. Introdução filósofos destacaram-se: Montesquieu e Rousseau.

No contexto de uma Europa que enfrentava crises 1.1. Montesquieu (1689-1755)


políticas e sociais e via a burguesia ascender social e Nascido em berço aristocrático, o francês e nobre
economicamente, tornou-se frequente a publicação de Montesquieu teve sua educação indelevelmente marcada
obras filosóficas que defendiam os critérios de racio- pelo Iluminismo. Em viagem à Inglaterra, entrou em
nalidade para a construção do conhecimento (ARCOS, contato com as doutrinas iluministas e liberais e, fasci-
2018, s/p). O saber representava, em última instância, o nado pelas Ciências Naturais, buscou estudar a sociedade
instrumento por meio do qual a burguesia pretendia com o mesmo rigor e o mesmo método utilizado para as
subtrair poder da monarquia; assim, o desenvolvimento investigações dos fenômenos naturais.
capitalista precisava de meios que permitissem a essa Sua obra mais importante, publicada em 1748, foi Do
nova classe social governar e defender seus interesses Espírito das Leis ou Das relações que as leis devem ter
econômicos. Não à toa, os economistas do período – os com a constituição de cada governo, costumes, clima,
fisiocratas franceses e os liberais ingleses – pregavam a religião, comércio etc. À época, as ideias de Montesquieu
mesma coisa: laissez-faire, laissez-passer! (deixe fazer e foram recebidas com tantas críticas e ataques que o
deixe passar): o capitalismo precisava de liberdade para se filósofo se viu obrigado a escrever outra obra, em defesa
expandir e conquistar novos mercados, e a monarquia delas, a Defesa do Espírito das Leis.
esclarecida não podia ignorar as demandas dos bur- Em Do Espírito das Leis, Montesquieu
gueses e da população urbana. procura analisar extensa e profundamente a
O despotismo esclarecido consistiu no assesso- estrutura e a conexão interna dos fatos humanos
ramento de diversos reis absolutistas europeus e formular um rigoroso esquema de interpretação
por seus ministros “esclarecidos”, possibilitando do mundo histórico, social e político. [...] Era uma
a realização de reformas de cunho iluminista, de atitude de ciência teórica diante do universo
forma a atenuar as tensões entre monarcas e bur- político que estava nascendo (TRUC, 1985, p. XIV).
guesia. As reformas enfatizaram o aspecto econô-
mico, mas também estimularam a cultura, as artes Que cuidados Montesquieu tomou? Em primeiro
e a filosofia. [...] Os reis franceses, entretanto, lugar, ele procurou excluir da análise qualquer viés
permaneceram irredutíveis a qualquer tentativa de religioso e moral; em segundo, procurou se afastar da
reforma, culminando no rompimento da ordem abstração e da dedução, submetendo os fenômenos
vigente com a revolução burguesa iniciada em sociais à abordagem descritiva e comparativa.
1789. O sucesso da Revolução Francesa e da O correto conhecimento dos fatos humanos só
independência dos Estados Unidos fizeram com pode ser realizado cientificamente na medida em
que as ideias iluministas deixassem de ser meras que eles sejam visados como são e não como
propostas e passassem a fundamentar o sistema
deveriam ser. Enquanto não forem abordados
conhecido como liberalismo político, que iria se
como independentes de fins religiosos e morais,
consolidar em grande parte do Ocidente a partir
jamais poderão ser compreendidos. As ciências
do início do século XIX (ARCOS, 2018, s/p).
humanas deveriam libertar-se da visão finalista,
como já haviam feito as ciências naturais, que só
Se havia uma ordem natural no mundo, tal como progrediram realmente quando se desvencilharam
Isaac Newton havia demonstrado, nada precisava ser do finalismo aristotélico-escolástico (TRUC, 1985,
feito para que a riqueza continuasse a crescer. Em outras p. XV).
palavras, se as leis e normas originárias da monarquia,

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1.2. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)


Observação:
Embora não fosse tão admirado e reconhecido
O finalismo filosófico propõe uma finalidade para o intelectualmente como outros filósofos de sua época –
mundo e para a vida, como se houvesse um plano por exemplo, Hume e Kant –, Rousseau alcançou uma
maior – criado por uma força suprema – ao qual o imensa popularidade em função da influência que suas
ser humano deveria obedecer. Para alguns filósofos ideias exerceram na sociedade europeia daquele período,
da tradição grega, o finalismo supunha a existência imersa no Iluminismo e na Revolução Científica.
de uma ordem nas coisas de forma a tornar a vida Rousseau viveu em um momento de profundas
humana mais completa. Na filosofia moderna e mudanças e transformações: na Genebra do século XVIII,
contemporânea, o finalismo perdeu força e não é as marcas do protestantismo de Calvino faziam-se
mais considerado uma hipótese válida para a perceber no ambiente democrático, mas puritano e
explicação científica ou filosófica. opressivo. Já em Paris, e após uma passagem por
Veneza, Rousseau entrou em contato com o círculo de
filósofos da Enciclopedia, o grande projeto iluminista sob
a supervisão de Diderot.
O Renascimento tinha visto o início da libertação
do espírito europeu das sufocantes limitações e
superstições do medievalismo. Essa libertação
tinha sido ainda mais ampliada pelo Iluminismo,
com sua ênfase no racionalismo. Mas havia um
preço a pagar por tal progresso. O Iluminismo
marcou um avanço basicamente intelectual, e sua
(Autor desconhecido
ênfase na razão tendeu a suprimir as emoções. O
(Arte francesa). Retrato de
Montesquieu (1689-1755), 1728.
comportamento civilizado era visto como um
Óleo sobre tela, 63 x 52cm, exercício de contenção – uma nobreza clássica
Palácio de Versailles, França.) que se expressava apenas em termos de “eleva-
dos sentimentos”. Essa repressão de uma parte
Figura 1. Para Montesquieu, a natureza de um Estado é aquilo que ele essencial da natureza humana chegaria ao fim
é (república, monarquia, despotismo), ou seja, corresponde a uma certa
com a explosão do movimento romântico. Rousseau
forma. Princípio é uma disposição dos homens no sentido de realizar
esta forma, e não outra; é, portanto, uma paixão específica. Na república, seria, de muitas formas, o homem que instigaria
essa paixão é a virtude (entendida em sentido político, e não moral); na esse movimento; seria dele a primeira grande
monarquia, é a honra; e no governo despótico, é o temor (TRUC, 1985, p. XV). tentativa de articular os anseios e sentimentos do
Romantismo (STRATHERN, 1997, p. 25).
A partir do que aprendeu e absorveu em sua viagem
para a Inglaterra, Montesquieu formulou a teoria da Rousseau, de certa forma, antecipava alguns traços
separação dos poderes. Este princípio foi integrado à do Romantismo do final do século XVIII e do início do
Constituição Americana e incluído no artigo 17 da século XIX. Como elementos importantes dessa estética,
Declaração Universal dos Direitos do Homem e do destacavam-se as ideias a respeito da virtude e da
Cidadão. Montesquieu propõe a separação dos poderes bondade do ser humano em seu estado mais primitivo.
legislativo, executivo e judiciário, embora cada um deles Assim, o Romantismo defendeu o ideal do bom selvagem
tenha algum poder sobre os demais; alguns autores e como metáfora do ser humano ideal na sua condição mais
críticos afirmam que o filósofo – membro da nobreza primitiva, ainda não sujeito às influências negativas da
francesa – opta claramente pela defesa dos interesses da vida social. Por isso, o retorno e a revalorização da
nobreza, colocando-a a salvo das ações tanto dos natureza foram vistos como as formas mais seguras de
burgueses quanto da monarquia. De qualquer forma, ou fazer frente à infelicidade, à injustiça e aos malefícios
melhor, independentemente da proteção aos nobres, provocados pelas engrenagens impostas pela vida social;
Montesquieu acabou por se transformar em um dos por esses mesmos motivos, os nativos de terras ainda
arautos da Revolução Francesa. não contaminadas pela industrialização e pela intensa
Criticou a ordem vigente do despotismo em nome atividade econômica passaram a ser os exemplos da
dos valores da monarquia moderada primitiva, e a pureza humana, da coragem e da bondade. Para
crítica serviu como um dos estopins para a Rousseau, o homem primitivo
revolução que instauraria a forma republicana e seria feliz porque ele sabe viver de acordo com
burguesa, que ele sempre desprezou (TRUC, suas necessidades inatas. Ele é amplamente
1985, p. XIX). autossuficiente porque constrói sua existência no

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isolamento das florestas, satisfaz as necessidades A civilização é vista por Rousseau como respon-
de alimentação e sexo sem maiores dificuldades, sável pela degeneração das exigências morais
e não é atingido pela angústia diante da doença e mais profundas da natureza humana e sua subs-
da morte. As necessidades impostas pelo tituição pela cultura intelectual. A uniformidade
sentimento de autopreservação – presente em artificial de comportamento, imposta pela socie-
todos os momentos da vida primitiva e que impele dade às pessoas, leva-as a ignorar os deveres
o homem selvagem a ações agressivas – são humanos e as necessidades naturais. Assim como
contrabalançadas pelo inato sentimento de a polidez e as demais regras de etiqueta podem
piedade que o impede de fazer mal aos outros esconder o mais vil e impiedoso egoísmo, as
desnecessariamente (ARBOUSSE-BASTIDE e ciências e as artes, com todo o seu brilho exterior,
MACHADO, 1983, p. XIII). frequentemente seriam somente máscaras da
vaidade e do orgulho (ARBOUSSE-BASTIDE e
MACHADO, 1983, p. XIII).

eismannhans

Figura 2. Para Rousseau, o bom selvagem representava o modelo ideal


da bondade humana, ainda não contaminada pelos interditos e valores
da vida em sociedade.

Por ocasião de um concurso, Rousseau apresentou


algumas de suas ideias a respeito das relações existentes
entre o progresso das ciências e das artes e o aprimo- Figura 3. Para Rousseau, a civilização provocava a degeneração moral e
ramento dos costumes; tendo vencido o certame, suas a corrupção da natureza humana, embora o processo civilizatório
ideias alcançaram notoriedade. também significasse ganhos e produzisse a ampliação dos horizontes
intelectuais.

Saiba mais
A admiração pelo homem primitivo, dotado de qualidades inexistentes no mundo social contaminado pela
modernidade, pelas ambições e pelas aparências, ainda se mantém viva nos dias de hoje. Em Avatar, por exemplo,
o diretor James Cameron construiu um mundo fictício, Pandora, onde nativos Na'vi e seres híbridos humanos (criados
com recursos da engenharia genética) buscam defender o planeta e seus recursos naturais dos abusos e da
exploração irracional promovida pela RDA, uma corporação que trabalha com a extração de um minério muito raro e
difícil de ser encontrado. A relação simbiótica entre os nativos e a natureza é simbolizada pela Árvore-lar, ameaçada
de destruição pelos mercenários contratados pela RDA, e pela Árvore das Almas, que abriga toda a herança cultural
dos Na'vi. Os nativos estão atavicamente ligados à natureza; destruí-la significa a sua própria destruição. Valentes,
generosos e inocentes, os Na'vi precisam defender a natureza e garantir a continuação de sua espécie.
Outro filme que aborda alguns elementos presentes na obra de Rousseau é O enigma de Kaspar Hauser, dirigido
por Werner Herzog, o qual narra a história de Kaspar Hauser, um jovem encontrado em condições de isolamento e
aprisionamento num porão. Após ser libertado, ele é colocado em contato com a sociedade, com seus hábitos e
costumes; aprende a falar, mas tem dificuldades em compreender questões religiosas ou científicas. A trajetória de
Kaspar Hauser, o selvagem que é introduzido na sociedade europeia do Iluminismo, dialoga com ideias caras a
Rousseau: a pureza e a inocência do ser incivilizado; e o processo de aquisição de modos e valores da sociedade.

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Evidentemente, tal perspectiva não poderia ser aceita Para Rousseau, a educação deveria ocupar-se com a
de forma unânime por uma Europa contaminada pelos arte de “gerir os contrários, na perspectiva do desen-
ares do Iluminismo e do racionalismo. Rousseau foi volvimento da liberdade autônoma” (SOËTARD, 2010, p.
acusado por supostas agressões às autoridades e à 16), sendo que o pedagogo deveria atuar de forma a que
opinião pública: alguns haviam entendido que o filósofo, sua vontade jamais substituísse a vontade da criança
de certo modo, defendia a selvageria e preconizava o fim (idem). Crente na bondade natural do homem, Rousseau
da civilização. Até mesmo colegas filósofos (por exemplo, atribuía à civilização a origem do mal. Por isso, a educação
Voltaire) participaram dessa campanha difamatória, o que tinha dois objetivos a serem atingidos: “o desenvolvi-
conduziu Rousseau à escrita de Confissões, na qual mento das potencialidades naturais da criança e seu
procurou defender a si mesmo e ao seu pensamento. afastamento dos males sociais" (ARBOUSSE-BASTIDE e
Afinal, tais acusações não encontravam qualquer susten- MACHADO, 1983, p. XVI). Esse conflito é um dos eixos
tação: Rousseau não defendia a destruição de univer- da narrativa da história de Kaspar Hauser, sobre o qual já
sidades, tampouco do mundo acadêmico. Ele apenas falamos anteriormente, que, como outras crianças encon-
não quer[ia] os artistas e intelectuais submetidos tradas em situação de abandono ou isolamento social
aos caprichos frívolos das modas passageiras. naquela época, encontrava-se sujeito às dificuldades ori-
Pelo contrário, glorifica[va] os esforços laboriosos ginadas no processo de aquisição de valores e normas
da conquista intelectual verdadeira (ARBOUS-SE- sociais.
BASTIDE e MACHADO, 1983, p. XIV). O texto de Rousseau a respeito de Educação é uma
das obras fundadoras da Pedagogia. Entretanto, foi por
Assim, longe de defender o fim da civilização e o meio da sua obra Contrato Social que o filósofo ganhou o
retorno à vida de tempos primitivos, Rousseau reconhecia respeito e a fama na posterioridade. Para ele, o homem
os ganhos que a vida social havia tornado possível, tais nasce livre e essa liberdade é essencial para a sua exis-
como tência. No entanto, a vida em sociedade requer algumas
capacidade de desenvolver-se mais rapidamente, restrições à liberdade, que é trocada pela proteção aos
ampliação dos horizontes intelectuais, enobre- direitos de propriedade e aos outros direitos civis.
cimento dos sentimentos e elevação total da Quando os indivíduos se juntam para formar uma
alma. Se os abusos do estado social civilizado não sociedade, cada um deve comprometer-se a
o colocassem abaixo da vida primitiva, o homem ceder alguma coisa; em troca, a sociedade lhes dá
deveria bendizer sem cessar o instante feliz que o algo. Esse é o hipotético “contrato social”
arrancou para sempre da animalidade e fez de um (STRATHERN, 1997, p. 60).
ser estúpido e limitado uma criatura inteligente
(ARBOUSSE-BASTIDE e MACHADO, 1983, p. XIV). Rousseau defendeu que uma sociedade justa não
poderia nascer do uso da força; pelo contrário, a força
Rousseau também desenvolveu um importante apenas criava direitos passageiros. Para que fosse pos-
trabalho na área da Educação. Em Emílio, ou Da Educa- sível construir uma sociedade justa, na qual prevalecesse
ção, ele introduz ideias que se tornaram paradigmáticas e a igualdade moral, era imprescindível estabelecer um
nucleares em quase todos os trabalhos sobre pedagogia governo por meio do consentimento de todos. "O cidadão
dos anos posteriores. Àquele momento, a criança deixava encontra a liberdade submetendo-se à lei que impõe
de ser vista como um adulto de proporções menores sobre si mesmo para o bem de todos" (STRATHERN,
(portanto, incapaz de produzir como um adulto, mas, em 1997, p. 63). Dessa forma, as vontades individuais deve-
contrapartida, fazendo jus a salários menores) para tornar- riam submeter-se à "vontade geral", que se aplicava a
se um ser a ser atendido de forma especial e segundo todos, já que derivava de todos. Por isso, os dissidentes,
determinados pressupostos pedagógicos. os que não entravam em acordo com o restante, deve-
Enquanto seus contemporâneos mais ativos, riam ser excluídos ou forçados à obediência. Os dissi-
também tocados pela “graça educacional”, dentes
ocupam-se de “fabricar a educação”; e os mes- são estrangeiros entre os cidadãos. Depois que o
tres do pensamento se esforçavam, por meio da Estado é instituído, residir nele implica consenti-
educação, a remodelar o homem, tornando-o mento: habitar o território é submeter-se à sobe-
senão um humanista, um bom cristão, um cava- rania. Se um indivíduo dentro de uma sociedade
lheiro, um bom cidadão, Rousseau deixa de lado o “recusa-se a obedecer à vontade geral, deve ser
conjunto das técnicas, rompendo com todos os forçado a fazê-lo”. Aqueles que não se submetem
modelos e proclamando que a criança não tem à liberdade da soberana vontade geral “devem ser
que se tornar outra coisa senão aquilo que ela forçados a ser livres” (STRATHERN, 1997, p. 65)
deve ser (SOËTARD, 2010, p. 12).

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A seguir, leia alguns trechos de Contrato Social : coletivo, composto de tantos membros quanto a
selecionamos algumas partes que tratam das questões assembleia de vozes, o qual recebe desse mesmo
referentes ao pacto social e às funções das leis. ato sua unidade, seu eu comum, sua vida e sua
vontade. A pessoa pública, formada assim pela
Livro I união de todas as outras, tomava outrora o nome
Capítulo VI. Do Pacto Social de cidade, e toma hoje o de república ou corpo
político, o qual é chamado por seus membros:
“Encontrar uma forma de associação que Estado, quando é passivo; soberano, quando é
defenda e proteja de toda a força comum a pessoa ativo; autoridade, quando comparado a seus
e os bens de cada associado, e pela qual, cada semelhantes. No que concerne aos associados,
um, unindo-se a todos, não obedeça, portanto, adquirem coletivamente o nome de povo, e se
senão a si mesmo, e permaneça tão livre como chamam particularmente cidadãos, na qualidade
anteriormente”. Tal é o problema fundamental de participantes na autoridade soberana, e vas-
cuja solução é dada pelo contrato social. salos, quando sujeitos às leis do Estado. Todavia,
As cláusulas deste contrato são de tal modo esses termos frequentemente se confundem e
determinadas pela natureza do ato, que a menor são tomados um pelo outro. É suficiente saber
modificação as tornaria vãs e de nenhum efeito; distingui-los, quando empregados em toda a sua
de sorte que, conquanto jamais tenham sido precisão (ROUSSEAU, 1983, p. 31-34).
formalmente enunciadas, são as mesmas em
todas as partes, em todas as partes tacitamente Livro II
admitidas e reconhecidas, até que, violado o pacto Capítulo VI. Da Lei
social, reentra cada qual em seus primeiros direi-
tos e retoma a liberdade natural, perdendo a Pelo pacto social demos existência ao corpo
liberdade convencional pela qual ele aqui renun- político; trata-se agora de lhe dar o movimento e a
ciou. Todas essas cláusulas, bem entendido, se vontade por meio da legislação. Porque o ato
reduzem a uma única, a saber, a alienação total de primitivo, pelo qual esse corpo se forma e se une,
cada associado, com todos os seus direitos, em não determina ainda o que ele deve fazer para se
favor de toda a comunidade; porque, primeira- conservar. O que é bom e conforme a ordem o é
mente, cada qual se entregando por completo e pela natureza das coisas e independentemente
sendo a condição igual para todos, a ninguém das convenções humanas. Toda justiça vem de
interessa torná-la onerosa para os outros. Além Deus; só Ele é sua fonte; mas, se soubéssemos
disso, feita a alienação sem reserva, a união é tão recebê-la de tão alto, não teríamos necessidade
perfeita quanto o pode ser, e nenhum associado nem de governo nem de leis. Está fora de dúvida
tem mais nada a reclamar; porque, se aos a existência de uma justiça universal, só da razão
particulares restassem alguns direitos, como não emanada; tal justiça, porém, para ser admitida
haveria nenhum superior comum que pudesse entre nós, deve ser recíproca. Considerando hu-
decidir entre eles e o público, cada qual, tornado manamente as coisas, à falta de sanção natural,
nalgum ponto o seu próprio juiz, pretenderia em são vãs as leis da justiça entre os homens; fazem
breve sê-lo em tudo; o estado natural subsistiria, o bem do perverso e o mal do justo, quando este
e a associação se tornaria necessariamente as observa com todos, sem que ninguém as
tirânica ou inútil. observe consigo. É necessário, pois, haja conven-
Enfim, cada qual, dando-se a todos, não se dá ções e leis para unir os direitos aos deveres e
ninguém, e, como não existe um associado sobre encaminhar a justiça a seu objetivo. No estado
quem não se adquira o mesmo direito que lhe foi natural, onde tudo é comum, nada devo àqueles a
cedido, ganha-se o equivalente de tudo o que se quem nada prometi; só reconheço como sendo de
perde e maior força para conservar o que se tem. outrem o que me é inútil. Isso não ocorre no
Portanto, se afastarmos do pacto social o que não estado civil, onde todos os direitos são fixados
constitui a sua essência, acharemos que ele se pela lei. Mas que é enfim uma lei? Enquanto conti-
reduz aos seguintes termos: nuarmos a juntar a esse termo somente ideias
“Cada um de nós põe em comum sua pessoa metafísicas, prosseguiremos a raciocinar sem
e toda a sua autoridade, sob o supremo comando nada entender, e quando tivermos dito o que é
da vontade geral, e recebemos em conjunto cada uma lei natural, não saberemos melhor o que é
membro como parte indivisível do todo”. Logo, ao uma lei do Estado.
invés da pessoa particular de cada contratante, Já tive ocasião de dizer que, de modo algum,
esse ato de associação produz um corpo moral e havia vontade geral num objeto particular. Esse
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objeto particular encontra-se, com efeito, no por leis, independente da forma de administração
Estado ou fora do Estado; uma vontade que lhe que possa ter; porque então somente o interesse
seja estranha não é em absoluto geral em relação público governa, e a coisa pública algo representa.
a ele; e se esse objeto está no Estado, dele faz Todo governo legítimo é republicano. Explicarei
parte, e então se forma entre o todo e sua parte mais adiante o que é o governo.
uma relação que os transforma em dois seres As leis não são propriamente senão as condi-
separados, cuja parte é um, e o todo, menos esta ções de associação civil. O povo, submetido às
mesma parte, constitui o outro. Mas o todo leis, deve ser o autor das mesmas; compete unica-
menos uma parte, não é de nenhum modo o todo, mente aos que se associam regulamentar as
e enquanto essa relação subsiste, não mais há o condições de sociedade; mas de que maneira as
todo, mas sim duas partes desiguais; de onde se regulamentarão? Fá-lo-ão de comum acordo, como
conclui que a vontade de uma não é também mais que por uma inspiração sublime? Possui o corpo
geral em relação à outra. Mas quando todo o povo político um órgão qualquer para enunciar-lhe as
estatui sobre todo o povo, só a si mesmo consi- vontades? Quem lhe dará a previsão necessária
dera; e se se forma então uma relação, é do objeto para formar e publicar os atos antecipadamente,
inteiro sob um ponto de vista ao objeto inteiro sob ou como os pronunciará no momento de necessi-
outro ponto de vista, sem nenhuma divisão do dade? De que maneira uma turba cega, que em
todo. Então, a matéria sobre a qual estatuímos geral não sabe o que quer, porque raramente
passa a ser geral, como a vontade que estatui. A conhece o que lhe convém, executará por si
esse ato é que eu chamo uma lei. Quando digo mesma um empreendimento de tal importância e
que o objeto das leis é sempre geral, entendo que tão difícil como um sistema de legislação? O povo,
a lei considera os vassalos em corpo e as ações de si mesmo, sempre deseja o bem; mas nem
como sendo abstratas, jamais um homem como sempre o vê, de si mesmo. A vontade geral é
indivíduo, nem uma ação particular. Destarte, pode sempre reta; mas o julgamento que a dirige nem
a lei estatuir perfeitamente que haverá privilégios, sempre é esclarecido. É necessário fazer-lhe ver
mas não pode ofertá-los nominalmente a nin- os objetos tais como são, e muitas vezes tais
guém; pode a lei instituir diversas classes de cida- como devem parecer-lhe; é preciso mostrar-lhe o
dãos, assinalar inclusive as qualidades que darão bom caminho que procura, protegê-la da sedução
direito a essas classes; mas não pode nomear das vontades particulares, aproximar de seus olhos
este ou aquele para ser nelas admitido; pode os lugares e os tempos, equilibrar o encanto das
estabelecer um governo real e uma sucessão vantagens presentes e sensíveis com o perigo dos
hereditária, mas não pode eleger um rei nem males afastados e ocultos. Os particulares veem o
nomear uma família real: numa palavra, toda bem que rejeitam, o público deseja o bem que não
função que se relacione com um objeto individual vê. Todos igualmente necessitam de guias; é
não pertence de nenhum modo ao poder legis- preciso obrigar uns a conformar suas vontades
lativo. No tocante a esta ideia, vê-se imediata- com sua razão; é necessário ensinar outrem a
mente não mais ser preciso perguntar a quem conhecer o que pretende. Então, das luzes públi-
compete fazer as leis, pois que elas constituem cas resulta a união do entendimento e da vontade
atos da vontade geral; nem se o príncipe se no corpo social; dá o exato concurso das partes e,
encontra acima das leis, pois que ele é membro finalmente, a maior força do todo. Eis de onde
do Estado; nem se a lei pode ser injusta, pois que nasce a necessidade de um legislador (ROUSSEAU,
ninguém é injusto consigo mesmo; nem em que 1983, p. 53-56).
sentido somos livres e sujeitos às leis, pois que
estas são apenas registros de nossas vontades. Os sucessivos conflitos com colegas e com a socie-
Vê-se ainda que, reunindo a lei da universa- dade europeia provocaram sérios problemas emocionais
lidade da vontade e a do objeto, tudo que um em Rousseau: àquele momento já visto como um
homem, seja quem for, ordena de sua cabeça não importante romancista e teórico, o filósofo passou a
é em absoluto uma lei; mesmo o que é ordenado apresentar sinais claros de mania de perseguição e de
pelo soberano acerca de um objeto particular não paranoia. Após refugiar-se na Inglaterra, sob a proteção
é igualmente uma lei, mas um decreto; nem de David Hume, Rousseau voltou a Paris e, na França,
constitui um ato de soberania, mas de magistra- após a escrita de Devaneios de um caminhante solitário,
tura. Eu chamo, pois, república todo Estado regido faleceu, aos 66 anos de idade.

– 121
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Figura 4. O novo
contrato social
proposto por
Rousseau
pressupõe a
construção de uma
consciência global,
fruto da submissão
Ingimage / Fotoarena da vontade
individual à vontade
geral, em um
processo que
permite a
celebração de um
pacto de todos
homens entre si
mesmos e no qual
estão garantidas a
liberdade e a
igualdade.

Referências do módulo 12

Audiovisuais
AVATAR. Dir. James Cameron. Estados Unidos/Reino Unido: Lightstorm Entertainment/Dune Entertainment, 2009. 162
minutos.
O ENIGMA de Kaspar Hauser. Dir. Werner Herzog. Alemanha Ocidental, 1974, 110 minutos.
Textuais
ABRÃO, B. S. (Org.). História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
ARBOUSSE-BASTIDE, P.; MACHADO, L. G. “Introdução”. In: Do Contrato Social; Ensaio sobre a origem das línguas;
Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens; Discurso sobre as ciências e as artes.
Tradução de Lourdes Santos Machado. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Coleção Os Pensadores).
ARCOS. Teoria política moderna: Rousseau e contexto histórico, 2018. Disponível em: <[Link]
[Link]/cursos/teoria-politica-moderna/rousseau/contexto-historico>. Acesso em: 16 mar. 2018.
CHAUÍ, M. Convite a filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
MONTESQUIEU, C. L. Do espírito das leis. Introdução e notas de Gonzague Truc. Tradução de Fernando Henrique
Cardoso e Leôncio Martins Rodrigues. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1985. (Coleção Os Pensadores).
RIBEIRO, L. M. C. Contrato social e direito natural em Jean-Jacques Rosseau. Kriterion, Belo Horizonte, v. 58, n. 136,
p. 125-138, Abr. 2017. Disponível em: <[Link] 17
000100125&lng=en&nrm=iso>. ou <[Link] Acesso em: 19 mar. 2018.
ROUSSEAU, J.-J. Do contrato social; Ensaio sobre a origem das línguas; Discurso sobre a origem e os fundamentos
da desigualdade entre os homens; Discurso sobre as ciências e as artes. Tradução de Lourdes Santos Machado.
Introdução e notas de Paul Arbousse-Bastide e Lourival Gomes Machado. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Coleção
Os Pensadores).
SANTINI, J. Rousseau e o Romantismo. UNESP, 2000. Disponível em: <[Link]
2000rousseau/[Link]>. Acesso em: 2 mar. 2018.
SOËTARD, M. Jean-Jacques Rousseau: Introdução e notas. Tradução e organização de José Eustáquio Romão e Verone
Lane. Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana, 2010.
STRATHERN, P. Rousseau em 90 minutos. Tradução de Maria Lúcia de Oliveira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
TRUC, G. “Introdução e Notas”. In: MONTESQUIEU, C. L. Do espírito das leis. Tradução de Fernando Henrique Cardoso
e Leôncio Martins Rodrigues. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1985. (Coleção Os Pensadores).
Créditos das imagens
Figura 2. Disponível em: <[Link] Acesso em: 9 abr. 2018.
Figura 3. Disponível em: <[Link]
Acesso em: 9 abr. 2018.

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1. – É verdade que nas democracias o povo Texto para os itens 2 e 3.


parece fazer o que quer; mas a liberdade
O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a
política não consiste nisso. Deve-se ter sempre presente
ferros. O que se crê senhor dos demais não deixa de ser
em mente o que é independência e o que é liberdade. A
mais escravo do que eles. [...] A ordem social, porém, é
liberdade é o direito de fazer tudo o que as leis permitem;
um direito sagrado que serve de base a todos os outros.
se um cidadão pudesse fazer tudo o que elas proíbem,
[...] Haverá sempre uma grande diferença entre subjugar
não teria mais liberdade, porque os outros também teriam
uma multidão e reger uma sociedade. Sejam homens
tal poder.
isolados, quantos possam ser submetidos sucessiva-
(Montesquieu. Do Espírito das Leis.
mente a um só, e não verei nisso senão um senhor e
São Paulo: Nova Cultural, 1997. Adaptado.)
escravos, de modo algum considerando-os um povo e
A característica de democracia ressaltada por seu chefe. Trata-se, caso se queira, de uma agregação,
Montesquieu diz respeito mas não de uma associação; nela não existe bem público,
a) ao status de cidadania que o indivíduo adquire ao tomar nem corpo político.
as decisões por si mesmo. (Jean-Jacques Rousseau. Do Contrato Social. [1762].
b) ao condicionamento da liberdade dos cidadãos à São Paulo: Abril, 1973, p. 28, 36.)

conformidade às leis.
c) à possibilidade de o cidadão participar no poder e, 2 (UNICAMP) – No trecho apresentado, o autor
nesse caso, livre da submissão às leis. a) argumenta que um corpo político existe quando os
d) ao livre-arbítrio do cidadão em relação àquilo que é homens encontram-se associados em estado de
proibido, desde que ciente das consequências. igualdade política.
e) ao direito de o cidadão exercer sua vontade de acordo b) reconhece os direitos sagrados como base para os
com seus valores pessoais. direitos políticos e sociais.
c) defende a necessidade de os homens se unirem em
agregações, em busca de seus direitos políticos.
d) denuncia a prática da escravidão nas Américas, que
obrigava multidões de homens a se submeterem a um
único senhor.

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3 (UNICAMP) – Sobre Do Contrato Social, publicado em se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra
1762, e seu autor, é correto afirmar que: não pertence a ninguém!”. Grande é a possibilidade,
a) Rousseau, um dos grandes autores do Iluminismo, porém, de que as coisas já então tivessem chegado ao
defende a necessidade de o Estado francês substituir ponto de não poder mais permanecer como eram. Foi
os impostos por contratos comerciais com os preciso fazer-se muitos progressos, adquirir-se muita
cidadãos. indústria e luzes, transmiti-las e aumentá-las de geração
b) A obra inspirou os ideais da Revolução Francesa, ao para geração, antes de chegar a esse último termo do
explicar o nascimento da sociedade pelo contrato estado de natureza.
social e pregar a soberania do povo. (J.-J. Rousseau. “Discurso sobre a origem e os fundamentos
c) Rousseau defendia a necessidade de o homem voltar da desigualdade entre os homens”. In: Os pensadores. São
a seu estado natural, para assim garantir a sobrevi- Paulo: Abril Cultural, 1979. Adaptado.)

vência da sociedade.
d) O livro, inspirado pelos acontecimentos da Indepen- Considerando o texto, avalie as afirmações a seguir com
dência Americana, chegou a ser proibido e queimado base nas ideias de Rousseau:
em solo francês. I. A desigualdade moral ou política depende de uma
convenção entre os homens.
II. Há privilégios de que alguns homens gozam em
prejuízo de outros homens.
III.A ideia de propriedade se formou repentinamente no
espírito humano.

É correto o que se afirma em:


a) I, apenas.
b) III, apenas.
c) I e II, apenas.
d) II e III, apenas.
e) I, II e III.

4 (ENADE) – O verdadeiro fundador da sociedade civil


foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-
se de dizer “isto é meu” e encontrou pessoas suficien-
temente simples para acreditá-lo. Quantos crimes,
guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao
gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou
enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes:
“Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos

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A afirmação da vida e o Existencialismo:


MÓDULO 13
Shopenhauer, Kierkegaard e Nietzsche e a vontade

Neste módulo, vamos estudar os dois filósofos do tados segundo a tradição do pensamento lógico e
final do século XVIII e início do XIX, Schopenhauer e sistemático de Hegel.
Kierkegaard, que desenvolveram suas obras no contexto
de uma Europa devastada pelas guerras napoleônicas.
Desespero e angústia são marcas importantes desses Observação:
filósofos; no entanto, ambos se negaram a se entregar O aforismo é uma espécie de ditado, ou sentença
facilmente ao sofrimento. Cada um deles, a seu próprio sintética, que apresenta uma regra ou princípio
modo, buscou apresentar alternativas ao pessimismo e à moral. Trata-se de um texto curto e breve, cujo
percepção da vida como algo sem significado e sem conteúdo encerra uma reflexão filosófica.
sentido.
E também a brilhante, incisiva e perturbadora obra de
Nietzsche. As ideias do filósofo transformaram-no em um Schopenhauer é lembrado como o filósofo da angús-
dos mais importantes representantes do niilismo existen- tia e da desesperança. Essa perspectiva resulta da
cial e exerceram profunda influência no pensamento constatação de que, em sua obra, a angústia e o tédio são
filosófico do século XX. apresentados como elementos centrais da existência
humana, na qual os momentos de felicidade são raros.
1. Arthur Schopenhauer: uma filosofia construída No entanto, essa interpretação do pensamento de
por meio de aforismos Schopenhauer é simplista demais. Em primeiro lugar, é
importante observar que o mundo que se coloca diante
Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão, do filósofo é conturbado e, efetivamente, repleto de sofri-
viveu à sombra de vários fantasmas: o do reconhe- mento; é um mundo devastado pelas guerras napoleôni-
cimento e o da fama, que só aconteceram 32 anos depois cas que haviam deixado rastros de miséria e mutilação
da publicação de sua principal obra, O mundo como por toda a Europa. Até mesmo a Revolução Francesa
vontade e representação; e o da aceitação, por parte da resultara em desespero e terror. No entanto, Schopenhauer
comunidade acadêmica, de que ele era superior a Hegel. evita sucumbir ao desânimo e ao desalento; ao contrário,
Essa disputa com Hegel marcou a vida de Schopenhauer ele alerta para a necessidade de afirmar a vida e a
de forma profunda e intensa (e há dúvidas a respeito do disposição de vivê-la em plenitude, especialmente se
quanto Hegel estava efetivamente preocupado com o seu essa afirmação e essa disposição forem materializadas
suposto oponente). sob a forma de uma sabedoria de vida (BARBOZA, 2002).
Os dois filósofos encontraram-se na Universidade de Nesse sentido, podemos definir o pensamento de
Berlim. Ali, Schopenhauer resolveu medir forças com Schopenhauer como pendular, vale dizer, ele oscila
continuamente entre pessimismo metafísico e
Hegel, filósofo reconhecido como crítico e admirador de
otimismo prático. Embora o mundo seja sofrimen-
Kant. O que Schopenhauer desejava, na verdade, era ser
to no seu íntimo, o homem tem à sua disposição
reconhecido como o “verdadeiro intérprete” de Kant. A a possibilidade de uma felicidade, até onde é
inveja e o ressentimento de Schopenhauer foram possível para seres tão carentes como nós. [...]
tamanhos que ele chegou a marcar suas aulas no mesmo Quer dizer, paradoxalmente, estamos diante de
horário em que Hegel ministrava seu curso de filosofia, um livro de um metafísico pessimista que, toda-
com a intenção de disputar alunos e prestígio, iniciativa via, não teme falar de uma felicidade alcançável
que só fez aumentar a sua raiva: sua sala continuava vazia, (BARBOZA, 2002, p. XIII).
e a de Hegel, repleta de estudantes.
Uma das principais características da obra de
Schopenhauer é que as ideias são apresentadas sob a Observação:
forma de aforismos. Determinado a superar os filósofos A metafísica busca a compreensão daquilo que está
do romantismo alemão, Schopenhauer adotou o aforismo além da experiência sensível. Assim, suas principais
como marca de um pensamento livre de amarras expo- preocupações são a totalidade cósmica, a alma
sitivas e de complexidade conceitual. Esse estilo, quase humana e o conhecimento da essência das coisas.
artístico, acabou por influenciar gerações de filósofos, que
viram no discurso aforístico uma maneira simples e
atrativa de abordar temas complexos, até então apresen-

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Schopenhauer propõe fazer o balanço da vida por


meio de uma curiosa comparação: de um lado, os pra- Observação:
zeres usufruídos; do outro, os males evitados. A vida boa Para Kant, a experiência é fundamental para a
e sábia, dessa forma, é o que permite ao ser humano construção do conhecimento; no entanto, é a mente
viver em um mundo que é quase um inferno. E, para uma humana que torna a experiência possível. Nosso
vida boa e sábia, nada melhor do que a reflexão filosófica. conhecimento sobre a realidade é limitado, já que a
mente humana não é capaz de conhecer a coisa em

Ingimage/Fotoarena
si, na sua totalidade (o númeno). Somos apenas
capazes de conhecer o que nossa mente consegue
apreender da realidade, o fenômeno, que nada mais
é do que uma representação da realidade.

Saiba mais
Sugerimos que você assista dois filmes que, de certa
forma, tangenciam as ideias de Schopenhauer.
Figura 1. Para Barboza (2002, p. XIV), "o que Schopenhauer entende por O primeiro é Os Duelistas (1977), filme dirigido por
sabedoria está muito próximo da visão estoica do mundo, isto é, encarar Ridley Scott e protagonizado por Keith Carradine e
as adversidades com serenidade. Eis a razão da crítica ao pessimismo Harvey Keitel. Por causa de uma troca de ofensas, dois
exacerbado".
soldados franceses tornam-se inimigos, ameaçando-
se e enfrentando-se em duelos ao longo de quinze
Outro eixo importante do seu trabalho é a questão da
anos. O filme trata dos exageros e absurdos que são
representação. De forma curiosa (especialmente se
cometidos em nome da honra.
considerarmos sua obsessão por Hegel), Schopenhauer
defendeu que não se deve dar tanta importância ao que O segundo filme é Blade Runner (1982), também
"representamos" na opinião do outro. Em outros termos, dirigido por Ridley Scott e protagonizado por Harrison
o ser humano deve evitar conduzir suas ações em função Ford e Rutger Hauer. Uma das obras cinematográficas
do que o olhar alheio determina. mais icônicas da década de 1980, o filme narra as
Como exemplo de atos tolos, e gerados pela insupor- aventuras de um caçador de androides fugitivos que
tável necessidade de agradar a opinião de outros, lutam pelos direitos de uma existência humana (ou
Schopenhauer cita a prática do duelo: que coisa estúpida pelo reconhecimento de que suas existências são tão
especiais quanto as dos seres humanos). Afinal, se
essa de, apenas por conta de uma ofensa externalizada,
eles são percebidos pelos outros como humanos, por
colocar a sua vida em risco ou tirar a vida alheia? Por qual
que então eles devem ser considerados escravos ou
motivo aquilo que parece aos outros deve valer mais do
inferiores? Uma das questões que o filme deixa em
que o que pensamos a nosso próprio respeito?
O mundo que vemos consiste em representação,
aberto diz respeito ao caçador que, melancolicamente,
meros fenômenos, como Kant muito bem o coloca em dúvida a sua própria condição: ele é humano
definiu. O que apoia essa representação, porém, ou é apenas um androide que se imagina humano?
não é, como em Kant, a realidade final do número,
mas a Vontade universal. Essa Vontade é cega,
perpassa todas as coisas e é sempre destituída de
A vontade, assim, é a nossa experiência direta, uma
objetivo. Como o númeno de Kant, está além do força impessoal que funciona como motor de nossas
espaço e do tempo e não possui causa. É isso que vidas. O mundo, esse lugar inóspito e cruel, merece
provoca toda a miséria e sofrimento do mundo, nosso repúdio; as artes, em particular, podem nos aliviar
que só podem terminar com a morte. Nossa única de uma existência de suplícios e de sofrimento. E, como
esperança é nos libertarmos do poder dessa estamos separados uns dos outros apenas na aparência,
Vontade e da carga de individualidade e egoísmo os sentimentos de compaixão e de amor podem construir
atada a ela. Isso só pode ser obtido pela renúncia uma realidade em que os seres humanos sejam solidários
expressa na compaixão por nossos irmãos uns com os outros.
sofredores, pela abnegação da vontade tal como Dessa forma, Schopenhauer
praticada pelos santos e eremitas de todas as realizou uma mudança radical com relação à
raças e credos, e pela apreciação estética das tradição filosófica antecedente, pois ela colocou
obras de arte (que inclui a contemplação sem em segundo plano a primazia da razão como
vontade) (STRATHERN, 1998, p. 10). sendo a legisladora e o princípio ordenador do
mundo. Desde os gregos antigos, a filosofia
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expressou grande confiança no poder da razão, grande mente ou um grande coração, todos os
depositando na racionalidade cósmica uma ordem privilégios de posição, nascimento, mesmo um
inteligente que rege e conduz as leis naturais do nascimento nobre, riqueza e assim por diante, não
universo. No entanto, contrariando este posiciona- passam de reis de teatro em comparação com
mento, a filosofia schopenhaueriana se desen- reis na vida real.
volveu na reflexão acerca do irracional, isto é, ela [...]
parte da ideia de que o princípio de onde todas as
E é óbvio que o elemento principal no bem-estar
coisas emanam, a Vontade, a coisa-em-si do
de um indivíduo — de fato, de todo o seu modo de
mundo, não possui nenhum fundamento ou razão.
existir — é aquilo que o constitui, que ocorre
Para Schopenhauer, a Vontade é uma força cega e
dentro dele próprio. Pois isso constitui a fonte
dinâmica. [...]. Noutras palavras, a Vontade é en-
imediata de sua satisfação ou insatisfação íntima,
tendida como um princípio metafísico, sem finali-
que resulta de todo o seu sentir, desejar e pensar.
dade ou objetivo, uma força volitiva e insaciável,
Por outro lado, tudo que o cerca exerce somente
que se firma nas diversas camadas da natureza e
uma influência indireta; por esse motivo, os mes-
da existência em geral (NASCIMENTO, 2015, p.
mos eventos ou circunstâncias afetam diferente-
2).
mente cada um de nós; e até com ambientes
exatamente iguais, cada qual vive em seu próprio
Em vez de fazer a apologia do desespero, Schopenhauer
mundo. Pois um homem apenas preocupa-se
propõe que os jovens busquem evitar a dor; a felicidade
diretamente com suas próprias ideias, sentimen-
e o prazer completo são impossíveis de serem tos e volições; o mundo exterior somente pode
alcançados, e uma vida sábia resulta do reconhecimento influenciá-lo na medida em que traz vida a esses.
de que não há muito o que se esperar do mundo. A inútil O mundo em que cada qual vive depende princi-
busca pela felicidade é substituída pela alegria que pode palmente de sua própria interpretação desse e,
ser encontrada nas pequenas coisas. assim, mostra-se diferentemente a homens dife-
A distinção entre opinião alheia e valor próprio é o rentes; para um é pobre, insípido e monótono,
eixo de uma das obras de Schopenhauer, Aforismos para para outro é rico, interessante e importante. Por
a sabedoria da vida. Assim, o ser humano detém três exemplo, apesar de muitos invejarem os aconteci-
diferentes tipos de bens: tudo o que possui em termos de mentos interessantes que ocorreram ao longo da
valores e características pessoais; tudo o que possui em vida de um homem, deveriam, em vez disso,
invejar seu dom de interpretação que imbuiu tais
termos materiais; e tudo o que representa para os outros.
eventos com a significância que exibem enquanto
Aristóteles (Ética a Nicômaco, I. 8) dividiu os bens
os descreve. O mesmo evento que parece inte-
da vida humana em três classes: aqueles que vêm
ressante ao homem de gênio seria somente uma
de fora, aqueles da alma e aqueles do corpo. Pre-
cena monótona e fugidia do mundo corriqueiro
servando dessa divisão somente o número três,
quando concebida pela mente superficial de um
observo que as diferenças fundamentais na sina
homem comum (SCHOPENHAUER, 2002, p. 3-9).
dos homens podem ser reduzidas a três classes
distintas:
(1) O que um homem é, ou seja, sua persona-
lidade no sentido mais amplo. Isso inclui saúde, 2. Søren Kierkegaard
força, beleza, temperamento, caráter moral, inteli-
gência e educação. Representante do existencialismo, o dinamarquês
(2) O que um homem tem, ou seja, propriedades Søren Kierkegaard (1813-1855) refletiu sobre o indivíduo
e posses em todos os sentidos. e sua existência. Diante de uma Europa destroçada pela
(3) O que um homem representa; sabemos que guerra, o desespero precisava de um discurso que o
por meio dessa expressão entende-se o que um explicasse e o justificasse: a filosofia existencialista cum-
homem é aos olhos dos demais e, portanto, como priu com esse papel no século XIX e Kierkegaard tinha o
é representado por esses. Consiste, assim, na
perfil ideal para a sua elaboração: criado de forma intran-
opinião desses ao seu respeito, e pode ser divi-
sigente e autoritária pelo seu pai, atormentado pela ideia
dida em honra, posição e glória.
As diferenças a serem consideradas em relação à
de pecado e pelos conflitos religiosos daquele período,
primeira classe são aquelas que a própria natureza frustrado com o fato de não conseguir concretizar uma
estabeleceu entre os homens. Disso pode-se relação amorosa com Regine Olsen, a quem conhecera
inferir que sua influência sobre a felicidade ou quando ela era ainda uma criança, e mergulhado em
infelicidade da humanidade será muito mais dúvidas e incertezas, ninguém melhor do que ele para
fundamental e radical que aquela abarcada pelas tentar responder a questões que outros filósofos haviam
outras duas classes, que são apenas o efeito de desistido de solucionar.
decisões e resoluções humanas. Comparados Na verdade, Kierkegaard retomou uma questão que
com vantagens pessoais genuínas, como uma havia sido deixada de lado: o que era a existência, afinal?
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A filosofia há muito desistira de tentar responder a essa Kierkegaard trouxe à tona um dilema extremamente
pergunta, já que entendia ser impossível alcançar uma simples e que, de certa forma, explicava a existência e
explicação. Qual era a utilidade de questionar-se a res- dava sentido à vida. Para ele, havia duas maneiras de viver
peito do significado da vida e do sentido da existência? a vida: a estética e a ética. Cabia a cada ser humano fazer
No século XVII, Descartes propusera uma solução no sua escolha, escolha essa que resultava em conse-
seu cogito. Cogito ergo sum, quer dizer, penso logo quências sobre as quais cabiam responsabilidades. Os
existo. Pode-se duvidar de tudo, menos de que estamos que preferiam a estética, viviam para o seu próprio prazer.
pensando. Se eu penso em algo, eu existo. Todo o res- Kierkegaard, no entanto, fazia uma ressalva.
tante pode ser apenas fruto de ilusões ou erros, exceto o Num nível básico, o indivíduo que vive a vida
fato de eu pensar. Hegel, no início do século XIX, havia estética não tem o controle da sua existência. Ele
retomado a questão da existência: era real tudo o que era vive o momento, levado pelo prazer. Sua vida pode
racional e tudo que era racional era real. Realidade e razão ser contraditória, carente de estabilidade e certeza.
Mesmo num nível mais calculado, a vida estética
justificavam-se e explicavam-se. No entanto, a pergunta
continua sendo “experimental”. Sentimos certo
sobre o significado da existência ainda continuava sem
prazer apenas enquanto ela exerce apelo sobre
resposta. nós. A inadequação do ponto de vista estético é
Profundamente impactado pela dialética hegeliana, fundamental. Porque ele se apoia no mundo
Kierkegaard procurou oferecer uma explicação para o externo. Ele “espera tudo de fora”. Dessa forma,
sentido da existência. Sua relação com as ideias de Hegel é passivo e carente de liberdade. Apoia-se em
era, aliás, marcada pela dialética: Kierkegaard amava coisas que estão, em última instância, além do
Hegel e, ao mesmo tempo, odiava Hegel. Como outros controle da sua vontade — como o poder, as
filósofos que haviam sido influenciados pelas ideias de posses ou mesmo a amizade. É contingente,
Hegel, o que Kierkegaard mais queria era conseguir superar dependente do “acidental”. Não há nada “neces-
o mestre tão admirado. sário” nele. Se compreendermos essas coisas,
A dialética também alcançaria a relação de veremos a inadequação última da existência
estética. Quando um indivíduo que vive a vida
Kierkegaard com sua própria obra. Vários dos seus textos
estética reflete sobre sua existência, logo percebe
foram publicados sob pseudônimos que Kierkegaard fazia
que lhe faltam certeza e significado (STRATHERN,
questão de sinalizar que eram falsos. Escondendo-se, 1999, p. 25).
mas revelando-se, o filósofo entrou em contato com
outros pensadores alemães que, como ele, tentavam Esta renúncia à liberdade, este colocar-se como um
libertar-se da sombra de Hegel. Kierkegaard, no entanto, mero joguete do destino, este é o caminho que leva
acreditava ter condições de se sair bem dessa tarefa. O certamente ao desespero. Assim, o que Kierkegaard pre-
que os outros não haviam ainda compreendido era que tende é oferecer uma alternativa ao desespero. “A solu-
O sistema filosófico de Hegel e, de fato, todos os
ção que lhe deu foi igualmente radical. A única resposta
sistemas filosóficos eram agora coisa do passado.
é assumir a posse integral da própria existência e aceitar
Um sistema construído sobre princípios racionais
(como qualquer sistema devia ser) só descrevia os
responsabilidade por ela” (STRATHERN, 1999, p. 27). Não
aspectos racionais do mundo. Kierkegaard à toa, essa perspectiva existencialista influenciaria enor-
compreendera — e experimentara plenamente — memente os filósofos de uma Europa que, no século XX,
o fato de que a subjetividade não era racional viveria em constante estado de guerra. Ao contrário de
(STRATHERN, 1999, p. 23). uma vida estética, Kierkegaard oferece a chance de o
indivíduo fazer uma opção, uma opção ética.
Ali onde o indivíduo estético meramente aceita-se
Observação: tal como é, o indivíduo ético procurar conhecer e
mudar a si mesmo por escolha própria. Será
A dialética hegeliana parte de uma tese que, por sua
guiado nisso pelo seu autoconhecimento e sua
vez, gera o seu contrário, a antítese. A síntese é o
vontade — não de aceitar o que descobre, mas de
resultado do encontro entre tese e antítese e, na tentar melhorar isso (STRATHERN, 1999, p. 28).
sequência, ela se transforma em tese. Um exemplo
pode ser a seguinte ideia. O Ser (a existência) é a Enquanto o indivíduo estético está preocupado com
tese. O Nada é a antítese da tese. A síntese, o mundo exterior, o indivíduo ético busca tornar-se melhor
encontro entre tese e antítese, é o devir, o vir-a-ser, e alcançar uma vida mais elevada em termos de padrões
o que ainda não é, mas que poderá ser, quando a éticos. E a transição do mundo estético para o ético
mudança e a transformação agirem sobre as coisas ocorre de forma natural, já que, automaticamente, o ser
provisórias e transitórias. humano é capaz de reconhecer o que é superior.

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De acordo com a lógica dialética, estética e ética 3. Friedrich Nietzsche (1844-1900)


fazem gerar uma síntese que, para Kierkegaard é a reli-
Há quem diga que há pouco de filosofia nas ideias de
gião. A religião transcende o ético; na verdade, para que
Nietzsche; outros afirmam que seus escritos são
o ser humano alcance o estágio mais elevado de supe-
simplistas e sem sentido (STRATHERN, 1997). Para Abrão
rioridade moral, ele deve transcender seus princípios
(1999), sua obra, escrita de forma aforismática (quer dizer,
éticos em favor de um propósito maior. Como exemplo
por meio de ditados e frases curtas, de grande impacto),
dessa transição, Kierkegaard relembra o sacrifício de Isaac dá a falsa impressão de falta de unidade. Ledo engano:
imposto por Deus a Abrão. Nietzsche preocupou-se com a discussão da moral, da
Para testar sua fé, Deus ordena a Abraão que
religião e das ciências e das artes, elementos que ele
mate o filho Isaac. Esse ato só pode ser visto
entendeu serem indicativos do percurso da civilização.
como eticamente errado — mas a verdadeira fé
O verdadeiro filosofar de Nietzsche é tão brilhante,
(exigência do estágio religioso) envolve o pro-
pósito divino, que rejeita e suplanta toda demanda persuasivo e incisivo quanto qualquer outro antes
meramente ética. Abraão se dispõe a seguir a ou depois dele. Quando se lê Nietzsche, tem-se a
ordem de Deus, independente da repugnância sensação embriagadora de que a filosofia tem de
que possa sentir por semelhante ato. Nisso está fato importância. (STRATHERN, 1997, p. 7).
levando uma vida no nível religioso, que é superior
à vida ética porque tem fé na divindade da qual o Isso o torna extremamente perigoso.
ético se origina (STRATHERN, 1999, p. 30). A partir do conceito de potência, Nietzsche apro-
fundou-se no estudo das motivações humanas e o fez de
Ingimage/Fotoarena forma extremamente incisiva e original; ao investigar as
questões da moral e da religião, o filósofo, na verdade,
refletiu sobre a existência humana (ABRÃO, 1999).
Nascido na Prússia, em 1844, no seio de uma família
muito religiosa de tradicionais comerciantes, e na qual os
homens trabalhavam como religiosos, Nietzsche iniciou
seus estudos de teologia com o objetivo de corresponder
ao que a tradição familiar dele esperava. A vida na
Universidade de Bonn, no entanto, fê-lo mudar de ideia:
da teologia, passou ao estudo da filosofia. Na cidade de
Leipzig, e frequentando outra universidade, Nietzsche
comprou um livro de Schopenhauer num sebo, O mundo
como vontade e representação. Dali para a frente, ele
Figura 2. Para Kierkegaard, “cada indivíduo é, em certa medida, o criador
do seu próprio mundo. E cria seu mundo em função dos valores que
seria outra pessoa.
tem” (STRATHERN, 1999, p. 34). Para Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo
alemão nascido na Polônia, o mundo era uma mera repre-
sentação na qual predominava uma vontade maléfica que,
Observação: por sua vez, era responsável pelo sofrimento que afligia
A filosofia de Kierkegaard exerceu uma profunda as pessoas. Assim, o único caminho a ser seguido era
influência no desenvolvimento da psicologia, em aquele que diminuísse o poder dessa vontade, restau-
particular a freudiana. A liberdade, antes de ser uma rando nos seres humanos os sentimentos de renúncia e
questão filosófica, está associada à atitude mental ascetismo (STRATHERN, 1997).
que determina nossos padrões psicológicos.

Observação:
Cada indivíduo constrói seu próprio mundo, por meio O ascetismo é uma doutrina que prega a disciplina
do exercício da vontade. Vemos o que queremos ver, e e o controle dos instintos com o objetivo de cultivar
vemos de acordo com valores que escolhemos e que nos a virtude e o caminho das palavras de Deus.
fazem ser o que somos. Essas escolhas são arriscadas:
não há como termos certeza de que são as melhores. A É provável que a proposta de uma vida de piedade, fé
vida que vivemos, e a consciência que dela temos, são e renúncia não tenha emocionado Nietzsche, mas a noção
precárias. Se é verdade que nossa vida pode terminar a de vontade como força motriz foi fundamental para a sua
qualquer momento, também é verdade que, a cada reflexão. Faltava apenas um elemento que fizesse explo-
instante, nos é possível modificá-la por meio de escolhas. dir todas as ideias que estavam ali em sua mente e isso
aconteceu com a entrada de Richard Wagner na sua vida.

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Segundo Strathern (1997), assim como Nietzsche, Ao retornar da guerra e retomar seu trabalho como
Wagner também era apaixonado pelas ideias de professor, Nietzsche começou a escrever O nascimento
Schopenhauer. “O efeito sobre Nietzsche foi imediato e da tragédia. Nessa obra, o filósofo buscou resgatar os
profundo: Nietzsche foi sufocado pelo grande compositor, elementos dionisíacos da cultura grega: o que ele queria
cujo caráter exuberante era pelo menos igual ao de suas desenterrar eram as forças mais sombrias e instintivas da
obras” (STRATHERN, 1997, p. 10). tragédia grega.

Observação:
Na mitologia grega, Apolo e Dionísio são filhos de
Zeus. Enquanto Apolo representa a razão, Dionísio
materializa a loucura e o caos. Eles não são, neces-
sariamente, antagônicos, já que podem estar pre-
sentes de forma simultânea, como, por exemplo,
nas tragédias gregas.

Saiba mais
Nietzsche pretendia utilizar as forças apolíneas e
dionisíacas para iluminar a música grandiosa de
Wagner, a única capaz de fundir esses elementos de
forma harmoniosa, épica e majestosa.
O lado sombrio, louco e caótico da ópera A cavalgada
das Valquírias, de Wagner, foi explorado pelo diretor
Francis Ford Copolla, em 1979, em Apocalipse now.
O filme narra uma operação especial realizada no meio
da guerra do Vietnã, com o objetivo de resgatar um
coronel que, supostamente, havia enlouquecido. Em
uma das cenas, helicópteros americanos atacam e
destroem um vilarejo vietnamita; nesse momento,
Copolla usa um trecho da ópera de Wagner para acen-
Figura 3. Richard Wagner (1813-1883) foi um compositor alemão, tuar os elementos insanos da guerra. Essa cena está
conhecido especialmente por causa de suas óperas grandiosas e disponível no link: <[Link]
dramáticas, como A cavalgada das Valquírias. Sua vida foi extremamente v=fc3G_f34Wrc>. Acesso em: 5 out. 2018
turbulenta; seus amores, seu comportamento errático e mundano e o
seu envolvimento com os movimentos revolucionários da segunda
metade do século XIX acabaram por levá-lo à falência.
Schopenhauer havia demonstrado o quanto a filosofia
Os hábitos permissivos de Wagner e o ambiente ocidental devia ao pensamento oriental, adotando, em sua
conturbado que o cercava abalaram Nietzsche de forma obra, conceitos e sentimentos importantes do budismo,
significativa. De acordo com Abrão (1999), seu convívio tais como sofrimento, compaixão e iluminação. Para
com Wagner foi tão intenso que ele chegou a se Schopenhauer, o nirvana, a felicidade, nada mais era do
apaixonar pela esposa do músico, Cósima, filha de outro que a eliminação da vontade, um estado de negação total.
grande compositor, Franz Liszt (1811-1886). Nietzsche, em oposição, fez uso dos elementos
Mas a realidade era bem diferente daquela na qual o dionisíacos para se contrapor aos cristãos. Para ele, estes
filósofo vivia ao lado de Wagner, em meio ao luxo e à haviam enfraquecido a civilização.
Ele compreendeu que a maioria de nossos
frivolidade intelectual. Assim, o trabalho como enfermeiro
impulsos tem dois lados. Mesmo os assim
voluntário durante a guerra franco-prussiana ofereceu a
chamados melhores impulsos têm seu lado
Nietzsche a oportunidade única de entrar em contato com sombrio ou degenerado. “Todo ideal pressupõe
o ambiente de um campo de batalha. Segundo Strathern amor e ódio, reverência e desprezo. O impulso
(1997), este teria sido o momento em que Nietzsche essencial pode surgir tanto do lado positivo quanto
entendeu que a principal vontade do ser humano não era do negativo” (STRATHERN, 1997, p. 12).
lutar pela vida, mas viver para guerrear e dominar.

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Para Nietzsche, o cristianismo apenas tentara se Vejamos, a seguir, um trecho de A gaia ciência no
sobrepor aos nossos instintos positivos, impondo aos qual Nietzsche explica o seu conceito de eterno retorno.
homens atitudes e sentimentos estranhos à nossa E se um dia, ou uma noite, um demônio fosse te
natureza. As atitudes éticas não precisavam da religião seguir em tua suprema solidão e te dissesse:
para serem adotadas pelos homens, daí a desnecessária "Esta vida, tal como a vives atualmente, tal como
intervenção do cristianismo. Por isso, Nietzsche a viveste, vai ser necessário que a revivas mais
uma vez e inumeráveis vezes; e não haverá nela
proclamou: "Deus está morto".
nada de novo, pelo contrário! A menor dor e o
menor prazer, o menor pensamento e o menor
Observação: suspiro, o que há de infinitamente grande e de
infinitamente pequeno em tua vida retornará e
Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo alemão, já havia tudo retornará na mesma ordem – essa aranha
decretado a morte de Deus, mas em outro sentido. também e esse luar entre as árvores e esse
Para Hegel, a morte de Cristo mostrava que mesmo instante e eu mesmo! A eterna ampulheta da vida
a morte não triunfaria sobre o espírito humano. Para será invertida sem cessar – e tu com ela, poeira
Nietzsche, não se tratava de negar a divindade ou a das poeiras!" – Não te jogarias no chão, rangendo
existência de Deus. Ele desejava afirmar, acima de os dentes e amaldiçoando esse demônio que
tudo, que a religião não era necessária para que os assim falasse?
homens pudessem viver de maneira ética, já que Ou talvez já viveste um instante bastante
prodigioso para lhe responder:
essa tão somente impunha valores e compor-
"Tu és um deus e nunca ouvi coisa tão divina!" Se
tamentos. Em outras palavras, era possível, admis-
este pensamento te dominasse, tal como és, te
sível e desejável que os homens fossem capazes de transformaria talvez, mas talvez te aniquilaria; a
viver de uma maneira ética, a partir de valores pergunta "queres isso ainda uma vez e um
elevados, independentemente de acreditarem ou número incalculável de vezes?", esta pergunta
não na existência de Deus, independentemente da pesaria sobre todas as tuas ações com o peso
existência ou não de Deus. mais pesado! E então, como te seria necessário
amar a vida e amar a ti mesmo para não desejar
mais outra coisa que essa suprema e eterna
Já tendo iniciado o processo de afastamento em confirmação, esse eterno e supremo selo!
relação a Wagner, Nietzsche escreveu Humano, (NIETZSCHE, 2008, p. 201).
demasiadamente humano, obra em que buscou refletir
sobre elementos psicológicos da natureza humana.
Seus admiradores achavam que o que ele fazia
não era filosofia e estavam certos. Tratava-se de
psicologia, e de tal qualidade que algumas
décadas mais tarde Freud decidiu não continuar a

Ingimage/Fotoarena
ler Nietzsche – receando descobrir não houvesse
mais nada a dizer sobre o assunto (STRATHERN,
1997, p. 13).

O conceito de eterno retorno surge em A gaia ciência.


Para Nietzsche, deveríamos agir como se nossa vida
fosse repetir-se para sempre. Cada momento seria, Figura 4. A figura de um dragão que engole a própria cauda é utilizada
para representar a ideia de eterno retorno, do que se repete
assim, vivido para sempre, o que nos exortava a viver de
indefinidamente.
forma plena e intensa.
Já o conceito de super-homem surge na obra Assim
falou Zaratustra, que narra as andanças e reflexões de um
Observação: filósofo chamado Zaratustra, provavelmente em
Esse conceito é uma herança do estoicismo, doutrina referência ao profeta e poeta Zoroastro, nascido na Pérsia
filosófica helenística do início do século III a.C. Essa em meados do séc. VII a.C. Zoroastro teria fundado o
escola pregou a distância em relação às paixões e a zoroastrismo, uma doutrina monoteísta que influenciou o
aceitação e a resignação com o destino como traços judaísmo, o cristianismo e o islamismo, em especial por
fundamentais da sabedoria do ser humano. meio dos conceitos de paraíso e ressurreição. Zaratustra
defende que o ser humano é apenas uma fase

– 131
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intermediária entre o macaco e o super-homem, o ser


humano que consegue se libertar dos interditos do Saiba mais
cristianismo e que desenvolve um senso moral elevado e Nietzsche teria inspirado o músico alemão Richard
independente dos valores religiosos. Assim, o super- Strauss (1864-1949) na composição da peça sinfônica
homem de Nietzsche é o Assim falou Zaratustra. Um trecho dessa obra foi utilizado
indivíduo que deve assumir total responsabilidade
pelo diretor Stanley Kubrick no filme 2001, uma odisseia
por suas próprias ações num mundo sem deus.
no espaço, em uma cena que mostra o despertar do
Deve forjar seus próprios valores em plena
homem. Essa cena pode ser vista no link: <[Link]
liberdade. Não existe sanção, divina ou de outra
natureza, para seus atos (STRATHERN, 1997, p. 20). be/M0z_8Gj7wgE>. Acesso em: 6 out. 2018.

Leia, abaixo, o trecho em que Nietzsche anuncia o De fato, Nietzsche usa Zaratustra para contar a história
super-homem e a morte de Deus. da civilização, marcada pelas metamorfoses do espírito: em
Chegando à cidade mais próxima, enterrada nos um primeiro estágio, a civilização passa pelo domínio do
bosques, Zaratustra encontrou uma grande multi-
dever, materializado na moral e na religião; em seguida, o
dão na praça pública, porque estava anunciado o
“tu deves” é substituído pelo “eu quero”, o domínio da
espetáculo de um bailarino de corda.
E Zaratustra falou assim ao povo:
vontade; finalmente, a vontade cede espaço ao “eu sou”,
“Eu vos anuncio o Super-homem”. ou seja, uma nova relação entre o homem e a sua existência
“O homem é superável. Que fizestes para o superar? (Abrão, 1999). Por isso, a importância de se superar o
Até agora todos os seres têm apresentado alguma estágio do dever, e sobre ele Nietzsche será enfático: o
coisa superior a si mesmos; e vós, quereis o dever impõe qualidades que adoçam a vida, tornando o ser
refluxo desse grande fluxo, preferis tornar ao humano anêmico e fraco; a piedade, o altruísmo e a
animal, em vez de superar o homem? abnegação são valores do escravo, do homem domesticado
Que é o macaco para o homem? Uma irrisão ou que busca na religião o seu ponto de apoio e que apenas
uma dolorosa vergonha. Pois é o mesmo que obedece a ordens. Em contrapartida, os valores dos
deve ser o homem para Super-homem: uma senhores são outros, são aqueles em que “a afirmação de
irrisão ou uma dolorosa vergonha.
si substitui as virtudes cristãs” (ABRÃO, 1999, p. 416).
Percorrestes o caminho que medeia do verme ao
O mundo do escravo será agora aquele onde o
homem, e ainda em vós resta muito do verme.
indivíduo sofre com o mundo, se ressente dele. E o
Noutro tempo fostes macaco, e hoje o homem é
ressentimento será a mola propulsora desse
ainda mais macaco do que todos os macacos.
sofredor, que desejará vingar-se do senhor e negar
Mesmo o mais sábio de todos vós não passa de
seu mundo. [...] Não foi a dor, mas a falta de sentido
uma mistura híbrida de planta e de fantasma.
da dor que atormentou os fracos, e para encontrar
Acaso vos disse eu que vos torneis planta ou
esse sentido eles inventaram seus ideais. Assim,
fantasma?
toda a civilização cristã será um analgésico para uma
Eu anuncio-vos o Super-homem!
existência sofredora (ABRÃO, 1999, p. 417).
O Super-homem é o sentido da terra. Diga a vossa
vontade: seja o Super-homem, o sentido da terra.

Ingimage/Fotoarena
Exorto-vos, meus irmãos, a permanecer fiéis à
terra e a não acreditar naqueles que vos falam de
esperanças supraterrestres.
São envenenadores, quer o saibam ou não.
São menosprezadores da vida, moribundos que
estão, por sua vez, envenenados, seres de quem
a terra se encontra fatigada; vão-se por uma vez!
Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a
maior das blasfêmias; mas Deus morreu, e com
ele morreram tais blasfêmias. Agora, o mais
espantoso é blasfemar da terra, e ter em maior
conta as entranhas do impenetrável do que o
sentido da terra. Figura 5. Para Nietzsche, “nossa civilização enaltece a obediência e
[...] coloca o comando ao lado da má consciência, promovendo como figura
O homem é um rio turvo. É preciso ser um mar do homem alguém preparado apenas para obedecer, um escravo”
para, sem se toldar, receber um rio turvo. (ABRÃO, 1999, p. 416).
Pois bem; eu vos anuncio o Super-homem; é ele
esse mar; nele se pode abismar o vosso grande Superar o sofrimento significa transgredir normas e
menosprezo” (NIETZSCHE, 2002, p. 12-16). regras, exercendo a liberdade com ousadia; a força vital
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deve se manifestar como força criadora; "é preciso É essa consciência que estará na origem da
manter os fortes, dizendo-lhes que o bem é tudo o que análise filosófica de Nietzsche. Se não há mais um
fortalece o desejo de vida e o mal tudo o que é contrário “mundo-verdade”, então o “espírito livre” saberá
a esse desejo" (CHAUÍ, 2002, p. 353). que existem apenas diferentes “interpretações”.
E sua tarefa será interpretar as interpretações. Se
Nietzsche morreu louco, em estado catatônico,
o “cristianismo” não é mais a “verdade”, mas
provavelmente em função da sífilis que havia contraído
“apenas uma perspectiva entre outras”, é como
ainda jovem. Sua obra, vigorosa e original, marca a sua
tal que ele deve ser analisado (ABRÃO, 1999, p.
posição como o “primeiro niilista perfeito da Europa” 415).
(ABRÃO, 1999, p. 414). O niilismo (do latim nihil, quer
dizer, nada) de Nietzsche será o território da negação e A negação dos valores cristãos e de outros tidos
da desvalorização dos valores tidos como supremos, como supremos leva ao niilismo, que, então, transforma-
cenário em que o dever passa a ocupar um lugar secun- se num estado psicológico no qual a existência não tem
dário. qualquer sentido ou significado. Esse mal-estar só pode
O niilismo de Nietzsche é resultado direto do con- ser eliminado se a existência não estiver associada ao
texto europeu do século XIX, momento em que já se sofrimento e se o ser humano aceitar a doutrina do eterno
pode perceber a morte de Deus (ou melhor, o declínio da retorno. Essa abordagem “levará a uma aprovação inte-
ilusão de que a crença em Deus é suficiente para munir gral da existência, ao amor aos fatos, o dionisíaco dizer-
os homens de bons sentimentos e atitudes éticas) e “em sim à vida” (ABRÃO, 1999, p. 419). O niilismo então é
que se perdeu toda a ilusão sobre a chance de estabe- superado pela vontade de viver em um mundo desdivi-
lecer verdades definitivas sobre as coisas” (ABRÃO, nizado, no qual tudo retorna indefinidamente e no qual
1999, p. 414). nossas escolhas serão revividas para sempre.

Referências do módulo 13

Textuais
ABRÃO, B. S. (Org.). História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
BARBOZA, J. Prefácio. In SHOPENHAUER, A. Aforismos para a sabedoria da vida. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
NASCIMENTO, I. S. A metafísica da vontade em Schopenhauer. Revista Lampejo, Fortaleza, v. 1, n.° 8, p. 1-15, 2015.
Disponível em: [Link] Vontade.
pdf. Acesso em: 7 set. 2018.
SCHOPENHAUER, A. Aforismos para a sabedoria da vida. Tradução de Jair Barboza. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
STRATHERN, P. Schopenhauer em 90 minutos. Tradução de Maria Helena Geordane. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
_________ . Kierkegaard em 90 minutos. Tradução de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
ABRÃO, B. S. (Org.). História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
NIETZSCHE, F. W. Assim falava Zaratustra. [Link], 2002 (fonte digital). Disponível em:
[Link] Acesso em: 6 out. 2018.
_________. A gaia ciência. Tradução de Antônio Carlos Braga. São Paulo: Escala, 2008.
STRATHERN, P. Nietzsche em 90 minutos. Tradução de Maria Helena Geordane. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
Audiovisuais
Blade Runner. Dir. Ridley Scott. Estados Unidos/Hong Kong: The Ladd Company, Shaw Brothers e Blade Runner
Partnership, 1982. 117 minutos.
Os Duelistas. Dir. Ridley Scott. Estados Unidos: Paramount, 1977. 100 minutos.
APOCALIPSE now. Dir. Francis Ford Copolla. Estados Unidos: Omni Zoetrope, 1979. 153 minutos.
2001, UMA odisseia no espaço. Dir. Stanley Kubrick. Estados Unidos/Reino Unido: Metro-Goldwyn-Mayer/Stanley
Kubrick Productions, 1968. 142 min.
Créditos das imagens
Figura 3. Disponível em: [Link] Acesso em: 7 nov. 2018.

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1. – Sentimos que toda satisfação de nossos 2. (Concurso de Provas e Títulos, com modificações)
desejos advinda do mundo assemelha-se à – A angústia é uma experiência cujo manejo é objeto
esmola que mantém hoje o mendigo vivo, porém frequente de intervenção do psicólogo hospitalar.
prolonga amanhã a sua fome. A resignação, ao contrário, Kierkegaard preocupa-se em mostrar como a existência
assemelha-se à fortuna herdada: livra o herdeiro para está centrada na angústia e como a partir dela se
sempre de todas as preocupações. desdobram outras experiências que levam o indivíduo ao
(A. Schopenhauer. Aforismo para a sabedoria da vida. reconhecimento de si mesmo.
São Paulo: Martins Fontes, 2005.) Em relação à angústia, verifique as afirmações a seguir:
I. A possibilidade de fazer escolhas marca o ser humano,
O trecho destaca uma ideia remanescente de uma trazendo-lhe angústia e sofrimento.
tradição filosófica ocidental, segundo a qual a felicidade se II. A angústia dá ao ser humano a percepção de sua
mostra indissociavelmente ligada à própria finitude e da impossibilidade de alcançar a
a) consagração de relacionamentos afetivos. perfeição e a completude.
b) administração da independência interior. III.A angústia resulta de o ser humano perceber que pode
c) fugacidade do conhecimento empírico. fazer escolhas que podem ser ou não bem-sucedidas.
d) liberdade de expressão religiosa.
e) busca de prazeres efêmeros. Está correto o que se afirma em:
a) I, apenas.
b) II e III, apenas.
c) III, apenas.
d) I e III, apenas.
e) I, II e III.

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3. – A filosofia grega parece começar com uma 4 (UNESP) – Em algum remoto rincão do sistema solar
ideia absurda, com a proposição: a água é a cintilante em que se derrama um sem-número de
origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo sistemas solares, havia uma vez um astro em que animais
necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto
razões: em primeiro lugar, porque essa proposição mais soberbo e mais mentiroso da história universal: mas
enuncia algo sobre a origem das coisas, em segundo também foi somente um minuto. Passados poucos
lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e enfim, em fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais
terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de inteligentes tiveram de morrer. – Assim poderia alguém
crisálida, está contido o pensamento: Tudo é um. inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado
suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico
O que, de acordo com Nietzche, caracteriza o surgimento e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto
da filosofia entre os gregos? humano dentro da natureza. Houve eternidades em que
a) O impulso para transformar, mediante justificativas, os ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada
elementos sensíveis em verdades racionais. terá acontecido. Ao contrário, ele é humano, e somente
b) O desejo de explicar, usando metáforas, a origem dos seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como
seres e das coisas. se os gonzos do mundo girassem nele. Mas se pudésse-
c) A necessidade de buscar, de forma racional, a causa mos entender-nos com a mosca, perceberíamos então
primeira das coisas existentes. que também ela boia no ar (...) e sente em si o centro
d) A ambição de expor, de maneira metódica, as voante desse mundo.
diferenças entre as coisas. (Nietzsche. O livro das citações, 2008.)
e) A tentativa de justificar, a partir de elementos
empíricos, o que existe no real. Sobre este texto, é correto afirmar que:
a) seu teor acerca do lugar da humanidade na história do
universo é antropocêntrico.
b) o autor revela uma visão de mundo cristã.
c) o autor apresenta uma visão cética acerca da
importância da humanidade na história do universo.
d) ao comparar a vida humana com a vida de uma mosca,
Nietzsche corrobora os fundamentos de diversas
teologias, não se limitando ao ponto de vista cristão.
e) para o filósofo, a vida humana é eterna.

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5. (UNESP) – Jamais um homem fez algo apenas para 6. (ENADE) – A filosofia grega parece começar com uma
outros e sem qualquer motivo pessoal. E como poderia ideia absurda, com a proposição de que a água é a origem
fazer algo que fosse sem referência a ele próprio, ou seja, e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário
sem uma necessidade interna? Como poderia o ego agir deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões:
sem ego? Se um homem desejasse ser todo amor como em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo
aquele Deus, fazer e querer tudo para os outros e nada sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque faz
para si, isto pressupõe que o outro seja egoísta o bastante sem imagem e fabulação; e, enfim, em terceiro lugar,
para sempre aceitar esse sacrifício, esse viver para ele: porque nela, embora apenas em estado de crisálida, está
de modo que os homens do amor e do sacrifício têm contido o pensamento: "Tudo é um". A razão citada em
interesse em que continuem existindo os egoístas sem primeiro lugar deixa Tales ainda em comunidade com os
amor e incapazes de sacrifício, e a suprema moralidade, religiosos e supersticiosos, a segunda tira-o dessa
para poder subsistir, teria de requerer a existência da sociedade e no-lo mostra como investigador da natureza,
imoralidade, com o que, então, suprimiria a si mesma. mas, em virtude da terceira, Tales se torna o primeiro
(Friedrich Nietzsche. Humano, demasiado humano, filósofo grego.
2005. Adaptado.) (F. Nietzsche. Crítica moderna. In: Os pré-socráticos.
Trad. Rubens Rodrigues Torres. São Paulo: Nova
A reflexão do filósofo sobre a condição humana apresenta Cultural, 2004, p. 43. Adaptado.)
pressupostos
a) psicológicos, baseados na crítica da inconsistência De acordo com o texto acima, Tales de Mileto chegou à
subjetiva da moral cristã. preposição "Tudo é um", que traz consigo
b) cartesianos, baseados na ideia inata da existência de a) um postulado metafísico.
Deus na substância pensante. b) uma hipótese científica.
c) estoicistas, exaltadores da apatia emocional como ideal c) um preceito mítico e religioso.
de uma vida sábia. d) um postulado existencial.
d) éticos, defensores de princípios universais para e) um preceito crítico reflexivo.
orientar a conduta humana.
e) metafísicos, uma vez que é alicerçada no mundo
inteligível platônico.

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MÓDULO 14 A Escola de Frankfurt: Horkheimer, Habermas, Benjamin e Adorno


Neste módulo, apresentaremos as principais ideias de mortos, famílias destruídas e homens incapazes de
da Escola de Frankfurt, movimento que reuniu filósofos trabalhar. Mais: vencida na guerra, a Alemanha ainda
que, sob a influência das obras de Kant, Hegel e Marx, estava condenada a pagar indenizações vultosas aos
procuraram desenvolver uma teoria crítica que explicasse países vencedores.
a realidade de um mundo que passara por duas grandes Em 1923, na Alemanha, teve início a construção de
guerras e que presenciara inúmeros movimentos operá- um edifício que abrigaria o Instituto de Ciências Sociais
rios revolucionários. de Frankfurt. Neste instituto, Adorno, Horkheimer,
Fromm, Marcuse, Benjamin e Habermas juntaram-se a
1. Introdução outros intelectuais, vários deles também sob a influência
do ideário marxista. A intenção desse grupo de pensa-
Karl Marx (1818-1883), no final do século XIX, e dores era desenvolver uma teoria crítica que pudesse dar
fazendo uso do método materialista histórico dialético, conta de compreender a sociedade do início do século XX
propôs uma nova forma de compreender a história e o (MOGENDORFF, 2012), e envolvia a reflexão sobre
sistema capitalista: para o economista político que, junto filosofia, sociologia e artes. Essa teoria tinha, acima de
com Friedrich Engels (1820-1895), havia conclamado os tudo, a intenção de incorporar o “pensamento de filósofos
trabalhadores à revolução no Manifesto Comunista, o ‘tradicionais’, colocando-os em tensão com o mundo
lucro capitalista advinha das horas trabalhadas pelo presente” (MATOS, 2005, p. 14).
operário que não eram a ele pagas; ao contrário, eram A influência das ideias revolucionárias de Marx,
apropriadas pelo capitalista. Para Marx, o processo de Engels, Lenin e Trotsky era imensa dentre os cientistas e
destruição do capitalismo tinha como origem aquilo que pensadores da época, da mesma forma como também
lhe era vital, ou seja, a disposição de crescer cada vez eram imensas as reações a essas mesmas ideias. Ora
mais, de conquistar continuamente novos mercados: para apoiando-se no exemplo da Revolução Russa, ora discu-
isso, as empresas buscariam a redução dos preços de tindo o papel da vanguarda na condução dos movimentos
seus produtos, incrementando o uso de tecnologia na operários, a esquerda estava dividida: eram múltiplas as
produção. Tal estratégia reduziria a taxa de lucro do leituras e interpretações do marxismo. Outras tensões
empreendimento: considerando que não havia como juntavam-se às provocadas pela cisão entre os marxistas:
“explorar” a máquina, e se o lucro vinha da exploração da deveria a filosofia apoiar-se na racionalidade ou deveria
mão de obra, a redução na utilização de recursos huma- ela inspirar-se no romantismo, buscando interpretar o
nos provocaria, automaticamente, a diminuição dos mundo por meio da imaginação e da arte?
lucros. Para Marx, tal trajetória apontava para a destruição Três tradições contribuíram para a formulação da
do capitalismo e nada mais razoável, portanto, que o teoria crítica: Kant (1724-1804), Hegel (1770-1831) e Marx.
proletariado (o operariado) acelerasse esse processo por Kant havia defendido a ideia de que o conhecimento tinha
meio de uma revolução. Esse movimento revolucionário origem na experiência; no entanto, esta só poderia ser
entregaria os meios de produção aos trabalhadores que, compreendida porque tínhamos, aprioristicamente, as
por se transformarem em donos das fábricas e dos noções de tempo e espaço. Mais: não havia como surgir
equipamentos, não teriam mais que abrir mão das horas contradições no terreno da ciência, já que ela não se
trabalhadas para que o capitalista pudesse ter lucro. preocupava com questões impossíveis de serem
A Alemanha havia surgido há pouco, em 1871, sob a resolvidas no seu âmbito (por exemplo, a existência de
sombra hegemônica de uma Prússia militarizada e Deus ou a imortalidade da alma). Essas eram questões
burocratizada. A Revolução Russa havia mostrado que era que não estavam colocadas no campo da ciência kantiana
possível derrubar monarquias e colocar os operários no (MATOS, 2005), já que não havia como respondê-las. No
poder. A Primeira Guerra Mundial havia deixado um saldo entanto, em oposição a Kant, Hegel havia recolocado a

Observação:
O materialismo histórico dialético buscou compreender a história a partir dos seus elementos materiais,
representados pelos meios de produção; assim, a apropriação dos meios de produção por parte dos capitalistas os
colocava em oposição ao proletariado, que só possuía a sua força de trabalho para vender no mercado, da mesma
forma como qualquer outra mercadoria era vendida. De forma dialética (ou seja, de forma a contrapor tese e antítese,
fazendo surgir algo novo, a síntese), o conflito entre as classes sociais (capitalistas versus proletariado) faria surgir
um novo modo de produção no qual não haveria propriedade privada dos meios de produção e, portanto, não haveria
exploração da mão de obra pelos capitalistas.

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contradição em destaque no campo da filosofia. “Ao afir- O segundo e o terceiro período transcorrem ao tempo
mativo e positivo kantianos, Hegel responde com a dialé- da ascensão de Hitler ao poder. Segundo Mogendorff
tica, o pensamento do negativo, da contradição que não (2012), neste momento, a designação "teoria crítica"
separa sujeito e objeto, natureza e cultura. [...] As coisas são (assim utilizada pelos pensadores do Instituto para
e não são ao mesmo tempo” (MATOS, 2005, p. 21). Por designar sua proposta teórica) funcionava como uma
sua vez, Marx trouxe a dialética para o campo das condições espécie de camuflagem para a teoria marxista. Essa era
materiais de produção. O mundo econômico passou a ser uma precaução necessária: o nazismo havia proclamado
a base da análise porque a totalidade social era, “antes de a existência de inúmeros inimigos do povo, dentre eles
mais nada, relação entre os homens que produzem seus os comunistas (seguidores de Marx) e os judeus (que,
meios de subsistência” (MATOS, 2005, p. 21). acreditava-se, eram também comunistas). Aliás, todo e
qualquer intelectual que não aderisse ao ideário nazista
era considerado inimigo do Estado e, portanto, sujeito a
Observação: perseguições e à morte nos campos de concentração.
As influências que moldaram o pensamento dos Em especial, era insuportável ao regime nazista a ideia de
filósofos de Frankfurt não se limitaram a Kant, Hegel que o proletariado devesse acelerar o processo de
e Marx. A filosofia desses pensadores era também destruição do capitalismo por meio da revolução. Tal
herdeira de Freud: Erich Fromm (1900-1980), por perspectiva e a defesa dessas ideias eram inconcebíveis,
exemplo, buscou associar a psicanálise freudiana às daí a preocupação dos pensadores da Escola de Frankfurt
ideias marxistas, concebendo novas perspectivas em esconder a influência de Marx nos seus trabalhos.
para a psicologia social. O regime nazista acabou por provocar a mudança do
Instituto para Nova York, nos Estados Unidos. O êxodo
de intelectuais alemães em direção à América foi a saída
Para Mogendorff (2012), a teoria crítica pode ser encontrada para a sobrevivência (apenas Walter Benjamin
dividida em três períodos distintos: acabou por sucumbir, como falaremos mais adiante).
a) primeiro período (anos iniciais): materialismo Assim, terminada a Segunda Guerra Mundial, e sob a
interdisciplinar, focado na pesquisa embasada por influência dos anos dourados que se seguiram à rendição
uma teoria social que tinha como base a crítica da da Alemanha e ao fortalecimento hegemônico dos
economia política marxista, aliando teoria filosófica Estados Unidos, os filósofos da Escola de Frankfurt tam-
à prática científica e seguindo uma junção entre bém buscaram refletir amplamente sobre a sociedade de
“pesquisa social, análise crítica e ação revolucio- consumo.
nária”; O projeto iluminista fracassara. Afinal, como, apesar
dos ideais iluministas, o mundo havia mergulhado em
b) segundo período (1940-1951): a problemática
tamanha barbárie? Se os ideais iluministas preconizavam
passa a ser vista sob a ótica de uma "crítica da
a liberdade do homem, a não subjugação do homem pelo
razão moderna";
outro, como tamanha catástrofe fora possível? Talvez
c) terceiro período: ocorre a retomada do projeto fosse justamente essa a função da indústria cultural:
inicial de uma “ciência social crítica” servir como válvula de escape ao reconhecimento de que
(MOGENDORFF, 2012, p. 154). a razão, embora tivesse a intenção de tirar o homem da
barbárie, nada mais fazia do que perpetuar esse destino.
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O progresso humano, ao mesmo tempo que distanciava


a sociedade da barbárie, mantinha essa barbárie viva,
perpetuada. A massificação de bens e serviços, incluídos
nesse grupo os bens sociais, resultava na mercantilização
das interações sociais e do processo de construção social
de sentidos. A indústria cultural, portanto, diferenciava-se
da cultura de massas, essa última sendo as manifes-
tações culturais que imanavam do povo; a indústria
cultural, em contrapartida, transformava cultura em bem
de consumo. Para os filósofos de Frankfurt,
a indústria cultural serviria como um escape para
a civilização, que seguia o caminho da “obediência
Figura 1. Para os pensadores da Escola de Frankfurt, a satisfação das
e do trabalho”, sobre o qual a satisfação dos dese-
necessidades humanas é saciada com o consumo e com a posse de
bens culturais. Em outras palavras, a "cultura" pode ser adquirida e jos brilha perpetuamente como pura aparência,
consumida da mesma forma como são consumidos alimentos e roupas. beleza despojada de seu poder (MOGENDORFF,
2012, p. 154).
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A questão da arte e da sua função social foi um dos O sistema cartesiano havia fundamentado o ideal da
temas a respeito dos quais os filósofos da Escola de ciência a partir da dedução, procedimento que permitia
Frankfurt se debruçaram, dentre eles Walter Benjamin, que preposições pudessem ser derivadas de algumas
Max Horkheimer, Theodor W. Adorno e Jürgen Habermas. outras poucas. Quanto menor o número de princípios
Os múltiplos interesses dos pensadores de gerais, mais completa a teoria. Ainda, essa concepção
Frankfurt e o fato de não constituírem uma escola tradicional possibilitava a utilização operativa das suas
no sentido tradicional do termo, mas uma postura teorias, bem como sua aplicabilidade prática. No entanto,
de análise crítica e uma perspectiva aberta para essa perspectiva impunha à atividade científica limitações
todos os problemas da cultura do século XX, torna significativas:
difícil a sistematização de seu pensamento. Pode- Em outros termos, a teoria tradicional não se
se, no entanto, salientar alguns de seus temas, ocupa da gênese social dos problemas, das
chegando-se a compor um quadro de suas prin- situações reais nas quais a ciência é usada e dos
cipais ideias. De Walter Benjamin, devem-se escopos para os quais é usada. Chega-se, assim,
destacar reflexões sobre as técnicas de repro- ao paradoxo de que a ciência tradicional, exata-
dução da arte, particularmente do cinema, e as mente porque pretende o maior rigor – para que
consequências sociais e políticas resultantes; de seus resultados alcancem a maior aplicabilidade
Adorno, o conceito de “indústria cultural” e a prática –, acaba por se tornar mais abstrata, muito
função da obra da arte; de Horkheimer, os funda- mais estranha a realidade [...] do que a teoria
mentos epistemológicos da posição filosófica de crítica. Esta, dando relevância social à ciência, não
todo o grupo de Frankfurt, tal como se encontram conclui que o conhecimento deva ser pragmático;
formulados em sua “teoria crítica”; e, finalmente, ao contrário, favorece a reflexão autônoma,
de Habermas, as ideias sobre a ciência e a técnica segundo a qual a verificação prática de uma ideia
como ideologia (ARANTES, 1983, p. XI). e sua verdade não são coisas idênticas
(ARANTES, 1983, p. XVI).
2. Max Horkheimer (1895-1973)
A teoria crítica propunha, assim, que os dados da
É de Horkheimer a obra que reúne as principais realidade deveriam ser analisados em função do caráter
concepções filosóficas da Escola de Frankfurt, e a base histórico do objeto percebido e do caráter histórico de
dessa filosofia é Marx. Na verdade, a obra de Horkheimer, quem o vê. Tal perspectiva significava rejeitar o subje-
Teoria Tradicional e Teoria Crítica, de 1937, marcou a tivismo, mas, por outro lado, haveria que se rejeitar
gênese da Escola de Frankfurt. Horkheimer tomou como também o positivismo, cujo único critério de verdade era
ponto de partida a teoria tradicional, simbolizada por o valor operativo de seus princípios, e da capacidade de
Descartes: nesta, “tudo que é contraditório é impensável estes dominarem o homem e a natureza.
porque confuso; o contraditório é, assim, sinônimo de
‘irracional’. [Em contrapartida, a teoria crítica] põe em
suspenso qualquer juízo sobre o mundo, para sua prévia Observação:
interrogação” (MATOS, 2005, p. 20). O positivismo, escola inaugurada por Auguste
Comte (1798-1857), buscou nas ciências naturais o
Observação: modelo perfeito do conhecimento humano. Esse
Para René Descartes (1596-1650), a razão era única modelo requeria a experimentação como base e
fonte do conhecimento seguro. “Pode-se duvidar rejeitava as especulações metafísicas (reflexões não
da existência do mundo: talvez ele não passe de vinculadas às experiências sensíveis) ou teológicas
uma ficção; pode-se duvidar da existência do corpo (explicações religiosas associadas à ideia de um ser
ou se estamos acordados ou sonhando” (MATOS, criador do homem e da realidade).
2005, p. 18). Só não podemos duvidar de que,
quando duvidamos, estamos pensando. Cogito,
ergo sum: penso, logo existo. É possível duvidar Os positivistas desobrigavam-se de refletir sobre os
de tudo, exceto do fato de que o sujeito pensante critérios de racionalidade ou justiça de um sistema
está pensando. Dessa forma, o pensamento era a econômico ou político, sugerindo apenas a resignação.
garantia do estabelecimento da verdade, já que por De forma oposta, a teoria crítica levaria em consideração
meio dele era possível chegar à dedução mate- o percurso histórico dos homens, vivendo sob deter-
mática, decompor fenômenos em partes e com- minadas condições e com a ajuda dos seus instrumentos
preender o mundo. de trabalho. O que Horkheimer pretendia, portanto, era
uma ciência que se opusesse ao totalitarismo e à razão
instrumental.
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3. Jürgen Habermas (1929-) Para Habermas, a análise dos filósofos iluministas


havia confundido “o processo de modernização capita-
As ideias de Habermas são semelhantes às de lista, que é calcado na razão instrumental, como sendo a
Horkheimer: para o filósofo, "a teoria deve ser crítica, própria racionalização societária” (PINTO, 1995, p. 78).
engajada nas lutas políticas do presente, e construir-se Desde então, Hegel e Marx já haviam explicado o caráter
em nome do futuro revolucionário para o qual trabalha; é social e histórico das estruturas sociais. Por sua vez,
exame teórico e crítico da ideologia, mas também crítica Darwin já havia estabelecido os vínculos existentes entre
revolucionária do presente" (ARANTES, 1983, p. XVII). inteligência e sobrevivência. Finalmente, Nietzsche e
A crítica de Habermas ao positivismo repousa sobre Freud já haviam revelado as camadas ocultas da cons-
este legitimar o tecnicismo, a ideologia que pretende ciência.
fazer o saber científico funcionar em termos práticos, Para resolver o problema, Habermas propôs então
gerando técnicas. A ação conjunta entre ciência e técnica que o paradigma da consciência – viga mestra do pensa-
permite que determinado grupo – o que detém o mento iluminista – cedesse lugar ao paradigma da comu-
conhecimento – adquira um imenso poder, decidindo e nicação. “O paradigma da consciência é calcado na ideia
modificando o mundo no qual os homens têm a obrigação de um pensador solitário que busca entender o mundo a
de viver. sua volta, descobrindo as leis gerais que o governam,
A crítica do positivismo científico e filosófico, revelando a unidade encoberta sob a diversidade
empreendida por Habermas, é inseparável de sua aparente” (PINTO, 1995, p. 78). A racionalidade comu-
luta contra o objetivismo tecnocrático. O positi- nicativa
vismo e o tecnicismo não passam, para ele, de não é a relação de um sujeito solitário com algo
duas faces da mesma e ilusória moeda ideológica: no mundo objetivo que pode ser representado e
tanto um, como outro, não seriam mais que manipulado mas a relação intersubjetiva, em que
'manchas turvas no horizonte da racionalidade' sujeitos que falam e atuam assumem quando
(ARANTES, 1983, p. XVIII). buscam o entendimento entre si, sobre algo. Ao
fazer isto, os atores comunicativos movem-se por
meio de uma linguagem natural, valendo-se de
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interpretações culturalmente transmitidas e refe-


rem-se a algo simultaneamente em um mundo
objetivo, em seu mundo social comum e em seu
próprio mundo subjetivo (Habermas, 1984 apud
PINTO, 1995, p. 79).

Para Habermas, é por meio da linguagem cotidiana


que os homens estabelecem relações sociais, e nesta
linguagem está embutida uma exigência de racionalidade
que não tem qualquer relação com a razão instrumental.
Em outros termos, a racionalidade comunicativa não
opera nos mesmos termos que a racionalidade instru-
Figura 2. "Para Habermas, o tecnicismo é a ideologia que consiste na mental, típico instrumento da ciência. A razão comu-
tentativa de fazer funcionar na prática, e a qualquer custo, o saber nicativa materializa-se nos diálogos nos quais se assume
científico e a técnica que dele possa resultar" (ARANTES, 1983, p. XVII).
que as interpretações variam em relação à realidade. Por
Exemplo dessa perspectiva seria a extrema vinculação, nos Estados
Unidos, entre a Secretaria de Defesa e a NASA, principais produtores isso, a razão comunicativa depende do entendimento, da
de pesquisa científica. não orientação para objetivos individuais que não estejam
harmonizados em relação a todos os sujeitos que partici-
Habermas também refletiu a respeito de ação pam do diálogo. Em resumo, a razão comunicativa é o
comunicativa. Para o filósofo, os iluministas consolidaram meio pelo qual se estabelece uma correlação direta entre
a ideia de que a razão estava colocada a serviço da a comunicação e o repertório cultural, social e individual
libertação social e da maioridade do ser humano; no de quem fala. Do ponto de vista do entendimento mútuo,
entanto, ao desconsiderar que a razão era determinada, “a ação comunicativa serve para transmitir e renovar o
em grande parte, pelos grupos economicamente domi- saber cultural; sob o aspecto de coordenar a ação, ela
nantes, ela própria havia se transformado em um mito. propicia a integração social; e sob o aspecto da sociali-
Mais agente de legitimação da sociedade capitalista do zação, ela serve à formação da personalidade individual“
que agente de transformação, a razão merecia ser (PINTO, 1995, p. 81).
discutida em outros termos que não os do Iluminismo.

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Finalmente, Habermas conclui: ao longo do tempo, os Tivesse nascido e vivido em outra época, Benjamin
atos comunicativos fortaleceram a necessidade de teria nos deixado um vasto e imenso repertório de obras
entendimento. Como é possível obter esse entendimento? e ideias; no entanto, aquele era um tempo marcado por
Por meio do consenso, no qual cada vez mais a comuni- esperanças revolucionárias e decepções históricas. Em
cação torna-se independente de normas, e a partir do qual 1940, um grupo de filósofos tentou escapar da Alemanha.
se busca uma comunicação imparcial que respeite e Na fronteira entre a França e a Espanha, um deles, de
transcenda as opiniões de todos os indivíduos envolvidos, ascendência judaica e sob intenso estresse, não resistiu
sem que haja qualquer tipo de coerção externa ou interna. à tensão psicológica e se suicidou.
O fato poderia ser visto apenas à luz da psicologia
4. Walter Benjamin (1892-1940) individual, mas na verdade transcende esses limites
e adquire dimensão social e cultural mais ampla. O
Kant foi o ponto de partida de Walter Benjamin: “o intelectual em questão era Walter Benjamin, um
ato da crítica era visto por ele como um meio de crítica de dos principais representantes da chamada Escola
todo o sistema cultural e de sua base econômica” de Frankfurt (ARANTES, 1983, p. VII).
(SELIGMANN-SILVA, 2010, apud MOGENDORFF, 2012,
p. 155). Para Benjamin, a reflexão ocorria em cinco atos: O nazismo lograra fazer mais uma vítima, dessa vez
refletia-se a respeito de si mesmo, refletia-se a respeito um intelectual cuja maneira de ser indicava muito mais o
da obra em observação, refletia-se sobre a história da arte temperamento artístico do que a frieza de um filósofo.
e da literatura, refletia-se sobre a sociedade e, finalmente, Seu pensamento parecia nascer de um impulso de
refletia-se sobre a teoria da história. natureza artística que, transformado em teoria – como diz
A obra de arte, e em especial sua reprodutibilidade, ainda Adorno – "liberta-se da aparência e adquire incom-
era a grande preocupação de Benjamin. Para o filósofo, parável dignidade: a promessa de felicidade" (ARANTES,
as obras de arte eram objetos individualizados, únicos. 1983, p. IX).
Mas, o progresso técnico havia permitido que elas fos-
sem reproduzidas. A aura, esse atributo especial das 5. Theodor W. Adorno (1903-1969)
obras de arte, então, desaparecia em meio a tantas
cópias. O cinema, em particular, configurava-se como a Embora Adorno devesse a maior parte de suas
mídia em que era mais nítida a materialização da perda da reflexões a Benjamin, ele considerava seu colega por
aura e da constituição de uma nova relação entre o demais otimista e ingênuo. Para Adorno, ao reproduzir a
público e a obra de arte. Nesse sentido, o filósofo consi- arte, a técnica passaria a exercer um imenso poder; no
derava que o cinema, entanto, esse poder emanaria daqueles que a arquite-
ao substituir o espaço onde o homem age cons- taram, ou seja, os economicamente mais poderosos da
cientemente por outro onde sua ação é incons- sociedade. "Em decorrência, a racionalidade da técnica
ciente, possibilita a experiência do inconsciente identifica-se com a racionalidade do próprio domínio"
visual, do mesmo modo que a prática psicanalítica (ARANTES, 1983, p. XII). Nesses termos, a técnica, ao
possibilita a experiência do inconsciente instintivo. reproduzir a arte, não estava contribuindo para uma mu-
Exibindo, assim, a reciprocidade de ação entre a dança drástica do mundo; ao contrário, apenas reforçava
matéria e o homem, o cinema seria de grande o caráter de exploração e exclusão dos mais fracos.
valia para um pensamento materialista. Adaptado A exploração dos bens culturais constituía a indústria
adequadamente ao proletariado que se prepararia cultural. Para Adorno, a indústria cultural
para tomar o poder, o cinema tornar-se-ia, em ao aspirar à integração vertical de seus consu-
consequência, portador de uma extraordinária midores, não apenas adapta seus produtos ao
esperança histórica (ARANTES, 1983, p. XI). consumo das massas, mas, em larga medida,
determina o próprio consumo. Interessada nos
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homens apenas enquanto consumidores ou em-


Figura 3. No pregados, a indústria cultural reduz a humanidade,
cinema, "a em seu conjunto, assim como cada um de seus
natureza vista
elementos, às condições que representam seus
pelos olhos
difere da interesses. A indústria cultural traz em seu bojo
natureza vista todos os elementos característicos do mundo
pela câmara" industrial moderno e nele exerce um papel espe-
(ARANTES, cífico, qual seja, o de portadora da ideologia
1983, p. XI).
dominante.

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Os meios de comunicação não promoveriam qual- Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra
quer democratização da cultura: afinal, eles estavam a a qual se dirige toda a educação. Fala-se da
serviço da indústria que transformava a arte em produção ameaça de uma regressão à barbárie. Mas não se
mercantilizada. “A cultura de mercado seria nada mais do trata de uma ameaça, pois Auschwitz foi a regres-
que uma forma de controle social” (MOGENDORFF, são; a barbárie continuará existindo enquanto
2012, p. 156). E, mais importante: a questão principal não persistirem no que têm de fundamental as condi-
dizia respeito a ser contra ou a favor da técnica ou das ções que geram esta regressão. É isto que
manifestações culturais realizadas por meia dessa. A apavora. Apesar da não visibilidade atual dos
dialética era o instrumento ideal para analisar essa ques- infortúnios, a pressão social continua se impondo.
tão, já que a própria modernidade tinha como caracte- Ela impele as pessoas em direção ao que é indes-
rística principal o caráter contraditório. critível e que, nos termos da história mundial,
Contraditório e bárbaro: as circunstâncias da morte culminaria em Auschwitz. Dentre os conhecimen-
de Benjamin, que tanta influência exercera sobre a sua tos proporcionados por Freud, efetivamente rela-
obra, e o desnudamento do horror nos campos de cionados inclusive à cultura e à sociologia, um dos
concentração nazistas inspiraram Adorno na formulação mais perspicazes parece-me ser aquele de que a
de uma pergunta muito simples: era possível fazer poesia civilização, por seu turno, origina e fortalece pro-
depois de Auschwitz? Como era possível comer, amar e gressivamente o que é anticivilizatório. Justa-
admirar o céu depois de Auschwitz? Como refletir sobre mente no que diz respeito a Auschwitz, os seus
o indizível e absurdamente incompreensível? ensaios O mal-estar na cultura e Psicologia de
massas e análise do eu mereceriam a mais ampla
divulgação. Se a barbárie encontra-se no próprio
Observação: princípio civilizatório, então pretender se opor a
Auschwitz foi um campo de concentração localizado isso tem algo de desesperador. A reflexão a res-
no sul da Polônia. Construído pelos nazistas, ele é peito de como evitar a repetição de Auschwitz é
tido como o maior dos campos de concentração obscurecida pelo fato de precisarmos nos cons-
construídos para aprisionar e assassinar os inimigos cientizar desse elemento desesperador, se não
do regime de Hitler. Estima-se que aproximada- quisermos cair presas da retórica idealista. Mes-
mente 1,3 milhão de judeus, poloneses e prisio- mo assim é preciso tentar, inclusive porque tanto
neiros soviéticos tenham sido exterminados no a estrutura básica da sociedade como os seus
campo, entre 1940 e 1945. membros, responsáveis por termos chegado onde
estamos, não mudaram nesses vinte e cinco anos.
Milhões de pessoas inocentes — e só o simples
Como educar depois de Auschwitz? Essa é a fato de citar números já é humanamente indigno,
pergunta que Adorno se faz em Educação e Emanci- quanto mais discutir quantidades — foram
pação, obra que reuniu uma coletânea de textos, assassinadas de uma maneira planejada. Isto não
conferências e debates realizados por ele entre 1959 e pode ser minimizado por nenhuma pessoa viva
1969. Mais do que se perguntar a respeito de como como sendo um fenômeno superficial, como
educar depois de Auschwitz, Adorno parece querer saber: sendo uma aberração no curso da história, que
como evitar outro Auschwitz? não importa, em face da tendência dominante do
A exigência que Auschwitz não se repita é a progresso, do esclarecimento, do humanismo
primeira de todas para a educação. De tal modo supostamente crescente (ADORNO, p. 119/120).
ela precede quaisquer outras que creio não ser
possível nem necessário justificá-la. Não consigo Apenas a educação poderia impedir que Auschwitz
entender como até hoje mereceu tão pouca acontecesse novamente; seria inócuo apelar aos bons
atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em sentimentos dos opressores ou trazê-los à razão por meio
vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas a pouca do esclarecimento das qualidades positivas de suas
consciência existente em relação a essa exigência vítimas. A única coisa capaz de obstruir a barbárie era a
e as questões que ela levanta provam que a educação, e não apenas a educação infantil: seria
monstruosidade não calou fundo nas pessoas, necessário também uma educação que produzisse um
sintoma da persistência da possibilidade de que clima intelectual capaz de se opor ao horror. Autonomia,
se repita no que depender do estado de cons- tal como sugerido por Kant, e poder para a reflexão, a
ciência e de inconsciência das pessoas. Qualquer autodeterminação e a não participação: esses seriam os
debate acerca de metas educacionais carece de instrumentos para impedir outro Auschwitz.
significado e importância frente a essa meta: que

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6. As críticas à Escola de Frankfurt assassinadas por motivos políticos durante o período em


que Stalin governara.
Os pensadores da Escola de Frankfurt influenciaram Na década de 1930, Stalin já decepcionara os intelec-
as gerações seguintes com uma filosofia que, nascida do tuais de esquerda ao não sair em defesa dos rebeldes
marxismo, buscava compreender a sociedade e suas comunistas que lutavam contra a ditadura de Franco na
manifestações artísticas e culturais. Essa vertente, entre- Espanha. Aliás, Stalin não apenas havia sido tímido na
tanto, encontrou opositores e sofreu severas críticas de ajuda aos representantes do comunismo e do anarquismo
outros filósofos. na Espanha: para constrangimento de todos, Stalin
Em primeiro lugar, é importante lembrar que o marxis- colaborara com a polícia conservadora na repressão aos
mo ofereceu o suporte teórico para os movimentos militantes de esquerda. As notícias sobre o legado de
revolucionários do início do século XX. Dessa forma, a Stalin e sobre o seu recuo na Espanha somaram-se à
filosofia marxista não foi julgada apenas por conta dos invasão da Hungria pelas forças soviéticas, ação que
seus méritos (ou deméritos) teóricos. Ela havia se presta- resultou na morte e na prisão de milhares de pessoas.
do à materialização concreta de um novo sistema econô- Para os intelectuais de esquerda, passou a ser constran-
mico e político e, portanto, sujeita a críticas por conta dos gedora a defesa de um sistema de pensamento que dera
erros ou acertos desse novo sistema. origem a um Estado totalitário e violento que, não raras
Não havia como separar o corpo teórico marxista da vezes, traía os trabalhadores e os intelectuais socialistas
práxis (prática) que dele resultara. Esse foi o caso, por e comunistas.
exemplo, da Revolução Russa, em 1917, que derrubou o Finalmente, as críticas ao marxismo alcançaram os
Czar e transferiu para o Estado (visto como legítimo repre- filósofos que, a partir de Marx, haviam desenvolvido
sentante dos trabalhadores) grandes propriedades e o novas teorias. Em outros termos, não se tratava de criticar
controle de fábricas. Dois líderes haviam entrado em con- os filósofos da Escola de Frankfurt, mas as ideias de seus
flito em relação ao que seria desejável para que a Revol- seguidores, os desenvolvimentos teóricos realizados por
ução permanecesse viva: Joseph Stalin (1878- 1953) esses seguidores. Esse foi o caso das críticas a Antonio
desejava mantê-la na URSS, enquanto Léon Trotsky Gramsci (1891-1937), filósofo marxista da Itália, que
(1879-1940) queria vê-la disseminada por todos os cantos investigou as formas a partir das quais o Estado usava as
do mundo. instituições culturais como forma de sedimentar e
preservar o poder. Para Gramsci, parecia óbvio que, se o
sistema capitalista perpetuava-se por meio das artes, das
Saiba mais técnicas e das ciências – e estes elementos haviam sido
O confronto entre os dois líderes encerrou-se com o investigados com profundidade pela Escola de Frankfurt
assassinato de Trotsky no México, a mando de Stalin. –, o mesmo poderia ser feito pelo sistema comunista.
Caso você tenha interesse no assunto, sugerimos que Assim, Gramsci defendeu a disseminação da concepção
assista ao filme O Eleito (The Chosen), de 2017, que marxista de Estado e a educação dos trabalhadores e dos
narra a perseguição e o assassinato de Trotsky. intelectuais segundo os preceitos marxistas. A hege-
monia de intelectuais comunistas e de líderes orgânicos
(comprometidos com os ideais revolucionários e com o
No poder, Stalin passou a perseguir seus antigos funcionamento das organizações políticas revolucionárias
colaboradores, promovendo assassinatos e prisões arbi- e de cunho proletário) garantiria o sucesso e a manu-
trárias. O saldo da era stalinista foi revelado por Nikita tenção do comunismo, e de maneira muito mais eficaz
Khrushchov, líder político do mundo comunista, em 1956: do que caso fossem usadas a autoridade, a violência e a
pelo menos quatro milhões de pessoas haviam sido coerção. Nesse contexto, as críticas a Gramsci derivavam

Observação:
O neoliberalismo buscou dar uma nova interpretação ao liberalismo inglês dos séculos XVII e XVIII, período em que
a Revolução Industrial destruiu os últimos alicerces do feudalismo que agonizava na maior parte da Europa. O
liberalismo clássico defendeu a autonomia dos agentes econômicos, a divisão do trabalho como origem da riqueza
e a necessária não intervenção do Estado na economia. Para os liberais, havia uma ordem natural que levava o
mundo ao equilíbrio, sendo contraproducente qualquer iniciativa do Estado no sentido de alterar ou normatizar as
relações entre os agentes econômicos. O neoliberalismo do século XX retomou essas ideias, dando a elas uma nova
roupagem, mas que, em essência, procurou combater o gigantismo do Estado, bem como sua intromissão na vida
econômica e nas relações sociais.

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da percepção de que havia censura moral e à liberdade acreditara na possibilidade de um mundo paradisíaco em
de expressão como pressupostos da revolução cultural que não houvessem diferenças sociais e que o homem
pretendida pelos seguidores da Escola de Frankfurt. não fosse explorado por outro. No século XXI, as dificul-
Aquela seria uma revolução que objetivava o controle da dades de governos de esquerda da América Latina (em
mentalidade e da visão política das pessoas, em especial especial, na Argentina, na Venezuela, na Colômbia, na
por meio do aparelhamento das instituições e das mani- Bolívia e no Brasil) e a ascensão, na Europa, de governos
festações culturais, artísticas e educacionais por elas apoiados por partidos de direita, contribuíam para o
emanadas. fortalecimento de correntes filosóficas mais conserva-
A desilusão de parte das esquerdas também foi deve- doras. Assim, as ideias da Escola de Frankfurt passaram
dora dos modelos autoritários que governos socialistas a ser combatidas por inúmeros filósofos, dos quais desta-
adotaram ao longo do século XX, tais como Cuba, a União cam-se os britânicos G. K. Chesterton (1874- 1936) e
Soviética e a Coreia do Norte. Notícias de perseguições a Roger Scruton (1944- ), a russa Ayn Rand (1905-1982) e o
opositores políticos e de manutenção de fronteiras vigia- francês Raymond Aron (1905-1983).
das para que cientistas, artistas e cidadãos comuns não Para Aron, o marxismo criara regimes totalitários e se
fugissem transformaram em sombras as antigas utopias transformara em ópio para os intelectuais. Para o filósofo,
socialistas e comunistas. Ao final da década de 1980, o o ideário de esquerda funcionava quase como uma droga,
golpe final no ideário de esquerda materializou-se na fazendo com que se continuasse a acreditar no sistema
queda do Muro de Berlim, que desde o final da Segunda comunista mesmo quando as evidências mostravam que
Guerra Mundial separava o lado ocidental (capitalista) do o sistema capitalista era o único capaz de gerar riqueza e
lado oriental (comunista) da capital da Alemanha. proteger as liberdades individuais. Dentro dessa mesma
O fim da União Soviética e a adesão da China comu- perspectiva, esses filósofos (conhecidos como filósofos
nista ao projeto econômico capitalista abalaram forte- conservadores ou de direita) voltaram a defender princí-
mente os alicerces dos movimentos filosóficos alinhados pios caros ao liberalismo, agora a partir do contexto do
ao pensamento de Marx. O neoliberalismo defendido por final do século XX, vários deles associados a valores reli-
Ronald Reagan e Margareth Thatcher provocava novas giosos, à autonomia individual, à liberdade de expressão,
reflexões, em particular quanto aos resultados obtidos à meritocracia (ou seja, à competência do ser humano
pelos governos que haviam adotado o comunismo ou o como medida para a obtenção de benefícios e de rele-
socialismo. vância no corpo social) e ao próprio sistema capitalista,
Esse era um cenário totalmente distinto daquele do simultaneamente a críticas ao marxismo, ao coletivismo
final do século XIX e início do século XX, quando se e à burocracia estatal.

Referências do módulo 14

Audiovisuais
O ELEITO (The Chosen). Dir. Antonio Chavarrías, México: 2016. 127 minutos.
Textuais
ABRÃO, B. S. (Org.). História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
ADORNO, Theodor W. Educação após Auschwitz. In: Educação e Emancipação. Tradução de Wolfgang Leo Maar. São
Paulo: Paz e Terra, 2003.
ARANTES, Paulo Eduardo. Vida e obra. In Textos escolhidos/Walter Benjamin, Max Horkheimer, Theodor W. Adorno,
Jürgen Habermas. Trad. José Lino Grunnewald et al. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Coleção Os Pensadores).
MATOS, Olgária C. F. A Escola de Frankfurt: luzes e sombras do Iluminismo. São Paulo: Moderna, 2005. (Coleção logos)
MOGENDORFF, Janine Regina. A Escola de Frankfurt e seu legado. Verso e Reverso, v. 26, n. 63, p. 152-159, 2012.
Disponível em: [Link] Acesso em:
14 nov. 2018.
PINTO, José Marcelino de Rezende. A teoria da ação comunicativa de Jürgen Habermas: conceitos básicos e
possibilidades de aplicação à administração escolar. Paideia (Ribeirão Preto), Ribeirão Preto, n. 8/9, p. 77-96, 1995.
Disponível em: [Link] script=sci_arttext&pid=S0103-863X1995000100007. Acesso em: 16
nov. 2018.

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1. (UFPA) – “Originalmente concebida e acionada para 2. (UEL) – Sobre a crítica frankfurtiana à concepção
emancipar os homens, a moderna ciência está hoje a positivista de ciência e técnica, é correto afirmar que a
serviço do capital, contribuindo para a manutenção das racionalidade técnica
relações de classe. A ciência e a técnica nas mãos dos I. dissocia meios e fins e redunda na adoração fetichista
poderosos [...] controlam a vida dos homens, subjuga-os de seus próprios meios.
ao interesse do capital. A produção de bens segue uma II. constitui um saber instrumental cujo critério de verdade
lógica técnica, e não a lógica das necessidades reais dos é o seu valor operativo na dominação do homem e da
homens”. natureza.
FREITAG, B. A teoria crítica ontem e hoje, III. aprimora a ação do ser humano sobre a natureza e
São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 94. resgata o sentido da destinação humana.
IV. incorpora a reflexão sobre o significado e sobre os fins
A autora nos apresenta a visão da Escola de Frankfurt da ciência no contexto social.
acerca do papel desempenhado pela ciência e pela
tecnologia na moderna economia capitalista. Sobre este Assinale a alternativa correta.
papel, considere as afirmativas abaixo: a) Somente as alternativas I e II são corretas.
I. A ciência e a técnica, além de serem forças b) Somente as alternativas I e IV são corretas.
produtivas, funcionam como ideologias para legitimar c) Somente as alternativas III e IV são corretas.
o sistema capitalista. d) Somente as alternativas I, II e III são corretas.
II. Nas mãos do poder econômico e político, a tecnologia e) Somente as alternativas II, III e IV são corretas.
e a ciência são empregadas para impedir que as
pessoas tomem consciência de suas condições de
desigualdade.
III. A dimensão emancipadora e crítica da racionalidade
moderna foi valorizada na economia capitalista, pois
muitas das reivindicações dos trabalhadores foram
atendidas a partir do advento da tecnologia.
IV. Na economia capitalista, produz-se com eficácia o que
dá lucro e não aquilo de que os homens necessitam e
gostariam de ter ou usar.

Estão corretas as afirmativas:


a) I e III b) II e III c) III e IV
d) I, II e IV e) II, III e IV

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3. – ”Uma norma só deve pretender validez 4. (UEL) – Analise a figura a seguir.

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quando todos os que possam ser concer-
nidos por ela cheguem (ou possam chegar), enquanto
participantes de um discurso prático, a um acordo quanto
à validade dessa norma.”
(HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo.
Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.)

Segundo Habermas, a validez de uma norma deve ser


estabelecida pelo(a)
a) Liberdade humana, que consagra a vontade.
b) Razão comunicativa, que requer um consenso.
c) Conhecimento filosófico, que expressa a verdade.
d) Técnica científica, que aumenta o poder do homem. ([Link] Modernos. Disponível em:
e) Poder político, que se concentra no sistema partidário. <[Link]
ernos/[Link]>. Acesso em: 06 ago. 2004.)

“Parece que enquanto o conhecimento técnico expande


o horizonte da atividade e do pensamento humanos, a
autonomia do homem enquanto indivíduo, a sua
capacidade de opor resistência ao crescente mecanismo
de manipulação das massas, o seu poder de imaginação
e o seu juízo independente sofreram aparentemente uma
redução. O avanço dos recursos técnicos de informação
se acompanha de um processo de desumanização.
Assim, o progresso ameaça anular o que se supõe ser o
seu próprio objetivo: a ideia de homem.”
(HORKHEIMER, Max. Eclipse da razão. Trad. de Sebastião
Uchôa Leite. Rio de Janeiro: Editorial Labor do Brasil, 1976. p. 6.)

Com base no texto, na imagem e nos conhecimentos


sobre racionalidade instrumental, é correto afirmar:
a) A imagem de Chaplin está de acordo com a crítica de
Horkheimer: ao invés de o progresso e da técnica
servirem ao homem, este se torna cada vez mais
escravo dos mecanismos criados para tornar a sua vida
melhor e mais livre.
b) A imagem e o texto remetem à ideia de que o desen-
volvimento tecnológico e o extraordinário progresso
permitiram ao homem atingir a autonomia plena.
c) Imagem e texto apresentam o conceito de
racionalidade que está na estrutura da sociedade
industrial como viabilizador da emancipação do homem
em relação a todas as formas de opressão.
d) Enquanto a imagem de Chaplin apresenta a autonomia
dos trabalhadores nas sociedades contemporâneas, o
texto de Horkheimer mostra que, quanto maior o

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desenvolvimento tecnológico, maior o grau de 5. ”Hoje, a indústria cultural assumiu a herança


humanização. civilizatória da democracia de pioneiros e
e) Tanto a imagem quanto o texto enaltecem a inevitável empresários, que tampouco desenvolvera uma fineza de
instrumentalização das relações humanas nas socie- sentido para os desvios espirituais. Todos são livres para
dades contemporâneas. dançar e para se divertir, do mesmo modo que, desde a
neutralização histórica da religião, são livres para entrar
em qualquer uma das inúmeras seitas. Mas a liberdade
de escolha da ideologia, que reflete sempre a coerção
econômica, revela-se em todos os setores como a
liberdade de escolher o que é sempre a mesma coisa.”
(ADORNO, T.; HORKHEIMER, M.
Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos.
Rio de Janeiro: Zahar, 1985.)

A liberdade de escolha na civilização ocidental, de acordo


com a análise do texto, é um(a)
a) legado social.
b) patrimônio político.
c) produto da moralidade.
d) conquista da humanidade.
e) ilusão da contemporaneidade.

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MÓDULO 15 A complexidade do Ser (Heidegger) e o Existencialismo (Sartre)


Neste módulo, estudaremos as ideias de Heidegger
(1889-1976), filósofo alemão que desenvolveu uma Saiba mais
perspectiva extremamente complexa a respeito do Ser e Foi notório o caso de amor de Heidegger com Hannah
que contribuiu, de maneira significativa, para o desen- Arendt, aluna brilhante que se tornaria, posterior-
volvimento do existencialismo, em especial o defendido mente, uma das filósofas mais admiradas do século
por Jean-Paul Sartre (1905-1980). XX. Embora ele fosse casado e Hannah fosse judia, os
dois mantiveram um relacionamento durante muitos
1. O século XX e a complexidade anos. A chegada do nazismo ao poder e a adesão de
Heidegger ao partido que dava suporte ao regime
O século XX teve início, efetivamente, com a Primeira nazista acabaram por colocar um fim ao caso de amor
Guerra Mundial, a assim chamada Mãe de Todas as e à admiração mútua.
Guerras: a mortandade de milhões de jovens nos campos Um pouco dessa narrativa é abordada no filme Hannah
de batalha e nas trincheiras cheias de lama marcou, e de Arendt, baseado na obra O Julgamento de Eichmann,
maneira definitiva, o fim de uma visão de mundo e de de autoria da filósofa. Eichmann foi o oficial nazista
uma forma de guerrear contra o inimigo. O século XIX, as encarregado da logística de transporte dos judeus aos
suas monarquias e as suas tropas em uniformes de campos de concentração e que, com a derrota do
veludo haviam ficado para trás. Também havia ficado para nazismo, fugiu da Alemanha, escondendo-se em lugar
trás a Alemanha rural dos tempos de outrora. desconhecido. Localizado na Argentina, foi seques-
Durante as décadas de 1890 e 1900, o país estava
trado pelo serviço secreto israelense e levado a
sofrendo uma assombrosa transformação em
julgamento em Israel. Hannah foi designada por uma
importante potência industrial. Em 1871, quando a
unificação alemã culminara na fundação do Império revista americana para a cobertura do evento e o livro
Alemão, 70% da sua população viviam no campo; narra diversos aspectos relacionados ao julgamento.
em 1910, só restavam ali 40%. A antiga Alemanha Como resultado, Hannah analisou, filosoficamente, a
rural tradicional em que Heidegger crescera havia questão da banalidade do mal que o nazismo fizera vir
permanecido em grande parte impassível desde os à tona e, em vários momentos do filme, o nome de
tempos medievais. Agora estava dando lugar a Heidegger é mencionado.
cidades modernas em que automóveis, eletrificação
e indústria pesada dominavam. Todos os aspectos
da cultura ocidental estavam sendo urbanizados
2. Da fenomenologia à investigação do Ser
(STRATHERN, 2004, p. 6).

Pouco mais de trinta anos separaram essa guerra de A fenomenologia de Husserl havia proposto não
outra, também de proporções mundiais, e nações de apenas um novo método de construir o conhecimento (por
todos os continentes foram arrastadas para os conflitos meio da consciência livre das amarras da razão e da
na Europa e na Ásia. Esta última guerra, de dimensões empiria, ou seja, por meio da imaginação e da intuição),
avassaladoras, fez ruir a esperança de que a cultura e a mas uma nova ontologia: os objetos e os fenômenos da
erudição fossem capazes de conter a barbárie: afinal, o natureza eram o que nosso inconsciente, ou nossa
assassinato de milhões de pessoas em câmaras de gás e “consciência pura”, era capaz de apreender do mundo real.
em campos de extermínio poderia ser obra de qualquer
um, menos de um povo que bebera das águas de
Observação:
Nietzsche, Kant e Leibniz.
Este contexto favoreceu o desenvolvimento da A ontologia diz respeito ao estudo daquilo que
fenomenologia e do existencialismo, e também criou define, na essência, um ser ou um objeto. Faça um
ambiguidades, tendo sido Martin Heidegger um exemplo exercício mental, tentando pensar numa flor. Se
perfeito do terreno pantanoso que havia sido criado no cada um de nós fizer isso, cada um de nós pensará
campo das ideias e das práticas políticas: inteligência numa determinada flor; no entanto, haverá algo em
ímpar e aprendiz de Husserl (fundador da fenomenologia), comum nas nossas diversas representações de flor.
Heidegger mostrou imensa simpatia em relação aos Independentemente da flor na qual estivermos
ideais nazistas, o que, certamente, manchou a sua obra e pensando, do seu formato ou tamanho, haverá algo
fez com que, em tempos posteriores, ele fosse visto comum nas nossas flores, qual seja, a sua essência.
sempre com alguma reserva. É dessa essência que se ocupa a ontologia.

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Husserl foi professor de Heidegger, e este sucedeu o aos pré-socráticos para formular o problema do Ser? Se
mestre na sua posição de titular na Universidade de voltarmos no tempo, veremos que a filosofia anterior a
Freiburg. No entanto, Heidegger foi além: sua intenção Sócrates, Platão e Aristóteles tinha como um de seus
não era apenas a de dar continuidade à ontologia fenome- focos justamente a questão do Ser.
nológica, na qual os objetos e o mundo real existiam como Para Heráclito, o mundo estava em constante trans-
haviam sido pensados. Segundo Chauí (2002, p. 238), formação: nada permanecia igual, tudo fluía continua-
Vimos que a palavra ontologia deriva do particípio mente e os contrários estavam sempre em conflito; em
presente do verbo queinai (ser), isto é, de on outras palavras, a mudança e a contradição eram
(ente) e onta (entes), dos quais vem o substantivo condições da existência do Ser. Em oposição, Parmênides
to on: o Ser. O filósofo alemão Heidegger propõe
defendia que a essência do Ser era imutável; apenas as
distinguir duas palavras: ôntico e ontológico.
aparências sofriam a ação do tempo e, por isso, o mundo
Ôntico se refere à estrutura e à essência própria
de um ente, aquilo que ele é em si mesmo, sua
sensível era apenas ilusão.
identidade, sua diferença em face de outros Como vocês podem perceber, Heráclito e Parmênides
entes, suas relações com outros entes. Ontoló- se perguntavam a respeito da existência da realidade, do
gico se refere ao estudo filosófico dos entes, à que caracterizava a existência do real, se a transformação
investigação dos conceitos que nos permitam fazia parte dela ou se a permanência era o que a definia.
conhecer e determinar pelo pensamento em que Essas questões seriam fundamentais caso a intenção
consistem as modalidades ônticas, quais os fosse entender o quanto o mundo poderia ser apreendido
métodos adequados para o estudo de cada uma por meio do conhecimento. Se o mundo se transformava
delas, quais as categorias que se aplicam a cada
constantemente, como construir um conhecimento
uma delas. Em resumo: ôntico diz respeito aos
seguro sobre ele? E, caso ele não mudasse, seria possível
entes em sua existência própria; ontológico diz
respeito aos entes tomados como objetos de que nossa razão o compreendesse de forma única e
conhecimento. Como existem diferentes esferas definitiva?
ou regiões ônticas, existirão ontologias regionais Essas questões, de cunho ontológico, foram, em grande
que se ocupam com cada uma delas. parte, abandonadas por Sócrates, Platão e Aristóteles.
Sócrates fez a defesa da dúvida como método (“só sei
É a partir dessa diferença que Heidegger quer iniciar que nada sei”). Platão, por sua vez, dividiu o mundo em
sua ontologia. A ontologia que ele pretende desenvolver dois planos: o das ideias e o das coisas. As ideias eram
tem a ambição de superar essas duas posições, ou seja, imutáveis, enquanto as coisas se transformavam. Aristó-
resolver o problema Heráclito-Parmênides, Platão- teles ignorou a divisão platônica: havia um mundo a res-
Aristóteles, medievais e modernos, Kant e peito do qual poderíamos construir um conhecimento
Husserl. Como resolver um problema milenar seguro. Mais tarde, os medievais e os modernos haviam
como esse e que se tornara o eixo central da discordado em relação ao determinismo divino, que tudo
própria história da metafísica e da ontologia?
podia conceber e comandar: havia uma ordem natural no
(CHAUÍ, 2002, p. 241).
mundo, planejada por Deus e por seus desígnios, ou havia
uma realidade possível de ser compreendida por meio de
Artes Gráficas – Objetivo

leis explicativas? Essas duas perspectivas eram ou não


excludentes? O que definia a existência, o que a
determinava, e como poderíamos compreendê-la?
Então, nos séculos XVIII e XIX, a questão ontológica
voltava a assombrar a filosofia. Kant e Husserl haviam
discordado em relação às possibilidades de conhecimento
da essência dos seres. Para o primeiro, o acesso ao
fenômeno em si era impossível; para o segundo, era
possível acessar a essência das coisas, desde que
colocássemos o mundo “entre parênteses”, ou seja, que
nos livrássemos dos condicionantes da razão, dos
sentidos e da experiência: a consciência pura e o nosso
Figura 1. O estudo do ser havia se tornado central na filosofia desde o inconsciente liberto poderiam acessar os seres e os
período pré-socrático. Desde então, a questão da existência vem fenômenos naquilo que eles tinham de mais essencial.
ocupando um espaço considerável no contexto dos debates filosóficos
Para determinar nossas possibilidades de conhecimento
e ontológicos.
sobre o mundo, era necessário determinar o que
constituía a existência desse mundo e o quanto nosso
Afinal, para quais conflitos Heidegger pretendia
conhecimento determinava a existência do mundo tal
propor uma solução? Qual era o motivo de ele retornar
como o víamos.
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Para Heidegger, a filosofia ocidental havia cometido mundo nem fora dele; não somos os criadores do
um erro ao declinar do estudo do ser. Isto mundo e sim seus habitantes. Damos sentido ao
havia reduzido a humanidade a uma superficia- mundo, transformamos as coisas, criamos
lidade em que ela mal tinha noção do que signifi- utensílios, obras de arte, instituições sociais, mas
cava ser. Tornara-se desatenta às propriedades não criamos o próprio mundo. Sem a consciência,
inerentes à noção total do ser. A humanidade não há mundo para nós. Sem o mundo, não temos
moderna vivia uma vida destituída de qualquer como conhecer nem agir.
consciência essencial do que sua existência
significava. Sua existência, ou “condição de ser”,

Ingimage/Fotoarena
perdera toda a sua profundidade, já não tinha
nenhuma ressonância. O próprio conhecimento da
“condição de ser” da humanidade evaporara em
meio a uma confusão de conhecimento científico
e tecnológico (STRATHERN, 2004, p. 14).

Na verdade, Heidegger procurava resgatar a filosofia


da verdade psicológica que havia respaldado a fenome-
nologia. De forma geral, aqueles eram tempos em que a
verdade científica se colocava acima de tudo e de todos
e, mais importante ainda, solapava algumas verdades até
então constituídas.
Pior estava por vir com a teoria quântica, também
delineada por Einstein, em 1905, em que a luz Figura 2. “Um mundo sem nós será tudo quanto se queira, menos o que
podia ser vista tanto como uma partícula quanto entendemos por realidade. Uma consciência sem o mundo será tudo
como uma onda. Em outras palavras, a luz era quanto se queira, menos consciência humana” (CHAUÍ, 2002, p. 241).
simultaneamente matéria sólida e um movimento
imaterial. A realidade científica desafiava a regra
A ontologia que Heidegger pretendia construir
básica da contradição (STRATHERN, 2004, p. 7).
pressupunha a existência de um mundo que era anterior
a nós, que independia do nosso conhecimento, mas que
A intenção de Heidegger era retomar a questão na
era objeto do sujeito do conhecimento que lhe atribuía
qual a fenomenologia havia esbarrado: o que era o Ser? O
sentido e significado. A realidade tal como a conhecíamos
que era a realidade e quais as nossas possibilidades de
era resultado de um mundo material, cuja existência
conhecê-la? O mundo antecedia o pensamento ou o
independia da nossa existência e à qual eram atribuídos
pensamento antecedia o mundo?
outros sentidos em função da nossa ação. O mundo
De fato, sua pergunta fundamental era: “o que é
ser?”. Em outras palavras: “o que significa
existia sem que nós pensássemos nele, mas o nosso
existir?” ou “qual é o significado da existência?” pensamento e o nosso conhecimento transformavam o
Para Heidegger e a tradição existencial, essa per- mundo. A realidade era uma coisa, a realidade percebida
gunta não podia ser simplesmente “dissolvida” pela nossa consciência era outra coisa. No mundo, viviam
por análise. Questões como essa estavam além seres ou entes que possuíam um sentido em si mesmos
do alcance da lógica ou da razão. Situavam-se e que também possuíam um sentido que a eles
mais profundamente. Nossa existência era atribuíamos.
fundamental: anterior ao pensamento racional ou Como se observa, a ontologia investiga a essência
à análise linguística. Era o “dado” primeiro de toda ou sentido do ente físico ou natural, do ente
vida individual (STRATHERN, 2004, p. 4). psíquico, lógico, matemático, estético, ético,
temporal, espacial, etc. [...] O que é o mundo? O
O mundo existia apesar do nosso pensamento ou era que é o eu ou a consciência? O que é o corpo? O
a nossa razão que fazia surgir o mundo tal como ele era? que é o outro? O que é o espaço-tempo? O que é
Para Chauí (2002, p. 241), a questão poderia ser assim a linguagem? O que é o trabalho? [...] Eis as
colocada: questões da ontologia. Recupera-se, assim, a
se eliminarmos a consciência, não sobra nada, velha questão filosófica: “O que é isto que é?”,
pois as coisas existem para nós, isto é, para uma mas acrescida de nova questão: “Para quem é isto
consciência que as percebe, imagina, que delas que é?”. [...] A pergunta “O que é isto que é?”
se lembra, nelas pensa, que as transforma pelo refere-se ao modo de ser dos entes naturais,
trabalho, etc. Se eliminarmos as coisas, também artificiais, ideais e humanos; a pergunta “Para
não resta nada, pois não podemos viver sem o quem é isto que é?” refere-se ao sentido ou à
significação desses entes (CHAUÍ, 2002, p. 142).

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Ingimage/Fotoarena
floresta. Limpamos a mata cerrada e a vegetação
rasteira de modo que a luz possa se irradiar no
terreno da clareira. A palavra alemã lichtung, que
significa “clareira”, contém a palavra licht, que
significa “luz”. Espalhamos luz sobre o terreno
limpo que está oculto sob o que é imediatamente
aparente. Expomos seu substrato, que é assim
“desvelado” (STRATHERN, 2004, p. 22).

Para Heidegger, esse desvelamento é sinônimo de


aletheia, a palavra grega para verdade e para não esque-
cimento. O problema é que, ao desvelar o ser de deter-
minado modo, velamos todos os outros modos possíveis.
Ao desvelar um determinado modo do ser, ou o ser a
Figura 3. O mundo se transforma em função do sentido que a ele partir de determinada maneira, estamos velando todas as
atribuímos, e esse sentido pode, inclusive, independer daquilo que alternativas que a este modo podem se contrapor.
efetivamente o mundo é.
A arte se ocupa com esse desvelamento. Não é o
visível sua matéria-prima, mas o que está oculto. O que
Inúmeros críticos viram na ontologia de Heidegger
está oculto deve emergir para que se possa descobrir
um esboço da ideia de alma. Afinal, o ser de Heidegger
aquilo que se escondeu. Assim, não é papel da arte repro-
era vazio de atos e objetos como a consciência
“posta entre parênteses” de Husserl. Era o
duzir a realidade, como se dela devesse tirar fotografias.
fundamento que se situava além da ciência, além O trabalho artístico vai além das aparências do mundo e,
da psicologia, além até da lógica, além de toda por meio dessa operação de arqueologia de sentido,
particularidade (STRATHERN, 2004, p. 13). pode-se alcançar a essência do ser.
Embora aquele fosse um “tempo sem Deus”, a Pode parecer estranho e, efetivamente, é estranho.
posição de Heidegger permaneceu inegavelmente Heidegger acabou quase por desenvolver uma linguagem
religiosa. [...] “A procura do Ser é meramente uma própria para explicitar sua filosofia, e nem por isso logrou
busca disfarçada de um tipo de crença em Deus”. obter sucesso no seu esforço de se fazer compreender.
De uma maneira ou de outra, esse Deus – ausente Sua obra não é de fácil acesso, tampouco a apreensão do
ou presente – não tinha lugar na vida moderna. ser tal como ele propõe. De qualquer forma, o impacto
Heidegger continuou insistente sobre esse ponto. de suas ideias foi imenso, em especial no círculo filosó-
A sociedade industrial moderna produzia infelici- fico que vinha desenvolvendo o que se convencionou
dade generalizada e felicidade superficial em igual chamar de existencialismo.
medida. Não havia lugar para a liberdade de pensa-
mento e ação, ou independência de ser sob qual- 4. Heidegger, o existencialismo e Sartre
quer forma (STRATHERN, 2004, p. 26).

O vínculo entre a ontologia heideggeriana e o existen-


3. Heidegger e a arte
cialmente nasce do sentido que Heidegger dá ao conceito
de Dasein.
As associações entre a filosofia de Heidegger e a Fundamentalmente, este está contido no signi-
crítica de arte têm como base a suposição de que ficado corrente da própria palavra, Da-sein. Literal-
a reflexão filosófica sobre o caráter de arte da obra mente “Aí” (Da- ) “ser” (-sein). O elemento
implica, antes, no estabelecimento da correlação essencial do Dasein é, portanto, “ser-aí” ou "ser-
entre arte e verdade, pois, para ele, é próprio da no-mundo". Este é nossa existência, nossa "min-
arte comunicar modos de ser do mundo e do dade". É a "especificidade de nosso ser" onde "nós
homem como expressão do acontecimento da mesmos somos". É o lugar onde sujeito encontra
verdade do ser e do ente. Nessa perspectiva, a objeto (STRATHERN, 2004, p. 20).
arte encontra-se, intrinsecamente, relacionada
com a ontologia (FERREIRA, 2006, p. 1). Isto posto, resta a pergunta: como chegar à essência
do homem? Para Heidegger, o caminho é eliminar tudo o
Para que possamos compreender essa associação, que for acidental e trivial. Como no exemplo anterior que
devemos voltar para o método de indagação sobre o ser, demos sobre a flor, é como se eliminássemos tudo o que
tal como proposto por Heidegger. fosse específico de cada uma das flores pensadas,
O método para compreender a questão do ser, restando apenas o que fosse comum, a sua essência,
disse, era como o de abrir uma clareira numa independentemente de qualquer particularidade. O

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caminho para alcançar a essência do homem, ou seja, francesa. Socialistas e comunistas disseminavam suas
para alimentar o que é acidental e fortuito (e que, ideias, mas Sartre buscou manter-se distante de polê-
artificialmente, foi introduzido nas nossas vidas por meio micas sobre esses temas.
do desenvolvimento tecnológico), é assumir a morte Essa recusa de Sartre em se envolver com política
como fim da existência humana. Se pensarmos na morte, durou até a Segunda Guerra Mundial, quando o filósofo
conseguimos abolir tudo aquilo que não é essencial, que resolveu se juntar à Resistência Francesa. Posterior-
é provisório e acidental. mente, abraçou o comunismo e o marxismo. Ao lado da
Ao apreender a "finitude de nossa existência", filósofa Simone de Beauvoir, formou um dos casais mais
libertamo-nos da "multiplicidade de possibilidades" icônicos do século XX. Agraciado com o Nobel de
superficial que a vida nos apresenta. Evitando Literatura em 1964, recusou-se a receber o prêmio, para
coisas como o conforto e a vida fácil, e não
escândalo de todos.
ignorando a questão da morte, podemos "trazer o
A filosofia do século XX havia colocado o sujeito no
Dasein para a simplicidade de seu destino". Na
angústia, ou na culpa desassossegante, ou na
centro do processo de produção do conhecimento e de
perspectiva cruel da morte, o ser do Dasein nos é representação da realidade. No entanto, pairava a per-
revelado (STRATHERN, 2004, p. 24). gunta: quem era esse sujeito e o quão finito e limitado
ele era?
É importante fazermos uma observação: esta O existencialismo respondeu a essa pergunta de
perspectiva da vida como via em direção a um destino maneira clara: o homem era “’um ser para a morte’, isto
finito encontra explicação no vazio existencial da geração é, um ser que sabe que termina e que precisa encontrar
que sobreviveu à Primeira Guerra Mundial. Depois de em si mesmo o sentido de sua existência” (CHAUÍ, 2002,
toda aquela mortandade, depois do colapso do mundo p. 53). Como enfrentar a finitude? Sartre responde: por
que existira até então, não é de se estranhar que uma meio da ação revolucionária e das artes. “Nessas formas
corrente filosófica propusesse a reflexão sobre o quanto excepcionais da atividade, os humanos seriam capazes
o pensamento a respeito da morte poderia revelar a de dar sentido à brevidade e finitude de suas vidas”
respeito da existência humana. Também não é de se (CHAUÍ, 2002, p. 53).
estranhar a influência que essas ideias causaram nos Como usufruir desse breve tempo de vida? Para
filósofos do período posterior à Segunda Guerra Mundial. Sartre, era necessário repudiar a fatalidade e o deter-
Essas ideias, em especial a de um ser humano que, para minismo: o primeiro representava o acaso, e o segundo,
fugir do tédio e da angústia existencial, deveria fazer a certeza de que “tudo já está escrito e não podia ser
escolhas livres, marcaram a geração de filósofos como mudado”. A crença na sorte e na contingência (o que
Jean-Paul Sartre (1905-1980) e Albert Camus (1913-1960). poderia ou não acontecer) esgarçava a vontade de lutar
pela liberdade, tal como explica Chauí (2002, p. 359).
Tomemos um exemplo da necessidade oposta à
Saiba mais liberdade: não escolhi nascer numa determinada
época, num determinado país, numa determinada
Albert Camus, argelino, participou da Resistência família, com um corpo determinado. As condições
Francesa (movimento que se opôs à ocupação nazista de meu nascimento e de minha vida fazem de
na França) e escreveu inúmeras peças de teatro, mim aquilo que sou e minhas ações, meus
novelas e ensaios. Pelo seu trabalho, recebeu o desejos, meus sentimentos, minhas intenções,
Prêmio Nobel de Literatura em 1957. Sugerimos a minhas condutas resultam dessas condições,
leitura de um de seus livros mais famosos, A Peste, nada restando a mim senão obedecê-las. Como
que narra os eventos em uma cidade na Argélia que se dizer que sou livre e responsável?
vê assolada por uma peste. A solidariedade entre os [...]
habitantes da cidade e os efeitos da peste servem de Tomemos, agora, um exemplo da contingência
oposta à liberdade. Quando minha mãe estava
instrumento para a discussão a respeito da existência
grávida de mim, houve um acidente sanitário,
humana e do destino do homem. Amigo próximo de
provocando uma epidemia. Minha mãe adoeceu.
Sartre, Camus rompeu com ele em função de
Nasci com problemas de visão. Foi por acaso que
divergências a respeito do comunismo soviético, a gravidez de minha mãe coincidiu com o acaso
combatido pelo escritor argelino, mas defendido pelo da epidemia: por acaso, ela adoeceu; por acaso,
filósofo francês. nasci com distúrbios visuais. Tendo tais distúrbios,
preciso de cuidados médicos especiais. No
entanto, na época em que nasci, o governo de
Jean-Paul Sartre viveu em uma época de intensa meu país instituiu um plano econômico de
atividade intelectual e artística, na qual os filósofos e redução de empregos e privatização do serviço
pensadores foram chamados a participar da vida política público de saúde. Meu pai e minha mãe ficaram

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desempregados e não podiam contar com o Sartre defendia: somos aquilo que fazemos. Em
serviço de saúde para meu tratamento. Tivesse eu outras palavras, a ação nos definia enquanto seres hu-
nascido em outra ocasião, talvez pudesse ter sido manos. Era uma
curada de meus problemas visuais. Quis o acaso filosofia pessoalmente envolvente — ou, para
que eu nascesse numa época funesta. Tal como os seus críticos, a teoria última da introspecção,
sou, há coisas que não posso fazer. Sou, porém, beirando o solipsismo (a crença de que só eu
bem dotada para música e poderia receber uma existo). Mas todos concordam que nas mãos de
educação musical. Porém, houve a decisão do Sartre o existencialismo se transformou numa
governo municipal de minha cidade de demolir o revolta contra os valores burgueses europeus
conservatório musical público. Não posso pagar arruinados pela Segunda Guerra. A burguesia
um conservatório particular e ficarei sem a (essencialmente a classe média) veio a repre-
educação musical, porque, por acaso, moro numa sentar tudo o que o existencialismo não era.
cidade que deixará de ter um serviço público de Impossível ser existencialista e burguês
educação artística. Morasse eu em outra cidade (STRATHERN, 1999, p. 10).
ou fosse outro o governo municipal, isso não
aconteceria comigo. Como, então, dizer que sou Muito do que veio a ser conhecido por existen-
livre para decidir e escolher, se vivo num mundo cialismo era devido à fenomenologia de Husserl. Afinal,
onde tudo acontece por acaso? Husserl havia resolvido a questão do empirismo versus o
[...]
racionalismo propondo uma terceira via para o alcance do
No primeiro exemplo – negra, mulher, pobre,
conhecimento: o inconsciente. O conhecimento só
numa sociedade racista, machista, classista –
parece que nada posso fazer. A porta está fechada
poderia ser construído "analisando-se o material bruto da
e a luz apagada. Porém, nada estará no poder de consciência, anterior às pressuposições e teorias que tão
minha liberdade? Terei que gostar do escuro e habitualmente lhe impomos” (STRATHERN, 1999, p. 26).
permanecer com a porta fechada? Se a ética Para Sartre, a contingência (a possibilidade de
afirmar que a discriminação étnica, sexual e de acontecer ou não) permeava a nossa vida, o que tornava
classe é imoral (isto é, violenta), se eu tiver o presente a única certeza possível. O existencialismo de
consciência disso, nada farei? Serei impotente Sartre era uma proposta de examinar a sua própria
para lutar livremente contra tal situação? Manten- existência, apesar das nossas limitações psicológicas e
do-me resignada, conformada, passiva e omissa emocionais, apesar dos percalços da realidade: devería-
não estarei fazendo da necessidade uma descul- mos ser capazes de agir, mesmo que cientes de que
pa, um álibi para não agir?
jamais conseguiríamos alcançar a liberdade total.
No segundo exemplo – epidemia, desemprego,
Segundo Strathern (1999, p. 35),
fim dos serviços públicos de saúde e educação
o existencialismo insiste em mergulhar a filosofia
artística – também parece que nada posso fazer.
na ação; assim, não é surpresa que pelo menos
Será verdade?
em parte pareça ser uma estratégia de vida. (Sabe-
[...]
se que isso é quase o mesmo que ser moralmen-
Nos dois casos, podemos indagar se, afinal, para
te coercivo, mas nesse estágio a ideia sartriana do
nós resta somente “a pena de viver, mais nada”
bem era suficientemente aberta para livrar seu
ou se, como escreveu o filósofo Sartre, o que
existencialismo da acusação de ser meramente
importa não é saber o que fizeram de nós e sim o
um sistema disfarçado de moralidade. [...] ).
que fazemos com o que quiseram fazer conosco.
Ingimage/Fotoarena

Como Sartre afirmava, éramos seres condenados à


liberdade. A luta pela liberdade era o que nos definia
enquanto espécie. Não apenas esse discurso, o da defesa
da ação revolucionária e da busca pela liberdade, tornou
o filósofo famoso entre os jovens e os pensadores
daquele momento. Mas também, mais do que isso, o
existencialismo preencheu uma lacuna espiritual que
havia se tornado abissal no período do pós-guerra e fez da
crítica aos valores burgueses seu principal material.

Figura 5. “Como escreveu o filósofo Sartre, o que importa não é saber


o que fizeram de nós, e sim o que fazemos com o que quiseram fazer
conosco” (CHAUÍ, 2002, p. 360).

– 153
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Referências de módulo 15

Textuais
ABRÃO, B. S. (Org.). História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
FERREIRA, Acylene Maria Cabral. Arte no pensamento de Heidegger. Arte no Pensamento, p. 205-224, 2006. Disponível
em: [Link] Acesso em: 9 abr. 2019.
STRATHERN, Paul. Sartre em 90 minutos. Tradução de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
STRATHERN, Paul. Heidegger em 90 minutos. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges; consultoria, Danilo Marcondes.
Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
Audiovisuais
HANNAH Arendt. Direção: Margarethe von Trotta. França, Alemanha: Heimatfilm Gmbh, 2012. 109 minutos.

1. (CESPE/UnB – SEDUC/CE) – No ensaio Confissão a) Para ambos os autores citados no texto, a arte,
criadora, Paul Klee, de forma lapidar, anuncia sua concep- primariamente, não tem o sentido de imitar ou de
ção relativa ao sentido de ser da arte: “A arte não reproduz reproduzir o visível, mas o de tornar visível o que é
o visível, mas torna visível”; “...Porque as obras de arte vislumbrado no segredo, o sentido de desvelar.
não só reproduzem com vivacidade o que é visto, mas b) Para Klee e Heidegger, a obra de arte é meramente
também tornam visível o que é vislumbrado em segredo”. uma expressão da subjetividade das vivências do
De modo semelhante, Heidegger, em A origem da obra artista.
de arte, apresenta a arte como uma forma de pôr-em-obra c) Heidegger trata da obra de arte de modo estético, ou
a verdade, no sentido do desvelamento, do tornar visível seja, levando em consideração a questão do belo e
o desvelamento do mundo e da natureza em jogo na obra das vivências do belo por parte do artista e daquele
de arte. Assim, tomando como exemplo um templo grego, que aprecia e julga a obra em relação à sua beleza.
Heidegger diz que ele “não imita nada” e que ele torna d) A arte, na concepção de Heidegger, é algo de
visível o mundo em que ele se apresenta: “É a obra irracional; portanto, não tem vinculação com a
templo que primeiramente ajusta e, ao mesmo tempo, verdade e não deve interessar ao filósofo.
congrega em torno de si a unidade das vias e relações, e) De acordo com Paul Klee e Heidegger, a arte consiste
nas quais nascimento e morte, infelicidade e prosperidade, na imitação do real, ou seja, na reprodução do visível.
vitória e derrota, resistência e ruína ganham para o ser
humano a forma de seu destino. A amplitude dominante
dessas relações abertas é o mundo desse povo histórico.
A partir dele e nele é que ele é devolvido a si próprio, para
o cumprimento a que se destina”. Além disso, a obra-
templo faz aparecer também em seu esplendor a “terra”,
isto é, a “natureza” (physis), fazendo vir à luz a pedra, o
rochedo das montanhas, a imensidade do céu, a claridade
do dia e a treva da noite, o mar, os animais etc. A este vir
à luz, a este levantar-se ele próprio e na sua totalidade
chamavam os gregos, desde muito cedo, a physis. Ela abre
ao mesmo tempo a clareira daquilo sobre o qual e no qual
o homem funda o seu habitar. Chamamos isso a Terra”.
(Martin Heidegger. A origem da obra de arte. Lisboa: Edições
70, 2007.)

Acerca das ideias suscitadas no texto, assinale a opção


correta.

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2.

Ser ou não ser – eis a questão.


Morrer – dormir – Dormir! Talvez sonhar. Aí está o
obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
quando tivermos escapado ao tumulto vital
nos obrigam a hesitar: e é essa a reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.

(W. Shakespeare. Hamlet. Porto Alegre, L&PM, 2007.)


Este solilóquio pode ser considerado um precursor do
existencialismo ao enfatizar a tensão entre
a) consciência de si e angústia humana.
b) inevitabilidade do destino e incerteza moral.
c) tragicidade da personagem e ordem do mundo.
d) racionalidade argumentativa e loucura iminente.
e) dependência paterna e impossibilidade de ação.

– 155
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MÓDULO 16 O conservadorismo e o pensamento filosófico libertário


Neste módulo, traremos algumas das abordagens do não é um fenômeno contemporâneo, sendo possível
pensamento conservador que, nos dias atuais, têm im- identificarmos marcas desse pensamento já no século
pactado os movimentos liberais e estimulado as reações XVIII, em pleno alvorecer do Iluminismo. Edmund Burke
políticas ao ideário de esquerda, bem como discutiremos (1729-1797), um político irlandês, por exemplo, teceu
as correntes do pensamento filosófico que, tendo se críticas ao espirito da Revolução Francesa, responsável,
originado na segunda metade do século XX, vêm se man- segundo ele, pela destruição dos valores da sociedade
tendo fundamentais na oposição ao ideário conservador e civilizada. Posteriormente, o britânico Gilbert Keith
de direita. Chesterton buscou defender o cristianismo em um perío-
do fortemente marcado pelo ateísmo e pela difusão das
1. O pensamento conservador ideias de Darwin e de Freud. Crítico do materialismo e
fazendo oposição ao liberalismo econômico, Chesterton
A Guerra Fria terminara e a queda do Muro de Berlim colocou-se na contramão do ideário libertário e de
tornara-se símbolo de uma nova época. No período esquerda que predominava nos meios intelectuais.
posterior à Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos Já no século XX, Whittaker Chambers (1901-1961),
e a União Soviética haviam adotado uma política de beli- um antigo militante de esquerda que já havia trabalhado
gerância e conflito. De forma simplificada, essa oposição como espião para a União Soviética, tornou-se uma das
entre as duas maiores forças militares do planeta estava principais vozes do conservadorismo e do anticomunismo
relacionada aos diferentes sistemas econômicos que americano, tendo exercido forte influência sob o pensa-
defendiam: os Estados Unidos capitaneavam o bloco dos mento de Ronald Reagan, presidente americano durante
países capitalistas; a União Soviética comandava o bloco a década de 1980. Ayn Rand (1905-1982), uma russa
dos países comunistas e socialistas. O Muro de Berlim exilada nos Estados Unidos, defendeu “a ideia de que o
que, em 1961, dividira a Alemanha em dois países (a propósito moral da vida é ir em busca da própria felici-
Alemanha Oriental, comunista, e a Alemanha Ocidental, dade, e que o único sistema social capaz de permitir isso
sob a influência do capitalismo), havia materializado o seria o capitalista, pela sua ênfase na liberdade individual
antagonismo entre os dois grandes blocos. Sua destrui- e pela defesa da iniciativa individual sobrepondo-se ao
ção, em 1991, acabou por representar o fim das relações coletivismo e à burocracia estatal”. O francês Raymond
conflituosas entre o eixo capitalista e o eixo comunista. Aron (1905-1983), por sua vez, realizou uma incisiva crítica
O esfacelamento da antiga União Soviética sinalizava ao marxismo, tido por ele como sendo o “ópio dos
que o antagonismo entre o capitalismo e o socialismo intelectuais”.
estava encerrado de forma definitiva, e os movimentos Aron argumentava que a União Soviética havia
de esquerda perderam muito de sua antiga força. Ainda, apenas substituído uma cultura despótica por
as dificuldades econômicas dos países que, anterior- outra – o czarismo pela alta burocracia estatal –, e
que o marxismo havia simplesmente trocado o
mente, haviam defendido uma significativa intervenção
culto religioso por uma fé cega na caminhada
do Estado no estabelecimento de políticas de bem-estar
histórica prevista por Marx, que deveria levar à
social, ensejaram mudanças importantes ao final da Revolução Socialista. Para ele, o comunismo
década de 1980. sacrificava as mais diferentes liberdades humanas
Esse contexto estimulou o renascimento da filosofia e os valores cristãos que as garantiriam (BASSO,
conservadora, defensora de valores tradicionais, fami- 2017).
liares e nacionalistas. Menos Estado e mais respeito aos
direitos individuais; menos políticas sociais e mais merito- Nos Estados Unidos, o político republicano Barry
cracia; mais tradição e menos revolução social: estes Golswater (1909-1998) é tido como um dos responsáveis
eram os valores defendidos pelos conservadores, disse- pelo ressurgimento do pensamento conservador na
minados de forma cada vez mais intensa à medida que sociedade americana. Entre os temas discutidos por
países que haviam adotado políticas “de esquerda” pas- Goldwater, destacam-se questões relacionadas aos
savam por crises econômicas e políticas (por exemplo, direitos civis (priorizados em relação aos direitos
países da América Latina e da Europa), e testemunhavam individuais) e aos programas sociais realizados com base
a ascensão de partidos conservadores e “de direita”. no aumento de impostos. Crítico em relação às políticas
Em termos gerais, o conservadorismo se expressa de intervenção do Estado na economia, também exerceu
por meio da defesa de valores tradicionais, familiares, uma grande influência no pensamento de Ronald Reagan.
nacionalistas, de proteção à propriedade privada e de No mesmo período, Richard Weaver (1910-1963), um
direitos individuais em detrimento de direitos coletivos. professor da Universidade de Chicago, desenvolveu uma
De acordo com Basso (2017), a filosofia conservadora filosofia de apoio aos valores tradicionais,

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defendendo a manutenção da propriedade privada uma maneira totalizante (como os regimes marxistas
– que considerava “o último direito metafísico” do buscaram) é impossível sem um inimigo real ou imaginário
indivíduo – como maneiras de salvar o Ocidente – só funcionando em tempos de crise e guerra" (BASSO,
do declínio que julgava estar testemunhando. Sua 2017). A seguir, apresentamos um trecho de uma de suas
obra inspirou os conservadores que vieram depois principais obras, Como ser um conservador, na qual ele
e serviu de base teórica para muitos trabalhos que discute o papel desempenhado pelo governo de Margareth
criticariam os movimentos reformistas que Thatcher na Inglaterra.
ganhariam força, sobretudo, a partir dos anos 60 Nunca engoli totalmente a retórica de livre
(BASSO, 2017). mercado dos thatcheristas, mas simpatizava
profundamente com as razões de Thatcher. Ela
queria que o eleitorado reconhecesse que a vida
Russel Kirk (1918-1994) é outro expoente do pensa-
individual pertencia a cada um e que a respon-
mento americano conservador, em especial no período
sabilidade de vivê-la não poderia ser exercida por
posterior à Segunda Guerra Mundial.
qualquer outra pessoa, menos ainda pelo Estado.
Os Dez Princípios conservadores são, conforme
Thatcher esperava libertar o talento e a iniciativa
Kirk (2013) – 1º) o conservador acredita que há
que acreditava ainda existirem na sociedade
uma ordem moral duradoura; 2º) o conservador
britânica, apesar das décadas de conversa fiada
adere aos costumes, à convenção e à
igualitária. A situação que herdou era simbolizada
continuidade; 3º) os conservadores acreditam no
pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico
que se pode chamar de princípio da consagração
Nacional (CDEN), criado em 1962 por um gover-
pelo uso; 4º) os conservadores são guiados pelo
no conservador fraco, para gerir a decadência
princípio da prudência; 5º) os conservadores
econômica do país. Composto por figurões da
prestam atenção a princípio da variedade; 6º) os
indústria e do serviço público, o “Neddy”, como
conservadores são disciplinados pelo princípio de
era conhecido o CDEN, dedicou-se a perpetuar a
imperfectibilidade; 7º) os conservadores estão
ilusão de que o país estava em “mãos seguras”,
convencidos de que a liberdade e a propriedade
de que havia um plano, de que os adminis-
estão intimamente ligadas; 8º) os conservadores
tradores, políticos e líderes sindicais estavam
defendem comunidades voluntárias, da mesma
nisso juntos e trabalhando para o bem comum.
forma que se opõem a um coletivismo involun-
Foi o exemplo perfeito do sistema político
tário; 9º) o conservador vê a necessidade de
britânico do pós-guerra, que tratou dos proble-
limites prudentes sobre o poder e as paixões
mas nacionais nomeando comitês compostos
humanas e 10º) o conservador razoável entende
pelas pessoas que os causaram. A ideia que
que a permanência e a mudança devem ser
regia o Neddy era a de que a vida econômica
reconhecidas e reconciliadas em uma sociedade
consistia na gestão das indústrias em funciona-
vigorosa (PIMENTEL, 2018, p. 279).
mento, e não na criação de novas empresas.
Harold Wilson, Edward Heath e James Callaghan
Por sua vez, Thomas Sowell (1930- ), economista e fiavam-se no Neddy para confirmar a crença que
negro, ficou conhecido por suas opiniões a respeito de compartilhavam de que, caso a situação fosse
etnia e educação. Crítico contumaz de ações afirmativas, mantida por tempo suficiente, as coisas dariam
Sowell preconizou que o Estado não deveria intervir em certo e qualquer culpa recairia sobre o sucessor.
questões relacionadas ao controle de armas e ao auxílio a Por outro lado, Margaret Thatcher acreditava
grupos minoritários (BASSO, 2017). que, tanto nos negócios quanto na política, a
responsabilidade terminava por aqui. Em uma
economia livre, a pessoa importante não é o
Observação: administrador, mas o empreendedor – aquele
que assume e enfrenta os riscos do negócio. Se
Ações afirmativas dizem respeito a políticas públicas Thatcher fosse bem-sucedida em substituir uma
que têm a intenção de garantir a equidade social e economia de administração estatal e de
diminuir os prejuízos relacionados à falta de interesses escusos por uma de empreen-
oportunidades de segmentos sociais marginalizados dedorismo e risco poderia, naturalmente, colocar
ou vulneráveis do ponto de vista social e econômico. a primeira em xeque. Ao liberar o mercado de
trabalho, poria a economia em uma escalada
ascendente. O resultado de longo prazo,
Finalmente, deve-se mencionar o filósofo britânico contudo, foi a emergência de uma nova classe
Roger Scruton (1944), um dos mais conhecidos repre- gerencial, visto que as multinacionais agiam com
sentantes do pensamento conservador. Scruton tem as ofertas públicas de aquisição, os privilégios
criticado de forma sistemática “as visões socialistas, legais e seus lobistas transnacionais, de quem os
pequenos empresários e empreendedores são
argumentando que a tentativa de organizar a sociedade de
os inimigos. Aqueles que contestavam esse
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novo modelo gerencial (sou um deles), não britânico queria, e tinha, era o tipo de político
obstante, deveriam reconhecer que aquilo que é instintivo que as pessoas poderiam ver dirigindo-
ruim nesse modelo é precisamente o que era se à nação, não importando se tivesse ou não um
ruim na velha economia corporativista que cabedal adequado de argumentos abstratos. Há
Thatcher pretendia destruir. Quando ela afirmou de se entender que Thatcher sentira os ventos
que os empreendedores criavam coisas, ao do escárnio intelectual que sopraram ao seu
passo que os gestores públicos as sepultavam, redor e se protegeu atrás de uma guarda
logo ficou evidente que ela estava certa, uma vez pretoriana de conselheiros econômicos versados
que todas as consequências da cultura de gestão em “soluções de mercado”, “economia pelo
estatal estavam ao nosso redor. Digo que isso lado da oferta”, “soberania do consumidor” e
logo havia ficado evidente, mas não para a classe assim por diante. Entretanto, aqueles slogans da
intelectual, que continua até hoje muitíssimo moda não apreendiam o núcleo de suas crenças.
devotada ao consenso do pós-guerra. A ideia do Todos os seus discursos mais importantes,
Estado como uma figura paterna benigna, que assim como as suas políticas imperecíveis, provi-
aloca os ativos coletivos da sociedade para o nham de uma consciência de lealdade nacional.
lugar onde são necessários, e que está sempre Ela acreditava no país e nas instituições, e as via
presente para nos retirar da pobreza, da doença como a personificação dos afetos sociais
ou do desemprego, manteve-se no primeiro cultivados e acumulados ao longo dos séculos.
plano da ciência política acadêmica na Grã Família, associação civil, a religião cristã e o
Bretanha. No dia da morte de Margaret Thatcher, common law estavam integrados em seu ideal
eu estava preparando uma aula de Filosofia de liberdade sob a lei. A desvantagem é que ela
Política na Universidade de St. Andrews. Estava não tinha uma filosofia com que pudesse articular
interessado em identificar o que o texto esse ideal, de modo que o “thatcherismo” veio
recomendado identificava como algo chamado a simbolizar um tipo de caricatura do pensa-
de a Nova Direita, associado pelo autor a mento conservador criado pela esquerda com o
Thatcher e Reagan, como uma investida radical objetivo de ridicularizar a direita (SCRUTON,
sobre os membros vulneráveis da sociedade. O 2015, p. 18/21).
autor supunha que a principal incumbência do
governo é a de distribuir a riqueza coletiva da
sociedade entre seus membros e que, em Saiba mais
matéria de distribuição, o governo é deveras
competente. O fato de que a riqueza só pode ser O filme A Dama de Ferro (2011) narra a trajetória de
distribuída caso antes tenha sido criada parecia Margareth Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido
escapar à sua observação. Naturalmente, entre os anos de 1979 e 1990. Decidida a diminuir a
Thatcher não era uma intelectual, e tinha por influência do Estado na economia britânica, ela
motivação mais o instinto do que uma filosofia promoveu mudanças radicais, tais como a desregula-
elaborada. Pressionada por argumentos, ela mentação financeira, a diminuição da influência dos
pendia muito rapidamente para a economia de sindicatos e a flexibilização das leis trabalhistas. Ao
mercado e ignorava as raízes mais profundas do lado de Ronald Reagan, presidente dos Estados
conservadorismo na teoria e na prática da
Unidos entre 1981 e 1989, Thatcher foi uma defensora
sociedade civil. Seu comentário breve de que
radical do liberalismo econômico. Sua atuação acabou
“essa coisa de sociedade não existe” foi
por possibilitar a retomada do crescimento econômico
alegremente apoderado pelos meus colegas de
universidade como prova de seu individualismo da Inglaterra e a disseminação do ideário conservador
crasso, de sua ignorância sobre filosofia social, e pelo mundo.
de sua fidelidade aos valores da nova geração de
empresários que poderiam ser resumidos em
três palavras: dinheiro, dinheiro, dinheiro. 2. O pensamento filosófico de oposição ao
Efetivamente, o que Thatcher quis dizer naquela totalitarismo
ocasião era bastante verdadeiro, embora seja o
oposto do que disse. Quis dizer que a sociedade 2.1. Michel Foucault (1926-1984)
existia, mas que não era equivalente ao Estado. Francês, Michel Foucault preferiu dedicar-se à
A sociedade é formada por indivíduos que se
filosofia em vez de seguir a profissão do pai, um médico
associam livremente e formam comunidades de
bastante renomado. Suas obras abrangem um vasto
interesse que os socialistas não têm o direito de
controlar nem qualquer autoridade legal para
conjunto de temas: loucura, epistemologia da ciência,
proibir. No entanto, expressar-se dessa forma linguagem, violência e punição. Mesmo após sua morte,
não era o estilo de Thatcher, nem era o que os causada pela AIDS, ele manteve a sua imensa influência
correligionários esperavam dela. O que o público no pensamento filosófico moderno, e suas reflexões e

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métodos de análise tornaram-se basilares em um número governa é racional, e desse contexto também deriva o
imenso de áreas. conceito de biopolítica, uma das chaves do pensamento
Uma das mais importantes áreas de interesse de de Foucault. A biopolítica consiste na atuação de formas
Foucault foi a história e a filosofia das ciências, para as de poder e governo que têm como objetivo
quais ele desenvolveu os conceitos de arqueologia e interferir nos modos de ação dos indivíduos-
genealogia. Para Foucault, a história convencional era população, uma racionalidade conjugada a uma
construída por meio do sepultamento de conteúdos e forma de exercício de poder. É esta racionalidade
saberes tidos como hierarquicamente inferiores, e política que vai tomar o ser humano enquanto
espécie, inserindo-o em um conjunto populacional
jogados no jazigo sem que se soubesse dos combates
sobre o qual se podem exercer formas de conduta
que os ferira. Fatos, acontecimentos e ideias eram sepul-
e de governo tendo como referência os aspectos
tados e arrancados da história, em geral porque quebra- vitais e os traços biológicos que os reúnem
vam com uma desejada linearidade dos fatos históricos, enquanto espécie, a saber, a reprodução da vida,
ou porque “problematizavam” a história desnecessa- crescimento, morte que permitem traçar estra-
riamente. A história não era linear; ao contrário, as tégias políticas como o controle de natalidade,
narrativas históricas – e que davam a sensação de controle do crescimento vegetativo, campanhas
linearidade – nada mais eram do que discursos forjados de vacinação, etc. (COSTA, 2018, p. 163).
dentro de lutas políticas que foram tomadas por
invasões, disfarces, astúcias. Por isso, para a Prisões, hospitais, escolas e fábricas: em todos os
genealogia é importante marcar os aconteci- lugares, os indivíduos seriam disciplinados e vigiados. O
mentos em sua singularidade, já que único na símbolo desse poder de vigilância é o panóptico, estrutura
sua composição de forças. Fazer genealogia, imaginada pelo filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-
portanto, é mostrar o momento que determina-
1832) para a construção da prisão ideal. Alguém no centro
das práticas foram diferentes, principalmente,
vigia a todos, que sequer sabem se estão sendo ou não. É
daquilo que é hoje, é retornar em pontos da
história, não com o objetivo de traçar a lenta linha
justamente a incerteza quanto a estar sendo ou não vigiado
de evolução de determinado objeto, mas para que cria a submissão e o poder disciplinar. Em Vigiar e
marcar as diferentes cenas em que eles atuavam Punir, Foucault (2004) reflete sobre o panóptico e o seu
com diferentes papéis (CARMO SANTOS; funcionamento.
LEMOS, 2017, p. 117).

Mary Evans Picture Library / Easypix Brasil


A questão do poder foi outro tema a respeito do qual
Foucault desenvolveu uma perspectiva bastante singular e
original. A pergunta que ele propôs aos filósofos foi a
seguinte: como seria caso não houvesse um rei que, por
meio dele, fosse exercido o poder?
Inútil: tudo o que podemos pensar é em recursos
de poder, que só são considerados como tais
quando podem ser utilizados por pessoas, grupos,
entidades, instituições; tudo o que podemos
pensar é em prerrogativas atribuídas a autoridades
ou entidades; tudo o que podemos pensar é em Figura 1. O panóptico é a estrutura que materializa a vigilância contínua,
coisas possuídas por uns e das quais outros são como ocorre nas prisões.
despossuídos, é impossível pensar o poder sem o
rei – ou sem súditos, o que vem a dar no mesmo No fundo dos esquemas disciplinares, a imagem
– na nossa concepção corrente, que Foucault da peste vale por todas as confusões e desordens;
chama de concepção do poder-soberania assim como a imagem da lepra, do contato a ser
(ALBUQUERQUE, 1995, p. 106). cortado, está no fundo do esquema de exclusão.
Esquemas diferentes, portanto, mas não incom-
Esta análise permite que Foucault ofereça uma patíveis. Lentamente, vemo-los se aproximarem;
resposta à pergunta feita: não há possibilidade de haver e é próprio do século XIX ter aplicado ao espaço
uma relação de poder sem que alguém esteja em sua de exclusão de que o leproso era o habitante
simbólico (e os mendigos, os vagabundos, os
posse, e outros se submetam a ele. Mais: as práticas de
loucos, os violentos formavam a população real) a
quem governa também podem ser produtoras de
técnica de poder própria do "quadriculamento"
violência, e a violência se faz acompanhar com uma tal disciplinar. Tratar os "leprosos" como "pestilentos",
lógica que acaba por fazer parte da própria racionalidade projetar recortes finos da disciplina sobre o espaço
política. Em resumo, a violência por parte de quem confuso do internamento, trabalhá-lo com os

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métodos de repartição analítica do poder, indivi- sombra, que finalmente protegia. A visibilidade é
dualizar os excluídos, mas utilizar processos de uma armadilha. O que permite em primeiro lugar
individualização para marcar exclusões – isso é o – como efeito negativo – evitar aquelas massas
que foi regularmente realizado pelo poder disci- compactas, fervilhantes, pululantes, que eram
plinar desde o começo do século XIX: o asilo encontradas nos locais de encarceramento, os
psiquiátrico, a penitenciária, a casa de correção, o pintados por Goya ou descritos por Howard. Cada
estabelecimento de educação vigiada, e por um um, em seu lugar, está bem trancado em sua cela
lado os hospitais, de um modo geral todas as de onde é visto de frente pelo vigia; mas os
instâncias de controle individual funcional num muros laterais impedem que entre em contato
duplo modo: o da divisão binária e da marcação com seus companheiros. É visto, mas não vê;
(louco-não louco; perigoso-inofensivo; normal- objeto de uma informação, nunca sujeito numa
anormal); e o da determinação coercitiva, da comunicação. A disposição de seu quarto, em
repartição diferencial (quem é ele; onde deve frente da torre central, lhe impõe uma visibilidade
estar; como caracterizá-lo, como reconhecê-lo; axial; mas as divisões do anel, essas celas bem
como exercer sobre ele, de maneira individual, separadas, implicam uma invisibilidade lateral. E
uma vigilância constante, etc.). De um lado, esta é a garantia da ordem. Se os detentos são
"pestilentam-se" os leprosos; impõem-se aos condenados não há perigo de complô, de
excluídos a tática das disciplinas individualizantes; tentativa de evasão coletiva, projeto de novos
e de outro lado a universalidade dos controles crimes para o futuro, más influências recíprocas;
disciplinares permite marcar quem é "leproso" e se são doentes, não há perigo de contágio;
fazer funcionar contra ele os mecanismos loucos, não há risco de violências recíprocas;
dualistas da exclusão. A divisão constante do crianças, não há "cola", nem barulho, nem con-
normal e do anormal, a que todo indivíduo é versa, nem dissipação. Se são operários, não há
submetido, leva até nós, e aplicando-os a objetos roubos, nem conluios, nada dessas distrações
totalmente diversos, a marcação binária e o exílio que atrasam o trabalho, tornam-no menos per-
dos leprosos; a existência de todo um conjunto de feito ou provocam acidentes. A multidão, massa
técnicas e de instituições que assumem como compacta, local de múltiplas trocas, individuali-
tarefa medir, controlar e corrigir os anormais, faz dades que se fundem, efeito coletivo, é abolida
funcionar os dispositivos disciplinares que o medo em proveito de uma coleção de individualidades
da peste chamava. Todos os mecanismos de separadas. Do ponto de vista do guardião, é
poder que, ainda em nossos dias, são dispostos substituída por uma multiplicidade enumerável e
em torno do anormal, para marcá-lo como para controlável; do ponto de vista dos detentos, por
modificá-lo, compõem essas duas formas de que uma solidão sequestrada e olhada.
longinquamente derivam. Daí o efeito mais importante do Panóptico: induzir
O Panóptico de Bentham é a figura arquitetural no detento um estado consciente e permanente
dessa composição. O princípio é conhecido: na de visibilidade que assegura o funcionamento
periferia uma construção em anel; no centro, uma automático do poder. Fazer com que a vigilância
torre; esta é vazada de largas janelas que se seja permanente em seus efeitos, mesmo se é
abrem sobre a face interna do anel; a construção descontínua em sua ação; que a perfeição do
periférica é dividida em celas, cada uma atraves- poder tenda a tornar inútil a atualidade de seu
sando toda a espessura da construção; elas têm exercício; que esse aparelho arquitetural seja
duas janelas, uma para o interior, correspondendo uma máquina de criar e sustentar uma relação de
às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, poder independente daquele que o exerce;
permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. enfim, que os detentos se encontrem presos
Basta então colocar um vigia na torre central, e numa situação de poder de que eles mesmos são
em cada cela trancar um louco, um doente, um os portadores. Para isso, é ao mesmo tempo
condenado, um operário ou um escolar. Pelo excessivo e muito pouco que o prisioneiro seja
efeito da contraluz, pode-se perceber da torre, observado sem cessar por um vigia: muito pouco,
recortando-se exatamente sobre a claridade, as pois o essencial é que ele se saiba vigiado;
pequenas silhuetas cativas nas celas da periferia. excessivo, porque ele não tem necessidade de
Tantas jaulas, tantos pequenos teatros, em que sê-lo efetivamente. Por isso Bentham colocou o
cada ator está sozinho, perfeitamente indivi- princípio de que o poder devia ser visível e
dualizado e constantemente visível. O dispositivo inverificável. Visível: sem cessar o detento terá
panóptico organiza unidades espaciais que diante dos olhos a alta silhueta da torre central
permitem ver sem parar e reconhecer imediata- de onde é espionado. Inverificável: o detento
mente. Em suma, o princípio da masmorra é
nunca deve saber se está sendo observado; mas
invertido; ou antes, de suas três funções –
deve ter certeza de que sempre pode sê-lo. Para
trancar, privar de luz e esconder – só se conserva
tornar indecidível a presença ou a ausência do
a primeira e suprimem-se as outras duas. A plena
vigia, para que os prisioneiros, de suas celas, não
luz e o olhar de um vigia captam melhor que a

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pudessem nem perceber uma sombra ou anteriormente era considerado correto. Em As origens do
enxergar uma contraluz, previu Bentham, não só totalitarismo (Arendt, 2012), a filósofa reflete sobre este
persianas nas janelas da sala central de vigia, fenômeno.
mas, por dentro, separações que a cortam em Sempre que galgou o poder, o totalitarismo criou
ângulo reto e, para passar de um quarto a outro, instituições políticas inteiramente novas e destruiu
não portas, mas biombos: pois a menor batida, todas as tradições sociais, legais e políticas do
uma luz entrevista, uma claridade numa abertura país. Independentemente da tradição especifica-
trairiam a presença do guardião. Panóptico é uma mente nacional ou da fonte espiritual particular da
máquina de dissociar o para ver-ser visto: no anel sua ideologia, o governo totalitário sempre trans-
periférico, se é totalmente visto, sem nunca ver; formou as classes em massas, substituiu o siste-
na torre central, vê-se tudo, sem nunca ser visto. ma partidário não por ditaduras unipartidárias, mas
(FOUCAULT, 2004, p. 164-166). por um movimento de massa, transferiu o centro
do poder do Exército para a polícia e estabeleceu
uma política exterior que visava abertamente ao
Saiba mais domínio mundial. Os governos totalitários do
nosso tempo evoluíram a partir de sistemas uni-
Sugerimos que você assista ao filme Snowden (2016), partidários; sempre que estes se tornavam
dirigido por Oliver Stone, que narra a história do ex- realmente totalitários, passavam a operar segundo
funcionário terceirizado da CIA, Edward Snowden, um sistema de valores tão radicalmente diferente
que em 2013 enviou documentos para os principais de todos os outros que nenhuma das nossas
jornais norte-americanos acusando o governo de atos tradicionais categorias utilitárias – legais, morais,
de espionagem por meio de um sistema de vigilância lógicas ou de bom senso – podia mais nos ajudar
em massa. Snowden, que está em Moscou na a aceitar, julgar ou prever o seu curso de ação.
Se é verdade que podemos encontrar os ele-
condição de exilado político, tornou público que todos
mentos do totalitarismo se repassarmos a história
os indivíduos, dentro ou fora dos Estados Unidos,
e analisarmos as implicações políticas daquilo que
poderiam ser vigiados caso o governo americano geralmente chamamos de crise do nosso século,
assim o desejasse. chegaremos à conclusão inelutável de que essa
crise não é nenhuma ameaça de fora, nenhuma
consequência de alguma política exterior agres-
2.2. Hannah Arendt (1906-1975) siva da Alemanha ou da Rússia, e que não desapa-
recerá com a morte de Stalin, como não desapareceu
Nascida na Alemanha em uma família judia de classe com a queda da Alemanha nazista. Pode ser até
média-alta, a filósofa Hannah Arendt desenvolveu o seu que os verdadeiros transes do nosso tempo
trabalho, em grande parte, impactada pela expansão do somente venham a assumir a sua forma autêntica
nazismo e pela perseguição aos judeus. – embora não necessariamente a mais cruel –
Tentando escapar do nazismo, ela se refugiou na quando o totalitarismo pertencer ao passado.
França, onde chegou a ser presa em um campo de con- Com relação a estas reflexões, podemos indagar
centração. Sua fuga do campo foi acompanhada pela mi- se o governo totalitário, nascido dessa crise e, ao
mesmo tempo, o seu mais claro sintoma, o único
gração para os Estados Unidos, país onde viveu até sua
inequívoco, é apenas um arranjo improvisado que
morte.
adota os métodos de intimidação, os meios de
O nazismo não era o único regime para o qual Arendt organização e os instrumentos de violência do
olhava: interessava-a, em especial, os governos totalitá- conhecido arsenal político da tirania, do despo-
rios nos quais os direitos civis eram destruídos e o Estado tismo e das ditaduras, e deve a sua existência
prevalecia sobre os interesses sociais e individuais. O apenas ao fracasso, deplorável mas talvez aci-
totalitarismo, inclusive, independia das tendências dental, das tradicionais forças políticas – liberais
políticas dos governos, o que explicava o nazismo na ou conservadoras, nacionais ou socialistas, repu-
Alemanha, o fascismo na Itália e o avanço do stalinismo blicanas ou monarquistas, autoritárias ou demo-
na União Soviética. cratas. Ou se, pelo contrário, existe algo que se
possa chamar de natureza do governo totalitário,
Para Arendt, a principal estratégia dos governos
se ele tem essência própria e pode ser comparado
totalitários era a destruição das tradições existentes,
com outras formas de governo conhecidas do
substituindo-as por um Estado com poder coercitivo, pensamento ocidental e reconhecidas desde os
autorizado a intimidar e a agir de forma violenta. tempos da filosofia antiga, e definido como elas
O totalitarismo se faz presente, inclusive, na podem ser definidas. Se a segunda suposição for
dissolução da ordem judicial vigente, criando outra lei à verdadeira, então as formas inteiramente novas e
qual todos devem obedecer. A legalidade do governo inauditas da organização e do modo de agir do
autoritário se dá dessa forma, por meio do arcabouço totalitarismo devem ter fundamento numa das
legal que legitima o que antes era ilegal e que pune o que poucas experiências básicas que os homens
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podem realizar quando vivem juntos e se interes- comum para os sentimentos de todos os homens
sam por assuntos públicos. Se existe uma expe- – são necessariamente gerais e devem ser válidos
riência básica que encontre expressão no domínio para um número sem conta e imprevisível de
totalitário, então, dada a novidade da forma casos, de sorte que cada caso individual concreto,
totalitária de governo, deve ser uma experiência com o seu conjunto de circunstâncias irrepetíveis,
que, por algum motivo, nunca antes havia servido lhes escapa de certa forma (ARENDT, 2012, p.
como base para uma estrutura política, e cujo 528/530).
ânimo geral – embora conhecido sob outras
formas – nunca antes permeou e dirigiu o trata- Outro conceito central na obra de Arendt diz respeito
mento das coisas públicas. à banalidade do mal, ideia que ela desenvolveu ao ir para
[...] Jerusalém, em 1961, para acompanhar o julgamento de
Adolf Eichmann. Eichmann havia sido um dos mais
Em vez de dizer que o governo totalitário não tem
importantes burocratas alemães nos processos de
precedentes, poderíamos dizer que ele destruiu a
própria alternativa sobre a qual se baseiam, na deportação e condução dos judeus aos campos de
filosofia política, todas as definições da essência concentração. Refugiado na América Latina ao fim da
dos governos, isto é, a alternativa entre o governo Segunda Guerra Mundial, Eichmann imaginava conseguir
legal e o ilegal, entre o poder arbitrário e o poder escapar do cerco dos que buscavam descobrir seu
legítimo. Nunca se pôs em dúvida que o governo paradeiro. Localizado na Argentina em 1960, Eichmann
legal e o poder legítimo, de um lado, e a ilegali- foi sequestrado pelo serviço secreto israelense e levado
dade e o poder arbitrário, de outro, são aparen- a julgamento em Israel.
tados e inseparáveis. No entanto, o totalitarismo Arendt não apenas acompanhou e registrou o julga-
nos coloca diante de uma espécie totalmente
mento de Eichmann, como também buscou compreender
diferente do governo. É verdade que desafia todas
o interior de um sistema totalitário que havia conseguido
as leis positivas, mesmo ao ponto de desafiar
aquelas que ele próprio estabeleceu (como no assassinar milhões de pessoas. Para Arendt, alguns
caso da Constituição Soviética de 1936, para citar nazistas fundamentavam sua ação no mal, um mal radical,
apenas o exemplo mais notório) ou que não se alimentado pelo ódio. No entanto, o mal de Eichmann era
deu ao trabalho de abolir (como no caso da outro: no julgamento, Eichmann afirmara não ter ódio
Constituição de Weimar, que o governo nazista algum aos judeus; ao contrário, tinha por eles admiração.
nunca revogou). Mas não opera sem a orientação Ele encarregara-se dos transportes das comunidades
de uma lei, nem é arbitrário, pois afirma obedecer judaicas de toda a Europa para os campos de concen-
rigorosa e inequivocamente àquelas leis da tração e extermínio por que havia recebido ordens para
Natureza ou da História que sempre acreditamos
que assim procedesse: ele jamais havia discutido qual-
serem a origem de todas as leis.
A afirmação monstruosa e, no entanto, aparen-
quer aspecto ético do seu trabalho, por que era esperado
temente irrespondível do governo totalitário é que, apenas que ele cumprisse com suas tarefas. Para Arendt,
longe de ser "ilegal", recorre à fonte de autoridade banalidade do mal de Eichmann destoava do mal radical:
da qual as leis positivas recebem a sua legitimi- o mal de Eichmann era banal no sentido de que não era
dade final; que, longe de ser arbitrário, é mais fruto de qualquer reflexão moral ou ética. Eichemann
obediente a essas forças sobre-humanas que sequer discernia o certo do errado, ele apenas cumpria
qualquer governo jamais o foi; e que, longe de ordens, fossem elas quais fossem. Aliás, essa era a princi-
exercer o seu poder no interesse de um só pal estratégia dos regimes totalitários: impossibilitar o
homem, está perfeitamente disposto a sacrificar
exercício do livre-arbítrio com base em regras morais e
os interesses vitais e imediatos de todos à
éticas.
execução do que supõe ser a lei da História ou a
lei da Natureza. O seu desafio às leis positivas
Embora fosse uma humanista, a banalidade e o horror
pretende ser uma forma superior de legitimidade do crime de Eichmann levaram Arendt a concordar com o
que, por inspirar-se nas próprias fontes, pode veredito ao qual chegara o tribunal em Jerusalém:
dispensar legalidades menores. A legalidade Eichmann deveria ser enforcado em punição pelos seus
totalitária pretende haver encontrado um meio de crimes de guerra contra a humanidade. Em Eichmann em
estabelecer a lei da justiça na terra – algo que a Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, Arendt
legalidade da lei positiva certamente nunca pôde “conversa” com o nazista, explicando-lhe a justiça da
conseguir. A discrepância entre a legalidade e a sentença.
justiça nunca pôde ser corrigida, porque os Você disse também que seu papel na Solução
critérios de certo e errado nos quais a lei positiva Final foi acidental e que quase qualquer pessoa
converte a sua fonte de autoridade – a “lei poderia ter tomado seu lugar, de forma que
natural” que governa todo o universo, ou a lei potencialmente quase todos os alemães são
divina revelada na história humana, ou os
igualmente culpados. O que você quis dizer foi
costumes e tradições que representam a lei
que onde todos, ou quase todos, são culpados,
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ninguém é culpado. Essa é uma conclusão real- coisa. E assim como você apoiou e executou uma
mente bastante comum, mas que não estamos política de não partilhar a Terra com o povo judeu
dispostos a aceitar. e com o povo de diversas outras nações – como
[...] se você e seus superiores tivessem o direito de
Suponhamos, hipoteticamente, que foi simples- determinar quem devia e quem não devia habitar
mente a má sorte que fez de você um instru- o mundo –, consideramos que ninguém, isto é,
mento da organização do assassinato em massa; nenhum membro da raça humana haverá de
mesmo assim resta o fato de você ter apoiado querer partilhar a Terra com você. Esta é a razão,
ativamente uma política de assassinato em a única razão, pela qual você deve morrer na forca"
massa. Pois política não é um jardim de infância; (ARENDT, 2013, p. 301/302)
em política, obediência e apoio são a mesma

Saiba mais
Eichmann foi condenado à forca e executado em Israel, em 1962. Hannah Arendt teve que responder às críticas ao
seu livro até o final da vida. Em Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, Arendt deslocou a
maldade do campo moral para o campo político. Em segundo, a filósofa mostrou que Eichmann não era nenhum
mostro; ao contrário, ele era um homem extremamente comum que, em função de circunstâncias especiais, havia
conseguido galgar posições no regime nazista graças a sua enorme competência burocrática. Finalmente, a filósofa
levantou a questão da colaboração das lideranças judaicas com os serviços policiais nazistas, o que havia contribuído,
e muito, para que milhões fossem conduzidos à morte sem qualquer protesto ou reação.
Hannah já havia sido alvo de críticas anteriores: quando jovem, ela mantivera um caso com Heidegger, homem casado
e renomado filósofo que, durante o regime hitlerista, havia mostrado simpatias às políticas antissemitas.
Sugerimos que você assista ao filme Hannah Arendt – ideias que chocaram o mundo (2012), que narra a ida de Arendt
para Jerusalém e a cobertura do julgamento de Eichmann.

Referências do módulo 16

Textuais
ALBUQUERQUE, José Augusto Guilhon. Michel Foucault e a teoria do poder. Tempo social, v. 7, n. 1-2, p. 105-110,
1995. Disponível em: [Link]
Acesso em: 09 set. 2020.
ARENDT, Hanna. As origens do totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
______________. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rodrigues Siqueira.
São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
BASSO, Murilo. 10 autores para entender o conservadorismo. Gazeta do Povo, 2017. Disponível em:
[Link] [Link]/ideias/10-autores-para-entender-o-conservadorismo-eof2ycz57fq32wwpnrr6z7ssu/.
Acesso em: 21 jun. 2019.
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
COSTA, Helrison Silva. Poder e violência no pensamento de Michel Foucault. Sapere Aude, v. 9, n. 17, p. 153-170,
2018. Disponível em: [Link] Acesso em: 09 set. 2020.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: o nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Editora Vozes, 2004.
PIMENTEL, Pablo Fernando Campos. Conservadorismo para além do senso comum. Cognitio Estudos: Revista
Eletrônica de Filosofia, v. 15, n.o 2, 2018, p. 275-286. Disponível em: [Link] /article
/view/35497. Acesso em: 21 jun. 2019.
SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. Trad. Bruno Garschagen. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2015.
Disponível em: [Link] Acesso em: 21
jun. 2019.
Audiovisuais
A DAMA de ferro. Direção: Phyllida Lloyd. Reino Unido/França: Pathé; Film4 Productions; UK Film Council; Goldcrest
Films, 2011). 104 minutos.
HANNAH Arendt – Ideias que chocaram o mundo. Direção: Margarethe von Trotta. Alemanha: Westdeutscher
Rundfunk, Heimat, 2012). 113 minutos.
SNOWDEN, Herói ou Traidor. Direção: Oliver Stone. França, Alemanha, Estados Unidos: Endgame Entertainment; Wild
Bunch; KrautPack Entertainment; Onda Entertainment; Vendian Entertainment; 2016). 134 minutos.

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1. – “A lei não nasce da natureza, junto das 2. – “O edifício é circular. Os apartamentos dos
fontes frequentadas pelos primeiros prisioneiros ocupam a circunferência. Você
pastores: a lei nasce das batalhas reais, das vitórias, dos pode chamá-los, se quiser, de celas. O apartamento do
massacres, das conquistas que têm sua data e seus inspetor ocupa o centro; você pode chamá-lo, se quiser
heróis de horror: a lei nasce das cidades incendiadas, das de alojamento do inspetor. A moral reformada; a saúde
terras devastadas; ela nasce com os famosos inocentes preservada; a indústria revigorada; a instrução difundida;
que agonizam no dia que está amanhecendo.” os encargos públicos aliviados; a economia assentada,
(FOUCAULT. M. Aula de 14 de janeiro de 1976. In. Em defesa como deve ser, sobre uma rocha; o nó górdio da Lei sobre
da sociedade. São Paulo: Martins Fontes. 1999.) os Pobres não cortado, mas desfeito – tudo por uma
simples ideia de arquitetura!”
O filósofo Michel Foucault (séc. XX) inova ao pensar a (BENTHAM, J. O panóptico. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.)
política e a lei em relação ao poder e à organização social.
Com base na reflexão de Foucault, a finalidade das leis
Essa é a proposta de um sistema conhecido como
na organização das sociedades modernas é
panóptico, um modelo que mostra o poder da disciplina
a) combater ações violentas na guerra entre as nações.
nas sociedades contemporâneas, exercido
b) coagir e servir para refrear a agressividade humana.
preferencialmente por mecanismos
c) criar limites entre a guerra e a paz praticadas entre os
a) religiosos, que se constituem como um olho divino
indivíduos de uma mesma nação.
controlador que tudo vê.
d) estabelecer princípios éticos que regulamentam as
b) ideológicos, que estabelecem limites pela alienação,
ações bélicas entre países inimigos.
impedindo a visão da dominação sofrida.
e) organizar as relações de poder na sociedade e entre os
c) repressivos, que perpetuam as relações de dominação
Estados.
entre os homens por meio da tortura física.
d) sutis, que adestram os corpos no espaço-tempo por
meio do olhar como instrumento de controle.
e) consensuais, que pactuam acordos com base na
compreensão dos benefícios gerais de se ter as
próprias ações controladas.

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3. (2019) – “Penso que não há um sujeito 4. (2019) – “Essa atmosfera de loucura e


soberano, fundador, uma forma universal de irrealidade, criada pela aparente ausência de
sujeito que poderíamos encontrar em todos os lugares. propósitos, é a verdadeira cortina de ferro que esconde
Penso, pelo contrário, que o sujeito se constitui através dos olhos do mundo todas as formas de campos de
das práticas de sujeição ou, de maneira mais autônoma, concentração. Vistos de fora, os campos e o que neles
através de práticas de liberação, de liberdade, como na acontece só podem ser descritos com imagens
Antiguidade – a partir, obviamente, de um certo número extraterrenas, como se a vida fosse neles separada das
de regras, de estilos, que podemos encontrar no meio finalidades deste mundo. Mais que o arame farpado, é a
cultural.” irrealidade dos detentos que ele confina que provoca uma
(FOUCAULT, M. Ditos e escritos V: ética, sexualidade, política. crueldade tão incrível que termina levando à aceitação do
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.) extermínio como solução perfeitamente normal.”
(ARENDT, H. Origens do totalitarismo.
O texto aponta que a subjetivação se efetiva numa São Paulo: Companhia das Letras, 1989. Adaptado.)
dimensão
a) legal, pautada em preceitos jurídicos. A partir da análise da autora, no encontro das
b) racional, baseada em pressupostos lógicos. temporalidades históricas, evidencia-se uma crítica à
c) contingencial, processada em interações sociais. naturalização do(a)
d) transcendental, efetivada em princípios religiosos. a) ideário nacional, que legitima as desigualdades sociais.
e) essencial, fundamentada em parâmetros b) alienação ideológica, que justifica as ações individuais.
substancialistas. c) cosmologia religiosa, que sustenta as tradições
hierárquicas.
d) segregação humana, que fundamenta os projetos
biopolíticos.
e) enquadramento cultural, que favorece os
comportamentos punitivos.

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5. – “Três décadas – de 1884 a 1914 – separam


o século XIX – que terminou com a corrida
dos países europeus para a África e com o surgimento
dos movimentos de unificação nacional da Europa – do
século XX, que começou com a Primeira Guerra Mundial.
É o período do Imperialismo, da quietude estagnante na
Europa e dos acontecimentos empolgantes na Ásia e na
África.”
(ARENDT, H. As origens do totalitarismo.
São Paulo: Companhia das Letras, 2012.)

O processo histórico citado contribuiu para a eclosão da


Primeira Grande Guerra na medida em que
a) difundiu as teorias socialistas.
b) acirrou as disputas territoriais.
c) superou as crises econômicas.
d) multiplicou os conflitos religiosos.
e) conteve os sentimentos xenófobos.

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