afinidade com qualquer coisa, menos arqueologia.
A
resposta do jovem Wilcox, que impressionou meu tio
o suficiente para ele se lembrar e escrever palavra por
palavra, era de um aspecto fantasticamente poético,
que deve ter marcado toda a conversa, e me parece ser
uma de suas particularidades. Ele disse: “É novo, de
fato, pois eu fiz na noite passada durante um sonho
de cidades estranhas; e sonhos são mais antigos que o
reino acético de Tiro, ou a contemplativa Esfinge, ou a
cidade da Babilônia, cercada de jardins.”
Foi então que ele começou aquele relato confuso
que de repente trouxe à tona uma memória adormeci-
da e conquistou o interesse de meu tio. Houve um leve
tremor de terra na noite anterior, o mais forte sentido
em muitos anos na Nova Inglaterra, e a imaginação de
Wilcox fora fortemente abalada. Ao se deitar, ele teve
um sonho sem precedentes com grandes cidades cicló-
picas de blocos titânicos e monólitos projetados para
o céu, todos gotejando uma gosma verde e sinistra de
horror latente. Hieróglifos cobriam as paredes e os
pilares, e de algum ponto indeterminado abaixo veio
uma voz que não era uma voz; uma sensação caótica
que somente a imaginação poderia transformar em
som, mas que ele tentou traduzir por uma mistura de
letras quase impronunciáveis:“Cthulhu fhtagn”.
Essa mistura verbal era a chave para a recordação
que exaltou e perturbou o Professor Angell. Ele interro-
gou o escultor com meticulosidade científica; e estudou
com uma intensidade quase frenética o baixo-relevo
em que o jovem se vira trabalhando, com frio e vestido
apenas com sua roupa de dormir, quando o impulso de
despertar acabou falando mais alto. Meu tio culpou a
idade avançada, Wilcox atestou depois, pela lentidão em
reconhecer os hieróglifos e o desenho pictórico. Muitas
das perguntas pareciam descabidas para o visitante,
especialmente aquelas que tentavam relacioná-lo com
estranhos cultos ou sociedades; e Wilcox não podia
entender as repetidas promessas de silêncio em troca
de uma admissão como membro de em algum corpo
religioso pagão ou místico muito difundido. Quando
o Professor Angell se convenceu de que o escultor ig-
norava de fato qualquer culto ou sistema de sabedoria
secreto, ele assediou o visitante com pedidos de futuros
relatos de seus sonhos. Isso rendeu frutos regulares,
pois, depois da primeira entrevista, o manuscrito passa
a registrar visitas diárias do jovem, em que ele relatava
fragmentos surpreendentes de imagens noturnas cujo
conteúdo era sempre alguma terrível vista ciclópica de
uma rocha sombria e gotejante, com uma voz subter-
rânea ou alguma inteligência gritando monotonamente
através de enigmáticos impactos sensoriais só possíveis
de descrever com palavras sem sentido. Os dois sons
mais frequentemente repetidos são traduzidos pelas
letras “Cthulhu” e “R’lyeh”.
No dia 23 de março, continuava o manuscrito,
Wilcox não apareceu, e indagações em sua moradia
revelaram que ele foi acometido por um tipo obscuro
de febre e levado de volta para a casa de sua família
na Rua Waterman. Ele havia gritado durante a noite,
acordando muitos outros artistas na construção, e sua
condição passou a alternar entre a inconsciência e o
delírio. Meu tio telefonou imediatamente para a famí-
lia e, a partir desse momento, passou a acompanhar
o caso, ligando sempre para o escritório do Doutor
Tobey, na Rua Thayer, que descobriu ser responsável
pelo caso. A mente febril do jovem aparentemente in-
sistia em coisas estranhas, e o médico chegava a tremer
ao falar delas. Elas incluíam não apenas a repetição do
que havia sonhado antes, mas envolvia também uma
coisa gigantesca “com quilômetros de altura”, que
andava ou se arrastava de um lado para o outro. Ele
não descreveu esse objeto em nenhum momento, mas
algumas palavras frenéticas, repetidas pelo Dr. Tobey,
convenceram o professor de que a coisa deveria ser
idêntica à criatura inominável que ele procurou re-
tratar em sua escultura onírica. Referir-se ao objeto, o
doutor acrescentou, era invariavelmente um prelúdio
para a recaída do jovem à letargia. Sua temperatura es-
tranhamente não estava muito acima do normal, mas
toda a sua condição, por outro lado, sugeria uma febre
genuína, e não um transtorno mental.
No dia 2 de abril, aproximadamente às 3 da tarde,
todos os sintomas de Wilcox desapareceram repen-
tinamente. Ele sentou-se reto na cama, surpreso por
se encontrar em casa e sem saber o que aconteceu no
sonho ou realidade desde a noite de 22 de março. Re-
cebendo alta de seu médico, ele retornou para o seu
quarto em três dias, mas deixou de ajudar o Professor
Angell. Todos os traços de sonhos estranhos desapare-
ceram com a sua recuperação, e meu tio não guardou
os seus relatos noturnos depois de uma semana de
descrições insípidas e irrelevantes de visões completa-
mente habituais.
A primeira parte do manuscrito termina aqui,
mas referências a certas notas dispersas me deram
mais material para refletir – tanto que, na verdade,
apenas o meu arraigado ceticismo que era então a
minha filosofia de vida podia explicar a minha conti-
nuada desconfiança pelo artista. As notas em questão
eram aquelas descrições de sonhos de várias pessoas
cobrindo o mesmo período em que o jovem Wilcox
tivera as suas estranhas aflições. Meu tio, ao que pare-
ce, rapidamente deu início a uma prodigiosa série de
questionamentos entre quase todos os seus amigos a
quem poderia questionar sem impertinência, pedindo
relatos noturnos sobre os seus sonhos e as datas de
qualquer visão no passado recente. A recepção de suas
demandas parece ter sido variada, mas ele deve,no
mínimo, ter recebido mais respostas que um homem