0% acharam este documento útil (0 voto)
63 visualizações6 páginas

Sociedade Do Cansaço

O documento discute a transição de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do desempenho, onde a positividade e a autoexploração geram doenças psíquicas como burnout e depressão. A falta de tédio e a busca incessante por desempenho individualizam o cansaço, afastando as pessoas e destruindo laços comunitários. A reflexão sobre o cansaço fundamental sugere a necessidade de um retorno à contemplação e à celebração como formas de resistência ao hipercapitalismo e à alienação moderna.

Enviado por

Bruno trindade
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
63 visualizações6 páginas

Sociedade Do Cansaço

O documento discute a transição de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do desempenho, onde a positividade e a autoexploração geram doenças psíquicas como burnout e depressão. A falta de tédio e a busca incessante por desempenho individualizam o cansaço, afastando as pessoas e destruindo laços comunitários. A reflexão sobre o cansaço fundamental sugere a necessidade de um retorno à contemplação e à celebração como formas de resistência ao hipercapitalismo e à alienação moderna.

Enviado por

Bruno trindade
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Sociedade do cansaço

A violência neuronal

No século XX o paradigma psicológico e social era imunológico, assim como o corpo,


os eventos ocorriam em uma sistemática da agressão externa e da defesa interna. Opressão
social, imigrantes, preconceitos, sistemas políticos, além das doenças marcantes, como a
paranoia, esquizofrenia, ou seja, uma crise entre o ser eu e o ser obrigatório por forças
externas, isso criou consequentemente os “delinquentes” que enfrentavam as normas
vigentes. As regras, normas e imposições eram a base do funcionamento social, de modo
que fortemente o “não” possuía caráter central. No entanto está época ficou para trás, o
paradigma agora tornou-se outro, todas as barreiras foram derrubadas, não há mais a
lógica imunológica na nossa sociedade, ao contrário, toda aquela negatividade antes
efetiva, transmutou-se em uma absoluta positividade. Não há mais o outro impondo nada
a mim, na verdade eu imponho tudo a mim mesmo, eu me cobro, eu me julgo, eu sou o
juiz e o julgado, e esse julgamento se dá em vista do objeto do século: o desempenho. As
doenças do momento manifestam essa verdade, TDAH, burnout, depressão e ansiedade,
são todas doenças psíquicas imanentes, frutos de uma aceleração desmedida, que não foi
imposta por ninguém exteriormente, mas por si próprio.

O negativo implica no estranho, no outro, o positivo pelo contrário, implica no igual, no


mesmo, no eu e eu. Isto é a positividade, uma total falta de limites, uma absoluta liberdade
sem restrições, posso ser quem quero ser, mas ninguém me ajudará a limitar meu
caminho, sou livre para buscar meus objetivos, mas meus objetivos são sempre o mais. A
violência da positividade resulta na necessidade de superdesempenho, supercomunicação
e superprodução. As doenças psíquicas atuais são sistêmicas

Além da sociedade disciplinar

A sociedade que Foucault designa como disciplinar era formada por asilos, hospitais,
manicômios, presídios e quartéis. A sociedade atual não é caracterizada por isso, na
verdade é figurada por academias, prédios de escritórios, aeroportos, as redes sociais e
shopping centers. Os homens são agora empresários de si mesmos, não necessitam entrar
em um padrão de disciplina, mas precisam encontrar o seu eu que desempenha mais, e
esse desempenho não é somente no trabalho, é em tudo, em todos os aspectos da vida,
tudo foi contaminado pela positividade, pela busca do mais, pelo quantitiativo que
qualifica todas as coisas da mesma forma. O desejo do inconsciente coletivo é a produção
sem limites, por isso a sociedade disciplinar entra em falência, pois mesmo ela sendo
produtiva, em um momento os limites gerados por ela se chocam com o desejo de
produtividade, agora não há mais patrão ou tempo de serviço, cada um é o seu próprio
chefe mais carrasco e o tempo de produção é todo o tempo, o animal labours é a todo o
momento, não há mais contemplação, nem ação. O que causa a depressão é a pressão
contínua e ininterrupta de desempenho, desempenho para trabalhar, desempenho para
estudar, desempenho para dormir, desempenho para todas as áreas da vida ordinária.

Tédio profundo

O excesso de positividade se manifesta também no excesso de estímulos, informações e


impulsos. O homem atual acredita que o multitasking é uma qualidade, porém se
analisado de modo comparativo a progressão de qualidade dos animais, percebemos que
esta é uma característica dos animais que precisam sobreviver a todo o momento e não
podem estas em um ato somente, mas devem ter a atenção sempre enervada, mesmo em
momento como o sexo, a alimentação e o sono, em todo o momento atenção contínua.
Por outro lado, percebemos que todas as grandes conquistas da humanidade foram
produto de uma profunda atenção, porém atualmente quão difícil é alcançá-la, estamos a
todo o momento preocupado com algo, ansiosos de não estarmos desempenhando tanto
quanto o necessário, nosso foco não permanece em algo pois os estímulos são
demasiados. O tédio já não existente na modernidade é um fator essencial para o homem,
por dois motivos principais, o primeiro é que ele possibilita mudar de rota, o segundo é
que ele dá ritmo ao tempo e a vida. O tédio é um momento cinza onde é possível o
pensamento crítico sobre a ação, se estou caminhando e me entedio, posso começar a ver
o celular para passar o meu tédio, ou posso, diferente disso, correr, dançar etc, descobrir
outra coisa que me realiza mais, ao invés de somente injetar algo superficial para deter o
tédio. Ainda o tédio possibilita a marcação do tempo em ciclos, assim como é a estrutura
de toda a natureza, é normal a intercalação de energia e a falta dela, do entusiasmo e o
tédio, com o tédio a vida passa a ter um harmoniosidade. Atualmente não há tédio, de
modo que o dia passa em absoluto movimento, ação e energia, isto sobrecarrega e entra
em falência.

A falta do tédio é também a inexistência da contemplação, do momento de sair de si


próprio e se colocar no objeto, no intuir o outro. Estamos tão presos a nosso desempenho
e a nós que impossibilitamos o contato verdadeiro com o outro. Sem o olhar
contemplativo o olhar perambulei de um lado para o outro sem conseguir trazer nada a
manifestar.

Vita activa

A vida ativa foi degrada em vida laboral. A vida, como diz São Gregório, deve ser uma
passagem da vida contemplativa para a ativa, além de retornos recorrentes da vida ativa
para a contemplativa. Para Arendt a vida ativa tornou-se mera agitação. O agir para Arendt
é essencialmente novos processos, o animal labourns é somente uma peça em um
processo alienado, ou seja, deixa de ser algo ativo, para ser algo absolutamente passivo.
Arendt acredita que o homem iria abrir mão totalmente de sua individualidade para
funcionar melhor, porém não é o que ocorreu, na verdade o homem tornou-se escravo da
sua individualidade, buscando-a a qualquer custo, uma individualidade que é comprovada
na capacidade de desempenho. Além disso o homem não se tornou passivo, mas
totalmente ativo, todas as suas ações são atos em busca do desempenho e do mais. O
homem pós-moderno é como o homo sacri, aquele que pode ser morto, mas na verdade
nunca pode ser morto, porém de alguma forma já está morto, é um morto-vivo. Quando
a depressão o acomete possui características parecidas com os judeus muçulmanos, uma
absoluta exaustão do agir.

“Jamais se é tão ativo do que quando se visto do exterior, aparentemente nada se faz,
jamais se esta menos só do que quando se está na solidão consigo mesmo” - Cato

Pedagogia do ver

Aprender a ver significa habituar o olho as descanso, à paciência, ao deixar-aproximar-


se-de-si, isto é, capacitar o olhar a uma atenção profunda e contemplativa. O olhar
contemplativo não e o que recebe tudo passivamente, mas ao contrário, é aquele que
exerce a negatividade sobre as coisas que valem e as que não valem. O esforço por
maximizar o desempenho impede a existência da negatividade, pois esta atrasa o
desempenho. A potência negativa é o não-para, é o não consciente, é a escolha, sem isto
estamos passivos a todos os estímulos. A hiperatividade é uma absolutização da potência
positiva, é a total falta de liberdade, pois já não se pode dizer não a algo para fazer outro,
visto que se busca fazer tudo.

O caso bartleby

(Comentários em breve)
Sociedade do cansaço

A sociedade do cansaço, como consequência lógica das premissas, acaba desenrolando-


se em uma sociedade do doping, em que para atingir o desempenho esperado é necessário
o uso de substâncias.

O cansaço moderno é um cansaço individual, não é como o cansaço natural da ação (do
porto de vista de arendt), ou de outras atividades, é um esgotamento do eu, um cansaço,
que diferente dos outros, não une, mas afasta, eu cansado aqui e você cansado aí. O
cansaço moderno pede por mais estímulo, pois descansar é faltar com o desempenho,
portanto, não há a possibilidade da partilha como forma de descanso, pois seria falta de
produtividade. O cansaço ele é como o estado de espírito de uma sociedade que não pode
nunca usufruir do cansaço. A dialética da positividade destrói qualquer comunidade e
família.

Handke contrapõe esse cansaço individualizando com um cansaço fundamental, que


afrouxa as presilhas do eu, e abre o espírito para o mundo. É aquele cansaço que deixa o
homem demorar-se no mundo, compartilhar o seu eu e ver o outro como a ele mesmo. O
fenômeno pode ser visto nas crianças, quando exaustas permitem mais facilmente o
compartilhamento de brinquedos, é um cansaço que se abre ao outro, um modo de ser
altruísta e não egoísta. Além disso, o cansaço possibilita um não fazer sereno, um
sentimento de ordem real, de ciclo. No cansaço fundamental é possível deleitar do mundo,
sem a pressão da produção. O cansaço estabelece um estado de ser diferente do fazer,
uma ótica para o mundo diferente, que penetra nas coisas sem a lógica da utilização
produtiva, mas um gozar do mundo. O cansaço possui a aura da amizade, o cansaço
compartilhado une. O cansaço-nós permite que sentemos para ver o crepúsculo, enquanto
falamos e calamos em vista do cansaço, o que importa é o momento. Esse cansaço esta
presenta na dialética do não, pois é uma decisão de não atividade, que reconhece o
momento oportuno do descanso e da contemplação cansada; já o cansaço da dialética da
positividade é caracterizado para um não controle, por um superaquecimento das
estruturas psíquicas, um cansaço que irrita e promove solidão. O dia sagrado é o dia do
não, Deus cansou e descansou, após ter agido com consciência e intenção.

Existe o tempo intermediário, que é o hiato entre dois tempos de atividade, é por
excelência um tempo lúdico e de cansaço fundamental. A falta desses tempos produz
menos relação com o outros, consequentemente, uma diminuição dos graus de
gratificação, que são promovidos essencialmente por terceiros. O mundo moderno está
cheio de narcisistas, o narciso não encara a experiência em relação ao fato, mas vê todo
o mundo relacionado ao próprio ser, olha somente para si, por isso nunca compreende o
ser dar coisas, mas somente como essas coisas o afetam. O narcisista não quer
experiências, que promovem a modificação do eu, ele não quer ser modificado, que
somente a vivência, a ação do eu no outro, ou a absorção do outro no eu.

O homem da modernidade nunca vence, nunca completa uma meta. Toda a vez que uma
meta é alcançada, ou ela não é suficiente, ou ela é desvalorizada. O homem sempre quer
mais e sua meta não possui um ser próprio, pois é o simples desempenho, é impossível
alcançar o desempenho por si, é uma tarefa eterna.

A depressão da modernidade não tem um objeto específico, é, na verdade, uma exaustão


do processo da dialética da positividade. A alegria que as redes sociais proporcionam não
passa de uma energia narcisista, é uma rede de aplausos para a vanglória. Há muitas outras
formas de alegria, mas somente esta é contemplada no contexto da modernidade, mais
especificamente em relação as mídias. A depressão apresentasse também como um
cansaço de sempre ter a iniciativa. Diferente da ética homérica, o homem não possui um
ergon para representar a sua existência, é totalmente dele a responsabilidade do seu modo
de viver, ao mesmo tempo que compete com todos por uma base comum: o desempenho.

O burnout é uma consequência patológica da autoexploração do eu. O paradigma


econômico atual propõe identidades liquidas, de modo que o ser pode mudar-se toda a
vez que for conveniente para o desempenho, parece de certo modo a ética sofistica. A
competição principal do homem na modernidade, não é contra os outros, mesmo que
também seja, no entanto, é principalmente contra ele próprio.

O sujeito da modernidade não é mais um sujeito, pois não está sujeito a ninguém, para si
próprio ele é um projeto de idealização própria. O homem moderno está livre da coação
externa, mas está em um paradoxo de liberdade e coação, pois é livre, mas se faz escravo
de si próprio.

A saúde em uma sociedade sem telos, torna-se autorreferencial. É desnuda por foi-lhe
retirada toda a transcendência, a vida foi reduzida a mera imanência, em que deve ser
prolongada a qualquer custo.

Sobre a festa
Hoje vivemos em uma época sem celebração. A celebração é aquele momento durável e
demorado, a festa se contrapõe a transitividade. O tempo da festa não passa, pois diz
respeito a um tempo eterno. Com relação a toda a arte, devemos aprender a demorar-nos
nela. A festa é a simbologia do dia 1. Quando trabalhamos não nos parecemos com o
divino, nem estamos com ele, Deus não trabalha, mas quando estamos em festa sim,
encontramos o nosso caráter de divindade. A festa não pode ser entendida como descanso
do trabalho, pois isso é derivar a festa de algo inferior a ela, devemos compreender a festa
com um valor próprio.

A pessoa saudável irradia um quê de morte, de sem vida.

Quem trabalha não é livre. Para Aristóteles as únicas funções livres na sociedade são os
que contemplam as coisas belas (poetas), os que produzem as coisas belas na polis
(políticos) e os que contemplam as coisas imateriais (filósofos).

Profanar para Agambem é alterar o fim da utilização de um objeto, nós devemos profanar
o trabalho, o capital e a produção, e transformá-la em tempo de festa e de jogo.

Cosmético - ordem do cosmos divino. A vida anteriormente era intensa, e isso que era
comemorado nas festas, hoje a vida é rasa, fraca, uniforme em qualidade, uma vida de
comunicação e consumo. Assim a vida passa sem ciclos, sem solenidade, nem gravidade.
Para isso é necessário se conectar novamente com o belo, com o cansaço fundamental e
com o silêncio. MacIntyre em outro livro traz a meditação de Oscar Wilde sobre a arte,
diz ele que, a arte tem a função de tirar o sujeito de sua visão tradicional de vida e
apresentar outra ótica, na qual após aquela experiência artística o ser não compreende,
nem pode viver sem aquilo. “Às vezes o acaso parece ser caso pensado, na qual o que
vêm não poderia não ser”.

O hipercapitalismo adentra, atualmente, em todos os âmbitos da vida, e degrada-os.


Transforma todas as relações sociais em ações comerciais, trona todos os humanos em
valores monetários potenciais.

Tédio, cansaço fundamental e vida ativa.

Você também pode gostar